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4 folha da rua larga

novembro – dezembro de 2014

história baú da rua larga

O patriarca, a Gamboa e os pretos novos A origem de três importantes marcos históricos do Porto do Rio Clarice Tenório Barreto

Lugar de águas calmas ou remanso da Baía de Guanabara, assim é a região da Gamboa na cidade do Rio de Janeiro. Sem dúvida, uma das mais importantes áreas de interesse histórico da cidade, por conta do rico patrimônio cultural que possui. Um deles é o Centro Cultural José Bonifácio, que foi a primeira escola pública da cidade, inaugurada pelo Imperador Dom Pedro II em 1877. Situado no antigo caminho da Gamboa que desembocava no mar, hoje Rua Pedro Ernesto, 80, em homenagem ao pernambucano Pedro Ernesto (1884-1942) que foi prefeito da cidade e grande incentivador do samba carioca, o palacete foi restaurado e novamente inaugurado, em 2013, para abrigar o Centro de Referência da Cultura Afro-Brasileira, por iniciativa do Programa Porto Maravilha Cultural que, em parceria público-privada, contribui para recuperar inúmeros patrimônios da Região Portuária, revitalizando assim a história carioca. Diversas entidades, como a Secretaria de Cultura do Estado, o Conse-

Centro Cultural José Bonifácio: arquitetura tipicamente republicana

lho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro e Associação dos Moradores e Amigos do Bairro da Gamboa participam do projeto, dada a importância histórica, cultural e social do Centro de Referência. No casarão funciona uma biblioteca, uma sala de vídeo e um espaço para concertos musicais. Oferece também cursos, feira de livros, exibição de filmes e vídeos, oficinas de arte, seminários, exposições, espetáculos teatrais e musicais. Querelas à parte por

conta do nome José Bonifácio – o Patriarca da Independência, que, segundo alguns, queria apenas embranquecer a população e havia lutado contra a Lei Abolicionista – este permaneceu. A Zona Portuária do Rio está sendo redescoberta. O antigo Cais do Valongo está visível. Retirado o aterro que o encobriu em 1843 para receber a visita da princesa Thereza Cristina de Bourbon, que se casaria com Pedro II, naquela época já havia sido embelezado e

recebeu novo nome: Cais da Imperatriz. São as camadas de aterros que escondem a história de uma cidade. Mudamos o nome, como que querendo apagar a triste lembrança da escravidão. O Marquês do Lavradio iniciou este processo em 1770, quando transferiu o mercado de escravos para o Largo do Depósito, atual Praça dos Estivadores. Com a Lei Feijó (1831) que proibia o tráfico negreiro, os grandes comerciantes de carne humana como os Breves e Moraes,

que mantinham frota considerável de embarcações nas águas da Costa Verde, contando com agenciadores poderosos como Ulrich e Ruviroza, o comércio negreiro migrou para as baías de Angra dos Reis e Sepetiba. Infelizmente, agindo na clandestinidade, deram continuidade ao tráfico de escravos até 1860. Mudou o lugar, mas a história permaneceu. Basta abrir um buraco no chão da Gamboa para encontrá-la. Não dá para fugir de nosso passado. Um bom exemplo foi a transferência do Cemitério dos Pretos Novos do Largo de Santa Rita, imediações da Rua Larga de São Joaquim, para o antigo caminho da Gamboa. Em 1996, uma prospecção para obras, proporcionou a descoberta de vestígios de ossos humanos, cerâmica, vidros, metais e inúmeros artefatos do período escravista. Espanto, indignação, e solução final: recuperar e dar destino correto ao passado. Numa rápida passagem pelas crônicas e artigos da época, encontraremos o antigo caminho da Gamboa, Pedro Ernesto atual, que se chamou por

algum tempo de Rua do Cemitério, em alusão aos inúmeros escravos que chegavam estropiados e doentes da costa africana e ali eram enterrados em valas comuns. O achado de Dona Mercedes e do Sr. Petruccio, no número 36 da Rua Pedro Ernesto, em 1996, foi de extrema importância para recuperar a história dos negros que chegaram ao Brasil. A ajuda do Centro Cultural José Bonifácio foi fundamental para que os órgãos responsáveis pela cultura e pelo patrimônio enviassem historiadores e arqueólogos para estudar a descoberta e trabalhar com afinco na recuperação do material. O local foi transformado no Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, hoje um polo cultural de grande relevância. Como diziam os antigos: urras e aleguaguás aos pretos novos e velhos que renascem sob o projeto restaurador das entidades que estão recuperando a história impressa nas camadas da cidade.

aloysio clemente breves soubreves@yahoo.com.br

Folha da Rua Larga Ed.48  

Folha da Rua Larga 48ª Edição Boa Leitura!