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Olhar em foco: Nessa edição conheça a obra de

SEBASTIÃO SALGADO

Passado presente e futuro,

Arnaldo Jabor faz uma análise dessas noções no mundo atual.


EDITORIAL VOCÊ EM FOCO! Não são raras as vezes que refletimos sobre a vida! Geralmente tudo começa com as primeiras perguntas: “De onde sou?”, “Para onde vou?”, “Porque existo?” Mas chega um momento que essas perguntas acabam não fazendo mais parte do nosso quadro de pensamentos. Talvez por encontrar respostas na filosofia, na religião ou em si mesmo. Ou por achar que perguntas não colocam comida na mesa, não trazem felicidade ou simplesmente não faz diferença saber!(Ou talvez ache que seja melhor nem saber). De qualquer modo, o ser humano é também um ser questionador. Com o tempo, essas reflexões que antes eram centralizados no “eu”, passam a ser direcionados de uma forma mais ampla. O FOCO agora se contextualiza em um plano mais genérico, onde o homem não é mais o protagonista dessa realidade, mas trata-se de uma peça em um quebracabeça imensurável chamado: SOCIEDADE. Nessa viagem social, encontramos palavras-chaves que em si mesmas, já nos remetem a uma abrangência de vertentes de pensamentos e opiniões, como: “política”, “direitos”, “sucesso”, “relacionamento”, “felicidade” e até mesmo “vida”. E como não pensar? Pensamentos sempre são acompanhados de expressões, desde um simples franzir de testa até uma obra de arte! Arte que pode ser encontrada nos textos poéticos de Fernando Pessoa, nas narrativas de Arnaldo Jabor e nas imagens incrivelmente retratadas por Sebastião Salgado. Você está sendo convidado nessa edição a focar nessas grandes mentes, que expressaram de forma plena e artística, os seus mais profundos e até obscuros anseios sobre a sociedade. Boa leitura e boa reflexão! FOCO SOCIAL 3


EXPEDIENTE VICTOR CIVITA (1907 - 1990) ROBERTO CIVITA (1936 - 2013) Conselho Editorial: Victor Civita Neto (Presidente), Thomaz Souto Corrêa (Vice-Presidente), Elda Müller, Fábio Colletti Barbosa, José Roberto Guzzo Presidente: Fábio Colletti Barbosa Vice-presidente de Operações e Gestão Marcelo Vaz Bonini Diretor Superintendete de Assinaturas: Fernando Costa Diretora de Recursos Humanos: Cibele Castro Diretor Editorial Grupo Veja: Eurípedes Alcântara Diretora-Superintendente: Thaís Chede Soares Diretor Editorial Veja Cidades: Carlos Maranhão Circula semanalmente com a revista ###, em Belo Horizonte, e nas cidades até 200 km da capital Diretor de Redação: Alessandro Duarte Editora-Chefe: Ivana Moreira Editor: André Nigri Repórteres: Carolina Daher, Daniela Nahass, Isabella Grossi, Glória Tupinambás, João Renato Faria, Luisa Brasil, Mariana Celle, Paola Carvalho, Rafael Rocha, Raíssa Pena Estagiários: Thiago Alves e Luís Cunha Diretor de Arte: Valdécio de Oliveira Editor de Arte: Anderson Almeida Designers: Enio Mazoni, Junior Reis Webmaster: Christiano Gomes Colaboradores: Cris Guerra e Luis Giffoni Serviços Internacionais: Alcir N. da Silva (New York), Rogério Altman (Paris), Associated Press/Agence France Presse/Reuters www.vejabh.com.br Serviços editoriais - Apoio Editorial: Carlos Grassetti (Arte), Luiz Iria (Infografia), Ricardo Corrêa (Fotografia) Dedoc e Abril Press: Grace de Souza Pesquisa e Inteligência de Mercado: Andrea Costa Treinamento Editorial: Edward Pimenta PUBLICIDADE VEJA Diretor: Alex Foronda Gerente: Willian Hagopian Executivos de negócios: Alexandre Resende, Carlos Eduardo Marques, Felipe Barros, Marcio Fernandes, Maria Angélica Gois, Renata Padovez, Vanessa Ferreira, Viviane Martos Coordenador: Wladimir Almeida PUBLICIDADE INTERNACIONAL - Diretor: Jacques Ricardo Gerente: Ricardo Mariani Executivo de Negócios: Julio Tortorello INTEGRAÇÃO COMERCIAL Diretora: Sandra Sampaio Planejamento, Controle e Operações: Gerente: José Paulo Rando Gerente de Processos: Adriana Kazan CLASSIFICADOS Gerente: Angelica Hamar Coordenador: Mariah Roza MARKETING E CIRCULAÇÃO Marketing Veja e Veja Digital: Gerente de Marketing: Viviane Palladino Gerente de Circulação e Marketing Publicitário: Fábio Luis Gerente de Marketing: Andrea Abelleira Gerente de Circulação Assinaturas: Marcia Simone Donha Gerente de Circulação Avulsas: Valéria Assato ASSINATURAS Atendimento ao Cliente: Clayton Dick RECURSOS HUMANOS Consultora: Márcia Pádua Redação e Correspondência: Av. das Nações Unidas, 7221, 18º andar, Pinheiros, São Paulo, SP, CEP 05425-902, tel. (11) 3037-2000.

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CONTEÚDO VIDA EM

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Arnaldo Jabor discorre sobre o presente, passado e futuro

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O texto incrível “Desassossego” de Fernando Pessoa

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Matéria sobre Sebastião Salgado e um pouco de sua obra

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VIDA EM

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NOSSOS DIAS MELHORES NUNCA VIRÃO?

Arnaldo Jabor

Ando em crise, numa boa, nada de grave. Mas, ando em crise com o tempo. Que estranho “presente” é este que vivemos hoje, correndo sempre por nada, como se o tempo tivesse ficado mais rápido do que a própria vida, como se nossos músculos, ossos e sangue estivessem correndo atrás de um tempo mais rápido. As utopias liberais do século XX diziam que teríamos mais ócio, mais paz com a tecnologia. Acontece que a tecnologia não está aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas a produtividade dos humanos, dos corpos. Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarefa. A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas, chips, pílulas para tudo.

Funcionar é preciso; viver não é preciso. Por que tudo tão rápido? Para chegar aonde? Antes, tínhamos passado e futuro; agora tudo é um “enorme presente”, na expressão de Norman Mailer. E esse “enorme presente” nos faz boiar num tempo parado, mas incessante, num futuro que “não pára de chegar”. Antes, tínhamos os velhos filmes em pretoe-branco, fora de foco, as fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o futuro seria luminoso. Nada. Nunca

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estaremos no futuro. E, sem o sentido da passagem dos dias, de começo e fim, ficamos também sem presente. Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é uma invenção da produção.

Vendo filmes americanos dos anos 40, não sentimos falta de nada. Com suas geladeiras brancas e telefones pretos, tudo já funcionava como hoje. O “hoje” deles é apenas uma decorrência contínua daqueles anos. Mudaram as formas, o corte das roupas, mas eles, no passado, estavam à altura de sua época. A depressão econômica tinha passado, como um grande trauma, e não aparecia como o nosso subdesenvolvimento endêmico. Para os americanos, o passado estava de acordo com sua época. Em 42, éramos carentes de alguma coisa que não percebíamos. Olhando nosso passado é que vemos como somos atrasados no presente. Nos filmes brasileiros antigos, parece que todos morreram sem conhecer seus melhores dias.

Não há tempo para os bichos. Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato. Eu vi os índios descobrindo o tempo. Eles se viam crianças, viam seus mortos, ainda vivos e dançando. Seus rostos viam um milagre. A partir desse momento, eles passaram a ter passado e futuro. Foram incluídos

“Nunca estaremos no futuro”

num decorrer, num “devir” que não havia. Hoje, esses índios estão em trânsito entre algo que foram e algo que nunca serão. O tempo foi uma doença que passamos para eles, como a gripe. E pior: as imagens de 50 anos é que pareciam mostrar o “presente” verdadeiro deles. Eram mais naturais, mais selvagens, mais puros naquela época. Agora, de calção e sandália, pareciam estar numa espécie de “passado” daquele presente. Algo decaiu, piorou, algo involuiu neles.

E nós, hoje, nesta infernal transição entre o atraso e uma modernização que não chega nunca? Quando o Brasil vai crescer e chegar a seu “presente”? Chego a ter inveja das multidões pobres do Islã: aboliram o tempo e vivem na eternidade de seu atraso. Temos a utopia de que, um dia, chegaremos a algo definitivo. Mas ser subdesenvolvido não é “não ter futuro”; é nunca estar no presente.

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DESASSOSEGO Fernando Pessoa

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unca durmo: vivo e sonho, ou antes, sonho em vida e a dormir, que também é vida.

Não há interrupção em minha consciência: sinto o que me cerca e não durmo ainda, ou se não durmo bem; entro logo a sonhar desde que deveras durmo. Assim, o que sou é um perpétuo desenrolamento de imagens, conexas ou desconexas, fingindo sempre de exteriores, umas postas entre os homens e a luz, se estou desperto, outras postas entre os fantasmas e a sem luz que se vê, se estou dormindo. Verdadeiramente, não sei como distinguir uma coisa da outra, nem ouso afirmar se não durmo quando estou desperto, se não estou a despertar quando durmo. A vida é um novelo que alguém emaranhou. Há um sentido nela, se estiver desenrolada e posta ao comprido, ou enrolada bem. Mas, tal

Fernando Pessoa

morreu em 1935 supostamente de cirrose hepática. Durante sua vida pode se tornar um verdadeiro viajante do mundo, pois além de ter entrado em contato com diversas culturas desde pequeno, além de também ter exercido diversas profissões.

como está, se estiver enrolada é um problema sem novelo próprio, um embrulhar-se sem onde. Sinto isso, e depois escreverei, pois que já vou sonhando as frases a dizer, quando, através da noite de meio-dormir, sinto, junto com as paisagens de sonhos vagos, o ruído da chuva lá fora, a tornarmos mais vagos ainda.

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Era sem dúvida, nas alamedas do parque que se passou a tragédia de que resultou a vida. Eram dois e belos e desejavam ser outra coisa; o maior tardava-lhes no tédio do futuro.

tenho de minha vida, os tempos estão dispostos em níveis e planos absurdos, sendo eu mais jovem em certo episódio dos quinze anos solenes. Chegam-me então, pensamentos absurdos, que não consigo todavia repelir. Penso se um homem medita devagar dentro de um carro que segue depressa, penso se serão iguais as velocidades identicas com que caem no mar o suicida ou o que se desiquilibrou na esplanada. Penso se realmente não são sincrônicos os movimentos, que ocupam o mesmo tempo, entre os quais fumo, escrevo e penso obscuramente.

Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo especialmente, por fora. A das emoções sei que também Com certeza um homem complexo, vivido, experiente Fernando era grande demais para uma vida só. Além de experimentar e brincar utilizando seus heteronomios o poeta continua vivendo através de sua inesquecivel obra até hoje.

é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; nele roçamos o tempo, umna vez prolongadamente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro. Julgo, às vezes, que tudo é falso, e que o tempo não é mais do que uma moldura para enquadrar o que lhe é estranho. Na recordação que FOCO SOCIAL 9


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O fotógrafo brasileiro Sebastião Ribeiro Salgado nasceu na cidade de Aimorés, em Minas Gerais, no dia 8 de fevereiro de 1944. Ele é o único filho do sexo masculino, entre nove irmãs. Graduado em Economia na capital do Espírito Santo, Vitória, pósgraduou-se na Universidade de São Paulo, na USP. Como economista, ele trabalhou no Ministério da Economia, em 1968.

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evido às perseguições políticas empreendidas pela Ditadura Militar, ele foi obrigado a buscar asilo político em Paris, em 1969. Aí ele completou o doutorado em Economia, em 1971. Voltando para o Brasil, ele atuou na Organização Internacional do Café, em 1973, como especialista na fiscalização de plantações africanas. Assim, ao completar 29 anos, em uma viagem à África, levando consigo

uma máquina fotográfica de sua esposa, Lélia Wanick Salgado, ele teve seu encontro definitivo com a fotografia. Sebastião descobre no trabalho fotográfico a melhor forma de enfrentar os acontecimentos planetários, principalmente em seus aspectos econômicos. É seguindo por este caminho que ele se transforma em um dos principais e mais ven-

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clima seco no perímetro africano de Sahel de Níger, a imigrantes assalariados europeus. Sebastião passou pelas principais agências fotográficas da Europa – a Gamma, em 1974, registrando imagens sobre a Revolução dos Cravos, em Portugal; a Sygma, de 1975 a 1979, através da qual ele transitou por mais de vinte países, fazendo a cobertura dos mais variados acontecimentos; a Magnum Photos, em 1979, cooper-

erados fotógrafos da atualidade, no campo do fotojornalismo. Desde os primeiros momentos ele se dedicou a retratar os excluídos, os que se encontram à margem da sociedade. Adepto das fotos em branco-epreto, voltou para Paris, em 1973, aí dando início à sua trajetória nesta nova profissão. Seus primeiros trabalhos foram realizados como ‘free lance’, abordando desde o

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ativa instituída por Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, entre outros fotógrafos, na qual realizou a fantástica sequência de fotos documentais sobre camponeses latino-americanos, durante sete anos. Este registro deu origem ao seu primeiro livro, Outras Américas, lançado em 1986.

mesmo ano, produzido em parceria com a ONG Médicos sem Fronteiras, uma aliança que durou quinze meses. Esta obra revela o longo processo de seca no norte africano. De 1986 a 1992 ele devotou seu tempo a reproduzir fotograficamente a realidade dos funcionários manuais em todo o Planeta, resultando no livro Trabalhadores, de 1996.

Logo depois ele lançou Sahel: O Homem em Pânico, publicado no

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O próximo tema a que ele se dedicou, de 1993 a 1999, foi o da emigração massiva de pessoas no mundo todo, dando origem à obra Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo, de 2000, ambos alcançando grande sucesso mundial. Um ano depois, no dia 3 de abril, o fotógrafo foi indicado para ser representante especial do UNICEF. Ele já publicou pelo menos dez livros e realizou inúmeras exposições, conquistando

os prêmios mais importantes neste campo e honrarias recebidas na Europa e na América.

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