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Este ensaio pretende apresentar 10 características de um profissional espiritualizado. Para o bom êxito desse objetivo, é necessário recapitular os conceitos fundamentais sob o tema essencial do Fórum Cristão de Profissionais (FCP), a saber, espiritualidade.

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O P R O F I S S I O N A L E SP I R I T UA L

Este ensaio pretende apresentar 10 características de um profissional espiritualizado. Para o bom êxito desse objetivo, é necessário recapitular os conceitos fundamentais sob o tema essencial do Fórum Cristão de Profissionais (FCP), a saber, espiritualidade. E SP I R I T UA L I DA D E E I M AG O D E I

A da tradição judaico-cristã compreende o ser humano como ser criado à imagem e semelhança de Deus. Os teólogos e filósofos cristãos estão de acordo que a imago Dei se manifesta no ser humano pelo menos em quatro aspectos: espiritualidade, pessoalidade, pluralidade e criatividade. . Espiritualidade Deus é espírito, disse Jesus. Nesse caso, o ser humano é também espiritual, e isso significa que sua plena realização não se esgota nos limites do mundo físico, material, nem naquilo que pode ser apropriado pelos cinco sentidos físicos. O ser humano é aberto para a transcendência; . Pessoalidade Deus é um espírito pessoal, e nesse sentido, também o ser humano é dotado de consciência, auto-consci-

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ência, razão, emoção e volição; . Pluralidade Deus é um espírito pessoal que existe eternamente em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, e nesse caso, também o ser humano é uma unidade plural, sendo que masculino e feminino são dimensões que existem em unidade, diversidade, complementaridade e mutualidade, o que significa que a Imago Dei não se resume ao masculino nem ao feminino independentes um dos outro. Além disso, por ser uma unidade plural, o ser humano é gregário, trazendo em sua constituiçãom ontológica a necessidade da comunhão e da fraternidade, onde toda a raça é na verdade um Homem só; . Criatividade Deus é craidor e criativo, e nesse sentido, também o ser humano é dotado da capacidade de criar e inventar, exercendo domínio sobre todas as demais instâncias do universo. E SP I R I T UA L I DA D E E M U N D O D O S E SP Í R I T O S

A cosmovisão da tradição judaico-cristã contempla a existência de seres espirituais, como anjos, demônios, e mesmo Deus: Pai–Filho–Espírito. Evidentemente, isso é questão de fé. Mas é inegável que a expressão

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espiritualidade remete também e necessariamente às possibilidades do relacionamento humano com estes seres espirituais, em com Deus em última instância. E SP I R I T UA L I DA D E E R E L I G I ÃO

A distinção entre religião e espiritualidade é imprescindível. Não são poucas as pessoas que confundem os termos, e por essa razão se perdem em preconceitos e se privam de experiências potencializadoras da realização humana. Para melhor compreensão, podemos destacar diferenças simples entre religião e espiritualidade. Espiritualidade é 1. a experiência humana do sagrado, transcendente, divino; 2. uma experiência humana universal; 3. o que os seres humanos têm em comum; 4. relativa aos atributos do espírito humano: razão, emoção, volição, consciência e auto-consciência; 5. referente às virtudes do espírito: amor, compaixão, solidariedade, generosidade, perdão e justiça.

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Religião é 1. a maneira como o ser humano organiza e vivencia sua experiência de transcendência; 2. uma experiência humana condicionada a dogmas, ritos, códigos morais e grupos de pessoas que acreditam nas mesmas coisas e celebram sua espiritualidade da mesma maneira. As religiões mais conhecidas no mundo são Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo e Budismo; 3. a maneira como cada ser humano desenvolve e pratica sua espiritualidad; 4. está relacionada ao mundo dos espíritos, supra humanos ou sobrenaturais; 5. trata das regulações morais, objetivas: pode, não pode, em detrimento das virtudes subjetivas. As generalizações religiosas servem como categorias sociológicas e ajudam a compreender as diferentes tradições, mas dizem muito pouco a respeito da espiritualidade de seus praticantes. Categorias religiosas não são suficientes para conter a grande diversidade das relações humanas com o sagrado e o divino. Dizer qual é a sua religião sugere alguma coisa, mas não diz muito a respeito de sua espiritualidade. É mais fácil encontrar uma pessoa religiosa, do que um espírito livre e capaz de amar.

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10 C A R AC T E R Í S T I C A S

O cidadão romano Saulo de Tarso, que veio a ser o apóstolo Paulo após sua conversão a Jesus, o Cristo, foi um dos maiores gênios da humanidade. Responsável por elaborar todo o alicerce sobre o qualq se ergueu a civilização ocidental, fundamentada na tradição judaicocristã, foi capaz de fazer a síntese entre a filosofia grega e o direito romano, duas das mais elevadas expressões da civilização humana. Apesar de seu trabalho ser considerado religioso, o que faria de Paulo, apóstolo, alguém hoje identificado como clero, em oposição a um “homem de mercado” ou um “profissional no mundo secular”, não resta dúvidas de que pode também ser visto como alguém que reúne em si características necessárias a todo e qualquer profissional que vive pressionado por exagerados desafios de resultados e padrões de excelência em sua profissão e carreira. São Paulo, apóstolo, é um case para ilustrar as dez características do profissional espiritual,extraídas dos dez conceitos do termo “espiritualidade”conforme utilizado no mundo do trabalho e das corporações, sob o prisma da tradiçãio judaico-cristã. 1. R E L AC I O N A M E N T O C O M D E U S

O profissional espiritual acredita e se relaciona com “uma força superior”. No caso dos profissionais cristãos,

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essa “força superior” é Deus, conforme revelado na Bíblia Sagrada e na tradição cristã como Pai–Filho– Espírito Santo. Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. [Gálatas 2:20] Mas o que para mim era lucro, passei a considerar perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé. Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. [Filipenses 3:7-12] A nossa luta não é contra pessoas, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais. [Efésios 6:12]

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Eu mesmo, irmãos, quando estive entre vocês, não fui com discurso eloqüente nem com muita sabedoria para lhes proclamar o mistério de Deus. Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado. E foi com fraqueza, temor e com muito tremor que estive entre vocês. Minha mensagem e minha pregação não consistiram de palavras persuasivas de sabedoria, mas consistiram de demonstração do poder do Espírito, para que a fé que vocês têm não se baseasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus. [1 Coríntios 2:1-5] O apóstolo Paulo tem perfeita consicência de sua relação com Jesus de Nazaré, que reconhece não apenas como o Messias prometido aos judeus, mas também como o Filho de Deus morte e ressurreto para perdão dos pecados de toda a humanidade. Isso significa que Paulo invoca a Jesus como o seu Deus. Mas, além disso, Paulo sabe que sua vida depende dessa relação: o tipo de ser humano e a qualidade de homem que se tornou, o que ele faz, e também o resultado de seu trabalho. A vida de Paulo, apóstolo, não se explica sem a absoluta relação de dependência a Deus. Sua performance e resultados se explicam pela interferência e ação de Deus, não apenas sobre ele mesmo, como também em suas circunstâncias. Sabe que suas capacidades,

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habilidades, talendos e dons, experiências e características pessoais não são suficientes para gerar todo o resultado de sua atividade apostólica. Essa consciência acompanha o profissional espiritualizado. Independentemente de sua tradição ou experiência religiosa, admitem, acreditam e até mesmo solicitam e esperam a atuação de “forças espirituais” em sua vida e circunstâncias. O profissional espiritualizado vive de acordo com o ditado, “no creo en brujas, pelo que las hay, las hay” – isto é, jamais desconsideram a atuação de seres e poderes espirituais no mundo. 2 . F RU T O D O E SP Í R I T O

O profissional espiritual busca constantemente um “estado de ser e ou de espírito”, geralmente identificado como harmonia interior, paz interior, serenidade, alegria, entusiasmo, dentre outras expressões. Os profissionais cristãos compreendem que esse estado de ser ou espírito é identificado na Bíblia Sagrada como “fruto do Espírito”: amor, alegria, paz, capacidade de suportar tempos difíceis, capacidade de suportar dias difíceis, bondade, capacidade de ser fiel, humildade e domínio próprio. Pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi em vão; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo. [1 Coríntios 15:10]

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Para isso eu me esforço, lutando conforme a sua força, que atua poderosamente em mim. [Colossenses 1:29] Aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.  [Filipenses 4:11-13] As obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.  [Gálatas 5:19-23] O apóstolo Paulo depende absolutamente de Deus. Sua experiência com deus não apenas o transformou – mudou suas cosmovisão, seus valores, suas prioridades e ambições na vida, como também fez dele um homem diferente em termos psico emocionais e volitivos. Aprendeu a depender de Deus

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para o êxito de sua atividade empreendedora, e também para o domínio e amadurecimento de sua interioridade. O profissional espiritualizado necessariamente se entrega de corpo e alma ao que faz, trabalha incansavelmente, sem depender de forças mágicas. Mas sabe que os poderes espirituais afetam a realidade e o mundo interior de todas as pessoas. Ser espiritualizado implica necessariamente encontrar na relação espiritual uma fonte de transformação e “gestão” pessoal. Pessoas maduras espiritualmente são geralmente equilibradas em suas relações, simplesmente pelo fato de que são equilibradas no trato consigo mesmas. 3. UNIVERSO VIVO

O profissional espiritual compreende que todo o universo é uma unidade viva, criada por Deus. Crê que Deus delegou ao ser humano o cuidado desse universo criado, o que significa que o ser humano é ao mesmo tempo uma unidade com todo o universo de Deus, mas também e principalmente cooperador com Deus no cuidado de sua criação. No passado ele permitiu que todas as nações seguissem os seus próprios caminhos. Contudo, não ficou sem testemunho: mostrou sua bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo

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certo, concedendo-lhes sustento com fartura e enchendo de alegria os seus corações”. [Atos 14:16-17] “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disseram alguns dos poetas de vocês: “Também somos descendência dele”. [Atos 17:28] Definitivamente, o apóstolo Paulo não era o que filosoficamente chamamos materialista. Vivia num universo embuído de Deus. Um mundo que estava sob a ação criativa e mantenedora de Deus. Seu universo era “naturalmente sobrenatural”. Compreendia o fluxo da vida como obra das mãos de Deus, e era capaz de ver na colheita dos camponeses e na alegria das crian;ças à mesa farta de pão a manifestação da graça e bondade do Deus Criador. O profissional espiritualizado sabe que o universo não é uma máquina, uma espaçonave cega que segue sem rumo. Sabe que o universo tem design – desígnio, finalidade, e é sustentado e governado pela intervenção das mãos de Deus. Não vive numa engrenagem autônoma em relação ao Deus Criador, mas o experimenta como dádiva, e por essa razão não se atreve a dele desfrutar sem ações de graças. Expressões como sustentabilidade e desenvolvimento ecologicamente responsável são inereentes a qualquer pessoa que enxerga a dimensão espiritual da natureza/criação.

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4 . É T I C A E VA L O R E S

O profissional espiritual possui elevados princípios de ética pessoal e coletiva, e compreende que a Bíblia Sagrada constitui o critério último da ética e da moral. Não damos motivo de escândalo a ninguém, em circunstância alguma, para que o nosso ministério não caia em descrédito. [2 Coríntios 6:3] Tanto vocês como Deus são testemunhas de como nos portamos de maneira santa, justa e irrepreensível entre vocês, os que crêem. [1 Tessalonicenses 2:10] O apóstolo Paulo sabia que o êxito de longo prazo de qualquer profissional depende radicalmente de sua integridade. Afinal, “você pode enganar a todos por algum tempo; alguns por todo o tempo; mas jamais a todos por todo o tempo”, disse o presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. O maior ativo de um profissional é seu caráter. Mais do que suas habilidades, competências e experiências. Parafraseando John Maxwell, que disse que “ensinamos o que fazemos, mas reproduzimos o que somos”, o resultado de um profissional depende muito menos do que ele faz, e muito mais do que ele é. O profissional espiritual é fiel à sua consciência. É capaz de se preservar e estabelecer limites do que é

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aceitável na competição cotidiana e na corrida rumo ao topo de uma carreira. Sabe dizer não, resiste às “propostas irrecusáveis” quando as considera indecentes, é leal aos pares e superiores, e são dignos de confiança. 5. DIÁLOGO DOS SABERES

O profissional espiritual dialoga com a sabedoria de todas as tradições religiosas, e está alinhado com a tradição judaica-cristã, como referência e autoridade para suas crenças e experiências. “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos”, como disseram alguns dos poetas de vocês: “Também somos descendência dele”. [Atos 17:28] A esta altura Festo interrompeu a defesa de Paulo e disse em alta voz: “Você está louco, Paulo! As muitas letras o estão levando à loucura! [Atos 26:24] Então Agripa disse a Paulo: “Você acha que em tão pouco tempo pode convencer-me a tornar-me cristão? [Atos 26:28] O apóstolo paulo estudou aos pés de uma dos maiores mestres de sua época, o rabino Gamaliel. Provavelmente, era fluente nos quatro idiomas falados em seu contexto: hebraico, aramaico, grego e latim. Conhecia

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os poetas gregos e as religiões pagãs. Sabia também o que pensavam seus opositores – epicuristas e estóicos, e assimilava muito dos seus argumentos, ora para combater, ora para reforçar suas teses. Era um homem preparado para apresentar suas convicções de maneira coerente e cativante. Sabia persuadir, convencer e debater, sem contudo atravessar a linha que demarca o respeito necessário às boas conversações, especialmente quando os resultados desejados são sempre coletivos e abrangentes. O profissional espiritualizado sabe que a cultura atual não respeita mais os clichês, os discursos vazios e os argumentos superficiais. Estáciente de que o sectarismo e a intransigência dogmática não têm mais vez entre pessoas minimamente civilizadas. Compreendem que a pretensão de monopólio da verdade e a imposição de crenças promove mais afastamente e rejeição do conciliação. Quem não tem conteúdo, e ou não sabe conversar, vai acabar falando sozinho. 6 . SE N T I D O E S I G N I F I C A D O

O profissional espiritual possui um profundo senso de sentido e significado, e compreende que, em relação à realidade do mundo do trabalho, o sentido último da existência humana e da vida particular de cada indivíduo resulta da recomendação de Jesus: buscar em

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primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, o que implica cooperar com Deus para colocar ordem no caos – atuar na construção de uma sociedade de justiça e paz. Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus. [Atos 20:24] O apóstolo Paulo era o tipo de gente que não trabalhava por dinheiro. Sua atividade como profissional não era fonte de lucro, e também não era algo que realizava com má vontade durante o horário do expediente. Sua vocação apostólica era constitutiva de sua identidade e do sentido e signifivcado de sua vida. Enfim, estava disposto a morrer pelo que fazia. Ou, preferiria morrer, do que deixar de faze o que fazia. O profissional espiritualidado sabe que existe muito do que um salário ao final do mês a justificar sua dedicação, seu suor e suas lágrimas. 7. V O C AÇ ÃO

O profissional espiritual possui um “senso de vocação”, e crê que a carreira/atividade profissional de cada pessoa constituem importante meio para a atuação de Deus no mundo.

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Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus. [Atos 20:24] Não fui desobediente à visão celestial. [Atos 26:19] [...] por causa da graça que Deus me deu, de ser um ministro de Cristo Jesus para os gentios, com o dever sacerdotal de proclamar o evangelho de Deus, para que os gentios se tornem uma oferta aceitável a Deus, santificados pelo Espírito Santo. Portanto, eu me glorio em Cristo Jesus, em meu serviço a Deus. [Romanos 15:15-17] Irmãos, quero que saibam que o evangelho por mim anunciado não é de origem humana. Não o recebi de pessoa alguma nem me foi ele ensinado; pelo contrário, eu o recebi de Jesus Cristo por revelação. [...] Deus me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça. Quando lhe agradou revelar o seu Filho em mim para que eu o anunciasse entre os gentios, não consultei pessoa alguma. [Gálatas 1:11-16] Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que

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receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo. [Colossenses 3:23-24] O apóstolo Paulo compreendia sua atividade como um “sagrado encargo”recebido de Deus. Em sua história, está bem claro que a função apostólica não foi uma escolha sua, nem mesmo foi desejada por ele. Sua legitimidade estava no fato de que acreditava ter sido convicado por Deus para exercer uma função à serviço de algo maior do que ele e de suas ambições particulares. Vocação é uma palavra derivada do latim: vocare, que significa chamar. Isso significa pelo menos duas coisas. A primeira é que a vocação implica uma voz, como algo que vem de fora do coração e da consciência, e então a pessoa tem a nítida sensação de que está diante de algo a que não pode nem deve resistir, uma espécie de impulso incontrolável para assumir uma responsabilidade ou desempenhar uma tarefa. A segunda, é que a atividade a ser desenvolvida atende muito mais, senão exclusivamente, aos interesses da voz que chamou. Isto é, um profissional que se compreende vocacionado não trabalha para sim mesmo, mas para quem o vocacionou. O profissional espiritualizado faz o que faz porque atendeu a uma vocação, e considera sua atividade profissional como uma das principais maneiras como Deus age mundo.

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8 . L I D E R A N Ç A SE R V I D O R A

O profissional espiritual encontra em Jesus de Nazaré seu principal modelo de lideança e gestão, e atua com base nos princípios da liderança servidora. Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo. [1 Coríntios 11:1] Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas. Tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim, ponham-no em prática. E o Deus da paz estará com vocês. [Filipenses 4:8-9] Portanto, você, meu filho, fortifique-se na graça que há em Cristo Jesus. E as coisas que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar a outros. [2 Timóteo 2:1-2] Mas você tem seguido de perto o meu ensino, a minha conduta, o meu propósito, a minha fé, a minha paciência, o meu amor, a minha perseverança, as perseguições e os sofrimentos que enfrentei, coisas que me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra. Quanta perseguição suportei! Mas, de todas essas coisas o Senhor me livrou! [2 Timóteo 3:10-11]

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O apóstolo Paulo foi transformado em sua peregrinação espiritual. Há indícios de que suas características pessoais faziam dele o que hoje chamamos de “alguém mais voltado para tarefas e objetivos do que para pessoas e relacionamentos”. Uma das passagens de sua carreira foi a “não pequena discussão”, palavras textuais da Bíblia, que teve com seu amigo Barnabé, o que resultou no fim de bem sucedidad parceria. O motivo foi interessante: Barnabé estava preocupado com um colaborador, enquanto Paulo estava preocupado em alcançar seu objetivo e cumprir sua vocação. Mais adiante, entretanto, Paulo vai sendo lapidado e desenvolve uma carreira marcada por vínculos de afeto e pessoas que crscem e se desenvolvem ao seu redor. O sucesso de longo prazo de uma organização depende não apenas dos resultados que são alcançados, mas da maneira como são alcançados. O rei Pirro ficou famoso por criticar um dos seus comandantes militares que acabara de vencer uma batalha às custas de quase todos os seus soldados: “Mais uma vitória como essa, e estaremos completamente arruinados”, disse o rei. O profissional espiritualizado dá real valor às pessoas e ao relacionamentos. Não permitem que suas vaidades afetem as relações. De certa maneira, estão o tempo todo parafraseando a famosa expressão de João Batista – “importa que Cristo cresça e eu

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diminua”, e vivem acreditando que importa que todos cresçam e sejam bem sucedidos, e que o sucesso de um é o caminho para o sucesso de todos. 9. S U C E S S O

O profissional espiritual compreende o sucesso como fidelidade a Deus e contribuição para o bem comum, independentemente de posição social e prosperidade financeira. Portanto, que todos nos considerem como servos de Cristo e encarregados dos mistérios de Deus. O que se requer destes encarregados é que sejam fiéis. Pouco me importa ser julgado por vocês ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a mim mesmo. Embora em nada minha consciência me acuse, nem por isso justifico a mim mesmo; o Senhor é quem me julga. Portanto, não julguem nada antes da hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação. [1 Coríntios 4:1-5] Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.  [2 Timóteo 4:7-8]

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O apóstolo Paulo não condicionava o sucesso aos resultados nem aos ganhos materiais de seu empreendimento. Seu critério para sucesso era a fidelidade a Deus. Os apóstolos haviam ensinado: “Mais importa servir a Deus do que aos homens”. Paulo concordou e assim viveu. O profissional espiritual presta contas a Deus, na auditoria que é feita em sua própria consciência. Sabe distinguir o valor das coisas. Conhece a expressão de Albert Eisntein: “Nem tudo o que conta, pode ser contado; nem tudo o que pode ser contatdo, conta”. 10 . D I G N I DA D E H U M A N A

O profissional espiritual está comprometido com a dignidade de toda pessoa humana como ser ser criado à imagem e semelhança de Deus. Pois o homem não se originou da mulher, mas a mulher do homem; além disso, o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. No Senhor, todavia, a mulher não é independente do homem, nem o homem independente da mulher. Pois, assim como a mulher proveio do homem, também o homem nasce da mulher. Mas tudo provém de Deus. [1 Coríntios 11:8-12] Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como ao

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Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos. Maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. [Efésios 5:22-28] Eu, Paulo, já velho, e agora também prisioneiro de Cristo Jesus, apelo em favor de meu filho Onésimo, que gerei enquanto estava preso [...] Talvez ele tenha sido separado de você por algum tempo, para que você o tivesse de volta para sempre, não mais como escravo, mas, acima de escravo, como irmão amado. Para mim ele é um irmão muito amado, e ainda mais para você, tanto como pessoa quanto como cristão. Assim, se você me considera companheiro na fé, receba-o como se estivesse recebendo a mim. [Filemom 1:15-17] Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele

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estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal. Portanto, é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. É por isso também que vocês pagam imposto, pois as autoridades estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Dêem a cada um o que lhe é devido: Se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra. [Romanos 13:1-7] Paulo apóstolo foi um homem profundamente comprometido com reformas políticas, sociais, culturais e economicas. Poucas pessoas conseguem ler as entrelinhas de suas falas aparentemente conservadoras e mantenedoras do status quo. Mas para quem conhece a maneira como viviam as mulheres em sua época, mandar que os maridos as amem como Cristo amou

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a igreja foi uma recomendação revolucionária. Mais ainda quando afirma que, na ordem original divina, homens e mulheres são interdependentes e têm igual valor. O mesmo fato ocorre quando se pronuncia a respeito da escravidão. Embora não combata frontalmente o trabalho escravo, manda que um senhor receba seu escravo fugitivo como irmão, e condiciona sua recomendação à continuidade da amizade dele, Paulo, com o dono do escravo. Outro exemplo significativo diz respeito às relações de obediência às autoridades civis, onde deixa absolutamente claro que os governantes devem ser respeitados apenas enquanto atuam por delegação divina para coibir o mal e promover a justiça. O profissional espiritual enxerga as implicações abrangentes de sua atividade e sua atuação na sociedade. Sabe que sua contribuição pessoal é determinante para as transformações necessárias na direção de um “um mundo melhor”. Jamais cooca dignidade humana à serviço de seus interesses pessoais e particulares. Antes, coopera para que todo ser humano tenha acesso aos bens e serviços de uma sociedade onde reinam a justiça e a paz.

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C O N S I D E R AÇ Õ E S F I N A I S

A Bíblia é um livro rico em exemplos de profissionais espirituais: o administrador José, do Egito; Moisés, estadista, legislador, líder constituinte de uma nação; o copeiro Neemias, que serviu na corte de Artaxesxes, rei da Pérsia; o Rei Davi; o profeta daniel, que serviu na corte de Nabucodonozor, na Babilônia; Zorobabel, que reconstruiu o templo de jerusalém após o exílio; e no Novo Testamento, Lídia, a vendedora; Dorcas a costureira; e o casal Áquila e Priscila, fazedores de tendas, que suportaram financeiramente o apóstolo Paulo e dividiram com ele seu “ganha pão”. Todos eles, homens e mulheres comuns, que exerceram grande influência nas pessoas ao redor, em seu contexto social, e deixaram marcas indeléveis na história da redenção. Todos eles, viveram a máxima da espiritualidade cristã, também bandeira do Fórum Cristão de Profissionais: “trabalhar é cooperar com deus para colocar ordem no caos”. O trabalho é a atividade prioritária para a construção de um mundo novo, inclusive o nosso, começa dentro de nós.

© 2012 Ed René Kivitz

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O Profissional Espiritual  

O Profissional Espiritual, por Ed René Kivitz

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