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A EMPRESA e-book


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A A L M A DA E M P R E S A

Houve um tempo quando o paradigma para entendimento das relações interpessoais e dinâmicas de atuação de grupos organizados era definido pelos princípios de autoridade hierárquica. As relações familiares, sociais, cívicas e religiosas eram autoritárias: o patriarcado radical, os senhores e seus escravos, a nobreza e a plebe, o Rei e seus súditos, Deus, a Igreja e os fiéis. Era um tempo quando a sabedoria popular acreditava que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A revolução científica e ideológica do século XVIII, chamado o “Século das Luzes”, do período considerado a “Era da Razão”, fez surgir um novo paradigma. A realidade deixou de ser vista como hierárquica e passou a ser vista como mecânica: cada coisa no seu lugar, cumprindo sua função, fazendo do universo uma máquina perfeita. Não apenas o universo, mas também na teia de relações humanas, as pessoas têm seu lugar determinado, e cada uma tem uma função para o bom funcionamento da sociedade. Este é o paradigma mecanicista, que transfere para o mundo das relações interpessoais a lógica das leis físicas que regem o mundo das coisas.

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O terceiro paradigma surge com o advento do que se convencionou chamar de “pós modernidade”. A física foi substituída pela biologia como ciência matriz para o entendimento da realidade. Aos poucos, foi surgindo a compreensão de que nem o universo nem as sociedades podem ser tratadas como coisas, pois na verdade são organismos vivos. Os paradigmas hierárquico e mecânico são superados pelo novo paradigma, orgânico. O novo horizonte de compreensão da realidade chegou também ao mundo corporativo. As organizações que antes se baseavam na autoridade hierárquica, própria do mundo militar, que também funcionaram como estruturas mecânicas, próprias das engrenagens das máquinas – vide linha de montagem, passaram a ser vistas como seres vivos. Dessa nova perspectiva surgiram conceitos como “a empresa com alma”, “a empresa viva”, “a empresa que aprende”. O paradigma orgânico, que trata as organizações como organismos vivos, encontra paralelo em um conceito próprio da tradição cristã. O Novo Testamento se refere aos seres inanimados que se comportam como se fossem seres vivos chamando-os de “potestades”. Em termos simples, potestade é uma coisa que parece gente. Por exemplo, o dinheiro é uma potestade, o

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Estado é uma potestade, um grupo organizado é uma potestade. Nesse sentido, podemos afirmar que a empresa é também uma potestade. Isso me faz lembrar aquela vez quando concluí uma palestra numa empresa multinacional do setor automotivo. Um homem levantou a mão e me perguntou: A empresa tem alma? Respondi que sim, “Vocês a chamam de cultura corporativa. A Bíblia chama de potestade”. A idéia de potestade implica dizer que a empresa tem uma personalidade, uma identidade, e se comporta como se fosse uma pessoa: tem vontades, humores, valores, dita regras e reivindica lealdade, por exemplo. A EMPRESA RELIGIOSA

Mais uma vez a distinção entre religião e espiritualidade é imprescindível. Como amplamente defendido nos fundamentos teóricos do Fórum Cristão de Profissionais, a espiritualidade é uma experiência humana universal, isto é, os seres humanos têm em comum, e refere à experiência humana do sagrado, transcendente, divino, aos atributos do espírito humano (razão, emoção, volição, consciência e auto-consciência), e

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também às virtudes do espírito (amor, compaixão, solidariedade, generosidade, perdão e justiça). A religião é, por sua vez, a maneira como o ser humano organiza e vivencia sua experiência de transcendência, e está condicionada a dogmas, ritos, códigos morais e grupos de pessoas que acreditam nas mesmas coisas e celebram sua espiritualidade da mesma maneira, e por isso indica a maneira como cada ser humano desenvolve e pratica sua espiritualidade, inclusive em relacionamento com o mundo dos espíritos, supra humanos ou sobrenaturais (anjos, demônios, deuses e Deus). A “alma da empresa” pode ser religiosa. Existem empresas com orientação religiosa, e isso não significa necessariamente que sejam “empresas espirituais”. No ano de 2010 desenvolvi um projeto de consultoria de espiritualidade para uma “empresa religiosa”, onde o expediente inciava com reuniões de orações na sala do proprietário-presidente, e mensalmente a empresa recebia a visita de um padre católico romano que oficiava uma missa aberta a todos os funcionários. Outro exemplo de orientação religiosa na empresa é a Anjo Química, em que “a primeira coisa que o

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empresário catarinense Albertino Colombo, o Beto Colombo, faz ao chegar em sua fábrica é benzê-la, percorrendo-a de maneira que o caminho forme uma cruz. Esse ritual é repetido todos os dias, por volta das 9 horas”. Além dessa prática, é comum que, antes das reuniões importantes, os coordenadores e gerentes repitam a Oração ao Espírito Santo, e que os funcionários promovam correntes de oração quando alguém tem um familiar doente. No Laboratório Canonne, fabricante das pastilhas Valda, no Rio de Janeiro, Huges Ferté, presidente da empresa no Brasil, costuma reunir-se com os gerentes antes do almoço para meditar durante 20 minutos, prática que adquiriu no budismo. Algo semelhante acontece todos os dias, às 13h30, na sala de Clement Aboulafia, sócio fundador da Ezconet, em que 10 funcionários judeus se reúnem para estudar a Torá e orar em conjunto. O empresário paulista, Ali Hussein El Zoghbi, dono do colégio 24 de Março, tem encontrado no islamismo a inspiração para seu negócio: “De acordo com o Corão, a primeira ordem de Alá ao homem foi “leia”. Maomé era analfabeto e, por milagre começou a ler”. David Cohen comenta que os quatro casos relata-

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dos “são exemplos de como empresários e executivos brasileiros vêm incorporando a religião e, de forma mais abrangente, a espiritualidade ao mundo do trabalho. Esses casos não são, é óbvio, a regra no mundo corporativo. Mas são cada vez menos uma exceção”. A sociedade brasileira é pródiga em expressar a face religiosa no ambiente de trabalho. Não são poucos os estabelecimentos comerciais que têm um pequeno altar no canto elevado das paredes, reservado ao santo de devoção ou padroeiro; taxistas carregam em seus carros amuletos sagrados; mesas em escritórios são enfeitadas com duendes e cristais; repartições públicas têm um crucifixo na parede central; e já não é estranho que a música ambiente de lojas de shoppings centers seja a chamada música gospel. A E M P R E S A E SP I R I T UA L

O tema “a empresa espiritual” aborda, através de cinco palavras gregas, a característica de uma empresa cuja personalidade/identidade é compatível com os valores da tradição de espiritualidade judaico-cristã. Para simplificar, usaremos o termo “empresa espiritual” como referência mais precisa às empresas que têm “uma espiritualidade positivamente desenvolvida”, refletida na sua cultura corporativa e seus valores essenciais. O quadro abaixo apresenta a visão

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completa, detalhada em seguida. UTOPIA A utopia de uma empresa define sua razão de ser, e mais precisamente sua visão e missão. A empresa espiritual atua em função de uma utopia, um sonho maior do que sua sobrevivência, seus lucros e até mesmo sua sustentabilidade. Acredita estar a serviço de algo ou alguém maior do que seus acionistas. Na perspectiva judaico-cristã, acredita estar a serviço de Deus, cooperando com a missão de Deus no mundo: a redenção do mundo – colocar ordem no caos. A visão da empresa indica um futuro desejável, tanto para a empresa em si quanto para a realidade por ela afetada. Há diferentes maneiras de compreender o conceito de “visão”. Por exemplo, existe a “visão–meta”, cujo maior exemplo é a meta proposta pelo Presidente  John F. Kennedy, quando em 1962 perante o Congresso dos Estados Unidos afirmou: “ Eu acredito que esta nação deve comprometer-se em alcançar a meta de colocar um homem na Lua antes do final da década (1970) e traze-lo de volta à Terra em segurança”. Neil Armstrong pisou na Lua em 20 de julho de 1969. A meta se cumpriu e a visão cumpriu seu papel. A partir daquele momento, era necessária uma outra “visão–

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meta” para o projeto aero-espacial norte-americano. Outra possibilidade de definição de visão é a “visão– jeito–de–ser–e–fazer–as–coisas”. “Eu tenho um sonho”, declarou Martin Luther King Jr. em seu histórico discurso pronunciado nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, D.C. , como parte da Marcha de Washington em 28 de agosto de  1963. Entre suas proféticas declarações, Luther King Jr. diz: “Eu tenho um sonho de que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver numa nação onde elas não serão julgadas pela cor da sua pele, mas pela grandeza do seu caráter”. A visão de Luther King Jr. definia um jeito de ser sociedade, e quando se realiza, estabelece uma nova realidade permanente. A “visão–jeito–de– ser–e–fazer–as–coisas” se torna perene, isto é, uma vez concretizada, se realiza todos os dias. Outra compreensão de “visão–jeito–de–ser–e–fazer– as–coisas” pode ser exemplificada pelas organizações que fazem de um jeito diferente as coisas que todo mundo faz. Por exemplo, há muitas lanchonetes que vendem sanduíches no mundo, mas igual ao McDonalds, somente o McDonalds. As empresas semelhantes serão sempre consideradas cópias, pois o pioneiro em uma visão detém o mérito da originalidade. Outro exemplo é Henry Ford, que revolucionou a industria automobilística no início do século XX com seu Ford

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Modelo T. Não foi Ford quem inventou o carro, mas foi ele o primeiro a produzir um carro em larga escala, barato (à época, 819 dólares), e “user friendly”: fácil de dirigir, de manter, e até mesmo de consertar, pois não era preciso um mecânico para resolver os principais problemas. Ford afirmou que quando o Modelo T fosse popularizado, “os cavalos desapareceriam das ruas”. Ford enxergou um jeito peculiar de fazer uma coisa que muita gente fazia: um carro. E conseguiu enxergar também as consequências do sucesso de sua visão: ruas sem cavalos, com todas as implicações que isso traria. Desde Henry Ford, a indústria automobilística não foi mais a mesma. E as ruas das cidades também não. Uma empresa espiritual possui uma utopia. Ela enxergou alguma coisa capaz de alterar a realidade social em benefício de um grande número de pessoas. Está equivocado quem pensa que a razão de ser uma empresa é o lucro. Alguém já disse que nenhum ser humano é capaz de viver sem respirar, mas isso não significa que a razão de ser da vida humana é respirar. Assim é com uma empresa. Não vive sem lucro. Mas o lucro não define sua razão de ser. O que define a razão de ser de uma empresa é sua utopia, sua visão: “jeito–de–ser–e–fazer–as–coisas” que transforma o mundo para melhor.

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ETHOS O ethos de uma empresa define seus valores. A empresa espiritual encontra em sua fonte de autoridade espiritual a matriz para suas convicções éticas (teoria) e posturas morais (comportamento), isto é, seu conjunto de valores que determina seu jeito de ser e fazer negócios. Na busca de caminhos para o comportamento ético, podemos entrar pela porta das definições elementares. Devemos, por exemplo, fazer distinção entre ética e moral. O teólogo Jung Mo Sung esclarece que “moral vem do latim mos (singular) e mores (plural), que significa costumes. Por isso, muitos utilizam a expressão ‘bons costumes’ como sinônimo de moral ou moralidade (...) Ética vem do grego ethos, modo de ser, caráter (...) Quando se diferencia ética da moral, geralmente visa-se distinguir o conjunto de práticas morais cristalizadas pelo costume e convenção social dos princípios teóricos que as fundamentam ou criticam. O conceito de ética é usado aqui para se referir à teoria sobre a prática moral. Ética seria então uma reflexão teórica que analisa e critica ou legitima os fundamentos e princípios que regem um determinado sistema moral (dimensão prática)”.

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A importância do compromisso ético e da integridade moral não carece de justificativa. O debate atual gira ao redor de sua possibilidade. Isto é, todo mundo concorda que devemos ser éticos, mas muita gente desacredita que é possível ser ético. Uma empresa espiritual está alinhada com esse contingente de pessoas que não apenas defendem a necessidade como também a possibilidade de um comportamento moral baseado em elevados princípios éticos. Mais do que isso, uma empresa espiritual está disposta a pagar o preço de ser ética. Acredita, entretanto, que a longo prazo o compromisso ético é mais barato. Como disse o poeta popular, “se o malandro soubesse que a honestidade é um bom negócio, seria honesto só por malandragem”. Evidentemente, os compromissos éticos implicam, não raras vezes, deixar de ganhar ou mesmo perder. Mas uma empresa espiritual não está no jogo para ganhar sempre e ganhar o máximo, a qualquer preço. O compromisso com a ética não comporta avaliações pragmáticas: o que, quanto ganho ou perco com isso? O compromisso com a ética é uma questão de opção, ainda que sacrificial. Outro aspecto do compromisso ético de uma empresa é a abrangência de sua postura. Uma empresa espiritual é ética em todas as suas relações: colaboradores, parceiros,

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fornecedores, terceiros, governos, sindicatos, sociedade, meio ambiente e mercado. Assim como uma mulher não pode estar “meio grávida”, uma empresa não pode ser “meio ética”. É importante sublinhar que os valores éticos e morais são prerrogativas pessoais, isto é, uma empresa é ética à medida que as pessoas que a compõem são éticas. OIKOS O oikos de uma empresa define seu ambiente. A palavra oikos, de origem grega, pode ser traduzida por “casa”, ou mesmo “família”. Era a unidade básica em muitas cidades–Estado da Grécia antiga. A empresa espiritual compreende a si mesma como oikos: casa comum dos seus colaboradores, e considera seu ambiente interno o primeiro horizonte de encarnação e expressão dos seus valores: convicções éticas (teoria) e posturas morais (comportamento). A felicidade no trabalho é um dos temas privilegiados do momento na pauta de discussão do mundo corporativo. Inspiradas no conceito de FIB, Felicidade Interna Bruta, criado no Butão em contraponto ao PIB e adotado pela ONU como indicador de bem estar social nos países, empresas como a Natura e a Serasa criaram índices de medição da felicidade no ambiente de trabalho.

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A qualidade do ambiente interno de uma empresa depende da qualidade de três dimensões de relações: empresa/colaborador; colaborador/empresa; e colaborador/colaborador. A maneira como uma empresa trata seus colaboradores é determinante da qualidade de todas as outras relações, inclusive com o público externo. A empresa que oferece estabilidade e valoriza seus colaboradores, não apenas com remuneração justa, mas também com uma carteira de benefícios, que deve incluir, inclusive, perspectivas de futuro, ensina um padrão de comportamente que tende a se multiplicar nas demais relações. O colaborador, por sua vez, é chamado e até mesmo moralmente constrangido a entregar um serviço de qualidade, que afeta a produtividade. É verdade que “funcionário feliz = lucro maior”. Evidentemente, nem toda empresa que tem lucro acima da média pode ser considerada uma “empresa espiritual”. Mas também é verdade que um ambiente de trabalho qualificado geralmente tem como consequência natural melhores resultados. O Instituto Great Place To Work© é uma consultoria que oferece modelos e metodologias para criar e desenvolver bons ambientes de trabalho. Anualmente publica a lista das “Melhores Empresas Para Trabalhar”. Atua há mais de 25 anos e está presente em 46 países. Os

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indicadores apontam que as empresas que se enquadram entre as 500 melhores, têm um ROI (em inglês, Return Over Investment = retorno sobre investimento) 13% maior o que das empresas comuns. Os números chegam a 18% para as empresas que estão entre as 100 melhores, e 27% para que as ocupam um lugar entre as 10 melhores. Os pesquisadores David e Wendy Ulrich, compararam as cem melhores empresas da lista do Great Place To Work© americano e calcularam que o retorno médio anual daquelas com ações negociadas na Bolsa de Nova York, entre 1998 e 2008, foi de 6,8%. No mesmo período, o retorno anual média das 500 empresas mais negociadas na Bolsa ficou em 1,04%. Além do fator financeiro, um bom ambiente de trabalho facilita a retenção dos melhores talentos, promove a inovação e a criatividade, reduz custos trabalhistas, e cria as condições necessárias para ao melhor enfrentamento das crises e sua mais rápida superação. O bom ambiente de trabalho facilita a melhor relação dos colaboradores entre si. Isso tem a ver com modelos de liderança: menos tirania, mais participação; trabalho em equipe: menos competição, mais cooperação; relacionamentos saudáveis: menos sabotagens, mais sinergia; e melhor fluxo de comunicação, o que é importante num mundo em que “informação é poder”.

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POIÉSIS A de uma empresa define o grau de satisfação e realização dos seus colaboradores. A empresa espiritual encara o trabalho não como tripalium (tortura, castigo), mas como poiésis, isto é, a atividade através da qual cada trabalhador cumpre sua vocação, expressa a si mesmo e se reconhece no que faz, pois o que faz é sua obra, sua criação – “o operário faz a coisa e a coisa faz o operário”. O conceito de poiésis diz respeito a três fatores que afetam a satisfação e realização dos colaboradores de uma empresa: desenvolvimento pessoal, qualidade de vida e sentido do trabalho. Para que um trabalhador se enxergue em sua atividade de trabalho, deve ter oportunidade de crescer e se desenvolver não apenas como profissional, mas também como pessoa. Em um mundo onde as instituições fundamentais (família, Igreja e Estado) estão enfraquecidas e desacreditadas, a empresa cumpre um papel significativo no processo de educação dos seus colaboradores. O lugar de trabalho é ambiente para a transformação pessoal, a aquisição de conhecimento e o desenvolvimento de competências, habilidades e capacidades, e também de atualização constante, pois a empresa que não favorece a mudança de seus colaboradores perderá o timing na história.

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A poiésis é também relacionada à qualidade de vida do trabalhador. Um trabalhador dificilmente se perceberá satisfeito e realizado caso lhe seja exigido o sacrifício da família em favor do trabalho, comprometa sua saúde em razão das exageradas exigências de resultados, e tenha sua vida financeira em déficit. Finalmente, e mais importante, a poiésis se relaciona intimamente com o sentido do trabalho. A satisfação e realização pessoal é em grande parte resultado de um trabalho relevante e desafiador, no qual o profissional tenha autonomia, e pelo qual seja gratificado de múltiplas maneiras, não apenas financeiramente, mas também com o orgulho de participar de algo significativo para si mesmo e para a sociedade. PRÁXIS A práxis de uma empresa define sua contribuição para a sociedade. A palavra práxis é de origem grega, e está presente nos debates filosóficos, como por exemplo em Platão, o primeiro a estabelecer a distinção entre “teoria”e “prática”. Karl Marx se apropriou do conceito de práxis, e o definiu como ação ou atividade econômico-social com um efeito de transformação.“Depois de Marx”, disse Casiano Floristan, “a práxis se entende com prática social ou atividade humana transformadora do mundo”.

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Floristán faz diferença entre “prática”e “práxis’, e explica da seguinte maneira: “A partir de certos aportes marxistas, completadas por outras correntes pragmáticas ou existencialistas a práxis implica mudança social e compromisso militante, transformação de estruturas e atitude crítica, renovação do sistema social e emancipação pessoal e social. Não é mera prática, a saber, aceitação, conformidade, repetição e inalterabilidade. Muitas coisas práticas fazemos quase inconscientemente. Por outro lado, há coisas que fazemos conscientemente e que podemos chamar ações”. Segundo Floristán, para que seja considerada práxis, a ação humana deve possuir, pelo menos, quatro características: “Em primeiro lugar, a práxis é ação criadora, não meramente reiterativa. Para que a ação seja criadora é necessário um certo grau de consciência crítica no agente que atua (...) A práxis criadora é inovadora frente a novas realidades e novas situações. O homem há de criar ou inventar; não lhe basta repetir ou imitar o resultado. Em segundo lugar, a práxis é ação reflexiva, não exclusivamente espontânea (...) Em terceiro lugar, a práxis é ação libertadora e de modo nenhum alienante... (O fim de toda atividade prática ou de toda práxis é a transformação real do mundo natural ou

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social, cuja realidade deve ser uma nova realidade mais humana e mais livre (...) Em quarto lugar, a práxis é ação radical e não meramente reformista. A práxis intenta transformar a organização e direção da sociedade, mudando as relações econômicas, políticas e sociais”. A empresa espiritual é consciente do seu impacto na realidade social e natural, e por esta razão, sua atuação implica a práxis: sabe porque faz, não é mera repetidora de modelos, promove a libertação das pessoas com quem interage, e coopera para a transformação da sociedade na qual está inserida. Podemos interpretar práxis como “espiritualidade a serviço do humano”, ou do “bem comum humano”. Isso implica afirmar práxis como o conceito que melhor articula a relação espiritualidade e negócios/trabalho/ mundo corporativo.

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C O N S I D E R AÇ Õ E S F I N A I S

Assim como é possível uma empresa de orientação religiosa ser vazia de espiritualidade, também é possível uma empresa não religiosa ser espiritual. Uma empresa espiritual está ocupada na construção de relações de justiça em todos os seus âmbitos de atuação e com todos os seus atores. O critério último para identificação de uma “empresa espiritual” é seu compromisso com a dignidade da vida humana.

© 2012 Ed René Kivitz

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A Empresa Espiritual