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Monteiro Lobato: tudo novo, de novo, num sítio

PRODUÇÃO DA IX SEMANA LITERÁRIA DO INSTITUTO AUXILIADORA

São João del-Rei 2019


Prefácio “Quem escreve um livro, cria um castelo. Quem o lê, mora nele”!

Monteiro Lobato Dialogar num prefácio, com as ideias do livro que agora está em suas mãos, leitor, é uma difícil missão e nos faz repensar o quão próxima é a realidade literária. Memória, identidade e fantasia misturam-se no contraste da visão das crianças em suas ilustrações e do senso crítico da modernidade nos presentes textos dos nossos jovens, inspirados no grande homenageado de nossa IX Semana Literária, Monteiro Lobato. Os textos aqui presentes nos retomam ao passado e o contextualizam, trabalhando traços de atemporalidade, evidenciando o grande desafio da escola e de todo profissional da educação de nosso momento. O incentivo à leitura e à escrita, à uma geração fortemente influenciada pelas mídias, e por uma sociedade em constante transformação, torna-se, portanto, um caminho do qual somente a educação o confirmará. “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”. Sigamos a famosa frase de nosso homenageado e façamos que a literatura, aliada às questões sociais, participe da vida de nossos alunos constantemente. Durante nossa IX Semana Literária, convidamos cada leitor a admirar a capacidade criativa e inventiva dos textos de nossos alunos em suas visões modernas e contemporâneas das histórias e personagens de Monteiro Lo-


bato: “tudo novo, de novo, num sítio...”. Admirem o quanto crianças e adolescentes, quando incentivados, são capazes de refletir e questionar nossa realidade.

Dêner Reis Elaine Cordovil Jaqueline Resende


~ Organizaçao Equipe Gestora

Ir. Flávia Dias Magaly Rosa Raquel Lázara Tatiana Miranda Viviane Pereira Sybila Benfenatti Vera Lúcia da Cruz

Autores

Alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio

Produtores

Professores de Língua Portuguesa Ensino Fundamental II e Ensino Médio Professores da Educação Infantil e Ensino Fundamental I

~ Revisao

Dêner Reis Elaine Cordovil Jaqueline Resende

~ e Diagramaçao~ Ediçao Jéssica Loures

~ Impressao

Davi Rodrigues

Apoio

Vânia Almeida

Capa

Aluna Ana Rita Serpa de Carvalho - 7º ano A


Sumário Degraus da Vida ..................................................................... 11 Jeca Bazu ................................................................................. 16 A caçada de Pedrinho ............................................................ 19 Pirlimpimpara ......................................................................... 23 A modernidade do Jeca ........................................................ 27 Retrós ...................................................................................... 29 Muito além da pele .............................................................. 34 Negrinha, quem?! ................................................................. 35 Perspectiva ............................................................................. 39 Chegou .................................................................................... 41 A casa amarela do fim da rua .............................................. 45 De volta ao sítio .................................................................... 49 Melhor presente ................................................................... 52 Como surgiu E-mília ............................................................... 57 A segunda jaca do sítio ......................................................... 59 A segunda jaca ....................................................................... 61

“Um país se faz com homens e livros”.

Monteiro Lobato


Os Contos

Yasmin Pinto Grobério - 6º ano

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Ensino Médio

André Carvalho Simões - 7º ano B

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Degraus da Vida

O primeiro motivo foi por não ter TV. Ora, como assim uma criança não tinha TV em casa?; perguntavam os branquinhos para a negrinha. “Não tendo uai”, ela respondia e continuava a brincar com as letras e números. Depois, descobriu-se que tinha 4 irmãos; um gêmeo e três mais novos. “Mas isso tudo de irmãos? Pra quê?” O loirinho perguntou. “Pra brincar!” ela respondia. Acontecia que Maria, Mariazinha, Ma, Maroca, era a primogênita de 5 filhos (porque veio primeiro que João, o gêmeo). Morava no alto do mais alto dos morros de uma cidade que não sabia muito bem o nome, porque não tinham a preocupação de lhe informar. Só sabia que, quando ia pra escola, descia 342 degraus, 8 rampas e virava em 6 esquinas. E pra subir, o mesmo. Mas com o cansaço das perninhas gordas raladas, parecia o dobro. Porém subia, cantarolando. E não achava ruim. Era tudo tão colorido. Entre os becos e vielas, os muros eram desenhados e decorados. Maria gostava de observar como o morro era cheio de cores, e como estava sempre cheio de gente. Gente que não conhecia, gente que conhecia. Em frente a sua casa, morava uma moça, a tia Lá. Essa moça era muito sozinha e tinha ajudado a mãe de Maria a cuidar das crianças enquanto ela trabalhava. A mãe de Maria tinha muitos problemas de gente grande, e por isso, não percebia muito as crianças. Mas a tia Lá tinha percebido como Maria gostava de letras e números, e como tinha facilidade em os entender. Tia Lá levou Maria, sem que a mãe soubesse, até uma escola bonita. Desceu os 342 degraus, as 8 rampas e virou as 6 esquinas contando que Maria devia ser uma boa menina e mostrar pras outras tias como ela gostava de números e letras.

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- Você vai ser grande! - ela dizia.

Claro que seria. Só tinha 7 anos e era a maior da rua!

Maria conversou com as outras tias que cheiravam a doce e ganhou uma bolsa. Na verdade, foi o que a tia Lá disse, porque ela voltou pra casa só com um pirulito na mão, sem bolsa nenhuma. Mas agora ela ia estudar na escola bonita que ficava no pé do morro. A mãe de Maria sorriu com a notícia, mas logo voltou a cuidar da criança mais nova da família. Tia Lá estava muito feliz e contou que ela faria muitos amigos e ia se divertir muito com as letras e números. Os anos se passaram para Maria e ela percebeu. Se percebeu. Entre os coleguinhas, era a única que era escurinha. Seu cabelo não era pra baixo, e sim, pra cima. Seu tênis, com um furinho atrás que molhava o pé quando chovia, não tinha luzes que piscavam ao pisar. Ao perguntar pra tia Lá porque as coisas eram assim, ela falou tantas palavras grandes e bonitas que Maria ficou encantada. Mas não entendeu. Tia Lá disse que com o crescimento, faria sentido. Crescer foi difícil. Cada vez mais parecia que o morro diminuia de tamanho, mas os degraus não. E tudo foi ficando mais complicado, e a comida sumindo da mesa. E junto com a comida, foram sumindo os sorrisos, os cantarolares, os brinquedos, os móveis. E como o pai, a mãe sumiu. E aos 14, a vida de Maria ficou sem cor. Mas foi tia Lá morar com as crianças. Ora, crianças sem mãe e moça sem família, se complementavam. “O aluguel da minha casa vai nos ajudar”, tia Lá dizia enquanto coçava a cabeça na sala. Maria e João brigavam, pelo comportamento desenfreado do garoto, pela disciplina incorrigível da garota. “Te falta hu-

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mor, mana!” ele exclamava. “Te falta noção”, ela replicava. Mas o amor os unia novamente, por pelo menos algumas semanas. À Maria, lhe restava estudar. Tia Lá não deixava que a menina faltasse â escola, nem por chuva, falta de lanche ou disposição. Só doença. Dizia que Maria era abençoada demais para desperdiçar a oportunidade dessa maneira. Mas na escola, foi estranhada. Não que algum dia tenha sido estimada, porém a negra sem mãe foi olhada de lado cada dia mais, no ponto em que os brancos se modernizavam um pouquinho mais a cada dia. Só que tentou não se deixar afetar. Na sua trajetória, descobriu tantos negros que fizeram coisas importantes, que lutaram por sí e pelos outros, para se tirar da posição em que se encontravam. Nisso estava depositada sua fé, a sua esperança, e não daria pra trás.

E nesse pensamento, evoluiu.

Viu em Zumbi dos Palmares e Dandara uma inspiração para lutar. Já com Mandela e Luther King, que sua voz era importante demais para ser calada. Por meio de Rosa Parks, descobriu que por mais que seu ideal possa te prejudicar, se você o acha válido, vale a pena. E com Carolina Maria de Jesus, se viu. Negra, pobre, com milhões de dificuldades e cada vez mais problemas, mas que não desistia. Viu com ela que por pior que a situação estivesse, alguma hora haveria de ter fim e tudo se ajeitaria. Amadurecer foi melhor. Cada vez que se inspirava, contava a tia Lá, que brilhava os olhos de orgulho.

Os negros são fortes. A mulher então...

Maria estudou, formou, trabalhou. E a cada lugar que ia, recebia olhares. Poucos admirados, a maioria, a subestiman-

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do. Pelas suas roupas remendadas que não combinavam, pelo seu falar nem sempre correto, pelas suas ideias à frente demais para uma negra da favela. Mas não se importava. Seguia feliz, subindo e descendo todos aqueles degraus, do morro e da vida, cantarolando e sorrindo. E não lhe faltavam motivos para sorrir. A comida não havia sempre, entretanto, ninguém tinha morrido pela fome. A casa não era grande o suficiente, mas estavam sempre se trombando em amor. Todos estavam em casa à noite, ninguém tinha se juntado a uma vida perigosa. Tinham paz. E no alto do mais alto dos morros, onde se viam todas as cores, desde o nascer do sol até o seu se por, isso era o primordial.

E sob esse sol, viviam. Carolina Jannuzzi Silva - 3ª série

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Clara Costa de Alvarenga - 4ยบ ano B

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Jeca Bazu

Finalmente chegou esse dia tão especial! Mamãe passou tanto tempo falando sobre a escolinha, achei que nunca iria chegar. Acordei ela bem cedo pra eu não me atrasar. “Bazu do céu, são só seis horas! Volta pra cama, sua aula é depois do almoço”. Nunca um almoço demorou tanto, mas este “torrusco” está perfeito! “Não é ‘torrusco’, Bazu, é torresmo”. Mamãe nunca me deixa falar do meu jeitinho. Me apressei para colocar meu uniforme – ah... meu uniforme! – que mamãe pegou do primo grande, e também os tênis que o meu amiguinho que ficou pezudo me deu. Abri a porta: nhêee. Fechei a porta: nhêee. Acho engraçado. Esta escolinha é bem colorida e minha sala é bonita. Já tem umas crianças aqui, são bonitas também. Uau! Que tênis incríveis um menino ali tem! Será que foi presente de um amiguinho pezudo? “Oi, o meu nome é Bazu. Adorei seus tênis, eles acendem!”. Estranho... ele não me disse “obrigado” como minha mãe falou pra eu fazer. Olhou pra mim e pros meus tênis. Por que será que ele e as outras crianças estão rindo? Também não entendi porque ele não me agradeceu por ter falado de seus tênis. Ei, a professora! “Boa tarde e bem vindos! – que sorriso lindo! – eu quero hoje ver quem vai me fazer um desenho bem bonito do que achou da escolinha”. Oba! Acho que ela vai adorar o meu desenho, porque eu achei minha escola maravilhosa e com certeza meu desenho vai

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ficar tão lindo quanto! Melhor não espalhar meus lápis na mesa, minha mamãe disse que foram muito caros e não quer que eu os deixe cair. Meus coleguinhas espalharam coisas diferentes na mesa, parecem pomadas coloridas. Como assim elas vão colorir com essas pomadas? Mamãe não me deu pomadas coloridas – e que cores fortes! “Ai, que monte de marca textos, Sophia! Eu adoro a STABILO também, olha os meus. – marca o quê?”. Acho melhor colorir um pouco mais forte para ficar mais colorido como o desenho da Sophia. Ufa! Meus braços cansaram. A professora está chamando para mostrarmos os desenhos, eu acho que ela vai amar o meu, só não está tão colorido como os outros que usaram o “marca treco”, mas está igual à minha escola. “Que lindo, Sophia! Está super lindo, eu adorei as cores. Até agora é meu preferido! – agora é o meu. O que será que ela vai achar? – Nossa Bazu, ficou bem bonito, só podia ter usado mais cores ou colorido mais forte, não acha?”. Mais forte? Assim meus bracinhos caem. Fico triste por meus lápis não serem tão bons quanto aos “marca trecos” que deixaram a professora mais feliz. Vou me sentar junto aos meus coleguinhas, acho que está na hora de brincar. “Ai... sai daqui, seu jeca! Vai brincar com aqueles blocos lá do outro lado”. Jeca? Jeca Tatu? Mamãe já leu uma historinha dele para mim. Jeca Tatu, Jeca Bazu. Mas eu nem tenho bicho na barriga...

Amanda Pinto Valadão – 3ª série

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Nina Rosa Drabowski Silveira - 3ยบ ano B

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A caçada de Pedrinho

Lá estava Pedrinho, em uma ensolarada manhã, pronto para mais uma “caçada”. Estava contente, pois ganhara de sua avó Dona Benta, um antigo mapa do sítio onde mostrava como chegar a um tesouro mágico em mais uma aventura, mais uma história. Foi então que Pedrinho apressou-se, rapidamente, para sair em busca de sua fortuna, porém quando já estava de saída Emília apareceu a tagarelar. - Pedrinho, porque você almeja grandes tesouros, não está satisfeito com o que tem? Ele indignado retrucou: - O que há demais em sempre querer mais, em desejar lucrar, pensar no futuro não é nada demais! Pensemos nas futuras dificuldades Emília. - Dificuldades? Até parece Pedrinho, vivemos em fartura, até parece. Minutos após intensa discussão o silêncio imperou, quando Tia Anastácia disse em desespero:

- Narizinho foi raptada gente, pela Cuca, só poderia ser. - Mas como?

- Não há tempo para tantas perguntas, você e Emília vão imediatamente à caverna daquela bruxa, busquem essa menina, agora. Pedrinho só pensava em Narizinho e sua ausência no sítio, suas brincadeiras e “reinações”. Como ela fazia falta, a menina do “Narizinho arrebitado”, o que faria se a perdesse? Ao chegar à toca, Emília avistou Narizinho presa em uma jaula ao lado da maligna Cuca aos roncos, porque roncar era com ela mesma. Pensaram, matutaram e chegaram a ideia de encurralar a bruxa e forçá-la a engolir o tranquilizante goela

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abaixo. Seja como fosse, eles resgatariam Narizinho novamente. Pedrinho até usaria um grampo para abrir a jaula, pois sempre tinha uma “carta na manga”, afim de colaborar na solução de um plano, sempre muito esperto esse menino. Invadiram a caverna, encurralaram a Cuca, e ela por sua vez dormiu, roncou e roncou. Pedrinho pegou o grampo, abriu a jaula e Narizinho finalmente foi libertada. Que aventura inesperada! - Emília você realmente é muita sábia, dinheiro e tesouro não é tudo. Aventuras são mais divertidas quando não são perigosas, prefiro viver com vocês a passar por tudo isso! Guilherme Gontijo – 2ª série A

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Sarah Carolina Ferreira Rosa - 1ยบ ano B

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Gabriel de Souza Hosken Portes - 1ยบ ano A

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“Pirlimpimpara”

- Eu já disse que a gente não pode fazer isso, Emília!

- Mas eu quero, Visconde, e se você não me ajudar, sei que consigo te depenar até com o poder da minha mente! - É verdade, Visconde, além de que vai ser só mais uma viagenzinha para as nossas histórias – disse Pedrinho. A força de Narizinho rapidamente serviu como instrumento de persuasão: - A única certeza que eu tenho é que, por mais que seja arriscado, não dá para ficar calado enquanto quem a gente ama sofre assim. E mesmo que você saiba que alterar a linha do tempo talvez relativize todo o conceito quântico e essa baboseira, a gente vai, “que gentinha”. - Tá bem, tá bem, se o nosso discurso pode valer a pena para mudar alguma coisa, então eu tenho que aceitar. Quem está com o pó de Pirlimpimpim? De repente, como se o resultado de um século caísse sobre seus ombros, eles perceberam que chegaram a São Paulo de 1919, especificamente em uma sala espaçosa e repleta de estantes como as do Sítio. Só que sem nenhuma Dona Benta, inclusive, será que ela já tinha ligado pra mãe de Pedrinho? - Pois bem, me parece ser uma biblioteca, li a uns dias atrás em minhas pesquisas para essa maluquice, que nosso criador era apaixonado por literatura – pontuou Sabugosa. - Uma grande pena que ele não usasse esse amor para ser gentil com todos os tipos de pessoas! - Emília, calma. Vamos buscar algumas informações sobre onde ele anda escrevendo “Reinações de Narizinho” e mudamos algumas partes. O Pedrinho é ótimo para digitar rápido,

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ninguém vai descobrir, até o nome do livro é meu, a gente precisa de um desconto. Naquele mesmo momento, no cômodo ao lado, o escritor escutava todos aqueles cochichos espantados. Ele não duvidava de que sua esposa tivesse razão, embora odiasse admitir, porém, não imaginava que ficaria caduco tão cedo. Com um supetão, abriu a porta e se deparou com a sua imaginação em carne e osso, nada que alguém dissesse poderia justificar aquela visão. É isso, nunca mais voltarei a escrever, pensou em voz alta. - Que bom, que bom, porque assim você pouparia nosso trabalho, tio. Ninguém aguenta mais ouvir que suas histórias não são bons modelos para as crianças, e eu digo isso porque quem repete todos os dias a mesma coisa é uma boneca. - Tecnicamente, Pedrinho, se ele não lançar nenhum livro, nós não vamos mais existir em nenhuma realidade, seja ela paralela ou não – argumentou a prima. Ainda em choque, Lobato sentou-se e encarou seus personagens com vida própria. Quando idealizou seu projeto de vida, esperava contradizer a época ao dar ideias e voz própria às crianças, só não queria que elas falassem tão alto. Seu sentimento nacionalista era aflorado, e ao criar o Sítio do Pica-Pau Amarelo, queria lembrar das belezas de sua terra, contudo, esqueceu-se de que todos os grupos que compõem esse país fazem a verdadeira natureza perfeita. Aborrecida com a demora por uma reação, a boneca de língua solta e bem determinada tomou a dianteira: - Olha só, Seu Monteiro, eu sou a Emília de 2019, foram seus casos e invenções que me montaram nessa sala há muitos anos, mas quem eu sou hoje depende basicamente das minhas escolhas, por isso convenci a todos de virmos fazer uma visitinha. O problema é que os tempos mudaram e seu texto ainda é lido por muitas pessoas; sim, o senhor fez bastante sucesso, não

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me olhe com essa cara. Por isso, diversas palavras suas não têm o mesmo sentido e valor que antes, como por exemplo, a Tia Nastácia não é a “negra de estimação” da nossa casa, ela mora lá assim como nós. Eu sei que pode parecer revolucionário, mas os olhos que você usava para enxergar o mundo nesse século, possuíam o preto e o branco como cores separadas, enquanto os nossos de agora colorem tudinho com um misto de aquarela. A única coisa que viemos resolver foi esse preconceito que você contribuiu para passar de geração em geração, porque ele é uma asneira completa. Na cozinha do Sítio, agora o Pedrinho também ajuda com os bolinhos de chuva, o que não é mais do que a obrigação de qualquer um que tenha uma família. E é aí que a Tia Nastácia pertence, à nossa família. Então, por favor, assim que concluir suas obras, lembre-se da trabalheira que todos nós teremos para conquistar o mínimo de respeito, faça a diferença. - Marquesa, sinto ser o chato que sempre acaba com o clímax, mas o efeito do Pirlimpimpim já está acabando, vamos voltar a qualquer momento – declarou a espiga de milho.

- Visconde! Você não está no seu lugar de fala!

Em um instante, todos os móveis começaram a girar e um brilho instantâneo tomou conta da casa, preocupada com o restante dos seus pensamentos e não ligando para o quão ofegante o escritor aparentava estar, a voz da moça ainda se fez ouvir ao longe: - E não se esqueça de tirar da cabeça a ideia do meu casamento com o Marquês de Rabicó, defendo a valorização da beleza de todos, mas ainda tenho meus princípios! E como se nada tivesse acontecido, todos desapareceram, deixando o homem de sobrancelhas grossas a pensar em mudar a história da sua vida. Tudo isso por causa de um menino, uma menina, uma espiga de milho, a boneca falante e uma viagem ao passado. Luana Vale Longatti - 2ª série B

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Beatriz BĂ­scaro Fernandes - Infantil I B

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A modernidade do Jeca

O Jeca Tatu acordou com uma grande novidade, pois fora convidado para a festa de quinze anos de Narizinho, que aconteceu em um salão muito bonito, no centro da cidade. No dia combinado colocou sua melhor vestimenta e lá se foi de carroça para o grande acontecimento. Ele estava deslumbrado com as flores e balões para todos os lados, sem contar que a aniversariante estava muito formosa, e as comidas, deliciosas. Porém, uma coisa o deixou intrigado: ninguém conversava! Todos só riam e tiravam fotos com seus celulares. Foi exatamente naquele dia que tomou conhecimento de uma grande invenção: o “WhatsApp”. Após sua descoberta, decidiu no dia seguinte com a companhia de Pedrinho, ir à uma loja e tratou de entrar na “Era moderna”. Ingressou no grupo da família, no da igreja e até no grupo dos agricultores... Enfim, nunca mais deixou de conversar, pelas mídias sociais, é claro. Com toda a novidade a primeira semana foi uma maravilha! Bom dia piscando, boa noite, brilhando e boa tarde, subindo e descendo. Após quinze dias já estava com preguiça de responder todas aquelas mensagens! E as notícias não paravam de vir. Tia Nastácia mandou um texto que para aposentar, só morrendo de trabalhar, quarenta anos de labuta! Tio Barnabé compartilhou a notícia que vários agrotóxicos passarão a ser usados na agricultura. Pedrinho escreveu que em uma escola houve um atentado, oito pessoas inocentes foram assassinadas. Narizinho não ficou para trás e respondeu que morreram centenas de pessoas, pois houve um rompimento de uma barragem com rejeitos de minério. Emília também não perdeu a vez e comentou sobre o incêndio que vitimou vários atletas do Flamengo. Tudo aquilo aconteceu em apenas o primeiro semestre do ano, quanta coisa! E olha que Dona Benta e Visconde Sabugosa nem comentaram sobre a possibilidade de as pessoas usarem armas de fogo.

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Jeca Tatu nem dormia mais à noite, eram muitas as notícias da “Modernidade” para absorver, e ainda por cima comentaram no grupo sobre as chamadas Fake News, o que seria aquilo? Com o passar dos dias tomou a decisão, desligou o telefone, o mensageiro do fim do mundo. Calmamente foi para o roçado levando seu rádio de pilha ouvir moda de viola, pois é bem melhor que ler notícia ruim. Francisco Emanuel Mendes Chaves – 1ª série A

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Retrós

Emília percebia os primeiros raios solares invadindo o ambiente pelas frestas do armário e se dava conta: já era manhã. Levou suas mãos de pano à madeira empoeirada da prateleira e sem mesmo pensar, disparou um “Bom dia!” animado para os outros brinquedos ao seu redor. Não podia evitar. Ser tagarela fazia parte de sua natureza. Lembrava-se do tempo em que era muda, pouco tempo depois de sua confecção, e não podia suportar a ideia de ser incapaz de se expressar. Infelizmente (ou felizmente), os outros brinquedos não tinham tomado a “pílula falante”, então, sem resposta, a boneca levantou-se e tentou enxergar com ajuda da pouca luz que atingia o armário de Narizinho. Ao levantar-se, Emília foi puxada para trás por um fiapo de lã vermelha enroscado num prego. Puxou a cabeça para a frente e parte de seu cabelo arrebentou. Sentou-se novamente, cabisbaixa, e fez um emaranhado de lã com os fios soltos. Olhou ao seu redor e pousou os olhos de botão nas outras bonecas. Feitas de plástico, não se moviam ou falavam. Lembravam Emília de obras de arte em exposição. Seus cabelos não aparentavam ter um nó sequer. Narizinho trocava suas roupas diariamente. Emília nem mesmo se lembrava de usar outro vestido senão o seu caricato, vermelho e amarelo, já manchado de tinta e terra. Deixou a lã que segurava em um canto qualquer e caminhou em direção as outras bonecas. Aproximou-se e detalhadamente observou as bonecas, que permaneciam sorridentes, sem reação alguma. Sem perceber, começou a chorar. Nunca havia chorado antes. Nem sabia que tal feito era possível para um brinquedo. Talvez fosse um defeito na sua confecção. Assim como suas sobrancelhas desalinhadas, seu sapato mal costurado, seu laço frouxo no cabelo, seu nariz que eventualmente descolava do rosto, o furo na saia de seu vestido.

Emília não escutou quando Tia Nastácia adentrou o quar-

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to de Narizinho. A mulher abriu delicadamente a porta do armário e ainda podia escutar as queixas da boneca. - Minha filha, o que você tem? - Tia Nastácia, por que não me fez direito? – A boneca falava com as mãos sobre o rosto. Confusa, a cozinheira percebeu a falha no cabelo de Emília e as lágrimas que molhavam o pano ao redor de seus olhos. A boneca prosseguiu. - Eu sei que você pode me descosturar e arrumar o que eu tenho de defeito. Por favor? - Defeito? – interrompeu Tia Nastácia. – Não consigo enxergar um defeito aí, filha.

- Mas...

– Emília olhou pra baixo como se procurasse argumentos em si mesma para rebater a fala anterior – ... meu vestido! Está costurado em mim e olha como está sujo. Veja se tem uma mancha sequer na roupa das outras bonecas da Narizinho! Tia Nastácia riu ironicamente, como se Emília nem tivesse se dado conta do que havia acabado de dizer. - Você não entende, né, menina? Não lembra de como sujou seu vestido? Narizinho te levou pra brincar pelo sítio e não te largava de jeito nenhum. Ficaram o dia todo correndo de um lado pro outro e sujaram tudo de barro. Emília esboçou um leve sorriso ao resgatar aquelas lembranças da cabeça preenchida com retalhos de tecido. - Aquelas bonecas ali são lindas, não é mentira – continuou Anastácia – mas nenhum cabelo, rosto ou roupa supera a sua esperteza, Emília. Você é inteligente, curiosa, falante. Sua aparência é o menos bonito em você, meu bem. Não por você não ser linda, mas por você ser muito mais que isso.

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A boneca esfregou os olhos e lançou um riso sutil para Tia Nastácia. A mulher respondeu com outro, entusiasmado. Emília desviou o olhar, procurando o emaranhado de lã que uma vez fez parte do seu cabelo e o pegou do chão. - Mas há certas coisas que dá pra gente consertar, sim. – disse Tia Nastácia, pegando os fiapos e rapidamente os aderindo novamente ao cabelo de Emília, com uma trança. Se despediu e fechou a porta do armário da mesma forma como abrira-o, calmamente. Passara alguns minutos, enquanto Emília ainda admirava o novo penteado feito pela cozinheira, a porta abriu-se novamente. Era Narizinho. Seus olhos miraram diretamente para a boneca de pano. Emília abriu um sorriso. Sua aparência era o que menos importava naquele momento. Rafaela Rodriguez Ribeiro – 1ª série

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Thaila Miyahira Benfenatti - 1ยบ ano B

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Ensino Fundamental

Isabella Carvalho Mattar - 7ยบ ano B

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Muito além da pele Abayomi chegou até minha casa quando eu tinha 8 anos. É dona das palavras mais bonitas e dos pensamentos mais puros. Ela não mereceu a história que teve.

Abay é fruto de um pobre berço, passou por muitas dificuldades na vida, mas creio que tudo isso a tornou a pessoa sensacional que ela é hoje. Eu tenho orgulho, muito orgulho de chamá-la de irmã. Algumas crianças inocentes me perguntam como eu sou irmã de uma criança negra sendo que minha família inteira é branca. Ah se eles soubessem que por dentro somos todos iguais... Minha irmã já foi muito discriminada nessa vida. Já foi acusada por coisas que não fez e insultada por ser negra. Sinto-me decepcionada com o ser humano constantemente, porque ele se interessa mais pelo exterior e se esquece da coisa mais importante dessa vida: o amor. E ele é independente da cor, raça e religião. “Abayomi” significa aquela que traz alegria, e é exatamente isso que ela é para minha família. Não somos inteiros sem a Abay. Família vai muito além do laço sanguíneo, é uma questão de conexão. Giulia Pellegrinelli Guedes – 9º ano B

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Negrinha, quem?!

Negrinha? Nojenta. Negrinha é pouco, deveria chamar-se pretinha. Nojenta. Esse conto? ridículo! Gostaria que ela tivesse morrido antes, ou nascido antes, para ser minha escrava.” Terminei de escrever e postar minha crítica ao conto “Negrinha” de Monteiro Lobato e fui dormir. Eram quatro e meia e eu não tinha feito meus deveres, além do mais, não precisava. Estudava no colégio mais caro do Rio de Janeiro, o melhor. É claro que não havia negros na minha escola. Quer dizer, tinham negros, mas eram todos bolsistas, burros, pobres. Dormi, e acordei com meu celular tocando. 30 chamadas perdidas. De quem? Todos. Meus professores, colegas de classe, dos meus pais, números desconhecidos, todos. O celular tocou novamente, era minha mãe, atendi, sem entender o motivo do alvoroço. - Alô? - Mário? - Sim, mãe. - O que foi aquilo, meu filho? Quanto racismo! Não te criamos assim. - Ai mãe, para de mi mi mi, esse negócio de racismo é tudo invenção dessa minha geração, por favor né! Desliguei. Quem ela achava que era pra falar comigo assim? Já que havia despertado, resolvi ver o motivo pelo qual as pessoas me ligavam tanto. Minha foto, meu post. Em todos os status de whatsapp, em todos os stories do instagram.

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Todos diziam: ”RACISTA!”

No meu whatsapp, Twitter e Instagram, tudo que eu lia eram xingamentos e mais xingamentos. Pessoas chamando o conselho tutelar, a polícia e me xingando cada vez mais e mais.

“RACISTA!”- eles diziam

“METIDO”- eles julgavam

“PRIVILEGIADO”- eles comentavam

Não conseguia compreender tamanho ódio, logo hoje em dia, quando dizem que devemos amar e respeitar ao próximo. Decidi, então, ligar para a minha professora de história. Ela era simplesmente incrível, e com certeza iria me entender, e saber que racismo não existe, afinal.

Procurei seu número e liguei.

- Mário?

- Sim Aline, eu gostaria de conversar sobre...

- Mário, achei que eu tinha te ensinado sobre racismo. Não se lembra das aulas sobre a escravidão no Brasil e tudo pelo que as pessoas negras passaram e ainda passam? Estou desapontada.

Ela desligou.

Por que esses idiotas me xingavam tanto? Bastardos! Imbecis! Estúpidos! Entrei no Twitter de novo. Haviam me marcado em um post. Algum desconhecido, obviamente. Decidi ler.

@Negrasesuashistorias: “Chamaram-me de suja. Fala-

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ram-me que eu nunca seria igual aos outros. Chamaram-me de ladra, de favelada, de nojenta. Jogaram-me pedras, não flores. Deixaram-me marcas. Vivi assim, desde sempre. Chorava horas no meu quarto pensando porque Deus me fez negra. Alisava meu cabelo cacheado todos os dias, mas eles não paravam. Pedia a Deus para morrer e renascer branca, linda. Chorava no abraço da minha mãe, perguntando por que o mundo era tão cruel. Então renasci. De alma, vi minha cor, minha história como única. Pela primeira vez na vida me orgulhei de mim, e hoje digo: Sou negra SIM, sou linda SIM. Não me importo mais com os julgamentos. Sou quem sou e nada vai mudar.” Não sei quem escreveu isso, mas me tocou de alguma forma. Marcas? Que tipo de marcas?

Resolvi pesquisar sobre racismo.

Passei quarenta minutos em frente a tela, pesquisando. Senti um pouco de culpa. Ela não merecia aquilo tudo só por ser negra, merecia? A mulher do Twitter, a personagem do conto. Mereceram tudo isso só por sua cor? Sim! Ou não? Agora eu já não sabia mais. Apaguei o post e resolvi ler mais comentários referentes a mim. Nossa, eu aparentemente sou uma péssima pessoa. Senti culpa, mas não muita. Ainda não podia compreender o porquê de tanto alvoroço, mas eu tentei. Duas semanas se passaram desde o ocorrido. A escola é um inferno. Agora eu estou indo a julgamento por racismo, que, por sinal, existe. Psicólogos uma vez na semana. Perdi amigos e colegas, todos me odeiam. Agora acho que começo a compreender o

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porquê. Meus pais sentiram que falharam na missão de educar, e algo que eu não consegui aprender sozinho, ou na escola, ou em casa, aprendi da pior forma possível, com o mundo. Júlia de Souza Hosken Portes – 9º ano A

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Perspectiva

Eu não entendo como os outros podem não apreciar um belo jardim. São tantas cores, tantas vidas únicas. Odeio quando aquelas pragas estragam as belas plantas. Por uma janela, observo as pequenas plantas animadas. Quando sou permitido, vou ao jardim e jogo água nelas para que não morram. Abro um sorriso quando percebo que elas estão chamando por mim: “Timóteo! Timóteo! Como você está?”, “Timóteo tem sorte que não se queima no Sol como nós!”, “Timóteo! Cuide de nós”. Adoráveis essas plantas! Verdadeiras amigas. Depois de minha bela Sinhá me deixar para um chão frio e com larvas, as plantinhas perceberam a minha tristeza e logo, logo todos os jardins ficaram ainda mais vivos. Ainda sou, claro. Sempre amei jardins. Pelo menos onde estou agora tem um jardim. É quase uma casa, exceto que não me sinto em um lar. As plantinhas riem e eu sorrio por ver a felicidade delas. Porém, em um instante, tudo isso termina. Em um piscar de olhos, tudo se esvai. E tenho que voltar para o meu quarto. Não é aconchegante, é frio. E, no quarto, as enfermeiras chegam com meu remédio, que elas falam que é para esquizofrenia. Não acredito nelas.

Eu não sou louco. As plantas só gostam de mim. Iara Trevor Russi - 8º ano A

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Pedro Assis Lamim - 4ยบ ano A

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Chegou...

Tic tac tic tac tic tac... Trim!

Pronto, acabou, mais um dia de trabalho passou. Agora era esperar que chegaria a casa e assistiria a uma típica cena de jantar em família e depois jogaria seu corpo fadigado em cima do que se chama de cama, feita de palha e com lençóis remendados. Recolheria o restante de suas forças para apenas ajeitar o trapo que vestiria na manhã seguinte, e também o relógio enferrujado pelo tempo que só dava sinal de vida às seis horas da manhã, quando tudo recomeçaria novamente, como um túnel sem fim, nunca chegaria até a luz... Todo santo dia o pobre negro labutador nunca esperava mudança qualquer, era sempre a mesma coisa, com suas mãos firmes e grossas ele levantava-me e depois fazia uma verdadeira obra-prima, os grandes e férteis pedaços de terra eram totalmente capinados, ou ficavam repletos de buracos para surgirem ali os mais esbeltos pés de alface, que seriam verdes e saudáveis como as belas árvores ao redor. O que não se via mais tão belo e bem-humorado era o pobre de meu dono, cada vez mais parecia avelhantado e consumido de tanto trabalho desde a juventude. Tinha tempos que com um só golpe eu perfurava “o núcleo da Terra”, agora eu mal alcanço a segunda faixa de chão da horta, sinceramente como o tempo pesa, não é mesmo? E para piorar, o Seu Jorge, que era o donatário de tudo que era terra naquela região, só sabia desonrar e insultar o velho negro, de quem nem se sabia o nome... Onde neste mundo pode surgir tanta desigualdade!?

Tic tac tic tac tic tac...Trim!

Pronto! Mais um dia de trabalho se foi, mas desta vez uma coisa alterou-se ... finalmente o negro viu-se na luz branca...

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mas não do homem e sim de Deus. Mariana Santiago Bassi Correa – 8º ano B

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Davi Nunes Miranda - 2ยบ ano B

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Nicolas Torres Campos - 2ยบ ano A

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A casa amarela do fim da rua

- Vó, por que tivemos que sair do sítio? - disse Narizinho.

- Narizinho, acontece que não estávamos mais conseguindo sustentar o sítio - disse Dona Benta. - Mas a tia Nastácia, o Visconde, o Barnabé e o Pedrinho ainda vão conviver com a gente, né? - Talvez não na mesma casa, mas com certeza todos bem pertos. Alguns dias depois, a família chegou nesta nova casa, que ficava em uma comunidade não tão privilegiada, mas até que dava para viver. Tia Nastácia, Barnabé e Visconde eram vizinhos da família. Certo dia, Narizinho achou uma boneca na rua e resolveu levar para a tia Nastácia costurar algumas partes e, como num passe de mágica, ela ganhou vida. Como Narizinho havia perdido a Emília na mudança, deu nome a esta nova boneca também de Emília. Já Pedrinho nem bem chegou à rua em que passaria as férias a partir dali e logo achou um cachorro, a quem deu o nome de Rabicó, já que o porquinho tivera um fim desagradável no sítio. A vida daquela família corria tranquilamente e tudo estava indo bem na nova casa até que apareceu uma nova vizinha chamada Cuca. Ela não fazia muita questão de fazer amizade com a vizinhança. Curiosos, Pedrinho e Narizinho foram à casa do cientista falido, Visconde, perguntar se ele conhecia a tal Cuca. Depois de recebê-los, o cientista disse: - Não a conheço, pergunte à Nastácia ou ao Barnabé que certamente a conhecem. Os meninos não acreditaram muito na

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fala de Visconde, mas foram à casa ao lado indagar. - Tia Nastácia, Barnabé, vocês conhecem a Cuca? – perguntou Pedrinho. - Sim, quer dizer, não. Essa é uma longa história! – respondeu Barnabé. Não conformadas, Narizinho e Emília foram então a procura de Cuca. Quando chegaram a casa dela, espiaram e, para a surpresa das duas, viram a misteriosa Cuca mexendo um caldeirão e falando:

- Eu vou buscar a Dona Benta! Dessa vez ela não resiste!

Narizinho se assustou e ficou pensando que esta Cuca poderia fazer algum mal a sua vó, Dona Benta. Não pensaram duas vezes, correram para falar com o Pedrinho, criaram um plano e começaram a colocá-lo em prática. - Narizinho, enquanto eu e a Emília vamos montando as armadilhas, você vai à casa da vovó vigiar todos os seus passos. – disse Pedrinho. O que os meninos não sabiam é que enquanto eles estavam finalizando parte do plano, Cuca levou Dona Benta para a sua casa. Ao descobrirem que Dona Benta havia sumido, logo pensaram na Cuca. Cada segundo contava naquela hora! - Dona Benta, experimenta esta deliciosa sopa que fiz especialmente para você. – disse a Cuca já com o prato na mão. - Claro, eu vim aqui para... – tentou dizer Dona Benta, mas antes dela completar a fala, Narizinho, Pedrinho e Emília interromperam gritando:

- Nãooooooooo!

- O que foi, crianças? - disse Dona Benta

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nho.

- Essa sopa está envenenada, não aceite! - disse Narizi-

Neste momento, Dona Benta olhou para a Cuca e, juntas, deram uma gargalhada! Dona Benta tomou um pouco da sopa e percebeu que estava uma delícia e falou: - Realmente, Cuca, não deu para resistir a este tempero novo que inventou! Eu quero a receita! Crianças, venham tomar, está ótima! As crianças sentaram à mesa, tomaram a sopa, que realmente estava ótima, e ouviram muitas histórias fantasiosas sobre a Cuca, mas a melhor lição que tiraram é que realmente as aparências enganam. E assim foi mais um dia da turma da casa amarela do fim da rua. Ana Rita de Serpa Carvalho - 7º ano A

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Augusto Resende Borges Silva Nogueira - 3ยบ ano A

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De volta ao sítio

Cansado de sua vida agitada na cidade grande, Monteiro Lobato, famoso escritor, resolveu voltar à cidade natal, Taubaté-SP, e visitar o sítio onde cresceu, palco de histórias que ficaram conhecidas em todo o país. Ao chegar, sentou-se próximo ao ribeirão para apreciar a bela paisagem, mas tamanha foi sua surpresa ao perceber que aquelas águas, que outrora corriam límpidas e apressadas em meio às pedras, agora estavam turvas e sem vida. Subitamente, uma força inexplicável puxou o autor para aquele rio. Desesperado, ele se debatia e tentava, em vão, voltar à superfície. Depois de um tempo, tudo se aquietou e Lobato se viu em um lugar diferente, onde nunca, em suas histórias, havia imaginado. Estava no “Reino das Águas Turvas”, local sombrio e muito distante do lindo “Reino das Águas Claras”, criado por ele. Nosso querido autor foi recepcionado pelo Príncipe Descamado, cujo semblante era de profunda tristeza. Contou que ele e todos os seres aquáticos que ali habitavam foram contaminados por algum produto tóxico e que seus súditos estavam morrendo sem que ele pudesse fazer algo. Junto ao príncipe estava Emília, a boneca espevitada que ganhou do Dr. Caramujo a pílula “falante”, mas até ela era só aflição e desolação. Presos naquela dimensão, não lhes restavam muitas coisas a fazer! Percebendo que sua presença ali não fora por acaso, Monteiro Lobato logo tratou de ajudar seus personagens. Imediatamente, jogou em si um pouco do “pó de pirlimpimpim”, que ganhou de Emília, e voltou ao mundo real. Logo descobriu que o riacho havia sido contaminado por agrotóxicos vindos de uma plantação na fazenda vizinha. O herói Lobato foi até este local e teve uma longa conversa com o proprietário, conscientizando-o dos malefícios desses produtos e de quanto a água era um bem precioso para a humanidade.

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Algum tempo se passou... Trabalhos foram feitos para despoluir o rio... Certa noite, ao chegar à sua casa, após um longo dia de trabalho, Lobato foi surpreendido por um presente original: em sua cama havia um botão bem colorido e diferente e ao lado também estava uma alga bem verdinha, daquelas que crescem no fundo dos rios. Precisa um aviso melhor que este para provar que a paz e a alegria retornaram àquele querido lugar? Isadora Resgalla Resende - 7º ano B

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JĂşlia Bracarense Sacramento - Infantil II A

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Melhor presente

- Venha, filha, você vai chegar tarde à casa de sua avó!

- Nossa, Narizinho, você não tira o olho do celular, né?

- Cale a boca, garoto irritante!

Quando chegaram à casa de Dona Benta, ela mesma chamou Narizinho e lhe disse: rida!

- Narizinho, eu queria te entregar uma coisa, minha que-

- O que, vó?

- Esta boneca aqui, foi minha amiga por muitos anos e garanto que será sua também! - Narizinho olhou para a avó com uma cara de desprezo, mas deu um sorriso disfarçado. Após o dia na casa da avó, chegaram muito cansados em casa e resolveram dormir para que no dia seguinte fossem à escola. - Filha, acorde! Já está na hora da aula, se arrume e faça sua cama.

- Ei...Psiu!

- Eu aqui! Não me olha não?

- Ah! – Narizinho disse baixinho e perguntou com medo: -Vo...vo...você fala?

- Sim, não sou uma simples boneca de pano não!

- Meu Deus!

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- Pare de ficar impressionada e vá para a aula! Depois conversamos! - Narizinho foi à aula e quando voltava, ainda no carro, disse à mãe:

- Mãe, eu fui mal na prova...

- De novo, filha?!?

Chegando à sua casa, Narizinho correu para ver a boneca, que lhe explicou como foi criada por Dona Benta e o dia em que recebeu a vida.

- Filha!

- Esconde! Esconde! O quê foi mãe?

- Vá chamar o Barnabé para consertar o encanamento de água que quebrou.

- Peça ao Pedrinho, mãe!

- Tudo bem!

Pedrinho trouxe o tio Barnabé, que ao se deparar com a boneca, exclamou:

- Mas que boneca linda, Narizinho!

- Obrigada! – Depois que o Barnabé saiu, Narizinho disse à boneca: - Eu vou é vender você e comprar um jogo eletrônico! – Assim, Narizinho já procurava um comprador na internet quando ouviu a boneca gritar:

- Tô nem aí!

Narizinho ficou brava com o comentário da boneca e jo-

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gou uma bolinha de papel em seu rosto. As duas começaram uma guerra de bolinhas, brincaram a noite toda, se divertiram à beça. Na manhã seguinte, Narizinho foi à escola e levou a boneca junto para observar aquele local. Ninguém percebia que as duas conversavam, quando voltaram, as duas estudaram e fizeram tarefa, depois foram à sorveteria, voltaram para casa... Passearam muito nessa semana e viraram melhores amigas. Certo dia, tocaram a campainha, Narizinho foi atender com a boneca nas mãos: - Olá! Sou eu o comprador da boneca, vi seu anúncio na internet e me interessei! - Não vou vender nada! – Narizinho bateu a porta e explicou à boneca que não pensava mais naquela hipótese, mas já era tarde: - Não gosto mais de você! – de repente a boneca fugiu e gritou que nunca mais voltaria, Narizinho saiu correndo atrás da boneca, quando deu de cara com o tio Barnabé:

- Por que você está correndo?

- Não dá tempo de explicar, desculpa!

Mas entendendo a situação, tio Barnabé gritou:

- Nunca é tarde! Corra! Salve a boneca!

- Mas como?

- Siga seu coração...

Narizinho achou a boneca chorando, pediu desculpas e lhe disse:

- Se você quiser ser minha boneca para sempre, vou te

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chamar de Emília!

- Adorei o nome!

E o final? Todos já devem imaginar! Guilherme Badia Hecksher - 6º ano

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Ana Laura Silveira Bastos - Infantil II B

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Como surgiu E-mília

- Estou quase lá! Calma, Visconde, calma! Nãooooooo...

Por que isso só acontece comigo? Aff... Não deu certo de novo. Estou cansado. Vou parar um pouco e almoçar. – dizia Visconde para ele mesmo. - Oi, meninas, ‘’turo’’ bom?! Então, o vídeo de hoje vai ser épico. Hoje eu vou fazer um tour no laboratório do meu tio. Bora lá? Ele é um grande cientista, maluco é verdade, mas isso não conta... Chegamos! Tio Visconde? Tio Visconde? Galera, meu tio não está aqui agora, mas vamos entrar mesmo assim. Então, aqui ficam os potinhos para fazer as misturas e aqui ficam os ingredientes e....Tiiiio!!!!!! - Nossa, que gritaria é essa, Narizinho?– chega Visconde correndo.

- Que boneca é essa? Ela está se mexendo!

- O quê? Deu certo? Há anos eu venho pesquisando na internet e tentando fazer um ser humano a partir de uma boneca. E parece que eu consegui.

- Ela já tem um nome, tio?

Seu nome será E-mília, ela crescerá e terá muita personalidade! - Esse tour foi melhor que eu imaginava. Além de um passeio divertido, acabei ganhando uma amiga! Não disse que seria épico? Até o próximo vídeo! Lavinea Resende Lima - 6º ano

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Isabela Serpa Marques - Infantil III A

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A segunda jaca do sítio

Um dia, no sítio do Picapau Amarelo, Emília e Visconde estavam passeando pela floresta quando duas jacas caíram. Uma caiu em cima da Emília e a outra no Visconde. Emília foi salva pela tia Nastácia, que viu seus pezinhos de fora da jaca. Emília e tia Nastácia foram para casa e Emília logo deu falta do Visconde. Ela falou com todos no sítio, que foram procurá-lo. Depois de muito procurar e não encontrar, a boneca teve uma ideia: pedir ajuda aos sacis para encontrar o Visconde. Ela usou o periscópio do Visconde, encontrou os sacis e os prendeu dentro de uma garrafa. Emília prometeu libertar os sacis e dar fumo para cachimbar caso eles encontrassem o Visconde. Eles foram até perto da jaqueira, encontraram o Visconde morto e o levaram para casa. Em casa, dona Benta tentou trocar as partes do corpo do Visconde, mas não adiantou. Aí tiveram a ideia de espremer o sabugo e saíram três gotinhas. Colocaram as gotinhas na boca do Visconde e ele reviveu. No sítio, todos ficaram alegres. Pedrinho teve a ideia de fazer um teste para ver se estava tudo bem e então perguntou ao Visconde:

- Qual é a cor do cavalo branco de Napoleão?

E Visconde respondeu:

- A cor de burro fugido!

Vendo que a resposta era científica, perceberam que tudo estava bem e todos comemoraram. Henrique Besamat Gonçalves – 5° ano A

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Pedro Resende Vieira - Infantil III B

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A segunda jaca

Depois do caso da jaca que caiu na Emília, houve o segundo desaparecimento do Visconde (o primeiro foi quando ele ficou atrás de uma estante por várias semanas) e agora, novamente, todos estavam à sua procura. O sítio estava ficando sem graça com o desaparecimento do Visconde, inclusive a Emília, coitada, disse que ele era um órgão dela. Desesperada, Emília pensou em procurar ajuda com os sacis, mas para isso tinha que armar uma armadilha! E não é que a danadinha armou e conseguiu! Foi uma festa só...

- Peguei!

Ela pediu ajuda a ele e o saci lhe fez um acordo:

- Eu lhe ajudo a procurar e, em troca, você me dá fumo. Então eles foram à procura. Eles procuraram por muito tempo, mas não acharam nada. Um dos sacis disse para ela falar quando ela viu o Visconde pela última vez. A Emília disse que foi quando o Visconde estava fazendo uma palestra, quando caíram duas jacas e uma caiu na cabeça dela.

- Mas e a outra jaca? O Visconde pode estar nela!

Essa ideia passou como um raio na cabeça da Emília. Ela foi correndo para o local onde aconteceu o acidente, olharam a outra jaca e viram que o Visconde estava lá, morto. Tentaram usar um espelho para ver se ele estava respirando e não estava. Foi então que dona Benta trocou o corpo dele, porém não funcionou. Fizeram um suco com o sabugo velho dele e espirraram três gotinhas em sua boca. Ele abriu os olhos, começou

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a respirar e fizeram uma pergunta a ele:

- Qual é a cor do cavalo branco de Napoleão?

- Cor de burro quando foge.

E assim verificaram que o Visconde estava bem cientificamente! Leon Garcia Saraiva Cruz - 5° ano B

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Ana Laura de Carvalho - 2ยบ ano B

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Rua Nossa Senhora Auxiliadora, 56 - Fábricas CEP: 36.301-162 - São João del-Rei-MG - (32) 3371-7272 www.institutoauxiliadora.com.br Instituto Auxiliadora SJDR @institutoauxiliadorasjdrmg Instituto Auxiliadora SJDR

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Profile for IA Sjdr

Monteiro Lobato: Tudo novo, de novo, num sítio...  

Produção da Semana Literária 2019

Monteiro Lobato: Tudo novo, de novo, num sítio...  

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