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A realidade me mandou não sonhar, mas eu sonhava com uma faculdade. Fiquei quatro anos no pré-vestibular da Maré e cursei jornalismo na Puc Rio. Sou formada há 5 anos e atuo há 15 como comunicadora comunitária das 16 favelas que formam a Maré. Participei durante mais de 10 anos do Jornal O Cidadão, comunitário que circula há 17 anos nas favelas da Maré. A sua linha ediopportunity to study or to learn to write his torial é voltada para a garantia de direitos e para own name. a defesa da identidade favelada. Desde 2007, Reality told me not to dream, but I também participo da Revista Viração, meio de dreamed of going to university. I spent four years preparing for the entrance exam educomunicação que circula em todo o país. in Maré and I studied journalism at the Hoje, conheço quase todos os estados braCatholic university, PUC-Rio. I graduated sileiros por causa da luta pela defesa da identifive years ago and I have been working in community media for the 16 favelas that dade favelada e da comunicação comunitária. make up the Maré complex for 15 years. For Viajei duas vezes para fora do país, também over ten years, I contributed to por causa dessa luta, que também se volta à não O Cidadão, the community newspaper that has been distributed in the Maré favelas militarização da vida favelada, mas que se volta for 17 years. Its editorial line focuses on the muito mais ao nosso desejo de viver, de que não defence of rights and the identity of the peoexista mais o extermínio da população pobre, ple from the favelas. Since 2007, I have been participating in the Revista Viração team as negra e favelada. Com isto, nós nos resumimos well, which is an edu-communications tool em força e resistência diária! distributed all over the country. I have been to nearly all of the Brazilian states because of the struggle to defend the identity of the favelas and community media. I have travelled abroad twice, also because of this struggle. This struggle is also against the militarisation of life in the favelas, but it is much more focused on our desire to live and to ensure that there are no more attempts to exterminate the poor, black people of the favelas. Our struggle can be summed up as power and daily resistance!

Os impactos da militarização Desde que nasci, moro no Conjunto de Favelas da Maré. Durante a maior parte da minha vida, morei em uma das favelas que fica localizada na ‘divisa’ da Maré. É um lugar em que muitos não circulam, temido porque a militarização da vida se faz presente ali. Minha infância foi marcada por esse luThe impacts of militarisation gar: brincadeira na rua, festas juninas e julinas, I have lived in the Maré Complex since I som alto do salão de forró que ficava ao lado was born. For most of my life, I lived in one da minha casa, festas de vizinhos, os famosos of the favelas located on the edge of the complex. It is a place that many people do not go mutirões na rua para levantar a laje do vizinho, to. It is feared because of the militarisation of a casa de doces, as igrejas, a feira. Tanta coisa boa. É essa a vida favelada, a que deveria ser sempre. Mas, com o passar dos anos, o número de invasões causadas pela polícia e de conflitos inventados pelo governo – na ideia de ‘combate ao tráfico de drogas’ – começou a atrapalhar essa realidade tão viva da minha infância. Minha adolescência e juventude foram marcadas pela violência do Estado na minha porta. Eram casas invadidas por

Atingidas miolo final (1)  
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