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DARK WRITER BR Mary Prince é uma linda garota de 16 anos que vive em um típico bairro nobre do Reino Unido. Filha de um conceituado médico e de uma mãe mimada, acabou puxando as qualidades e os defeitos dos pais. Nas férias de verão de um ano muito conturbado para todo o planeta, a família Prince decide fazer uma longa viagem para uma cidadezinha no norte da Grã-Bretanha. Porém a viagem se torna muito mais longa e estranha do que o esperado. De meteoritos caídos do espaço a monstros esqueléticos, a garota Prince se depara numa aventura surpreendente e assustadora, onde o céu e o inferno nunca estiveram tão próximos.

Boa Leitura.

Capítulo um A luz na estrada Mary Prince acordou, podia escutar seus pais discutindo no andar inferior, provavelmente seu pai estava irritado com a quantidade de coisas inúteis que estavam sendo levadas nas malas de viagem. A garota se espreguiçou, se esforçando para abrir os olhos e afastar o sono; foi dormir tarde na noite passada, pois ficou ajudando sua mãe a fazer as malas para a tão esperada viagem de férias de verão. Sentou-se sobre a cama, mas sentiu seu corpo pedir por mais horas de sono, viu sua imagem refletida no espelho do guarda-roupa; ela era uma garota muito bonita, como quase todas as garotas de dezesseis anos de seu bairro. Seus olhos cinza-prata contrastavam com sua pele branca, o cabelo comprido e louro estava todo desgrenhado depois de muitas reviravoltas sobre o travesseiro por causa de pesadelos sinistros e medonhos, mas isso a garota não se recordava. – Bem, acho que decididamente eu não sou nada bonita de manhã – disse ela lançando um olhar desanimado ao espelho, como se ele pudesse escutá-la. Colocou seus pés descalços no chão gelado e caminhou lentamente até janela, correu a cortina, e deixou a claridade do dia entrar. O céu estava muito azul e o sol brilhava forte no horizonte, mas isso não foi surpresa, pois as altas temperaturas na Europa estavam batendo recordes nunca alcançados antes e os telejornais não economizaram em notícias sensacionalistas para anunciar que hoje seria o dia mais quente que Londres iria registrar em sua história. O jardim de sua mãe estava uma beleza devido ao tempo ensolarado. Borboletas coloridas voavam lá embaixo, sobrevoando as flores bem cuidadas e a cascata artificial que desaguava na piscina, que por sua vez, pedia um mergulho, convidativa e cristalina. Ao ver


isso, Mary desejou mais ainda que seus pais permitissem que ela ficasse em casa naquelas férias. Era muito melhor passar um mês se divertindo em festinhas em sua casa com pessoas de sua idade do que passar um mês passeando a cavalo com os pais em algum canto isolado e sem graça da Inglaterra. – Filha, é bom você se levantar! Combinamos estar bem longe de Londres muito antes das oito horas – gritou seu pai com sua habitual voz grave. – Já estou indo – respondeu impacientemente. Mary despiu a camisola e correu para o banheiro, escovou os dentes e depois se enfiou debaixo do chuveiro. Sentiu a água fria descer pelo seu corpo, aquela sensação agradável a fez se sentir mais sonolenta ainda, tudo que queria naquele momento era continuar dormindo em sua confortável cama. E imaginar que teria que passar as horas seguintes dentro de um carro não era nada agradável. Poucos minutos depois, a garota estava descendo a escada para o primeiro andar de sua casa, seu cabelo ainda pingando água por causa da falta de tempo para enxugá-lo; seu pai gritava de segundo em segundo para que descesse logo. – Achei que tivesse morrido afogada dentro da banheira – disse ele quando ela mal tinha se sentado à mesa para o café da manhã. – Você assistiu as recomendações do ministro para o racionamento de água. – Mas eu nem demorei muito, pai – defendeu-se ela. Sua mãe estava se certificando se as duas janelas da enorme cozinha estavam realmente fechadas. – A ultima coisa que quero, quando voltarmos das nossas férias, é descobrir que nossa casa foi assaltada – dizia ela verificando as fechaduras. – Mãe, dos dez anos que moramos aqui, nunca ouvi falar em nenhum caso de assalto – disse Mary enquanto passava geléia de morango no pão. – Às vezes acho que sua mãe tem síndrome do pânico – comentou seu pai tentando conter o riso, mas sem sucesso. – Não achei a mínima graça, Charles – retrucou sua mãe em tom sério. – É que você é mal humorada, Alice – disse seu pai abrindo um sorriso ainda maior no rosto. Mary sabia que se tinha uma coisa que ele adorava, era irritar sua mãe. – E como você quer que eu fique bem humorada com um calor desses?! Sinceramente, não sei como os países tropicais sobrevivem com temperaturas tão altas – Alice sentou à mesa e encheu uma xícara de chá gelado. – Mas isso tudo tem um lado positivo; sobrou mais espaço pros sapatos de salto alto na minha mala, já que não precisaremos de roupas de frio. – Sapato de salto alto pra quê? – perguntou Mary, mal acreditando no que escutou. – Nós vamos viajar para um hotel que fica no interior da Inglaterra. Não haverá nenhuma festa ou algo parecido para irmos bem vestidas. A não ser que leve sapato de salto alto pra andar a cavalo. – Uma boa ideia – falou Charles em tom irônico. – Mas pode acontecer algum imprevisto – disse sua mãe ignorando o comentário do marido. – Então, quando terminar o café, pode subir para o quarto e escolher algum sapato de salto alto para pôr na sua mala também. Mary lançou um olhar desanimado à mãe. – Tem certeza de que eu tenho que ir com vocês nessa viagem babaca? Eu já tenho dezesseis anos, não sou mais aquela garotinha de seis anos que gostava de ir pra fazenda no interior e cavalgar com o papai e a mamãe. Por favor, me deixem ficar – disse em tom de súplica. – Mary, a gente sempre viaja nas férias de verão juntos, e esse ano não será diferente – disse seu pai terminando de beber o café e colocando a xícara vazia sobre a mesa de vidro. – E será assim até você ser maior de idade e poder fazer suas próprias escolhas, mas enquanto


morar debaixo do nosso teto será do jeito que eu e sua mãe quisermos. E a gente já teve essa mesma discussão ontem, estou cansado desse assunto de você não querer viajar. – E no fim você vai acabar gostando – falou sua mãe. – Por que a gente não viaja pra um lugar mais divertido ao invés de ir pra um hotel no interior? Vocês escolheram muito mal nosso destino de férias este ano – continuou Mary, irritada. Ela sabia que estava discutindo em vão, que no final seus pais iriam obrigá-la a viajar mesmo a contragosto. – O interior é calmo, vai tirar o estresse dessa cidade agitada da nossa cabeça. – Eu não quero passar as férias num lugar calmo, mãe. Se ao menos eu pudesse levar meu smartphone, mas nem isso vocês querem deixar. – Não, mesmo – sentenciou Alice. – Nada de smartphone, laptop ou qualquer outra coisa que possa nos manter conectados com a loucura desse mundo moderno. Vamos passar semanas de puro sossego, é pra isso que férias servem. – A conversa está boa, mas já passou da hora de pegarmos a estrada – falou Charles. – Vamos pegar as malas e levar para o carro. – Vai começar a tortura – disse Mary desanimada, erguendo-se da cadeira para pegar o sapato de salto alto em seu quarto. A garota tinha muitos pares de sapatos em seu guarda-roupa, mas não teve dificuldade nenhuma para escolher o que iria levar pra viagem, pois pegou o mais feio e o mais velho. Tinha certeza de que não havia necessidade alguma de levá-lo porque não iria usar, mas não queria discutir com sua mãe. Jogou o sapato dentro de sua mala e a fechou, então segurou na alça e fez força para erguê-la e levá-la para o primeiro andar. Quase caiu na escada por causa do peso, mas recuperou o equilíbrio antes de descer rolando os degraus. Quando chegou lá embaixo descobriu que o peso de sua mala não era nada se comparado com o peso da mala de sua mãe. Seu pai fazia força para carregar a mala de Alice até o carro. – O que você pôs aqui dentro, Alice? Um elefante? – perguntou ele jogando a mala no porta-malas, seu rosto vermelho por causa do esforço. – Me diz de onde você tirou tanta roupa para lotar uma mala enorme desse jeito. A minha está praticamente vazia. – Você não precisa de secador pro cabelo – retrucou Alice. – Quantos secadores você está levando então, cem?! – perguntou ele rapidamente. – Não, estou levando só dois. – Você não vai usar metade destas coisas – disse ele, fechando o porta-malas, por fim. – Ela vai preparada, caso precise passear no shopping – disse Mary ironicamente, entrando na parte de trás do carro. Ela já estava acostumada com os mimos que a mãe tinha, pois ela e seu pai conviviam com aquilo todos os dias e, de certo modo, achava divertido. Sabia que sua mãe fora criada com os maiores cuidados que uma garota poderia ter. Seus pais, avós de Mary, eram muito ricos. Então não culpava a mãe por ser tão fútil de vez em quando. O carro de viagem da família Prince estava no ranking dos mais caros e modernos do momento. Suas portas duplas abriam para cima e suas poltronas eram feitas do mais fino couro, seu motor automático recebia ordens pela voz dos donos, mas o pai de Mary preferia dirigir manualmente. O veículo deslizou para fora da garagem, onde os dois carros de trabalho, um de Alice e o outro de Charles, foram deixados para trás. O portão automático da mansão abriu e o carro negro saiu para a rua. – Espero que os empregados cuidem bem da nossa casa – Mary escutou sua mãe dizer no banco da frente. – Querida, eles sempre cuidam bem da nossa casa – falou Charles, enquanto ligava um dos dispositivos tecnológicos causadores do alto preço daquele automóvel no mercado. A fina tela multi-touch se ergueu do painel e ele tocou no item onde estava a sigla GPS, mas o que apareceu na tela de vidro foi algo muito diferente das costumeiras ruas londrinas. Pedimos desculpas pela interrupção: o sistema voltará em breve. – Outra vez isso está fora do ar? – indagou Charles, perplexo.


As frequentes falhas no Sistema de Posicionamento Global estavam causando uma verdadeira dor de cabeça na população durante os últimos dois meses. Os motivos das interrupções nunca eram informados com precisão pelo Departamento de Defesa, o que só fazia aumentar os questionamentos e suposições. – Talvez a alta temperatura tenha causado alguma confusão no campo eletromagnético – comentou Alice, também surpresa. – Legal, mais um motivo pra gente não viajar! – Mary agradeceu interiormente. Existem outros meios de se descobrir o caminho – disse Charles enfiando a mão no portaluvas e pegando um mapa da Inglaterra, um sorriso satisfeito no rosto. – Barato e prático. Mary viu sua última esperança de não fazer a viagem ir por água abaixo. Desanimada, encostou a testa no vidro da janela e observou os vários casarões e apartamentos do bairro passarem um atrás do outro, os cachorros de raça de seus jardins latindo para o automóvel em que estava. Pouco tempo depois, o carro já havia saído do bairro e pegava a principal estrada que os levaria para fora da cidade. – Não acredito nisso – disse Alice. – Era tudo que a gente precisava para tornar o dia melhor – falou Charles enquanto pisava no freio, parando o carro. O ânimo de Mary foi ao chão quando ela se ergueu para avaliar o tamanho do engarrafamento que iriam ter que enfrentar; uma fila interminável de carros se estendia perante seus olhos, tomando a pista até onde sua visão alcançava. As buzinas não paravam de soar e por toda parte guardas de trânsito tentavam pôr ordem naquela baderna. – Pelo visto nós vamos passar horas nesse engarrafamento – disse ela desanimada. – Se a gente tivesse saído mais cedo, como sugeri ontem, talvez não estivéssemos nesse trânsito – falou seu pai, parecendo irritado. – Agora vai me culpar por estarmos nesse engarrafamento? – perguntou Alice, em tom de quem também está irritada. – E já passou da hora de o prefeito dar um jeito no trânsito dessa cidade. – Acho que deve ter acontecido algum acidente – comentou Mary procurando algum sinal de fumaça que pudesse anunciar um incêndio ou qualquer coisa parecida, mas os altos prédios em volta impediam uma melhor visualização. – Tem de ser uma batida das feias pra deixar a cidade parada desse jeito – comentou Charles observando um guarda discutir com uma senhora que, aparentemente, queria contornar o carro visando passar por cima de um canteiro público. – Eu vou perder o café da manhã com minha nora, não posso me atrasar – gritava a velha, seus óculos escuros, que mais pareciam uma imitação dos olhos de algum inseto, se agitando sobre seu nariz. – Eu vou pegar outra pista que não esteja engarrafada. – A senhora não pode passar por cima do canteiro... ! – dizia o guarda, mas a idosa pisou fundo e seu velho carro de cor laranja contornou por cima do canteiro e foi para o outro lado da pista, deixando o guarda coberto de fumaça e terra. – A senhora vai... Cofff!... receber uma multa por isso! – gritou ele tossindo, enquanto pegava a prancheta e anotava os números da placa do carro. – É, nosso dia promete ser muito agitado – disse Mary boquiaberta, olhando para o pontinho laranja, o automóvel da coroa, que cada vez ficava mais distante. – Quero chegar à terceira idade com a disposição dessa senhora. O tempo foi passando, mas ao contrário do tempo, o automóvel onde estavam pareceu não sair do lugar. O trânsito ainda estava muito engarrafado e havia muita estrada pela frente. As buzinas dos carros soavam cada vez mais estressadas e impacientes, e os motoristas gritavam e xingavam, irritados. Mary já estava começando a ficar com dor de cabeça com aquela confusão toda, mas até agora o motivo do tráfego no centro de Londres estar parado não tinha sido anunciado. Nem os próprios guardas sabiam dizer, ou estavam tão nervosos e ocupados aplicando multas, que fingiam não ouvir as constantes perguntas que estavam


sendo feitas. O sol se tornava cada vez mais quente no céu azul-anil e ainda nem era meiodia. Dentro do carro estava abafado, e Mary, que estava deitada confortavelmente no banco de trás, sentia gotículas de suor se formarem em sua testa. – Liga o ar condicionado, pai! – disse ela rapidamente, pois tinha acabado de lembrar do ar, e aparentemente seus pais estavam querendo tanto se ver fora daquele trânsito que, provavelmente, estavam se imaginando numa sauna, deduziu a garota. – Como conseguimos esquecer o ar num calor desses?! – falou Charles, impressionado, apertando o botão para acionar o aparelho de refrigeração; o vento gelado logo começou a circular pelo veículo, deixando o ambiente mais fresco. Mary teve a ligeira impressão, pelo tom da voz de seu pai, que ele estava dormindo e só acordara porque a ouvira chamar. – Você estava dormindo? – perguntou ela em tom ameaçador e, ao mesmo tempo, achando engraçado. Sentou-se para poder ver a expressão no rosto dele, se era de sono. – Claro que não – disse ele esfregando os olhos e tentando não olhar para o retrovisor, onde os olhos muito claros da filha o avaliavam. – Imagina. – Por que a senhorita Alice está tão calada? – perguntou Mary teatralmente, pois acabara de escutar suspiros do banco a frente. – Pelo visto não era só eu que estava dormindo – disse ele olhando para o banco ao lado, onde Alice estava. Mary pôs a cabeça entre o espaço dos dois bancos da frente e olhou para o lado; sua mãe dormia feito um bebê, seu cabelo muito louro escorria pela sua face fina e muito branca. Suspirava baixinho, e por vezes movia as pálpebras como se as muitas buzinas que soavam em seu ouvido pudessem fazê-la acordar a qualquer momento. – Incrível como até dormindo ela é linda – disse seu pai apaixonadamente. – Claro, é minha mãe – disse Mary voltando a se largar na poltrona do carro. Foi quando percebeu que estava faminta. Olhou seu relógio de pulso, os ponteiros estavam se aproximando do número doze, o que significava que faltavam poucos minutos para o horário do almoço. – Pai, estou com fome. – Eu sei, filha – disse ele enfiando a mão no bolso e tirando sua carteira. Pegou algumas notas e entregou a Mary. – Já está na hora do almoço. Eu tinha planejado almoçarmos em algum restaurante de beira de estrada, mas já que estamos no centro de Londres ainda, acho que você pode ir numa lanchonete e comprar uns sanduíches. Tenho certeza de que o carro não vai sair dessa posição tão cedo, portanto tem tempo de sobra para escolher os melhores sanduíches e coisas gostosas que quiser. – Vou lá então – disse ela pegando o dinheiro e saindo do carro. A zoada que era escutava dentro do automóvel não era nada se comparada com a que fazia ali fora. As buzinas soavam mais altas do que nunca e os motoristas berravam com os guardas “Que diabos está acontecendo com essa cidade?!”. O sol de meio-dia brilhava com toda potência e o ar quente que subia do asfalto fez Mary sentir como se estivesse dentro de um vulcão. A garota passou por entre os carros e chegou à calçada. Homens e mulheres passavam pra lá e pra cá com suas roupas estilosas, afinal estavam em Londres, um dos maiores centros financeiros do mundo, e Mary acabou tendo dificuldade para entrar numa lanchonete ali perto por conta do alto número de pessoas. – Aiê! – gemeu ela, pois mal tinha acabado de entrar pela porta de vidro do estabelecimento e já haviam esbarrado nela. – Desculpa, moça. Foi sem querer – disse o garçom, que estava equilibrando em uma das mãos uma bandeja cheia de batatas fritas e na outra segurava três copos cheios de suco de laranja. Por pouco tudo não havia caído, mas ele conseguiu se equilibrar a tempo de evitar o desastre. – Ah... não foi nada – disse Mary deixando o garçom de lado e indo em direção ao balcão para pedir os sanduíches.


A movimentação na lanchonete era grande e demorou um pouco até que um dos garçons pudesse atender a garota. – O que deseja? – perguntou ele. Alguns minutos depois, Mary saiu da lanchonete tomando bastante cuidado para não esbarrar em nenhum garçom, pois carregava três sanduíches, três latas de refrigerantes e três pedaços de torta de morango. Passou pela porta da lanchonete e saiu para a calçada. A confusão continuava a mesma do lado de fora e os transeuntes que passavam, ela pôde ouvir, não conversavam sobre outra coisa que não fosse o calor ou o motivo daquele congestionamento. – Não foi anunciado o motivo desse trânsito no telejornal e olha que eu passei a manhã inteira no sofá assistindo televisão – dizia uma mulher negra que passava de mãos dadas com um cara de cabelo louro muito claro. – Se eu soubesse que o centro estava tão agitado desse jeito, nem tinha saído de casa, ainda mais com esse calor infernal! – Nem para sair comigo? – perguntou ele rapidamente. – Por isso estou aqui, não é? – disse ela meigamente e os dois sumiram em meio à multidão. Mary achou o comentário da mulher muito estranho. O que será que estava acontecendo com aquela cidade? E por que será que não haviam dado noticias sobre aquele engarrafamento no telejornal? Olhou para os carros presos no trânsito e, com um choque que fez sua boca se escancarar, percebeu que o carro negro de seu pai não estava mais ali. Ela correu para o meio dos carros, ainda tomando cuidado para não deixar o “almoço” que carregava cair. Era impossível que o carro tivesse se distanciado tanto daquele local, o trânsito ainda estava muito parado. Sentindo um alívio no peito, ela viu o carro negro e de grande porte da sua família a alguns metros à frente. Caminhou apressadamente até o automóvel, mas logo percebeu que alguém estava discutindo, e parecia ser a voz do seu pai. – Eu já disse que dou a grana pra pagar o pequeno estrago – dizia Charles, que estava fora do carro com um monte de notas na mão e aparentemente tentava entregar o dinheiro para um homem alto e branco que parecia estar possesso. – Aqui tem o dobro do valor do conserto desse amasso que fiz no seu carro, não há motivo para brigas. Eu estava distraído, foi isso. – Então você acha que é assim?! – retrucou o cara alto no mesmo tom de voz. – Acha que é bater no meu carro e que seu dinheiro vai consertar tudo?! Não, não vai! Não quero seu dinheiro! De repente o rapaz deu um soco na cara de Charles, que andou alguns metros para trás e caiu de costas no capô de um carro amarelo. O dinheiro que segurava, agora estava todo espalhado pelo chão. – Paaara! – gritou Alice de dentro do carro, parecia apavorada com aquela cena, como se nunca tivesse visto alguém levar um soco antes, principalmente se tratando de seu marido. Mary largou os lanches no chão e correu até o pai, para ajudá-lo. Enquanto isso, outros motoristas saíram de seus carros para apartar a briga. O cara alto parecia querer dar mais socos em Charles, mas quatro homens o haviam segurado e imobilizado. Charles se pôs de pé e, dispensando os cuidados da filha, voou para cima do cara. Alguns homens tentaram segurá-lo, mas sem sucesso, pois poucos segundos depois ele acertava um belo de um soco na cara do homem. Mary levou as mãos ao rosto e fechou os olhos ao escutar o barulho que o soco produziu, só voltando a abri-los pouco tempo depois. O homem alto e branco estava estirado no chão, parecia ter desmaiado com o soco de Charles. Os motoristas que haviam saído de seus carros se abaixavam em volta do homem para socorrê-lo, mas não parecia ter ferimentos graves em seu rosto. – Mary, vem para dentro do carro – disse Alice que observava tudo pela janela do carro, estava pálida e com a voz trêmula. Sem esperar uma segunda ordem, Mary correu até onde deixara os lanches e latas de refrigerantes, e com eles em mãos, entrou pela porta traseira do automóvel, batendo-a ao se sentar no banco traseiro.


– Vamos deixar seu pai resolver essa história – disse sua mãe em tom preocupado. – Só foi uma batidinha, não era motivo pra confusão. – Papai estava meio sonolento – disse Mary observando um amassado no para-choque traseiro do carro da frente. Com certeza era o veículo do homem que brigara com seu pai. – Nossas férias irão ser bem legais – disse ela sarcasticamente, enquanto mordia um pedaço do seu sanduíche. Charles entrou no carro algum tempo depois com o olho esquerdo roxo e dizia que tudo tinha sido resolvido sem ser preciso ir à delegacia. – Ele aceitou mil libras como pagamento. Acho que está bem pago, não acha? – perguntou ele à Alice. Mas Alice não respondeu, apenas lançou um olhar feio e continuou calada. Mary sabia que sua mãe estava irritada com seu pai por ele ter batido no carro, e mais ainda por ter brigado no meio da rua. Algo no olhar dela fez Mary entender que não permaneceria em silêncio por muito tempo. – Bom, parece que o trânsito está começando a fluir – disse Charles transcorridos alguns minutos, ao notar que o automóvel estava começando a se mover com mais frequência. – Pra você bater em outro carro, seu barbeiro? – perguntou Alice irritada. – Amor, foi sem querer – disse ele lançando-lhe um olhar de “pobre coitado”. – Eu estava morrendo de sono e fome. – E isso explica brigar no meio da rua como se estivesse em um ringue de boxe? – O cara me deu um soco no olho – disse ele alarmado, apontando para o roxo em seu rosto. – Eu não podia deixar barato. – Verdade, mãe – disse Mary lealmente. – Foi o homem que deu um soco primeiro. Papai só revidou, e você sabe disso porque viu tudo. – Me perdoa, querida? – perguntou Charles à Alice, mas Mary não pôde deixar de notar a piscadela que ele deu em agradecimento às palavras que ela dissera. – Claro que perdôo – disse Alice, e então deu um selinho nos lábios dele. Mary observou aquela cena encantada. Adorava quando seus pais se comportavam como se fossem dois adolescentes apaixonados. Mas quando Alice notou que sua filha os observava, parou o selinho instantaneamente, parecendo envergonhada. – O amor é lindo – comentou um Charles sorridente. O pai de Mary tinha razão, não demorou muito e o engarrafamento já estava bem mais fluido, mas mesmo assim era necessário parar o carro às vezes. Não havia mais aquela barulheira de buzinas e nem motoristas nervosos gritando e Mary sabia que não demoraria muito para saírem de Londres. – Aí está o motivo do engarrafamento! – disse Charles, quando entraram em uma das ruas mais famosas de Londres e se depararam com uma imagem surpreendente. – Minha nossa! – gritou Alice boquiaberta. Mary ficou paralisada e esfregou os olhos, talvez aquilo se tratasse de uma miragem ou qualquer coisa parecida. O Palácio do Parlamento, Westminster, estava à esquerda. Suas torres erguidas e elegantes como sempre, mas uma delas não estava tão erguida assim. A Torre do Relógio estava pela metade. O topo do patrimônio mundial, onde outrora se encontravam os ponteiros e o sino Big Ben, agora estava fragmentado no chão, saído de dentro dos limites do palácio e bloqueando grande parte da rua pela qual o carro da família teria de passar. – Foi um atentado terrorista! – Alice se apavorava cada vez mais. – Não, não foi – disse Charles entre o divertimento e o nervosismo, apontando para a fachada do palácio. – Um meteorito! – Mary se impressionou. Se fosse há alguns anos, aquela imagem teria causado o maior terror à família Prince e aos outros milhões de famílias do mundo inteiro, mas desde o começo do ano retrasado aquela notícia já era bastante comum. Tudo começou com um grande meteorito que caíra na


floresta Amazônica, no Brasil, e depois os casos se espalharam pelo mundo inteiro. O pânico havia tomado conta do planeta no começo daquele ano e muitas pessoas estavam cometendo suicídio porque achavam que o “fim do mundo” estava próximo. Por fim, com os esforços das autoridades políticas, a ordem conseguiu ser restabelecida. Cientistas não cansavam de dizer que não havia motivo para pânico, que aquilo era somente mais uma fase pela qual o planeta estava passando, assim como a fase das ondas gigantes que ocorreram há sete anos e que causaram graves prejuízos a muitas cidades litorâneas do planeta. Disseram também que em pouco tempo a rota de colisão dos meteoritos iria de deixar de ser a Terra, rumando para outros planetas. Era claro que Mary não entendia nada sobre meteoritos e suas rotas de colisões, mas sempre achou que aquilo era o tipo de acontecimento que só ocorria em outros lugares e não na cidade onde morava. E ao ver aquela sombra negra no Velho Pátio do Palácio ela sentiu como se estivesse em algum filme. Aquilo era muito irreal pra ser verdadeiro. A poeira estava por toda parte e homens com máscaras passavam faixas amarelas pra lá e pra cá, restringindo toda a área em torno daquela rocha deformada e torta. Curiosos haviam se reunido por toda a extensão das grades do jardim e observavam aquela cena com excitação, tirando fotos e filmando com suas câmeras digitais. – Pai, tô com medo – disse Mary enquanto o carro passava ao lado do jardim com a rocha. – Não há motivo para pânico, queridas – disse Charles em tom calmo, tentando tranquilizar a mulher e a filha. – Meteoritos são normais nos dias de hoje. – E como você quer que eu me sinta calma se a qualquer momento uma pedra vinda do espaço pode atingir a minha cabeça?! – disse Alice apavorada, os olhos claros vidrados na crosta do meteorito. Mary não desgrudou os olhos da rocha até o carro terminar de atravessar a Ponte da Torre e virar numa rua, deixando a imagem do corpo celeste para trás. – É, parece que finalmente estamos deixando Londres, mas oito horas depois do planejado. Esse meteorito estragou meus planos – comentou seu pai displicentemente, como se fosse normal um meteorito provocar um engarrafamento numa cidade, além de destruir um famoso monumento turístico. O sol estava sumindo no horizonte e a família Prince estava em seu carro, que atravessava uma pequena cidade do interior da Inglaterra. Eles haviam feito uma rápida parada num restaurante de beira de estrada e comeram algo decente, como disse Alice, pois ela não gostou dos sanduíches que Mary comprou no centro de Londres e se recusou a comer. Charles, por sua vez, não só comeu o sanduíche dele, como também o da esposa, e ainda conseguiu devorar dois pratos de macarrão à bolonhesa no restaurante. Mary já estava cheia por conta do sanduíche e da torta de morango que comera no carro e se contentou apenas com um copo de milk-shake de morango. O assunto dentro do automóvel não era outro além do meteorito que derrubou o Big Ben. – Mas o primeiro ministro não esperava esconder a queda da rocha da população britânica, não é? – comentava Charles. – Quero dizer, esse tipo de notícia se espalha rápido e nem é necessário televisão pra isso. Todos no restaurante já sabiam sobre o meteorito e a ruína do relógio, vocês ouviram as conversas. – Por isso que não deram notícias no telejornal sobre o trânsito – disse Mary se recordando do que a mulher negra falara. – Mas isso é uma tremenda idiotice, aposto como já devem ter postado vários vídeos na internet sobre o desastre. – Espero que um meteorito não caia em cima do nosso carro, isso sim – disse Alice lançando um olhar preocupado ao céu. – Acho melhor mudarmos de assunto. Não demorou muito e a noite caiu espalhando escuridão por todo aquele horizonte rural e trazendo nuvens mensageiras de tempestades. O carro negro corria por entre estradas que cortavam colinas, plantações e, por vezes, densas florestas. Frequentemente Charles tinha que parar e recorrer ao mapa para verificar se estava no caminho certo. No entanto, pela


primeira vez naquele dia, algo a favor da família aconteceu; o GPS emitiu um bipe e o lugar onde se encontravam apareceu na tela. – Já não era sem tempo – disse Alice. – Falta muito para chegarmos ao tal hotel onde iremos passar nossas maravilhosas férias de verão? – perguntou Mary que estava começando a se sentir sonolenta por conta do zunido que o vento fazia lá fora. – Segundo o GPS, chegaremos lá à meia-noite – respondeu seu pai que acabara de digitar o destino deles na tela sensível. – Faltam três horas de viagem ainda. Mary observou na tela do sistema de posicionamento, que um pontinho branco, o carro, atravessava uma longa camada negra, que era a floresta ao redor, e ia em direção a um monte de pontinhos amarelos onde estava o nome da cidade que era o destino da família. Mary desejou mais do que nunca, ao ver o nome da cidade, que seus pais tivessem permitido que ela ficasse em casa. – Vamos voltar? – pediu ela esperançosa. Mas nem seu pai e nem sua mãe responderam, o que ela entendeu como um “não”. De repente o carro deu uma desviada brusca e Mary foi arremessada com toda a força contra a porta esquerda. Alice soltou um grito de pavor e o carro parou. – Pai, o que houve? – perguntou Mary massageando o braço. – Vocês viram aquilo? – perguntou seu pai, parecendo impressionado. – Parecia um animal morto, não? – perguntou Alice com a voz trêmula. – Eu não vi nada – disse Mary virando e olhando pelo vidro do carro. A alguns metros atrás, em meio à névoa, uma sombra estava esticada no chão. A garota não pôde deixar de sentir medo ao ver aquela imagem fantasmagórica no meio do asfalto. – Deve ser um animal, sim. Vamos seguir pro hotel, pai – disse ela apreensiva. – Não, agora eu fiquei curioso – disse seu pai, dando marcha à ré. – Pai, o que você tá fazendo?! – Volta, Charles! – Calma, deve ser só algum animal morto – disse Charles teimosamente, o carro se aproximando cada vez mais daquilo. – Mas eu quero saber qual é. Mary viu a forma no chão ficando cada vez mais perto e então a luz traseira dos faróis furaram a névoa e revelaram a figura misteriosa; era um cervo nobre, sua barriga estava amassada como se a roda de um caminhão tivesse passado por cima dela. O sangue estava espalhado pela pista e várias moscas o rodeavam. – Que horror! – comentou Alice que se enfiara no banco de trás junto com a filha e observava o animal morto. – Vou lá fora dar uma olhada – disse Charles saindo do carro para a escuridão da estrada. – Charles, você não está no trabalho – disse Alice, também abrindo a porta do carro e saindo. – E além do mais esse animal já está morto, você não pode fazer nada. – E, pai, você é medico e não, veterinário – disse Mary, que se sentiu sozinha no carro e acabou saindo atrás da mãe. Não conseguiu ver como era o ambiente dos dois lados da estrada, pois a escuridão ao redor era total. Um vento gelado chegou ao seu rosto, o que a fez colocar as mãos dentro dos bolsos da capa de frio que usava. Caminharam cautelosamente pelo asfalto até o animal, tomando cuidado para não pisar no sangue que escorria. O cheiro era horrível e Alice tapou o nariz com as mãos, gesto repetido pela filha. Alguns órgãos do animal haviam saído e agora estavam pulsando no chão em meio ao sangue. Charles se abaixou perto da cabeça da criatura para observá-la melhor. Mary correu até ele. – Não me deixe sozinha desse lado – disse Alice correndo atrás da filha. A língua do mamífero estava esticada para fora e saía sangue de sua boca. Sua galhada de várias pontas tocava o chão, imóvel, mas os olhos negros estavam girando, iluminados pela luz dos faróis do carro. – Ele ainda está vivo – concluiu Mary.


E então, sem aviso, o animal soltou um urro. Mary sentiu seu coração congelar de susto. Alice escorregou no sangue do animal e caiu no chão, na pressa de voltar correndo para o carro. – Vamos voltar para o carro agora – disse ela apavorada quando Charles a ergueu do asfalto. – Que nojo – disse Mary vendo sua mãe toda manchada de sangue e tentando espantar as moscas que insistiam em pousar no seu cabelo louro. – Vamos – disse Charles abraçando a filha e a esposa, suja de sangue, e voltando pra dentro do carro aos tropeços. Mal tinham entrado no carro e fechado as portas quando uma intensa chuva começou a cair lá fora. O barulho das grossas gotas de água no teto do veículo juntamente com a imagem do cervo ferido fez Mary, pela primeira vez, desejar estar no hotel onde iriam passar as férias. Charles ligou o carro e acelerou. O automóvel começou a andar pela pista encharcada, era difícil enxergar qualquer coisa à frente por conta da densa camada de chuva que parecia piorar cada vez mais. – Se a gente não tivesse parado para ver aquele maldito animal eu não estaria toda suja de sangue agora! – disse Alice tirando a blusa e ficando de sutiã. – Desculpa, mas eu fiquei curioso – comentou um apreensivo Charles no volante. – O carro vai ficar fedendo a sangue de cervo agora – comentou Mary enojada. – E graças a seu pai, Mary – falou Alice irritada. – Como se não bastasse brigar no centro de Londres, agora ele resolveu parar o carro no meio do asfalto pra ver um animal atropelado! – Você também ficou curiosa, Alice, ou não teria saído do carro – falou o pai de Mary sabiamente. – Pai, tem algo no GPS – disse Mary, que acabara de notar que a luzinha que representava o carro deles ia de encontro a outra luzinha que vinha em sentido contrário. – Meu Deus! – gritou Alice. Mas era tarde demais. Uma forte luz apareceu à frente, vindo em direção ao carro da família Prince. Charles tentou frear, mas o veículo deslizou pela pista molhada e se chocou. PAM! O carro negro rodopiou em meio à luz, e gritos de horror cortaram o ar. Mary sentiu sua cabeça rodar, girar e se contorcer enquanto sua mente era engolida por um breu que parecia não ter fim.

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Capítulo dois Criaturas medonhas Com um impulso que pareceu não ter sido comandado pelo seu corpo, a garota Prince, que estava deitada de costas no chão, ofegou e abriu as pálpebras. A primeira imagem a explodir em seus olhos foi um abismo vermelho e por pouco ela não soltou um berro de susto. Havia umas manchas esbranquiçadas flutuando entre aquele vermelho-sangue, algo que lembrava nuvens, então Mary percebeu que estava olhando para o abismo do céu, mas aquele tom púrpura berrante não era nada comum. Ela nunca havia visto um céu em tom tão vermelho antes. Não era o avermelhado que antecede o crepúsculo, e nem o vermelho doentio causado pelo acúmulo de toneladas de gases poluentes que por vezes paira sobre Londres e outras grandes cidades; era um vermelho diferente, em tom mais denso e concentrado, e que transmitia certo terror. Em toda dimensão do céu que pôde enxergar, não viu sequer uma estrela brilhando e a garota ficou confusa quanto a ser noite ou dia. Com muito esforço – aquele vermelho-sangue parecia estar prendendo suas pupilas –, tirou o olhar da imensidão vermelha e direcionou-o para o espaço ao seu redor. Grandes pilares de rocha gasta e escura se arremessavam por mais de vinte metros acima de sua cabeça. Eram tortos e inclinados, como se a qualquer momento fossem desabar. Alguns realmente haviam caído e agora estavam no chão, divididos em grandes blocos, aos pedaços. O solo era coberto por uma areia escura e a garota notou, pela semelhança da cor, que eram detritos do que antes foram imponentes pilares. Uma neblina acinzentada pairava ao redor, tornando aquele lugar ainda mais assustador, ocultando qualquer coisa que se encontrasse além, dando a Mary a sensação de estar numa espécie de labirinto; era impossível saber em qual direção ficava a saída daquele lugar. O silêncio era soberano, nenhum som lhe chegava aos ouvidos a não ser o som da sua própria respiração e do seu coração, que batia acelerado. Não havia nenhuma corrente de ar, o tempo estava parado e nada se movia, nem mesmo a neblina cinzenta. Mary apoiou suas mãos brancas no chão rarefeito e se ergueu lentamente, mas quando mal havia ficado de pé, sentiu uma tontura e tudo começou a girar, suas pernas fraquejaram e tremeram e ela estava caindo. No entanto, seu reflexo foi mais rápido e antes que ela desmoronasse no chão, suas mãos agarraram, instintivamente, a uma fissura no pilar mais próximo, fazendo com que recuperasse o equilíbrio das pernas e continuasse de pé, apoiada no pilar. Havia algo de errado com ela, sua mente estava turva, seu corpo tremia e sua visão estava embaçada. Seu cérebro parecia ter apagado algo de sua mente e deixado um espaço em branco no lugar. Que lugar era esse em que ela estava? Um sopro de vento deslizou pelos pilares, tocando seu rosto e fazendo-a sentir arrepios de frio, os pelos do seu corpo se erguendo em protesto. A neblina ao redor espiralou por uns instantes, mas logo quando o vento cessou, o véu acinzentado voltou a descer como uma cortina. Nesse momento algo gelado encostou-se ao peito da garota. Com certo pavor, ela enfiou a mão direita lentamente por debaixo da blusa, encostando os dedos em algo sólido e pesado. Puxou o que quer que fosse e observou o que estava em sua mão. Era um medalhão de prata, em cuja frente havia um círculo pontilhado de pequeninas pedras brilhantes e negras, rodeadas de linhas triangulares que formavam


uma estranha circunferência. Assim como a frente do medalhão, a parte de trás também possuía várias linhas que se cruzavam, mas o círculo de pedras ali fora substituído por letras e símbolos que ela não conhecia. O objeto circular pendia em uma corrente de prata bem traçada que estava em volta do seu pescoço. Mas ela não lembrava de estar usando aquele medalhão. Quem havia colocado aquilo em seu pescoço? A garota foi tentando se recordar de algo. Algo que pudesse explicar tudo aquilo, algo que pudesse explicar onde ela estava. Então, como um trovão, a imagem de seu pai e de sua mãe se materializou em sua mente. Porém, onde estavam Alice e Charles? A última vez que a garota se recordava de ter visto os pais, foi quando estavam no carro, indo em direção ao hotel onde iriam passar as férias de verão e... houve o acidente! Mary havia visto no GPS que um carro estava vindo na direção deles e logo depois a luz forte dos faróis apareceram à frente e os automóveis se chocaram. O que aconteceu depois do impacto, Mary não sabia, mas aquilo não fazia sentido, aquele lugar não fazia sentido. Não havia destroços de carro ali perto, não havia asfalto, fumaça e nem barulho de ambulância. Não havia nada que pudesse indicar que ela tinha acabado de sofrer um acidente. Largou o medalhão e levou as mãos ao rosto, mas não tinha nenhum vestígio de ferimento, nenhum sangue escorrendo de sua testa, bochecha ou nariz. Ela estava inteira. Sua roupa também estava em ótimo estado, sua calça jeans não estava rasgada, a longa capa de frio que usava continuava com a mesma aparência de sempre e seu tênis estava intacto em seus pés. E nesse momento, quando Mary olhava para o tênis, viu que estava pisando em um osso grande e largo. Pelo pouco que conhecia sobre osteologia – pois seu pai era médico –, aquilo lhe pareceu nitidamente ser o osso que sustenta os músculos da coxa, chamado fêmur. Mas não poderia ser realmente um osso humano, ou poderia? A resposta à sua pergunta veio logo depois, quando ela examinou com mais atenção onde estava pisando. A poucos metros de onde estava, havia uma caveira, um crânio jogado ao chão, sem esqueleto que o acompanhasse, e os buracos onde antes ficavam os olhos, agora estavam vazios. Foi como se ela tivesse levado um banho de água fria. Seu coração acelerou espantosamente em seu peito enquanto seu corpo congelava de pavor. Ela não sabia o que fazer, a cor havia deixado seu rosto e o pânico dominou-a totalmente. Em um ato de desespero e terror, reuniu todas as forças para correr, mas suas pernas relutaram em se mover a princípio, mas ela queria dar o fora daquele lugar, queria parar de olhar para aquele crânio sinistro... Vários pilares passavam um a um enquanto a garota corria, desviando aqui e ali, para seu horror, de mais esqueletos humanos que apareceram em seu caminho. O vento gelado continuava a soprar e o ar frio tocou sua face com tanta violência que pareceu querer impedir que ela se movesse. O som de seu tênis em atrito com a areia cortava o silêncio mordaz daquele amplo espaço e ela continuava correndo sem destino, mas para ela qualquer lugar seria melhor do que um cemitério. Desviou de mais uma pilastra e então, quando tentou pular por cima de outro esqueleto, tropeçou e rolou pelo chão. A palma de uma das mãos se arrastou em meio aquele monte de ossos, deixando um rastro de mais de um metro. Só faltava isso para o desespero finalmente dominá-la. Ela não sabia onde estavam seus pais e estava sozinha e perdida num lugar onde o chão estava coberto de esqueletos. Lágrimas começaram a brotar de seus olhos enquanto estava deitada de bruços, observando o chão pedregoso a poucos centímetros do seu nariz. Ficou chorando por longos minutos, horas talvez, pois não tinha a mínima noção de tempo. Gotas e mais gotas não paravam de pingar de seus cílios, escorrendo pelo seu rosto, indo parar sobre osso ou areia no solo.


– Eu devo estar sonhando – disse ela baixinho, pois havia acabado de pensar nessa possibilidade. Era claro: aquilo só podia ser um sonho, ou melhor, um pesadelo. Não existia um céu tão vermelho em nenhuma parte do mundo, era muito estranho. Talvez até o acidente fosse parte do sonho. Por fim, concluiu que provavelmente estava deitada em sua maravilhosa cama, em seu quarto, enquanto sua mente criava aquilo em seu cérebro. Não demoraria muito e logo escutaria a voz do seu pai chamando-a para ir à escola e tudo ficaria bem. Aos poucos as lágrimas foram parando de escorrer pelo seu rosto. A idéia de que aquilo fosse um sonho confortou-a, deixando-a mais calma e tranquila. O vento ainda persistia acima de sua cabeça, ziguezagueando pelos pilares, produzindo um barulho agourento e parecendo piorar a cada instante. Grãos de areia batiam a todo momento nas bochechas da garota, atiradas pelo forte sopro, porém, ela não se importou com isso. Por que deveria se preocupar com algo que não era real? Por que deveria se importar com o que acontecia em um pesadelo? Ela nunca foi daqueles que acreditam que sonhos podem dizer algo sobre o futuro ou qualquer coisa parecida mesmo. Então, quando pensava testar se era possível dormir quando se estava em um pesadelo, escutou algo distante. Seus olhos, que estavam quase fechando, se arregalaram em alerta. Será que ela tinha imaginado? Mais uma vez, o som ecoou no ar. Parecia um grito. Mas quem estava gritando? Levantou num salto, podia ser sua mãe ou seu pai. E o pânico voltando a tomar conta dela. Por que seus pais estariam gritando? – Mãe! – gritou, o mais alto que pôde. Seu grito ecoou pelo cemitério, como se uma legião de clones dela tivessem gritado em uníssono; logo depois ela gritou novamente, mas chamando pelo pai. Aguardou e, fosse ou não em resposta a ela, os gritos começaram a se multiplicar, cada vez mais nítidos. No entanto havia algo de estranho, eram muitos gritos para pertencerem somente a Alice e Charles. Mary esperou mais um pouco, em silêncio... – Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Um grito agudo e estridente de pânico cortou o ar, parecia que alguém estava correndo perigo. A garota ficou paralisada, sem saber o que fazer, e mais uma vez gritos foram ouvidos tornando-se cada vez mais próximos. Vinham de uma direção somente. A direção pela qual Mary tinha vindo. O que será que estava acontecendo? De repente, a poucos metros dela, saído detrás de uma das pilastras, um rapaz louro e alto apareceu. Ele usava uma camisa vinho de manga longa e tinha um piercing no lábio inferior, sua calça jeans preta estava toda empoeirada, o que provavelmente não diferenciava muito do estado das calças de Mary quando tropeçou e caiu no chão. No momento em que a viu, o rapaz parou ofegante, parecia muito assustado e trêmulo. Ele a encarou por alguns instantes... Mais gritos rascantes cortaram o ar e ele, arregalando os olhos muito azuis, desatou a correr, passando como um foguete por Mary, sem lhe dar a menor atenção. A garota permaneceu onde estava, confusa com o que acabara de acontecer. Por que aquele garoto estava tão assustado?... Mais gritos de pânico soaram, e Mary, sem saber exatamente o porquê, começou a correr na direção oposta aos gritos, seguindo na mesma direção em que o rapaz fora. Ela não a era a única que corria. Logo atrás, pôde escutar, muitos ossos que estalavam e partiam, esmagados por passos apressados que pisavam no chão. Mary olhou rapidamente para trás e viu uma mulher que aparentava ter aproximadamente trinta anos, magra e com uma roupa que lembrava as de aeromoça, correndo em seu encalço. Seu rosto estava pálido e, assim como o garoto, ela estava muito assustada. Mary voltou a olhar para frente e, tomando um grande susto, viu que milhares de


pessoas corriam ao seu redor, todos indo na mesma direção, todos com o mesmo pânico no olhar. Crianças, adolescentes, magros e gordos, homens e mulheres, jovens e adultos desviavam de pilares, saltavam sobre esqueletos e gritavam por ajuda. Mas por que aquela multidão corria? De que elas estavam correndo? A mulher que antes estava atrás de Mary já havia alcançado-a e agora corria ao seu lado e nesse momento, quando a mulher corria desabalada, algo de muito estranho aconteceu: dois farrapos branco-amarelados se esticaram atrás dela e começaram a enrolar em volta do seu corpo. – Me ajuda! – a mulher suplicou a Mary, encarando profundamente o rosto da garota enquanto seus olhos castanhos perdiam a cor, ficando totalmente brancos e opacos. Ela gritou. Um grito de morte, estridente e abafado. E no momento em que os farrapos sujos enrolaram em torno de seus lábios, sua pele murchou, secou, como se toda a água tivesse abandonado seu corpo. Agora a mulher era um mero corpo cheio de carcaça e ossos, paralisado enquanto corria. As mãos, que antes tentavam em vão se desvencilhar dos farrapos, ficaram paradas no movimento, como se o tempo tivesse cessado. Mary ficou atônita, não tinha assimilado o que acabara de acontecer, seu cérebro estava dando voltas e mais voltas. Continuou correndo, sabia que o que quer que fosse que atacara a aeromoça, agora estava atrás dela. Não queria olhar para trás, temia a perspectiva do que iria ver. Mas o que será que comandava aqueles trapos? Suas pernas estavam aceleradas, impulsionadas pela adrenalina e o medo; o desespero era um ótimo combustível. Gritos e mais gritos cortavam o ar de segundo em segundo, sinal de que mais corpos estavam sendo sugados e, como se não bastasse, Mary temia a possibilidade de que aquele cemitério não tivesse fim. Ela já tinha percorrido uma longa distância, mas o ambiente ao seu redor continuava o mesmo, sem alteração alguma. – Mããe! – alguma criança gritou a suas costas. Ela parou e virou, deparando com uma cena macabra. Uma bela moça estava no chão, os farrapos sinistros enrolando-se em suas pernas, tentando chegar ao seu rosto, e a alguns metros atrás, uma criatura medonha se encontrava. Aquilo não parecia com coisa alguma que Mary tivesse visto antes, seja ao vivo ou em telas de cinema. Ela nunca vira um ser tão estranho e feio. Era muito magro e estava de quatro no chão, na posição de um cachorro. Sua língua, que no mínimo tinha um metro de comprimento, movia-se no ar, jogando saliva para todo lado. Seu corpo era hominídeo; tinha dois braços e duas pernas esqueléticas, e estava semicoberto por trapos sujos da mesma cor dos que atacaram a suposta aeromoça. Mary viu que os farrapos que prendiam as pernas da mulher vinham do corpo daquela coisa, como se ela pudesse controlá-los à distância com a força da mente ou sabe-se lá o quê. O monstro enrolava a moça, com um chiado demoníaco e aterrorizante saindo de sua boca oculta. E a poucos metros dele, ajoelhado ao lado do corpo da moça que murchava gradativamente, um garotinho chorava, chamando pela mãe. Quando terminaram o trabalho, os farrapos foram soltando o corpo seco lentamente e, como se fossem cobras preparando para o bote, partiram em direção ao garotinho. Mary percebeu o perigo iminente. – Cuidado! – gritou. Mas a criança não se importou com o alerta, continuou no chão, olhando para o que sobrara da mãe. No entanto, alguém ali ficou bem irritado com o grito de Mary; a criatura bateu com os braços no chão e soltou um urro feroz e letal, voltando o rosto e os trapos fantasmagóricos na direção da jovem. Por um segundo, Mary desejou não ter gritado, mas era tarde demais. Os farrapos foram lançados em sua direção, flutuando com uma rapidez incrível pelo ar, esticando-se do corpo daquele monstro.


Em um ato impensado, ou corajoso, Mary correu em direção ao garotinho. Os farrapos precipitando-se famintos atrás dela... – Venha, a gente precisa sair daqui – disse ela, segurando o braço do garoto e o puxando. Ele não quis levantar, pois estava desesperado, sacudindo o corpo da mãe que agora era só osso e pele encardida. – Mãe – chamava ele, aos soluços. Mary puxou com mais força, pegando-o no colo. O menino ainda segurava o corpo, mas no momento que ela desatou a correr, ele não conseguiu suportar o peso do esqueleto, soltando-o. O corpo inerte caiu ao chão, quebrando-se, e ao ver o que antes fora a cabeça de sua mãe rolar pelo chão, misturando-se em meio a vários crânios, o garoto gritou... Nesse instante Mary o abraçou mais forte, mal importando com quantos quilos estava carregando, e em resposta o garoto pôs os braços em volta de seu pescoço. Enquanto corria, ela sentia as lágrimas tristes da criança pingarem em seu ombro. – Eu quero... minha mãe – disse ele em meio a soluços, seu corpo tremendo descontroladamente. Poucos metros atrás a criatura corria, suas mãos e pés tocando o chão e lançando seu corpo asqueroso e magro para frente. Mary ouvia o barulho dos farrapos ricocheteando em perseguição naquele vento gelado. Era impossível ver mais de quatro metros à frente, a neblina se tornara mais escura, como se estivesse querendo que o monstro os pegasse. Por pouco Mary não se chocou com uma pilastra, desviando por centímetros do monumento de rocha. Gritos ainda eram ouvidos, e quando um vento mais forte desmanchou a névoa ao seu redor, a garota pôde ver que muitas pessoas ainda corriam, sendo perseguidas implacavelmente por várias criaturas medonhas idênticas a que estava atrás dela. As pessoas corriam desesperadas, olhando de tempo em tempo para trás, avaliando se os trapos sujos estavam prestes ou não, a tocar seus calcanhares. Uma das aberrações deu um grande salto e pulou em cima de um homem, derrubando-o no chão, os farrapos se enrolaram em volta de seu corpo feito corda e quando o deixaram, só restava aquele esqueleto mumificado. Mais a frente, uma mulher gritava enquanto outro monstro a arrastava, puxando-a com a língua escura. O garotinho apertou com muita força o pescoço de Mary quando um rapaz ao lado deles foi pego pelos trapos. A cada segundo que passava as pessoas que corriam ao redor diminuía. Não havia nem metade da multidão que a garota vira a princípio, muitos haviam sido mortos. Os gritos também foram tornando-se cada vez menos frequentes. Mary olhou rapidamente para trás, a criatura esquelética que matara a mãe do garotinho estava sugando o corpo de uma menina que usava um longo vestido lilás, mas assim que o corpo da menina secou, o monstro voltou sua atenção para Mary. Era claro que ele estava determinado a pegá-la, pois ela o havia impedido de matar a criança que agora se encontrava em seus braços. – Eu quero minha mãe! – resmungou o garoto mais uma vez. Ela não soube o que dizer, então apenas continuou correndo. O menino não era muito pesado, mas o cansaço aos poucos ia dominando suas pernas, ela sabia que não conseguiria correr naquele ritmo por muito mais tempo se continuasse a levar aquele peso extra. – Por favor, me leve... de volta... pra minha mãe – continuou o menininho, aos prantos. Mary sentiu seu coração partir ao escutar o pedido. Se aquilo que estava acontecendo não era realmente um pesadelo, a mãe do garoto havia morrido. Na verdade, Mary não estava mais tão confiante de que aquilo fosse um sonho. Era


praticamente impossível que fosse, pois as sensações que tinha e o que estava vendo, aquele vento gélido, aquele pânico no olhar das pessoas que corriam, eram inquestionavelmente reais. Assim como ela, aquele menino estava sozinho, sem os pais, e perdido em um lugar que ele também provavelmente não fazia idéia de onde era. A temperatura dele estava baixa, Mary sentia o rosto muito gelado em seu pescoço, ele tremia como se fosse um pinguim sem plumagem. A cada passo que ela dava, ele se agarrava mais a ela, desesperado ao ver aqueles monstros sugando tantas pessoas a sua volta... E tantas foram as pessoas alcançadas pelos trapos, que agora Mary só avistava uma; um homem alto e forte que corria a uma boa distância deles. De repente, um grupo de monstros pulou atrás do rapaz, cercando-o. Mary viu de relance quando ele tentou dar um soco em um deles, mas o bicho desviou numa agilidade impressionante e, num salto, pulou em cima dele. As outras quatro criaturas, num assomo de chiados, pularam sobre o rapaz também, ocultando seu corpo em meio aos farrapos. Mais um grito de morte cortara o ar, produzido pelo homem que havia acabado de ser consumido, seu corpo engrossando os números de esqueletos no chão. – Cuidado, ele está vindo! – o garotinho gritou, tomado de pânico; como estava sendo carregado no colo por Mary, podia ver tudo que estava acontecendo às costas da garota. Mas era tarde demais, Mary nem teve tempo de captar o que o garoto dissera. Algo se enrolou em sua perna direita e a puxou. Ela caiu no chão, sobre a criança que carregava. O garoto gemeu quando o peso dela caiu sobre ele, prensando suas costas contra o chão pedregoso. Mary foi puxada para trás, sendo arrastada por entre os ossos. Ela tentou se agarrar a uma rocha, mas suas mãos escorregaram facilmente quando a puxaram com mais força. Um chiado ensurdecedor chegava aos seus ouvidos, ela sabia o que o produzia. – Deixe-a em paz – uma voz masculina soou. O rapaz louro que Mary vira logo quando começaram os gritos estava ao lado do garotinho. Tinha uma pedra em cada mão. Talvez pretendesse jogar no monstro que a puxava. – Você me ouviu, largue ela – repetiu o garoto, sua voz agora mais determinada, arregalando seus olhos azuis. Parecia estar sendo tomado pela coragem. Quando o garoto disse isso, a perna de Mary foi solta, como se os trapos tivessem obedecido à ordem. E sem perder tempo, ela olhou para trás, deparando-se com algo que já esperava. Aquele monstro sinistro estava a poucos passos dela, e os farrapos alvoroçados à sua volta. A criatura começou a caminhar de quatro na direção dela, e um fedor pestilento dominou o ar. – Fique longe de mim – disse ela, ficando de pé rapidamente e recuando. O monstro esticou dois farrapos em sua direção, envolvendo-a. A garota sentiu seus pés deixarem o chão, seu corpo sendo erguido, e os panos deslizando por ele, indo em direção ao seu rosto... – Eu disse pra largar ela! – o garoto louro correu na direção do monstro e pulou sobre ele. Os farrapos afrouxaram e soltaram Mary, direcionando-se para o rapaz. E ela caiu de joelhos no chão e uma dor horrível espalhou por suas pernas. O monstro e o garoto se embolavam no chão, brigando ferozmente, mas a luta era desleal, o rapaz nada poderia fazer contra aquela coisa. Ele batia com as pedras na


cabeça do monstro, porém nenhum efeito de dor parecia ser causado àquele ser medonho... Mary levantou, não ligando para a dor que ainda sentia nos joelhos por causa da queda. – Saiam daqui! – gritou o rapaz quando foi arremessado no ar pelos farrapos, indo se chocar numa pilastra. – Do que você está falando?! – perguntou Mary, correndo até ele. – Não posso ir sem te ajudar! – Não! Todos nós vamos morrer se continuar aqui! Pegue o menino e saia daqui! – disse ele apontando para o garotinho que chorava, ainda no chão, alguns metros atrás. Mary parou de correr. Não sabia se era certo deixar aquele rapaz morrer para salvar a sua vida. No entanto, ela não era a única que seria salva, a criança também seria. – Não há tempo para pensar, garota! – gritou o louro, com os farrapos enrolando-se em torno de seu corpo... Dando um profundo suspiro, Mary deu as costas ao rapaz e correu na direção do garotinho. – Rápido, precisamos correr – disse ela segurando sua mão e puxando-o. Não iria se arriscar a levá-lo no colo agora, sabia que não tinha a menor energia para isso. Seus passos ecoavam enquanto corriam, o garotinho mal conseguindo acompanhar. Mary olhou para trás. A criatura estava sobre o rapaz, esticando seus trapos em volta do corpo dele como se fosse uma aranha preparando seu almoço. E antes que a garota pudesse ver o fim trágico daquela luta, um pilar barrou sua visão, ocultando o monstro e o rapaz. Não havia mais ninguém correndo ao lado de Mary e do garotinho agora, e para todo lado que Mary olhava, havia corpos secos; todos esqueléticos e medonhos, alguns com a boca aberta, já outros, esticados no chão, mas todos desnutridos e murchos. A imagem do rapaz louro não parava de pipocar na mente de Mary, e uma sensação de remorso, aos poucos, dominou seu coração. Ele estava morrendo para salvá-la. Isso era justo? Ela o havia deixado em apuros, talvez até pudesse fazer algo... Não, não poderia. Respondeu uma voz em sua mente. Ela não poderia fazer muito se continuasse lá, e com certeza só iria aumentar o número de mortos de um para três. Novamente lágrimas começaram a escorrer de seus olhos, era a segunda vez que estava chorando naquele lugar bestial. Era inacreditável que tivesse visto tantas pessoas morrerem em um único dia, era inacreditável que aquilo estivesse acontecendo com ela. Mas está. E não havia nada que ela pudesse fazer, apenas tinha de aceitar o fato de estar perdida e sendo perseguida por seres que ela nunca tinha imaginado ver nem em seu pior pesadelo. Logo à frente, a poucos metros, uma grande camada de névoa barrava todo o horizonte. Assim que a viu, a garota soube que aquilo iria prejudicá-los de alguma forma, pois seria difícil correr entre os pilares se não pudessem enxergar nada. – Que névoa é essa? – perguntou o garotinho, assustado. – Não existem névoas assim onde eu moro. – Eu sei, nada nesse lugar é comum – respondeu Mary, observando tudo ao seu redor ficar embaçado conforme entravam na neblina. – Está ficando frio... – resmungou a criança. – E eu não estou mais vendo você, moça... Se não fosse pela mão gélida que segurava e a voz ao seu lado, ela não saberia dizer se o menino ainda estava perto dela; tudo havia ficado cinza. A temperatura


baixou consideravelmente e nem a capa de frio que usava estava sendo o bastante para protegê-la do ar frio. Porém, ela continuava correndo com ele, mesmo às cegas... – Acho que logo terminaremos de atravessar essa névoa, então o frio vai passar. Aguente só mais um pouco – encorajou ela. – Ahhh! E antes que pudesse entender o que estava acontecendo, o garoto deu um puxão em sua mão e ela tombou. Seu corpo foi girando, batendo em coisas que ela não sabia o que eram enquanto a mão do garoto escorregou, soltando-se dela. Algo arranhou seu pescoço, sentiu a boca bater em alguma coisa sólida e então, com um impacto surdo, caiu de bruços... Levantou-se lentamente, seu corpo todo dolorido depois de tantas pancadas. Escutou um gemido ao seu lado, sinal de que o garotinho estava ali. – Você está bem? – disse ela tateando no escuro a procura do garoto. – Estou – respondeu ele. – Me dê sua mão, está muito escuro – disse ao encontrar o braço da criança e, logo depois, segurando a mão dele novamente. Seu coração acelerado. – Onde estamos agora? Pelo pouco que conseguiu enxergar, pois seus olhos ainda tentavam se acostumar com a baixa claridade, Mary entendeu que haviam caído numa ribanceira de aproximadamente quinze metros, indo parar dentro de uma floresta. Ela pôde ver o rastro que seu corpo e o do garotinho havia deixado por onde rolaram e compreendeu que as coisas que roçaram em seu pescoço eram pequenos arbustos cheios de espinhos que estavam por toda parte. Notou grandes árvores com troncos grossos e emaranhados ali, os longos galhos ocultando o céu vermelho sobre suas cabeças, esticando os dedos finos em todas as direções. Eram árvores bastante estranhas, seus troncos escuros pareciam ter sido queimados e as folhas que pendiam de suas copas eram amareladas e avermelhadas. Talvez fosse o reflexo do céu batendo nas copas das árvores que produzia aquele efeito púrpuro nas folhas e por consequência, o interior da floresta acabava ficando numa escuridão púrpura também. Desde o momento que o salvara, essa era primeira vez que Mary observava a fisionomia do garotinho com maior atenção; na correria e pânico pelos quais haviam acabado de passar não houve chance de reparar nessas coisas. Ele tinha um rosto arredondado, cheio de sardas e seus olhos eram cor de mel, acompanhados por densas olheiras. Possuía uma pele muito branca e seu cabelo era liso e negro. Ele vestia um macacão azul escuro e calçava um conhecido tênis preto de cano longo. – Qual o seu nome? – perguntou Mary, com voz trêmula por conta das coisas que haviam acabado de acontecer. Sua cabeça ainda remoia tudo, como se não conseguisse realmente digerir aqueles fatos. O menino pareceu meio confuso, como se fizesse força para lembrar, e então respondeu. – Johnson, Adam Johnson. E qual o seu? – perguntou ele, sua voz soou fraca e medrosa. – Me chamo Mary Prince – respondeu ela. Queria fazer uma pergunta ao garoto, queria saber como ele fora parar naquele lugar. Será que ele também tinha sofrido um acidente? Mas ela não podia fazer aquele tipo de pergunta, pois assim como ela mesma lembrou dos pais quando teve de recordar o acidente, ele também iria recordar, e não seria nada bom se ele voltasse a chorar desesperado por querer a mãe. E no fundo, Mary sabia que ele ainda não tinha esquecido o que acontecera com a mãe, ninguém esqueceria tão cedo, mesmo tratando-se de uma criança.


– E quantos anos você tem, Adam? – optou por perguntar. – Sete anos – respondeu ele, e então olhou dentro dos olhos dela, como se suplicasse por algo. – Você sabe que lugar é esse? Sabe como sair daqui? – Não – disse Mary, sentindo vontade de se enfiar num buraco por estar tão impotente. – Não faço a menor idéia. Isso provou o que ela havia pensado antes; aquele menino também não sabia onde estava. Talvez todas aquelas pessoas que vira no cemitério também não soubessem e pensar nisso era assustador. Como todas aquelas pessoas foram parar ali de uma hora pra outra? – Então tam... também não sabe onde es... está minha mãe, não é? – perguntou Adam, gaguejando, estava prestes a chorar. – É, não sei – respondeu, desviando o olhar para uma árvore ao seu lado pra não ter de ver o olhar triste da criança. Não achou que ele fosse tocar no assunto tão cedo. – Você acha... que ela morreu, nã...não é? Mas você está enganada, a gente es...está sonhando, nada disso é real! – continuou a falar o menino, agora chorando. – Ela não morreu, ela vai voltar... pra me buscar! Mary não soube o que falar, o nó na sua garganta estava transformando-se em lágrimas, então, como não conseguiu pensar em nada para dizer, deu outro abraço no garoto. – Minha mãe sempre aparece quando estou em perigo, até mesmo quando acho que ela não vai. Não será dessa vez que ela vai me deixar... não por causa daquele bicho papão... Ao escutar isso, Mary lembrou das criaturas estranhas... – Adam, precisamos encontrar um lugar para nos esconder – falou, cessando o abraço e segurando a mão do menino, olhando fixamente para ele. – Eu sei que isso é um sonho – mentiu ela, pois não sabia de nada, mas não queria contrariar o garoto e nem causar mais dor a ele. – Mas aqueles bichos ainda podem estar atrás da gente, talvez estejam nos procurando... E nesse momento, distante, porém nítido, um chiado foi ouvido. – São eles – falou Adam, sua mão começando a tremer. – Sim, mas eles não vão nos achar se encontramos um lugar seguro para ficar. Eu te prometo. Mary olhou ao redor, procurando um lugar onde pudessem se esconder. Avaliou as árvores sobre sua cabeça, pensando em subir em uma delas, mas ao ver que suas cascas estavam cobertas de grossos espinhos, desistiu da idéia. – Aqui – disse ela ao ver um enorme tronco no chão, era grande o bastante para eles se esconderem. – A gente vai se esconder dentro disso? – perguntou Adam. – Mas e se aqueles bichos sentirem nosso cheiro? Nós seremos... Uma enormidade de chiados ecoou pela floresta, como se estivessem vindo exatamente para o local onde eles se encontravam; as criaturas estavam muito perto. – Eles estão vindo – disse Mary alarmada. Não havia tempo para pensar, então empurrou Adam para dentro do tronco e entrou logo depois. Lá dentro estava muito escuro. Mary se encolheu, deixando sua perna o mais longe possível da borda do tronco. Coisas se moviam por todo lado, eles ouviam o barulho de rangidos como se vários insetos estivessem andando ali dentro, ocultos pela escuridão. – O que é isso se movendo a nossa volta? – perguntou Adam, enojado. – Não sei, mas seja o que for, não é pior do que aquelas criaturas que estão atrás da gente – disse ela. Então algo mole e gosmento passou por cima de sua mão e um


cheiro que lembrava pus chegou as suas narinas. – Deve ser algum tipo de minhoca. Argh! A garota logo se arrependeu de ter se escondido ali, mas eles não podiam mais sair, seria arriscado demais. Ao seu lado, ela sentia que o corpo de Adam continuava tremendo, fosse por medo, nojo ou frio. Então, quando Mary não aguentava mais e movia as pernas para sair daquele lugar, tudo tremeu e balançou; algo pulou sobre o tronco. Rapidamente a garota voltou as pernas para a posição que estavam antes, sua respiração ofegante. – O bicho papão está aqui em cima – sussurrou Adam. – Não fala agora – censurou Mary no mesmo tom, seu coração voltando a acelerar espantosamente. Eles sentiam o corpo pesado do monstro movendo-se no topo do tronco, o chiado demoníaco chegando aos seus ouvidos. Era um barulho muito estranho, uma mistura de rosnando com um guincho estridente. Mary nunca ouvira um som parecido. Com um baque o bicho pulou para o chão, sobre a terra. Mary viu a perna descarnada da aberração a poucos centímetros dela, em frente à borda do tronco. Dava para ver os ossos da criatura e praticamente não havia carne em seu tornozelo. Os trapos sujos flutuando ao seu lado, movendo-se pra lá e pra cá, como se a qualquer momento fossem entrar no tronco. O corpo de Adam agora tremia mais do que nunca e Mary sabia que ele estava se segurando para não gritar de pavor. A mão do menino apertava a sua com muita força, tamanho era o medo que estava sentindo... Vai embora, por favor. Isso era o que Mary desejava, queria que aquilo fosse embora. Mas, desobedecendo o pedido da garota, um dos farrapos começou a se direcionar para dentro do tronco, como se tivesse vida própria. A garota espremeu seu corpo contra o de Adam, forçando-o a ir mais para dentro do tronco. Conforme se enfiou mais para o fundo, mais coisas gosmentas começaram a deslizar por ela, passando sobre suas mãos e pernas. – Algo me mordeu! – Adam gritou a suas costas. Mal o garoto havia gritado, o tronco recebeu uma pancada, fazendo os dois ficarem de cabeça pra baixo. O farrapo se agitou e espiralou em direção à perna de Mary, enquanto outro numa velocidade espantosa e com uma força inexorável, agarrou o pulso direito da garota, puxando-a para fora e arremessando-a quase dois metros no ar. Mary girou e caiu sobre uma raiz nodosa, batendo com o queixo em sua superfície dura. Ela sentiu um ar quente em seu rosto e imediatamente abriu os olhos, mal se importando com a dor em seu queixo. A criatura medonha estava sobre ela, farejando, de seu nariz saia um vapor. Possuía olhos vermelhos e cintilantes, que avaliavam Mary por uma brecha entre o farrapo que cobria sua cabeça medonha. Ao sentir o odor que ela exalava, a garota teve uma forte ânsia de vômito. O cheiro era podre, de longe o mais fedorento que ela já sentira, era como se fosse a união dos odores de vários animais mortos. Mary gritou e deu um chute na criatura, mas seu pé se chocou contra ossos e nenhum efeito produziu. – Solta ela! – Mary escutou a voz de Adam. O garoto estava puxando a perna esquelética do monstro, tentando tirá-lo de cima dela. E enquanto Mary olhava a criança, pôde ver que seu corpo estava coberto de feridas. Mas como ele havia se machucado daquela forma? E para seu completo desespero, viu que no braço do menino estava agarrado um bicho gordo que parecia um grande verme, com aproximadamente meio metro de comprimento, de um leve tom


verde e seu cefalotórax era coberto por curtos espinhos negros. A criatura parecia estar decidida a entrar no braço de Adam. Novos chiados foram ouvidos, e mais monstros esqueléticos apareceram, saltando por todo lado sobre o corpo da garota. Ela sentiu milhares de farrapos sujos deslizarem por ela, indo em direção ao seu rosto. Em pânico, deu muitos chutes e socos, mas seus oponentes não pareceram sequer amedrontados. Mãos frias e ossudas se direcionaram ao seu rosto, e algumas o apertaram. Adam gritou. Mary pôde ver por entre os dedos murchos que agarravam sua cara o garoto sendo enrolado por um monte de farrapos; ele lutava ao mesmo tempo para tirar o verme de seu braço e para desvencilhar-se dos trapos envelhecidos. Mary precisava sair dali, se não saísse, Adam iria morrer. Usou toda a força que tinha para tirar aquelas mãos do seu rosto, mas ela sabia que não conseguiria se livrar daquelas criaturas; eram muitas. Para piorar, vários farrapos haviam se enrolado em suas pernas, e ela não podia mais chutar. – Socorro! – gritou Adam. – Nããão! – berrou Mary, quando os olhos do garotinho começaram a ser tornar opacos. Então a garota sentiu seus olhos revirarem nas pálpebras e Adam se transformou num borrão azul... um frio assustador apoderou-se dela, parecia estar congelando... os chiados daquelas monstruosidades à sua volta diminuíram drasticamente, como se ela estivesse perdendo a audição... seu corpo de repente ficou pesado... e o oxigênio sumia de seus pulmões... E quando tudo parecia perdido, algo de muito estranho aconteceu. Todas as criaturas pararam de chiar, como se fizessem silêncio para escutar algo. Suas cabeças ossudas movendo-se em todas as direções, pareciam farejar algo. De repente uma delas soltou um longo lamento, agudo e longo e ao escutar isso, todas as outras desataram a correr, sumindo em meio à escuridão da floresta, sendo lideradas pela que gritara. Mary e Adam foram deixados, os farrapos se desenrolaram de seus corpos e seguiram seus donos, ricocheteando atrás deles. Aos poucos a visão de Mary foi voltando ao normal e Adam não era mais aquele borrão azul. O garotinho estava a alguns metros dela, encolhido no chão, com aquele bicho horroroso ainda no seu braço. Sem perder tempo, Mary se pôs de pé e correu para perto do garoto, puxando com violência aquele verme. A coisa era muito mole e pegajosa, com certeza eram as mesmas que passaram sobre sua mão quando estava na escuridão do tronco. O verme mostrou os dentes serrilhados e os cravou na mão de Mary. Então, num acesso de fúria e vingança, a garota atirou-o em direção a uma árvore fazendo com que ele caísse no chão, ao se chocar contra a casca dura cheia de espinhos. Imediatamente Mary sentiu umas fisgadas em alguns pontos da mão, principalmente no local onde a criatura mordera, mas logo cessaram. – Que diabos de bicho é esse?! – perguntou indignada, enquanto olhava a criatura dar uns tremeliques e depois parar, aceitando a morte. Aquele lugar estava começando a tirar Mary do sério. – Não sei – respondeu Adam erguendo-se do chão, avaliando o estrago que os dentes do verme fizeram em seu braço. Lágrimas escorriam pelo seu rosto. – Parece uma espécie... de lesma gigante! – Não creio que exista esse bicho onde nós vivemos – disse ela pensativa, observando a ferida no braço do garoto. Era inacreditável como em tão pouco tempo aquele verme conseguira fazer um estrago tão grande. – Estou com medo dos próximos seres que vamos encontrar. Que lugar maldito é esse onde existem coisas tão estranhas?!


Eu realmente estou torcendo muito para que isso seja um sonho. Embora tudo pareça muito real, não faz sentido algum. Que céu vermelho é esse sobre nossas cabeças?!... – Você está ouvindo? – perguntou Adam, parecia não ter prestado a menor atenção ao que ela dissera e olhava de um lado pro outro, parecendo amedrontado. – Ouvindo o quê? – Essa voz falando com a gente – continuou o menino. Então Mary escutou, bem baixa e arrastada... – Ele se aproxima, ele vai pegar vocês... devorar vocês... assim como fizeram com os outros... As pernas de Mary começaram a tremer descontroladamente, seu coração parecia querer saltar pela boca. – Vocês precisam vir até a mim... ou serão mortos por ele... A garota olhou em todas as direções, tentando ver a coisa que produzia aquela voz, mas não havia nada. Parecia ser uma voz feminina, como se uma velha estivesse conversando com eles, mas como isso seria possível? Será que ela estava invisível? De qualquer forma não seria surpresa, depois das criaturas esqueléticas e dos vermes espinhentos, nada mais seria surpresa naquele lugar. – Ele quem? – perguntou Mary, olhando para cima. Talvez a velha estivesse trepada numa árvore, falando com eles lá do alto. – O Caçador de Almas... Ele adora devorar almas jovens como as suas... em poucos minutos ele estará exatamente no lugar onde estão... E então, quando a voz transmitia isso, uma corrente de ar quente deslizou pela floresta, chegando ao rosto de Mary e Adam, fazendo seus cabelos esvoaçarem. Havia um cheiro impregnado com aquele ar quente, um cheiro que Mary não conseguiu identificar, mas que não era nada agradável. – Eu posso salvar vocês... só eu... Durante muito tempo venho ajudando os outros... também quero ajudar vocês... – E quem é você? – perguntou Adam, correndo em direção a Mary e a abraçando. Estava tomado de medo. – Sua voz não é nada bonita, portanto você logo não deve ser boa. – Minha voz não é bonita porque não precisa ser... e beleza nunca foi garantia de bondade... – Por que não se mostra? – perguntou Mary. Aquilo tudo estava muito estranho, aquela voz não parecia ser confiável, Adam estava certo. – Porque não estou onde vocês estão... meu lar fica a alguns metros daí... Se vierem até mim, poderei explicar várias coisas a você, Mary... responder perguntas que estão em sua cabecinha... Todos ficam cheios de dúvidas quando caem aqui... – E que lugar seria esse “aqui”? – insistiu Mary, que não queria ceder. – Ele está bem perto agora... Gemidos abafados e sinistros soaram, vindos de todas as direções da floresta. Mais pessoas estavam morrendo. Mary e Adam arregalaram os olhos, ainda abraçados, olhando para todos os lados, esperando algo muito ruim aparecer... – Não se preocupem, crianças... não farei nenhum mal a vocês... apenas quero ajudar... Se quiserem vir até mim, basta seguir as árvores que estão marcadas... Uma árvore à esquerda de onde estavam farfalhou, suas folhas sacudiram para lá e pra cá, movidas por alguma força invisível, e um brilho esverdeado surgiu em um ponto do tronco espinhento. E então Mary viu o símbolo; um círculo com vários traços retos no meio, uma luz verde misteriosa percorrendo suas pequenas linhas. – Esse é o símbolo? – perguntou Mary.


– Exatamente... vocês só precisam segui-los... E mais brilhos verdes foram se materializando em outras árvores, todos incrustados nas cascas dos troncos, formando um caminho luminoso que sumia em meio à escuridão e adiante. – Você realmente não vai fazer mal a gente? – perguntou Mary, muito desconfiada. – Ele está chegando... vocês precisam vir agora ou não poderão vir mais... Eu já disse que não vou fazer nenhum mal a vocês... – e pela primeira vez, a voz pareceu irritada. Mary não sabia o que fazer, parecia estar sem opções. Se continuasse naquela floresta, sentia que algo de ruim iria acontecer, pois os gritos abafados a sua volta eram de dor e angústia, ainda mais aterrorizantes que os que as pessoas davam quando eram consumidas pelos trapos, como se algo de muito pior do que os bichos esqueléticos estivessem atacando-as. Por outro lado, algo naquela voz não tinha convencido Mary. E se fosse um truque de algum daqueles monstros esqueléticos? Talvez eles soubessem falar. A garota pensou por alguns segundos – muitas imagens de criaturas passavam em sua cabeça –, tentou adivinhar o que produzia aquela voz... Mas quando um grito soou bem próximo, fazendo-a sentir um arrepio na espinha, tomou uma decisão desesperada... – Está bem, nós vamos – disse ela, segurando a mão de Adam e seguindo em direção às árvores, guiada pela fraca luz verde em seus símbolos. A mão de Adam tremia, e Mary sentia o seu próprio corpo também tremer. Se ela, que tinha dezesseis anos, estava com medo, imagina como estava se sentindo um garotinho de apenas sete anos de idade. Caminharam por dez minutos, percorrendo com dificuldade o caminho cheio de grandes raízes e buracos. Aquela voz não voltou durante esse tempo e tudo que se ouvia eram os gemidos que continuavam quebrando o silêncio do ambiente, acompanhados pelo ar quente que sacudia as folhas da floresta. Subitamente, ao passarem pela última árvore com o brilho luminoso, pararam ao se depararem com um paredão de rocha que subia muito além de suas cabeças. Havia uma fissura naquele paredão que parecia a entrada para uma caverna. – Entrem... vocês estão em frente ao meu lar... Mary sentiu um frio na barriga ao escutar a voz novamente. Será que aquilo realmente estava acontecendo com ela? Adam ainda segurava sua mão e parecia muito assustado até para dizer algo. – Entrem logo, ele já sentiu o cheiro de suas almas... – disse a voz quando um pedido de socorro ecoou mais próximo, morrendo num gemido longo e aflito. Mary deu o primeiro passo em direção ao buraco e Adam a acompanhou. Os dois atravessaram juntos o arco de pedra da caverna e logo foram consumidos pela escuridão. – Não se preocupem, as luzes vão se acender... Podem entrar sem medo... Ent��o várias chamas nasceram e estalaram, nas tochas de madeira que foram cravadas uma a uma nos dois lados da parede da caverna, formando um corredor reto e iluminado. Mary e Adam seguiram em frente, seus corpos tremendo de nervosismo, e, após virarem num corredor à esquerda, se depararam com uma porta de madeira velha e esburacada, sem maçaneta. Raios de luz passavam pelos buracos, vindos de dentro para fora, batendo no chão irregular da caverna. – Entrem, meus queridos – falou a voz, mas dessa vez ela não saiu lenta ou arrastada, e sim, bem mais perto e real e decididamente era uma voz feminina, provavelmente de uma idosa.


– Deixa que eu entro na frente, Adam – disse Mary quando o garoto ia empurrar a porta para entrar. – Se eu gritar, você volta correndo. Entendeu? O menino fez que sim, movendo a cabeça. Com um calafrio, temendo o que iria encontrar, Mary soltou a mão do garoto e empurrou a porta, dando de cara com alguém que não esperava... o rapaz louro que antes salvara a vida dela e do Adam, lá estava, sentado numa cadeira de madeira ao lado de uma mesa de pedra coberta de velas acesas, encarando-a com seus profundos olhos azuis, e não parecia estar nada morto. Todos os direitos reservados. ©

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Capítulo três O pedido da senhora Os olhos de Mary refletiam à luz das muitas velas sobre a mesa, seu rosto pálido e bonito esboçando uma expressão de extremo espanto enquanto encarava o rapaz do outro lado. Ele possuía um rosto bastante austero, sua franja loura por pouco não chegava às pálpebras, onde seus olhos claros avaliavam a garota impertinentemente. Ela parou a uns sete metros dele, totalmente perdida nas ações que deveria tomar. Em sua mente, nenhum dos últimos acontecimentos tinha feito o menor sentido, mas esse era tão estranho quanto os outros. Como aquele garoto conseguira chegar ali antes dela e de Adam? Por que era ele quem se encontrava ali e não uma idosa? Sim, porque o pronunciador daquela voz estridente e ofegante que havia dito para eles seguirem as luzes verdes até aquela caverna só podia ser uma senhora de idade e não um rapaz que parecia ter vinte anos no máximo. Porém a pergunta que mais intrigava Mary nesse momento era o que ele teria feito para escapar daquela criatura horrenda com qual estava lutando, a morte dele era totalmente certa levando em conta a última cena que ela vira da luta. – Achei que o bicho-papão tivesse matado ele – uma voz impressionada e infantil anunciou que Adam estava às suas costas. – Não sei se você fez uma boa escolha em ter entrado – ela censurou entredentes, desanimada. – Você não gritou, então pensei que estava tudo bem – resmungou Adam enquanto observava o lugar onde estavam. – E não vejo nenhum monstro por aqui, acho que não tem perigo. A criança tinha razão, não havia mais ninguém ali dentro além dos três. Era como um tipo de sótão entre as rochas de uma caverna, Mary conseguiria tocar o teto irregular se esticasse as mãos. Em cada fissura nas paredes rochosas e ásperas se encontrava uma vela, todas brancas e acesas. Isso fazia com que lá dentro fosse muito quente e a garota sabia que não demoraria muito para gotículas de suor começarem a se formar em sua testa. Porém a questão era o porquê de alguém colocar tantas velas em um único lugar. O fator iluminação com certeza não era, pois um terço daquelas velas já seria mais que o bastante para iluminar o ambiente. O maior número delas se amontoava sobre a mesa, a cera ia escorrendo pela superfície de pedra conforme derretia, deixando uma linha branca que se estendia até o chão ou que se infiltrava em alguma rachadura no caminho. Seis cadeiras circundavam a mesa, incluindo a que o misterioso rapaz estava usando, como se estivessem postas para um jantar à luz de velas. Do outro lado do aposento havia uma estranha porta fechada, formas e rostos assustadores dominavam sua madeira. Essa, ao contrário da que os garotos haviam acabado de atravessar, não era esburacada e possuía uma grande aldrava de ferro enferrujada. – Não sabemos se podemos confiar nesse garoto – insistiu Mary, tentando desviar o olhar dos rostos medonhos emoldurados na porta. – Por que não? – rebateu Adam. – Ele salvou nossas vidas e deveríamos estar felizes por ele estar vivo. Acho que ele pode nos ajudar. – Não, as coisas não são tão simples assim – nesse momento o rapaz deu uma breve tossida e se concentrou em observar o fogo de uma das velas sobre a mesa, deixando de


encarar Mary. A garota não sabia se ele havia ou não, escutado o que ela dissera, mas por precaução decidiu falar mais baixo. – O modo como ele apareceu, o modo como ele nos ajudou... Quantas pessoas você conhece que dariam a vida por alguém que sequer se falou uma vez na vida? Sem contar o fato de ele ter chegado aqui primeiro que a gente. – Pode existir um atalho – declarou Adam, nada convencido com o que Mary dissera. – E se foi ele quem nos trouxe para esse lugar? – indagou Mary, ainda desconfiada. – Ele pode ter nos sequestrado e ter feito a gente beber algo, cheirar alguma droga... Sei lá, alguma coisa ele deve ter feito pra gente ter visto monstros e ouvido vozes. – Você acha então que ele está controlando os bichos-papões? – disse a criança, arregalando os olhos. Mary fungou, sem nada responder, e gravou mentalmente que nunca mais iria tentar manter um diálogo lógico, num momento de vida ou morte como aquele, com uma criança – era perda de tempo. – Rápido, vamos dar o fora daqui enquanto temos chance – disse ela ao perceber que não adiantava conversar. – Não podem ir, preciso que me sigam – soou uma voz autoritária, fazendo o coração de Mary dar um grande salto. O rapaz havia se levantado da cadeira e agora olhava para Mary e Adam, seu rosto não demonstrando qualquer expressão. – Co... Como é que é? – perguntou ela, não sabendo se ficava assustada ou irritada com o tom que o garoto havia usado. – A gente não vai seguir você pra lugar algum, não conhecemos você. – É preferível me seguir a ter uma morte dolorosa do lado de fora, não acha? – rebateu ele, com um sorrisinho se formando no canto de sua boca. – E de qualquer forma isso não foi um pedido, foi uma ordem. – Você não manda na gente e também não é o dono da voz que falou com a gente na floresta, suponho. Por que deveríamos te obedecer então? – perguntou aborrecida. – Não, não fui eu quem falou com vocês na floresta, mas eu vou levar vocês até ela, portanto é melhor me obedecerem... ou morrerão na floresta. – Eu topo seguir ele – disse Adam, assim que escutou as últimas duas palavras que o rapaz dissera, e sem aviso prévio largou a mão de Mary e correu para o lado do desconhecido. – Adam, o que você está fazendo?! – gritou Mary, surpresa com a atitude da criança. – Eu não quero ter uma morte dolorosa – deu de ombros o pequeno. – E ele salvou nossas vidas antes, tenho certeza que irá salvar outra vez se tiver chance. – Ao menos alguém é agradecido aqui – comentou o estranho enquanto caminhava até a porta às suas costas e puxava a aldrava de ferro, abrindo-a. – Vamos lá, a melhor escolha a se fazer é a que o Adam fez. Mary olhou para a escuridão que a porta revelara, sentindo um calafrio conhecido percorrer todo seu corpo. Será que ela deveria obedecer àquele rapaz? Se ao menos Adam tivesse ficado ao seu lado seria mais fácil negar a proposta e pensando bem foi para isso que ela entrara ali, para encontrar respostas. Ela teria que seguir aquele garoto para esclarecer suas dúvidas, era o único caminho. – Eu vou, já que não tenho escolha – falou finalmente, lançando um olhar de desaprovação a Adam. – Garanto que fez a escolha certa – voltou a falar o estranho, dando espaço para a criança e Mary passarem pela porta sinistra.


Adam foi na frente e antes que Mary pensasse em segurar o braço do garoto para impedi-lo, ele já havia sumido em meio à escuridão. Mary, novamente sem alternativas, moveu as pernas e atravessou o arco da porta. No momento que entrou se deparou com uma escuridão total. Atrás dela escutou o baque da porta de rostos medonhos fechando. – Mary, você está aí? – a voz de Adam cortou o silêncio. – Sim, estou – respondeu ela secamente, não tinha gostado nada das últimas atitudes da criança. E então, como acontecera da outra vez, um corredor reto de tochas se iluminou à frente. Assim que as luzes se acenderam, Mary pode observar o rapaz ao seu lado, os fios louros dos cabelos dele brilhando na luz do fogo. – Apenas me acompanhem – disse ele, seguindo em frente. Mary e Adam obedeceram e o acompanharam. Esse corredor era muito semelhante ao que atravessaram logo que entraram na caverna, exceto pelas raízes nodosas e espinhentas que se encontravam no caminho. De algum modo elas haviam conseguido atravessar pelas rochas da parede e do chão e esticavam seus dedos para fora. Adam quase caiu quando um espinho se prendeu ao seu tênis, mas Mary deu um chute na raiz e o problema logo foi resolvido. – Afinal, para onde estamos indo? – perguntou Adam após alguns minutos andando em linha reta. – Eu já disse que vamos encontrar a dona da voz – disse o estranho, sem olhar para o lado. Parecia estar muito concentrado. – E por que ela mora num lugar tão sombrio? – continuou Adam. – Não sei dizer, você poderia perguntar isso diretamente a ela quando encontrá-la – respondeu o rapaz. – Por aqui... – disse ele quando deram de cara com outra porta sinistra, que também possuía rostos medonhos incrustados em sua superfície. O rapaz entrou primeiro dessa vez, seguido de perto pelos dois. Depararam-se com uma grande câmara, o piso feito de mármore negro, o que lembrava muito um piso de igreja. Quatro candelabros de ferro encontravam-se nos quatro cantos do compartimento, um fogo esverdeado bruxuleando em seus topos. Ossos pendiam do teto arqueado e alto, se foram postos ali com o intuito de enfeitar o ambiente, estavam conseguindo exatamente o efeito contrário; era pavoroso. Mary não sabia se eram ossos de pessoas como os que encontrou no cemitério, mas notou que alguns lembravam muito ao osso do braço humano. – Por que tem esse monte de ossos lá em cima? – perguntou Adam em tom baixo, segurando no braço da garota. – Não faço a menor idéia, mas fique calmo – disse ela, pois já havia percebido pela tremedeira no braço da criança que ele estava bastante assustado. – E você escolheu acompanhar ele, então é bom parar de ser medroso – continuou ela indicando o rapaz que estava a alguns passos deles, parado no centro da câmara. – Mas eu sou uma criança, crianças geralmente são medrosas! E eu nem estou com tanto medo assim – argumentou Adam, largando o braço dela e parecendo bastante aborrecido. – Por que você parou aqui? – perguntou Mary quando chegou ao lado do rapaz louro, ignorando o que Adam havia dito. – É exatamente isto que estou tentando descobrir...


Havia algo de errado, ele parecia estar atordoado, seu olhar estava totalmente vago quando olhou para Mary. – Como assim está tentando descobrir? Foi você quem nos trouxe para cá – disse ela, arqueando as sobrancelhas de tão sem nexo que foi a resposta do rapaz. – Eu?!... Mas por que eu iria trazer vocês para cá? Eu nem sei que lugar é esse – e então ele arregalou os olhos, demonstrando bastante surpresa ao encarar Adam e Mary. – Eu me lembro de vocês agora... Estavam sendo perseguidos por aquelas criaturas quando os ajudei... Nesse momento um barulho pesado soou, vindo da parede lateral da câmara, atrás deles. Como se as rochas pesadas da parede estivessem em movimento. – Posso ver fumaça saindo da cabeça de vocês – a voz chiada e falhada ecoou pelas paredes de mármore. Os três se viraram rapidamente e depararam com uma grande passagem que não estava ali antes, com certeza se tratava de uma entrada secreta. A voz ancestral vinha de suas profundezas ocultas, escondida pela escuridão que se empilhava lá dentro. – Fico feliz que finalmente estejam aqui, falta pouco para a mente de vocês se tornar mais clara agora. – Que brincadeira de mau gosto é essa?! – disparou Mary, amedrontada. – Eu não quero mais explicação nenhuma, só quero acordar desse pesadelo! – Você sabe muito bem que isso não é um pesadelo, minha querida – retornou a voz. – Agora entrem, chegaram longe demais para desistir. – E se a gente não entrar? Ah, já sei!... – teatrou Mary, levando as mãos à cabeça, o medo dando lugar à irritação. – Seremos mortos pelo Caçador de Almas! Que se dane o Caçador de Almas, isso é tudo imaginação da nossa cabeça! Mas enquanto ela falava, o rapaz louro se infiltrou pela escuridão da passagem, deixando ela e Adam para trás. – Agora só falta você e a criança – avisou a voz. – E por que devemos te obedecer? Não sabemos se você realmente está querendo ajudar a gente ou só querendo arranjar um jeito de nos levar até sua armadilha... Afinal, por que sequestrou a gente e nos trouxe para esse lugar? – perguntou, as palavras saindo muito rápido. – Eu não sou a causa de vocês estarem aqui, poderei explicar melhor se atravessarem o arco da passagem... – Não confio em você, não posso acreditar em alguém que eu sequer posso olhar nos olhos – disse Mary. – Bonitas palavras, mas esse tipo de sentimentalismo não tem espaço aqui – contrapôs a misteriosa voz. – Não foi para isso que entrou no meu lar?Você quer encontrar respostas para suas dúvidas e eu sou a única que posso lhe dar. Mary olhou para Adam, os olhos do garotinho estavam vidrados de medo. Era fato que ela estava completamente perdida, era fato que não tinha condição nenhuma de refletir sobre qualquer coisa, qualquer decisão. E a dona daquela voz tinha razão, ela entrou ali para encontrar respostas para as centenas de dúvidas que borbulhavam em seu cérebro, foi até ali para descobrir onde se encontravam seus pais, ela tinha de seguir em frente por eles. – Vamos – disse a garota por fim, dando as mãos para Adam e penetrando na escuridão da passagem. Logo quando entraram sentiram o chão tremer sob seus pés e escutaram a parede as suas costas se movendo, sendo fechada.


– Deem alguns passos à frente – a voz voltou a se manifestar, porém voltando a se tornar mais perto e real, como na vez que atravessaram a porta esburacada. A garota, ainda segurando as mãos de Adam, deu alguns passos e então avistou uma linha de luz na vertical, como se fosse a iluminação que estivesse vazando por uma porta entreaberta. Havia algo quebradiço no chão, pois enquanto os dois caminhavam ouviam o barulho de algo estalando. Por fim, os dois estavam diante da porta entreaberta, e mesmo em meio à escuridão, Mary pôde notar os contornos dos rostos medonhos que também estavam emoldurados ali. – Minha nossa! – horrorizou-se ela, quando Adam empurrou a porta e ela se deparou com um cômodo assustador. Crânios e mais crânios esqueléticos estavam espalhados pelo chão, todos cobertos por uma camada preta de poeira, mas isso não os tornava menos assustadores. A parede acinzentada e esburacada estava coberta por objetos prateados triangulares, todos do mesmo tamanho, e um brilho estranho emanava deles. E para deixar Mary mais assustada, uma figura curvada e coberta por um longo manto azul-escuro os encarava do canto, ao lado de um pedestal de pedra torto e rachado em alguns pontos. Usava um véu negro na cabeça, escondendo sua face, suas mãos brancas e envelhecidas eram as únicas partes de seu corpo que não estavam cobertas e se agarravam com os dedos longos a uma distorcida e estranha bengala negra. O rapaz louro estava ao lado da porta, bem próximo a Adam, seus olhos estavam paralisados enquanto olhava para a figura excêntrica perante eles. – Sejam bem vindos ao meu lar – sibilou a dona da habitual voz chiada e falha. – Chamome Dionaea e os trouxe aqui, como disse antes, para ajudá-los. Quanto ao nome de vocês, não é necessário dizer, pois eu já estou ciente. Como era possível aquela mulher saber seu nome, indagou-se Mary. Será que ela estivera investigando sua vida, seus hábitos, para depois sequestrá-la e levá-la para aquele lugar medonho, como costumam fazer alguns sequestradores profissionais? E se aquilo fosse algum tipo de experiência com humanos em que ela e Adam seriam as cobaias? Aqueles monstros medonhos só poderiam ter sido criados em laboratórios, por cientistas. Ou seria alguma tecnologia nova de imagens tridimensionais de games? – Como sabe nossos nomes? – perguntou por fim, sua cabeça fervilhando de possibilidades. – Meus ouvidos e olhos são a floresta. Tudo que é pronunciado lá chega até a mim – ela moveu uma das mãos para o lado esquerdo, indicando um estranho objeto metálico que estava no único lugar da parede onde não possuía frascos, suas hastes metálicas formavam um circulo vazio. – Ela é uma bruxa, precisamos sair daqui – choramingou Adam, em um baixo tom aflito. – Ela vai nos transformar em ratos ou nos cozinhar num caldeirão! Mary continuou olhando para o círculo na parede, tentando entender o que a velha queria dizer, seu coração parecendo estar quicando numa cama elástica. – É, isso realmente é um sonho – concluiu ela. – Eu quero acordar logo desse pesadelo louco, eu preciso acordar. – Não, isso não é pesadelo, é real. Tão real quanto qualquer coisa que você vivenciou antes. Essa é a afirmação mais comum: isso só pode ser um pesadelo. E eu me pergunto o motivo, o porquê, de se recusar tanto a enxergar uma coisa que seus próprios olhos estão vendo. Vi muitos desses, que não aceitam a realidade, sucumbirem por conta da própria cegueira que tecem em seus olhos, eles sempre acabam tendo que pagar um preço bem


caro. Alguns costumam se aliar à fúria, à raiva, por vezes até se autoflagelando ou até mesmo tentando me machucar, esses também geralmente acabam caindo. E claro, assim como já disse, existem aqueles que insistem em dizer que isso tudo não passa de um sonho e que em poucas horas irão acordar – então a senhora se aproximou mais de Mary e a garota pôde sentir o bafo quente e fedorento que vinha dela, atravessando por aquele manto envelhecido que cobria seu rosto. Aquela mulher parecia realmente acreditar no que dizia, não parecia estar blefando. – Não, você não irá acordar porque já está acordada, essa é a pura e única verdade. Então sejam inteligentes, todos vocês. O caminho mais sábio a se seguir é o caminho dos fatos – e então ela direcionou a cabeça oculta para Adam e para o rapaz louro, respectivamente. – E você quer que a gente acredite mesmo que isso não é um pesadelo? – perguntou ele, seus olhos azuis cintilando. – Mesmo depois de termos visto aquelas criaturas horrendas lá fora? – Ah, é verdade – continuou a velha, caminhando até o rapaz e parando na frente dele, assim como fizera com Mary, no entanto ele era mais alto, o que a obrigou a erguer a cabeça para se comunicar. – A recepção não parece ter sido muito agradável para vocês... Claro, quem se sentiria confortável sendo perseguido por demônios-esqueléticos? Mas vocês se saíram bem, tiveram mais sorte do que os que ficaram para trás pelo menos... Sim, como tiveram sorte – enfatizou em tom enigmático, a voz saindo como um sopro. – Demônios o quê... ?! – engasgou-se Mary, um sorriso incrédulo dominando seus lábios. Aquela mulher só podia estar brincando, talvez a idade tivesse afetado seu cérebro. – Afinal, onde estamos? Se isso não é um sonho, o que poderia ser? – Mary tem razão, estou dando rodeios sem ir direto ao ponto. Desculpe-me, não foi minha intenção, mas é que eu fico muito feliz sempre que vejo novas faces. Rostos cheios de vida me fazem esquecer acontecimentos desagradáveis pelos quais tenho de passar nesse mundo – e então Dionaea levou as mãos velhacas até o rosto e desceu o véu negro lentamente, revelando sua face. Um grito por pouco não escapou pela boca de Mary enquanto Adam se agarrava a sua cintura, abraçando-a e resmungando algo que lembrava “bruxa feia”. Realmente, feiúra era a palavra que mais se aproximava da definição daquele rosto humano que estava diante deles. Os olhos não brilhavam, pois ambos eram brancos acinzentados, as pupilas haviam sido consumidas pelo nada. Feridas profundas haviam perfurado aquela pele no passado, deixando horríveis cicatrizes que dominavam todo o contorno do rosto. Não havia boca, não havia lábios, apenas um buraco circulado por machucados que parecia estar em decomposição, se deteriorando. E, ao subir o olhar, Mary viu que a cabeça era nua, sem nenhum fio de cabelo sequer, apenas uma camada de pele doentia e nojenta. – O que a senhora quis dizer exatamente com “nesse mundo”? – o rapaz louro perguntou, e Mary notou pela expressão em seu rosto que ele, como ela, não sabia se sentia medo ou pena dela. – Parece ter tido a intenção de insinuar que estamos em outro mundo, estou enganado? Mas por que ele parecia estar tão assustado? Ele não era parte daquilo? Foi ele quem levou Mary e Adam até ali, foi ele quem os guiou, até o momento em que pareceu bastante confuso quando parou no meio da câmara. Havia algo de muito estranho e confuso nisso tudo, Mary não sabia com qual questão deveria se preocupar primeiro. – Sim, outro mundo por enquanto pode definir – falou a senhora, os poucos dentes podres que ainda restavam em sua boca podendo ser vistos – Existem muitas teorias, algumas falsas, enquanto outras


genuinamente verdadeiras, e sei que vocês conhecem muito mais do que eu, até porque vieram de épocas atuais. – E o que isso quer dizer? – perguntou Mary, pois as palavras daquela senhora não faziam o menor sentido. – Será que realmente não sabe do que estou falando ou não quer perceber? Pois bem, vou clarear a mente de todos vocês, mas para que eu possa ajudá-los, primeiramente preciso de ajuda. Percebo que existe algo de diferente nesses tempos, algo muito maior e intrigante. Os demônios-esqueléticos estão agitados, o céu está vermelho quando costumava ser negro, e o fluxo de... visitas vêm aumentando bastante. – O que será que isso significa? – Dionaea perguntou sombriamente, começando a dar passadas em volta dos três, circulando-os, sua bengala produzindo um baque agourento quando tocava o chão áspero e coberto de caveiras. – Então penso que talvez vocês possam me dar algumas respostas e por consequência ganhar outras. – Se nós ao menos soubéssemos qual é a pergunta, poderíamos tentar responder algo – falou o rapaz, seus olhos acompanhando desconfiadamente Dionaea enquanto ela girava lentamente em torno deles. – O que exatamente a senhora quer da gente? – Peço apenas que me revelem suas lembranças – sussurrou ela, um sorriso se formando em seus lábios pútridos. – Nossas lembranças? – Sim, todas as lembranças dos últimos momentos que se seguiram antes de chegarem aqui. Sei que será difícil para vocês, nunca é agradável quando temos que reviver momentos de sofrimento, como costuma ser na maioria das vezes, porém eu só poderei ajudá-los se me contarem suas histórias – falou ela enquanto passava seu olhar opaco pelo rapaz, depois Mary, e por último recaindo sobre Adam, para quem apontou. – A criança irá iniciar os relatos... – Mas... não... – gaguejou Adam, puxando Mary para trás, tentando se distanciar da senhora. – Vamos lá, meu menino - insistiu Dionaea, se aproximando, um sorriso torto se formando em seus deformados lábios. – Prometo que não irá doer. No máximo uma leve dor poderá se apossar de sua mente, o que é normal ocorrer. O menino estava muito assustado e Mary o compreendia. Ela mesma não sabia se estava forte o bastante para relatar o acidente que sofrera, e como já havia concluído antes, seria muito mais difícil uma criança conseguir falar qualquer coisa. Ele tremia enquanto segurava sua cintura, ela pôs as mãos em volta dele, tentando acalmá-lo. Seguiu-se um minuto inteiro até que Adam tomasse coragem para começar a falar, sua voz saiu trêmula e baixa. Ele não queria ter de recordar novamente, ele não queria ter de recordar nunca mais... – Era noite, eu e minha mãe estávamos no sofá... tínhamos acabado de chegar da festa de aniversário do Bob, meu melhor amigo de bairro... Na TV estava passando uma reportagem sobre algo que caiu no centro da cidade e destruiu... – e então ele fechou os olhos, como se estivesse fazendo força para se recordar. – O que estava passando? – perguntou Dionaea. – Não sei... não consigo me lembrar... – falou ele com dificuldade, suas pálpebras tremendo. – Sobre o que você e sua mãe falavam nesse momento, Adam? – continuou a velha, os olhos brancos saltando em direção ao garoto, embora fosse impossível saber para quem ela estava realmente olhando.


– Minha mãe me assegurava que nenhum monstro do espaço iria invadir a nossa casa, enquanto eu queria correr pra debaixo da minha cama... – nesse ponto o corpo do menino começou a pulsar, como se a qualquer momento ele pudesse explodir. Mary o abraçou mais forte. – E então, que houve depois? Precisa dizer – Dionaea tocou a face dele. Sua mão envelhecida possuía unhas tortas e compridas, tão feias quanto seu rosto. – Meu pai estava chegando... Mamãe e eu sempre descemos para abraçá-lo quando ele retorna do trabalho... – a voz da criança estava sumindo, transformando-se aos poucos num balbuciar baixo e sofrido. – ... e enquanto descíamos a escada para a garagem, a gente escutou – nesse momento o garotinho não conseguiu mais evitar, lágrimas deslizaram lentamente das suas pálpebras, deixando riscos em seu rosto rosado, seus olhos ainda fechados. O sangue parecia estar se esvaindo de seu rosto, dando lugar ao branco pálido de uma folha de papel. – Estamos quase no fim, logo tudo vai acabar... – Primeiro veio o estrondo... depois o grito do meu pai do lado de fora, chamando por mim e mamãe... Eu senti os braços da minha mãe em torno de meu corpo,... e o clarão veio... O peso do corpo de Adam desabou sobre Mary, e a garota, sem forças para suportá-lo, caiu com ele nos braços. – O veneno dos orghois está levando ele – sussurrou a velha enquanto se ajoelhava ao lado deles. Enquanto Mary olhava para Adam, ela via que os ferimentos na pele do garoto, causados pela mordidas dos vermes do tronco, estavam escurecendo. Era possível visualizar os vasos sanguíneos do corpo dele se tornando cada vez mais visíveis. – Eles são venenosos? – entendeu ela, desesperada. Como se não bastasse tudo que estava acontecendo com ela e a criança, eles ainda haviam sido mordidos por seres venenosos?! Foi quando sentiu sua própria mão direita latejar e ao olhar para a parte do seu corpo percebeu que estava igualmente escurecido no ponto onde recebera a mordida. Veias também começavam a se formar ao redor do machucado, criando linhas horríveis que saiam de sua mão e iam subindo pelo seu braço. – Rápido Liem, pegue o Triângulo de Cibório ao seu lado! – mandou Dionaea. – Triângulo de Cibório?! – perguntaram Mary e o rapaz louro, que provavelmente se chamava Liem, em uníssono. – Isso mesmo que ouviu, não há tempo para indagações! – A senhora está falando disso?! – falou o rapaz, apontando para os metálicos objetos na parede ao seu lado, um quê de duvida estampado na cara. – Exatamente – disse a velha. – Pegue o segundo da terceira fileira. Liem percorreu o olhar pelos vários objetos ali presentes, enfileirados um acima do outro, como se fossem amostras de perfumes em alguma loja. Ele esticou a mão para a terceira fileira de baixo para cima e pegou o segundo objeto metálico, que emanava uma fraca luz de seu interior. – Me entregue antes que o veneno alcance o coração deles – apressou Dionaea. Ele correu para perto da senhora e lhe entregou o objeto. Assim que o recebeu, Dionaea fechou os olhos e começou a pronunciar palavras numa língua esquisita. – O que a senhora está fazendo? – perguntou Liem, observando espantado.


Não houve resposta, Dionaea estava concentrada demais pronunciando as palavras estranhas perante Mary e Adam, o objeto triangular bem próximo de sua boca. E então, de repente, o objeto produziu um estampido e se abriu em três partes. Mary observou os fios negros do cabelo de Adam rodopiarem lentamente e então sentiu quando um leve sopro tocou sua face. Era como a brisa gélida do oceano que geralmente só sentia quando ia a alguma praia no litoral do Reino Unido, porém o som que chegou aos seus tímpanos não era o de ondas quebrando em corais ou rochas. A garota não sabia ao certo que som era aquele, nunca ouvira antes, no entanto era esplêndido. Não era semelhante a uma canção, mas era de longe, melhor do que qualquer música que já escutara antes. E o mais estranho de tudo era que o som, a garota sabia, vinha de dentro do objeto metálico na mão de Dionaea. – Penso que já é o bastante – falou a senhora, voltando a abrir os olhos, o objeto em sua mão se fechando com um clique surdo. Com a mesma rapidez que o sopro veio, ele se foi, deixando Mary com alguns fios de cabelo fora do lugar. – Mamãe... é você?... – Adam resmungou enquanto sua cabeça repousava sobre a garota, ele estava acordando e ela se impressionou ao ver que os ferimentos no corpo dele não estavam mais cinzas e que foram trocados apenas por pequenos hematomas e cicatrizes. – Como isso...? – começou ela, sem saber o que falar enquanto olhava para a própria mão que não mais doía e constatava que não havia mais nenhuma grande veia crescendo nela. – Pronto, estão livres do veneno. Havia me esquecido que vocês foram mordidos por eles – falou a senhora, erguendo-se e colocando o objeto triangular exatamente no local de onde Liem o havia tirado. – Okay, eu estou realmente pirado depois de presenciar uma coisa dessas – falou o rapaz enquanto erguia a mão para ajudar Adam e Mary a se levantarem do chão. – Já eu, acho que estou pirada desde o momento que abri os olhos e me deparei com esse lugar – respondeu Mary, dando a mão para ele erguê-la. – A bruxa... foi embora? – indagou Adam, meio entre o despertar e o adormecer, uma das pálpebras ainda fechada, porém não demorou muito para a criança voltar a arregalar as duas; Dionaea estava encarando-o a poucos metros. – Eu não sou uma bruxa, Adam, mas entendo que pense isso de mim devido a sua idade. Quase todos com essa faixa etária pensam – chiou ela, dando algumas passadas em direção ao garoto. – No entanto eu posso lhe assegurar que seria bom se parasse de temer coisas criadas pela mente humana como “bruxas” e “bichos-papões”, aqui você vai se deparar com provações piores. Mary não estava prestando atenção ao que Dionaea e Adam falavam, havia algo que seu cérebro não parava de revirar. – O que é exatamente esse Triângulo de Cibório? – repetiu ela, observando a senhora. – Tsc, tsc! – Dionaea moveu o dedo, indicando negativo. – Vocês ainda não terminaram de relatar os últimos fatos que se recordam, portanto ainda não chegou a minha vez de dizer nada. – Eu já contei, não quero dizer mais nada – choramingou Adam, voltando a abraçar Mary. – Também acho que ele não tem mais nada pra dizer – apoiou, pois estava preocupada com o garotinho depois de ter escutado a história terrível que ele contou.


– Tudo bem, o Adam já fez sua parte – disse a velha enquanto dava as costas aos garotos e dava alguns passos no sentindo contrário de onde eles estavam. – Ele já disse tudo que eu queria saber... e arrisco dizer que das crianças que vieram até a mim, ele foi quem melhor relatou os fatos. Algumas mal conseguem formar uma frase de tanto que ficam perturbadas com minha presença. Pois bem... você é a próxima, Mary. Ao escutar seu nome, a garota sentiu a boca amargar. – Eu? – Sim, você, querida. No principio Mary teve dificuldade para recordar, era como se tudo tivesse acontecido há bastante tempo e, para piorar a situação, uma dor de cabeça terrível havia começado a dominar seus neurônicos. Ela contou sobre o engarrafamento no centro de Londres e sobre a briga que seu pai tivera, mas falou tudo sem o menor detalhe. Uma sombra estava embaçando os acontecimentos em sua mente. Não foi difícil entender porque Adam teve tanta dificuldade para falar, era claro que ele estava sentindo a mesma dor de cabeça, além do efeito do veneno daqueles vermes. Quando a garota chegou na parte do meteorito e da destruição do Big Ben teve de se concentrar para materializar a cena, nesse ponto sua cabeça mostrava sinais de que iria explodir. – Meteorito? – indagou Dionaea, ainda de costas. – Já ouvi falar sobre isso antes, porém não me lembro muito bem. – A senhora não sabe o que é um meteorito? – perguntou Liem, perplexo. – Como ela não sabe? – também falou Adam, como se um professor tivesse feito a questão a um coleguinha de sala. – Todo mundo sabe o que é um meteorito. Era isso que estava passando no noticiário e que não consegui me lembrar... Você não assiste TV, sua bruxa? – disparou malcriadamente, mas logo pareceu ficar arrependido ao ver a careta que Dionaea fez ao se virar. Então a mente de Mary foi despertada para algo de muito intrigante, algo que ela não havia notado até o momento e que Adam a fez ver com a pergunta inocente que fizera. Desde que entrou na caverna, ou até mesmo fora dela, ela não viu nenhum sinal de aparelhos eletrônicos, nada que dependesse de energia elétrica. Não existia rádio, telefone ou televisão. As lâmpadas ali dentro, como a garota bem pôde notar, estavam sendo substituídas por duas tochas que se encontravam dos dois lados da sala. Será que estavam num local da Terra onde o progresso e a tecnologia ainda não haviam chegado? – Então, eu posso te explicar o que são meteoritos – disse Liem, o piercing brilhando em seu lábio inferior enquanto ele movimentava a boca para falar. – Qualquer detrito de cometas, asteróides, restos de planetas que atravessa a atmosfera da Terra e atinge o solo é chamado de meteorito. Por vezes são bastantes pequenos, menores do que uma ervilha, já outros podem possuir quilômetros de diâmetro. São constituídos de rocha ou metal, e também existem os mistos. O número de meteoritos que atingem a Terra vem aumentando bastante nos últimos três anos, o que indica que estamos tendo um surto deles – nesse ponto o rapaz parou, lançando um olhar de dúvida à idosa. – Você sabe o que é uma ervilha, metal, estrelas... ou também não sabe? – É claro que sei o que são estrelas, meu caro! E conheço mais sobre elas do que você pode supor – falou Dionaea enquanto levantava os braços para o ar, parecendo ter ficado ofendida com a indagação do rapaz. – E também já sei do que se trata um meteorito, me lembro agora.


O modo que Liem explicara sobre meteoritos lembrou muito a Mary o jeito didático de seus professores darem aula, como se ele tivesse memorizado o assunto depois de tanto repetir. – Por que você sabe isso tudo sobre meteoritos? – decidiu questionar desconfiada. Aquilo estava parecendo um teatro bem ensaiado, onde aquela velha e o rapaz louro eram os protagonistas e ela e Adam os bobos da corte – Assiste muito ao National Geographic? – Ou será que é por que sou um estudante de astronomia de Oxford? – respondeu ele, uma de suas sobrancelhas se erguendo. Mary se calou, envergonhada, pois Oxford era nada mais, nada menos do que a universidade mais disputada da Inglaterra. – Agora que já sei o que é um meteorito, continue o relato – prosseguiu Dionaea, atraindo a atenção de Mary e cortando o constrangido silêncio da garota. A dor de cabeça gritante havia parado durante o período que discutiram sobre meteoritos, mas assim que a garota abriu a boca e voltou a contar sobre a viagem com os pais, a dor voltou com força total. Lembrar do incidente com o cervo ferido foi mais fácil do que previra, mas quando chegou na parte que entravam no carro, começou a sentir uma falta de ar tão grande que era difícil pronunciar qualquer palavra. – ... e meu pai tentou parar o carro... Minha mãe gritou, eu também gritei, e o carro bateu – terminou ela, sentindo um vazio horrível no peito ao pensar em Charles e Alice, mas ao mesmo tempo aliviada por estar sentindo a dor se esvair de sua mente enquanto o ar retornava aos seus pulmões. – E então eu acordei em meio aquele monte de pilastras negras, eu estava tão tonta que nem conseguia ficar de pé. – Um animal morto no meio da estrada? – resmungou Dionaea bem baixinho, falando mais para si mesma. – O que será que isso significa? – Significa que ele foi atropelado, oras – respondeu Adam, sem a menor cerimônia. – Ela falou que havia marcas de pneus na barriga do cervo. – Não me dirigi a você – retrucou Dionaea, por entre os dentes. – Essa luz que apareceu eram faróis de outro automóvel? – perguntou Liem, uma expressão estranhamente séria no rosto. – Sim, eu vi no GPS que outro automóvel se aproximava – respondeu Mary, no entanto ela não tinha tanta certeza assim. Mas o que mais poderia ser além de outro automóvel? – Agora que Mary já nos contou sobre sua história, finalmente chegou sua vez, Liem – disse a velha, encarando-o. – O que tem para nos contar? Aposto que deve ser algo tão interessante quanto os relatos que acabamos de escutar. Mary olhou para Liem, esperando ele começar a falar. Porém ele não abriu a boca. – Vamos lá, me conte o que houve com você para vir parar aqui – a velha abriu um sorriso, os dentes quebrados e escurecidos aparecendo novamente. Outra vez Liem ficou em silêncio enquanto seus olhos azuis olhavam para ela. Por um momento Mary achou que ele iria falar algo, mas logo sua boca voltou a fechar-se. – O que está havendo, Liem? – perguntou Dionaea. – Não sei, eu simplesmente não consigo me recordar – respondeu ele alienadamente. – Não consegue se lembrar? - Mary não esperava isso. – Não me vem nada na cabeça, parece que tudo foi apagado – continuou Liem, havia um tom de desespero em sua voz. – Então como conseguiu se recordar que estuda em Oxford? – voltou a questionar Mary.


– Disso eu me lembro! Lembro-me de tudo, menos... Eu não sei como vim parar aqui! – Calma, não precisa se desesperar – falou a senhora caminhando até ele e esticando as mãos brancas, tocando o rosto do rapaz. – Mas por que eu não consigo me lembrar? Adam e Mary se lembram de tudo – disse ele, seus olhos agora observando atentamente as unhas longas daquela mão horrível. – Alguns são assim, não conseguem rever os acontecimentos que os trouxeram aqui. Talvez a mente tenha decidido apagar por ser algo muito doloroso e sofrido ou por que estava dominada pelo sono quando ocorreu tudo. Eu não sei ao certo o verdadeiro motivo – agora os dedos velhos de Dionaea acariciavam o rosto dele. – Você não é o primeiro que não se lembra, e nem será o último tampouco. Algum tempo atrás recebi uma moça que sequer sabia o próprio nome, ao menos você se lembra dos fatos que ocorreram em sua vida, se lembra de quem você é, onde estudava... E como eu disse antes, isso não é motivo para desespero, pois você ainda pode recuperar sua mente. Mary ficou bastante desapontada com a súbita amnésia de Liem, pois queria muito saber se ele também tinha passado por alguma experiência como a que ela e Adam passaram. Sim, porque havia algo de comum entre a história dela e do Adam. Os dois pareciam ter vivido o mesmo tipo de horror, os dois pareciam estar correndo grave risco de vida quando veio o clarão. Tudo bem que a garota achava que a luz que vira à frente era de um carro, mas e se não fosse? Mas uma coisa era certa, apesar de ela ter escutado algumas coisas e dito outras para Dionaea, sua mente ainda permanecia tão confusa como antes, a velha ainda não havia esclarecido nada e aquilo estava somente confundindo-a ainda mais. – Se livrar disso tudo?... Nós estamos em que parte do planeta? – perguntou Liem empurrando as mãos de Dionaea para longe do seu rosto e indo para o lado de Mary. Uma expressão de extremo nojo em sua face. – A gente consegue te entender... Em que país estamos? – Você está falando de linguagens? – perguntou Dionaea, cruzando os braços. Pareceu não ter gostado do rápido afastamento de Liem de suas carícias. – A confusão das línguas não se faz necessária aqui. – A confusão das línguas? – Certas coisas vocês entenderão somente com o tempo, não vale a pena responder agora – ponderou a velha. – Eu, por exemplo, levei séculos para compreender certos fatos. – Levou séculos?! – engasgou-se Mary. – Quantos anos você tem? – perguntou Adam, novamente agarrando-se à Mary e logo depois dizendo baixinho que Dionaea comia carne humana para permanecer viva eternamente. – Isso não importa, não é da sua conta – respondeu a senhora enquanto caminhava novamente para perto do pedestal torto, o manto azul escuro arrastando no chão enquanto o barulho da bengala soava. Parou perante o pedestal e deixou a bengala escorada na parede, logo depois, dirigiu aqueles olhos esbranquiçados aos três garotos novamente. – Vocês devem estar se perguntando como sair daqui, certo? Só há um meio de saírem... digamos... vivos, somente uma chance entre mil, e poucos foram os que alcançaram a vitória. Os obstáculos são maçantes, inflexíveis, cruéis e extremamente poderosos. Gostaria de poder dizer que no fim tudo vai terminar bem, que tudo dará certo, mas infelizmente não posso. Não vou mentir para vocês. Os acontecimentos aqui quase nunca são favoráveis, nunca temos sorte nesse lugar. O que temos são somente maldições, dor e perdas. Digo isso para que o tombo seja menor, para que não fiquem amargurados sentindo o severo gosto da


derrota enquanto queimam e, acima de tudo, digo para que se conformem e assim se sintam melhor. Não estou dizendo para serem covardes ou para não lutarem, somente quero que entendam que não se pode ter muita esperança, não, aqui. Venho me deparando com jovens iguais a vocês por muito tempo, os jovens que ainda teriam muito para viver. São vocês que mais me entristecem, que mais me fazem lamentar. Porém essa é a vida,... essa é a morte. – A senhora está querendo dizer que estamos mortos? – perguntou Liem, o pavor estampando no rosto. Será que Mary realmente havia escutado a palavra morte? – Não, não estamos mortos! – falou Adam, os olhos do garotinho estavam mais saltados que nunca, mas ele ainda assim conseguiu falar em tom bastante cético. – Se estivéssemos mortos não estaríamos respirando, falando e nem se mexendo. Pessoas mortas não fazem nada disso, apenas ficam dormindo em caixões debaixo da terra! Mamãe sempre me diz isso e eu acredito nela! – Sim, é claro que acredita – falou Dionaea, um estranho sorriso de desdém tomando conta de sua face. – A palavra morte sempre causou muito medo, não estou certa? Uma das grandes perguntas que nunca tem resposta é exatamente essa... Pra onde vamos após a morte?... Eu encontrei a resposta há muito tempo e agora é chegado o momento de vocês, meus queridos, encontrarem também. – Morte, demônios, vermes venenosos! Meu Deus, o que será que houve comigo pra estar imaginando coisas tão absurdas como essas?! – gritou Mary, um pânico horrível se abatendo sobre ela. – Eu não estou morta, isso é impossível! – Não disse que estão mortos, ao menos não no sentindo literal da palavra – contrapôs a idosa. – Se querem saber, a morte não é o descanso eterno que estão acostumados a acreditar. A morte é vida, assim como a vida é morte. Mary sentiu os ossos das pernas tremerem a sustentação do seu corpo e logo depois se deixou cair ao chão. Ela precisava sair daquilo, precisava voltar a ver o rosto de seu pai e de sua mãe... ou será que eles também estavam mortos? – Está bem, se estamos mortos, embora eu não acredite nisso, o que devemos fazer para sair da morte então? Eu só quero que me diga um modo de acordar desse pesadelo, seja ele verdadeiro ou não – suplicou ela. – Sim, só nos diga como sair disto então – concordou Liem. O rapaz vislumbrava piedosamente Mary e também mostrava sinais de estar bastante apavorado. Nesse momento a mão direita da garota, que tocava molemente o chão cheio de ossos, encontrou algo sólido que não possuía a mesma textura de um osso. Ao dirigir o olhar na direção do objeto ao seu lado, viu que sua mão tocava um grande livro encadernado com uma grossa capa de couro. Ele estava em meio aos ossos e crânios, seu título oculto pela extensa camada de poeira. – Sim, eu já vou lhes dizer, mas antes me deixem encontrar um crânio em bom estado – comentou a senhora enquanto ia se abaixando atrás do pedestal, suas mãos tocando as várias ossadas ao seu alcance. – Pra que você está procurando um crânio? – perguntou Adam. – Você vai saber – falou a velha, jogando uma caixa craniana rachada perto do garoto, que, por sua vez, deu um grande pulo para trás. Mary aproveitou que a idosa não estava olhando e esticou a mão até a superfície do livro. Após esfregar rapidamente a capa de couro, ela pôde ler o título com letras douradas e grandes. Bíblia Sagrada.


O fato de Dionaea ler a Bíblia surpreendeu Mary, pois ela não era o tipo de beata que aparentava seguir a palavra de Deus, ainda mais agora que estava agachada revirando o que antes foram cabeças humanas. – Agora me deixe ver os Nimbos de vocês – falou Dionaea quando por fim se ergueu, segurando um crânio acinzentado nos braços. – O que são Nimbos? – perguntou Mary, sua mão largando a superfície do livro antes que a senhora notasse alguma coisa. – Logo quando chegam ao Cemitério do Desespero, todos recebem seus Nimbos. Sem eles, ninguém pode sonhar em se ver livre daqui – concluiu a senhora. – Você está falando disso? – perguntou Adam, erguendo a mão no ar como se mostrasse alguma coisa, porém não havia nada. – Exatamente, meu querido – respondeu a senhora com um tom visivelmente falso de carinho. – Do que você está falando? Não há nada na mão do Adam – disse Liem, olhando para a mão vazia da criança. – Você e Mary não conseguem visualizar, na verdade nem eu mesma posso – disse ela. – Somente uma pessoa, alguém entre os milhares que também está perdido como vocês, pode visualizar o medalhão que se encontra em volta dos seus pescoços. – Apareceu logo que acordei... – falou Mary erguendo-se do chão e enfiando a mão por baixo da blusa, tirando o medalhão metálico de pedras negras. – E quanto a você, Liem? Não ganhou o seu? – questionou Dionaea. O rapaz tocou lentamente o peito e Mary pôde ver que existia um relevo sob sua camisa. Com certeza se tratava de outro medalhão. – Pelo visto, sim, mas eu não tinha percebido isso em meu pescoço – falou ele, pensativo. – Como veio parar aqui? – Essa é uma boa pergunta e como boa pergunta que é, não possui resposta. Se contentem com o fato de que ganharam isso de alguém, ou alguma coisa que queria lhes dar a chance de se livrarem daqui. – E como esse medalhão pode exatamente nos ajudar a dar o fora daqui? – voltou a questionar Liem. – Você vai entender – soprou Dionaea, repousando o crânio no topo do pedestal com enorme cuidado. – Adam, poderia vir até aqui e pôr o seu Nimbo sobre o suporte logo à frente do pedestal? – Por que logo eu? – interrogou a criança, se escondendo atrás de Mary. – Por que você é o mais novo e sempre começo com os mais novos. E não haverá dor dessa vez, apenas preciso que traga seu Nimbo para mim. O garotinho saiu lentamente do encalço de Mary e deu alguns passos receosos em direção ao pedestal. Parou a poucos centímetros e então esticou a mão direita, deixando algo invisível sobre o vão de pedra logo à frente da arquitetura rústica onde se encontrava a velha e o crânio. Havia vários símbolos desenhados na pedra daquele suporte, símbolos estes, muito parecidos com os do medalhão de Mary. Quando Adam deixou o suposto medalhão no pedestal, coisas começaram a acontecer. Um brilho azul escorreu pelas linhas finas dos símbolos estranhos, vindos de cima para baixo. – O que é isso? – amedrontou-se a criança ao ver os filetes luminosos, parecendo tão apavorado que nem conseguia mover os pés para se distanciar.


Dionaea continuava no mesmo lugar, sua cabeça desnuda agora se direcionando para o crânio macabro no centro do pedestal. – Olha! – falou Liem, apontando para o crânio. E logo Mary viu o que o impressionara. Algo de muito anormal estava se espalhando rapidamente pela caveira. Era como se pequenas linhas cor de sangue estivessem cobrindo toda a caixa craniana, umas sobre as outras. E então, fios negros começaram a brotar no topo do crânio, esticando-se e escorrendo para fora. – Isso são fios de cabelo... ? – mas antes que Mary pudesse terminar, sua pergunta já estava sendo respondida. As orelhas se materializaram lentamente, dando sequência aos lábios e olhos. O nariz saliente se protuberou enquanto os tecidos da bochecha pouco a pouco ganhavam a camada branca da pele. O pelos das sobrancelhas e cílios cresceram um a um, num ritmo impressionante, e quando Mary se deu conta, olhava para um rosto humano. A face do homem estava sobre o pedestal onde antes se encontrava o crânio medonho. Seus olhos castanhos claros estavam parados, olhando para frente, porém Mary teve a sensação de que eles não visualizavam nada, pareciam sem vida, sem luz. O cabelo negro tocava a superfície do patamar, e havia algo familiar naquele rosto... – Pai! – gritou Adam. – Ele é o seu pai? – perguntou Mary, aproximando do garoto. – Sim, é meu pai – respondeu ele, que agora estava bem próximo da cabeça sem corpo, ficando na ponta dos pés para poder observar melhor os olhos paternos. Adam esticou as mãos, seus dedos quase tocando a face do pai. – Não toque – alertou Dionaea, afastando a mão do garoto antes que encostasse na cabeça. – Papai está morto – falou ele, gotas começando mais uma vez a escorrer pelo seu rosto infantil. Mary não fazia idéia do que aquela velha estava querendo com aquilo. Como ela podia expor Adam a uma cena destas, ainda mais depois de a criança ter visto a mãe virar ossos? Aquilo não era certo. – Por que está fazendo isso com ele? – questionou ela encarando a velha, uma expressão de desagrado no rosto. Então virou Adam, forçando-o a olhar para ela e não mais para o rosto inerte do pai. – Calma, vai ficar tudo bem. – Seu tolo, isso não é realmente a cabeça do seu pai. É apenas uma ilusão – falou Dionaea, um leve tom de divertimento na voz. – O único modo existente de Adam sair daqui será ele encontrar o Nimbo que o pai dele carrega. – Nimbo que o pai dele carrega? O pai dele também está aqui? – questionou Mary, sentindo novamente sua cabeça dar um nó de confusão. – Onde está meu pai? – perguntou Adam, um vestígio de alegria percorrendo seus olhos. – Isso é o que vamos descobrir agora. Dionaea caminhou em direção às hastes metálicas na parede ao lado e deu um simples toque com a unha torta do dedo indicador no centro do círculo. Primeiro a parede entre o círculo desapareceu, revelando algo que lembrava névoa escura, e então se fundiu maciçamente, tornando-se um horizonte pontilhado por estrelas de fogo. Um zunido de vendaval chegou aos ouvidos de Mary, embora nenhum vento tocasse sua pele, e a garota viu um mar de areia se formar. Havia alguém naquele deserto, alguém que caminhava lentamente contra o vento giratório composto por areia.


– Pai! – gritou Adam. O mesmo rosto que se encontrava no patamar se formou em meio ao círculo na parede. Aquele homem caminhava com dificuldade, seu terno negro possuía um grande rasgo na barriga, deixando um profundo ferimento visível. Seu rosto manchado de sangue retratava o pânico e o sofrimento, mas havia vida nos seus olhos, como se ele estivesse decidido a encontrar algo. – Adaaaam! – gritava, sua voz sendo sufocada pelo rumor da tempestade de areia. – Antony se encontra neste exato momento no Deserto dos Alucinados – falou Dionaea, quando o homem ferido se dissipou e a rocha acinzentada da caverna voltou a ficar entre as hastes. O zunido de vendaval cessando abruptamente. – Tenho de dizer que não é um bom lugar para se visitar. – O que mo-mordeu... a barriga do meu pai? – perguntou Adam soluçando. – Ah, exatamente o que eu estava me perguntando – disse a velha virando-se para a criança. – Mas lhe garanto que não foi um bicho-papão, pelo menos. Mary não gostou do tom de ironia que Dionaea usara na última frase. – Então você quer dizer que foi algo pior que os demônios esqueléticos? – perguntou, um arrepio percorrendo o corpo só de lembrar das criaturas ossudas e diabólicas que levaram a mãe de Adam. – Talvez, minha querida – disse a idosa de um modo sinistro, e Mary sentiu algo ruim ao encarar aqueles olhos esbranquiçados desta vez, algo muito além da piedade ou do nojo. – Vamos ver se eu entendi... – falou Liem, pondo a mão no queixo e olhando para a cabeça falsa de Antony que ainda se encontrava imóvel sobre o pedestal. – Adam precisa encontrar o tal Nimbo que o pai dele carrega e então poderá voltar para a vida, mas e quanto a mim e Mary? Quem nós temos de achar? – Estas são as próximas questões a serem respondidas – disse Dionaea. – Adam, retire seu Nimbo do pedestal, é a vez de descobrirmos o que o Nimbo de Mary tem a nos dizer. O garoto esticou a mão, trêmulo, e retirou o objeto invisível de dentro do suporte de pedra. Neste momento o rosto do seu pai murchou e o crânio voltou a ficar visível em cima do pedestal, exatamente do mesmo modo descarnado que estava antes, sem nenhum fio de cabelo sequer. Dionaea fez sinal para que Mary se aproximasse. – Venha e faça exatamente como Adam fez. A garota deu uns três passos até ficar frente ao pedestal e a senhora. As pedras negras incrustadas no medalhão reluziram no momento em que seus dedos o largaram, deixando-o no suporte de símbolos. Novamente linhas deslizaram pelo monumento, mas dessa vez eram linhas negras. Lembravam uma fumaça tensa e escura que estivesse preste a se dispersar no ar, porém, por mais incrível que pudesse parecer, ela só escorria pelos poucos centímetros dos contornos que desenhavam os símbolos estranhos. Mary rapidamente olhou para o crânio acima, esperando tecidos musculares se espalharem e se transformarem no queixo longo do seu pai ou no nariz perfeito de sua mãe, obtido por meio de plástica. Ela realmente acreditava que teria de encontrar o medalhão que estava com Alice ou Charles. Sim, isso ficou óbvio para ela depois de ver o rosto do pai de Adam se formar no pedestal minutos antes. Mas em que lugar daquele mundo sinistro se encontravam seus pais? Será que estavam juntos ou separados? Com o coração apertado a garota imaginou se eles também haviam sido pegos por aqueles bichos medonhos que sugaram a mãe de Adam. Não, isso não pode ter acontecido! Sentenciou ela.


De repente o crânio começou a vibrar, como se um terremoto estivesse acontecendo, no entanto nada mais se movia ao seu redor, somente ele. – Cuidado! – gritou Dionaea, levando as mãos à cabeça e abaixando-se atrás do pedestal. A caveira explodiu, seus fragmentos ossudos voaram para todo canto. Mary viu quando algo branco explodiu em sua direção. Desesperada, a garota fechou os olhos e se agachou, mas foi em vão, uma coisa afiada já havia se chocado a poucos centímetros acima de seu olho esquerdo. – O que é isso?! – ouviu Liem berrar, provavelmente algo também havia acertado o rapaz. Quando Mary voltou a abrir os olhos, não havia mais nenhum crânio sobre o pedestal e uma fumaça negra ia se dissolvendo aos poucos no ar. – Isso raramente ocorre – falou Dionaea desconcertada enquanto se erguia detrás do pedestal. – E a senhora só fala isso agora?! Isso poderia ter furado o olho de alguém! – disse Liem massageando a testa. – Me desculpem, é que realmente achei que não seria preciso alertá-los quanto a isso. E de qualquer forma todos continuam com os olhos intactos aqui, infelizmente... – acrescentou ela ao observar Adam sair detrás de Liem. Os olhos da criança, como sempre, estavam esbugalhados de susto, no entanto estavam perfeitamente inteiros. – Poderia nos explicar o que acabou de acontecer aqui? Achei que o crânio fosse tomar a forma do rosto do meu pai ou da minha mãe, não esperava que ele fosse estourar e quase me deixar cega – falou Mary em tom pouco amigável depois de passar a mão perto da sobrancelha e ver que havia vestígio de sangue nos seus dedos. – Ou era esse o seu plano? – Claro que não, eu sei o quanto a visão é importante para não desejar que os outros a percam – se empertigou Dionaea. – E o motivo que propiciou o estouro do crânio se trata de um enigma. – Um enigma?! – Sim, um enigma que somente a senhorita poderá desvendar. Algumas pessoas não caem aqui para encontrar entes queridos ou somente o outro lado de seu Nimbo, como nosso queridinho Adam – disse a velha, fazendo um gesto de desprezo em direção ao garoto. – Existem outros planos, destinos, que também regem esse mundo. Admito que se comparado com a sua, a probabilidade de a criança dar o fora daqui é muito maior. Convenhamos que é muito mais fácil encontrar algo quando sabemos o que estamos procurando. – E como eu vou descobrir o que eu tenho de achar? Acabei de chegar neste mundo, não tenho condições de desvendar qualquer enigma! – desesperou-se Mary, o pânico crescendo em seu peito como se a qualquer momento pudesse ser vomitado. – Ninguém nunca sabe de início, por isso eu disse que se tratava de um enigma; leva-se tempo e perseverança para descobrir. Todos que chegam a mim recebem essa informação do modo que estou lhe dando agora e depois acabam seguindo um caminho, mesmo que não saibam para onde estão indo. Existem vários caminhos para se trilhar no mundo dos mortos e o melhor meio de encontrar um é mergulhando de cabeça e aceitando o lugar onde está. Nada aqui precisa ser determinado ou premeditado, as coisas simplesmente acontecem e te levam para onde você as deixa levar.


Mary queria entender, assimilar qualquer coisa que Dionaea acabara de dizer, mas sentia que era impossível. As informações que havia recebido eram alucinantes e extremamente inacreditáveis. Como poderia acreditar que estava perdida num mundo onde as pessoas estavam mortas?! Abriu a boca, querendo indagar qualquer coisa, no entanto ela não tinha mais o que questionar, todas as suas perguntas já haviam sido feitas e estavam devidamente respondidas, mesmo que tais repostas não fizessem o menor sentido. – Agora vamos desvendar os segredos que esperam Liem. Mas primeiro me deixem encontrar outro crânio em bom estado, a maioria já foi usada antes – falou a velha, dando uma breve olhada no chão a sua volta e detendo-se em um crânio que se encontrava ao lado de Adam. – Pode me trazer o crânio que está próximo a seus pés, criança? Adam se agachou, trêmulo, e pegou a caixa craniana a sua esquerda. – De quem são esses crânios? Pessoas que você devorou? – perguntou ele enquanto caminhava receoso até ela. – Não, são apenas crânios que recolhi quando fiz uma das minhas visitas ao Cemitério do Desespero. Creio que você tenha notado que o que não falta lá são caveiras humanas – acrescentou ela, Mary podendo novamente perceber a malícia em sua voz arrastada. – Cemitério do Desespero foi onde minha mãe caiu e... ? – Chega de perguntas, temos ainda outro Nimbo para desvendar – interrompeu Dionaea, tomando o crânio dos braços do garotinho quando ele se aproximou o bastante. Mary sabia que Adam estava muito preocupado com a mãe dele, provavelmente queria saber onde ela se encontrava. De certo modo a garota se sentiu aliviada por Dionaea não ter permitido que ele completasse a pergunta, alguma coisa em sua mente dizia que não era nada bom ser pego por aqueles monstros. E mesmo que estar no mundo dos mortos já fosse bastante ruim, ela tinha receio de que pudesse existir algo muito pior. Talvez não fosse sensato Adam saber a resposta agora, talvez não fosse sensato nem para ela própria. – Liem, é sua vez – falou a senhora, depositando o crânio sobre o pedestal e fazendo sinal para que Mary retirasse seu medalhão do suporte. A garota obedeceu, a temperatura gelada do objeto sendo transferida para seus dedos quando o pegou. Então observou, logo a seguir, a mão direita de Liem se abrir sobre o suporte a sua frente. Ele estava depositando seu próprio Nimbo dessa vez. O silêncio que se seguiu à ação do rapaz revelou a expectativa que todos sentiam. Mary, particularmente, queria muito descobrir qual era a “missão” do garoto para poder sair daquele mundo. Será que ali, sobre o pedestal de pedra, iria se materializar o rosto de algum parente dele? A resposta veio de um modo rápido, porém não inédito. Linhas negras de fumaça novamente deslizaram pelo pedestal enquanto o crânio tremia descontroladamente, quicando de um lado para outro. Dionaea não perdeu tempo e logo já tinha desaparecido atrás do pedestal; Adam correu para o canto mais distante do suporte de pedra, encolhendo-se no chão; Liem e Mary abaixaram, protegendo a cabeça. O estouro aconteceu e Mary escutou uma porção de fragmentos da caixa craniana chocando-se no chão a sua volta enquanto uma fumaça negra se espalhava por toda parte, impedindo a garota de visualizar Liem ao seu lado. – Dois de um mesmo grupo, isso raramente acontece – resmungou Dionaea alguns segundos depois, voltando a se erguer. – Isso quer dizer que eu também tenho de desvendar um... “enigma”? – questionou rapidamente Liem, se pondo de pé.


– Sim, você também terá de descobrir sozinho o seu meio de sair daqui – respondeu a senhora, a mão murcha voltando a pegar a bengala às suas costas. – Há algo que você precisa encontrar aqui, alguma coisa que não permitiram que você possuísse durante o tempo em que esteve no outro mundo. – E você não faz nenhuma idéia do que possa ser? O que houve com os outros que também passaram por isso que estamos passando agora? E por que você está aqui? Por que quer ajudar a gente? – disparou o rapaz, as perguntas saindo de sua boca feito água. A fumaça negra já estava totalmente dispersa no aposento, deixando o ar limpo para que Mary pudesse visualizar tudo ao seu redor. – Eu nunca sei o que ocorre depois que as pessoas deixam meu lar, esse mundo é muito grande para que notícias possam se espalhar – respondeu a velha, caminhando com sua bengala para o ponto onde se encontrava uma das tochas de fogo que iluminava o ambiente. – Ao menos a senhora pode nos dizer qual direção devemos tomar para encontrar o pai da criança? Nenhum de nós faz a menor idéia de como encontrar esse Deserto dos Alucinados – voltou a falar o rapaz. – Esse lugar não possui um mapa? – também questionou Mary, ficando de pé e indo para o lado de Adam, que continuava encolhido no chão. No mínimo o garotinho sabia o que precisava encontrar para voltar a viver e ela faria de tudo para ajudá-lo no que quer que fosse. – Lamento desapontá-los, mas ninguém nunca fez um mapa do mundo dos mortos porque ninguém jamais visitou ou poderá visitar todos os lugares que existem aqui – disse Dionaea, o fogo da tocha refletindo em sua cabeça nua. – No entanto vocês não precisam se preocupar com isso, pois não precisarão ir ao Deserto dos Alucinados. – Como assim, não? É lá que está o pai de Adam – falou rapidamente Mary, confusa. – Me perguntaram o porquê de eu estar ajudando vocês? – falou Dionaea, voltando a dar aquele mesmo sorriso estranho e malicioso. – Isso não é óbvio? Estou ajudando vocês por que quero algo em troca. – Algo em troca?! – disparou Liem. – Você não espera que tenhamos dinheiro dentro dos nossos bolsos, espera? – Bem, vocês realmente esperavam que eu estivesse dando coordenadas a vocês se não pudesse ganhar nada com isso? Se no mundo dos vivos não existe ajuda sem recompensa, quem dirá no mundo dos mortos! – dito isso, a senhora esticou o braço envelhecido e tocou o cabo de pedra da tocha sobre sua cabeça, puxando-o para baixo como se fosse a alavanca para a entrada de uma passagem secreta. Uma risada medonha saiu de seus lábios fétidos, ecoando pela caverna, fazendo Mary se sentir como uma mosca que tivesse caído numa armadilha de alguma planta carnívora. Então a parede às costas de Dionaea começou a mover, deslocando-se para cima e mostrando aos poucos a escuridão atrás. De dentro das trevas, duas criaturas macabras botaram suas mãos ossudas para fora, enquanto farrapos familiares giravam feito corda de guilhotina ao redor. – Somente me entreguem a alma da criança e poderão seguir seus caminhos – falou ela, as duas criaturas deslizando em direção a Adam e Mary. – Bem vindos ao purgatório, meus queridos. Todos os direitos reservados. ©

Dark Writer Br


Capítulo quatro Entre os mortos Purgatório?! O chão sumiu dos pés de Mary quando ela escutou essa palavra, sua mente sendo levada para fora do seu corpo por um vendaval de fatos inacreditáveis. Então ela estava no purgatório? Aquele lugar para onde as pessoas supostamente vão após a morte para pagar seus pecados? Os dois demônios esqueléticos que Dionaea libertara estavam cada vez mais próximos e suas pupilas vermelhas cintilavam feito fogo. A garota se encolheu ao lado de Adam, abraçando-o bem forte e fechando os olhos. A risada da velha ainda circulava no ar, fazendo com que as batidas no peito de Mary se tornassem tão aceleradas a ponto de machucar. – Por favor, eu quero a minha mãe – ela escutou Adam resmungar, as mãos geladas da criança encontrando as dela. – Me tire daqui, por favor. – Como é bonito esse sentimentalismo por alguém que você conheceu há tão pouco tempo – caçoou Dionaea em meio a mais risadas sinistras. – Minha jovem Mary, você não precisa se lamentar por esse pestinha! Será menos um peso para você carregar por esse mundo, não consegue enxergar isso? Mary sentiu o ódio se espalhar pelo seu corpo, era realmente inacreditável que aquela senhora fosse tão má a ponto de querer fazer mal a uma criança. Sempre que sabia notícias pelos meios de comunicação sobre assassinatos de crianças, a garota se perguntava indignada como era possível existir pessoas tão perversas e frias como os mentores dos crimes. Agora, pela primeira vez na vida, ela estava cara a cara com uma pessoa dessas. – Deixe Adam em paz! – era impossível dominar a raiva que sentia. – Você nos enganou, nos trouxe para uma armadilha! – Acredite, se eu não tivesse oferecido minha ajuda, vocês se encontrariam em situação bem pior do que se encontram agora – rosnou Dionaea, sua voz tornando-se cada vez mais cínica. – É isso que faz aqui?! – Mary ficou de pé, os braços erguidos para proteger Adam às suas costas. – Você rouba as almas das pessoas apavoradas que estão ansiando em voltar pra casa e reencontrar seus familiares? Você tem prazer em fazer isso, destruir vidas? Eu não estou entendendo muito esse negócio de alma, mas pelo que parece, Adam ainda tem chance de voltar a viver... Mas não terá, quando você roubar a alma dele, certo? – Exatamente, quando a criança não tiver mais alma perderá todas as chances de voltar para o mundo dos vivos. Foi isso que aconteceu com a mãe dele – sentenciou a velha, um sorriso se formando nos seus lábios deformados quando visualizou o terror nos olhos de Mary ao escutar a resposta. – Como você pode ser tão má? – perguntou a garota, enojada. – Leve a minha alma no lugar da dele então. Eu ofereço a minha alma pela dele! Dionaea não respondeu à proposta dela, apenas produziu um chiado estranho. Assim que o chiado deixou seus lábios, os dois demônios esqueléticos que estavam muito perto de Adam e Mary pararam, virando as cabeças descarnadas para a senhora. – Foram eles que levaram minha mãe – disse Adam, observando as línguas longas das criaturas soltarem baforadas de fumaça que rodopiaram no ar até sumirem de vista.


Lágrimas não paravam de escorrer pelo rosto do garotinho. – Pra on-onde eles levaram minha mãe, sua bruxa?! Eles são seus bichos de estimação! – gritou ele, os soluços interpondo-se. – Não, meu querido, os demônios esqueléticos não são meus bichos de estimação e já se encontravam no purgatório muito antes de mim – então a senhora enfiou a mão direita dentro de um dos bolsos do capuz e retirou um daqueles objetos metálicos triangulares, porém esse era dourado. – Sobre a sua mãe Adam, lamento em informá-lo que ela... Mas Dionaea não teve tempo de concretizar suas palavras, pois a poucos metros dela Liem havia acabado de jogar um de seus objetos triangulares no chão. Mary viu quando o tal Triângulo de Cibório explodiu, espalhando um vento ensurdecedor por todo lado, fazendo com que várias caveiras ali presentes rodopiassem e quebrassem ao se chocarem com a parede de rocha. Outros tantos objetos metálicos também acabaram estourando contra parede ou chão com a força do vento. Não demorou nem cinco segundos para o caos tomar conta daquela cripta cheia de ossos. – O que você fez, seu idiota? – vociferou Dionaea para Liem quando os dois demônios esqueléticos, guinchando como se alguém os tivesse ferido, se encolheram no chão. Neste momento a velha fechou os olhos e apertou o Triangulo de Cibório em suas mãos, a boca torta se mexendo ao pronunciar palavras baixas... – Corre, Mary! – Liem gritou. A garota não perdeu tempo e logo já passava correndo, de mãos dadas com Adam, pela porta de rostos medonhos. Viu de relance sombras negras saírem do objeto dourado que a velha segurava, feito várias mãos elásticas. – Você viu aquelas mãos?! – perguntou Adam, seus olhos cor de mel recheados de pânico. – Vi sim – falou Mary enquanto corria pela escuridão do corredor, lançando olhares rápidos para trás, esperançosa que Liem estivesse em seu encalço. – Não se preocupe com elas, não vão tocar em você... Ela logo se arrependeu de ter dito isso, eles haviam acabado de dar de cara com rocha dura. Quando entraram naquele corredor minutos antes, convidados por Dionaea, a garota havia escutado a passagem fechando-se atrás, deixando-os sem saída. – Tem que haver uma alavanca, botão secreto, qualquer coisa por aqui – falou ela desesperada, tateando a parede rochosa às escuras. Suas mãos deslizavam pela parede áspera, procurando qualquer coisa que se diferenciasse ao tato. Em filmes, geralmente, havia algo que se encontrado e puxado fazia com que aparecesse a abertura de alguma passagem secreta, ali não podia ser diferente. – A bruxa vai pegar a gente – Adam dava passos apressados ao lado de Mary, provavelmente também indo de um lado para outro, passando as mãos pela parede em busca da “chave” para a passagem secreta. – VOCÊS NÃO VÃO ESCAPAR! – a conhecida voz retumbou pela caverna. Ao olhar para trás, Mary viu a sombra de Liem atravessar a porta, mas ele não saiu só, pois a fonte de luz da cripta incidiu nas mãos sombrias que vieram em perseguição. – Ou a gente abre essa passagem secreta agora ou nunca mais vamos sair daqui! – alertou Mary, a sua mão mais parecendo estar numa frigideira quente do que numa rocha fria. – Droga! – disse Liem quando se deparou com a parede rochosa que bloqueava a passagem. – Estamos sem saída.


– Desistam, meus queridos – a voz voltou a ecoar, mas dessa vez dentro da mente de Mary. – Não há como se esconder de mim, vocês realmente estão sem saída. – Ahhhhhhhhhhhh! – o conhecido grito de Adam cortou a escuridão. E logo foi a vez de Mary gritar apavorada, pois os dedos compridos que ela sentiu se enrolarem em torno de sua perna esquerda só podiam pertencer a uma coisa, às mãos sombrias saídas de dentro do Triângulo de Cibório. – Achei! – ela escutou a voz firme de Liem. O garoto parecia ter encontrado o que tanto procuravam. Um barulho de rocha deslizando soou, saído da escuridão à frente. Mary viu um filete verde de luz brotar na horizontal do chão e se tornar cada vez maior. A passagem secreta estava finalmente sendo aberta. Porém nem tudo era alegria, uma daquelas abomináveis mãos ainda se agarrava à perna de Mary, tentando puxá-la a todo custo. – Me larga! – berrou a garota sacudindo-se histericamente, ela tinha que se livrar daquela mão o quanto antes. Quando enfim a passagem foi aberta e os candelabros de fogo esverdeados da câmara à frente incidiram no corredor escuro, Mary pôde olhar para o que se agarrava a sua perna e não gostou nada do que viu. Os dedos daquela mão não seriam diferentes de qualquer dedo humano se não fosse pela escuridão fantasmagórica que dominava seus membros. As unhas negras e compridas eram como punhais afiados preparados para penetrar na carne de qualquer ser vivente. Mas nada era tão intimidador quanto o antebraço que sustentava a mão abominável, pois ele vinha de mais de vinte metros de distância, saído do cômodo onde provavelmente ainda se encontrava Dionaea com seu objeto triangular. Logo ao lado Mary pôde ver Adam que também se sacudia, tentando livrar-se da sombra que se agarrara a sua barriga. Outras três mãos, também compridas e monstruosas, flutuavam na direção do garoto, decididas a impedi-lo de atravessar para dentro da claridade verde que reluzia nas paredes de mármore após a passagem. Com um urro, Liem deu um forte chute na mão que se agarrava à perna de Mary, libertando a garota. Então, desesperados para salvar Adam, eles correram para perto da criança. – Vocês querem brincar? Então vamos brincar! – Dionaea continuava as ameaças. E assim que a senhora acabou de falar, a passagem secreta começou a ser bloqueada novamente, a rocha áspera aos poucos diminuía a iluminação dos candelabros de fogo esverdeados. Mary e Liem, sabendo que não restava muito tempo, começaram a chutar a mão que segurava Adam. O garotinho também se sacudia, berrando de pavor. – Me larga! Me larga! Depois de mais alguns chutes, os dois forçaram a mão comprida a soltar a criança. Então, rapidamente, a garota puxou Adam e passou por baixo do espaço da passagem que ainda não havia sido bloqueado. – Corre! – gritaram ela e Adam ao chegarem do outro lado, chamando Liem. Faltavam poucos centímetros para a passagem secreta finalmente se fechar. O rapaz deslizou por baixo dos poucos centímetros que restavam, as cinco mãos sombrias agarrando sua camisa, tentando impedir sua saída, mas quando perceberam que acabariam esmagadas se continuassem a segurá-lo, deixaram-no escapar, recolhendo-se na escuridão do corredor. A passagem por fim se fechou.


Mary, Adam e Liem se olharam, a adrenalina ainda circulando agitada pelas suas correntes sanguíneas. Mary ficou feliz por terem conseguido chegar até ali, mas sabia que ainda tinham muito caminho pela frente. Os candelabros de fogo esverdeados ainda brilhavam nos quatro cantos da grande sala, os ossos reluziam lá em cima, assustadores como nunca. O piso negro e liso dando uma sensação de alívio depois do desespero sobre a rocha áspera e irregular. A porta de madeira ornamentada por rostos medonhos, por onde haviam entrado naquela câmara algum tempo atrás, estava do lado oposto da parede na qual se encontravam. – Vamos – Mary foi a primeira a correr, pois sabia que não podiam perder tempo. Dionaea com certeza já estava tramando algo para capturá-los e ficar parado não era uma boa tática para se defender do que quer que fosse o plano da velha. – Será que aquelas mãos irão voltar? – Adam perguntou, ainda agarrado às mãos da garota. Ele não parava de olhar para trás, amedrontado. – Acho que não deveríamos nos preocupar com as mãos agora, pois acabo de visualizar os nossos próximos obstáculos – Liem nem havia se movido ainda, seu rosto pálido se direcionava para cima. Um som chacoalhante se espalhou pela enorme sala. Mary entendeu completamente as palavras de Liem quando olhou para cima e finalmente o enigma sobre os ossos no teto pôde ser respondido... Um exército de esqueletos, com cabeça, pernas e braços, os encarava do alto, feito centenas de babuínos carnívoros esperando para atacar suas vítimas. Eles não possuíam nenhum tecido de carne sobre seus ossos, mas seus olhos esbugalhados estavam em perfeito estado e olhavam sedentos para baixo. – Ah, meu Deus! – Mary não sabia mais que atitude tomar. – Eles são mortos-vivos? – perguntou Adam bobamente, e pela primeira vez ele não demonstrou medo ao se deparar com mais uma aberração daquele mundo. Pelo contrário, seu olhar era de fascinação. – Tudo nesse mundo são mortos-vivos se for pra pensar bem, até nós – respondeu Liem, pensativo. – Mas esses esqueletos são mais feios do que a gente, disso eu posso me gabar. – Isso era pra ser engraçado? – questionou Mary. Era impressão dela ou o rapaz havia acabado de tentar fazer uma piada? – Acho que não é um bom momento pra fazer graça. Não sei se percebeu, mas estamos cara a cara com um monte de esqueletos com olhos esbugalhados, enormes, e eles não parecem ser amigáveis. – Ou seja, nós estamos literalmente mortos – disse Liem desconcertado com a bronca da garota, mas não perdendo a chance de tentar fazer outro trocadilho. A garota lançou um olhar fulminante ao rapaz, ele parecia ser tão sério quando o viu pela primeira vez. – Qual é? – Liem continuou. – A gente pode estar no purgatório, mas isso não é motivo para ficarmos choramingando pelos cantos. Será bem mais fácil se passarmos a enfrentar as coisas com um pouco mais de humor. – Liem, eu até concordaria com você se não fosse a certeza que não vamos passar daqui – Mary apontou para os corpos magros logo acima de suas cabeças. – Você está vendo esse bando de esqueletos vivos? Então, eles vão acabar com a nossa vida, alma, ou seja lá o que for. Não vai restar mais nada da gente pra fazer qualquer piada no purgatório. – Eu adoro mortos-vivos – falou Adam em tom encantado. – Sempre tive medo de bichospapões, mas mortos-vivos sempre me fascinaram. Pena que mamãe nunca me deixa assistir filmes de terror, às vezes eu até consigo assistir escondido...


Adam não teve chance de continuar seu relato sobre o fascínio que tinha por aqueles seres, pois de repente eles pularam do teto, caindo feito chuva por todo lado e cercando rapidamente os três garotos. Seus olhos saltados girando nas córneas, olhando para o rosto de suas vítimas. – É, realmente mortos-vivos são seres muito fascinantes – ironizou Mary, a sensação de pânico voltando com força total. – Não se preocupe, eu tenho um plano – Liem enfiou a mão nas vestes, vasculhando à procura de algo. – Aquele ali está com a cabeça rachada – comentou Adam, apontando para o esqueleto vivo que se encontrava mais próximo de Mary. A garota olhou para a aberração perto dela. Seus olhos eram esverdeados e se moviam por todo lado, lembrando muito os olhos de um camaleão; um grande buraco fora feito em seu crânio, mas isso não impedia que ele batesse a mandíbula seca e produzisse um barulho angustiante, fazendo Mary se sentir mais apavorada ainda. – Ele está tentando se comunicar com você – falou a criança. – Talvez tenha gostado de você. – Duvido que ele tenha gostado de mim, deve estar pensando no modo mais rápido de me matar – disse Mary, sem tirar os olhos daquele de cabeça rachada. – Tragam eles para mim – a voz de Dionaea circulou pelo amplo espaço. Então era isso? Dionaea queria que aquelas monstruosidades os levassem até ela para poder roubar a alma de Adam? Não, Mary não iria deixar isso acontecer. – Você não vai conseguir roubar a alma dele, Dionaea – gritou ela, a coragem se espalhando por suas veias. – Nem que eu tenha que destruir um por um desses monstros, eu prometo que você não vai encostar suas mãos nojentas no Adam! – Acho que não será preciso tanto trabalho, Mary – comentou Liem, segurando um daqueles objetos triangulares de Dionaea com a mão direita. – Vamos ver se isto pode nos ajudar novamente. Então o rapaz levantou o objeto bem alto e depois o atirou ao chão, usando a maior força que conseguiu. – NÃÃÃÃO! – gritou Dionaea, furiosa. No momento em que o objeto prateado se chocou contra o chão de mármore, o exército de esqueletos se transformou em pó cinza. Mary observou embasbacada quando várias penas brancas saíram de dentro do Triângulo de Cibório e rodopiaram no ar, reduzindo à poeira os ossos vivos, para depois voltarem apressadas para dentro do objeto no chão, que lacrou com o conhecido estalo. – Você roubou um dos meus Triângulos de Cibório! – Dionaea estava irada, as colunas da sala vibravam enquanto ela gritava. – Eu não quero sua alma Liem, mas vou fazer questão de entregá-la para os demônios-esqueléticos. Eles vão se divertir muito brincando com ela... – Venha – Liem puxou Mary, não dando ouvidos para o que a senhora berrava. – A gente precisa sair desta caverna. Nesse momento Mary percebeu que Adam não segurava mais sua mão. Olhou para trás imediatamente, morrendo de medo que o garotinho tivesse sumido. – Adam, o que você está fazendo? – perguntou quando viu a criança agachando-se no chão. – Aquelas mãos podem voltar. O garoto logo se ergueu e correu na direção dela. Em sua mão direita segurava o prateado objeto triangular. – Muito bem – disse Liem pegando o Triângulo de Cibório da mão de Adam e voltando a guardá-lo dentro do bolso de sua calça.


– Como você sabia que ia dar certo? – questionou Mary, mal podendo esconder a alegria que sentia por ele os ter salvado da enrascada com os esqueletos. – Esse era o ponto: eu não sabia – falou ele ao chegar à porta de rostos medonhos, empurrando-a sem perder tempo. Para a surpresa geral, esta se abriu com facilidade. Quando os três entraram no conhecido corredor, a porta fechou às suas costas, deixando-os num completo breu. – Estamos bem perto do fim agora – comentou Liem quando as tochas se acenderam à frente, revelando o chão coberto por plantas espinhentas e rasteiras. Os três desataram a correr, desvencilhando-se com dificuldade dos espinhos que cada vez mais pareciam se prender aos seus tênis, a vontade de sair daquele lugar era tanta que não davam importância ao cansaço que sentiam depois de terem enfrentado tantas aberrações... – As plantas estão vivas! – disse Adam. Então Mary entendeu que seus tênis não estavam agarrando-se a simples espinhos de plantas, e sim, a um emaranhado de plantas vivas que circulavam em torno dela feito serpentes, tentando de todo jeito impedir a garota de se locomover. – Socorro! – Adam tinha uma raiz espinhenta enrolada no pescoço. Liem tentava chegar perto da criança, mas as raízes amarronzadas que se enrolavam em torno de seus braços e pernas não permitiam que ele se aproximasse. Mary segurou as raízes que prendiam seu pé e puxou, tentando fazer com que elas a largassem, mas a única coisa que conseguiu foi se espetar com os espinhos. – Maldição! – pestanejou ela. E foi tentando se desvencilhar, sacudindo os pés, que a garota escutou um barulho diferente vindo do chão, como se estivesse pisando em algo que não fosse rocha. Ao olhar para o solo, Mary confirmou suas suspeitas, pois ali, logo abaixo de onde estava, havia um circulo cheio dos conhecidos rostos medonhos que incrustavam as portas daquele lugar. – Acho que encontrei um alçapão – falou ela, e então pisou com toda força no centro do circulo de madeira. A garota nem teve tempo de se arrepender, pois mal havia pisado no meio do alçapão, já estava caindo... – AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Estava escuro, silencioso, e havia um cheiro horroroso no ar. Aos poucos Mary se ergueu, tentando se recuperar do choque de despencar de uma altura espantosa. Por sorte ela havia caído em cima de algo muito macio, então conseguiu salvar suas pernas, braços e pescoço de algum choque fatal. Outros dois gritos de pânico anunciaram que Adam e Liem haviam acabado de cair ao seu lado. – Vocês estão bem? – Mary tentava enxergar os rostos dos garotos na escuridão. – Acho que não – respondeu Liem de algum lugar. – Que merda de cheiro é esse? – Realmente prefiro nem saber – respondeu ela tampando o nariz. – E agora, como a gente vai conseguir sair desse lugar se está tudo escuro? – Adam estava aterrorizado, o efeito de ter visto “mortos-vivos” pareceu ter passado após o súbito aparecimento das plantas vivas. E para o alívio dos três ou não, candelabros de fogo verde começaram a acender ao redor, revelando uma enorme câmara circular. O teto era tão alto que a iluminação dos candelabros não chegava ao topo, porém havia algo no chão que lhes chamou bem


mais a atenção do que o que estava em cima. Mary não conseguiu segurar o grito que escapuliu... O chão estava coberto por cadáveres, mas não eram esqueletos murchos como os que haviam se deparado antes, eram corpos humanos em decomposição, apodrecendo. As roupas que usavam reluziam contra seus rostos pálidos e angelicais, todos pareciam estar dormindo, num sono profundo, mas o cheiro que circulava naquela câmara estava longe de ser o de um quarto aconchegante, onde alguém pudesse fechar os olhos e descansar tranquilo. E foi com uma grande dor que, ao esquadrinhar rosto por rosto, Mary percebeu que todos eram crianças de uns seis, oito anos de idade no máximo. Muitas seguravam brinquedos nas mãos, como ursinhos de pelúcia ou carrinhos. – São todos vítimas de Dionaea? – perguntou Mary não conseguindo conter as lágrimas. – Parece que sim – Liem segurou a mão da garota. – Pelo visto ela só captura crianças, por isso só queria a alma do Adam. – Mas isso não é justo, olhe para o rosto dessas crianças. Todos tinham uma longa vida pela frente, como ela pôde fazer isso e por quê? – Realmente não tem como a gente saber, isso tudo é muito estranho – os olhos azuis do rapaz se detiveram no chão aos pés de Mary. Uma bela menininha morena estava ali, aparentava ter uns cinco anos, e abraçava uma boneca de pano com um botão em forma de coração na barriga. Seus olhos fechados davam a impressão de que ela estava dormindo. Mary diria que ela estava viva se não fosse um profundo corte em seu pescoço. – Isso é macabro – foi o que a garota conseguiu dizer. – Espero que ela volte a encontrar a mãe dela – Adam se abaixou ao lado do corpo da menininha. Mary não tinha certeza se ele, por ser criança, estava entendendo a gravidade daquela situação, mas sentiu-se mais leve quando ele apertou o coração da boneca e uma melodia doce e infantil chegou aos seus ouvidos. Ajoelhou-se e ficou no chão pelo que pareceram longos minutos, escutando a musiquinha que a boneca cantava, não dando a menor importância para o que Liem foi fazer quando soltou sua mão. Apenas queria ficar ali, velando todos aqueles rostos infantis espalhados. Era justo isso? Ela querer escapar depois de ver tantas crianças mortas? Talvez fosse mais certo que ela também perdesse a alma e ficasse naquele lugar, apodrecendo como aquelas pobres crianças – começou a pensar. – Vamos, a gente precisa sair daqui – ela escutou a voz de Liem distante, como se ele não estivesse ao seu lado e sim, conversando com ela por um sonho. Nada parecia ser real, ela não queria que nada mais fosse. – Me deixe, eu não quero mais escapar de nada, quero apenas descansar – respondeu ela, sentindo as gotas de lágrimas deslizarem pelo seu corpo. – Você não entende, Mary? Se nós ficarmos aqui o Adam vai ter o mesmo fim que essa garotinha. Você prometeu que iria salvá-lo, agora é preciso cumprir. Mesmo sem energia, Mary fez força e levantou. Adam a observava bem próximo, seus olhos cor de mel estavam vermelhos de tanto que havia chorado. – Eu achei a saída, está logo ali – falou Liem apontando para uma porta negra entre dois candelabros, a alguns metros deles. – Espero que nenhuma aberração esteja esperando a gente do outro lado – ela segurou as mãos de Adam e seguiu em direção à porta. – Ainda estou com o Triângulo de Cibório, se algo aparecer ele nos protegerá – comentou Liem, tentando soar esperançoso.


A porta era de mármore negro e havia uma alavanca prateada a sua direita. – Entrem com cautela – Liem esticou os braços e puxou a alavanca para baixo. A pesada porta de mármore subiu, revelando a próxima câmara que tinham de entrar. – Isso é um labirinto, a gente vai acabar se perdendo aqui dentro – falou Mary enquanto entrava na nova câmara acompanhada por Liem e Adam. – Que frio – exclamou Adam assim que a pesada porta de mármore se fechou atrás. Sim, aquela câmara estava bastante fria e a mudança de temperatura repentina fez os pelos da nuca de Mary se alvoroçarem. – Mas pelo menos Dionaea parece não saber onde estamos, até agora ela não se comunicou com a gente – disse Liem enquanto observava o novo lugar onde estavam, a baixa temperatura fazendo um vapor condensado sair de seus lábios. A estrutura daquele lugar era exatamente igual a do anterior, exceto pelo chão que não estava coberto por cadáveres de crianças. O mau cheiro também não existia ali, e por fim Mary pôde respirar fundo, enchendo os pulmões sem sentir qualquer odor. – Tem alguém lá – Adam disse em tom amedrontado. Ao seguir o dedo que a criança apontava, Mary pôde ver do que ele estava falando. No centro da ampla câmara havia um patamar e alguém estava deitado sobre ele. Dois candelabros estavam postados dos dois lados da forma humana, como se fossem dois guardas na escolta. – A porta está logo depois... – comentou Liem, indicando a passagem de mármore negro do outro lado. – E aquilo me parece ser uma estátua, não está se movendo. – Deve ser a bruxa dormindo – supôs Adam. – Será que é ela? – Mary deu uma nova olhada para a forma sobre o pedestal. Realmente, tratando-se daquele mundo, podia-se esperar de tudo. – Eu não sei se é Dionaea, uma estátua, ou o abominável homem das neves, mas como vamos sair deste lugar se para isso temos que passar por aquilo? – Fiquem aqui, eu vou atravessar primeiro – Liem se adiantou e, caminhando cauteloso, chegou perto da suposta estátua que descansava sobre o patamar de mármore. – Ela vai matar ele – Adam arregalou os olhos. Mary estava preparada para correr com Adam caso qualquer coisa suspeita acontecesse com Liem, mas nada aconteceu. O rapaz logo estava fazendo sinal para os dois se aproximarem. De mãos dadas, Mary e Adam se aproximaram de Liem e consequentemente do patamar onde a figura misteriosa estava deitada. – Quem é esse homem? – indagou Adam. Mary também não sabia, mas o fato era que o homem possuía as feições mais belas que já vira. O cabelo era comprido e negro e descia até bem abaixo da cintura. Ele vestia um manto vermelho que se estendia até os pés e havia uma coroa de ouro em sua cabeça. – Ele está morto? – indagou a garota. – Eu sei que ele não está respirando, porque não está saindo vapor do nariz dele, olha – Liem trouxe Mary mais para perto do rosto do homem. Enquanto as narinas dela, de Liem, e de Adam espiralavam vapor por conta da baixa temperatura do ambiente, as do homem sobre o pedestal não produziam nada. Ele decididamente não estava respirando.


A garota, mesmo sabendo que não era uma boa idéia, esticou o dedo indicador e tocou a bochecha do belo homem. O seu dedo imediatamente foi dominado por uma sensação de dormência e um calafrio se espalhou pelo seu braço. – Ele está congelado – ela tirou o dedo o mais rápido que pôde do rosto gelado. – Sério? – foi a vez de Liem tocar a face do homem para conferir. – Caramba, ele está um bloco de gelo! – ele recuou a mão com um forte impulso, tropeçando nos pés de Adam que estava atrás e caindo de costas no chão. Mary deu um leve sorriso ao ver o rapaz louro esticado no mármore negro, mas ele não respondeu ao sorriso da menina, apenas ficou olhando para cima com um ar de parvo, como se tivesse acabado de avistar um óvni. A pequena pirâmide flutuava e girava em torno de seu eixo, espalhando um leve brilho azul por toda aquela câmera. Com certeza se tratava de outro Triângulo de Cibório, ele flutuava poderoso a cinco metros de altura, sobre o patamar de pedra onde o homem descansava. – É isso que está deixando essa sala tão fria – entendeu Liem, não tirando os olhos do objeto ao se levantar. – Foi isso que congelou o corpo desse homem também, tenho certeza! Esses objetos da Dionaea têm poderes mágicos. – Não sei bem se são poderes mágicos, mas eles têm sim, algo de sobrenatural – contrapôs Mary. – Eu já disse que a velha é uma bruxa, vocês não acreditam em mim – replicou Adam, também olhando para o objeto triangular. – Mas por que ela iria querer congelar o corpo desse homem? – questionou Mary, já nem sabendo mais o que pensar. Aquele mundo cada vez se mostrava mais estranho e confuso. – Ele tem uma coroa, acho que era um rei – Adam levantou a coroa de ouro no ar, estendendo-a para a garota. – Não toque nisso, Adam – censurou ela, tomando a coroa fria das mãos do menino e colocando-a com todo cuidado sobre a cabeça do homem novamente. – E se ele acordar pra tomar de volta? É melhor não arriscar. – Mas ele está congelado, não vai acordar mais – continuou Adam, olhando cobiçoso para a coroa reluzente na cabeça do homem. – Como você pode ter certeza que não? Você viu aqueles esqueletos andando e eles não possuíam nenhum pedaço de carne no corpo e mesmo assim tentaram fazer mal à gente. O que pode impedir esse homem, que apesar de congelado, ainda está inteiro, de levantar e nos atacar? – Você tem razão, o fantasma dele vai querer de volta – entendeu Adam, desistindo da relíquia com um último olhar triste, porém também amedrontado. – Agora vamos sair daqui – falou Mary, buscando o apoio de Liem, mas o rapaz se encontrava no outro lado do patamar de pedra, observando absorto alguma coisa que estava do lado esquerdo do homem congelado. – Liem, o que você está olhando dessa vez? Não me diga que tem outro triângulo. – Ah, nem... nem é – respondeu ele, atrapalhando-se um pouco para falar. – É só que eu estava avaliando esse tecido vermelho. Parece ser bastante antigo, chega a se desmanchar nas mãos. – Certo, agora que você já teve seu momento estilista podemos sair dessa sala? – Mary apontou para a porta logo às costas do garoto. – Você é sempre chata assim ou é porque está morta? – retrucou Liem, um sorriso se formando no canto de seus lábios.


– Vamos embora, Adam – dito isso, Mary segurou a mão da criança e o arrastou até a porta, não dando a mínima para Liem que ainda continuou perto do homem congelado. – Espera – ela escutou o rapaz correr atrás dela. – É melhor nós continuarmos juntos ou vai perder seu príncipe encantado e não vai ter mais ninguém para salvar a dondoca quando estiver em apuros. – Eu a defendo – Adam estufou o peito, dando passadas largas. – Você? – caçoou Liem em meio à gargalhadas. – Um pirralhinho de cinco anos? – Eu tenho sete anos, não, seis – corrigiu Adam aborrecido, como se Liem tivesse errado por uma diferença de vinte anos. Assim que chegou à porta negra, Mary logo tratou de encontrar a alavanca prateada e puxar com toda força. A pesada porta de mármore subiu, revelando o próximo compartimento... Um mau cheiro familiar e podre chegou às narinas da garota quando a passagem finalmente fora aberta. Será que ali dentro havia mais corpos de crianças? Mary rezava para que não quando penetrou na escuridão, não esperando Liem para acompanhá-la. – Você está muito corajosa pra uma garota, não acha? – escutou o rapaz comentar. Dentro daquele breu o cheiro cadavérico pareceu se adensar. Se fosse há algumas horas atrás Mary nunca entraria num cômodo escuro se não soubesse o que a esperava lá dentro, mas depois das tantas coisas que viu, escutou e sentiu, era impossível ser a mesma. Ela não podia ser a “filhinha do papai” ali ou sabia que iria cair no primeiro obstáculo. Ela tinha que deixar seu lado mimado, deixar seu medo, e muitas vezes até mesmo a razão, se quisesse realmente sobreviver. E além de tudo ela tinha que ajudar uma criança de sete anos a encontrar o pai que estava em um dos muitos lugares sinistros que existiam naquele mundo. No entanto agora ela estava no seu próprio lugar sinistro e se realmente quisesse sair com alma dali, levando Adam consigo, sabia que teria que fazer por merecer. – Novamente esse fedor horrível – comentou desanimadamente Liem bem próximo ao ombro dela, o barulho da passagem de mármore fechando misturando-se a sua voz. – Será que esse lugar está cheio de bichos-papões? – indagou Adam. – E aqui está muito escuro, eu estou com medo. Prefiro o frio da outra sala do que a escuridão desse lugar. Mal o garotinho havia terminado de falar, um clarão de fogo explodiu bem próximo à cabeça de Mary. Ao avaliar com mais calma, a garota descobriu que se tratava de um objeto de pedra, feito uma tocha, cujo topo era composto por um fogo vermelho, que dançava fantasmagórico. Nenhuma mão segurava aquela fonte de luz, estava flutuando aparentemente sozinho em meio ao vazio da escuridão. – Não se preocupe, é apenas uma tocha – amenizou Liem quando Mary se preparava para sair correndo. – Eu encontrei uma quando Dionaea me ofereceu ajuda, foi isso que me guiou quando desci a escadaria lá em cima. – Escadaria? – Mary não se lembrava de ter descido por nenhuma escadaria. – Afinal, como você chegou aqui primeiro que a gente? – É uma longa história, eu prometo que irei explicar tudo depois, mas agora não é o momento certo para isso. O que quero que entenda é que essa tocha de fogo não irá fazer mal nenhum a vocês, pois não fez a mim. – Acho bom nos explicar mesmo, mas e se a própria Dionaea estiver controlando essa tocha? Isso está flutuando sozinho – Mary estava decidida a não confiar naquele objeto luminoso.


– Olha! Ela está dançando – iluminado pelo fogo da tocha, o rosto de Adam sorria ao ver o objeto descrever círculos no ar. E mais uma vez, ao ver aquela tocha indo de um lado para outro, interagindo com eles, Mary sentiu seu cérebro dar um nó. Era possível que aquilo tudo estivesse mesmo acontecendo com ela? – Só faltava essa, uma tocha viva – bufou a garota, não sabendo se ria ou chorava de sua desgraça. – Vamos sair daqui, agora pelo menos já podemos ver onde estamos pisando – Liem seguiu em frente, seu piercing refletindo o fogo vermelho, mas algo mais, que o garoto carregava com as mãos, refletiu quando ele passou por Mary. – O que você está segurando? – ela perguntou quando viu o forte brilho. – Não é o objeto da Dionaea, é algo muito maior. Pois ela havia notado que o que quer que fosse que Liem segurava, era bem grande, o que se percebia pelo reflexo de mais de um metro que produzia. – Mas eu não estou segurando nada – respondeu ele, sem olhar para trás, as mãos posicionadas de modo que a garota não pudesse ver o que ele estava segurando enquanto caminhava. – Então vira e mostra sua mão – Mary tinha certeza de que ele estava escondendo algo. O rapaz, obedecendo a garota, virou e ergueu as mãos, mostrando o que carregava. – Eu não acredito que você fez isso – a decepção na voz de Mary era evidente. Uma grande espada, reluzente e imponente, estava estendida sobre as mãos de Liem. A lâmina longa da arma branca refletia o fogo da tocha flutuante juntamente com sua empunhadura que, pela cor dourada que possuía, só podia ser feita do mais puro ouro. Mary não precisava ser uma vidente para entender de onde ele havia tirado aquela espada. – Não era o tecido que o homem congelado usava que estava te interessando – Mary amarrou a cara, a idéia de pegar a espada e jogar o mais longe possível começando a brotar em sua mente. – Você estava pegando essa maldita espada! Você é louco? Agora o fantasma daquele homem virá atrás da gente, eu tenho certeza! – Você anda assistindo muitos filmes, Mary – se defendeu ele. – Não é porque a gente viu esqueletos andando e tudo o mais que temos que ficar paranóicos. Olha bem, nós temos uma arma contra Dionaea agora. – Arma contra Dionaea?! Você acredita mesmo que tem como matar aquela velha? Você escutou quando ela disse que têm séculos de idade? Eu não vou me surpreender nada se descobrir que ela é o próprio capeta! Um silêncio se seguiu às palavras de Mary, o próprio fogo da tocha tremeluziu ao som da última palavra... – Eu só achei que isso pudesse ajudar a gente em algum momento, assim como o objeto prateado que peguei da prateleira – Liem abaixou a cabeça. – Não falei sobre a espada porque vi a atitude que teve quando Adam quis trazer a coroa. – Desculpa – pediu Mary, talvez o rapaz nem tivesse errado tanto em ter trazido a espada. Se não fosse pelo Triângulo de Cibório que ele pegou, provavelmente nenhum deles existiria mais. –, é que na verdade eu estou com medo, esse mundo está me deixando mais chata que o normal. Mas quem conseguiria ficar normal numa situação feito essa? E se a situação não estava normal, agora estava ficando totalmente anormal. Pois Mary, enquanto conversava com Liem, viu quando uma coisa se moveu atrás do rapaz, na escuridão.


– Adam, você viu isso? – perguntou ela rapidamente, olhando para trás para se certificar se o garoto permanecia ali. – Vi o quê? – a criança olhou confusa para ela, o fogo da tocha flutuante iluminando seu rosto branco. – Acho que não somos os únicos aqui – falou Mary, um frio conhecido circulando por sua barriga quando voltou a olhar para frente e constatou que realmente havia algo na escuridão. – Você viu alguma coisa? – indagou Liem, virando-se para olhar o que se encontrava às suas costas. Adam logo se postou ao lado de Mary, a tocha de fogo o seguindo, fazendo o fogo vermelho que portava incidir maior claridade para frente, iluminando melhor o local onde Mary sabia que se escondia algo. A forma na escuridão logo recuou, mas foi o bastante para Mary saber que realmente se tratava de uma pessoa, pois um de seus braços ainda permaneceu na claridade. – Quem está aí? – a lâmina prateada da espada reluziu nas mãos de Liem quando ele a ergueu. – É você, bruxa? – Adam perguntou. Não era Dionaea, disso Mary podia ter certeza, pois aquele braço branco não possuía rugas ou qualquer coisa que pudesse indicar que ele pertencesse a uma idosa. Ao contrário, pelo tamanho do braço, só poderia pertencer a alguém bem jovem... Lentamente o braço descreveu um círculo e subiu no ar, sumindo na escuridão densa sobre a cabeça de Mary e dos dois garotos. Se ela estava amedrontada antes, agora não conseguia nem mais saber o que sentia. Nunca havia sentido na vida uma sensação tão intensa e angustiante como aquela. – É melhor continuarmos andando – disse Liem lançado um olhar preocupado para cima. Os três garotos, guiados pelo fogo vermelho, perfuraram a escuridão daquela imensa câmara. O piso negro sob seus pés dando a sensação de estarem andando sobre o vazio enquanto os ecos de seus passos ressoavam. Mary desejava que chegassem logo à parede do outro lado, pois sabia que em algum ponto lá provavelmente encontrariam a porta de mármore e logo sairiam da escuridão daquela câmara fedorenta... – Me ajudaa – uma voz baixa chegou aos ouvidos da garota. Em choque, Mary parou. – Quem está aí? – perguntou. E ao olhar para os rostos assustados de Adam e Liem ela logo soube que eles também haviam escutado a mesma coisa. – Me ajude, por favor – um burburinho de pedidos de amparo começou a se espalhar na escuridão e, para o sofrimento de Mary, eram vozes de crianças... – Nos tirem daqui, eu imploro... – Salvem as nossas almas... – Eu quero a minha mãe... – Não deixe ela nos levar para ele... E entre tantas vozes infantis, um ronco estranho soava. Era como se um gigante adormecido estivesse dormindo em algum lugar daquele breu, esperando ser despertado para fazer algo. Mary podia sentir a presença maligna no ar e Adam sentia o mesmo, pois seu braço se tornava cada vez mais fechado em torno da cintura da garota...


– Isso não é real, isso não é real... – repetia ele, os olhos cerrados de temor. – Vamos andar mais rápido – Liem já se encontrava alguns passos à frente, fazendo sinal para que Adam e Mary se apressassem. Assim que Mary e a criança desataram a correr, apavorados, o ronco assustador parou. Não demorou muito para um novo som se misturar aos pedidos de ajuda das vozes infantis, o gigante aparentemente havia acabado de despertar de seu sono de beleza. – Fujam, fujam... – as vozes infantis estouraram em palavras de alerta, dizendo que Mary, Adam e Liem estavam correndo extremo perigo. O barulho misterioso era intimidador, como se algo muito grande e pesado estivesse se locomovendo sobre a cabeça dos garotos. O fedor podre de carne humana também aumentou, e aumentou tanto que Mary viu tudo girar a sua volta. Ela iria acabar desmaiando por causa daquele odor... Tam! A testa da garota bateu com força na parede de mármore, ela tentou se equilibrar, mas foi impossível suportar a dor da pancada unida ao forte mau cheiro... Seu corpo caiu de lado, aos pés de Adam. – Mary! – gritou a criança, tentando segurar a menina, mas ele não tinha força o bastante para impedir sua queda. E ali, quando estava olhando do chão para o teto sombrio, Mary enxergou finalmente o que de tão maligno se encontrava naquela câmara. De tudo que havia visto até então, de todas as criaturas assustadoras que haviam tentado pegar a garota, aquela era de longe a pior. Pois não era somente sua aparência grotesca que assustou Mary, mas sim o horror, a tristeza, o pânico que sentiu ao visualizar aquela aberração. Vários corpos nus se mexiam, como minhocas numa larga panela, seus rostos sem olhos pareciam presos dentro de uma fina camada de pele e se precipitavam para fora, como se a qualquer momento pudessem rompê-la. Muitos braços também se movimentavam, esticando-se em movimentos quase que sincronizados, tornando aquela cena ainda mais medonha. Mas o pior de tudo não era a pele repleta de corpos e sim o olho, se é que poderia ser chamado disso, que aquela enorme forma humanóide possuía. A córnea totalmente negra, saída deformadamente de um dos pontos da pele repleta de corpos, se concentrava em Mary, Adam e Liem. Os longos cílios quase tocando os rostos dos garotos. – Corre, Adam! – Mary gritou quando um tentáculo saiu de dentro da pele onde os corpos se mexiam, indo na direção deles. A criança disparou, a tocha de fogo voando atrás dele, iluminando o caminho. O tentáculo se esticou em perseguição, espalhando uma gosma de aspecto pegajoso pelo chão. Liem e Mary foram deixados no escuro enquanto viam o fogo vermelho ficar cada vez mais distante, iluminando a figura de Adam correndo. – Levante e dê o fora daqui – Liem segurou a mão de Mary e puxou, pondo-a de pé. Nesse exato momento a parede tremeu atrás dela, o mármore pesado que ocultava a passagem estava subindo, as familiares luzes verdes varando a escuridão. Liem já havia encontrado e puxado a alavanca prateada e agora eles estavam livres. – Adam, volte! – chamou a garota, observando a chama vermelha em meio à escuridão. Foi quando sentiu uma coisa pegajosa se enrolar em torno de sua boca, puxando seu corpo para trás.


– Melhor largar ela! – Liem deu um golpe com a espada, partindo o tentáculo em dois. Mary tirou o pedaço do órgão táctil cortado que ainda insistia em se enrolar na sua cabeça e jogou-o no chão, uma gosma fedorenta se espalhando por todo seu braço. – Argh! – fez ela, a ânsia de vômito cada vez mais forte. – Atravesse a passagem, eu vou atrás do Adam! – Liem lutava contra quatro tentáculos que se agitavam em torno dele. Mary olhou em direção ao brilho verde que vinha da nova câmara a suas costas. Talvez não fosse o momento para ser corajosa, ela sentia que não conseguiria se manter de pé por muito tempo com aquela monstruosidade cheia de tentáculos fedorentos tentando capturá-la. Ela seria mais um peso para Liem carregar. Sem dizer nada a garota se virou quando Liem cortava dois tentáculos com uma espadada só, o monstro sobre sua cabeça soltando um guincho de dor mesmo a boca não estando visível. Mary penetrou na claridade da nova câmara, o medo de algo de ruim acontecer com Adam e Liem fazendo seu corpo tremer descontrolado. A porta de mármore, não sendo novidade, fechou logo em seguida. Enfim o ambiente havia mudado nessa nova câmara. As paredes ainda eram de mármore negro, mas não formavam nenhum círculo ao redor. Essa enorme sala retangular era muito maior do que as outras e havia no mínimo vinte candelabros espalhados por suas paredes, todos acesos com fogo verde. No centro do cômodo um tapete vermelho e empoeirado estava esticado, e se estendia de duas portas duplas e altas até um trono de pedra que se encontrava bem próximo dela. Mary sabia que estava num dos lugares mais importante que um castelo poderia ter, a sala onde ficava o trono do rei. – Maaary! – a voz de Adam varou a parede atrás dela. Imediatamente a garota se virou, arrependendo-se de ter atravessado a passagem e ter deixado a criança, mas foi com uma grande surpresa que deu de cara com ela mesma. Um grande espelho dominava toda a parede atrás do trono do rei, refletindo todo o ambiente e dando a impressão de se estar num espaço muito maior. Ela viu seu reflexo imitar seus movimentos do outro lado, percebendo como seu rosto estava pálido de pânico. Haviam vários rasgos em sua calça jeans e sua capa preta estava coberta de gosmas amareladas que o tentáculo deixara. Ao ver o sangue que cobria suas mãos, a garota se lembrou das plantas espinhentas no corredor do calabouço. Sua aparência não estava nem um pouco saudável. – Adaaam! – gritou ela, iniciando uma série de pancadas no espelho. Ela podia ver a linha fina que marcava a margem da porta de mármore do outro lado. Um conhecido barulho de parede deslizando soou, alguém havia acabado de entrar no lugar onde ela estava. – Olá, Mary – uma voz delicada, porém firme, chegou aos ouvidos da garota como uma navalha. O imenso espelho perante Mary refletiu a bela mulher ruiva que saiu de uma passagem lateral, sob um candelabro. Seu cabelo vermelho e encaracolado somado às feições finas e delicadas tornava seu rosto simplesmente perfeito. Seu jeito de andar era confiante e intimidador, como se ela estivesse ciente da beleza que possuía. Um longo manto azul de seda descia até seus pés, deixando ainda mais elegante sua caminhada até Mary.


A garota observou a mulher parar ao seu lado e a encarar através do espelho. Os olhos dela eram de um castanho avermelhado, quase sobre-humano. Era impossível não se sentir inferior, e foi assim que Mary se sentiu. – Quem é você? – perguntou, seus olhos prateados tentando sustentar a força dos olhos avermelhados. – Eu sou a rainha – respondeu a bela mulher em tom superior, o queixo um pouco erguido como se estivesse olhando para uma criada. – e você está no meu castelo. – Ah, me des-desculpa, eu... eu não tive a intenção – gaguejou a garota, ainda escutando Adam chamar seu nome do outro lado da parede. – É que meu amigo está preso do outro lado, tem uma criatura horrível tentando pegá-lo... – Não chame meu amigo de criatura horrível, ele é uma das criaturas mais poderosas desse mundo – censurou a mulher entredentes, parecia estar muito aborrecida. – Seu amigo? É uma criatura má, engole crianças! – Má? – a mulher aproximou seu rosto do espelho, fulminando Mary com o olhar. – Você tem certeza que sabe o significado de mau? O que é mau pra mim pode não ser mau pra você, assim como o que é ruim para um rei não é ruim para o servo. – Não estou entendendo onde quer chegar – Mary recuou, estava começando a sentir medo daquela mulher. – AHHHHHH! – a mulher gritou insanamente. – Você não entende onde quero chegar, querida?! Vou lhe mostrar então... A mulher enfiou com violência a mão dentro das vestes e retirou um objeto dourado, Mary entendeu o que já deveria ter entendido há bastante tempo... – Dionaea! – exclamou ela, levando as mãos à boca. Ao olhar para o lado, sem utilizar o reflexo do espelho, Mary enxergou a senhora careca bem perto dela, os lábios bem próximos do Triangulo de Cibório. Ela estava invocando algo... As cinco mãos monstruosas romperam para fora, esticando-se na direção de Mary e agarrando o pescoço da garota. – Me solta! – gritou ela ao sentir as unhas afiadas perfurarem seu pescoço aos poucos. – Te soltar?! – Dionaea ria. – Eu vou acabar com você. Não soube aproveitar tudo que falei sobre o Nimbo, e por quê?! Por conta de uma criança chata e chorona. Agora você vai perder sua alma junto com a dele, sua idiota! E foi Dionaea falar em Adam que a passagem atrás de Mary começou a se mover. A garota sentiu a esperança invadir seu coração ao ver a parte do espelho subindo, revelando centímetros de escuridão. Por esse pouco espaço Liem e Adam deslizaram para a claridade esverdeada, os tentáculos estranguladores ainda tentando agarrá-los. Agora Mary poderia até perder a alma, pois sabia que os garotos ainda tinham chance de voltar para o mundo dos vivos e melhor ainda, aparentemente haviam encontrado uma amiga para pôr em seu lugar, a tocha flutuante não parava de queimar os tentáculos com seu fogo vermelho, fazendo aqueles horrores retornarem para a escuridão. – Mary! – Adam gritou quando viu a garota sendo sufocada. Liem levantou rapidamente e correu para perto dela desferindo golpes contra as mãos compridas que a agarravam. Assim que a espada separou as mãos longas dos antebraços, Mary viu os dedos em torno de seu pescoço se transformarem em fumaça preta. – Você está bem? – Liem pôs a mão no rosto da garota, o olhar bastante preocupado.


Então, olhando para seu reflexo no espelho, Mary viu a fonte da preocupação no olhar do rapaz. Ela provavelmente não sentia dor por conta do sangue quente que circulava por seu corpo, mas o fato era que seu pescoço jorrava sangue, as unhas afiadas daquelas mãos horrendas haviam feito profundos cortes. – Vocês acham que podem lutar contra mim? – a mulher os encarava pelo espelho. – Como isso...? – Liem estava visivelmente confuso com a imagem da mulher ruiva que Dionaea refletia no espelho. – Cuidado! – Mary falou ao ver novas mãos brotarem dos antebraços decepados, os dedos não perdendo tempo em se esticar na direção deles. – Venham pra cá! – Adam gritava bem próximo à passagem sob o candelabro, de onde Dionaea havia saído minutos antes, a tocha flamejante não parando de rodear em torno dele. Liem e Mary correram, as mãos flutuando atrás deles feito abutres carniceiros. – Olha só para vocês, fugindo como três covardes – Dionaea continuava suas gargalhadas, sua imagem no espelho imitando seus movimentos do modo mais gracioso e belo. Os três garotos atravessaram a passagem aos trancos, quase sendo alcançados pelas mãos, e se depararam com um lugar que já conheciam. As seis cadeiras ainda circulavam a mesa redonda e as velas ainda permaneciam todas acesas quando Mary entrou naquele sótão cavernoso pela segunda vez naquele dia. Estavam no pequeno cômodo baixo onde Liem havia dito que iria levá-los até Dionaea há algum tempo atrás. Mary não sabia o motivo que fez o rapaz conduzi-los até a senhora naquele momento, mas sentia de alguma forma que agora podia confiar nele. – Eu quero a alma da criança! – o grito de desespero de Dionaea varou as paredes quando os três garotos passaram pela porta esburacada de madeira. – Eu fui gentil com vocês, falei tudo que sabia para poder ajudá-los a retornar para o mundo dos vivos e olha como me pagaram! Vocês são ingratos, é isso que vocês são! Mary olhou para trás e viu quando o fogo das velas aumentou espantosamente, dominando tudo dentro daquele sótão, e explodiu na direção deles. Quando ela, Adam e Liem saíram para o ar livre da floresta, sentiram um alívio repentino que logo acabou, pois o fogo atrás deles não se deteve na gruta do paredão rochoso... Os galhos secos das árvores arderam em chamas, de um em um, obrigando os três a continuarem correndo, aos tropeços, entre as raízes traiçoeiras que cobriam todo o chão daquela floresta. A tocha flutuante ainda os acompanhava, também voando em alta velocidade, como se estivesse fugindo de um balde de água fria. Mary nunca havia acreditado que um lugar como aquele de fato pudesse existir, mas agora era obrigada a admitir que o purgatório era bem mais pavoroso do que aquele que conhecia por livros. E obviamente, mais maluco também! Todos os direitos reservados. ©

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