Page 1

moda

OS

NOVOS

PUNKS

que vieram DO MAR N

SEAPUNK NK POR CAROL LUCK DIAGRAMAÇÃO YURI GOMES

1

o fim do ano passado uma nova cenansurgida na internet começou a fazer barulho no mundo off-line: os seapunks. Ninguém sabe ao certo onde tudo começou — alguns dizem que foi na Califórnia, outros dizem que foi no Japão, outros reclamam que foi em Londres — mas tudo indica que o lugar onde o estilo tem mais adeptos atualmente é a cidade de Chicago, nos Estados Unidos. A tribo é, na verdade, um “shuffle” de referências. Influenciados principalmente pelos “ravers” dos anos 1990, os seapunks misturam a estética punk com temas do mar, entre outros elementos. Jeans rasgados, cabelos coloridos, tie-dye, óculos redondos com hologramas, yin yang, estampas de golfinhos, conchas e símbolos religiosos são alguns dos itens que compõem o visual. Num sentido mais amplo (e apelando um pouquinho), os seapunks evocam uma “estética/filosofia” baseada no lema “life is a beach” (“a vida é uma praia”), que gira em torno de ideais ravers de paz, amor e unidade, além de uma visão cyberutópica de um paraíso digital, com tema de fundo do mar, imagens pixeladas e gifs animados toscos. Diz-se que o estilo é antigo e que não passa de uma combinação do visual de tribos underground que já existiam, como o “screawgaze” e o “witch house”. O que difere o seapunk desses dois é a clara referência aos temas marítimos. Como toda cena, eles também possuem o seu próprio estilo musical: house e techno dos anos 1990 se misturam com sons marinhos e barulhos de videogames, além de uma certa energia narcótica que remete à música new age. Unicorn Kid (ouça a música ‘True love fantasy’), Ultrademon e Zombelle são alguns dos nomes que estão criando músicas do estilo. O DJ Ultrademon lançou no ano passado o selo de música Seapunk Coral Records Internazionale, que por enquanto só possui quatro singles lançados, disponíveis somente por download. A rapper Azealia Banks foi uma das inspiradas pelo movimento. No videoclipe de “Atlantis”, Banks utiliza os mais variados símbolos do estilo seapunk, além da vestimenta própria. A cantora Rihanna também fez uma participação no programa “Saturday Night Live” com uma performance em meio á mundos seapunk com o auxílio do chroma key (a mesma técnica utilizada no videoclipe de Banks).

FANTASEA MAGAZINE, Set. 2014, 4 ed.

Fantasea Magazine, Set. 2014, 4 ed.

22


Em Los Angeles, Londres, Chicago e Berlim já aconteceram algumas festas e encontros do movimento, mas a verdadeira casa dos seapunks é a internet, mais especificamente o Tumblr (em www.tumblr.com/tagged/sea-punk, por exemplo). Combinando rede social com microblogging, o Tumblr estimula não só a criação de conteúdo, mas também a republicação de material de outros usuários, o que acabou transformando a plataforma numa fábrica de memes. Ninguém sabe se o seapunk será uma cena com alguma relevância na moda, música ou na cultura. Pode ser mais uma piada do que uma tribo de verdade, e pode ser que desapareça rapidamente, assim como vários outros memes que surgem na internet a todo momento. Mas o bacana é ver que há um público à procura de algo novo, e a chance de que daí saia algo realmente novo é o que torna o movimento interessante.

F

A

N

T

A

S

E

A

Em meio a essa multidão de novas vozes, veteranos da cena que aos poucos são esquecidos e personalidades masculinas em sua quase totalidade, a presença da jovem Azealia Banks como grande representante feminina desse cenário se revela como um ponto essencial ao novo panorama que aos poucos amplia e define suas formas. Depois de mostrar ao público todo o poderio de sua obra com o lançamento do ótimo 1991 EP há pouco menos de um mês, Banks retorna agora para apresentar a primeira mixtape por ela alicerçada. Fantasea, um registro de 19 faixas em que a nova-iorquina mostra que pode ir muito além de um bem sucedido hit, agrupando uma soma colossal de rimas quentes, versos bem humorados e toda uma variedade de acertos que apenas fazem dela a maior representante mulher dentro de um cenário em geral machista e preconceituoso. Ao mesmo tempo em que Fantasea mantém todas as características de uma mixtape convencional – com todo a proposta de experimento, faixas que não partilham de uma mesma estrutura e composições dotadas de uma produção pouco profissional -, a temática “marítima” do registro garante a ele concisão e proximidade constante entre as faixas. Como se fosse uma “Pequena Sereia urbana”, Banks recria um universo próprio ao longo do disco, transformando recortes cotidianos na principal ferramenta para garantir movimento e conteúdo ao registro, que cresce substancialmente em virtude dessa constante relação entre algumas das faixas.

3

FANTASEA MAGAZINE, Set. 2014, 4 ed.

O REINO

SUBMERSO DE AZEALIA BANKS

Azealia Banks deu sequência de seu trabalho iniciado na EP 1991 com a mixtape temática Fantasea. E como grande parte do trabalho tem referências ao mar, a faixa “Atlantis” recebeu cromaqui das profundezas oceânicas de uma forma no mínimo exótica, com cores contrastantes e visual dos anos 90. O clipe tem direção de Fafi, que brinca com o bizarro e o retrô para montar pouco mais de 2 minutos de vídeo.

SEAPUNK PRINCESS: Azealia Banks em seu videoclipe inspirado no estilo seapunk, “Atlantis”

FANTASEA MAGAZINE, Set. 2014, 4 ed.

Fantasea Magazine, Set. 2014, 4 ed.

44


Seapunk - Editorial  
Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you