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EDITORIAL

Porque a comunicação não pode não sabe parar Comunicação sem fronteiras Coordenação de sem freios Publicidade e em todo canto e em toda parte Propaganda: a todo instante NELSON ROMEIRO cada segundo tempo e comunicação Editor Responsável: Comunicação das pequenas coisas PEDRO MURAD dos pequenos gestos e das grandes ideias comunicação sem fim Editores Colaboradores: Comunicação nossa de cada dia MARIA HELENA CARMO um dia depois do outro GERALDO MAINENTI sempre GUTO NETO mundo girando e a Motocontínuo pedindo passagem. Capa:

MARA MARTINS

Colaboradores:

Cristiani Figueiredo da Cunha Danilo Vidon e Gustavo Gaudarde Gabriela Guedes, Gabriela Sharp Guilherme Barbosa Guilherme Castro Joice Luiz Santos Jorge da Cruz Chaves Laysa Barreto Medeiros Lívia Neves Luciene Paulino da Silva Marcelo Augusto Damico Michele Cardoso Nicholas Russo Nicolas Raline Vinícius da Silva Ferreira

Diagramação & Design: Motocontínuo é uma publicação mensal da FACHA

Diogo Fonseca João Vargas

Versão WEB:


ÍNDICE

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A COMUNICAÇÃO INVISÍVEL DO CIGARRO REDES SOCIAIS NA PRÁTICA

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24H COM O PORTEIRO SEVERINO A METRÓPOLE É O NOSSO PALCO E O CONCRETO É A NOSSA TELA

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O NOVO MODO DE LER JORNAL: SIMPLES, RAPIDO E ... VAZIO. LOG ON: CONVERGÊNCIA ALÉM DAS PLATAFORMAS

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RÁDIO SAARA, “UMA RÁDIO METIDA A BESTA”


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A

COMUNICAÇÃO INVISÍVEL

DO

CIGARRO

Por Danilo Vidon e Gustavo Gaudarde

Pode parecer estranho, mas até pouco tempo era possível (e provável) encontrar pessoas fumando em ambientes fechados como restaurantes, bares, ônibus e até em viagens de avião. Nessa época, além de inalados, os cigarros podiam ser vistos por não fumantes em toda espécie de anúncio, dos jingles cantados no rádio e intervalos comerciais televisivos às competições de Fórmula 1 nas manhãs de domingo. Propagandas nas quais conceitos como “sucesso”, “prazer” e até “bom senso” (quando tratava-se de uma mistura light) eram associados aos produtos agora transfigurados em marcas – essas entidades que apesar de seu caráter imaterial tem a habilidade de invadir o imaginário do espectador e nele permanecer, o tanto quanto possível. Todavia, após dezembro de 2000 (lei 10.167) as mídias de massa tornam-se ambientes proibidos para o tabaco e seus derivados, acompanhando a restrição ao uso desses em ambientes fechados, conforme prevê a legislação desde 1996 (lei 9294).

Investimento no ponto de venda Não obstante essa realidade, o mercado brasileiro de tabaco continua contando com consideráveis verbas na área de comunicação. A Souza Cruz, empresa líder de vendas no setor, investiu R$ 341,5 milhões em marketing em 2009, representando um aumento de 3,9% em relação ao ano anterior e 15% se comparado a 2007. Esse valor, basicamente, pode ser atribuído à principal alternativa de comunicação encontrada pela indústria: a propaganda nos pontos de venda.

Tal modalidade consiste na disposição do material publicitário nos caixas das lojas onde são vendidos cigarros, mas a despeito da simplicidade, a ação ganha muito potencial em matéria de publicidade avaliando-se que somente a Souza Cruz chegou a contar com 247 mil PDVs atendidos no ano passado, entre bares, restaurantes, lojas de conveniência e demais comércios varejistas. Essa conjuntura já mobiliza alguns segmentos da sociedade brasileira que julga defasada a legislação atual e demandam a proibição desse tipo de propaganda. A exemplo de uma ONG sediada no Rio de Janeiro, a Ação de Controle do Tabagismo (ACTbr), que considera o PDV o canal de marketing mais poderoso existente pois o cliente está a centímetros do produto e pode comprar por impulso. A comunicação ainda é um fator de muita relevância no mercado de cigarros, a própria Souza Cruz atribui às ações de marketing o bom resultado obtido em 2009 quando, perante o aumento médio de 23% nos preços dos cigarros e redução de 7,4% no volume de vendas, a participação da empresa no mercado permaneceu estável, em torno de 62%.

Indústria fora-da-lei

Mesmo assim, é possível observar outras ações que ultrapassam a linha dos veículos convencionais e a porta dos estabelecimentos comerciais. São ações pontuais iniciadas na fase de desenvolvimento quando, além de novos cigarros, são feitas reinvenção de formatos e design das embalagens e até invenções de engenhocas capazes de alterar o sabor do cigarro à medida que é tragado ou controlar se ele vai ser mentolado ou não – são as tais “cápsulas de sabor”. Chegado o momento do lançamento no mercado, entram em cena os promotores de venda. Essas pessoas, às vezes fantasiadas ou com roupas que remetem as cores de uma marca específica, dirigem-se a locais com alguma concentração de bares e restaurantes oferecendo as novas marcas por preços promocionais e em alguns casos brindes como fotografias de quem compra os produtos. Os consumidores participantes devem apresentar algum documento de identificação e, desejando, podem preencher um cadastro no qual reconhecem sua condição de fumante e passam a concorrer a convites para festas exclusivas patrocinadas pelas empresas.


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Ações na Internet

Munidos de um desses cadastros, a Philip Morris Brazil criou a Central de Relacionamento Adulto Fumante, um banco de dados de pessoas que autorizaram o recebimento de e-mails da empresa como os enviados em agosto e outubro desse ano, informando sobre a mudança na embalagem de um produto, agora “mais moderna e sofisticada” enquanto o “sabor suave (...) continua o mesmo” e o lançamento de um novo cigarro, descrito “como uma avalanche de sabor mint”. Todas essas alternativas de comunicação encontradas pela indústria do tabaco para continuar dialogando com o consumidor demonstram em tempos de reinvenção de mídia, quando as agências estão preocupadas em cada vez mais encontrar novas formas publicitárias e as redes sociais viraram um negócio bilionário, algumas velhas fórmulas (o boca a boca, a mala direta) ainda têm muito efeito. Dada a polêmica do consumo do cigarro e os inerentes malefícios conhecidos até então, o debate hoje migra basicamente entre discursos das empresas, como a Souza Cruz, e de entidades anti-tabagistas, como a ACTbr, que de acordo com a Diretora Executiva da ONG, Paula Jonhs, defende a “venda do produto embaixo do balcão, em embalagem genérica, branca, sem arte, apenas com o nome do fabricante”. A Souza Cruz foi convidada através de sua assessoria a conceder uma entrevista, mas até o fechamento dessa matéria ainda não havia se pronunciado.


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REDES

SOCIAIS

Por Livia Neves

NA

PRÁTICA

O número de micro, pequenas e grandes empresas que se cadastram nas redes sociais tem crescido muito. Todos querem aproveitar as ferramentas e o espaço que as redes disponibilizam para divulgação, relacionamento com os clientes, feedback, resultados e presença onde seus clientes estão. Por isso, a Motocontinuo resolveu entrevistar um exemplo de profissional que utiliza redes sociais aproveitando tudo que elas têm a oferecer para seu negócio. Ele é Neandro Ferreira, brasileiro, com 25 anos de carreira como hairstylist e já fez muito estilo em cabelos de famosos nacionais e internacionais. Neandro possui um site dinâmico com o perfil do próprio trabalho e todas as informações necessárias para a divulgação através de social media. Com suas observações, concordou em explicar como são essas redes sociais na prática. Motocontinuo: Qual seu objetivo com a colocação da sua marca nas redes sociais como o facebook? Neandro Ferreira: Aumentar meu network, expandir e trocar informa-

ções com profissionais do mundo todo. Vejo que o Brasil ficou com a mente mais aberta em relação as redes sociais e isso facilita meu trabalho aqui. Antes, meu trabalho era considerado muito irreverente e incomum para brasileiros, mas as redes sociais deixaram as pessoas mais informadas com o que acontece no mundo. Ela trouxe ainda mais globalização. Motocontinuo: O que os usuários buscam quando criam um perfil nas redes sociais? Neandro: O brasileiro tem mais acesso as informações e também procuram por meios onde possam se expressar mais. Todos podem ser “jornalistas”, expor suas ideias e opiniões. Com a expansão desses novos meios, diminuiu um pouco a centralização das informações nos jornais, na televisão e com isso, as pessoas estão em busca da versão real das notícias. Porém, na minha concepção, as pessoas têm que ser orientadas ao entrar nesse mundo virtual, principalmente os jovens e se possível já na


escola. Acho que vem se criando essa necessidade. Existem hoje, várias maneiras de se manter informado e me parece que todos estão procurando essas maneiras, seja pessoalmente ou virtualmente. Motocontinuo: Como costuma divulgar seus serviços através das redes sociais? Neandro: No momento estou divulgando mais o trabalho que faço aqui no Brasil e na Europa. Antes, com o meu perfil pessoal no Facebook atrelado às informações do meu trabalho, eu estava expondo fatos pessoais para meus clientes também. Com toda a minha vida particular ali, achei que isso pudesse ser um do aspecto negativo dessa tecnologia disponível, até descobrir a fan page e poder separar as informações. A criação dessa fan page no Facebook foi muito importante para as marcas.

7 a marca, já que existem tantas outras disponíveis. Ao mesmo tempo tem muita coisa descartável, porque tudo está em constante mudança. Motocontinuo: Costuma utilizar o bate-papo com clientes? Neandro: Sim, alguns e é impressionante a expectativa das pessoas. Converso com outros profissionais também, do Brasil e de outros países. São pessoas que apesar de só me conhecerem através de revistas, mas querem ouvir minha experiência sobre como tem sido meus 25 anos nesse segmento e é ótimo poder teclar com essas pessoas.” Motocontinuo: Você divulga tanto novidades do segmento quanto as informações que são colocadas no site da marca, mas acompanha o resultado? Essas informações costumam aumentar o número de clientes? Neandro: Sim, acompanho e o resultado é muito bom. Na primeira semana que colocamos o facebook no ar, tivemos uma média de 1.500 a 2.000 pessoas visitando a página. As redes sociais são movidas a novidades, então sempre que lanço novas coleções

ou vejo coisas novas na minha área, eu posto. Acredito ainda que disponibilizar informações, fideliza clientes já existentes e atinge outros ”

Motocontinuo: Você recebe feedback sobre o seu trabalho através da rede social. Você acha positivo ou negativo para a marca? Neandro: Sim, recebo sempre. Críticas são sempre bem-vindas, porém temos que ter controle disso, contornando sempre qualquer insatisfação ou desentendimento da parte dos clientes. É claro que críticas negativas não são boas para nenhuma marca, já as positivas mostram que você está no caminho certo. Nós que pesquisamos, também temos que analisar bem os resultados, pois nem tudo que encontro online é verdade. Ainda vejo pessoas que publicam material que não as pertence, como se fosse delas. Motocontinuo: O que mais posta nas redes, promoções ou informações? E com que frequência? Neandro: Posto informações, porque não trabalho com promoções e coloco somente de três em três dias. Percebi que quando colocava diariamente, as vezes até três vezes ao dia, as pessoas ficavam enjoadas. Temos que dar um espaço de tempo entre as postagens. Manter interesse das pessoas hoje em dia, é um grande desafio para

Motocontinuo: Enfim, o que acha que mudou para a sua marca, depois do uso da rede social? Neandro: Além de todos os benefícios falados anteriormente, gerou uma expansão global. Falo com clientes e profissionais do mundo inteiro e esse relacionamento é ótimo para mim, Neandro e para minha marca. A partir dessa conversa com Neandro, podemos ver na prática como as marcas e clientes utilizam as redes sociais. Como se fossem “dois lados da mesma moeda”, temos o lado de quem está em busca de respostas sobre um produto ou serviço e o lado de quem está disponibilizando essas informações, mas no final, ambos os lados estão buscando comunicar suas prioridades. Tendo isso em vista, podemos concluir que as redes sociais são usadas como novos meios de comunicação.


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24 HORAS COM O PORTEIRO SEVERINO por: Nicolas Raline, Gabriela Guedes, Guilherme Castro, Michele Cardoso, Nicholas Russo e Guilherme Barbosa. Com grande concentração de porteiros nordestinos, o bairro de Copacabana foi escolhido como alvo de nossa busca por um profissional que nos permitisse ser acompanhado durante 24 horas. Após alguma procura por “personagens” interessantes, por fim encontramos nosso entrevistado: Severino Celestino Filho. Natural de João pessoa, 30 anos de idade, Severino é funcionário de um condomínio residencial e comercial em uma das mais conhecidas avenidas de Copacabana. Fugindo do estereótipo, o porteiro surpreende por ter concluído o ensino médio, sendo ainda diplomado em “Cuidado com Idoso”, pelo SENAC. Considera-se vaidoso, pratica caminhada na orla, frequenta academia de ginástica e uma vez por semana costuma se reunir com os amigos para jogar futebol na praia. Além de simpático e comunicativo, nosso Jack Bauer apresenta como faceta o gosto pela cozinha. Bem-humorado e autointitulado “o garanhão da night”, o paraibano dispara: “Só sai no 0 X 0 quem quer, o que não falta é mulher fácil no Rio de Janeiro”.

sala e, para o porteiro, missão dada é missão cumprida. “Sou o tradicional Severino. Aqui sou o quebra-galho oficial”.

6h Aos poucos o sol invade Copacabana, as ruas ainda estão calmas e nosso porteiro continua dormindo... “Zzz”.

10h Depois de se despedir de “seu Danrlei”, Severino volta à leitura de seu jornal. Diz que considera o esporte a seção mais importante e se justifica assumindo ser membro da Raça Organizada do Flamengo: “O Flamengo é o melhor time do Brasil e somos a torcida mais bonita do Mundo”. Muito confiante e nada humilde em suas palavras, Severino também se diz muito presente no Maracanã: “Não há palavras que expressem a sensação de estar em meio à Raça em um grande clássico”. Ao fim de sua leitura nosso porteiro encontra a última página do jornal. Nesse momento fica fácil saber para onde Severino está olhando, para a “Gata da Hora”. Diante dos dotes da menina, o paraibano confessa: “O que me chama atenção em uma mulher são as pernas (risos)”. Algum tempo depois chega à sua garagem em um Land Rover preto de um dos diretores de uma das Empresas, e Severino não esconde a sua admiração pelo carro: “Este é o carro mais bonito desta garagem“.

7h O despertado toca, ainda meio sonolento Severino o desliga. Com o corpo cansado da farra na noite anterior, ele se levanta, vai ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes. Vai à sua cozinha, nem um pouco organizada, preparar o seu café da manhã e depois de muito barulho e pouco esforço, “voilá”... Está pronta sua vitamina de banana com aveia. “Este é o meu segredo para um dia cheio de disposição”. O sol já em sua janela e Severino se prepara para tomar banho. Em pouco mais de 10 minutos, o sai bem à vontade, vestindo apenas sua toalha, veste seu uniforme rigorosamente passado. Agora pronto: Severino desce à portaria para assumir o posto. 8h. Severino faz o que diz ser uma rotina em sua vida. Analisa câmera por câmera pelo computador de segurança, faz sua primeira ronda diária e, por fim, observa brevemente o movimento da rua, em frente ao prédio. Este é o primeiro contato do dia de nosso porteiro com as ruas de Copacabana, agora com o sol mais próximo e as ruas nem tão desertas. De volta à portaria Severino começa a receber os primeiros funcionários das demais empresas no prédio e se apresenta uma pessoa bem educada e comunicativa, demonstrando uma ótima relação com os moradores e funcionários do prédio. Nesse momento chega à portaria um dos inquilinos do condomínio acompanhado por outras pessoas. Ao fim da visita o rapaz pede a Severino que cuide de uma infiltração na

9h Durante o período de pouco movimento na portaria nosso porteiro aproveita para ir até a banca mais próxima comprar o seu jornal favorito. Para ele, estar informado é fundamental, e o “Meia Hora” é um ótimo jornal na linguagem e no preço. Em meio de sua leitura chega a sua portaria “Seu Danrlei”, carteiro há anos que e devido a sua longa experiência de trabalho conhece a maioria dos porteiros da região. Após receber todas as correspondências nosso porteiro as separa e aguarda as secretárias descerem para buscá-las. Confessa sua admiração por uma dessas secretárias e assume já ter saído com uma funcionária de uma empresa localizada no condomínio. Ele diz que tudo começou com ela buscando as correspondências e depois de alguns olhares ele a convidou para um lanche descontraído num Mc Donald’s não tão próximo daqui. “Quem sabe a história se repete?”.

11h Aproveitando o baixo movimento na portaria, Severino desce com seu laptop para navegar pela internet. Através do “gato” do wireless nosso porteiro navega tranquilamente pelo seu Orkut (Severino Bill), pelo Twitter (@porteroseverino), e pelo seu e-mail. Aproveitando a internet ele também acessa o site oficial do clube do Flamengo e descobre em primeira mão todas as novidades de seu clube do coração. Sempre atento a quem vem, Severino nunca deixa de dar atenção aos inquilinos, voltando em seguida a seu pequeno hobby. Algum tempo depois, após acessar todos os sites pretendidos, nosso porteiro leva o laptop de volta ao quarto e aguarda ansiosamente a hora do almoço.


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12h Em meio ao carnaval sonoro de Copacabana, com o sol a pino e o tráfego intenso, ouvimos de fundo as badaladas do sino da Igreja de Nossa Senhora. Este é o som que avisa Severino que está em sua hora de almoço e nesse momento o faxineiro assume o posto para que nosso porteiro comece a sua nova jornada. Admirados com a beleza do dia aproveitamos as circunstâncias para comer fora. A caminho do restaurante “Brasileirinho” de Copacabana, nosso profissional repara na beleza feminina no local. “Mulher boa é a mulher que tem carne!”. Cumprimentar os várias pessoas conhecidas, mostrando-se bastante popular na região. Depois de alguns minutos caminhando pelas movimentadas ruas do bairro, chegamos ao restaurante. Já familiarizado com o ambiente Severino se destaca, chega, senta, chama o garçom, já conhecido, e pede o prato do dia. Depois de satisfeito olha o relógio e conta os minutos de sobra. “Ainda há tempo para um passeio”. Depois do almoço Severino diz que gosta de caminhar para melhorar o processo de digestão. Caminha lentamente o pelo calçadão de Copacabana sem esconder os olhares para as mulheres de biquíni. Alguns minutos depois é hora de voltar ao posto. 13h O dia está lindo e a praia cheia, mas nosso guerreiro tem de voltar à portaria. Mas não desanima, ele continua empolgado como de costume, e o motivo é a “pelada”. Hoje é o dia da “pelada” dos porteiros e Severino faz parte do “Trovão Azul”, o time oficial dos porteiros de Copacabana. Mais relaxado e satisfeito Severino volta lentamente para a portaria, mas sempre atento ao público feminino. De volta, Severino agradece ao faxineiro e reassume o posto. 14h Depois do almoço, nosso porteiro diz que o trabalho é tranquilo, sua única rotina nesse período é receber as correspondências, separá-las e entregá-las às suas respectivas secretárias. Devido à baixa movimentação na portaria, confessa que essa monotonia dá sono: “Eu gosto de movimento e essa tranquilidade me embriaga”. Para despertar, Severino bebe um grande copo de café. A cafeína é sua grande amiga em seu posto de trabalho, principalmente depois das noites de farra. 15h Sem muito a fazer nosso porteiro passa o tempo e se mantém acordado a base do café. “Santa cafeína!”, diz. 16h No fim do turno, Marivaldo, seu substituto, como combinado desce 5 minutos antes para receber os updates. Após entregar o posto, nosso porteiro sobe ansioso para o quarto onde se prepara para a “pelada”. Com a roupa escolhida é hora de banho rápido, não mais de 5 minutos.

Depois de vestido, na frente do espelho, ele pega seu pente de bolso, penteando seu cabelo no estilo tradicional e se perfuma com uma colônia da “Avon”. Segue, então, para o encontro com o time. O mau tempo não altera a empolgação de nosso jogador, que se diz “ruim de bola”. Posto 5 de Copacabana, encontramos uma grande concentração de pessoas. “O Baixinho chegou!”. É assim que o porteiro é chamado por aqui, diferenciando-se dos demais “Severinos”. 17h Nem todos chegaram ainda, porém “Seu Severino”, o mais antigo “peladeiro” de Copacabana começa a dividir o time. Hoje nosso porteiro jogará pelo time vermelho. “Na de fora”, Severino se mostra muito ansioso. Chegou a hora. O time de Severino entra em campo. Nosso herói corre, marca, troca passes, mas nada de gol. A chuva cai e a areia pesa cada vez mais, mas nosso jogador não desiste, Severino se mostra um verdadeiro guerreiro em campo e com muito mérito ele faz seu primeiro gol do dia. Infelizmente o gol de Severino não foi o bastante, seu time perdeu e foi substituído. Mas na pelada nada o desanima. ”O futebol é um esporte sadio, faz bem ao corpo e a mente, me ajuda a perder um pouco dessa barriguinha”. 18h Sobre uma leve chuva, a pelada continua. O time vermelho volta a campo e dessa vez Severino vence. Até agora fez 3 gols. A chuva vai apertando e a pelada continua, sai time entra time e nosso porteiro mostra sua disposição. 19h Já a caminho de casa, Severino para em uma lanchonete para comprar uma vitamina de banana. De volta ao percurso de casa, à noite chegando, nosso samurai fica mais atento ao movimento ao seu redor, segurança é fundamental. De volta a seu humilde quarto Severino agora toma banho para se arrumar para a academia. “Malho para ficar em forma e também chamar a atenção da mulherada”. Depois do banho Severino se arruma e descemos de volta as ruas de Copacabana, mas agora a caminho da academia. Na academia, faz 20 minutos de esteira e 40 minutos de musculação e após toda sua série de exercícios, Severino ainda faz uma longa caminhada pelo calçadão. 20h Durante a caminhada podemos observar a ressaca do mar e as poucas pessoas presentes no calçadão. O porteiro também faz pequenas paradas para se hidratar com água de coco em um dos quiosques do calçadão. Algum tempo depois nosso guerreiro está exausto e bastante suado. Agora é hora de voltar à portaria e descansar, porque mais tarde tem forró! De volta ao seu quarto Severino toma o


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tempo depois, surge uma mulher alegando que Severino não havia pagado o programa e chama o segurança. “O barraco está formado”, fala bem apreensivo. Assim que o segurança chega nosso porteiro explica que nunca havia saído com esta mulher e que não a devia nada, porém 21h Com a noite fria e sua janela nosso porteiro continua seu cochilo. o segurança não acreditou. Então “sua fiel” entra em ação. Ela diz que 22h Como programado toca o despertador e nosso “baladeiro” desperta. esteve com Severino a pouco e que o conhece de longa data. “Ele sempre paga. É mais fácil ser doideira dessa galinha que ele ter deitado Com a roupa separada e já passada ele se veste. Já está pronto para com ela. Sem falar que eu acabei com ele, nem aguentava mais uma!”. “night”. Infelizmente hoje seus companheiros usuais de boemia estão trabalhando e ele irá sozinho. Com a noite a pino e o frio chegando nosso porteiro se dirigi ao ponto do ônibus 473, a caminho do Centro de 02h Depois de algum tempo mulher conseguiu ajudar Severino. “Escapei por pouco. Brigar aqui é sempre prejuízo”. Após a confusão é hora de Tradições Nordestinas (“Feira dos Paraíbas”), em São Cristóvão. Depois de muitos minutos nosso transporte chega. A caminhos o tempo passa voltar para casa. No caminho volta para casa andamos da VM até o rápido e nosso porteiro acompanha toda a viagem pela janela. Perto de Maracanã, para o ponto em frete a estação de São Cristóvão Lá pegamos o 434 e no percurso de volta encontramos várias pessoas pitorescas. No nosso objetivo, Severino se mostra muito ansioso. início de nossa viagem entra no ônibus um catador de lixo com um rádio a pilha: “Bota na FM para mim?”. Severino explica que já está na FM 23h Ainda a caminho, nosso porteiro observa as pessoas do ônibus e e coloca em uma estação existente para nosso novo amigo. Após a algum tempo depois, chegamos a nosso ponto. Em frente à feira Severino admira sua grandeza. “Ela é alta como um prédio”. Agora na fila despedida do catador, surge na condução outro personagem, o tocador da bilheteria Severino compra os ingressos e estamos dentro. “Como em de gaita. Em meio a nossa viagem nosso amigo da gaita toca a música uma tradicional música nordestina. No restante da viagem, Severino se todo lugar aqui tem mulheres feias e bonitas e é claro eu prefiro as concentra em sua janela. “De madrugada a janela do ônibus é uma nova bonitas”. Bem familiarizado com o ambiente, nosso porteiro busca os palcos. “Lá é o lugar da mulherada”. Começa a chover. A única coisa que visão de Mundo”. Em nosso percurso passamos pela Lapa e nosso porteiro admira o seu movimento, também passamos pela Glória, pelas poderia acabar com os planos de nosso porteiro aconteceu. Com a praias do Flamengo e de Botafogo, até estarmos de voltas as ruas de chuva a pista de forró se esvaziou e as mulheres se retiraram. “Agora a Copacabana, a essa hora da noite, totalmente desertas. Ao descer do única coisa que temos a fazer é caçar a mulherada antes que vão ônibus pegamos a primeira transversal e chegamos. Estamos em frente embora”. Severino começa a sua busca, em meio à chuva convida algumas mulheres para dançar, mas infelizmente hoje “saímos no 0 x 0”. ao condomínio de nosso porteiro. Para voltar ao quarto Severino faz o mesmo percurso de vinda. De volta ao prédio nosso porteiro reencontra Contudo nosso porteiro não desiste. “Plano B, VM!”, afirma empolgado. Marivaldo e lhe conta tudo que aconteceu. Após a conversa Severino Estamos agora a caminho da VM, a Vila Mimosa, local conhecido como reduto de meretrizes no Rio de Janeiro. Próximo à feira chegamos rápido pega o elevador e sobe até o último andar. Ao sair do elevador Severino sobe alguns lances de escada e está em seu quarto. Nesse momento o ao nosso novo destino. Na VM, Severino conta ter “uma fiel”. “Já tenho faxineiro está dormindo. umazinha certa aqui”. Sem muitas palavras e com muita disposição seu último banho do dia, deita em sua cama para um breve cochilo, ajusta o despertador para 22h e cai no sono.

Severino vai atrás de sua fiel. Passeando pela movimentada galeria da VM, Severino perde o olhar entre as casas e as mulheres a disposição, mas já com o objetivo em mente, ele não bobeia. Ao encontrar o ponto de sua fiel, nosso porteiro se despede de nós por alguns minutos. 00h Trinta minutos depois, como combinado, Severino está de volta, com sorriso no rosto, dispara: “Adoro essa mulher”. Depois do desfrute, circula pelo local e pará em um bar dentro dessa mesma galeria.

01h Após algumas doses, nosso porteiro encontra-se bem alegre. Pouco

03h Nosso porteiro está de volta ao seu quarto e se despede de nós. “Agora vou direto para cama banho só amanhã, boa noite”! 04h Nosso porteiro já esta dormindo! “Zzz”... 05h E continua até que o sol invada sua janela. “Zzz”... 06h O sol bate a janela e hoje é mais um dia de trabalho. De volta a rotina. O despertado toca, ainda meio sonolento nosso porteiro o desliga e a vida continua...


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A METRÓPOLE É O NOSSO PALCO E O CONCRETO É NOSSA TELA Por Marcelo Augusto Damico

Suburbanos de Nova York, influenciados por jamaicanos imigrantes, criaram e incorporaram técnicas, somando outras formas de expressão, para dar origem ao Hip Hop, algo como movimentar os quadris em português. Arte, ideologia e cultura exibidas no corpo através do Break, na voz pelo Rap, no visual pelo grafite. Tem como palco e suporte material o cenário urbano no qual vivemos. Declaram-se contra o sistema, mas movem-se dentro dele. Pode ser entendido como uma série de manifestações artísticas, sociais e culturais criadas como forma de expressão da periferia própria nos grandes centros. Longe do gosto erudito pelas artes, distante do dinheiro movimentado em centros financeiros, esquecido pelo olhar blasé da sociedade, o subúrbio de Nova York, precisamente o Bronx, recriou sua história ao seu modo, no final da década de 60. Aos poucos, o movimento urbano se espalhou pelo mundo. Fica claro que as periferias criaram uma forma de expressão desvinculada da alta sociedade e fizeram com que olhassem para elas, dando-lhe algo que ignoravam conferir: sua existência. Com terminologia própria, tipografia colorida e tridimensional como o grafite e uma artilharia vocal como o Rap se impuseram ao mundo. O Hip Hop dispensou o ensino musical e fez do pensamento consciente e registro factual uma verborragia ritmada. Ignorou direitos autorais e expôs seus desenhos em muros da cidade. Transformou guerras entre gangues em disputas artísticas, além de socializar e conscientizar moradores locais. O movimento é caracterizado mais por apropriação do que por criação, mais pela marcação do espaço/tempo do que pelo eterno ou universal. O corpo e as roupas também são meios de comunicação, lugar de expressar prazer, desejo, revolta, idolatria e ideologia.

O Hip Hop nasce e cresce nas cidades demarcando territórios e imprimindo existências. Para se deleitar com sua expressão, basta caminhar pelas ruas e se estará pisando em seu palco, ouvindo sua música e vendo seus quadros em qualquer muro, transformando a metrópole numa imensa galeria de arte a céu aberto. Link de interesse: http://hiphopnerds.wordpress.com/alingua-do-hip-hop/


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O NOVO MODO DE LER JORNAL: SIMPLES, RÁPIDO E...VAZIO? Por Vinícius da Silva Ferreira viniciussferreira@hotmail.com A onda dos impressos populares parece que chegou para ficar. Mas até que ponto esse tipo de escrita pode ser visto apenas como engraçado e irreverente? Ele é capaz de formar um cidadão formador de opinião? O hábito decadente do brasileiro de ler jornal ganhou um reforço de peso há alguns anos. Os chamados “Jornais Populares” ajudaram a alavancar as vendas de impressos no país. Abocanhando as classes mais baixas da população, esses jornais, devido ao seu formato tabloide, podem ser lidos em qualquer lugar, seja no ônibus, no trem ou no metrô superlotados. Definitivamente, “nunca foi tão fácil ler jornal”, já diz o slogan do Meia Hora, popularesco carioca de maior vendagem. Visto como um instrumento de poder e capaz de definir opiniões e ideias facilmente, o jornal era limitado às classes mais elevadas (A e B). Lançado em setembro de 2005, o Meia Hora chegou para desfazer toda essa história. Pertencente ao Grupo O Dia de Comunicação, esse periódico foi criado com a intenção de levar informação às classes C e D. O Grupo apostou em uma linguagem simples e prática. Como o nome já sugere, o jornal pode ser lido em pouco tempo, suas notícias se desenvolvem em poucas linhas, de modo sucinto e de fácil entendimento. Não existem palavras rebuscadas ou números complexos, ao contrário, podem ser lidas gírias e expressões rotineiras. Como estratégia de lançamento, o jornal começou a circular com preço

de capa de R$ 0,50 e com o slogan. Podendo ser encontrado nos trens, bancas e sinais de trânsito, logo ganhou o conhecimento e a aceitação popular. Dos 70 mil exemplares distribuídos inicialmente, o “Meia”, como é chamado por seus leitores mais fiéis, passou para uma média mensal de 186 mil exemplares, em 2009, se tornando o sexto jornal mais lido do país, segundo dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação). “O Meia é maneiro. Leio todos os dias indo pro trabalho”, diz o pedreiro Tarcísio Andrade, morador da comunidade Vila Aliança, na Penha, Zona Norte do Rio. Em cinco anos de existência, o jornal já ganhou diversos prêmios, como o “Veículo do Ano”, na 26ª edição do Prêmio Colunistas, o mais importante da propaganda e do marketing promocional do Rio de Janeiro, além de ser considerado um “Caso de Sucesso” por Organizações e Associações de Jornais do Brasil e do Mundo. Todo esse sucesso gerou o lançamento de outras mídias impressas populares, como o Expresso, do Grupo Infoglobo e maior concorrente do Meia Hora. Desde 2006, início de sua circulação, com o slogan “Direto ao que interessa", já conseguiu atingir uma média mensal de 62 mil exemplares, como mostra estatísticas do IVC do ano passado. Embaladas pelos quatro grandes clubes do futebol carioca, mais duas organizações penetraram nessa nova gama de mercado. Surgiram os esportivos populares. Marca Campeão! (recentemente teve seu nome


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mudado para Marca.BR), do Grupo Ejesa, e Mais Vencer, do Grupo Lance, são os mais vendidos na categoria esporte. O Marca.BR, fruto de uma parceria com o jornal espanhol Marca, é considerado um dos jornais mais bem desenhados do país. Esse novo modo de fazer jornal custa entre R$ 0,50 e R$ 1,00 para o comprador, que leva para casa, em média, cerca de 32 páginas, em sua maioria, recheadas de anúncios publicitários. Mas a ascensão desse novo modo de escrever a notícia nos leva a pensar até que ponto esses jornais ajudam ou atrapalham no desenvolvimento intelectual de seu público-alvo. Uma leitura de qualidade pode ser responsável por transformar simples indivíduos em grandes personalidades. Escritores, ministros, atores, e, até mesmo os próprios jornalistas, são enfáticos ao dizer que só por meio de uma boa leitura é que se constrói um verdadeiro cidadão: “Esse tipo de leitura não é tão completa, só informa o básico, não sendo capaz de fazer o leitor pensar. Creio que é apenas uma busca básica de informações”, afirma a bancária e estudante universitária Vanessa Retori.


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LOG ON: CONVERGÊNCIA ALÉM DAS PLATAFORMAS Por Gabriela Sharp

Pegando carona no trabalho fantástico do escritor Henry Jenkins, comentemos sobre o assunto que hoje anda pipocando em vários lugares : A cultura da convergência, título de um dos seus livros. De acordo com Jenkins, que é professor de ciências humanas e fundador - diretor do programa de Estudos de Mídia Comparada do MIT - Massachusetts Institute of Technology, assim como também autor de discussões variadas sobre o tema, a convergência é mais do que interação de plataformas, ela é uma transformação cultural, baseada no nosso próprio entendimento de mundo e como nos relacionamos com o desenvolvimento tecnológico na atualidade. E é claro, que não fica difícil imaginar quais serão os impactos dessa nova forma das relações humanas, futuramente, em nossa sociedade.

A convergência, como já falamos, é mais do que a conversa e a interação de mídias, antes disso, ela ocorre dentro da nossa cabeça, é o nosso comportamento, é como nos interamos com o globo. E, hoje, vivemos uma prática de compartilhamento, uma necessidade de troca de informações sobre tudo e com todos, até mesmo porque, a velocidade do nosso tempo também mudou, assim, a divisão do conhecimento colabora para respostas imediatas, on time. Desse pensamento é que surgem as três forças as quais Jenkins acredita ser fundamento da nova sociedade: o conceito de convergência midiática, que é a conexão de plataformas de mídias, a inteligência coletiva, que é a ligação e repartição de conhecimento e a cultura participativa que é o consumidor interagindo, falando, participando e advogando em favor ou não de marcas e empresas. A inteligência coletiva na atualidade já norteia e pode ser base de muitas ações, principalmente corporativas, e a cultura participativa já propõe novas formas de se fazer entretenimento e lançamento de produtos, uma vez que o consumidor dá “pitaco” e na maioria das vezes, pode mudar o rumo de muita coisa, caracterizando outro aspecto do cenário midiático: A transmedia, que é quando há uma participação do consumidor diretamente no desdobramento de uma produção, propondo novos direcionamentos ou continuidades, estendendo o conteúdo e estressando todas as suas possibilidades.


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Portanto, as organizações e/ou empresas que ainda mantém-se à margem dessa interação midiática e compartilhamento de informações, ficarão cada vez mais para trás e “morrerão na praia” em suas ações de comunicação de mão única, pois o consumidor, hoje, é barulhento, participa, interage e briga, briga muito por seus direitos, tornando o consumo, cada vez mais, um processo coletivo e uma grande experiência. É possível prever que, em um futuro muito próximo, todo planejamento estratégico de comunicação, de qualquer organização, deverá ser totalmente baseado na convergência das relações, refletindo sobre o impacto no nosso consumo, em nossa política (Já começamos por aqui), em nossa economia e em todas as esferas da sociedade. Então, todos os comunicadores terão um desafio: desenvolver com seus mais variados públicos, discursos verdadeiros e coerentes, pois o consumidor estará cada vez mais esperto, logado e online. Para saber mais: www.henryjenkins.org vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=ibJaqXVaOaI&feature=related


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RÁDIO SAARA, “UMA RÁDIO METIDA A BESTA” por Cristiani Figueiredo da Cunha, Joice Luiz Santos, Jorge da Cruz Chaves, Laysa Barreto Medeiros e Luciene Paulino da Silva

Circular pela Sociedade dos Amigos e Adjacências da Rua da Alfândega, Saara, é se surpreender com as variedades de produtos, os preços baixos, os inúmeros personagens e, de repente, esbarrar em árabes, judeus, gregos, chineses, coreanos, portugueses, espanhóis, armênios e brasileiros. Isso mostra a diversidade da Saara, também conhecida como a pequena ONU, onde presenciar árabes e judeus sentados à mesma mesa é possível, e suas brigas também. E brigam mesmo! Sem bombas, é claro! Mas por preços e clientes e na purrinha, jogo de palitinhos, para ver quem vai pagar o café, porque são muito, muito “mão aberta”. Andando pelo maior shopping a céu aberto da América Latina, nos deparamos com os comerciais inusitados, que saem das caixas de som ao longo das ruas. É a Rádio Saara invadindo o pedaço. A Rádio Saara existe desde 1981 e foi criada para dinamizar a comunicação desse mercado popular, que tem 1200 lojas, 650 escritórios e oito mil trabalhadores. Atendendo um público de cem mil pessoas em dias normais. Em datas especiais como dia das mães, dia dos namorados e dia das crianças chega a triplicar. No Natal, o horário de funcionamento é esticado até às 22 horas e circulam em torno de um milhão de pessoas. Para atender tanta gente era necessária uma rádio viabilizando serviços como: crianças e documentos perdidos, notas de nascimento, falecimento, aniversário e questões sociais. Por isso o slogan da Rádio é “Utilidade Pública Em 1° Lugar”. Na programação tem jornalismo, toca músicas, mas o diferencial são os comerciais das lojas anunciantes. Segundo Luiz Antônio Bap, diretor geral e um dos fundadores, “Tem a CBN que toca notícias e tem a Rádio Saara que toca comercial”. Os comerciais são feitos com simplicidade e muita irreverência para chamar a atenção dos consumidores. São esquetes de humor em que os próprios funcionários da rádio dão vida aos personagens e se divertem muito fazendo isso. A equipe é formada por locutores, operadores de áudio, recepcionistas, boys, gerente administrativa... Todos participam! Quando contratam os serviços da Rádio, os comerciantes apenas dizem qual produto querem vender e o preço. A criatividade fica por conta da Rádio. A Rádio já é procurada por grandes empresas como a Tim e a Claro, com o objetivo de atrair o numeroso público que transita pela região. "É uma rádio metida a besta", diz Bap, porque é um sistema de áudio falante, com uma comunicação instantânea e não uma rádio que é transmitida por ondas.

A realização de eventos promovidos pela Rádio produz um rebuliço na Saara, como o Bloco da Saara, o Arraiá da Saara, o Saara Kids no mês das crianças e um evento que vem causando grande euforia, o Concurso Garotas da Laje, recebendo destaque até nas grandes mídias. O criador é o diretor geral da rádio. Assim como Vinícius de Morais e Tom Jobim, ele também teve uma musa inspiradora: Cíntia Nogueira Dias, uma das gerentes da rádio. “Ela chegou queimada de sol e eu perguntei se ela havia ido à praia. Cíntia me respondeu que não, que havia ficado em sua laje com algumas amigas. Aí, pensei: quantas pessoas devem fazer isso. Foi um sucesso”, diz Bap. Outro evento que dá o que falar é o Concurso do Beijo. Ganha quem beijar mais tempo; e não pode ser selinho, não! Tem que ser beijão! E o casal não precisa ser de namorados. As meninas sem par também têm vez. Para elas, tem o beijoqueiro mascarado curinga. O artista de rua, Maxymilhan Bôdo de 31 anos, que atua já há alguns anos na esquina da Senhor dos Passos com a Regente Feijó como estátua viva, já faz planos de sair correndo e participar no próximo ano. “Beijar é sempre bom”, diz ele. O estúdio da Rádio já contou com a presença de convidados ilustres, como o humorista Fernando Caruso e o político Leonel Brizola. A visita mais marcante foi a do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. “Lula é uma pessoa contagiante, popular e que consegue falar no coração das pessoas”, diz Bap. O modo de abordar os clientes de um jeito mais popular é vista com simpatia por alguns e por outros não. Contrariado, de forma ranzinza, um comerciante que não quis se identificar, foi curto e grosso. – “Não gosto da Rádio, pois ela é compulsória e não permite a seletividade, assim como não tem conteúdo cultural”. Rui, deficiente visual de 65 anos, que trabalha há quase 40 anos na Saara com a ajuda dos filhos e de amigos, pensa diferente: “A rádio influência muito a minha vida. Como sou deficiente visual, fico sabendo das notícias através dela. Porque para nós deficientes esse sistema de informação é muito útil”. A Rádio não se limita às ruas da Saara. Ela conta com um programa de TV no canal aberto Nova Geração de Televisão, NGT, chamado TV Saara, que vai ao ar aos sábados, ao meio dia e meia. Nos planos, há um projeto de realizar visitas guiadas, porque a região faz parte de um corredor cultural e turístico. No Ministério das Comunicações existe um processo para tornar a Rádio comunitária e expandir a área de atuação. “Comunicar é tornar comum a todos” finaliza Bap, fitando o futuro.


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MOTOCONTINUO  

Porque a comunicação não pode não sabe parar Comunicação sem fronteiras sem freios em todo canto e em toda parte a todo instante cada...

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