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DRAMA PÓS-PSÍQUICO


Heitor Baldo

DRAMA PÓS-PSÍQUICO 2ª Edição

2018


Copyright © 2018 by Heitor Baldo Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida – em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação, etc. – nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização do autor, ou desta editora, enquanto legalmente constituída nestes direitos pelo autor. Design de capa: Heitor Baldo Ilustração de capa: Heitor Baldo Segunda Edição

Baldo, Heitor, 1989 – Drama Pós-Psíquico / Heitor Baldo. 2 ed. São Paulo : Hypoactive House, 2018. ISBN: 978-1-387-91167-7 1. Poesia brasileira I. Título

CDD - 869.91

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia: Literatura brasileira: 869.91

Hypoactive House Independent Publishing House São Paulo, Brasil www.hypoactivehouse.com contact@hypoactivehouse.com


Dedicado Ă minha mĂŁe

Maria Aparecida Marchi Baldo (in memoriam)


Conteúdo Cognição Pós-Moderna ......................................................... 13 Obsolescência mental ............................................................ 14 Anarquismo psíquico ............................................................. 15 Pensamentos imposíveis ...................................................... 16 Psicodrama .................................................................................. 17 Estruturalismo inconsciente ............................................. 18 Aufklärung ................................................................................... 19 Eu tenho um plano abstrato ............................................... 20 Personalidade narcisista ..................................................... 21 Neuropunker .............................................................................. 22 Dissociação subjetiva ............................................................. 23 Epifania seguida de desentendimento ......................... 24 Metapsicose ................................................................................. 25 Minha utopia hollywoodiana? ......................................... 26 Conflitos da psique .................................................................. 27 Onde está o mal? ....................................................................... 28 Comunicação Neurótica ....................................................... 29 Mentes descartáveis................................................................ 30 Estética do intelecto ................................................................ 31 Drama da linguagem .............................................................. 32 Entrelaçamento do imaginário ........................................ 33 Subjetivamente mal-entendido ........................................ 34 Crítica clássica ........................................................................... 35


Manifesto do automatismo psíquico ............................ 36 Intencionalidade caótica...................................................... 37 O Não-Eu ....................................................................................... 38 Schadenfreude ........................................................................... 39 Indivíduo e Sociedade ........................................................... 40 Consideração Neologística................................................. 41 Prometeu Pós-Humano ........................................................ 42 O Macaco e o Dr. Monstro ................................................... 43 Por que você quer hipnotizar um fantoche? ............ 44 Behaviorismo inane ................................................................ 45 Decadência da Arte Hipermoderna ............................... 46 Por que eu não tenho um replicador? .......................... 47 Vida involuntária ..................................................................... 48 Genesis ........................................................................................... 49 Significado em si....................................................................... 50 Cosmoética: a ética do Universo ..................................... 51 Contaminados pela lógica instrumental ..................... 52 Você é um pássaro? ................................................................. 53 Alice Cybergótica ...................................................................... 54 1989: exacerbação da pretensão ..................................... 55 Busca por reconhecimento ................................................. 56 Metafísica Surrealista ........................................................... 57 Poema extemporâneo ............................................................ 58 Representação de qualquer coisa ................................... 59 Abandono à complexidade ................................................. 60 Vontade de Amoralidade ..................................................... 61 Ser Determinista ...................................................................... 62


No limite da glรณria ................................................................... 63 A cor dos asterรณides ................................................................ 64 Drama das estrelas .................................................................. 65 Betelgeuse ..................................................................................... 66 Zeta Reticuli ................................................................................ 67 Interestelar .................................................................................. 68 Nebulosa de ร“rion ................................................................... 69 Supernova..................................................................................... 70 Objetos BL Lacertae ................................................................ 71 Superaglomerado de Virgem ............................................. 72 Sobre o Autor ................................................................................. 75


“O drama surge na mente e se expande pelo Universo!�


Heitor Baldo

Cognição Pós-Moderna

Teóricos da semiótica peirceana Conformados com o neoparadigma Transfiguram o significante trans-epistemológico Temendo o colapso da consciência Idealização do imaterial Na narrativa materialista Sub-cultura do materialismo Tautismo sintagmático Identidade auto-imaginativa E manifesto conceitualista Desabafo de um pós-modernista!

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Drama Pós-Psíquico

Obsolescência mental

Nada há no vazio mental Sentado em estado letárgico Deixando o diabo do comercial Fazer uploads iconológicos Tudo parecia normal Até que a relação sinérgica Do sujeito com o sofá Começou a se decompor Do subsolo inquiridor Brotou uma semente Que se exteriorizou Numa súbita exaltação E levantou-se do sofá Porém o sentimento se foi Deixando novamente o vazio Duma mente Obsoleta.

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Heitor Baldo

Anarquismo psíquico

Desestruturado Reestruturado Um domínio de pensamento Ora maus Ora bons Outrora Hegemonia das psicoses Agora Apenas devaneios Emancipados da coerção Os pensamentos, agora absolutamente livres Saltitam de lá para cá Cantam e dançam Sem ninguém para controlar Mas espere... Do meu cérebro descontrolado Esvai-se a sanidade mental Impregnada dessa loucura De anarquia intelectual.

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Drama Pós-Psíquico

Pensamentos imposíveis

O que você sente, se você não pode sentir nada? O que você faz, se você não pode fazer nada? O que você pensa, se você não pode pensar em nada? Do útero, para o batismo, para a deficiência Na ilusão Dormindo deitado no chão Segurando a paranóia Escorregando da minha mão Você não está pensando em fugir, está? Como você pode sentir Se você não sente nada? Tudo o que foi, é... Será!

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Heitor Baldo

Psicodrama

Notando a escuridão circundante Num quarto vazio e a cama rangente Periodicamente iluminado pela luz da Lua Ali começa o drama inexistente Um drama da mente Que apavora com construções paranóicas Movendo o escuro adjacente E o escuro dorme ao meu lado Na escuridão da noite Projetando suas alucinações, seus delírios Perturba a consciência e produz dissonia Essas maníacas impressões distorcidas do subconsciente Que engendra sofrimentos a esmo Existência dramática Um psiquismo aflito e desordenado Assombrado pelo Psicodrama.

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Drama Pós-Psíquico

Estruturalismo inconsciente

O que está aí no subterrâneo? No subterrâneo, sempre desordenado A mínima intenção estrutural É esmagada pelo inconsciente desvairado Instância amante da desordem Abomina regularidades Porque age como uma nuvem amorfa Frenética Que, vez ou outra, é forçada pela razão A parar e seguir um caminho estruturado Mas sempre luta para voltar ao seu estado rústico Um estranho e malfeito estado de compreensão amorfa!

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Heitor Baldo

Aufklärung

“Nada de esclarecimento!” Que ousadia! A mais terrível enfermidade Oprimente Que machuca o homem por dentro: A Ignorância O mal mais perverso E os mais maldosos São os propagandistas Defensores da Ignorância Perversos! Mas nada disso importa Pois não seremos ignorantes Queremos saber e saberemos! Sapere aude!

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Drama Pós-Psíquico

Eu tenho um plano abstrato

Eu tenho um plano abstrato Na minha mente Para minha vida Um destino-construtivismo Que constrói um futuro abstrato E através duma visão turva Visualizo meu destino Fica, então, a impressão abstrata Que logo se esvai Com o fluxo do tempo Que destrói a beleza da abstração E agora só me resta a impressão materialista Do meu meio-destino Edificada debaixo do sol do meio-dia Que queima a minha abstração Corrompendo, assim, o meu lindo plano abstrato!

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Heitor Baldo

Personalidade narcisista

Humilhação ainda a ser vista Porque todo aquele que se exaltar Será humilhado E todo aquele que se humilhar Será exaltado Falam: HUMILDADE! Mas os impulsos narcisistas Sempre empurram para baixo Toda e qualquer intenção altruísta Oprimem a generosidade Uma coceirinha que vem do pescoço e sobe até os cabelos O sentimento do orgulho e a arrogância Vêm da imagem prepotente Do olhar de cima para baixo Da representação do ente-ego Que habita o centro do seu sistema egocêntrico Gravitado pelo resto das coisas do universo Uma juventude desperdiçada Para os devaneios narcisistas Qual foi o preço?

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Drama Pós-Psíquico

Neuropunker

Com um braço de material desconhecido Escrevo estas linhas Num cyberquadrado translúcido qualquer No submundo das arquiteturas quilométricas Vestindo escuro cósmico sintético Tentando me “lembrar” Dos tempos das flores No qual nunca vivi Mas aqui conectado ao Cyber Às vezes Embarco nessa ilusão Por uma subjetiva satisfação Dum sujeito que não pode mais ser chamado de Eu.

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Heitor Baldo

Dissociação subjetiva

Desintegração do ego Lapsos de memória Desconexão de Alter-egos Desidentidade Arrogância, pretensão, avareza Narcisismo, orgulho, luxúria Egoísmo embriagado, aumentado e colérico Indiferença, equanimidade, tranquilidade Ataraxia, apatheia, sem paixão Livre de perturbações emocionais Altruísmo, humildade, caridade Serenidade, temperança, compaixão Generosidade que emana do coração Um Eu multiplicado.

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Drama Pós-Psíquico

Epifania seguida de desentendimento

Está tudo tão claro! (...) Espere... Algo está errado... Não. Algo está muito errado... Do entendimento nasce a controvérsia Do desentendimento, a pertinácia Que gera a abstração Que leva à epifania Que leva ao entendimento Que leva ao desentendimento... O que entendemos, então?

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Heitor Baldo

Metapsicose

Transtornado por metapsicose Psicose Metafísica Que ataca o ser transcendente Uma psicose sem cura Sem remédios Sem doutores Um ataque astuto e obscuro Sem causas Sem causadores Com efeitos devastadores Espere. Um efeito sem causa? Metapsicose é um efeito transcendente Que transcende a própria causa!

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Drama Pós-Psíquico

Minha utopia hollywoodiana?

Como um faraó Sentado num trono No alto duma pirâmide Uma multidão aglomerando-se na base Para me exaltar Segurando um cajado incrustado de diamantes Suavemente levanto-me do magnífico trono De ouro maciço E paulatinamente caminho até a entrada... No momento em que ergo meus braços Uma rajada de feixes de luz permeia o céu do ocaso Esperando os aplausos da multidão Apenas pela frivolidade de ser um ser (qualquer) Que patética A minha utopia hollywoodiana!

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Heitor Baldo

Conflitos da psique

No sono noturno Aí é que começa os conflitos psíquicos Que assolam e destrói O descanso precioso e necessário Amontoados de imagens Memórias Fantasias elaboradas de acontecimentos Que jamais aconteceram na história do tempo E tudo isso, todo esse conflito Precisamente no momento em que deito na cama Para tranquilizar essa maldita bomba psíquica Justo nesse momentinho A minha mente entra em um autoconflito Tentando exterminar o conflito estabelecido durante o dia... Improfícuo! Pois, em verdade, em verdade vos digo: Os conflitos da psique perdurarão para todo o sempre!

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Drama Pós-Psíquico

Onde está o mal?

O que você disse? Mal? Primeira vez que ouço essa palavra. Aqui no espaço Nesse aglomerado estelar Ao lado destas colossais nuvens de poeira interestelar O Universo se constrói numa perfeita harmonia E isso é tudo que sei Não consigo compreender Quando você me conta sobre coisas repulsivas Onde posso encontrar esse tal “Mal”? Bom, venha cá... Se você olhar nesta direção Você vai ver uma bolinha azul Aquele cisco no céu ali. Está vendo? Sim! Pois, então... Aquilo é um planetinha, chamado Terra Lá há bastante dessa coisinha chamada MAL!

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Heitor Baldo

Comunicação Neurótica

Uma comunicação neurótica Olhos fechados Uma onda de crime?! Na pré-adolescência Sentia-se completa Até que se manifestou a disgrafia Que culminou numa desordem na fala E, por fim, numa comunicação neurótica Você se lembra da cólera? Ela se lembrava do ódio!

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Drama Pós-Psíquico

Mentes descartáveis

Afazeres práticos Embotam minha vida Perde-se muito, mas muito tempo mesmo Fazendo coisas repetidas e repetidas vezes Mecânicas Inúteis Com frequência procrastinamos – das piores maneiras possíveis – E nunca temos tempo Pois estamos sempre Muito ocupados Fazendo coisas inúteis!

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Heitor Baldo

Estética do intelecto

O intelecto produz a Estética A Estética julga o intelecto A sua beleza Porém o intelecto Não pode ser avaliado pela Estética Produzida pelo intelecto Pois o intelecto produz a Estética Para julgar o não-intelecto Como podemos, então Estudar a beleza do intelecto Sem uma Estética do Intelecto?

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Drama Pós-Psíquico

Drama da linguagem

No “útero” da psique A linguagem se desenvolve Uma tal psicohistória Da linguagem Previu seu comportamento Que culminaria Nessa linguagem contemporânea “Dramática” Decaída Uma linguagem que seria cômica Se não fosse trágica!

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Heitor Baldo

Entrelaçamento do imaginário

Subia aquele unicórnio Para muito além do arco-íris Num dégradé monocromático Eis que surge a cibernética Com seus tons metálicos Transpondo o céu encarneirado E no jardim doce rosado Um pressentimento de andróides é emanado Agitando os gatinhos achococromados ¹ O pessegueiro de frutas azuis, então Perseguido por um olho positrônico Esconde-se atrás duma gigante rosquinha de beijinho Os coelhinhos flutuantes Cansados desse conflito imaginário Engendraram uma escuridão inflacionária.

__________ ¹ “Cromados com chocolate”. 33


Drama Pós-Psíquico

Subjetivamente mal-entendido

Transfiguração de significados Distorção imaginativa De eventos relatados A impressão primordial A impressão real Esvai-se numa onda de mal-entendidos Subjetivos Nada escapa ao mal-entendido E só para garantir Não durma ao meu lado!

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Heitor Baldo

Crítica clássica

Estou farto dessa uniformidade Não quero mais ouvir nada de: Cronos, Zeus e Hera Afrodite, Atena, Hermes Nada de Dionísio; nada de fatuidades dionisíacas Não me preocupo com o toque de Midas Ou com o castigo de Tântalo Não quero saber de Eco nem de Narciso Ou do drama de Perseu e Medusa Nem Eros e Psiquê Jogue fora a caixa de Pandora E também o pomo da discórdia Quem se importa com a morte de Aquiles Com o rapto de Ganimedes Ou com a queda de Troia? E que Deus me livre de Ulisses! Chega desta mitolomania poética ²!

__________ ² Mania de fazer referência à Mitologia Greco-Romana na poesia.

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Drama Pós-Psíquico

Manifesto do automatismo psíquico

Na manifestação da psique Incontroláveis devaneios O dadaísmo implacável Altamente produtivo De lixo Manifestado simbolísticamente Por nozes, coco ralado, queimado e moído A Taxonomia de insetos Areia movediça Laboratórios de rolos de arame farpado Mariscos e conchas do mar Um pelicano Sete cachimbos de barro de cabo curto Um doutor em magia vestindo trajes de canecas E eis que surge, então Uma anomalia em discursos de pôneis!

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Heitor Baldo

Intencionalidade caótica

Caótico? Intencionalmente caótico! A estética da complexidade Exterminou a Heurística E complicou minha vida Imerso nessa imprevisibilidade Somente me resta a saudade De toda simplicidade – agora “Caoticidade” De que adianta ser tão complexo? Às vezes – frequentemente Nem mesmo entendo O porquê da complexificação Intencional Da minha existência por minha própria existência!

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Drama Pós-Psíquico

O Não-Eu

Mais uma vez negado? Instância amorfa Constituinte da pequenez material Que habita e está à mercê dum fluxo inexorável Constrói o que será destruído Num ciclo tautológico de frivolidade Visão turva, triturada Sujeito até mesmo a mais tênue corrente Que com muito pouca força Consegue arrastar uma massa disforme De instâncias intangíveis Mas isso não mais sou Eu!

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Heitor Baldo

Schadenfreude

Naquele fatídico dia Deleitaram-se com este momento Cortei a minha mão Seu infortúnio ainda está por vir E se eu não me deleitar com o seu infortúnio? Não serei visitado pelo refluxo! Não é assim que nos tens ensinado? Mas eu sei que você está pagando por isso agora.

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Drama Pós-Psíquico

Indivíduo e Sociedade

Miserável do indivíduo Que habita a Sociedade Cansado Magoado a esmo Infame Sociedade Que esmaga o ente quebrantado Julga o humilde com martelo de platina Sórdida e sorrateira Uma Sociedade dissimulada Que envenena; que solapa O indivíduo condicionado Oprimido e explorado Com o espírito molestado Pela bestialidade duma Sociedade Que adoece por dentro E a ferida infeccionada Apodrece e corrompe Essa Sociedade prostituída.

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Heitor Baldo

Consideração Neologística

A Egologia desenvolvida pelo Multiser Resultou num Tudismo Aclamado pela mídia Porcarimaniaca Que desdenha da Cosmoral e da Cosmoética Para conservar sua Universistência-Tautística Porém a Entologia Oriunda do Cosmonacionalismo Abalou esse Hiperegocentrismo da Egologia Considerada a Psicanacéia da Deusologia O resultado: o despertar duma Praticafobia Exaltada pela Matementalística Levada a cabo pelas minhas ideias Linguisticidas. Expresso assim A minha desfeita pela opressão das doutrinas escríticas!

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Drana Pós-Psíquico

Prometeu Pós-Humano

Outrora uma modesta pretensão: Criar seres humanos Os tempos mudaram E as coisas ficaram muito mais pretensiosas Pela Teoria da Inflação Narcísica Agora com uma altíssima pretensão Pôs-se a criar deuses!

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Heitor Baldo

O Macaco e o Dr. Monstro

O Macaco deitado na mesa Inconsciente, parecia E há muito se ouvia Os planos de uma proeza Num laboratório misterioso se escondia Um Macaco e um Doutor Mas não se escondia por covardia Ele era um ocupado construtor O Macaco brincava com sua banana explosiva O Doutor preparava o acelerador Aumentando o campo magnético de maneira excessiva O Macaco deliberou um feixe de alta energia Atingindo o Doutor, que logo morreria Mas subitamente o Doutor desperta Para o seu mais tenebroso pesadelo: O Monstro e o Dr. Macaco.

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Drama Pós-Psíquico

Por que você quer hipnotizar um fantoche?

Diagnóstico: Fantoche E eles não podem te ajudar agora No outro dia não era você quem estava correndo? Você nunca conseguiu disfarçar A sua impaciência Quando queria mostrar seus avanços para o padre Você nunca conseguiu enxergar as linhas Não é mesmo? Do lugar em que eu costumava sentar O brilho delas chegava a ofuscar minha visão.

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Heitor Baldo

Behaviorismo inane

Enfastiadiço inane Um comportamento repetido: “Sonhar com alguma coisa mais alta” Uma prática vazia? Comportamento estéril? Ação vazia Comportamento nadista De fato Um Behaviorismo do nada!

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Drama Pós-Psíquico

Decadência da Arte Hipermoderna

Rabiscos desconexos, rastros de tinta Coloridas Um corpo humano e uma cabeça de gato Triângulos, quadrados e mais riscos desconexos Dizem: surrealismo, arte pop Arte moderna, arte pós-moderna, arte abstrata Anti-arte Digo: pura decadência da arte A arte Hipermoderna Porque todos são artistas hipermodernos Na era em que: Todos os DJs são humanos E todos os humanos são DJs!

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Heitor Baldo

Por que eu nรฃo tenho um replicador?

Se eu pudesse replicar minhas coisas Ah, que maravilha! Economizaria um belo tempo Gasto com coisas necessรกrias Para minha vida involuntรกria Que alguns chamam de biolรณgica Uma mentira Tecida com todo o cuidado.

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Drama Pós-Psíquico

Vida involuntária

A vida é involuntária Quando se põe a prestar atenção Nas células Nos movimentos involuntários do coração O sangue fluindo nas veias A respiração O pensamento incessante Sente-se incomodado E as coisas ficam estranhas Quando começa a compreender Que sua vida O que por anos chamou de Vida Nada era além da Memória Armazenamento de impressões Nascido sem escolha – também sem destino? E permanece vivo Pela intangível razão dos sistemas involuntários Agora Desgostoso com o aumento da percepção, se pergunta: O que aconteceu com os dias de silêncio?

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Heitor Baldo

Genesis “No princípio criou Deus o céu e a Terra. E a Terra era sem forma e vazia...” No princípio A Terra era boa e bonita Porque era sem forma e vazia Mas também não são assim As coisas mais belas do Universo? Porém Deus estava enfastiado com o vazio E então Encheu a Terra de coisas A maioria das coisas eram boas Mas também havia coisas indigestas Algumas coisas bem indigestas! It's my point of view And I know your name

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Drama Pós-Psíquico

Significado em si

O signo que significa o objeto Sem o objeto É um signo Com significado em si Que “nada” significa A não ser a si mesmo O signo “X” Tem significado O significado em si! Que significa “X” VERDADE É um signo Que significa o quê? Você já se perguntou: “E se a VERDADE nunca for designificada?”

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Heitor Baldo

Cosmoética: a ética do Universo

Qual é a Ética do Universo? O que é Cosmoética? Uma Ética fora da Ética humana É a Ética das Estrelas Do Cosmos Perfeita Transcende a Metaética Não é normativa, descritiva ou qualquer outra coisa Está intacta Imaculada Desde a origem do Universo!

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Drama Pós-Psíquico

Contaminados pela lógica instrumental

Onde está seu requerimento? Disse o ocaso quando questionado se poderia ser observado. As nuvens lêem scripts Seguem suas personagens Então como posso eu abandonar meu papel? Posso caminhar por aqui? A esmo? Será mesmo? Mas a racionalidade... As pessoas... A sociedade... No mundo em que vivemos... Moramos na Terra... ...juntinho das nossas psicoses!

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Heitor Baldo

Você é um pássaro?

– Pássaro – – Gramado – – Árvore – – Preto – – Vários pássaros – – Um lago – – Nuvens – – Preto – – Gato preto – – Um lago – – Árvore – – Preto – – Pássaro – – Vários pássaros – – Árvores – – Preto – – Uma casa – – Chuva – – Pássaro – – Preto – – O lago – – Pássaro voa – – O gato – – Correnteza – – Preto – Visualizou? 53


Drama Pós-Psíquico

Alice Cybergótica

“Hyper High tech, Extreme Low life” Cotidiano caótico, hiperestimulado e estetizado Sexo banalizado Esforço menosprezado Imediatismo Consumo exacerbado Megacorporações, ultralópoles Subsociedade transhumana, cyberalienada Hipermaterialismo Psico-neuromarketing Corporocracia Tecnocrática Cosmonacionalismo Convicção de imortalidade Nome: Alice Distopia: Cybergótica.

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Heitor Baldo

1989: exacerbação da pretensão

Houve um ano na Terra – 1989 – Em que a emanação de um sentimento Megalomaníaco Evoluiu Para uma mórbida vontade De superioridade faraônica Enquanto vive Espera impaciente e ansiosamente O dia da Sublimação A tão esperada Glória Um exacerbado sentimento pretensioso Que cegou sua razão e nunca se perguntou: Mas e se esse dia nunca chegar?

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Drama Pós-Psíquico

Busca por reconhecimento

Jornada frenética Uma busca desvairada Reconhecimento pelo reconhecimento Exaltação de nada, por nada Apenas o reconhecimento Um desejo incontrolável De reconhecimento Mesmo se não fizer sentido – e provavelmente não faz – O porquê do reconhecimento.

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Heitor Baldo

Metafísica Surrealista

Além da natureza Está a Metafísica Além da Metafísica Está a Metafísica Surrealista O Surrealismo é ele próprio metafísico O pensamento surrealista deve transcender a Metafísica Mas o pensamento humano Não pode transcender a Metafísica Ora o Surrealismo humano Não tem nada de Surrealismo Ora não sei do que estou falando!

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Drama Pós-Psíquico

Poema extemporâneo

– Este poema ainda está por vir – Por enquanto Eu fico aqui e eu vou Brincar com alguma coisa diferente Eu vou Fugir para algum lugar diferente Todo dia Todo dia Todo dia Todo dia Todo dia Todo dia Esperando Um poema extemporâneo

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Heitor Baldo

Representação de qualquer coisa

Tudo está representado Representação disso, representação daquilo E isso representa aquilo... E aquilo está representado por isso... O que eu represento? O que você representa? Como, o que, pra quê, por que representação? Representação de qualquer coisa O Representante e o Representado De uma coisa qualquer Represento; sou representado Representado por qualquer coisa Na “mente” do Interpretante!

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Drama Pós-Psíquico

Abandono à complexidade Um outro dia espero Sentado aqui estar Com a mesma visão ainda Olhando para esse mar Pelas ruas andando Em noites geladas Assistindo e contemplando Estruturas abaladas Apartamentos acessos Silenciosos, e a paisagem Da cidade com seus excessos Expressa a imagem Que impressiona minha arte E abandona a complexidade...

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Heitor Baldo

Vontade de Amoralidade

Moralidade Que aprisiona a Vontade Mas o humano, Ser intencional Intencionalmente Ameaça a Moralidade Ser ou não ser moral? Vontade de amoralidade É a vontade oriunda Da vontade de emancipação da Vontade!

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Drama Pós-Psíquico

Ser Determinista

O humano Ser determinado Vive em um mundo não-determinado Mas modifica esse mundo Determinadamente Tornando-o quase-determinado Quase-determinação De um mundo alienado Condenado ao seu destino O humano destinado Fadado à destruição Envereda o mundo Não ao destino do mundo Mas ao seu próprio destino Auto-destrutivo.

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Heitor Baldo

No limite da glória

Estou no limite No limite da glória Glória formidável Glória faraônica Nada deste mundo Compara-se A minha glória Nada se compara Ao sentimento da glória Divinificação do ego Que vem de dentro Que sobe à mente Que queima o Eu Que brilha por fora Que assombra Que maquiaveliza E que petrifica a alma Todavia ainda tenho um sonho O singelo sonho de estar acima da glória!

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Drama Pós-Psíquico

A cor dos asteróides

Não compreendo sua irregularidade Todavia amo teus tons de cinza Outrora parte de um planeta Será? Viajante solitário Ser interplanetário Admirador do inóspito Sempre indiferente ao austero espaço Deleita-se com as tempestades de neutrino Se pudessem ouvir seus gozados apelidos Divertir-se-iam ainda mais: 704 Interamnia, 31 Euphrosyne, 99942 Apophis, (5496) 1973 NA, 1998 KY26 e 243 Ida I Dactyl!

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Heitor Baldo

Drama das estrelas

Há muito se ouvia No enfadonho vazio intergaláctico Um estranho ser pragmático Sempre reclamando de como vivia. A seta do tempo era implacável E as estrelas esfalfadas Arquitetaram uma jogada. Malvadas! Para um morticínio inexorável. O alvo eram aqueles seres Sem luz própria, no espaço Pois o espaço pertencia às estrelas. Tiro e queda. Cumprindo seus deveres As estrelas, num estardalhaço Exterminaram suas malesas.

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Drama Pós-Psíquico

Betelgeuse

Protagonista de Órion Leve é o seu cintilar avermelhado E até mesmo a alma mais entorpecida Combalia-se ao observar-te Transitado por um cisco... Um planeta! – Espanto! E esse planeta Com sua estratosférica e robusta atmosfera Que no ocaso espargi Um denso líquido prateado pela superfície... Indistinto e inexpugnável é seu sustentáculo Intangível precipitação de mercúrio.

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Heitor Baldo

Zeta Reticuli

Dentro da Constelação do Reticulum Um lindo sistema binário De anãs amarelas Zeta Reticuli Orbitada Por um disco circular uniforme Seres alienígenas? Greys? Abduzido por um UFO Uma conspiração – Psico-conspiração – Da produção de seres híbridos Clones e reprodução assistida O domínio da elite oculta E tudo isso Um faustuoso plano Arquitetado por espíritos caídos? Ou apenas uma psicopatologia de Betty.

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Drama Pós-Psíquico

Interestelar

Inextrincável reminiscência estelar Habita o atribulado silêncio do meio intergaláctico Comumente em suas visões são as fusões de galáxias O âmago de sua existência é obscuro Vez ou outra, iluminado pela luz de algum longínquo Quasar Outrora alquebrado Agora detêm a hegemonia Nos tempos do porvir, irá sucumbir frente à crise À faraônica Crise Estelar E a planta do espaço Quão hediondo é seu aspecto Será oriunda de algum oblongo plutoide? Demasiado intrincado são seus processos bioquímicos Planta indelével Consentânea para suportar por tanto tempo Estes impetuosos lampejos de Raios Cósmicos!

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Heitor Baldo

Nebulosa de Órion

Nebulosa difusa Eternamente observada pelo cavalo A consistência da sua matéria é incongruente Protoplanetas, talvez Eventualmente uma Protoestrela! A vida é uma dádiva muito alta Para sua poeirenta aparência Como poderia Deus dar-te Vida Se como retribuição Engendra tempestades de gelo? Inóspita e bela A descomunal Nebulosa de Órion!

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Drama Pós-Psíquico

Supernova Quão extraordinária e energética Essa estrela caída Quão brilhante e poderosa Essa estrela abatida Quão assombrosa e medonha Essa estrela funesta Quão faraônica Quão majestosa Quão sublime Estrela esvaindo Mas daqui de cima do muro Um lampejo no céu escuro É tudo o que eu posso enxergar.

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Heitor Baldo

Objetos BL Lacertae

O mistério da sua composição me assombra Será algum dia desvendado? Insondável matéria Energética, galáxia ativa Objeto mais extremo do Universo Como será sua aparência vista bem de pertinho? Se eu não fosse desintegrado Por sua intensa radiação Tocaria em sua superfície (?!) Até mesmo me casaria Se eu fosse um núcleo de galáxia ativa!

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Drama Pós-Psíquico

Superaglomerado de Virgem

Pequeníssima nesse amontoado Nossa desvanecida Via Láctea Acolhe nosso despretensioso Sol Que com seus milhões de Kelvin Aquece a mansa Terra Um planetinha com serzinhos E como são pequeninos esses serezinhos! E tentam serem maiores Erguendo seus pescoços Impondo seus “poderes” microbióticos No meio de um punhadinho desses serzinhos Quanta pretensão contida numa jocosa poeira aleatória no Superaglomerado de Virgem!

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Contato com o autor contact@heitorbaldo.com

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Sobre o Autor

Heitor Baldo é matemático e especialista em Inteligência Artificial. Sua produção literária tem se mostrado constante a partir do ano de 2015: Drama Pós-Psíquico (vencedor do 13º Prêmio Literário Livraria Asabeça 2014) (Editora Scortecci, 2015), reeditado em 2018 (Hypoactive House), Sociedade = Forca (Editora Multifoco, 2017), traduzido para o inglês e publicado como Society = Gallows (Hypoactive House, 2017), The Ontological Abyss (Hypoactive House, 2017), Catoptromancy (uma micro-novela gráfica surrealista, Hypoactive House, 2018), e participou em diversas antologias poéticas, entre elas Vida & Verso (Editora Illuminare, 2015), Poesia Livre (Vivara Editora, 2017) e Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, vol. 147,162 (CBJE, 2017-2018). Além disso, insiste em ilustrar as capas de seus livros.

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Drama Pós-Psíquico  

Drama Pós-Psíquico - 2ª Edição (2018).

Drama Pós-Psíquico  

Drama Pós-Psíquico - 2ª Edição (2018).

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