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Texto de Cristiana Tejo para a exposição individual intitulada Branco Neve na Galeria Vicente do Rego Monteiro na Fundaj, Recife-PE, 2006. Ainda pintura? Ainda pintura. Tal como a sensibilidade indefinível, a cor invade e perpassa todas as coisas, sem forma e sem limites. Ela é a matéria-espaço abstrata e real ao mesmo tempo. Yves Klein No campo da arte, grande parte do século XX foi dedicada ao enterro de suportes e de linguagens. As transformações do mundo deveriam ser expressas em novas maneiras de pensar e fazer arte. Cada novo movimento tomava para si o leme do barco da história e deixava naufragar correntes contrárias aos seus ideais e procedimentos. Esta visão progressiva da arte esgotou-se próxima da virada do milênio e o panorama que encontramos na primeira década do século XXI é de convivência de diferenças e de retomadas de questões artísticas não mais em sua integridade inicial, mas como suturadas a partir de fragmentos. Hugo Houayek (RJ) partilha com muitos outros artistas jovens a discussão e o tensionamento das possibilidades da pintura hoje. Como se sabe, a morte da pintura foi enunciada diversas vezes e desmentida após aberturas de outras portas de experimentação, quando novo fôlego era dado ao suporte mais tradicional da arte. O que significa pintar neste (talvez) admirável mundo novo? O que pode ser acrescentado ao repertório pictórico que vem sendo construído nos últimos seis séculos? A arte neste momento parece oferecer muitas perguntas, que são seguidas de poucas e provisórias respostas.


Hugo carrega em seu DNA artístico genes de origens diversas, mas por estar libertado das estruturas históricas e das bandeiras que militavam por causas, costura livremente referências e retoma a exploração de materiais industriais para o fazer pictórico, aposta no volume da cor e numa atitude diante da história da pintura. Branco Neve, projeto proposto especialmente para a Galeria Vicente do Rego Monteiro, parte de um comentário bem-humorado sobre este lugar: a tonalidade do branco escolhido para ocupar as paredes desta galeria (os demais espaços expositivos da Diretoria de Cultura são branco gelo). No entanto, ao utilizar uma cor tão simbólica para a arte como a branca, o artista acaba por mencionar também questões relativas ao cubo branco, espaço cunhado pelo Modernismo que garantia neutralidade para as obras, que, por sua vez, buscavam a autonomia da arte. Desde os anos 1950, a galeria virou assunto e reflexão de boa parte da produção artística, já que a consciência das relações de poder e de valores do mundo da arte ganhou importância. Sem a moldura que segurava a arte nos quadros, todo o espaço é inundado de significado e torna-se ativado. As pinturas de Hugo Houayek parecem plasmar-se no espaço, criando volumes no cubo branco. A atenção volta-se para as paredes das salas e acabam por atestar a presença da sensibilidade pictórica. Subterraneamente, para além da retina, corre uma leve ironia. Cristiana Tejo

Cristiana Tejo - 2006  
Cristiana Tejo - 2006  
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