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JULHO DE 2015 – Nº 25

Cirurgia é usada para tratar caso incomum de epilepsia

FOTO: BRUNO TODESCHINI

Parceria traz inovações a procedimento cardíaco

Mudança na gestão e reformas aprimoram atendimento

Emergência em transformação


EDITORIAL

Avanço contínuo O

Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) iniciou, em 2015, a reestruturação de um dos seus principais setores: a Emergência. É por essa unidade que muitos pacientes chegam à Instituição e conhecem seus serviços. São pessoas que, normalmente, estão num momento crítico de saúde e necessitam de um cuidado assertivo e ágil. Para atingir esse objetivo, o setor passa por mudanças nos processos de trabalho e de gestão e na estrutura física, buscando atender mais adequadamente

seus públicos: pacientes, acompanhantes, funcionários, médicos e alunos. São ações que impactam no atendimento de cerca de 50 mil adultos e 30 mil crianças ao ano, muitos desses seguindo para outras áreas do Hospital, onde seu tratamento terá continuidade. Entre os setores que dão suporte à Emergência estão as Unidades de Tratamento Intensivo, também elas, alvo de uma ampla modificação. Além da projeção de abertura de mais leitos, áreas afins serão agrupadas, visando à

melhoria no fluxo de atendimento. Outra área de apoio é o Centro de Diagnóstico e Tratamento Intervencionista, que formou parceria com um dos principais centros internacionais no tratamento de oclusões crônicas em artérias do coração, o Saiseikai Yokohama City Eastern Hospital (Japão). Com a capacitação de profissionais e o avanço tecnológico, mais vidas podem ser transformadas e salvas. Esses e outros temas podem ser conferidos nesta edição da PUCRS Saúde. Boa leitura!

SUMÁRIO 3 Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Hospital São Lucas da PUCRS Diretor-geral e administrativo: Leomar Bammann Diretor administrativo-adjunto: Lauri Heck Diretor técnico e clínico: Plínio Vicente Medaglia Filho Diretor acadêmico: Marlow Kwitko Diretor financeiro: Ricardo Minotto PUCRS Saúde Editora: Angela Vencato Repórter: Jeniffer Caetano Estagiária: Cássia Marques Martins Fotógrafos: Bruno Todeschini e Camila Cunha Revisão: Antônio Dalpicol Arquivo fotográfico: Analice Longaray e Camila Paes Keppler Conselho editorial: Fábio Etges, Lauri Heck, Magda Achutti, Marlow Kwitko, Plínio Vicente Medaglia Filho, Raquel Martins, Ricardo Minotto e Salvador Gullo Neto Impressão: Epecê-Gráfica Editoração eletrônica: PenseDesign A revista PUCRS Saúde é editada pelo núcleo de Imprensa do Hospital São Lucas da PUCRS – Avenida Ipiranga, 6.690 – 2º andar – CEP: 90.610-000 – Porto Alegre (RS) – Fone: (51) 3320-3445 – Fax: (51) 3320-3401

imprensa.hsl@pucrs.br www.hospitalsaolucas.pucrs.br

Palavra da Direção

4 Acontece Equipe atende caso incomum de epilepsia 6 Acontece Consultas são ampliadas 7 Acontece Centro aprimora tratamento cardíaco 8 Capa Confiança na hora da emergência 12 Pesquisa Alimentos que protegem o coração 13 Integra Do ensino à prática 14 Entrevista Tiago Reis Marques – Maconha é

fator de risco para esquizofrenia

16 Investimento Atenção redobrada 17 Segurança Sobrevivendo à sepse 18 Diagnóstico Aids: evitável e ainda sem cura 20

Viva melhor Força extra na reabilitação

22 Especialidade Desvendando o cérebro 23 Bastidores Gente que cuida 24 Curtas 26 Trajetória Renato Machado Fiori – Pioneiro por vocação 27 Crônica Eduardo Paglioli – História centenária

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PA L AV R A D A D I R E Ç Ã O

HSL reforça suas opções estratégicas RICARDO MINOTTO, diretor financeiro cia, formação de profissionais, geração de conhecimento e gestão. Para a viabilização da visão de futuro, temos estabelecido e trabalhado com as seguintes opções estratégicas: • Como hospital universitário e filantrópico, manter a oferta de serviços aos sistemas de saúde com qualidade e segurança, observando os limites da legislação pertinente, e as necessidades relacionadas ao ensino e pesquisa, desenvolvendo as relações intra e interinstitucionais; • Ampliar progressivamente a assistência de alta complexidade, em níveis compatíveis à condição de Hospital terciário e de ensino, com destaque ao perfil cirúrgico e à disponibilidade de Serviços de Apoio em Diagnóstico e Tratamento especializados; • Reforçar a organização e o desempenho dos serviços médicos e das unidades funcionais, constituindo-os como centros de excelência em suas áreas de atuação, alinhados ao perfil epidemiológico e à evolução do conhecimento em saúde;

FOTO: GILSON OLIVEIRA

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revista PUCRS Saúde apresenta nesta edição exemplos de ações estratégicas e de rotina do Hospital São Lucas da PUCRS (HSL). Como empreendimento atuante nas áreas de saúde e conhecimento, o HSL, fundamentado nos direitos humanos e no carisma marista, tem por missão promover a vida por meio de ações qualificadas e integradas de assistência, ensino e pesquisa em saúde. O dia a dia da Instituição, assim como o planejamento de curto, médio e longo prazos têm nos valores maristas os norteadores de nossas ações e do compromisso com as diferentes partes interessadas. Da mesma forma, as pessoas e os clientes constituem a razão de ser de todas as ações que realizamos, e os colaboradores, que aqui trabalham, o potencial inovador e realizador da Instituição. Em termos de visão de futuro, esperamos ampliar, no âmbito nacional e internacional, o nosso reconhecimento como Hospital referência em assistên-

• Promover a governança, como prática de gestão compartilhada e fortalecida pelo desenvolvimento da liderança; • Ampliar a diversificação das fontes de financiamento nos segmentos de assistência, ensino e pesquisa em saúde, atividades acessórias e outras, como um dos meios de autossustentação do Hospital. Espero que aproveitem e partilhem a leitura.

AGRADECIMENTOS Em nome de toda família, quero agradecer pelo serviço prestado ao paciente Waldemar Schon. Durante todo o período em que esteve internado, o atendimento realizado pelos técnicos, enfermeiros e equipes médicas foi muito bom e, até seus últimos momentos em vida, recebeu a melhor atenção de todos esses profissionais. Agradeço também a atenção à nossa família em nos explicar e nos manter informados de todas as etapas do tratamento realizado. Que Deus os abençoe e lhes conceda saúde para que continuem cuidando de tantas vidas e sejam muito felizes na escolha de suas profissões. Vera Lucia Fernandes e família Meus parabéns e agradecimento a toda a equipe do ProntoSUS, pois recebemos um atendimento digno, ágil, uma equipe educada, prestativa e competente. Todos falam mal do SUS, mas quando merece elogios, temos que fazê-lo e o ProntoSUS do Hospital da PUCRS merece. Fomos atendidos com agilidade, presteza, competência e educação. Parabéns à equipe do ProntoSUS. Katia C. Aguiar

Atendimento perfeito, cuidados e muita atenção com meu pai. Parabéns a toda a equipe envolvida. “Estou sendo muito bem cuidado. Essas pessoas são uns anjos de Deus”, palavras do meu pai todos os dias. Maurício Rocha Agradeço a Deus pela vida de cada um de vocês que fazem parte desse Hospital, especialmente médicos e enfermeiros. Cuidam dos pacientes como se fossem um dos seus, colocando-se sempre no lugar deles. Carinho e amor não têm preço, vidas não têm preço. Deus os abençoe!. Vera L. Chiesa Eberle Agradeço a vocês que cuidaram de mim com tanto amor, carinho e dedicação, com certeza, por muitas vezes, fizeram meus dias mais felizes, seja com palavras, conselhos, carinho, brincadeiras. Vou, mas levo cada um de vocês comigo no meu coração, meus anjos em forma de pessoas. Muito obrigada a todos. Cintia Agnes

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ACONTECE

Equipe atende

caso incomum de epilepsia PA C I E N T E U R U G U A I O E N C O N T R O U N O H S L A LT E R N A T I V A A O T R ATA M E N T O M E D I C A M E N T O S O

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édicos do Programa de Cirurgia de Epilepsia do Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) realizaram com sucesso o atendimento de um menino uruguaio com quadro incomum da doença. Ele apresentava epilepsia associada ao hamartoma do hipotálamo, na qual a lesão se localiza em uma área de difícil acesso no cérebro, cujo tratamento é delicado. A epilepsia é uma manifestação de disfunção elétrica cerebral que ocorre em 1% da população brasileira, com grande impacto na vida das pessoas por provocar convulsões e quedas. Além das crises, alguns pacientes têm alterações de comportamento e desenvolvimento cognitivo, especialmente agressividade, autismo e retardo mental. O paciente de dez anos convive com a epilepsia desde os três e veio de Montevidéu (Uruguai) atrás de uma solução para o problema, que afetava diretamente sua vida e de sua família. A mãe conta que, recentemente, as crises aconteciam entre cinco a dez vezes ao dia e estavam se tornando mais intensas, provocando quedas bruscas e perigosas. Por isso, ele utili-

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zava cinco medicamentos antiepilépticos e dois neurolépticos para controle da agitação e agressividade. Os efeitos colaterais levavam à sonolência, desequilíbrio e confusão mental. “Se passava o dia com apenas uma crise, já era um milagre. Nossa rotina era a de sair com medo de que ele se sentisse mal”, diz. Em casos como o dele, nos quais a lesão está localizada no hipotálamo – uma área nobre, ligada ao controle do movimento, da temperatura corporal, do apetite e da manutenção do equilíbrio do organismo –, a cirurgia torna-se mais complexa e delicada. Por isso, após buscar alternativas medicamentosas em diversos especialistas do Uruguai e da Argentina, a família foi indicada a procurar o HSL. “Na consulta inicial, analisei os exames e apresentei para a mãe a possibilidade de uma cirurgia para desconexão do hamartoma. Expliquei que não é possível esperar um controle total das crises neste caso, mas, sim, uma diminuição da frequência e da intensidade”, explica o neurocirurgião Eliseu Paglioli Neto, chefe do Serviço de Neurocirurgia do HSL. Para arrecadar fundos para a via-

gem e o procedimento, a família organizou uma campanha nas redes sociais e junto à imprensa uruguaia. A iniciativa trouxe o jovem até Porto Alegre. “A expectativa agora é muito boa. Esperamos ter um pouco mais de respiro e que ele possa ter uma vida praticamente normal”, ressalta a mãe. Uma semana após o procedimento, o garoto tivera apenas quatro crises muito breves, sem perda de consciência ou queda durante esse período. Estava muito mais calmo e conectado com as pessoas ao seu redor. Quatro meses depois, o menino não apresentava mais crises. Mesmo com a distância, a mãe seguiu em contato com os neurologistas do HSL para alinhar o tratamento. “Iniciou-se uma etapa também muito importante, de organizar um esquema medicamentoso que complementasse com sucesso a cirurgia, porém reduzindo drasticamente os efeitos colaterais. Isso envolve uma delicada e progressiva substituição e modificação das doses de alguns fármacos e suspensão de outros”, explica o neurologista André Palmini, chefe do Serviço de Neurologia do Hospital.


FOTO: BRUNO TODESCHINI

Paglioli Neto (à esquerda), Palmini e Maria Dal Pozzo, técnica em eletroencefalograma, integram o Programa de Cirurgia da Epilepsia

REFERÊNCIA INTERNACIONAL Criado em 1992, o Programa de Cirurgia da Epilepsia do HSL é referência para o tratamento da doença no Brasil e na América Latina. Pioneira na realização de cirurgias desse tipo na Região Sul, a equipe realizou mais de 2 mil procedimentos nesse período. Pacientes de diversos estados do País, além de Portugal, Chile, Paraguai, Uruguai, Honduras e Estados Unidos, já foram atendidos pelo grupo. O programa surgiu por iniciativa dos chefes dos serviços de Neurologia e Neurocirurgia do HSL à época,

respectivamente, Jaderson Costa da Costa e Eduardo Paglioli. Nos primeiros três anos, foram operadas cerca de 30 pessoas. O número aumentou para 70 ao ano quando o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a cobrir internações e cirurgias. Atualmente, são realizados entre 90 e 100 procedimentos anuais. O atendimento envolve investigação, cirurgia e acompanhamento posterior. A equipe, coordenada pelo neurocirurgião Eliseu Paglioli Neto e pelo neurologista André Palmini,

é formada também por neuro­ psicólogos, neurorradiologistas e neuropediatras. O índice de complicações apresentado é baixo e o resultado é bastante positivo. “A epilepsia tem entre 40 e 50 tipos diferentes. Em alguns casos, a pessoa fica 100% curada. Em outros, o resultado é de 50%. Na média, 70% dos pacientes ficam sem crises. Mas quem não fica completamente curado, normalmente, passa de 60 crises por dia para duas por mês”, explica Paglioli Neto.

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ACONTECE Pacientes têm 32 especialidades à disposição

A M B U L AT Ó R I O S A U M E N TA M A G E N D A PA R A AT E N D I M E N T O EM DIVERSAS ÁREAS

FOTO: CAMILA CUNHA

Consultas

são ampliadas

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om o aumento no número de convênios e de pessoas associadas a eles, a demanda por consultas com especialistas é cada vez maior. Vislumbrando essa necessidade da população, o Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) aumentou as agendas disponíveis nos ambulatórios para pacientes de convênios e particulares no ano de 2015. Com a iniciativa, as pessoas terão oportunidade de serem atendidas com mais rapidez por profissionais capacitados, podendo desfrutar de toda a estrutura de um hospital voltado à assistência de alta complexidade. Entre agosto de 2014 e junho de 2015, ocorreu aumento de 38,3% na oferta desse tipo de serviço e, atualmente, estão disponíveis 1.129 consultas por semana em 32 especialidades. Endocrinologia, estomatologia, ginecologia, medicina interna, reumatologia e oncologia são algumas das áreas que tiveram crescimento no número de atendimentos oferecidos. Foram abertas novas agendas em cardiologia, cirurgia bucomaxilofacial, neuroepilepsia, neurologia adulto, reumatologia adulto e pneumotabagismo. A marcação pode ser feita pelo telefone (51) 3320-3200 ou de forma presencial.

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Localizados no 2º e 3º andares da Instituição, os ambulatórios do HSL oferecem assistência de qualidade aliada à possibilidade de realizar exames, procedimentos e internações, havendo necessidade. O atendimento é oferecido a 67 planos de saúde. Em 2014, 16.600 pessoas consultaram através de convênios e de forma particular. A estrutura conta com 70 salas de consultório e equipe de 30 funcionários. Além de trazer mais opções à população, a iniciativa proporciona retorno interessante aos profissionais e à Instituição. “O SUS (Sistema Único de Saúde) é uma fatia importante dentro do processo de sustentabilidade do Hospital, mas temos um contrato junto ao gestor público que deve ser seguido, sem ultrapassar o que foi acordado. Nos convênios, temos um grande espaço para crescimento. Essa estratégia traz benefícios ao Hospital, para os médicos e os pacientes, com área adequada ao atendimento, estrutura completa e todos os serviços diagnósticos à disposição em um mesmo local”, ressalta o diretor técnico e clínico do HSL, Plínio Vicente Medaglia Filho.

ESPECIALIDADES ATENDIDAS • Bucomaxilofacial • Cardiologia • Cirurgia de cabeça e pescoço (somente Centro Clínico Gaúcho) • Cirurgia da mão/microcirurgia • Cirurgia geral • Cirurgia pediátrica • Cirurgia plástica • Cirurgia torácica • Cirurgia vascular • Dermatologia • Endocrinologia • Estomatologia • Fonoaudiologia • Gastroenterologia • Geriatria • Ginecologia • Hematologia • Infectologia • Mastologia • Medicina de família • Medicina interna • Neurologia • Neurocirurgia • Obstetrícia • Oftalmologia • Oncologia • Otorrinolaringologia • Pediatria • Pneumologia • Proctologia • Psiquiatria • Reumatologia


ACONTECE

Centro aprimora

tratamento cardíaco P R O C E D I M E N T O PA R A D E S O B S T R U I R A R T É R I A S D O C O R A Ç Ã O É A LT E R N A T I V A À C I R U R G I A C O N V E N C I O N A L P O R A N G E L A V E N C AT O

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equipe do Centro de Diagnóstico e Tratamento Intervencionista (CDTI) do Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) tem trabalhado para aprimorar o tratamento de oclusões crônicas em artérias do coração. Para tanto, estabeleceu parceria com o Saiseikai Yokohama City Eastern Hospital (Japão), por intermédio do médico Toshiya Muramatsu, um dos líderes mundiais nessa tecnologia. Como parte da iniciativa, Muramatsu esteve no HSL, participando do tratamento de pacientes com o problema; e a cardiologista Denise Pellegrini, da equipe do CDTI, realizou curso nessa área na instituição japonesa. Durante dez dias, participou de discussões de casos e acompanhou o atendimento de pacientes complexos. “São técnicas que usamos aqui, que estão sendo aprimoradas com a interação com o Japão”, ressalta Denise. A principal causa de morte por doença cardíaca no Brasil e no mundo é a obstrução das artérias coronárias, ou seja, quando as placas de gordura formadas na parede das artérias impedem a passagem de sangue. A interrupção súbita pode causar um ataque cardíaco, devendo ser rapidamente tratado com cateterismo cardíaco e dilatação da artéria obstruída. Quando a interrupção se dá lenta e progressivamente, pode passar despercebida e não ser imediatamente tratada. São as chamadas oclusões crônicas. Cerca de 20% da população que realiza cateterismo cardíaco sofre desse problema, cujos sintomas são angina (dor no peito), falta de ar, cansaço fácil, enfraquecimento do co-

ração e diminuição da sobrevida dos pacientes. Com o passar do tempo, a obstrução crônica torna-se de difícil tratamento. A solução frequentemente empregada é a cirurgia cardíaca com ponte de safena. Porém, a operação é de grande porte e há casos em que o paciente não pode se submeter a ela. A alternativa é a recanalização por meio de cateter (tubo flexível da espessura de um fio de cabelo), que vem sendo realizada com sucesso no HSL. Segundo o chefe do CDTI, Paulo Caramori, o objetivo é consolidar a Instituição como Centro de Referência no Tratamento de Oclusões Crônicas, com o aprimoramento das tecnologias de materiais e técnicas médicas utilizadas. É o que está sendo feito por meio da parceria com o hospital japonês. Durante a realização do curso naquela instituição, Denise apresentou um caso realizado no CDTI, que foi escolhido como o melhor do ano, entre um grupo formado por 16 médicos de diversos países.

O caso referia-se a uma paciente de 89 anos que estava, havia dois anos, em cadeira de rodas por sentir fortes dores no peito ao fazer qualquer esforço físico. Ela tinha uma artéria totalmente obstruída e a cirurgia cardíaca era contraindicada. Contudo, as novas técnicas permitiram que fosse submetida ao tratamento de recanalização por cateter, o que foi realizado com êxito no HSL. No dia seguinte ao procedimento, teve alta; as dores no peito cessaram e, aos poucos, voltou a caminhar, recuperando sua independência. No passado, a chance de sucesso em casos como esse era perto de zero e, muitas vezes, nem se tentava o tratamento por cateter. Atualmente, a possibilidade de recanalizar aumentou de 30% para 80%. O chefe do CDTI ressalta que o próximo passo da parceria com a instituição japonesa é desenvolver iniciativas a distância, trazer materiais e implantar novas tecnologias no HSL. IMAGENS: REPRODUÇÃO

Imagem (à direita) mostra fluxo sanguíneo restabelecido após implante de stents em artéria coronária obstruída

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C A PA Pacientes que chegam ao ProntoPUC são encaminhados para a triagem com enfermeiro

Confiança na hora da emergência PROJETO DE REESTRUTURAÇÃO DA ÁREA FÍSICA E DE PROCESSOS B U S C A M E L H O R A R O AT E N D I M E N T O

P O R J E N I F F E R C A E TA N O

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emergência é a porta de entrada para um grande número de pacientes nos hospitais. O setor é responsável por receber e lidar com casos urgentes e situações-limites que envolvem risco de vida. Além disso, muitas vezes, é lá que as pessoas têm seu primeiro contato com a instituição e criam sua impressão sobre o atendimento prestado. Por isso, é importante que um hospital de ponta possua uma emergência resolutiva, capaz de receber e encaminhar bem os pacientes acolhidos. Com esse objetivo, o Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) estabeleceu um projeto de reestruturação de espaços e mudanças na gestão do local. Em termos físicos, existem duas iniciativas em andamento. O Pron-

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toSUS, responsável por atender os pacientes vindos da rede pública, possui um projeto de ampliação que aguarda a liberação de verbas do gestor público para iniciar as obras. O setor passará de 13 para 29 leitos após a reforma. A área que recebe os clientes de convênios e privados, o ProntoPUC, passa por processo de modernização e readequação. Estão sendo renovados: a sala de observação (UCE), onde ficarão quatro boxes com leitos e seis poltronas para pacientes adultos, permitindo a coleta de exames e a realização de medicações; os consultórios, que terão acesso direto à sala de observação; os sanitários e toda a área de gestão médica, de enfermagem e administrativa.

A área de atendimento de urgências foi readequada, passando a contar com uma sala vermelha e uma sala laranja, em consonância com o novo protocolo de classificação de risco, implementado em 2015. Na UCE pediátrica, será construído um novo sanitário para pacientes e ampliada a sala de rounds e de prescrição médica. Posteriormente, será criada uma sala para rounds de ensino e reuniões, servindo também de ambiente de descanso para os médicos nos períodos de intervalo dos profissionais. Em paralelo às mudanças estruturais, está sendo desenvolvido um trabalho de mudança na cultura do setor. À frente desse processo, está o novo chefe da emergência


Bornhorst tem o apoio da enfermeira Rossana Aita Bruno na gestão da unidade

FOTOS: BRUNO TODESCHINI

do HSL, o pediatra Saulo Gomes Bornhorst. Entre os objetivos do gestor estão a qualificação do quadro, a fixação dos profissionais nos postos de trabalho e a fidelização dos médicos com a Instituição, garantindo assistência qualificada e segura aos pacientes. “Em primeiro lugar, esse é um processo de qualificação do setor. Queremos que a nossa emergência tenha a confiabilidade da sociedade. Queremos que seja vista como uma emergência com bom acolhimento, resolutiva e segura, e que a classe médica tenha confiança e tranquilidade em encaminhar seus pacientes para cá”, afirma o diretor técnico e clínico do HSL, Plínio Vicente Medaglia Filho.

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C A PA ETAPAS DO PROCESSO Para alcançar as metas, algumas medidas estão sendo tomadas. Uma delas é a mudança no sistema de classificação de risco, obrigatório por lei no Brasil. Ele prioriza o atendimento dos pacientes mais graves e é aplicado por enfermeiros capacitaSala laranja foi dos especificriada para atender camente para pacientes graves, de acordo com nova realizar esse classificação de risco

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trabalho. Até recentemente, o Hospital utilizava uma metodologia própria, com quatro níveis; em 2015, passou a adotar um método reconhecido mundialmente, o Emergency Severity Index (ESI). O novo sistema é dividido em cinco níveis. Inicialmente analisa-se a gravidade. Os casos mais graves são representados pela cor vermelha e utilizados para quem precisa de atendi-

mento imediato e de uma intervenção salvadora de vida, como intubação endotraqueal, colocação de dreno de tórax ou de acesso venoso para ressuscitação volêmica. A classificação seguinte é a laranja, para o paciente que não pode esperar mais de dez minutos pelo atendimento médico. Trauma craniano com perda de consciência, dor torácica ou dor intensa são algumas das situações que se encaixam nessa categoria. Para os casos menos graves, analisa-se a complexidade, de acordo com a necessidade de recursos terapêuticos a serem utilizados, além da consulta médica. Os recursos podem ser exames, medicamentos injetáveis ou a avaliação de um médico especialista. Na classificação de risco azul, a enfermeira estima que o paciente necessitará apenas da consulta com o médico da emergência; na verde, a consulta e mais um recurso; na amarela, dois ou mais recursos terapêuticos. Responsável pela realização do treinamento na equipe do HSL, Bornhorst salienta que “a classificação não é perfeita. Não vai acertar sempre, mas ajuda muito, pois cria critérios para a organização e segurança do atendimento. Além disso, caso necessário, pode acontecer também o que chamamos de reclassificação”. Na opinião do médico, “isso é um passo para a honestidade na relação com o paciente. Vamos atendê-lo, mas vai demorar um determinado tempo, pois temos outros casos graves.” A classificação de risco auxilia o médico a priorizar o atendimento de quem mais necessita. No entanto, com um grande número de pessoas procurando o setor, em algumas situa­ ções, a espera pode tornar-se longa. Por isso, o HSL tem o projeto de UCE oferecer uma alPediátrica ternativa para os passará por casos menos gramelhorias na área física ves, um ambulató-


FOTOS: BRUNO TODESCHINI

ATENDIMENTOS EM 2014 Nova sala de medicação conta com seis poltronas

rio para consulta com hora marcada. Após a classificação de risco, os pacientes identificados como azuis e verdes teriam a opção de escolher um horário específico na agenda do dia. Dessa forma, a pessoa não precisaria ficar aguardando na emergência. “Temos que conscientizar a população sobre o que é emergência. Mesmo assim, as pessoas vão continuar procurando o hospital. Quando uma pessoa está doente, ela quer ser atendida com brevidade e nem sempre o médico pode suprir essa necessidade em seu consultório. A emergência não é a solução mais adequada, mas temos que auxiliar essa pessoa. Nesse caso, a alternativa do ambulatório torna-se útil”, explica Bornhorst. A aplicação dessas iniciativas requer profissionais em sintonia e qualificados. A ideia é criar uma escala fixa, com pessoas que conheçam

Emergências de adultos: • 34.032 (ProntoPUC) • 14.790 (ProntoSUS) Emergências pediátricas: • 12.837 (ProntoPUC) • 13.451 (ProntoSUS)

todos os processos e sintam-se à vontade no trabalho. Além disso, serão estabelecidas metas de atendimento para o grupo, incentivando a produtividade. As mudanças buscam uma nova era no atendimento de urgência e emergência no HSL, trazendo mais conforto para o público externo e interno. “Classificação de risco, bom ambiente de trabalho e segurança. Esses são alguns itens para formar uma equipe forte e que goste de trabalhar em nosso Hospital. Temos que criar uma sensação de pertencimento ao HSL e ao serviço. A emergência é um local de conflito, mas temos que ter estratégias para lidar com isso”, afirma Bornhorst.

ESTRUTURA Atendimento adulto • ProntoPUC: quatro consultórios médicos e um de classificação de risco; • UCE: quatro leitos de observação e sala de medicação com seis poltronas; • ProntoSUS: dois consultórios (médico e de classificação de risco), 13 leitos e sala de medicação com seis poltronas. Atendimento pediátrico • ProntoPUC: dois consultórios médicos e um de classificação de risco; • UCE: sete leitos; • ProntoSUS: dois consultórios (médico e de classificação de risco), nove leitos de observação e sala de medicação com oito poltronas.

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PESQUISA

Alimentos que protegem o

coração

FOTO: CAMILA CUNHA

H S L PA R T I C I PA D E E S T U D O PA R A E S TA B E L E C E R A D I E TA CARDIOPROTETORA BRASILEIRA, BASEADA EM PRODUTOS REGIONAIS

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statísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que as doenças cardiovas­ culares estão entre as principais causas de morte no mundo. Por isso, é grande o apelo por conhecimento nessa área. Com esse objetivo, o Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) integra uma pesquisa nacional para estabelecer uma dieta cardioprotetora brasileira, que proteja o coração e ajude a prevenir esses casos. O estudo pioneiro, iniciado em 2013, envolve 34 centros de todo o País, 2.500 pacientes e é coordenado pelo Hospital do Coração (HCOR), de São Paulo. A pesquisa é realizada em parceria entre o Serviço de Nutrição do HSL e o curso de graduação em Nutrição da Faculdade de Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia (Faenfi) da PUCRS. “Sabemos que a dieta mediterrânea, por exemplo, apresenta evidências importantes sobre a saúde cardiovas­ cular, mas com alguns limites em relação aos hábitos alimentares da população brasileira. A ideia é propor agora uma dieta adaptada aos alimen-

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Raquel e Elaine (segunda e terceira à direita) junto à equipe que integra o estudo

tos regionais do País, visando a uma maior adesão”, explica a coordenadora do projeto no HSL e professora da Faenfi Raquel Milani El Kik. Articulado e financiado pelo Ministério da Saúde, o projeto levará em conta as características da população e os hábitos de consumo regionais. Dessa forma, valoriza os itens tradicionais de cada local. “Não existe nenhum superalimento que solucione tudo. Necessita-se da harmonização de grupos de alimentos e da mudança de hábito”, diz Raquel. O trabalho é realizado com 50 pacientes do Ambulatório de Cardiologia do Hospital. Formam o grupo pessoas a partir de 45 anos que já tiveram algum evento cardiovascular. “Queremos que eles tenham uma melhora na qualidade de vida e não voltem a ter novos eventos”, afirma a coordenadora da Nutrição Clínica do HSL, Elaine Adorne. O acompanhamento será feito durante 48 meses. Após aceitar o convite para integrar o projeto, o paciente passa a receber acompanhamento das nutricionistas e enfermeiras da equipe.

O regime alimentar é baseado em todas as diretrizes atuais da cardiologia, mas também possui características individuais, levando em conta o valor calórico e os hábitos de cada um. Além de contar com esse acompanhamento nutricional, o paciente recebe ligações do centro coordenador de São Paulo para avaliar a adesão e tirar dúvidas. Ao final do processo, em 2017, será feita uma grande publicação para difundir o conhecimento adquirido. A participação em projeto tão relevante traz benefícios para diversas áreas. “Essa é uma grande oportunidade para os profissionais do HSL e os estudantes. Envolve Serviço de Nutrição, residentes do Programa de Residência Multiprofissional e em Área Profissional da Saúde (Premus) e bolsistas de iniciação científica. Existe uma grande integração; a criação de uma rede e a qualificação de uma área da Instituição. Além disso, traz aos pacientes a chance de serem assistidos de perto por uma equipe qualificada e multidisciplinar”, enfatiza Raquel.


INTEGRA

Do ensino à

Daiane (à direita) mostra aos alunos como o quarto deve ser organizado para receber pacientes FOTOS: CAMILA CUNHA

C O M I N I C I AT I VA S E M D I F E R E N T E S ÁREAS, PROGRAMA TRAZ ALUNOS DE H O T E L A R I A PA R A AT U A R E M N O H O S P I TA L E C O M P L E M E N TA R E M A F O R M A Ç Ã O

prática O

Programa de Integração Ensino-Serviço (Integra) busca a melhoria contínua do acolhimento e da participação de alunos e professores da PUCRS no Hospital São Lucas (HSL), bem como a ampliação da gama de cursos com atividades no HSL. Para tanto, abre oportunidade para áreas não integrantes das ciências da saúde. O exemplo mais recente é a inclusão do Curso Superior de Tecnologia em Hotelaria, ocorrida em 2015. Nos meses de abril e maio, 11 estudantes realizaram atividades práticas da disciplina Temáticas e Tendências em Hospitalidade e Hospedagem na Instituição. “Hoje é o único curso de hotelaria do Brasil que conta com um hospital para que os alunos possam trabalhar a hotelaria hospitalar. Para nós, é um grande diferencial de mercado”, ressalta o coordenador do curso, Denis Bohnenberger. Os universitários participaram de encontros no HSL para conhecer a Supervisão de Hotelaria. A gestora da unidade, Márcia Muccillo Tigre, passou orientações sobre a área administrativa, como ferramentas de gestão, distribuição dos leitos, atuação do Serviço de Controle de Infecção e os diferentes níveis de atendimento ao cliente. Apresentou também como é feita a internação de pacientes e a regulação de leitos do Sistema Único de Saúde (SUS). Os estudantes co-

nheceram uma unidade de internação, onde a encarregada administrativa Daiane Costa Almeida mostrou as técnicas de higienização dos leitos, os processos e a legislação. O professor da disciplina, Fabrício Silveira de Souza, explica que se busca fazer a relação entre a hotelaria tradicional e a hospitalar, que, em alguns momentos, são similares e, em outros, são completamente diferentes, principalmente na parte sanitária, nas ferramentas de gestão e de controle e nas formas de atendimento, pelo perfil do público. “Essa foi a oportunidade que enxergamos para que o aluno tenha o cenário do mercado como um todo”, afirma. A atividade prática resultará em um relatório, produzido pelos alunos, que será encaminhado ao HSL. Posteriormente, poderá ser desenvolvido um projeto dentro do eixo da hospitalidade. O diretor acadêmico do Hospital, Marlow Kwitko, ressalta que “acolher no HSL um curso da Universidade não vinculado à área das ciências da saúde é uma conquista especial, um diferencial para a Instituição, no cumprimento de sua missão como hospital de ensino”. A coordenadora de Programas Especiais da Pró-Reitoria Acadêmica, Valéria Corbelini, complementa destacando que a iniciativa atende aos objetivos da disciplina e contribui para o

Márcia (à direita) apresenta as ferramentas de gestão utilizadas pela Supervisão de Hotelaria

aprimoramento da hotelaria do HSL. A experiência está sendo bem aproveitada pelos estudantes para ampliar o conhecimento sobre a área, como conta a universitária Camila Souza. “Dá para se ter uma ideia muito clara de como as coisas são feitas na prática, porque as pessoas são muito abertas e passam muitas informações.” A opinião é compartilhada pela colega Paula Pureur, que pretende trabalhar com hotelaria hospitalar. Ela diz que, durante o curso, as aulas são mais voltadas aos hotéis e, com a atividade proposta na disciplina, conseguiu ter uma melhor noção do que é a hotelaria hospitalar. O coordenador do curso refere que a ideia é aprimorar a iniciativa, podendo ampliar a carga horária dentro do HSL, pois há um grande percentual de diplomados na PUCRS que trabalham no setor.

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E N T R E V I S TA – T I A G O R E I S M A R Q U E S

Maconha

Marques foi reconhecido como Melhor Jovem Pesquisador

é fator de risco para

esquizofrenia E S P E C I A L I S TA E S T U D A A S C O N S E Q U Ê N C I A S D O U S O D A D R O G A PA R A O C É R E B R O E A L E R TA PA R A S E U S M A L E F Í C I O S

P O R J E N I F F E R C A E TA N O

C

om o uso legalizado em alguns países, como o Uruguai, a maconha tem tido destaque no noticiário mundial. No entanto, pouco se fala sobre a real extensão dos efeitos que a droga pode ter no organismo. O psiquiatra e professor da King’s College of London (Inglaterra) Tiago Reis Marques estuda, entre outros temas, a relação da cannabis com o surgimento de doenças psiquiátricas. Pelo seu trabalho, foi considerado o Melhor Jovem Investigador no 15º Congresso Internacional de Investigação da Esquizofrenia, ocorrido em março no Colorado (Estados Unidos). O especialista esteve no Hospital São Lucas da PUCRS para participar do evento Temas de Psiquiatria, organizado pelo Centro de Estudos de Psiquiatria Integrada, e conversou com a revista PUCRS Saúde sobre seus projetos de pesquisa. Quais são as suas linhas de estudo na King’s College? O nosso trabalho de pesquisa, den-

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tro do grupo no qual me insiro, foca na utilização da técnica de neuroimagem, que são fotografias do cérebro usando ressonância magnética, para o estudo de doenças psiquiátricas, como a esquizofrenia. Tentamos perceber se no cérebro de doentes há alguma alteração. Temos verificado vários aspectos que podem apontar para possíveis causas da doença. Outra área de pesquisa é a relação entre a cannabis e a doença psiquiátrica. Mostramos que o consumo frequente, com início em idade jovem de uma cannabis potente, aumenta muito o risco de futuros casos de esquizofrenia. O que a droga pode ocasionar no organismo? O que se sabe, atualmente, é que a utilização por jovens provoca diminuição do quociente de inteligência (QI). Ou seja, as pessoas têm mais propensão a terem queda no seu nível de inteligência. Em termos psiquiátricos, o que se sabe é que há uma relação entre o consumo e ataques de pânico,

síndromes motivacionais, ou seja, o usuário não quer fazer nada além de usar a droga; e, por fim, a relação com a esquizofrenia. No caso da esquizofrenia, a pessoa já tem predisposição e a droga a desencadeia? Nesse tipo de doença, a pessoa tem que estar propensa geneticamente a desenvolvê-la. A cannabis é como um gatilho em um ambiente já predisposto. Fazendo uma analogia com o tabaco, algumas pessoas fumam a vida toda e não têm câncer de pulmão, e outras fumam e desenvolvem. Mas não sabemos quem está predisposto geneticamente, é algo desconhecido. O uso da maconha pode trazer muitas consequências, além de ser um fator de risco para várias doenças. Atualmente, na Medicina, falamos muito sobre fatores de risco. Qualquer pessoa sabe que o colesterol alto é um fator de risco para a hipertensão, que é um fator de risco para doenças coronárias ou o infarto


FOTO: GILSON OLIVEIRA

O cérebro pode ser afetado também pelo uso recreativo da maconha? O cérebro é afetado sempre. Mas o dano cerebral está muito associado à frequência do uso, ao quanto se usa e ao quanto a cannabis é potente. De qualquer maneira, o cérebro está sendo afetado. Disso as pessoas têm que ter noção. Ademais, todos nós sabemos que, por ser uma droga, sempre existe o risco da dependência.

agudo do miocárdio, entre outros. O mesmo ocorre com as doenças psiquiátricas. Existem muitos fatores de risco. Se você sofrer algum trauma, passar por alguma situação de morte violenta, poderá ter estresse pós-traumático. Hoje em dia, na esquizofrenia, sabe-se que o consumo da cannabis é um fator de risco. O uso medicinal da maconha é aplicado de uma maneira diferente ou pode ter esses mesmos efeitos? O uso medicinal é supervisionado para situações muito específicas. Vou fazer uma analogia para explicar a diferença. A heroína vem do ópio e todos sabemos que é uma droga poderosa. Mas a morfina é um analgésico utilizado em algumas situações e vem da mesma fonte. Situação igual acontece com a cannabis. Usada em alguns casos, ela pode, sim, ter efeito medicinal. Isso não quer dizer que o doente deva usar sem parar. Ela deve ser utilizada de forma controlada, de acordo com cada caso.

Um dos pontos trabalhados na pesquisa desenvolvida com o uso da ressonância para o estudo de doenças psiquiátricas é a possível identificação do medicamento mais adequado para cada paciente. Qual a importância desse dado? A ressonância permite que olhemos para as várias estruturas que compõem o cérebro, especificamente os fios de ligação das diferentes partes do cérebro. Percebemos que os doentes que não respondem à terapia são aqueles cujos fios de ligação das diferentes zonas estão mais alterados. Portanto, é provável que, no futuro, possamos olhar para o cérebro do doente e dizer qual medicamento vai ou não responder. Você perde tempo e há piora caso não consiga acertar o medicamento de forma rápida.

Recentemente, o Uruguai tornou legal o uso da maconha. Quais são os efeitos que o senhor Quais são as doenças que podem espera após essa libe- se beneficiar dessa pesquisa? Nesse momento, praticamente ração? Esse é um experimen- todas as doenças psiquiátricas estão to sobre o qual ainda sendo investigadas com o uso da não temos muita ideia do resultado. neuroimagem. Da mesma maneira Imagino que, inicialmente, vá existir que o cardiologista tem o eletrocarum pico no consumo, mais pela curio- diograma e que o pneumologista tem o raio-x do sidade. Posteriormente, tórax, temos a esse número deve se “Vivemos um ressonância. Deestabilizar. Na Holanpressões, doen­ da, por exemplo, não momento quase ças obsessivoaconteceu um aumento de glamorizar a -compulsivas, expressivo. A verdabipolaridade e de é que o acesso à maconha, como esquizofrenia já maconha é bastante antes aconteceu podem ser escomum, então, quem tudadas com quer, usa. No entanto, com o cigarro. Por esse exame. é importante falar que a isso, é importante Posso dizer que, maconha faz mal. Muiem dez ou onze tas vezes, passa-se a informar esses anos, o médico ideia de que é algo baefeitos negativos psiquiatra, antes cana, algo natural, algo de começar a que Bob Marley usava. da cannabis” tratar, olhará para Mas ela tem efeitos séo perfil genético rios, como o cigarro e o álcool. Hoje vivemos um momento do doente e vai ter essas ferramentas quase de glamorizar a maconha, para enxergar dentro da caixa negra como antes aconteceu com o cigarro. que é o cérebro. É cada vez mais Por isso, é importante informar esses possível olhar para ele. É o órgão efeitos negativos da cannabis, assim mais complexo do corpo, mas temos conseguido avanços. como foi feito com o tabaco.

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INVESTIMENTO

Atenção redobrada Á R E A D E I N T E N S I V I S M O S E R Á A M P L I A D A PA R A S U P R I R O A U M E N T O D A D E M A N D A P O R A T E N D I M E N T O D E A LT A C O M P L E X I D A D E

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aracterizado como um hospital terciá­ rio, com especialidades médicas e recursos diagnósticos para atender pacientes de alta complexidade, o Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) projeta a ampliação e remodelação da área de cuidados intensivos. Atualmente, a Instituição dispõe de 99 leitos nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) e a meta é chegar a 129. O diretor técnico e clínico, Plínio Vicente Medaglia Filho, afirma que a demanda tem sido muito grande em função do acolhimento de enfermos mais graves. “Vamos ter um apoio mais concreto ao setor de Emergência, que requer muitos leitos de intensivismo; aos pacientes internados com deterioração clínica e aos submetidos a cirurgias de alta complexidade”, destaca. A nova estrutura será instalada no terceiro andar, onde antes estavam o Instituto de Geriatria e Gerontologia e a internação geriátrica, constituindo um centro de intensivismo para pacientes clínicos e cirúrgicos com 30 leitos. A primeira unidade foi adaptada com a transferência dos dez leitos da UTI da Emergência para o local. Na segunda etapa, serão abertos mais dez leitos e, na terceira, mais dez. A expansão contemplará as vagas contratualizadas com o Sistema Único de Saúde (SUS) e o atendimento de convênios e de pacientes particulares. A perspectiva é de que haja crescimento do número de atendimentos de emergência, devido à remodelação do ProntoPUC; e ambulatoriais, em razão da maior oferta de consultas nos ambulatórios de especialidades médicas. Na avaliação do chefe da UTI Geral, Sergio Baldisserotto, há hoje um desequilíbrio entre oferta e demanda de acomodações de intensivismo. “Temos uma necessidade maior hoje do que tínhamos no passado em função do avanço da Medicina para atendimento de alta complexidade; isso acompanha a longevidade e o desenvolvimento tecnológico”, afirma.

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FOTO: BRUNO TODESCHINI

Meta do Hospital é ampliar em 30 leitos a capacidade das UTIs

A área cardíaca será igualmente modificada, concentrando, no terceiro andar, a UTI Cardiovascular (UTI CV), o Pós-Operatório de Cirurgia Cardíaca (POCC) e a nova Unidade Coronariana. Ao todo, serão 40 leitos, dos quais dez serão novos. A Unidade Coronariana resulta de contrato firmado com a Secretaria Municipal de Saúde e é voltada ao tratamento de infartos e anginas, entre outros problemas relacionados à cardiologia. Os leitos de intensivismo cardiológico também dão suporte aos atendimentos do Centro de Diagnóstico e Tratamento Intervencionista (CDTI), onde são feitos procedimentos de alta complexidade, como troca de válvulas cardíacas por procedimento hemodinâmico e colocação de stents em pacientes infartados. O chefe da UTI CV, Mário Wiehe, destaca que a unificação melhora o fluxo de trabalho e o

entendimento entre as equipes, facilitando o acompanhamento do paciente em todas as suas fases dentro do Hospital. “É melhor para o manejo e o encaminhamento dos tratamentos”, explica. A ampliação da estrutura vai agilizar ainda o atendimento de pacientes eletivos – aqueles que necessitam fazer procedimentos cardiológicos sem urgência e dependem da disponibilidade de leitos. Para atender ao aumento da estrutura, as equipes assistenciais serão redefinidas, cumprindo a legislação do Ministério da Saúde. “O Hospital ficará com uma ‘folga’ no que diz respeito a pacientes graves de intensivismo. Por outro lado, a iniciativa vem ao encontro da meta de autossustentabilidade da Instituição, pois são áreas que agregam receita significativa”, ressalta Medaglia Filho. A previsão é que a reestruturação ocorra até o fim de 2015.


SEGURANÇA

Sobrevivendo à E

sepse

vitar complicações clínicas e até a morte em pacientes com sepse é o objetivo das ações desenvolvidas pelo Hospital São Lucas da PUCRS (HSL). O trabalho ganhou reforço com a reformulação do Protocolo de Sepse Grave e Choque Séptico e com as capacitações feitas com equipes assistenciais e médicas. As iniciativas foram organizadas pela enfermeira do Serviço de Controle de Infecção Miriane Melo Silveira Moretti, destacando que, com o documento, busca-se dar mais agilidade à identificação da doença e ao início do tratamento, garantindo uma melhor resposta do paciente e prevenindo o agravamento do quadro. A sepse caracteriza-se por um conjunto de manifestações graves em todo o organismo, produzidas por uma infecção, podendo afetar vários órgãos. É comumente chamada de infecção generalizada e apresenta três níveis: sepse, sepse grave e choque séptico. Estudos mostram que há dificuldade em identificar a doença nos estágios iniciais; por isso, foi lançada, em 2002, a campanha mundial Sobrevivendo à Sepse. No Brasil, a mortalidade da doença é alta, chegando a 64,1% dos casos de choque ES

EIMAG

: FRE

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séptico e de 32,9% de sepse grave, segundo dados de 2014 do Instituto Latino-Americano da Sepse (Ilas). No HSL, o primeiro protocolo institucional de sepse foi criado em 2011, passando por reformulação e nova implantação em 2013. Miriane diz que o instrumento foi elaborado com a colaboração das equipes assistenciais. Além de capacitar os profissionais com simulações realísticas, foi confeccionado material de bolso e realizado trabalho junto aos setores de apoio envolvidos. Na Farmácia, por exemplo, as prescrições de antibiótico para casos de sepse grave precisam ser atendidas com urgência, possibilitando que o medicamento seja administrado em até uma hora após o diagnóstico. “Estudos mostram que o atraso em 1h na administração do antibiótico pode aumentar em 7% a mortalidade dos pacientes”, reforça a enfermeira. Outras estratégias utilizadas são as prescrições-padrão de medicamentos e a organização de um pacote de exames laboratoriais, que tem prioridade na liberação. Na Emergência, quando o paciente passa pela triagem, é possível sinalizar no sistema se ele se enquadra no

I N I C I AT I VA S S Ã O D E S E N V O LV I D A S P A R A I D E N T I F I C A R E T R ATA R PRECOCEMENTE INFECÇÃO GRAVE QUE PODE LEVAR À MORTE protocolo de sepse grave, para que o encaminhamento seja feito o mais rápido possível. Complementa as iniciativas o treinamento feito com todos os profissionais da enfermagem ao serem admitidos no HSL e as capacitações para residentes e equipes médicas. A adesão das unidades ao protocolo passou a ser medida com a criação de dois indicadores institucionais: taxa de adesão ao protocolo de sepse e mortalidade global por sepse. Dada a prevalência e a mortalidade da doença no HSL, o coordenador do Núcleo de Segurança do Paciente e assessor da Direção Técnica e Clínica, Salvador Gullo Neto, destaca que “trabalhar organizadamente para o diagnóstico e tratamento precoce da sepse é uma das ações estratégicas da Direção”. Em 2014, o índice de mortalidade na Instituição por sepse grave e choque séptico era de 45,4%, enquanto a média nacional ficou em 46%. Segundo Miriane, o percentual tem diminuído, mas é preciso melhorar e conscientizar a população quanto à gravidade da doença. Em setembro, no mês de combate à sepse, o HSL promoverá palestra, quiz nas unidades, exposição de banners e abordagem com o público leigo.

ENTENDA A DIFERENÇA A infecção é classificada como sepse, sepse grave ou choque séptico. A primeira é identificada quando há

um foco infeccioso e, no mínimo, dois sinais vitais alterados (temperatura, frequência cardíaca ou respiratória). Na

sepse grave, além desses sinais, é preciso ter também uma disfunção orgânica. No quadro mais agudo, o choque

séptico, soma-se aos sintomas citados a hipotensão (pressão baixa) sem resposta à reposição volêmica.

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DIAGNÓSTICO

IDENTIFICAÇÃO PRECOCE DO HIV PERMITE R E TA R D A R O SURGIMENTO DA AIDS, SÍNDROME Q U E A F E TA A IMUNIDADE

O

Rio Grande do Sul apresenta dados alarmantes na detecção da Aids, uma doença silenciosa e ainda sem cura. Enquanto a média brasileira é de 20 novos casos por 100 mil habitantes, o Estado registra mais que o dobro, com 41

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Evitáve sem ocorrências, segundo o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde. O coeficiente de mortalidade também é o mais elevado do País, representando 11,2 óbitos para cada grupo de 100 mil pessoas. O Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) recebe de seis a oito novos pacientes soropositivos por semana e cerca de 2 mil pessoas porta-

doras do vírus HIV são acompanhadas no ambulatório do Sistema Único de Saúde (SUS). A Aids, sigla para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, é causada pelo vírus HIV, que atinge quase todas as células do organismo, afetando a imunidade. Além de atacar as células de defesa, pode penetrar em células cerebrais, musculares e do coração, ocasionando uma reação inflamatória constante, o que leva os portadores ao envelhecimento precoce, e desencadeando outras doenças típicas de idades mais avançadas. As formas mais comuns de transmissão do HIV são todos os tipos de relação sexual, contato com sangue, acidentes com agulhas e uso de drogas injetáveis. Atualmente, não existem mais grupos de risco e, sim, comportamentos. “Quem tem relação sexual, principalmente desprotegido, está em risco”, ressalta o infectologista Fabiano Ramos, chefe dos Serviços de Controle de Infecção e de Infectologia do HSL. A detecção precoce possibilita que nem todos os portadores do HIV desenvolvam a Aids imediatamente, por isso, a atenção aos sintomas é essencial. Os primeiros sinais surgem de duas a quatro semanas após a entrada do vírus no organismo, que se manifesta de maneira aguda. Febre, dor de cabeça e no corpo, ínguas aumentadas, dor de garganta e manchas pelo


vel e ainda m cura REDE DE ATENÇÃO • Dúvidas: A Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul disponibiliza um telefone para informações, o Disque Aids. Ligue 0800-541-0197. O site www.aids. gov.br, do Ministério da Saúde, também traz esclarecimentos.

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EEIM AGES

• Diagnóstico e acompanhamento: O diagnóstico da infecção pelo HIV é feito a partir da coleta de sangue. Esses testes são realizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), nas unidades da rede pública e nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA). Nesses centros, além da coleta e da execução dos testes, há um processo de aconselhamento, antes e depois do teste, para facilitar a correta interpretação do resultado pelo paciente. A infecção pelo HIV pode ser detectada com, pelo menos, 60 dias a contar da situação de risco. FOTO

corpo demandam cautela. Pode ocorrer uma melhora e levar anos até que se desenvolva a doença, mas o vírus pode ser transmitido. “Muitas pessoas procuram uma emergência com esses sintomas e não é feito o diagnóstico. Em algum momento, todo mundo deveria fazer o teste”, recomenda Ramos. Uma vez realizado o diagnóstico, o paciente deve iniciar o tratamento com antirretrovirais e manter por toda a vida. O coquetel antiaids é distribuído gratuitamente no Brasil desde 1996 e, para combater o HIV, é necessário o uso de pelo menos três medicamentos combinados. Recentemente, o SUS passou a distribuir um comprimido único, facilitando a adesão à terapia. Contudo, a cura ainda não é possível, pois o coquetel bloqueia a replicação do vírus, mas ele permanece alojado em locais chamados de reservatórios ou ilhas, nos quais a medicação não penetra. De acordo com o infectologista, hoje não é correto falar em expectativa de vida para os soropositivos. O HSL teve aumento na demanda, pois os pacientes têm acompanhamento contínuo. Ramos destaca que a doença e o tratamento são relativamente novos e a perspectiva é de que, em torno de dez anos, a cura seja possível. Na tentativa de erradicação, é essencial que se trabalhe a prevenção. “A medida mais difícil, mas que teria maior impacto, é a mudança de cultura. São necessárias campanhas esclarecedoras, não para colocar medo nas pessoas, mas para ressaltar que existe prevenção”, sugere o infectologista. A principal medida preventiva é o uso de preservativo em todas as relações sexuais, além da utilização de seringas e agulhas descartáveis e de luvas, para o contato com feridas ou líquidos corporais.

• Atendimento: No HSL, o Ambulatório de Infectologia, localizado no conjunto 302, atende pacientes do SUS com HIV. As consultas ocorrem às segundas, das 16h às 18h; às terças, das 10h às 12h; e às quintas-feiras, das 10h às 12h. O encaminhamento é feito pelo posto de saúde. Informações pelo (51) 3320-3383.

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VIVA MELHOR

Força extra na reabilitação S E R V I Ç O D E F I S I AT R I A É P I O N E I R O N A A P L I C A Ç Ã O T E R A P Ê U T I C A D A T O X I N A B O T U L Í N I C A , I N D I C A D A PA R A C O N T R O L A R A D O R E FA C I L I TA R O S M O V I M E N T O S

Patrícia realiza a aplicação periódica da toxina botulínica na paciente Luciana

FOTOS: BRUNO TODESCHINI

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utilização da toxina botulínica, mais conhecida pelo nome comercial Botox, em procedimentos estéticos é amplamente disseminada; entretanto, os primeiros registros de aplicação da substância são da Luciana teve os movimentos dos área terapêumembros do lado tica. Especiadireito afetados lidades como por um AVC

fisiatria, neurologia, oftalmologia e urologia aplicam a toxina, sobretudo no tratamento de distonia (contração involuntária) e espasticidade (rigidez muscular). A técnica não é de cura, mas proporciona controle da dor, melhoria da qualidade de vida, facilitação de movimentos e ganhos terapêuticos na reabilitação. O Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) oferece aos pacientes neurológicos o tratamento completo, incluindo avaliação médica especializada, programas de reabilitação física, aplicação da toxina e uso de equipamentos auxiliares. O Serviço de Fisiatria é pioneiro na aplicação da substância no processo de reabilitação de doenças neurológicas. Desde a implantação do ambulatório, em 2001, milhares de pessoas foram beneficiadas com o método. A média é de 15 a 20 novos pacientes por mês, que são acompanhados regularmente. “O HSL tem tradição na área. Somos o hospital que mais realiza aplicações por convênios”, salienta o fisiatra Carlos Issa Musse, chefe do Serviço. Um dos diferenciais é o uso de técnicas modernas, como eletroestimulação e localização por ecografia, as quais propiciam a maior precisão ao injetar a substância. A toxina é a


mais potente que existe. É produzida pela bactéria Clostridium botulinum, causadora do botulismo, doença rara que provoca a paralisia dos mús­ culos. “É como se fosse um veneno convertido para fins terapêuticos”, explica a fisiatra Patrícia Zambone. Ao ser aplicada diretamente no músculo, bloqueia a informação vinda do nervo, possibilitando a diminuição da rigidez ou o hiperfuncionamento do músculo. O uso terapêutico da substância não ocorre em grande escala. Segundo as perspectivas médicas, a técnica deve ter difusão moderada por demandar conhecimentos muito específicos. “A identificação da necessidade do uso é complexa, pois os quadros clínicos são muito variados”, destaca Musse. Portanto, faz-se necessária a propagação dos benefícios do método. “O grande trabalho que realizamos é a difusão no meio clínico do que a técnica pode oferecer ao paciente. Os residentes da Fisiatria são treinados para isso”, acrescenta. O fisiatra ministra regular-

mente programas de treinamento em toda a América Latina e trabalhou junto ao Ministério da Saúde, em 2002, na elaboração do Projeto Diretriz, responsável pela liberação do uso da toxina no Sistema Único de Saúde (SUS).

MÚLTIPLOS USOS A toxina botulínica atua na conse­ quên­cia e não na causa das doenças. A principal utilização é no tratamento de espasticidade, distúrbio de movimento caracterizado pela rigidez ou falta de controle sobre o músculo. As causas são diversas, podendo decorrer de acidente vascular cerebral (AVC), esclerose múltipla e paralisia cerebral, entre outros fatores. A indicação na área neurológica estende-se ainda a distúrbios do movimento, distonias, que são contrações involuntárias de membros como mão, pescoço e boca; mal de Parkinson e esclerose lateral amiotrófica. A substância tam-

bém pode ser injetada nas glândulas salivares, em pessoas com dificuldade de deglutição causada pela salivação excessiva, a sialorreia. Recentemente, a toxina vem sendo adotada no tratamento de enxaqueca crônica; entretanto, só é indicada em condições que não respondem a outros métodos. Múltiplas especialidades são favorecidas pela técnica. A dermatologia a adota em casos de sudorese excessiva; a oftalmologia, na correção do estrabismo; a proctologia, no tratamento de fissuras anais; a urologia, para atenuar incontinência urinária; e a gastroenterologia, em pacientes com esfíncter entre esôfago e estômago. A fisiatria atende em grande escala a pacientes com sequelas de doenças neurológicas. O que difere é a abordagem, focada na reabilitação. “Estão sendo descobertas novas aplicações, mas o uso terapêutico é algo consolidado”, esclarece o neurologista Jefferson Becker, do Serviço de Neurologia.

DEDICAÇÃO DO PACIENTE AJUDA NA RECUPERAÇÃO O benefício da toxina botulínica depende do objetivo a ser atingido. “Em um paciente neurológico, a substância promove o relaxamento muscular e o fisioterapeuta consegue trabalhar melhor, treinando algumas atividades com os lados que sofreram sequelas de AVC, por exemplo”, explica a fisiatra Patrícia Zambone. É o caso da paciente Luciana da Silva Souza, que teve paresia (limitação do movimento) dos membros do lado direito após um AVC, há três anos. Ela recebe as aplicações no ambulatório de fisiatria por meio do SUS. A toxina é injetada em músculos do braço e da perna e Luciana relata que, com o tratamento, voltou a caminhar. “Os músculos estavam rígidos, o que dificultava a fisioterapia. Para mim, foi um grande avan-

ço. Não preciso mais de cadeira de rodas nem de alguém para me carregar”, afirma. O ganho está relacionado à disciplina na realização de fisioterapia duas vezes por semana e de exercícios diariamente. A partir da avaliação do especialista, são identificados os principais músculos com atividade comprometida ou com distúrbio de movimentação. Com a aplicação da toxina nas áreas afetadas, inicia-se um processo de relaxamento muscular, que normalmente não ultrapassa sete dias. A melhora clínica ocorre a partir de três semanas. A aplicação é rápida e sem necessidade de anestesia ou sedação. Após o procedimento, o paciente fica 30 minutos em observação e recebe alta. A ação é apenas local e os efeitos colate-

rais são simples, a maioria deles relacionados à injeção, como hematoma ou dor na região. Não há contraindicação absoluta, como explica o neurologista Jefferson Becker: “Há casos relativos, como em gestantes ou pessoas com problema de coagulação. Dá para aplicar, mas recomenda-se que aguardem para realizar esse tratamento”. O fisiatra Carlos Issa Musse caracteriza como surpreendentes os progressos apresentados pelos pacientes que aderem ao método e seguem os programas de exercícios de reabilitação regularmente. A continuidade do tratamento é fundamental, seguindo as indicações médicas sobre o período entre as aplicações, o qual pode variar de três a nove meses.

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ESPECIALIDADE

Desvendando o A

cérebro

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Equipe do Serviço reúne-se semanalmente para a discussão de casos clínicos

FOTO: BRUNO TODESCHINI

Neurologia é a especialidade responsável pelo diagnóstico e tratamento de doenças do cérebro, da medula espinhal e dos nervos periféricos, entre outras. Para entender a dimensão, uma em cada cem pessoas tem epilepsia e as doenças cerebrovasculares, conhecidas como ‘derrame’, são a segunda causa de morte no Brasil, depois do câncer. O Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) conta com uma equipe de ponta para atender essa grande parcela da população. Formado em 10 de dezembro de 1974, o Serviço de Neurologia é integrado por 32 médicos, entre neurologistas, residentes e cursistas. O trabalho tornou-se referência nacional e internacional sob a chefia do Prof. Jaderson Costa da Costa e é atualmente comandado pelo Prof. André Palmini. O Serviço presta atendimento ambulatorial privado e ao Sistema Único de Saúde (SUS) em todas as principais áreas da especialidade. São elas as doenças do movimento, como o Parkinson; as que alteram a memória, a exemplo do Alzheimer; a cefaleia; os problemas dos membros e músculos (neuromusculares); a neuropsicologia; e a neuropediatria. A equipe possui profissionais reconhecidos pelo trabalho com problemas complexos, que demandam a integração entre atendimento ambulatorial e de emergência, investigação e tratamento hospitalar. Estão nesse grupo de patologias as epilepsias, a esclerose múltipla e as doenças cerebrovasculares. “O Serviço de Neurologia tem a responsabilidade de atender, de forma humana e inovadora, pessoas que sofrem de problemas neurológicos. Ao longo dos anos, posicionou-se como um dos melhores do Brasil e nosso objetivo é manter um padrão de atendimento, educação e pesquisa compatível com essa perspectiva, em um momento muito delicado para os sistemas de saúde no Brasil”, ressalta Palmini.

SERVIÇO DE NEUROLOGIA D E S E N V O LV E T R A B A L H O S D E P O N TA E M DIVERSAS ÁREAS

SUBDIVISÕES • Programa de Epilepsias Graves: Compõe o Programa de Cirurgia de Epilepsia do HSL, em parceria com o Serviço de Neurocirurgia. Criado em 1992, foi pioneiro na região Sul e é referência no Brasil e na América Latina, tendo investigado cerca de 4 mil pessoas e operado em torno de 2 mil. O Centro de Diagnóstico por Imagem, o Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul e o Serviço de Medicina Nuclear são parceiros. • Programa de Doenças Cerebrovasculares: Reconhecido nacionalmente, é referência no atendimento completo de vítimas de acidente vascular cerebral para o Ministério da Saúde, sendo um dos centros com maior número de pacientes assistidos no País. Oferece assistência especializada de emergência e identifica indivíduos que precisam do tratamento agudo para reestabelecimento do fluxo sanguíneo cerebral com o uso de trombolíticos. • Programa de Doenças Neuroimunológicas/Esclerose Múltipla: Diferencia-se no diagnóstico e tratamento de doenças imunológicas do sistema nervoso central, como a esclerose múltipla. Dispõe de atendimento ambulatorial, investigação aprofundada de neuroimagem e sala de infusão de fármacos, que atuam sobre o sistema imunológico. • Programa de Neurologia da Cognição e Demências: Tem-se aprimorado no diagnóstico precoce das doenças degenerativas do cérebro, que causam perda de memória, problemas de fala e comprometem a independência das pessoas. As queixas são detidamente avaliadas e geram projetos de mudanças de hábitos de vida e tratamentos que visam reduzir o risco ou retardar a evolução de patologias, como a doença de Alzheimer.


BASTIDORES

Gente que

cuida

EQUIPE DO SERVIÇO DE ENFERMAGEM P R E S TA A S S I S T Ê N C I A D I R E TA A O S PA C I E N T E S

O

bonito é poder salvar as pessoas, ver a recuperação e ser agradecido por isso”, revela. Ela aponta características imprescindíveis aos profissionais da área. Ser uma pessoa afetiva, responsável, flexível, pró-ativa, tolerante, ter sensibilidade, colocar-se no lugar do outro, atender a todos igualmente, saber ouvir e manter sigilo estão entre os atributos destacados. Por lidar diretamente com vidas e com situações delicadas, a questão emotiva é muito forte. “O profissional da assistência é quem vive 24h com o paciente. É quem se emociona, se identifica, e as perdas são muito dolorosas”, afirma Graziela. Na avaliação da coordenadora da Emergência, enfermeira Rossana Aita Bruno, a enfermagem é um ato de amor e coragem. “Para mim, é gratificante, porque tenho certeza do que escolhi. É muito bom trabalhar com o que se gosta.”

EDUCAÇÃO PERMANENTE O setor de Desenvolvimento de Pessoas, voltado à educação permanente de colaboradores admitidos e que já estão atuando, auxilia na realização de capacitações da enfermagem. Elas são divididas entre transversais, realizadas com toda a equipe;

FOTOS: CAMILA CUNHA

profissional de enfermagem é indispensável no contexto hospitalar; ele tem a responsabilidade de prestar assistência de forma digna e segura. O Serviço de Enfermagem do Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) conta com o maior contingente de funcionários dentre as unidades da Instituição: são 1.250 profissionais, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, com a responsabilidade de cuidar, em média, de 2,2 mil pacientes internados ao mês, além dos atendimentos ambulatoriais. Em 2014, foram mais de 26 mil internações. O enfermeiro tem como uma de suas competências coordenar o cuidado, planejando a assistência diária e provendo os recursos necessários, de acordo com as demandas de cada paciente. Acompanha e desenvolve as equipes, e responde pelo funcionamento da unidade. Os técnicos e auxiliares de enfermagem executam tarefas como administração de medicamentos, à exceção dos quimioterápicos, e transporte do paciente; realizam curativos de pequena complexidade e zelam pela higiene e conforto dos internados. O Serviço conta com comissões, que permitem a constante atualização e pesquisa sobre temas de relevância para a prestação da assistência baseada em modelos científicos. Dentre elas, destacam-se a Comissão de Estudos da Sistematização da Assistência de Enfermagem (Cesae), o Grupo Interdisciplinar de Cuidados Cutâneos (Gicc) e o Grupo de Cateteres (Gcat). De acordo com a supervisora do Serviço de Enfermagem, Graziela Hax, a profissão demanda responsabilidade e doação, mas é gratificante. “O

Graziela (terceira à direita) junto à parte de sua equipe de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem

Profissionais

promovem o e específicas, para cuidado e o unidades e grupos bem-estar dos individuais. Quanpacientes do concluí­d as, os resultados são avaliados por quatro vertentes: reação, aprendizado, comportamento e resultado. Além disso, são planejadas ações internas, denominadas de Ciclo de Palestras; e participação nas capacitações institucionais e treinamentos externos, como eventos ou cursos específicos. A enfermeira do Desenvolvimento de Pessoas, Fabiana Pisciottani, também atua como facilitadora em capacitações e em grande parte do programa introdutório para os admitidos.

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C U R TA S ENCONTRO MAYO CLINIC – PUCRS Especialistas da Mayo Clinic, instituição líder mundial em assistência médica sem fins lucrativos, reuniram-se, nos dias 26 e 27 de junho, no Hospital São Lucas da PUCRS (HSL) para a 6ª edição do Encontro de Nefrologia Mayo Clinic – PUCRS. O evento trouxe avanços da área, atualização de conhecimentos e apresentação de aspectos clínicos em doenças renais e transplante de rim, por um dos grupos que mais transplanta na

América. As atividades ocorreram no Anfiteatro Irmão José Otão do HSL. Foram quinze palestras e apresentação de casos para discussão. Entre os convidados estava o professor Fernando Fervenza, ex-aluno da PUCRS e, atualmente, membro do Departamento de Nefrologia da Mayo Clinic, destacando-se internacionalmente no tratamento de doenças glomerulares e vasculites sistêmicas. O encontro foi promovido pela Faculdade de Medicina da PUCRS, Instituto de Pesquisas Biomédicas e Serviço de Nefrologia do HSL.

TECNOLOGIA DE PONTA EM CARDIOLOGIA O Centro de Diagnóstico e Terapia Intervencionista (CDTI) está colaborando com a empresa Siemens no desenvolvimento de tecnologia para diagnóstico e tratamento de doenças cardíacas. O centro, único no País a colaborar com a empresa para o desenvolvimento de tecnologia de imagem em Cardiologia, participa do projeto de pesquisa, avaliando e aprimorando um software para o processamento de imagens utilizadas no implante de válvula aórtica no coração. A partir de uma ortografia, feita em duas dimensões, o programa gera uma imagem tridimensional, permitindo que cada ponto anatômico seja visualizado, e projeta, com precisão até então indisponível, o tipo de válvula que tem que ser implantada. “Hoje, para chegar a uma medida aproximada, é preciso utilizar múltiplos exames de diferentes modalidades. O novo sistema permitirá uma avaliação mais completa do paciente, a partir da obtenção de múltiplas informações em um único exame”, explica Paulo Caramori, chefe do CDTI. Profissionais da Siemens estiveram no HSL para acompanhar os procedimentos realizados no Centro, o que permitiu comparar os parâmetros do novo software com os calculados pelo método convencional. O novo programa deve estar disponível comercialmente em um ano.

CHEFE DE SERVIÇO É HOMENAGEADO Renato Machado Fiori, chefe da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Neonatal, foi homenageado com o Prêmio Destaque Unitv 2014 pelo pioneirismo e contribuição ao desenvolvimento da área da Neonatologia no Brasil. O médico está à frente da unidade desde a inauguração, em 1º de fevereiro de 1978. A entrega da distinção ocorreu no HSL, com a participação do reitor da PUCRS, Ir. Joaquim Clotet, da família de Fiori e de colegas da Instituição. Durante a cerimônia, destacou-se o relevante papel do médico e professor na formação de pediatras e neonatologistas e sua contribuição na concepção das UTIs neonatais do HSL e de outros hospitais. Clotet agradeceu a trajetória de Fiori em nome das crianças e suas famílias, do Hospital, dos alunos e irmãos maristas.

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BICENTENÁRIO MARISTA Em janeiro de 2017, celebram-se os 200 anos de história do Instituto Marista no mundo. A caminhada rumo ao bicentenário é marcada por três momentos: Montagne (outubro de 2014 a julho de 2015), Fourvière (julho de 2015 a julho de 2016) e La Valla (agosto de 2016 a agosto de 2017). O início desse projeto em todo o mundo ocorreu em 28 de outubro de 2014, aniversário do encontro de São Marcelino Champagnat com o jovem João Batista Montagne. O Ano Montagne retoma a história do acontecimento que desencadeou a fundação do Instituto e relembra os jovens que passaram pela missão marista. O Ano Fourvière relembra a promessa feita por Marcelino Champagnat de fundar a Sociedade de Maria e o Ano La Valla celebra a dimensão mística da vida.

FOTO: BRUNO TODESCHINI

Fiori (segundo à esquerda) recebe prêmio das mãos do Reitor da PUCRS, Joaquim Clotet


CASO É PUBLICADO EM REVISTA INTERNACIONAL Situação incomum atendida no Hospital São Lucas da PUCRS foi publicada na capa de maio da mais importante publicação de cirurgia vascular dos Estados Unidos, o Journal of Vascular Surgery. Com o título High-output heart failure resulting from a traumatic arteriovenous fistula, o trabalho teve a participação dos médicos Marco Antônio Goldani, Ricardo Piantá, Aline Heck e Vanessa Trindade. O texto refere-se a um paciente de 58 anos que sofria de insuficiência cardíaca. A equipe

ATUAÇÃO NACIONAL O cirurgião Marcelo Toneto, chefe do Serviço de Cirurgia Geral e do Aparelho Digestivo, foi nomeado presidente do Capítulo Porto Alegre do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva para o biênio 2015-2016. A gastroenterologista Marta Brenner Machado assumiu a presidência da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD), para o biênio 2015-2017. O diretor do Centro da Obesidade e Síndrome Metabólica do HSL, cirurgião Cláudio Corá Mottin, foi eleito vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), no biênio 2015-2016.

de investigação, integrada pelos Serviços de Cardiologia, Cirurgia Vascular e Tomografia e Ressonância Magnética, identificou que um tiro recebido na perna esquerda há mais de 40 anos causara uma comunicação anormal entre a artéria e a veia, gerando fluxo sanguíneo entre elas ao nível do joelho. O coração precisava trabalhar mais do que o normal, gerando a insuficiência cardíaca. O raro caso foi resolvido com uma cirurgia para desfazer a ligação anormal.

SIMPÓSIO DE GINECOLOGIA, OBSTETRÍCIA E MASTOLOGIA De 2 a 4 de julho, ocorreu o 7º Simpósio Internacional de Ginecologia, Obstetrícia e Mastologia da PUCRS. Com o tema Revendo conceitos, avançando no diagnóstico e projetando o tratamento ideal, o evento contou com especialistas nacionais e internacionais, como Walter Prendiville, presidente da International Federation for Cervical Pathology and Colposcopy; Emanuel Trabuco e Sandra Hermann, professores assistentes da Mayo Clinic; e José de San Martín, da Universidade de Buenos Aires. A atividade ocorreu em Gramado (RS) e, em paralelo, realizaram-se o 7º Encontro dos Ex-Residentes de Ginecologia e Obstetrícia da PUCRS e o Curso da Escola Brasileira de Mastologia.

O Chefe do Serviço de Pneumologia, José Miguel Chatkin, representa o Brasil em projeto da European Respiratory Society (ERS). Ele integra o grupo que estuda o tabagismo como problema de saúde pública na Espanha, em Portugal e nos países da América Latina. A exposição dos resultados ocorrerá no ERS International Congress, re-

alizado em Amsterdã (Holanda) no mês de outubro de 2015. Chatkin será responsável pela apresentação final relativa aos países latino-americanos. No projeto, os pneumologistas têm seis meses para criar uma proposta de trabalho, que será repassada aos países envolvidos. O objetivo é ajudar a diminuir o número de fumantes, que, atualmente, cor-

Chatkin apresentará os resultados da pesquisa na América Latina

FOTO: GILSON OLIVEIRA

PROJETO MUNDIAL SOBRE TABAGISMO

responde a 17% da população brasileira. Na primeira fase, a iniciativa conta com a participação de integrantes dos países ibéricos, Brasil, México, Argentina e Colômbia.

CRIADO O SERVIÇO DE CIRURGIA BARIÁTRICA Estabelecido em janeiro de 2015, o Serviço de Cirurgia Bariátrica e Síndrome Metabólica está sob a chefia do cirurgião Cláudio Corá Mottin. O Serviço representa uma nova etapa do projeto iniciado em 2000, com a criação do Centro da Obesidade e Síndrome Metabólica

(COM), cuja missão é o tratamento de pacientes obesos nos níveis de assistência, ensino e pesquisa. Uma das novidades é a oferta da residência de dois anos. A abertura do edital está prevista para 2016. A equipe do COM, também coordenada por Mottin, realiza cerca de

dez cirurgias por semana e o objetivo é aumentar essa marca em 50% neste ano. No âmbito da pesquisa e do ensino, o Centro destaca-se com a publicação de artigos anualmente, além de ser, desde 2008, o coordenador de uma pesquisa do Ministério da Saúde.

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TRAJETÓRIA

Pioneiro por vocação A

história do neonatologista Renato Machado Fiori, 77 anos, é marcada pelo pioneirismo. Interessado em cuidar de recém-nascidos, buscou no exterior a formação necessária para criar, em 1978, a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Neonatal do Hospital São Lucas da PUCRS (HSL), uma das primeiras do País, e a do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, em 1980. Na Faculdade de Medicina da PUCRS, criou a pós-graduação em Pediatria, vindo a coordená-la por 15 anos, e a residência em Neonatologia. O gaúcho de Passo Fundo formou-se em Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1962, seguindo o exemplo do médico Sabino Arias, da sua cidade natal. Para Fiori, as pessoas se inspiram em modelos. Na Faculdade, o gosto pela Pediatria surgiu ao acompanhar o trabalho do pediatra João Rubião Hoefel. “Chamava-me a atenção nele, que era uma pessoa estudiosa, a maneira carinhosa com que atendia aos pacientes e a sua intensa atenção aos alunos”, conta. Em 1966, passou a coordenar a Unidade de Cuidados Especiais de Recém-Nascidos da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e consolidou seu interesse pela área. Como não havia UTI neonatal na época, foi para os Estados Unidos como pesquisador no Children´s Hospital Medical Center, da Universidade de Harvard (Boston). Lá tomou contato com o cuidado intensivo, que era o melhor disponível, com incubadoras e monitorização de frequência cardíaca. Foi quando surgiram os respiradores artificiais, posteriormente doados ao HSL. A Instituição gaúcha foi a primeira do Estado a usar respirador neonatal e, na década de 1990, a utilizar surfactante pulmonar, medicação que facilita a respiração em prematuros. Fiori lembra-se de receber bebês vindos de todos os lugares do País, numa época em que havia poucas UTIs neonatais e o transporte e a comunicação não eram facilitados como hoje. Entre as histórias, recorda a de um paciente que, na década de 1980, foi buscado de avião por um residente na então pequena localidade de Sorriso, situada a 500 quilômetros de Cuiabá (MT) e que não constava no mapa. Trazida ao HSL, a criança sobreviveu. A unidade tornou-se referência também para profissionais do Brasil e da América Latina que queriam se aperfeiçoar. A UTI Neonatal do HSL atendeu mais de 30 mil bebês em 37 anos e tem a mais baixa mortalidade em prematuros imaturos entre os hospitais universitários do

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País, segundo a Rede Brasileira de Pesquisas Neo­natais. Nesse perío­d o, os avanços foram muitos. “Hoje não é só salvar vidas, mas salvar cérebros, minimizando o impacto do tratamento intensivo no órgão em desenvolvimento. Isso pode ter um impacto para a vida inteira da criança”, ressalta o médico.

CARREIRA DE R E N AT O M A C H A D O FIORI ESTÁ E S T R E I TA M E N T E RELACIONADA À AT U A Ç Ã O N O H O S P I TA L E N A FACULDADE DE MEDICINA FOTO: RAMON FERNANDES

O PROFESSOR A docência sempre fez parte da atuação profissional e foi exerFiori iniciou sua cida por 52 anos. Após caminhada no a formatura, começou a lecionar na UFRHSL em 1977 GS, aposentando-se em 1992. Dividia-se entre a instituição federal, a PUCRS e o HSL. Iniciou as atividades no Hospital em 1977, a convite do cirurgião José João Menezes Martins, com o objetivo de organizar a UTI Neonatal. Na Faculdade de Medicina, dedicou-se à disciplina de neonatologia. Atualmente, além de administrar o serviço, participa de rounds da unidade e segue atuando como pesquisador. É coautor do livro Prática Pediátrica de Urgência, lançado em 1974, junto com José Luiz Bohrer Pitrez e Nilo Milano Galvão. Reeditado por três vezes, foi uma referência para a área. Como mestre, defende que, mais importante que os conselhos, são as atitudes do médico e do professor. “O que marca é o exemplo, a maneira respeitosa e carinhosa como o médico trata os pacientes na frente dos alunos.” Entre as suas satisfações está a de encontrar pessoas e ouvir que foram seus pacientes na UTI Neonatal. Há plantonistas da unidade que foram atendidos nela. Outra alegria é contar com dois filhos neonatologistas – Humberto e Alexandre. Casado há 53 anos com Eneida, tem um terceiro filho, Renato, que é arquiteto, e quatro netos.


CRÔNICA

História

centenária E D U A R D O PA G L I O L I , n e u r o c i r u r g i ã o

N

o ano de 1915, um jovem No início da década de 1960, balconista de farmácia, com acompanhei uma visita que o Reitor o desejo de ser médico, sobe da PUCRS, Ir. José Otão, faria ao a Rua General Câmara, atravessa a Reitor da UFRGS, Elyseu Paglioli, nas Praça da Matriz e vai procurar, nos porões Eduardo da Catedral Metroseguiu a carreira politana, o fundador do pai (no da Província Marista retrato ao no Brasil Meridional, fundo) e legou a Ir. Weibert. Sem os profissão recursos financeiros ao filho e necessários e sem ao neto o tempo diurno disponível, entrega a Ir. Weibert um texto de sua autoria. “Um jovem que, na adolescência de sua vida, traça um programa para o longo caminho do futuro e assume perante Deus e perante si mesmo o compromisso formal de que não se afastará do rumo estabelecido, só não chegará ao fim da jornada, só não alcançará esse ideal se morrer no caminho”, disse Ir. Weibert. Ele compreende a decisão daquele jovem e lhe diz: “Venha jantar comigo, depois vá lavar os pratos e então vamos estudar até a meia noite”. No ano de 1923, aquele jovem tornava-se médico e, em poucos anos, no grande cirurgião de sua dependências da Santa Casa. Em época, no primeiro presidente da meio à animada conversa, meu pai Associação dos Ex-Alunos Maristas pergunta: “Mas uma Universidade e, mais tarde, no fundador da sem Faculdade neurocirurgia brasileira. Em de Medicina, Ir. “Aos 80 anos, 1951, seria nomeado prefeito Otão?”. Ao que de Porto Alegre pelo presidente o Reitor Ir. Otão com a graça Getúlio Vargas e, em 1952, seresponde: “A de Deus, ainda ria eleito, pelo Conselho UniverCongregação posso desfrutar sitário da Universidade Federal dos Irmãos Mado Rio Grande do Sul (UFRGS), ristas não tem o trabalho junto reitor da Universidade. Por fim, experiência com ao meu neto em 1963, tornar-se-ia ministro a área da saúde Rafael no bloco da Saúde do presidente João no mundo”. Meu Goulart. pai, entusiasmacirúrgico.” FOTO: BRUNO TODESCHINI

do com a construção do Hospital de Clínicas, estimulava o espírito inquieto do Ir. Otão. De repente, meu pai vira-se para mim e diz: “Com os recursos que coloco um tijolo na UFRGS, o Ir. Otão coloca dez na PUCRS”. Essas palavras proféticas haveriam de se confirmar nos anos vindouros na Gestão Marista na Universidade. Mais tarde, Ir. Otão convidou-me para uma reunião na Reitoria. Lá estavam os doutores Manoel Albuquerque, Antônio Spolidoro e Osvaldo Ludwig. Falamos longamente e eu apreciava o Campus da PUCRS crescendo ao redor a olhos vistos, e então pensava no milagre dos tijolos do Ir. Otão. Na sequência dos acontecimentos, Ir. Otão convida-me para assumir a chefia do Serviço de Neurocirurgia e da disciplina, o que implicava abandonar o meu “lar paterno” – o Serviço de Neurocirurgia de meu pai na Santa Casa. Ao completar 70 anos, sugeri renovação no nosso serviço e na disciplina, indicando o Prof. Eliseu Paglioli Neto para chefiar o serviço e o Prof. Ney Azambuja para a disciplina. Era meu interesse mantê-los unidos, mas o grande Reitor Ir. Norberto Rauch perguntou: “Por que dividir o serviço e a disciplina, Eduardo?”. Então brinquei: “O senhor acha que um só me substitui?” Rimos alegremente e assim ficou até hoje. Há dez anos entreguei as chefias, mas não a “cartucheira”. Aos 80 anos, com a graça de Deus, ainda posso desfrutar o trabalho junto ao meu neto Rafael no bloco cirúrgico, neste ambiente de admiração e fraternidade, que me une ao corpo clínico e ao corpo docente e discente da nossa Instituição.

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PUCRS Saúde nº 25 - Julho de 2015  

Revista do Hospital São Lucas da PUCRS - Porto Alegre/RS

PUCRS Saúde nº 25 - Julho de 2015  

Revista do Hospital São Lucas da PUCRS - Porto Alegre/RS

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