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POR ALGUM TEMPO...CALADOS (variação do tema “Missa do galo” de M. de Assis)

Magra, seios com uma deusa de pintura, cabelos longos, desalinhados, como se tivesse levantado naquele momento, surgiu Conceição, na penumbra do corredor daquela casa. Vestia um roupão acetinado, escondendo a leve camisola, com uma das mãos levantava a barra, para que não se arrastasse, e, com a outra fechava a cintura. Seu andar era lerdo, dando um ligeiro maneio nos quadris. E os babados, contornando o pescoço e descendo em toda veste, fizeram-me sorrir fascinado. Suas conversas tão tranqüilas, sem consistência, efêmera nas frases, longe estavam do tom objetivo, que demonstrava no decorrer do dia. Com o braço apoiado na mesa, a manga escorregou até o cotovelo, notei o fino de seu pulso e alvura de sua pele. Como era bela, sua figura parecia ocupar todo o espaço daquela saleta. Abria a boca suavemente ao fazer alguma observação sem importância, umedecendo os lábios com a ponta da língua. Nunca estivera com uma senhora assim na intimidade, apenas com minha mãe, cujo olhar não se assemelhava a esse que ora avançava e, de repente, se retraía. Seus olhos me pareciam castanhos e agora ficaram pretos, profundamente pretos. Sem dúvida, estava extasiado, atordoado com a descoberta. Quis afastar-me, gritar, mas a hora era de calar e ficamos por algum tempo inteiramente calados. Mais uns minutos e o vizinho viria bater à janela, chamandome para a Missa do Galo. Ficamos perdidos um para o outro... dentro de alguns minutos seria o nunca mais... nunca mais aquela sala, nunca mais aquela noite. A voz do amigo, “vamos, Nogueira, a missa vai começar”, me fez voltar à realidade. Conceição fechou o livro, trancou a porta, e eu afastei-me, caminhando, rapidamente, rumo à Igreja, com meu companheiro. Olhando para trás, observei que o lampião do casario se apagara. E tudo ficou perdido nos meus dezessete anos.

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Livro de Maria Beatriz Sandoval Camargo