Page 55

55

SÁ SEBASTIANA Percorro, com as lembranças e as saudades, a casa de meus avós, encravada nas serras mineiras, onde passei grande parte de minha infância. Casa térrea, comprida, alpendre de entrada, repleto de samambaias de metro, porta de vaivém, sempre aberta, convidando a todos a entrarem, sala de visita, duas salas de jantar (uma,reservada só para as visitas, outra, para as refeições do diaa-dia), um corredor estreito e muito longo, cheio de quartos (do casal e dos filhos), dois banheiros enormes e, finalmente, a cozinha, que dava para o jardim repleto de roseiras e para o quintal cheio de jabuticabeiras, cachorros, gatos, galinhas e até um bode. Para completar esse lugar tão querido, no fundo do quintal, deslizava o rio, que atravessava toda a cidade. Que delícia! Volto à cozinha, lá está ela, Sá Sebastiana, com suas ancas largas, sua saia comprida e rodada, seus alvos aventais e o lencinho branco amarrado à cabeça. Era de cor negra, retinta, com seus dentes alvos, nariz muito bem feito. Seu colo aconchegante, quantas vezes me acarinhou...E, balançando as cadeiras, mexia enormes tachos, panelas de ferro e de pedra, colocando lenha no fogão, sempre atenta aos chamados e diversos serviços. “Que cheirinho gostoso, posso provar um pedacinho?” “Mariquinha das chinelas, corra já para dentro, se provar um bocadinho, não almoça um tiquinho.” “Tá bem, tá bem....então me carregue no colo e conte a história do dragão que gostava da princesa e, depois, quero tomar o leitinho de espuma que faz bigode...” Tudo tão longe e tão perto do coração... Vira, vira, vira mundo Rode, rode pro passado Traga a infância querida Desfaça a vida sofrida...

Folhas de Outono - http://houdelier.com  

Livro de Maria Beatriz Sandoval Camargo

Advertisement