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POEIRA DE PANOS Distraidamente, desço pela Rua Augusta, rumo ao apartamento de mamãe. Observo as pessoas: umas andando apressadamente, outras, entrando em lojas, butiques, lanchonetes, livrarias... Sem perceber, talvez, acompanhando algum transeunte, vejome dentro de uma galeria. Vitrines de butiques, muito bem decoradas, atraem minha admiração. Oh! um brechó. Nossa que vestes mais lindas! De quem seriam? De modelos, de mulheres da sociedade? Que deslumbre aquele dependurado num cantinho: o tecido parece ser uma organza, cor-de-rosa, todo bordada com pedrarias, semelhante a pequenas pérolas, longo, decotado. A dona seria uma princesa? Paro e, ao admirá-lo, vêm , nas lembranças, os vestidos usados em certos momentos de minha vida: o da primeiracomunhão, cheio de preguinhas,enfeitando um tecido muito leve; o dos quinze anos, com babados de organdi, todo bordado; o da formatura da Faculdade, um rosa clarinho, e, o mais bonito, o do casamento, de shantung, longo, tecido de sonhos... O que restam deles? Apenas fotos, fixando estaticamente o que foi, pedaços de panos desfeitos pelo ar. Alguém se aproxima, perguntando-me delicadamente: - Senhora, deseja comprar alguma roupa? Faz bastante tempo que está parada diante desta peça, posso ajudá-la? Viro-me, vagarosamente, para a vendedora. Meus olhos enchem-se de lágrimas e, voltando à realidade, respondo-lhe baixinho: - O que desejo não existe mais... Segurando firme minha bolsa, continuo meu caminho.

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Livro de Maria Beatriz Sandoval Camargo

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