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AO CAIR DA TARDE Toca o sino da matriz, hora da Ave-Maria. Na cidadezinha mineira, todos já se recolhem, buscando o aconchego do lar, após um dia de trabalho. Estação do frio. Nada como uma sopa fumegante para aquecer o corpo e acarinhar a alma. Joana prepara o seu jantar, tentando esquecer a escola, os alunos impossíveis. Distrai os pensamentos, relembrando de Marcos, tão distante no momento, melhorando sua carreira com bolsa de estudo no exterior. Já dois anos se passaram. Tanta coisa aconteceu...Perda dos pais, ida dos irmãos para a capital e sua luta sem fim como professora, seu ganha-pão. Sente-se só. Procura distrair-se com as amigas: ora um bailinho, ora convite para churrascos em chácaras, passeios e excursões pela redondeza. Mergulhada em lembranças, esquece da hora e até dos programas prediletos da televisão. Um vazio percorre seu interior. Se, ao menos, tivesse os carinhos de Marcos? Prometera-lhe que se casariam assim que voltasse. Mas as cartas pouco chegavam, os telefonemas escassearam, a distância mostrava que este relacionamento estava findando. De repente, escuta o som de um violão, entoando uma modinha encantadora. Era alguém que lhe fazia uma serenata. Vagarosamente, entreabre a veneziana. Neste momento, percebe que era ele. Voltara. E a lua morta torna-se prateada e a rua torta de saudades e espera enfeita-se de melodias e abre a porta do coração, valsando em longos abraços e carícias sem fim... “Canta, esquece a dor Cubra-se só de calor A vida é feita de cor Para quem tem um amor...”

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Livro de Maria Beatriz Sandoval Camargo

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