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opinião

terça-feira 13.3.2012

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Helder Fernando

à flor da pele

Domésticas, rendas altas e a Lorcha I A notícia teve o condão de agradar a uns, desagradando a outros. Aí está, segundo a notícia, o regresso das empregadas domésticas chinesas a Macau. Há cerca de duas décadas e meia, quando um governador português, de espírito humanista, de nome Pinto Machado, deu o primeiro passo no sentido de todos os cidadãos terem direito à sua identidade, algumas coisas foram sendo alteradas, entre elas a exploração das empregadas domésticas chinesas. na generalidade, não tinham documentos, não tinham horário, não tinham folgas, não tinham, legalmente, quaisquer direitos, ponto. As autoridades faziam-se cegas. De vez em quando, naquele tipo de operações para mandar poeira para os olhos, devolviam para o outro lado das Portas do Cerco, as pobres empregadas cujos patrões não eram gente influente, de mistura com outras senhoras de diferentes portes e comportamentos. Muitas histórias se contam e recontam a propósito dessas idas e vindas de pessoas que apenas pretendiam sobreviver. Era no tempo em que, de rotina, geração após geração, se nadava, e às vezes morria, fugindo do modo de vida continental, optando pelo refúgio oferecido sob a Bandeira Portuguesa. Macau era sempre o porto de abrigo, viessem de onde viessem. Que os filhos, netos e bisnetos desses sacrificados e sacrificadas, e outros que, tragicamente, ficaram pelo caminho, não o esqueçam jamais quando pensarem ou falarem da presença portuguesa nesta terra. Daqui, apesar dos pesares, ninguém fugiu da fome, dos maus tratos, da humilhação. Ao contrário do que, à beira de 1999, disse um dia um velho senhor todo poderoso na época, mas tendo sido apaparicado toda a vida pela governação portuguesa, a mesma que lhe permitiu ser multimilionário - como a tantos outros - e que lhe colou no casaco, repetidamente, condecorações e outras honrarias. Nunca o mal agradecido recusou que algum governador, ministro ou mesmo Presidente da República Portuguesa o agraciasse, pelo contrário desfazia-se sempre em vénias e sorrisinhos - bem amarelos, pelos vistos. A sua frase cobarde “acabou a minha humilhação”, fica na história do cinismo mais desavergonhado. É bom que cidadãos em geral, comunicação social também em geral, e governantes na generalidade, conservem a memória. Caso contrário, como às vezes quase parece, dá-se a ilusão de Macau ter começado a ter vida de cada vez que desembarca um para se fazer à vida. II Até na chamada “China continental” os protestos justos obtêm resultado. Agora foi a vitória dos cidadãos de Wukan, localidade de menos de 20 mil pessoas, na província vizinha de Guangdong. Quem mandava

Há mais de 12 anos caída desgraçada, a Lorcha Macau jaz algures em Portugal, aparentemente sem ninguém a querer. É mais um triste exemplo da indiferença dos decisores perante aquilo que não lhes oferece lucros ou loiros naquilo há 42 anos (ainda mais do que José Eduardo dos Santos em Angola, que está no poder há 37 e como Presidente há quase 33), era um tal Lin Zuluan que, aproveitando-se do facto de ser o chefe do partido naquela localidade, andava, segundo o povo, a apropriar-se de terras para vendê-las a especuladores imobiliários. Pois bem, o povo protestou, insistiu, revoltou-se, até que fez eleições para os representantes da aldeia e expulsou das negociatas os quadros que andavam há anos regalando-se ilegalmente. Como o sistema político lá vai permitindo votações locais em alguns casos, o povo ganhou relativamente. A propósito de explorações imobiliárias, recorde-se a manchete deste jornal na passada segunda-feira: “Mãos ao ar, isto é uma renda”. É verdade, arrendar habitação em Macau, custa quase tão caro como em Amesterdão. A diferença está na qualidade péssima da construção geral na região. E a exploração prossegue sem qualquer sinal de preocupação da parte de quem, pela lógica, devia fazer política governativa um bocadinho mais activamente preocupada realmente com as pessoas todas. Em termos de participação dos cidadãos em geral, mas das mulheres em particular,

na vida política da RAEM, em entrevista ao JTM a presidente-executiva da Associação Geral das Mulheres de Macau, afirma a necessidade de maior participação feminina, que seja aprovada nova legislação punindo os praticantes de violência doméstica, e ainda reclama a presença de mais mulheres na Assembleia Legislativa, o que “contribuirá para maior abertura política”. O “Hoje” deu-se ao trabalho de pesquisar e publicou uma lista das empresas cujos patrões são deputados, alguns deles nomeados pelo Chefe do Executivo, e que vão recebendo concessões e contratos das mãos do Governo. Como não se ouve algazarra, das duas uma: ou nada disto é novidade, ou o cidadão já está habituado a este esquema. Se calhar as duas coisas. Uma tal organização denominada “CasinoLeaks” anda por aí prometendo denúncias de cassos que farão arrepiar o cidadão menos friorento e mais insensível. Ou seja, revelações bombásticas de ligações de deputados e outras figuras conhecidas, ao jogo e seus derivados. Também são prometidas notícias sobre ligações estreitas entre grupos criminosos organizados e operadoras de jogo. O costume, manda-se uma morteirada para o ar e depois jura-se a mostragem de documentos comprovativos. Se isto é brincadeira

malévola, apanhem-nos. Se não é, alguém se prepare para sair de cena. Desceram até ao delta uns senhores de Pequim, para acabarem com falsas expectativas em relação a eleições directas. Não há nada melhor do que saber-se de fonte segura com o que se conta. Mais uns senhores escolhidos por alguém para tornar um pouco mais extenso o rol do colégio eleitoral do chefe do executivo, e a medida interessantíssima de aumentar em dois o número de deputados eleitos por sufrágio directo, contrabalanceados com o acrescentar de outros dois para o indirecto, deverá ser o máximo nas modificações a introduzir este ano. Há mais de 12 anos caída desgraçada, a Lorcha Macau jaz algures em Portugal, aparentemente sem ninguém a querer. É mais um triste exemplo da indiferença dos decisores perante aquilo que não lhes oferece lucros ou loiros. A Lorcha Macau, onde tive a sorte e a honra de inesquecivelmente viajar, com outras pessoas, pelo Sul do Japão, recordando parte do circuito dos jesuítas por aquele país, no século XVI, é uma réplica construída pela Marinha Portuguesa em Macau na segunda metade dos anos 1980, das embarcações antigas em teca e cânfora, que cruzavam águas chinesas, mas equipada com técnicas de navegação e algum traçado ocidentais, foi um dos mais representativos símbolos da fusão cultural, do encontro entre portugueses e chineses. Foi levada para a Expo’98 e ainda acabará na sucata. Isto, se algum sucateiro mais familiarizado com governantes a quiser.

Hoje Macau 13 MAR 2012 #2570  

Edição do Hoje Macau de 13 de Março de 2012 • Ano X • N.º 2570

Hoje Macau 13 MAR 2012 #2570  

Edição do Hoje Macau de 13 de Março de 2012 • Ano X • N.º 2570