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Minha Vida

Autobiografia Inconclusa SENADOR GOMES DA SILVA Texto Decifrado


Fundação UNESCO - HidroEX Programa “Diagnóstico de Microbacia para a Sustentabilidade” Projeto HISTÓRIA E CULTURA DA ÁGUA EM FRUTAL

Diretora de Pesquisa Dra. Tânia Aparecida Silva Brito

Responsáveis Claudia Lopes Bernardes Me. Lucia Elena Pereira Franco Brito

Bolsistas Ananda Maria Garcia Veduvoto - Apoio Técnico Claudia Lopes Bernardes – Apoio Técnico Cynthia Priscila Zelioli – Apoio Técnico Renan Silva Silveira – Iniciação Científica


Agradecimentos

Agradeço ao Centro UNESCO-HidroEX, em especial à Diretora de Pesquisa, Dra. Tânia Aparecida Silva Brito, pela contratação, confiança e suporte para a realização da pesquisa. À Orientadora Me. Lucia Elena Pereira Franco Brito, pela orientação, amizade e paciência. À Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG), pela bolsa concedida, sem a qual não seria possível minha participação no projeto. Ao Sr. Idelbrando Jesus de Miranda, pela doação do material para a realização deste trabalho. À Secretária de Cultura de Frutal, Edimar Reis, e ao Presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Ionei Dutra, pela disponibilização do documento original, sem o qual, a reescrita não teria sido a mais fiel possível. À companheira Ananda Veduvoto, pelo suporte à correção do documento e aos bolsistas Cynthia Zelioli e Renan Silveira.


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UMA RUA, UM NOME, UMA HISTÓRIA: SENADOR GOMES DA SILVA

Joaquim Antonio Gomes da Silva (1838 – 1915)

O Projeto História e Cultura da Água em Frutal, coordenado pela Diretora de Pesquisa do Centro UNESCO-HidroEX, Dra. Tânia Brito, e sob orientação da Profª. Me. Lucia Elena Pereira Franco Brito, tem como objetivo investigar a história e cultura de Frutal, com destaque para as características da formação do município e análise das técnicas usadas pelas populações pioneiras para lidar com os recursos naturais. Um dos momentos importantes da nossa equipe ocorreu quando o Sr. Ildebrando Jesus de Miranda nos levou “de presente” a cópia de uma autobiografia inconclusa do Senador Gomes da Silva. A mim foi confiada a tarefa de decifrar o manuscrito. O título “Minha Vida” imediatamente me despertou a curiosidade de investigar. Sabia que naquelas páginas encontraria – mais do que informações – o fascínio de transitar por outras temporalidades, literalmente conduzida pelas mãos de uma personalidade de grande relevância para a história de Frutal. O trabalho me exigiu extrema paciência e dedicação, visto que a cópia a que tivemos acesso encontrava-se ilegível em diversas partes, dificultando a compreensão das palavras. Além disso, entrar em contato com a grafia do século XIX me obrigou a fazer buscas em dicionários antigos para identificar grafias originais e compreender o significado de palavras em desuso. Depois de um período de trabalho árduo, recebemos a notícia de que o documento original havia sido encontrado pela Secretaria da Cultura. Com a permissão da Secretária, Edimar Reis, e de Ionei Dutra, Presidente do Conselho Municipal do


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Patrimônio Histórico, tornei-me presença diária no Museu. Juntamente com minha companheira de projeto, Ananda Veduvoto, por meio da leitura atenta, fizemos as correções necessárias e concluímos a digitação, após decifrar os mistérios da caligrafia do Senador Gomes. O melhor de tudo isso foi aprender mais sobre ele, ter conhecimento da trajetória de sua vida, tanto nos aspectos pessoais quanto na vida pública, que foi muito mais intensa do que jamais poderia imaginar. Joaquim Antônio Gomes da Silva nasceu em Pitangui, em 1838. Veio de uma família humilde, mas batalhadora. Seu maior sonho era formar-se em Direito, mas devido às condições financeiras não pode realizar sua vontade. No entanto, por ser autodidata, fez carreira na profissão, sendo também professor, músico, comerciante. Desde cedo, mostrou-se irrequieto com as questões políticas. Vale ressaltar que foi Deputado Provincial (1884-1885), Deputado Estadual (1892-1895), Senador (18951902) e Agente Executivo de Frutal (1895-1899/1913-1914). Além disso, recebeu das mãos do Imperador do Brasil, D. Pedro II, uma homenagem por suas atitudes em defesa do país quando da conhecida Questão Christie. Com a Comenda “Ordem da Rosa”, tornou-se o Comendador Gomes. Em relação a Frutal, Gomes da Silva teve papel decisivo no desenvolvimento político da cidade, não só acelerando os trâmites para a emancipação do município, como também por cuidar do desenvolvimento educacional (fundou a primeira escola) e cultural da população frutalense. A primeira banda de música, por exemplo, foi uma de suas louváveis iniciativas, bem como a edição do primeiro jornal de Frutal, “O Santelmo”, que circulou entre 1888 e 1895. Inclusive, neste ano, a escola que leva o seu nome está completando 100 anos. Do trabalho realizado, o meu único desapontamento, em virtude da curiosidade que me foi instigada, é que a sua autobiografia não foi concluída. Ficam no ar as indagações: como o Senador descreveria sua atuação política em Frutal? De que forma a sua mudança de Uberaba para cá, quando do casamento de sua filha com Horácio de Paula e Silva, teria impactado na sua vida? São perguntas para as quais não temos respostas imediatas, mas que nos inspiram a continuar à procura de outras fontes históricas. A propósito, o Senador deixou também outras obras: Excavações ou Apontamentos Históricos de Pitanguy; o romance Iva, a Cabocla (cujos manuscritos originais se encontram no Museu de Frutal) e A Flor do Martyrio. Quem sabe, numa outra oportunidade, seja possível decifrar um pouco mais de sua visão de realidade?

Claudia Lopes Bernardes Frutal, setembro de 2013


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Minha Vida Joaquim Antonio Gomes da Silva Versão Reescrita - Grafia original Nasci na velha serrana, a legendaria Pitanguy, em Minas, a 15 de Julho de 1838, de berço obscuro, mas honrado. Fôram meus paes o procurador forense, alferes Joaquim Antonio Gomes da Silva e D. Anna Jacintha de Souza Machado – o primeiro natural da mesma cidade; e a segunda do arraial de Sant’ Anna da Onça, do respectivo municipio. Aos 5 annos de idade, fui matriculado na escóla de instrucção primaria do professor particular Estolano Manoel de Figueiredo, que, comquanto menos habilitado do que o professor publico, João Epifanio Pereira, cuja sala de lições era uma arêna de descomposturas e pugilato entre os alunnos, meu pae preferiu para o inicio da minha educação. Em 1848, comecei a estudar musica com o meu venerando progenitor, que era profundo maestro; e, no collegio particular do provecto educador, Candido José Tolentino, estudava latim, portuguez, geographia e mathematicas. Pela mudança do emerito professor para São João d’ El Rey, a fazer parte do corpo docente do – Collegio Rural, tive de interromper a minha carreira literaria, até que, em 1852, abrindo-se o collegio Fernandes, dirigido pela competencia do Tenente Zacharias Fernandes Xavier Rebello, conclui, alli, os preparatorios, ácima mencionados e tambem historia. Não tendo recursos para seguir carreira e sendo nimiamente avesso á vida desoccupada, conservei-me, por algum tempo, no collegio Fernandes, auxiliando, gratuitamente, o director no normal funccionamento das aulas do estabelecimento. Não me lembro precisamente do anno, em que, com a familia de meus paes, os acompanhei para Dôres do Indayá, onde meu pae fixára residencia, a convite das pessôas mais gradas da respectiva localidade, afim de crear e dirigir as lides forenses e a camara municipal, porquanto o Districto de Dôres havia sido elevado á cathegoria de Villa. Para não estar, alli, desempregado, abri uma aula de musica e auxiliava a meu venerando pae, que, desde logo, começou a crear uma banda de musica, que não existia na localidade. Residi na nova villa por espaço de um anno mais ou menos; e, regressando de novo para Pitanguy, fui residir á Rua Direita, em casa de minha tia, D. Jacintha de Souza Machado, irmã germana de minha mãe, e casada, em segundas nupcias, com o commerciante – José da Fonseca Cesar. O desejo que sempre alimentei de viver vida occupada e util e a necessidade de obter alguns recursos que obviassem ás minhas despezas pessoaes – determinaram-me a abrir, em casa de minha tia, uma aula de musica, auxiliando, ao mesmo tempo, o professor João Fernandes da Silva Capanema na sua aula publica de latim e francez.


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Meu pae, adespeito da grande, sincera e amorosa amisade que, de sempre, me votava, faziame donativos, porém pequenos; porque, nessa occasião, a sua familia compunha-se, além dos dous chefes progenitores e de mim, dos seguintes filhos, meus irmãos: João Antonio Gomes da Silva, Jacintha de Souza Machado, Francisco Antonio Gomes da Silva, Maria Augusta do Pilar, Antonio Joaquim Gomes da Silva, José Antonio Gomes da Silva e Maria Augusta do Rosario –, todos menores e desempregados, precisando, como eu, da protecção paterna, que era limitada, porque o fôro, de onde meu pae auferia a nossa subsistencia, era incipiente e pouco agitado. Entretanto, meu pae persistia, obstinado e tenaz no vehemente desejo de me fazer receber ordens sacras. Perante esta situação que não se compadecia com a minha vocação e modo de considerar e encarar a missão do sacerdocio, travou-se, no meu espirito, uma luta ingente entre o desejo e o dever da obediencia ás injuncções paternas e a repugnancia que votava á carreira eclesiastica. Eu me insurgia contra a perspectiva de uma sotaina, viria amortalhando as videntes esperanças que amanheciam no meu coração juvenil. As minhas fagueiras esperanças de, mais tarde, constituir familia honrada, que fôsse o centro de convergencia, de todos os amorosos effluvios que borbulhavam de minha alma sensivel e apaixonada, estavam ameaçadas de ser esmagadas pela pedra do altar, como si fôssem clausuradas sob a lapida de um tumulo sombrio! Eu era, como até hoje o sou, inimigo irreconciliavel do celibato dos padres, como contrario ás leis naturaes da propagação e procreação da especie e, porisso, causa efficiente e productora das grandes immoralidades, com que, de continuo, escandalizam a sociedade. Não desejava immiscuir-me na volumosa cohante dos máus sacerdotes que, salvo poucas e honrosas excepções, têm sido os mais perniciosos inimigos da religião pura e crystalina do Calvario, fazendo dos sacramentos da Egreja mercadorias que vendem, a preço alto, no altar de Deus, convertido por elles em balcão de ignobil tavolagem. Meu espirito não se submettia a incutir no povo, inculto e credulo, as falsas noções da existencia do inferno e do purgatorio, em que jámais acreditei. Assim tambem repudiava a confissão que eu sabia haver sido instituida como formidavel e poderosa clava de Hercules, com que as antigas ordens monasticas avassalavam e subjugavam a consciencia do povo ignoro, penetravam e sorprehendiam os segredos da familia, predominavam espirito dos reis e magestades e locupletavam-se á custa das doações e heranças impunemente extorquidas pelas ambiciosas suggestões á sombra do confessionario! Nestas condições e sem saber dar-me a conselho, tive de, 1857, seguir de Pitanguy para Dôres do Indaya, acudindo ao chamado de meu pae, que já tinha dado as necessarias providencias para a minha reclusão no Seminario de Marianna.


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Na vespera de minha partida, já tendo feito as minhas despedidas e arranjado as minhas camastras de roupa, entre as quais figuravam – a sobrepelliz e a repugnante batina, recolhi-me ao meu aposento de repoiso, mas não podia dormir. Considerando no futuro que se me antolhava, eu tomei a deliberação de partir para o seminario e, ahi, concluir os meus preparatorios, arranjar alguma protecção e conseguir de meu pae o seu assentimento a que eu procurasse me formar em sciencias juridicas e sociaes pela academia de São Paulo. Mas, para logo, demoveu-me desse objectivo a seguinte consideração: Meu pae era um homem pobre; tinha mais sete filhos a educar; ia fazer sacrificios inauditos pelo desejo de me ver ordenado. E, desde que eu me não propunha e, antes, repellia essa missão, não era deslealdade de minha parte obrigal-o a sacrificios, a despezas pecuniarias que poderiam, talvez, aproveitar aos meus irmãos? Resolvi ser leal e franco com elle. Observando que, comquanto fôsse tarde da noite, elle se conservava acordado, talvez pelo pesar da nossa separação, porque era extremoso amigo e pae carinhoso, ergui-me do meu leito e pedi licença para uma conferencia com sua respeitavel pessôa. Ouviu, attento, o meu projecto de formatura em direito. Conservou-se silencioso por alguns minutos; e, depois, sem recriminações, sem objurgatorias e nem acrimonia, respondeu-me: ─ Que não pretendia torcer a minha vocação; mas que a escassez dos seus recursos o inhibia de manter-me na academia de São Paulo; e que eu bem sabia que o dinheiro para o meu primeiro anno de curso no seminario de Marianna já elle o havia tomado a premio ao seu amigo cidadão Pedro Ordonhes da Cunha Lara. Ficou, então, assentado que eu voltaria de novo para Pitanguy. No dia seguinte, quando, pela manhã, alguns amigos chegaram a nossa casa para o meu botafóra, encontraram-me despedindo o camarada e enviando os animaes para o pasto. Nesse mesmo anno de 1857, chegava eu a Pitanguy e fui, então, residir com meus tios, depois meus sogros, José Julio Alves Corgosinho, irmão de minha mae, e a professora publica, D. Maria Fulgencia de Oliveira, irmã de meu pae, pelo lado materno. Ahi, estabeleci, para ambos os sexos, uma aula de portuguez e musica. Entre as alunnas que acorriam ás minhas disciplinas, encontrava-se minha prima irmã, filha dos meus tios, acima mencionados, que, a esse tempo, contava, apenas, 11 annos de idade e chama-se Maria Fulgencia de Santa Inéiz, hoje minha esposa. O seu genio docil e meigo, a nossa convivencia sob o mesmo tecto familiar, o interesse e solicitude, com que ella se preoccupava do arranjo do meu quarto, da minha roupa e de tudo qto. concernia á minha pessôa, começaram por despertar, em minha alma, sentimentos de gratidão por esta innocente creança, que, depois, amei com todas as veras do coração e resolvi tomal-a por companheira


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da minha vida e auspicioso anjo do meu lar. Mas a sua tenra idade e a minha falta de recursos me inhibiam de traduzir em realidade a vehemente aspiração que me evoluia dos escrinios d’ alma amorosa. Eu não tinha emprego. Em 1858, fui nomeado professor de latim e francez da villa de Dôres do Indayá. Não acceitei; porque, a esse tempo, minha familia já tinha regressado de novo á Pitanguy e eu não me submettia a viver em uma terra, em que um mandão despudorado e explorador, Ladisláu Francisco Soares, que se animara a casar-se com uma octogenaria, ignorante, repellente e suja para sugar-lhe a fazenda e os bens, mandara desfechar tiros nas portas da casa de meu pae pelo modo correcto e honroso, com que repelliu a sua audacia na offerta de 500$000 para meu pae deixar a procuração de uns pobres roceiros, cujos bens o mandão descarado pretendia roubar. Para a effectividade dessa ladroeira, o mandão-gatúno conseguira afastar os outros procuradores forenses; mas, como encontrasse repulsa e resistencia na honrada correcção do meu velho, assertou amedrontal-o, mandando os Bonifacios, seus capangas, atirar nas pórtas e janellas de nossa casa. Por este desacato, meu pae, desgostoso, voltou de novo a Pitanguy e eu recusei o emprego de professor de latim e francez, cuja cadeira fôra creada para a villa. Continuando sem emprego certo e aguardando que minha prima subisse mais em idade, resolvi adiar o meu pedido de casamento. Em Novembro de 1859, fiz, então, esse pedido que foi acolhido por toda a familia com affectiva e effusão de contentamento e ficou marcado o dia 16 de Janeiro de 1860 para a realisação do projectado enlace. Comquanto já eu residisse com meus tios e futuros sogros, desde 1857; comquanto me estremecessem carinhosamente como aos proprios filhos e não tivesse ainda um emprego certo que garantisse a subsistencia do meu novo lar; – logo que contractei o meu casamento, declarei á minha sogra que, no mesmo dia do meu consorcio, eu desejava pernoitar em minha casa. Foram muitas as sinceras considerações que minha tia externou, no sentido da continuação de minha permanencia em sua casa, sinão para sempre, ao menos até que eu tivesse rendimento certo e minha noiva mais idade para dirigir nossa casa. Resisti, obstinado; e, no dia 1º de Janeiro de 1860, entrei para uma casa que aluguei com alguma mobilia, na rúa da Lavagem, ao sopé do morro do – Batatal, onde os bandeirantes se arrancharam em 1709. Raiou, enfim, o grande dia, longamente sonhado por mim em noites de amor que me fazia referver o sangue das veias. O nosso consorcio se realisou ás 5 horas da tarde do dia 16 de Janeiro de 1860, na Egreja Matriz, e, á noite desse mesmo dia, depois das festas, com que a família a celebrou o famhoso acontecimento, a musica e todos os convivas acompanharam-nos até a nossa casa, onde pernoitámos – eu e minha noiva.


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Nesse dia, toda a minha fortuna comtava e resumia-se em uma cédula de 2$000! E, entretanto, eu me considerava feliz, porque tinha fé em Deus e jámais me faltaram animo, coragem, tenacidade e disposição para a luta pela vida – que é a partilha da humanidade. Não tive lúa de mél. Eu tinha celebrado contracto com diversos paes de familias para leccionar aos seus filhos primeiras letras, contabilidade, portuguez e musica; e, do mesmo modo, contractei com o Pe. Mestre Belchior Rodrigues Braga ensinar, no seu collegio, latim e musica pelo ordenado annual de 400$000. Logo, na manhã seguinte ao meu casamento, dei aula aos meus alunnos particulares, das 7 ás 9 horas da manhã; das 10 ao meio dia, ensinei latim no collegio – Padre Braga; de uma hora ás 3 da tarde, dei segunda aula aos meus discipulos particulares; das 4 ás 5 horas, segunda aula de latim no collegio, onde permaneci durante o recreio dos alunnos, que era das 5 ás 6 horas da tarde, para dar a minha aula de musica que era das 6 ás 8 horas da tarde. Era esta a minha taréfa de todos os dias uteis. E com todo este labor atrophiante, eu poderia realisar o ordenado de 800$000 annuaes! No intuito de augmentar os meus escassos recursos pecuniarios, obtive a nomeação de escrivão de paz e da subdelegacia, cujo exercicio abandonei logo pela exacta comprehensão de que, para attender ás exigencias do serviço publico, eu perturbava a regular normalidade das minhas aulas, nas quaes me tornava faltoso, e as custas e proventos do emprego não compensavam os descontos que soffria, assim nas mensalidades dos meus alunnos particulares, como no ordenado que me pagava o Padre Braga, director do collegio. Em Julho de 1860 e quando me achava extremamente fatigado da vida afanosa que levava, recebi um convite do meu tio, capitão Bento de Oliveira Barbosa, homem rico, residente no arraial de Sant’ Anna da Onça, a 12 kilometros da cidade de Pitanguy, para incumbir-me exclusivamente do cultivo intellectual dos seus filhos. Offerecia-me o ordenado de 1:200$000 annuaes, casa para morar e alimentação no primeiro anno. Era uma proposta acceitavel nas condições precarias da minha vida. Não tinha ainda respondido, quando, um dia, passando pela casa do honrado major Manoel Bahia da Rocha, advogado e collector, homem de costumes autivos e que muito apreciava os moços diligentes e laboriosos, este me pediu não acceitasse, poremquanto, a proposta de meu tio, sem declarar-me qual a sua intenção a meu respeito. Cerca de um mez mais tarde, o major Bahia apresentou-se, á noite, em minha casa e entregoume a minha nomeação de escrivão da collectoria de Pitanguy em ambas as repartições – Thesouraria da Fazenda e Mesa de vendas provinciaes. O collector Bahia achava-se profundamente desgostoso com o seu escrivão que, além de inepto, era orgulhoso e audaz.


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A minha vida occupada e a maneira porque zelava de minha mulher attrahiram suas vistas protectoras sobre a minha pessôa, cujo nome, sem me consultar, propôz para os referidos encargos. Tomei posse do emprego em Outubro de 1860 e o exerci, como escrivão e collector interino até Agosto de 1868, épocha, em que fui demittido, depois da ascensão do partido conservador em Julho do mesmo anno, pelo facto de ser eu liberal intransigente e exaltado. Tive a honra de ser o primeiro demittido em portaria separada e não fazer parte da outra celebrissima portaria, em que, de roldão e em formidolosa catadúpa, o presidente da provincia exonerou, a bem do serviço publico, cinco mil e tantos funccionarios e auctoridades policiaes!.. Edificante!.. Nomeado escrivão da collectoria, a minha vida começou a deslizar-se mais suave e menos afadigadora. Data de 1861, o inicio da minha vida politica. Eram prestigiosos chefes do partido liberal, na comarca de Pitanguy, os inolvidaveis cidadãos de grata e saudosissima memoria, Srs. – Francisco Cordeiro dos Campos Valladares, Frederico Augusto Alvares da Silva e Francisco Alvares da Silva Campos (Cucúta), digno irmão do grande e imperterrito, Sr. Martinho Campos, o opposicionista chronico, o espantalho dos conservadores, o terror dos ministros incorrectos. Desde a minha mais tenra idade, aquelles illustres chefes acolhiam-me com extrema bondade e com captivadora gentileza. Estava proxima uma eleição, quando, passando eu em frente do sobrado do Sr. Valladares, este, que se achava á janella, convidou-me a entrar. Uma vez recebido em sua sala de visitas, elle me disse:  Que estava convicto de que eu seria um efficaz auxiliar do partido liberal e que a sua intuição augurava-me brilhante carreira politica, em futuro não remoto. Agradeci ao emerito chefe a sua confiança e as gentis amabilidades, com que me nobilitava; e acceitei a missão, que, então, me propôz, de ser um dos mesarios do seu partido nas proximas eleições a realisarem-se. De então por avante, jámais recusei a contribuição do meu esforço, da minha actividade e dos meus serviços á causa do partido, em que me inscrevera, soldado apenas. No mesmo anno de 1868, o magnifico templo de Nossa Senhora do Pilar, oraculo da velha serrana, começou a preoccupar seriamente a attenção dos pitanguyenses que receiavam ver desapparecer em ruinas aquelle sublime conjuncto de bellezas e de aprimorado trabalho. Por iniciativa do Sr. José Xavier da Silva Capanema, creou-se, então, a sociedade – União Pitanguyense, que, empenhando sacrificios inauditos, reedificou o magestoso templo com a avultada despesa de 96:000$000, obtida por subscripção particular, excepção feita unicamente da quantia de 10:000$000, subvenção da assembléa mineira, por intermedio do deputado Sr. Frederico Augusto Alvares da Silva.


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Fui um dos socios fundadores desta sociedade, perante a qual exerci, por algumas vezes, o cargo de secretario interino. Em 1863, o governo britanico dirigiu ao imperial brasileiro serias e ameaçadoras reclamações, relativamente á questão – Prince of Wales e Forte. Os pitanguyenses correram, pressurosos, ao appello da patria ameaçada e, a 2 de Fevereiro do dito anno, reunidos, no paço municipal, crearam a sociedade – Amor da Patria, cujo fim era crear e reunir os recursos do municipio, afim de auxiliar o governo imperial nos meios de defesa contra as hostilidades, que, porventura, surgissem por parte da Inglaterra. Fui sociofundador e, mais tarde, secretario e presidente interino desta sociedade. Em Abril de 1864, nasceu a minha primeira filha, que, ao receber as aguas lustraes do christianismo, recebeu o nome de – Elvira, perante os paranymphos Major Manoel Bahia da Rocha e minha tia e segunda mãe, D. Victorianna Jacintha de Souza Machado. No dia 7 de Fevereiro de 1865, espalhava-se na cidade a noticia de que Payssandú cahira prostrado pelo valor indomavel de nossas forças no Rio da Prata. A municipalidade pitanguyense reuniu-se e se congratulou com o povo fremente de enthusiasmo. A’ noite, reuniu-se a sociedade – Amor da Patria, ao som enthusiastico da nossa excellente banda de musica, perante grande e alegre concurso de socios e com a assistencia de quasi toda a população da cidade. Bravam, com eloquencia e patriotismo – o digno presidente da sociedade, Sr. Frederico Augusto Alvares da Silva e os Srs. Hygino Silva e José Maria Vaz Pinto Coelho. Foi eleita a commissão encarregada de promover o alistamento de voluntarios e uma subscripção municipal. Esta commissão ficou composta do mesmo Sr. Vaz Pinto e do benemerito riograndense, tenente Pedro de Azevedo Souza Filho, thesoureiro da sociedade. Em officio de 3 de Fevereiro de 1865, o Desembargador Pedro de Alcantara Cerqueira Leite, então Presidente de Minas, dirigindo-se ao presidente e secretario da sociedade – Amor da Patria – cidadãos: Sr. Frederico Augusto Alvares da Silva e Joaquim Antonio Gomes da Silva, scientificoulhes:  Que, autorisado pelo governo de S. M. o Imperador, os louvava e acceitava a quantia de 2:110$000, que, como membros da sociedade – Amor da Patria – , offereceram ao mesmo governo para as despezas do Estado; e, nessa referida data, transmittiu á sociedade o seg. aviso do Ministerio da Guerra.  “N° 13 – 1ª Directoria Geral – 1ª secção – Rio de Janeiro – Ministerio dos Negocios da Guerra, em 11 de Fevereiro de 1865 – Illm. e Exmº Sen.


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Communicando-me V. Excia, em seu officio datado de 3 do corrente, sob n° 14, que a sociedade – Amor da Patria, estabelecida na cidade de Pitanguy, offereceu, para as urgencias do Estado, a quantia proveniente de uma subscripção que promoveu por occasião do conflicto havido na Corte com alegação inglesa, na importancia de 2:110$000 e bem assim os premios vencidos no Banco Mauá, onde se acha depositada; e tendo já V. Exe. expedido as necessarias ordens para o recebimento da referida quantia; – declaro a V. Ex. , para o seu conhecimento e para o fazer constar a mesma sociedade, que o governo louva e agradece o seu patriotico offerecimento. Deus guarde a V. Ex. – Henrique de Beaurepaire Rohan. Sr. Presidente da Provincia de Minas.” Graças aos infatigaveis e patrioticos esforços do illustre thesoureiro da sociedade, tenente Pedro de Azevedo de Souza Filho, do dia 7 de Fevereiro a 21 de Março, inscreveram-se 52 voluntarios, muitos delles pertencentes ás principaes familias da localidade. Com avultado numero de pessôas gradas, reuniu-se, no paço municipal, na noite de 19 de Março, a sociedade – Amor da Patria –, para ouvir o – Hymno dos Voluntarios de Pitanguy, musica de minha composição e poesia do Sr. Vaz Pinto. Na noite de 22 de Março de 1865, houve¸ no mesmo paço municipal, sessão solemne, imponente e magestosa, na qual a sociedade – Amor da Patria, commovida e grata, ia estreitar, em saudoso amplexo de despedida, os generosos feitos dos bravos voluntarios de Pitanguy e receber das niveas mãos da distincta joven, D. Rosinha, filha do digno thesoureiro, tenente Azevedo, a riquissima bandeira que a gentil pitanguyense, por intermedio da sociedade, offereceu aos voluntarios do seu berço querido. Fui o orador official dessa sessão solemne, em que tambem falaram – o digno presidente da sociedade, o Sr. Higyno Silva e os consocios José Carlos Barbosa, José Soares da Silva e o Sr. Vaz Pinto que leu uma poesia patriotica e inspirada. Ficou nomeada a seguinte commissão para a entrega da bandeira aos voluntarios: 1. – Sr. Vaz Pinto; 2. – Tenente Pedro Azevedo; 3. – Gomes da Silva; 4. – Leonel Pereira da Fonseca; 5. – Major Antero Alves da Silva. Ás 10 horas da manhã do dia 24 de Março, os habitantes da velha serrana correram, sofregos e cheios de patriotismo, á porta da residencia do tenente Azevedo, onde ia ter logo o acto solemne da entrega da bandeira aos briosos voluntarios, que, formados em linha e em attitude heroica e desassombrada, ostentavam-se verdadeiros descendentes de Domingos Rodrigues do Prado, o democrata de 1715. Depois da execução do Hymno Nacional, nós da commissão, trazendo á nossa frente a joven D. Rosinha, que, vestida de indio para symbolisar o genio do Brazil, empenhava o pavilhão dos


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voluntarios, lhes offerecemos o riquissimo estandarte, depois de um discurso monumental, patriotico e eloquentissimo, proferido pelo Sr. Vaz Pinto, orador da nossa commissão. A’ cima do horisonte levantou-se o sól de 25 de Março de 1865 – o dia da partida, o dia das saudades, o dia das lagrimas!.. Depois de ouvirem a missa do dia, dirigiram-se os voluntarios para a Rúa debaixo e, formados á porta do tenente Azevedo, acudiram á chamada, não deixando de comparecer nenhum dos 52 voluntarios. Então, o tenente Azevedo, com paternal bondade, entregou a cada um delles 100$000, para despezas de viagem e, abraçando-os, um a um, proferiu, ao ouvir-se a voz da partida, as seguintes notaveis palavras:  “Bravos voluntarios da patria, o anjo do Brazil vos vae mostrar o caminho da victoria! Pusemo-nos todos em marcha, precedidos do genio do Brazil, da banda de musica, acompanhados por mais de duzentos cavalleiros. Ao atravessarem as rúas, viam-se, pelas janellas, pelas frentes das casas, pelas esquinas, largos e praças, homens, mulheres e creanças com as faces innundadas de lagrimas que as saudades de seus filhos, esposos, irmãos, amigos e parentes faziam copiosamente correr. Os voluntarios, de passagem, agitavam seus lenços em signal de despedida e o povo, soluçando, correspondia a esse acto tocante. A onda popular apinhava-se aos lados do caminho até fóra da cidade a grande distancia, onde teve lugar a despedida. O que ahi se passou não ha linguagem que exprima! Nesse acto e a pedido dos voluntarios, o Sr. Vaz Pinto, usando da palavra, expressou ao Tenente Azevedo a profunda e inolvidavel gratidão dos voluntarios, que, diante do seu patriotismo, depositaram seus coráções reconhecidos. Separamo-nos, por fim. A todos estes actos eu assisti no triplice caracter de secretario da sociedade Amor da Patria, de membro da commissão da entrega da bandeira e de alferes secretario, (que, então, já o era), do Batalhão da Reserva, no qual fôra qualificado na qualidade de inspector do primeiro quarteirão da cidade, por nomeação do delegado de policia do termo – capitão José Nunes de Carvalho. Em Dezembro de 1865, achava-me na velha e legendaria capital de Ouro Preto, em companhia do meu compadre e amigo, o collector Major Manoel Bahia da Rocha, a quem, por gratidão, acompanhei, gratuitamente, afim de auxilial-o na sua prestação de contas. No dia 18, tomou pósse de presidente da provincia o venerando democrata Saldanha Marinho, de grata e saudosa recordação. Convidado pelo director Modesto Santa Rosa para auxiliar a sua corporação musical no Te - Deum por acção de graças em relação a esse facto, achava-me na Egreja do Carmo, executando a parte de ophicleide, justamente no momento, em que, em Pitanguy,


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minha mulher e meus parentes, transidos de dor cruciante, carpiam a morte de minha estremecida premogenita, que acabara de morrer de sarampos. Tive noticia da morte da minha Elvira, na Contagem das aboboras, quando eu e o collector regressavamos de Ouro Preto. A paixão que actuou em minha e a apprehensão que envadiu o meu espirito, receiando pelo estado de minha mulher que estava gravida – me determinaram a abandonar os companheiros de viagem e seguir com marchas forçadas e quasi ininterruptas em demanda do meu lar disolado. Agradeci o almoço que se nos preparara e viagei, só, 18 leguas – por assim dizer –, com um pequeno descanso, em casa de meus paes, na villa do Pará, onde o meu velho tinha, então, a sua residencia provisoria, convidado que fôra para dirigir os negocios forenses e o governo municipal daquella villa, recentemente creada. Cheguei ao seio da minha familia, ás 11 horas da noite. É facil aquilatar-se das agruras que, nesse momento, se encrementaram a me estortegar o coração de pae extremoso, como si triturado fôsse por um guante de ferro! Em 27 de Fevereiro de 1865, me foi dirigido pelo Presidente da Provincia, Dr. Pedro de Alcantara Cerqueira Leite o seguinte officio: “ – Quarta Secção – Louvo, agradeço e acceito o offerecimento que Vm.ce faz de 5% de suas commissões, como escrivão da collectoria de Pitanguy, para as despezas da guerra.” x x x Em 8 de Junho de 1866, nasceu, em Pitanguy, a minha segunda filha – Eugenia Ernestina Esmeralda. Nesse mesmo anno, por iniciativa minha, creou-se, em a velha serrana, uma sociedade musical sob os mais auspiciosos e promissores auspicios. Inscreveram-se, como socios, as pessôas mais gradas da cidade. A direcção da banda e das aulas musicaes da sociedade ficaram a meu cargo. x x x Em 1867, já tinha eu produzido algumas defesas perante o jury e com bom resultado. Nesse mesmo anno e a instancias do meu bom e generoso amigo, Sr. Frederico Augusto Alvares da Silva, resolvi dedicar-me á vida forense; e, porisso, o juiz municipal substituto, cidadão Joaquim Cecilio dos Santos, conferiu-me a nomeação de solicitador do seu Juizo por portaria de 7 de Outubro do mesmo anno; e, nesse mesmo dia, prestei juramento, tomei posse e entrei em exercício pelo tempo de um anno; mas, em 30 de Outubro, o Presidente da Relação, Desembargador Antonio da Costa Pinto, expediu-me provimento, por tempo de tres annos, para exercer o officio de solicitador dos auditorios do termo de Pitanguy. Prestei juramento em 5 de Novembro de 1867. x


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x x Em 1868, com a ascensão do partido conservador ao poder, fui demittido do emprego de collector interino do municipio, como ácima disse. Esta demissão produziu algumas difficuldades na minha vida, porquanto fiquei unicamente reduzido aos proventos das lides do fôro, que, além de ser pouco agitado, era trabalhado por muitos advogados, com fossem o Sr. Martinho Contagem, Cap.m José Nunes de Carvalho, José Soares da Silva, Alexandre Pereira da Fonseca e outros. Nesta contingencia me vi obrigado a recorrer á vida do commercio, abrindo um pequeno negocio de molhados, armarinhos, ferragens, louça e generos do pais, a cujas mercadorias addiccionei, posteriormente, um pouco de fazendas e roupas feitas e, de novo, voltei á vida do magisterio, mantendo, em minha casa, uma aula particular de portuguez, francez e musica. Mas, não me iam a vocação e o genio para a vida commercial. Era facil em fiar as minhas mercadorias; e, si um fintador, reconhecidamente evidenciado na sociedade, me procurasse para comprar a prazo, dizendo-me que tinha a mulher ou os filhos guardando o leito das molestias e sem recurso algum – levava tudo quanto desejasse. Deste estado de cousas e do abatimento do commercio de então resultou que comecei a sentir embaraços financeiros que determinaram minha ida ao Rio de Janeiro, em 1870, para procurar collocação mais animadora. Na minha ida, passei pela Villa do Pará, onde ainda residiam meus paes, afim de despedir-me e pedir-lhes a sua bençam. No Rio, tive promessa de collocação como viajante commercial, o que, mais tarde, se realisou, como adiante se verá, e obtive, á porcentagem, algumas liquidações para eu realisar em Pitanguy e nas localidades circumvisinhas em um perimetro de 33 leguas. No meu regresso, não passei mais pela Villa do Pará, onde havia deixado toda a familia de meu pae com saúde e sem novidade alguma; e, porisso, ao chegar no bairro denominado – Santo Antonio, suburbio da cidade, sorprehendi-me ao encontrar meu mano Francisco, levando uma comitiva, entre cujos animaes ia um arreiado com silhão. Meu mano, ao avistar-me, debulhou-se em copiosas lagrimas e, afogado em soluços, não podia articular palavra.  Que aconteceu? Onde vaes? – perguntei-lhe sobresaltado, advinhando alguma desgraça.  Vou ao Pará buscar nossa mãe – respondeu.  Mas, porque?  Nossa irmã a Nhá (Maria Augusta) está a expirar e nosso pae, que foi chamado, já se acha na cidade.  Mas, que veiu fazer a Nhá na cidade, si, na minha ida para o Rio, deixei-a no Pará?


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 O Isahias Gonçalves dos Reis pediu-a em casamento que desejava se realisasse logo e ella veiu para casar-se; mas cahiu, no mesmo dia, com febre typhoide e os medicos a desenganaram. Onde está ella?  Em casa da Thia Victorianna, onde deixei tambem tua mulher. Separámo-nos; e eu, transido de dôr, fui apear-me á casa d’aquella tia, seriam onze horas da manhã. Minha irmã, ha tres dias, delirava incessantemente; era um delirio alegre – cantava, ria, rezava, conversava e tentava a todo o momento abandonar o leito. Ao avistar-me penetrando no quarto, como que a sua razão gozou de um momento lucido: estendeu-me ambos os braços, estreitou-me com vehemencia em carinhoso amplexo e seus labios, que desfolhavam um sorriso prazenteiro, articuláram estas phrases:  Graças a Deus! Vieste e agora não caso mais!.. Continuou depois a delirar até 11 horas da noite, em que eu, genuflexo diante do seu leito, recebi o seu ultimo suspiro!.. Minha irmã era uma moça de 22 annos, esbelta, alegre, activa, de uma virilidade sanitaria vidente e promissora. Ia casar-se a contragosto e só em obediencia ás imponentes e desarrasoadas exigencias e vontade de parentes que tractaram de apressar o consorcio em minha ausencia, porque sabiam que eu não consenteria nessa união, a todo ponto, desigual e inconveniente. E foi, por essa razão, que a pobrezinha, ao avistar-me, sorriu e si declarou:  Viéste e agora não caso mais! Era bom cidadão Isahias Gonçalves dos Reis; mas era viuvo, sexagenario e tinha perdido toda familia, composta de sette pessôas, victimada por terrivel tuberculose. No physico era um homem desgracioso: pernas extremamente curtas; corpo rotundo e anafado; abdomen protuberante; rosto grande e sempre vermelho, como se tivesse sob a influencia dos vapôres alcoolicos – não era, com certeza, um noivo com que sonhasse uma moça em pleno vigor da belleza e das potencias physicas. No dia immediato ao passamento de minha irmã, fiz, a minha custa, o seu funeral com um concurso numerosissimo de povo de todas as classes sociaes. E o que mais prendia a attenção e ameigava a nossa desolação era ver os mendigos da cidade, como que corporificados em um só homem, acompanhando o feretro e, entre lagrimas e soluços, lastemando o passamento da sua protectora. E tinham razão. Minha irmã era dotada de uma alma archi-angelica, generosa, altruista e caridosa, como quem mais o fôsse.


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Trabalhava a semana toda nas suas costuras, nos seus envehtes, nas suas quitandas para, nos sabbados distribuir a collecta dos seus trabalhos pelos pobres que lhe vinham esmolar á porta. E, si alguma vez o seu labor semanal não fructificava, ella, na sexta feira, tirava da sua volta de ouro algumas contas que mandava vender aos ourives, afin de não ver os seus pobres se retirarem sem algum obulo, diminuto que fôsse. Deus, com certeza, amerceiou-se dessa alma adamantina e condolente que soube traduzir á justa o humanitario preceito de Victor Hugo, quando disse: − “O melhor altar é o coração de um pobre agradecendo o beneficio recebido.” Quasi ao sahir o prestito funebre, já reunidos os padres, musica, irmandades, virgens, anjos e povo, chegou do Pará minha velha e sancta mae, que, penetrando na camara funeraria, louca de dôr, desgranhada e vertendo copioso pranto, teve, apenas, tempo de abraçar, beijar e abençoar a filha que se foi para jámais voltar. Esta scena contristou a todos os circunstantes, por cujas faces se deslizavam lagrimas de dó e de verdadeira compaixão. Os dias que se seguiram fôram, pordemais, acerbos e amargurados para toda a nossa familia e grande parte da população que estremecia a virtuosa finada. x x x Em 1871, minha mae enfermara e, com meu mano Antonio e minha irmã Maria do Rosario (Nenêm), viera residir comigo para cuidar de sua preciosa saúde arruinada. Meu mano José havia fallecido de febre, na Villa do Pará; e meus manos João, Francisco e Jacintha (a Vida), já se tinham casados. Meu pae ficara no Pará concluindo algumas questões forenses confiadas ao seu patrocinio de advogado. Viera no fim do anno mas tambem doente e ameaçado de hydrothorax. Fôram morar em casa proxima a minha na rúa denominada – Olaria. x x x Em Fevereiro de 1872, recebi do meu bom e dedicado amigo, Thomé de Andrade Vilella, uma carta convidando-me a ir, com urgencia, ao Rio, pois que tinha conseguido uma regular collocação commercial para ser entregue ao meu trabalho e actividade. Tractei de vender o meu negocio e ultimar negocios forenses, de que me achava incumbido e, no dia 21 de Abril de 1872, parti para a Corte. Antes, porém, de o fazer, deixei uma ordem ao honrado commerciante João Cesario Fernandes para accorrer á manutenção e necessidades de minha familia; e ao negociante, Ignacio José Barbosa, uma outra, no mesmo sentido, com relação a meus velhos paes, que eu não podia e nem devia deixar doentes e sem recursos que obviassem ás suas precisões. Chegando ao Rio, empreguei-me como viajante commercial da firma – Miranda Villela & Cia e como liquidante da casa de Francisco Luiz de Andrade, que passara a pertencer a seu padrasto, o


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honrado Sr. Domingos Theodoro de Azevedo que havia pago aos credores do referido Francisco Luiz, seu enteado. O velho era afflicto e nervoso; e, porisso, encarregara a Thomé Vilella de arranjar pessôa idonea que liquidasse, com maxima urgencia, a massa que havia recebido; sem que elle, em tempo algum, se preoccupasse de semelhantes negocios. Comprehendi, desde logo, que a minha viagem seria demorada, senão pela casa de Miranda Vilela & Cia, com certeza para attender ás exigencias do velho Azevedo que nunca vi e com quem jámais me entendi em todo o tempo, em que tractei da sua liquidação. Comecei a minha excursão commercial pela Provincia do Rio, de onde passei para a de São Paulo, cujo territorio percorri por espaço de oito meses quasi que só a cavallo, porque a estrada de ferro do Rio a São Paulo chegava apenas a Barra Mansa, interrompendo-se em longa solução de continuidade até Campinas, de onde proseguia em demanda da capital paulista. Entrei, depois, na provincia de Minas, viajando todo o súl, o óeste e grande parte do Norte, de onde procurei o Rio e, de lá, a minha casa, em Pitanguy, onde cheguei a 13 de Julho de 1873. Viajei, portanto, ininterruptamente 15 meses, menos 8 dias. Quando no Rio e depois de prestar minhas contas, pedi aos meus patrões Miranda Villela & Cia dous meses de licença para repousar no seio de minha familia. Concederam-me de bomgrado. Em Outubro de 1873, fui de novo chamado ao Rio; e, uma vez alli, Thomé me declarou: − Que eu era um empregado merecedor de bom ordenado que, entretanto, não podia pagar-me, porque a sua casa era de molhados e tinha cessado o auxilio do velho Theodoro de Azevedo, cuja liquidação já eu havia terminado; mas que tinha conseguido empregar-me na casa de fazendas do Sr. Lima, Costa & Baptista, commerciantes de irreprehensivel integridade moral e casa abastada e de notavel credito na praça do Rio. Nesse mesmo dia, apresentou-me ao chefe da firma, o honrado socio capitalista, Coronel José Antonio de Souza Lima, que, posteriormente revelou-se um dos meus melhores amigos e diante de cuja memoria me curvo respeitoso e reconhecido a tantas provas de estima e consideração que me dispensou, quando seu empregado, e, posteriormente, auxiliando-me com efficacia na minha carreira politica. Fez-me o ordenado de seis contos de reis (6:000$000) ao anno e arranjou-me liquidações das casas – Laport e outras que davam-me, annualmente, um conto de reis mais ou menos. O coronel Lima morava na fazenda de Santa Cruz, em São João Nepomuceno, de Lavras. Era um homem de uma intelligencia nitida e fulgurante e de uma actividade inequalavel. Si tivesse tido um cultivo regular, poucos homens o excederiam. Comecei a minha jornada commercial. Tinha uma correspondencia dupla, communicando regularmente o movimento dos negocios a meu cargo não só á casa, no Rio, como a elle em sua fazenda, onde o coronel Lima tinha, com relação


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á casa commercial, uma escripturação, se não tão caprichosamente desenhada, como a do guardalivros, ao menos mais exacta, como tive, porvezes, occasião de verificar. No fim de todos os annos, reuniamo-nos no Rio, em Dezembro, por occasião do balanço, findo o qual o coronel Lima regressava logo á sua fazenda e eu ficava na Corte, aguardando a extracção das contas para nova excursão. E fôsse qual fôsse o itinerario que eu houvesse de seguir, elle não consentia que eu iniciasse a minha viagem, sem passar em sua casa para o minucioso exame e conferencia das contas a meu cargo. Tive, porvezes, occasião de admirar a lucidez e fidelidade da sua bemtratada reminiscencia. Lia-lhe uma conta, elle ria-se e exclamava: − Aquella gente está malúca! Este freguez deu tanto em tal data ou reformou em data de tal – e fazia outras considerações que provava immediatamente procurando a sua escripta particular. Reformavamos a conta. x x x Nesta segunda excursão commercial, visitei a importante cidade do Jaguary (Camanducáia), no súl de Minas, limitrophe de São José dos Campos, do Estado de São Paulo. Ahi, tive o prazer de conhecer e iniciar relações amistosas com o respeitavel major Bento Escobar, que, desde logo, cumulou-me de fidalgas gentilezas e honrosos testemunhos de estima e consideração. Era elle o digno Veneravel da Loja Maçonica Local. Para obedecer ao vehemente desejo que externava de me ver inscripto entre os obreiros da sua respeitavel officina, ao Valle do Jaguary, resolvi iniciar-me e tive occasião de sorificar que alludida officina era composta do pessoal mais grado do municipio e circumvisinhança, tendo por seu orador o intelligente e probidoso padre Caramurú, digno vigario de Cambuhy. O major Escobar mostrou-se tão jubiloso da minha iniciação que, nessa noite, offereceu-me um baile em sua casa. Era rigoroso na observancia do ritual maçonico.; e, porisso, seriam 11 horas da noite, quando se terminou a sessão e as moças já se arrepelavam de impaciencia pelo desejo de ver começar o baile que correu animadissimo e com as mais videntes expansões de harmonia, até cerca de quatro horas da madrugada. Todos os convivas e suas familias se portaram para comigo de uma gentileza franca e acariciadora como si eu fosse um habitué das suas diversões ou um parente dos mais estremecidos. Pela madrugada e antes da ultima contradança, um intelligente joven parente do major Escobar, dirigiu-me uma saudação, concluindo por offerecer-me um outro baile, em nome do bello sexo, na noite seguinte e no mesmo salão da casa do major Escobar. Este segundo baile correu com o mesmo ardor e cordialidade do primeiro.


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Era tarde da noite quando usei da palavra para agradecer o generoso e nobilitante acolhimento que me fôra despensado e, a meu turno, offereci ao bello sexo um terceiro baile nos mesmos salões. A’ noite, quando sahia do hotel para o baile, disse ao meu camarada: − Ainda que o baile de hoje se prolongue até a madrugada, viajaremos amanhã, porque não tenho mais serviço no lugar e não costumo falhar por mero desfastio – Quero os animaes cedo. Parecia que o terceiro baile devesse correr desanimado e frio, resentindo-se da fadiga dos dous precedentes; mas deu-se justamente o contrario. A alegria que transudava dos semblantes de todos os convivas; o enthusiasmo que se notava no bello sexo; a franca e vidente convivencia que tornava de curta duração as horas que se escoavam – por assim dizer – imperceptiveis; fizeram desta diversão familiar um conjuncto de inebriantes contentamentos que nos saturam a alma até as 5 horas da manhã. A’ esse tempo, reiterei novos agradecimentos áquella selécta sociedade, á qual, cheio de saudades, apresentei as minhas despedidas. Ao chegar ao hotel, já os meus animaes recebiam a costumada ração. O camarada perguntou-me: − Viajamos, patrão? − Viajamos, sim – respondi; mas deixa-me dormir um pouco e acorda-me quando o almoço estiver á mesa. Depois do almoço e já prestes a partir, recebi do major Escobar um cartão, em que me pedia esperar um pouco porque diversos amigos desejavam acompanhar-me até fora da cidade.


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Minha Vida Joaquim Antonio Gomes da Silva Versão Reescrita - Grafia atualizada1

Nasci na velha serrana, a legendária Pitangui, em Minas, a 15 de julho de 1838, de berço obscuro, mas honrado. Foram meus pais o procurador forense, alferes 2 Joaquim Antonio Gomes da Silva e D. Anna Jacintha de Souza Machado – o primeiro natural da mesma cidade e, a segunda, do arraial de Sant’ Anna da Onça, do respectivo município. Aos 5 anos de idade, fui matriculado na escola de instrução primária do professor particular Estolano Manoel de Figueiredo, que, conquanto menos habilitado do que o professor público, João Epifanio Pereira, cuja sala de lições era uma arena de descomposturas e pugilato3 entre os alunos, meu pai preferiu para o início da minha educação. Em 1848, comecei a estudar música com o meu venerando progenitor, que era profundo maestro e, no colégio particular do provecto 4 educador, Candido José Tolentino, estudava latim, português, geografia e matemática. Pela mudança do emérito professor para São João del-Rei, a fazer parte do corpo docente do Colégio Rural, tive de interromper a minha carreira literária, até que, em 1852, abrindo-se o Colégio Fernandes, dirigido pela competência do Tenente Zacharias Fernandes Xavier Rebello, concluí ali os preparatórios acima mencionados e também história. Não tendo recursos para seguir carreira e sendo nimiamente 5 avesso à vida desocupada, conservei-me, por algum tempo, no Colégio Fernandes auxiliando gratuitamente o diretor no normal funcionamento das aulas do estabelecimento. Não me lembro precisamente do ano em que, com a família de meus pais, os acompanhei para Dores do Indaiá, onde meu pai fixara residência a convite das pessoas

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Esta é a versão reescrita e atualizada do manuscrito autobiográfico original de autoria do Senador Gomes da Silva. Trata-se de um árduo esforço para decifrar a caligrafia do autor, mantendo a integridade e autenticidade da fonte. No entanto, sendo um documento do século XIX, algumas palavras não puderam ser plenamente identificadas. 2 Alferes: oficial que levava a bandeira, que hoje levam os porta-bandeiras. 3 Pugilato: luta, briga a socos: discussão que degenerou em pugilato. 4 Provecto: adiantado, que se tem feito progresso. 5 Nimiamente: com excesso; em demasia.


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mais gradas da respectiva localidade, a fim de criar e dirigir as lides forenses e a câmara municipal, porquanto o Distrito de Dores havia sido elevado à categoria de Vila. Para não estar ali desempregado, abri uma aula de música e auxiliava a meu venerando pai que, desde logo, começou a criar uma banda de música, que não existia na localidade. Residi na nova vila por espaço de um ano mais ou menos e, regressando de novo para Pitangui, fui residir à Rua Direita, em casa de minha tia, D. Jacintha de Souza Machado, irmã germana 6 de minha mãe e casada, em segundas núpcias, com o comerciante José da Fonseca Cesar. O desejo que sempre alimentei de viver vida ocupada e útil e a necessidade de obter alguns recursos que obviassem7 as minhas despesas pessoais determinaram-me a abrir, em casa de minha tia, uma aula de música, auxiliando, ao mesmo tempo, o professor João Fernandes da Silva Capanema na sua aula pública de latim e francês. Meu pai, a despeito da grande, sincera e amorosa amizade que, de sempre, me votava, fazia-me donativos, porém, pequenos. Porque, nessa ocasião, a sua família compunha-se, além dos dois chefes progenitores e de mim, dos seguintes filhos, meus irmãos: João Antonio Gomes da Silva, Jacintha de Souza Machado, Francisco Antonio Gomes da Silva, Maria Augusta do Pilar, Antonio Joaquim Gomes da Silva, José Antonio Gomes da Silva e Maria Augusta do Rosario, todos menores e desempregados, precisando, como eu, da proteção paterna, que era limitada, porque o foro8, de onde meu pai auferia a nossa subsistência, era incipiente e pouco agitado. Entretanto, meu pai persistia obstinado e tenaz no veemente desejo de me fazer receber ordens sacras. Perante esta situação que não se compadecia com a minha vocação e modo de considerar e encarar a missão do sacerdócio, travou-se, no meu espírito, uma luta ingente9 entre o desejo e o dever da obediência às injunções paternas e a repugnância que votava a carreira eclesiástica. Eu me insurgia contra a perspectiva de uma sotaina 10 , viria amortalhando as videntes esperanças que amanheciam no meu coração juvenil. As minhas fagueiras11 esperanças de, mais tarde, constituir família honrada, que fosse o centro de convergência de todos os amorosos eflúvios12 que borbulhavam de 6

Germana: descendente do mesmo pai e da mesma mãe: irmãos germanos. Verdadeiro, sem adulteração, puro. 7 Obviar: remediar; atalhar. 8 Foro: Tribunal em que se administra a justiça; jurisdição. 9 Ingente (adv.): grande. Usado dos Poetas. 10 Sotaina ou Sotana: vestidura larga e talar abotoada por diante, de que usam os moços na Comunidade. 11 Fagueiras: meigas.


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minha alma sensível e apaixonada, estavam ameaçadas de serem esmagadas pela pedra do altar, como se fossem clausuradas sob a lápida de um túmulo sombrio! Eu era, como até hoje o sou, inimigo irreconciliável do celibato dos padres, como contrário às leis naturais da propagação e procriação da espécie e, por isso, causa eficiente e produtora das grandes imoralidades com que, de contínuo, escandalizam a sociedade. Não desejava imiscuir-me na volumosa cohante dos maus sacerdotes que, salvo poucas e honrosas exceções, tem sido os mais perniciosos inimigos da religião pura e cristalina do Calvário, fazendo dos sacramentos da Igreja mercadorias que vendem, a preço alto, no altar de Deus, convertido por eles em balcão de ignóbil13 tavolagem14. Meu espírito não se submetia a incutir no povo, inculto e crédulo, as falsas noções da existência do inferno e do purgatório, em que jamais acreditei. Assim também repudiava a confissão que eu sabia haver sido instituída como formidável e poderosa clava de Hércules, com que as antigas ordens monásticas avassalavam e subjugavam a consciência do povo ignoro, penetravam e surpreendiam os segredos da família, predominavam espírito dos reis e majestades e locupletavamse 15 à custa das doações e heranças impunemente extorquidas pelas ambiciosas sugestões à sombra do confessionário! Nestas condições e sem saber dar-me a conselho, tive de, 1857, seguir de Pitangui para Dores do Indaiá, acudindo ao chamado de meu pai, que já tinha dado as necessárias providências para a minha reclusão no Seminário de Mariana. Na véspera de minha partida, já tendo feito as minhas despedidas e arranjado as minhas camastras de roupa, entre as quais figuravam a sobrepeliz 16 e a repugnante batina, recolhi-me ao meu aposento de repouso, mas não podia dormir. Considerando no futuro que me antolhava 17 , eu tomei a deliberação de partir para o seminário e, aí, concluir os meus preparatórios, arranjar alguma proteção e conseguir de meu pai o seu assentimento a que eu procurasse me formar em ciências jurídicas e sociais pela academia de São Paulo. Mas, para logo, demoveu-me desse objetivo a seguinte consideração:

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Eflúvios: vapores muito sutis que se exalam dos corpos. Ignóbil: que não possui nobreza; vil; vulgar. 14 Tavolagem: antigamente Casa de Jogo. 15 Locupletar: ocasionar sua própria riqueza; aumentar fortuna; enriquecer. 16 Sobrepeliz: vestidura de lençaria, de que usam os Eclesiásticos e cobre o corpo em roda acima da cintura. 17 Antolhar: fazer com que se afigure algum objeto. 13


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Meu pai era um homem pobre, tinha mais sete filhos a educar, ia fazer sacrifícios inauditos 18 pelo desejo de me ver ordenado. E, desde que eu me não propunha e, antes, repelia essa missão, não era deslealdade de minha parte obrigá-lo a sacrifícios, a despesas pecuniárias19 que poderiam, talvez, aproveitar aos meus irmãos? Resolvi ser leal e franco com ele. Observando que, conquanto fosse tarde da noite, ele se conservava acordado, talvez pelo pesar da nossa separação, porque era extremoso amigo e pai carinhoso, ergui-me do meu leito e pedi licença para uma conferência com sua respeitável pessoa. Ouviu, atento, o meu projeto de formatura em Direito. Conservou-se silencioso por alguns minutos e, depois, sem recriminações, sem objurgatórias

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e nem

acrimônia 21 , respondeu-me: “Que não pretendia torcer a minha vocação, mas que a escassez dos seus recursos o inibia de manter-me na academia de São Paulo, e que eu bem sabia que o dinheiro para o meu primeiro ano de curso no seminário de Mariana já ele o havia tomado a prêmio ao seu amigo cidadão Pedro Ordonhes da Cunha Lara”. Ficou, então, assentado que eu voltaria de novo para Pitangui. No dia seguinte, quando, pela manhã, alguns amigos chegaram a nossa casa para o meu bota-fora, encontraram-me despedindo o camarada e enviando os animais para o pasto. Nesse mesmo ano de 1857, chegava eu a Pitangui e fui, então, residir com meus tios, depois meus sogros, José Julio Alves Corgosinho, irmão de minha mãe, e a professora pública, D. Maria Fulgencia de Oliveira, irmã de meu pai, pelo lado materno. Aí, estabeleci, para ambos os sexos, uma aula de português e música. Entre as alunas que acorriam às minhas disciplinas, encontrava-se minha prima irmã, filha dos meus tios, acima mencionados, que, há esse tempo, contava apenas 11 anos de idade e chama-se Maria Fulgencia de Santa Inéiz, hoje minha esposa. O seu gênio dócil e meigo, a nossa convivência sob o mesmo teto familiar, o interesse e solicitude, com que ela se preocupava do arranjo do meu quarto, da minha roupa e de tudo quanto concernia à minha pessoa, começaram por despertar, em minha alma, sentimentos de gratidão por esta inocente criança que, depois, amei com todas as veras22 do coração e resolvi tomá-la por companheira da minha vida e auspicioso23 anjo 18

Inauditos: nunca ouvidos; de que nunca se ouviu falar. Pecuniárias: relativo a dinheiro; valor agregado. 20 Objurgatórias: mesmo que objurgação. 1. Ação ou resultado de objurgar; 2. Censura ou repreensão áspera, severa. 21 Acrimônia: qualidade de acre; aspereza; atividade. 22 Veras: verdade, deveras, seriamente, na verdade. 23 Auspícios: agouro; direção; proteção; assistência. 19


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do meu lar. Mas, a sua tenra idade e a minha falta de recursos, me inibiam de traduzir em realidade a veemente aspiração que me evoluía dos escrínios24 d’alma amorosa. Eu não tinha emprego. Em 1858, fui nomeado professor de latim e francês da vila de Dores do Indaiá. Não aceitei, porque a esse tempo, minha família já tinha regressado de novo a Pitangui e eu não me submetia a viver em uma terra em que um mandão despudorado e explorador, Ladisláu Francisco Soares, que se animara a casarse com uma octogenária, ignorante, repelente e suja para sugar-lhe a fazenda e os bens, mandara desfechar tiros nas portas da casa do meu pai pelo modo correto e honroso com que repeliu a sua audácia na oferta de 500$000 para meu pai deixar a procuração de uns pobres roceiros, cujos bens o mandão descarado pretendia roubar. Para a efetividade dessa ladroeira, o mandão-gatuno conseguira afastar os outros procuradores forenses mas, como encontrasse repulsa e resistência na honrada correção do meu velho, acertou amedrontá-lo, mandando os Bonifácios, seus capangas, atirar nas portas e janelas da nossa casa. Por este desacato, meu pai, desgostoso, voltou de novo a Pitangui e eu recusei o emprego de professor de latim e francês, cuja cadeira fora criada para a vila. Continuando sem emprego certo e aguardando que minha prima subisse mais em idade, resolvi adiar o meu pedido de casamento. Em novembro de 1859 fiz, então, esse pedido que foi acolhido por toda a família com afetiva e efusão de contentamento. E ficou marcado o dia 16 de janeiro de 1860 para a realização do projetado enlace. Conquanto já eu residisse com meus tios e futuros sogros, desde 1857, conquanto me estremecessem carinhosamente como aos próprios filhos e não tivesse ainda um emprego certo que garantisse a subsistência do meu novo lar, logo que contratei o meu casamento, declarei a minha sogra que, no mesmo dia do meu consórcio, eu desejava pernoitar em minha casa. Foram muitas as sinceras considerações que minha tia externou, no sentido da continuação da minha permanência em sua casa, senão para sempre, ao menos até que eu tivesse rendimento certo e minha noiva mais idade para dirigir nossa casa. Resisti, obstinado. E, no dia 1º de janeiro de 1860, entrei para uma casa que aluguei com alguma mobília, na Rua da Lavagem, ao sopé do morro do Batatal, onde os bandeirantes se arrancharam em 1709.

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Escrínios: pequeno cofre para guardar joias ou outros objetos preciosos.


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Raiou, enfim, o grande dia, longamente sonhado por mim em noites de amor que me fazia referver o sangue das veias. O nosso consórcio se realizou às 5 horas da tarde, do dia 16 de janeiro de 1860, na Igreja Matriz e, à noite desse mesmo dia, depois das festas, com que a família celebrou o famoso acontecimento, a música e todos os convivas acompanharam-nos até a nossa casa, onde pernoitamos eu e minha noiva. Nesse dia, toda a minha fortuna contava e resumia-se em uma cédula de 2$000! E, entretanto, eu me considerava feliz, porque tinha fé em Deus e jamais me faltaram ânimo, coragem, tenacidade e disposição para a luta pela vida – que é a partilha da humanidade. Não tive lua de mel. Eu tinha celebrado contrato com diversos pais de famílias para lecionar aos seus filhos as primeiras letras: contabilidade, português e música. E, do mesmo modo, contratei com o Pe. Mestre Belchior Rodrigues Braga ensinar, no seu colégio, latim e música pelo ordenado anual de 400$000. Logo, na manhã seguinte ao meu casamento, dei aula aos meus alunos particulares, das 7 às 9 horas da manhã; das 10 ao meio-dia, ensinei latim no colégio Padre Braga; de uma hora às 3 da tarde, dei segunda aula aos meus discípulos particulares; das 4 às 5 horas, segunda aula de latim no colégio, onde permaneci durante o recreio dos alunos, que era das 5 às 6 horas da tarde, para dar a minha aula de música que era das 6 às 8 horas da tarde. Era esta a minha tarefa de todos os dias úteis. E com todo este labor atrofiante, eu poderia realizar o ordenado de 800$000 anuais! No intuito de aumentar os meus escassos recursos pecuniários, obtive a nomeação de escrivão de paz e da subdelegacia, cujo exercício abandonei logo pela exata compreensão de que, para atender as exigências do serviço público, eu perturbava a regular normalidade das minhas aulas, nas quais me tornava faltoso, e as custas e proventos do emprego não compensavam os descontos que sofria, assim nas mensalidades dos meus alunos particulares, como no ordenado que me pagava o Padre Braga, diretor do colégio. Em julho de 1860 e quando me achava extremamente fatigado da vida afanosa25 que levava, recebi um convite do meu tio, capitão Bento de Oliveira Barbosa, homem rico, residente no arraial de Sant’ Anna da Onça, a 12 quilômetros da cidade de Pitangui, para incumbir-me exclusivamente do cultivo intelectual dos seus filhos. Oferecia-me o ordenado de 1:200$000 anuais, casa para morar e alimentação no primeiro ano.

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Afanosa: que dá muito trabalho.


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Era uma proposta aceitável nas condições precárias da minha vida. Não tinha ainda respondido, quando, um dia, passando pela casa do honrado major Manoel Bahia da Rocha, advogado e coletor, homem de costumes altivos e que muito preciava os moços diligentes e laboriosos, este me pediu que não aceitasse, por enquanto, a proposta de meu tio, sem declarar-me qual a sua intenção a meu respeito. Cerca de um mês mais tarde, o major Bahia apresentou-se à noite em minha casa e entregou a minha nomeação de escrivão da coletoria de Pitangui em ambas as repartições – Tesouraria da Fazenda e Mesa de vendas provinciais. O coletor Bahia achava-se profundamente desgostoso com o seu escrivão que, além de inepto, era orgulhoso e audaz. A minha vida ocupada e a maneira porque zelava de minha mulher atraíram suas vistas protetoras sobre a minha pessoa, cujo nome, sem me consultar, propôs para os referidos encargos. Tomei posse do emprego em outubro de 1860 e o exerci como escrivão e coletor interino até agosto de 1868, época em que fui demitido, depois da ascensão do partido conservador em julho do mesmo ano, pelo fato de ser eu liberal intransigente e exaltado. Tive a honra de ser o primeiro demitido em portaria separada e não fazer parte da outra celebríssima portaria, em que, de roldão26 e em formidolosa 27 catadupa28 , o presidente da província exonerou, a bem do serviço público, cinco mil e tantos funcionários e autoridades policiais! Edificante! Nomeado escrivão da coletoria, a minha vida começou a deslizar-se mais suave e menos afadigadora. Data de 1861, o início da minha vida política. Eram prestigiosos chefes do partido liberal, na comarca de Pitangui, os inolvidáveis 29 cidadãos de grata e saudosíssima memória, Srs. Francisco Cordeiro dos Campos Valladares, Frederico Augusto Alvares da Silva e Francisco Alvares da Silva Campos (Cucuta), digno irmão do grande e impertérrito30 Sr. Martinho Campos, o oposicionista crônico, o espantalho dos conservadores, o terror dos ministros incorretos. Desde a minha mais tenra idade, aqueles ilustres chefes acolhiam-me com extrema bondade e com cativadora gentileza. Estava próxima uma eleição quando, passando eu em frente do sobrado do Sr. Valladares, este que se achava à janela, convidou-me a entrar. 26

Roldão: confusão; precipitação. Formidolosa: que mete medo. 28 Catadupa: salto de água com estrondo de algum lugar alto; cachoeira; catarata. 29 Inolvidável: que não se olvida não se esquece; inesquecível. 30 Impertérrito: É a pessoa não adaptada no seu lugar onde deva estar, podendo ser sua morada, ou outro lugar como seu trabalho. 27


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Uma vez recebido em sua sala de visitas, ele me disse:  Que estava convicto de que eu seria um eficaz auxiliar do partido liberal e que a sua intuição augurava-me31 brilhante carreira política, em futuro não remoto. Agradeci ao emérito chefe a sua confiança e as gentis amabilidades com que me nobilitava32 e aceitei a missão que, então, me propôs, de ser um dos mesários do seu partido nas próximas eleições a se realizarem. De então por avante, jamais recusei a contribuição do meu esforço, da minha atividade e dos meus serviços à causa do partido, em que me inscrevera, soldado apenas. No mesmo ano de 1868, o magnífico templo de Nossa Senhora do Pilar, oráculo da velha serrana, começou a preocupar seriamente a atenção dos pitanguienses que receavam ver desaparecer em ruínas aquele sublime conjunto de belezas e de aprimorado trabalho. Por iniciativa do Sr. José Xavier da Silva Capanema, criou-se, então, a sociedade União Pitanguiense que empenhando sacrifícios inauditos 33 , reedificou o majestoso templo com a avultada despesa de 96:000$000, obtida por subscrição particular, exceção feita unicamente da quantia de 10:000$000, subvenção da assembleia mineira por intermédio do deputado Sr. Frederico Augusto Alvares da Silva. Fui um dos sócios fundadores desta sociedade perante a qual exerci, por algumas vezes, o cargo de secretário interino. Em 1863, o governo britânico dirigiu ao imperial brasileiro sérias e ameaçadoras reclamações relativamente a questão – Prince of Wales e Forte34. 31

Augurar: fazer um presságio, predizer, profetizar. Fazer votos (para que algo se realize), desejar: auguro-lhe brilhante carreira. 32 Nobilitar: dar foros e privilégios de nobreza a; enobrecer. Exaltar, engrandecer, celebrar. 33 Inauditos: nunca ouvidos; de que nunca se ouviu falar. 34 No ano de 1861, o diplomata britânico William Dougal Christie reclamou sobre o desrespeito do Estado brasileiro a uma lei de 1831 que determinava a libertação de todos os negros que chegassem ao Brasil. No ano seguinte, sem obter resposta satisfatória, o navio britânico Prince of Wales naufragou no Rio Grande do Sul e teve a sua mercadoria tomada por terceiros. Aproveitando do incidente, Christie exigiu que o governo imperial brasileiro indenizasse a Inglaterra pelo prejuízo e que um oficial inglês acompanhasse toda a investigação do caso. Em 1862, quando o caso do navio ainda era discutido, um grupo de oficiais da marinha inglesa foi preso por cometer uma estrondosa arruaça no Rio de Janeiro. Mediante o novo incidente, apesar da soltura imediata dos oficiais, William Christie exigiu que a indenização das cargas fosse paga, os oficiais brasileiros envolvidos na detenção fossem exonerados e que houvesse a realização de um pedido de desculpas oficial do Governo Imperial Brasileiro. Não aceitado tais imposições, o diplomata inglês exigiu que embarcações inglesas apreendessem cinco navios brasileiros que estavam ancorados na Baia de Guanabara. Visando solucionar o caso, Dom Pedro II convocou o rei da Bélgica, Leopoldo I, para arbitrar a questão e devolveu o dinheiro referente ao roubo das cargas. Com isso, o monarca belga decidiu em favor dos brasileiros e determinou que o tal pedido de desculpas fosse dado pelos ingleses. Sem obter resposta da Inglaterra, o Brasil acabou rompendo relações com a Coroa Britânica. O problema só chegou ao fim em 1865, quando os ingleses reconheceram seu comportamento intransigente. Disponível em: http://www.brasilescola.com. Acesso em: 19 set. 2013.


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Os pitanguienses correram, pressurosos35, ao apelo da pátria ameaçada e a 2 de fevereiro do dito ano, reunidos no paço municipal, criaram a sociedade Amor da Pátria, cujo fim era criar e reunir os recursos do município, a fim de auxiliar o governo imperial nos meios de defesa contra as hostilidades que, porventura, surgissem por parte da Inglaterra. Fui sócio fundador e, mais tarde, secretário e presidente interino desta sociedade. Em abril de 1864, nasceu a minha primeira filha que ao receber as águas lustrais do cristianismo, recebeu o nome de Elvira, perante os paraninfos Major Manoel Bahia da Rocha e minha tia e segunda mãe, D. Victorianna Jacintha de Souza Machado. No dia 7 de fevereiro de 1865, espalhava-se na cidade a notícia de que Paysandu caíra prostrado pelo valor indomável de nossas forças no Rio da Prata. A municipalidade pitanguiense reuniu-se e se congratulou com o povo fremente 36 de entusiasmo. À noite, reuniu-se a sociedade Amor da Pátria ao som entusiástico da nossa excelente banda de música, perante grande e alegre concurso de sócios e com a assistência de quase toda a população da cidade. Bravam, com eloquência e patriotismo o digno presidente da sociedade, Sr. Frederico Augusto Alvares da Silva e os Srs. Hygino Silva e José Maria Vaz Pinto Coelho. Foi eleita a comissão encarregada de promover o alistamento de voluntários e uma subscrição municipal. Esta comissão ficou composta do mesmo Sr. Vaz Pinto e do benemérito rio-grandense, tenente Pedro de Azevedo Souza Filho, tesoureiro da sociedade. Em ofício de 3 de fevereiro de 1865, o Desembargador Pedro de Alcantara Cerqueira Leite então, Presidente de Minas, dirigindo-se ao presidente e secretário da sociedade Amor da Pátria, os cidadãos Sr. Frederico Augusto Alvares da Silva e Joaquim Antonio Gomes da Silva, cientificou-lhes:  Que autorizado pelo governo de S. M. o Imperador, os louvava e aceitava a quantia de 2:110$000 que como membros da sociedade Amor da Pátria, ofereceram ao mesmo governo para as despesas do Estado e, nessa referida data, transmitiu a sociedade o seguinte aviso do Ministério da Guerra.  “N° 13: 1ª Diretoria Geral – 1ª seção – Rio de Janeiro – Ministério dos Negócios da Guerra, em 11 de fevereiro de 1865.

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Pressurosos: com muita pressa; apressado; impaciente; irrequieto; cuidadoso; solícito. Fremente: agitado, trêmulo. Comovido agradavelmente. Que faz ruído como o mar, o vento, etc.


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Ilmo. e Exmo. Sr. Comunicando-me V. Exa. em seu ofício datado de 3 do corrente, sob n° 14, que a sociedade Amor da Pátria, estabelecida na cidade de Pitangui, ofereceu para as urgências do Estado, a quantia proveniente de uma subscrição que promoveu por ocasião do conflito havido na Corte com alegação inglesa, na importância de 2:110$000 e bem assim os prêmios vencidos no Banco Mauá, onde se acha depositada. E tendo já V. Exa. expedido as necessárias ordens para o recebimento da referida quantia, declaro a V. Exa. , para o seu conhecimento e para o fazer constar a mesma sociedade, que o governo louva e agradece o seu patriótico oferecimento. Deus guarde a V. Exa. Henrique de Beaurepaire Rohan, Sr. Presidente da Província de Minas.” Graças aos infatigáveis e patrióticos esforços do ilustre tesoureiro da sociedade, tenente Pedro de Azevedo de Souza Filho, do dia 7 de fevereiro a 21 de março, inscreveram-se 52 voluntários, muitos deles pertencentes às principais famílias da localidade. Com avultado número de pessoas gradas reuniu-se, no paço municipal, na noite de 19 de março, a sociedade Amor da Pátria para ouvir o Hino dos Voluntários de Pitangui, música de minha composição e poesia do Sr. Vaz Pinto. Na noite de 22 de março de 1865, houve no mesmo paço municipal sessão solene, imponente e majestosa, na qual a sociedade Amor da Pátria, comovida e grata, ia estreitar em saudoso amplexo 37 de despedida, os generosos feitos dos bravos voluntários de Pitangui e receber das níveas38 mãos da distinta jovem, D. Rosinha, filha do digno tesoureiro, tenente Azevedo, a riquíssima bandeira que a gentil pitanguiense, por intermédio da sociedade, ofereceu aos voluntários do seu berço querido. Fui o orador oficial dessa sessão solene, em que também falaram o digno presidente da sociedade o Sr. Higyno Silva e os consócios José Carlos Barbosa, José Soares da Silva e o Sr. Vaz Pinto que leu uma poesia patriótica e inspirada. Ficou nomeada a seguinte comissão para a entrega da bandeira aos voluntários: 1. – Sr. Vaz Pinto; 2. – Tenente Pedro Azevedo; 3. – Gomes da Silva; 4. – Leonel Pereira da Fonseca; 5. – Major Antero Alves da Silva.

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Amplexo: ação de abraçar; abraço. Níveas: relativo à neve; em consequência da neve.


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Às 10 horas da manhã do dia 24 de março, os habitantes da velha serrana correram sôfregos e cheios de patriotismo à porta da residência do tenente Azevedo, onde ia ter logo o ato solene da entrega da bandeira aos briosos voluntários que, formados em linha e em atitude heroica e desassombrados, ostentavam-se verdadeiros descendentes de Domingos Rodrigues do Prado, o democrata de 1715. Depois da execução do Hino Nacional, nós da comissão, trazendo a nossa frente a jovem D. Rosinha que, vestida de índio para simbolizar o gênio do Brasil, empenhava o pavilhão dos voluntários, lhes oferecemos o riquíssimo estandarte, depois de um discurso monumental, patriótico e eloquentíssimo, proferido pelo Sr. Vaz Pinto, orador da nossa comissão. Acima do horizonte levantou-se o sol de 25 de março de 1865, o dia da partida, o dia das saudades, o dia das lágrimas! Depois de ouvirem a missa do dia, dirigiram-se os voluntários para a Rua de Baixo e, formados a porta do tenente Azevedo, acudiram a chamada, não deixando de comparecer nenhum dos 52 voluntários. Então, o tenente Azevedo, com paternal bondade, entregou a cada um deles 100$000, para despesas de viagem e, abraçando-os, um a um, proferiu, ao ouvir-se a voz da partida, as seguintes notáveis palavras:  “Bravos voluntários da pátria, o anjo do Brasil vos vai mostrar o caminho da vitória!” Pusemo-nos todos em marcha precedidos do gênio do Brasil, da banda de música, acompanhados por mais de duzentos cavaleiros. Ao atravessarem as ruas viam-se pelas janelas, pelas frentes das casas, pelas esquinas, largos e praças, homens, mulheres e crianças com as faces inundadas de lágrimas que as saudades de seus filhos, esposos, irmãos, amigos e parentes faziam copiosamente correr. Os voluntários, de passagem, agitavam seus lenços em sinal de despedida e o povo, soluçando, correspondia a esse ato tocante. A onda popular apinhava-se aos lados do caminho até fora da cidade a grande distância, onde teve lugar a despedida. O que aí se passou não há linguagem que exprima! Nesse ato e a pedido dos voluntários, o Sr. Vaz Pinto, usando da palavra, expressou ao Tenente Azevedo a profunda e inolvidável gratidão dos voluntários que, diante do seu patriotismo, depositaram seus corações reconhecidos. Separamo-nos, por fim.


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A todos estes atos eu assisti no tríplice caráter de secretário da sociedade Amor da Pátria, de membro da comissão da entrega da bandeira e de alferes secretário (que, então, já o era) do Batalhão da Reserva, no qual fora qualificado na qualidade de inspetor do primeiro quarteirão da cidade, por nomeação do delegado de polícia do termo, capitão José Nunes de Carvalho. Em dezembro de 1865, achava-me na velha e legendária capital de Ouro Preto, em companhia do meu compadre e amigo, o coletor Major Manoel Bahia da Rocha, a quem, por gratidão, acompanhei gratuitamente a fim de auxiliá-lo na sua prestação de contas. No dia 18, tomou posse de presidente da província o venerando democrata Saldanha Marinho, de grata e saudosa recordação. Convidado pelo diretor Modesto Santa Rosa para auxiliar a sua corporação musical no Te - Deum39 por ação de graças em relação a esse fato, achava-me na Igreja do Carmo, executando a parte de oficleide 40 , justamente no momento em que, em Pitangui, minha mulher e meus parentes, transidos de dor cruciante, carpiam a morte de minha estremecida primogênita, que acabara de morrer de sarampo. Tive notícia da morte da minha Elvira, na contagem das abóboras, quando eu e o coletor regressávamos de Ouro Preto. A paixão que atuou em minha e a apreensão que invadiu o meu espírito, receando pelo estado de minha mulher que estava grávida, me determinaram a abandonar os companheiros de viagem e seguir com marchas forçadas e quase ininterruptas em demanda do meu lar desolado. Agradeci o almoço que nos preparara e viajei só 18 léguas, por assim dizer, com um pequeno descanso, em casa de meus pais na vila do Pará, onde o meu velho tinha, então, a sua residência provisória, convidado que fora para dirigir os negócios forenses e o governo municipal daquela vila, recentemente criada. Cheguei ao seio da minha família às 11 horas da noite. É fácil aquilatar-se das agruras que, nesse momento, se incrementaram a me estortegar41 o coração de pai extremoso, como se triturado fosse por um guante42 de ferro!

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Te – Deum: Cântico católico em ação de graças iniciado pela expressão “Te Deum laudamus"; HINO AMBROSIANO. 40 Ophicleide (Oficleide): instrumento musical de sopro, de som grave, forte e de aproximadamente 3 oitavas de extensão sonora. 41 Estortegar: torcer entre os dedos, deslocar. 42 Guante: luva de ferro na armação antiga.


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Em 27 de fevereiro de 1865, me foi dirigido pelo Presidente da Província, Dr. Pedro de Alcantara Cerqueira Leite, o seguinte ofício: “– Quarta Secção – Louvo, agradeço e aceito o oferecimento que V.m.cê faz de 5% de suas comissões como escrivão da coletoria de Pitangui para as despesas da guerra.” x x

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Em 8 de Junho de 1866, nasceu, em Pitangui, a minha segunda filha Eugenia Ernestina Esmeralda. Nesse mesmo ano, por iniciativa minha, criou-se na velha serrana, uma sociedade musical sob os mais auspiciosos e promissores auspícios43. Inscreveram-se como sócios as pessoas mais gradas da cidade. A direção da banda e das aulas musicais da sociedade ficaram a meu cargo. x x

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Em 1867, já tinha eu produzido algumas defesas perante o júri e com bom resultado. Nesse mesmo ano e as instâncias do meu bom e generoso amigo, Sr. Frederico Augusto Alvares da Silva, resolvi dedicar-me a vida forense e, por isso, o juiz municipal substituto, cidadão Joaquim Cecilio dos Santos, conferiu-me a nomeação de solicitador do seu Juízo por portaria de 7 de outubro do mesmo ano. Nesse mesmo dia, prestei juramento, tomei posse e entrei em exercício pelo tempo de um ano, mas em 30 de outubro, o Presidente da Relação, Desembargador Antonio da Costa Pinto, expediu-me provimento, por tempo de três anos, para exercer o ofício de solicitador dos auditórios do termo de Pitangui. Prestei juramento em 5 de novembro de 1867. x x

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Em 1868, com a ascensão do partido conservador ao poder, fui demitido do emprego de coletor interino do município, como acima disse. Esta demissão produziu algumas dificuldades na minha vida, porquanto fiquei unicamente reduzido aos proventos das lides do foro que, além de ser pouco agitado, era trabalhado por muitos advogados, como fossem o Sr. Martinho Contagem, Cap.m José Nunes de Carvalho, José Soares da Silva, Alexandre Pereira da Fonseca e outros.

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Auspícios: agouro; direção; proteção; assistência.


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Nesta contingência me vi obrigado a recorrer a vida do comércio, abrindo um pequeno negócio de molhados, armarinhos, ferragens, louça e gêneros do país, a cujas mercadorias adicionei, posteriormente, um pouco de fazendas e roupas feitas e, de novo, voltei à vida do magistério, mantendo em minha casa uma aula particular de português, francês e música. Mas não me iam a vocação e o gênio para a vida comercial. Era fácil em fiar as minhas mercadorias e, se um fintador, reconhecidamente evidenciado na sociedade, me procurasse para comprar a prazo, dizendo-me que tinha a mulher ou os filhos guardando o leito das moléstias e sem recurso algum, levava tudo quanto desejasse. Deste estado de coisas e do abatimento do comércio de então, resultou que comecei a sentir embaraços financeiros que determinaram minha ida ao Rio de Janeiro, em 1870, para procurar colocação mais animadora. Na minha ida, passei pela Vila do Pará, onde ainda residiam meus pais, a fim de despedir-me e pedir-lhes a sua benção. No Rio, tive promessa de colocação como viajante comercial o que, mais tarde, se realizou, como adiante se verá, e obtive a porcentagem, algumas liquidações para eu realizar em Pitangui e nas localidades circunvizinhas em um perímetro de 33 léguas. No meu regresso, não passei mais pela Vila do Pará, onde havia deixado toda a família de meu pai com saúde e sem novidade alguma e, por isso, ao chegar ao bairro denominado Santo Antonio, subúrbio da cidade, surpreendi-me ao encontrar meu mano Francisco, levando uma comitiva, entre cujos animais, ia um arreado com cilhão. Meu mano, ao avistar-me, debulhou-se em copiosas lágrimas e, afogado em soluços, não podia articular palavra.  Que aconteceu? Aonde vai? – perguntei-lhe sobressaltado, adivinhando alguma desgraça.  Vou ao Pará buscar nossa mãe – respondeu.  Mas, por quê?  Nossa irmã, a Nhá (Maria Augusta), está a expirar e nosso pai, que foi chamado, já se acha na cidade.  Mas, que veio fazer a Nhá na cidade se na minha ida para o Rio, deixei-a no Pará?  O Isahias Gonçalves dos Reis pediu-a em casamento, que desejava se realizasse logo e ela veio para casar-se, mas caiu no mesmo dia, com febre tifoide e os médicos a desenganaram.  Onde está ela?


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 Em casa da Tia Victorianna, onde deixei também tua mulher. Separamo-nos e eu, transido44 de dor, fui apear-me a casa daquela tia, seria onze horas da manhã. Minha irmã há três dias, delirava incessantemente. Era um delírio alegre: cantava, ria, rezava, conversava e tentava a todo o momento abandonar o leito. Ao avistar-me penetrando no quarto, como que a sua razão gozou de um momento lúcido: estendeu-me ambos os braços, estreitou-me com veemência em carinhoso amplexo e seus lábios, que desfolhavam um sorriso prazenteiro, articularam estas frases:  Graças a Deus! Vieste e agora não caso mais! Continuou depois a delirar até 11 horas da noite, em que eu, genuflexo 45 diante do seu leito, recebi o seu último suspiro! Minha irmã era uma moça de 22 anos, esbelta, alegre, ativa, de uma virilidade sanitária vidente e promissora. Ia casar-se a contragosto e só em obediência as imponentes e desarrasoadas exigências e vontade de parentes que trataram de apressar o consórcio em minha ausência, porque sabiam que eu não consentiria nessa união, a todo ponto, desigual e inconveniente. E foi, por essa razão, que a pobrezinha, ao avistar-me, sorriu e se declarou:  Vieste e agora não caso mais! Era bom cidadão Isahias Gonçalves dos Reis, mas era viúvo, sexagenário e tinha perdido toda família, composta de sete pessoas, vitimada por terrível tuberculose. No físico era um homem desgracioso: pernas extremamente curtas, corpo rotundo46 e anafado47, abdômen protuberante, rosto grande e sempre vermelho, como se tivesse sob a influência dos vapores alcoólicos. Não era, com certeza, um noivo com que sonhasse uma moça em pleno vigor da beleza e das potências físicas. No dia imediato ao passamento de minha irmã fiz a minha custa, o seu funeral com um concurso numerosíssimo de povo de todas as classes sociais. E o que mais prendia a atenção e ameigava a nossa desolação era ver os mendigos da cidade, como que corporificados em um só homem, acompanhando o féretro e, entre lágrimas e soluços, lastimando o passamento da sua protetora.

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Transido: esmorecido; debilitado; fraco. Genuflexo: ação de ajoelhar. 46 Rotundo: redondo, esférico. 47 Anafado: bem nutrido, gordo. 45


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E tinham razão. Minha irmã era dotada de uma alma archi-angelica, generosa, altruísta e caridosa, como quem mais o fosse. Trabalhava a semana toda nas suas costuras, nos seus envehtes, nas suas quitandas para nos sábados distribuir a coleta dos seus trabalhos pelos pobres que lhe vinham esmolar a porta. E, se alguma vez o seu labor semanal não frutificava, ela, na sexta-feira, tirava da sua volta de ouro algumas contas que mandava vender aos ourives, a fim de não ver os seus pobres se retirarem sem algum óbulo48, diminuto que fosse. Deus, com certeza, amerceou-se 49 dessa alma adamantina 50 e condolente que soube traduzir a justa o humanitário preceito de Victor Hugo, quando disse: − “O melhor altar é o coração de um pobre agradecendo o benefício recebido”. Quase ao sair o préstito51 fúnebre, já reunidos os padres, música, irmandades, virgens, anjos e povo, chegou do Pará minha velha e santa mãe que, penetrando na câmara funerária, louca de dor, desgranhada e vertendo copioso pranto teve, apenas, tempo de abraçar, beijar e abençoar a filha que se foi para jamais voltar. Esta cena contristou52 a todos os circunstantes, por cujas faces se deslizavam lágrimas de dó e de verdadeira compaixão. Os dias que se seguiram foram, por demais, acerbos53 e amargurados para toda a nossa família e grande parte da população que estremecia a virtuosa finada. x x x Em 1871, minha mãe enfermara e, com meu mano Antonio e minha irmã Maria do Rosario (Neném), viera residir comigo para cuidar de sua preciosa saúde arruinada. Meu mano José havia falecido de febre, na Vila do Pará e meus manos João, Francisco e Jacintha (a Vida), já se tinham casado. Meu pai ficara no Pará concluindo algumas questões forenses confiadas ao seu patrocínio de advogado. Viera no fim do ano, mas também, doente e ameaçado de hidrotórax 54. Foram morar em casa próxima a minha na rua denominada Olaria.

x 48

Óbulo: segundo a Maçonaria é um donativo entregue por cada um dos maçons para obras de beneficência. 49 Amercear: fazer mercê; comutar a pena de; apiedar-se; comiserar-se; compadecer-se. 50 Adamantina: termo usado para definir a qualidade do Diamante, em especial a dureza e a pureza. 51 Préstito: procissão, cortejo, marcha solene. 52 Contristou: causou tristeza. 53 Acerbos: de sabor entre amargo e azedo. 54 Hydrothorax (Hidrotórax): Doença, caracterizada por opressão do peito, produzida por pleurisia ou por simples pontada.


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x x Em fevereiro de 1872, recebi do meu bom e dedicado amigo, Thomé de Andrade Vilella, uma carta convidando-me a ir com urgência ao Rio, pois que tinha conseguido uma regular colocação comercial para ser entregue ao meu trabalho e atividade. Tratei de vender o meu negócio e ultimar negócios forenses, de que me achava incumbido e, no dia 21 de abril de 1872, parti para a Corte. Antes, porém, de fazê-lo, deixei uma ordem ao honrado comerciante João Cesario Fernandes para acorrer a manutenção e necessidades de minha família e ao negociante, Ignacio José Barbosa, uma outra, no mesmo sentido, com relação a meus velhos pais, que eu não podia e nem devia deixar doentes e sem recursos que obviassem as suas precisões. Chegando ao Rio, empreguei-me como viajante comercial da firma – Miranda Villela & Cia e como liquidante da casa de Francisco Luiz de Andrade, que passara a pertencer a seu padrasto, o honrado Sr. Domingos Theodoro de Azevedo que havia pagado aos credores do referido Francisco Luiz, seu enteado. O velho era aflito e nervoso e, por isso, encarregara a Thomé Vilella de arranjar pessoa idônea que liquidasse, com máxima urgência, a massa que havia recebido sem que ele, em tempo algum, se preocupasse de semelhantes negócios. Compreendi, desde logo, que a minha viagem seria demorada, senão pela casa de Miranda Vilela & Cia, com certeza, para atender as exigências do velho Azevedo que nunca vi e com quem jamais me entendi em todo o tempo em que tratei da sua liquidação. Comecei a minha excursão comercial pela Província do Rio, de onde passei para a de São Paulo, cujo território percorri por espaço de oito meses quase que só a cavalo, porque a estrada de ferro do Rio a São Paulo chegava apenas a Barra Mansa, interrompendo-se em longa solução de continuidade até Campinas, de onde prosseguia em demanda da capital paulista. Entrei depois na província de Minas, viajando todo o sul, o oeste e grande parte do norte, de onde procurei o Rio e, de lá, a minha casa, em Pitangui, onde cheguei a 13 de julho de 1873. Viajei, portanto, ininterruptamente 15 meses, menos 8 dias. Quando no Rio e depois de prestar minhas contas, pedi aos meus patrões Miranda Villela & Cia dois meses de licença para repousar no seio de minha família. Concederam-me de bom grado. Em outubro de 1873, fui de novo chamado ao Rio e, uma vez ali, Thomé me declarou:


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− Que eu era um empregado merecedor de bom ordenado que, entretanto, não podia pagar-me, porque a sua casa era de molhados e tinha cessado o auxílio do velho Theodoro de Azevedo, cuja liquidação já eu havia terminado, mas que tinha conseguido empregar-me na casa de fazendas do Sr. Lima, Costa & Baptista, comerciantes de irrepreensível integridade moral e casa abastada e de notável crédito na praça do Rio. Nesse mesmo dia, apresentou-me ao chefe da firma, o honrado sócio capitalista, Coronel José Antonio de Souza Lima que, posteriormente revelou-se um dos meus melhores amigos e diante de cuja memória me curvo respeitoso e reconhecido a tantas provas de estima e consideração que me dispensou, quando seu empregado e, posteriormente, auxiliando-me com eficácia na minha carreira política. Fez-me o ordenado de seis contos de réis (6:000$000) ao ano e arranjou-me liquidações das casas Laport e outras que davam-me, anualmente, um conto de réis, mais ou menos. O coronel Lima morava na fazenda de Santa Cruz, em São João Nepomuceno, de Lavras. Era um homem de uma inteligência nítida e fulgurante e de uma atividade inigualável. Se tivesse tido um cultivo regular, poucos homens o excederiam. Comecei a minha jornada comercial. Tinha uma correspondência dupla, comunicando regularmente o movimento dos negócios a meu cargo não só a casa, no Rio, como a ele em sua fazenda, onde o coronel Lima tinha, com relação à casa comercial, uma escrituração, se não tão caprichosamente desenhada, como a do guarda-livros, ao menos mais exata, como tive, por vezes, ocasião de verificar. No fim de todos os anos, reuníamo-nos no Rio, em dezembro, por ocasião do balanço, findo o qual o coronel Lima regressava logo a sua fazenda e eu ficava na Corte, aguardando a extração das contas para nova excursão. E fosse qual fosse o itinerário que eu houvesse de seguir, ele não consentia que eu iniciasse a minha viagem, sem passar em sua casa para o minucioso exame e conferência das contas a meu cargo. Tive, por vezes, ocasião de admirar a lucidez e fidelidade da sua bem-tratada reminiscência55. Lia-lhe uma conta, ele ria e exclamava: − Aquela gente está maluca! Este freguês deu tanto em tal data ou reformou em data de tal – e fazia outras considerações que provava imediatamente procurando a sua escrita particular. Reformávamos a conta. 55

Reminiscência: recordação do passado, memória, lembrança.


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x x x Nesta segunda excursão comercial, visitei a importante cidade do Jaguari (Camanducaia), no sul de Minas, limítrofe de São José dos Campos, do Estado de São Paulo. Aí, tive o prazer de conhecer e iniciar relações amistosas com o respeitável major Bento Escobar que, desde logo, cumulou-me de fidalgas gentilezas e honrosos testemunhos de estima e consideração. Era ele o digno Venerável da Loja Maçônica Local. Para obedecer ao veemente desejo que externava de me ver inscrito entre os obreiros da sua respeitável oficina, ao Vale do Jaguari, resolvi iniciar-me e tive ocasião de sorificar que aludida oficina era composta do pessoal mais grado do município e circunvizinhança, tendo por seu orador o inteligente e probidoso 56 padre Caramuru, digno vigário de Cambuí. O major Escobar mostrou-se tão jubiloso da minha iniciação que, nessa noite, ofereceu-me um baile em sua casa. Era rigoroso na observância do ritual maçônico. E, por isso, seria 11 horas da noite, quando se terminou a sessão e as moças já se arrepelavam57 de impaciência pelo desejo de ver começar o baile que correu animadíssimo e com as mais videntes expansões de harmonia, até cerca de quatro horas da madrugada. Todos os convivas e suas famílias se portaram para comigo de uma gentileza franca e acariciadora como se eu fosse um habitué das suas diversões ou um parente dos mais estremecidos. Pela madrugada e antes da última contradança, um inteligente jovem parente do major Escobar, dirigiu-me uma saudação, concluindo por oferecer-me um outro baile, em nome do belo sexo, na noite seguinte e no mesmo salão da casa do major Escobar. Este segundo baile correu com o mesmo ardor e cordialidade do primeiro. Era tarde da noite quando usei da palavra para agradecer o generoso e nobilitante58 acolhimento que me fora dispensado e, a meu turno, ofereci ao belo sexo um terceiro baile nos mesmos salões. À noite, quando saía do hotel para o baile, disse ao meu camarada:

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Probidade: bondade, integridade de caráter, honradez. Arrepelavam: Puxar (os cabelos). Arrancar (pelos, penas). Beliscar. 58 Nobilitante: dar foros e privilégios de nobreza, enobrecer, exaltar, engrandecer, celebrar. 57


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− Ainda que o baile de hoje se prolongue até a madrugada, viajaremos amanhã, porque não tenho mais serviço no lugar e não costumo falhar por mero desfastio59. Quero os animais cedo. Parecia que o terceiro baile devesse correr desanimado e frio, ressentindo-se da fadiga dos dois precedentes, mas deu-se justamente o contrário. A alegria que transudava dos semblantes de todos os convivas, o entusiasmo que se notava no belo sexo, a franca e vidente convivência que tornava de curta duração as horas que se escoavam, por assim dizer, imperceptíveis, fizeram desta diversão familiar um conjunto de inebriantes contentamentos que nos saturam a alma até às 5 horas da manhã. A esse tempo, reiterei novos agradecimentos aquela seleta sociedade, a qual, cheio de saudades, apresentei as minhas despedidas. Ao chegar ao hotel, já os meus animais recebiam a costumada ração. O camarada perguntou-me: − Viajamos, patrão? − Viajamos, sim, respondi. Mas, deixa-me dormir um pouco e acorda-me quando o almoço estiver à mesa. Depois do almoço e já prestes a partir, recebi do major Escobar um cartão, em que me pedia esperar um pouco porque diversos amigos desejavam acompanhar-me até fora da cidade.

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Desfastio: aquilo que distrai, entretém, entretenimento, distração, divertimento.


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Dicionários Consultados

PINTO, Luiz Maria da Silva. Diccionario da língua brasileira: 1775-1869. Digitalização: BRASILIANA USP. Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br. Acesso em 05 mar. 2013. 7GRAUS – DICIO. Dicionário Online de Português: definições e significados de mais de 400 mil palavras. Todas as palavras de A a Z, 2009. Disponível em: http://www.dicio.com.br/. Acesso em 10 mar. 2013. LEXIKON EDITORA DIGITAL. Dicionário Caldas Aulete. s/d. Disponível em: http://aulete.uol.com.br/. Acesso em: 05 mar. 2013. INFORMAL. Dicionário inFormal. 2006. Disponível http://www.dicionarioinformal.com.br/. Acesso em: 05 abr. 2013.

em:

NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA. Dicionário Nossa Língua Portuguesa. s/d. Disponível em: http://nossalinguaportuguesa.com.br/. Acesso em: 15 abr. 2013. DICIONÁRIO WEB. O Seu Dicionário Online. www.dicionarioweb.com.br/. Acesso em: 15 mai. 2013.

s/d.

Disponível

em:

Autobiografia Inconclusa de Senador Gomes de Silva - Texto decifrado.  

História e Cultura da Água em Frutal

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