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Cartas para anos mortos

Hildeberto Abreu Magalh達es 2005/2006


O LOUCO “Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, escondem o horizonte. Empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, e tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.” Alberto Caieiro (aka Fernando Pessoa)

Enquanto chega amanhã, esqueço do que ficava pensando, quando dormia, mais tarde que esperando raiar o dia, noturno aconchego de quem espera pelo pior, do que traz o sol. Não quero crescer mais que a ponte, nem traduzir reclamos insaciáveis; apenas espero, que as tendências involuntárias acabem, de uma hora para outra, que os instantâneos refuguem... Antes que atordoem finalmente o cântico, espera tranqüila de um fogo inevitável; acompanhe o sátiro mesmo que não haja identidade, como nós, ¿ pois como pode cunhar seu dedo (datilo), direito ou esquerdo, sem cantar o afago do meso-apocalíptico?... 07/01/05


O MAGO

“Diante de torturas inevitáveis, calamos como miseráveis austeros, papa na língua, que não deixa, de forma alguma, regozijo aparente...” Hilam

Começar no aniversário outra busca incessante pela cura do último mal descoberto, deitar ao solo argiloso, para enlamear a próxima imagem da bendita humanidade repressora: uma imagem sem vísceras, escondidas ou à mostra, uma entidade pura de sujeira aparente, mas que escondendo sua porra de sujeira, avental de seda para cobrir aquele pau duro-feio. Se ninguém percebeu consigo, não consiga loucuras sozinho; porque pensamos tão alto; a ponto de ouvirmos nossa pouca vontade disso tudo ser real e conosco... Esperar. Pelo fim. Esperar pelo começo do fim: e perceber quando realmente chegar, se instalar o final de nossas poucas horas(heras). Me ame, minha princesa até o fim do tempo; nos realizaremos numa maldita canção de fim de tarde, submissão ao nosso mesmo pai eterno... 09/01/05


A SACERDOTISA “Quase que se passou a história que sonhei, imaginei ontem, se bem que não lembro...” Hilam

Brava resistência nessa melodia que toca agora, não importa quem perdeu o primeiro bonde, quem carrega numa corrente seus principais martírios, divididos em belas secções transparentes, marcando presença no próximo entardecer, enlouquecendo os parentes próximos, enaltecendo os mortos, epopéia quase burlesca, libertar o espírito roberto; chorar porque a morte está tão próxima de nós, e a vida, mais próxima ainda, cada vez mais áspera, estarrecendo menos desavisados. Menos um arco-íris não fará você se perder... Concupiscência do olhar puro, ouvindo a chave; pouca combustão não suficiente queimará as carnes expostas a essa fonte; energia pura e quente, satisfaz qualquer esquina ou estátua. Não há nenhum motivo, hilam, pra te envergonhares de tuas lágrimas; a vida é louca e é malandragem em si; tomara que nos errem, e acordemos sempre a tempo de não (a)bater(nos). 14/04/05


A IMPERATRIZ As estradas já têm um caminho marcado, sulcos volumosos por onde realmente trafegam a grande maioria; nossa cultura é preparação, terraplanagem, dulcificar as pedras e sais. O amor verdadeiro transforma-se na posse de um ou mais momentos, mementos, fotografias mentais, que fixam sentidos boquiabertos; anulam até mesmo αλετεα (alethea, a retirada do véu)... Perder-se é não obedecer à ordem para acender ou apagar, não compreender nada que seja apenas duálico; pois essa submissão altera a capacidade onívora-eficaz de compreender linguagens até mais complexas, mas econômicas e perfeitas para nossa síntese; pois não, se não me compreende pelo menos reconheceu todos os símbolos usados até aqui. Quer dizer, vocabulário ajuda demais, mas não é o suficiente... Não quero provar nada ao leitor, mas quero sentir tudo como se fôra agora e provar (saborear) o sentido do uno-responsável, e extremamente quieto, em repouso... quase (ar) absoluto! 04/03/05


O IMPERADOR Não sei onde as trilhas podem me levar, mas me deixo enganar por quase todas elas, pelo menos as mais simpáticas, com árvores frondosas, ou pedras iluminadas, ou o céu que está convidando a passeio (escondendo o sol); não consigo a decisão porque não me chega a crise, crista de realidade que assume um próximo passo seu, no eterno jogo vai-e-vem... Mudar a bebida no meio da noitada, tragar um cigarro mais forte, fingir solidão no meio de uma grande festa. É impossível (ainda) escapar ao assédio dos olhares de qualquer massa faminta. A doença vai te cercar e te pedir esmolas no sinal. Não há mais choques ou reformatórios como os de antigamente. ¿ Como vou procurar um médico se achar que ele pode me transmitir alguma doença? Que mesmo não sendo terminal, pode deixar transparecer que ele não é tão infalível quanto o preço da consulta que cobra? Para nos provocar outras doenças, remediáveis, é verdade, mas é justamente esta a tortura.


O SACERDOTE “... amá-lo foi só uma burrice de minha alma oferecida...” Jana Chorem todos os seus segredos para mim, e eu prometo chorar de rir de não poder contar alguns deles, os mais hilários, ou os mais fantásticos, fanáticos; não me importo por estar bêbado (tecnicamente) ou por expor meu juízo (pouco demais / pouco de menos), trajetória imprecisa, irregular na forma e no conteúdo, mas é bem provável que regularíssimo no sentido, que todos que lerem novamente irão entender: mudar a ótica e o ritmo já é alguma inovação... Perspi-capaz de virar a noite em noite de celebração, a grande festa das atmos-feras redundantes que serpenteiam o pescoço do enforcado; cadmo, cádmio, carmin, cardin, cardio. Telúrico não exprimir-se, em versos não-obstante; como se tudo que importasse fosse uma figura de linguagem próxima à que você entende... Queiramos ou não, a ofensa será terminal quando minar a nossa verdadeira expressão, todo véu descortinado, mostrando a cara da verdade...


OS ENAMORADOS “Hoje eu desafio o mundo sem sair da minha casa” Falcão (O Rappa)

Como posso não querer nada agora? Filósofos chamariam a isso tédio, uma maria chamaria saudade, um marido chamaria certidão, e assim vai... Não procuro virtude. Talvez o que sinta seja satisfação, uma transição entre a morte lenta e a vida movimentada, um canhão apontado para sua cabeça, pescando o menor ruído, qualquer sobressalto marcará o verdadeiro final explosivo, quilotômico, de ansiedade, de satisfação. Será que é o mesmo? O máximo que eu posso fazer é chorar, por mim e por você(s), que faz tempo que não chora, não umedece, não emudece, não contempla abismado; podia, mas é um verbo impar-perfeito. A noite de ontem é uma grande armadilha, que consegue me raptar todas as vezes que o encontro se torna inevitável, sempre que não há como fugir... Se no sonho não acordamos, não podemos concluir tantas certezas, nem que sejam absurdas ou tal; não vi nada errado, até agora, em um dia após o outro...


O CARRO Tudo que é fase é pra passar e tudo que é frase, contanto que me entendas, será livre; queimará rapidamente como esta tinta, neste papel, fixará, definitivamente, o registro que se queira.

Quis a morte que fosse quarta, e que a flor precisou receber dezenas de milímetros de chuva, pra dizer a que veio, para a sorte da semente virar o mundo belo pro ar, do lado de fora.

E como fica a próxima decisão? Se a luz é pouca ou parca, pauta para o novo céu que se configura: a necessária repetição, mais um enigma eficaz, Mais uma brincadeira de criança: eraeé h veqp! Alguma fôrma conhecida se faz necessária para a perfeita comunicação. Não é um sonho qualquer que virá a ser realidade; mas aqueles em que mais acreditamos são os candidatos mais óbvios. ¿ Por que não, uma mística decimal, ou mais? Em pé ou sentado, a cabeça sente o mundo girar, ou balançar, não sei ao certo. Posar como uma estátua de quadras livres é a mais nova auto-crítica. Vou tentar me deixar à vontade, soltar as velas, pra ver no que vai dar, ou no que não vai... 14/04/05


A JUSTIÇA “the lunatic is on the hall...” Pink Floyd

Pretendo registrar as máquinas, na medida das suas possibilidades de aumento, mas não encantamento, da potência da mente humana, essa mesma, para o bem e para o mal a melhor, uma nova persuasão: quebrar as regras mais incômodas, suavizar todas as demais, pois só 1 (um) pode regrar confiante:

uma nova configuração astral e qualquer 1 (um) pode ter deus a seu lado, num momento propício (e preciso), e novamente, a transferência da energia ocorre; e deus pode ser mais cruel do que a maioria pensava. O homem é bem mal. E mal bem. Carece de direção, mas é muito orgulhoso... Inventou um deus invisível, que não intercede nem 1 (um) pouco, demora demais, quase sempre nem dá notícia, é muita gente, bilhões de quatrilhões, de quadrilhões, pra te roubar o resto de esperança que você tem, até em si mesmo. Pra se divertir nessa vida tem que fazer curso... Já está no estado da máquina a falta de conclusão; um oráculo está supervisionando o sistema, só pra garantir que não sejamos os maiores culpados por uma possível destruição do universo; que haja remédios que curem a doença humana, ou que alguma vacina torne esses elementos novamente integrados... 14/04/05


O EREMITA O meu colchão fino, pintado de verde, parece novo, foi comprado no seixas, como um tapete bege; meu amigo de frios intensos e moléstias graves. Cabisbaixo, rodopio por fora do copo o olhar cruel: meus desafios são únicos e nunca inóquos, pretendem mover um ente em repouso, por querer ou solidão... Eu mesmo já vi exemplos vários; casos abastecidos, mirabolantes estratégias de marcar o passado, recente e envolvente, que esgueira um novo fio de vontade e constância, um impulso criador inglório, como uma forma que se toma por padrão. Nada me fere mais que não satisfazer o ente. Tentar por novas formas já é um começo, uma centelha de mudança, uma novena que começa em fumaça e termina em sino. Também sou personagem histórica, não é fácil registrar, o tempo passando, e a gente correndo, ¿ mais apressado que queríamos? Ou é muito penoso viver consciente? Uma gíria nova, dialeto e fala de favelado: como se eu não fosse um, falo quase como o outro lado, o outro mundo, mas entendendo tudo um mínimo, para estabelecer a conexão, que poderá nos salvar, num futuro mais próximo que nenhum imagina quanto. 20/04/05


A RODA DA FORTUNA “(...) mas é que se agora pra fazer sucesso (...)” Raul Seixas Que dia será o de hoje? Antes compenetrado que comprometido, estou mais bobo que nunca: captar o ínfimo é demasiado, pra quem tem menos do que a esperança desenhava; não há mais sobre o que segurar, como se o dia não tivesse o que refletir dessa outra noite; enquanto tivermos menos de treze anos, que a capsloqüidade venerável, cabelo de padre em meio à noite turva, escolha, escolho, como fosse atrasado. Por pior que pareça estou desconsolado, e vou lutar todos os dias para regenerar o espírito curioso, operário, não sobra nem a ponta. Que dia poderá ser agora antes de 1994, se perdemos a noção do tempo, e a escolha virá intrépida, como se não resolvesse o grito; como se aparar a gota virá quebrar o nosso suplício ao meio, cicatrizar antes mesmo que doa, amenizar contando com os astros, mesmo que não pretendesse ser tão, ou diferente, do esqueleto carpinteiro-monumento. No meu aparelho melhor não encorajar demais. Umas pessoas sensíveis, que querem beijar o retorno inconformado da explosão não-nuclear...


A FORÇA Ora por diante, com tudo se sentindo completo, no mesmo sentido da linha que nos abarca, antes do fim do calendário maia! Embora de um discurso fundístico, erraremos; como se fosse sina/destino; que nunca queria, mas sempre guerrearia com qualquer sintoma de ir-revolução, de um tempo atroz, que não chega para Rabelais, ¿ e que conta vou pagar depois dessa onda mágica, que tomou todos num instante, prezado, ¿ começaremos tudo de novo, para apreendermos o passado-presente, requerido por cada um, como se tudo fosse ultrapassado? Onde está o espírito que não poderá defender tempos longínquos? E tenacizamos o pasto de horas próximas, cadernos de papel barato: beibi de todas as sutilezas: sustêm-me no teu brado de víbora ensangüentada, grito frouxo que não acorda ninguém; que não perturbe daqui por diante, de uma alucinação de tranqüilidade observada, como se eu mesmo fosse o meu próprio enigma! Sunday morning, esta porra!


O ENFORCADO Teu machado contorna o meu bacilo, o meu vacilo te fará surpreender o futuro, numa hora de invasão declarada; cortando qualquer intenção, teu mamilo duro me fará enlouquecer no pouco, ausente brilho da lua, enigmático, embaixador da rua na noite, encabulado de tanto vento no rosto, cabisbaixo de tanto peso nas costas, imaginários ou não, estupefaciam a lide sensível. É uma espera que pelo menos tem um destino: adornar a madrugada da cama ao teu lado. Quebrar o gelo dessa hora com uma câmera invisível que tudo vê, e registra-nos ali. E na foto, não aparecem apenas superfícies: conseguimos ver as cores do nosso calor, do tesão que consome uma fogueira madrigal, e até consigo ver o cheiro daquela hora. Instantâneo magnetizador de formas quadráticas, livra-me do teu instinto carniceiro, vela-me de aparecer de novo nessa novela, de querer ter final antes da hora, abençoa-me contra o medo. 24/04/05


A MORTE Meu curso não está encerrado, e minhas notas são de louvor: sem eu pedir, meus filhos me abraçam. “Vicioso e realista”, por quê estaria sentindo a morte chegar? Não acho o que falar, procuro ao redor um olho sentindo, mas os olhos estão tão fechados que só sentem escuridão, igual ao meio-dia da periferia, muito machucado, no coração só ódio... E é triste, fere a alma, quase um tiro. Nenhum deus pra te salvar, nenhum poeta pra te sorrir ou consolar; eu vi você, na esquina, com ar médio-louco, tem que ser... Tem alguma coisa muita certa na manha, e na minha atitude: relaxar e esperar o novo deus se eleger, saber qual é a dele, um puto rato morto, mandando em tudo por mim... Se fosse um pesadelo talvez pudéssemos acordar, pedir para que acabasse, ou pelo menos, diminuísse a intensidade; estuprador é diferente, apanha a qualquer hora, sem paz... Não é abalo, é cabelo... 13/05/05


A TEMPERANÇA

O vento frio, que traz aurora, carrega consigo, sem saber, fortuna, a de olhar fortuito, e cheia de gostos e des-gostos; corta o coração seu uivo gelado (o do vento), espalha as coisas que estiveram soltas, rechaça as últimas lembranças da noite... Ambas, aurora e fortuna, vagueiam pelo dia afora, procuram coisas diferentes, e dificilmente as veríamos juntas, em colóquio ao meio-dia, debatendo algo de interesse comum, ou flertando o mesmo homem (são jovens as divinas)... Ainda bem que não são só elas que divagam nesse recém-nascido: todos cuidam de uma parte, que criará conjunto e será um dia importante, como todos o são... Tudo se preparando para receber o sol, com tudo que re-presenta. E os deuses operários transformam cada instante deste ente-dia, conduzindo-o à sua boa morte, e ao seu bom renascer... Com muito trabalho, e alguma ajuda de homens-poeta, esse dia entrará nos anuários de todos os sistemas inteligentes... Inter-estelares.


O DIABO A morte é a recompensa óbvia do corrupto; a subida escarpada mais ajuda que atrapalha: há apoios nos quais fazer força e elevar-se; por fim, o mesmo destino nos espera. Se bem que a vida não passe de desafios amargos, que adoçamos... Como esquecer a descida necessária, o abandono da vida romântica, de farpas arestadas de bom senso... Alguma coisa precisa ser feita, objetivamente; uma realidade eficaz precisa florescer, como culpa maior desse inverno; extravasar os furacões da loucura; pedir aos céus por mais daquilo que não tenho. Descer ladeira abaixo, caindo, esperando o fim, para parar de correr e receber as bênçãos: tudo que preciso é de uma linha cortante, um vaso de cerâmica, um tomo grande e antigo... E então jogar de novo tudo pro alto, exercitar a bonança e o pecado fútil, esmiuçar o desejo até fazê-lo brotar, e dançar ao som do oceano. Nenhuma facilidade retratada no semblante frio, todas as mortes contidas num salto, projetado num abismo invisível, dentro de cada um de nós. O que é do futuro senão o que temos agora? Não subestimemos a força que nos arrematará às decisões: nossa carne desfalecendo num fim de tarde... 03/07/05-20/10/2005


A TORRE Tenho que fazer profissão de profecia, resgatar uma história esquecida, como se fugíssemos realmente daquilo que nos atinge no âmago mais profundo... Fugir do que nos mostrar pouca ambição por viver, como quando queremos exterminar a semente, a semelhança em nós, como fez um dia o amigo, que nos deixou atarantados por usar uma arma, antes do tempo; quis fugir na mesma hora da ilusão, como fagulhas disformes, inundando este espaço. Rastejou por dois lados do caminho, celebrou absolvição. Caminhou por todo lado, procurando insurgir uma nova revolução, como um pássaro esquecido deste caminho; vagou feito bênção de agogô, cruzou uma estrada cheia de pedras, passadas largas e desalinhadas: ninguém me viu aqui, passo quase despercebido. Quando, por descuido, cheguei ao outro lado, segui o coelho branco, corri atrás do feixe luminoso, previ minha própria morte num dia vinte e seis; fugi da própria profecia, desfalecendo como um cigano sem rota, como um vassalo sem vontade própria, querendo por vezes o que a surpresa reserva, soltando grunhidos roucos, uma voz quase presa, mas louca pra gritar... 20/10/05


A ESTRELA Assim que virarmos do cabo para a torre, visualizaremos de cortar a correnteza, e esquecemo-nos de nós, para catapultar uma nova turma de entretenimento execrável; como se fosse só eu e tu que escolhêssemos, como se fôra tudo que nos acontecesse, ainda criasse uma crosta metafórica, que nos circundasse todas as novas esperanças cantadas vãs: estamos por descobrir qualquer coisa que nos leve ao fim, ao que perseverávamos ser o fim de todos os seres, mas não o nosso, como se a eternidade fosse invenção... A cada 28 dias minha lua me volta completamente de prazeres que me esconde ligeira, falha como se me libertasse das suas entranhas, estranhas paredes se comportando de maneiras pouco comuns, quando acertamos que a lua nasça (como é nascer no presente?); ¿ como é surpreender a lástima da passagem vitalícea (ou vitamina)? ¿ Como é se arrepender e sacrificar-se por todos os caminhos não tomados? (digeridos como cápsula)


A LUA “O meu olhar é nítido como um girassol. (...) (Pensar é estar doente dos olhos)” Alberto Caieiro (aka Fernando Pessoa) Estou chorindo, como quem chora-ria, minha sombra mortífera vem de muito longínquo, vem de eras (g)astronômicas, onde apenas se valorizava a energia que se gasta. Fodido é a joaquina, que não percebe o cabelo na testa, não divisa seu pentelho na boca alheia, não percebe como tudo se liga na história antiga e nova, na memória corrompida lampeja o anjo augusto que lembra qualquer dor por onde se passará, passarinho encabulado; o encanto de tantas possibilidades é diretoproporcional à responsabilidade das escolhas. Por quê quatro e não seis? Por quê é difícil achar o sentido (único?) de tanta densidade material, se bem que preenchida de vazio? Escolha, escôlho, à deriva neste infinito azul. Agarrado às pernas, aos braços, aos pedaços de gente que encontramos; uns resistem e persistem, outros desistem, mas todos nós estamos mergulhados até o pescoço, no mesmo sistema. 03/02/06


O SOL É possível estar enganado por um mundo de coisas que pretendemos (fingimos) sejam reais; hélios neos efemerei (o sol é novo cada vez, que nasce, cada dia) para vocês também! Não é uma despedida, assim espero, mas após o 1º passo, a longa jornada está cada vez mais próxima de acabar, e poderá dar lugar, e tempo, para outras aventuras vibrantes; o tempo, o vento, urgem pelo movimento material que começa em sinapses cerebrais, bem aqui. O que dizer do mundo que criamos para nós? Como relacionar nele as pessoas, os entes? Por quê crer em tantos mundos sendo construídos juntos? Bilhões de pessoas, quatrilhões de sinapses, e é isso que temos? Bem, os problemas lá em casa são bem menores que o planeta, mas que los hay... E prazeres por sofrimentos, quase sempre empatados. Todo sofredor do planeta tem lá seus prazeres, ou está morto. Todo bem do planeta custa tão caro (ou mais) que o mal. Não dizem que se paga?... Lembra cristo: morno demais, me deixa doente. Quente ou frio, senão acabamos vomitando... 03/02/06


O JULGAMENTO O que há de comum entre o sol, a lua e a poesia? Quando estão fortes e prontos, não podem esconder-se; a lua fica cheia, o sol ultrapassa as nuvens, a poesia nasce. É fascinante como é impossível esconder-se deles, minimizar suas influências nos humores diuturnos... Tenho uma carta escrita em outro lugar, guardada pela Parca; não está simplesmente escondida, mas sim, está esquecida, num canto escuro da mente. Está escrita num caderno antigo, capa branca e nomes vermelhos, tinta azul e traços mirabolantes. Lembro de uma carta escrita com pressa, de que não lembro mais o conteúdo, só (lembro) de que parei para escrevê-la, e não mandá-la nunca; até não sei mais onde está o caderno. Risquei-o de um mapa constantemente imaginário, traçado. Uma palavra de que lembro é mundo; pois tentava então descobrir para mim o que seria esse que me entorna, como um caldo real em que fervo... Mudo, tento ainda individuar-me, não cresci o suficiente para ver depois da volta, não flutuo só. O mundo chama atenção para suas marcas no caminho, alertas de diferentes azuis enviam suas impressões de percurso; tracejamos uma estrada mais tortuosa quando precisamos ultrapassar os obstáculos naturais, subir e descer montanhas rodeando-as, flanqueando-as, fortalecendo nossa pura fraqueza frente ao maior e melhor. Precisaremos rodear o juízo com nossa conversa, converter o júri ao nosso favor, ou padecer com o promotor do outro lado. A atitude do réu...


O MUNDO

De cartas marcadas até o baralho está cheio. O que é impossível aos olhos desatentos? E o Que é plausível, quando os olhos fitam algo, Imóvel como objeto fixado numa idéia vaga? Que cinco tomará conta de quase tudo que vivemos, Num quase-máximo infecundo, um culto aos vivos? Uma centelha de um vinho errático que tomamos a muito tempo atrás. Quisera lembrar exatamente daquela ocasião propícia, numa circunstância leve que não levasse a nada (ou nos levasse ao nada) como quase tudo nessa vida; que pronto que não sinto quando passa o tempo feito pássara, como vento. Particularmente necessito o (um) fim, uma burla, Nem que seja fantasmo-alegórica, nem que finda a tarde, esqueça tudo como um sonho madrigal, uma manhã que se acorda sem se ter dormido...


Cartas para anos mortos  

Poesias predispostas nas cartas do tarot