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A Tragédia Real |Introdução| 1

Introdução Sou um escritor. Antes, sou um mentiroso quase doentio. Prefiro mil vezes dizer a mentira do que a verdade para uma pessoa qualquer – seja lá ela quem for –; e só não minto muito, tentando me controlar, porque sei da falta de consistência que tem uma mentira. Às vezes minto maravilhosamente bem, mas não calço esta mentira com algum fundo verificável só pela graça de acompanhar o enganado em sua descoberta da verdade, como se vê-lo chegar ao que tanto ele tem como “verdade verificável” fosse mais importante do que ser moral e eticamente aceito. Pensando sobre o que faz com que certa mentira pareça e até venha a se tornar verdade, consegui treinar muio bem – e até mesmo sem querer – meu modo de analisar a realidade enquanto processo transitório, ou fenomenológico, de uma ação inicial para a sequente, dessa sequente para sua consequente... e assim por diante numa corrente de fenômenos que integram fatos vividos – e não imaginados – por uma pessoa: a realidade, e como ela aconteceu: a verdade. Dentre todos os tipos de mentiras que gosto de contar, as que mais prefiro são as trágicas, pois são as que mais cobram da minha insensibilidade de canalha e também da sensibilidade da pessoa, que renuncia difícil ou facilmente à razão para se complacer e se piedosar diante da... mentira que ela acredita ser verdade. Por isso que, desde tempos remotos, a tragédia vem sendo atribuída mais às artes do que à realidade: porque tudo o que temos a fazer diante dela é contemplar com sofrimento por quem sofre, sentindo prazer ao mesmo tempo que dor pelo que acreditamos estar acontecendo. Este livro trata exatamente do contrário do que eu venho fazendo desde que peguei gosto pela mentira: ele trata da verdade, da realidade e da racionalização e análise da tragédia real, como aqueles aviões que caíram ou aquelas matas queimadas, ou aquele doido que entrou no cinema e matou todo mundo; trata ainda dos “acidentes” e também do terrorismo, ou seja: do mundo real, o mundo que eu, como escritor de literatura, não tratei no tom de carecer de verificabilidade, sempre partindo, como todo escritor, do “faz de conta”, do “era uma vez” e do “como se”. Neste livro eu falo do que é e do que faz ser esse que é. Tudo tem extremos opostos. E escrever este livro foi tão difícil quanto escrever literatura me é fácil. Ao contrário do romance, não me guiei pela imaginação sem ter como fonte a pesquisa feita em método científico, e assim decorreram-se os anos desde que, em 2006, eu formulei o seguinte raciocínio: “A tragédia é o descaso do homem frente a sua realidade.”


A Tragédia Real |Introdução| 2

Disse isso como mentira, e pedi para meus interrogadores que imaginassem uma represa que foi feita “sem querer” por um povo que decidiu cavar um lago durante a baixa do rio para que assim tivessem água durante todo o ano. Eles desviaram o rio para encher o buraco e manter a água corrente, como se esse lago fosse uma caixa d'água. Na construção foram amontoando terra no leito antigo do rio, até as chuvas começarem lá no alto das montanhas. Fez-se a tragédia quando a água desceu das montanhas com força para seguir seu caminho natural, e presa pela terra, foi se acumulando até ultrapassar a altura da terra... e também das casas. Se analisarmos esse pequeno exemplo, podemos tirar daí: o Agente Direto da tragédia: o povo, que fez a represa de terra; o Fenômeno Alienado, que foi a terra sendo amontoada com o buraco do lago, e depois a terra do desvio do rio sendo desviado; também se tira o Agente de Causa: o rio, que inundou tudo e matou toda a gente; e também o Fenômeno Trágico, que é o rio superando a terra e destruindo tudo e todos. Assim expliquei o Realtragismo na prática em 2006... e desde lá venho reunindo fontes para explicá-lo na teoria. Todos os conceitos presentes neste volume foram formulados por mim, e inclusive alguns outros, como o de Realidade, de Verdade, de Fenômeno e outros mais que já tinham nome, podem ser vistos como minha visão axiomática para explicar o Realtragismo – e embora todos sejam explicados no mesmo presente tratado, ao longo do texto corrido, fiz questão de trabalhar um glossário e apresentá-lo ao fim da obra, porquanto espero que cada conceito não seja premissamente aceito, mas sim claramente entendido como significações aplicáveis à teoria realtragista e também a qualquer outra teoria. Minha principal dificuldade ao escrever este livro foi a falta de referências e de teorias a me guiar, sendo que em vez de influências, eu tenha tido opostos ou diferenças – as quais quase não cito por achar inconveniente fazer menção a não-referência, mas, para que o leitor tenha a certeza de que o presente estudo tem bases acadêmicas e foi realizado em cima de tudo o que ele nunca foi, ao fim do trabalho encontra-se uma lista bibliográfica com os livros usados para tomar alguma base nos conceitos, sendo em sua maioria livros que dizem tudo, menos o que eu aqui proponho tão diretamente: um estudo sobre a tragédia real. Espero, com este livro, não desapontar os que naquela época se entusiasmaram com esta ideia... assim como a você que acabou de entendê-la e de por ela se interessar.

Hiago Rodrigues – São Paulo, 20 de abril de 2010.


A Tragédia Real | Introdução