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ESTRELLA ASTOR FRANCISCO HAUSCHILD 2.a Edição

AGRADECIMENTO Embora com traços de fantasia e ficção, este livro só foi possível pela força dos personagens e cenários reais. Aos atores de minhas histórias, agradeço a contribuição e dedico este Estrella. CAPA Fabio Hauschild Agência HG Propaganda e Marketing Bragança Paulista – SP.

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SUMÁRIO Estrela, A Chave do Tempo, Saudosismo ........................... 07 O Segredo da Vida, Alma Estrelense .................................. 13 Ludus Secundus, O Barbeiro, Ler é Voar ............................ 16 Apelidos, História, Nasce uma Estrela ................................ 27 Emancipação Municipal, Orgulhosas Capitais .................... 42 Regressão, Taquari, O Clube ............................................... 48 Colégio Santo Antonio, Alto da Bronze .............................. 64 Casa Própria, O Açougue .................................................... 69 O Colonês, O Cristo Rei ...................................................... 77 Veranópolis, O Efervescente Cristo Rei .............................. 86 Lingüiça de Qualidade, Porto Alegre ................................ 101 O Golpe Militar, A Democracia ........................................ 110 O Nativismo, O Regionalismo ........................................... 120 O Rio Taquari, O Arroio Estrela ....................................... 133 O Novo Porto, O Bairro da Praia ....................................... 149 O Morro de Cruzeiro, O Vento Norte ................................ 156 Reencontro, O Amor na Terceira Idade ............................. 161 O Sedentarismo, Lucros e Perdas ...................................... 166 Choques, Viagem dos Sonhos ........................................... 171 A Língua Alemã, Os Gringos, Cidadania Gaúcha ............. 174 A Culinária Estrelense, O Gordo ....................................... 180 A Pesca, A Caça ................................................................ 192 O Chimarrão, Velórios ...................................................... 201 Negócios Familiares, Merecido Descanso ......................... 209 Cinema Novo, O Oriental, Mar à Vista ............................. 213 Os Eckert – Bons Vizinhos ................................................ 224 Os Horn – Todos Parentes ................................................. 229 O Aeroclube, Os Passarinhos, O Bicho Homem ............... 235 Brinquedos e Jogos, Praga Voraz, Cóf ! Cóf ! Cóf ........... 242 O Futebol, Estrela F.C., O Rádio, As Carreteiras .............. 246 O Alto da Bronze, A Cadeia, O Hospital .......................... 259 3


A Esquina do Reckziegel, O Cemitério ............................. 265 Rua Pércio Freitas .............................................................. 267 Rua Coronel Müssnich ...................................................... 270 Rua Pontes Filho ................................................................ 271 Iniciação Sexual, Os Bailes de Colonia ............................. 274 A Praça, Salvadores da Pátria ............................................ 281 O Poder dos Homens, O Cão Amarelo .............................. 288 O Abrigo, Rádio Alto Taquari ........................................... 294 O Paladino, Os Bares do Centro, A Rinha de Galo ........... 302 Nova Geração, Adão Sem Eva .......................................... 311 Cidades Maravilhosas, Golden Boys and Girls ……….… 317 Zigue – Zague, Tradição Cervejeira .................................. 321 O Radioamador, Os Bancários, A Sorte ............................ 327 Os Sapateiros, Nova Soges ................................................ 334 Os Novos Bares, O Clube dos Malas................................. 346 O Comércio, Estrela, longe de Estrela ............................... 349 Os últimos metros .............................................................. 356

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PREFÁCIO Não espere encontrar aqui a mesma precisão dos historiadores estrelenses. Não sou historiador, não sou pesquisador, não sou investigador, não sou guardião da história. Sou apenas um contador de historietas pinçadas da memória e de conversas que ouço por aí. Embora embaçadas pelo tempo, pela distancia e eventual falta de melhores informações, elas são verdadeiras. Não surgem do nada. No fundo, no fundo, por baixo da fumaça e da cinza, arde sempre a brasinha da verdade. – Onde há fumaça, tem fogo ...

O TEMPERO

Histórias nuas e cruas sem fantasia, perdem muito em graça e sabor. O tempero da ironia, do humor e da ficção, as tornam mais leves e palatáveis ao leitor. Mas sou moderado. Não uso sal e açúcar em excesso e nem abuso de temperos fortes. Pimenta e sarcasmo, só em pequenas pitadas. O desprezo, o deboche e a ofensa, não entram na receita. Predomina o bom humor. Ficção pura, também não faço. Nada falo do Papai Noel e do Fogo de 200 anos, por falta de convicção. Do Saci Pererê e Chapéuzinho Vermelho, sou obrigado a falar pelo muito que representam para a metade colorada da comunidade estrelense. Do Lobo Mau, Mula sem Cabeça e Bicho Papão, até falo um pouco. Não há como evitar. Deles o mundo está cheio e até em 5


Estrela eles existem. Não tenho sangue de barata para calar diante de suas monstruosidades.

ESTRELA – Estrela ? – Que nome lindo tem a tua cidade, dizem todos por onde ando. – É verdade ... concordo lisonjeado com o elogio. E é verdade mesmo. Assim como Feliz, Alegrete, Sorriso e Maravilha, também Estrela tem um nome bonito. Estrela, é um nome inspirador. Instiga a imaginação do meu neto Antonio e o remete a uma sonhada viagem espacial em sua primeira vinda de avião. Ao anunciarem os procedimentos de descida em Porto Alegre, ele reage indignado: – Este avião não pode descer ! – Eu não quero descer ! – Eu quero subir ! – Eu quero ir para Estrela ! grita ele, desesperado para que todos o ouçam e ajudem a manter a nave no espaço. Assim como o faz sonhar, Estrela também o faz chorar de saudade Já em casa, depois de passar a Páscoa por aqui, o menino fala para a mãe: – Mamãe, eu sei que é feio chorar, que não devo chorar, mas eu tenho tanta saudade de Estrela que eu preciso chorar ... Estrela mexe com o coração da gente. Faz a gente viajar. – Andemos então ...

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A CHAVE DO TEMPO – Estrella, com dois elles ? – Que coisa mais cafona, mais fora de moda ... dirão os contemporâneos torcendo o nariz para o antiquado título do livro. – Sim, esclareço eu ... é a grafia antiga, ainda anterior a Estrêla com acento circunflexo. Os dois elles são cafonas, mas tem um enorme significado temporal. A estranheza inicial, logo se transforma em mágica descoberta quando se constata que os dois traços paralelos são a Chave do Tempo. Num instantâneo piscar de olhos, abrem a porta do passado e nos remetem a décadas atrás. Nos transportam à antiga cidade de Estrella perdida no tempo. – Que outra máquina do tempo, faria isso ?

O GÓTICO Os dois elles em letra gótica, podem levar o leitor a pensar que este livro é apenas mais uma obra saudosista – daquelas tantas que costumam lamentar o terrível presente e romancear o passado com mistificada poesia. Não é nada disso. Não sou saudosista e não alimento ilusões. Por melhor que tenha sido, o passado só é bom para ser lembrado, não mais para ser vivido. O que passou, passou. É caminho já trilhado e não há como voltar atrás. Os dois elles góticos, são apenas uma especial referencia à memória de minha mãe, que escrevia impecàvelmente desta forma quando eu era criança.

A LINGUAGEM A linguagem e a grafia são dinâmicas e cada vez mais diretas. O tempo engole as letras, encurta as palavras e simplifica a 7


comunicação. Cada vez, falamos menos para nos comunicar. Assim como a Estrella de ontem, perdeu um ele e o acento circunflexo para a moderna Estrela de hoje, também o Ontem – que ontem era Hontem – perdeu o seu H no decorrer dos tempos. O Hoje, que ainda mantém o H, poderá ser apenas Oje no futuro – bem mais simples e conciso. Interessante é a contribuição de povos conservadores na evolução da linguagem. Até eles, tem pressa nos tempos atuais. Em Minas Gerais – o Estado mais conservador do país – usam o Uai. – O que significa Uai ? perguntam ao mineiro. – Uai, é uai, uai ... responde ele. No Rio Grande do Sul – de hábitos também conservadores – os extensos Refrigerante, Supermercado, Chimarrão e Cheese, são apenas Refri, Super, Chima e Xis. Em Estrela, usa–se o Oi ! No pedágio da 386 e no caixa dos mercados, o tradicional Bom dia, Boa tarde e Boa noite, são coisas do passado. Fala–se apenas o lacônico Oi ! No telefone, é a mesma coisa. O antigo – Alô, quem fala ? se resume apenas a um Oi ! Até a Empresa telefônica chama–se Oi ! – Oi ! aqui é da Oi ! saúda a voz mecanica e pausterizada ofertando um novo plano para reduzir o custo do minuto falado. Em breve, a Companhia Telefônica será Telepática – bastará pensar para comunicar. – Mas quanto custará o segundo pensado ?

NA PRAIA Dizem que o Oi nasceu na praia. – Oi ... cumprimenta o surfista ao encontrar o amigo na areia com o olhar perdido no mar. – Oi ... responde o outro. 8


Meia hora depois de silenciosa contemplação, chega um terceiro parceiro. – Oi ... cumprimenta, ele. – Oi ... Oi ... retribuem os outros dois. Daí a pouco, chega um quarto surfista vibrando por reencontrar os colegas que há meses não via, por estar viajando. – Oi, cara ! exclama feliz ao vê–los na praia. A reação dos outros três, é imediata: – Qual é ... reage o primeiro. – Pô cara, ti liga ... reclama o segundo. – Mal chega e já vem mudando o papo ... emenda o terceiro. – Tá bom ... reage o recém chegado, cortando a tagarelice.

SEM PALAVRAS O Valdir é de poucas palavras – fala menos do que o surfista. Na viagem para a Fronteira, não diz uma única palavra em cinco horas no carro. Nem do pedágio, ele reclama – como costumam fazer os caroneiros procurando puxar assunto com o motorista. Já próximos a Livramento, deparam–se com uma tropa de bois atravessando o asfalto. – O que tu me diz disso ? pergunta o Tallini, na direção. – Agora, não digo mais nada ... responde o calado Valdir.

ENROLATION – Graças a Deus ! O Enrolation, está em extinção e não impressiona mais ninguém. A afirmação de que o orifício circular corrugado localizado na região ínfero–lombar das entrancias glúteas de um cidadão momentaneamente inconsciente devido à excessiva ingestão de líquidos etílicos de alta graduação, deixa de estar em consonância com os ditames relativos ao universal direito individual de 9


propriedade privada, é agora simplesmente traduzida para cú de bêbado não tem dono. – Simples assim ...

O SAUDOSISMO O Saudosista, lamenta a perda dos bons e velhos tempos. Os velhos tempos eram bons, mas nem tanto assim. Os atuais, também são bons. Bem melhores do que antes. O mundo atual nos impõe mais desafios, mas tem uma infinidade de avanços que tornam a vida mais fácil do que no passado. A medicina, o avião, a TV e o telefone móvel, evoluíram de forma estupenda. Hoje sabemos das coisas. Não dependemos apenas do boca a boca e do distorcido diz–que–diz–que. O dentista tem anestesia e música ambiente. Dá até para cochilar. Não é mais o prático que arrancava o dente com alicate e nos enchia de pavor e de sangue. Nos pés, usamos a sandália havaiana e não mais o tosco tamanco de pau que enchia de bolhas os dedos do pé. Até o velho chimarrão, hoje é portátil. O levamos com a garrafa térmica embaixo do braço, a qualquer lugar. – Como fazer isso com a desengonçada chaleira preta ? O BANHO Pior de tudo, era o frio e arrepiante banho de inverno. Era tão sofrido que tinha freqüência semanal e até dia certo – o Sábado. E ainda assim, se o enforcava ou só lavava o saco e o sovaco para tirar a nháca. No verão, o sabonete Magnólia e o Seiva de Alfazema, ganhos de brinde do Costa no fim de ano, duravam no máximo até o Carnaval. Da quarta feira de Cinzas ao Natal, usava–se o fedido sabão de sebo de boi. 10


Como comparar um suplício desses, com o banho morno de temperatura regulável, cercado de espumantes sabonetes, xampús, desodorantes e os cremes atuais ? BANHO DE SOL No verão, a pele pegava fogo. Descascava como couro de cobra a cada queimada de sol. O oleoso bronzeador caseiro pururucava nas costas em perigosas e ardentes bolhas de terceiro grau. E o Raíto de Sol – sonho distante importado da Argentina – nem de longe se assemelhava aos atuais filtros solares com diferentes graus de proteção para raios de qualquer calibre. OS INSETOS Já cedo pela manhã, as moscas comiam pela beirada, o doce mingau do Mata–Mosca no prato da cozinha. Dezenas delas envenenadas, rodopiavam desesperadas antes de tombarem mortas sobra a toalha xadrez. Hoje, de uma só mosquinha na sopa, se faz o maior fuzuê. Ao cair da tarde, nuvens de mosquitos comiam o cara vivo. À noite na cama, zumbiam no ouvido até achar um furo no mosqueteiro e atacar de lança em riste no escuro. A defesa contra o ataque aéreo era precária. As grossas gotas do flit Detefon, não pulverizavam no ar e só matavam os atingidos pelo líquido em pleno vôo. A opção pela Fumeta ou Boa Noite, pesteava o ambiente e dava mais tosse do que o Tufuma – o pior mata rato do mundo. Nas pescarias e acampamentos, a bosta de vaca queimando lá fora ao sabor do vento, nunca os pegava de cheio. Eles atacavam sempre a favor do vento e por trás da fumaça. Matá–los a tapa, doía mais do que a própria picada na pele. A RAQUETE CHINESA 11


As moscas e mosquitos estrelenses seguem fortes e rijos como sempre, mas o combate se tornou mais eficiente. Os inseticidas e repelentes atuais são menos tóxicos e as casas estão mais protegidas. Tem tela, ventiladores, split e até raquete chinesa de bateria carregável na tomada. O moderno brinquedo fritador de voadores no instantâneo tsick! da descarga elétrica, é uma grande diversão. Adultos e crianças, sentem–se frustrados quando os bichinhos não entram em casa e abortam a divertida caçada. Frustrados também, andam os insetos modernos que já não gozam da folgada liberdade de antes. Estes sim, têm motivo para sentirem falta dos velhos e bons tempos em que atacavam em vôos cegos, certos de que não seriam interceptados. RESSURREIÇÃO O que faz falta não são os velhos e bons tempos – os tempos são sempre bons. O que faz falta é a Juventude. Dela sim, dá para ter saudade. Seria ótimo voltar a ter a metade da idade. Mas aí, já não é mais saudosismo – seria querer viver de novo. E o único homem que viveu de novo foi Jesus Cristo, que mesmo ressuscitado e tendo a opção de ficar por aqui, preferiu ascender ao Céu aos 33 anos de idade. O seu exemplo, merece reflexão ...

O SEGREDO DA VIDA Presenças constantes em nossa vida, o Passado, o Presente e o Futuro, competem entre si para nos dominar. Um quer mandar mais do que o outro. 12


O Passado – sizudo, dominador e cheio de certezas – detesta mudanças, repele as novidades e quer manter tudo como sempre foi. O Presente – imediatista, ousado e autosuficiente – só quer curtir o momento e tirar o máximo proveito de cada segundo. – Tudo aqui e agora ! exige, insistentemente. O Futuro – ingênuo, ambicioso e sonhador – acredita mais na sorte e nas vãs promessas do que nas lições dos mais velhos. – Tudo de bom, me espera ... imagina em seus sonhos pueris. Não é fácil conviver com os três tempos irmãos buzinando na orelha o tempo todo e ao mesmo tempo. E não dá para priorizar um em detrimento de outro. Os três são igualmente importantes e é preciso vivê–los simultaneamente. Colocar cada um no seu devido lugar, é o segrêdo da vida. A GLOBALIZAÇÃO Desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, a humanidade vem sendo impulsionada pela explosão demográfica. O casalzinho, tem hoje 7 bilhões de descendentes à procura de alimento e espaço vital no planeta. A globalização gera concorrência, impõe mudanças, nos incomoda e nos obriga a olhar para a frente. Quem pensa que sabe tudo, já era ��� há sempre mais para aprender. Quem tem idéias fixas, vê seu mundo ruir. Quem subjuga seus semelhantes pela fôrça e pela desinformação, vê seu espaço minguar. O mundo evolui e o retrovisor já não serve mais de farol. Apesar da desigualdade social e do desencanto com certas desgraças humanas, há que se reconhecer que a humanidade está melhorando. Falta ainda definir, que tipo de paraíso queremos – pois o de Adão e Eva, está definitivamente perdido.

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ALMA ESTRELENSE Toda a minha formação anterior à Faculdade, se dá em Colégios de Freiras e Irmãos Maristas, em Estrela, Veranópolis, Lajeado e Porto Alegre. Com o diploma de Engenheiro Agrônomo na mão, vou fazer a vida pelo mundo, carregando minha alma estrelense. Cinquenta anos depois, estou aqui novamente entre velhos e novos amigos, às margens do Taquari. O rio está distante e inacessível. Só o vejo ao longe pelo rabo do olho, do alto da ponte com o outro olho no caminhão que me ultrapassa acima dos 60 km por hora – limite aliás, considerado puramente arrecadatório pelos usuários do trecho Estrela–Lajeado. Dos antigos amigos ainda vivos, boa parte anda solitário, trôpego e cansado. Outros, andam enclausurados e tão invisíveis quanto o majestoso rio. As novas amizades, estão se firmando. A pauta de comunicação vai se ampliando e já começamos a nos entender. Pelo menos, já não me chamam de paulista ao falar bem de São Paulo – que muitos só conhecem pelas más notícias da televisão. A readaptação não é um mar de rosas, mas a alma estrelense sobrevive e permanece inspirada. Estão aqui, as minhas primeiras raízes – o primeiro ninho. Aqui nasci, rompi a casca do ovo, criei asas e aprendi a voar. Estrela, é parte de mim e eu sou parte dela. Gosto daqui e sempre quero voltar. Nem tudo é como a gente espera – há coisas melhores e outras piores do que se imagina. – Mas onde não é assim ? ESTRELICIDADE Como definir o amor por Estrela ? 14


Estrelismo, não pega bem. Soa como exibicionismo e poderia sugerir que somos esnobes e nos achamos melhores do que os outros. Estrelicidade, é mais neutro e soa melhor – funde nossa cidade, com felicidade e com a eletricidade que sentimos por ela. CARA DE ESTRELA Nem sempre o estrelense se dá conta da sorte que tem. Às vezes é necessário que os vizinhos o digam: – Quando morava na Conserva, do outro lado do rio, me sentia um sortudo. Podia ver Estrela a qualquer hora do dia ou da noite ... diz o Seu Guido – simpático lajeadense radicado há 40 anos em Apucarana no Paraná. – Morei em Cruzeiro do Sul quando jovem. E do meu quarto, tinha o privilégio de ver Estrela no outro lado do rio ... diz a Claudine, ao sermos apresentados em São Paulo. Também somos sortudos do lado de cá. Somos caras de sorte, caras de Estrela ! penso eu, quando ouço o que dizem os vizinhos. AQUELE CANTINHO Viagens, Restaurantes e Hotéis 5 estrelas, tudo é muito bom. São Paulo, Rio, Paris, Roma, Nova York, são lugares maravilhosos. Tão maravilhoso também, é aquele cantinho em que o matutino sabiá anuncia mais um novo dia de vida. Lá fora, o sol entre nuvens traça sombras disformes no chão. O verde se desdobra em múltiplos outros verdes e em flores multicores. Aqui dentro, a companhia da amada, a cuia morna na mão, o cheiro de café da cozinha e as notícias do dia prometendo tempo bom, aumentam o bem estar neste exclusivo cantinho do mundo. Este é o fértil berçário das novas idéias e dos grandes planos.

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LUDUS SECUNDUS Gosto de escrever, mas nunca pensei em ser escritor. Há algum tempo atrás publiquei o PIPOCAS com 154 páginas, esgotado em poucas semanas com estrondoso sucesso. E nem poderia ser diferente, já que foi distribuído gratuitamente. Mas, os leitores gostam e me enchem de elogios. Houve até uma mulher lajeadense que me ligou de Palmas – Tocantins, dizendo ter se emocionado com as referencias ao Rio Taquari de sua infância, no Porto dos Bruder. Vejo também que a Vânia mantém o Pipocas na mesa de cabeceira para chamar o sono e o João Auri o usa no Shopping das Idéias como fonte de consulta. Outros me pedem para emprestar o único exemplar que me resta. Eu resisto, pois livro é como caneta Bic e guarda–chuva. Vai e costuma não voltar ... – Com estímulos assim, como não escrever um Ludus Secundus com 202 páginas a mais ? O GRANDE NEGÓCIO Publicar um livro de produção independente, sem qualquer patrocínio – é um péssimo negócio. Toma tempo e não dá lucro algum. É um completo desastre financeiro. Há no entanto, um ganho imensurável – a Satisfação ! Escrever livremente, diverte, ativa a mente e faz viver. E viver, é manter–se no lucro. – Existe negócio melhor ? A LEITURA

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No Brasil, os leitores são poucos. Apenas 5 em cada 1.000 brasileiros, presenteiam livros em datas especiais – os 995 restantes, preferem as flores, bebidas e perfumes. Os coloridos capa–dura de enciclopédia, enfileirados em salas e escritórios, servem mais como objetos de decoração do que como fonte de informação. Já entre americanos e europeus, os livros circulam de mão em mão. Os pocketbooks – livros de bolso – disponíveis em qualquer birosca, são pequenos e fáceis de carregar. No Kolpinghaus – clube alemão perto de casa em São Paulo – livros usados de todas as línguas, são doados e expostos sobre a mesa a qualquer interessado. Pode–se escolhê–los livremente, seguindo a praxe de depositar um real por volume para fins beneficientes, na discreta caixinha na parede. Não há cobrança, nem vigilância. O depósito é voluntário e espontâneo. – Ninguém leva os livros sem pagar ? pergunta o visitante. – Clarho que non, todos phagam ... responde o alemão. – E ninguém rouba o dinheiro da caixinha ? repica o primeiro. – Nein, nein ... o valohr está denthro dos livhros, non no caixinha ... esclarece, ele. VÍCIOS O Crack é o vício do mal. A fumaça inalada do caximbo da brasa candente, invade a mente e destrói os neurônios e o organismo. Ao infeliz escravizado, só resta o delírio e a louca alucinação por uma nova pedra – antes da morte prematura, é claro. Escrever, também é um vício. Causa similar dependência. A caneta queima nas mãos como o caximbo caliente e leva a mente às mais ardentes conjurações. Mas o efeito, é inverso. A escrita, é a droga do bem. Oxigena o cérebro, exercita a mente e prolonga a vida do viciado.

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Se o vício de escrever se alastrasse como o crack, teríamos entre nós uma benfazeja epidemia de idéias bem mais felizes e brilhantes do que as que se perdem na degradante fumaça da pedra. QUANTO CUSTA ? O estrelense é um sujeito econômico – tem aranhas no bolso. O preço, é o atributo mais importante de qualquer produto. – Quanto custará o livro ? – Haverá amostras grátis ? perguntam–me no chimarrão do Hermes. – Bom ... vai depender da tiragem, do número de exemplares, tento explicar. – Ih ... vai ser caro ... estima o Alemão. – Calma Alemão, eu ainda não sei o preço, preciso fazer as contas ... Na proporção brasileira dos que costumam comprar livros, a venda atingiria uns 150 exemplares aos 30.700 habitantes de Estrela. Mais as Associações dos que vivem fora, talvez chegue a uns 200 ... – Porco Dio, vai dar prejuízo ! assusta–se o Gringo. – Sim, mas posso arrumar patrocinadores ... – Ahh ! pode esquecer ... em Estrela, não tem patrocinador. As firmas são pequenas ... afirma o Alemão. – O rádio, jornal, as rifas e os bingos, levam todo o lucro do comércio, confirma o barbeiro brandindo a tesoura no ar. – E todo mundo é pão duro. Fazem a barba em casa e ainda pedem desconto para cortar o cabelo ... diz o Chiquinho. – E cortam curto para não voltar tão seguido ... ironiza outro. – Só vem no barbeiro para tomar chimarrão e ler o jornal de graça ... completa um terceiro. – Um corte, mal dá para comprar 1 kg de erva ... queixa–se o Hermes. – E que tal uma versão na internet ? – Estrela tem banda larga de graça ... especulo, destacando uma virtude da cidade. 18


– Ninguém lê livro na internet ... enfatizam com unanimidade, deixando–me desolado. EUREKA ! Na mal dormida noite em meio ao breve cochilo, a manchete da Zero Hora na barbearia, faz explodir em minha mente um instantâneo e brilhante flash ! – A Feira do Livro vendeu 450 mil livros a 1,7 milhão de visitantes, diz o jornal na primeira página. – Um livro vendido a cada quatro visitantes ? – O povo gosta de ler, que maravilha ! – Um livro a cada quatro casas poderia se repetir em Estrela, um dos Municípios mais alfabetizados do país ! – Os 200 exemplares projetados, poderiam chegar a 2.000 ! O livro seria barato – todos poderiam comprar ! sonho feliz e adormeço abraçado ao travesseiro. Na manhã seguinte abro os olhos e acordo para a dura realidade. Ninguém até hoje – mesmo com patrocínio, divulgação e passando a sacolinha na rua – conseguiu passar de 1.000 exemplares. É triste, mas é verdade. O livro barato, não passa de um sonho num mercado editorial incipiente. Então que o Estrella seja caro mesmo. Uma raridade de 200 exemplares a ser divulgada de boca em boca e dada como presente de Natal para poucos. GRANDES ESCRITORES – Puxa, legal ! – A antiga Polar onde só havia garrafas, está agora cheia de livros ... brinco com a bibliotecária, no prédio em que ficava o escritório da cervejaria. – Sim, os grandes escritores brasileiros estão aqui. Machado de Assis, José de Alencar, Monteiro Lobato, Fagundes Varela, Olavo Bilac, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Paulo Coelho, Fernando Sabino, Luís Fernando Veríssimo, Lia Luft, Moacyr Scliar ... vai ela, listando os autores mais procurados na Biblioteca Municipal. 19


– E o Marimbondos de Fogo do José Sarney, vocês tem ? – Não, não ... esse não temos ... informa ela, consultando o computador. – Pois é ... o imortal da Política, é também imortal da Academia Brasileira de Letras ... comento, com ironia. – Marimbondos me mordam, se não tem mutreta ! exclama a bibliotecária, indignada com a mediocridade de nosso inculto país.

O BARBEIRO Não há na cidade, ninguém melhor informado do que o Barbeiro. Assuntos públicos e privados, desfilam diáriamente por seus ouvidos, sem qualquer censura. A liberdade de expressão é total. Os clientes confidenciam os seus segredos e revelam as tramas sociais que se armam na cidade. E alguns ainda usam a cadeira, como divã para pedir aconselhamento pessoal. O amigo barbeiro, é o psicólogo informal. E os assuntos na barbearia, não tem limite. Um emenda no outro e sempre se tira algum proveito. PAPAI E MAMÃE – Há casais em Estrela, que não parecem marido e mulher. Ele a chama de Mãe e ela o chama de Pai. É Pai pra lá e Mãe prá cá, como se um fosse filho do outro e vice versa. Quando vem a família inteira e aparecem os verdadeiros pais do casal, é um Deus nos acuda. Não se sabe quem é o Pai de que Mãe e quem é a Mãe de que Pai, já que ninguém se chama pelo nome ... comenta o Arno. – Talvez esteja aí a razão do baixo crescimento populacional do último Censo. O marido e a mulher, só fazem papai–e–mamãe fora na cama ... comenta o Chico, com o jornal na mão. – E além disso, tem os filhos que vão embora ... emenda o Zé, citando uma série de famílias cujos filhos emigraram. 20


– Tem lugar que a população tá diminuindo. Só ficam o Vovô e a Vovó ... – Em Coqueiro Baixo, faz anos que não nasce uma criança ... informa o Hermes, reforçando a tese de que o papai–e–mamãe é mais freqüente na conversa do que na cama. A DESEDUCAÇÃO – O Brasil, será em breve a 5.ª Economia do mundo ! vibra o ufanista, com a manchete e foto do Presidente na capa do jornal. – E o 113º em Escolaridade ! retruca prontamente o Professor, citando a nossa posição no ranking mundial. – Ninguém valoriza o Ensino. As Escolas estão caindo aos pedaços e os Professores ganham uma miséria ... opina o Ivo. – É verdade. O povo é burro, não sabe ler, nem escrever ... emenda o Comerciante. – E nem falar ... diz o Radialista. – Fala os pé, as mão, azunha, ozóio e azoreia ... – E se a gente corrige, o Ministério da Deseducação diz que é preconceito da zelite ... ironiza o Advogado. – Voces viram a última Veja ? – A Lya Luft, citou o curioso título de um livro criado pelo Alexandre Garcia, que é estrelense: – ORDE E POGREÇO ... comento eu. – Todos sabem os 5 premios da loteria de ontem, mas ninguém lembra do último livro que leu ... afirma o Professor. – Se é que leu algum no tempo de Escola ... – E o exemplo vem de cima. Até o Presidente que tá aí no jornal, se orgulha de não ter estudo ... diz o Bancário. – E como se isso fosse uma virtude e não uma carência ... lamenta, o Professor. – Mas o meu gurí, eu fiz estudar ! ... revela o Barbeirinho, orgulhoso do seu filho dentista. O FIO DE BIGODE 21


No salão, o velho Barbeiro desabafa: – Antigamente, eu fazia cabelo, barba e bigode. Agora, é só cabelo. Me chamam até de Cabelereiro. A navalha perdeu a função. Ninguém mais faz barba e bigode fora de casa. Agora, só usam Prestobarba e BIC ... essas tranqueiras descartáveis ... – É ... agora é tudo descartável ... apóia, o Cliente solidário. – Até o fio de bigode, que era sinal de honestidade e valia como um contrato com firma reconhecida em cartório, é descartável. Já não garante mais nada ... afirma o velhinho. – É ... o sal iodado acabou com o bócio, mas o papo continua. O que vale agora é o blá, blá, blá, – o papo furado ao sabor do vento que não deixa rastro nem compromisso ... reforça o amigo. – É ... até a palavra, agora é descartável ... conclui o primeiro.

LOUCURA – Tu é louco, escrever um livro sem pseudônimo ! – Tá dando a cara prá bater ... – É muito peito, vão te criticar pro resto da vida ... dizem os amigos ao meu lado. – Olha o que estão fazendo com Monteiro Lobato. Depois de quase um século, os ideólogos o estão acusando de racista. Estão até censurando o Saci, a Tia Nastácia e o Barnabé, no Sítio do Pica Pau Amarelo. Como se os negros nunca tivessem existido ... informa o Professor. – Escreveu, o pau comeu ! resume o Barbeiro, curto e grosso. UNANIMIDADE – É natural que haja críticas e discordancias. Cada um enxerga os fatos do seu jeito. Sempre haverá alguém dizendo que isto é mentira e que aquilo não é bem assim ... opino eu. 22


– É verdade, sempre tem os cricrís enchendo o saco ... – Ao invés de criticar, eles deveriam fazer como eu. Escrever as suas histórias e contar prá todo mundo. Por a cara prá bater ... – É isso mesmo. Não dá prá ligar para esses caras que só vêem defeito em tudo ... diz o Estudante, passando a cuia. – E tem mais ... vai ter gente criticando o livro, SEM LER !!! enfatiza, o mais realista. – No mínimo, vão falar mal do preço ... o Cúti tá roubando ! emenda o barbeiro, com sua larga experiência. – Um livro não lido, é sempre caro, seja qual for o preço ... concluo, terminando o papo. SACI PERERÊ – Assim como estão fazendo com o Saci do Monteiro Lobato, daqui a pouco vão querer censurar também o Saci Pererê do Inter. – E tá certo, isto precisa ser revisto. Como pode um negrinho perneta e caximbeiro, ser símbolo de um clube que exige saúde de ferro e físico perfeito para ser o campeão de tudo ? indaga o esquerdista Professor de Educação Física. – Então é por isso que há um Macaco entrando em campo antes dos jogos ... conclui o torcedor colorado, desconfiado do destino do querido Saci.

LER É VOAR Ler é voar. Voar sem limites. Viajar no tempo, a qualquer hora, a qualquer lugar. Ir do possível ao impossível, do hoje para o ontem e para o amanhã, na velocidade do pensamento e dos sonhos. O livro é o melhor meio de transporte do mundo. Não há nada tão fácil, veloz, limpo, econômico, silencioso e emocionante. Basta abrir e zarpar. Não há bike, carro, nave espacial e tapete voador que faça melhor. 23


– E o livro é totalmente seguro ! Jamais se ouviu falar de acidentes com mortos e feridos em seu entorno. O pior que pode acontecer ao leitor que cochila na direção, é acordar são e salvo no mesmo sofá em que adormeceu. Basta então abrir os olhos e retomar o vôo na página interrompida. A LETRA Ler, escrever e falar, exigem muita atenção. Uma só letra, pode fazer toda a diferença. Divagar, é pensar, é voar. Devagar, é travar. Comida Requentada não tem o sabor da Requintada. Pilastra e Pilantra, nada têm em comum. Pegar e Pecar, andam juntos, mas são atos distintos. Concerto, é o da ópera. Conserto, é o do sapato. Cúpula, é a turma de cima. Cópula, é o que fazem com os de baixo. E não adianta Estrilar. Estrela, jamais terá um Prefeito Perfeito. A PALAVRA A palavra isolada, não diz tudo. Há sempre um contexto a considerar. A Copa, pode ser a Copa do Mundo, a Copa da árvore, a Copa de almoço, a Copa do Clube, a Copa suína ou a Copa do Arroio Estrela – o antigo balneário nas terras do Antonio Horn e atualmente o sítio do Fleco. O mesmo ocorre com a palavra Estrela. Pode–se encontrá–la como uma cidade na terra, um astro no céu, um fruto no mar ou um ídolo no palco, no cinema, na novela e no esporte. Só não é bom, vê-la após após uma pancada na cabeça. O PONTO O Ponto, exige explicações. É preciso saber de que Ponto se trata. Se é o Ponto de encontro, de crochê, da calda doce, do relógio 24


ponto, da cirurgia, da loteria, do Táxi, do Estrela – Lajeado ou simplesmente um Ponto sem nó. E na escrita, o ponto diz muito. Sòzinho, no fim da frase, é ponto final e nada mais. Com dois pontos na vertical, o papo vai continuar. Com três na horizontal, o papo pára mas deixa reticentes suposições. Aí tem ... E há ainda o trema – os dois pontinhos que obrigam a fazer biquinho para pronunciar certos sobrenomes estrelenses. – Müller é Müller, não é Muller nem Miller, entendeu ? A VÍRGULA A Vírgula – parecida, afiada e venenosa como a língua – gosta de inverter os papéis. As afirmações abaixo, o ilustram bem: – Se o estrelense soubesse o valor que tem a mulher, andaria de quatro. Mas se o estrelense soubesse o valor que tem, a mulher andaria de quatro. O ESPAÇO O Espaço entre as letras, merece respeito. Por no gráfico, não é Pornográfico. Deter gente, não é detergente. E Armarinho, nada tem a ver com o Ar marinho. Interessante, é a placa fincada numa roça da Glória: _____________ VENDE–SE

ESTE RCO ! ____________ – O que será RCO ? perguntam–se os estrelenses que passam de carro, intrigados com o desconhecido produto à venda.

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Já quase em São Jacó, decidem dar meia volta na estrada e retornar para desvendar o mistério. Por sorte, encontram o dono das terras na entrada da propriedade: – Bom dia Senhor, o que é este RCO que está à venda ? – Ah ... ali na placa ... VENDE–SE ESTERCO ! uma vez, esclarece o agricultor. A EXCLAMAÇÃO O sinal de exclamação, reforça a afirmação. É a segurança, a definição, a firmeza, a certeza total. – Está certo ! – Não há dúvida ! – É isso mesmo e fim de papo, não há mais o que falar ! No lugar certo, no momento certo, a certeza pode estar certa. Mas a certeza absoluta, pode ser burra ! Nunca se sabe ao certo, o que é certo e o que é errado. O errado pode estar certo e o certo pode estar errado. A não ser que se esteja falando da morte, a única certeza absoluta da vida. A INTERROGAÇÃO O sinal de interrogação, expressa a pergunta, a dúvida, a inquietude, a curiosidade. Questionar é uma louvável virtude. Estimula novas idéias, alimenta a criatividade e faz as coisas acontecerem. Mas dúvidas em excesso fundem a cuca e podem inibir a ação por indecisão. E sem ação, não há solução. A dúvida absoluta, só se justifica para perguntas sem resposta ao nosso alcance: – Como viemos ao mundo ? – Para que estamos aqui ? – Para onde vamos após a morte ?

APELIDOS 26


Assim como o Albotino, Alemão, Batata, Batuta, Batóqui, Banjo, Bibo, Baião, Bispo, Bexiga, Buluna, Chumisca, Camunha, Capucho, Coruja, Cipó, Cabeça, Coca, Cuchinha, Cupim, Crispim, Charuto, Chicuta, Chúqui, Cobrinha, Duda, Dolero, Eletra, Fogareiro, Glostora, Gostoso, Grilo, Gravidina, Jamanta, Jambalaia, Lampião, Lasquinha, Lico, Manivela, Merejo, Mikimba, Micuím, Mula, Melão, Nêga, Pipoca, Pinche, Pingüim, Prego, Pulseira, Pintado, Pelego, Pinto, Pardal, Patito, Raspão, Ratão, Renegado, Sacarina, Schpitz, Schneck, Schpiculira, Schtamba, Saravá, Salabico, Sabiá, Tinzo, Tafú, Titico, Tibica, Tatico, Tchebebeco, Tchoca, Tijolo, Tico, Teco, Vola, Waisa, Zominha e Ziriguidum, faço parte do grupo de estrelenses cujo apelido não deriva do próprio nome. A maioria me conhece por Cúti. – E quem é o Cúti ? O apelido nasceu no Circo quando eu mal sabia falar. Após o espetáculo, volto para casa imitando as folias do palhaço Janguta – o meu herói daquela tarde. Os familiares acham graça e se divertem chamando–me pelo nome do palhaço. Mas em seu jeito alemoado de falar, não conseguem dizer Janguta. Trocam o J pelo X e eu viro Xancuta. Ainda assim, é um nome difícil de pronunciar. Ele engolem então a primeira sílaba e encurtam para Cuta e finalmente para Cúti – o apelido definitivo. ORIGENS O Telminho Vier, é especialista em apelidos estrelenses. Dizem que tem cerca de 300 alcunhas catalogadas com suas origens e razões de ser. As do meu tempo, estão em minha memória. O Nanico vem de Inácio. O Chússi, é o José. O Manduca, é o Armando. O Caninthe, é o João Carlos e o Talo, o Antonio Carlos. O Dili e o Tica, vem de Valdir. O Tiongui, é o João Sílvio. O Beckembauer, é o Becker. O Taldo, vem de Adroaldo e o Chéia, vem de Rogério. Já o Mia e o Mico, herdam o Mi de Valmir. 27


O Minho, vem de Telmo, Telminho. O Fleco, vem de Flávio e o Nani vem de Cristiano. O 51 é um apelido numérico na cidade e nada tem a ver com a famosa pinga de Piracicaba. Vem provavelmente do sobrenome Fensterseifer – pronunciado às avessas como Ein und Fünsfzig. Outros apelidos derivam de características pessoais evidentes a olho nu. É só olhar para o Careca, Bom Cabelo, Bolacha, Zé Marreta, Zé Mico, Rosilho, Barrasco, Mosquito, Carruíra, Sapão, Sapinho, Taco, Palito, Gadanho, Trovão, Tarugo, Saifogo, Purrudo, Veneno e Cadáver e ver de onde surgiram. Há também os derivados da origem da pessoa. Quem não sabe de onde vem o Carioca, o Baurú, o Russo, Pernambuco, o Polaco, o Baiano, o Carcará, o Xaxado, o Taquari, o Canabarro e o Gringo ? O mais difícil, é identificar o Alemão. Nunca se sabe se é o Alemão do táxi, do açougue, da Elmira, da Rose ou o Alemão da Alemanha.

O BANHA Toda cidade tem o seu Banha – o simpático gorducho rechonchudo e cheio de dobras. Mas o Banha estrelense é diferente. É o mais magro e esquelético dos mortais. Se não se segura firme na rua, o minuano o leva com as folhas secas. E ele brinca com a sua magreza: – Ando na chuva sem guarda–chuva entre os pingos e não me molho ... AS MULHERES Os apelidos femininos, são todos parecidos. 28


É tanta Dola, Doca, Lóti, Lola, Lala, Lili, Lori, Loni, Lena,Têti, Téta, Tata, Tita, Tila, Tuta, Niki, Nóki, Neca, Bina, Pina, Ata, Ica, Lica, Nica, Mica e Tica, que a gente não sabe quem é quem. E os mais longos, como a Chaveca, a Moloa, a Xinga e a Maiona, em nada contribuem para clarear a confusão. NOME DE CACHORRO Harda, Ellemer, Adolar, Alse, Aldoir e Eldor, são nomes muito exclusivos. Não tenho notícia de outros iguais no mundo. Já o Astor, não é tão raro. Em Estrela na adolescencia, havia dois contemporâneos – o Astor Gemmer e o Grumann. Agora já tem Astor em Taquari, Cruzeiro, Teutônia e até o Piazzola na Argentina. O nome Astor é eclético. Além de pessoas, batiza Cinemas, Bares e Cães. O pastor alemão do vizinho do Fábio em Bragança Paulista, chama–se Ástor, com acento inglesado na primeira sílaba. – O cachorro é Ástor ... e o vovô é Astôr ... é difelenti ! diz o meu netinho Antonio, ao ouvir o latido do cão. – Tem toda a razão, é diferente ! PROCESSO Processo é o que não falta no Rio Grande do Sul. Com apenas 5 % da população brasileira, tem 20 % dos litígios que chegam ao STF em Brasília. É tão comum que virou até nome de cachorro. E o bicho é brabo: – Olha que o Processo te pega ! adverte o advogado Dr. Leandro – dono do cão – diante de qualquer contrariedade. VALOROSO NOME O sobrenome Hauschild em Estrela, é tão comum quanto o chuchú na cerca. Mesmo assim, impressiona o advogado carioca, 29


com quem a Vania e eu entabulamos agradável conversa na ponte aérea Rio – São Paulo. Ao descermos em Congonhas, ele lê o meu cartão e reage admirado: – Hauschild ? – Nossa, que nome nobre, de sangue azul ! Com um nome assim, eu não precisaria mais trabalhar ... – Mal sabes quanto suor verte o plebeu, para mantê –lo honrado ... respondo eu, divertindo–me com o seu comentário. MUDANÇA DE NOME A Gerda, é vítima de bullying constante por causa do nome. Gerda e merda, estão sempre juntas nas piadinhas de mau gosto que lhe fazem. Cansada de tanta chatice, ela decide mudar o nome: – Que novo nome a Senhora pretende adotar Dona Gerda ? pergunta o cartorário. – Josta ... responde ela.

HISTÓRIA Estrela tem história e boa memória. Há livros, imagens e museus, que registram a sua trajetória ao longo do tempo. O museu particular do casal Dr. Werner e Gisela Schinke, é jóia rara. Com 4.500 peças meticulosamente catalogadas, historiadas e fotografadas, retrata preciosamente o modus vivendi e a história de nossos antepassados. Uma dessas peças, é o armário envidraçado com os remédios que restaram do fechamento da Farmácia Buchmann. E divertida, é a derradeira receita do farmacêutico Muti Mallmann: – Mantenham–no sempre chaveado. O que tem aí, dá para envenenar a metade de Estrela ... recomenda ele ao fazer a doação. 30


Outra preciosidade é a Rosa do Nilo – uma planta desértica que permanece seca em estado de latencia por décadas de estiagem e volta a vicejar em contato com a água. Há no Museu, um exemplar que ainda apresenta expansão após mais de 100 anos, segundo o Dr. Schinke. Os objetos antigos do Museu, devidamente restaurados e conservados em ótimo estado, constituem um acervo cultural valiosíssimo, infelizmente pouco valorizado em nossa cidade. E é bom se alertar – há outros municípios interessados em abrigar tão precioso patrimônio.

LIVROS Lothar Hessel e José Alfredo Schierholt, são pesquisadores rigorosos. Seus livros registram os acontecimentos históricos da comunidade com absoluta fidelidade aos documentos disponíveis. Não fazem ilações fantasiosas e subversões ideológicas tão comuns nas interpretações históricas de nossas cartilhas escolares. Suas pesquisas encontram as primeiras referencias escritas da região a partir de 1636 quando Raposo Tavares, com uma expedição armada fixa bandeira no porto de Corvo – atual Colinas. Apoiado por 02 padres, 200 mamelucos e 1500 Tupís, o bandeirante vem capturar os Ibiraiaras e Carijós – índios nômades, que catavam alimentos nas margens do Rio Taquari – para vendê–los como escravos na Capitania de São Vicente. Desde então, os autores avançam no tempo por 200 anos. Falam da fundação de Estrela por Antonio Menna Barreto em 1802, da colonização alemã a partir de 1855, da emancipação municipal em 1882 e de todo o processo de desenvolvimento no século 20. ASSIS SAMPAIO

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Os livros que reúnem as crônicas de Assis Sampaio, publicadas nos jornais Nova Geração e O Informativo, documentam a evolução do cotidiano estrelense nas quatro décadas anteriores à virada do milênio. Entre outras coisas, o autor fala da Maxambomba, do Vapor Estrella, dos Kerbs animados pelo Ziebel, das festas da Rua 13 de Maio, do monumento ao Cascalho e da construção da CEF – um moderno espanto arquitetônico para a época. Assis Sampaio, é o pseudônimo usado por Francisco Reckziegel, para poder escrever livremente protegido pelo anonimato. O Assis, vem de São Francisco de Assis, o seu chará e santo de devoção. Sampaio, é o seu lugar de origem.

ESTRELA FUTEBOL CLUBE No livro Estrela Futebol Clube, Olives Canton conta detalhadamente a história e os feitos do clube desde a fundação em 1931 até o limiar de 2000. Além de registrar depoimentos com a biografia de grandes dirigentes, atletas e colaboradores, destaca resultados excepcionais como a goleada de 10 x 1 aplicada no Ibirubá, fora de casa e os 0 x 16 dos juvenis contra o Inter em Porto Alegre. Conta que o roupeiro Tato – dado a confundir palavras difíceis – dizia que o dirigente Eugenio Noll era muito “ignorante” ao invés de “exigente”. Olives fala também de Elton Fensterseifer – o craque de Roca Sales, que antes de passar pelo Gremio, Inter, Botafogo e Seleção Brasileira, só não veio jogar no Estrela, porque um de nossos dirigentes não queria mais um “colono” no time. Curiosa também é a substituição do franzino ponteiro Adilson na véspera do jogo em que seria marcado pelo assustador Ortunho do Gremio. Sem dormir a semana inteira com a tétrica perspectiva de 32


enfrentar o negrão, Adilson obriga o técnico a substituí–lo por outro atleta, antes do cotejo. RADIO ALTO TAQUARI Luís Carlos Freitag conta detalhadamente ricas histórias vivenciadas por ele na Rádio Alto Taquari, onde trabalhou por longo tempo. As fotos do Abrigo e de pessoas em eventos cobertos pela emissora, constituem uma valiosa coletânea de fatos históricos. E a ZYN–9 foi longe em suas transmissões. Fez até reportagem internacional numa viagem do Waldir Sudbrack à Alemanha. TALENTO JOVEM E vem aí o mais novo escritor estrelense – João Paulo Rücker, 28 anos, autor de Gui e o Anão de Jardim – com seu primeiro livro de ficção e ótima mensagem sobre a necessidade de manter a fé nas coisas boas, para libertar os sonhos que a realidade tende a petrificar. – João Paulo, vai longe – já está no terceiro livro. O VAPOR ESTRELLA O DVD Vapores do Taquari – produzido na Univates e disponível na SMEL – Secretaria Municipal de Esportes e Lazer – reúne depoimentos de Flavio Jaeger, Edith Müssnich, Ester Kappler e minha falecida mãe – sobre as viagens fluviais com o Vapor Estrella a Porto Alegre, antes do advento das estradas. A viagem pelo rio era um acontecimento histórico e social. Indiferentes ao calor e à fumaça da caldeira, os mais abastados desfilavam gala, pompa e luxo, no restaurante a bordo e em seus camarotes privativos.

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NASCE UMA ESTRELA Madeira de lei e erva mate, alicerçam o nascimento de Estrela. Os fardos da folha verde descem o rio Taquari em balsas de toras de madeira, amarradas umas às outras com cipó. Assim começa o comércio com Porto Alegre. O milho, a mandioca e a criação de animais domésticos, são introduzidos para a subsistência dos peões e escravos nas fazendas. Em 1802, Antonio Menna Barreto escolhe a dedo a estratégica colina na confluência do arroio Estrela com o Rio Taquari para fundar a sede da vila. O topo – com 39 metros de altitude – tem fácil acesso ao rio e está livre das cheias que frequentemente inundam as cercanias. A terra e o clima, são ótimos para a Agricultura. O calor e a chuva, fazem vicejar vigorosa vegetação nos morros e na planície. As enchentes depositam o húmus e fertilizam as várzeas do vale, tornando–o um dos mais férteis da Província. A temperatura, oscila entre níveis extremos durante o ano. As noites invernais de zero grau, embranquecem o campo de gelo. No verão, o ar fervilha à sombra das figueiras a 40 graus sem mexer uma única folha. COLONIZAÇÃO ALEMÃ Ameaçados por Napoleão e pela industrialização da Europa, os primeiros imigrantes alemães são atraídos por Dom Pedro I para cultivar a terra ou lutar como soldados do Império. Por sua conta e risco, aventuram–se na longa travessia do oceano para fixar–se inicialmente em São Leopoldo em 1824. Os sobreviventes ao escorbuto – que dizima os viajantes a bordo por deficiência de Vitamina C – aqui recebem um pedaço de terra, 40 pilas mensais por um ano, 02 éguas, 02 porcos, 02 galinhas, machado, enxada, serrote, fechadura e dobradiças. 34


Em 1855, chegam a Estrela, os primeiros agricultores, comerciantes e industriais oriundos do núcleo original – cuja expansão já totaliza 7.500 imigrantes. Compram terras dos fazendeiros, abrem picadas e roças no mato, instalam moinhos e lojas de roupas, alimentos e bebidas. Crescentes volumes de milho, batata, cebola, porcos, banha e galinhas, juntam–se à erva mate e à madeira na descida do rio para o mercado da Capital. OS BRUMMER Cerca de 25% dos imigrantes, são incorporados ao exército imperial para impedir a invasão dos uruguaios e argentinos. Os soldados, que reclamam do baixo soldo e jogam as moedas de valor irrisório com desleixo sobre os balcões das bodegas, são chamados de Brummer – algo como Resmungão, em alemão. Após a dispensa, acabam se misturando ao pessoal da colonia. ÀS MARGENS DO IPACARAY De tempos em tempos, especula–se que o General Alfredo Stroessner – ex–ditador paraguaio – poderia ter raízes estrelenses. Teorias conspiratórias, dizem que ele poderia ter sido raptado em criança no Brasil e “nacionalizado” no Paraguai, como eles fazem com os carros roubados aqui, mediante pagamento de pequena taxa. O indício mais forte no entanto, é o seu Partido Colorado de bandeira vermelha – tão popular no chaco quanto no pampa gaúcho. Um teste de DNA em seus restos mortais viria a calhar para esclarecer os fatos. BURRICE Todo povo carrega clichês a seu respeito. O Judeu, é sovina. O Turco é esperto. O Português, é burro e o Alemão, é o Português que deu certo. 35


Alguns dizem, que os alemães inteligentes foram mortos na guerra, só sobraram os burros. Ainda bem que nossos avós vieram antes para o Brasil ... GUERRA E PAZ Estrela tem dois grandes expoentes da Guerra e da Paz. O General Ernesto Geisel e o Arcebispo Dom Aloísio Lorscheider. O primeiro, foi ditador militar e teve decisiva participação no processo de reabertura democrática iniciada em seu mandato e concluída por João Figueiredo, sob forte pressão do movimento popular Diretas Já ! O segundo, foi candidato a Papa na votação que elegeu João Paulo I, falecido 33 dias depois. No conclave de Cardeais, recebeu o voto do polonês Karol Woytila, que viria a ser depois o papa João Paulo II – recentemente beatificado pela Santa Sé. O voto em Lorscheider, é registrado no filme O Poderoso Chefão III de Francis Copolla, com Al Pacino. Se a fumacinha branca do Vaticano tivesse confirmado o seu nome, ele teria sido sem dúvida, o maior popstar estrelense de todos os tempos. RAÍZES As terras dos meus avós paternos – Antonio e Margarida Hauschild – se estendiam pelo atual Bairro das Indústrias e Boa União. A casa deles permaneceu de pé dentro do traçado do trevo da 386 por alguns anos. Meu pai – Erni – veio fazer o Tiro de Guerra na cidade e não voltou mais para a colônia. Preferiu a Padaria da Praia. As terras dos meus avós maternos – Cristiano e Amália Horn – se estendiam do Grupo Escolar ao loteamento Mario Vier, no Alto da Bronze. A praça em frente ao Cemitério tem o nome do meu avô. 36


Minha mãe – Maria – estudou no Colégio Santo Antonio, onde aprendeu a escrever Estrella com dois elles em letra gótica – dando o título a este livro. OS ITALIANOS Cinco décadas depois dos alemães, chegam ao Rio Grande do Sul os italianos. Sobem a serra pelos rios Caí e dos Sinos, pois as margens planas já estão ocupadas pelos teutos. Instalam o primeiro núcleo em Nova Milano, de onde espalham suas igrejas e parreirais pelas pedregosas encostas serranas. São chamados de “Gringos”, por chegarem ao Sul em que só havia “Alemães” e “Brasileiros”. Sua alta religiosidade, os ajuda a superar as grandes dificuldades em terras acidentadas e pouco férteis. Constroem tantos templos e capitéis, que os outros até ironizam sua fé em Deus: – Quanto maior a igreja, maior a ignorância do povo ... dizem os despeitados. O tempo se encarrega de estabelecer a verdade. O que vale não é o tamanho da igreja e sim a fé no poder da enxada. A força do trabalho duro promove o progresso, seja qual for o tamanho do altar. Os primeiros italianos chegam a Estrela no fim do século 19, período de grande convulsão social no interior da Itália, como bem mostra Bertolucci no filme “1900”. Os primeiros gringos estrelenses, são oriundi de Farroupilha e Garibaldi. Os mais recentes, vem de Vista Alta Bonita, Dr. Ricardo e Coqueiro Baixo. Alguns dizem ser de Nova Bréscia – a Capital da Mentira – mas ninguém acredita neles. SOCIETÁ ITALIANA FIORI DEI PIANI Os gringos desempenham importante papel na sociedade estrelense. Tem forte expressão na Indústria, Comércio e Serviços. 37


Possuem até um clube social para festejar a sua origem – a Societá Italiana Fiori dei Piani ( Flores da Planície ) – conhecido popularmente como o Clube dos Gringos. Possuem a biblioteca Mário Basségio, ensinam o idioma italiano e confraternizam com muito papo, truco, mora, comida, alegria e puro vinho tinto colonial de garafon. – O vinho também se faz de uva, dijia meu Nono ... ensina um dos gringos, revelando parte do segredo familiar. – Bordô e Ijabel ! confirma o outro com a língua roxa e o narigão vermelho herdado do Vêneto. – O Niágara, também é bom ... completa um terceiro que prefere o branco. A MESA A mesa dos gringos é cheia de cores. As toalhas e saladas coloridas, agradam aos olhos e ao paladar. Quando a comida chega à mesa, todos se aquietam e se submetem às ordens do cozinheiro. O lambari frito de 3 cm é comido inteiro com espinha e tudo. – Os gringos só tiram os olhos, comenta–se por aí. As codornas – que alguns dizem ser passarinho – são servidas com pasta ao alho e óleo, ou al sugo de tomate temperado com manjericão e alfavaca. O cabrito ao alho, assado no fôrno, é seguido de batata, massa caseira e brócoli refogado. O galeto – de preferencia al primo canto – vem com espaghetti, polenta, bacon e radicci regado a vinagre de vinho e semeado a lanços de queijo parmeson bem curtido e ralado grosso. – Que delíchia ! – Igual à comida da Mamma ! exclamam todos na primeira garfada. Além de comer e beber, os gringos gostam de cantar depois da zanta. Cada um, tem um Pavarotti dentro de si.

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O ritmo do cozinheiro fazendo do panelão um ruidoso bumbo e a bateria de punhos e talheres batendo na mesa, puxam o coral que solta a voz até onde o pulmão pode agüentar. La Campanella, América, América e La Bella Polenta, são sucessos garantidos. – Si pianta cosí ! – Si coie cosí ! – Si cose, cosí ! – Si manja, cosí ! – ôôô ... Bella polenta, cosí ! – tchá,tchá,pum ... tchá,tchá,pum ... tchá,tchá, Pum! Pum! Pum !!! ecoa forte pelos eucaliptos do João do Mato invadindo a Delfina. Mesmo estranhando o contraste do tchátchápum italiano com os suaves clássicos de Richard Wagner que estão habituadas a ouvir no estábulo, as vacas holandesas do Renato Wagner batem patas e pedem bis. – Mú ... Múú ... mugem as mais entusiasmadas de pé, como se estivessem na ópera de Roma ou Milão. Mas, tem muito mais. O repertório dos tenores é extenso. Com as cordas vocais já extenuadas, baixam o tom para os mansos acordes da Tarantella, La Virginella, Sole Mio e Santa Luccia. Há quem jure já ter visto a estátua de Santa Luzia do capitel em frente, vertendo lágrimas de emoção ao ouvir o côro. E os gringos sentem saudade da terra mãe. A saga dos antigos imigrantes, é sempre lembrada: – “ Siamo partiti d´Itália e arrivato in Brasile 36 giorni dopo di viaggio in nave a vapore per mare ” ... é tema constante aprendido dos avós, boca a boca. A canção desmente a difundida versão de que os gesticulantes italianos teriam atravessado o mar a nado, parlando ... parlando ... parlando ... até chegar à costa brasileira. É mais provável que tivessem vindo cantando ... cantando ... cantando ... Esgotada a última lágrima de saudade da Itália e a derradeira gota do vinho do garafon, é chegada a hora de ir embora. – Quando vai ser a próchima Paulinho ? perguntam os últimos a deixar a festa. 39


– Na chemana que vem, tem mais ... informa o Presidente do Clube, embicando o carro para a Trans Santa Rita. OS FRANCESES Junto com os gringos da serra, chegam os franceses Lisot. Vindos de Vista Alta Bonita, instalam em Estrela um nobre salão especializado em corte e tratamento de cabelos lisos e rebeldes. O Instituto Hermés & Leonard – melhora a aparência pessoal e eleva a autoestima masculina com exclusivos e modernos cortes de barba e cabelo e exóticos cremes faciais e perfumes. Até os calvos se sentem mais brilhantes do que os carecas comuns. Qualquer bicho feio, sente–se um astro ao sair do salão de beleza dos Lisot em Estrela. Por tradição familiar, os Lisot permanecem também produzindo vinhos finos em Dr. Ricardo. O terroir é gerenciado por François – jovem somelier francês que atrai turistas de toda a Serra para suas concorridas sessões de degustação. – Inspirem, inspirem ... e sintam o aroma deste clássico tinto florado que evoca os frescos ares primaveris de nossa latitude serrana ... humm ... mmm ... murmura François, estimulando o grupo de turistas a inalar o buquê da bebida exalando de suas taças. – Bebam, bebam ... e sintam o consistente paladar da perfeita assembláge das melhores castas cultivadas no solo pedregoso das mais ensolaradas encostas ricardianas ... schlép ... schlép ... estala os lábios François, falando em tom fortemente afrancesado. – Mas bah ! – Que bosta, chê ! interrompe o Seu Bento Aragano, gaudério de Soledade, quebrando a magia. – Quem falou assim ? pergunta o surpreso somelier, quase tendo um chilique. – Fui eu, Chê ! – Usted não acha que esse vinho serrano tem cheiro de bosta com serragem ? 40


– Que horror, Mon Dieu ! – Deixa–me explicar. Este é o Lisot Maxime – le premier de la Maison. Um clássico de retrogosto penetrante, que impregna os sentidos de atávicas lembranças que remetem à mescla de frutas secas e adamascadas com trufas brancas naturais, em fundo madeirado sutil ... – Mas, barbaridade Chê ! – Tu sentiste tudo isso no copo ? – É claro ... sou enólogo laureado e reconhecido na França. Diplomado pelo Chateau de La Provence. E Messier, faz o que ? – Eu não faço nada, Chê, mas sou dono das minhas éguas ! E isso tá cheirando igual à minha baia Erundina depois da chuva ! – Nóóósssa ... que heresia ! – Valei–me Notredame ! – E le digo más … tu tá cheirando a rolha e girando o copo no narigão. Isto é bom prá gripe ? pergunta o Seu Bento. – Non, Monsieur. São técnicas internacionais de degustación. Caso queira, posso introduzí–lo na arte de sacar a rolha, cheirar o buquê, degustar o brut, empunhar a ... – Empunhar a guasca e comer–te o rabo, né ? – Não conte comigo, seu fruta seca adamascada ! – Oh, mon cherie ! Vous non entende ... eu só quero ensiná– lo a prática da degustación. Depois deste maduro gaúcho serrano, podemos apreciar alguns franceses mais jovens ... – Ah é ? Eu sabia que tinha francês no fandango ! – O Senhor poderia começar com um Pinot Noir ... – Pinote no ar ? – De jeito nenhum companheiro, não sou potro xucro de coicear à toa ! –Talvez então, um Cabernet ... – Cabaré ? – Isto é coisa de índio guacho e solito. Não vou nessas porquera ... sou muito bem casado com a minha Mariquita. – Ah, non gosta de encorpado? Quer então um fresco suave? – Mas bah, chê ! – Usted tá invadindo a estancia alheia, olha que te passo o laço ! – Ui, não fique nervoso. Iniciemos então com um demi–sec. Mon ami vai gostar ... 41


– Sai de mim, assombração ! – E não me chame de monami, seu florzinha da serra ! – Então vejamos ... que tal, um aveludado, viscoso e escorregadio ? – A la fresca, Chê ! Te afasta de mim, que lhe meto um manetaço nas venta. – Calma, por que tanto nervosismo ? Apreciaria então um brut, duro e mais seco ? – Vósmecê é que vai levar um bruto e duro coice nas fuça, seu filho de uma égua ! – E um suave redondo, de intenso buquê aromatizado ? – Bueno, agora pulou a porteira, te segura nos cascos, que lá vai relho ... é Um, é Dois, é Três ... não corre, Chê ! não foge da raia, covarde ! – Volta aqui, seu puto cheirador de rolha com bosta ! grita o desvairado gauchão, correndo de relho atrás do frágil somelier.

EMANCIPAÇÃO MUNICIPAL Os negócios giram em torno do rio Taquari. Tudo chega e sai pelo porto fluvial. O sal e os tecidos vem da Capital e retornam em forma de produtos coloniais. A indústria de banha, sabão, bebidas e o comércio atacadista se instalam nas proximidades do porto. Em 1882 – vinte e sete anos após o início da colonização – Estrela já possui 24 lojas, 17 ferrarias e carpintarias, 05 moinhos, 01 fábrica de sabão, 01 cervejaria e 05 alambiques, ao emancipar–se de Taquari. Comentava–se então, que os taquarianos teriam sentido mais a perda dos alambiques do que das férteis terras do vale. Apenas nove anos depois – em 1891 – Estrela perde 70 % do seu território e 50% da população para o distrito de Lajeado, que também se emancipa na outra margem do rio. O tamanho da perda, explica a feroz rivalidade que só arrefece 100 anos depois. 42


O desmembramento de Distritos em municípios, continua vivo nos anos mais recentes com a criação de Colinas, Imigrante, Westfália e Teutônia – onde agora já se planeja uma nova separação para criar Germania. A máquina pública é fácil de montar. O difícil é gerar riqueza para sustentar a festa. SELVAGERIA Nem tudo são flores até Estrela chegar à maturidade. Há no passado, episódios de extrema selvageria cometidos por gente distante das garras da lei. Viçosas roças de colonos, são destruídas pelo pisoteio de cavalos montados por jovens arrogantes que o fazem por pura maldade e diversão. Carroças carregadas de milho, são roubadas na calada da noite, desmontadas e penduradas escondidas no mato para que o dono não encontre suas partes. Bailes na colônia, terminam em pancadaria provocada por arruaceiros que invadem o salão apenas para bagunçar. Barbárie extrema, sofrem os escravos negros. Um deles é castrado por um grupo de violentos rapazes na Santa Rita e posto a cavalgar sangrando de volta para casa. A dor e a hemorragia, o fazem desfalecer no trajeto e agonizar até a morte sem qualquer socorro. ESCRAVIDÃO Na abolição da escravatura em 1888, o Rio Grande do Sul tinha só 1% dos escravos negros do país. Apesar do racismo reinante na época e disfarçadamente ainda presente nos dias de hoje, certas famílias da colonia alemã adotaram escravos como protegidos. Deram–lhes nomes alemães e ensinaram o idioma teuto. Os negros de sobrenome Freitag – Sexta Feira – são um exemplo disso. O Trajano, falava bem o alemão. 43


HERR MACHADO A Vó Hertha estabelece um animado diálogo com o negrão da banca de uvas na estrada de Nova Petrópolis e descobre que ele também é de Maratá – assim como ela. – Wie schreibe dich ? ( – Qual é o seu sobrenome ? ) pergunta ela, sobre a família dele. – Ich schreibe mich Machado ! ( – Meu sobrenome é Machado ! ) responde ele, fluente em alemão. – Sie sprechen gutes Deutsch Herr Machado ... ( – O senhor fala bem o alemão Seu Machado, elogia ela. ) – Dankeschen ... agradece, o negrão. EXCLUSÃO SOCIAL Apesar do avanço da raça negra nas artes e nos esportes, a libertação dos escravos pouco mudou a sua vida nos últimos 120 anos. Os negros continuam em desvantagem no acesso às oportunidades de trabalho, educação e saúde. No entanto, a propalada fixação de quotas que premia as pesssoas pela cor e não por merecimento, parece ser um grande equívoco. Pode oficializar o racismo e agravar a desigualdade. O certo é promover a inclusão social melhorando a nossa perversa distribuição de renda – uma das piores do mundo – que escraviza todos os pobres sem distinguir raças e cores. Mas distribuição de renda, se faz com investimentos em Escola, Alimentação e Saúde, e não com demagógicas esmolas eleitoreiras sem qualquer contrapartida, senão o voto do ignorante.

ORGULHOSAS CAPITAIS 44


Comparada às orgulhosas cidades que se dizem Capitais disto ou daquilo, Estrela é bem modesta. Sem alardear grandes riquezas e feitos invejáveis, nossa cidade estuda, trabalha e prospera sustentadamente, divertindo–se em ritmo de valsa e bandinha. É a Princesa do Vale, sem pretensões de ser Rainha. A 100 km está Porto Alegre – a Cidade Sorriso – cujo orgulho ignora as desdentadas favelas, as ruas cariadas e o mau hálito do Arroio Dilúvio. Na Serra, estão as belas capitais da Uva, do Vinho, da Champanhe e da Longevidade. Aqui embaixo no plano, tem as capitais do Vale, do Couro, das Flores, da Laranja, do Fumo, do Torresmo e da Erva Mate. Em sua obsessão pela erva, Venancio Aires delira espalhando lixeiras em forma de cuia nas ruas. – Desde quando a cuia é lugar de lixo ? A MAIS VERDADEIRA A mais verdadeira é Nova Bréscia – a Capital da Mentira. Corajosamente, assume como virtude o pecado da mentira e faz até um Festival em 1.º de Abril. Cidade alguma faz isso. Todas exibem suas virtudes, mas escondem os seus pecados. Nenhuma quer ser a Capital da Ira, da Avareza, da Inveja, da Ganância, da Soberba, da Preguiça, da Gula, da Luxúria e tantas outras fraquezas humanas que sabidamente habitam suas ruas. Os novabrescianos, nada escondem. E mesmo assim, os vizinhos ainda desconfiam deles. Acham que podem estar mentindo ao se autoproclamarem mentirosos. FESTIVAL DA MENTIRA O Festival da Mentira de Nova Bréscia, é apenas uma pequena amostra do que acontece em nosso país. 45


A linguagem dos governos é o Lero–Lero. O regime de Governo, é o Toma–lá–dá–cá. O Presidente e os Ministros – que deveriam olhar por todos – são apenas cabos eleitorais usando a força da máquina oficial. Os Partidos, sem projeto algum, são grupelhos ocupando cargos para embolsar as verbas públicas. Quando pegos com a boca na botija, nada devolvem e logo voltam em outro posição. Com raras exceções, qual viralatas sem raça definida, os Políticos mudam de partido e abanam o rabo para não largar o osso. Se dizem cristãos, nacionalistas, progressistas, republicanos, trabalhadores, democratas, populares, liberais, capitalistas, socialistas e farroupilhas – tudo ao mesmo tempo. E ainda, são honestos. O Festival Nacional da Mentira não tem data certa – acontece o ano inteiro, em dias úteis e feriados. O PAÍS DO FUTURO Desde sempre, somos o país do futuro e nunca chegamos lá. As necessidades básicas, são empurradas com a barriga e o atraso se perpetua. A prioridade, é sempre a próxima eleição. E nós – como o sapo que se sente confortável na água quente e não reage até a morte no ponto de fervura – achamos tudo natural. Os milhões de favelados, o juro mais alto do mundo, o cipoal de impostos escorchantes, os serviços públicos precários, as altas taxas de roubos e homicídios, as casas gradeadas pelo medo, o transito assassino, os combustíveis piores e mais caros do mundo, as obras de orçamentos e prazos infindáveis, a falência dos hospitais, escolas e prisões, o fisiologismo, o corporativismo e a impunidade, são tão naturais que não nos fazem tirar a bunda da cadeira. Quando a economia vai bem, inflamos o peito de orgulho. Temos os melhores administradores do mundo. Nos sentimos ricos e gastamos à toa a nossa grandeza natural e excepcional potencialidade, sem corrigir os entraves ao pleno desenvolvimento. 46


O Corolla e o Big Mac – referencias mundiais de custo de vida – custam no Brasil, o dobro do preço dos países desenvolvidos. Os remédios, chegam a custar cinco vezes mais ! A globalização, talvez nos abra os olhos e nos obrigue a construir um país do presente, melhor, mais eficiente e mais justo do que o eterno país do futuro. NOTA 10 ! – Moço ! – Como é o seu nome ? pergunta ao garçon, o Deputado cercado de familiares e cupinchas no restaurante. – É Zé Mané, mas pode me chamar de Zé, dotô ... – Bonito nome, bem brasileiro ... elogia o Deputado. – Muito obrigado, dotô ... – Olha Zé ... atende bem a minha turma, que depois te dou uma nóóta. – Uma boa nóóta alta ! O Zé faz das tripas o coração para portar–se à altura do grupo ilustre. Um simples olhar vindo da troupe, é uma ordem que o faz correr solícito no atendimento. Tudo corre às mil maravilhas. O ambiente, a comida, a bebida e o serviço, são de primeira qualidade. Só há elogios. Terminado o jantar, o Deputado paga a conta – tão extensa quanto a sua ficha suja – com o Cartão Corporativo da Mãe Joana, tecendo loas ao alto padrão da casa. – Excelente, muito bom ! – Voces são ótimos ! elogia, sorrindo e abraçando a todos. – E a minha nota Doutor ? pergunta tímidamente o Zé Mané, esperando a prometida gratificação. – Prá Você, dou nota 10 ! – Parabéns, Zé ! – Você é muito bom, meu querido Mané ...

REGRESSÃO 47


Quem assistiu o Gurí de Uruguaiana identificando a Síndrome do Canto Alegretense na sessão hipnótica, ouviu o psiquiatra dizer: – Regressão, é Bom ! Regredir na memória estrelense também é bom. Mergulhar nas vagas lembranças submersas e fazê–las aflorar à mente, reaviva a alma estrelense. As tristezas estão cicatrizadas. As silenciosas fotos dos avós, do pai, da mãe, do irmão, dos parentes e amigos no cemitério, ainda molham os olhos mas não causam dor. Todos parecem em paz e transmitem serenidade. Em paz, me sinto também. As alegrias, ainda fazem rir. Rir com doce saudade dos distantes tempos de guri em Estrela. – Regressar é Bom ! LEMBRANÇAS Puxo o primeiro fio e lá vem uma fieira de lembranças do fundo do baú. Cada fio, puxa outro fio do empoeirado novelo. Puxa daqui, puxa dali, o pó vai levantando e os nós vão se abrindo no emaranhado enrosco da memória. No início, tudo é confuso. As histórias não tem começo, meio e fim. Os personagens misturam os papéis e metem–se em enredos sem pé nem cabeça. É o samba do estrelense doido. Mas aos poucos, as coisas vão clareando. Os lugares, datas e personagens, vão se encaixando em tramas mais claras e definidas. BEBÊ JOHNSON Meus cachos dourados, as rechonchudas bochechas rosadas e os olhos azuis, me dão o título de Bebê Johnson no Posto de Saúde. Mas já nas primeiras fotos da minha infância um pouco mais crescido, pareço mais um cãozinho faminto de pêlo arrepiado e olhar assustado. Foi só começar a andar, para a beleza do bebê desandar ... 48


OS PRIMEIROS PASSOS Minhas primeiras e difusas lembranças, começam a surgir no sobrado dos Reckziegel, no Alto da Bronze. Moramos no segundo andar. Os degraus da longa escada são altos e difíceis de escalar. O assoalho liso de tábuas largas, tem pronunciadas frestas no corredor. A mureta de alvenaria na sacada da frente, quase encosta na fiação da rede elétrica. O poste de pau em forma de cruz, sustenta quilos de fios e um esquisito transformador. A ordem dos pais é evitar o perigo, ficando à distancia daquela tétrica massaroca. No outro lado da rua, estão os cinamomos em que os colonos amarram os seus cavalos quando vem às compras e ao Hospital. PERIGO À VISTA Charretes e caminhões, fazem barulho e levantam pó na Geraldo Pereira. Não tenho noção do perigo que eles representam e um dia meto–me a brincar embaixo de um caminhão de entregas estacionado em frente ao Armazém. Após descarregar, o motorista retorna ao caminhão e liga o motor para continuar o roteiro. A roda traseira passaria sobre mim, se alguém não me visse a tempo de alertá–lo para abortar a arrancada. – Ufa ! JARDIM DE INFÂNCIA A longa caminhada com a alça da merendeira cruzada no peito sobre o uniforme, está vaga e esmaecida em minha memória. Lembro do trajeto, mas só mais tarde descubro o destino. O longo percurso, me conduz ao Jardim da Infancia do Colégio Santo Antonio, lá na Vila distante. O DR. LAMPRECHT 49


O velhinho de jaleco branco e estetoscópio no pescoço, me leva a visitar os seus pacientes no Hospital. Sou o seu assistente e carrego a pesada pasta médica de couro. Não sei falar português. Falo alemão com ele, com as freiras e com os doentes nos quartos. Alguns doentes não falam – só choram e gemem em seus leitos. Não entro em quartos com risco de contágio. Nestes, fico de fora sentado na porta até o Dr. Lamprecht terminar a visita. Enquanto ele não vem, tagarelo com quem passa pelo comprido corredor. A PADARIA DA PRAIA A Padaria da Praia – é o primeiro ganha pão dos meus pais após o casamento e antes de eu nascer. Tempos depois, a vendem para o tio Beno e assumem dois negócios ao mesmo tempo: o Armazém da Tiradentes em frente ao Lautert – e o Expresso Carazinho que faz Estrela – Santa Rosa. Com tempo bom, a jardineira aberta nas laterais, faz a viagem em dois dias, pernoitando em Arvorezina ou Soledade. Com chuva, leva mais tempo. Os tempos são difíceis. O Armazém anda às moscas e a Jardineira patina no barro. A família cresce e meus pais são forçados a dar meia volta e retornar à Padaria da Praia – desta vez como empregados do tio Beno e da tia Ilma. Os jovens Fritz Seiboth e o Aldino Presser – o Pressinha – são aprendizes de padeiros na época. O CASARÃO O tio Fonso e a Lori – recém casados, moram conosco no segundo piso do sobrado dos Reckziegel. Usam o mesmo caderno dos meus pais para comprar na venda do Seu Roberto – pai do Franz, do Nanico e do Chússi. Eles moram no térreo, junto ao Armazém. 50


TAQUARI A convite do Bertholdo e Dona Olinda Sulzbach, meus pais assumem a Padaria da Praia em Taquari. A Suzi fica morando com a Vó Amália em Estrela e o tio Pedro e o Miro, vão morar conosco e trabalhar como padeiros. Logo nos primeiros dias em Taquari, exibo ao meu tio Pedro, o bom Português aprendido com os meninos da vizinhança. – Mein onkel, ich sprehe schon brazilianisch – meu tio, eu já sei falar brasileiro – digo orgulhoso durante o jantar. – Also dann sprich, mein klein kind … ich will horen – então fala minha criança, quero ouvir – responde ele. – Vai tomar no cú ! digo–lhe em alto e bom som, repetindo a primeira expressão aprendida na rua. Interessante também, é a maneira como o meu pai brinca com o modo taquariano de falar: – Não come méli Manoéli, isto faz máli animáli ... brinca ele, com o vizinho Manoel, pai do meu amigo Miguel. O PRIMEIRO PEIXE Os vizinhos são bons amigos. Com eles, aprendo a pescar no arroio ao fundo da padaria e já na primeira pescaria, sou bafejado pela sorte que costuma brindar os marinheiros de primeira viagem. Meu caniço de taquara, distraídamente jogado na margem, sofre um repentino tranco e é puxado para água. Os impulsos intermitentes para o meio do arroio, mostram que há um peixe no anzol. Rápidamente desatracamos o caíco e saímos ao seu encalço. É inesquecível a euforia de puxar o grande e colorido Cará Cartola de alta corcova, debatendo–se fisgado no ar. – Que peixão, este meu primeiro peixe ! O AQUARIO 51


– Todos pescados por mim ! digo com o orgulho ao Flavinho – meu primo de Estrela que vem nos visitar em Taquari – mostrando meus lambaris, joaninhas e carás, no tonel com água pela metade. Ele fica tão impressionado, que até hoje fala disso. E lá se vão 60 anos ... SAFADEZA Há uma moça pedófila na rua da padaria. Exibe a safadeza, subindo sem calcinha nos galhos da goiabeira do pátio da sua casa. Depois nos leva para brincar no quarto, mostrando o corpo nu e os escuros pelos pubianos entre as pernas. Se exibe sem cometer abusos. Mas nem sempre os pedófilos são mansos. Alguns, violam as crianças e causam danos irreversíveis. Em Estrela, há um caso denunciado pela própria filha assediada pelo pai, condenado à prisão. E dizem que o monstro está livre novamente gozando de feliz aposentadoria – se é que a consciência o permite. OS BARCOS É intenso o movimento de barcos no porto de Taquari. As Gasolinas quase afundando com a carga, manobram em meio ao barulho e fumaça infernal. O Vapor, é mais imponente. Os marinheiros de uniforme branco e os viajantes bem vestidos, deixam o convés mais elegante. Barcos menores fazem marola para cima e para baixo. Minha primeira travessia é feita num caíco a remo. Vamos visitar um outro Astor que mora no outro lado do rio. O bom mesmo, é quando viajo na cabine de comando do vapor de passageiros, ao lado dos sacos de pão que meu pai manda a Mariante diáriamente. Manejo orgulhosamente o envernizado timão do Comandante, cortando as compridas águas rio acima. 52


O design dos barcos é fascinante. Por mais simples que sejam, um é mais harmonioso do que o outro. Nada se compara ao seu desenho voltado à função de navegar. PÁSSARO FERIDO Voando baixo no espaço aéreo taquariano, surge o meu primeiro avião. – Está caindo ! – Está caindo ! gritam todos alvoroçados na rua, correndo em direção ao provável local do crash. O Teco–Teco voa rasante e tosse com o motor engasgado, soltando um risco de fumaça preta logo acima de nossas cabeças. Passa a cerca de arame farpado e vai dizimando os pendões de milho até mergulhar de bico na roça. Tropeça num tronco caído e estanca emborcado com a cauda para cima emergindo no milharal. – Foi só o susto ! afirma o piloto, sem nada sofrer de grave. O pequeno acidente sem vítimas, me faz lembrar as pavorosas tragédias modernas em que elas são contadas às centenas. No vôo 3054 da TAM morrem 199 pessoas em Congonhas. Entre elas, amigos e conhecidos. Num único e trágico acidente, perco o amigo Vitacir Paludo de Nova Prata. O meu primo Waisa perde a filha Patrícia. O primo Nico, perde o genro Pavi. O Belo e a Helena – ex–sócios dos meus pais na Soges – perdem o genro, o Deputado Redecker. – É pavoroso ... RIO ACIMA A localização da Padaria da Praia em Taquari é muito boa, mas há uma intransponível barreira mercadológica que atrapalha as vendas nas entregas a domicílio. Habituado a acordar tarde, o taquariano sente–se incomodado pelo padeiro madrugador que entrega o pão antes do meio dia.

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Dois anos depois de insistentes tentativas, meus pais rendem– se à realidade e decidem voltar para Estrela – agora com mais um filho, o Nenê nascido em 1950 e único não estrelense da família.

O CLUBE Na presidência de José Moesch, meus pais assumem a economia da Sociedade Ginástica de Estrela, em sociedade com o tio Osvaldo Eckert. Logo em seguida, a Tiradentes começa a receber o calçamento. Os montes de areia grossa em frente ao Clube são ótimos para brincar, mas os paralelepípedos – tão pontiagudos e cortantes quanto o próprio nome – não são nada amigáveis. Mas isso não atrapalha o movimento. O Clube recebe muita gente em dias de baile. O grande salão no segundo andar, tem acesso pela escadaria da frente e por duas passagens ao lado do palco – uma social e a outra de serviços. Comporta centenas de pessoas e centraliza os maiores eventos sociais como os Kerbs, baile de Debutantes, Carnaval, Casamentos, Formaturas e Aniversários. Ali funcionam também, o Cinema, Teatro, Ballet e a Ginástica Olímpica. OS KERBS Os festejos de Santo Antonio – o padroeiro da paróquia – duram três dias. A Igreja, as ruas e as vitrines são enfeitadas com motivos festivos e religiosos. Chegam parentes de todo lugar. O dia, é dedicado à comilança. Nas casas, há fartos assados de porco com massa, salada de batata e muitos doces na sobremesa – tudo regado a gasosa e cerveja. 54


À tarde, tem o café colonial, muitas vezes interrompido pela bandinha típica que desfila na rua em caminhão aberto com coqueiros e barris de chopp. À noite, é só alegria ! Os Zíngaros Alegres liderados pelo Ziebel, recebem o numeroso e animado público no salão do Clube, decorado com plantas e coqueiros. – Hoje tem kerb em Estrela ... e vamos todos bailar ... é o hino da festa. As Gildas, são alegremente arrancadas dos galhos por dançarinos que pagam um bom prêço pela garrafa de champagne vestida de papel crepon. A garrafa quente é então trocada por uma gelada para molhar a garganta. A cada instante, ouve–se nas mesas a ruidosa algazzarra que segue o seco espoucar do troféu esguichando abundante espuma. Todos fazem farra com a Gilda – a mulher mais cobiçada do Kerb. O CARNAVAL O Carnaval é animadíssimo. Em intercambio com outros clubes, a Soges recebe blocos e escolas de samba de toda a região. Piratas, Mexicanos, Prisioneiros, Pierrôs, Arlequins e Colombinas de todo o Vale concentram–se no mesmo baile. Ao som da primeira batucada, o povo se posta na rua para assistir a chegada dos foliões que se aquecem nas ruas vicinais antes de subir ao salão. GALO DA MADRUGADA A entrada de cada Bloco é triunfal – um quer ser melhor do que o outro. Os Mexicanos fazem rinhas de galo ao vivo, no picadeiro trazido ao salão. Aos gritos em castelhano, apostam nos galos que se bicam até sangrar. É rinha de verdade ! Dia claro após o baile, continuam a farra na rua. Embebedam os galos e a si próprios, até virarem os olhos e tropeçarem nas 55


próprios pernas. O vigoroso canto dos aguerridos campeões do rinhadeiro, vira tímidos soluços de pintos arriados pela cachaça. – Có ... cóó ... soluça o antes garboso galo da madrugada, estirado agora ao chão. – Hic ... hic ! responde o antes garboso mexicano, prostrado agora sob o sombrero na calçada. AS MARCHINHAS O Samba e a Marcha–rancho, são bonitos e bem elaborados, mas o que levanta o povo no carnaval são as Marchinhas. Fáceis de cantar, abordam os mais divertidos temas populares com muito humor e alegria. Os novos sucessos do ano, se juntam aos antigos que permanecem na memória. Mamãe eu Quero, As Águas vão Rolar, o Pó de Mico, a Cueca e a Cachaça não é água não ... são grandes clássicos sempre vivos a cada ano. Uma emenda na outra: – Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar Traga a chupeta, traga a chupeta, traga a chupeta pro Nenê não chorar ... E as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão no saca–saca–saca rolha e bebo até me afogar. Deixa as águas rolar ... Olá seu guarda, bota prá fora esse moço que tá no salão brincando, com pó de mico no bolso. Foi ele, foi ele sim, foi ele que jogou o pó em mim ... Eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca prá fazer pano de prato. Minha cueca, tava lavada, foi um presente que ganhei da namorada ... Voce pensa que cachaça é água, cachaça não é água não, a cachaça vem do alambique e a água vem do ribeirão. Pode me faltar tudo na vida, arroz, feijão e pão ... disso, até acho graça, só não quero que me falte, a gostosa da cachaça. Hoje, teriamos certamente mais uma: Oh, tiririca ... oh, tiririca ... pior do que tá, não fica ... AS MARGARETES

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No meio da tarde, o bloco de homens travestidos de mulher, faz divertida farra em frente ao Clube. – Desfolhei a margarida, margarida mal me quer ... canta o Banjo, mostrando as pernas com trejeitos femininos. O povo morre de rir e pede bis a cada vez que ele levanta a saia. Ele acha o máximo e se esforça para ser ainda mais engraçado. Alertado por um amigo – que também morre de rir – descobre o motivo de tanta alegria no povo. Todos riem do seu saco enrugado, aparecendo fora do apertado shortinho de banho por baixo da saia. XIXI NA CALÇA O grande saco enrugado traz outros problemas ao Banjo. Num baile de fatiota e gravata, ele vai ao toalete para urinar. Durante o ato, sente o calor da urina escorrendo na perna e encharcando o sapato. Com a calça já toda molhada, ele descobre o motivo do esguicho não atingir o mitório. Está simplesmente segurando um ovo ao invés de empunhar o pinto ... VIBRAÇÃO Criança não entra em Carnaval de gente grande. Lugar de criança é na cama. Acordado na cama, sinto a vibração dos foliões no ar. – Você conhece a Carolina, ficou gostosa, ficou granfina. Quando ela passa no meio do salão, a turma acha graça e começa a confusão: – Pum, pum, pum Carolina ! – Pum, pum, pum Carolina ! pulam eles, fazendo tremer cada tijolo do Clube. E o tradicional Tará, tará, tará ... tará, rará, rará, rará ... da orquestra, emenda mais um sucesso que leva o salão à loucura: – Ô Jardineira, porque estás tão triste, o que é que foi que te aconteceu ? – Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. 57


– Vem Jardineira, vem meu amor, não fique triste que este mundo é todo seu, Voce é muito mais bonita que a camélia que morreu ... TRISTEZA Como tudo o que é bom dura pouco, o Carnaval termina em tristeza. Na quarta feira de cinzas, a fantasia desaba e parece que o mundo vai acabar. – Tristeza, por favor vai embora, é minh´alma que chora neste triste penar ... cantam os foliões pressentindo o triste fim, confirmado logo depois pelo tradicional – Ai, ai, ai, ai ... tá chegando a hora, o dia já vem raiando meu bem, eu tenho que ir embora ... Não fosse o Enterro dos Ossos no sábado seguinte, o mundo realmente acabaria ali. RELÓGIO SUIÇO Na hora da limpeza no dia seguinte, é minha vez de brincar no salão. Me divirto catando máscaras, rolos de serpentina e pacotes de confete, entre os resíduos deixados no chão. Sob a camada de papéis na pista rebaixada de dança, garimpo dourados tubos de lança perfume Roda, com meia carga e muito gás. É gostoso esguichar o friozinho na mão e cheirar como todos fazem. Numa dessas limpezas, me deparo com uma reluzente surpresa: Um relógio suíço de alguém que perdeu a hora na folia e dificilmente saberá a que horas chegou em casa. BALANÇA MAS NÃO CAI O pula–pula no andar de cima, reverbera e faz tremer o andar de baixo. No térreo, parece que o teto vai desabar. Apoiada em grossas colunas, a estrutura de madeira balança mas não cai. É flexível e absorve o impacto da pisada dos foliões dançando conforme a música. 58


Sentindo o chão elástico, eles pulam ainda mais para sentir o chão tremer a seus pés, sem destroncar o tornozelo. O CINE GUARANI O Cine Guarani funciona no salão de baile. O Ivo Bergesch, cobra o ingresso no guichê de baixo. Não tenho idade para entrar no cinema pela porta da frente. Penetro então pelo palco dos fundos e assisto os filmes escondido atrás da tela, sem ser visto por ninguém. Outras vezes, os vejo com o Urbano da abafada cabine de projeção, entulhada de latas redondas e fitas de celulóide. – Que raio mágico é esse ? – Como é que leva a figurinha da fita para atravessar o salão ? pergunto–me espantado com o facho de luz amplia a imagem na tela. Observando os dois ruidosos carretéis que giram e fazem a fita passar pelo foco de luz, começo a desvendar os truques da sétima arte. É uma maravilha ver o pequenino Carlitos do filme, crescendo na grande tela de pano. Mas às vezes, a fita se rompe e a mágica se desfaz em plena sessão. O público assobia, vaia e bate o pé. Suando muito, o Urbano apressa–se em colar as pontas rompidas para continuar o filme. A imagem reaparece na tela e todos se aquietam nas cadeiras. Não existe arte, sem suor. O TEATRO A densa floresta armada no palco, serve de cenário para os valentes caçadores do Jardim de Infancia do Colégio Santo Antonio. Corajosamente, avançamos entre as árvores cantando assim: Nós somos os caçadores, nada nos amedronta ! Damos mil tiros por dia, matamos feras sem conta !

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O que caçamos, não sei. Mas pelo destemor do grupo, o bicho deve ser grande. A GINÁSTICA O esguio e polivalente, Rudi Rath, de mil realizações em Estrela, orienta a moçada nos exigentes exercícios da ginástica olímpica. Eu sou pequeno e ainda não participo das aulas. Mas quando não há ninguém por perto, dou cambalhotas nas almofadas do chão e planto bananeira. Às vezes, passo a mão no pó de giz e tento imitar os maiores. Equilibrar–se no dorso do cavalo de couro e pendurar–se na barra, é bem mais fácil do que sustentar–se no ar com os braços abertos nas argolas. O BALLET Ao som de Mozart e Strauss, a Geni Schwertner rodopia na ponta dos pés e desenvolve os elegantes movimentos do ballet clássico. As alunas, com pescoço de cisne e pernocas de fora, tentam desajeitadamente imitar a professora. Mesmo as melhores dançarinas, não atingem a perfeição da mestra.

O PISO TÉRREO O salão térreo tem pé direito baixo e grossas colunas que sustentam o teto. Á direita de quem entra, estão as saletas acortinadas reservadas ao carteado. À esquerda, estão o bar e o restaurante, usado também para pequenos eventos. Em frente ao balcão de alvenaria do bar, espalham–se mesas e cadeiras para os drinks. Adiante, passa–se para a sala de snooker em que o Gastão Brust, Simioni, Vasquinho e mais tarde o Albotino, encaçapam as bolas de 1 a 7 e saem de qualquer sinuca. 60


– TÔ CEGO ! – TÔ CEGO ! O velho Borinha – avô do Lula – é conhecido por seu medo da morte. Todos os anos, ele passa o mês de Agosto no Rio de Janeiro, para fugir das gripes potencialmente fatais para os velhos. Nos demais meses do ano, ele briqueia com relógios e joga cartas no Clube. E costuma cochilar na mesa de jogo. Durante um jogo, ele dorme e os parceiros apagam a luz e fingem que a rodada segue normalmente: – Lá vai, nove de paus ... diz uma voz, no escuro. – É boa, mas eu não posso pegar a mesa ... emenda o outro. – É ... mas eu pego ... diz o terceiro. – Borinha, é tua vez ... diz o vizinho, cutucando–o no braço. O velhinho acorda, abre os olhos e nada enxerga no escuro. Desesperado, começa a gritar: – Socorro, tô cego, tô cego ! – Não vejo nada ! O BOLÃO Descendo a escada, está o Bolão – esporte típico dos imigrantes alemães. A cancha é palco de disputadíssimos torneios masculinos e femininos. À tarde, o ambiente é tranqüilo. Tem treino do 20 de Maio, o grande campeão feminino. À noite, o ruído é forte. O barulho dos paus que caem no impacto da bola, mistura–se à ruidosa vibração da torcida masculina. O Veteranos, o Cai Fora e o Cometa, disputam acirrados torneios internos e regionais Há também jogos interestaduais. Uma seleção de Estrela chega a comer 300 km de pó na estrada de chão e atravessar a precária balsa do Rio Uruguai para jogar em Itapiranga – SC. 61


NOVE PAUS O eco das torcidas revela a trajetória da bola. Após os toques secos do arremêsso na pista, o macio rolar da pesada bola sobre a prancha, é cercado de ansiosa e silenciosa expectativa. Se cai para a banda lateral, segue–se um uníssono e esticado Óóóhhh ... Quando segue firme e chega aos pinos na área mais larga, o ruidoso ruir dos paus se confunde com as expressões de júbilo, em decibéis proporcionais ao número de pinos caídos. Cada jogador da equipe faz 10 arremessos, visando derrubar os 9 paus. Os melhores, como o meu sogro Albano Rücker, chegam a somar 90 pontos, atingindo 100% de aproveitamento. Lance após lance, a contagem dos pontos da equipe é atentamente acompanhada no quadro geral. GRANA EXTRA Feita a contagem dos pinos caídos, entra em ação o Juntador de Paus, que ágilmente cumpre duas tarefas simultâneas – devolver a bola ao lançador pela canaleta paralela que corre em sentido contrário à pista e repor os pinos em suas bases marcadas no chão. A atividade, é bem remunerada. Quando faltam Juntadores, eu aproveito a oportunidade para ganhar uns trocados. O Bolão está extinto na Soges e dá lugar a uma bem equipada Academia de Ginástica. Em outros lugares – como o Kolpinghaus em São Paulo – ainda é possível praticá–lo. A CANCHA DE BASQUETE Nos fundos do Clube, está a cancha de cimento, cercada pelo parapeito de ferro. Os três degraus da arquibancada são de alvenaria.

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Grandes jogos de volei e basquete, acontecem ali. Times da Soges, do Rio Branco, do Pinheiros e de outras cidades, enfrentam– se em partidas disputadas ponto a ponto. O volei feminino exerce grande poder de atração entre os homens – tanto pelas belas pernas das moças, quanto por seu desempenho esportivo. SANGUE NA QUADRA Numa tarde qualquer, assisto o treino dos grandalhões do basquete. Acidentalmente, a pesada bola espirra da quadra e derruba o apetitoso sanduíche de mortadela que tenho nas mãos. O sangue me sobe à cabeça e a minha reação é imediata. Jogo–lhes uma pedra que atinge em cheio a testa do Dili. Assustado com o sangue que lhe cobre o rosto, fujo para dentro do Clube e me escondo no balcão do bar. Só saio dali quando me convencem que os danos são pequenos e não vou apanhar por isso. Outro dia, o sangue jorra também do dedo machucado do Naninho. Sangrando muito, ele grita apavorado para a mãe: – Mãe, eu vou morrer ! – Minhas tripas ... minhas tripas tão saindo ! Acidente mais grave e muito raro, acontece com o Igor. Ele leva um tranco do Lui e cai estatelado no cimento quebrande os dois braços simultaneamente. Além de sofrer enorme desconforto no calor, o gesso em ambos os membros, o impede de executar tarefas triviais. Lavar a bunda é uma delas. Sempre que vai ao banho, precisa pedir a ajuda da mãe para esfregar o traseiro. DONA SULFIRINA Na rua de baixo, está a pensão da Dona Sulfirina, mãezona de todos e grande cozinheira. O Adauto e o Zé, moram com ela e são bons de bola – jogam com a gente na rua e na quadra. Já o Otávio, é maior e mais sério. Fala pouco e fala grosso. E gosta de pescar. Décadas depois, reencontro o pequeno Jeks – agora grande e pescador como o pai Otávio. 63


PEITUDO O meu vizinho Lui Schneider é um cara peitudo. Após o matiné de domingo no novo Cine Guarani, é comum vê–lo de peito aberto fantasiado de Super Homem, no velho caminhão Gigante em frente à fábrica de bolachas e do café Elefante, de propriedade do seu pai Willimar. No futsal, segue mostrando o peito como goleiro do Cruzeiro e do Dinamite e no futebol de campo brilha intensamente no arco do Estrela F.C. Depois, mete os peitos no campo da Política atuando como Vereador em seguidos mandatos. Até os adversários, o reconhecem como um cara de peito.

COLÉGIO SANTO ANTONIO Encravado no centro da cidade, o colégio das freiras é a escola mixta de toda a criançada. Simpática, risonha de faces redondas e rosadas, a irmã Agnésia é a mais jovem e mais bonita das freiras. A Lóti e a Ivone, a ajudam a nos cuidar no Jardim da Infancia. Nas cadeirinhas e mesinhas infantis, fazemos os rabiscos que os nossos orgulhosos pais costumam chamar de desenho. O recreio acontece no pátio de areia, embaixo da árvore. O grande pátio central do colégio, é usado pelos alunos maiores do Primário, Ginásio e Escola Normal. A nossa turma é grande e subdividida em panelinhas de meninos e meninas. O Mico, Tica, Tiongui, Igor, Fleco, Zé Caio, Roque, Normélio e o Calitinho, são os maiores e mais fortes. O Pedrinho Engling, Edson Hergemüller, Régis Ruschel, Walter Mentz, Renato Fiedler, Telmo Dexheimer, Vola, Paulo Guampa, Betinho 64


Mallmann, Luizinho Foster, Tadeu, Waisa e o Taldo, são menores e se submetem ao nosso comando. Em menor número, as meninas tentam ter espaço igual. Algumas são meigas e risonhas. A Pina, Maiona, Maria Amália, Maria Helena, Clarice e Marice Eli, as primas Loti e Virgínia Mentz, a Flávia Fritsch e o trio Beti Snell, Tania e Rejane Mallmann, tratam a gente numa boa. Outras, mais chatas, estão sempre choramingando e denunciando nossas molecagens. O maior registro desta turma, é uma famosa foto em que a Rejane aparece bocejando. De A a Z A exigente Irmã Mafalda – professora do 1.º ano primário – desenha cada letra do alfabeto no quadro negro e nos faz repeti–las até a exaustão: A é áááá ... B é bêêêê ... C é cêêêê ... insiste até que a gente entenda. Leva semanas, para chegar ao XYZ. Aprendemos também a escrever na pequena lousa com o lápis de cera, até atingir formatos legíveis. A caligrafia, é depois afinada com lápis e borracha no caderno com pauta de linhas duplas. Descobrimos depois as sílabas e as juntamos para formar palavras: B+O forma BO; T+A forma TA; BO+TA formam BOTA. B+O forma BO; C+A forma TA; BO+CA formam BOCA. P+A forma PA; R+A forma RA; PA+RA formam PARA. F+O forma FO; R+A forma RA; FO+RA formam FORA. E assim, vamos aprendendo a escrever as palavras que se bota da boca para fora. Os números seguem o mesmo processo. Os algarismos de 0 a 9 vão nos sendo ensinados um a um. Depois os juntamos em duplas para formar as dezenas até o 99. As centenas, ficam para o ano seguinte, quando iremos estudar no Cristo Rei – o novo colégio masculino que está sendo construído no morro. 65


AMBIENTE ESCOLAR O ambiente escolar, é feliz e amigável. A sala de aula é ampla e bem iluminada. As carteiras são confortáveis e o quadro negro atr��s da estante da freira, é grande e bem visível. Na pasta de couro, carrego a lousa, cadernos, régua, lápis de cor e um estojo de lápis preto com borracha e apontador. Os únicos objetos destoantes na sala, são os temidos tamancos e a régua de madeira da severa Irmã Mafalda. Rígida disciplinadora, ela os usa intensamente para nos manter na linha. Pé de aluno no corredor fora da carteira, é para ela uma diversão – uma bola a ser chutada de primeira. Certa vez, exponho propositadamente o pé no corredor, esperando ela vir me chutar. Ela se aproxima disfarçadamente para me surpreender. Ao armar o pontapé por baixo da batina, eu recolho o pé e ela chuta a carteira. – Autch ! geme ela pululando no tamanco, para gáudio da turma que mal consegue se segurar para não rir da fera ferida. Outra técnica de disciplina aplicada por ela, é o reguaço nas mãos de alunos desatentos e mal aplicados. Sempre que surpreende alguém em falta, manda apoiar as mãos no tampo da carteira e bate a régua nos ossinhos dos dedos. É um cruel e temido castigo. Até o Tica – alvo freqüente da freira – comporta–se como um anjo quando ela chega perto.

MÃOS À PALMATÓRIA Eu não acreditaria, se não tivesse acontecido comigo. No exato momento em que estou escrevendo o texto acima sobre a temida régua da Irmã Mafalda, toca o telefone de casa.

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– Dindo, quando Você era criança, existia a palmatória ? pergunta a minha afilhada Fefê, incumbida de fazer um trabalho escolar sobre os antigos métodos de ensino. – Palmatória ? pergunto, para me situar. – Sim, quando os professores batiam nas mãos das crianças ... Quase tenho um treco, ao ouví–la falar justamente sobre o tema que estou escrevendo. – Coincidência ? – Transmissão de pensamento ? – Milagre ? – Ninguém explica ... MISTÉRIO CABELUDO O cabelo das freiras, é o grande mistério que nos inquieta. – Tem cabelo comprido ? – Raspa a cabeça ? – É loira ou morena ? perguntamo –nos uns aos outros, sobre o segrêdo que elas guardam a sete chaves sob o capuz. Embora alguns digam ter visto isto ou aquilo atrás da orelha ou na nuca, ninguém consegue desvendar o cabeludo mistério.

ALTO BA BRONZE Depois de três anos no Clube, voltamos ao Alto da Bronze – o meu bairro de origem. Meu pai compra o Açougue do Kurt Danika no fim da Rua Pércio Freitas, antes da porteira do Bruno Eckert. É um pequeno abatedouro de suínos e terneiros, que produz lingüiça, mortadela e derivados – chamado de Schlachthaus pelos colonos que fornecem os animais. Enquanto meus pais planejam construir a sua primeira casa própria, moramos de aluguel na casa do tio Osvaldo e tia Fini, ao lado da serraria. A grande família do tio Osvaldo é a nossa segunda família. Somos primos quase irmãos do Mário, Oscar, Miro, Etvino, Dolores, Nico, Sonia, Bea, João e Lui. 67


Quem cuida da serraria é o Oscar. A afiada serra–fita dentada, fatia as grossas toras em pranchas e tábuas. Cada tipo de madeira, tem cor e cheiro próprio. O barulho da serra, varia de acordo com a dureza do tronco. O lugar é muito perigoso – ninguém pode se aproximar. Só podemos brincar nos montes de serragem, em sábados e domingos, quando tudo está parado. A ARANHA Em frente à serraria, acontece o acidente quase – fatal com a Terezinha Gregori. O cavalo que puxa a aranha de grandes rodas raiadas e bom molejo, assusta–se na curva e dispara em correria. Ela perde as rédeas e aos gritos voa de costas no duro chão de cascalho. Todos correm para socorrê–la. Atordoada e cheia de arranhões vertendo sangue, a moça soluça assustada e leva um bom tempo para se recompor e sacudir o pó. Não há fratura exposta. Domado o animal bravio, ela retoma as rédeas da charrete e segue viagem para casa – na Auxiliadora. SALVA VIDAS Outra quase–tragédia acontece comigo e a Suzi no pequeno açude do Bruno Eckert. Eu escorrego na mureta do laguinho e caio na água. Ela também cai, ao tentar me salvar. Não sabemos nadar e aos gritos, nos debatemos desesperados para permanecer à tona. Casualmente, o Chússi passa por ali, ouve o nosso desespero ecoando pelo bananal e chega a tempo de nos resgatar. A ele, devemos a vida. ANZOL NO BICO Nos fundos da casa – ao lado da capunga em que as larvas se fartam no escuro bolo em decomposição – descubro boas técnicas para capturar os pássaros. 68


Arapucas de bambú com isca de mamão, são ótimas para pegar a Saracura e Aracuã. Alçapão com meia laranja, atrai o Sabiá. Um grão de milho no anzol – misturado a outros grãos no terreiro – proporciona uma emocionante pescaria de Galinhas. Pensando que vai encher o papo, a penosa vem bicando de grão em grão até engolir o grão do anzol. Cacareja e tenta resistir ao puxão da linha, mas é muito mais dócil do que um peixe.

CASA PRÓPRIA Com as economias juntadas no Clube e o bom movimento do açougue, meus pais constroem a primeira casa própria de 100 m², com varanda e um quarto para cada filho. A moradia de madeira, com paredes verdes e janelas brancas e marrons, enche de cor a úmida baixada em frente ao Açougue. A pontezinha de dois metros por um, sobre o banhado de patinhos d’água, a liga com a rua em frente. Nos fundos, o banheiro e o tanque de lavar roupa, são externos, ao lado da horta e do pequeno pomar em aclive. Novas utilidades de luxo para aqueles tempos, facilitam a nossa vida e proporcionam maior conforto. O novo sofá na sala de visitas, o rádio RCA Víctor, o fogão Wallig esmaltado e a frigidaire Steigleder – ( qualquer geladeira, era frigidaire ) – nos enchem de satisfação e orgulho. ARROZ COM LINGUIÇA A nossa pequena parreira, é a sala de almoço no verão. Almoçam conosco, a Vó Amália, o Velho Vogt – que mora com a gente e trabalha no Açougue – e a Telma, empregada de casa. O cardápio é simples – arroz, feijão, carne, batata, chuchu e salada. Na quaresma, nos abstemos da carne às sextas feiras. Meu pai traz bacalhau dos seus clientes de Lajeado. 69


No sábado, dia de faxina e pouco tempo para cozinhar, o prato é sempre o mesmo – arroz com lingüiça. Quando reclamamos, a mãe tem a resposta pronta : – Vai comer no Hotel Bentz ... diz ela, referindo–se ao melhor restaurante da cidade. CARANGUEJO PERNETA Ao pé do matinho ao lado da parreira, dezenas de caranguejos se criam naturalmente no pocinho perene de água salobra. A maioria, tem as duas presas de tamanhos desparelhos. Uma garra grande ainda inteira e outra menor em regeneração. Aparentemente, a mutilação se deve à disputa entre rivais pelo abraço carinhoso da carangueja. O AGRIÃO O excesso de água do pocinho, escorre para a canaleta que irriga o agrião no canto do jardim. O melhor e mais puro agrião de que tenho notícias, cresce viçoso e consistente na água salobra em que vivem os caranguejos. Talvez, por vegetar na salmora. O agrião é tão saudável que o Naninho o cultiva até hoje. Depois de 14 dias de inverno chuvoso, frio e nublado, o sol volta a brilhar nas janelas da Imec. – Que droga, sol de novo ! – Vai queimar todo o meu agrião ... reclama ele, para espanto de quem o ouve na fila do Caixa. AS PANDORGAS No porão da casa, fazemos as nossas pandorgas. O primeiro passo é montar o esqueleto em forma de cruz com duas varetas de bambu – uma como espinha dorsal e a outra como asa transversal vergada em arco.

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O papel de seda, já cortado no tamanho e formato certo, é colado ao esqueleto em papelotes melados de grude de farinha de trigo com água. A pipa de peito largo e corpo afilado para a cauda, é a que produz o melhor resultado. Uma longa cauda, é necessária para dar direção e equilíbrio no ar. Fitas laterais, a ajudam a voar em linha reta, sem adernar em descontrolados mergulhos laterais. Depois do grude sêco, amarra–se o peito do papagaio ao carretel da resistente linha Corrente n.º 2 para guiá–lo no espaço. Observar a direção do vento e a ausência de obstáculos é fundamental para alçar vôos seguros. É emocionante ver a pandorga subindo aos céus desenrolando o fio do carretel em nossas mãos. Os impulsos do minúsculo ponto colorido no infinito sob nosso comando, muito nos ensina sobre aerodinâmica, equilíbrio e fôrça dos ventos. Como em tudo na vida, pandorgas mal feitas em mãos frágeis e linhas soltas, comprometem a qualidade do vôo.

O AÇOUGUE A aparência externa do antigo estabelecimento construído por meu avô, não causa boa impressão. Mas, dentro da velha casa atrás da uva do mato, funciona uma asseada organização. Por baixo da construção, – corre água limpa e perene vinda por gravidade de vertentes logo acima. Os dejetos do abate, escoam higienicamente sobre o lajeado de pedra para a mangueira dos fundos. O Schlahthaus – como é chamado pelos colonos – tem cinco ambientes distintos: as mangueiras de animais, a área de abate, a sala de corte e produção, o defumador e a garagem do Libuna. O GRANDE CIRCO 71


Na garagem do Libuna ao lado do Açougue, fazemos grandiosas sessões circenses em dias de chuva. Temos uma barra de ferro, um trapézio e um pneu velho amarrado à uma corda presa na viga. Apesar da ousadia e alto risco, as acrobacias não derrubam e não machucam os atores. É um espetáculo ! O ABATE Na área de abate, os bichos chegam esperneando no piso liso molhado e saem dependurados no gancho em forma de carcaça. De avental branco e tamanco, o tio Pedro e o Fonso, aplicam diferentes técnicas para abater Bois, Terneiros e Porcos. Os Bois recebem uma única e certeira punhalada no coração. A lâmina pontiaguda como uma agulha os faz sangrar em lenta agonia, até cair de joelhos e desfalecer no chão. O animal é então enganchado nos tendões das patas traseiras e alçado em corrente de roldana, até ficar inteiramente de cabeça para baixo. Após bem lavado, tiram o couro e abrem verticalmente a carcaça retirando a buchada e as vísceras. Depois cortam o dianteiro e o traseiro, que são levadas à sala de corte e desossa. O Terneiro morre mais rápido. Recebe um tratamento mais humanitário, se é que se pode chamar assim. A potente marretada na testa os desacorda instantaneamente. Nada sente. Já os Suínos, são rebeldes. Não têm a mesma resignação bovina. Resistem até o último grunhido. Além da marreta na testa, requerem estocadas de faca fina e comprida no coração – nem sempre fácil de achar abaixo da camada de gordura. A carcaça, é levada com água fervente na raspagem do pêlo. O corte, é feito ao comprido em duas metades iguais. WURZTFABRIK Wurztfabrik. 72


É assim que o Velho Vogt – o alemão especialista em embutidos, com família em Lajeado e que mora conosco durante a semana – chama o setor de produção. Ele e o tio Osvaldo, desossam, cortam e moem as carnes para transformá–las em produtos vendáveis no comércio, sob a supervisão do Arlindo Butignol – Fiscal de carnes que também atua no trabalho. Com exceção do berro, aproveita–se tudo do animal. A carne nobre, vai para as lingüiças, salames e mortadelas. A costelinha de porco e o bacon, são defumados. A pele e as gorduras, são fervidas e prensadas para extrair a banha e o torresmo. Do bucho, se faz a dobradinha. As vísceras e o sangue, viram morcilhas e patés. A coalheira dos bezerros – usada em cosméticos – é limpa, seca e armazenada por minha mãe para vender periódicamente ao representante de um laboratório suíço. O couro é vendido ao curtume. Ossos e chifres, a produtores de farinha de ossos. Os dejetos do abate, escoados na água corrente do lajeado, misturam–se às milhares de guabirobas caídas na mangueira, que servem de rico alimento aos porcos. IGUARIA O cérebro de terneiro, é uma iguaria reservada aos Hirtenkhauf – diretores cervejeiros da Polar. O Naninho, faz a entrega a domicílio e eles o gratificam com um Guaraná Frisante a cada visita. A Frau Hirtenkhauf – conta depois em livro, a sua sofrida história de vida antes deles virem para o Brasil. Na segunda guerra mundial na Hungria, a comida era escassa e se restringia à batata colhida em roças detonadas por canhões. Nada a ver com a abundancia encontrada aqui, especialmente com a iguaria de cérebro de bezerro recebida na porta de casa. O SUÍNO 73


Vendo os porcos chafurdando na lama, imagino que sejam animais sujos. Anos depois, ao lidar com eles como técnico, descubro o quanto se desconhece a seu respeito. É surpreendente. – O porco não é porco ! – O animal é limpo, como nenhum outro ! – Porco, é o dono do porco que o cria na lama. Em boas condições de manejo, o suíno é o animal mais higiênico da natureza – defeca sempre o mais longe possível de sua fonte de alimento. Só procura a lama para se refrescar, pois não possui glândulas sudoríporas para suar e compensar o calor. Por herança do porco sujo do mangueirão, a carne suína é alvo de forte preconceito – até os médicos a discriminam. A questão está na genética e nas técnicas de criação. A Suinocultura moderna, produz carne de ótima qualidade e alto valor alimentar. As raças tipo–carne produzem pouca gordura e baixo colesterol. É a carne mais consumida no mundo. ABCS Associação Brasileira de Criadores de Suínos Há mais de 50 anos a ABCS – com sede em Estrela – vem engrandecendo a Suinocultura nacional. O Registro Genealógico contribui para o melhoramento genético da espécie, que juntamente com novos padrões de alimentação, sanidade e manejo, vem alcançando contínuos ganhos de produtividade e qualidade. O Brasil é hoje um dos grandes produtores e exportadores de carne suína e muito disso se deve ao trabalho de R. Affonso Augustin, Hélio Augustin, Miguel De Rose, José Braun, Werner Meincke, Gilberto da Silva, Valmor Barros, Alfredo Barth e outros dedicados técnicos e produtores estrelenses que atuam também na ACSURGS. Esta, mantém uma Central de Inseminação e congrega 8.000 produtores gaúchos. 74


Manter a ABCS em Estrela, não é fácil – há suinocultores paranaenses, paulistas e mineiros almejando levá–la daqui. LIBUNA I O Libuna, é um esquisito Ford cinza dos anos 40, com carroceria de madeira e cortinas de lona amarela. É reconhecido pelos colonos à distancia, quando vai buscar os terneiros comprados pelo Schoenemann em Beija Flor. – Lá vem o Hemmesmann – o homem do terneiro – dizem, quando o vêem chegando à propriedade na segunda feira. A compra de animais não é fácil. A concorrência com a Coop. Beija Flor é desigual. Ela recolhe menos impostos e paga os colonos com crédito em conta corrente para retirar em mercadorias. Ao quebrar por má gestão lesando os associados, o mercado se estabiliza em um nível de competição mais equilibrado. Após a lavagem, o mesmo Libuna faz a entrega dos produtos industrializados nos demais dias da semana em Estrela, Lajeado e Cruzeiro – onde o velho caminhão é também reconhecido de longe. – Lá vem o Homem da Lingüiça, dizem os clientes quando o vêem parar na porta de suas Vendas. A jornada de trabalho do meu pai é muito dura. Vai das 5:00 horas da manhã até a noite. Nas férias, eu o ajudo a recolher terneiros na colonia e a entregar lingüiça no outro lado do rio. O momento mais ansiado de todo o roteiro, é o café com sonho no Urso Branco, em frente à Praça Matriz de Lajeado.

PILOTO Carne para cães e gatos, é o que não falta no Açougue. Temos muitos animais, mas o Piloto é o campeão. O grande cachorro prêto de pelo liso, é o companheiro inseparável do meu pai. 75


Onde o Libuna vai, o Piloto vai atrás. Só não cruza o rio pela barca – fica no cascalho do lado de cá, esperando o meu pai voltar. Numa das andanças por Estrela, acontece o pior – o Piloto atravessa a frente do Libuna e meu pai o atropela. Atingido pelos pneus, o fiel amigo agoniza e morre na rua. O CAVALO BRANCO O tio Pedro, vem trabalhar a cavalo e deixa o lindo corcel branco pastando em frente ao Açougue. Me permite às vezes, dar uma voltinha pelas ruas do Alto da Bronze. Adoro galopar e correr, mas certa feita, a corrida termina mal. Desço a Pércio Freitas em alta velocidade e o cavalo tropeça numa pedra e cai de joelhos ao chão. Sou lançado sobre o pescoço em vôo cego direto ao cascalho. Saio arranhado e descubro que corrida de cavalo na descida, é meio tombo levado. SEIVA DE ALFAZEMA O contato direto com os animais exige banho diário. Temos por sorte, bons produtos para eliminar o mau cheiro impregnado na pele. A tia Dora e a Eli Neururer – mãe da Rose – trabalham no Costa e costumam nos presentear com estojos de talcos e sabonetes. Os florais de Alfazema, Lavanda, Violeta e Magnólia, se sobrepõe a todo o tipo de cheiro. E os produtos Costa são famosos. Trinta anos depois, reencontro suas suaves fragancias no Bomprêço em Recife.

O COLONÊS 76


No Alto da Bronze, falamos o Colonês – mistura de alemão com português. Iá é sim, Net é não, Ietz é agora, Ales é tudo, Nix é nada, Ox é boi, Kuh é vaca, Hunt é cachorro, Fotz é pum, Scheiss é merda, Flauma é ameixa, Wassa é água, Máha é fazer, Háma é martelo, Pelzníckel é o Papai Noel, Táivel é o Diabo e Meingott é Meu Deus ! Os coloneses adultos, falam também muito de Tsica, Schnaps e Flashpia – cigarro, cachaça e cerveja. Os meninos da Vila, não falam como nós. Falam bonito como os locutores da Rádio Farroupilha. Me esforço para falar como eles. Não quero ser mais um coloninho, ridicularizado pelos bundinhas da cidade – como nos referimos a eles, com certa inveja e despeito por seu refinamento. Capricho para não dizer Cachorinho, Carafa, Tauba, Largato e Disôra, termos comuns em nosso vocabulário colonês. Valeu o esforço. Hoje escrevo e falo coretamente o Bortuquês. No Colonês, o B é P e o D é T. – Onde está minha bázinha ... pergunta a Vovó, para si mesma em voz alta, procurando a pazinha de lixo. – Tô aqui Vó ... responde a Bá – sua netinha Bárbara, pensando que fosse com ela. Outro diálogo interessante, acontece com o Daniel: – Como é o teu nome ? pergunta o carinha da Vila. – Taniel ... responde o colonezinho. – Com T ou com D ? inquire o primeiro. – Taniel com T de Tado ... esclarece o Daniel. O Bom e o Pão, tem a mesma pronúncia – é Pom. Se for o Pom de milho do Naninho, o Pom é Pom ... Já o Peixinho, tem duplo sentido. Pode ser o Peixinho do aquário ou um Toce Peichinho na Poca ta Curia. JOGO DE PALAVRAS

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O Colonês, usa também palavras fora do lugar e algumas se incorporam ao linguajar da cidade. Seguidamente, ouve–se alguém dizer que Caiu geada ... Ligou a lareira ... Ganhou uma gripe e Comeu uma sopa. Por brincadeira, alguns dizem – Muito obrigado, principalmente ! ao invés de – Muito obrigado, igualmente ! Imagina se a moda pega. A KUH Se a Cow Parade viesse a Estrela, muitos chamariam as vacas de kuhs. Haveria a kuh da Praça, a kuh do Calçadão, a kuh do Parcão, a kuh do Cemitério, a kuh da Rodoviária, a kuh da Boa União e assim por diante. Após o leilão, a kuh passaria a ser do dono que a arrematou – a kuh do Prefeito, a kuh do Pai, a kuh da Mãe e o kuh do Vizinho ... HÉX – FUI ... Quem vive fora, estranha o colonês e até esquece o significado de certos termos. Ao ouvir o “ Héx–fui ” expressando nojo durante uma conversa à mesa, a emigrada estrelense pergunta: – Héx Fui ? – Do Héx eu me lembro bem, mas o que é mesmo o Fui ? O CHUVEIRO Falar outra língua, implica em aprender gírias e termos locais, além da versão oficial. A Nina – amiga alemã, há poucas semanas no Brasil – tenta dizer algo à Vania ao conhecer a nossa casa. – A tua cáhsa é um ... é um ... é um ... é um ... titubeia por longo tempo, esfregando insistentemente o anel do dedo, procurando a palavra certa para se expressar. 78


– ??? interroga–se a Vania, tentando imaginar o que ela está querendo dizer. – É um ... é um ... é um ... é um Chuveirho !!! conclui finalmente a alemã, explodindo de alegria por ter achado a palavra. – Um chuveiro ? – Sim, um Chuveirho, uma Jóia ... conclui a Nina, referindo– se ao sinônimo do anel. O CREMATÓRIO Semanas depois, a Nina e o Phillip vão casar em Stuttgart. – Como foi o casamento ? pergunto a ela, na volta. – Ah, foi uma cerhimônia muito simples. Casamos na Ighreja e fomos dirheto para o Crhematório ... responde ela, confundindo com o Cartório. – Dá no mesmo, casou tá cremado ... brinco com eles, para não perder a piada. TROCA LETRAS Falar o Português, não é mole. Imagina um estrangeiro deparando–se com Traço, Traça, Troço, Troça, Troca, Troco, Terço e Torce. – Não é de ter um Treco ? ESTRANGEIRISMOS Não creio que se deva repelir termos estrangeiros em nossa língua, como querem alguns brasileiros que acreditam estar o idoma ameaçado. Há palavras clássicas de uso universal, que simplificam a comunicação entre os povos. É o caso de Marketing – um conceito entendido por todos. Como traduzir um termo que abrange toda a vida de um produto do nascimento à morte, passando pela pesquisa de mercado, desenvolvimento, desenho, teste, produção, embalagem, 79


posicionamento, lançamento, propaganda, logística, distribuição, venda e pós venda ? Outro exemplo, é o Radicci. Imagina vê–lo traduzido no cardápio do restaurante, como Almeirão amargo de talo longo e folha estreita temperado com vinagre de vinho tinto e coberto de cubinhos de Bacon – aliás, toucinho de porco defumado e frito. A prosaica Schmier – já avacalhada para Chimia em certos meios – seria traduzida para Doce gororoba caseira de abóbora, marmelo, batata doce, goiaba e pêra, cozida com água e açúcar em fogo alto e prolongado. E o Chucrute, então? – Alguém iria ao Baile do repolho azedo e produtor de gases, cortado em finas fatias e fermentado por bactérias anaeróbicas em recipiente herméticamente fechado a vácuo sem oxigênio ?

O CRISTO REI A majestosa construção de dois andares no alto do morro, é o assunto do momento. O Cristo de braços abertos no topo do prédio, é um espanto ! Jamais se viu nada igual em Estrela. A imagem projetada por luzes no céu escuro da noite, enche a todos de ansiedade, medo e adoração por Jesus. – É assombração ... temem os supersticiosos, refugiando–se em seus lares. – É milagre ! – Jesus está no céu ... acreditam os pios, gritando na rua. – Aleluia ! – Aleluia ! – Ele está entre nós ... oram os fiéis em côro. – É ... mas, não foi capaz de estender os braços para evitar a queda do João Henrique do segundo andar na época da construção ... comenta o cético, com ironia. – Caiu, mas aprendeu a levantar ... prega o Cristão.

OS CAMINHOS DO CRISTO 80


Três caminhos nos levam ao Cristo Rei. A Júlio de Castilhos, o caminho do cemitério e o potreiro do tio José. A JÚLIO DE CASTILHOS Em dias de chuva, descemos a Geraldo Pereira até o Poço Artesiano – chamado também de Reservatório – e subimos pela Júlio de Castilhos até o Ginásio. É o caminho mais longo, mas é mais limpo – possui calçadas em toda sua extensão. Mas nem sempre foi assim. Antes da calçadinha costeando o arame farpado na subida do laranjal dos maristas, a Júlio de Castilhos era um lodaçal de fazer inveja a qualquer jipeiro. Para justificar o atraso para a aula, o Carlito Grenendal explica ao Professor: – Pois é Irmão ... tem tanto barro no morro, que eu dava um passo para a frente e escorregava dois para trás ... – Com um passo para a frente e dois para trás, tu jamais chegarias ao Colégio ... – É que eu vim de ré, professor ... justifica o Carlito. A ROTA DO CEMITÉRIO O caminho do Cemitério, é minado de tesouros. Nos buracos vazados do muro de tijolo, escondemos os maços de cigarro protegendo–os da chuva. Acima das novas casas do Minga e do Pedro Frei, encontramos centenas de pedras semipreciosas, aflorando no solo alaranjado entre a barba de bode. O Topázio âmbar e a Ametista lilaz, jazem no terreno jogadas ao léu. Apesar de sua exuberante beleza, são tão abundantes que pouco valor se lhes dá. Valem menos do que o cigarro escondido no muro do Cemitério.

O POTREIRO DO TIO JOSÉ 81


O outro atalho para o Ginásio, é a trilha do potreiro do tio José Horn. O trecho é curto e ótimo no verão. Tem até uma fonte de água cristalina ao pé do morro, onde se mata a sede e se pega mutucas em vidro para soltar na sala de aula. No inverno, o trilho é coberto de gelo. A grossa geada trinca sob os sapatos na grama e enrijece o dedão do pé. Enquanto a gente bate o queixo no frio, a fumaça branca dos chaminés dos Grindges e dos Martins, esparge–se suavemente no mato verde da baixada, em meio à cerração. – O Chumisca, Zinho, Milton e o Moso, devem estar no quentinho do fogão a lenha ... penso comigo mesmo, soltando fumaça pela boca. Mais tarde, abrem no potreiro a continuação da Rua Pontes Filho. Surgem as casas dos Koch, Petry, Ferreira e o bairro vai avançando do Reckziegel até o pé do morro. Hoje, já existem casas no alto e até um prédio em construção. A rua que corta o morro no antigo pomar acima do Hotel, tem o nome do meu sogro – Albano Rücker. PADRE NÚ Por aquelas imediações, conta–se um fato incrível, mas perfeitamente possível. Um padre pisa em falso na tábua podre da capunga e cai de batina e tudo em meio aos vermes do merdão. Só com o peito de fora, é logo socorrido pelos donos da casa. – Precisamos dar um banho nele ! gritam as filhas, puxando–o da fossa e mal aguentando o mau cheiro que ele exala. Em meio aos baldes de água que o livram dos dejetos e vermes, ao santo desnudo nada resta a não ser blasfemar : – Que merda ! exclama ele, só de cuecas. O CURSO PRIMÁRIO O Cristo Rei, é colégio masculino. 82


As aulas de Português, Desenho e Caligrafia, são dadas pelos Maristas. O Catecismo, é ensinado pelo Padre. O único mestre leigo é o professor Pedro Eidt – que ensina Matemática, mas tem especial predileção pelas aulas de Canto. Esforça–se ao máximo para ensinar as notas e afinar as vozes infantis. – Dó, dó, dó ... ré, ré, ré ... mi, mi, mi ... repete indefinidamente, até atingir o tom do diapasão – o seu pequeno e inseparável apito de afinação. Com o lápis John Faber e a borracha Mercur, escrevemos os números e as letras nos cadernos de Matemática e Caligrafia. Nas folhas quadriculadas do caderno de Matemática, enquadramos os números na horizontal e na vertical e esprememos o cérebro nas quatro operações. Somamos, reduzimos, multiplicamos e dividimos, tudo de cabeça. E os resultados, são constantes: 2+2 é sempre 4 e 10 –7 é sempre 3. E não 5 e 4 como o MEC ensina hoje. Hoje se faz tudo com maquininha e o antigo raciocínio – que muitos dizem ser decoreba – parece fazer muita falta. Prova disso está na Camara de Deputados: – Quanto é 6 x 7 ? pergunta o CQC entrevistando–os nos corredores do poder. Meia dúzia deles, não sabe responder. O sétimo, afirma com toda segurança – é 36 ! O oitavo, chega aos 36 e começa a contar o resto nos dedos da mão até atingir 42 – o resultado correto. – O homem é um gênio, sabe até a tabuada ! aplaudem os colegas, embasbacados com a dispensa da calculadora. As pautas de linha dupla do caderno de Caligrafia, acolhem as letras pequenas e grandes. As pequenas, – como a, c, e, m, n, o – são encaixadas na linha estreita. As grandes – de braços e pernas compridas, como b, d, h, t, g, p, q, j – invadem o espaço acima ou mergulham no de baixo, para ter onde enfiar os membros. O mais folgado é o f – estica os braços para cima e as pernas para baixo, ocupando todo o espaço. 83


O TINTEIRO Após dominar o lápis e a borracha, passamos para a tinta. A pena é alimentada no tinteiro de porcelana embutido no tampo da carteira. A sua haste, é mais larga nos dedos e vai afinando para a ponta, imitando a pena das aves, usada anteriormente na escrita. Há dois fundamentos básicos para produzir letras bonitas e legíveis. No movimento vertical para baixo, pressiona–se a pena embebida na tinta, separando os dois bicos para engrossar o traço, sem produzir borrões. Nos demais movimentos, escreve–se com mão leve para obter traços finos e elegantes. O Mataborrão, é acessório imprescindível para a boa secagem da tinta no papel. Já nos dedos, o borrão só sai com sabão. MODERNIDADES As novidades do Paladino, logo viram objetos de desejo dos estudantes. Os vidros de tinta Quinn, Parker e Pelikan, são portáteis e muito mais limpos do que o tinteiro de porcelana embutido na carteira. As sofisticadas canetas Pilot, Crown, Olympus e Parker, são muito mais bonitas e sofisticadas do que a borradeira pena de haste fina. A Parker 2l, é artigo de luxo. O modelo prata com tampa dourada, é top de linha, feito para os poucos que podem arcar com o preço da jóia. Anos depois, as esferográficas viram o mercado de cabeça para baixo. A Bic avança e passa a ser vendida a prêço de lápis, em qualquer ponto de venda. Hoje, as canetas de luxo como Parker e Du Mont, são exclusivas de banqueiros, médicos, juízes e autoridades, que traçam o nosso destino com uma simples canetada. AS TURMAS

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As turmas são fortemente sedimentadas por idade. Um ano a mais ou a menos faz uma baita diferença na época do Primário. Para quem roda e perde o ano, é difícil ajustar–se à turma seguinte, principalmente se for maior do que o perfil mediano. Isto se estende para fora da escola. Cada panelinha, é composta por meninos de idade muito próxima. Os mais novos ou mais velhos, só são aceitos por parentesco ou extrema afinidade. A AVALIAÇÃO A avaliação de desempenho na Escola, segue critérios objetivos e subjetivos. Os objetivos, são as notas de 0 a 10 nas lições de casa, nas provas periódicas e exames finais. O Zero, é a negação total – só acontece por absoluto descaso do aluno ou perseguição do Professor. Já o 10, é a glória – recebe até um destacado Parabéns !!! do mestre, no rodapé. Os critérios subjetivos, envolvem o Comportamento e Aplicação. Os conceitos vão de Mau a Muito Bom, passando por Regular e Bom. O castigo para a falta de Aplicação, é escrever repetidas vezes uma frase ligada à falha do aluno. Se for por desatenção durante a aula, a frase seria “ Devo prestar atenção nas aulas ! ” escrita 100 vezes, a critério do Professor. O Mau Comportamento, traz conseqüências mais graves. Os castigos começam leves e evoluem para a suspensão de até três dias. Casos extremos, podem ser penalizados com a expulsão – que dificilmente acontece com a mensalidade em dia. Apesar de algumas suspensões por molecagens e brigas, me saio bem nos estudos e consigo até passar direto do Admissão para o Ginásio, pulando o 5.º ano. O ZERO 85


A letra O e o número O são redondamente iguais. A letra O é o artigo masculino singular, altamente valorizado e usado até em propaganda. O fogão Wallig, não é apenas um fogão. – É O Fogão ! Já o belo e formoso número O, é o mais desprezado algarismo da Matemática. Sòzinho, nada vale, é apenas zero. Multiplicado ou dividido por outro algarismo, reduz tudo a nada – é uma nulidade, nada mais do que zero. À esquerda de qualquer número, apenas repete o número da direita – é um zero à esquerda, seja lá quantos zeros forem. À direita de outro algarismo, passa a ter valor real. Junta–se aos demais para fechar a conta e reproduzir–se em dezenas, centenas, milhares, milhões e zilhões até o infinito. Não há quem não goste de vê–lo à direita nas notas escolares e no saldo bancário. Nenhum outro algarismo vale tanto ou tão pouco, mudando apenas de lado.

VERANÓPOLIS Aos 11 anos de idade, os mestres do Cristo Rei me convencem que devo ser um deles – um Irmão Marista ! Vou então fazer a primeira série ginasial no Colégio Medianeira em Veranópolis – um Juvenato dedicado à formação de novos maristas. O regime é totalmente fechado. Não há rádio, jornais, revistas e contatos externos. Permitem apenas uma carta por mês à família. E o Diretor as lê antes de serem postadas. Numa delas, ele me chama para melhorar o texto: – Não escreva “ Ainda vou muito bem ”, pois dá a impressão de que o teu bem estar é passageiro e logo pode terminar. Escreva apenas “ Vou muito bem ”. Durante o ano, saímos uma única vez à cidade para cantar na Igreja na Sexta feira Santa. 86


O contato com a família, se restringe a uma única visita anual dos meus pais. Depois de uma longa viagem de ônibus e trem, eles chegam no mês de Julho e ficam alojados no quarto de hóspedes do Juvenato. Por três dias, posso vê–los nos intervalos das aulas e fazer as refeições com eles, sem sair do colégio. INTENSA ROTINA Ainda antes do sol nascer, o sino de despertar acorda o galo e desencadeia uma rotina intensa e disciplinada. Ràpidamente, lavamos o rosto, escovamos os dentes, arrumamos a cama e nos vestimos para ir à missa na Capela, ainda em jejum para comungar. O primeiro alimento do dia é a hóstia. Só depois é que vem o frugal café da manhã, com uma grossa fatia de pão caseiro e geléia de uva. Com o espírito e corpo bem alimentados, seguimos em grupos de trabalho ao parreiral, ao pomar ou para a limpeza dos banheiros. Após o trabalho braçal, segue–se o arrepiante banho matinal que antecede as aulas. Estas se estendem até o meio dia, com um curto intervalo às 10:00 horas. O almoço é simples e balanceado. Arroz, feijão, polenta e carne, fazem parte do cardápio diário. Batata, frutas e hortaliças de produção própria, freqüentam a mesa na estação da colheita. Depois do almoço, lava–se a louça e as instalações. Os não escalados para o trabalho, fazem a digestão circulando em grupo no pátio interno. A tarde é tomada pelos estudos, esportes e trabalho na roça. Cultivamos batata e milho branco em terreno inclinado e pedregoso infestado de cascavéis e corais verdadeiras. O segundo banho frio do dia, antecede o jantar. Depois, circulamos no pátio e concluímos as lições do dia na sala de estudos, antes de nos recolhermos para dormir. O amplo dormitório coletivo, é limpo e despojado. Não há luxo, nem lixo. Possui três longas filas de camas Patente intercaladas 87


por pequenos roupeiros individuais. Os duros colchões e as grossas mantas de lã cinza, são todos iguais. Nos extremos do salão, estão as celas acortinadas dos Irmãos Monitores que zelam pela disciplina. Em meio a tanto despojo, as coisas mais simples assumem valor inestimável. Roupas, sapatos, tesoura, cortador de unha, sabonete, escova e pasta de dentes, são pequenos tesouros guardados com extremo zelo. LIÇÃO DE VIDA As primeiras noites no Juvenato são difíceis. Molho silenciosamente o travesseiro, mergulhado em lágrimas de saudade até firmar no sono. Nas primeiras semanas o verão é ameno e agradável. Mas logo os rigores do frio se fazem sentir na Serra. Não há cremes nem manteiga de cacau para evitar as rachaduras nas mãos e nos lábios. É preciso agüentar o inverno “no osso”. O ritmo dos estudos e dos trabalhos braçais em grupo, desfazem a saudade e aceleram a adaptação. Aprendo coisas que dificilmente aprenderia em outro lugar. Além das matérias convencionais, nos tornamos fluentes em Francês. Um dia por semana, só é permitido falar a língua oficial da congregação fundada por Champagnat – tarefa facilitada pelo convívio com Pierre Chovin e Jean Paul Chassot, colegas franceses cujas famílias produzem champagne em Garibaldi. O allors enfánts de la Patrie, le jour de gloire c´est arrivé ... ecoa até hoje em meus ouvidos. Haverá no mundo, hino mais lindo do que La Marseillese ? Convivo também com os Gringos. Com o Lino, Nivaldo e o Cattani, aprendo a falar Porco Dio e a cantar La Bella Polenta. E tem também a turma de Estrela. O Kaye, o Rubem Horst e o Werno Weiss, me fazem sentir em casa. O Lauro Yantch de Paverama, o Nelson Frölich de Ivoti, o Rauber de Feliz e o Danilo Bersch de Arroio do Meio, são bons amigos. 88


FÉRIAS PROLONGADAS O ano passa e logo chegam as esperadas férias de verão em Estrela. Verto lágrimas de alegria no ônibus, ao rever a ponte do Boa Vista e as casas do Oriental até a Rodoviária no Centro. O verão é espetacular. As festas de fim de ano e os banhos diários no Taquari, fazem o tempo voar. As férias, passam rápido demais e são tão boas que resolvo prolongá–las por minha própria conta, por mais 10 dias. Ao chegar em Veranópolis, os Maristas não gostam do atraso. Me alojam no quarto de hóspedes, isolado dos colegas e me incumbem de carpir o parreiral. Passo três dias me empanturrando de uvas quentes e sentindo crescer a solidão e a revolta pelo pesado castigo. PEPSI –COLA O sábado, é dia de engraxar os sapatos antes do banho vespertino. Suado da estafante e solitária jornada no parreiral, vejo os meus colegas reunidos na sala de estudos, já de banho tomado. Da janela da sapataria, começo a cantar o mais popular refrão do rádio naquele verão: – Pepsi Cola eu bebo com satisfação, bebo no inverno, bebo no verão !!! grito bem alto para todos ouvirem. Rápidamente, sou interrompido por um Marista e levado à sala do Diretor. – Quero ir embora ... afirmo com convicção. – Olha, meu filho ... pensa bem no que vais fazer ... pensa na tua vocação ... esta decisão é muito importante para a tua vida ... aconselha o Diretor. – Eu sei, mas quero ir embora ... não tenho mais vocação ... insisto com firmeza.

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– Então façamos o seguinte. Medita sobre o assunto e me dá uma resposta amanhã. Se confirmares a tua decisão, providenciarei a tua volta para casa na segunda feira ... promete ele. E assim é feito. Na segunda, me levam a dormir no Colégio de Farroupilha e na terça me deixam no ônibus em Garibaldi. Chego em casa no mesmo dia e sou recebido em clima de festa. FILHOS DO DIABO Em Veranópolis, recebo uma carta do meu primo Flávio que estuda no seminário de Arroio do Meio: – Cúti, antes éramos filhos do Diabo, agora estamos entregues às mãos de Deus ... escreve ele, com fé inabalável em sua vocação sacerdotal. Meses depois, um fato inesperado leva por água abaixo todos os planos do futuro padre. Na volta de uma excursão dos seminaristas a Estrela, o chefe do grupo não permite que ele desça do ônibus para ver os pais na Padaria da Praia, enquanto esperam a barca a poucos metros dali. Contrariado, ele pede para deixar o Seminário. Os padres dificultam a saída, tentando evitar a perda da ovelha. Exímio nadador criado no rio Taquari, o Flaveco aquiteta um plano de fuga que jamais alguém iria imaginar. E a execução é perfeita – sem ninguém perceber, esgueira–se pela margem do Arroio Forqueta próximo ao Seminário até desaguar no rio Taquari. Dali, segue a nado pela calha central deixando–se levar pela correnteza até Estrela. Qual fugitivo de um presídio, chega exausto ao cascalho da barca com indescritível sensação de liberdade no peito.

O RENEGADO 90


O Adroaldo Eckert, é mais um dos estrelenses que desiste de sua vocação religiosa e acaba voltando à vida laica. Após abandonar o mesmo Juvenato em que eu estudei em Veranópolis, ele é apelidado de Renegado – alcunha que persiste ainda hoje.

O EFERVESCENTE CRISTO REI O Cristo Rei consolida–se ràpidamente com alunos locais e estudantes de fora alojados no internato. O contingente maior é de Bom Retiro. São seis – o João Benno Schuh, Josué, Coruja, Abichequer, Ildo e Enio Cabanellos. De Roca Sales, são três – Odilon Gheno, Jovino Demari e Juarez Rota. Tem ainda o Huguinho de Corvo, o Flavio Ruwer de Lajeado, o Pilz de Cruzeiro do Sul, o Tarcísio Weissmann de Venancio Aires e o Barreto de Taquari. Há até um gaúcho da Fronteira – o Fábio, de Sta. Vitória do Palmar. Além das aulas convencionais, há intensas atividades extraclasse. O Coral, a Orquestra, os Times de futebol de campo e de salão, a Cruzada Eucarística, os Escoteiros, as Festas e as Gincanas, ocupam grande parte do nosso tempo livre. A turma sênior, do Nanaia, Nenê Porto, Lotário, Chúqui e Telminho, gostam de fazer intriga entre a gurizada mais nova e armar brigas para o fim da aula, entre galinhos que não levam desaforo para casa. O ringue é a casquinha de arroz descartada pelo Arenhardt na baixada da Júlio de Castilhos. Brabinho e envaretado, me envolvo em duas lutas feias. Uma com o Guilherme e outra com o Grassi – bem maiores e mais fortes do que eu. Não conseguem me acertar e eu saio muito aplaudido ao final de cada peleia. Já o meu primo Chico, é muito engraçado. Numa gincana de bicicleta, ele veste uma camiseta com a inscrição Pay Day – Dia do Pagamento em inglês, que se pronuncia Pei Dei. 91


A CRUZADA EUCARÍSTICA Liderados pelo Irmão Heitor, inauguramos o novo uniforme da Cruzada Eucarística no Estádio Walter Jobim. Temos um bom time – com Milton Dexheimer, Adonis, Nelmo, Idacir, Calitinho, Jorge Horn, Flávio Ruwer, Huguinho, Pilz, Schuh, Chiquinho Kasper e eu – mas, tomamos um inesperado 6 a 1. Se o Carmo, Normélio, Raul Ruschel, Daio, Taldo, Josué, Adilson, Francisco e Miguel Barth, tivessem jogado, o resultado seria melhor – talvez, 6 a 2. Muita gente participa da Cruzada Eucarística. O Mico, Tica, Tiongui, Roque Gerhardt, Olavo Ruschel, Hugo Müssnich, Pedrinho Horn, Minho, José Knack, Gilberto Hartmann, Lauro Horst, Pinto e Miguelito, participam ativamente das atividades. NEGÓCIO DA CHINA A compra das camisetas da Cruzada, coincide com um período em que estou suspenso das aulas, após uma briga. Passo três dias catando Frutina no mato e vendendo aos colegas no recreio. É um negócio da China. Consigo evitar que meus pais fiquem sabendo da suspensão e reuno dinheiro para pagar três camisetas. A Frutina, é a fruta nativa chamada também de Fruta de China, Araticum, Ata, Pinha e Fruta do Conde. OS ESCOTEIROS O Rataplan do arrebol, escoteiros vede a luz ! cantado a todo pulmão, faz côro com as cornetas e o rufar dos tambores do Grupo Inhay nos desfiles oficiais. Eu sou um dos corneteiros. Com os lábios esticados no bocal procuro me fazer ouvir entre as caixas e tarolas, sem perder o tom do bumbo. 92


O uniforme caqui de calça curta, é completo. O lenço verde e branco no pescoço e o distintivo no boné ou chapéu de aba larga e barbicacho, identificam a Tropa Inhay. A fita de duas cores no ombro indica a Patrulha. A minha – preta e amarela – é a patrulha da Águia. A da Arara, é azul e amarela. Do tigre, é verde e preta e a do Leão, vermelha e amarela. Os Lobinhos – escoteiros mirins como o Naninho, Nenê, Patito, Prida, Ferraça , Adolar e tantos outros – usam uniforme azul marinho. A calça curta e meia comprida até o joelho, usada também por nossos Chefes, é motivo de piadas na cidade: – O escoteiro é um adulto, com roupa de criança ... comentam, os despeitados sobre nossos abnegados Chefes adultos Rudi Maria Rath e Universindo Ferreira. O Irmão Lino e o Lauro – nossos Chefes maristas – passam ao largo dos comentários por usarem a batina e o papo branco. Passam ao largo dos comentários também, as Chefes das Fadinhas e Bandeirantes – a versão feminina do escotismo no Colégio Santo Antonio – que usam saias iguais às das meninas só com o joelho de fora. SEMPRE ALERTA O Escotismo, abre nossos olhos para o Universo que nos cerca. Nos bivaques e acampamentos, assistimos aos Shows da Vida, ao vivo na primeira fila. No Show do Céu, brilha soberano o Rei Sol – único, inigualável e nunca igual a cada momento do dia. Suas diferentes faces e sombras sobre a Terra, moldam a vida a cada metro de nosso giro em torno dele. Pela manhã, ele nasce e cresce radiante até explodir de energia ao meio dia. À tarde, reclina–se no horizonte e cerra a cortina do palco para findar o espetáculo diário. 93


Quando se pensa que foi embora, está apenas iniciando outro show logo ali adiante. O Rei dos astros, não dorme jamais. Apenas cede o seu palco à Rainha Lua, para o show da noite. Ora nova, ora crescente, ora minguante, a Lua brinca de esconde–esconde entre as nuvens da noite clara. Na lua cheia, enche– se de vaidade para despertar os lobos e fazer uivar os namorados. Nas noites escuras de sombras negras e tempo nublado, ela tímidamente entristece e se eclipsa na escuridão. As estrelas coadjuvantes, brilham e dançam no mesmo palco noturno. As cadentes, voam cegas e desaparecem em mergulhos de brilho fugaz. As Três Marias, cantam em trio, sem jamais se desgrudar. O Cruzeiro do Sul, fica em cartaz o ano todo. E o Show da Terra, não fica atrás. A água, o fogo, o frio, o calor, o minuano, as cobras e lagartos, aguçam os sentidos mostrando a diversidade da natureza. Vejo, toco e sinto, tudo o que está a meu redor. Toco até o pé descalço numa aranha caranguejeira alojada no muro de pedra no arroio Boa Vista. Também elas, fazem parte do Show da Vida ... PÉ NO CHÃO – Haverá ainda espaço para a vida real, no mundo virtual em que vivemos hoje ? Ao mesmo tempo em que avançamos em conhecimento e tecnologia, a vida que passa ao VIVO na internet e na TV, nos afasta das coisas reais. A fantasia, mascara a realidade. Os acontecimentos são distantes. Quem ri e chora, são os outros – nada nos afeta. O isolamento alimenta o egoísmo e anestesia as relações sociais e a solidariedade. Muitos, hoje sabem muito, mas da vida ao vivo mesmo, deveriam saber mais. E o Escotismo, preenche esta lacuna. O contato com a natureza e o respeito pela vida, são sempre atuais e apropriados para se ter uma visão mais clara do mundo. 94


Até o ex–beatle Paul Mc Cartney – pauta sua vida nos ensinamentos de Baden Powel. Se toda criança passasse por isso, grande parte da violência humana desapareceria do mundo. PRIMEIRA VIAGEM Como Escoteiro, aprendo também a viajar. O Normélio e eu, vamos ao Rio de Janeiro representar o Grupo Inhay no Jamboree Internacional de Jacarépaguá – com tropas do mundo inteiro. Juntamo–nos a um grupo em Porto Alegre e seguimos de ônibus até o Rio, pernoitando no Colégio Marista em Curitiba e no Ginásio Ibirapuera em São Paulo. Na viagem, fico encantado com os pinheirais do Paraná e a limpeza de Curitiba. – Aqui, eu gostaria de morar ... sonho com meus botões. E não é que 15 anos depois, estou morando lá ? A tropa Inhay, chama–se hoje Grupo Escoteiro Rumara, em justa homenagem a José Maria Rath – um de seus grandes e abnegados incentivadores. A ANTA A Anta vive em plena liberdade no mato do Cristo Rei. O quadrúpede marron, de porte médio e estranho focinho alongado apontando para o chão, é bem diferente das antas bípedes que andam de nariz empinado fora do mato.

O GALPÃO

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No galpão de madeira do mato, acontece a concorrida quermesse anual da Igreja. O povo se diverte com as tômbolas, rifas, pescarias e tiro ao alvo. E muitos gritam torcendo para o Porquinho da Índia entrar na casinha com o seu número. Nas bancas de cachorro quente e salada de frutas com banana, laranja e moranguinho, formam–se filas esperando a vez. Enquanto todos brincam na quermesse, nós ficamos bebendo vinho sem qualquer moderação. Acontece ali, o meu primeiro e inesquecível porre, curado embaixo do galpão após o azedo vômito. – Bééxx ! O GALPÃO DO PADRE LAURO No mesmo lugar anos mais tarde, o Padre Lauro constrói um galpão maior de bonito estilo rústico. É um grande centro de eventos que aloja inclusive, o Baile do Chucrute – o maior atrativo turístico de Estrela. Meus pais o administram por alguns anos e chegam a organizar um churrasco para 1.800 pessoas numa visita do Presidente Ernesto Geisel. Agora, no mesmo local sobre o galpão antigo, nasce a terceira geração de galpões, com capacidade para 3.500 pessoas. O FILHO DO PADRE Nosso amigo Padre Lauro, desiste do sacerdócio e larga a batina para se casar. Do casamento, nasce um filho que com toda a naturalidade se identifica como o “ Filho do Padre Lauro ” – como segue sendo chamado o seu pai. COBRA VERDE 96


O banhado da Júlio de Castilhos é uma mina de cobras verdes inofensivas e muito próprias para soltar na sala de aula. Certo dia, tentando caçar uma delas, me deparo com um bicho diferente no meio do lodo embaixo da pedra. O dorso escamado, a cabeça chata triangular e a boca larga com as finas presas à mostra, indicam que é uma cobra venenosa. A mato e levo ao Professor para indentificar. – É uma Urutú–Cruzeiro ! – O veneno mata em 2 horas ! exclama ele, com ares de espanto enfatizando o perigo. – É daquelas que mordem e fogem rápido para a vítima não cair em cima dela ... acrescenta o assistente. Depois dessa, só volto ao banhado para apanhar minhoca chupão para a pescaria ... AULAS DE RECUPERAÇÃO Alunos ameaçados de perder o ano, recebem aulas extras de recuperação. O Bexiga e o Tica, frequentemente são obrigados a permanecer estudando após o horário normal. A sala de estudos no segundo andar, é uma verdadeira prisão. É um castigo ficar ali enquanto os outros estão liberados. – Mas como fugir, sem ser visto ? perguntam–se um ao outro. – O jeito é descer pela calha ... sugere o Bexiga. Agarrados ao cano, eles fogem do suplício dos livros e chegam sãos e salvos ao firme solo da liberdade. O SERZIDO NÃO MENTE O serzido quadrado no peito da ensebada batina, denuncia que o Cônego Udo – o nosso professor de religião – troca de roupa com pouca freqüência. O seu cutufúm, provoca disfarçados risos no colégio e na igreja. Erguendo o cálice do sangue de Cristo, numa missa em que eu 97


e o Tiongui somos coroinhas, ele vira–se para nós e nos flagra rindo da catinga do sovaco, espremendo o nariz entre os dedos. Furioso, interrompe a cerimonia e nos manda para a Sacristia, acabando de vez com nossas carreiras de sacristão. Nunca mais somos chamados para ajudar a missa. Ao falecer, o Cônego reserva aos amigos e à comunidade, uma enorme surpresa: A existência de uma filha concebida antes de sua ordenação. Se os padres pudessem casar – como fazem outros pastores – ele não precisaria ter escondido a filha. ESPIROBOL Além de Volei, Basquete e Caçador, jogamos o Espirobol nos intervalos de aula. Consiste em impulsionar a bola de couro amarrada na ponta da corda em um poste roliço, até enrolá–la completamente nele. As duplas adversárias impulsionam a bola em sentidos contrários. Quem primeiro enrolar a corda, é o vencedor. É um jogo raro de se ver. Só volto a encontrá –lo cinqüenta anos depois, no Sítio do Neco em Poços das Antas – já com poste metálico, corda de nylon e bola americana específica para o jogo. BOLA NO PÉ Formamos uma geração de craques da bola no pé. No campo de terra vermelha e na cancha de saibro, jogamos em muitos times no Cristo Rei. Temos o time da Classe, da Cruzada, dos Escoteiros, dos Colorados, dos Gremistas e a seleção do Colégio. E a bola continua rolando no ginásio esportivo da Soges. O Fermento, Guaraná, Dinamite, Dínamo, Condor e o Cruzeiro, jogam acirrados torneios de futsal, com grande público. Temos craques estrelenses até em times da Capital. O Raul, Adonis e o Ivan Bosse, jogam no Radar de Porto Alegre. 98


Inúmeros astros da nossa geração, jogam mais tarde no Estrela Futebol Clube. FESTA JUNINA No campo de terra vermelha – atual sede campestre da Soges – acontece a noite de São João. A fogueira de 10 metros de altura – de grossos paus de eucalipto trançados em quadrado – é armada dois dias antes. O fogo e o calor do quentão de vinho, protegem o povo do frio junino e o fazem dançar em torno dela. A comida também ajuda a esquentar a noite fria. O pinhão, o milho, a pipoca, o amendoim e as rapadurinhas caipiras, enchem o corpo e o espírito de calórica energia. As chamas e o foguetório dos alegres folguedos juninos, são percebidos a quilômetros de distancia. Mas os fogos, tem seus riscos. O Olavo Ruschel quase tem a mão decepada pela bombinha que explode no vidro antes dele lançar ao longe. O Jambalaia, tem o bolso traseiro da calça incendiado pelo feixe de buscapé que pega fogo e lhe chamusca o fundilho. CAI, CAI, BALÃO ... Uma quase–tragédia acontece conosco em São Paulo. Um dos coloridos balões que atravessam o céu noturno da cidade, cai no playground do nosso prédio. A bola de fogo começa a subir pela parede externa e entra pela janela basculante em nossa sala. As cortinas e o carpete incendeiam em poucos segundos. Por sorte, estamos em casa e conseguimos debelar o fogo antes dele se alastrar. Com a casa vazia, o incêndio teria destruído o apartamento – e talvez, até o prédio. – Vale a pena assumir tanto risco, por um efêmero balão ? Melhor fazem os meus vizinhos no Nordeste. 99


Cada família monta a sua pequena fogueira na rua, em frente à casa, e compartilha a festa com seus convidados. São dezenas de fogueiras crepitando na rua em Piedade, sem balões e fogos de artifício. Só comida, bebida e muita alegria. Adultos e crianças, vêm de banho tomado e roupa nova – e voltam para casa inteiros. Parece a noite de Natal no Sul ... FATOS CHOCANTES No recreio do Cristo Rei, acontece de tudo. O Knack, quebra o braço jogando vôlei. O osso quebrado se transforma num V entre o pulso e o cotovelo. É impressionante. Outro fato impressionante, é o ataque epilético do Clóvis em frente aos bebedouros. Ele se debate com a boca espumando no chão, em meio aos alunos apavorados que não sabem o que fazer. Felizmente, após o surto ele repousa e recupera os sentidos. A FORMATURA Em 1959, chegamos ao fim do Ginásio. Somos 18 formandos. O Adelmo Couto, Agostinho Lenhard, Belmar Eidelwein, Francisco Barth, Carmo Horn, João Braun, Jotoar, Jovino Demari, Juarez Rota, Nelson Uhry, Lotário Dexheimer, Nilton Fell, Odilon Gheno, Olavo Ruschel e Pedro Ribeiro, são os mais velhos. O Normélio Eckert, o Huguinho Müssnich e eu, formamos o trio dos caçulas.

LINGÜIÇA DE QUALIDADE Ao me formar no ginásio, o meu futuro está garantido. 100


Por indicação do Emílio Kreutz tenho um emprego no Banco Nacional do Comércio e eu vou estudar Contabilidade à noite, no Ginásio Industrial. É tudo o que quero para mim ! Mas, o Irmão Quirino – Diretor do Cristo Rei – chama meus pais para uma reunião e joga água fria na fervura. A sua conversa aberta e franca, provoca surpresa total em nós e põe em dúvida o nosso plano – tão perfeito até então. – Voces estão se precipitando, diz ele. – Pensem no futuro, o Astor tem potencial para muito mais. Pode fazer o Científico que está abrindo em Lajeado e depois entrar numa Faculdade. – Não temos dinheiro para pagar os estudos ... diz meu pai. – Que tipo de negócio o Senhor tem Seu Erny ? pergunta ele. – Uma pequena fábrica de lingüiça e mortadela ... – E se o Senhor pudesse pagar os estudos em produtos de sua fábrica, mudaria a situação ? – Bom ... nunca pensamos nisso, precisamos ver ... – Então pensem na idéia. Se vocês quiserem, eu posso falar com a direção do Colégio São José, propondo pagar os estudos com mercadoria. Me informem quando vocês tiverem uma decisão ... Exultante com a perspectiva que nunca havia imaginado, eu saio com a cabeça girando a mil por hora. Por mim, já estaria decidido, mas é preciso ver como pagar. Sentindo o meu entusiasmo, meus pais fazem as contas e põem a decisão em minhas mãos. – Decide o que é melhor para ti ... dizem ambos. Nos dias seguintes, o escambo por lingüiça se confirma e tudo se encaixa. Três meses depois, estou fazendo o Científico em Lajeado. O início, é um desastre. A álgebra, os teoremas e os logaritmos, parecem bichos matemáticos de sete cabeças. Tiro notas 0 e 2 nas duas primeiras provas mensais. Diante do completo fracasso, decido dizer a meus pais que quero desistir do Curso. 101


– Calma, meu filho. Já forneci lingüiça para seis meses de estudo ... diz meu pai, fazendo as contas mentalmente. Fica até o meio do ano ... – Tenta mais um pouco, talvez as coisas melhorem ... reforça, minha mãe. As suas palavras mexem comigo e ferem os meus brios. Diante deles, me sinto um zero à esquerda. Sinto vergonha de mim mesmo e decido ir à luta com unhas e dentes. – Se os outros podem, por que eu não posso ? – Se o Krake tem tanta facilidade, também posso chegar lá ... me autodesafio. A partir dali, encaro a Matemática de frente e já na prova seguinte o resultado aparece. Chego em casa exibindo um glorioso 8 a meus pais. Daí para a frente, tudo engrena e os bichos de sete cabeças passam a ser apenas equações matemáticas de soluções difíceis, mas possíveis. Outro desafio é a Física. O horário do ônibus para Estrela me faz perder parte das aulas. Exponho a situação ao Professor e ele concorda que eu estude em casa e faça as provas sem assisti–las integralmente. Assumo a responsabilidade de estudar sozinho as leis de Newton e o resultado é extremamente positivo. Recebo ótimas notas nas provas. DUREZA É duro levantar às 5:00 horas da manhã e sair para a rua sem saber a quantas anda o termômetro lá fora. A roupa grossa, o frio e a escuridão, são cargas pesadas de carregar na longa caminhada até a Rodoviária. A luz dos postes, some na cerração. Nas casas escuras, todos ainda dormem. Tomado pela solidão, chego a pensar que sou o único idiota a levantar tão cedo. – Vale a pena, tanto sacrifício ? pergunto–me, encorujado com o cachecol de lã cobrindo a cabeça e o pescoço. 102


Tudo muda ao chegar na estação. O Eugênio já roda o mate e conversa animadamente. Encontro o Mico, o Krake, a Diana e o Getúlio Orlandini – meus colegas de aula em Lajeado – e a noite fica para trás. A RODOVIÁRIA – Vai partir o ônibus da empresa Daltro Filho, para Boa Vista, Costão, Beija Flor, Corvo, Roca Sales e Linha Augusta. Senhores passageiros, tomem os seus lugares e Boa Viagem ! ... ecoa a voz do Eugenio, em meio aos chiados do microfone. O Mulato – como é chamado o Eugenio Noll pelos amigos – é um incansável trabalhador e grande incentivador do Estrela F.C. Emprega jogadores de futebol na Estação Rodoviária, para que atuem pelo Estrela. O Nero e o Lili, fazem carreira no campo e no balcão de passagens. O bilheteiro Brandão – freqüentador assíduo das madrugadas na Rodoviária – ouve diariamente o Horóscopo no rádio. – Sempre dá certo para mim ... afirma ele, após ouvir as recomendações do dia. – Tu acreditas nisso ? questiono, surpreso com sua boa fé. – Claro. Se dizem que o dia não é propício para viajar, eu não embarco no ônibus. Sempre dá certo ... VIDA FÁCIL Anos depois, o Mulato inaugura a nova Estação Rodoviária no Oriental. Em seu novo guichê, chegam duas putas da Zona para comprar passagem: – Atende as moças de vida fácil, pede ele ao Assistente. – Vida fácil é ? – Vai dar o cú, para ver se é fácil ... retruca uma delas, desbocada. MARIA INGÊNUA 103


Outra cliente do Eugenio é a Maria Ingênua – mulher de máxima boa fé, totalmente destituída de malícia. Ao comprar uma passagem a Porto Alegre, ela pede um assento na frente do ônibus: – Seu Eugênio, vê se hoje tu me bota na frente. Na semana passada, tu me botou atrás e sacudiu tanto que ainda tá doendo ... A mesma Maria Ingênua, noutro dia encontra o Osvaldo Arenhardt com o seu filho Tico na rua: – Osvaldo, como o teu Tico tá grande ! – Grande e cabeludo ... confirma o pai do Tico. A TRAVESSIA DO RIO O ônibus corta a cidade, passa pela Praça e desce ao rio. Durante a travessia da barca, é proibido ficar a bordo. Escapamos do frio, nos enfurnando no calor do motor a diesel, da lancha lateral que empurra a barca. – Tchúco, tchúco, tchúco ... e lá vamos nós em meio à neblina, sem nada enxergar. Do outro lado do rio, retomamos o ônibus e seguimos a Lajeado pela estrada de chão. Às 8:00 horas em ponto, estamos na sala de aula. MICO Numa dessas geladas manhãs invernais, o Mico pula da barca para a oscilante proa do rebocador, logo no início da travessia. No convés ondulante, ele balança o corpo e perde o equilíbrio sem ter onde se apoiar. Acaba caindo na água com roupa e tudo. Bom nadador, livra–se do casaco de couro e das botas e consegue chegar aos pedrões. Paga o maior mico, mas se fosse mais longe da margem, o mico seria maior. NO PEDAL 104


Com o rio cheio, a barca interrompe o serviço de travessia, devido à forte correnteza. A opção é atravessar de lancha e pegar o ônibus de Cruzeiro ou da Empresa Mayer que vem de Mariante. Em dias de prova, faço o trajeto terrestre de bicicleta. É uma verdadeira maratona, para não perder a hora do exame. A viagem de bike, é traumatizante. Por muitos anos, sonho estar fazendo o longo trecho de estrada de chão, subindo penosamente o Morro 25. Acordo até com cãibra nas pernas. FDP Tudo corre muito bem no 2.º ano Científico em Lajeado. Os Maristas, o Loivo Müller e o Nei Arruda, são bons professores. Há no entanto, um filho da puta que quer me pegar – o Irmão Agostinho, professor de Inglês e dirigente da Banda. A Banda ensaia para a Semana da Pátria, em horário que me obrigaria a dormir em Lajeado. A meu pedido, ele me arruma uma cama no Colégio, mas diz que tenho que pagar o pernoite. Diante disso, abandono a Banda e passo a sofrer implacável perseguição. Minhas notas em Inglês – históricamente acima de 8 – passam a ficar abaixo de 3, fazendo–me pegar segunda época. Ameaçado de perder o ano, faço uso do meu direito de solicitar uma banca examinadora com três Professores. Os Irmãos José e Basílio, me dão nota 9 e o fdp me dá apenas 2 na mesma prova. Se dependesse dele, teria perdido o ano apenas por causa da banda. Com a média da Banca, passo para o terceiro ano e vou estudar em Porto Alegre, pois em Lajeado só há os dois primeiros.

PORTO ALEGRE 105


Estudar na Capital, aumenta a distancia de Estrela. O ônibus já não é mais a Sulina que levava 6 horas via Maratá, vencendo o íngreme Morro Paris. Agora é o Expresso Azul – moderno cara chata, chamado Gostosão. O semi–direto leva cinco horas, passando por Bom Retiro e pegando a nova estrada de Mariante a Montenegro. O pinga–pinga, demora algumas horas–luz a mais. Os ônibus estão sempre lotados. Há passageiros de pé e sentados sobre o capô do motor ao lado do motorista. O calor no verão é infernal. Hoje tudo mudou. O motor é traseiro, o ar é condicionado, a estrada é de asfalto e o tempo é curtinho – uma horinha e meia só. VINGANÇA A vingança do Irmão Agostinho se dá logo no ano seguinte. Já estudando no Colégio Rosário em 1962, dou de cara com o desafeto no corredor cheio de estudantes. Ele leciona no Colégio, mas não é meu Professor. – Ô Hauschild ! – Como vai ? cumprimenta–me alegremente, vindo de braços abertos em minha direção. Eu o ignoro, viro a cara e faço de conta que não o conheço, deixando–o com cara de tacho diante da turma. – Doce vingança ... NOVO RUMO Em Porto Alegre, moro na velha pensão da Dona Olinda, na Rua da Praia em frente ao Cinema Cacique. A Dona Olinda, é a ex–proprietária da Padaria que meus pais alugavam em Taquari, na década anterior. Ela e o filho Carlos, fazem um preço camarada para viabilizar meus estudos na capital. 106


Só tenho aula pela manhã. À tarde, jogo damas com o Edú – um simpático velhinho aposentado, também morador da pensão. Durante os jogos de dama na pensão deserta, conto ao Edú o meu plano de ser dentista como o Dr. Wilde Prunes de Estrela – um modelo para mim. Sonho em ter um bom consultório, prestígio na cidade, bom padrão de vida e jogar tênis como ele. O Edú, é sábio e ponderado. Ouve o dobro do que fala – como manda a natureza que nos dá dois ouvidos e uma boca só. Suas opiniões são sensatas e gentis, até mesmo quando discorda. Certa tarde, ele abandona a costumeira quietude e me aconselha com sabedoria e maturidade: – Astor, acho que não tens perfil para ser dentista. É tudo muito bonito, mas não vais suportar a rotina do consultório. És inquieto, precisas de movimento e espaço para trabalhar. Acho que te darias melhor como engenheiro de obras, arquiteto, geólogo, coisas assim ... opina ele, causando–me surpresa no primeiro momento. A partir desse dia, suas palavras me fazem pensar. E quanto mais penso nelas, mais sentido parecem ter. – Puxa vida, ele tem razão ... estou focando o lado bom da profissão de dentista e esquecendo os espinhos ... Depois de muito pensar e conversar com ele nos dias seguintes, decido mudar de rumo trocando a Odontologia pela Agronomia. Graças ao sábio amigo Edu, a humanidade perde um mau Dentista e ganha um razoável Engenheiro Agrônomo. O VESTIBULAR Preparo–me para o Vestibular, sem fazer Cursinho. Não é mole deixar os banhos de rio para ficar estudando em casa nas tardes quentes do verão de 1962 / 63. Mas não há como ser diferente. Preciso estudar com afinco. 107


Antes da primeira prova, fico impressionado ouvindo os outros apregoarem os seus vastos conhecimentos, antes de entrar na sala do exame na Escola de Agronomia. – Eles sabem tudo e eu nada sei ... tô fodido ! penso eu. Apavorado, me enfurno na pensão e estudo como um louco durante todo o período do vestibular. Só saio do quarto para tomar banho e jantar. Varo a noite até a madrugada e durmo só duas a três horas, antes de sair para enfrentar as provas seguintes. Consigo um bom nível de desempenho, mas comparado ao que ouço os outros falarem, imagino não ser suficiente para competir com os sabichões e ser aprovado de cara. Ao sair o resultado, vou direto à lista dos classificados para disputar a segunda chamada das vagas não preenchidas. Já frustrado por não ver o meu nome relacionado, ouço alguém ao lado exclamar efusivamente: – Pô Astor, tu passou ! – Parabéns !!! diz o cara me abraçando e me deixando atônito. Corro os olhos para a lista dos aprovados e quase não acredito no que vejo. Meu nome está em 12.º lugar ! Incrédulo, confiro diversas vezes a lista, até cair a ficha. A euforia é incontrolável, preciso contar para alguém. A pensão está vazia. Pego minha malinha de roupas e vou direto à Rodoviária. Ansioso como nunca, embarco no primeiro Expresso Azul para Estrela. – Meus pais precisam saber ! – Meus pais precisam saber ! é a idéia fixa que martela em minha mente enquanto corro para casa. A ESCOLA DE AGRONOMIA A entrada na Agronomia, alivia o bolso da família.Vou morar na Escola a preço subsidiado e consigo também economizar algum dinheiro, servindo como garçon em troca da refeição. Mais tarde, passamos também a imprimir e vender apostilas aos colegas em véspera de provas. Vendem como pão quente. 108


O Manfredini – sempre o primeiro da turma – escreve rápido e anota tudo o que os Professores falam. O Janjão e eu, traduzimos os seus garranchos, datilografamos e mimeografamos a álcool no porão da Cantina – o alojamento em que moramos no mato da Escola. Depois da venda, dividimos o lucro entre os três. Os colegas ricos, filhos de fazendeiros, que moram em Porto Alegre e vem de carro para a Escola, são ótimos clientes cativos. Os demais – que moram no Núcleo Residencial e nas duas Cantinas – são peladuras na maioria e compartilham as apostilas. Na falta de dinheiro, é comum os estudantes mandarem telegramas de uma só palavra aos pais: – Mandinheiro. Na Escola, encontro três estrelenses. O Augusto Leindecker – meu futuro cunhado – o Ernesto Diehl e o Gilberto Schwertner que faz Veterinária. Depois, chega o meu tocaio – o Astor Grumann. O Augusto e o Gilberto, já faleceram. O Ernesto, é aposentado do MA em Porto Alegre. O Astor, trabalha com genética de Suínos na Embrapa de Concórdia–SC. O 10 K 10 K é o apartamento no prédio do Cine Cacique na Rua da Praia em que moram o Ellemer e o Ivan Bosse. No sábado, o Igor, o Lula e eu, nos juntamos a eles para passar o fim de semana. O apartamento é um salão, com fogão e banheiro. Dormimos em colchões distribuídos no chão. Com grana curta, vamos comer quase de graça no Matheus, na Praça da Alfandega. O conterrâneo Manivela é chapeiro e nos serve tudo o que pedimos, anotando só o refri na comanda. Comemos Farroupilha e sanduíche de Pernil, pagando só a Pepsi na saída.

DELIVERY 109


Tempos depois, o Meco e o Ivan mudam para a Floresta. O pequeno prédio tem um bar no térreo que nos abastece de cerveja por um cesto de palha amarrada à uma corda. Cada vez que o dono do bar vê o cesto de garrafas vazias balançando à sua porta, ele as troca por cheias e dá três puxões sinalizando que a carga pode ser içada. Delivery na vertical, só ele faz em Porto Alegre.

O GOLPE MILITAR No vazio da renúncia de Janio, os militares tentam barrar a ascenção de João Goulart – o Vice Presidente, em viagem à China. Leonel Brizola – Governador do Rio Grande do Sul – encabeça o Movimento da Legalidade e garante a posse do cunhado. Jango assume a Presidência mas não tem pulso para debelar a agitação e acaba sendo deposto 30 meses depois. PORCOS NA RUA DA PRAIA Um pouco antes do golpe militar, os ânimos estão exaltados. Qualquer manifestação pública, descamba para a desordem e sofre intervenção do Exército. Nesse clima, o proeminente político de direita Carlos Lacerda, visita Porto Alegre. Não dá outra. Entre os milhares de pedestres da Rua da Praia, surge um porco com a inscrição LACERDA no lombo. O porco solto, gera a maior confusão. Uns correm atrás dele para se divertir. Outros correm para se proteger do estouro da boiada. Quem sai dos cinemas, não entende o que se passa na rua. Ou entra na correria, ou procura proteção nas lojas, que baixam frenéticamente suas cortinas de aço temendo a invasão. Sem ter para onde ir, o pessoal corre para as ruas laterais da Praça da Alfandega e dá de cara com uma péssima surpresa. Tanques do Exército formam barreiras que impedem a fuga. 110


Os escudos estreitam o cerco e os soldados enchem de cacetada os que se interpõem ao seu avanço. Os brucutús usam a força bruta e batem em todos sem distinção. Homens, mulheres e crianças, apanham apenas por estarem no lugar errado, na hora errada. Nem as grávidas escapam – como mostra a capa da Última Hora no dia seguinte. No final, o povo ferido pelos pés de porco que o deveriam proteger, reúne–se e canta o hino nacional na Praça: – Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, do povo heróico um brado retumbante ... ecoa emocionado pelos ares da cidade. O GRUPO DOS ONZE Num dia normal de trabalho, o tio Pedro é detido no açougue e levado com tamanco e tudo por desconhecidos gorilas à paisana. Não lhe permitem nem tomar banho e tirar o avental sujo de sangue, antes de revistarem sua casa. De pacato açougueiro e vereador, é absurdamente transformado em perigoso terrorista do Grupo dos Onze. NOITE ESTRELADA O tio Pedro é um político moderado. Só exagera em sua admiração pelas estrelas. Em seus comícios noturnos pelo interior do município, faz questão de falar delas, repetindo sempre o mesmo discurso: – Tendo o céu por testemunha nesta linda noite estrelada, prometo a vocês que darei tudo de mim para defender os interésses desta honrada comunidade ... discursa empolgado apontando as mãos para o céu, em cada palanque que passa. – O céu tá nublado, Pedrinho ! grita um eleitor, num comício em Costão. O público cai na gargalhada, mas o candidato administra a situação e se sai muito bem: 111


– Não faz mal que o tempo tá fechado. As nuvens, são dificuldades passageiras que enfrentamos hoje. Mas se eu for eleito, as estrelas voltarão a brilhar para todos ... O povo acredita nele e confirma o seu apoio na urna, elegendo–o com impressionante votação. ANOS DE CHUMBO Os militares aceleram o crescimento com grandiosos projetos nacionais. Fazem crescer a economia, a energia, os transportes, a comunicação e o ufanismo. – Brasil. Ame–o ou deixe–o ... apregoam aos quatro cantos. Mas juntos, crescem também a dívida, a inflação, a censura, a corrupção e a tortura. A Ditadura, é dissimulada. Nomeia os Governadores mas veste pele de democracia, com dois grandes partidos – a ARENA governista e o MDB de oposição. Mesmo perdendo as eleições nos grandes centros, a ARENA tem maioria na Câmara e no Senado. O milagre está na nomeação de Senadores biônicos e na lei que falseia a representatividade dos Estados no Congresso. Os Estados menores e mais vulneráveis ao domínio do poder central e de caciques locais, elegem mais Deputados e Senadores do que os maiores e mais evoluídos – onde a oposição vence as eleições. O SUSPEITO Nem o Naninho – apolítico total – escapa do clima de suspeição implantado pela Ditadura. Durante uma reunião da ARENA no Clube, o meu sogro Albano Rücker, esbarra acidentalmente num velho gravador enquanto fotografa o evento. Mesmo quebrado, sem fita e sem função alguma, o aparelho do meu irmão é apontado como instrumento de espionagem. 112


A repercussão do fato insere o Naninho no restrito círculo das celebridades com lugar na revista Veja – espaço que qualquer político almeja e poucos conseguem ter. Suspeição semelhante, acontece comigo na Agronomia. O IBRA – Instituto Brasileiro de Reforma Agrária – está recrutando estudantes para cadastrar as propriedades rurais durante as férias. Meu ótimo aproveitamento no Curso de Treinamento, me credencia a escolher Estrela como local de trabalho. Dias antes de começar, me chamam para uma inesperada entrevista em Porto Alegre. Quatro anônimos em roupas civis, me submetem a intenso interrogatório sobre supostas atividades subversivas no Centro Acadêmico da Faculdade – em que sou o Diretor de Esportes. – Os estudantes são suspeitos de subversão, devo ser apenas mais um ... penso com meus botões, sem maior preocupação. Mas, mesmo sem ter nada contra mim, me proíbem de trabalhar em Estrela. Se quisesse, deveria escolher outro município. Perplexo e desapontado, levo o caso ao Coronel Gusmão – Coordenador do trabalho de Cadastramento, com quem tive excelente relacionamento no período de Treinamento. – Fica tranqüilo Astor, o teu direito será respeitado – eu garanto ! assegura ele, com o peculiar ar de segurança dos militares. E assim é feito. Dias depois, eu vou trabalhar em Estrela. A DENÚNCIA ANÔNIMA Na Ditadura, vigora a covarde denúncia anônima. O rato de porão denuncia e o acusado que se vire para provar sua inocência, sem siquer saber qual é a acusação. No meu caso, o denunciante pode ter sido qualquer um – um colega invejoso, um fanático obtuso, um rival enciumado ou um filho da puta qualquer. – Quem sabe ? INVASÃO DE GAFANHOTOS 113


O dia é normal na Agronomia. Estamos em frente à Escola, tomando sol no intervalo de aula, quando passa um batalhão do exército voltando ao quartel do Partenon. Um de nossos colegas, decide provocá–los: – Marchem gafanhotos verdes ! grita aos soldados que andam em fila, a passos lentos. Isto soa como um grito de guerra nos ouvidos do Comandante, cuja reação é imediata. – Tróópa, seeentido ! ordena, em potente voz de comando. Obedientes, os soldados estancam prontamente e estufam o peito com o fuzil no ombro. Nova ordem se faz ouvir : – Direita, vooolver ! grita o Comandante. Num só movimento, o regimento se vira para nós e recebe mais duas instruções em série: – Tropa, apontár ! – Tropa, avançár ! berra com vigor, o irritado Comandante. O pelotão avança com cara feia, apontando os fuzis em nossa direção. Entrincheirados atrás do muro da Escola, nos defendemos com a única arma que temos – o palavrão ! – Milico corno ! – Pé de porco ! – Filho da puta ! disparamos, para destruir o moral da tropa. O pequeno portão que nos separa, faz o Comandante pensar. Em súbito estalo de bom senso, dá– se conta de que a invasão do campus estudantil, seria um ato de agressão que explodiria na mídia. – É tudo o que os meus superiores não querem ... posso ser castigado ... parece ter pensado, antes de romper o portão. – Tropa, Abortááár !!! grita, interrompendo repentinamente o ataque e mandando a fila andar rumo ao quartel. CHUMBO GROSSO No calor do entrevero com os milicos, o Chumbo lança mísseis de grosso calibre. 114


– Filhos da Puta ! – Vagabundos ! – Vão tomar no cú ! – Vão tomar no cú ! dispara repetidas vezes, até perceber que a colega Ana Flávia ao seu lado, ouve os seus gritos. Desajeitado, tenta consertar a situação, virando–se para ela e se desculpando: – Desculpa Fafá, me desculpa Fafá, retiro o cú ! Entendendo a sua boa intenção, ela o perdoa com um discreto sorriso. DIRETAS JÁ ! A promessa de redemocratizar o país em quatro anos, leva 20 para ser cumprida. Fortemente pressionado pelo movimento Diretas Já ! João Figueiredo – o que preferia o cheiro do cavalo ao cheiro do povo – sai vergonhosamente pelos fundos, negando–se a entregar a faixa ao primeiro presidente civil após a Ditadura. A morte do Presidente eleito Tancredo Neves antes de sua posse, enseja ao Vice José Sarney assumir a Presidencia, no primeiro mandato do período democrático.

A DEMOCRACIA Pelos critérios da ciência política, somos a 47.ª Democracia do mundo. Temos liberdade de expressão e livre oposição, mas nosso sistema, centralizado no Poder Executivo e embasado no loteamento de cargos entre os partidos que sustentam o Governo, nos impede de avançar na independência dos três Poderes, na organização política e no controle das ações do governo. A barganha de verbas, o clientelismo e a corrupção, estão endemicamente incorporados ao sistema. O baixo clero que compõe a maioria, põe os interesses pessoais acima dos anseios da Nação. Nossa Democracia, limita a escolha de bons candidatos e impede o expurgo dos piores. 115


Os mais otimistas acreditam que ela ainda é jovem e pode melhorar. É verdade, só tem 20 anos, mas precisamos então revogar o ditado que afirma que pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto ... DISTORÇÕES É difícil evoluir para uma sociedade brasileira mais justa. Nossa Burocracia, é um inferno. Em 12 anos, criamos 234 leis e 6.000 emendas. A Constituição americana, tem 230 anos, 14 leis e 70 emendas. Nossa Justiça, não é cega. Os Juízes do Supremo Tribunal Federal, são indicados pelo Presidente da República. É difícil imaginar que possam ser independentes e não cair na tentação de agradar ao padrinho. Os membros dos Tribunais de Contas que fiscalizam os gastos públicos, são escolhidos pelos próprios fiscalizados. A Ética, é apenas o nome de uma Comissão formada por corruptos com processos na Justiça e que jamais se auto punirão. O voto no Congresso é secreto. Os ladrões são absolvidos, pelos demais que também temem a cadeira dos réus. E os processos não se baseiam em presunção de culpa ou inocência. O que vale é o número de votos fisiológicos. Tem maioria, está absolvido. O PROCESSO ELEITORAL O processo eleitoral – tão ágil na apuração dos votos – produz resultados viciados. Os 29 Partidos – a maioria grupelhos nanicos – sustentados por verbas públicas e ONGs fantasmas, trocam votos por favores. Os campeões de voto dão carona na legenda, aos incapazes de se eleger por sua própria força. O Tiririca arrasta mais quatro inços para o Congresso. Sintomáticamente, um deles – Delegado de Polícia – acaba de ser 116


condenado a tres anos de prisão por falsear provas em inquéritos policiais sob sua responsabilidade. Por herança da Ditadura, a representatividade dos Estados no Congresso, não é proporcional ao número de eleitores. O voto nos Estados menores e atrasados, vale mais do que nos desenvolvidos – menos vulneráveis à manipulação eleitoral. Um voto no Piauí, vale por 14 paulistas e 5 gaúchos. PARASITISMO A Democracia plena, sustenta–se em Direitos e Deveres iguais para todos. Em nosso meio no entanto, uns são mais iguais do que outros. A casta parasitária faz suas próprias leis e leva vantagem em tudo. Até o imoral é legal, para obter privilégios. A hipocrisia, o cinismo e o corporativismo, dão guarida aos encastelados nos gabinetes e em gordas aposentadorias precoces. Quem trabalha com ideal e honestidade, sente–se frustrado com o destino dos impostos destinados a injustificáveis benesses. As reais necessidades do trabalhador comum, do policial na rua e do professor na sala de aula, jamais são atendidas. São apenas soldados rasos da Corte, nesta ditadura de parasitas. PALPITE FURADO Embora a gente saiba de nossas mazelas, não podemos admitir que sejam alvo de críticas estrangeiras. O problema é nosso. Jamais devemos aceitar palpites estrangeiros em nossos assuntos internos. Eles só sabem das coisas pela metade e normalmente falam besteira. O biólogo francês Saint Hilaire, por exemplo, caiu na besteira de dizer que “ Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil.” – É claro que só conheceu as formigas ... 117


Já outro frances, o General De Gaulle, ao afirmar que “O Brasil, não é um país sério ”, demonstra que não as conheceu ... O TIRIRICA Até as crianças já confundem o horário político na TV com o humor do circo. – Olha pessoal, vai aparecer o Tiririca ! – A mulher Pêra ! – A mulher Melancia ! grita o meu neto, quando anunciam o horário político na tela de plasma da Pizzaria. O pessoal que lota o salão se fina de rir do Antonio e dos caricatos candidatos que desfilam no picadeiro televisivo. – Pior do que tá não fica ... diz o anárquico abestado. – Mentira, pode ficar ... A fama do Tiririca vem de longe. Há alguns anos, estou em St. Louis no Missouri, no dia em que Presidente americano Bill Clinton visita a cidade. Apesar da importância da visita, nada altera a rotina do cidadão comum. O vai–e–vem de carros nas ruas e passageiros no aeroporto é normal. O único sinal visível de que algo extraordinário acontece na cidade, é a esquadrilha de jatos militares que escolta o Boeing presidencial estacionado na pista. Embarco para São Paulo e no dia seguinte vou a Santa Catarina. Ao chegar em Navegantes, o pequeno aeroporto fervilha de ruidosas crianças. Professores e alunos, fazem festivo alarido no exíguo saguão, para ver o astro que chega no mesmo vôo – o Tiririca ! – Tá cu´a gota, rapaix ! exclama o feliz palhaço, lisonjeado com a belíssima recepção no feriado escolar em sua homenagem. VEIA POLÍTICA Tomara que não aconteça, mas o meu neto Antonio vem revelando um grau de esperteza que poderia credenciá–lo à política. 118


Tendo largado o bico há algum tempo, de repente ele sente uma vontade incontrolável de voltar a chupá–lo. Tanto insiste, que a mãe acaba levando–o à farmácia. – Moço, eu preciso de uma chupeta para o meu irmãozinho mais novo. Pode ser aquela azulzinha mesmo, acho que ele vai gostar ... diz o filho único ao atendente, apontando o bico azul no balcão. LOTERIA A política, enche o saco. É muito blá, blá, blá, conversa prá boi dormir, não leva a nada. O bom mesmo é falar de números, jogar na loteria. Falemos deles então: Votar para Presidente é fácil. É só clicar a dezena do candidato e esperar que ele confirme ou desminta as projeções das últimas pesquisas eleitorais. Já para Vereador, é mais complicado. São muitos candidatos e o milhar tem cinco algarismos. O voto exige excelente memória ou um papelzinho com a cola no bolso. Pego despreparado diante da urna, o eleitor desatento é tentado a escolher um número fácil para não perder o voto. E o mais fácil, é a sequência de 1 a 5 – quase um convite aos que querem se livrar logo da obrigação de votar. – Ah ... é tudo igual mesmo ... 1. 2. 3. 4. 5 ... digita e confirma o eleitor, como se estivesse jogando na loteria. Ao ver a foto do candidato no visor, o voto já está dado e o cidadão descobre surpreso que apostou no Faófa. – O cara é bom ! – Tomara que ganhe ! torce o apostador. Mas o jogo é de azar e o Faófa não ganha ... RICOS E POBRES O candidato a Vereador ataca a desigualdade social no bairro de Moinhos – um dos mais pobres da cidade. – O rico, come bem, trabalha pouco e dorme como um anjo 119


em macio colchão de molas. Com o pobre, é o contrário ! – passa fome, trabalha pesado e quando chega em casa morto de cansado, vai prá cama de pau duro ... – Pelo menos, é de pau duro ... diverte–se o eleitor.

O NATIVISMO O Nativismo, é a 25.ª cadeira na Escola de Agronomia. Os colegas fronteiriços de pelo duro e linguajar aberto e franco, são mestres em tradições campeiras. – Olá que talll, tomas um mate ? é o convite natural para a charla do chimarrão – uma verdadeira aula de nativismo. Os seus causos da querência e das estâncias da fronteira, são povoadas de tchês, peões, capatazes, viventes, piás, guris, ginetes, prendas, chinocas, xirús, gaudérios, charruas, borregos, pingos, cuscos, baguais e outros quetais. Quando narram os fandangos, aprende–se o que é pilcha, acordeona, maçanico, chula, xote, rancheira, vaneirão e chamamé. E tem as tertúlias no Galpão Crioulo, construído por Moacir Pereira Mozart – nosso Diretor nativista. Em ambiente rústico de galpão de campanha, aprende–se uma barbaridade com Sampaulo e Jaime Caetano Braun – detentores de vasta cultura gauchesca.

GALPÃO CRIOULO A lembrança do Galpão Crioulo da Escola, dá asas à minha imaginação e faz de mim um repentista nativo de ocasião na tertúlia: Bueno, viventes, permitam me apresentar, Meu nome é tchê Astor, sou poeta e trovador, 120


Mucho me gusta cantar e falar com bom humor. Dedilhando o violão, cumpro aqui a grata missão De lhes fazer um repente, falando de nossa gente, Gente boa, de coração. Falando a bem da verdade, venho de uma cidade Não muito longe daqui. Venho de Estrela, logo ali Na fértil encosta da Serra, nas curvas do Taquari. E tanto lá como aqui, vejo bonitas moçoilas, Lindas flores, açucenas, lá um tanto mais loiras, Aqui já bem mais morenas, mas todas prendas mui buenas, As mais belas que já vi ... Mas, lá não vejo no entanto, o encanto que vejo aqui. A prosa lá é estrangeira, a dança é polka ligeira O canto não é guarani. Não existe este aconchego, do fogo, da lã do pelego, Que aquecem este galpão. Aqui tem cheiro de terra, de raiz que brota do chão, E o ar tem fumaça crioula, gaúcha de tradição. Com ustedes, me regozijo! Aqui, tem poesia, humor e riso – e vejo até xirú chorar Neste galpão, alegre ou triste, a indiferença não existe, Aqui não é o seu lugar. Aqui tem calor humano, churrasco, canha, chimarrão, Tem saudade da chinoca, choramingo de acordeona E pontilhar de violão. O sangue ferve nas veias e a alma chora de emoção. Ouço aqui os velhos causos, de peleias e entreveros De pica–paus, chimangos, maragatos, índios mui bravos guerreiros, Que escreveram com seu sangue, a história deste chão. 121


As bravas memórias de guerra, contra o invasor castelhano Atestam que nesta fronteira, da gigante nação brasileira, A divisa não é herança, a terra aqui não foi dada Foi conquistada na lança – Este é o Brasil por opção ! Neste galpão de gente amiga, Ninguém é menos, ninguém é mais, Somos iguais e não fazemos distinção Entre o mais rico doutor e o mais pobre peão. Crioulo, é este galpão ! Aqui todo mundo é Tchê ! Aqui, todo mundo é Irmão ! O BOLICHEIRO Os donos de bar em Estrela, não gostam que os chamem de Bodegueiro ou Bolicheiro – acham que é depreciativo. Entonces, o clássico gauschesco de autoria desconhecida, é declamado assim em minha terra: Zé do Abrigo me despacha, que hoje no más se emborracha Quem nunca se emborrachou. Quero tomar no gargalo, prá esquecer o pialo Que o tal de amor me atirou. Sempre fui solto de patas, mas nesta volteada ingrata Num tacurú tropecei. Acontece que eu não sabia, quanta manha se requer Prá se correr com mulher na cancha reta do amor. Entrei confiado prá raia e perdi prum rabo de saia Sem sair do partidor. E desprezo, não há quem cure, não há remédio que impeça Não há reza, nem promessa, que lhe conserte o estrago. Por isso, seu Zé do Abrigo, se queres ser meu amigo Me traz , no más outro trago ! 122


GROSSO BARBARIDADE É verdade, acontece. Tem gente que não conhece um galpão de CTG. Desconhece uma tertúlia, ignora o que aqui se faz, não sabe o que aqui se vê. Alguns engraçadinhos, fazem troça na televisão. Usam o humor rasteiro, prá sufocar a cultura e contestar a tradição. Acreditam ser portadores de fama e grandes valores, que não tem valor algum. Vem e somem tão ligeiro, quanto o gasoso cheiro de um bem fedido pum. Chamam a pilcha de fantasia, não sabem que é roupa de luxo. Dizem que o CTG é Cêmo Tudo Grosso ou Cêmo Tudo Gaúcho. Desse humor felizmente, há pouca gente que gosta. Mais parece o riso estridente, da hiena que mostra o dente, feliz chafurdando na bosta. É um tipo de graça sem graça, de audiência bem escassa, no Ibope uma desgraça, traços e nada mais. Só atrai a atenção do asno, o mais burro dos animais. De minha parte, confesso. Não nego, sou meio grosso. Do abacate, sou o caroço, a parte sempre mais dura. E não a polpa mole e madura, de triste e sabido destino, que apodrece no terreiro ou é comida pelos bichos e vira merda no intestino. Entonces, eu lhes pergunto: – É melhor ser chamado de grosso ou se achar um cara fino ?

VINHO CRIOULO Ustedes decerto já sabem que o Valduga, o Miolo, o Salton e o Broilo, desceram a serra e estão fazendo vinho nos pampas. O Chê Rota – grande estancieiro de Livramento – observa o movimento dos gringos e já começa a pensar em fazer igual, para diversificar os negócios. 123


– Vinho combina com carne e a bosta de vaca é adubo. É a salvação da Metade Sul ! imagina ele, ainda um tanto indeciso. A gota que faltava para ele decidir botar uma vinícola na estância, é a vinda do Randon – o visionário empresário serrano. – Se o Randon veio prá cá, o negócio é bom ... o homem enxerga longe ... conclui o Chê Rota. De imediato, já manda o filho Licurgo fazer o Curso de Enologia em Bento Gonçalves, com a expressa recomendação de não voltar sem saber tudo da operação. – Que talll o Curso, Guri ? pergunta ele ao filho, que volta de Bento seis meses depois. – Especialll de primeira, Papai ! – pode me chamar de doutor. – E o que o doutor acha do nome e da arquitetura da nossa Adega ? indaga o pai. – Bem, os gringos botam o nome da famíla, fazem castelinho, murinho de pedra, florzinha, essas frescura da serra ... mas aqui na estancia, o melhor enfoque é a rusticidade. O nome Vinho Crioulo é perfeito. E o nosso galpão já tá pronto. É cosa bem tradicionalll ... A DEGUSTAÇÃO Implantada a vinícola alguns anos depois, o próprio Licurgo recebe os turistas para a degustação. O seu traje, é informal e bem à vontade. Usa o social esporte fronteiriço, de camisa branca, lenço vermelho, bombacha preta e alpargata uruguaia mascada no calcanho. A boina, o acompanha em dias mais frios. – Olá, que talll ? Se aprocheguem ... cumprimenta ele com gestos largos, apontando aos visitantes a porta do galpão. – Oi ... Oi ... Oi ... vão cumprimentando os turistas um a um. – Olá, que talll ... olá, que talll ... olá, que talll ... vai ele retribuindo e sorrindo, mostrando os dentes sob o expêsso bigode. – Donde vem ustedes ? pergunta ao grupo que o cerca. – De Portalegre ... – Portalegre ... mmm ... deixa ver ... Que mal lhe pergunte: 124


Não seria Porto Alegre, a mui valerosa capitalll do nosso Rio Grande Chê ? dispara com olhar fulminante. – Sim, Portalegre ... confirma o turista, sem conseguir disfarçar o sotaque da metrópole. – Mmmm ... aí tem muçum na toca ... pensa o Licurgo sobre o linguajar abichalhado. – Mas Bueno Chê, deixa prá lá ... como chegaram aqui ? – Foi horrível. A BR não tem placa e o ônibus se perdeu ... – Pois é Chê ! – Vê como o mundo é pequeno. Queremos nos livrar dos turistas em Livramento, mas tá difícil ... Há 20 dias, me vem um Fiat Uno cheio de uruguaios e agora me aparecem ustedes ... até parece assombração ! – Ah, ah, ah ... riem os visitantes, com o bom humor do Licurgo. – Mas já que tão aqui, sejam bienvenidos ao galpão do Vinho Crioulo e privem de nossa tradicionalll hospitalidade. – Apresento–lhes o Alegrete, o melhor vinho da Campanha ! saúda o anfitrião, levantando um dos 20 copos de geléia Ritter transbordando de vinho, sobre a comprida mesa. – Fiquem à vontade, não liguem prá etiqueta, aqui não tem frescura ... diz ele, lambendo o excesso de líquido que lhe escorre na mão. Aqui no pago, cada um entorna o Alegrete como quer. Só que antes tem que cheirar prá ver se ainda não azedou ... orienta o somelier da fronteira. – Trilegal ! – Tchim, tchim ! exclamam os portoalegrenses, contentes com a informalidade. – Buenas Chê, entonces agora me ouçam. Puxem o ar pelas venta e sintam o cheiro ... – Cheiro de campo ... interrompe um dos visitantes. – Cheiro de campo, nada Chê ! – Aí é que vósmecê se engana, eu acabei de peidar ... – Ah! Ah! Ah! .... gargalham todos juntos, com a boa piada. – E pensam que tô brincando ? – Falo sério, eu peidei mesmo Chê ! enfatiza o Licurgo. 125


– Ah! Ah! Ah! Ah! … Ah! Ah! Ah! … Ah, ah, ah ... riem mais ainda, com mais essa brincadeira do gaúcho. – E tem mais ! continua ele. – Tem essas bolota de tiragosto prá zerar o paladar ... apontando uma gamela cheia de bolinhas esverdeadas, como pequenas azeitonas. – Mmmm ... queijo Roquefort ? pergunta um dos turistas. – Roqueforte, nada ! – É bosta de borrego com alecrim do campo ... Corriedale ... – Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! … Ah, Ah! Ah! Ah! Ah! … Ah! Ah! Ah! Ah! ... ecoa nova onda de gargalhadas, com a bela encenação. Animado com a descontração do grupo, Licurgo abre a pipa e repete a bebida à vontade. – Delequedele, bebe mais um pouco, Chê ! insiste com alegria, repondo com a concha cada copo vazio. A degustação vira uma festa. Cada conchada na pipa, cada gesto de Licurgo e cada palavra sua, geram explosões de alegria. – Me dá mais uma Baguálll ! – É muito bom o teu vinho com cheiro do campo ! pedem os portoalegrenses. – Mas, bah ... Ainda sentem o cheiro do campo ? – Agora eu nem peidei, Chê ! revela o somelier. – E que cheiro, é esse então ? – Vou lhes dizer, Chê ! – Vem da coxilha. É o aroma da bosta de rês com mijo de égua Crioula, envelhecido em tonéis de óleo com água suja do Ibirapuitã ! esclarece o gaúcho. – Trilegal ... nem na Serra, tem assembláge igual ! – Vamos tomar mais um ! festeja o turista empolgado com o bom humor. Terminada a divertida degustação, os turistas se despedem voltando ao ônibus. – Para onde, vão agora ? pergunta o Licurgo. – Prá Portalegre, tchau ! respondem, juntos ao mesmo tempo, sem imaginar o surto de vômitos que os espera depois do Alegrete. Descobrem na estrada que o verdadeiro gaúcho não mente ... DESCULPA POR TUDO 126


A gente brinca com a grossura do gaúcho, mas também não é tanto assim. Nem todo gaúcho é tão grosso. Há entre nós, os refinados, os cultos e bem informados. Temos gente de fino trato, de fatiota, gravata e sapato. Há profissionais respeitados, mestres mui letrados e xirus de alta erudição. Outro dia, vi um destes falando a um quera da televisão: – Desculpa pôr tudo. Desculpa minha grossura. Desculpa a cabeça dura. Desculpa as bolas fora. Sou guasca de fora, desculpa, por tudo ... E assim foi pondo tudo, com exemplar educação. TREINTA Y TRES Na viagem de formatura ao Uruguai, o trem de Jaguarão a Montevideo é lento e desconfortável. Não há comida nas pobres estações da campanha. Não fosse o frango e a farofa das meninas do Colégio Israelita de Porto Alegre, teríamos passado fome. Isolado no pampa vazio, o pueblo Treinta y Tres é motivo de piada. Dizem ter visto um monumento com os seguintes dizeres: * Em este hermoso sitio, 33 valientes soldados uruguayos fueram barbaramente asesinados por um cobarde brasileño *

O REGIONALISMO Quando estudante, a tradição gaúcha me parecia em extinção. – Coisa regional, de gaúcho da Fronteira ... pensava eu. Lêdo engano – as chamas do galpão crioulo se alastram pela cidade. Nossa genuína tradição, cresce e se globaliza em fogo alto. 127


Os CTGs, a indumentária, a culinária, a música e a dança, difundem–se por todos os quadrantes. E parte disso, se deve aos antigos trovadores repentistas da Rádio Farroupilha – que se enfrentavam até vencer por aplausos da platéia – cantando mais ou menos assim: – Meu amigo e companheiro, uma coisa eu vou te contar Esperei o ano inteiro, para um dia te encontrar Estou louco de faceiro, prá te ensinar a trovar. – Prá me ensinar a trovar, não preciso de professor Sou trovador de verdade, o rei de todo o interior E hoje aqui na cidade, vou te mostrar que sou doutor. – Vai mostrar que é doutor, só se for na enfermagem Tu é um pinto desafinado, metido a galo de coragem No terreiro mando eu, não me vem com galinhagem. – No terreiro manda tu, um galo velho e caolho Entrei aqui nesta rinha, prá brigar olho no olho Pensei que ia enfrentar um galo, mas só tô vendo piolho. – Tu só tá vendo piolho, mas o bom galo tá aqui Campeão de todas as rinhas, no vale do Taquari E tu não passa de um pinto, que vou fazer correr daqui. – Vai fazer correr daqui, aí é que tu te engana ... BARBARIDADE TCHÊ ! O tradicionalismo gaúcho é uma manifestação cultural de admirável valor. Mas infelizmente, há gente que não entende isso. Confunde cultura com grossura e brabeza com bravura. Em nome de suposta tradição, alguns até invadem a cavalo e 128


estercam a praia dos outros. O tradicionalismo sadio, não os credencia a perder o respeito e a educação para cometer barbaridades como essa. Mas, com ou sem tradição, o grosso seria igualmente grosso. Com ela, talvez aprenda alguma coisa e venha a se tornar um gaúcho educado e respeitador, como todos queremos ser. O GAUCHISMO O apego às coisas locais, inflama o orgulho gaúcho. O Rio Grande amado é o melhor pedaço do mundo. Somos os melhores e a felicidade está aqui. O resto, pode até ser bom, mas é apenas o resto. E somos papudos. Mesmo sem saber o que isto significa, queremos que nossas façanhas sirvam de modelo a toda a terra. Os Governos, a mídia e as empresas, exploram esse sentimento de orgulho próprio e até competem entre si para mostrar que um é mais gaúcho do que o outro. Tudo isso, me leva a pensar que deveria haver um Gauchômetro para medir o IPG – Índice Pessoal de Gauchismo. Assim, se saberia o quanto cada um é realmente gaúcho. O grau zero, seria a total ausência de gauchismo, a indiferença por nossas tradições. O 100, seria a empolgação total, o fanatismo, o ufanismo sem porteira. O IPG anotado ao lado do tipo de sangue na carta de motorista, indicaria oficialmente o grau de gauchismo e evitaria muitas das estéreis discussões que ocorrem por aí. – Mas, que critério usar para determinar o IPG ? A Genética, já não serve mais. Pêlos duro e imigrantes, já cruzaram seus gens nos pelegos gaudérios e as raças já não são mais puras de origem. O Consumo de cerveja Polar – que a Ambev diz ser gaúcha – também não serve. Haveria polarização. Os concorrentes e os abstêmios, jamais o aceitariam. 129


O nível de Mate na urina, também não daria certo. O exame teria que ser feito entre o chimarrão e o xixi – nos exatos minutos em que o xirú costuma jogar a gauchez pelo ralo. A Idade e o Tempo de chimarrão, estão fora de cogitação. Favoreceria as velhinhas da Vovolandia, que tem todo o tempo do mundo e companhia permanente na roda. O porte do Bigode e a folgadura da Bombacha, seria um critério machista. Considerando as exceções de sempre, as mulheres se sentiriam alijadas da medição. – Mas bah, Chê ... o que resta então ? Resta a arte de fazer o Churrasco – o que também seria inútil. Todos o fazem muito bem e o resultado seria o empate. – Pô, então não sobra mais nada ... – Sobra sim Chê ! – Sobra a conclusão de que todo o gaúcho é igual a qualquer gaúcho. Não há gaúcho mais gaúcho do que o outro. O gauchismo, é igual para todos – só os fanáticos não o percebem. CONFRONTOS Não há meio termo – o gaúcho é brigador, confronto é conosco mesmo. Eu digo sim, tu dizes não e assim continuamos divididos. Na Geografia do Estado, é Metade Norte, Metade Sul. Ou é Serra, ou é Pampa. No Clima, é zero grau ou quarenta – e periga acontecer no mesmo dia. O vento, é Minuano ou Aragano – só nos dois curtos meses de praia, eles se aprumam para dar um descanso. Na Agricultura, tem os Com terra e os Sem terra – explorados políticamente sem que ninguém os ensine a plantar, nesta reforma agrária de araque. Na Política, qualquer diferença superior a 1% no segundo turno, é um vareio. E não há Governador reeleito. O funcionalismo 130


elege sempre um novo para dar os aumentos prometidos e depois negados pelo anterior. No Futebol, é azul ou vermelho. Não há outra cor. O amarelo da seleção canarinho, só é tolerado se o técnico for gaúcho. A rivalidade da dupla Gre–Nal é a maior do mundo. O ódio pelo rival, supera o amor pelo próprio time. Melhor do que vencer, é ver o outro perder. Só a Mídia não toma partido. Se ataca um dos lados, perde a metade da audiência e da receita. O rádio, jornal e televisão, andam em cima do muro. Só batem em cachorro morto e medem milimétricamente o espaço e as palavras destinadas a cada facção. A CONTABILIDADE A Contabilidade, é a mais simples das ciências. O fluxo de caixa só tem duas colunas: Crédito / Débito, Receita / Despesa, Entrada / Saída, Lucros / Perdas ou Azul / Vermelho, como queiram. O melhor é ficar no crédito, mas o nosso Estado pende sempre para o lado do débito, da despesa, das perdas e do desconforto contábil. Gasta tudo o que arrecada e anda com o pires na mão para fechar o caixa. Uma simples aula de Contabilidade, poderia ensinar aos governantes o que qualquer criança que recebe mesada já sabe: – Não se pode gastar mais do que se ganha.

CARGA PESADA O corporativismo e as demagógicas teorias dos bem aninhados sob as asas do Governo, corroem as contas públicas e geram impressionante inoperância do Estado. 131


Com toda a riqueza e com os impostos mais altos do que nos outros Estados, temos a menor capacidade de investimento do país. Tirando as despesas de juros sobre a dívida, folha de pagamento, aposentadorias e rombos das estatais cabides de emprego e indústrias de ações trabalhistas, nada sobra para os hospitais, escolas, estradas, segurança e tudo mais. Outros Estados, investem centenas de milhões a mais. O Paraná, com orçamento semelhante ao nosso, só tem 6 municípios sem asfalto. Nós temos 70 ... – Que suas façanhas, sirvam de modelo à nossa terra ! A PASSOS DE TARTARUGA Qualquer obrinha pública no RS – prometida em letras garrafais para atrair leitores e eleitores – só sai com dinheiro de fora e leva de vinte a trinta anos, da promessa de campanha à conclusão. Ora falta projeto, ora falta verba, ora sobra burocracia, ora os índios não deixam, ora há moradores a remover, ora tem ninho de coruja e assim as obras vão andando a passos de tartaruga. A lentidão chega a ofender a tartaruga. A hidrovia do Guaíba, consumiu 30 anos para cruzar 15 km. Tartaruga alguma nadaria só 500 metros por ano. A duplicação da 386 até Tabaí e a Rodovia do Parque – que nos darão melhor acesso à capital – parecem estar trilhando o mesmo longo caminho. Prometidas para dois anos, começam a arrastar–se para as próximas campanhas eleitorais. Já não se sabe quantos mandatos serão necessários para a conclusão.

O RIO TAQUARI Manso em seu leito, o Taquari da minha infância é uma dádiva de Deus. Em suas águas aprendo a nadar, pescar e viver. 132


A imponência dos pedrões, o liso barro das barrancas, o cascalho queimando o pé e as águas plácidas tombando em cachoeiras borbulhantes, demarcam o deslumbrante cenário que me ensina a apreciar e a respeitar a natureza. ADÃO E EVA No alto da escadaria do cais do porto, está o mirante do Adão e Eva – estátuas da Indústria e do Comércio – que tem por vizinhos o Arenhardt, tradicional atacadista da Rua da Praia. O sal AMA – feliz trocadilho do verbo amar com as iniciais de Alfredo M. Arenhardt – é trazido por barcos e puxado ao armazém pela maxambomba. Em terra, é distribuído pelo conhecidos caminhões International do Adão Martins e do Dorval, escudados pelo Zé Mico. Ao consertar o pneu do caminhão em frente ao Arenhardt, o Dorval sofre um acidente fatal, atingido pela roda. A MAXAMBOMBA Estrela tem na maxambomba, o seu cordão umbilical com o progresso. Por seus trilhos e cabos de aço flui todo o sangue da economia estrelense. São dois trolers que operam simultaneamente em sentido inverso na íngreme barranca de 45 graus. Enquanto um desce ao cais com banha de porco e produtos coloniais, o outro sobe ao trapiche com sal, remédios e roupas vindas da Capital. MACHINE PUMP A inglesa Machine Pump virou Maxambomba no Brasil.

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Antes do Rio Taquari, o trenzinho de cargas e passageiros foi usado em Recife e na Baixada Fluminense. A cidade de Nova Iguaçú no Rio de Janeiro, chamava–se Maxambomba anteriormente. Em Estrela, existiram quatro maxambombas. Duas das navegações Arnt e Capital, a dos sabões Costa e da Fundição Wirz. Sem a maxambomba, Adão e Eva não teriam assistido ao crescimento da indústria e do comércio estrelense. Estrela não passaria de mais um pobre povoado esquecido às margens do Taquari, como outros rio abaixo. Um monumento à Maxambomba, poderia fazer companhia ao do Cascalho na 13 de Maio. O VAPOR ESTRELLA O Vapor Estrella, é a estrela da frota de barcos. Enquanto hábeis marinheiros de branco manobram para atracar, os passageiros que chegam de Porto Alegre se amontoam no convés esperando a colocação da prancha para sair do barco. A fila dos que vão embarcar, se estende pela escadaria. No desembarque, os dois fluxos de viajantes se encontram nos degraus, parecendo formigas levando as malas para o ninho. O suor toma conta de quem sobe a escadaria com a mala cheia de compras. Mas aí, o estrelense já está em casa, pensando no banho que o espera e nas novidades que tem para contar. A bela viagem com o Vapor Estrella, é coroada pela chegada à noite na deslumbrante e iluminada Porto Alegre – conforme depõe minha mãe, no DVD Vapores do Taquari, da Univates. O Vapor Estrella tanto me fascina, que já tive dois barcos com o seu nome – o Estrella e o Estrella II. Se houver um terceiro, será certamente o Estrella III. AS GASOLINAS

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O movimento maior do porto, é de Gasolinas – os barcos de carga. Elas movimentam pesadas caixas, latas e sacos alojados em seu ventre e ao largo do convés. Uma sai e já vem em outra encostando no cais. Abaixo do cais de alvenaria, está o pranchão da Barca estirado no cascalho plano para facilitar o embarque e desembarque de autos, ônibus e caminhões, que atravessam o rio. AS LAVADEIRAS Próximo ao pranchão da Barca, estão as lavadeiras. A Adolfa e a velha Bé, são as mais populares entre as que lavam roupa para fora. A Adolfa, anda pela rua pedindo roupa para lavar dizendo que separou do marido porque ele cagava na cueca. A velha Bé, diz que o aparelho da televisão fala com ela. Na cachoeira, lava–se também os autos. Aos sábados pela manhã, é comum ver os rapazes com panos esfregando o carro, ao lado de um gordo barril de chopp. Lavam o carro e a garganta. OS BANHOS Não há guri estrelense que aos 7 – 8 anos, não saiba nadar. O rio é nosso programa diário no verão. Atravessar os seus 200 metros a nado, sem ser levado pelo tombo da cachoeira, é um desafio e tanto. Voltar por água, é muito cansativo e dá cãibra. Volta–se então, pendurado na Barca. Mergulhar por baixo da Barca em movimento e vê–la passar acima da cabeça, é muito excitante. Para evitar a hélice do rebocador a gente fica entre os dois cascos metálicos que lhe dão sustentação.

A CACHOEIRA 135


No Buraco dos Cachorros, está a Cachoeira. São na verdade duas fervilhantes corredeiras separadas por uma ilhota de cascalhos. A cachoeira de cá, é menor e mais mansa. É o balneário da cidade. Tem ar de praia e está sempre lotada. A hidromassagem na corrente é uma delícia. No lado de lá, a corrente é mais forte e mais longa. A passagem sobre a pedra Feiticeira, é um excitante desafio adicional. Terminado o percurso em água, volta–se a pé pela sombra das árvores existentes na margem. Certa feita, um barco fica encalhado na ilhota. Por mais que giremos o timão para tirá–lo dali, ele só sai meses depois, quando as águas voltam a subir e atingem o calado suficiente para fazê–lo flutuar. O BURACO DOS CACHORROS Apesar do nome impróprio, o Buraco dos Cachorros é o refúgio estrelense para a canícula de verão. O frescor do mato, atrai a população e faz esquecer o mormaço citadino de 40 graus. – Dá para fritar um ovo na calçada ... dizem os que chegam do Centro. No início do verão, a Prefeitura faz o acesso e estacionamento de saibro. No mato, cada família escolhe o seu espaço para uso exclusivo na temporada. Os quiosques são limpos e demarcados por pedras pintadas de branco, que sinalizam o usufruto temporário. Rústicas mesas e churrasqueiras, compõem o mobiliário. O fim de semana é agitado. O povo confraterniza e compartilha seus comes e bebes em alegres e animados piqueniques.

O BIERHALLE 136


Para compensar a ociosidade da Soges no verão, meus pais mantém o Bierhalle no Buraco dos Cachorros. Caixas com barras de gelo, cerveja e sanduíches, descem ao rio em grandes quantidades. Ali, o recém chegado Xaxado, tem seu primeiro contato com a fôrça da cachaça local. Habituado à doce pinga paraibana, ele entrega–se às brancas asas da Juriti, que o leva a voar até o soro do Hospital. A malvada pombinha branca, nos obriga a cancelar a caçada de Tiltapz, que tínhamos programado para aquela noite com ele e o cearense Carcará – também recém chegado do Nordeste. O posterior advento da barragem de Bom Retiro, cobre de água e mata o balneário estrelense. Os banhos, vão então para as novas piscinas dos clubes e meus passam a vender pastéis na sede campestre da SOGES. O TRAMPOLIM O trampolim do Engling, atrai a seleta rapaziada da cidade e serve de palco para grandes exibições. O rio, neste ponto, tem 18 metros de profundidade e permite qualquer tipo de salto. A inauguração é inesquecível. Inspirados nos tigres e leões do circo, a turma do Carlos Hirtenkauf, faz um círculo de gasolina na água e joga–se de ponta em meio ao fogo. E ninguém sai chamuscado. A Ponta – o salto mais exercitado no trampolim – exige perfeição. As mãos, a cabeça, o corpo e os pés, devem estar alinhados como uma flecha e penetrar na água sem provocar marolas na superfície. Ponta com marola, é sinal de imperfeição. Está mais para o Barrigaço – causador de forte ardência e vermelhidão no ventre. O Salto Mortal, exige ainda mais. Após o giro do corpo encolhido no ar, o mergulho deve ser perfeito como o da Ponta. É coisa de especialistas. 137


A Bombinha – com o corpo encolhido e os joelhos enlaçados pelos braços – é o salto mais simples. Basta manter–se encolhido. OS PEDRÕES As Pedras do paredão que emerge da água logo abaixo do Trampolim, são próprias para os saltos mais altos e ousados. Pular de pé com o corpo ereto e braços para cima é a maneira mais segura de saltar. Jogar–se de ponta recebendo o impacto da água na cabeça, é um risco que poucos decidem correr. A Quarta Pedra – a mais alta, a uns 10 metros da superfície – não é para qualquer um. Só é utilizada por saltadores experientes. Nesta encosta – andando em direção ao trampolim à beira da água – o meu irmão Nenê cai e fere a cabeça, vindo a falecer. É encontrado com o corpo na margem e a cabeça mergulhada na água. Morre por afogamento. A ILHA DO COSTA A Ilha do Costa é um oásis de paz, cascalho fino e areia. Até as meninas circulam por lá e se banham na calma prainha de águas mansas. A CACHOEIRA DE CIMA A caudalosa Cachoeira de Cima, tem o Pingo Verde do lado de cá e o Morro 25 na margem oposta. A cascalheira, é perigosa. Tem buracos em que as máquinas retiram cascalho para a construção civil. A corredeira é forte e permite flutuar na água em longo percurso até a parte mais larga do rio.

O PASSO DE CRUZEIRO 138


Ao lado da barca de Cruzeiro, há um ótimo local para banho e piquenique. Famílias inteiras se deslocam para lá. Meu pai nos leva de caminhão coberto de lona e lotado de utensílios para passar o dia. CALÇÕES DE BANHO Os banhos diários acontecem às escondidas dos pais. Após uma tarde no rio, chegamos em casa com roupas secas, olhos vermelhos e caras de anjo. Os calções ficam escondidos nas árvores do Buraco dos Cachorros. Quando as águas cobrem o bosque e os levam rio abaixo, causam perda incalculável. É muito difícil substituí–los sem que a mãe o perceba. AS ENCHENTES Quando chove nas cabeceiras, sai debaixo. O rio desce a serra como um animal bravio e leva tudo de roldão em seu leito. O mar vermelho de barro se espraia nas várzeas, inunda ruas e invade casas, devolvendo o lixo nos baixios. As cheias se repetem com frequencia. A de São Miguel na entrada da primavera é a mais regular. As maiores enchentes estão gravadas na memória do povo pelo ano em que aconteceram. Tem as de 1941, 1956, 1965, 2001, 2007, 2011 ... e certamente outras virão. A vazão da água é acompanhada pelo rádio. A cidade de Encantado é a referência rio acima. Quando lá continua subindo, vem mais água rio abaixo. Quando estabiliza ou começa a baixar, algumas horas depois, baixa em Estrela também. As enchentes são tão marcantes que criam até uma expressão popular: O “abobado da enchente” – alguém “fora da casinha” afetado pelas águas. 139


1941 Não há em Estrela, quem não saiba o que significa 1941. É o ano mais falado da história recente. O da maior cheia, que serve de referencia para todas as demais. Os relatos são impressionantes: – O rio subiu 18 metros acima do nível normal ... – Passou da cota 29 ... – Vacas e porcos foram arrastados ... – Uma casa inteira passou boiando ... – Choveu demais nas cabeceiras. O Forqueta, o Boa Vista e o Arroio Estrela, também transbordaram ... – Todos os rios subiram. O Guaíba inundou Porto Alegre ... A ILHA DE ESTRELA Cada estrelense tem a sua maior enchente. A minha é a de 1956, aos 12 anos de idade. A água cobre todas as pontes. O arroio e o rio, juntam–se na Coronel Müssnich em frente ao Grupo Escolar e obrigam o Redondo e o Duraisky a abandonarem suas casas. A cidade vira uma ilha. As águas isolam Estrela do Continente. Azar de uns, sorte de outros. O Cássio Eckert, aproveita a rara oportunidade para faturar alguns pilinhas atravessando as pessoas de caíque. O fato nunca mais se repete. O útil serviço de então torna–se obsoleto e faz o Cássio mudar de ramo. CHEIAS MODERNAS A cidade avança sobre as áreas alagáveis e paga caro por isso. Qualquer enchentezinha, invade casas, indústrias e avenidas que antes não existiam. Os estragos e perigos são cada vez maiores e às vezes, não há nem tempo de prevenir–se. 140


O alarme da sede dos Escoteiros nos fundos do Parque, fica tocando dia e noite, azucrinando o ouvido dos vizinhos já incomodados com a água em seus pátios. O pardal eletrônico da Julio de Castilhos inundada, fica piando a 50 km por hora. Além de quase ser atropelado dentro da água, o Naninho ainda é multado com seu caiaque. Um caminhão desgovernado sem freio descendo do Cristo Rei, invade a água fazendo onda na popa e impulsionando o barco a 52 km por hora. O remo, não consegue freá-lo diante do implacável radar. FENOMENOS NATURAIS As enchentes, são efeito e causa de fenômenos naturais que se repetem periódicamente. É natural, ver as águas subirem quando chove em excesso nas cabeceiras. É natural, ver os flagelados pedirem roupas para se agasalhar no frio. É natural, ver enormes carpas abandonarem os açudes rompidos e ficarem retidas nos aramados das cercas. É natural, ver as tartarugas do laguinho do Parque procurarem a liberdade nas águas espraiadas da vizinhança. Tão natural, é ver placas da Feplam, BNDES e Caixa, enlodaçadas em aterros e muros alagados próximos ao rio. O PESCADO O Taquari da minha infância tem generosos cardumes. Pintados, Piavas, Tambicús e Grumatãs, são pegos aos milhares nos abundantes pesqueiros. No tombo da cachoeira, o Ernani Buchmann fisga um Dourado de 18 kg com isca artificial. É o maior peixe que vejo sair daquelas águas. 141


Na espuma de cevada da cervejaria, basta bater o remo na água e o milagre acontece. Centenas de lambaris pululam no ar e caem dentro do barco. Quem viu, viu. Quem não viu, jamais verá. No piscoso rio pega–se até o miúdo e nervoso Purrudinho que adora ferrar o pescador. Haja urina para aplacar a lancinante dor de sua dolorida ferroada no dedo. A PESCARIA O Taquari é perfeito para distantes acampamentos e pescarias rio abaixo. O vento que sopra à tarde em sentido contrário às águas, permite voltar a Estrela navegando à vela sem grande esforço no remo. A lona da barraca, lençóis e cobertores, estufados ao vento, impulsionam o barco. Numa das piscosas viagens, voltávamos com enorme quantidade de pintados vivos no viveiro amarrado à popa. À altura de Cruzeiro, percebemos a portinhola aberta. O sumiço do cardume inteiro, nos obriga a cancelar o ensopado marcado para aquela mesma noite. BARRIL DE CHOPP A Polar é demais ! Acondiciona o barril de chopp em caixas de madeira com serragem e barras de gelo, para a pescaria. O gelo dura três dias e o chopp sempre acaba antes. Nas pescarias em Bom Retiro, costumamos levar 30 litros de chopp e 1 kg de arroz. Parte do arroz, sempre sobra ...

A BARCA O movimento da Barca é intenso. Há filas para atravessar. 142


Por ela, passam pessoas, carros, bicicletas, ônibus e caminhões. O barqueiro, orienta a entrada de cada veículo para otimizar o espaço e distribuir o peso sobre a balsa. Tudo arrumado, ele prende a corrente de contenção traseira e solta as grossas amarras de corda do pranchão. O rebocador preso à lateral, acelera e lá se vai a comitiva para o outro lado. – Tchúco, tchúco, tchúco ... faz o motor, enquanto o Adão com o maço de dinheiro na mão, cobra a passagem de cada um. Na ida rio acima, a barca beira os pedrões, atravessa a corrente central e pega a reversa na margem oposta. Na volta, o caminho é mais fácil. A corrente a favor, permite navegar quase em linha reta de um pranchão a outro. Depois do Adão, a barca passa para o misterioso Trajano. Dizem que ele teria matado o seu colega camioneiro Osterkampf em Corvo. Ele nos trata muito bem. É amigo e desinibido. Mas, o olhar e o sorriso, são estranhos e sinistros. Impõem certo medo e respeito. Também para ele, o nosso medroso olhar deve ser estranho. A Barca, é palco de histórias mil. Uma das mais curiosas é o mergulho no rio, do caminhão de verduras carregado de caixas vazias de madeira. Ele perde o freio na descida e entra na barca em alta velocidade. Percorre toda a extensão da balsa, rebenta a corrente de contenção e mergulha de frente no rio. O ajudante que vinha gritando apavorado no alto da carga, consegue manter–se na superfície e ficar nadando entre as caixas. O motorista afunda com o caminhão, mas logo volta à tona. Passado o susto, é cômico vê–los braceando apavorados entre as dezenas de caixas e restos de repolho que boiam na água. Ambos se salvam. SEM BATERIA

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Numa manhã de cerrada neblina, o Trajano ouve o caminhão quebrando o silencio do lado de lá. O ruído do freio à vácuo em marcha reduzida na descida e da buzina chamando a barca lhe são familiares. O solícito barqueiro solta as amarras, manobra o rebocador e atravessa o rio para buscá–lo. Aproximando–se da margem invisível, ele grita ao motorista para orientá–lo na neblina: – Acende o farol !!! – Não dá, tô sem batiria !!! responde o albino Tafú – famoso por imitar o ruído de caminhões, com seus grossos lábios leporinos. ESPORTES AQUÁTICOS O belo e largo rio, atrai nadadores e pescadores. Os esportes náuticos, encontram adeptos de todas as classes sociais. Caniços, linhas, regatas e caíques a remo ou motor, são vistos às dezenas a cada dia de sol. O Carlos Hirtenkauf, faz história com a rápida e leve regata a remo duplo, chamada Blitz – um raio na água. Mais veloz ainda, é a sua incrível lancha–chinelo de competição. O bólido faz curvas e voa sobre a água como nunca visto em nosso rio. Depois da barragem, a pesca e a natação arrefecem mas a náutica se mantém com raros praticantes. Com o Dôdo, o Orlando Eli e outros, chegamos a instalar uma rampa de concreto no passo de Cruzeiro, hoje em desuso. Com 55 HPs em 16 pés, a Astemir azulzinha puxa esqui e navega com desenvoltura. Vai de Bom Retiro a Arroio do Meio em poucos minutos. Em curvas de velocidade, o barco na água exige mais espaço do que um carro em terra firme. O rio Taquari é ótimo para curvas velozes e bem abertas. Já o estreito rio Caí em Montenegro, exige curvas bem calculadas para não acabar na barranca. 144


Numa delas o meu sócio Ademir entra acelerado demais e atinge os galhos espraiados na superfície da água. A lancha sobe na árvore e vai alojar–se entre a ramada a 3 metros de altura. O piloto e o motor nada sofrem, mas o casco de fibra – rasgado da proa à popa – sofre perda total. A FEITICEIRA O rio Taquari de tantas belezas, tem também o seu lado trágico – o extenso rosário de afogamentos. As mesmas águas tão cheias de vida, valem–se da morte de amigos e conhecidos a cada verão, para impor respeito ao banhistas. O lugar mais perigoso é a Pedra Feiticeira: – Num só dia, sugou a vida de três meninas, sendo duas da família Leindecker ... dizem os antigos, recomendando todo o cuidado. A Feiticeira é uma pedra em forma de arco. Com o rio baixo, sobe–se nela, mergulha–se por baixo e nada acontece. Mas quando o rio sobe, a bruxa forma em torno de si um redemoinho que engole a quem dela se aproxima. Daí, o nome: – A Feiticeira ! AS PERDAS O perigo, não é só na Feiticeira – morre gente em todo lugar. O Pedro Redondo, vem à tona depois de três dias preso à galhada. O corpo desbotado e as víceras roxas atraindo as varejeiras no cascalho ao sol, é tão horripilante que jamais se esquece. O Goiatázinho – primo do Dôdo – vem em férias de Porto Alegre e perde a vida num simples mergulho. Salta de ponta do barranquinho logo abaixo da barca e desaparece na água. Só conseguimos resgatá–lo horas depois, nas garras da garatéia. A Dorli Eckert, sucumbe num buraco na cascalheira da Cachoeira de Cima. 145


Esvaída por não conseguir se firmar na parede de cascalhos móveis sob os pés, afunda em frente às amigas a poucos centímetros da toalha que a Suzi lhe joga para resgatá–la. TRAGÉDIA O pior acontece em 1967. A face trágica do Taquari atinge minha família em cheio. Ceifa a vida do meu irmão mais novo – o Nenê, com apenas 17 anos. Moro em Castro no Paraná e só fico sabendo dois dias depois. Ao chegar em Estrela, encontro meus pais repentinamente envelhecidos e minha família arrasada. Indiferente a quem o ama, o mesmo rio que me ensinara a viver, tira a vida do meu irmão.

O ARROIO ESTRELA Coadjuvante do rio Taquari, o arroio Estrela tem também os seus encantos. Tem bons locais de pesca, acampamentos e banhos. Mas o que lhe dá mais fama, são as pontes. A PONTE DO ORIENTAL Quando a enchente a cobre e interrompe a via, todos se queixam. Os da cidade queixam–se de não poder tomar o passe de macumba no terreiro do Odorico e visitar as amigas além da pinguela. Os do Oriental, lamentam perder a benção do Padre na Igreja e o aperitivo no Bar Abrigo. É difícil saber quem perde mais. A Ponte do Oriental é perigosa. O declive em frente ao Wirz, induz o motorista a derrapar no saibro e perder a direção. É o que acontece com o Emita. O Fuca escorrega na tabatinga e mergulha ao lado da ponte, caindo emborcado no arroio. 146


Felizmente, ele sai do carro antes de afundar e consegue escalar o barranco sofrendo apenas arranhões das folhas de milho cultivado no local. Os atuais tapumes e grades de proteção, escondem o perigo que antes havia ali. A PONTE DO STANGLER A baixada da Coronel Brito é facilmente coberta pelas cheias. Do Person ao Moinho Thomas, a água se espalha pela Chacrinha da Prefeitura, cobrindo tudo. A represa do arroio, a ponte e o pátio do Nico Stangler, ficam submersos. Em tempo sêco, a curva em declive no saibro escorregadio no sentido bairro–centro, é o tobogã da morte. Um convite ao cavalo de pau. Ali, quase erramos a ponte com o Libuna II. Na descida, aciono o pedal do freio repetidas vezes e ele simplesmente não pega. Em velocidade crescente no meio da curva, de repente o carro freia uma roda só e nós começamos a rodopiar sem controle. Girando sem direção na tabatinga, temos uma sorte incrível. Entramos de ré na ponte, exatamente sobre os trilhos de madeira, sem bater nas laterais. Por pura sorte, estancamos sem um único arranhão. O Igor, Bexiga, Ivan Bosse, Paulo Conhaque e eu, nada sofremos além do enorme susto que nos deixa lívidos e sem palavras por longos minutos. Milagrosamente, escapamos do destino que meses depois atinge quatro freiras e o motorista numa Rural. Eles derrapam na mesma curva e despencam desesperados para a morte coletiva nas águas do arroio.

A PONTE DO ESTRELA F.C. 147


As cheias do arroio, logo cobrem o campo do Estrela. A pontezinha abaixo da casa do Brandão, só é útil em tempos secos. A quadra de tênis, o Walter Jobim e a casa do Tato, são completamente inundados até onde fica o atual Jeep Clube. A PONTE DA COPA A pontezinha próxima à Copa é uma verdadeira armadilha. A estrada de terra paralela ao arroio no sentido centro–bairro, de repente entra em curva de 90 graus quase em cima dela. Ali, o tio Benno cai com o Fuca no arroio e acaba morrendo afogado dentro do carro. O Waisa, depois o resgata sem qualquer visibilidade na água turva do arroio. Melhor sorte, tem o meu sobrinho Cristiano. Ele derrapa no mesmo lugar, mas consegue sair do carro antes que o pior aconteça. PEIXES E BANHOS Há bons pesqueiros e locais de banho no arroio Estrela. Na chácara do Oli Leindecker, o muçum se alimenta à sombra das amoreiras. Nos fundos do Bruno Eckert, tem muito cará e joaninha. Nas terras do Antonio Horn, hoje sítio do Fleco – pega–se enormes joaninhas da grande pedra em boa sombra. Na Copa, toma–se ótimos banhos pulando do tronco caído entre as margens que serve também de travessia. Ótimos banhos também se toma no Osvaldo Kaye e nas duas Cascatas. E nestes lugares, há amplos potreiros e capões sombreados para acampar em barracas de lona. O Helmuth, Cepa, Batuta, Luís e Orlando, gostam de nos receber e nos prover de lenha para o fogo. O único risco, são as vacas que costumam comer as camisetas e calções de banho postos a secar no arvoredo baixo. O PORTA AVIÃO 148


As enchentes, obrigam a Prefeitura a construir uma nova ponte nas alturas. O lugar escolhido é o Cantão, junto ao ferro–velho do Pedrinho Gafanhoto. Depois de pronto, o esqueleto de concreto permanece por muito tempo suspenso no ar, sem aterro nas cabeceiras. O imponente monstrengo em meio ao nada, leva o apelido de Porta–Avião – referencia ao Minas Gerais, o primeiro porta aviões brasileiro comprado aos franceses por Juscelino Kubischek. Após seguidos aterros e desaterros provocados pela água, a nova ponte torna–se o acesso principal e permanente entre o Centro e o Oriental.

O NOVO PORTO O entroncamento hidro–rodo–ferroviário no novo porto fluvial de Estrela, projeta escoar as safras agrícolas e trazer fertilizantes, a baixo custo de frete. – A economia será fantástica ! – Com apenas quatro marinheiros, cada chata levará 1.800 toneladas, substituindo 60 carretas e seus gastos com motoristas, ajudantes, combustível, pneus etc ... apregoam os mentores do ambicioso e bem articulado projeto. Tudo, faz sentido. A elevação do nível da água em dois metros à altura da ponte Estrela – Lajeado por efeito do represamento da barragem de Bom Retiro do Sul a 15 km abaixo, viabiliza o fluxo constante de grandes barcos a Porto Alegre e Rio Grande, o ano inteiro. Na prática no entanto, o plano escoa água abaixo. O retorno do investimeno é pífio. Os silos e armazéns, estão ociosos. Os empregos são escassos e poucos barcos circulam com produtos de baixo valor agregado. A BARRAGEM 149


Os antigos cascalhos nas margens planas, não existem mais. Com exceção das carpas que fogem dos açudes nas cheias, os peixes continuam sumidos. As barrancas estão sendo minadas pela marola e jogam–se em enormes blocos para dentro do rio, causando o assoreamento do leito. O acesso ao rio é difícil. As águas só aparecem na suja enchente que invade a cidade cheia de lixo. O Porto ocioso não traz retorno. A monumental barragem de Bom Retiro, não controla as cheias. As grandes enchentes passam por cima e continuam iguais. – Qual é então a vantagem do que fizeram com o nosso rio ? perguntam–se os antigos, questionando a relação custo x benefício do represamento das águas. Abrir as comportas para ele retomar o seu curso natural no verão, até que haja planos mais consistentes e compensadores, pode não ser uma má idéia. Pelo menos os cascalhos, peixes e banhos, voltariam à tona. MEIO AMBIENTE O romântico plantio de árvores nativas às margens do rio é elogiável, mas por si só, nada resolve. As plantinhas não resistem à erosão das barrancas que se afogam na água. A manutenção do meio ambiente exige intervenções mais firmes e profundas do que a maquiagem e o costumeiro lero–lero. A prioridade ao verde, ao turismo e ao lazer, precisa ir além do discurso. Novos aterros e construções fixas que represam e estrangulam as águas, precisam ser efetivamente controlados. A instalação de novas fábricas no antigo complexo Polar, não resiste a qualquer análise técnica. Com tantas terras altas disponíveis, não se justifica levantar ainda mais muros em área alagável. E muito menos, atrair cargas pesadas e ruídos fabrís para o entorno do Parque – área tipicamente residencial, esportiva e escolar. 150


O ESGOTO O fétido esgoto a céu aberto é uma aberração. Os dejetos precisam ser tratados e não apenas escoados em córregos de águas paradas, que além do mau cheiro, servem de berçário aos mosquitos. E eles adoram. Tudo o que eles querem é multiplicar–se aos milhões e sugar o nosso doce sangue estrelense. Ou a gente se enclausura em casa à tardinha ou é picado impiedosamente até por cima da roupa. Os órgãos ambientais – tão zelosos com a sua burocracia, seus empregos e pequenas árvores nativas – deveriam ampliar a visão e enxergar também a floresta. E ainda querem monopolizar os precários serviços da Corsan, que em saneamento nada faz e nos coloca na vergonhosa posição de ter apenas 15% de esgoto tratado no Estado. Só o corporativismo e a politicagem, explicam tamanha contradição. NAVEGAR É PRECISO – Navegar é preciso, mas Estrela ignora o rio Taquari – o seu mais precioso bem, depois das terras. Isolado pelos muros da velha cervejaria, o valioso tesouro permanece oculto e intocável. Quem mora no alto, ainda pode vê–lo ao longe. Aos demais, restam dois mirrados mirantes que nada acrescentam ao bem estar do povo. Os estrelenses mais jovens, só conhecem o rio pelo Google Earth ou por ouvir falar. Alunos e Professores, talvez já nem saibam de onde vem as águas que interrompem as aulas a cada enchente. – Será isto reversível ? É claro que sim. Agora que a Prefeitura é dona das ruínas da Polar, dá para pensar no futuro. 151


E pensar grande. Ousar. Recuperar a convivencia amigável da cidade com o rio e talvez até justificar o aumento de 9 para 13 vereadores. Se fôr para ficar como está, para que mais vereadores ? O MURO DE BERLIM Raras cidades tem tão belo rio a seus pés. Mas o Muro de Berlim nos separa. A velha tralha carcomida por ratos, baratas e cupins, não nos deixa ver as águas. Precisa ser derrubada para ressuscitar a área morta da cidade e transformá–la em lugar aprazível com alta qualidade de vida. – Abaixo o Muro de Berlim ! deveria ser a plataforma dos jovens filhos do Günther e do Gabriel, na próxima campanha.

O BAIRRO DA PRAIA Um Plano Diretor ousado e autosustentável, poderia implantar o novo Bairro da Praia com zigue–zague, ruas, mirantes e qualidade de vida. A venda e aluguel de terrenos, selecionados para pequenos negócios nas áreas de serviços, comércio, cultura, turismo, esporte e lazer, poderiam viabilizar o investimento na infraestrutura. Ao invés de achar impossível, deveríamos nos perguntar: – Por que não ? O SONHO Pior do que não realizar um sonho, é não sonhar. Sonhemos, então ... O Bairro da Praia, é o melhor da cidade. Tem ótima paisagem e pontos de encontro. 152


O Abrigo Bruxel, à Rua da Praia, 1802 – ano da fundação de Estrela – é um clássico bar de estilo tradicional, inspirado no antigo Bar do Abrigo da Praça Benjamin Constant e no Bar Astor de São Paulo. Das amplas janelas envidraçadas, tem–se ótima vista para os jardins e para o rio. Suas mesas e cadeiras de vime Thonart – antigos Gerdau – as fotos de Estrela antiga e os rótulos da extinta Polar, abrigam gostosos papos dos amigos que ali se reúnem diariamente para um traguinho ou café. À noite, serve comidas boêmias ao suave som de violão ao vivo, executado por músicos locais. O chopp artesanal Prostbier, jorra gelado, claro e escuro, com bom colarinho e inigualável sabor. – Saúde ! – Prost ! saúda o garçon a cada chopp que serve ao pôr do sol no Taquari. O Trapiche, tem sorvetes, sanduíches naturais e lanches rápidos de ótima qualidade, servidos na lancheria ou ao ar livre no mirante do Adão e Eva. A loja de conveniência Zigue–Zague, vende artigos de pesca, chapéus, cangas, filtro solar, biquínis, camisetas, calções de banho, sandália havaiana, enfim ... tudo o turista quiser para o passeio de barco ou uma lembrança de Estrela. O Restaurante Five Stars, é 5 estrelas. Tem carta de vinhos e variado cardápio à la carte. Os filés e os peixes, são muito especiais. O Três Estrelas, serve um buffet honesto a bom prêço por quilo. O movimento de comerciários ao meio dia, comprova sua qualidade e presteza. A La Bella Stella, faz pizzas de massa fina e grossa cobertura em forno à lenha. Tem ar condicionado no verão e lareira no inverno. Serve na mesa ou entrega tudo quentinho a domicílio, em embalagens térmicas e poucos minutos. A estrela do cardápio é a Sapore di Stella – de receita caseira, coberta de queijo e orégano. O Museu Schinke, no espaçoso prédio de arquitetura colonial, abriga utensílios de nossos antepassados, retratando suas histórias, 153


hábitos e costumes. A sala de projeções anexa, lota de escolares e turistas interessados nos DVDs sobre temas locais. A Biblioteca Assis Sampaio ao lado, desperta o interesse pela leitura. As crianças, gostam de ler e fazer pesquisas escolares no próprio local. Os adultos, preferem ler bestsellers policiais de mistério e romance nos bancos dos jardins, com vista para o rio. E é incrível – só há pássaros, não há moscas e mosquitos ! A charmosa Pousada Stern, atrai e retém os visitantes com seu conforto e simpatia. Serve o café da manhã ao ar livre ou no salão panorâmico com vista do vale até o Morro de Cruzeiro. Aos domingos, tem comida alemã. O eisbein, kasseler e páprica schnitzel, tem o sabor de Munich. O schlahtplatte – o prato da matança que mistura tudo – é o preferido das famílias. – E o sonho continua ... A Maxambomba – o bondinho branco aberto nas laterias e com o brasão de Estrela abaixo do párabrisa – vai da Praça ao Cais. Faz escala no mirante do Adão e Eva em frente à Lancheria Trapiche e à loja Zigue–Zague e leva os visitantes ao Vapor Estrella – de rodas, como sonhado por Assis Sampaio – para o agradável passeio costeando a margem. Do alto da escadaria, Adão e Eva acompanham tudo o que acontece a seus pés. Além do fluxo da Maxambomba, admiram a animada turma do Iate Clube e a gurizada do Projeto Navegar, manejando seus barcos e velas na rampa da antiga Barca. O galpão náutico – 50 metros acima e com 100 vagas livres de enchentes – lhes dá todo o respaldo para o hobby aquático. E tem também o transporte público fluvial. Confortáveis barcos de linha ligam Estrela a Lajeado e Cruzeiro. Alguns se prestam a viagens fretadas em grupo a Porto Alegre, indo e voltando no mesmo dia.

O TURISMO 154


– Sonhemos ainda mais um pouco ... Estrela, não é mais a mesma – o Bairro da Praia, a transforma em simpático destino turístico. A cidade abre os braços e atrai gente de todo lugar. A divulgação, a infraestrutura, a sinalização nas estradas e ruas, e os produtos e serviços, são super elogiados. O Baile do Chucrute – o grande evento anual de Maio – rivaliza com o Oktoberfest de Blumenau e de Santa Cruz do Sul. O consumo de chopp, sobe aos milhares de litros. A exemplo do que acontece na Alemanha, a Microcervejaria Estrella, lança a Maybock – uma cerveja específica para o mês de Maio. – Quem bebe a água de Estrela, sempre volta ... dizem os turistas, trincando seus canecos na maior festa da cidade. Até os céticos que não acreditavam no valor do turismo, rendem–se à nova realidade e integram–se ao esforço estrelense para incrementar a economia e melhorar a qualidade de vida. O Vale do Taquari assume contornos europeus como o Vale do Reno. – Por que não ? BELEZA INTERIOR O interior de Estrela e dos municípios vizinhos, é lindo. A paisagem, as plantações e as casas bem cuidadas no asfalto do Novo Paraíso e da Linha Wink, lembram o sul da Alemanha. E a SMEL – Secretaria Municipal de Esporte e Lazer – encabeçada pelo Veloso, vem desenvolvendo louvável esforço para incrementar o turismo regional. A cidade pouco tem a oferecer além do skate e bicicross, mas o interior tem o roteiro de Delícias da Colonia, produzidas por agroindústrias familiares que se esmeram em chocolates, licores, cachaça, flores, cactus, cogumelos, avestruz e produtos suínos. O novo Bairro da Praia, coroaria o belo roteiro.

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O MORRO DE CRUZEIRO O Morro, é a estrela maior de Cruzeiro do Sul. E a estrela maior do morro, é a velha casa branca mal assombrada – vista a quilômetros de distancia. – Por trás dos arcos da varanda, vivem fantasmas e almas penadas ... imaginamos quando crianças. Nossa Tropa Inhay escala o Morro com muita coragem. Não há covardes entre os Escoteiros. Por via das dúvidas, no entanto, evitamos o caminho fácil da velha casa e optamos por subir o morro por outro caminho bem mais sinuoso. Na vertical encosta de pedras, abrimos trilha entre os urubús, cobras, aranhas e escorpiões, para chegar ao topo. O caminho é sinistro, mas tem a vantagem de se poder ver o inimigo – o que não ocorre na trilha dos fantamas. Hoje, está tudo diferente. A velha casa continua de pé, mas a assombração já não mete medo em ninguém. O lugar é tranqüilo e aprazível. Tem até acesso de carro e restaurante com bela vista para o rio que serpenteia o vale. VENTOS UIVANTES O Morro de Cruzeiro, não é só covil de maus espíritos. Tem também o seu lado bom. – É o escudo natural que protege Estrela dos maus ventos. Desvia as tempestades, ciclones e furacões, que periódicamente assolam a região ... acreditam os estrelenses. Os arrasantes ventos sulinos que destroem o entorno, passam ao largo de Estrela sem causar maiores danos. E a tese, sustenta–se em fatos. Jamais houve em Estrela, destruição igual à do pavilhão da Igreja de Lajeado nos anos 60. Jamais se viu na cidade, coberturas metálicas retorcidas como as da Altari na época da construção na 156


386. Jamais houve caminhões tombados pelo vento, como em Tabaí recentemente. Jamais se vê árvores centenárias arrancadas com raiz e tudo, como é comum na região. O mau vento que destrói os arredores, sopra como leve brisa passageira atrás do morro que nos serve de escudo.

O VENTO NORTE O Vento Norte, o morro não desvia. Ele ataca pelo outro lado. Não derruba construções, mas causa danos mentais. Qual vampiro sedento de sangue, a cálida ventania uiva em ouvidos vulneráveis e os faz sangrar. – Perturba o cérebro e induz ao suicídio ... acredita–se. – O índice de suicídios em Estrela, é superior ao de homicídios ... comenta–se na cidade. – O suicídio é tão comum que o comércio vende a corda em metro... afirmam os estrelenses. Verdade ou não, é paradoxal que no reino da bala perdida, haja lugares em que o prosaico metro de corda seja mais letal do que a poderosa arma de fogo. O TORMENTO – Livra–te deste inferno ! uiva o vento Norte no ouvido do atormentado em delírio. A visão turva e distorce os fatos. Os galhos agitados apontando para o alto, sinalizam o caminho para o paraíso. Basta lançar mão da corda e escolher o melhor galho para fugir do inferno. Se a morte natural já é chocante, no suicídio ela vira um tabú que gera preconceito e injustificada vergonha na família que sofre o drama. O assunto é difícil de abordar, mas não se pode ignorá–lo. Para prevenir, é necessário tentar entender com maturidade os insondáveis desígnios da mente. 157


O suicídio, é muitas vezes planejado e anunciado com antecedência. A decisão parece ser racional, mas é difícil imaginar que a execução ocorra em sã consciencia. O desfecho, é normalmente extremado e confuso. Alguns o julgam como um ato de coragem, outros acham que é covardia. Mas como desvendar os mistérios de uma mente perturbada por motivos muitas vezes incompreensíveis ? OS MOTIVOS – O que leva uma pessoa a desequilibrar–se ao ponto de tirar a própria vida ? As respostas são muitas e na maioria das vezes são dadas pelo próprio suicida, em suas mensagens de despedida. Depressão, desilusões, drogas e distúrbios psicológicos, são as causas mais comuns do desespero. Em Estrela, costuma–se somar a isto, a rigidez herdada do sangue alemão, inflexível e sem jogo de cintura para enfrentar as vicissitudes da vida. – A vara rígida, não verga – quebra ... – Passar vergonha é pior do que morrer ... – Uma simples dívida, pode levar ao suicídio ... tentam explicar os que acreditam nisso. GIRANDO EM CÍRCULO Pior do que o suicídio rápido e eficaz, deve ser a tentativa mal sucedida que se transforma em prolongada aflição. Na Escola Normal, um suicida enlaça a corda no pescoço e joga–se no ar. O galho verga com o peso do corpo e dobra até o chão. O infeliz roda esperneando em círculo, até morrer esganado de joelhos no solo. Os sulcos marcados no capim, testemunham a sua prolongada agonia. 158


– Não terá ele tentado desistir no meio do caminho, sem ter conseguido desvencilhar–se do nó que lhe sufocava o pescoço ? O ALBOTINO Dominado por vãs ilusões e sem qualquer ambição concreta, o amigo Albotino faz da ociosidade o seu modo de vida. Sustenta–se de sonhos, da mesada dos pais e dos parcos ganhos da jogatina. Espirituoso e bem humorado, faz graça por não trabalhar. – Aos 35 anos me aposento – são 35 anos sem fazer nada. – Eu não vou trabalhar prá sustentar um vagabundo como eu ... justifica–se, brincando. Os anos passam e pouco a pouco, a realidade vai se impondo. Os pais morrem, o dinheiro escasseia e o jogo perde o glamour. Não fosse o jogo do Bicho, não teria onde se agarrar. Quando o encontro, faço a minha fezinha – mais para ajudá– lo do que pensando em ganhar. Na maioria das vezes, nem lembro de conferir a aposta. Perambulando pelo Centro, o Albotino sente – se degradando. Aos sessenta e poucos anos, descobre–se sozinho e despreparado para reagir ao crescente peso da solidão. Sente a vida sem graça e perde a vontade de continuar. Doente e desesperado, diz a todos que vai se matar. E o triste desfecho se confirma. Ele se mata em seu mísero barraco ! Antes do ato final, ele redobra os cuidados. Mune–se de um revólver e de uma corda amarrada à viga do barraco sem forro. Não quer repetir na morte, os erros cometidos em vida. Equilibrando–se na vacilante cadeira, enlaça a corda no pescoço, aponta a arma para o ouvido e aperta o gatilho: – Pum !!! – o sêco estampido ecoa no casebre e faz o corpo girar no ar até o último tremor. – O que o terá matado – o chumbo ou corda ? perguntam–se todos, ao saber do inusitado fato. 159


Impossível saber, mas como bom jogador, ele armou a aposta certa. Jogou para não errar. Cercou a morte do primeiro ao quinto e acertou na cabeça a sua última aposta para fugir da solidão. CRIME PERFEITO Logo cedo pela manhã, os carolas da primeira missa, são surpreendidos pelo enforcamento coletivo dos anões da Praça. A Polícia e o SAMU, são logo acionados e chegam com tudo. Viaturas com sirenes e pisca–pisca, acordam a cidade na sua pressa de chegar ao local do crime. O Zangado, Soneca, Teimoso, Atchim, Alegre e o Feliz pendem mortos nas árvores com a corda no pescoço. O Dengoso, de pescoço mais curto, é desatado ainda com vida e logo reanimado com massagem no peito e respiração boca a boca. – E a Branca de Neve, onde está ? pergunta–lhe o policial. – Saímos ontem à noite e eu a deixei em casa ... esclarece o Dengoso, já consciente e alisando os vergões no pescoço. – E o João de Deus – o anão do Congresso, ladrão sem vergonha, não foi enforcado ? pergunta o cidadão indignado. – Escapuliu pelo zigue–zague. Sempre há um zigue–zague ... explica, o Delegado frustrado com a fuga do ladrãozinho. Circulam pela cidade as mais diversas conjeturas sobre as razões da morte coletiva. – Suicídio por fanatismo religioso ... conclui o ateu. – Não pode ser, explica o Padre. Os anões iam à missa todo domingo, não pertenciam a nenhuma seita ... – Foi invasão dos Sem Terra ... imagina o agricultor. – Não acredito. Eles eram produtivos, cada um tinha o seu canteiro ... afirma o Inspetor do INCRA. – É o vento Norte, aquecimento global ... sugere o ambientalista. – Não, a noite foi fria e estrelada ... informa o Guarda noturno que nada viu. 160


– Chacina, pela disputa do ponto de drogas ... especula o Repórter policial, ávido por notícias chocantes. – É improvável. Em casos assim, os criminosos usam armas de fogo e não cordas de náilon ... opina o Detetive. Fofoca daqui, fofoca dali, nos dias seguinte aparece um suspeito. O zum–zum é que o carrasco teria sido o Maninho. Em entrevista ao NG e à Rádio Alto Taquari em cadeia com a Independente, Sorriso e Germania, ele reage com evasivas. Não confirma e nem desmente a autoria. – Quem cala consente ! acusam os leitores e ouvintes por e.mail e telefone, pedindo a cabeça do suposto assassino. – Sem provas, não há crime ... defende–se ele, alimentando ainda mais a grave suspeita que fervilha na boca do povo. Por falta de provas e autor confesso, o crime mais hediondo já cometido em Estrela, permanece insolúvel, demonstrando que existe sim, o crime perfeito. O brutal acontecimento, causa na Praça efeito ainda mais devastador do que a derrubada do Abrigo. O lugar não é mais o mesmo. Está triste e vazio. Antonio Menna Barreto está só. Sente a falta dos outros baixinhos. – Assim não dá ! – Estou sem companhia ! – O côro do ... Eu vou, eu vou, eu vou prá casa eu vou ... me faz falta ao fim da tarde, reclama o fundador da cidade ao Prefeito, já com sintomas de depressão. – Vamos gravar a canção e pôr alto falantes nas árvores ... promete –lhe o edil, para evitar mais um suicídio na Praça deserta.

REENCONTRO Reencontro o antigo conhecido de Estrela e não o reconheço. Na primeira impressão, parece um ser estranho. Mas removidos os fenótipos da idade sob os quais todo mundo se esconde, percebo quanto tempo já passou. 161


Ao primeiro sinal de reconhecimento, o distante passado logo volta. O nome, os gestos, a voz e a maneira de se expressar, resistem ao tempo – só muda a fachada. O assunto interrompido há anos, volta à baila e faz parecer que tudo foi ontem. – É impressionante como os outros envelhecem ... comento . – Ah, sim, os outros ... concorda, ele comigo. O PARAÍSO No sonhado paraíso da aposentadoria, os velhos se ocupam da rotina diária e cada um trata de construir o seu próprio paraíso. Um dá aguinha pro beija flor, outro faz vacina contra a gripe, outro vai receber a visita do neto, outro vai pra Capão da Canoa e assim por diante ... Assunto comum a todos, é a própria velhice – quase sempre tratada com bom humor. – Tá ruim, mas tá bom ... – Envelhecer é bom. A outra opção é pior ... – Vivo no paraíso, agora só faço o que eu gosto – Nada ! Fala–se também de filhos, viagens, doenças e morte – neste caso, a dos outros, é claro. Filmes, livros, restaurantes e planos futuros, não fazem mais parte do repertório. O novo e o diferente, já não excitam como antes. O que vale agora, é o mais simples, a zona de conforto, a satisfação com o que se tem. No paraíso, se faz muito com o pouco que se tem e não se reclama do que falta. Mesmo sem açúcar, o limão é limonada. Viver no paraíso com saúde física e mental, e algum dinheiro no bolso, infelizmente é para poucos. A comida, o convênio, os remédios, o dentista e a cervejinha, costumam faltar. A mísera aposentadoria dos que não pertencem às castas privilegiadas, empurra os velhos para a doença e a sovinice. 162


Sustenta–os a descontração, o chimarrão, o joguinho de cartas às brincas e o bom humor: – Deixa para amanhã, o que podes fazer hoje ... dizem alguns. – Ganho 720 reais ... 700 vão para a poupança – o resto eu torro, não quero nem saber ! diz outro, ironizando a própria penúria. Mas há também a depressão. Há velhos cuja mente nega–se a pensar, cujos olhos já não querem mais olhar, cujo andar já não leva a qualquer lugar e cuja memória preguiçosa só lembra o que quer lembrar. – Parei, já fiz o bastante, agora só vou descansar ... diz a velha estrela cadente, abrindo mão da vida na Terra e esperando a morte chegar. A VOVOLANDIA Há cada vez mais gente passando dos 80 anos de idade e exigindo cuidados especiais. A Vovolandia, é uma boa opção para uma velhice digna. Funcionários e inúmeros voluntários, cuidam de oitenta velhinhos em boas instalações e com a assistência básica necessária. O preço equivale ao de um hotel de nível médio. Minha mãe vive ali e o Naninho a visita diàriamente. Numa de suas primeiras visitas – ao encontrá–lo no corredor, de cabelos e barba branca – uma velhinha lhe pergunta: – O Senhor é novo aqui, né. Qual é o número do seu quarto ? – 1461 ... responde ele, dando o número do telefone. É FOGO ! Ainda em sua casa de madeira, antes de ir para a Vovolandia, minha mãe e a Gertha, ouvem um estranho ruído na sala. O zumbido fraco e contínuo, lembra um inseto batendo asas. Com ouvidos atentos, elas não conseguem identificá–lo. – Vem do fôrro ... diz a empregada, cutucando a vassoura no teto e concluindo que é da rede elétrica. 163


– É perigoso, vamos chamar o vizinho ! decide minha mãe. O Luís, vem rápido e faz acurada análise auditiva. Acha que o diagnóstico das duas pode estar certo: – São os fios, pode ser um curto circuito ... – Que perigo! – Pode pegar fogo ! assusta–se minha mãe indo direto ao telefone para chamar o eletricista. O René chega voando e é logo informado da assustadora ameaça, pelos três que o esperam na rua gritando que a casa vai começar a arder em chamas. Sem ver sinal de fumaça e cheiros estranhos, ele entra na sala e chama a todos para ajudá–lo a descobrir o que se passa. Em silencio examina atentamente o zumbido e nada percebe no fôrro. Percorre a sala com os ouvidos e dirige–se calmamente ao rádio no canto. Gira o botão e o ruído cessa instantaneamente. Aliviados, todos riem do surpreendente desfecho. – Quanto custa a visita, René ? pergunta minha mãe. – Não é nada, Dona Maria. Desligar o rádio é de graça, mas se a Senhora me chamar de novo, cobrarei a visita. TROCA DE CARRO A troca de carro – tema palpitante entre os jovens – já não atrai a atenção dos velhos. Quem tem um carro mais ou menos, raramente pensa em trocá–lo por outro. Quando o assunto surge nas conversas há sempre espaço para uma piadinha. – Fulano troca de auto todos os anos ... cada ano, por um ano mais velho. – Por achar difícil falar Rural, comprei uma D–20. De 20 anos atrás ... esclarece o Naninho, falando de sua mais recente aquisisção.

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O AMOR NA TERCEIRA IDADE Os velhos só pensam naquilo. Mesmo mais falados do que praticados, o amor e o sexo na terceira idade são divertidos. Os diálogos sobre o tema são curtos. Não há mais paciência para longas preliminares. – O Jorge está amando ... dizem, quando ele não vem ao bar. – A mando dela ... emenda o amigo da onça. – Preferes fazer sexo ou aniversário ? perguntam ao velhinho. – Aniversário, responde ele. É mais freqüente ... Outro velhinho ao lado, gaba–se de fazer sexo quase todos os dias. – Quase na segunda, quase na terça, quase na quarta ... ironiza a própria brochura. O SÁRBADO Por uma dessas intimidades próprias de cada casal, meus sogros costumam transar sómente em dias da semana que tem a letra R – segunda–feira, terça–feira, quarta–feira, quinta–feira e sexta– feira. No sábado e domingo, descansam. Faceiro, após as caipirinhas e chopp no animado churrasco no jardim da casa, ele se dirige à esposa e faz o convite contundente: – Mulher, vamos para a cama que hoje é Sárbado ! VOVÔS DE PROGRAMA Sexo diário, é rotina para os Vovôs de Programa. Atendem 24 horas por dia, de segunda a domingo, a preços que variam com a duração e natureza dos serviços. Atuam em hotéis e motéis, oferecendo três opções: Mole, Meia bomba e Enroladinho. E garantem sigilo absoluto, sem qualquer envolvimento. O Alzheimer, os faz esquecer num minuto. Pedidos de sêmen congelado, seguem pelo SEDEX 10 165


quando não há greve no Correio. Mais informações, no site: www.vovôdeprograma.comedor.com.br . FALHAS DE MEMÓRIA Doenças modernas, afetam gravemente a memória. – Como é mesmo o nome do alemão que tá me fodendo ? pergunta a Frida ao marido. – Já te falei, mulher ! – É o Alzheimer ... responde o Fritz. Além do Alzheimer, há um novo mal na praça – O Mal de Zimmer – algo como o Mal do Quarto, traduzido do alemão. – Mulher, vamos dar uma bimbada ? sugere o animado velhinho depois do almoço. – Puxa Hértzi, tu já esqueceu que demos pela manhã ? diz ela. Esquecimento pior, é quando o cara esquece o próprio nome. Outro dia, cumprimento um conhecido na farmácia e fico surpreso com sua resposta: – Puxa, há quanto tempo. Estou te reconhecendo, mas não lembro o teu nome ... digo-lhe eu. – Também não lembro ... responde ele. Nestes casos, um crachá de identificação no peito ajudaria bastante.

O SEDENTARISMO Na terceira idade, tudo cai – só a orelha, o saco e as unhas, continuam a crescer. A orelha cresce para compensar a progressiva surdez. O saco aumenta para ter o que coçar e as unhas, são os instrumentos de trabalho na ociosidade. – O que fazes o dia todo em Estrela ? pergunto ao Ito, aposentado do IPE. – De manhã, eu coço o saco ... – E à tarde ? 166


– À tarde, eu passo Metiolate ... completa ele. – Então estás com o dia tomado ... concluo eu. TERCEIRIZAÇÃO A terceirização de atividades, é uma tendência do mundo atual. O Mano aluga um rapaz para dar diàriamente por ele, 10 voltas no Parque. O rapaz é responsável e cumpre à risca o contrato. É visto diàriamente, dando as 10 voltas na pista. Tudo vai muito bem até que instalam os novos aparelhos para exercícios ao ar livre e ele decide acrescentar à caminhada mais 30 minutos de alongamento e musculação. No fim da semana, vem cobrar o preço normal das 10 voltas, acrescido de R$ 10,00 por dia pelos exercícios na barra. O Mano acha um absurdo: – É muito caro, por esse preço faço eu ... e além disso, estou ficando exausto ... responde ele, restringindo os serviços do rapaz à caminhada sòmente. A idéia do Mano conquista adeptos e inspira inovações. Já tem bebum terceirizando a tarefa de beber por ele. A única exigência é ter bom fígado. O ALCOOL O consumo de álcool, é tema recorrente entre os velhos. Não há velho saudável que não goste da tonturinha do schnaps. No primeiro gole faz cara feia, mas o segundo desce redondo. E todos fazem citações sobre o assunto. Dá uma extensa lista: – Se bebes para esquecer, pague antes de beber. – Se for dirigir não beba, se for beber me convida ... – O José é Total Flex – bebe de tudo ... – O João só bebe dois tipos de bebida – importada e nacional. – O Jacó largou a bebida. Só não lembra onde ... – O Ivo tá entrando em forma. Em forma de barril ... – O Carlos não bebe mais ... nem menos, sempre a mesma coisa. 167


– O Beno tá com o mal da vaca ... vá cachaça ! – 50% dos problemas do Pedrinho se devem ao limão ... e os outros 50% à cachaça ! – 90% do meu salário, gastei em bebida –10% foram para o garçon. – Gastei minha fortuna em bebidas e mulheres. O resto, desperdicei. – Digo não à bebida, mas ela não me ouve ... – Prefiro ser um bêbado conhecido, do que um alcoólatra anônimo. – Água dá câncer ... 100% dos que morrem de câncer tomam água. – Não confie em quem não bebe. – Não pode confiar mesmo. Quem diz que não bebe, não fuma e não cheira, costuma mentir ... diz o Tim Maia, afirma o parceiro na mesa. Há também as piadas sobre as duas doenças mais comuns dos bebuns estrelenses: – É Barriga d´água ... diagnostica o médico examinando o barrigudo na maca. – Não pode ser doutor. Eu não tomo água ... reage o bebum de pança inchada. E a Bipolaridade, é ainda mais séria: – Não há quem não tome duas Polar numa sentada só ... E tem também, os que dizem não ter nada: – Fui ao médico e ele disse que não tenho nada ... não tenho fígado, rim e nem pâncreas ... não tenho nada. O COLESTEROL – O teu colesterol está abaixo de 100! – É preocupante ! declara o médico, assustado com os exames do Mano. – Vais ter fazer uma rigorosa dieta: – Uma colher de banha ao invés de açucar no café da manhã e só granito e asinha de frango no almoço ... – Só isso, Doutor ? – Bem ... à tarde, faz um lanchinho com cuca do Naninho e torresmo do Diehl ... – E posso jantar à noite ? 168


– Claro, não dorme de barriga vazia, pega mocotó no Adão ... – E peixe posso comer ? pergunta o Mano. – Bem fritinho, nadando na banha, pode ... autoriza o médico.

LUCROS E PERDAS No km 67, da sinuosa estrada da vida, olho o retrovisor e fico a me perguntar: – Do espaço já percorrido, do tempo já dispendido, das lutas, conquistas, derrotas, que lições devo tirar ? Vejo que a vida, tem Lucros e Perdas. As Perdas são fardos pesados, mas entre débitos e créditos, os Lucros somam mais. O saldo é sempre positivo, para quem sabe viver e manter–se vivo. Se o leitor não concorda comigo e não pensa como eu, que recorra a quem conhece, pergunta a quem já morreu. Um morto sempre é sincero, o falecido nunca mente e se ele não falar nada a resposta estará dada, porque quem cala consente. LONGEVIDADE Embora se assemelhem fisicamente, os velhos se diferenciam na atitude. Há os sedentários, cercados de doenças e dificuldades. Há os discretos que se isolam em si mesmos. Há os indiferentes, para quem tanto faz como fez. E há os ativos cheios de energia – com mais motivos para a ação do que desculpas para a inércia. E destes, os hábitos são simples e saudáveis: O Sergio Horn e o Eli Hart, recomendam dançar no Bailão. O Oscar Eberle atribui a sua boa forma à bicicleta e à abstenção do álcool. O Seu Werle, colhe o capim elefante para os animais e produz o alface que consome. 169


A Dona Lucilla Weidlich com 97 anos, continua atenta às histórias que lhe contam na mesa. A Norma – sua fiel escudeira há décadas – dedica–se com afinco à patroa e aos seus quitutes caseiros. A Frau Ballensifer cuida das garças brancas e dos coloridos anões no verdejante jardim. E ainda, compra frutas e verduras no caminhão que passa na rua toda segunda feira. – Tudo bem Dona Sônia, como vai a Senhora ? pergunto–lhe quando a vejo. – Sempre melhor, immer besser ... responde ela, em perfeitos português e alemão. ALEGRIA DE VIVER – Lavei a tua bunda quando era nenê ... me diz faceira a Helga Schnorr, cada vez que a encontro nas ruas do Centro. E as amigas dela gostam de festa. No casamento do Leandro e da Mônica, reúnem mais de 500 anos na mesa redonda no centro do salão. Nem o Brasil – descoberto em 1500 – soma tantos anos quanto a Helga, Anita, Lia, Léa, Edith, Itma e Ieda, juntas. Quem anda também alegre pelas ruas é a Maria Dresch. Dirige o carro, faz compras e tem excelente memória. Alguns, tentam confundí–la chamando–a de Maria Moesch. – Eu não sou a Maria Moesch, eu sou a Maria Dresch ! esclarece ela, prontamente. ÔÔÔ ... IZABELLA ... O Erwino Sulzbach, faz da música a sua razão de viver. Vende o CD na rua e continua a comprimir o fole e os botões do bandonion, animando todo tipo de festa. E todos os velhos o acompanham, na canção que os faz feliz: 170


– Ôôô ... Izabella, wie shön das leben ist ... Ôôô Izabella, como a vida é bela ... CHOQUES A realidade, é dura. A vida sempre acaba em morte. E a morte em Estrela, não está só na televisão. Está muito próxima da gente. Dissimulada por trás de mil motivos, abate amigos e conhecidos de todas as idades e das mais inesperadas formas. As mais chocantes são as perdas de jovens. Em poucos meses, morrem seis – todos com idade de treze a vinte e cinco anos. Três amigos, vão buscar um piano a 300 km de distancia e perecem na estrada sem realizar o sonho do comprador. Logo depois, mais dois se acidentam de carro, com os pais no Uruguai. Pouco antes, outro morrera eletrocutado em frente aos amigos, no alambrado energizado do campo de futebol. Eletrocutado também há alguns anos, morre um rapaz desligando a geladeira do supermercado inundado pela enchente. Em minha infância, o Artur Werle é eletrocutado no arame farpado da cerca, pela descarga de um raio durante a tempestade. A cruel realidade atinge as famílias órfãs de seus filhos pela ação da nefasta colheita. O apoio emocional, a solidariedade e o próprio tempo, confortam os que ficam, mas não repõem as perdas e nem curam as feridas. Elas só cicatrizam. – A vida é assim mesmo ... é o que nos resta dizer. RIR PARA NÃO CHORAR – Rir, é o melhor remédio ! apregoam os antigos almanaques. E rir da morte, é de certa forma um remédio. Não para evitá– la, mas sim para amenizar os efeitos e reduzir a ansiedade dos vivos. – O fulano morreu, mas continuou exibido. Foi a São Paulo de carona num caminhão e voltou de avião ... dizem os amigos do falecido padeiro. 171


– Morrer, não me preocupa. Pelo menos não estarei aqui para sentir a dor da minha própria ausência ... afirma o Naninho. – O fulano, lambeu o curinga ... diz o Tica, quando um morre. Outros, se divertem propondo um tétrico jogo de apostas em que o prêmio ao vencedor é um caixão. Ninguém aposta em si mesmo. Ninguém quer ser o favorito. Ninguém quer vencer esta corrida ao contrário. Todos preferem ser o azarão do páreo. – Rir, é bom para não chorar ... INIMIGOS MORTAIS O João e o Auri, são inimigos comuns do Dinaldo, mas curiosamente têm opiniões totalmente contrárias sobre a recente e grave doença do desafeto. – Tomara que morra, não se perde nada ... diz o João. – Que nada, tomara que viva por muito tempo ! discorda o Auri. Um sujeito tão ruim, não devia morrer. Devia ficar aqui agonizando, para pagar o mal que fez aos outros ...

VIAGEM DOS SONHOS Viver, é a viagem dos sonhos. A melhor de todas as viagens. A melhor viagem que podemos fazer. Mas o largo e bom estradão da vida, tem também seus buracos e trechos de chão. Acentuados aclives, exigem força para subir. Fortes declives, exigem freio prá não desandar. Tropeços e tombos, exigem energia para continuar. – É uma dura corrida de obstáculos ... O tempo nos desafia e não pára de correr ao nosso lado. O corpo sente, o ar fica difícil, a pele enruga e os ombros vão se curvando, diante do implacável adversário. 172


Certas dores que só aconteciam aos outros, acontecem também conosco. O passo se amiúda, o degrau fica mais alto e o metro se alonga. O início, vai ficando longe e o fim se aproximando. E não há como voltar. Não adianta reclamar. Não há retorno, não há saída – a viagem da vida é só de ida ! Quando o corpo não mais agüentar, é preciso usar a cabeça, viajar em pensamento. Ir alem. Ir aos melhores lugares do mundo. E o melhor lugar do mundo, não está longe daqui. Está em mim, está em ti, está em nós. Está na mente de cada um. DIA DE FAMA – Quem é aquele jovem lépido e faceiro, cercado de amigos ? – És tu, no passado ... responde–me a vozinha interna. – Quem será aquele velhinho gasto, alquebrado e solitário, ignorado por todos ? – És tu, amanhã ! diz a mesma voz. – Meu Deus ! – É, mas na esquenta ... terás também o teu dia de fama. – Dia de fama ? – Sim, serás a estrela do velório. Estarás em cartaz em letras garrafais, na esquina da Praça Cristiano Horn. Todos falarão de ti e o teu nome será lembrado naquele dia. NO VELÓRIO O semblante tranqüilo e impassível do morto no esquife, contrasta com o clima de emoção que envolve os presentes no velório. Os familiares, se derramam em lágrimas por ele. Os amigos conversam lá fora aparentando indiferença. E é inevitável. Vai velório, vem velório, o assunto sempre cai no Plano de Assistencia Familiar do Diersmann. – Estamos em boas mãos ... elogiam os que sabem do serviço. 173


– É ... mas é melhor não usar. É prejuízo para os dois. O morto perde a vida e o Diersmann a mensalidade ... brinca, um dos presentes mal disfarçando a ansiedade diante do evento que também o espera.

A LÍNGUA ALEMÃ Após quase dois séculos, a língua alemã – encontra–se descaracterizada e misturada a termos locais. Com exceção dos mais idosos, poucos ainda a falam corretamente. Crescente perda cultural vem acontecendo em nosso meio. Até o St. Paulusblatt – a tradicional publicação de capa azulada que promovia o intercambio entre os diversos polos de colonização – deixou de circular. E não seria difícil recuperar o domínio do idioma. Há ainda, um bom caldo de cultura armazenado no subconsciente da população. Bastaria voltar a ensiná–lo na Escola para fazê–lo acordar do estado de dormência em que se encontra. VOGAIS X CONSOANTES Os sobrenomes alemães permanecem intactos e em pleno vigor. Grande parte das empresas os carrega em sua fachada. O nome do escritório de advocacia Weidlich, Kunzler & Gewehr, soa perfeitamente normal aos ouvidos estrelenses. E quem manda nos sobrenomes são as consoantes. Nas 21 letras acima, apenas 7 são vogais. E isso se repete de maneira geral. Na maioria dos casos, as vogais são apenas coadjuvantes. Nomes iniciando com A, E, I, O, U – como Assman, Eckert, Ehler, Anshau, Engling, Eidt, Eidelwein, Engelmann, Osterkampf, Opermann, Imich e Uebel, mal passam de uma dúzia.

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O Uebel, o Bauer e o Sauer, pertencem ao raro grupo que tem mais vogais do que consoantes. O Eidt, Vier, Joas e Frei, os tem em igual número – 2 x 2. Nos demais, as consoantes dão de goleada. E quanto mais extenso o nome, mais elas ganham fôrça. O Skrsypcsak, chega ao absurdo de ter nove consoantes para uma só vogal – 9 a 1 ! Mesmo que o chamem só de Chipchap, ainda fica em 7 a 2. KARAMBA ! De pronúncia áspera e craquelada, os nomes nórdicos usam e abusam do K no começo, no meio e no fim. O exagerado Krakeke, chega a usá-lo três vezes. O Kich, Kist, Kirst, Koch, Kern, Kuhn, Kunzler, Kohl, Killp, Klein, Kontz, Konzen, Konrad, Krindges, Käfer, Kaplan, Kapler, Kasser, Kasper, Keller, Kessler, Kehl, Kewald, Knecht, Knippel, Kreutz, Krabbe, Krauze, Knoebel, Kalsing, Kronbauer, Kretzmann, Knack, Knehelmann, Keplker, Kloeckner, Keunecke e Kranz Kuchen, o carregam ostensivamente à frente do nome. O Rücker, Bücker, Backes, Becker, Bünecker,Volkmer, Meincke, Musskopf, Rockenbach, Birck, Rohenkohl, Reckziegel, Durayzki, Rakowski, Lopozinski, Hirtenkauf, Osterkampf, Stroecker, Eckert, Ericksen, Linck, Fleck, Sudbrack, Wink e o Pikito, o carregam mais discretamente no meio e no fim. – WIE ?

( COMO ? )

O W – a 23.ª letra do alfabeto germânico – aparece maiúsculamente em frente a muitos sobrenomes estrelenses. O Wirz, Wink, Wingen, Worm, Wolf, Weiss, Wathe, Werle, Weber, Wendt, Wessel, Wurst, Wagner, Wiebusch, Wülfing, Weigert, Weidlich, Wendisch, Wanderer, Wallauer, Wolfgang, 175


Weissheimer, Westphalen, Weisskopf e o Waisa, são alguns exemplos. Outros mais discretos – como o Eidelwein, Ohlweiler, Schwertner, Gewher e o Zwirtes – o escondem entre as pernas. SCH ... Os Schwäbisch do sul da Alemanha, chiam como os cariocas. E não há como não chiar para dizer Deutschland, Schuh, Schultz, Schwan, Schwarz, Schwarzer, Schütz, Schnitz, Scheit, Schorr, Schnorr, Schroeder, Schonnat, Scheier, Scherer, Scheeren, Schaefer, Schiller, Schinke, Schmidt, Scheibel, Schneider, Schnack, Schwingel, Schierholt, Schardong, Schossler, Scheinpflug, Schwertner, Schoenemann, Schaunberg, Schwambach, Ruschel, Fischer, Borscheid, Hauschild, Lorscheider, Halmenschlagen, Möerschbacker, Moesch, Dresch, Fritsch, Bersch, Bergesch, Pletsch, etsch, etsch … Em Estrela, incluem também o Voschnack, mas esta pronúncia tem um vício de linguagem. O nome correto é Vosgnac, segundo o cartão do Jorge. O chiado vicia tanto, que até o Schtroecker, o Schnell e o Schinézio – iniciados apenas com S – são falados com Sch. E a nossa cidade de Eschtrela, também entra nessa ... VOCABULÁRIO O chiado não está só nos nomes. Está também nas conversas. É comum ouvir os termos Schtrelapub, Schöen, Schenamed, Schatz, Schwester, Schiptzpub, Schnel, Schon, Schped, Schtorm, Scherm, Schön, Schuh, Schwatz, Schpatz, Schwein, Schmalz, Asch, Schmier, Schwanz, Scheiss, Schluck, Schnaps, Wóscht, Schmeck, Schtarck, Schwach, Schwer, Schlau, Schlang, Schlimm, Schtick Schranck, Knatsch, Fleisch, Quatsch e Schimiti, em papos informais. 176


A expressão – Schick dich ! – Cuide-se ! é usada sempre que os filhos vão para a balada. O significado de tudo isso, é encontrado nas ruas e no dicionário. Já os abrasileirados Schissalada e o Poder Lechislativo, dispensam tradução. O SIGNIFICADO Muitos sobrenomes alemães, refletem a atividade ou características de antepassados na Idade Média. O Weiss é branco, o Schwarz é preto. O Müller é moleiro, o Schneider é alfaiate, o Schumacher é sapateiro e o Fischer é pescador. Hauschild deriva de hau + schild, que significa bater + escudo, indicando um possível soldado, um batedor de escudo. Se fosse batedor de carteira, seria Haugeld. Já o meu nome materno Horn, significa Chifre. Segundo os parentes, não tem relação com os cornos. Trata–se apenas de quem pega o touro à unha, como o Anselmo e Valda no morro dos Horn. SONORIDADE Por sua larga tradição na Medicina, os nomes teutos combinam harmonicamente com doenças e remédios. Em Estrela, alguns soariam bem. O Genérico Sulzbach, Higiênico Noll, Soro Ruschel, Vicky Schwertner, Xarope Gerhardt, Léo Boldo Gaussmann, Laxante Moraes, Colírio Koch, Eno Müller, Aesse J. Diehl e Pedro Aids, teriam boa sonoridade. Entre as mulheres, poderíamos ter a Érnia Matte, a Rubéola Gerhardt, a Aspirina Rücker, a Rinite Müssnich, a Losna Snell, a Insonia Antunes, a Gilette Rockembach, a Maria Cibalena Ruschel, a Eparema Horn, a Cotonete Weiss e a Hepatite Closs. Diante de tantas opções, não entendo essa onda de Lindores, Eldores, Hildores, Lisianes, Marianes, Claudines e outros modismos. 177


CULTURA A cultura alemã está impregnada na vida estrelense. O Tannenbaum e o Ales ist tzu weit, tzu weit ... são cantados a mil vozes no Natal. Em Maio, tem o Baile do Chucrute em que os grupos de lenhadores, caçadores e marinheiros em trajes típicos, dançam e cantam o folclore tirolês diante do numeroso público – que poderá chegar a 3.500 pessoas no novo galpão do Cristo Rei. Chucrute, é a denominação afrancesada do Sauerkraut – o repolho azedo. O Chuc e a Rute – o casal de bonecos que simboliza a festa – poderia perfeitamente chamar–se de Sauer e Kraut.

OS GRINGOS Os sobrenomes de origem latina, dispensam o K, W e SCH e juntam vogais e consoantes em proporções bem mais harmoniosas do que os alemães. O italiano, abre a pronúncia e soa com extrema sonoridade aos ouvidos. Existem em Estrela, duas correntes predominantes de nomes italianos. Os que terminam em ini – como o talharini e o fetuccini – e os que têm consoantes duplas na última sílaba – como a pizza, radicci, spaghetti e capeletti. No primeiro grupo estão o Agostini, Bagatini, Bertolini, Benini, Corbelini, Chesini, Orlandini, Paladini, Piccinini e o Tallini. No segundo, encontram–se o Turatti, Reginatto, Pedotti, Albarello, Agnoletto, Chiarelli, Coletti, Favretto, Morelli, Zanella, Giacomelli e o Giovanella. E há gringos que se viram bem no Alemão. Alguns falam mais do que Volkswagen e Telefunken. Na fila do Banco, uma mulher queixa–se desesperadamente em frente ao Tallini. Ele nada entende do alemão que ela fala, mas dá corda à conversa, usando as poucas palavras que conhece do idioma: 178


– Das ist wirklich ...( isto é verdade ... ), concorda ele no curto espaço que ela lhe dá para falar. Satisfeita com o apoio recebido, ela continua o seu monólogo incompreensível. – Das ist traurig ...( isto é triste ... ) interrompe, ele. E ela firme no papo, continua se queixando ... – Das ist wirklich ...( isto é verdade ... ) repete, ele. E ela continua falando ... – Das ist traurig ... ( isto é triste ... ) termina ele, quando libera o Caixa para ela. – Auf wiedersehen ... ( até logo ... ) despede–se o Tallini, quando ela vai embora. – Auf wiedersehen, tankshen ... ( até logo, muito obrigado ... ) responde ela, agradecendo o seu valioso apoio.

CIDADANIA GAÚCHA A força da cultura gaúcha se impõe a todos os povos aqui chegados. Com mais ou menos vigor, cultua–se a tradição local. Estrela, possui três Centros de Tradições Gauchas: Estrela do Rio Grande, Raça Gaudéria e Querência da Amizade. O tradicionalista pilchado, loiro de olhos azuis, falando churasco e chimarão, é o sinal mais evidente do positivo processo de integração cultural na região de colonização típicamente européia. – Sou caúcho, tchê ! reforçam com orgulho os descendentes dos imigrantes alemães. QUERENCIA AMADA Ao mesmo tempo em que conserva a tradição, o gaúcho tem no sangue o pioneirismo. Deixa sua terra natal para trás, mas jamais esquece a querência amada. 179


– E o que será a Querência Amada ? – Uma cidade, uma praia, uma casa, uma fazenda ? Querencia Amada é tudo isso, mas não é só isso. É maior do que um lugar, não se mede em metros de chão. Sua medida é sem medida, é querência desmedida, só se mede com o coração. Querencia Amada, é um imenso bem querer, um sonho, uma felicidade, uma saudade, que não se quer esquecer. Querencia amada, é um pensamento que parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar ... diz, Lupicínio Rodrigues, saudoso da felicidade que ainda vigora lá fora. AZUL E VERMELHO Não há mais dúvida. O Censo mostra que somando–se todas as etnias, 100 % dos estrelenses são gremistas e colorados. Não há exceções. Nem o Haussmann e o Vuaden da FIFA, escapam disso. E a maior torcida em Estrela, oscila com os humores da Maternidade. Cada criança que nasce, muda o placar conforme o uniforme que recebe do pai. Indiferentes ao choro do recém nascido, metade dos pais impõe o azul e a outra metade o vermelho. Em minha isenta opinião de colorado, o neném deveria ter a liberdade de escolher o vermelho – a cor natural do seu sangue.

A CULINÁRIA ESTRELENSE As carnes e os produtos coloniais em fartas e calóricas porções, dominam o cardápio local. Gringos e alemães, têm diferentes paladares, mas para ambos, o preço e a quantidade são tão importantes quanto a qualidade. O chucrute, salsicha, batata, alguns doces e conservas, ainda guardam o gostinho alemão na culinária estrelense. Já o eisbein, kasseler, paprika schnitzel, schlachtplate e a apfelstrudel, são pouco 180


conhecidos. É preciso encomendá–los com antecedência no Frigorífico Glória ou comprar congelado em Nova Petrópolis. Do lado italiano, o macarrão da Mamma, o galeto, radicci, a polenta e o macarrão, ocupam grande espaço na mesa. Adotado por todos como almoço de domingo, o churrasco é também o prato principal em qualquer festa. Em casa, costuma ser comedido. Tem coraçãozinho de frango, salsichão e costela de boi, acompanhados de farinha de mandioca e salada em módicas porções. Já no Laguinho, o espeto é corrido. No centro do salão, o cliente gira em torno do balcão com farinha de mandioca + maionese + polenta + tomate + cebola + pepino + salada verde + xuxú + pão + arroz + aipim + batata doce. Na mesa, o espeto corre em louca maratona, trazendo lingüiça + costelinha de porco + coraçãozinho + lombinho + frango + vazio + costela + chuleta + maminha + ovelha + javali + abacaxi e + a picanha, deixada para o fim. E corre também a bebida. Cerveja, vinho e refri de todos os tipos e tamanhos, participam do rodízio competindo com os espetos. No final, tem as sobremesas. O doce de abóbora com casca durinha feito no cal, as compotas de pêra, laranja, pêssego e mamão, são muito apreciadas. O pudim, ambrosia ou sagú com creme de leite, não costumam faltar. Para as crianças, tem picolé e Sorvebom. Além do espeto corrido, existe o espeto virado – uma especialidade dos irmãos Gunther e Romeu. Churrasqueiros de primeira ordem, costumam receber os amigos e assar a carne a quatro mãos. Enquanto paparicam os convidados, ambos permanecem atentos à churrasqueira. O Gunther vira o espeto e volta ao papo com os amigos. Um minuto depois – sem perceber o movimento do irmão – o Romeu vai à churrasqueira e desvira o espeto novamente. Passado mais um minuto – também sem ver a ação do Romeu – o Gunther vira o espeto mais uma vez.

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O vira–desvira do espeto se repete muitas vezes e o churrasco vai assando de um lado só. Em 40 minutos vai à mesa. Um lado cru, outro torrado, satisfaz aos mais exigentes paladares. OS PRAZERES DA CARNE O pensamento voltado a Deus no culto dominical, dividi–se com os prazeres da carne na mente do estrelense. Em meio às orações, ele não deixa de pensar no churrasco que fará ao meio dia. – Cerveja, eu já tenho ... onde vou pegar a carne ? pensa ele, durante o sermão. – A Gauchinha tá fechada. O Caio, o Ernesto e o Esquinão, estão prá lá do Oriental. No Alemão, no Nestor e no Rei da Carne, não tem onde estacionar. Não sei se vou no Schneider ou no Preço Baixo ... vai matutando ele, de joelhos no templo sagrado. – Ide em paz, irmãos ... dizem o Padre e o Pastor, quase ao mesmo tempo, concluindo a sessão em seus templos. – E faça meu Deus, com que eu ache um granitinho macio e uma costela gorda ... emenda o fiel estrelense, antes de sair apressado para a fila do açougue mais próximo. Já em casa de bermuda, chinelo de dedo e camiseta do seu time que vai jogar à tarde, se instala na churrasqueira, prende fogo no carvão e espeta a carne de olho nas chamas formando a brasa. A churrasqueira é o seu templo particular, o seu ninho de paz. O altar pagão em que adora o fogo e assa os animais para apaziguar os deuses do prazer carnal. Cada pingo de gordura na brasa é uma gota de água benta no assado – uma fumacinha de incenso temperando a oferenda. Neste oásis de relax e meditação, passa horas e horas longe do dia–a–dia e das agruras do cotidiano. – Muito obrigado, meu Deus ! agradece ele em silêncio, só com o rádio ligado. – O gaúcho, não vive sem rádjiu...diz o anúncio da Liberdade. 182


A CARNE É FORTE A carne, não é fraca como dizem os pastores. É impossível calcular o consumo em kg per capita/ano em Estrela, mas uma coisa é certa: – É muito alto ! São em média, uns 100 churrascos por ano. E a churrasqueira, é a sala de visitas. No quiosque do ricaço, no barraco do mais pobre, em casa de estrelense a churrasqueira é área nobre. De tijolo, lata ou no chão, de fogo a lenha ou carvão, reúne amigos e parentes, de cada um, faz um irmão. A brasa viva, aquecida, aquece a boa amizade, dá vida à chama da vida e enche de vida a cidade. Alguns com extrema maldade, incrementam o cheirinho, jogando a gordura no fogo, prá dar inveja ao vizinho. E é o vizinho, quem diz: – O cheiro do churrasco estrelense, escapa da churrasqueira e até em Lajeado, se cheira ... Além dos comes e bebes, a churrasqueira é lugar de emoção. É lugar para rir, chorar, gritar e abrir o coração. Qualquer assunto, é bom assunto. Entre uma verdade e outra, até mentira se conta. Assadores, caçadores, pescadores e outros mentirosos, falam de seus feitos e todos fingem acreditar. Só não aceitam a maledicência e a dieta para emagrecer. – Melhor, começar o regime na 2.ª feira ... concordam todos, quando o assunto é trazido à tona por alguém mais distraído. A CARNE A carne, é o alicerce do churrasco. Se for boa, o churrasco sairá bom ou ruim. Se for ruim, o resultado jamais será bom. As carnes gordas, são as mais saborosas e fáceis de assar. A gordura pingando na brasa, mantém o fogo alto e confere especial 183


sabor e suculência ao assado. As magras, exigem mais cuidado para não passar do ponto. Cada corte tem o seu jeito de assar. A Costela é dura e saborosa. Fica macia em fogo brando até desprender o osso. A Picanha, deve ser de boi novo, com gordura clara e não mais do que um quilo e meio. Medalhões de três dedos, facilitam o assado e a deixam suculenta em fogo alto. O Vazio ou Fraldinha, é magro de fibra longa. Fica bom em fogo rápido e intenso, mantendo o vermelho por dentro. A Maminha ou Chapéu de Bispo, tem fibras curtas e consistentes. É própria para assar inteira e servir em lascas como se descasca um abacaxi. A Chuleta, de fibra curta, pede boa chama e talento para não secar. A Paleta da costela sete – como o Nestor corta para o Carli – é fácil de espalhar na grelha e marca uma ótima inovação nos sabores de sempre. O Granito e o Matambre são duros, mas muito próprios para aperitivar com a cervejinha gelada. Com os cortes de aves, suínos e ovinos, tudo é mais fácil. Dá–se uma rápida selada em fogo intenso e deixa–se depois em fogo mais brando, sem deixar secar. O ponto certo, é quase exato – o último vestígio de sangue nos pingos que vertem para o fogo. OH, QUERIDA ... O Fritz Hartmann, tem uma técnica original para amolecer o Matambre. Enfia o dedo num furo da manta inteira e a surra contra o muro do jardim como se estivesse tirando o pó do tapete. Enquanto as fibras se rompem com o impacto na parede, ele canta alegremente como o personagem da Praça da Alegria na TV: – Oh, querida ... oh, querida ... oh, querida Clementina ... O resultado é excelente. A manta bem assada, se desmancha em tirinhas tão crocantes quanto a batata frita do Mac Donald´s. 184


Mas a técnica do Fritz, corre o risco de ser usada para fins não pacíficos, cantando o nome da mulher odiada com raivosa fôrça contra o muro. – Oh, querida ... oh, querida ... oh, querida Mariazinha ... surrada com ódio na parede, exigiria a aplicação da lei Maria da Penha que protege as mulheres da violência masculina. O TEMPÊRO O tempero, é apenas um figurante, um coadjuvante e não a atração principal. O sabor original da carne deve ser preservado. A gente deve saber o que está comendo. A carne bovina, requer simplicidade. É sal e nada mais, aplicado na hora de levá–la ao fogo, pois a salga antecipada a desidrata e resseca. Se for sal grosso, tira–se o excesso no final – sem jogá–lo na grama, é claro. As outras carnes, combinam com temperos mais elaborados ao gosto de cada um. Alguns são básicos e aceitos por todos. A costelinha de porco vai bem com sal e limão. O azeite de oliva, alho e alecrim, não podem faltar no cordeiro. O galeto se dá bem com o louro, sálvia e orégano. O uso antecipado de salmora com vinagre, deve ser muito bem dosado para não ser lembrado a cada arroto nas horas seguintes. O FOGO O manejo do fogo, coroa o churrasco. É bom acendê–lo com antecedência para aquecer a churrasqueira. Àlcool, papel, gravetos, fole, ventilador ou secador de cabelos, são bons auxiliares para iniciar o fogo de lenha ou carvão. Espetos e grelhas, devem ficar a cerca de 50 cm de altura da brasa viva, livre de gases tóxicos. Se as chamas crescerem demais com os pingos de gordura, deve–se levantar as carnes acima do nível da labareda, sem jamais jogar água para amainá –la. A água no fogo, 185


produz fumaça e cinzas indesejáveis, que impregnam a carne e comprometem o paladar. E o fogo deve ser limpo. Churrasqueira não é lixo. Guardanapos, ossos e pontas de cigarro, não devem envenenar o assado e o estômago dos comensais. Adicionar gravetos de laranjeira, limoeiro ou bergamoteira na finalização, produz um excelente sabor de defumado. O fogo a lenha – quando possível – dá cor e especial sabor ao churrasco. As melhores, são as mais duras que produzem brasa firme e duradoura. CHEIRINHO DA CARNE A hora de começar a beber, é assunto crítico para o churrasqueiro. Se começa muito cedo, fica de fogo. Se começa muito tarde, fica apagado. – Só tomo o primeiro schluck quando sinto o cheirinho da carne no fogo ... diz o Schpitz – assador da Rodoviária. A receita dele é perfeita. O horário é flexível. Ele pode jogar uma graxinha na brasa e sentir o cheirinho a qualquer momento. ABIGEATO O abigeato é assunto diário nos jornais. O roubo de carne é uma praga nas fazendas. E os ladrões são bons carneadores. Abatem os animais no campo, levando apenas o couro e a carne. Em Estrela, são melhores ainda – roubam o churrasco já pronto. Enquanto assa o churrasco no domingo de sol na chácara, o Cabeça percebe os galhos das laranjeiras balançando no pomar. – É a gurizada roubando fruta de novo ! pensa ele, irritado com o atrevimento dos guris. Corre ao pomar para enxotá–los, mas não encontra ninguém. Não há meninos, não há galhos quebrados e nem laranjas no chão. – Pode ter sido o vento ... conclui, voltando ao churrasco. 186


Ao chegar de volta à churrasqueira, mal consegue acreditar que os três cheirosos e suculentos espetos haviam sumido do fogo. A sacudida nos galhos da laranjeira, fora apenas uma bem urdida estratégia dos ladrões mirins para afastá–lo da carne. O abigeato, acontece também na geladeira do Clube. Com o dia clareando pela manhã e tudo ainda fechado, saio para uma pescaria e me deparo com uma mulher e uma criança esperando na porta do corredor de serviços. Desconfiado com a presença delas em hora tão inusitada, oculto–me na porta da loja da Dona Lucila, para ver o que fazem ali às 6:00 horas da manhã. Não demora e o mistério se desfaz – o Fritzão aparece na porta trazendo–lhes uma sacola com cinco quilos de carne que sustenta a família e os parentes por uma semana. NADA SE PERDE O churrasco é caro, mas rende muito. Nada se perde, tudo se transforma. A sobra de carne é requentada como tal, picada no arroz de carreteiro ou moída nos croquetes e pastéis de segunda feira. O ARROZ DE CARRETEIRO O Arroz de Carreteiro é o prato gaúcho mais típico depois do churrasco. Em sua versão original, os tropeiros – sem parada fixa em longas comitivas pela campanha – levam uma manta de carne verde sob o pelêgo do cavalo e o misturam ao arroz na panela de ferro, em seus improvisados acampamentos. A panela de ferro, continua em pleno uso, mas o charque sumiu de Estrela – só é encontrado no De Gasperi. O chamado arroz de carreteiro, é feito com as sobras do churrasco, com alho, cebola e tomate antes de acrescentar o arroz. O cheirinho verde e o queijo ralado, são bons complementos. 187


Há também quem o faça usando tudo o que tem na geladeira. Milho, cenoura, brócoli, ervilha, ameixa preta e pêssego em calda, enriquecem a receita. O Carreteiro, topa tudo na panela estrelenses. O CAFÉ COLONIAL O bule de café e a jarra de leite, são meros detalhes em meio à montanha de guloseimas que vão à mesa no Café Colonial. O número de produtos servidos em pratos, pires, travessas, bandejas, tijelas, potes e cumbucas de todas os tamanhos, cores e formatos, é motivo de orgulho para quem o promove. – Em Gramado, servem mais de 70 tipos ... comenta o pessoal em torno da mesa. E não é exagero. O Café Colonial, tem leite + achocolatado + sucos + pães + cucas + waffle + bolos + rosca + doces + nata + käseschmier + schmier + geléias + manteiga + margarina + melado + mel + queijos + lingüiças + salames + copa + morcilha + etc + etc ... e mais café, é claro. O GALETO O Galeto al primo canto dificilmente desce a Serra, mas o Frangueto estrelense é quase tão tenro e macio como ele. Recém chegado de Rancharia, o meu amigo paulista Ademir, confunde Galeto com Frango e acidentalmente cria o termo Frangueto, bem apropriado ao que chamamos de galeto em Estrela. Assado com manteiga, bacon, alho, louro, sálvia e orégano, completa–se perfeitamente com massa, polenta, tomate, agrião, rúcula e radicci. O vinho, é o seu acompanhante por excelência. Para os estrelenses de índole cervejeira habituada a grandes volumes, é difícil tomá–lo com moderação e evitar o sono e o porre.

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A GALINHADA A Galinhada é um excelente prato de inverno. Os cortes de frango, galo ou galinha, fritos com alho, cebola e tomate em panela de ferro ou alumínio grosso, são misturados ao arroz. O preparo é simples, mas exige talento e equilíbrio. Cada cozinheiro tem os seus macetes para fazer da sua galinhada, a melhor de todos os tempos. Bem molhadinha, sobre uma cama de salada verde no prato e coroada com salsinha, cebolinha verde e queijo ralado, é um substancioso manjar para os tempos frios. O pãozinho francês bem fresquinho e um bom copo de vinho tinto, são os melhores coadjuvantes – substituídos frequentemente por cacetinho, cerveja e maionese, em Estrela. O MOCOTÓ Para os dias ainda mais frios, o Mocotó é uma excelente pedida. O preparo, exige horas de fervura de bucho, língua, patas e canelas bovinas em panelões de ferro com tomate, alho e cebola. Poucos se dispõe a fazê–lo em casa. A maioria o compra pronto em bares de produção caseira. Serve–se o calórico consomé em prato fundo ou cumbuca, com ovo duro picadinho, cebolinha e salsinha a gosto. O pão cacetinho – ( pão d´água, de bilha ou francês ) – e um copo de vinho tinto, são os mais nobres complementos. A adição de feijão branco, o faz lembrar o Cassoulet dos bares parisienses. O SOPÃO Muito apreciado no frio, é o chamado Sopão caseiro, com os ingredientes disponíveis em casa e incrementado a gosto.

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Numa noite de rigoroso inverno, o Osmar Eckert convida os amigos para um Sopão no quente aconchego do forno a lenha da Padaria Central. Ao chegarem, os convidados dão de cara com centenas de pães simétricamente enfileirados sobre uma mesa comprida, sem qualquer sinal da esperada sopa fumegante. – É o sopão de padeiro, explica o anfitrião ... É só pão ! A MASSA CASEIRA A massa caseira é um talharin artesanal produzido por pequenas padarias locais. Tem altíssimo consumo em Estrela – maior do que o macarrão industrial. – Boa farinha e muito ovo de gema amarela ... é o segredo das melhores receitas. Como prato principal ou coadjuvante, a massa caseira faz excelente dupla com o galeto no espeto e com assados de panela. Casa com porco, rês, galinha, marreco, coelho, codorna e qualquer bicho comestível com asas para voar ou pernas para andar. Só não combina com cobras, lagartos e outros rastejantes. Quem come cobra, são os agricultores japoneses de Castro, no Paraná. Eles a capturam na lavoura a comem como iguaria no Bar do Elídio, com pinga e cerveja. Quanto mais venenosa a cobra, mais eles apreciam. Os pedaços secos que parecem pescoço de galinha, aceleram a pulsação do sangue e arregalam os apertados olhos japoneses. – Garinha, né ! dizem a quem não conhece. ÁGUA NA FERVURA Entre tantos cozinheiros de mão cheia, há estrelenses que nada sabem fazer. – Gostou das frutas ? pergunta o Carlos ao vizinho da frente, depois de dar–lhe um saco cheio de mamões e abacates. 190


– Olha, o mamão tava muito bom, mas o abacate eu não consegui comer ... – Não conseguiu comer ? – Estava tão bonito e maduro ... – É, mas quanto mais eu fervia, mais duro ficava o caroço ...

O GORDO Com a agenda semanal sempre cheia de compromissos culinários, é quase impossível manter–se magro em Estrela. Na segunda, tem o almoço dos Malas, com uma caixa de cerveja. Na terça, churrasco no Jipe Clube, com outra geladeira cheia. Na quarta, a janta do Gringo tem vinho. Na quinta, pede–se um Xis ou pizza com cervejinha. E na sexta, tem peixe no Adão. E no fim de semana, tem mais – Muito Mais ! No sábado pela manhã, tem a visita à feira dos Produtores. As frutas, não são lá essas coisas, mas os defumados de porco ... ah, esses sim, pedem uma bela feijoada ! E a feijoada em Estrela, acontece à noite. Não sabendo disso na primeira vez, convido o amigo para a feijoada de sábado e ele estranhamente não aparece e nem se justifica. À tarde, ele explica a razão: – Feijoada ao meio dia ? – Pensei que seria à noite ... Para evitar esse tipo de mal entendido, agora fazemos feijoada no almoço e no jantar. Uns vem pela manhã, outros no fim da tarde, mas a maioria fica direto das onze à meia noite. E o fim de semana, não termina aí – ainda tem o churrasco familiar de domingo com maionese, cerveja e refri. E dê–lhe dieta para não emagrecer ! RIR É PRECISO É tanto gordo andando no Parque, que já tem gente desistindo de caminhar. – Andar, engorda ... concluem alguns. 191


Mas o gordo é feliz. A caminhada, o deixa de consciência limpa e em paz consigo mesmo. – O exercício me faz bem, me deixa em forma ... diz ele, enxugando o suor da testa. – Em forma de barril ... pensam os outros, sem nada dizer para não desestimulá–lo. Mas gordo não liga para isso. Ser gordo é um estado de espírito. Espírito bom. Alto astral. – Quanto perdeste em duas semanas de dieta ? pergunto a ele. – Quatorze dias ... Qual o magro, que ri de si próprio, de forma tão natural ? COMIDA POR KG Uma boa opção para evitar os excessos na mesa, são os restaurantes por quilo. Os ponteiros da balança marcam o peso e o preço da comida. Os magros e comedidos velhinhos sabem disso. Às 11:30 em ponto, já fazem fila esperando abrir o Blumen, a Soges, o Schúki e o Pitchmann. E no buffet, consomem variedades corretas, na hora certa em quantidade medida. Não há obesos entre eles. Por mais que a Gringa insista com o Prato Cheio, eles se servem com moderação.

A PESCA A pesca artesanal de linha, caniço e pequenas tarrafas, é uma atividade saudável. Não afeta a natureza e não prejudica ninguém, além do peixe fisgado. Os peixes do rio, são diferentes do arroio. No Taquari, pega–se Lambari, Pintado, Piava, Tambicú e Grumatan, usando minhoca, pão velho e milho, como iscas. 192


O Dourado, é fisgado com isca artificial nas águas correntes das cachoeiras ou no corrico puxado por barco a motor. O Purrudo, é o furão da pesca – quando aparece no anzol é bom que seja morto antes de ferrar o pescador. Caso aconteça a ferroada, a solução é mijar no local atingido. No arroio Estrela, os peixes são outros. Predominam o Cará, Joaninha e Jundiá – cuja isca é a minhoca. A Traíra é pega em esperas com lambarizinhos ou nacos de peixe. O Muçum – em forma de cobra – precisa ser atraído para fora da toca em lugares barrentos e à sombra das amoreiras. Pesca também muito apreciada é a do Cascudo, sob as pedras de águas correntes e rasas no Arroio Boa Vista. Pega–se com a mão, mas a dura carapaça é ruim de limpar. A minhoca, a melhor das iscas, vem do mato ou do banhado – onde se encontra a minhoca chupão, a preferida dos peixes. Hoje, existem os minhocários, com matéria orgânica e minhoca abundante. Pena que não haja mais peixe para tanta isca. O TRAIRÃO A barragem de Bom Retiro, reduz drásticamente a pesca e o número de pescadores rio acima. O consumo de peixe despencou. Agora é preciso buscá–lo abaixo da barragem ou contentar–se com os congelados. A produção local de Carpas vem sendo incrementada em pequenos açudes que abastecem a feirinha colonial dos sábados. Quando a cheia transborda os açudes, elas vazam para o rio e são capturadas com 5 a 25 kg – conforme o papo do pescador. As de 30 kg tipo baleia, sempre fogem ... Muitos estrelenses já sabem a diferença entre a carpa Húngara e a Capim – os dois tipos predominantes. – A Capim só come pasto, não tem gosto de barro ... dizem os conhecedores, elogiando também a melhor textura e menos espinhos. 193


E ninguém despreza um bom ensopado de Pintado – o ex–rei de nosso rio e ainda abundante no Jacuí – embora às vezes com gosto de óleo despejado pelos barcos. O ensopado de Jundiá, mais viscoso, tem também seus apreciadores. Na grelha, o peixe preferido é o Trairão uruguaio – de espinhos grandes e carne branca de ótima textura. Degustado com limão, óleo de oliva e alcaparras, é um manjar dos deuses. CASQUINHA DE SIRI Manjar dos deuses, planejam fazer as irmãs Schwertner em Xangri–lá. Na bela manhã de sol, decidem ir à praia deixando o Siri cozinhando em fogo brando. Jogam os crustáceos vivos no panelão de água fria, fecham a tampa e vão felizes para o mar. Ao meio dia, voltam para casa imaginando as delícias que fariam com a tenra carninha do fruto do mar desprendendo da casca. Ao chegar, são tomadas de grande surpresa. O chão da cozinha está minado de bichos que sentindo a água quente na bunda, levantam a tampa da panela e fogem da fervura. Passeiam pelo piso de ceramica, bem mais fresco do que a panela. E os mais folgados, já rondam a geladeira à procura de uma aguinha gelada. UM MAR DE PEIXES Pescarias e mentiras, costumam andar juntas, mas esta eu juro que é verdade. Na plataforma de Atlantida, o mar não está para peixe naquela manhã de verão. Raras raias e mirrados peixinhos, mordem a isca. O desanimo toma conta dos pescadores. Quando eles já nem mais falam em pescar, surge uma novidade. Um surfista na água começa a gritar: 194


– Há um cardume aqui em baixo ! Joga a rede ! Joga a rede ! O pessoal de cima se agita para armar e arremessar uma larga tarrafa de nylon com 15 metros de corda. Ela cai aberta em círculo no exato ponto indicado pelo surfista. Lentamente vai afundando e revelando a agitação dos peixes que nela se enredam. Minutos depois, volta a ser puxada para a plataforma, com um enorme cardume pululando em seu ventre. A euforia, é geral: – É muito peixe ! – É muito peixe ! – Ajudem aqui ! gritam os puxadores da rede, sem força suficiente para içá–la. Todos correm para ajudar. Maravilhados, participamos da contagem de 172 Peixes Rei de quase 1 kg retirados da malha. No arremesso seguinte, vem mais 36 peixes, totalizando 208. Coolers, sacos, sacolas, bolsas e caixas de bebida do bar, aparecem de todo lugar para embalar a preciosa colheita. – Peguem, podem pagar à vontade ! – Há peixe prá todo mundo ! repetem os donos da rede, distribuindo gratuitamente o resultado da pesca. Cada um leva o que pode carregar e consumir. O Tallini e eu, levamos uns dez. Confirme que é verdade pelo e.mail tallini@novabréscia.com.br A PESCA DA TAINHA De 15 de Maio a 15 de Julho, ocorre a temporada de pesca da Tainha em Florianópolis e o amigo Hélio – peixerinho, nascido e criado nas areias da ilha – recebe o Naninho, o Alemão e eu, de barbatanas abertas para acompanhar a pesca. No rancho do Getúlio, fincado nas areias do Campeche, os pescadores passam o dia aguardando os sinais do mar. A centenária canoa – muito bem cuidada e esculpida em tronco de árvore também centenária – e a rede de nylon tecida por eles mesmos, estão a postos na areia. Eles sabem tudo do mar. 195


A agitação das águas indica a chegada da Tainha. E ela costuma chegar aos milhares, fervilhando na mancha preta que escurece as ondas entre as duas ilhas – a de Floripa e a do Campeche. – Olha o peixe !!! grita o olheiro correndo na praia, alvoroçado em plena hora do almoço no rancho. Os pescadores largam imediatamente seus pratos e correm a pôr o barco na água. Vencida a rebentação, seis deles prèviamente escalados, assumem seus postos a bordo. São quatro Remeiros, um Redeiro e o Capitão Getúlio, manejando o leme e comandando as ações para cercar o cardume, sob os gritos de observadores que o orientam da praia. Completado o lanço da rede em torno do cardume, ela é puxada nas duas extremidades por 50 a 80 pessoas na praia. A feiticeira de 12x600 metros, volta para a areia gorda de peixes saltitando em sua malha de nylon. – São cinco mil !!! gritam todos felizes, estimando a quantidade colhida – confirmada depois em 4.118 peixes. SOLIDARIEDADE A divisão dos peixes, obedece a quinhões bem definidos entre os pescadores, de acordo com a importância de cada um nas tarefas. A metade vai para o dono do rancho, da canoa e da rede, e o restante é dividido hierárquicamente entre a equipe do barco e os auxiliares de apoio em terra. Aos 68 anos de idade, o nosso amigo Hélio não mais participa da equipe que se lança ao mar, mas exerce importante função em terra. É o primeiro a chegar e o último a sair do rancho. Comanda a cozinha, que serve café o dia inteiro. No almoço, faz caldo amoquecado de peixe ou frango, acompanhado de pão, arroz, aipim e pirão d´água, para 20 a 30 pessoas que se cotizam para pagar a despesa. Bebida alcoólica no rancho, nem pensar. Em respeito 196


aos perigos do mar, toma–se só café e água. Até o refri é artigo de luxo. Só aparece na mesa quando alguém de fora o presenteia. A MÚSICA O gosto do filho do Getúlio pela música, o leva a instalar no rancho, uma Escola de Música para as crianças da comunidade, fora da temporada de pesca. É emocionante ver pautas e claves musicais desenhadas a giz e carvão nas paredes de tábua sem pintura do despojado galpão. Emocionante também – segundo o relato deles – foi a abertura da temporada com a orquestra infantil apresentando–se para 500 pessoas da comunidade local de pescadores. IRMANDADE Duzentos metros ao sul, está o rancho do Aparício – irmão do Getúlio. Eles se revezam na pesca à Tainha em dias alternados. Um é dono dos dias ímpares e outro dos dias pares. Ajudam–se mútuamente, mas um não interfere no trabalho do outro. Havendo no entanto, abundancia de peixes no mar, o dono do dia cede espaço para o outro também lançar a sua canoa, cobrando 50% da safra eventualmente capturada. Enquanto a Tainha não vem, os pescadores esperam e se dedicam ao entretenimento. No rancho, jogam dominó. O jogo é de espera e perspicácia como a pesca. E eles são perspicazes. Assim como percebem o peixe oculto nas águas, percebem também o jogo oculto na mão do adversário e no monte de peças a comprar. Na praia, jogam bocha. O jogo é individual e se restringe a uma só rodada com o lançamento de três bolas. Não há contagem de pontos. Vence quem tiver a bola mais próxima ao burrinho. Quem perde, dá lugar a outro que tentará desbancar o vencedor. 197


No mais, joga–se conversa fora. Pequenos grupos reúnem–se aqui e ali, falando do tempo, do mar e dos peixes – principalmente da Tainha, a estrela da temporada. As conversas são longas, tranqüilas e interessantes, como longo, tranqüilo e interessante, é o horizonte descortinado do mar. Ao anoitecer, os pescadores vão dormir com as tainhas – que recolhem–se cedo como as galinhas. No alvorecer do dia seguinte, eles estarão a postos no rancho novamente, esperando encontrá–las aos milhares. A PESCA PREDATÓRIA A pesca artesanal na temporada, não causa dano algum ao ambiente. A capacidade de reprodução dos peixes, é muito maior do que a capacidade de captura. O mesmo não se pode dizer da poluição das águas e das redes e espinhéis de muito anzóis, lançados ao mar por barcos motorizados que desrespeitam o ciclo reprodutivo. Os peixes vivem dias difíceis. O Atum, não tem a mínima chance. É capturado em massa por helicópteros que o localizam e acionam botes velozes com quilométricas redes que o cercam. Milhares de peixes grandes e pequenos são limpos e embalados a bordo. O navio é um frigorífico no mar. Completada a carga, leva o Atum enlatado à terra pronto para consumo. O salmão, a sardinha, a lula, o polvo e a lagosta, já não tem onde se enfiar. Até as estrelas do mar, são devoradas na Ásia. Nos rios, com menor volume de água, é ainda pior. O leito assoreado e envenenado por lixo químico e plástico, serve de vala comum a milhões de peixes asfixiados sem oxigênio a qualquer estiagem. E as barragens cada vez maiores e mais próximas, impedem a piracema e a procriação nas cabeceiras. Décadas depois da implantação da barragem de Bom Retiro, a fauna pesqueira ainda não se recompôs no rio Taquari. 198


Ou o peixe não está conseguindo subir ou perdeu o hábito nos 35 anos gastos na construção do elefante branco. Caso à parte é o da Baleia. Antes flechada e carneada sem piedade, agora é preservada e se multiplica livremente. É comum ver grupos de 20 a 30 animais costeando o litoral catarinense. Tanto é que um dos esportes preferidos na orla, é assistir ao seu passeio noturno. Com a namorada no carro, é claro, nem que seja um velho Fuca ... CHEIRO DE MELANCIA Quando diziam que o cheiro de melancia na praia de Recife denunciava a presença de tubarões na água, eu achava que era lenda. Agora está provado. Havendo cheiro da cucurbitácea, é melhor ficar na areia. Os molhes do porto de Suape, desviam as correntes marítimas e conduzem os tubarões à praia de Boa Viagem. Em períodos assim, o pessoal evita o banho e costuma limitar o programa às corridas noturnas do peixe. É impressionante o que tem de carro entre os coqueiros, vendo a corrida de tubarões à noite. A MULTIPLICAÇÃO DOS PEIXES A iniciativa do Charles na Linha São José, tem tudo para incrementar o consumo de peixes no Alto Taquari. Além dos peixes de água doce dos açudes de seu Pesque e Pague, ele pretende trazer espécies de água salgada de Garopaba – SC – onde possui uma peixaria à beira mar. Além de garopa, tainha, abrótea, robalo, linguado e camarão, ele promete trazer a lagosta. Seria bonito ver a Gisele Bünchen dos mares desfilar nas mesas altotaquarianas. – Quem não gostaria de comê–la ?

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A CAÇA A caça anda escassa, mas ainda freqüenta o cardápio. O habitat dos animais selvagens limita–se ao mato ciliar dos córregos e à floresta que coroa os morros. Estas felizmente, vem retomando as encostas antes tomadas pelas roças manuais. Os velhos colonos já não têm forças para plantar a tiro e colher a laço nas escarpas. Os jovens vão para a cidade e desocupam a moita para os bichos viverem em paz. Paca, tatú, capivara, lebre, marrecão, pomba, perdiz e ratão do banhado ( nútria ), são tipos de caça muito apreciados ao molho com massa caseira. Já o veado, é comido no espeto. O TILTAPZ A caça ao Tiltapz, é o ritual de batismo do forasteiro recém chegado, antes de reconhecê–lo como cidadão estrelense. O batizando é levado a uma caçada noturna no mato e orientado a segurar um saco aberto na trilha do Tiltapz, enquanto os experientes caçadores locais saem a procurar o bichinho para conduzí–lo à trilha por ele vigiada. No mais absoluto silêncio para não espantar a presa, os amigos vão se afastando ... se afastando ... se afastando ... até sumir na calada da noite, deixando o novato na espera com o saco na mão. No dia seguinte, ele conta como voltou para casa e qual foi o resultado da caçada. Invariávelmente, sai sapateiro .. A PASSARINHADA Apesar da atual profusão de pássaros, a passarinhada ao molho com massa caseira, sumiu do cardápio. Ninguém mais mata passarinho. Eles voam, piam, cantam, cagam e fazem ninho em nossa cabeça, sem que nada lhes aconteça. 200


Estão sendo ecológicamente alimentados e gozando de liberdade como nunca tiveram. Já há até registros de bandos obesos e sedentários, com preguiça de voar. – Até na Serra, tem passarinho ! conta o estrelense surpreso com a casinha do João de Barro num pinheiro em Garibaldi – fato impensável há poucos anos. GATO POR LEBRE Comida muito apreciada é a lebre. E o Quinca Pereira convida os amigos para comer uma lebre dos deuses em sua casa. O jantar é excelente, fora de série. Sobram elogios ao cozinheiro. – Há muito tempo não comia uma lebre assim ... – Muito macia e bem temperada ... – Parabéns ! – Quinca ... – Show de bola ! elogiam os comensais. Um deles, vai ao banheiro na área de serviço e se depara com peles estranhas no tanque de lavar roupa. Intrigado, observa que as manchas escuras em fundo branco, nada tem a ver com a pele avermelhada da lebre. – Será que eu bebi demais ? pensa ele, duvidando do que vê. Manuseia uma das peles com a ponta dos dedos e percebe que a diminuta orelha é sete vezes menor do que a da lebre. – Béééxxx ... bruááhh ... comemos gato por lebre ! descobre, esguichando uma súbita golfada de vômito na garganta – que logo contagia os demais. O anfitrião, gargalha e rola de rir. Coisas do Quinca ...

O CHIMARRÃO Assim como o churrasco, o primitivo chimarrão indígena é uma unanimidade entre os estrelenses. 201


Sem grande risco de errar, pode–se afirmar que a erva mate talvez seja o produto industrializado mais consumido pela população. É no mínimo uma cuia por dia. Nem o sal e o açúcar, chegam a tanto. – Chimarrão, com água quente numa cuia com bombinha, faz milagre e livra a gente de qualquer indigestão ... aprende–se a cantar desde criança. E é verdade. O mate amargo é um santo remédio. Puro, ou acompanhado de chá de camomila, erva cidreira, boldo, carqueja ou uma folhinha de laranjeira – facilita a digestão e serve de contrapeso aos excessos da mesa. Além disso, o chimarrão é um grande companheiro. Tomado em grupo, promove a cordialidade. Sòzinho, induz à meditação. A ERVA MATE A erva mate não é mais uma commodity. Da concha a granel na antiga Venda, passa a ser embalada como produto de marca, exibido vistosamente em mercados de auto serviço. As unidades de 250, 500 e 1.000 gramas, incorporam modernas técnicas de marketing e informação ao Consumidor. Tem até amostra grátis para estimular a experimentação. A embalagem, informa o nome científico da planta, seus benefícios, a procedência da matéria prima, a classificação de moagem e instruções para iniciar o chimarrão. A Ilex paraguayensis – nativa ou cultivada, moída fina, grossa ou tradicional – age como estimulante cerebral e combate os radicais livres do envelhecimento. É tudo de bom ... AS MARCAS As antigas Flávia e Figueira, sofrem hoje feroz concorrência. As novas marcas fazem de tudo para conquistar a preferência do Consumidor. 202


A Yacuí, a Amável e a Gaúcha da Serra, insinuam seus encantos ao mercado masculino. A Tertúlia, Fronteira e o Ximango, dirigem–se ao mais genuíno gaúcho. O Valério, o Sabadin e o Barão de Cotegipe, valem–se do seu prestígio para influenciar os valentes. A Nova Geração, mira os jovens. A Natumate, enfatiza o produto natural. A Pastoreio, sugere matear vendo o gado pastando. O Degasperi, prestigia a marca da rede familiar varejista. A Jacutinga e a Madrugada, lembram o alvorecer – o horário nobre do chimarrão. – Quem madruga, Deus ajuda ! exclama o Cônego Hugo, passando a cuia a meu pai. – Ou tem mais tempo para não fazer nada ... retruca o Franz Reckziegel – parceiro madrugador no Estrela da Manhã. O PREPARO No preparo do chimarrão, o gargalo é o entupimento da bomba. E o roteiro para evitá–lo é sempre o mesmo. Põem–se a erva na cuia inclinada de lado, deixando um espaço lateral vazio para pôr água morna e introduzir a bomba, após alguns minutos de descanso. O uso de filtro – ou camisinha – no bulbo da bomba, retém as partículas foliares e ajuda a evitar o entupimento. E não há que ter pressa para iniciar o chimarrão – como faz o estressado recordista que se gaba de prepará–lo em 8 segundos. O ritmo da roda do mate, é lento. Está mais para a mó do moinho de pedra do que para o acelerado giro do liquidificador. Um adesivo de No Stress ... poderia complementar a embalagem da erva, como um sêlo de tranquilidade. – Enquanto a chaleira chia, meu amargo vou cevando ... diz a canção popular lembrando o chiado da água na pré–fervura. Quando a chaleira chia, a água está na temperatura ideal para a bebida. Neste ponto, ela está bem oxigenada e não queima a erva e nem a boca. 203


O LUGAR O chimarrão em Estrela, é servido em qualquer lugar. As casas, praças, calçadas, escritórios, lojas, postos de gasolina e até os automóveis, exalam o cheiro do mate. Dirigir o carro com a cuia na mão, é comum no transito. Tão comum, que não há matômetro e nem multa para isso. Os guardas, só multam motos e bicicletas – quando o mate é sorvido em movimento. A HORA DO CHIMARRÃO Seja qual for a hora, a hora do chimarrão é de paz. Com a família ou com amigos, fala–se mansamente de tudo. Dos ascendentes, dos descendentes, das amizades e da plena felicidade daquele momento de tranquilidade. Quando está só, o estrelense ceva o mate lendo o jornal ou ouvindo o rádio e os passarinhos. E não raro, fala sòzinho. Mergulha na vida e troca idéias consigo mesmo, acariciando a cuia na mão. Entre um gole e outro, avalia suas forças, estuda alternativas, escolhe direções e traça os seus próprios caminhos. É por isso que se diz que o gaúcho torna–se adulto ao tomar o primeiro mate sozinho. Matear, leva à reflexão e conduz à maturidade ... A RODA Enche a cuia quem comanda a roda. Ela vai sempre no mesmo sentido e cada um deve sorver integralmente o seu mate até roncar. Os puristas dizem que o certo é o sentido anti horário, girando sempre para a esquerda. Outros, dizem que é o contrário. Mas à esquerda ou à direita, a conversa rola solta. O tempo da cuia na mão é livre, mas tem seus limites. Não se pode “ morrer com a cuia na mão ”... retendo–a em demasia. 204


– Prá mim, chega ... deve anunciar quem não quer mais, ao devolver a cuia vazia ao condutor da roda. O PADRE LALAU Na roda do chimarrão da Vovolandia, as velhinhas comentam a recente viuvez do Naldo – um colega muito rico, que vive ali. – Ele tem muito dinheiro ... – Com esse dá para casar ... – Ah, mas ele é um chato, muito pão duro ... – É um miserável ! – Ach ... eu prefiro ficar com o Padre Lalau ... afirma a Frau Schenn, que as visita. – Com o padre Lalau ? estranham todas. – Sim ... confirma a visitante. – O Padre Lalau sempre vem na minha casa. Telefona de manhã e marca a visita para a tarde. Eu tomo um banho, boto um perfume e nós vamos para a cama ... – O QUEEE ??? exclamam as velhinhas, não acreditando no que ouvem. – Eu tiro a blusa e só deixo ele mexer na parte de cima ... embaixo ele não mexe, só passa a mão nos meus tits e fica gemendo até ter uns tremelicos ... conta a Frau Schenn. – Ach, então esquece o Naldo ... sugere a mais espirituosa. POR TODA A VIDA O chimarrão acompanha o estrelense do nascimento à morte. E para cada etapa da vida, há as recomendações de praxe. Na Maternidade – na primeira foto do bebê em seu regaço – recomenda–se que a mãe deixe a cuia de lado e enquadre a criança no seio materno para adquirir anticorpos e evitar queimaduras. Na segunda foto, o mate ainda não deve aparecer. O pai deve ater–se à camisa do Grêmio ou do Inter, pois o recém nascido ainda necessita dos anticorpos do leite. 205


O Batizado, é o momento ideal para iniciar a criança no gauchismo. O padre deve encher a cuia batismal de água benta com erva e borrifar o bebê com a bomba, ao invés do toríbulo. O 5.º aniversário, é a melhor idade para o primeiro gole. O kit infantil Chimarrita é o melhor presente. Adicionar açúcar na água morna da cuinha, é uma boa prática para tirar o amargor e evitar o trauma pelo resto da vida. A partir dos 10 anos, o guri estará pronto para ter o seu próprio equipamento. Os pais e padrinhos, devem se cotizar para dar–lhe a chaleira, cuia, bomba, pacote de erva e garrafa térmica. Se gostar de matear sozinho, pode tornar–se adulto ainda em tenra idade e jamais largará o mate. MATE A DOIS Ao iniciar a vida a dois, é fundamental que o casal tenha bom equipamento. Os apetrechos devem constar da lista de presentes dos noivos, para que eles possam chupar juntos já na lua de mel. Durante a vida, podem até incluir outros parceiros na roda, mas é importante manter o hábito de ficar a dois. A morte do marido, não precisa necessáriamente acabar com o mate a dois. Viúvas inconsoláveis podem continuar oferecendo a cuia ao falecido em seu túmulo no cemitério: – Toma mais um, Schnúki ? Se ele não aceitar, a viúva estará livre para rodá–la com o vizinho.

VELÓRIOS Cada povo, vela os mortos do seu jeito. Alguns fazem o velório em completo jejum. Outros, servem café, balas e bolos. Em São Paulo, os ricões fazem velórios de altíssimo luxo com canapés, caviar e champagne francês em sofisticadas mansões dos 206


antigos barões do café na Av. Paulista – o metro de chão mais caro do mundo. Já em Candido de Abreu, no Paraná, os pobretões fazem do velório uma animada festa de despedida regada à Cachaça. Na morte do Tilico, a pinga roda solta em sua humilde casa de madeira. – É disso, que ele gostava ... – Um último brinde ao Tilico ! – Anestesia a dor dos que ficam ... justificam, os parentes e amigos, apreciadores da boa pinguinha. À medida em que a pinga avança, a sala vai ficando pequena para o fandango em que se transforma o evento. E já que o Tilico não bebe e não dança, os amigos abrem espaço na sala levando o esquife e as flores para a varanda. Apoiam o caixão sobre os dois cavaletes e voltam ao baile sapateando e fazendo a casa inteira tremer. Na manhã seguinte, após o grande festerê, os amigos lembram que o Tilico é presença obrigatória na ida ao cemitério. Sem ele, não tem enterro. Vão buscá–lo na varanda e não o encontram mais lá. – Onde estará o Tilico ? – Como pode sumir assim ? – Para onde terá ido ? perguntam–se todos, intrigados com o sumiço. Teorias de toda ordem, tentam explicar a sua ausencia. Alguns suspeitam de rapto. Outros acham que não morreu. Os mais crentes, acreditam até em milagre – em ressurreição e ascensão ao Céu – a exemplo de Cristo. – Aleluia ! – Aleluia, Jesus ! gritam os fiéis pentecostais. Após uma hora de intensa busca, desvendam finalmente o mistério. Encontram o caixão jogado entre as bananeiras do quintal, a três metros abaixo da varanda. Reposto o esquife na sala, o pastor chama a viúva para a despedida final. Cambaleante e chorosa, ela se aproxima do marido e lhe bafeja o último adeus : – Adeus querido ... Hic !!! soluça ela. – Adeus Tilico ... hic ! hic ! hic ! acompanham os amigos. 207


VELÓRIO ESTRELENSE A história do Tilico, rende assunto entre os Malas de Estrela. – Ao invés de docinho ou cachaça, deveriam servir chimarrão no velório ! sugere o Marquinhos. – Morre o morto, mas não morre a tradição ! apoia, o tradicionalista Chico. – Só teria vantagens. Tiraria o sono dos que velam o corpo à noite e de dia atrairia mais gente ao velório ... afirma o Professor. – E aumentaria o tempo de permanência dos visitantes ao lado do caixão ... emenda, o Maneco. – As famílias ricas, não precisariam contratar gente de fora para vir chorar no velório ! imagina o Kopf. – Gente de fora ? indago eu. – Claro, eles vem com uma Topic cheia flores e se derramam em lágrimas diante do caixão ... reforça o Padeirão. – Mesmo não conhecendo o morto, choram e ficam falando de suas qualidades ... confirma o Kopf. – Qualidades que ninguém antes conhecia na cidade ... reforça o Jacó. – E o arroto de chimarrão da viúva na cara do morto, seria melhor do que o bafo de pinga da mulher do Tilico ... brinco eu. NOITE FELIZ Como os Padres são poucos para atender a grande demanda de cerimônias religiosas, a Igreja delega a ministros leigos, a condução de algumas delas. No velório do Arroio do Ouro, o Padre não vem e o José Ari assume o discurso. Consternado diante do caixão, faz as orações de praxe e convoca os fiéis a cantar: – Noite feliz ... Noite feliz ... Oh Jesus ...

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SEM ERVA O Hahn, é galo. Não há mulher que ele não queira bicar. Sabendo que o compadre Ivo está viajando, ele decide visitar a comadre Hingel – com quem vem trocando furtivos olhares há um certo tempo. – É hoje ! pensa ele, batendo as asas no peito diante do espelho, após o banho. Passa um Colgate no bico, Glostora na crista, Aquavelva na cara e lá se vai de camisa nova para a casa da comadre. Tímido, desajeitado, meio grosso mas louco de safado, vai logo lascando o curto vocabulário quando a Hingel o recebe na porta: – Comadre, só tem duas opção ... ou vamos prá cama ou tomamos um chimarrão ! – E não é que me pegou sem erva, Cumpadre ... responde ela, com um sorriso maroto.

NEGÓCIOS FAMILIARES A vida é difícil para os pequenos empreendedores. Após dez anos de mugido de bezerro e grunhido de porco no Açougue, meus pais vendem o negócio para o Orlando Eli – que depois o passa ao José Fernandes, antes de fechar definitivamente. No mesmo velho prédio do açougue vago, o Naninho monta a fábrica de bebidas Patropi. Produz a conhecida cachaça Schwambinha, o xarope de Framboesa Patropi e o Karl Bitter – um fernet amargo de ervas, tipo o Underberg. O mercado é bom. O “ limãozinho seco ”, com cachaça, limão e bitter, tem grande consumo em Estrela. Mas a concorrência é forte. A Rapôsa, Juriti e Ourinho dominam o mercado. E a entrada de cachaça paulista mais barata, dificulta ainda mais o negócio. Assim, o Naninho larga a bebida e vai trabalhar com os pais na Soges. 209


FÁBRICA DE BOLACHAS Meu pai associa–se ao Orlando Thomas na Fábrica de Bolachas na Coronel Brito – em frente ao atual Morelli – mas o negócio mostra–se pequeno para sustentar duas famílias. Continua então à procura de outra atividade até encontrar a oportunidade de voltar ao Clube – recém reformado e ampliado por Arnaldo J. Diehl. Em sociedade com José de Freitas Belo, ele assume a economia pela segunda vez. Minha mãe e a Helena, participam ativamente das ações para reconquistar a freqüência da Soges – muito escassa naqueles tempos da pós–reforma. A VOLTA AO CLUBE O segundo período na Soges dura dez anos e é marcado pela terrível tragédia familiar que envolve a morte do Nenê, com apenas 17 anos no rio Taquari. Outra tragédia, quase acontece com o Naninho em plena Copa do Clube. O Hünemeier mostra um novo revólver ao Ivo Bergesch e a arma dispara sobre o balcão do bar durante a exibição. A bala passa entre o braço e o corpo do meu irmão, a poucos centímetros do coração e vai alojar–se na grade de copos atrás dele. ARMAZÉM RECKZIEGEL Extenuados com a pesada rotina e a falta de sol do Clube, meus pais optam por um negócio menor e mais tranqüilo. Assumem o Armazém Reckziegel e passam a morar no andar térreo do sobrado em que moraram quando recém casados. O armazém é muito frequentado por gente que vêm ao Hospital. Os assuntos giram em torno de doentes, doenças, erros e acertos médicos. 210


Durante o lanche, dois rapazes da colônia falam do pai deles, hospitalizado pela primeira vez aos 80 anos de idade. – Sempre teve saúde de ferro, nunca foi a um médico ... comentam os filhos. – E o que ele tem agora ? pergunta meu pai. – Ach ! Ele se mata de tanto trabalhar ... respondem eles. O GALPÃO DO CRISTO REI Dois anos depois, meus pais mudam para a chacrinha adquirida ainda nos tempos do Clube e a convite do Padre Lauro, passam a fazer eventos no Galpão do Cristo Rei. Numa visita do Presidente Ernesto Geisel, fazem talvez o maior churrasco já acontecido em Estrela. Dez cozinheiras, 20 churrasqueiros e 50 garçons, servem 1.200 kg de carne, 700 kg de salada de batata, 3.000 pãezinhos e 1.000 litros de bebida a 1800 convidados, simultaneamente sentados em seus lugares na mesa. Depois de tal façanha, meus pais fazem juz à sua modesta mas muito bem merecida aposentadoria.

MERECIDO DESCANSO Meu pai faleceu em 1993, com 76 anos. Dezesseis anos depois, minha mãe o seguiu aos 88 anos de idade. A eles, uma singela homenagem: Pai e Mãe, No campo da vida terrena, Voces plantaram fértil semente E cumpriram árdua missão. Cultivaram a terra plena e colheram safra abundante De respeito e admiração. Embora a morte os leve para cultivar novos campos 211


Suas vidas aqui não terminam. Seu exemplo se renova, dele nasce safra nova Suas sementes aqui germinam. A força do seu caráter e o honesto modo de vida Perpetuam suas lembranças, valorizam suas heranças E nos mostram claramente, a melhor trilha a ser seguida. Por este mundo vocês passaram, como tudo passa e se vai Mas, suas marcas aqui ficaram, sua presença permanece Seu valor ninguém esquece. Muito obrigado, meus pais !

LARANJA MARIA Temos um pé de laranja azeda muito especial. A fruta tem casca grossa e amarga, ótima para o doce. O fazemos preservando a receita da minha mãe em vida e o chamamos de Laranja Maria. Doce de laranja, de laranja azeda Maria fazia. Doce de laranja, da mesma laranja Fazemos a Laranja Maria. Doce de laranja, melhor Só Maria, faria.

PERFEIÇÃO HUMANA Meu pai sempre foi muito espirituoso e original. Sempre que ouvia falar mal dos outros, ele interferia com fina ironia: – Não falem mal dos outros. Devemos perdoá–los. Não podemos esperar que eles sejam perfeitos como nós ... 212


FALTA D’ÁGUA Vindo de Beija Flor, meu pai encontra na estrada um conhecido colono com o carro soltando fumaça pelo cap��. Estaciona o Libuna para oferecer ajuda. – É falta d’água ... diagnostica, em meio à fumaça. – Não pode ser, choveu o dia inteiro ... explica o colono. MORTO ERRADO O Rudi chega ao velório do meu pai, deposita as flores no chão e reza compenetrado diante do caixão. Terminada a oração, junta–se a nós e integra–se na conversa do pequeno grupo de amigos e familiares. Eu o reconheço, mas ele não sabe quem sou. – Este é o Astor, filho do Erny que mora em São Paulo ... apresentam–me a ele. – Filho do Erny ? indaga o velhinho. – Sim, do Erny Hauschild ... esclareço. – Este é o velório do Erny ? pergunta, arregalando os olhos. – Sim, do meu pai ... – Meu Deus ! – Estou no morto errado ! exclama, assustado levando a mão à cabeça. Confuso e desorientado, retoma apressadamente as flores e sai em passo miúdo para o velório do seu sobrinho na sala em frente. Até então impassível no esquife, meu pai esboça seu último leve sorriso de bom humor ...

CINEMA NOVO Pelas mãos do Ivo Bergesch, o Cine Guarani, sai do Clube e vai para o majestoso prédio novo de dois andares e duas bilheterias. Tudo é novo, elegante e moderno – coisa de cinema ! 213


Na calçada, os coloridos cartazes com artistas famosos anunciam os filmes a serem exibidos em cinemascope. No hall de entrada, o pequeno balcão envidraçado, expõem balas, chocolates e chicletes, a serem saboreados durante o filme. Frondosas cortinas bordeaux vestem o alto da escada e escurecem o grande salão de piso inclinado e luz indireta no teto e nas paredes laterais. As novas poltronas – de assento dobrável e conforto nunca visto – tem fácil acesso e ótima visibilidade na fileira central e nas duas laterais, para a enorme tela ao alto do espaçoso palco. Espectadores discretos, podem subir ao mezzanino para ter maior privacidade. CINECOLOR O Lucildo de Jesus inaugura o novo projetor com O Cangaceiro – estrelado por Alberto Ruschel, famoso ator estrelense. O preto e o branco da tela, dá lugar ao colorido. O número de sessões se multiplica. São três dominicais e cinco noturnas durante a semana, excetuando a segunda feira. Todas precedidas de trailers das próximas atrações e do Canal 100 com jogos recentes do campeonato carioca no Maracanã. Não há quem não conheça a sua inconfundível trilha sonora. MATINÉE DE DOMINGO Antes da matinée de domingo, trocamos revistas usadas. Cada guri tem a sua própria coleção. Os Gibis, Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey e os Sobrinhos do Capitão, rodam de mão em mão a cada semana. A risada do Pateta é inconfundível – Iac! Iac! Iac! Outra onda, é o álbum de figurinhas dos times de futebol. As mais difíceis, são muito valorizadas na troca – a do Zózimo e do Oreco, valem duas ou três das outras. As mais comuns são disputadas na tabufa, batendo a palma da mão para virá–las no chão. Lá dentro, todo mundo masca chiclete ou come bala e pipoca. 214


A bala é Mocinho. O chiclete, é Adams, verde ou amarelinho. O chiclé balão, faz bola e gruda nos lábios. É uma bosta. Iniciada a sessão, gritamos e batemos o pé torcendo por nossos heróis. O Capitão Marvel e o Super Homem, voam entre os arranha–céus de Nova York à busca dos malfeitores. O Batman e o Robin, desarmam as malévolas artimanhas do Pinguim e do Curinga e os põe a correr. Bandido, não tem vez no Bang–Bang. Por maior que seja o bando, o Mocinho ganha sempre. De um em um, Durango Kid vai abatendo os assaltantes que fogem a cavalo pelo deserto texano, até prender o Chefe vivo e recuperar o dinheiro do Banco de Dallas. O Hopalong Cassidy, Zorro, Roy Rogers, Alan Ladd e Gene Autry, são também especialistas em reaver o ouro roubado do trem ou da diligência. Quando os bandidos são índios, John Wayne, Kirk Douglas e Gregory Peck, matam Apaches, Sioux, Navajos, Cheyennes, Cherokees e Kayowas aos milhares. – A thousand indians were killed ... mil índios foram mortos … relata o telegrafista do Correio, em Código Morse ao jornal de Kansas City. TARZAN O Jim das Selvas é bom, mas sua roupa safári é elegante demais para a savana africana. O Rei da Selva é o Tarzan – o homem macaco, criado pelos símios. De tanga de couro, ele voa pelos cipós ecoando seu grito pela floresta, espantando os ferozes inimigos africanos. De cara limpa e apenas um punhal, ele enfrenta o leão na ravina ou o gigantesco crocodilo que se debate com ele na água. Gritamos e batemos o pé com a Chita, na torcida por ele. O momento culminante é quando ele espanta os pigmeus canibais que dançam em torno da Jane e do Boy amarrados num poste, ameaçando fervê–los no panelão da fogueira. 215


Johny Weissmüller envelhece e Lex Barker – o segundo Tarzan – surge na tela com o mesmo grito de vitória e as mesmas escassas palavras em inglês: – Me, Tarzan ... you, Jane. – Eu, Tarzan ... tu, Jane. AS COMÉDIAS Há comédias para todos os gostos. Carlitos, os Três Patetas, o Gordo e o Magro, Abbott e Costelo, Cantinflas e Jerry Lewis, fazem gato e sapato na tela. Entre os nacionais, o caipira Mazzaropi e as chanchadas do Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Zezé de Macedo e Zé de Andrade, arrancam gostosas gargalhadas de crianças e marmanjos. Gina Lollobrígida, Marcelo Mastroiani, Sophia Loren, Ugo Tognazzi e os Vitórios Gassman e De Sica, nos divertem nas gritadas comédias italianas. – Dio mio, como gritam ! OS ÉPICOS Nos filmes épicos romanos, Charlton Heston e Vítor Mature, mostram quanto sangue se derrama no Coliseu e nas arenas de Roma. Os gladiadores vão até o fim. Matam o derrotado ao sinal do imperador apontando o polegar para baixo. E os cristãos, coitados, não tem a mínima chance de mãos vazias diante do leão. O mesmo sangue plebeu jorra também de nobres gargantas imperiais nas intrigas palacianas em Spartacus e Quo Vadis. Sansão e Dalila, Davi e Golias, mostram que a inteligência pode vencer a força. O grego Ulisses usa o cavalo de Tróia para resgatar a Helena. E os olhos lilazes de Elizabeth Taylor como Cleópatra, brilham mais do que os luxos da corte do rei Salomão. 216


GUERRA Nos filmes de guerra, um único e heróico pracinha americano, elimina os burros alemães e japoneses às pencas. Tyrone Power, Robert Mitchum, Gary Cooper, Mickey Rooney, Antony Quinn, Glenn Ford, Steve Mc Queen, Humphrey Bogard, Sidney Poitier, Kirk Douglas, Peter Sellers e David Niven, são heróis nas refregas em terra, no ar e no mar. O Kirk Douglas, é o pai de Michael Douglas – ator atual. ÁGUA COM AÇUCAR Canto e comédia, se mesclam nas fitas de Fred Astaire, Frank Sinatra e Dean Martin. Clark Gable, Henry Fonda, Cary Grant, Marlon Brando, Toni Curtis, Rock Hudson, James Stewart, Paul Newmann e o jovem Burt Lancaster, cortejam Greta Garbo, Vivian Leigh, Natalie Wood, Rita Hayward, Marilyn Monroe, Jane Crawford, Ingrid Bergman e Kim Novak, em tórridos romances de longos beijos. O romantismo e o tabagismo, flertam de mãos dadas. Todo galã fuma nos salões e na cama. Depois do whisky e da transa, a fumaça se esvai em charmosos círculos no ar. Os nomes de James Cagney e Debora Kerr, viram piada entre nós: – Já me caguei, o que mais a Debora quer ? OS FRANCESES Ives Montand, Alain Delon, Jean Paul Belmondo, Brigitte Bardot e Catherine Deneuve, fazem a nouvelle vague com muito romantismo, escasso diálogo e pouca paisagem. Gérard Dupardieu, ainda é novinho mas tem futuro e torna– se o maior ator Frances dos anos mais recentes. De Brigitte, tenho uma lembrança recente e muito especial. No estacionamento em Mônaco, paro exatamente na mesma vaga em 217


que a vejo manobrar e sair. Mesmo enrugada, é a estrela de sempre. Próximo dali, Grace Kelly – que virou a Princesa de Mônaco, casando com o Príncipe Ranieri – morreu num trágico acidente. Sua echarpe presa na porta do carro, a faz perder a direção e despencar no penhasco da Riviera. TRILHAS SONORAS As mais belas trilhas sonoras se perpetuam em disco. The Love is a many splendored Thing, é um eterno sucesso. O Look for Stars, do filme O Circo dos Horrores, vai para o rádio. Dominique, nique, nique ... é cantada pelas meninas. La Violetera com Sarita Montiel, também deixa a sua marca. Ao vê–la anos depois no Hotel Alvear em Buenos Aires, constato que ela é tão linda quanto no filme. IT’S NOW OR NEVER A irreverência de James Dean em Juventude Transviada e o rock’n Roll de Elwis Presley em seus inúmeros filmes, afrontam os velhos costumes e fazem a moçada delirar. – It´s now or never – é agora ou nunca – cantam os adolescentes, ansiando por novos ares. FILA PARA ENTRAR Gente de todo lugar vem ver Sissi a Imperatriz, com Rommy Scnheider. É o record histórico do Cine Guarani. Os Dez Mandamentos, Marcelino Pão e Vinho, Sempre aos Domingos e A Noviça Rebelde, não ficam muito atrás. Atraem excursões de toda a região. A Mosca da Cabeça Branca, de ficção científica, é também tão comentada quanto os campeões de bilheteria.

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PINHÃO GENTE Em frente ao Cinema, o Carmelito vende pinhão quente em cones de jornal. O fumegante produto é anunciado em letras brancas em seu rústico carrinho de madeira: – PINHÃO GENTE – dizem as letras garrafais pintadas na lateral. – O que ele está querendo dizer ? fico imaginando, ao ler aquilo pela primeira vez. – Pinhão Gente, não existe – o pinhão é vegetal, não é gente. – Pinhão, Gente ! com vírgula e ponto de exclamação, teria todo sentido como apelo de vendas, mas é de um requinte literário pouco provável para o vendedor de pinhões. – Se anunciasse – Olha aí o Pinhão, Gente ! a mensagem seria perfeita, mas não é isso o que está escrito ali. Para aclarar o que já venho supondo, eu lhe pergunto: – O pinhão tá Gente, Carmelito ? – Tá Quente ! responde ele, confirmando que o Pinhão Gente é Pinhão Quente, mesmo. CINEMA PARADISO Cinema Paradiso, é a minha história ! O menino Totó do filme italiano, descobrindo as maravilhas da sétima arte no Cinema Paradiso, sou eu criança, no Cine Guarani ainda improvisado no salão do Clube. O projetista Alfredo da Sicília é o Urbano de Estrela – o bom amigo que me ensina os segredos da arte. RECICLAGEM O advento da televisão corrói as filas do Cine Guarani. Após anos de sucesso, a única sala de cinema de Estrela entra em agonia até cerrar melancólicamente suas bilheterias. 219


Vai–se um ciclo, mas outro se inicia. Exatamente no mesmo lugar, o Chris segue a tradição famíliar e mantém acesa a chama da paixão pelo cinema em sua Videolocadora. Guerra nas Estrelas, Bonnie and Clyde, O Poderoso Chefão, Golpe de Mestre, A Lista de Schindler e outros os sucessos mais recentes podem ser alugados para assistir em casa. O cinema não morre – só muda de tela. LUZES DA RIBALTA O Carlitos – do cinema mudo, às voltas com as engrenagens industriais dos Tempos Modernos – é um personagem de Charles Chaplin. E Charles Chaplin, é também autor da música Luzes da Ribalta – melodia que ele compôs sem letra. Ao ouvi–la, o carioca Braguinha – o João de Barro, autor de o Carinhoso, Copacabana Princesinha do Mar, Touradas de Madri, Ô balancê, balancê e outros sucessos populares – sugere por carta a Chaplin, uma letra para a bela canção. Charles Chaplin gosta e aprova. E assim, o “ Para que chorar o que passou, lamentar perdidas ilusões ” ... passa a percorrer o mundo em inúmeros idiomas. É um privilégio, ser amigo do Braguinha. Após a feijoada em nossa casa, levamos o Braguinha a passear no Shopping Eldorado. Na escada rolante, ele conversa com o Fernando – então com 5 anos de idade: – Fernando, hoje estou muito feliz ... – Por que tio ? – Por dois motivos. Por estar em São Paulo e por ter conhecido um novo amigo ... – Quem tio ? – Você, Fernando ! Assim, é o Braguinha, o João de Barro – todo coração, falecido há pouco tempo aos 92 anos de idade. 220


O ORIENTAL Esporádicamente visitamos os meus avós paternos no longínquo Oriental. A poeira da estrada de chão cobre as roças de milho, cana e mandioca. Passando a ponte do Wirz, anda–se um bom bocado até chegar ao Curtume Vier, enterrado na funda baixada à direita. Sobe–se então mais um pouco até chegar à simétrica alameda de árvores do Henrique Üebel. Logo acima, começa a roça de cana dos meus avós. O Vô Antônio cria porcos. Ele, o meu pai e o tio Léo, estão sempre falando do ponto de equilíbrio entre o preço do milho, do porco e da banha. Se a relação não for boa, é prejuízo na certa. A Vó Margarida, a tia Vilma e minha mãe, falam mais de roupa e comida. De como preparar o schweineprode mitt manhoc – assado de porco com aipim – para o almoço. À tarde, o assunto é o pão de milho, a schmier e o kässschmier, servidos no café com linguiça. Eles também tem vacas, galinhas e frutas. Com o ananás e gengibre, fazem o Schpritzbier – uma cerveja quente com tanta pressão que o líquido sai da garrafa num só espirro, quando sacudida. Há garrafas que estouram sozinhas. As terras dos meus avós, fazem divisa com os Sulzbach, no campo de aviação. Ali termina o meu mundo, dali para a frente, nada conheço. Gostaria de pegar um avião para ver se existe vida além das terras dos meus parentes. O PROGRESSO O incêndio do Curtume Vier – seguido pela instalação da fábrica de calçados logo acima – parece ter sido o estopim que faz explodir o progresso do bairro Oriental. Ano após ano, percebe–se o seu vertiginoso crescimento. 221


O Clube Rio Branco, o Colégio Martin Luther, o Parque 20 de Maio, a nova ponte do Arroio Estrela, a estrada da Produção, a ponte do Taquari, a Estação Rodoviária, o Corpo de Bombeiros e o Super Porto, são marcos do grande desenvolvimento que atrai outros tantos empreendimentos dos mais diversos tipos. A Avenida Rio Branco – com duas pistas e canteiro central – enterra de vez o antigo jeitão rural do bairro, dando–lhe feições tipicamente urbanas. Os pássaros que lá gorjeiam, já não gorjeiam como antes. São agora, luminosos pardais eletrônicos que seguram os motoristas a 50 km por hora. A MOTOSERRA Vendo o transito parado em frente ao posto, o Madoninha pensa numa solução mais veloz para deslocar–se entre os carros. – Pai, olha só ... ninguém consegue mais andar na Avenida, tu vai ter que me dar uma Moto ... – Valá, gurí ! – Eu vou te dar é uma Motoserra ! responde o precavido pai.

MAR À VISTA Santa Terezinha, é o destino de nossa primeira viagem à praia. Entre 04 adultos e 06 crianças amontoadas em meio à bagagem e mantimentos, lotamos a fubica do Anselmo Hartmann e zarpamos de madrugada para o mar. Algumas horas depois, já entramos em contato direto com a areia. Uma junta de bois, nos resgata do atoleiro entre Taquari e Montenegro. Só na “faixa” de São Leopoldo, passamos a ficar livres de novos encalhes.

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Tarde da noite – ainda lambuzados da rapadura e puxa–puxa de Santo Antonio da Patrulha – chegamos ao bolorento chalé de madeira perdido no escuro. No brilhante sol da manhã seguinte, descobrimos onde estamos. O chalé está ao pé da enorme duna de areia branca e muito fina, protegida do vento por uma esteira de palha na crista. O mar está longe e as ondas rugem no ouvido. Um raso córrego de água marron corre na praia para o mar, cuja água salgada é perigosa e cheia de sirís que pegam no pé. O vento fresco e constante, mascara a inclemência do sol. À noite, pareço um pimentão vermelho e febril. As bolhas na pele, sinalizam a imprudência infantil. Nem camiseta, consigo vestir. Os dois dias seguintes são de repouso total na sombra. Os outros vão à praia e eu fico em casa comendo abacaxi e as bananas do cacho pendurado na varanda. O terceiro, é lindamente nublado e eu volto a correr na praia. DOCES FURTADOS O Wuni Lenhardt – do Armazém ao lado da casa do Tica – é conhecido por falar e andar devagar – muito devagar. Pede–se algo no balcão e ele leva uma eternidade para ir ao depósito e voltar. É o tempo suficiente para surrupiar uma puxa–puxa, pão de mel ou bala de goma, expostos no balcão ao alcance das mãos. Para ilustrar a lentidão do Wuni, dizem que o padeiro chega com o pão antes dele terminar o pedido no telefone. Quando ele ainda está no – Até logo ... o padeiro já aponta com o cesto na porta. Os três irmãos Lenhardt são fortes no comércio de secos e molhados. Tem casas em boas esquinas. O Wuni, está na Júlio de Castilhos. O Beno, na Fernando Abbott com a 13 de Maio. O Inácio, está duas quadras abaixo, na 13 de Maio com Ernesto Alves, em frente à Usina. Só no Wuni, se adoça a boca de graça. Os outros dois, são bem mais ligeiros. 223


OS ECKERT – BONS VIZINHOS A família Eckert é enorme. O Seu Bruno e a Dona Olívia, têm dez filhos – quatro homens e seis mulheres. Eu e o Normélio, temos a mesma idade, brincamos juntos e estudamos no Cristo Rei. Somos amigos– quase irmãos. Estamos bem no meio da patota. O Sílvio, Cássio, Benícia, Dorli, Ilse e Marlene, são mais velhos do que nós. O Taldo, a Bernardete e a Marília, são menores. A propriedade deles tem duas entradas. Uma social, pela Geraldo Pereira e outra de serviço pela Pércio Freitas. A primeira, passa entre as casas do Osvaldo Eckert, do Velho Bakes e do Nisky. A calçadinha atravessa as bananeiras, o pomar de figos e a roça de alfafa, antes de chegar ao casarão em que moram. A segunda entrada, dá acesso à Olaria passando em frente ao Açougue. É usada por caminhões e carroças no transporte de tijolos. O casarão dos Eckert tem uma grande escada na frente e paredes grossas de alvenaria. Diferente do ferreiro que tem espeto de pau, a casa deste oleiro, é feita de tijolos mesmo. Os quartos desembocam na sala central. A cozinha e o banheiro, dão para o espaçoso pátio dos fundos, repleto de frutíferas. O pátio é uma saborosa salada de frutas. Tem marmelo, laranja do céu, butiá, caqui, abacate, mamão, araçá, lima, pêra pau, pêra manteiga, maçã verde, goiaba e bergamota, para consumo familiar. Em escala comercial, há pomares de laranjas, tangerinas, figos e bananas. E lá embaixo na roça de milho perto do arroio – ao lado do barreiro em que extraem a argila para fazer os tijolos – está a Cerejeira – o toque de classe do variado coquetel de frutas. O REX O Rex, é o ruidoso cão de guarda da residencia. 224


Ao contrário do que diz o ditado, o pequeno Fox ruivo de dentes afiados, late e morde. O Rex faz lembrar o ladrão que invade o jardim da casa e se depara com a placa: – Cuidado com o Papagaio ! – Ah, o que é isso? – Vou ter medo de um papagaio ? pensa o ladrão, indo em frente para perpetrar a invasão. Aproximando–se da gaiola, ouve o rico gritar : – Pega Rex ! – Pega Rex ! – Pega Rex ! E o Rex dos Eckert, não está sozinho no zelo pela segurança. Um cão maior e ainda mais brabo, rosna e tenta romper o arame que prende a corrente, na passagem para a Olaria. Há que ter respeito pelos cães do vizinho. PARALISIA INFANTIL Nossos pais são amigos e se visitam semanalmente. Numa das visitas do Seu Bruno e da Dona Olívia à nossa casa, estou sentindo fortes dores nas pernas sem motivo aparente. Eles sugerem me levar imediatamente ao Hospital. Lá diagnosticam o processo inicial de paralisia infantil, já com perda de sensibilidade nas duas pernas. Escapo por um triz. O rápido atendimento consegue reverter o terrível quadro, hoje tão bem evitado pelas gotinhas de Sabin. Tivessem meus pais esperado para o dia seguinte, eu poderia estar hoje numa cadeira de rodas.

ÚTIL E AGRADÁVEL Não há metro de chão que não seja cultivado, na propriedade dos Eckert. As roças de cana, milho, alfafa e mandioca, sustentam os porcos, galinhas, vacas de leite e os bois de tração.

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No baixio, colhe–se o agrião, vendido por nós em pequenos maços na vizinhança. Nos produtivos pomares, as frutas atraem os pássaros em bando. Os figos, são o prato preferido das Saíras. Ainda nem bem maduros, já aparecem bicados pelos passarinhos azuis e de sete cores. São tão danosos que exigem controle severo. O Seu Bruno nos paga uma moeda por ave abatida. Nada mais útil e agradável do que comer figo maduro e caçar passarinho juntando uns trocados no bolso. Alimentar os animais, exige abundante produção de milho e forragem. Há um intenso trabalho diário para mantê–los nutridos e nós ajudamos no que é possível. O milho é colhido na roça e levado ao paiol, onde o descascamos para os animais de pequeno porte. A alfafa é baixa e leve. Fácil de cortar com a foice e transportar na pequena carrocinha manobrada por nós. A cana e o capim elefante, são altos e pesados. Exigem penoso esforço no facão, impróprio para crianças. Neste caso, o bom mesmo é voltar da roça deitado sobre o volumoso verde na carroça. – Era boi ... grita o carroceiro a cada balanço que ela dá. A carroça é puxada por uma parelha de bois de canga. São juntas fixas de animais enormes e fôrça descomunal. No plano e no seco, andam com facilidade. No atoleiro, o relho ajuda a desencalhar. E os bois tem nomes sonoros: – Fôrça Gaúcho, fôrça Campeiro ! – Força Gráudo, fôrça Parceiro ! – Fôrça Carvão, fôrça Mineiro ! berra o condutor, estalando o relho no lombo dos animais quando carroça emperra. NOME AOS BOIS O nome aos bois, não se dá por acaso. A pelagem, o porte e a harmonia com o nome do parceiro da dupla, são fatores determinantes na escolha. 226


O Barroso e o Pitanga, soam tão bem que estão até em letra de música. Bonito e Formoso, Colorado e Campeão, também não fariam feio. Talvez inspiradas nisso, as duplas sertanejas seguem os mesmos princípios. Tonico e Tinoco, é de uma sonoridade ímpar dificilmente alcançada por outras duplas. Chitãozinho e Xororó, se harmonizam sonoramente. Zé Rico e Milionário, transmitem riqueza com bom humor. Mas há que ter cuidado para evitar combinações infelizes. Apesar de toda a pompa e sonoridade, duplas como Deputado e Senador, Político e Assessor, depreciariam os animais e cantores. PÃO COM SCHMIER À tarde na cozinha – após a árdua faina diária na roça – a Dona Olívia nos contempla com generosas fatias de pão de milho com grossas camadas de tsírup, schmier e kässchmier – tudo produzido ali. O tsírup – sírup – é o melado de cana, resultante do cozimento da guarapa. A schmier é a mistura de abóbora, marmelo, batata doce, goiaba e pêra, cozidas por longas horas em tacho de ferro. Dá um trabalho danado, mexer a pá de madeira no calor do fogo alto de lenha do fogão externo de tijolos. O kässschmier – um meio termo de nata e ricota – é derivado do leite retido em saco de pano pendurado para escorrer o soro. Em dias de chuva, o cardápio é ainda mais doce e variado. Wafel com canela, cueca virada e óiaprod ( rabanada ), fazem da tarde chuvosa quase um dia de festa. SEXTA FEIRA SANTA Brincar, subir em árvores e comer frutas no pé, é o que mais gostamos de fazer. Só não podemos fazê–lo na Sexta Feira Santa. 227


Os Eckert são religiosos – guardam jejum e silêncio no dia da paixão de Cristo. Vamos então colher o chá de macela para os lados da Santa Rita. Bem cedo pela manhã, saímos à procura do chá pelas roças e barrancos vermelhos. Como é dia de jejum, levamos pão com sardinha, tomate e pepino, acompanhados de gasosa quente.

O RABO DO LAGARTO O comprido lagarto de papo amarelo que aparece entre os galpões da Olaria, provoca a maior expectativa entre nós. Tentamos pegá–lo, mas ele é arisco. Um dia, consigo pegá–lo pelo rabo e ele escapa soltando a cauda em minhas mãos. Corre célere para o abrigo, deixando–me com o pitoco do rabo ainda vivo pululando diante de mim. Dias depois, ele volta a aparecer estirado ao sol com o rabo curto em regeneração, mostrando–me a língua bifurcada. Senhor de si, parece rir da minha cara, seguro de que já não posso mais pegá–lo pelo rabo. O seu atrevimento me faz desistir da caçada. Limito–me a contemplá–lo, pensando que o bicho não é tão ruim assim. Come os ovos das galinhas, mas come também as cobras e os insetos. RATOS DE PAIOL O paiol de milho, é um prato cheio para os ratos. Não há gato que dê conta deles. E o rato é uma praga – não serve para nada. Estraga o milho e transmite doença. Caçamos os camundongos a pau, nas frestas do paiol e no montão de espigas armazenadas com a palha. Quantos mais mortos, melhor. Os amontoamos lá fora e os contamos como troféus para enriquecer nossos recordes históricos. 228


Vejo agora uma surpreendente notícia da India. O Governo está querendo matar a fome do povo com carne de rato. Nossas antigas caçadas no paiol dos Eckert, dariam para alimentar um bom número de indianos famintos. TÚNEL VERDE Parte da terra dos Eckert está hoje urbanizada. Há duas ruas e uma dúzia de casas onde antes havia o casarão, olaria, pomares e roças. Mas o antigo potreiro e o mato de eucaliptos aos fundos, estão preservados e bonitos de se ver. Sob os cuidados do Adroaldo, a vegetação natural crescida forma um admirável túnel verde. Se fosse na vaidosa Porto Alegre, diriam que é o túnel mais lindo do mundo.

OS HORN – TODOS PARENTES O Alto da Bronze, é o berço dos Horn descendentes dos meus bisavós Pedro e Elizabeth Horn, aqui chegados em 1868. Espantados com a vizinhança dos Mucker em Dois Irmãos, eles compram terras de Antonio Menna Barreto e se hospedam em seu casarão, enquanto constroem a própria casa. Durante a construção, nascem os filhos gêmeos José e Henrique, cujo berço duplo faz parte do acervo do Museu Schinke – por coincidência, localizado no mesmo local do antigo casarão. Os filhos e netos de Pedro e Elizabeth, herdam terras e se dedicam à agricultura e pecuária. Os bisnetos espalham–se pelas mais diversas profissões, carregando nomes familiares que se repetem geração a geração. Os Antonio, Armindo, Alfredo, Afonso, Cristiano, Hélio, Henrique, Lauro, Renato, Sérgio, Jorge, Celso, Pedro, Célia, Celina, Selmira, Carmo, Carlos, Clóvis, Ivo, João, Egidio, Edith, Lauro, Romeu e Inês, são águas da mesma fonte. 229


E há também os apelidos, como Pridi, Prida, Maneco, Carlito, Nega, Coca e assim vai ... Há entre os Horn, diversos casos de homens casados pela segunda vez após perderem a primeira esposa no parto. Os partos caseiros em condições rudimentares, provocavam freqüentes perdas de vidas. A ponto do médico alemão Dr. Schlatter, abrir em Estrela, a primeira Escola de Parteiras do Rio Grande do Sul. Uma bandeira branca no alto da casa, anunciava que ele estava disponível na cidade. O DESCASCADOR DE LARANJAS A cidade cresce para o Alto da Bronze. O Vô Cristiano e a Vó Amália, vão se desfazendo das terras em processo de urbanização. Parte delas, dão lugar ao Cemitério. A praça em frente, leva o seu nome – Praça Cristiano Horn. Depois, eles saem do antigo casarão no atual lotemanento Mário Vier – e vem morar ao lado da figueira do Hospital. Ele é um competente descascador de laranjas. Circunda a fruta com a faquinha afiada e corta a casca em tiras inteiras fazendo uma mola espiralada. Depois ele corta a tampinha para eu sorver o suco fazendo–a de colher. Ela é mais larga do que a boca e o suco escorre pelos lados, me lambuzando todo. Metade vai para a garganta e a outra escorre pelo peito da camisa. Ao lado do Vô, moram o tio Fonso e a Lori. Ele trabalha no açougue e gosta de caçar. Tem um viveiro de aracuãs e saracuras nos fundos da casa. Dá–lhes milho moído por alguns dias, para engordá–los antes de levar para a panela. Outra caça apreciada por ele, é a lebre – bicho arisco e ligeiro, que causa danos às roças e não dá para capturar vivo. O jeito é pegá–la com chumbo de espingarda e vendê–la aos apreciadores da cidade. O Quinca Pereira é um deles. 230


PURA ORGIA ! O Carlos Horn – pai do Arlindo, Careca, Osvino e Elmar que moram adiante do Cemitério – é muito engraçado. Um teco–teco em pane faz um vôo de emergência em seu potreiro e ele vai correndo para o avião. Diante do tanque de gasolina vazando, ocupa–se primeiro em completar a carga do isqueiro, antes de se preocupar com os ocupantes da nave. E ao ver que se trata de um casal de passageiros, extravaza o seu preconceito sem papas na língua: – É pura orgia ! – É pura orgia ! exclama em altos brados, atribuindo o acidente a supostas farras do casal no espaço. A expressão era sempre lembrada com bom humor por meu pai, em qualquer situação inusitada. Os reis da Corte aumentando seus próprios salários dez vezes acima da inflação, o fariam certamente exclamar: – É pura orgia ! SCHPITZ A roça do Albino e da Norma, adiante do potreiro com o laguinho, é uma mina de pintassilgos. Os passarinhos descem em bando para se fartar nas vagens secas da nabiça. O Beto e o Zézinho – ainda crianças – aprendem a ficar de tocaia em silencio, torcendo para que o Criolinho entre no alçapão. Nem o Schpitz gagueja, neste momento de total concentração. LODOTERAPIA Nas pereiras do tio José – irmão do meu avô – o ainda menino Oscar vive uma tragédia que o marca para o resto da vida. Um rapaz que faz o Tiro de Guerra e mora com eles, leva a arma para o pomar e a apoia no tronco da árvore com o cano voltado para cima. Sem noção do perigo, o menino Oscar mexe nela e dispara acidentalmente matando o rapaz que colhia as frutas no alto. 231


A tragédia, o abala definitivamente e requer constante tratamento psicológico na Clínica Kaempf em Santa Cruz do Sul. Parte do tratamento do Oscar consiste na Lodoterapia – em que o paciente repousa totalmente imerso na lama. Apenas com a cabeça fora do barro, cercado de bananeiras, ele é supreendido por um belo lagarto que o contempla quase lambendo o seu rosto com a ágil lingüinha. Imobilizado no lodaçal, arregala os olhos para o bicho e tenta espantá–lo apenas com palavras: – Sai lagarto ! – Sai lagarto ! grita, e o animal não se abala. – Acho que ele só entende alemão, sugere o colega de tratamento ao lado. – Ge vech, lacat ! – Ge vech, lacat ! ameaça o Oscar, até que o lagarto se vá, parecendo entender o idioma. O BARBEIRO É franjinha ou escovinha. A gurizada sai toda de cabelo igual da Barbearia do Ernesto Horn. Os pais mandam cortar bem curto para espaçar os cortes e reduzir a despesa. Cabelo comprido no salão, só tem o da Carlota e as mechas douradas da Beti e da Helena – as duas princesas loiras do bairro que para inveja de todos, são levadas por dois moços da cidade – o Auri e o Vasquinho. ORNITOLOGIA Em frente ao Hospital, mora o tio Chico – um dos filhos do primeiro casamento do Vô Cristiano. A família deles é grande. Tem o Orlando, Marino, Günther, Romualdo, Beto e mais a Carmen. O mais popular, é o Romualdo – o Chiquinho – que após aposentar–se do Banco, gradua–se em Ornitologia, especializando–se em identificar aves raras.

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– É passarinho do mato ... responde ele invariavelmente, quando perguntado sobre aves desconhecidas gorjeando pelos galhos. Tem 100 % de acertos ... O MORRO DOS HORN O tio Jacó – irmão do meu avô – toca o matadouro de gado com o Anselmo e o Valda. As tropas vêm do campo, atravessam a cidade e são alojadas no mato do Gado – atual Sesi – ou no potreiro do campo de futebol. A carne, é vendida no Cabeça de Boi – o maior picador da cidade, por onde passam depois o Juca e o Beckembauer. No mesmo prédio – depois de fechado o açougue – instala–se a loja Azougue – um feliz trocadilho com a maneira como os coloneses chamavam o negócio anterior. CORTE E PESAGEM Cada profissão tem seus macetes e especialidades. As Costureiras, fazem corte e costura com a tesoura. Os Açougueiros fazem corte e pesagem com a faca. Manejam a lâmina como ninguém e usam o afiado utensílio sempre a seu favor. No Corte, deixam sebo e pelanca à vontade para o cliente. Na Pesagem, incluem o peso do aço, forçando o prato da balança com a ponta da faca sem ninguém perceber. O PARAQUEDISTA A antiga e bem localizada casa do tio Jacó, continua de pé e serve de residência para a Célia e o Cabeça. Ela é Horn de casa. Do alto telhado, o Sérgio planeja imitar o show do paraquedista Vítor Soares, no Aeroclube. Arma o lençol sobre a cabeça, joga–se no espaço, mas o paraqueda não abre. 233


Cai direto no chão e descobre que não tem talento para voar. Aprende então a patinar com a Bianca Tallini e exibe–se publicamente até na televisão – mesmo após os 70 anos de idade. DOCE DE CÔCO O tio Aloísio e tia Lídia, moram na Linha Lenz. O lugar é ótimo para passar férias. As pencas de bergamota vergam os galhos, até o chão. A melhor bergamota dá na mangueira estercada com a matéria orgânica em decomposição. A fruta é doce e suculenta. O mesmo não acontece com o suculento doce de côco que a tia Lídia serve no almoço. Ela traz a travessa com o manjar branco ralado e molhadinho, bonito como o doce de côco. Com olho grande maior do que a fome, encho gulosamente o prato e descubro que é um fortíssimo nabo amargo, que invade as narinas e faz brotar lágrimas dos olhos. Para não passar vergonha, aguento firme misturando a raiz forte ao aipim, carne de porco e feijão. Encaro cada garfada com a coragem e determinação de um guerreiro. Outra lembrança inesquecível, são os secos estalidos da coberta de palha de milho a cada virada na cama. Nada estala igual no silencio da noite. Nesta época, o filho deles Osvaldo emigra para o Paraná e raramente vem a Estrela. Numa dessas raras visitas, ele compra um bilhete e ganha a sorte grande. – Quem disse que agricultor não ganha dinheiro ? HORN NO PARANÁ Na lápide da sepultura, descubro um Horn no cemitério de Ponta de Grossa. Dias depois, conheço o Ivo Horn paranaense – homônimo do estrelense. 234


Ele tem a cara angulosa e olhos azuis, como certos Horn daqui, mas nada sabe de sua origem. A GRANDE FESTA Os Horn são numerosos. Mais de 1.000 descendentes estiveram no último Encontro da família em Estrela. Minha mãe era a ultima neta remanescente de Pedro Horn – o primeiro Horn estrelense. Muitos vivem por aqui. Outros, deixaram o ninho estrelense e voam em outros ares. Assim como os Horn, inúmeras famílias costumam promover encontros periódicos de confraternização entre os parentes. A maioria das famílias do Sul, estão entre a 4.ª e 6.ª gerações. A raiz da árvore genealógica, já exibe troncos, galhos, ramos, frutos, e novos brotos. Nestes Encontros, surge sempre um dilema: A divisão entre os que orgulhosamente ostentam o sobrenome original da raiz e os demais que se agregam à sombra da frondosa árvore familiar. Na hora das fotos e homenagens, os agregados são chamados de enxertos, caroneiros, intrusos, genéricos e outras coisas do tipo. Tudo na brincadeira, é claro, mas os agregados gostam mesmo é de ser chamados de penetras – os que penetram as mulheres que trazem de casa o nome da raiz.

O AEROCLUBE Os aviões nos fascinam. O Assis passa a jato sobre a cidade e mal se consegue vê–lo ponteando o ruído ensurdecedor da quebra da barreira do som. Dizem que é da Base Aérea de Canoas e que está se exibindo para a namorada estrelense – irmã do Adroaldo Vogt, da loja de esquina na Vila. 235


Outro show, é o do paraquedista Vítor Soares no Aeroclube, divulgado com grande estardalhaço pela cidade. Ele salta do Teco – Teco em pleno vôo, abre o paraquedas e vem flutuando no espaço. É emocionante vê –lo aproximar–se pendurado ao artefato de pano redondo. Mas ele não chega na pista. Cai antes, enroscado na laranjeira dos Sulzbach. Inspirado nele, jogo–me pelos ares com um guarda chuva do alto do barranco vertical, escavado no Ginásio Cristo Rei. O guarda chuva vira ao contrário e eu caio estatelado na poça de barro vermelho, com o meu novo e bonito casaco bege de lã. O Aeroclube de Estrela é movimentado. Tem Táxi Aéreo a Porto Alegre. O vôo leva 30 minutos, enquanto o Onibus gasta 12 horas, passando por Taquari, Montenegro e São Leopoldo. O Presidente Paulo Fey, o Calefi e o Rosinha, fazem o clube voar. Na festa de formatura da Escola de Pilotos, a multidão lota o hangar do Aeroclube e admira os aviões no pátio. Os teco–teco chamados de Paulistinha, com a asa acima da cabine, são leves e frágeis. Tem esqueleto de madeira e capa de lona. O Wingen, os constrói na fábrica de móveis da Praia. A grande atração é o avião de asa baixa, bem mais veloz. Pilotos daqui e de fora, fazem vôos panorâmicos com o público pelo Vale. O Calefi, convida o Carli para voar de teco–teco e toma a direção de Estrela, sobre o rio. Faz um rasante em frente à cidade e atinge a rede telefônica estendida de uma margem à outra. O impacto estilhaça o parabrisa no rosto do piloto e o fio rebentado enlaça o avião e fica arrastando no cascalho da Cachoeira durante o vôo. – Aperta o cinto ! – Aperta o cinto, vamos voltar ! grita o Calefi com o rosto pipocado de vidros, ao assustado Carli. Ele dá a volta e retorna pelo leito do rio acima, evitando que o fio enrosque nas árvores. Já chegando ao Aeroclube, o fio pendurado ao Paulistinha bate na rede de alta tensão e provoca um estrondoso curto circuito no pavilhão da festa. 236


As lâmpadas do hangar explodem com a descarga elétrica e o enorme público corre apavorado para a pista, onde está o avião já pousado com a frente detonada. O piloto desce e tranquiliza a todos, mas estranhamente o Carli permanece imóvel na aeronave. O cinto está tão apertado, que ele não consegue se desvencilhar. O vôo rasante sobre as águas do rio, é praxe entre os pilotos. Diz o Osvaldo Pescador, que logo após inaugurada a nova ponte, o Zezinho teria passado de avião por baixo dela. – Dá para acreditar no pescador ? O antigo Aeroclube dá lugar ao novo Porto e encontra–se agora na Linha São José – com o nome de Aeródromo. Segundo os jornais, será ampliado para receber helicópteros e jatinhos particulares de empresários do Vale. Enquanto isso não acontece, a frota resume–se ao ultraleve do Kalsing – a Força Aérea Estrelense, que sobrevoa suavemente a cidade ao entardecer.

OS PASSARINHOS Caçar passarinhos, é o nosso maior divertimento. Dividimos os pássaros em duas categorias: Os de Cativeiro, desejados por seu canto e beleza e os de Abate, perseguidos pelo simples prazer de matar. As plantações de alpiste e painço e as restevas infestadas de picão, nabiça e pluminha, são os melhores lugares para encontrar os bandos de canarinhos e pintassilgos à procura de alimento. No poste da cerca, fixamos a gaiola do chamador e os alçapões com a semente preferida da espécie que se quer capturar. Em silencio, escondidos ao longe, esperamos o bando chegar. Ninguém pode falar e tossir enquanto eles pululam próximos à gaiola. Até a respiração é controlada. O mecanismo de captura é ardiloso. O passarinho atraído 237


pelos grãos do alçapão, pisa no poleiro interno que cede com o seu peso e fecha a tampa. O estalido da mola, dispara urros de vibração na torcida, quando um deles “cai”. O mais desejado é o Pintassilgo – especialmente o Crioulinho, de cabeça preta. O Pingado também tem valor – em pouco tempo vira crioulo e canta na gaiola. O alpiste, é o seu melhor alimento. O Canário da Terra também é muito visado. Bem amarelo, canta bonito e é resistente. Milho picado e painço, são os alimentos. O Coleirinho e o Bico de Ferro, não são tão bonitos, mas tem boa voz. Já o Sangue de Boi, é visado pela cor da penugem e crista vermelha como o sangue. É dócil e fácil de pegar no mato. Basta colocar o alimento na gaiola vazia e esperar que ele entre na portinhola aberta. Cada guri, orgulha–se de seus pássaros em cativeiro. Eu tenho 27 no viveiro, incluindo um Cardeal de topete vermelho, fugido de alguma gaiola e recapturado no potreiro do Oli. Os pássaros de Abate, são caçados de funda – o estilingue com duas tiras de borracha, presas numa forquilha e um courinho para arremessar a pedra. Não há menino que não tenha o seu bodoque. É apetrecho de uso diário e sempre à mão. Usa–se no bolso ou no bornal de pano com as pedrinhas que servem de bala. Com exceção da Coruja e o Quero–Quero – poupados por sua utilidade como sentinelas – mata–se de tudo com ele. O Sabiá, o João de Barro e as pombas Rola, Café e Juriti, são os alvos mais dóceis e comuns. O Bentevi, Siriri, Saíra, Pardal, Tico– Tico e Virabosta, são mais ariscos e exigem pontaria apurada. A minúscula Carruíra e o Tsiptsirip, são tão pequenos que não vale a pena gastar uma boa pedra.

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VÍTIMAS Quatro vítimas do meu bodoque, permanecem na memória. O João de Barro, que me deixa triste ao abatê –lo em pleno canto. O Gavião, capturado vivo, motivo de grande orgulho. O rabugento Rabo de Palha, que espanta um bando inteiro de outros pássaros e me deixa raivoso. E a azarada Pombinha Rola, atingida por uma pedra perdida. O João de Barro canta e bate asas sobre sua casinha redonda no galho sêco da árvore. Seu canto ecoa no potreiro dos Eckert e desafia o meu instinto caçador. O enquadro na forquilha da funda e lanço a pedra mortal que irá atingi–lo no peito. Ele interrompe o canto e silencia abruptamente caindo inerte ao chão. O fundaço deixa um surdo silêncio no ar. A natureza parece de luto. Sinto pena do cantor interrompido em pleno canto, mas agora é tarde, já se foi ... Além de bom cantor, o João de Barro é talentoso construtor. A orientação solar de sua casinha é referência aos arquitetos e engenheiros modernos. Mais um bom motivo, para não matá–lo. A maior ave de rapina de nossos céus, sobrevive à pedrada que lhe dou na Santa Rita. O duro Gavião cai tonto ao chão e eu consigo capturá–lo vivo. É agressivo, bonito e colorido – um raríssimo troféu de porte guerreiro e guincho selvagem. Corto suas asas e o crio amarrado pelo pé. É motivo de muito orgulho. Ninguém têm um animal como o Garra Rôxa em toda a redondeza. No capão do potreiro do Oli repleto de passarinhos, o irritante Rabo de Palha, gralha e alerta todos sobre a minha aproximação. Da árvore mais alta, ele espanta os outros e frustra a minha caçada. Mas, comete um erro fatal – enquanto avisa os demais, ele esquece de voar pensando ser inatingível naquelas alturas. Com raiva, o trago ao chão com um tirambaço no peito. O bicho é duro, não morre na primeira pedra. 239


Cai estonteado na grama e eu acabo de matá–lo à queima roupa com mais um fundaço na cabeça, sentindo no peito o doce sabor da vingança. O monte de casca de arroz depositada pelo Arenhardt na Júlio de Castilhos, atrai o bando de pombinha rola. Quando me aproximo empunhando a funda, elas voam para os fios da rede elétrica e se perfilam lado a lado na fiação. Miro numa delas no primeiro fio e por acaso, acerto outra pousada no segundo. A infeliz rolinha atingida pela pedra perdida, teve o azar de pousar no fio errado na hora errada. ASAS DA LIBERDADE Embora nosso subconsciente continue a procurar a melhor forquilha ao olhar para qualquer árvore, não podemos mais usá–las. As leis ambientais protegem as aves. Não se pode mais matar. Pode–se apenas ouvir e contemplá–las em seu habitat natural. O ambiente favorece a multiplicação das espécies, mas nem sempre isso acontece. A falta de alimentos e os pesticidas, causam estragos mais devastadores do que as antigas formas de captura. Muitas espécies estão em extinção – principalmente as que comem grãos tratados com pesticidas. Mas há também, boas novas no ar. A cidade de São Paulo está repleta de Maritacas, Bentevis e Sabiás. Estes confundem o dia com a noite e cantam de peito aberto na madrugada, sem que ninguém os incomode. Na Serra Gaúcha – após o fim da traumatizante perseguição pelos gringos – os pássaros voltam a gorjear. Também em Estrela, elas estão tomando conta das árvores e do chão, com plena liberdade. As espécies se cruzam e originam novas variedades, ainda desconhecidas. Só o Chiquinho conseguiria identificá–las. – É bicho do mato ... diria ele. 240


As Associações de Criadores de Canários, Curiós, Periquitos e outros, melhoram a genética das espécies com o intercambio de reprodutores mundo afora. Há no entanto, que se ter certos cuidados com a transmissão de doenças exóticas difíceis de diagnosticar. O Toni, de Colinas, teve uma gravíssima toxoplasmose por aspirar o pó das fezes na limpeza do seu viveiro de Pombas. Todo o cuidado é pouco, ao se lidar com animais. Mesmo os mais belos espécimes – como as lindas Pombas Rei do Nico – podem trazer perigos ocultos.

O BICHO HOMEM O ser humano é contraditório – se diz racional, mas gosta de se comparar aos animais. Chamar o cara de Tigre, Touro e Leão é um baita elogio – a não ser que o Leão seja o de Chácara ou do Imposto de Renda. Dizer que o cara é um Boi, Cavalo, Porco, Cachorro, Lobo, Papagaio, Macaco, Veado, amigo Urso ou da Onça, é pedir briga. Só o palmeirense aceita ser chamado de Porco. Há também, o duplo sentido. O Gato e a Gata, podem ser a coisa mais linda ou um gatuno qualquer. O Galo, é o máximo, mas a Galinha é vadia. Cobra, pode ser o Neymar do time ou apenas um réptil venenoso. E o Bode expiatório, não tem perdão – é sempre o culpado. O instinto animal inspira ditos e crendices de toda ordem. É comum ouvir frases como: – Cada Macaco no seu galho – O Lobo veste pele de Cordeiro – Enquanto a Cigarra canta, a Formiga trabalha – Em boca fechada não entra Mosca – Cão que late não morde – Cão mordido por Cobra tem medo de lingüiça e Uma Andorinha sozinha não faz verão ... A maior parte tem fundamento. A afirmação de que comer Perereca é melhor do que engolir Sapo, é totalmente verdadeira. 241


Já, a boa sorte atribuída ao Pé de Coelho, é pura superstição. Curiosa também, é a relação do esporte com o mundo animal. Outro dia, o Sala de Redação comemora 50 anos no rádio falando da Seleção Brasileira. – Os dirigentes da CBF são ferozes Tubarões, espertas Raposas e Muçuns ensaboados que se reunem como Moscas no mel e fazem Gato e sapato da seleção Canarinho ... analisa o Rui Carlos Ostermann, em seu tom professoral. – É um ninho de Ratos ! exclama indignado, o Guerrinha. – O Pato é Traíra. Recebe bicho de Cobra e joga como cabeça de Bagre ... afirma o Lauro Quadros. – E o Ganso, nem parece o mesmo do Peixe – é lento como uma Tartaruga ... reforça o Paulo Santana. – Parecem Baratas tontas diante dos Camarões e dos Elefantes africanos, opina o Pedro Ernesto – presente em dez Copas do Mundo. – Até o torcedor mais bicho Grilo, fica com a Pulga atrás da orelha ... especula o Wianey Carlet. – É do Perú, essa seleção, mano ... Tem que chamar o Falcão, conclui o David Coimbra. – É isso aí Bicho ... concorda o Kenny Braga.

BRINQUEDOS E JOGOS Vivemos dois tempos distintos na infancia. Os lentos minutos das aulas que não terminam e o veloz tempo livre que passa voando. É começar a brincar e o recreio já termina. A tarde recém começa e o sol já vai se pondo. Os divertimentos são muitos e o tempo é rápido demais. A Bolinha de Gude rola solta pelo chão. Joga-se Linha, Triangulo e Buraco. Na sua vez, o lançador procura nicar e tomar as bolitas do adversário. Os bolões, o acinho e as águidas, valem mais do que as de vidro comum. 242


Os bons jogadores usam três dedos para impulsionar a bolinha. Os menos habilidosos, fazem o “cú de galinha” com o indicador e o polegar – o que lhes tira boa parte da força de impulsão e pontaria. Outro brinquedo, é o Pião. O artefato de madeira de corpo afilado como um pinhão com pé de aço afiado, é arremessado ao solo enrolado num barbante, para desenrolar e girar sobre o próprio eixo ponteagudo. Os de desenho magro e elegante, cantam ao girar. Há dois tipos de pião: O feito à faca em madeira mole e o industrializado produzido em série pelas fábricas de brinquedos. Nas competições, o objetivo é atingir o pião adversário que já roda no chão. A picada do pino no dorso do outro é forte e deixa marcas. Alguns, mais frágeis chegam a rachar ao meio. Inspirado no baseball, o Jogo de Taco é disputado com uma bolinha a ser rebatida para longe, permitindo ao rebatedor correr entre as duas bases marcando pontos. O lançador arremessa a bolinha para derrubar a “casa” do rebatedor – uma pirâmide armada com gravetos em sua base. O rebatedor tenta interceptar a bola lançada pelo adversário e jogá-la o mais longe possível para acumular pontos enquanto ele não volta. Caso o lançador o surpreenda fora da base e derrube a sua casa, as posições de lançador e rebatedor se invertem. Vence quem primeiro atingir a meta de pontuação. O Knalbics, é uma bomba de encher pneu de bicicleta, feita de taquara. A haste interna do canudo de bambú fino, expele a bolinha de cinamomo sob pressão. Fazemos guerra com muito grito e correria, um tentando atingir o outro. A bolinha arde na pele, mas não chega a machucar. Usado por meninos e meninas, o Iôiô exige perícia e talento. Os mais hábeis, fazem shows enrolando e desenrolando o disquinho de plástico no comprido barbante que parece um elástico. No Bibloquê, tenta-se encaixar a haste de ponta empunhada na mão, no furo do cone de madeira impulsionado em piruetas nos ar com o barbante que os une. 243


Disputa–se o número de encaixes bem sucedidos. Quem faz o maior número de “regalitos” seguidos, sem queda, é o vencedor. O Bambolê faz as meninas rebolar as cadeiras. Elas exibem o talento, rodando o arco de plástico na cintura para fazer o maior número de giros antes de cair aos pés. As mais hábeis, bamboleiam de olhos fixos na gente e observam os olhos da gente fixos no reboleio delas. Os joguinhos caseiros – como o Pega varetas, a Paciencia, o Dominó, a Dama, o Moinho e o Loto – têm o seu espaço garantido nos dias de chuva e no inverno. O Baralho, é coisa de adulto. Só sabemos jogar Burro – um jogo que qualquer burro joga ...

PRAGA VORAZ Súbitamente, uma densa nuvem de gafanhotos escurece a ensolarada tarde de verão. O exército de insetos gigantes encobre o sol e se precipita sobre a roça de milho. Folhas e talos estalam ruidosamente ao serem triturados por suas potentes mandíbulas. Em poucos minutos a viçosa lavoura verde se transforma num arrasado campo de restolhos. A praga egípcia, se procria nos chacos da América do Sul. Os enormes insetos verdes, bonitos e elegantes, com um palmo de comprimento, devem ser pegos por cima para evitar as cortantes serrilhas das longas pernas traseiras. Uma vez capturados, constituem valioso troféu a ser mumificado em éter ou álcool. O VÔO DA TANAJURA Três décadas depois, vejo um fenômeno similar em Recife. Um ruidoso e crescente alarido, quebra a costumeira tranquilidade da nossa rua. Um bando de moleques em festa, corre atrás da nuvem preta que se desloca sobre as suas cabeças. 244


A gritaria dos meninos e o zumbido dos insetos, se misturam num coro só. Cada um enche a sua latinha com as Tanajuras – formigas aladas, de cintura fina e bunda gigante. Estaladinho na frigideira com manteiga de garrafa, o bumbum da formiga é uma exótica e apetitosa iguaria.

Cóf ! Cóf ! Cóf ... Fumar está na moda. Nos filmes, os astros fazem charme em elegantes círculos de fumaça no ar. Todo mundo faz como eles. A Sinimbú e a Souza Cruz, segmentam o mercado de cigarros por preço, suavidade e luxo na embalagem. Os mais suaves e caros, elevam o status social. Meu pai – empresário – fuma Hudson Liso de maço marron. Minha mãe – dona de casa – prefere o maço verde. Meus tios – operários – fumam Tufuma, o matarrato oval mais forte e barato, similar ao Elmo e ao Liberty. Nós – adolescentes, sem grana – fumamos o Simidão. Quando juntamos alguns pilas, migramos para o Continental, Hollywood e até o Colúmbia – o mais sofisticado. O lançamento dos cigarros com ponta e mais tarde o Minister com filtro, dão início a outras inovações. Surgem os cigarros longos, finos, negritos, mentolados e light, em maços, box e latinhas. As mulheres, tem o Pink e o Finesse, exclusivos para elas. O hábito de fumar em qualquer lugar, começa a incomodar os outros e gerar as primeiras proibições legais. No Expresso Azul, surge a placa de “ Proibido fumar Charutos, Cigarros de Palha e Similares ”, indicando o número da lei que o proíbe. No Maratá, o Seu Scherer é obrigado a apagar o charuto durante a viagem. A descoberta dos malefícios do fumo, geram restrições cada vez mais rígidas. Suas 4.000 substancias tóxicas que prejudicam a saúde do fumante e do vizinho ao lado, estão banindo o cigarro dos 245


ambientes fechados. Em lugares mais avançados, já é proibido até em locais públicos. A propaganda antifumo é nua e crua. Adverte o fumante, assutando–o com imagens chocantes das conseqüências do vício. O medo, produz curioso diálogo na tabacaria: – Me dá um Charm, por favor ... – Do Câncer no pulmão ou da Impotencia sexual ? – Pode ser o do Câncer ... diz, o fumante receoso de brochar. TEM FOGO ? A chama do fogo não muda, mas os instrumentos que a produzem evoluem do velho isqueiro de fricção com o pavio embebido em querosene, para o Zippo – com tampa e fluído limpo, elegante como um celular. Depois chegam os isqueiros a gás, verdadeiras jóias logo desbancadas pelo descartável Bic de plástico – tão barato que chega a ser esquecido em qualquer lugar. Os apreciadores de charutos, são mais sofisticados. Adotam o acendedor tipo maçarico, de uso restrito às suas confrarias. O fósforo é que não muda. Inventam diferentes embalagens, mas o palito é sempre o mesmo. A chama da Fiat Lux continua queimando a concorrência na fogueira do aquecido mercado de fogo.

O FUTEBOL O Futebol é a nossa maior paixão. Corremos atrás de bolas de pano e borracha, pois a de couro é muito cara. E mesmo besuntada com sebo de boi, a bola de couro costurada à mão com o ventil embutido na amarra de cadarços de couro, logo resseca e fica dura para chutar descalço. As novas são melhores, mas custam ainda mais caro e só aparecem no Natal. 246


Na falta de bola, usamos os crânios roubados do Cemitério – como descrito mais adiante. A Copa de 1954 na Suíça, chega a nós pela Rádio Difusora – chamada de Confusora por alguns coloneses. Para nossa alegria, a Alemanha vence a Hungria de Puskas e Kocsis, na final. Antevendo o esfacelamento étnico que ocorreria anos depois nos Balcãs, a Loja Prade no centro da cidade, cria no placar dos jogos na vitrine um novo país – a Checoslávia, junção de Checoslováquia com Iugoslávia. Na copa de 1958 na Suécia, o técnico Vicente Feola cochila durante os jogos e deixa o Brasil jogar à vontade. Garrincha no lugar de Joel, faz os russos de João. Yashin – o aranha negra e melhor goleiro do mundo – assiste ao show e não vê a bola entrar em seu gol por duas vezes. Com apenas 17 anos, Pelé substitui Vavá e mostra que é rei. – Mata a bola no peito, dá um balãozinho no back e chuta com o peito do pé direito ... é Goooooolll do Brasil !!! grita o emocionado locutor do rádio na final de 5x2 contra a dona da casa. Gilmar, Bellini, Orlando, Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Didi, Zagallo, Pepe e Vavá, abrem o caminho do mundo para o futebol brasileiro. Depois deles, não há menino que não sonhe em deixar a bola de pano para ganhar uma reluzente n.º 5 no Natal. O VOCABULÁRIO Trazido da Inglaterra por Charles Miller, o futebol de 1900 falava inglês. Os Clubes mais antigos, usam o Club, Sport e Football em seus nomes, mas a linguagem atual é o Português. O Gol, chegou a ser chamado de Tento, mas voltou a ser Gol. O mais difícil, é o Gol Olímpico batido do Corner – atual Escanteio. Se a diferença for maior do que dois gols a zero, o resultado é uma Goleada, um Chocolate. 247


O atual Goleiro, já foi Golkeeper, Guardametas, Guardavalas e Arqueiro. Sempre carregou no entanto, a fama de Frangueiro. Os antigos Backs – Baques, em Português – deram lugar aos Zagueiros e Laterias. O Center–half tipo Zito e Falcão, é agora Meio–de–campo. Os Halfs, são Volantes. O Center–forward, tipo Alcindo, Claudiomiro e Leandro Damião, é o Atacante fincado na área, o Centroavante de ofício. O Meia direita e o Meia esquerda, são apenas Ligações. E os Pontas, não existem mais – agora quem faz a função é o Volante que vem de trás, como o Cafú, Cléber e Nei. Os lances, tem bonitos apelidos. O antigo Off–side é agora Posição de impedimento ou Posição ilegal – a mais discutida no tira– teima da TV quando afeta o time grande. O Drible ou Paninho, evoluiu para a Finta, Meia lua, Rabo de vaca e Pedalada. Tem também a Embaixadinha e a Lambreta do Damião, para desmoralizar o adversário. A Janelinha entre as pernas do oponente, é Bola enfiada entre as canetas. O Balãozinho, virou Chapéu. A Bicicleta e a Folha Seca – do Leônidas e Didi – permanecem com o mesmo nome. O Balão e a Rosca do Tatico e do Bom Cabelo – também continuam os mesmos. As faltas perto da área, são Lances de bola parada, responsáveis por 50% dos gols. São tão importantes que até o goleiro vem bater. O Rogério Ceni do São Paulo, é recordista mundial com 100 gols marcados. Alguns deles de Penalty, a Penalidade máxima a Marca fatal, com direito à Paradinha inventada por Pelé. CRONISTAS ESPORTIVOS O suarento narrador do rádio e o ofegante repórter de campo, dão lugar aos galvões televisivos que de suas cabines refrigeradas, deitam falação em tudo. 248


Com ego tão elevado quanto os índices de audiência proporcionados pela transmissão monopolizada dos jogos, são os donos da verdade e criam genios e vilões, da noite para o dia. O Dirigente, o Juiz, o Técnico e o Atleta, são apenas coadjuvantes da imensa sabedoria dos narradores e comentaristas esportivos que jogam para a torcida. – Voces só jogam no time vencedor ... diz o Felipão na Mesa Redonda, planejando ser um deles quando deixar de ser técnico. Teté, Foguinho, Froner e Enio Andrade, certamente o apoiariam. FUTEBOL GAÚCHO Fora a dupla Grenal, os clubes são modestos. Só o Renner – timaço empresarial – é Campeão em 1954. O Cruzeiro – também campeão uma vez – é o time alvi–azul da pequena e calada torcida da colina melancólica – o cemitério de gavetas. O torcedor mais ilustre, é Rubens Hoffmeister – eterno Presidente da Federação Gaúcha de Futebol. Mas o clube tem fôrça. Com o novo estádio em Cachoeirinha, conseguirá certamente, ampliar e ressuscitar a muda torcida. O São José é o simpático Zequinha do Passo da Areia – o segundo time de muita gente. O Nacional é bem inferior ao importado e o Fôrça e Luz – apesar do belo nome – está sempre na lanterna. E há também os times do interior que jogando em casa, fazem frente aos da capital. O S.C. Rio Grande, é o vovô de todos eles. Apesar da experiência de vida, raramente ocupa boas posições no campeonato. Na serra, o Flamengo e o Juventude de Caxias, dão a vida por uma taça – de vinho tinto, de preferência. O Floriano, é o alemão de Novo Hamburgo. O Aymoré de São Leopoldo, comandado por bons caciques como Froner e Enio Andrade, lança grandes craques em sua Taba. 249


O Guarani de Bagé e os furiosos Xavantes do Brasil de Pelotas, não tem o mesmo desempenho. O GRÊMIO Os Três Mosqueteiros – espadachins tricolores do Gremio Football Portoalegrense, espetam e murcham a bola adversário. O seu maior herói é o goleiro Eurico Lara, falecido no intervalo de um Grenal após defender um pênalti, segundo a lenda. Outros feitos heróicos, são as goleadas de 10x0 no primeiro Grenal e os mesmos 10x0 no Estrela F.C. – esta realmente, uma façanha inigualável. O INTERNACIONAL O Internacional, nasce de uma discidencia do Gremio e adota o Saci Pererê como símbolo. Mesmo perneta, o Saci não é perna de pau. Vai longe. Chega até aos longínquos e desabitados canaviais de Alagoas. Numa viagem de carro, encontro um solitário ciclista com a camisa do Inter, pedalando no acostamento da BR 116. Paro o carro e o cumprimento efusivamente o sertanejo que leva nossa bandeira, onde nem o ASA de Arapiraca consegue chegar. Como avô colorado, quero naturalmente que o meu neto Antonio seja um dos nossos. Ele usa bonés, sandálias, uniforme e bolas do Inter nas ruas de Bragança Paulista, mas às vezes ainda é difícil convencê–lo. Durante um jogo com o Palmeiras na TV, ele me telefona: – Vô Astor, eu agora sou Porco ... o Inter tá perdendo ... – Calma Antônio, futebol é assim mesmo. A gente ganha, perde ou empata. Tá só um a zero, o Inter vai virar o jogo ... Mas, o Colorado não vira – pelo contrário, toma mais um. O Antonio, felizmente logo esquece e no jogo seguinte está de vermelho novamente. 250


– Eu sou do Inter, do Grêmio e do Bragantino, diz ele ao padrinho Fernando, em outra ocasião. – Não, do Inter e do Grêmio não pode. O Grêmio é o maior rival do Inter ... – O que é rival, hein Dindo ? pergunta o inocente torcedor. IDOLATRIA A nossa afilhada Fefê pratica esportes no Clube Pinheiros em São Paulo – o mesmo da ginasta gaúcha Dayane dos Santos. A Dayane é colorada e usa a camiseta do Inter nos treinos. É claro que a Fefê quer uma igual para desfilar pelo clube. MAU RESULTADO O Inter anda azarado. Quase sendo rebaixado para a série B, vai jogar em São Caetano do Sul num sábado à tarde e o ônibus que leva a delegação do hotel para o estádio, quebra e deixa o time na mão em frente à minha empresa em São Paulo. Ameaçados de perder a hora do jogo, os colorados suplicam que a Prime Tech os leve ao estádio – a cerca de uma hora dali. Tudo funciona direitinho. O time chega a São Caetano em duas Kombis e como recompensa, os motoristas recebem bonés e camisetas para assistir o jogo no camarote colorado. – Finalmente, vamos ver o time do patrão ! vibram o Leandro e o Raimundo, prontos para torcer pelo Inter. Mas dentro do campo, o time não anda. O São Caetano faz 1 ... faz 2 ... faz 3 ... faz 4 ... faz 5 ... e fecha goleada em 6 x 0. – Não dá prá torcer para esse bola murcha ... comentam os dois funcionários, tirando sarro na segunda feira. – Futebol é assim mesmo ... é o que me resta dizer.

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ESTRELA F.C. Da antiga Baixada ao Walter Jobim – hoje Estádio Aloysio V. Schwertner – o Estrela Futebol Clube descreve bela trajetória. Armando Gemmer, Willimar Schneider, Aloysio Schwertner, Bertoldo Gaussmann, Edmundo Hergemüller, Alfredo Fauth, Eugenio Noll e outros, são presenças marcantes na direção. Viola, Risada, Quilote ( Baiano ) Blumm, Orighela e outros, tem no banco papel tão importante quanto o dos atletas em campo. No gramado bem aparado pelo Tato, pisam jogadores de grande talento – como o Prego, Iéié, Nelsinho, Adãozinho, Gaiteiro, Adauto, Osmar Braga e Cicinho. É impossível lembrar de todos os atletas, mas a velha guarda está na memória. Amaury, Jorge Schiller, Osmar, Cláudio, Carrion, Lino, Tito, Talo, Ataíde, Nelsinho, Laurinho, Lamão, Polaco, Tatico, Mirinho, Rui, Loy, Bom Cabelo, Lampião, Zepelin, Darci, Chico, Dirceu, Pintado, Lili, Nero, Baurú, Lambari, Salabico, Lito, Canabarro, Adelmo ... ufa ! são alguns dos que vi suarem a camisa alvi–azul. Nesta incompleta lista, há mais um tanto de craques recentes. O Lui, Normélio, Roque, Adonis, Adilson, Bexiga, Adroaldo, João Eckert, Preguinho e Schtamba – constam também da galeria. – Quiçás a estrela alvi–azul volte a brilhar como antes. O BOM MARCADOR Cada craque tem um ponto forte. Alguns se destacam pelo talento, outros pela raça e vigor. O do Salabico, é o poder de marcação. – Marca o Paulo Heineck de perto. Gruda nele. Não deixa ele só ... diz o Orighella, orientando o atleta antes do clássico regional.

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No jogo, o Salabico executa com total sucesso a orientação do técnico. Gruda no craque adversário e não o deixa jogar. Anula–o com ótimos desarmes e antecipações na jogada. Cansado e irritado com marcação tão cerrada, o Paulo deixa o campo por um instante para tomar água à beira do gramado. Ao olhar para o lado com a garrafa na boca, não acredita no que vê. Lá está o Salabico, tomando água também. Nem fora do campo, ele escapa do implacável marcador. MORTO VIVO O Prego tem pavor da morte. Detesta velórios e enterros. E é justamente por este lado, que o Quinca Pereira prega–lhe a peça. – Prego, aconteceu uma desgraça ! – O Quinca morreu ! avisa o amigo desesperado. – Não pode ser, falei com ele ontem ... responde o Prego. – É ... parece mentira, foi de repente, ataque do coração ... – Tá sendo velado na casa do Arnaldo, precisamos ir até lá ... – Tá louco, Deus me livre ! não gosto disso ... reage o Prego. – Tu precisa ir, toda a turma tá lá ... – Tá bom, tá bom ... se a turma vai, eu também vou – mas só vou porque é o Quinca ! No velório, a tristeza é profunda. Os amigos consternados, lamentam a morte e falam das infinitas qualidades do falecido. – Bom amigo ... – Tão alegre ... – Tava tão bem ... – Quem podia imaginar ? comentam em suaves murmúrios, como é de bom tom em ocasiões como essa. O Prego se emociona e entra no clima. É o que mais sofre com a perda. Chora ao lado do caixão com o olhar vazio fixo nas flores. Não tem coragem de encarar o morto. Abatido, afasta–se do caixão e acomoda–se numa cadeira, absorto em sua dor. Com a cabeça apoiada entre as mãos e cotovelos nos joelhos, fecha os olhos para não ver a triste realidade que o cerca. Nada vê do que acontece ao seu redor. 253


Passo a passo, um a um, os amigos vão se retirando e sem que ele perceba, deixam a sala vazia. Os suaves murmúrios e os surtos de tosse, vão escasseando até sumir. Estranhando o profundo silêncio, o Prego abre os olhos e descobre que está só. Com ele, só o Quinca no caixão ! Lívido de pavor, olha para o morto e sente o coração na boca. O defunto mexe os polegares das mãos cruzadas no peito. – Socorro ! – O Quinca tá vivo ! – O Quinca tá vivo ! grita transtornado, correndo para a porta de saída. Força o trinco e a porta não abre. Corre então para a janela aberta e joga–se para fora. Os amigos que o aguardam na rua, rolam de rir ao vê–lo despencar na calçada. Lá dentro, o morto sentado no caixão, gargalha e festeja o sucesso do trote. O Prego jamais o perdoa e jura que este é o seu último velório. O próximo, só o seu ... Tempos depois, o Quinca morre de verdade e tem um enterro pequeno. Ninguém acredita que seja verdade ... AS EXCURSÕES Além de bons e maus resultados no retorno, o time traz na bagagem as histórias de cada excursão. – Tá louco, eu não vou dormir neste quartinho apertado sem cama e sem janela ! reage o Tato indignado, quando lhe indicam o elevador do Hotel Rio Grande, como sendo o quarto para ele dormir. E há também os bons de Geografia. Ao passar de ônibus pela Lagoa dos Patos, o Tachinha expressa a sua intimidade com a orla. – Mar, velho mar ... exclama ele, como se estivesse reencontrando pela enésima vez, o velho e conhecido Atlantico. Em outra excursão – ao passar pela ponte do Mampituba – o Chefe da Delegação informa que eles estão saindo do Rio Grande do Sul e entrando em Santa Catarina. – Adeus Brasil, até a volta ! despede–se o Tachinha. 254


PÃO COM BANANA Na Praça, os rapazes falam de suas viagens a Porto Alegre. Falam do bonde, da Rua da Praia, da Praça da Alfândega e assim por diante ... até que o Abel traz um valioso depoimento: – Não sei o que acontece comigo. É impressionante. Mal desço do ônibus em Porto Alegre e me dá uma baita vontade de comer pão com banana ... – Não tem grana prá comer coisa melhor ... gozam os amigos. Até pode ser, mas existe uma razão para a vontade de comer banana. O atleta dispende grande quantidade de Potássio na atividade física e a banana o repõe para manter o tônus muscular. É por isso que os tenistas comem banana no intervalo do jogo. Inconscientemente talvez, o Abel esteja repondo o Potássio em suas idas à Capital. PINTANDO O SETE Na ausência do patrão, o Pintado – ex–jogador do Estrela e caseiro do Neco em Poço das Antas – põe a domingueira e faz as vezes de dono do Sítio, nos bares da pequena cidade. Atento às conversas no Bar do Posto, junta–se à mesa de um morador local e puxa aquele papinho de filador da cerveja. – Tu falou que é pedreiro, quanto tu cobra a hora, khell ? – Quinze pila a hora ... responde, o pedreiro já inflacionando o preço em 50% ao forasteiro. – Puxa, o teu preço é bom, khell ... até me interessa. – Sim, mas quem é o Senhor ? – É de fora ? – Sim, sim, sou de Estrela. Comprei o sítio do Neco e tô pensando em fazer uma casa nova ... – Ah, sim ... que bom, seja benvindo ... – Mas é obra grande, preciso de mais gente. Tu não me arruma uns dez igual a ti, nesse mesmo preço, khell ? 255


– Claro, claro, arrumo sim ... compromete–se o pedreiro, acreditando na lábia e juntando mais uma cerveja às diversas garrafas já vazias na mesa. E o papo fica por isso mesmo. Obra que é bom, nada.

OS ADVERSÁRIOS Nosso grande rival é o Esportivo Lajeadense. Brigas homéricas acontecem nos jogos. O visitante que ousa vencer na casa do outro, só tem um caminho na volta – atravessar o rio a nado. Assis, Rogério, Poletto, Nestor, Paulo Haineck e Paulo Killing, são ossos duros de roer. Este último vem jogar no Estrela – um baita craque. Ao longo do tempo, o Esportivo cresce e se distancia do seu conterraneo São José e dos demais clubes da região. Do Florestal, vai para o bairro São Cristóvão e agora – no ano de seu centenário – está mudando para sua nova arena em Cruzeiro do Sul. Lajeado, é o pólo comercial do Vale do Taquari. Para os estrelenses mais jovens, nada mais natural do que gravitar em sua órbita. Entre os mais velhos no entanto, persistem ainda resquícios da antiga rivalidade. – Os lajeadenses não se cumprimentam na rua – mesmo os que se conhecem, agem como se fossem estranhos ... – Ué ... e por que isso ? – Prá fazer de conta que vivem numa cidade grande ... ironiza, o vizinho ciumento. Outros adversários que aqui vêm jogar, impressionam mais pelo nome do time do que pela técnica e esquemas táticos. Jogam feio, mas seus nomes provocam curiosos comentários entre os torcedores estrelenses. – Se o Concórdia de Roca Sales é tão desarrumado em campo, imagina o Discórdia ... 256


– O Fortes e Livres de Muçum, ganha fácil do Fracos e Prisioneiros de Encantado ... – O Tamoyo de Tupanciretã, é índio de raça pura. Tem índio no time e no nome da cidade. – Assim como o Gaúcho de Passo Fundo, poderíamos ter o Alemão de Estrela – igualmente redundante.

O RÁDIO O envernizado rádio RÇA Víctor – com o cachorrinho latindo ao gramofone – nos traz o mundo pelas ondas do rádio. Na hora do almoço, tem o Pinguinho e Walter Broda. – Entra preguinho ... diz o último, a cada martelada. À noite, vem a Hora do Brasil, o Repórter Esso e a novela O Direito de Nascer, criando suspense para a noite seguinte. No domingo à noite, tem as trovas, poesias e causos do Darcy Fagundes e Luiz Menezes, no Grande Rodeio Curinga. O incêndio da Farroupilha, queima os estúdios e também a audiência da poderosa emissora – líder do rádio gaúcho, dando lugar ao crescimento da Difusora, Gaucha e Guaíba. Em meio a um certo chiado, as estações do Rio de Janeiro, do Uruguai e da Argentina, pegam fácil à noite. É difícil entender o que os castelhanos dizem, mas algumas propagandas das rádios Belgrano e El Mundo, circulam de boca em boca entre a gurizada. Os anúncios mais divertidos são os da Ross: – Constipación ? – Pílulas ROSS es la solución ! – Una pílula, píu ! – Dos pílulas, píu, pìu ! – Três pílulas, prrrrr ... prrronto, cagou– se ! E tem ainda o talco: – Para el titico del neném, para el cajardo del papá, Talco ROSS ! – No arraña la piel y no arranca los pelos !

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AS CARRETEIRAS As carreteiras despertam em nós o mesmo entusiasmo do futebol. As corridas acontecem na estrada de terra, de Passo Fundo a Porto Alegre, levantando pó no outro lado do rio. Depois, as baratas vem para a nova Estrada da Produção. A mais de 100 km por hora, a nuvem de pó vermelho as persegue na cauda. Emocionados no alto do barranco, as vemos passar voando onde hoje está o trevo de Estrela. O trajeto restante é ouvido pelo rádio e cada piá fica torcendo por seu piloto favorito até a linha de chegada. O Normélio é do Catarino Andreatta – o N.º 2. Eu torço pelo Diogo Elwanger – o 22. O Júlio Andreatta é o número 6. Os outros ases do volante tem nomes sonoros e conhecidos de todos. Vitório Andreatta, Aristides Bertuol, Antonio Fonini, Breno Fornari, Camilo Cristóforo, Nativo Camosato, Karl Iwens, José Asmuz, Chico Landi, Italo Bertão, Orlando Menegaz e Argemiro Pretto, são famosos e tem forte torcida. As velozes baratas de rabo caído, marcam época e precedem o surgimento de outras fórmulas que migram para o asfalto do novo Autódromo de Tarumã em Viamão – onde Milton Heinz e Décio Michel, vem a fazer grandes jornadas. E o amor pelo automobolismo continua a correr nos autódromos de Guaporé, Santa Cruz e o Velopark – localizado bem onde passariam as carreteiras, caso o circuito ainda fosse de estrada. MANHÃ DE SANGUE No quieto amanhecer de domingo no sítio do Zeca em Caucaia do Alto, saio com o chimarrão para a varanda e vejo espantado grandes manchas de sangue espalhadas no piso. Tento imaginar o que poderia ter sido: – Se fosse alguém 258


ferido, teria pedido socorro ... se fossem animais, teriam feito barulho ... especulo, cevando o mate. Quando o Zeca acorda, decidimos seguir os rastrilhos vermelhos que seguem pelo gramado, descem para a entrada do sítio e continuam na estrada de terra a Caucaia. A uns 500 metros do sítio, os pingos apontam para o portão de bambu de uma casa muito modesta. – Foi os cachorro, o meu tá sangrando muitcho ... diz a velhinha, com sotaque caipira. – Então o sangue na varanda, é do Fiel ... conclui o Zeca. – É ... deve ter sangrado na briga de rua e foi abrigar–se no sítio ... completo eu. Realmente, é isso. Voltando ao sítio, encontramos o Fiel todo estropiado e manchado de sangue no canil. Esclarecido o caso, nos prolongamos no café da manhã diante da TV para assistir a Fórmula 1 na Itália. Antes da corrida, a Globo mostra flashes do treino do dia anterior. Rubinho Barrichello alça vôo e se projeta contra o alambrado, sem danos pessoais. Logo em seguida, morre um piloto alemão que se perde na curva. Na volta de apresentação, o Zeca vaticina: – Esta corrida, não vai acabar bem ... E não acaba mesmo. Minutos depois, Ayrton Sena a 300 por hora, bate no muro da curva Tamborello e nos deixa atordoados. Saímos a passear de carro com as mulheres e crianças, esperando que o rádio anuncie o milagre que não se confirma. – Ayrton, morreu ! é o terrível desfecho final. Perdemos em Ímola, o nosso maior ídolo – enterrado em tumba vizinha à nossa no Cemitério Parque Morumbi, em São Paulo. A TELEVISÃO Na vitrine da Importadora Alto Taquari surge o primeiro aparelho de televisão em Estrela. 259


O público se aglomera na calçada para assistir a TV Tupi – o único canal disponível. Logo vem outra no restaurante do Bar Abrigo. O pessoal faz fila para ocupar as mesas e conhecer a formidável novidade. No Alto da Bronze, os Eckert nos convidam para assistir alguns programas – somos os primeiros televizinhos no bairro.

O ALTO DA BRONZE A Rua Geraldo Pereira é a espinha dorsal do Alto da Bronze. Vai da velha Polar até a Trans Santa Rita – depois da Auxiliadora. As outras quatro ruas são curtas e só tem duas quadras de extensão. A Cel. Müssnich, começa na esquina do Hospital e muda de bairro depois do Grupo Escolar. A Pontes Filho, começa na esquina do Reckziegel e termina no Grupo Escolar, na transversal que hoje se chama Hanz Würz. A Pércio Freitas, começa na Cel. Müssnich e termina no Açougue. Nela moramos nós. RUA GERALDO PEREIRA Para merecer a honra de dar o nome à mais extensa rua da cidade, o Geraldo Pereira deve ter sido tão importante quanto Júlio de Castilhos – o Presidente da República Riograndense. Ela vai do campo da Baixada até a Santa Rita, passando pelo Poço Artesiano, Cadeia, Delegacia, Hospital, Capela, Armazém Reckziegel, Serraria Eckert e o Cemitério. Dali entra no meio rural até quase chegar no salão do Aníbal Wagner. Na Geraldo Pereira, residem famílias grandes e ilustres. Ruschel, Müssnich, Porto, Leindecker, Reckziegel, Eckert, Horn, Niske, Knoebel, Butignol, Birk, Barbosa, Halmenschlagen, Stein, Keller, Becker, Barbosa, Trentini, Braun, Wülfing, Gregory, 260


Schwann, Görgen, Werle, Wathe, Barth, Wagner e outros, vivem em seu longo traçado. O POÇO ARTESIANO O profundo poço guarda um tesouro. Na esquina da Geraldo Pereira com a Julio de Castilho, a Prefeitura capta água de excelente qualidade, tomada direto da torneira. Depois, a Corsan introduz a cloração para evitar as contaminações e acaba virando cabide de emprego no Estado inteiro. A exploração da água é um baita negócio e a Prefeitura quer tomar o poço artesiano de volta. Seria ótimo. O dinheiro ficaria por aqui, como já acontece em Teutônia.

A CADEIA O Rocha, Manoel, Marcírio e Aires, são soldados sérios e pouco dados a longos papos com presos e libertos. Mas são boa gente e se entendem com todos. Jogam até futebol com os presos de bom comportamento. Quando estamos por ali, nos convidam para completar os times. O melhor é jogar pelos guardas, pois os presos não podem cometer o delito de ganhar o jogo. É jaula na certa. Alvo de preconceito, a Cadeia é um elo da sociedade. Vivemos perto dela e vemos o que ali acontece. Os policiais são respeitáveis. O Marcírio é pai do Vadinho que mais tarde vem a ser garçon dos meus pais no Clube. Só o Aires destoa. Perde–se na bebida e mancha a farda da BM com um crime bárbaro. Esfaqueia o meu primo Mário, deixando a Érica viúva, com duas crianças. Os presos, são sempre os mesmos. Cometem pequenos roubos furtivamente à noite, de cara limpa e mão desarmada. Basta acender a luz para espantá–los. 261


Eles nos cumprimentam amigavelmente pelas janelas e grades, ao passarmos pela rua. O Titico é o mais novo, ousado e arisco. Vive enjaulado por suas seguidas tentativas de fuga. Já foi recapturado duas vezes. O seu irmão Darci é calmo, discreto e bem apessoado. Depois de libertado, atua como empresário de entretenimento noturno. O Bolacha, é risonho, tranqüilo e bonachão. Mais tarde se torna segurança. O Rui, é astuto e matreiro. Age sozinho no roubo da Camisaria Prata e limpa o caixa da Estação Rodoviária, em curto intervalo de tempo. O Jesuíta, é gente boa, inteligente e bem relacionado. Paga a pena por crime financeiro. Após a pena, a maior parte dos presos se ressocializa e refaz sua vida, sem ameaçar a sociedade. Hoje, não é mais assim. O tratamento animalesco, os torna bandidos por toda a vida. NOTÍCIA No mundo atual, o pequeno crime não é mais notícia. As atenções estão sempre voltadas para o incomum, o anormal, o bizarro. Não fosse pelo horário inusitado, o último assalto à Imec não passaria de mais um desapercebido BO nos registros da Brigada Militar. Mas como os ladrões foram os primeiros a chegar à loja logo pela manhã, o horário incomum virou o assunto do dia. – Roubar às oito da manhã ? – Com o caixa, ainda vazio ? – Os ladrões são burros ! condena o Cliente na fila do pão. – É coisa de principiante ... julga o outro. – O Rui e o Titico eram mais inteligentes ... diz o velhinho, lembrando dos presos de antigamente que jogavam bola exatamente onde está hoje a loja assaltada. 262


O CIRCO O campinho da Cadeia, é também palco dos grandes Circos de lona que fazem temporada em Estrela. Famosas Companhias acampam ali por semanas a fio. À noite, ouve–se ao longe, o aterrador rugido das feras. O do leão é de borrar as calças. Durante o dia, o Circo desfila em caminhão aberto pelas ruas, anunciando as suas grandes atrações, belas mulheres, palhaços e hábeis artistas. Atrás, vem os animais selvagens enjaulados. Apesar de toda a pompa dos Gran Circus, o que mais me impressiona é o modesto Circo Teatro Dilauro. A Mulher–Sapo se contorce como um bicho de borracha. Dobra o corpo, enfia a cabeça entre as pernas e pula como um batráquio. É impressionante ! Mais impressionante ainda é a filha do dono do circo. Não há quem não sonhe em atrair o seu olhar. Minha sonhadora cabecinha infantil, pensa até em largar tudo e correr o mundo com a troupe. Depois dela ir embora, vem outro circo e a vida continua ... FAMILIA PORTO A antiga Delegacia de Polícia pegada à Cadeia, serve de moradia para a simpática e interativa família Porto. O Seu Odilon e a Dona Dalila, são os chefes da claque. Não há quem não os conheça na cidade. Os numerosos filhos são também muito bem relacionados. O Telmo segue carreira policial. O Nátia, vai para a Barra do Aragarças cuidar dos índios. O Antonio Carlos – o Talo – é atleta, radialista e jornalista, de grande sucesso. A Bea e a Dalva, são professoras. O Vítor Hugo – o Nenê – vai viver em Tapes. O Talo – conhecido por Portinho, em Porto Alegre – volta a morar em Estrela e acaba de falecer aos 81 anos. A velha casa, está ainda de pé. Abriga hoje, o restaurante do Chúcki que serve refeições na mesa e viandas para a vizinhança. 263


O HOSPITAL Com 80 anos de vida, o Hospital de Estrela é sem dúvida o maior motivo de orgulho da cidade. Abnegados Médicos, Freiras, Enfermeiras e outros Profissionais, transformaram a pequena casa de saúde com 25 leitos e 130 cirurgias anuais, em grande centro médico regional, com 140 leitos, 3.000 atendimentos de urgência e 3.000 cirurgias por ano. Hoje, 60 médicos de inúmeras especialidades, atuam no Pronto Socorro, Consultórios, Clínicas, Laboratórios e Farmácias que prestam serviços e assistência da Maternidade à UTI. Até um Centro de Oncologia, está sendo instalado. A expansão é tanta que já não há onde estacionar nas ruas próximas, exigindo o urgente estabelecimento de um estacionamento público cercado, pago e seguro, para prevenir os roubos de carros que ali já vem ocorrendo. PADRE JERÔNIMO O Padre Jerônimo, cochicha com Deus sem que nada se ouça. Mesmo os ouvidos mais aguçados, não conseguem decifrar o suave murmúrio de suas preces vagando pela Capela do Hospital. Sua fala com Deus é particular. – Que Deus ouça, o que nós não podemos ouvir ... E o Padre é hoje um santo. Os fiéis fazem pedidos e queimam velas em sua tumba, no nicho destinado aos padres ao alto do corredor central do cemitério. – Favor não acender velas sobre esta pedra ... diz, a plaquinha sobre a bela lápide de granito polido.

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A ESQUINA DO RECKZIEGEL Na principal esquina do bairro, há tres serviços essenciais que funcionam de domingo a domingo, ininterruptamente. Respeitando as leis do comércio e da religião, o Roberto Reckziegel atende pela janela lateral do Armazém aos domingos. Durante a semana, é ajudado pelo Franz – o futuro escritor Assis Sampaio – e seus irmão Inácio e José – o Nanico e o Chússi. Ao lado dos cinamomos do outro lado da rua – onde estacionam os cavalos – ele mantém o depósito de mantimentos a grosso. Transfere diáriamente para a Venda, só as quantidades necessárias para atender o varejo. Quando não há clientes, dedica–se a matar as formigas sem uso de pesticidas. Ecológicamente, usa a ponta da bengala. Na diagonal, a Dona Branquinha Hansen – que todo mundo chama de Müssnich – é o anjo da guarda dos enfermos. Seu armário na sala, é cheio de vidrinhos, agulhas e seringas. Faz injeções em casa e a domicilio, na veia, na bunda e nos braços, dos homens, mulheres, adultos e crianças do bairro. Quando tive paralisia infantil, me deu tanta injeção que já não havia onde enfiar a agulha. Nem o marido Jacó, e os filhos Carlos, Irineu e Vanda, escapam de suas certeiras agulhadas. Os irmãos Nico e Antoninho, que também vivem por ali, costumam afastar–se quando a vêem se aproximar de seringa em riste. E a esquina também tem táxi. Enquanto a Lita tira o leite das vacas na chácara próxima, o Oli está sempre pronto a levar para onde for, a qualquer dia, a qualquer hora, os doentes do Hospital. O Auri – irmão da Olésia – segue a profissão do pai e age com a mesma presteza em seus carros sempre impecáveis. O apelido Cardoso – curioso para um rapaz de origem alemã – poderia ser Zeloso, tal o zelo que ele tem por seus autos. 265


A SERRARIA Outra referencia importante no Alto da Bronze é a Serraria comandada pelo Oscar Eckert. Produz madeira de qualquer bitola para todas as necessidades. Dali saem as tábuas para a casa dos vivos na cidade e as lâminas para o caixão dos mortos no cemitério, logo adiante.

O CEMITÉRIO O Cemitério é o grande Museu estrelense. Guarda zelosamente a história das famílias que ali reúnem seus mortos, com fotos e datas de nascimento e morte. Mas nem sempre os túmulos foram tão bem cuidados como hoje. Os que andavam em ruína com ossos à mostra, eram os mais visitados por nós. Dali retirávamos cranios e canelas de esqueletos, para jogar futebol no campo dos plátanos em frente. A canela, era a trave da goleira e o crânio servia de bola. O único cuidado era não chutar de bico e enfiar o dedão nos buracos da cabeça. Se pegasse no olho, o morto cegaria. Se entrasse na boca, ele morderia. Melhor, pegar um sem dentes. Católicos e Luteranos, descansam em paz em dois terrenos paralelos. O dos Católicos, tem quatro quadrantes demarcados pelo corredor central e pela alameda transversal de ciprestes. No lado Evangélico, o corredor principal culmina num bucólico capão de pinheiros que sombreiam sepulturas e cruzes ao nível do chão – como a do amigo Islon Ziebel. Imponentes, limpas e bem conservadas, algumas sepulturas se sobressaem. O Cristo de mármore branco no jazigo de Luís Müssnich, é valioso. A gravura de Hanz Schnitzel, em seu cavalo de mascate quase em tamanho natural, destaca–se por sua originalidade. A falta de jardins, é compensada pela incrível profusão de flores repostas regularmente sobre os túmulos. No Dia dos Finados, o 266


florido cemitério parece um salão de festas comemorando a paz celestial. A PAZ As visitas aos avós, aos pais, ao irmão Nenê, aos sogros e aos amigos Mico e Islon, me enchem de saudade. O grande número de conhecidos que eu nem imaginava estarem ali, me alertam para a exigüidade da vida. Alguns viveram muito pouco. Mesmo assim, sinto no silencio deles, o espírito da paz. Suas imagens impassíveis e congeladas no tempo, parecem sugerir que a morte tem feições naturais. – Veja, não há o que temer ... estamos tranqüilos, descansados ... parecem querer dizer. O Cemitério não tem o luxo dos modernos Jardins do Éden, com suas alamedas e vastos gramados, mas os mortos descansam bem. A maior parte, ainda está livre do horroroso apêrto das gavetas que empilham uns sobre os outros em minúsculos cubículos. Para os mortos não faz diferença, mas aos vivos traz um certo consolo imaginar que eles estejam confortáveis em suas sepulturas. FUTURA MORADA Pouca gente se dá conta, mas Estrela está usando o padrão arquitetônico do Cemitério para certas construções no Centro. A densidade de um habitante por 2 m² no campo santo, serve de inspiração para ocupar as desabitadas quadras centrais, com densidade populacional 100 vezes menor. O povo, os serviços e o comércio, estão sendo adensados em sofríveis predinhos sem recuo, sem insolação, sem verde, sem lazer, sem garagem e sem elevador – verdadeiros túmulos para seres vivos. E o avanço de marquises, sacadas e janelas, sobre o espaço aéreo, vai tirando o sol e as árvores das ruas, tranformando–as em estreitos, sombrios e úmidos corredores cujas calçadas jamais secam no inverno. 267


Até as novas gavetas do cemitério, já estão sendo copiadas. Tudo para garantir uma boa qualidade de morte – já que a de vida está sendo ignorada. FILOSOFANDO Entre o Nascimento e a Morte, há coisas que nossa vã filosofia não consegue alcançar. – Se o nascimento é a Chegada, por que chamamos de Parto ? – Parto, não deveria ser a Partida ? Se o Parto fosse a Partida, o Parteiro nos levantaria pelos pés e nos daria tapinhas na bunda para abrir os olhos no Céu. A morte daqui, seria o nascimento de lá. A sepultura terrena, seria o berço celestial. Ao invés de lamentá–la em torno da cova, choraríamos de alegria por um novo nascimento no paraíso. E nada seria preto – tudo seria branco. O luto, o caixão e o carro fúnebre, seriam brancos como a cegonha do bebê. E a Morte seria benvinda – só os contumazes pecadores destinados a nascer no inferno, a temeriam.

RUA PÉRCIO FREITAS Esta é a nossa rua – o nosso CEP e IPTU. É uma rua pequena, de 150 metros e duas quadras sòmente – depois ampliadas para quatro. Pércio Freitas foi um grande homem. Merecia uma rua maior. Às vésperas de 1900, ele anulou os impostos no município por falta de estrutura para cobrá–los. Certamente seria vivamente festejado caso voltasse à política atual – tão esfomeada de impostos. A Pércio Freitas começa na casa da Chaveca e termina na porteira do Bruno Eckert. 268


Tem 9 casas residenciais com 40 moradores. Só nós e os Eckert, somos 18 – 45% da população total. Tem também três pequenas indústrias – a Olaria do Bruno Eckert, o Açougue do meu pai e a fábrica de túmulos Schwertner & Stein. O Stein – pedra em alemão – não mora na rua, mas é o único que trabalha na profissão certa – com pedras. O MUNDO É PEQUENO O Stani e a Melania Müssnich, hospedam os sobrinhos Romeu e Irineu, que vêm de Chapada para estudar em Estrela. Os dois formam–se no Cristo Rei e caem no mundo. Cinquenta anos depois, o Irineu plantador de soja no Maranhão, vê os jipes de Estrela numa expedição à Amazonia e dirige–se ao grupo. Conversa com um, conversa com outro, identifica o Igor – seu contemporâneo na escola. O estudo em Estrela, o fez alçar longos vôos. CADUQUICE Criança é cruel. Trata os diferentes com crueldade. O alto incomoda o baixinho, o magro incomoda o gordinho, o moleque incomoda o certinho e assim um vai incomodando o outro até quebrar o pau entre eles. Quando ainda não se conhecia o bullying, chamávamos o Alírio de Caduco. A mãe dele – ainda mais caduca do que ele – ficava uma fera quando o fazíamos perto dela. E quanto mais braba ela ficava e corria atrás da gente, mais a gente inticava. Com criança, não se briga na rua – é caduquice.

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RUA CORONEL MÜSSNICH O trecho da Coronel Müssnich no Alto da Bronze é curto, mas tem importantes pontos de referencia. Na esquina do Hospital está o Consultório médico por onde passaram os Doutores Lamprecht, Schinke, Mohr e Szmidt. Há especulações e mistério sobre o passado do casarão com torre de castelo. Com temor e respeito, fala–se que o alto muro de pedra escondia fantasmas e orgias promovidas por magnatas longe dos olhos do povo. Até um crime passional teria ocorrido ali. Mais abaixo do outro lado da rua, está a Fábrica de Móveis do Fritz Rakowski – pai do Herbert e da Lola. Seus móveis são tão bons, que – herdados de meus pais – ainda os tenho em uso 70 anos após a fabricação. Não há cupim que os coma. Em frente, está o Grupo Escolar Vidal de Negreiros e ali termina o Alto da Bronze. A escola pública recebe crianças de toda a cidade, que não podem pagar a mensalidade de escolas particulares. O VIDAL DE NEGREIROS – Estarei trabalhando à tarde no Vidal de Negreiros – encontre–me lá, diz o Paulo. – Como vou achá–lo lá dentro ? pergunto eu. – É fácil. Depois da entrada principal, há um pátio grande à direita. Lá estamos pintando o prédio, orienta–me ele. À tarde, dirijo–me ao lugar combinado e sigo exatamente as suas instruções. Passo a entrada principal do Grupo, entro no pátio à direita, mas não encontro ninguém. Volto ao prédio e sigo então pelo longo corredor das salas de aula, para me informar. Sigo de sala em sala e todas estão vazias. Na última porta à direita, no fundo do corredor, vejo um rapaz trabalhando na escrivaninha. 270


– Boa tarde, por favor, Voce sabe onde estão os pintores ? pergunto ao rapaz. – Pintores ? – Aqui não há nenhum pintor ... – Estranho ... O Paulo me falou que estaria trabalhando aqui e que eu poderia encontrá–lo no pátio, pintando o prédio ... – Olha, que eu saiba, não tem nenhuma pintura sendo feita por aqui. Em todo o caso, vamos dar uma olhada ... levanta–se, o solícito funcionário para irmos até o pátio. No percurso do corredor, continuo comentando com ele: – Mas que estranho, ele foi tão exato. Disse claramente que estaria aqui no Vidal de Negreiros, no pátio à direita, após a entrada principal ... – Mas o Vidal de Negreiros, não é aqui ... – Como ? – Não é aqui ? interrompo, desconcertado. – Faz 28 anos que mudou para o antigo Cristo Rei ... aqui, é agora o Vidalzinho, esclarece o rapaz, para minha total surpresa. Pego o carro e de fato, lá no antigo Cristo Rei encontro o Paulo pintando o prédio no grande pátio à direita, logo após a entrada principal – exatamente como ele havia explicado. O PAU VAI COMER Além da desinformação, outra fonte de mal entendidos é o sentido figurado que muitas vezes usamos. O meu filho Fábio quando criança, chega da rua todo enlameado e a Vania o repreende: – Já para o banho, senão o pau vai comer ! – E pau tem boca, mãe ? pergunta ele, inocentemente. O GURÍ DO MORELLI Apesar de ser estrelense familiarizado com os termos locais, ainda me surpreendo fazendo interpretações equivocadas. – Leva lá no Morelli. O guri dele entende tudo de bomba ... sugere o Jeks, referindo–se à bomba de água que não funciona. 271


Seguindo a recomendação do encanador, entro na loja com o equipamento avariado na mão, perguntando pelo filho do Morelli, especialista em bombas. – Filho do Morelli ? – Aqui tem o Fabiano, especialista em bombas, mas ele não é filho do Morelli ... explica a Suzi. – Ah, fiz confusão ... o Jeks falou em guri do Morelli e eu entendi como se fosse filho dele. – É ... aqui na loja, todo mundo é meio filho do Morelli ... diz a atendente, elogiando o patrão.

RUA PONTES FILHO A Pontes Filho – vai da Branquinha Müssnich até a casa dos Bastos e dos Kist. Os moradores fixos são poucos, mas a população flutuante é numerosa. Adiante do depósito de areia do Engelmann, atrás do Grupo Escolar, a Dileta mantém uma discreta e bem freqüentada casa de encontros adultos. Depois muda para a Zona e a Pontes Filho, fica às moscas. CONTINUO QUERENDO Solteiro e feliz da vida, o Laurí circula com seu Mercedes 1113 com a inscrição – EU QUERO ROSETAR ! no parachoque. Ao casar, a sogra o pressiona para apagar a frase: – Tu és agora um homem casado. Isto não fica bem para ti, nem para a Telma. – O que os outros vão pensar ? insiste ela. Sensível aos repetidos apelos da sogra, ele decide mudar a inscrição. Passa uma tinta branca por cima da frase original e a substitui por – CONTINUO QUERENDO ... Além dele e da sogra, poucos sabem o que significa.

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RASTRO NA ROÇA No fim da Pontes Filho, a turma é grande. Tem um monte de marmanjos e crianças. O José Bastos tem a minha idade. Acima, vem o Júlio e abaixo, o Jurandir. Na casa dos Kist, tem o Hélio – com um ano a mais do que eu – e os irmãos mais velhos João e Célio. O Célio, tem seis dedos nos pés e as crianças não perdoam. Dizem que rouba melancia no Cristo Rei. – Viram o seu rastro na roça ... SEXTA FEIRA No cantão da atual Rua Hanz Würz com a chácara do Oli Leindecker, vive a família Freitag. São negros, descendentes de escravos com sobrenome alemão – Freitag é Sexta Feira. O Pedro e a Eva, são os pais do Jorge e do Auri. O Daniel, Favorino e o Osvaldo, são os tios. O Osvaldo, leva comida na vianda para trabalhar como diarista braçal. Certa feita, ele adoece e minha mãe usa a sua doença como pretexto para nos fazer comer à mesa. – Viram que o Osvaldo tá doente ? – É de tanto comer comida fria, comam enquanto está quente ! ordena ela, tentando nos convencer a limpar os pratos. Os Freitag não falam alemão, mas o Trajano – também descendente de escravos, que vem a cavalo da Santa Rita – canta e fala fluentemente, especialmente sob efeito dos fluídos da pinga. BICHO ESTRANHO Na cerca da chácara do Oli, o meu filho Fernando vê um bicho que não conhece: – Mãe, mãe ... vem cá ver que bicho estranho ! chama ele, alvoroçado. 273


A Vania corre até lá e descobre que o bicho estranho é apenas uma Vaca – animal que ele jamais vira no zoológico. VIDA CIGANA O potreiro do Tio José, abaixo do Reckziegel, abriga os grupos ciganos que de tempos em tempos aparecem em Estrela e ali instalam suas tendas de lona. Com dentes de ouro e fala castelhana, os ciganos são comerciantes persuasivos. Os homens, vendem tachos de cobre e oferecem vantagens irresistíveis em qualquer tipo de negócio. As mulheres – de saias rodadas, lenço na cabeça e largos brincos e colares – circulam em pequenos grupos pela rua, lendo a sorte na mão dos incautos. As velhas, enrugadas e mal cheirosas, são verdadeiras bruxas. As jovens, são lindas deusas cativantes – difícil, não lhes dar a mão. – Cuidado ! – São ladrões, roubam crianças ... nos alertam os adultos, temerosos com possíveis raptos infantis. Eu como criança, me dou bem com outras crianças. Brinco e corro com os ciganinhos entre suas camionetes e barracas. A lona central aberta dos lados e preta da fumaça do fogo de chão, é a cozinha coletiva do grupo. Pedras e ferros, dão suporte às panelas. Em torno dela, as barracas são unidades familiares. Tem móveis, camas, colchões e coloridos tapetes no chão. Não tenho medo, mas presto atenção nos ciganos. Algumas crianças loiras de olhos azuis, são diferentes da maioria de pele escura, cabelo e olhos pretos. – Terão sido roubadas de alguém ? pergunto–me, desconfiado. Já adulto, sou mais propenso a pensar que elas talvez não sejam fruto de rapto. É mais provável que resultem da miscigenação de raças em romances furtivos, em alguma parada qualquer. 274


Quem pode garantir que as linhas da mão, não possam pular a cêrca e produzir inesperados resultados de olho azul ?

INICIAÇÃO SEXUAL Os primeiros sinais de sexualidade, nos despertam para a vida. Brincamos de médico com as priminhas, surpreendemo–nos com o piu–piu durinho ao amanhecer e começamos a nos sentir especialmente atraídos por aquela gostosa amiguinha. Os estranhos estertores da puberdade, nos fazem descobrir que algo novo está acontecendo conosco, até que os impulsos sexuais virem rotina e passem a frequentar as conversas da gurizada. As revistinhas de sacanagem rodam escondidas e as solitárias bronhas são inevitáveis. O contrapeso acontece na Confissão. O padre condena o pecado e nos penitencia a rezar dez Padre Nosso e dez Ave Maria. Mas o sincero arrependimento, não dura muito mais do que o tempo de cumprir a pena. Mal se termina de rezar e o Diabo já está a postos na saída da igreja, para nos fazer cair em tentação novamente. O fogo do inferno reacende nas entranhas da fraqueza humana e só se aplaca ao explodir em nova punheta. O desejo é mais forte do que qualquer castigo ou promessa. Dias depois, volta–se a confessar o mesmo pecado e o ciclo vicioso recomeça. INSTINTO ANIMAL Num mundo escasso de mulheres, o sexo revela todo o seu instinto animal. Há histórias e mais histórias de relações selvagens com lustrosas fêmeas de quatro patas na poesia gauchesca. Numa delas, o gaudério fala de suas inesgotáveis conquistas zoológicas na fazenda e termina assim: – Paca, Cotia, Tatú, verdade que eu não escondo, só não comi o Marimbondo, porque tem ferrão no cú ... 275


– Nem as ovelhinhas de raça pura e tão santa imagem, são puras como se imagina ... comenta o Facundo, sobre a leviandade das lanudas no campo. Em Estrela, não se chega ao marimbondo, mas na falta de opções do próprio gênero, procuram–se outras espécies. A leitoa no chiqueiro e a galinha nas bananeiras, quebram um galho danado. E a novilha no potreiro do Miguel, é famosa na redondeza. – Só que costuma cagar na roupa dos menos precavidos, informa um experiente comedor. Pedrinho Malazarte é o maior personagem do anedotário da época. O avô o encontra com uma galinha viva embaixo do braço e lhe pergunta: – Vais comer, Pedrinho ? – Não vovô, já comi ... responde o piazote. CANTOS ESCUROS Não há carros, motéis e cantos escuros para sair com a guria. O amasso, se restringe ao sofá da sala, aproveitando o vacilo da vigilante futura sogra e dos grudentos cunhadinhos. As empregadas domésticas, são mais flexíveis. A Cemilda, a Celina e a Tereza, são esbeltas e generosas. A neguinha Osvaldina, colabora com os adolescentes que fazem a festa, batendo manteiga e se masturbando em tôrno do troféu desnudo na grama. Até a feia e desengonçada Siridonha, aplaca o ardente fogo da rapaziada. Nos bailes do Cacete, a Miss Chacrinha e as mocinhas da periferia gostam de ver os mocinhos da cidade sujando o sapato na roça de milho. Quando há dinheiro, procura-se as perdidas e suas mãos profissionais. As casas da Dileta, Diná, Alemoa e o Pingo Verde, estão sempre lotados. Este último, tem até música ao vivo e pista de dança no segundo andar. – Porteiro, suba e diga àquela ingrata, que aqui a espero, não sairei ... ecoa forte às margens do rio, a cada noite. 276


ELMO DIPLOMATA A Zona não serve só para gastar – lá também se ganha dinheiro. As moças de vida fácil, são ótimas clientes do carnê Elmo Diplomata – que vende um faqueiro em 24 suaves prestações e ainda sorteia prêmios. Entre eles, um Automóvel ! A primeira parcela paga no ato, é a nossa comissão. O Igor e eu, vamos gastá–la no Posto Madona, pois a cerveja na zona é o triplo do preço. Cliente bom também é o Mula – o ágil trapezista, que faz estripulias no matadouro dos Horn. Depois de aplaudir a sua performance, saímos de lá com mais um carnê vendido. A cerveja gelada no Bar do Abrigo, compensa o suadouro da caminhada até o morro em pleno verão. O PUTÃO Com seu carrão e relógio de ouro, o rico e velho putão de Canabarro, está sempre de antenas voltadas para nós. É um chato de galocha, mas paga cerveja para a turma no Bar do Abrigo. Com ele, só andamos em turma. Ninguém se atreve a ficar sozinho no carro, temendo ser pego de surpresa numa quebrada qualquer.

OS BAILES DE COLONIA Nos Bailes de Colônia, o público é selecionado. O clima costuma ser de respeito e alegria entre os frequentadores. Os salões pertencem a conceituados comerciantes do interior e o próprio dono zela pela harmonia em sua casa. É o seu prestígio que está em jogo. O Schinézio Sulzbach, na Picada Grande. O Lindemann, em Languirú e Beija Flor. O Gräbin na Arroio da Sêca. O Wander, em 277


Costão. O Hauschild, no Arroio do Ouro, são os mais conhecidos. O Aníbal Wagner na Santa Rita, tem até “luz florestal no assoalho de cima” referindo–se às lâmpadas fluorescentes no teto. Outro Wagner famoso, é o Gastão – conhecido por levar grandes atrações como o Conjunto Norberto Baldauff , o crooner Edgar Pozzi e a legítima paraguaia Perla, para a linha Wink. O Aquelino Gheno e a Nita, vão ver a Perla de perto e tem ótima impressão: – Era uma Ivete Sangalo falando espanhol ... afirmam eles. ARMA DE FOGO O Gastão é um homem ocupado. O porteiro tem ordem expressa de não interrompê–lo com assuntos de rotina, em noites de baile. Mas o Islon insiste em falar pessoalmente com ele. – É assunto pessoal, só o Gastão pode resolver ... explica ele, ao porteiro. Apesar de atarefado, o dono do salão concorda em atendê–lo por especial deferência ao amigo. – Gastão, desculpe tomar o teu tempo, mas eu só confio em ti. Guarda este revólver prá mim, por favor ... sou meio esquentado e receio andar armado no baile ... pede o Islon, entregando–lhe um parrudo Taurus 38 e quatro balas. – Claro, claro ... atende o Gastão, recebendo–o com todo o cuidado e guardando no armário a sete chaves. No fim do baile, o Islon volta ao Gastão, pedindo a arma: – O Gassstãum, vê prá mim o meu, o meuuu revólver, poorrr favor ? pede ele, cambaleando e mal conseguindo falar. – Cuidado com isso Ziebel ... é perigoso ! alerta o Gastão, preocupado com o estado de embriaguez do amigo. Com mãos trêmulas e vacilantes, mal se segurando de pé, o Islon carrega as balas no tambor e esbarra no balcão, deixando a arma cair ao chão entre as pernas do Gastão. 278


Lívido de susto com o coração na boca e dando graças a Deus por não ter disparado e atingido os seus países baixos, o Gastão demora a perceber a brincadeira – o parrudo Taurus 38 é apenas uma arma de plástico. O CACETE Os bailes do Cacete na Boa União destoam dos bailes de colônia. O nome do salão é bem apropriado. Ali rola o cacete. E não é o cacetinho – o pequeno pãozinho oco que logo murcha e que talvez por isso carregue o irônico apelido. É cacete de verdade, que quebra dente e faz galo na testa. Uma simples negativa de dança ou um olhar mais atrevido para a mulher do outro, altera os animos e não raro acaba em briga. Numa noite de salão lotado, a moça nega a dança ao rapaz e ele fala um palavrão. Ela lhe dá um tapa na cara e chama o irmão. Os três se engalfinham abrindo uma clareira na pista. O Juca aumenta o volume do trombone no Jazz União, mas não abafa o fragor da batalha. Não há som que faça o tumulto parar. A briga vira um quebra–pau geral e todo mundo quer brigar. Ninguém mais sabe quem briga com quem. Garrafas e cadeiras voam para todo lado. Os da paz, procuram a saída mas não conseguem fugir. Começam então a pular as janelas para atingir a rua do bairro – que por ironia, chama Boa União. – Haja união ... GRANDES ORQUESTRAS O Jazz União, o Conjunto Copacabana e a Orquestra Guarujá de Arroio do Meio, dominam as noites da região. Os maestros Edi e Mathias Eidelwein e outros ótimos músicos fazem escola em Estrela. O Juca Eidelwein, é grande trombonista. O Janga dá o ritmo à cozinha – como é chamada a bateria. O Luís, acompanha no banjo e o Chiquinho no cavaquinho. E o Erwino Sulzbach, faz o fundo com o fenomenal bandonion. 279


E o fora de série baterista Núti, é contratado pela Orquestra Cassino de Santa Cruz do Sul – a maior e mais famosa de todas. AS BANDINHAS Além das Orquestras, existem as furiosas Bandinhas regionais que animam os bailes do interior. Os dançarinos rodopiam com seus pares e cantam populares refrões em português e alemão: – As mocinhas da cidade, são bonitas e dançam bem, dancei com uma linda moreninha, já fiquei querendo bem ... – Die Mary und die Cred, das sin zwai schöne med, die Mary is zu lam, die Cred is zu zam ... ( a Mary e a Cred, são duas moças bonitas, a Mary é muito lenta e a Cred é muito mansa ...) Outra em alemão é ... Tot oven de perich, tot stedt ein fabrik, tot arbeit zwai medchen mit zwai schöne titz … olariri, olariô, olariri, olariô … ( Lá em cima do morro tem uma fábrica em que trabalham duas moças com dois belos seios ). E tem também o repertório romântico. O Beijinho doce e o Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora ... fazem bater os corações apaixonados. – Um peichinho toce foi ela que troce ti lonche prá mim. Um apraço apertado, um suspiro tourado de ámor sem fim ... de ámor sem fim ... canta o pretendente no ouvido da moça em perfeito Colonês. BAILE DE DAMAS No Baile de Damas do Lindemann, são elas que tiram a gente para dançar. Sentados no banco contra a parede, esperamos um gentil convite, torcendo para que a dama seja bonita, pois não se pode recusar o convite sem causar constrangimento. Mesmo em caso de ser tirado por um trubufú, deve–se dançar e permanecer na pista por algum tempo, para não afrontar irmãos, primos e pretendentes locais sempre enciumados dos Mocinhos da Cidade – que são bonitos e dançam bem ... segundo elas. 280


Em bailes normais, fazemos divertidas apostas para ver quem pega a mais feia. E não vale largá–la na primeira música, tem que dançar no mínimo três. O Flaveco tem olho clínico para achá–las na multidão. Ganha todas ... Fala–se que há sete mulheres para cada homem no Brasil. – Só se for em outros lugares – Não é o acontece por aqui. – Isto é lenda ... comentamos nos bailes, decepcionados com a escassez feminina. O Censo 2010, comprova nossa tese e acaba com qualquer doce ilusão. É uma por um e nada mais ... O TRANSPORTE Ninguém tem carro, nem idade para dirigir. Vai–se de ônibus ou racha–se o Táxi, para ir ao baile da colônia. O Beckembauer – vai de moto. Certa ocasião oferece carona ao Max Strohecker para ir ao baile em Novo Paraíso. Os dois arrancam da frente do Bar do Professor e vão direto para o interior na estrada de chão. – Chegamos bem, né Max ? comenta o piloto, reduzindo a velocidade em frente ao salão. Estranhando o silencio, ele olha para trás e percebe que o caroneiro havia sumido – caíra na primeira curva da saída da cidade.

A PRAÇA O canteiro central divide a Júlio de Castilhos, em frente à Praça. É a única quadra da cidade, com duas pistas. Sob as suas árvores, abrigam–se os fumantes e os fiéis de meio turno da missa – que só entram na igreja na hora da bênção.

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Em frente à Prefeitura, acontecem os desfiles escolares na Semana da Pátria. Além dos uniformes e da pose empertigada dos alunos, o que mais chama atenção são as bandas dos Colégios. – Buunda! caralhinho, caralhão ... buunda! caralhinho, caralhão ... puxam o bumbo e as caixas. – Toma limonada prá cagar de madrugada, toma limonada prá cagar de madrugada ... respondem as tarolas, na irreverente descrição da criançada. HORA CERTA Os sinos do relógio da torre da Igreja, tocam a cada quinze minutos. Os quartos de hora, são assinalados por suaves bléins repetidos de uma a quatro vezes, aos 15, 30, 45 e 60 minutos. A hora cheia, fecha com um grave Blómm, repetido tantas vezes quantas forem as horas. Ao meio dia e à meia noite, acontece doze vezes seguidas. Estrela desperta, trabalha e descansa, sob o comando da torre. Os badalos do meio dia, esvaziam completamente as ruas, na sagrada hora do almoço. Às 12:00 horas em ponto, o estrelense está na mesa agradecendo a Deus pelo manjar. Assim acontece também com as horas do trabalho e descanso. Com tão precisa orientação pública, poucos são os que usam relógio. Sobra aos relógios de pulso, corrente e parede, o secundário papel de objetos de adorno. Rara exceção é o Pizarro, que passa no calçadão carregando um relógio de parede para consertar na Relojoaria Musskopf. – Não se adapta ao relógio de pulso e anda com este trombolho por aí ... comenta o Naldinho Schitz, na rodinha de amigos em frente ao Caminha. RELÓGIOS SCHWERTNER Os relógios Schwertner, fazem tic–tac na torre da igreja de Estrela e em outras por todo o país. 282


Alguns lugares, são especialmente marcantes. Estão em Taquari – a cidade–mãe da qual Estrela se emancipou e estão em Lajeado – a cidade–filha, emancipada de Estrela. E estão também no obelisco de Livramento – marco da fronteira Brasil – Uruguai. Depois de gloriosa trajetória, a fábrica fechou. Os irmãos Franz, Rudi, Guido e Lino, não resistiram à inexorável marcha do tempo, tão bem marcado por seus exatos mecanismos. COMUNICAÇÃO Os sinos constituem uma antiga e eficiente forma de comunicação. E a Igreja os usa com maestria, para anunciar suas atividades em diferentes tipos de som. O convite à missa, as procissões e datas festivas, são comunicados por sinos menores e mais leves que ribombam aceleradamente em tom alegre e agudo. Já a morte, é anunciada em tom grave e passo lento. Grandes e pesados sinos, assumem um solene tom de tristeza e respeito por quem se foi. Na maioria das vezes, o estrelense já sabe de quem se trata, pois as notícias de doenças e morte se espalham céleremente de boca em boca. Se não sabe, ficará sabendo na primeira esquina. E assim – de bléin, bléin em bléin, bléin – a Igreja lembra a todos que continua viva e se mantém no ar em plena era da internet.

NO TOPO DE ESTRELA Pela velha escada de madeira que circunda as longas cordas dos sinos, é possível subir ao alto da torre direita e ver a cidade a 30 metros de altura. Lá em cima, o guarda corpo que circunda o topo da torre, é seguro. A vista, é deslumbrante. Em lugar algum da cidade, se pode chegar tão alto e ver tão longe. 283


A torre da esquerda só tem a casca de alvenaria que serve de par à da direita. A escada interna, está comprometida. Outro ponto culminante nas alturas da cidade, é o chaminé da Polar. Poucos no entanto, se atrevem a escalá–lo. O Carlos Hirtenkauf, sobe ao topo e posa no alto de braços abertos, resistindo ao vento e à oscilação. – Duvido fazer isso na hora que apita para mudar o turno da fábrica ... desafia, o amigo da Onça, querendo ver o Carlos voar. A MISSA Há três horários de missa aos domingos. Só não vai à igreja quem não quer. Quando criança, a gente vai por mêdo e obrigação. Depois de adulto, o inferno parece mais distante e o pecado já não assusta tanto. Só continuam indo os convictos. O Brasil, é o maior país católico do mundo, mas isto não se confirma na igreja. Ela anda vazia e permanece fechada para evitar o saque de suas sagradas relíquias. No país dos arrastões em praias, ônibus, prédios e restaurantes, não é de se duvidar de uma limpa na caixinha de coleta. – Mais um motivo para não ir à missa ... diria o preguiçoso católico não praticante, justificando o seu absenteísmo do templo. CORAL SANTA CECÍLIA Os hinos cantados no mezzanino, são um espetáculo. As vozes do afinado Coral Santa Cecília, em sintonia com os harmônicos acordes do órgão, fazem eco entre as colunas arcadas do templo e enchem de fé os corações dos fiéis. Além dos canticos sacros – regidos em diferentes tempos por Pedro Eidt, José Balensiefer e Siegmundo Rücker – também os cantos profanos, são ali executados em perfeita harmonia com o ambiente solene e o tipo de cerimônia.. 284


O Creio em ti e a Ave Maria, cantados pelo João Henrique e o Paulo Rücker, em casamentos, são de arrepiar. EM NOME DO PAI E DO FILHO ... Em frente à Igreja, acontecem as solenidades católicas. As missas campais ao ar livre, são realizadas sobre palanques de madeira forrados com tapete vermelho. O altar florido, é revestido de impecável linho branco, fazendo fundo às vivas cores das vestes sacerdotais e ao brilho dourado das taças e castiçais. As procissões, puxadas pelo Padre Vigário – secundado na linha de frente por grandes estandartes portados por Albino Schnorr, Silvino Birck, Osvaldo, Orlando e Luís Kaye – ganham força nas ruas com o potente canto sacro dos fiéis. O ritmo e a voz das ladainhas em coro, marcam o passo do andor e indicam a natureza da cerimônia. O Domingo de Ramos – que celebra a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém no início da Semana Santa – é marcado festivamente pelas folhas de palma e pelos tapetes de serragem colorida que cobrem o trajeto da procissão. O povo passa por cima e vai desmanchando os belos arranjos no chão. Na Sexta Feira Santa – o cortejo é grave, lento e melancólico. Às três da tarde, o sino bate triste lembrando a morte de Cristo. A silenciosa cidade, morre junto com ele. No Corpus Christi, a alegria volta a reinar. O séquito eleva a voz em cânticos alegres ao som dos sinos que ribombam agudos, festejando a ressurreição e ascensão de Cristo aos céus. NOSSA SENHORA DE FÁTIMA A recepção à Nossa Senhora de Fátima – vinda de Portugal – é a maior festa religiosa estrelense de todos os tempos.

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Devotos de todos os lugares expremem–se na rua, pisoteiam os canteiros e sobem nos bancos e árvores da Praça para admirá–la e cantar o Louvando Maria com impressionante fervor. As crianças cantando – Mãezinha do Céu, eu não sei rezar, eu só sei dizer, quero te amar ... emocionam a todos e fazem verter lágrimas dos mais ressequidos olhos adultos. Não há quem não imagine estar vendo ao vivo, a reaparição da Virgem Maria às três pastorinhas na gruta portuguesa – que guarda até hoje os misteriosos segredos da reveleção divina. A visita é grandiosa e atrai milhares de visitantes de fora. Até confunde o repórter da Rádio Alto Taquari, que cobre o grande acontecimento. – Há muitos ônibus de fora por aqui. Aí vem um com placa de Aires ... só vejo o Aires ... não sei se é Venancio Aires ou Buenos Aires ... diz o empolgado narrador. Dias depois, a piedosa mãe que levara a filhinha à linda festa de Fátima, recebe em casa a visita do Padre Vigário. Toda orgulhosa, pede à menina para cantar a nova música aprendida naqueles dias. – Sassassaricando ... canta alegremente a criança, o maior sucesso do último Carnaval – para surpresa do Padre e decepção da mãe que esperava ouvir a Mãezinha do Céu. UM, DOIS ... UM, DOIS ... Nos desfiles escolares de 20 de Maio – data da emancipação do município – e 07 de Setembro – o dia da Pátria – as Escolas, se perfilam em ordem de idade crescente do Primário ao Colegial e marcham ao som de seus passos e tambores. Camisa polo verde, calça e tênis brancos, e cabelo lambido, é o nosso uniforme oficial do Cristo Rei. Além disso, temos entre nós os Escoteiros, a Cruzada Eucarística e os atletas com uniforme de futebol, vôlei e basquete. Nosso Ginásio, se destaca dos demais que só usam azul e branco. 286


SALVADORES DA PÁTRIA Além dos Salvadores da Alma, apresentam–se no palanque da Praça, os Salvadores da Pátria. Ademar de Barros e Janio Quadros – candidatos a Presidente do Brasil – fazem aqui, grandes comícios. O símbolo de Ademar, é uma bóia salva vidas – destinado a salvar a naufragada Pátria no mar revolto em que se encontra. Janio, usa a vassourinha – promete varrer o lixo que emporcalha os corredores da Nação brasileira. – Ademar rouba, mas faz ... acreditam os eleitores que usam o seu bóton na lapela e o adesivo no auto. Os filhos – com a boca lambuzada de Sonho de Valsa da Lacta, distribuído à rodo pelo candidato – repetem o bordão dos pais, imaginando um doce futuro em seu mandato. Janio, não ostenta riqueza e ganha a eleição. Inicia o seu governo com altíssimo índice de popularidade, mas a prometida faxina dura pouco. O faxineiro é meio louco. Proíbe a rinha de galo, namora a China comunista, condecora Che Guevara, bebe muito e começa a ver forças ocultas lhe puxando o tapete no Congresso. Em oito meses renuncia ao mandato, pensando em voltar nas mãos do povo ainda mais forte do que antes. A manobra não funciona e o bruxo cai da vassoura antes de voltar ao Palácio. Janio, tem sagaz presença de espírito. Em poucas palavras, diz muito: – Fí–lo, porque quí–lo ! responde ele, a um repórter que lhe cobra explicações sobre a proibição da rinha de galo. Ao outro repórter, que lhe pergunta por que bebe tanto Whisky, ele responde didáticamente: – O bebo, porque é líquido – se fôsse sólido, o comeria. 287


JULIO DE CASTILHOS O Júlio de Castilhos – farroupilha, da era do cavalo – não acreditaria no que aprontam certos motoristas, nas ruas que levam o seu nome. Os modernos e aloucados pilotos, atiçam os 200 cavalos do carro e fazem da avenida uma cancha reta. Em 45 anos de direção e igual número de voltas à Terra por estrada, coincidentemente, minhas duas únicas batidas de carro aconteceram na Júlio de Castilhos – a primeira em Lajeado há 40 anos, a segunda em Estrela, recentemente. Em ambos os casos, fui abalroado à noite, por bestas valentes movidas a álcool, que covardemente depois da batida na contramão, fugiram do local do acidente. E era gente socialmente bem posicionada, da qual se esperaria atitudes mais civilizadas. O primeiro, um jovem oficial da Ditadura brasiliense em roupas civis, julgando–se acima do bem e do mal. O segundo, um aloprado dono do mundo, que vai de zero a 100 km por hora em 5 segundos. Com a cara cheia, os ases do volante correm, batem e fogem do bafômetro e do possível flagrante com drogas. Conseguirá o novo pardal eletrônico em frente ao parque, segurá–los a 50 km por hora ?

O PODER DOS HOMENS Ao lado da Igreja – a casa do poder divino – está a Prefeitura – a casa do poder dos homens. E os Prefeitos, tem personalidade e prestígio. Se reelegem ou cumprem mandatos intercalados. O Adão Fett, é de pouca balela e muita ação. Constrói a nova Prefeitura e assenta os paralelepípedos nas ruas do Centro. 288


– Hein ? reage com a mão na concha do ouvido, fazendo–se de surdo ao lhe fazerem perguntas que não quer responder. Além de Prefeito, é moderno Avicultor. Incuba ovos e produz pintos de um dia na época em que o frango ainda é almoço de domingo ou comida de doente. O frango de granja atingia 2 kg de pêso com 70 dias de idade, consumindo 7 kg de ração. Hoje, atinge o mesmo peso com 40 dias e a metade do alimento. Adão se assustaria se visse o atual consumo de frango no Brasil. Graças a pioneiros como ele, aumentou de 6 para 40 kg per capita ano, nos últimos 50 anos. E no Sul, é quase o dobro. O Aloysio Schwertner, realiza grandes melhorias no fornecimento de água e energia elétrica, substituindo os serviços municipais pelas estatais Corsan e CEEE. Investe muito em escolas, estradas do interior e na ampliação do Parque 20 de Maio. É afável, acessível e popular. Mistura–se ao povo e conversa com todo mundo. Além de Prefeito, é dono da Tipografia O Paladino – editora do legendário jornal com o mesmo nome, testemunha das grandes revolucões dos anos 20 e 30 do século passado. É também ex–atleta e dirigente do Estrela F.C. – o antigo estádio Walter Jobim, leva hoje o seu nome em justa homenagem. – Vou exxtudar ... diz o prefeito Bertholdo Gaussmann, pedindo tempo para pensar sobre cada proposição que lhe fazem. Ele faz estradas, escolas e o quartel do Corpo de Bombeiros. Constrói a nova ponte sobre o arroio Estrela, no Cantão da Coronel Müssnich, dando novo acesso ao Oriental. Bertholdo tem especial orgulho por administrar o município mais alfabetizado do país. O único analfabeto da cidade é o Pedrinho Gafanhoto, comerciante de sucata que faz as contas de cabeça. Por outro lado, o Prefeito preocupa–se com o intenso êxodo rural no município. 289


– Estrela perde uma família por dia ... dizia desconsolado, um pouco antes de eu também emigrar para o Paraná. ROUPA DE PREFEITO O Fabrício, tem um traje azul claro tipo Safári, trazido para as férias em Estrela. Numa quente tarde de verão, ele vê o prefeito Hélio Musskopf vestindo um conjunto desses na rua. Em casa, após o banho, ele pede à Vania: – Mãe, quero botar a minha roupa de Prefeito para passear ... JÁ GANHOU – Se a Câmara de Vereadores tem o Belo e o Bonitinho, por que não ter o Gostoso ? pensa o Hélio, com seus botões. Convencido de que pode se eleger, ele se lança candidato. Homem de extrema boa fé, acredita piamente nos eleitores que lhe prometem o voto durante a campanha. – Já tenho 3.000 votos ... estima, somando as promessas. Considerando–se já eleito, passa a apoiar ostensivamente outros candidatos do Partido. – Eu já ganhei – agora estou ajudando os outros ... diz ele em sua moto, percorrendo os bairros e pedindo voto aos colegas. No dia da apuração, surpreende–se com o seu fracasso – faz apenas 136 votos – 5% do que imaginava. Falsas promessas – o eleitor também faz.

O CÃO AMARELO Após o churrasco de Tatú no aniversário do Tica, vamos digerir a cachaça com framboesa nas Três Marias. Em plena praça, surge diante de nós o viralata Amarelo, desafiando–nos a perseguí–lo no escuro da noite. 290


Somos nove moleques correndo aos gritos pelos canteiros, atrás do assustado cão. Em meio à algazarra, dois soldados aparecem na esquina do Siepmann e passam em frente à Prefeitura como se estivessem em ronda de rotina. Nos aquietamos nos bancos e esperamos que eles passem. Súbitamente, em frente à Igreja eles atravessam a rua correndo e nos dão voz de prisão. Soubemos então, que o Juiz de Direito Dr. Pinto – morador do prédio dos Siepmann e espectador privilegiado do que acontecia na Praça – os chamara para nos deter, sem qualquer aviso prévio. O Bexiga escondido atrás de um arbusto, escapa do flagrante sem ser percebido. Restamos oito, sendo conduzidos à cadeia em duas filas de quatro. Na esquina do Borinha descendo o morro, o Adilson e o Normélio, dobram à esquerda e fogem correndo. Sobramos seis – o Tica, Daio, Pedro Frei, Tiongui, Fleco e eu. Na cadeia, encontramos os poucos e bem conhecidos presos de Estrela. Eles se fazem de amigos e insistem em saber quem são os dois que fugiram. Com receio de que eles os entreguem aos guardas, não dedamos ninguém. Somos alojados numa cela suja e pequena. O Tica vomita e o ambiente fica nojento. O vômito atrai as ratazanas e nós começamos a gritar exigindo sair da cela infecta para dormir no salão. Os demais presos reclamam do barulho, mas nos apóiam, pois também querem dormir. Os guardas nos liberam e nos deixam deitar no chão e embaixo da mesa de ping–pong. A noite passa sem sobressaltos e logo assistimos o sol nascer quadrado atrás do xadrez. O DIA SEGUINTE A manhã seguinte, nos reserva novas surpresas. Logo cedo, o Tiongui manda chamar o seu pai Francisco X. Vier – homem influente que poderia interceder por nós. Ele vem ao presídio, mas não demonstra um pingo de solidariedade. 291


Pelo contrário, faz ironia com a situação: – Não dá para deixar até o Natal ? pergunta aos guardas, sugerindo mais duas semanas de cana. O Bexiga ronda o presídio para saber o que está rolando e encontra a Vania na rua, indo para o Hospital. – Vai visitar ? pergunta ele. – Sim, nasceu o Roberto Vicente, com 5,2 kg. Vou ver minha mãe na Maternidade, diz ela toda faceira. – Ah, bom ... pensei que ias visitar o Cúti ... – Ué ... ele está doente ? – Também está no Hospital ? – Não, tá na Cadeia ... informa o amigo da onça. Horas mais tarde, quatro guardas nos escoltam a pé da Cadeia até o Forum, localizado na Praça. As cinco quadras da Júlio de Castilhos, são o corredor da vergonha. A via crucis de espinhos, cusparadas e pura humilhação. Na calçada, os cínicos gozam da nossa cara, com ferinas agulhadas e piadinhas sem graça. Nas janelas, as velhinhas espiam e de olho arregalado por trás das cortinas, como se fôssemos um bando de ETs. Fofocam querendo saber quem é filho de quem. Mal disfarçam a sua alegria de ver os jovens de boa família em desgraça. No Fórum, as coisas correm melhor. O Juiz nos passa uma carraspana, ameaça punir severamente a reincidência e nos concede o alvará de soltura. VOMITARAM EM MIM Ir à cidade é um saco ! Qualquer um se acha no direito de tirar sarro da gente. Um chato, faz até uma música sobre o vômito do Tica e fica cantando assim: – Vomitaram em mim, era macarrão. Tinha tomate, tinha cebola e pimentão ...

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SEXO EXPLÍCITO O Amarelo, não é o único cão a freqüentar a Praça – há outros que circulam por ali, fazendo inclusive coisas que os humanos jamais se atreveriam a fazer em público. Para espanto geral dos fiéis ao fundo da igreja, um casal de cães engatados pelo sexo, invade o recinto em plena missa. Indignada com a falta de pudor em lugar tão sagrado, a zeladora tenta enxotá–los sem prejudicar a cerimônia. Impedida de xingá–los como gostaria, os varre para fora do templo distribuindo vassouradas. Presos em coito, os pobres coitados não entendem a razão da insana fúria que os faz rolar pelos degraus da escada. Lá fora, amedrontados com a violência humana, tímidamente se aquietam na parede da Igreja, até se desgrudarem minutos depois, sob o curioso olhar do público que sai da missa. ESPECTADORES PRIVILEGIADOS – Táxi não dá lucro, mas é divertido ... costumam dizer o Arno, o Otacílio, o Auri e o Tchóca, referindo–se ao seu estratégico ponto de observação nas Tres Marias. Quem também assiste a tudo o que acontece na Praça, são os ocupantes do antigo Hotel Siepmann, inquilinos residenciais e comerciais do Oswaldo e do Kurt. É da janela do segundo andar, que o Dr. Pinto nos vê perseguindo o Amarelo e manda a Polícia nos prender. Por puro acaso, o seu filho Luiz – também da nossa turma – estava viajando e não participou da farra. Se estivesse em Estrela, teria também ido em cana, se o pai agisse com o mesmo rigor. No térreo do antigo hotel, ficam o IAPTEC – Instituto de Aposentadoria dos Comerciários, anterior ao INSS – gerenciado pelo Élbio e Werno Kich e a Pharmácia Ehler – ainda com Ph – cujo 293


atlético titular é conhecido por nadar no rio, logo cedo pela manhã em pleno inverno. TROPA, SENTIDO ! Vindo de Santiago, o Tenente Telmo Reginatto – pai do Paulo – vem morar na esquina do Siepmann. No carnaval, a família viaja e no sábado nós vamos ajudar o amigo a tomar conta da casa. É a maior festa. Do baú do Tenente, sacamos os uniformes verde–oliva para nos fantasiar. Com legítimas roupas militares e a cuca cheia de vodka com limão, fazemos ordem unida e marchamos pelo corredor com o peito estufado como verdadeiros soldados. Na segunda feira, vou em casa para pedir mais dinheiro. Tendo saído na sexta sem dar mais notícias, a reação dos meus pais não é nada amistosa. Levo uma bronca fenomenal.

O ABRIGO O nome Bar do Abrigo, é de uma felicidade espantosa. Abrigo, por definição, é um refúgio seguro contra as intempéries. O bar lotado de amigos, é mais do que isso – protege também os homens de suas ansiedades e solidão. – Há lugar melhor para evitar essas ameaças ? O Abrigo tem três ambientes distintos. O Bar, o Restaurante e a Área externa, voltada para a Praça. Suas amplas janelas envidraçadas para a rua, fazem dele o melhor ponto para ver o que acontece na cidade. O interior, é clássico. Tem colunas e meia parede de azulejos brancos, espelhos e fotografias, em frente ao balcão. O Restaurante e os toiletes, estão no fundo passando o corredor da cozinha. É o primeiro lugar público de Estrela com TV.

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O pessoal lota as mesas para assistir a Tupi. O tape dos jogos de futebol no Canal 5 – com Guilherme Sibemberg e Renato Cardoso – atrai grande público. À noite no verão, a TV é levada para fora ao ar livre. A Área externa, tem mesas fixas de granito integradas à paisagem da Praça. É o melhor lugar para o chopp, sorvete, ice cream ou vaca preta, no verão. Os profundos latões da sorveteira do Bar, obrigam a Iracema a esticar–se para alcançar o sorvete. Quanto mais vazio o latão, mais ela se estica com o pegador de bolas. Nos dias quentes, as gotas de suor de seu sovaco cabeludo pingam sobre as essências. A salgada gotinha de suor, dá o toque de classe aos sabores de verão. Sorvete de creme, chocolate, côco, morango, ameixa e baunilha, igual ao dela, jamais ... BARMAN O Eugênio Noll é alegre e espirituoso. Traz o À La Minuta na travessa, com o dedo indicador segurando o bife. – Pondo a mão no meu bife ? estranha, o Cliente. – Quer que caia de novo ? replica o Eugênio, tirando sarro. Também ao servir o café, ele costuma aprontar. – O café tá quente ? pergunta o Cliente, quando ele pousa o pires na mesa. – Não sei, deixa eu ver ... responde o Eugenio, enfiando o dedo na xícara para testar. Depois do Eugenio, o Kaspinha assume o Bar do Abrigo e tem no Padre Vigário, um assíduo freqüentador. O representante de Cristo, prestigia o bar e ameniza a sua fama de lugar de perdição. – Onde tu andavas ? pergunta a mulher, ao marido. – Tava com o padre no Bar do Abrigo ... responde o santo. Um dia, educadamente, o Padre cobra reciprocidade: 295


– Kaspinha, estou sempre aqui na tua casa, por que não me visitas também ? – Na Canônica ? – Não, na Igreja ... – Ah, Padre ... eu não tenho tempo. Enquanto os outros estão na missa, eu estou aqui trabalhando para recebê–los ... – Mas a Igreja não funciona só na hora da missa. Deus, não tem hora para receber os seus filhos, as portas estão sempre abertas. – Tá bom, Padre, tá bom ... um dia, vou lá ... Depois do Kaspinha, vem o Pikito. Ele confia plenamente em mim. À noite – já cansado de passar o dia trabalhando – me entrega a chave do bar e vai para casa. Deixa sob minha responsabilidade, o controle do consumo da nossa turma dali para a frente. Com o bar fechado, saciamos a sede juntando as garrafas vazias sobre a mesa. Ao sair, anoto o consumo de cada um num papel e fecho o bar, deixando a chave por baixo da porta. No dia seguinte, fazemos o acêrto e a vida continua. Jamais, alguém pensou em trair a sua confiança. O José Fernandes, assume o Bar do Abrigo no lugar do Pikito. No início, o chamam pelo próprio nome, mas ao longo do tempo passa a ser o Zé do Abrigo. VIVA LA GUATEMALA ! A cervejada, não acontece todo dia. Só ocorre em dias especiais, com justo motivo para comemorar. E justos motivos, não faltam. Pode ser a data de Aniversário, aprovação no Vestibular, Dia de Santo Antonio, Dia do Professor, o Primeiro dia de férias ou da perda da namorada. E na falta de um destes motivos, qualquer pretexto serve.

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Na linda noite quente e estrelada, procuramos àvidamente por um motivo para um bom chopp gelado ao ar livre, quando surge a informação de aquele é o dia da Independência da Guatemala. Pronto. Gente que nem sabe onde fica a Guatemala, junta–se a nós para celebrar a sua Independência, trincando os copos no ar. – Viva la Guatemala ! CENTRO DE SERVIÇOS O prédio do Abrigo – construído originalmente como estação de ônibus, depois transferida para a Tiradentes – não abriga apenas o Bar. Possui também outros serviços úteis. No térreo, está a Barbearia do Graciliano – e depois do Antenor Braga – ao lado da Junta de Alistamento Militar. No andar superior estão o Forum e a Rádio Alto Taquari. NAVALHA NO PESCOÇO A navalha de lâmina afiada no couro, o pincel de espuma e a loção Acquavelva, são os donos do campinho mas a Gillette já vem ameaçando o seu reinado levando o hábito de barbear para casa e obrigando os barbeiros a se concentrarem mais no cabelo. Embora nunca se tenha ouvido falar de barbeiragens do Graciliano e do Antenor, com a navalha na jugular, a sua extinção traz uma certa tranqüilidade. O Jacó, o Litz e o Edgar Müller – os outros barbeiros do Centro – oferecem mais tranqüilidade ainda. Estão perto da Farmácia Buchmann e do Band Aid para estancar a sangria, em caso de escorregões no gogó. A fama dos Barbeiros estrelenses, está mais relacionada aos caminhos de rato no cabelo e à temerária condução de seus autos, do que com o manejo da navalha no pescoço.

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ALISTAMENTO MILITAR O serviço militar aos 18 anos, é obrigatório. A Junta de Alistamento, recruta os jovens para os quartéis da Fronteira e só os dispensa por limitação física ou excesso de contingente. Um ano de caserna, produz grandes efeitos na vida do jovem. Uns, aprendem a disciplina e a incorporam em sua vida. Outros, atrasam um ano nos estudos e perdem o Vestibular. Quem acerta o timing, pode fazer o CPOR nas férias da Faculdade. Os tenentes da Junta, exercem funções administrativas e normalmente se inserem com a família na comunidade. O Tenente Telles, o Seu Aarão Antunes e o Tenente Telmo Reginatto, criam estreitos vínculos em Estrela, em seu período. A JUSTIÇA DOS HOMENS No segundo piso do Abrigo, está o Forum. Como não há pena de morte entre nós, corre–se menos risco no banco dos réus do que na cadeira do profissional da navalha no piso abaixo. Mesmo assim, todos se sentem melhor na Barbearia do que na Sala de Audiências. Por menor que seja o crime cometido ou testemunhado, as pessoas temem o Fórum. Ter estado ali por causa do cão Amarelo, foi uma estressante experiência para mim. Não é fácil ser julgado pelos homens. Outro motivo que afasta as pessoas do Forum, é a exasperante lentidão dos processos. As idas e vindas da papelada de um arquivo a outro, retardam e desqualificam as decisões judiciais. Se houvesse mais agilidade, o Forum poderia angariar parte da simpatia que todos tem pela Barbearia.

RÁDIO ALTO TAQUARI Ainda no antigo endereço sobre a Importadora, a ZYN 9 298


tem concorridos programas de auditório aos sábados e domingos. As Trovas e o Concurso de Calouros – tipo o Clube do Gurí que revelou Elis Regina na Farroupilha – tem grande público. Muito populares entre os estudantes, são os concursos tipo O Céu é o Limite – de perguntas sobre os mais variados temas. Eu respondo sobre a História do Egito e me aprofundo na avançada civilização às margens do Nilo. Falando das pirâmides, tumbas e múmias de rainhas e faraós, venço o concurso e ganho um belo quadro emoldurado da Virgem Maria – galiléia, que não conheceu o Egito. Em suas novas instalações, no piso superior do Abrigo, a Rádio destaca–se por suas notícias e transmissões externas nos bailes, esportes e outros eventos populares. O popular Chaves Garcia – o Papito – é o grande destaque da comunicação em qualquer tipo de evento. Seria hoje, um Galvão Bueno do rádio. O seu filho Alexandre Garcia da TV Globo, tem por quem puxar. No sábado à noite, ouve–se o Jazz União e o Copacabana, ao vivo na Soges, no Rio Branco ou em algum baile da colônia. Nos bailes de Debutantes da Soges, toca o Norberto Baldauf de Porto Alegre ou a Orquestra Cassino de Santa Cruz. Os sete instrumentos do Henrique Uebel, o violino do Ziebel e o bandonion do Erwino Sulzbach, produzem afinados acordes em programas especiais da emissora. O domingo, é dia de futebol. O Tito, Talo Porto e Ataíde Ferreira, são atletas e se tornam comentaristas de alto nível. Os dois últimos fazem carreira na Rádio Guaíba de Porto Alegre – para onde vai também mais tarde o Érico Sauer. Ocorrem naturalmente algumas escorregadelas nas narrações pelo rádio. Numa falta batida rasteira para a área pelo Bom Cabelo, o narrador diz que o Loy faz o gol de cabeça. O ouvinte, não consegue entender como é que um centroavante de tal estatura consegue cabecear a bola que vem rasteira pelo chão. O Loy, talvez estivesse deitado na grama ... conclui o ouvinte. 299


Os craques do Estrela F.C. são muitos. Amaury, Lamão, Nelsinho, Ataide, Tito, Laurinho, Talo, Prego, Ieié, Loy, Mirinho, Polaco, Carrion, Adãozinho, Antoninho ... brilham no campo e nem tanto no microfone a cada jogo. – É brabo, é brabo ... diz o Salabico sobre a peleja. O Baião, Lampião, Eli e o Stani, vão ao ar quando joga o Oriental – depois chamado de Rio Branco. Os times do “ hinterland ” – como os radialistas costumam se referir ao interior do município – se destacam nos acirrados torneios locais. O Gaúcho de Teutônia, o Lawi da Linha Wink, o Esperança de Languirú, o Canabarrense, o Rui Barbosa de Corvo e o Atlantico de Costão, tem torcedores também na cidade. Muita gente acompanha seus jogos. Na Linha Lenz, fala–se até em ampliar os horizontes com uma franquia do Gáucho de Passo Fundo que disputa a primeira Divisão. Seria o Gaúcho de Passo Fundo da Linha Lenz. GREMIO ATLÉTICO RAFA O popular GARRAFA – recebe ínfima cobertura radialística no campo dos Horn, onde manda os seus jogos. Não há cabine de rádio e nem arquibancada. Os repórteres de campo, detestam a bosta de vaca e a roseta que infesta o gramado. Mas isso não traz prejuízo algum, o público comparece em massa. A garrafa, é o centro do espetáculo. Orientados pelo Frenz, os atletas Banjo, Bibo e Cuchinha, entornam o líquido pela boca e massageiam as canelas com a garrafa – sem desperdício, é claro. A técnica de aquecimento interno e externo, antes, durante e depois do jogo, surpreende e desorienta a marcação dos adversários. São poucos os que não tonteiam com as pouco sóbrias firulas.

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O DIA DO COLONO Em diferentes épocas, muitos locutores jogam saliva os microfones da Rádio Alto Taquari. As vozes de Valmor Bergesch, Paulo Lauxen, Osvaldo Carlos, José Carlos Terlera, Valdir Sudbrack, Vilmar Quevedo e o Jacó – personagem humorístico do Paulinho Horn – ecoaram como a do Adauto Azevedo – ainda ouvida nos lares estrelenses. A maioria tem bom preparo para manejar a latinha, mas mesmo assim cometem gafes. Na transmissão do desfile do Dia do Colono em 25 de Julho, o locutor se entusiasma com a alegoria de um jumento puxando a carroça e narra a passagem do “Burro Alegórico” pela avenida. O REVEILLON Na laje de cobertura do prédio do Abrigo, o Nova Geração promove um Reveillon ao ar livre. O amplo terraço com vista para a cidade e a Praça, é muito apropriado para a passagem do ano. O tempo é maravilhoso em 31 de dezembro. O calor de verão e a noite estrelada, prometem uma grande festa. Mas o Ano Novo chega mal humorado. Os primeiros ventos e chuvas de 65, nos deslocam para um lugar mais seguro. Da cobertura do Abrigo, nos abrigamos na boate da Soges. A PRIMEIRA TV A Importadora Alto Taquari, é a primeira a exibir um aparelho de televisão em sua vitrine. As pessoas param na rua e se reunem em grupos, para assistir a incrível novidade que junta as notícias do rádio e a imagem do cinema, num único aparelho portátil. Só vendo, para acreditar ... 301


O PALADINO O prédio do Paladino é moderno – o único com sacada de frente para a Praça. São três andares – a Residencia da família no piso superior, a Papelaria e Tipografia no térreo e o Depósito no subsolo. Gente muito conhecida trabalha ali – o Ernani Opermann, o Werno, Universindo Ferreira, Etvino Eckert – o Schneck – João Rocha, Jorge Müssnich, o Grilo e o Bexiga, entre outros, andam sempre com o uniforme os dedos manchados de tinta preta. A TIPOGRAFIA Depois do último baile de Kerb na Soges, acompanhamos o Bexiga ao seu trabalho no Paladino. É cedo, mas o pessoal já está no batente. Ao nos ver de fatiota chegando do baile, o Seu Aloysio pergunta ao Bexiga: – E tu, não devias estar trabalhando ? Peço a ele para conhecer a tipografia e ele nos autoriza a fazer um tour pelas instalações. Orgulhoso de seu trabalho, o Bexiga nos mostra o equipamento. Conhecemos a afiadíssima guilhotina que corta os maços de papel com milimétrica precisão e os tipos metálicos que agrupados, formam palavras e números nas impressoras manual e automática. COLA TUDO O Seu Aloysio, tem o dedo indicador cortado e brinca com as pessoas colocando o toco na narina, como se estivesse inteiramente enfiado no nariz. O episódio mais interessante com os seus dedos, acontece quando o Vendedor lhe apresenta o mais revolucionário lançamento em colas – a Superbonder. 302


– Cola em 5 segundos e não desgruda ... apregoa o Vendedor. – Ah, é pura conversa ... isso não passa de mais um desses grudezinhos que andam por aí prometendo milagres ... desdenha o Seu Aloysio, depositando o líquido viscoso nos dedos da mão. Num instante, percebe espantado que já não consegue mexer os dedos imobilizados pela cola. Corre à pia, mas a água não tira o grude. Também o álcool e o solvente, não desgrudam. Resta então ir ao Pronto Socorro. – Esta cola, cola tudo mesmo ... diz ao médico que o atende. O Seu Aloysio e a Dona Anita, são pais da Carla, Gilberto, Roque e Clóvis. A Carla, casa–se com Loy Fauth – goleador do Estrela F.C. O Gilberto – o Mêntia – é meu contemporâneo na Faculdade de Agronomia e Veterinária da UFRGS. Moramos juntos no núcleo residencial da Escola. EMPRESA SECULAR O Roque, é da minha turma. É influente líder do comércio estrelense e continua com O Paladino na esquina da 13 de Maio com Fernando Abbott. O Paladino é um caso raro de longevidade. Tem 90 anos e é provavelmente a empresa mais antiga de Estrela. Raríssimas empresas, mantém tal vitalidade. O MÁGICO O Clóvis – o Vico – é Engenheiro Agrônomo, como eu. – A profissão do futuro ... acreditamos nós. Ele faz da mágica o seu hobby. Tira lenços, coelhos e pombos brancos da cartola, como ninguém. Os Agrônomos, são assim mesmo – enquanto uns fazem truques com o baralho, outros embaralham as palavras em livros. E ele faz bela carreira. 303


Foi Secretário da Agricultura de Estrela, Presidente da EMATER e Delegado do Ministério da Agricultura do RS. Só não chegou a Ministro, por ser Agrônomo e não Advogado neste mágico sistema de governo que ignora a qualificação técnica no preenchimento de seus cargos. Nada contra a pessoa do agora Ministro da Agricultura. É apenas mais usufruindo das distorções do sistema em que lavrar uma ata e ser da base aliada, é suficiente para ser Ministro de uma área que exige dos lavradores profissionais, técnicas muito específicas e apuradas para serem produtivos. Num país sério, isto seria uma grande piada. – Mas ele é o administrador, pode cercar–se de bons técnicos ... justificam os partidários, simpatizantes e a mídia aderente. – Bom ... se for assim, o Ministro da Educação pode ser o Tiririca. É analfabeto, mas poderia cercar–se de bons professores ... – Ah, mas ele não dá ... não é do nosso Partido ! – Ah, bom ... o Partido... ZACATECA O ciclista mexicano Zacateca, lança um incrível autodesafio: Manter–se andando de bicicleta por 24 horas ininterruptas, na quadra em frente ao Paladino. Desconfiados, fazemos vigília e ficamos de olho nele o tempo todo, para ver onde está a mutreta. Mas o negócio é sério, não há mutreta. Ele começa pela manhã, pedala o dia inteiro, vara a noite e só pára na manhã seguinte – tão exausto que o levam ao Hospital para o repouso com soro. – Em que ficas pensando sobre a bicicleta ? perguntamos no dia seguinte. – Me quedé escuchando la campana del reloj de la iglesia, durante todo el tiempo. Sonó 426 veces em 24 horas ... explica ele. Sem o relógio Schwertner, talvez não chegasse ao fim ... 304


OS BARES DO CENTRO Além do Bar do Abrigo, existem outros importantes pontos de encontro no Centro da cidade. O Bar Elite – de nome refinado – tem mesa de snooker e a barbearia do Litz. O Bar da Soges, tem reservados com cortinas para garantir a privacidade. O Bar da Rodoviária, é o mais cosmopolita – por ali, todo mundo passa. O Bar Sport do Lídio Fauth, tem espírito esportivo – promove o alterocopismo. No Joãozinho Santos, tem bocha e rinha de galo. E todos tem um ponto em comum – a hora do Maratá. O Maratá é o ônibus mais pontual do mundo. Exatamente às 11:00 horas da manhã, passa imaginariamente em frente aos bares estrelenses e libera o primeiro gole do dia. A sua hipotética passagem é o código para dar início ao aperitivo, seja qual for o bar. Mesmo que ele não passe, toma–se o primeiro schnaps para não perder a hora. – Vá que o Maratá não apareça ... justifica o bebum, entornando o primeiro copo. A lenda do Maratá – cultivada ainda hoje – tem origem em fato real. O ônibus saía de Estrela pela manhã e fazia a parada no Salão Lindemann em Languirú às 11:00 horas. Na falta de relógio, o ônibus passou a servir de referencia para a hora do trago. Já em Maratá, a referencia é a Sulina de Estrela a Porto Alegre – que passa por lá no mesmo horário. LA CUCARACHA O Ouro e Prata para as Missões, faz a sua rotineira parada noturna na estação rodoviária de Estrela. O ajudante do motorista e alguns passageiros, desembarcam para fazer xixi e tomar um café no bar, mas a maioria permanece a bordo cochilando em seus assentos. 305


– Todos quietos, mãos ao alto ! – Isto é um sequestro ! anuncia o bandido mexicano de sombrero, que invade o ônibus apontando o revolver por baixo do poncho. O motorista e os passageiros arregalam os olhos sobressaltados. Levam as mãos ao alto, oferecendo as carteiras e suplicando piedade ao sequestrador. – Motorista direto para a Zona ! ordena, o bandido. Lá fora, o ajudante percebe a ação do meliante e arma–se com uma chave de rodas para entrar no ônibus e golpeá–lo pelas costas. Ao perceber que seria atacado à mão ferrada, o sequestrador se rende e pede arrego: – Calma, calma, calma ... estou desarmado. É só uma brincadeira, esclarece o Naninho apressando–se em tirar o sombrero e revelar sua real identidade. OLHO DE VIDRO O Quinca é um baita gozador. Na mesa já repleta de garrafas vazias no Bar da Rodoviária, ele lança um desafio aos colonos: – Aposto meia dúzia que mordo a minha própria orelha ! – Ah, não ... essa eu quero ver, duvida um dos presentes. Na frente de todos, sem qualquer constrangimento, o Quinca tira a dentadura – com todos os dentes inteiramente dourados – e morde a própria orelha. Todos riem e se divertem com o pato que paga a rodada de cerveja. Terminada a meia dúzia, o Quinca lança novo desafio valendo mais um tanto. – Aposto que mordo o meu olho ! grita ele. – Ah, é fácil ... é só tirar a dentadura e morder o olho... fala um deles, que vira o truque anterior. – Não ! – Eu mordo o olho sem tirar a dentadura ! – Ah, não ... essa eu pago prá ver ... aposta o colono.

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Calmamente, o Quinca pega o lenço no bolso, saca o olho de vidro do orifício ocular e o leva à boca. Morde o seu próprio olho, sem tirar a dentadura ! – Mais meia dúzia ! grita ao garçon, rindo da cara do incauto. O Dóti, é outro que tira o maior sarro com o seu olho de vidro. Durante o jogo de snooker, ele interrompe o movimento do taco mirando a bola: – Isto é bola para fazer com um olho só ... diz ele, sacando o olho de vidro e depositando–o na borda da mesa. Num jogo de futebol no campo do Estrela, o Dóti recebe no rosto uma bolada acidental do Osvino Horn. Cai ao chão com as mãos na cabeça chorando desesperado. – Olha o que tu fez comigo, Osso ! levanta–se gritando, mostrando o olho na palma da mão, para desespêro do pobre Osso. Parece Anúncio de rádio, mas não é. Olhos de vidro opacos e embaçados, não são mais motivo para tristeza. São agora polidos e recuperados pelo polidor de olhos Odilo Petter. Usando de sua larga experiência como alfaiate, garçon, cozinheiro de ocasião e protético, o incansável Petinha lança mais este diferenciado serviço. Não recupera a visão, mas lustra os olhos de vidro, imunes a intervenções da Clínica Balestro. FOGOS Os incêndios das fábricas do Andres e do Lautert, expelem nuvens de fumaça e labaredas de suspeita sobre o do Bar Sport do Lídio Fauth, logo ao lado. – O culpado é o álcool. – É fogo de cachaça ! acusam os moralistas da AA – Associação Antialcóolica. – Foi o Kurt, o Kurt Circuito – defendem–se os bebuns, apontando o verdadeiro culpado – confirmado depois pelo Corpo de Bombeiros. Todo incêndio, levanta suspeitas de fraude contra o seguro. 307


Nem sempre é verdade, mas há casos em que o fogo é planejado para ser indenizado. Chamuscado pelas contas a pagar, o Betinho faz um seguro e planeja queimar o seu Cachorrão para receber a indenização. Compra meia dúzia de velas e enche o trailer de embalagens vazias de cerveja, refri, mostarda, ketchup e tudo mais. Antes de ir para casa, distribui as velas estratégicamente acesas pelos cantos para garantir a queima total sem qualquer vestígios de crime. Já no aconchego do lar, espera a boa notícia de incêndio com perda total, quando o guarda noturno lhe bate à porta: – Seu Beto, o Senhor me deve uma cerveja ! – Esqueceu as velas acesas, mas eu consegui arrombar a porta e evitar o incêndio ... – Ô guarda burro ! reage o Betinho para surpresa de zeloso e ingênuo vigia. BARES E FARMÁCIAS Os bares de forte personalidade, com azulejos brancos, espelhos e fotografias, não existem mais em Estrela. O filé a cavalo, o à la minuta e os sanduíches abertos com tomate, pepino, lombinho e mostarda, andam escassos. O Bar do Abrigo virou praça. O Elite e o Sport, são lojas populares. O da Rodoviária, está no Trevo e o bar da Soges, só tem grande freqüência em dias de jogo no telão. Na maior parte do tempo funciona como restaurante. Bares novos, só tem o Suicida e o Dose Dupla. E o Bruxel, está inaugurando agora um belo bar junto à padaria. Até a caipirinha caiu em desuso e já não é mais receitada como remédio para a gripe. Usa–se agora o Resfenol, Benegrip e outras drogas encontradas nas novas Farmácias – mais numerosas e mais lotadas do que os bares. – Andará o estrelense mais doente do que antes ou estarão as Farmácias vendendo cachaça com limão em gotas e comprimidos ? 308


A RINHA DE GALO Abaixo do Armazém do Joãozinho Santos, tem a cancha de bocha e o rinhadeiro de galo. Os adeptos da rinha, se acotovelam na arquibancada que cerca o picadeiro circular e ali fazem suas apostas. O Auri Scheibel, Mirinho e o Tatico, são do ramo. Conhecem a origem, a história e a manha de cada galo. O mais entendido no entanto, é o intuitivo Gastão Hahn. Bate o olho no galinho e já sabe o que esperar do lutador. Vê coisas que os outro não vêem e serve até de conselheiro aos demais apostadores. – Qual é o galo bom, Meu Galo ? pergunta o Ruga recém chegado ao rinhadeiro. – É o Branco ... afirma o Gastão, contrariado com o tratamento irônico usado pelo vizinho. Confiante na dica do especialista, o Ruga aposta alto no galo Branco esperando ganhar um monte de dinheiro vivo – a moeda circulante no jogo. Mas mal iniciada a luta, o galo Preto mete a anilha de cristal no olho do Branco, o cega e faz sangrar irremediàvelmente. O Preto vence a briga, levando a ilusão e o dinheiro do Ruga, num golpe só. – Pô Meu Galo, tu não disse que o bom era o Branco ? indaga, indignado ao Gastão. – Sim, claro ... o bom é o Branco, mas o marvado é o Preto, seu filho da puta ! vinga –se o Gastão do chato que o chamara de Meu Galo – apelido que ele detesta. O BECO DOS CLOSS No Beco dos Closs termina a cidade. O fundo das casas entre o Joãozinho Santos e o Círculo Operário, dá para o banhado gramado e repleto de Maricás. Além da bela Dalva Capela, tem moradores bem conhecidos. 309


Moram ali, o Duda, o Naldo, o João Porto e o Herbert Rakowski – pai do Armin. É também a sede da quadrilha do Tibica – cujo território, vai do Beco até o campo da Baixada. O Tibica, o Alexandre Garcia, o Batata, o Nirso, o Guiga, defendem–se dos invasores, com fundas, lanças, arcos e flechas. Curiosamente, o Batata chama a goiaba de Guajava. Uma década depois, descubro na Agronomia que o nome científico da fruta é Psydium Guajava – exatamente como ele falava. – O Batata sabia das coisas ... BATIDA DE BANANA Na diagonal, do Joãzinho Santos, mora o Arcelo Diehl, pai do Minho, Mico, Berenice, Patito, Elenice e Lamão. Em sua casa, conheço o Liquidificador – o revolucionário utensílio doméstico ainda tão raro quanto o disco voador. O Mico enche o copo com leite gelado, banana e açúcar, e gira o botão fazendo a faquinha girar. O resultado é espantosamente gostoso. A doce e leitosa espuma da batida, gruda nos lábios e na memória por toda a vida. Batida, no Paraná, não tem leite nem fruta – é cachaça com limão. Sem saber disso, a minha mãe pede uma Batida na lanchonete, ao chegar de ônibus em Curitiba às 6:00 horas da manhã. – Uma Batida ? estranha o garçon, diante da distinta senhora recém chegada à cidade. – Sim, sim ... uma batida de abacate ... responde ela, sem entender o espanto do rapaz. SALSICHA EM METRO A Batida, é Vitamina. A banana contada em dúzia em Estrela, é pesada em Kg no Paraná. E a Salsicha se chama Vina. Recém chegada em Castro e ainda não familiarizada com o 310


vocabulário local, a Vania pede salsicha ao açougueiro, meu amigo. Pelo sotaque gaúcho, ele a identifica como minha esposa e pergunta: – Quantos metros de salsicha Você quer ? – Ah ... somos só dois em casa, acho que um metro dá, responde ela.

NOVA GERAÇÃO Numa das modorrentas e intermináveis tardes de verão na Columbus, o Adonis, o Euds, o Xaxado, a Rose e eu, decidimos criar um jornal independente para expressar a opinião da juventude. A idéia inicial é editar um jornal fixo, disponível em lojas e bares com boa afluência de público rotativo. A primeira edição mimeografada a álcool com o apoio da Farmácia Buchmann e do Paladino, faz estrondoso sucesso. As pessoas não se contentam em apenas ler – surrupiam o folhetim do ponto fixo e o levam para casa. Os 50 exemplares iniciais, logo desaparecem e nos obrigam a repetir a edição para equilibrar a inesperada demanda. O sucesso demonstra que há uma clara lacuna a preencher na imprensa estrelense e a partir daí ampliamos a tiragem e passamos a vender anúncios e assinaturas. Mas a empreitada é difícil. Só a inspiração já não mantém a idéia de pé – é preciso transpirar e correr atrás do dinheiro. Passo a passo, com criatividade e ajuda de outros abnegados colaboradores, o NG vai ficando com cara de gente grande. Salta do mimeógrafo para o linotipo e assume as feições de um jornal de verdade. Participo do primeiro ano e acabo perdendo o contato com a redação, após emigrar para o Paraná. Quase 50 anos depois, sinto uma pontinha de orgulho por ter ajudado a plantar o tablóide semanal de razoável impressão, que 311


reflete não apenas a opinião da juventude estrelense e sim da comunidade em geral. BOLA PRETA O Nova Geração concede Bola Preta à Polar, por aumentar o preço da cerveja duas vezes em poucos dias. Indignado, o poderoso Arnaldo J. Diehl corta o patrocínio e jura o jornal de morte por asfixia financeira. O desespero bate na redação: – Como compensar a perda do maior patrocinador ? perguntamo–nos apreensivos, mas sem nos intimidar. Mantemos o ideal de pé, caçando mais anúncios, mais assinaturas e fazendo eventos lucrativos. O Seu Arnaldo, é Presidente da Soges, onde meus pais são ecônomos. Resolvo falar com ele e tentar a conciliação. Profundamente ferido, ele me recebe no escritório em sua casa com a bola sete entalada na garganta. Joga sobre mim todos os xingamentos que lhe vem à cabeça e não me deixa falar. – Voces são ingratos ! – Só sabem criticar ! – Não reconhecem o valor da Polar ! – Não sabem o que ela significa para a cidade ! – É a que mais dá emprego, a que mais paga imposto ! Estrela sem ela, não seria nada ! grita, possesso de raiva. – Mas, Seu Arnaldo ... tento interromper. – Voces não sabem nada, não sabem o que é uma empresa ! – Mas, Seu Arnaldo ... – Não sabem o que é ter funcionários, fornecedores ! – Mas, Seu Arnaldo ... – Voces são ingratos, traidores ! – Seu Arnaldo, posso falar ? consigo finalmente dizer. – Fala ... diz ele secamente, dando–me precioso espaço. – Seu Arnaldo, sei que o Senhor está sentido, mas não vim aqui para brigar. Criticamos o aumento da cerveja, mas o Senhor está levando a coisa muito a sério. Não é bem assim ... 312


– Como não é assim ? – E o que vocês escreveram do jornal ? pergunta, já um pouco mais calmo e disposto a ouvir. – Veja Seu Arnaldo, a Bola Preta não é um ataque à Polar. É apenas uma brincadeira com o preço da cerveja que tanto gostamos de tomar. Falamos até em precioso líquido no jornal ... – Mas isso me atinge ... – Nunca pensamos em atingir o Senhor. Nunca imaginamos que ficaria magoado. Desculpe, se o ofendemos. O Senhor tem razão quando diz que não conhecemos uma empresa, mas nós não somos ingratos e nem traidores. Somos apenas jovens, um pouco irreverentes, mas não queremos o mal de ninguém. Se o Senhor tivesse filhos, entenderia o que estou dizendo ... – É ... mas vocês não reconhecem o que faço pela cidade ... – É claro que reconhecemos, mas posso ser franco ? – O Senhor não fica brabo comigo se eu falar o que penso ? – Pode falar ... – O Senhor faz as coisas, mas não dá chance para ninguém reconhecer ... – Como assim, não dou chance ? estranha ele. – Veja o caso do Ginásio Esportivo. O Senhor o construiu e logo o batizou com uma placa com o seu próprio nome ... – E tu não achas justo ? – Claro que é justo, mas podia ser diferente. Podíamos ter feito uma festa, um torneio de inauguração em sua homenagem, com notícias no rádio e jornal. O Senhor e o Clube mereceriam uma Bola Branca no Nova Geração, concluo sentindo–o finalmente calmo. Minhas palavras, o comovem. Sinto ter dito coisas que ele não costumava ouvir. Muda o tom de voz e passa a falar brando: – Puxa, então é assim ? – Voces precisam me ajudar a movimentar o Clube, Hauschild ... diz ele, estendendo–me a mão amistosamente e despedindo–se para outros compromissos. O relacionamento com o jornal, nunca mais volta a ser o mesmo, mas no plano pessoal, nossas relações evoluem extraordinariamente. 313


A partir desse dia, o Seu Arnaldo, revela–se amigo e interessado em minha carreira de Agrônomo. Quando sabe que estou em Estrela, me convida a almoçar com ele e a D. Verena no Clube – onde eles almoçam diàriamente. Mostra–se inclusive, mais compreensivo com meus pais, cujos negócios alçam vôo de modo bem positivo com o crescente movimento do Clube, chegando depois a operar 4 caixas e 72 garçons numa única noite de intensa movimentação. Na morte do Nenê, ele dispensa aos meus pais grande conforto moral e no nosso casamento, dias depois, põe o seu luxuoso Gálaxie à nossa disposição para a saída da Igreja. Poucos anos depois, o Seu Arnaldo falece repentinamente durante uma viagem. Havia dito aos meus pais, que nos visitaria em Curitiba nesta mesma viagem, mas o coração a interrompeu ... A BOLA DA VEZ Hoje, seria impensável atribuir Bola Preta e Bola Branca, para erros e acertos. Seria racismo contra os negros e inverter as cores, só inverteria a injustiça – os brancos, é que passariam a chiar. O NG teria então que escolher outras bolas para criticar as mancadas. Mas as cores não ajudam. O verde, não pode simbolizar o erro – é a cor da nossa bandeira, da ecologia, da esperança e do vá em frente. O amarelo, é a cor do ouro. O marron, revoltaria os pardos. O azul, atingiria os gremistas. O vermelho irritaria os colorados e o rosa, deixaria os gays em polvorosa. Bola dentro e Bola fora ou Bola Cheia e Bola Murcha, seriam políticamente mais corretos.

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ADÃO SEM EVA – Eu sou o Adão, Adão sem Eva ... Você que é boa, mulher, boa mulher, me leva ! Cantamos em bloco entrando no salão, com o humor dos cartazes que seguem o estandarte em forma de folha de parreira. Os cartazes, falam de tudo: – Eva me leva pro paraíso afora ... – Eis A Culpada ! mostrando a Maçã, motivo da expulsão. – A História da Maçã é pura safadeza. Adão comeu a Eva e a maçã de sobremesa ! diz a rima, com toda a franqueza. – Die Schlange dut Rauchen ! – A cobra está fumando, diz o cartaz do Petinha, com o caximbo fumegando. – NOSSA (c) EVA ! mostra o painel em forma de garrafa. – Adãodi tão as Eva ??? pergunta o Bexiga. – Criaram Adão Primeiro prá Eva não Dar Palpite ! – Adão – o Homem que não teve Umbigo ! – Feliz foi Adão. Não teve Sogra, nem Caminhão ! – E o Adão continua Prefeito ... referencia ao segundo mandato de Adão Fett – cuja filha, por coincidência, chama–se Eva. Rodamos alegremente, no microônibus pelas estradas do Vale e somos recebidos como bloco oficial nos melhores salões. Mas nem tudo é só festa – dois infelizes incidentes acontecem numa noite só : O Clube Ibiá de Montenegro exige que paguemos ingresso e isso motiva a nossa ida para Taquari, onde chegamos ao Alvinegro já no fim do baile, perdendo boa parte do Carnaval. Na volta a Estrela, o ônibus quebra na estrada e assistimos o sol nascer nos empoeirados milharais da várzea do Taquari. Em outro fim de baile, roubamos o banco de Arroio do Meio. Na volta do carnaval, com o dia amanhecendo, vemos um belo banco branco dando sopa na varanda de uma casa. 315


Temos a infeliz idéia de parar o ônibus e levá–lo para Estrela. O instalamos no alto do bagageiro e rumamos para casa. No dia seguinte, somos informados que o banco pertence ao Seu Lindemann – da empresa de ônibus, pai da Sonia, então namorada do estrelense Ellemer. A devolução é imediata e sem um único arranhão – nem no banco, nem no Adão. O dono confessa inclusive, que jamais perdera a esperança de reencontrá–lo: – Ele vai voltar, ele vai voltar ... dizia para a Sonia, ao contemplar o vácuo na varanda vazia. Ao invés de ir com o bloco para Taquari na última noite de Carnaval, o Igor e eu, preferimos ir a com as gurias para Roca Sales. Enciumados, o Sem Eva nos expulsam do bloco. É triste, mas valeu a pena amanhecer a quarta feira de cinzas nos braços de Eva. FALÁCIOS EM BRASA A batuta do Zé Knack, faz rufar os tambores da Escola de Samba de nome intrigante. Quarenta surdos, chocalhos, pandeiros e faladores, produzem bem cadenciados ritmos carnavalescos. Os temas de carnaval, giram em torno das mulheres: Falam das Pastorinhas que vão cantando na rua, olhando prá Lua que no céu flutua, lindos versos de amor. Alertam que a Lua não seja tonta, pois a Estrela d´alva que no céu desponta, quer passá–la prá trás com tanto esplendor. Desfilam na escola de samba, a Jardineira que está tão triste, a Camélia que caiu do galho, a Garota Bossa Nova que caiu no aligali, a Carolina que ficou famosa e granfina, a Mulata cujo cabelo não nega, a Aurora que não é sincera, a Amélia que era mulher de verdade e até a Mamãe que dá de mamar. E ao final, vamos prá Maracangalha ver a maré cheia, porque na areia tem mais peixe do que no mar ...

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CIDADES MARAVILHOSAS Tirando o Oceano Atlantico, o Rio de Janeiro e Estrela, tem incríveis semelhanças. A Geografia é a mesma. Ambas, estão a um passo da Serra, em vales de muita água doce e grandes pontes de traçado similar. O Morro de Cruzeiro aos fundos, lembra o Pão de Açucar sem o bondinho – que lembra a maxambomba. A identidade cultural é total. Adoramos o mesmo Cristo de braços abertos, temos o complexo do Alemão, usamos o tu e falamos chiado dizendo pachtél, schtrella, vóscht e muito maix ... E ainda cantamos o mesmo hino nas excursões: – Estrela Maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil ... Até a fétida oleosidade do rio nos fundos do Costa, tem o perfume da Baía da Guanabara. A continuar assim, os dois Cristos de braços abertos, estarão em breve levando a mão ao nariz. Seria o fim das cidades maravilhosas ... Sonhando em ser igual ao Carioca, o Ilmo exibe aos amigos a excelência do seu chiado, antes de sua primeira viagem ao Rio. – Lá nu Hio, vou falar como ox cariocax – tu vaix, tu foxte, paxtél e tudo maix ... vão achar que sou um menino du Hio, nem vão verh que sou di Schtrela ... Após a longa viagem de ônibus, ele desembarca com fome no Rio e vai direto à lanchonete. – Gahrçon, por favorh... mi traix um paxtél e uma cuóca, uma cuóca–cuóla ... – Querex a cuóca di lata ou di gahafa ? pergunta o garçon. – Ach, pode ser di carafinha mesmo ... entrega–se o alemãozinho, falhando numa palavra ainda não ensaiada. Outros hinos cantados nas excursões estrelenses, comprovam nossa total identidade com o carioca refratário a seus vizinhos: 317


– Oh, Minas Gerais ... que caga prá frente e mija prá trás ... oh, Minas Gerais ... – São Paulo, quatrocentão, tirei a calça e caguei no chão. Me levaram para o xadrez e eu só de raiva caguei outra vez !

GOLDEN BOYS AND GIRLS Em frente ao Borinha, no morro dos Siepmann, ensaiam os Golden Boys. O Edson Mayer, o Huguinho Müssnich e o Olavo Ruschel, afinam vozes e instrumentos na garagem, para honrar o nome de sua banda – os Meninos de Ouro, em Português. E fazem grande sucesso. Depois do ensaio na garagem, sobem o morro dos Siepmann e conquistam os salões da cidade. Um pouco abaixo, acontecem animadas reuniões dançantes na garagem do Ateneu Azambuja, decorada com motivos africanos. A turma vive ali os dourados anos 60. O Rock´n roll, Twist, Hully Gully, os Beatles e a Jovem Guarda, fervilham alegremente nas paradas. Os apaixonados dançam juntinhos ao som de Aldilá, Roberta, Volare e Dio Como Ti Amo – canções italianas na moda. Rita Pavone, Sérgio Endrigo e Pepino di Capri, são tão conhecidos quanto Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléia. Mas nem tudo, é ingenuidade e romantismo. Há também a solidão, a fossa e a dor de cotovelo. Altemar Dutra e Nelson Gonçalves, tocam os corações adolescentes com dramáticas letras em momentos de nostalgia. – Nostalgia, ao romper da aurora, todos vão embora, querem me deixar. Nasce o dia, vem a claridade e eu pela cidade a perambular ... – Acabei de saber, que Você riu de mim e depois perguntou se eu vivi, se eu morri, já que tudo acabou ... – Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante eu te peço, a minha nova inscrição ... 318


– Garçon meu amigo, me traz mais um trago, a despesa eu pago, o que eu quero é beber. Aquela ingrata ali na outra mesa, já foi minha amada eu na posso esquecer ... – Porteiro, suba e diga àquela ingrata, que aqui a espero, não sairei ... ate lançar–lhe em pleno rosto, o meu desgosto, a vergonha que eu passei ... – Quem eu quero não me quer, quem me quer mandei embora. E por isso, já não sei o que será de mim agora ... – Sonhei que eu era um dia um trovador, dos velhos tempos que não voltam mais, sonhava assim a toda hora, as mais lindas modinhas do meu Rio de outrora ... O Igor e eu, fizemos até uma música condizente com o clima dos momentos de farra: – Todos dizem que eu bebo demais e sou um vagabundo ... VOZES DE OURO Ao lado do zigue–zague, está o alfaiate André Scheibel. A Nair, o Auri e a Fany, são extrovertidos e muito populares na cidade. Não há quem não os conheça. A Nair tem loja de roupas. A Fany é professora e o Auri é taxista, galista e bom cantor – uma das melhores vozes da cidade. Faz dupla com o Huguinho Schneider, entoando os mais conhecidos boleros latinoamericanos. Cantam Cielito Lindo ... Índia ... Aquellos ojos verdes ... Guantanamera ... El dia en que me quieras ... y así por adelante. Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora ... é o seu maior sucesso em Português. Só quem canta muito bem, ousa acompanhá–los em sua afinação. AS MOCINHAS DA CIDADE Bonitas e bem nascidas, a Béti, a Tania e a Rejane, formam o trio das patricinhas do Centro. 319


A Béti, é irmã do Eduardo, filhos de Ilona e Dr. Telmo Snell. A Tania, é irmã da Magui, filhas da Iria e do Múti Mallmann e vem a casar–se com Cláudio Gres. A Rejane é irmã do Betinho e do Lôlo, filhos da Ethel e Armando Mallmann e vem a casar–se com o Roberto. Um pouco mais novas, a Vania, a Harda e as duas Voninhas – a Vier e a Ribeiro – formam um belo quarteto. A Vania, filha do Albano e Hertha Rücker, teve a sorte de casar comigo. A Harda, é filha de Bubi e Lucilla Weidlich – e é irmã do Guilherme, Igor e Luciano. Casa–se com o Tallini – meu colega Engenheiro Agrônomo. A primeira Voninha, é filha de Francisco Xavier e Lídia Vier – e tem uma penca de irmãos: Laíde, Laci, Noeli, Telminho, Tiongui, Teta, Inês, Giba e Flavinho. Casa–se com Carlos Wendisch, também Engenheiro Agrônomo. A segunda Voninha, é filha de Homero Ribeiro – e é irmã do Merinho. Casa–se com Leônidas Weigert do Banco do Brasil. Na esquina da Praça, mora a família do Muni Eli com outro quarteto de patricinhas. A Clarice, casa com o Chússi – que salvou a minha vida e a da Suzi, no açude do Bruno Eckert quando éramos crianças. A Marice, casa com o Mozo – meu contemporaneo de escola e altobronzense como eu. A Eunice, casa com o Danilo Bersch – meu ex–colega no Juvenato Marista em Veranópolis. A Mariza Feldens, vem de Cruzeiro e vira Schwertner, casando com o Roque. SOM E IMAGEM Onde há um Rücker, não é preciso consultar o guia telefônico para localizá–lo. Basta perguntar pelo regente do coral ou pelo melhor fotógrafo da cidade. 320


A música e a fotografia, estão no DNA familiar. Em Estrela, a família Rücker teve três fotógrafos profissionais – Aloysio, Siegmundo e Albano. E seus filhos Paulo, Zé, Toninho, Tadeu, Carli, Ricardo e Robi, nada ficam a dever aos profissionais da imagem e do som. O Rui, vai ainda mais fundo – fotografa microscópicas bactérias no laboratório.

ZIGUE – ZAGUE O zigue–zague desce da Praça para a Praia. Dá acesso a todos os negócios e moradias próximas ao rio. O ponto de referencia mais conhecido é a Padaria da Praia, na descida para a barca. O balcão é cheio de sonhos, mil folhas, nariz entupido e canoinha. O pão d´água, o pão doce, o sovado e o italiano, com manteiga, mortadela e guaraná, parecem cair do céu depois de uma tarde de banhos no rio. Na retaguarda de tudo isso, estão o tio Beno e a tia Ilma, escudados pelo dedicado Pressinha. Ao lado da padaria, em direção à Cervejaria, tem a sapataria do Seu Presser – pai da Nilse e do Pressinha. O Frid Eidelwein e a Dona Elza, pais do Ellemer, da Hellen e da Elfi, moram grudados. À esquerda na descida para a barca, abaixo da antiga fábrica de móveis do Wingen ficam o casarão dos Seiboth e a entrada do Moinho do Miguel Ruschel – pai do Gera, Miguelito, Angelo, Júlio, Eliana, Dulce e Dóris. Anos mais tarde, o Miguelito vai trabalhar no Hospital do Dr. Seiboth em Marechal Candido Rondon no Paraná. Na esquina diagonal da padaria está a Vidraçaria Dresch, em que o Ito pisca agitadamente os olhos para a tranquilésima Maria. Ao lado da vidraçaria, tem o comércio dos Kloekner – o Enio e Beno, são meus colegas no Cristo Rei.

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Também meu colega no Cristo Rei, é o Olavo Ruschel, irmão da Maria Helena, que moram logo adiante. O pai deles Alfredo, conserta rádios. Ao lado, vem outra família Ruschel – a do Paulo, Arno e da Léa. No fim da rua, mora o Olivério Mallmann, pai do Nelmo e do Schtamba. É a última casa da Praia, saindo para o Arroio do Ouro. Na rua transversal à da Praia, moram os Morais. Tem muita gente nas casas. O Ivo, Luís, o Paulinho Tchebebeco e outros mais. A DINASTIA DOS PÃES A dinastia dos Hauschild na panificação tem 80 anos. Inicia com o Afonsinho – pai do Chico, Roque e Ieda. Ele faz o pão e a Dona Gema faz os doces – especialmente fios de ovos, sem a clara. O meu pai e o tio Beno passam longos anos agitando as massas na Padaria da Praia e deixam três herdeiros com a responsabilidade de expandir o império. O Fleco, conquista o Centro substituindo a tradicional Dona Maria Diehl – ainda antes do advento do calçadão. O Waisa, avança para Languirú. O Naninho, instala–se inicialmente no Colégio Estrela da Manhã e mais tarde – pressionado pelo crescente volume de vendas do Neco, do Eli e do Vasquinho – expande–se na Auxiliadora. Recentemente, os Hauschild se aposentam e deixam enorme lacuna na arte do forneio. Do trigo, restam os cabelos brancos e a alergia pelo cheiro da farinha. Espirros, coceiras e calafrios, surgem espontaneamente no Naninho ao passar por uma padaria. E sempre que isto acontece, pronuncia o lapidar enunciado: – Comi o pão que amassei, comi o pão que o Diabo amassou e agora como o pão que os outros amassam ... Ao saber que o tio Benno vendeu a Padaria da Praia e comprou as produtivas terras do Antonio Horn, o Osvaldo Diel – com chácara também ali por perto – faz um curioso comentário: 322


–Schód ... die Hauschild han pan von die hacke … Que pena ... os Hauschild tem mêdo da enxada ... diz ele em alemão, em seu lento e peculiar jeito de falar. E ele tem toda a razão. Os Hauschild preferem suar com a pá à boca do forno na madrugada, a verter o suor ao cabo da enxada no sol a pino. O VALMIR É uma pena que o Valmir, não tenha assistido a tudo isso. A leucemia o levou aos 24 anos. Embora descorado e abatido pela doença, mostrava–se ainda otimista dias antes de falecer. Na visita que lhe fazemos no Hospital, ainda externa o desejo de jogar bola. – Assim que eu sair daqui, vamos bater uma bolinha ... foram as últimas palavras que ouvi de sua boca. ESCOLA DE PANIFICAÇÃO Inspirado no movimento e nas amplas instalações do Estrela da Manhã, o Naninho transforma a sua padaria numa verdadeira Escola de Panificação. Aplicados alunos das famílias Horn, Bruxel, Andres, Ruschel, Hart e outros, tornam–se destacados empresários do forneio, logística de distribuição de pães. Alguns, inclusive, expandem seus negócios para outros ramos. O Adair e o Márcio, seus sucessores na Auxiliadora, perpetuam a marca Naninho e a receita da cuca, do pão de milho, da rosca, do biscoito de manteiga e do pão de mel. – Todos os meus alunos estão bem na vida. Fizeram tudo o que o Professor dizia e não fazia ... orgulha–se o Mestre cuca, transferindo todo o mérito para a rapaziada do quepe branco. O trabalho do padeiro é árduo e sacrificado. O consumidor nem imagina quantas horas de dedicação estão por trás do seu pãozinho quente no café da manhã. 323


E o padeiro, ainda é obrigado a arcar com as sobras diárias. – Tem pão velho ? pergunta o guri na padaria. – Tem sim, meu filho ... responde o solícito balconista, indicando a pilha de pão amanhecido, vendido a preço ainda mais irrisório do que o pão fresco. – Bem feito! – Quem mandou fazer demais ... emenda o abusado moleque, correndo para não ser pego pelo cangote.

TRADIÇÃO CERVEJEIRA O maior empreendimento da Praia, é a Cervejaria. Estrela tem 100 anos de tradição cervejeira, iniciada por Júlio Diehl e Germano Gausmann. A primeira cerveja foi a Aurora, seguida pela Íris, já nos tempos da Cervejaria Estrêla, de Luiz Müssnich. A mudança para Polar S/A, impulsionou a expansão. Durante décadas, os produtos estrelenses viajaram o sul do país até o fechamento da fábrica em anos recentes. Mas nem tudo acabou. Galhardamente, a solitária e pequena fábrica artesanal Prostbier, mantém de pé a tradição estrelense. A antiga propaganda da cerveja, destacava os seus benefícios à saúde: – Médicos de Paris descobrem que a cerveja é útil na prevenção de doenças cardíacas. É diurética e boa para hipertensos e cardíacos. É boa também para “limpar” o sistema digestivo. Os anúncios ressaltavam também o seu valor nutritivo: – Uma garrafa de cerveja tem 500 calorias e equivale a 500 g de leite, 400 g de peixe, 300 g de carne e 150 g de pão. – É o PÃO LÍQUIDO ! A Polar, divulgava também curiosas receitas para estimular o consumo de seus produtos. – Aperitivo ou Cock Tail: Para o seu Whisky, Água Estrêla. Para o seu Rum, Guaraná Frisante. Para o seu Gin, Tônica Polar. 324


Para o seu “Enfeza” – Polar Chopp. Para a “Ressaca” – Tônica Polar. Os produtos Polar, são de alta qualidade. As cervejas Estrêla e Regional, são seguidas de grandes lançamentos. A Casco Escuro é a pioneira na garrafa marron. A Polar Chopp, Polar Export, a Bock e a Malzbier, completam a linha de cervejas. O Chopp em barril de madeira, é alugado com bomba e serpentina para uso familiar e em caixa com gêlo para a pescaria. A linha de refrigerantes é extensa. A Laranjinha, Guaraná Frisante, Gazosa Limão Cristal, Soda Laranja, Soda Limão, Água de Soda e a Água Tônica, dominam todas as mesas e bares da cidade. A Crusch e a Grapette, mal aparecem entre eles. A Polar S.A. prima pela inovação. Lança o inédito Mate Polar, nunca antes engarrafado. É também pioneira no lançamento da cerveja One Way – em garrafinha não retornável – muito antes do advento da lata e da longnek. A cervejaria cresce a olhos vistos e expande suas instalações aos cinco quarteirões da Rua da Praia e avança pelo moinho do Miguel Ruschel até as terras do Tungue. Constrói inclusive o Hotel Polartur, hoje pertencente à família Pitchmann, com o nome de Estrela Palace Hotel. O processo de concentração do mercado, leva a Polar a ser absorvida pela Antártica e mais tarde pela Ambev, que acaba fechando as torneiras da superada fábrica de Estrela. Quiçás, a atual Prostbier mantenha a nossa tradição secular. Em seu auge, a Polar cria milhares de empregos diretos e indiretos, e profissionaliza o seu pessoal nos seus diversos setores. O fechamento traumatiza a economia local, mas deixa um grande legado. Boa parte de seus ex–funcionários se adapta a outras empresas e tipos de negócios. Há inúmeros exemplos de ex–funcionários atuando na metalurgia, hidráulica, construção civil, elétrica e no comércio – o que de certa forma compensa o vazio deixado pelo fechamento.

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ENTÃO TCHAU ... Os escalões mais baixos entre os funcionários da Polar, tem naturalmente suas limitações. O diálogo do meu filho Fabrício aos seis anos de idade, com o vigia do depósito ao lado da casa dos avós paternos em Estrela, retrata isso. De prancheta e caneta nas mãos, ele instala–se na guarita e anota a placa dos caminhões que entram e saem no portão. As placas de diferentes lugares, o levam a perguntar ao guarda sobre as cidades que conhece: – Voce conhece Porto Alegre ? – Não ... – Voce conhece Recife ? – Não ... – Voce conhece Ponta Grossa ? – Não ... – Voce conhece Curitiba ? – Não ... – Então tchau ... Voce não conhece nada e não temos mais o que falar ... despede–se, o esperto menino. ZAGUE–ZIGUE Voltando a subir o Zigue–Zague, encontra–se a Casa Canônica que serve de escritório e residência do padre Reinaldo Juchen – vigário da paróquia de Santo Antônio, depois substituído por inúmeros outros padres até chegar ao atual de nome divinamente incomum: Azabido. Ao lado da Canônica, está o Banco da Província – cujo Gerente é o Seu Estrela, pai do Hermógenes – o Pulseira. – Eu sou o Estrela de Estrela, costuma apresentar–se o Seu Estrela nas reuniões do Banco em Porto Alegre. Surge depois um outro Estrela, em Estrela – o futuro marido da Dalva Porto, o Estrela D´Alva. 326


FACAS E SELOS Na outra esquina, o cirurgião Dr. Lauro Müller, maneja o bisturí com perfeição e destreza. – Opera até quem tem dor de cabeça ... dizem os doentes, receosos de entrar na faca. O Dr. Lauro, é também famoso filatelista. – Tem até o Olho de Boi – o primeiro selo lançado no Brasil em 1843 – época do Império ... dizem de sua valiosa coleção. O PINHEIROS Em frente ao Armindo Müller, está o simpático Clube Pinheiros – de grande destaque no basquete e no volei. Disputa acirrados jogos masculinos e femininos com o Atlético e com a Soges, na cancha do Clube – palco de grandes atletas como o Hanz Hubert, Glostora, Ari e Telmo Hilgemann, Hanz e Menni Joas, Arno Müller, Valdir Schneider e o Emita. Entre as mulheres, as famílias Vier, Ruschel, Schwertner, Joas, Eidelwein, estão sempre bem representadas em quadra. A área do Pinheiros, é também absorvida pela Polar.

O RADIOAMADOR Além de médico, o Dr. Telmo Snell é radioamador. Tem uma antena de alto alcance nos fundos da casa. No dia da morte do Nenê, ele se comunica com um colega de Curitiba, que transmite a mensagem à Delegacia de Polícia de Castro, onde resido. – Mandaram avisar do açougue de Curitiba, que o José morreu ... diz o guarda de bicicleta, à minha porta, às oito horas da noite na quarta feira. 327


– Açougue de Curitiba ? José ? Não conheço ... é engano, não é comigo ... digo ao guarda, desconsiderando o assunto. Até penso em ligar para Estrela, mas o telefone é péssimo – leva–se dias esperando a ligação, quando se consegue. Tanto é que só nos comunicamos por carta e telegrama. Na sexta feira, ao chegar ao Escritório pela manhã, a Suzi desesperada ao telefone me diz que alguém da familia havia morrido e eu não consigo siquer entender quem é – de tão ruim o telefone. Me mando para o Aeroporto e só fico sabendo que é o Nenê, à tarde pela Lica Arenhardt, já no ônibus de Porto Alegre a Estrela. Parece que não era para eu receber a notícia em tempo. Na noite da morte, ouvi um jogo inteiro do Inter pela Guaíba e só me afastei do rádio no intervalo – justamente, nos minutos em haviam inserido diversos avisos para mim. TESOURA, AGULHAS E ALFINETES A roupa pronta, dificilmente cai bem. As fatiotas de linho, alpaca e casemira importada, são confeccionadas à mão e sob medida, por exímios profissionais do corte e costura. Só em torno da Praça, existem três alfaiatarias. A do André Scheibel, Ivo Mallmann e Casa Gemmer – onde trabalham o Nelsinho e o Adãozinho, grandes craques do Estrela F.C. O Ivo Mallmann, é pai da Vânia e do Ivan – o Dolero – que tem esse apelido, não por lidar com dólares e sim por trocar o G pelo D. Fala Dolero ao invés de Goleiro e Fodo no Fodão, ao invés de Fogo no Fogão, segundo a gurizada que nada perdoa. Ao lado do Clube, tem mais uma alfaiataria – a dos irmãos Osmar e o Albano Sulzbach, ajudados pelo Petinha e o Keller. Entre os rolos de tecido, tesouras, agulhas e alfinetes, rola também o bom papo e chimarrão.

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OS BANCÁRIOS Antes da informatização, as relações entre Banco e Cliente, eram mais personalizadas. Estrela possuía mais Bancos do que hoje e o número de bancários, era umas cinco vezes maior. Os bancários eram muito conhecidos e bem relacionados. Os clientes os tratavam com intimidade. Os chamavam de Nico, Zé, Fininho, Pedrinho, Paulinho, Chiquinho, Braguinha, Biguinha, Zeppelin, Toninho e assim por diante. O Gabriel Fischer, Paulo Fey, Osmar Braga e o Valmor Grassi, não tinham apelido. Eram chamados pelo nome completo. O uso do nome e sobrenome, soa mais profissional e abre maiores chances de fazer carreira no Banco. Já imaginou um gerente chamado Fischinha, Feynho, Braguete ou Grassinha ? – Adeus, promoção ... Entre os bancários, o Pedrinho Voges é sem dúvida o de carreira mais curta – trabalhou um único dia. Fardado de vigia na entrada do Sulbanco – de quepe, uniforme e cassetete – sente–se desprestigiado pelos clientes que insistem em chamá–lo de Pedrinho – apelido não condizente com a liturgia do cargo. Decepcionado com o desacato dos que se negam a chamá–lo de Pedro, tira a farda e nunca mais volta à ativa. O maior banco é o Banco do Brasil. Tem dezenas de funcionários e paga melhor do que os outros. Tem até uma bela sede campestre – a AABB – para os fins de semana. Aos sábados, os funcionários formam dois times de futebol com as cores do Banco. O Azul e o Amarelo – ambos com excelentes reservas no banco – em ambos os bancos, diga–se de passagem. No time Azul, jogam o Gollo, Rosa, Nilo, Jamanta e Sommer, na defesa.Vítor e Fetter, no meio de campo. Gera, Pereira, Leônidas e Carioca no ataque. O Clarimundo e os Roques Assmann, Bracket e Hauschild, ficam no banco. 329


O Amarelo, forma com Euds, Cláudio, Normélio, Carcará, Krakeke, Paulo, Zé, Eletra, Toninho, Maneco e Xaxado. O Marder fica no banco com o Danilo e o Elmir. São tantos os funcionários, que além dos times AA de Azul e Amarelo, dá para formar ainda outros times B do BB para os torneios na AABB. Ainda estudante peladura, sem grana para nada, sinto uma pontinha de inveja dos bancários que já tem uma posição definida e recebem bom salário. Em frenta à Columbus, eles exibem seus carros novos e limpinhos, em alto som para impressionar as meninas. – Elas gostam do cheiro da gasolina ... dizem os despeitados. – Vale a pena estudar e viver na pindaíba em que vivo ? pergunto–me eu, em dúvida entre a Faculdade e um bom emprego no Banco do Brasil. Ao longo da vida, vejo que o tempo se encarrega de pôr o homem certo no lugar certo. Cada um conquista o seu espaço no labirinto da existência e no final tudo dá certo. OS BANCOS Assim como as Cervejarias, também os Bancos se concentram cada vez mais. O maior absorve o menor e junta–se a outro para engolir o da próxima esquina. O fechamento da antiga Caixa Rural gerenciada por Arthur Preussler, é o destino natural dos mais fracos nesta interminável disputa de gananciosos que prestam serviços cada vez piores com taxas e juros cada vez maiores. – Como pode o Banco do Brasil – o Banco do Governo – cobrar juros superiores a 200 % no cheque especial, contra a inflação anual de 5 % ? – Mas bah ! o que é isso ? – Assalto à mão desarmada ? Também as moedas vão se unificando. A Unidade Européia, já tem o Euro como moeda única e no Mercosul, pensa–se em fazer algo semelhante. 330


O problema é atingir o consenso. As moedas hoje vigentes nos países do grupo são fracas e não servem de referencia. O Peso argentino, uruguaio e paraguaio, pode não ser exato – há quilos de 900 gramas nestes países. O Real brasileiro, pode não ser real – as notas de 50 e de 100 podem ser falsas. Uma opção, seria usar o nome de um líder popular sulamericano – Che, Fidel, Perón, Pinochet, Evo, Bolívar, Chaves, Fujimori, Uribe, Lula ... mas o ego e a ideologia não permitem. Ídolos do esporte, também não servem. Pelé e Maradona, dividem a torcida. O mesmo ocorre com ritmos musicais. Samba, Tango e Guaranha, são inconciliáveis. Sobra então o Pila gaúcho – moeda de nome fácil e total estabilidade monetária. Um Pila é sempre um Pila, não tem a inflação e a flutuação das outras moedas. Taí a solução ... ASSALTO A BANCO Além do roubo nos juros, o estrelense corre o risco de ser também assaltado à mão armada por ladrões que invadem o Banco. No assalto ao BB, minha mãe está na fila justamente no dia em que vai sacar o dinheiro da aposentadoria. Os ladrões entram lançando ameaças e ela assustada joga a bolsa debaixo de uma escrivaninha. Felizmente, eles não percebem o seu gesto e ela salva os seus pertences, sem nenhuma coronhada na cabeça. Ao final, não há mortos nem feridos – o assalto termina bem, só levam o dinheiro do Banco. Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão. Já o assalto da Caixa Econômica, acaba em tiroteio na rua. Os ladrões fogem em alta velocidade, atirando prá todo lado. Pegam a Geraldo Pereira e se mandam para a Trans Santa Rita. Apesar do alto risco, não há notícias de que balas perdidas tenham atingido alguém no longo percurso. Temerosa, a Caixa transfere parte das contas para a Lotérica – que ainda mais vulnerável, passa a ser alvo de assaltos também. 331


Com medo da violência em Estrela, meu irmão comenta que está pensando em mudar–se de mala e cuia para Capitão – pequeno vilarejo oculto nos morros da Serra. Dias depois, sai a notícia de que o Banco de lá é invadido e os ladrões saem frustrados com o baixo valor encontrado no cofre. – Pensaram que meu dinheiro já estivesse lá ... conclui, o Naninho, desistindo da pretendida mudança. Agora, as coisas andam mais calmas. A última ocorrência de que se tem notícia, é o assalto da tartaruga por duas lesmas. – Descreva o que a Senhora viu, pede o policial à vítima. – Não sei, foi tudo tão rápido ... explica a tartaruga.

A SORTE Muito se fala da sorte do Nilo – Gerente do BB. – O 51 é um rabudo ... ganha tudo que é rifa ... ganhou até um auto ... costumam dizer. Poucos lembram no entanto, que só petisca quem arrisca. Só ganha, quem aposta. E ele talvez seja o maior apostador da cidade. Não há rifa, sorteio ou promoção em que o número 51 não lhe seja oferecido na Gerencia do Banco. Em sua posição, ele é obrigado a colaborar com todos, para não ser taxado de sovina e mão de vaca – coisa que o Nilo não é. Seria até justo que o Banco lhe destinasse uma verba de representação, específica para participar de sorteios na cidade. Outro sortudo é o meu sogro Albano, que está estranhamente jururú naquele sábado de fim de ano. Não demonstra a costumeira empolgação para a festa de Ano Novo – como sempre fazemos. Tento animá–lo e percebo que ele está sem dinheiro. Me proponho então a pagar a carne e o chopp. Ele topa, mas não se empolga. Continua apagado. Às 18:00 horas, quando sai o resultado da loteria federal no rádio, ele explode de alegria e começa a gritar e pular como um 332


louco. Acerta na cabeça, o 110 no jogo do Bicho – o número da duplicata que ele pagara no dia anterior, no Banco do Brasil. O Ano Novo rola como sempre e ele nada me deixa pagar. A Cica – cunhada do meu irmão – acerta a Quadra e sonha que na semana seguinte faria também a Sena. Confiante no seu palpite, corre atrás da sorte. Pega o telefone e organiza uma aposta familiar com a mãe, três irmãs, o irmão e a empregada. Monta a aposta com as dezenas indicadas por cada um e eles acertam a Sena, faturando um terço do prêmio total. Sorte ainda maior tem a CEF com o monopólio das loterias. Ganha sempre sem apostar e por isso despreza os Clientes. O piquete dos funcionários em greve na frente da Agencia, com biscoito, chimarrão e piadinhas sem graça a cidadãos que tentam pagar suas contas em dia e escapar dos juros extorsivos, contraria o glamuroso refrão da propaganda. – Sai da Caixa Você também ... parecem sugerir os grevistas. OVOS DE CHUMBO O Bazar Preussler vende de tudo – anzol, linha, chumbada, material escolar, carrinho de bebê, tecido, tesoura, agulha e até ovos de chumbo para serzir. Uma costureira, entra apressada na loja e pergunta ao Seu Arthur: – O Senhor tem ovos de chumbo ? Curvado e apoiado na bengala, ele levanta–se lentamente da banqueta e responde gemendo, sem perder o bom humor: – Não, não ... é reumatismo mesmo, minha senhora ... O SÃO LUÍS O antigo colégio São Luís, é agora usado como salão paroquial, onde acontecem grandes embates de ping–pong durante as férias. 333


O Belmar, Agostinho, Elmiro, Renato e os Nelson Urhy, Groth e Fagundes e eu, passamoas as tardes jogando a bolinha prá– lá– e–prá –cá tentando ganhar do Lavra Pinto – o cobra da turma. Tempos depois, o São Luís dá lugar à nova Casa Canônica – quando a antiga é também absorvida pela Cervejaria Polar.

OS SAPATEIROS O Sapateiro é normalmente calmo, simpático e bonachão. Apesar do cheiro de cola, o sapato em suas mãos, parece lhe aconselhar a simplicidade a modéstia e os pés no chão. É a antítese do Chapeleiro, que vaidosamente exibe o Ramenzoni, sempre de cabeça erguida e nariz empinado – como se tivesse ele, cheirado a cola do sapateiro. A maior referencia do ramo de sapataria na cidade, é a Fábrica de Calçados Estrela, do Aldino Eidelwein – onde trabalham o Juca Eidelwein e os irmãos Careca e Osvino Horn. O Egídio Horn e o Kurunz, também trabalham ali antes de se tornarem autônomos como o Lauro Eckert e o Russo. Os sapateiros autônomos estão sumindo. Já não se conserta o sapato como antes. O descartável e o tênis, tomaram conta dos pés. O João Fritsch – um dos mais antigos sapateiros de Estrela, acaba emigrando daqui. Anos depois, através de um amigo comum, encontro a Flávia e o Carlinhos – irmãos do Caninthe – em seu restaurante na praia de Itapoã, na Bahia. Vendem peixes, camarões e lagostas, de sandália havaiana que nem siquer solta as tiras para consertar. Como poderiam os antigos sapateiros, sobreviver ao advento de formas tão simples de calçar os pés ?

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FORASTEIROS Dois forasteiros de Bagé, ousam pegar as gurias de Estrela no baile do Banco do Brasil, no Marthin Luther. O Caninthe, não deixa por menos e os chama para a briga. Acovardados, eles deixam o baile e correm para o Hotel Benz, perseguidos pelo Caninthe abaixo de gritos e ameaças. Esbaforidos, chegam ao Hotel e protegem–se nos quartos. Minutos depois – para surpresa do valente estrelense – eles voltam armados de cintos para aplicar uma surra em seu perseguidor. Quem corre agora, é o valentão ... O Hotel Bentz e o Stein, estão sempre lotados de viajantes. Alguns que ainda usam o velho fuquinha alemão, disputam vaga na sombra das árvores, com outros que já exibem o novo modelo brasileiro – bem mais moderno e bonito. Satisfeito em ver os hóspedes chegando com a bagagem nas mãos, o Bubi brinca plagiando o ditado: – Há malas que vem para o Bentz ... costuma dizer. CALÇADA OPOSTA Em pequenos e compenetrados grupos, as freiras do Santo Antônio, estão em constante vai–vem entre o Colégio e a Igreja. Atravessam a rua em diagonal e tomam sempre a calçada do lado do Schwertner. Está claro que evitam passar em frente à loja de discos do Soni Ruschel. – Mas, por que a estarão evitando ? Por medo do solteirão não pode ser – ele é comequieto e tranquilo. Se pretendesse alguma coisa com elas, jamais o faria à luz do dia em horário comercial. E jamais se ouviu falar que ele tenha convidado alguma delas para passear em seu pequeno Taunus. O motivo, deve ser então o som que flui das caixas. A Brenda Lee cantando Jambalaia, pode ser uma boa razão – a música aguda e popular, pode ferir e profanar os ouvidos castos. 335


O Neil Sedaka cantando Oh, Carol ! poderia ser outro motivo – embora cantada em inglês, a música romantica e sedutora, pode fazer cair em tentação o coração consagrado a Jesus. Os The Platters cantando You Never Know ... parecem ter a resposta certa: – You never know, Você jamais saberá ...

A NOVA SOGES Após mais de dez anos, meus pais voltam a assumir a economia da SOGES – desta vez em sociedade com o José Freitas Belo e a Helena. As reformas e ampliações promovidas por Arnaldo J. Diehl, transformam a Soges em um novo Clube, com capacidade para operar simultaneamente diversos ambientes com diferentes públicos. A esta altura já estou na Faculdade e venho passar os fins de semana em Estrela, participando dos principais eventos. Mesmo nos momentos de aparente calmaria, os bastidores do Clube se agitam no preparo dos acontecimentos sociais. A Copa do Clube – em plano mais baixo do que a entrada – é um animado ninho de boa convivência. Após o trabalho, os amigos se encontram no bar na hora do aperitivo – como é chamado o happy–hour em Estrela. O pessoal se divide em nichos e panelinhas. Uns batem papo de pé no balcão, repleto de vidros de cachaça com ervas, rollmops ( escabeche ) e ovos azedos em vinagre. A mesinha de canto ao lado do balcão, é exclusiva dos pontuais velhinhos Ludwig Mayer, Arthur Buchamnn e Ervino Scnheider que marcam ponto diàriamente das 18:00 às 19:00 horas. Partilham frequentemente da mesa, o Wink, o Knehelmann, e Willi e o Etwino Kilpp. – Eine bier und eine schnaps mit waholder ... – uma cerveja e uma cachaça com zimbro, pedem eles, para sorver pausadamente à temperatura ambiente, em seus copos baixos, só lavados com água. 336


Às 19:05 horas pontualmente, o motociclo do Ludwig ronca na rua, arrancando para casa. Outros, jogam cartas ou general em mesas secundadas por banquetes laterias de apoio à bebida e petiscos de cada jogador. O carteado roda em silencio sem grandes perturbações. Os perús que assistem de pé, não podem interferir no pif, pontinho, caxeta, escova, canastra ou seja lá que jogo for. O general – jogado com cinco dados lançados à mesa com um copo de couro – é mais barulhento. Cada uma das tres batidas, é seguida de intenso chuleio e expectativa na numeração dos dados. O jogo pode ser individual ou de dupla, convencionando–se jogar com uma ou mais colunas verticais, com 10 espaços. De 1 a 6 marca–se os pontos acumulados em cada número e nas demais anota–se cada figura – de cara, segunda ou barata. A realização das figuras – Sequencia, Fula, Poquer e Gê – arrancam efusivas reações de euforia dos jogadores. Ao final, vence quem tiver a maior soma pontos marcados na planilha fornecida pela casa, impressa no Paladino. Em salas privadas distantes do público, corre também o carteado pesado. Sócios do clube jogam a dinheiro por horas a fio, até a madrugada. SEMPRE CALIBRADO Além das bebidas convencionais, o Bar do Clube tem fórmulas exclusivas de cachaça com guaco, losna, butiá, waholder e trigo velho, para satisfazer os paladares mais exóticos. O Niltinho gosta do limãozinho seco – mistura de cachaça, limão e Underberg. O problema é que ele logo embebeda. Já na primeira dose, está tonto. Da segunda em diante, meu pai substitui a cachaça por água acrescentando apenas o limão e o bitter, sem que ele o perceba. Ele bebe a mistura sem álcool, mas continua bêbado. – Que saco ! costuma exclamar o rapaz que já chega ao Clube com o nível de álcool bem calibrado no sangue. 337


SONO PROFUNDO O Pereira segue diàriamente a mesma rotina. Chega ao bar, instala–se na mesa ao canto e não procura contato com ninguém. Está ali para beber, não para conversar. Depois de umas e outras, baixa a cabeça entre os braços sobre a mesa e entra em sono profundo. Não incomoda e não é incomodado por ninguém. É sempre o último a sair do bar, mas nunca o faz com as próprias pernas. Todas as noites, depois de fechar as portas do Clube, meu pai o leva trôpego para casa, duas quadras abaixo. Numa dessas noites, o Pereira segue o script normal. Instala– se na mesa, bebe e dorme como sempre faz. Ao final do expediente, meu pai o chama para ir para casa. – Vamos Pereira, acorda, tá na hora ... Mas em seu sono profundo, ele não acorda. Meu pai toca no seu ombro e mesmo assim ele não reage. Mais uma sacudida e meu pai descobre que ele está morto na mesa do bar. Outro sócio que quase morre na mesa, é o Banjo. Desacordado pelo trago, ele emborca o rosto no prato fundo de sopa com massa e por pouco não morre afogado. SOLIDARIEDADE O Arciso, chega novo na cidade e em frente ao Clube encontra um grupo de homens amparando o Lauro Petter, ameaçado de infarto. O táxi chega às pressas para levá–lo com urgência ao PS. No meio do bolo de gente, o recém chegado embarca no carro e no trajeto descobre que deixaram tudo com ele. Segue sòzinho com o desconhecido para o Hospital e no guichê de recepção, não sabe siquer identificá–lo ...

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CARA DE PAU Meu bom amigo Erno, parceiro de papos gostosos na Praça, chega ao Clube e pede uma cerveja gelada. Eu o sirvo na mesa e anoto o consumo na planilha com quadriculados específicos para os gastos de cada cliente. Dali a pouco, ele pede mais uma – eu o sirvo novamente e acrescento o segundo traço na conta. Passa–se mais um tempo e ele pede a terceira cerveja. Mais uma vez o sirvo e ponho o terceiro risco no seu quadradinho. Minutos depois, ele pede para encerrar a conta: – São três cervejas ... 7,50 .... digo eu. – Eu só tomei duas ... responde ele. – São três, meu amigo ... – Tá errado ... Eu só tomei duas ... retruca ele. – São três ... tenho certeza absoluta, fui eu que te servi ... – Tu tá me roubando, só vou pagar duas ... – Então tá bom, paga só duas ... mas tem o seguinte. Na próximas vez, vais pagar no ato. Não te sirvo mais, sem o dinheiro na frente. Assim, evitamos que um roube o outro, tá bom ? – Tudo bem ... concorda ele, alcançando –me uma nota de 5,00 com cara de bunda. Uma cerveja, é o quanto vale a sua amizade. BALA PERDIDA Feliz e orgulhoso de sua nova aquisição, o Hünemeyer, exibe o seu novo revólver aos amigos na Copa do Clube. Ao apoiar a arma no balcão, ela dispara acidentalmente e a bala passa zunindo abaixo da axila do Naninho que assiste a demonstração atrás do balcão. O projétil passa entre o corpo e o braço e vai instalar–se na grade de copos na parede de trás. Por pouco, não acontece uma tragédia.

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COPOS QUEBRADOS Menor risco, oferece o Cliente portador de uma doença incurável, que para extravazar a sua agonia diante da morte certa e prematura, pede autorização para quebrar copos e taças contra a parede. Passada a sessão de terapia com os cacos espalhados pelo chão, ele paga o estrago e sai aliviado para casa. O DONO DO PEDAÇO Com apenas três clientes no bar e já passando da meia noite, meu pai me pede para apagar as luzes do Clube. Percorro as dependências e vou desligando a chave por onde passo. Por desconhecer detalhes da rede, inadvertidamente apago a luz do banheiro externo, justamente quando o Banjo está urinando. Quando retorno ao bar, ele me fala disso numa boa, pois somos bons amigos. Mas o Lauro Gordo, não aceita o fato, vira bicho e passa a me agredir verbalmente. – Tu fez de propósito prá nos obrigar a ir embora ... – Não é isso, Lauro ... me desculpe, foi sem querer ... eu não conheço todas as luzes ... vou lá acender de novo ... tento contemporizar, sem que ele se acalme. Mas não adianta argumentar. Ele insiste em xingar a mim e ao meu pai com crescente agressividade. Irritado, o gordo falastrão saca de seu respeitável título de sócio para me humilhar. – Tu nem devia estar aqui – tu não é sócio do Clube ! grita descontroladamente em altos brados, ignorando o fato de que estou passando o fim de semana na casa de meus pais – portanto, também minha casa. Diante disso, o chamo para a rua, mas ele se acovarda e não remove o bundão de 200 kg da cadeira. O Banjo e o outro amigo acalmam os ânimos e o levam embora. E assim acaba mais uma árdua noite de trabalho na Soges. 340


BOM HUMOR Apesar de estressado e nervoso, meu pai é bem humorado e tem resposta pronta para tudo. – Dá uma choradinha no whisky, Ratão ... pede o cliente. – Não dá ... já chorei muito no gêlo, responde ele. – Traz mais uma cerveja seu Erny, essas garrafas estão furadas ... dizem os rapazes na mesa cheia de garrafas vazias. – Eu sei ... o problema é o furo de cima, brinca meu pai. O GARANHÃO Quieto em sua mesa, o Seu Arnaldo, ouve a rapaziada vangloriar–se. – Dou duas seguidas ... Ah, dou três ... Dou duas sem tirar ... cantam eles, de galo. Calmamente, o velhinho se dirige a eles pedindo licença para intervir na conversa: – Voces são jovens meus filhos. Podem dar uma, duas, três, quantas quiserem ... mas se eu disser que na minha idade ainda dou duas, vocês acreditam ? – O que, o senhor dá duas ? – Não pode ser ... – Claro, uma no inverno, uma no verão ... diz, o garanhão. A OCASIÃO FAZ O LADRÃO Whisky com gelo em copo alto, é a bebida mais vendida no Baile de Gala. Os garçons me pagam a bebida com fichas no Caixa e cobram do Cliente na mesa. No fim da noite, fazemos o acêrto. Estranhamente, ao contrário dos demais garçons, o Bola não vende Whisky – só vende Conhaque, o que me deixa intrigado. Observo o seu comportamento e descubro o motivo da curiosa inversão. Ele me paga Conhaque no caixa, mas o atendente interno do balcão lhe serve Whisky – de aspecto semelhante e bem mais caro. 341


Ou seja, vende Whisky ao cliente mas paga Conhaque no caixa, embolsando a diferença. Ao final, os dois dividem a soma espertamente surrupiada da Casa. BOLA DE CRISTAL O aumento do prêço da cerveja deixa todo mundo revoltado. – É uma afronta ao Consumidor ! – Exploração das Multinacionais ! – A culpa é dos Americanos ! – Mas a Antártica é brasileira ... – Não interessa, são cevada do mesmo saco – tudo judeu ! Anos depois, Antártica e Brahma se juntam na Ambev, depois na Inbev e agora na In–Bush – grandes multinacionais que fazem o preço que querem, como eles já previam. FALSO MESTRE O Professor é simpático, risonho e atencioso – sabe cativar a clientela no bar sempre lotado. Um dia no entanto, me decepciono com o amado mestre – descubro que por trás de toda a aura de simpatia, há um ladrãozinho comum que me serve whisky Drury’s ao invés do Old Eight – um pouco melhor e mais caro. Ao ver–se flagrado em delito, desmancha–se em encabulados agrados para mascarar a verdade. Por tão pouco, perde o cliente. Também contrariado com ele, o Telmo Four se enfurece. Agarra o grande vidro de ovos azedos com beterraba em cima do balcão e o joga ao chão. O vidro se espatifa no piso e espirra o conteúdo com a salmora nas mesas cheias de gente. Ovos e beterrabas, pululam como bolinhas de ping–pong no corredor, mas não atingem o falso mestre protegido pelo balcão.

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ASSIM NÃO DÁ ! Amizade melhor não há, mas o Rui e o Namur gostam de polemizar. Estão sempre discutindo em campos opostos na mesa do bar. Um diz sim, o outro diz não – um diz não, o outro diz sim, só para contrariar. Inesperadamente certo dia, o Namur é surpreendido com a concordancia do Rui em uma de suas palpitantes opiniões. Ele muda de assunto e o Rui novamente concorda. Contrariado com a concordancia do amigo, ele introduz um terceiro assunto, esperando agora uma forte reação. Mas mais uma vez, o Rui move a cabeça positivamente fazendo o Namur explodir de irritação: – Pô, assim não dá ! – Não dá prá falar contigo ! – Tudo o que eu falo tu concordas, eu vou embora ! grita ele saindo para a rua, dando a volta na quadra e voltando minutos depois para uma nova rodada de discussões. AUTOS ROUBADOS Os amigos saem do Clube à meia noite e dão de cara com o auto do Carlos Armando na rua, enquanto ele joga cartas. Eles tomam a direção do carro aberto e o empurram na descida até a casa do próprio dono, uma quadra abaixo. Guardam o veículo na garagem e vão dormir despreocupados. Ao sair do Clube, o Manduca comunica o roubo à Polícia. Apesar da divulgação no rádio e intensas buscas por todo o Vale, o carro não é encontrado no dia seguinte. Preocupados com a repercussão, os ladrões brincalhões decidem contar ao amigo: – Procura na garagem, Manduca ... O dono do carro localiza o veículo em sua própria garagem. Ao saber de toda a história, fica feliz e leva tudo na brincadeira. 343


Só quem não brinca é o Delegado. Intima toda a turma e lhes dá uma mijada geral na Delegacia. O inverso ocorre com o Joãozinho Mainhardt. Ao sair de casa pela manhã, ele não encontra o carro na garagem. Assustado, chama a esposa dizendo ter sido roubado e que precisa chamar a Polícia. – Mas, eu não ouvi chegares de carro ontem à noite ... diz ela. – Nossa, é verdade ! – Eu vim a pé ! – Esqueci o auto na frente do Abrigo ... lembra ele, batendo o punho cerrado na testa. O Germano Schmidt, descobre apavorado o roubo do seu Opala em frente à sua casa na Rua 13 de Maio. Ao vê–lo desesperado na rua, um transeunte informa ter visto um carro despencado no barranco da Cel. Müssnich, logo abaixo. O Germano corre para lá e vê o Opala caído no mato a uns 10 metros abaixo da avenida, um pouco antes do arroio. Lembra então, que o deixara estacionado na ladeira, sem puxar o freio de mão. GERMANO ... A minha afilhadinha Fefê, é perspicaz e capta tudo. No escritório de contabilidade, ela percebe a lentidão do Germano no manuseio dos papéis sobre o balcão. Procura daqui, procura dali ... ele leva uma eternidade para localizar cada documento em análise. Em casa, ela não deixa por menos. A cada titubeada minha na execução de qualquer coisa, ela exclama: – Germããno ... REVEILLON SANGRENTO Nos mesmos paralelepípedos que vi assentarem em frente ao Clube quando criança, quase perco a vida vinte anos depois. Em estado de euforia após o baile de Reveillon, o João Henrique vem rachando com o seu Gálaxie pela Tiradentes em meio à multidão que deixa o Clube. 344


Engraçadinho, eu tento atravessar a rua à sua frente e no meio do caminho, percebo que não há tempo de seguir em frente e nem de recuar. Estático e apavorado no meio da rua, vejo o bólido avançar contra mim e me atropelar. Com o impacto do pára–choque nas canelas, eu rodopio no ar sobre o capô e sou arremessado de bunda para o duro chão de paralelepípedo em frente ao carro que freia. Os populares se aproximam e fecham o círculo em torno de mim. A calça empapada de sangue na perna, sugere grave fatura. Tão assustado quanto eu, o João Henrique me conduz ao Hospital e lá constatamos que nada de mais grave acontecera – a hemorragia vem de apenas um furo na veia. Aliviados, choramos abraçados como duas crianças. VAIDADE Ich und Ich – Eu e Eu – é uma expressão alemã para definir a vaidade humana. Vindo de Recife com a família para passar as férias em Estrela, vou à Secretaria da Soges visando obter uma licença para as crianças freqüentarem a piscina por 30 dias. A eficiente Secretária não consegue resolver o intrincado problema do estrelense emigrado, cujos famíliares são sócios do Clube. Depois de meia hora de chá de cadeira na quentíssima tarde de verão, sou atendido pessoalmente pela ilustre Presidente Mônica. Após saber quem eu sou e ver os documentos, ela empina o nariz, franze a testa e decreta do alto de sua autoridade: – Eu vou exxtudar o seu caso ... diz ela, chiando inexplicavelmente como um carioca. – Exxtudar o que menina ? – Não há o que exxtudar, ou dá a licença ou não dá ! – Me dá os documentos por favor, não quero mais ... reajo indignado, indo embora com os documentos na mão. Logo a seguir, encontro o Meco na Imec e falo da minha decepção com a vaidosa Presidente da Soges. 345


– O Lui é Vice Presidente, vamos falar com ele ... O Lui libera o acesso das crianças à piscina sem qualquer delonga e pagamento de taxas. E assim, elas passam o mês freqüentando a sede campestre, muito bem recebidas pelo Adelmo e outros funcionários ainda remanescentes dos tempos dos meus pais na economia do Clube.

OS NOVOS BARES Os bares do Centro são poucos, mas nos bairros, há vida. – Temos 30 bares da Boa União ao Cristo Rei ... afirma o Renegado no Bar do Adão, sobre a já tradicional romaria anual que os percorre num dia só. – O consumo de álcool dos romeiros é maior do que o dos carros ... explica ele. – Quantos quilômetros fazem por litro ? pergunto curioso. – Dos autos eu não sei, mas a turma faz 1 km por litro ... – 1 km por litro ? – Consomem muito ... – Mas, o álcool é de graça ... os donos dos bares, fazem questão que a gente faça o pit–stop e encha o tanque em seu posto ... – E cada bar tem o seu jeito de ser ... emenda o Chéia, revezando–se com o Renegado e o Ratão, na descrição de cada um: – Na Avenida Rio Branco, o Baurú é colorado e o Avenida é gremista. No Grenal, fica tudo engarrafado – inclusive o trânsito. – No Arroio do Ouro, o entardecer à margem do rio é majestoso. O reflexo do sol nas águas do Taquari, tem a cor da dourada cerveja no copo de cristal. Tudo combina ... – O Cotovelo, fica no limite da cidade, onde termina o asfalto e começa o milharal. Quando dizem que ali termina o mundo, o Kiko responde de pronto: – Depende do ponto de vista. Olhando da cidade para cá, aqui é o fim do mundo, reconheço. Mas olhando daqui para lá, é apenas o começo. 346


– E o Bar do Adão, tá aqui na curva do Cemitério. Tu tem que ver, ele fazendo propaganda. – Vem cá Adão ! chama o Renegado. O Adão, atende o chamado e começa a declamar apontando para o campo santo: O Bar do Adão é o Bar da Vida, Tem comida, tem bebida e alegria de viver. Já no boteco ali em frente, Não há nada prá tomar, não tem gelada nem quente Nem Brahma, Skol, nem Polar. Portanto amigos Clientes, tomem mais uma com a gente E nem pensem em trocar de bar ... E depois dos belos versos, o Adão informa que – apoiado pela esposa e pela Olinda – vem atraindo gente de toda a cidade para almoçar e jantar em suas nova instalações. – Sexta feira, é dia de peixe. Até o Pintado, aparece por aqui. O SHOPPING DAS IDÉIAS Não é quatsch, não é balela, as idéias fluem livremente no Shopping das Idéias. O pensamento diário escrito pelo dono do bar no quadro negro, induz à reflexão sobre a vida. A mensagem é sempre inspiradora e positiva. É o “ploc” da tampinha cerebral que liberta a inspiração. Os clientes, são ali recebidos com muita cordialidade: – Vais tomar uma coisinha ? – Temos mequetréfi e cervejinha ... oferece o João Auri, depois de comentar a frase do dia. A despojada aparência, faz o Shopping parecer apenas um boteco. Mas as aparências enganam, o lugar tem pedigree. Só tem gente boa que bebe com moderação. Bêbados e indivíduos mal encarados, são persuadidos a deixar o recinto com diplomacia – ou algo mais, se necessário. – Primeiro, no diálogo. Segundo, no soco. Terceiro, no ferro e quarto no berro ! costuma esclarecer o proprietário, sobre os seus métodos de persuasão em caso de resistência. 347


A diplomacia, é preciosa para afastar elementos suspeitos e manter o bom ambiente no Shopping das Idéias. Logo pela manhã, aparece um primeiro cliente desconhecido, todo tatuado, piercing na orelha e cabelo moicano. – Tem uma da boa aí, tio ? – Claro ... responde o João Auri diplomàticamente. Muito desconfiado da estranha figura, serve o copinho de cachaça na mesa, já com a estratégia traçada para afastar o indivíduo: – São 90 centavos ... – Caro, hein mano ? – Em todo lugar é 60 ... – Acha caro ? – Então deixa que eu tomo ... retruca o dono, fazendo menção de retomar o copinho. – O que é isso, tio ? – Deixa comigo ... reage o rapaz, dando a primeira bicada e apontando a moeda de um real na mesa. Ao receber o troco, ele dá o segundo gole e vai embora abandonando a cachaça pela metade. Os 30 centavos e o pulso firme, fazem o cara nunca mais voltar ... No Shopping das Idéias, não poderiam faltar os poetas. – João Auri, quando te vi, lembrei do Rio Taquari Desta água eu já bebi e hoje é um grande xixi. Não tu – o Rio Taquari ! declama o Naninho.

O CLUBE DOS MALAS Devido ao excesso de contingente e diferentes perfís psicomaláticos, o Clube dos Malas adota rígidos critérios de seleção na composição de seu quadro social. Os pretendentes a sócio, são separados em grupos homogênios de Malacos, Malandros, Malamados, Malacostumados, Malacaras e Malassombrados. Os Malassociados – de referencias suspeitas em outros Clubes – são imediatamente admitidos. 348


– Os estatutos internos, proíbem discussões polêmicas ... explica o Diretor do CM a um recruta, na entrevista de seleção. – Existe censura ? indaga o candidato a Mala. – Sim, censura total. Para evitar brigas e mortes inúteis, é proibido falar de Política, Futebol, Religião, Mulher e Parto Normal. – Parto Normal ? estranha o novato. – Claro. Imagina se aparece um Mala defendendo a Cesariana ... esclarece o Diretor. A Malafest e a eleição da Diretoria, são realizadas anualmente na Cova da Lontra, à margem do Arroio Boa Vista na Linha Lenz. A data oficial é 09 de Novembro – mas sempre em dia útil. Se cair em sábado ou domingo, vale a segunda feira seguinte, de forma que os Chefes, Aposentados e Desocupados, possam cumprir suas obrigações familiares e religiosas no fim de semana. O Conselho Consultivo, reúne–se toda segunda feira na hora do almoço, em locais rotativos por questões de segurança. O objetivo maior de cada reunião, é evitar que as coisas mudem. – Deixa a crise com está e vamos ver como é que fica ... repetem os Conselheiros a cada semana, entre goles e garfadas. A administração do CM está em crise permanente. Assim como fazem com os Prefeitos, os Malas de Estrela são tão malas, que só elegem Malas de fora para dirigir o Clube. O Presidente atual, é de Cruzeiro do Sul – a ser sucedido por outro que vem de São Paulo. – A coisa vai de mala a pior ... comenta um veterano Mala local, preocupado com o futuro da entidade.

O COMÉRCIO O CDL desenvolve louvável esforço para fortalecer o comércio local e evitar que se desloque para Lajeado – polo comercial bem maior. 349


Certas lojas, no entanto, mostram–se despreparadas para encantar o Cliente e nem sempre seus maus serviços são percebidos, pois todo mundo se conhece e os tolera como normais. Mas quem chega de fora, enfrenta inesperadas surpresas. Há lugares em que o estranho é sempre um suspeito. Já com a mercadoria nas mãos, sou obrigado a desistir de uma compra de R$ 43,00 porque a dona da loja não aceita o meu cheque de São Paulo e nem siquer toma a iniciativa de pedir referencias, como faria qualquer comerciante mediano. – Cheque de fora eu não posso aceitar ! – Cheque de fora eu não posso aceitar ! repete ela cegamente por inúmeras vezes, enquanto tento argumentar inutilmente que tenho , telefone, familia, parentes e amigos na cidade, que ela poderia consultar. Constrangido diante de outros Clientes na fila do caixa, devolvo os produtos à prateleira, dizendo–lhe apenas que se eu fosse passar um cheque sem fundo, não seria só de R$ 43,00. Outros comerciantes, parecem estar fazendo um favor ao atender o Cliente. – Ach, isso é difícil, mas eu dou um jeito, isso eu consigo prá ti ... dizem sem largar o chimarrão, como se não estivessem no negócio exatamente para servir o Cliente. Na loja de celulares, as mocinhas não recebem baterias cansadas na compra uma nova e nem sabem informar onde há postos de coleta. – Em Estrela, não tem. Em Lajeado, deve ter ... respondem desinteressadas, sem qualquer vontade de solucionar o problema. E há também os atendentes Distraídos, que não prestam a mínima atenção no que o Cliente fala. – 1 kg de carne moída de Primeira, por favor ... peço ao açougueiro. – De Segunda ? pergunta ele. – Não, de Primeira ... respondo. Ele vai à sala de corte, traz a carne moída para a balança, confirma o peso e me entrega o saquinho plástico transparente. 350


Estranhando o aspecto da carne, procuro confirmar: – Esta carne é de Primeira ? – Não, é de segunda ... informa ele. – Mas, eu pedi de Primeira ... – Não, o Senhor pediu de Segunda ! contesta ele. E tem o comerciante Chato, que no esforço de querer agradar, desmancha–se em pegajosas e falsas adulações que beiram a veadagem. – Haja saco ! Alguns negam–se a dar descontos: – Tu tá querendo me quebrar ... dizem eles quando se tenta obter um melhor preço à Vista. Outros, fazem bom preço no outro lado da ponte, mas são picaretas. O Picarello, embolsa o pagamento à vista do Cliente e não o repassa à fábrica de telhas. Gira com o dinheiro, usando os dados do pedido para comprar a prazo em nome do Cliente. Três meses depois, vem a surpresa. O Cliente vai parar no SERASA por falta de pagamento. E haja lero–lero para esclarecer a situação e recuperar o crédito na fábrica. Felizmente, o mau atendimento no Comércio, é exceção. A maioria das lojas, presta bons serviços. Alguns atingem a excelência. É o caso do Sede Zero – basta um telefonema a qualquer hora do dia ou da noite, e lá vem a cerveja gelada em poucos minutos. De sede em Estrela, ninguém morre ... Outro exemplo, é o Laboratório Estrela, que coleta amostras de sangue a domicílio. Não é mais necessário deslocar–se ao Alto da Bronze, pegar senha, entrar na fila e perder horas de serviço. É só agendar e esperar comodamente em casa, com os jejuns de praxe e 10 reais na mão. – Existe coisa mais civilizada do que isto ? Quem conhece, vai me acusar de estar fazendo propaganda no livro. – É claro que é propaganda ! – O que é bom deve ser divulgado e além disso, o dono do laboratório é meu cunhado. 351


ESTRELA, LONGE DE ESTRELA Estrela se globaliza. Não é raro encontrar estrelenses longe das barrancas do Taquari. Além das visitas de amigos, encontro conterraneos em hotéis, aeroportos, restaurantes e até em acidentes de trânsito. Encontro o Odilo Thomé no Hotel Lancaster, quando a Polar está abrindo a filial de Curitiba. O Nelson Braga, vai trabalhar lá e fazemos boa amizade. Anos depois, a sua esposa Terezinha, vítima de câncer, escreve um livro com valiosa mensagem de vida. No saguão do Hotel San Raphael em São Paulo, encontro o Dr. Schinke e a D. Gisela embarcando o Renato Horn para o curso de cervejeiro na Alemanha. No aeroporto do Galeão – RJ – encontro o Meni Joas e a esposa, embarcando para Londres. No café da manhã de um dos hotéis de Boa Viagem em Recife, encontro o Nilo Fensterseiffer e a Marlene, quando ele era o Presidente do CETRIN – órgão governamental do trigo. Num café em Chapecó – SC, encontro o Nero, atuando como vendedor de uma empresa estrelense. Tarde na noite, num restaurante de estrada em Soledade, encontro o Valdir Sudbrack, então gerente da Rádio Alto Taquari. Por puro acaso, acontece também um acidente de transito com o Adilson Fauth em Curitiba. Ele me chama e eu lhe presto oportuna assistência, pois os sacanas que o abalroaram, haviam feito o BO invertendo mentirosamente as vias urbanas como se eles estivessem na preferencial, utilizada pelo forasteiro. Mas o encontro mais improvável acontece com o Edilar Schnorr em Cancún no México. Jogando vôlei na piscina do hotel em meio a pessoas totalmente estranhas, dou de cara com o Maneco como adversário do outro lado rede. Com craques assim em campos opostos, o jogo termina empatado. 352


Também incrível, é a carona do meu cunhado Ricardo e o Zé Schiller, nas férias escolares. Eles fazem uma viagem pelo Brasil e de caminhão em caminhão, passam semanas na estrada. Na volta do Nordeste, param em minha casa em Curitiba e eu lhes dou uma carona de 400 km até Tubarão – SC. Ao deixá–los no trevo da cidade, acontece a impressionante coincidência. Um carro de Estrela que eles conhecem, está na rotatória tomando a BR 101 em direção ao Sul. Gritam para o conterraneo e emendam mais uma carona de 400 km. DESTRELADOS Se quem deixa sua terra natal, é desterrado, quem deixa Estrela, é destrelado. E os destrelados são gregários. Juntam–se em Associações de estrelenses sempre que possível. Com dois estrelenses e uma cerveja, se faz uma Associação com estatuto e tudo. Assim, pipocam Associações por todo lado. A maior colônia estrelense está na Capital. A AEPA – Associação de Estrelenses de Porto Alegre – funciona há mais de 30 anos. Antonio Carlos Porto, Érico Sauer, Darcy Arenhardt, Rudi e João Müssnich, Hanz Joas e outros estrelenses da gema, elaboraram o estatuto com o Chico Moesch e elegeram Danilo Senger Ribeiro como o seu primeiro Presidente. A AEPA serve de modelo para congêneres de outros lugares de colonização menos densa. O Roque Hauschild – diretor social da AERJ – deixou o Rio e voltou ao Sul, mas o seu irmão Chico mantém–se firme na assistência aos conterrâneos. O Chico é vitalício na AERJ – tipo Sarney no Senado e Ricardo Teixeira na CBF. Também o Euds Furtado – estrelense por adoção e coração – empenha–se muito em guiar os estrelenses ao Maracanã, Pão de Açucar e Corcovado. Em casos de furto, arrastão e bala perdida, presta assistência como Diretor jurídico. 353


Em Recife, o Huguinho Müssnich e eu, fundamos a AERNE – Associação dos Estrelenses Radicados no Nordeste. Só não englobamos o Norte, por não haver incentivo da SUDENE e por Manaus ter o mesmo calor de Estrela, o ano inteiro. As atividades da AERNE estão temporàriamente suspensas há 36 anos, por emigração dos Diretores para o Sul e pela morte de Vidal de Negreiros – herói pernambucano na expulsão dos holandeses em Guararapes – que gentilmenete empresta seu nome ao nosso Grupo Escolar. O Huguinho, é um Globe–Star na difusão do associativismo. Depois da AERNE, instala Consulados de Estrelnses em Petrolina – no sertão pernambucano – e na longínqua Austrália. O CEPE e a CERA, só não vingam por ele não encontrar nenhum outro estrelense, para compartilhar a cerveja e a saudade das barrancas do Taquari. – Ficar falando sozinho, não dá ... conclui ele, desistindo desta duas associações após o terceiro chopp. Na Austrália, as chances agora seriam melhores. Se o Huguinho não tivesse voltado para Estrela, poderia associar–se ao genro e à filha do Zé Rücker nas terras do cangurú. São Paulo – a maior cidade nordestina do país, a maior cidade italiana, espanhola e portuguesa do mundo e a maior cidade japonesa fora do Japão – tem tudo para tornar–se a maior cidade estrelense fora do Rio Grande do Sul. O Paulinho Pereira e eu, arremessamos o laço e fundamos a AESP na feijoada do 59 .º aniversário do Toninho Rücker na capital paulista. Já na primeira Assembléia, havia oito estrelenses nativos e mais um tanto de agregados locais. – Muito mais haveremos de somar, dizíamos otimistas uns aos outros, perdendo a conta do número de estrelenses que vivem na megametrópole, mas a Diretoria vem se mandando de volta e talvez comprometa o futuro da Associação. Sabe–se, que o Roque Assmann, Tadeu Rücker, Bianca Tallini, Mano Bentz, Loy Fauth, Adilson Fauth, Migueliro Ruschel, 354


Ateneu Azambuja e outros tantos estrelenses, moram em Floripa, mas ninguém fala em Associação dos ilhéus. Poderiam pelo menos reunir–se para tomar a cerveja artesanal do Stéfano Tallini e nos convidar quando isso acontecesse. – Prost ! A rivalidade entre Estrela e Lajeado perdeu–se no tempo. Hoje, os povos convivem amistosamente, trabalham dos dois lados do rio e casam entre si. O Huguinho, trabalhando e estudando na Univates, já sonha em fundar a AELA – Associação dos Estrelenses de Lajeado. – Será isso, possível ? ESTRANHO NO NINHO Sentir saudade longe de Estrela, é normal. O pior, é sentir–se longe de Estrela, em Estrela – um destrelado na própria cidade ! E isto, acontece com frequencia. O emigrado vem a Estrela e sente–se um estranho no ninho. Não conhece mais ninguém na rua e não tem onde encontrar os antigos conhecidos, fora de suas rotineiras e fechadas panelinhas noturnas. – Não tenho o que fazer em Estrela. No segundo dia, já quero ir embora. Não dá mais vontade de voltar ... dizem muitos. – Que tal um café no Abrigo Bruxel, na Rua da Praia com vista para as águas do rio ? sugiro sonhando, ao solitário destrelado. – É o que está faltando ... um ponto de referencia, uma AEBA – Associação Estrelense dos Barranqueiros – para a gente se encontrar a qualquer hora do dia ... comenta ele, também sonhando.

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OS ÚLTIMOS METROS Enquanto espero o mocotó no Bar do Adão, encontro o Alto da Bronze de pé, no balcão. – Oi Bronze, como vai, tudo bem ? – Tudo bom ... responde ele, sem me reconhecer. – Sou o Cúti, irmão do Naninho ... lembra de mim ? – O Cúti ? – Claro, da casa nova ... – Sim, sim ... ali onde morava a minha mãe ... – Ah, é bom aquele cantinho de vocês ... Se dependesse dele, a conversa terminaria aí, mas bom de papo como sou, o provoco a falar mais: – Ô Bronze, que és alto logo se vê, mas de onde vem o Bronze do teu nome ? – Pois é Cúti, vê como é a vida ... Assim como o ouro do Arroio do Ouro, o rio levou, também perdi o meu bronze, nenhuma pataca restou. Mas, eu não me queixo. Não fico me fazendo de pobre. Mantenho meu nome digno e faço um trabalho nobre ... – Interessante ... além de poesia, o que você faz ? – Modéstia à parte e sem bairrismo, tenho a vida estrelense na mão, todos dependem de mim ... – Como assim ? – Não entendi ... – É simples. Na Maternidade, trago ao mundo a nova vida. No Pronto Socorro, acudo os feridos. No Hospital, curo os enfermos e no Cemitério, dou descanso a quem se vai ... – Caramba ! – A minha vida está em tuas mãos ! – Nasci aqui e talvez ainda volte para cá ... exclamo impressionado. – E o trecho é curto. Da Maternidade ao Cemitério, são só 800 metros – 80 anos de vida. – Mas tem gente que passa dos 80 ... – Claro, a maioria tem pressa e chega antes, alguns dão algumas voltinhas a mais e chegam depois, mas todos vem para os meus braços ... 356


– Olha o mondongo ! interrompe o Adão trazendo o mocotó. – Tchau Bronze ... prazer em vê–lo, tudo de bom ... despeço– me apanhando a quentinha e o trôco. – Tchau, Cúti, a gente se vê por aí ... e vai devagar nos últimos metros ...

FIM

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O AUTOR – Natural de Estrela e Engenheiro Agrônomo formado pela UFRGS. – Extensionista Rural – EMATER – Castro e Ponta Grossa – PR. – Gerente de Vendas Região Sul – Duratex S/A – Rações Anhanguera – Curitiba – PR. – Sócio Diretor – Grupo Perpol / Iguaçú Avicultura – Curitiba – PR. – Gerente de Vendas PR/SC – Purina Alimentos – P. Grossa – PR. – Gerente de Vendas – Purina do Nordeste – Recife – PE. – Gerente de Vendas RS/SC – Purina Alimentos – Canoas – RS. – Sócio Diretor – Alisul Ovos – São Leopoldo – RS. – Gerente de Produtos, Gerente Nacional de Vendas, Diretor Comercial, Diretor de Operações e Presidente – Purina Alimentos – São Paulo – SP. – Sócio Diretor – Prime Tech Climatização – São Paulo – SP. – Agenciador – Projeto de Saneamento Básico – Garopaba – SC. – Consultor de Empresas – Apucarana – PR. – Contador de histórias – Estrela – RS.

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ESTRELLA