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Oh, fala ainda, anjo luminoso! Porque esta noite apareces tão resplandecente sobre minha cabeça como um alado mensageiro celeste, diante dos olhos extáticos e maravilhados dos mortais que se inclinam para trás para contemplá-lo. — William Shakespeare, Romeu e Julieta

Baby, I can see your halo You know you’re my saving grace — Beyoncé, “Halo”


1 A DESCIDA Nossa chegada não saiu exatamente como o planejado. Lembro-me de ainda não ter amanhecido quando pousamos, porque as luzes das ruas estavam acesas. Esperávamos que nossa descida passasse despercebida, e quase passou, a não ser por um garoto de 13 anos que entregava jornais. Vinha de bicicleta com os jornais enrolados como canudos em sacos plásticos. O ar estava enevoado, e o garoto usava uma jaqueta com capuz. Parecia entretido em calcular o ponto exato onde queria jogar cada jornal. Os canudos caíam nas entradas e varandas com um baque, e o garoto sorria todo cheio de si sempre que acertava o alvo. Um terrier Jack Russel latindo atrás de um portão fez com que ele olhasse para cima, alertando-o da nossa chegada. O menino ergueu a cabeça bem a tempo de ver uma coluna de luz branca atravessar as nuvens e deixar três estranhos indivíduos no meio da rua. Apesar da nossa forma humana, algo em nós o assustou — talvez o fato de nossa pele ser luminosa como a lua ou de nossas roupas largas e brancas de viagem estarem esfarrapadas devido à descida turbulenta. Talvez fosse a maneira como olhávamos para nossos braços e pernas, como se não tivéssemos ideia do que fazer com eles, ou o vapor d’água ainda no nosso cabelo. Seja lá o que o tenha assustado, fez o garoto se desequilibrar na bicicleta, dar uma guinada e tombar na calçada. Ele conseguiu se levantar e ficou ali parado por alguns segundos, estarrecido, meio alarmado, meio curioso. Estendemos as mãos para ele simultaneamente, no que esperávamos ser um gesto tranquilizador. Mas esquecemos de como fazer para sorrir. Quando lembramos, já era tarde: enquanto contorcíamos nossas bocas tentando fazer o movimento certo, o garoto se virou e deu no pé. Ter um corpo físico ainda era estranho para nós — havia muitas peças diferentes que precisavam funcionar em sincronia, como uma máquina complexa. Os músculos da minha face e do meu corpo estavam rígidos, minhas pernas tremiam como as de uma criança dando os primeiros passos, e minha vista ainda não havia se adaptado à claridade suave da Terra. Como vínhamos de um lugar de luz resplandecente, as sombras eram novidade para nós. Gabriel se aproximou da bicicleta com a roda dianteira ainda girando e a endireitou. Encostou-a na cerca mais próxima sabendo que o menino voltaria para pegá-la. Imaginei-o irrompendo casa adentro e relatando a história a seus pais estupefatos. A mãe lhe afastaria o cabelo da testa para verificar se ele


tinha febre. O pai, com olhos sonolentos, comentaria sobre as peças que uma mente ociosa é capaz de pregar. Encontramos a rua Byron e fomos andando sobre a calçada irregular procurando o número 15. Nossos sentidos já recebiam estímulos de todos os lados. As cores do mundo eram muito vivas e muito variadas. Tínhamos saído de um mundo branco imaculado para chegar a uma rua que mais parecia a paleta de um artista. Fora a cor, tudo tinha sua própria textura e sua própria forma. O vento roçava em meus dedos e me dava a sensação de ser tão vivo que eu me perguntava se poderia apanhá-lo. Abri a boca e provei o ar tonificante e seco. Eu sentia um cheiro de gasolina e pão queimado misturado com o odor de pinho e o perfume intenso do oceano. A pior parte era o barulho. O vento parecia uivar, e o rugido do mar batendo nos rochedos era um tropel na minha cabeça. Eu ouvia tudo que acontecia a meu redor: a ignição de um carro, uma porta de tela batendo, uma criança chorando, um balanço de varanda rangendo ao vento. — Vocês vão aprender a ignorar os ruídos — disse Gabriel. O som da voz dele me sobressaltou. Em casa, não precisávamos falar para nos comunicar. Descobri que a voz humana de Gabriel era grave e suave. — Quanto tempo vai levar? Contraí-me com o grito estridente de uma gaivota no alto. Podia ouvir minha própria voz, que era melodiosa como uma flauta. — Não muito — respondeu Gabriel. — Fica mais fácil se você deixa de resistir a eles. A rua Byron tinha uma subida que culminava na metade de sua extensão, onde se erguia nossa nova casa. Ivy ficou encantada assim que a viu. — Ih, olhem! — exclamou. — Tem até nome! A casa recebera o nome da rua e tinha uma placa de cobre com “Byron” gravado numa caligrafia elegante. Mais tarde descobriríamos que as ruas adjacentes haviam recebido o nome de outros poetas românticos ingleses: bosque Keats, rua Coleridge, avenida Blake. A Byron seria a nossa casa e o nosso refúgio enquanto estivéssemos na Terra. Era uma casa de arenito coberta de hera com a porta de entrada ao centro, dividindo os dois lados simetricamente. Erguia-se a uma boa distância da rua, atrás de uma cerca de ferro fundido e um portão de duas folhas, e tinha uma fachada georgiana elegante com um caminho de cascalho levando à porta principal descascada. O jardim da frente era dominado por um olmo majestoso envolvido por um emaranhado de hera. Ao longo da


cerca lateral, uma profusão de hortênsias de tom pastel cobertas pela geada matinal. Gostei da casa — parecia ter sido construída para enfrentar qualquer adversidade. — Bethany, me dê a chave — disse Gabriel. Cuidar da chave da casa era a única tarefa que me fora confiada. Tateei os bolsos fundos do meu vestido. — Está aqui em algum lugar — assegurei-lhe. — Por favor, não me diga que já a perdeu. — A gente caiu do céu, sabe? — disse eu, indignada. — É fácil as coisas se perderem. De repente, Ivy deu uma risada. — Você está com ela pendurada no pescoço. Dei um suspiro de alívio ao tirá-la da corrente e entregá-la a Gabriel. Quando entramos no hall, vimos que a casa fora organizada especialmente para nós. Os agentes divinos tinham prestado atenção a cada detalhe e não haviam poupado despesas. Tudo na casa era favorável à luz. Os pés-direitos eram altos, as salas, arejadas. Saindo do hall central, havia uma sala de música à esquerda e uma sala de estar à direita. Mais adiante, um estúdio dava para um pátio pavimentado. Os fundos eram um acréscimo modernizado e consistia em uma ampla cozinha em mármore e aço inoxidável que se estendia até um grande gabinete com tapetes persas e sofás rechonchudos. Portas dobráveis davam para um vasto deque de pau-rosa. No andar de cima ficavam os quartos e o banheiro principal, com bancadas de mármore e uma banheira embutida. Enquanto andávamos pela casa, o assoalho de madeira rangia como se nos desse as boas-vindas. Começou a chuviscar, e o tamborilar da chuva no telhado de ardósia soava como dedos nas teclas de um piano. PASSAMOS AQUELAS HIBERNANDO e nos orientando.

PRIMEIRAS

SEMANAS

Fizemos um balanço dos acontecimentos, esperamos pacientemente enquanto nos adaptávamos a nossa forma física, e mergulhamos nos rituais da vida cotidiana. Havia muito que aprender e certamente não seria fácil. A princípio, dávamos um passo e ficávamos surpresos de estar pisando em terra firme. Sabíamos que tudo na terra era constituído de moléculas agrupadas para formar diferentes substâncias: ar, rocha, madeira, animais. Mas a experiência era algo muito diferente.


Barreiras físicas nos rodeavam. Tínhamos que contorná-las e tentar evitar a consequente sensação de claustrofobia. Toda vez que pegava um objeto, eu parava para me maravilhar com sua função. A vida humana era tão complicada que havia aparelhos para ferver água, tomadas de parede que canalizavam correntes elétricas e todo tipo de utensílios domésticos na cozinha e no banheiro planejados para poupar tempo e proporcionar mais conforto. Tudo tinha uma textura própria, um cheiro próprio — era como um circo para os sentidos. Eu via que Ivy e Gabriel queriam bloquear tudo e voltar ao silêncio estático, mas eu desfrutava cada momento, ainda que fosse sufocante. Algumas noites, recebíamos a visita de um mentor de vestes brancas e sem rosto que simplesmente aparecia sentado numa poltrona na sala de estar. Sua identidade nunca foi revelada, embora soubéssemos que ele agia como mensageiro entre os anjos na Terra e os poderes no Céu. Em geral se seguia um momento em que podíamos discutir os desafios da encarnação e obter respostas para nossas perguntas. — O proprietário solicitou documentos relativos à nossa residência anterior — disse Ivy em nossa primeira reunião. — Pedimos desculpas pelo descuido. Considerem isso resolvido — respondeu o mentor. Sua face ficava encoberta, mas, quando ele falava, dava para ver pequenas baforadas de névoa vindo de baixo de seu capuz. — Dentro de quanto tempo se espera que possamos entender completamente nossos corpos? — quis saber Gabriel. — Depende — respondeu o mentor. — Não mais do que algumas semanas, a menos que resistam à mudança. — Como os outros emissários estão se saindo? — indagou Ivy, preocupada. — Uns estão se adaptando à vida humana, como vocês, e outros foram lançados direto à batalha — respondeu o mentor. — Há alguns recantos da Terra infestados de agentes das trevas. — Por que pasta de dente me dá dor de cabeça? — perguntei. Meus irmãos me lançaram olhares repreensivos, mas o mentor ficou impassível. — A pasta de dente contém ingredientes químicos fortes para matar bactérias — disse. — Espere uma semana, as dores de cabeça passarão. Terminadas as conversas com o mentor, Gabriel e Ivy sempre ficavam discutindo algum assunto particular, e eu me perguntava o que tinham para dizer que eu não podia ouvir. O primeiro grande desafio foi cuidar dos nossos corpos.


Eles eram frágeis. Precisavam ser nutridos e protegidos dos elementos — o meu mais do que o dos meus irmãos, porque eu era jovem; era minha primeira visita e eu não tivera tempo de desenvolver qualquer resistência. Gabriel era um guerreiro desde a aurora dos tempos, e Ivy era abençoada com poderes de cura. Eu, por outro lado, era muito mais vulnerável. Nas primeiras vezes que me aventurei a sair para passear, voltei tremendo de frio, percebendo que não estava vestida adequadamente. Gabriel e Ivy não sentiam frio, mas seus corpos ainda assim precisavam de manutenção. Nós nos perguntávamos por que nos sentíamos fracos ao meio-dia, e então percebemos que nossos corpos necessitavam de refeições regulares. A preparação da comida era uma tarefa tediosa, e, por fim, nosso irmão, Gabriel, ofereceu-se magnanimamente para se encarregar dela. Havia uma vasta coleção de livros de culinária na biblioteca da casa, e ele adquiriu o hábito de mergulhar neles à noite. Procurávamos ter o mínimo de contato humano. Fazíamos compras depois do horário convencional em Kingston, uma cidade maior e vizinha à nossa, e não atendíamos à porta nem ao telefone, se este por acaso tocasse. Fazíamos longas caminhadas em horas em que os humanos estavam ocupados dentro de casa. Às vezes íamos à cidade e sentávamos juntos em cafés com mesas na calçada para observar os passantes, tentando parecer absortos na companhia uns dos outros a fim de não chamar atenção. A única pessoa a quem nos apresentamos foi o padre Mel, que era o pároco da Saint Mark, uma capela de arenito azulado à beira-mar. — Minha nossa — disse ele quando nos viu. — Vocês finalmente vieram. Gostávamos do padre Mel porque ele não fazia perguntas nem exigia nada de nós; simplesmente juntava-se a nós nas orações. Torcíamos para que, com o tempo, graças à nossa influência sutil sobre a cidade, as pessoas se voltassem para a própria espiritualidade. Não esperávamos que elas prestassem atenção aos preceitos e fossem à igreja todos os domingos, mas queríamos recuperar sua fé e ensiná-las a acreditar em milagres. Mesmo se elas passassem na igreja a caminho do supermercado e apenas acendessem uma vela, ficaríamos felizes. Venus Cove era uma sonolenta cidade praiana, o tipo de lugar onde nada mudava. Gostávamos do sossego e adquirimos o hábito de caminhar junto ao mar, em geral na hora do jantar, quando a praia estava quase sempre deserta. Certa noite, fomos ao píer ver os barcos ancorados. Eles eram tão coloridos que pareciam barcos de cartão -postal. Chegamos ao fim do píer e só então notamos o garoto solitário sentado lá. Ele não poderia ter mais de 17 anos, mas era possível enxergar nele o homem que


um dia se tornaria. Usava bermudas cargo até os joelhos e uma camiseta branca larga com as mangas cortadas. Suas pernas musculosas pendiam da beirada do píer. Ele pescava e tinha uma sacola de tela cheia de iscas e molinetes sortidos ao lado. Paramos de súbito assim que o avistamos e teríamos dado meia-volta, se ele já não nos tivesse visto. — Oi — disse ele com um sorriso aberto. — Noite gostosa para passear. Meus irmãos só concordaram com a cabeça e não se mexeram. Achei indelicado não responder e dei um passo à frente. — É mesmo — disse eu. Acho que este foi o primeiro sinal da minha fraqueza: deixei-me levar por minha curiosidade terrena. Deveríamos interagir com os humanos, mas nunca fazer amizade com eles nem acolhêlos em nossas vidas. Eu já estava desrespeitando as regras da nossa missão. Sabia que deveria ficar calada, afastar-me, mas, em vez disso, apontei para os molinetes do garoto. — Teve alguma sorte? — Faço isso por diversão — disse ele, virando um balde para eu ver que estava vazio. — Quando pesco algum peixe, devolvo-o ao mar. Dei outro passo à frente para olhar mais de perto. Seu cabelo castanho-claro era da cor da noz. Cobria-lhe as sobrancelhas e era luzidio sob aquela luz mortiça. Seus olhos tinham o formato de amêndoas e eram de um tom de azul-turquesa impressionante. Seu sorriso era absolutamente hipnotizador. Então era assim que se fazia, pensei; sem nenhum esforço, instintivamente, e de modo absolutamente humano. Enquanto olhava, sentia-me atraída por ele, quase que por uma força magnética. Ignorando o olhar repreensivo de Ivy, dei outro passo adiante. — Quer tentar? — perguntou ele, percebendo minha curiosidade e me estendendo a vara de pescar. Enquanto me esforçava para pensar numa resposta adequada, Gabriel se antecipou e respondeu por mim. — Agora vamos, Bethany. Temos que ir para casa. Reparei quão formal era o discurso de Gabriel em comparação à do garoto. As palavras de Gabriel soavam ensaiadas, como se ele estivesse atuando numa peça teatral. Provavelmente era assim que se sentia. Parecia um personagem de um dos filmes antigos de Hollywood a que eu assistira como parte da nossa pesquisa. — Deixa para a próxima, então — disse o garoto, percebendo a tensão de Gabriel. Vi como os cantos dos olhos dele franziram ligeiramente quando


ele sorriu. Algo na expressão dele me fez pensar que ele estivesse caçoando da gente. Afastei-me meio a contragosto. — Foi muita grosseria da sua parte — disse eu ao meu irmão, quando já não podíamos ser ouvidos. Fiquei surpresa com minhas próprias palavras. Desde quando um anjo temia dar a impressão de ser ligeiramente arredio? Desde quando eu confundira o jeito distante de Gabriel com indelicadeza? Ele fora criado daquela maneira, não se sentia em sintonia com a humanidade, não entendia o jeito dos homens. Ainda assim, eu o recriminava por lhe faltarem características humanas. — Temos que ter cuidado, Bethany — explicou ele, como se falasse com uma filha travessa. — Gabriel está certo — acrescentou Ivy, a aliada com quem nosso irmão podia contar sempre. — Ainda não estamos prontos para ter contato com os humanos. — Eu acho que estou — discordei. Virei-me para olhar pela última vez para o garoto. Ele continuava nos observando e sorrindo.


Halo 1cap