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Prezados leitores, é com muito prazer que lhes apresento o “Entrevista em Foco”, uma seção do “Herpeto em Foco” com o intuito de realizar entrevistas com alguns dos profissionais mais influentes da nossa área. Para a nossa primeira edição fizemos algo especial. Vocês lembram-se das perguntas enviadas para a nossa página no Facebook? Algumas delas foram enviadas para o nosso primeiro convidado, o Herpetólogo Paulo Sérgio Bernarde, que as respondeu prontamente. A seguir temos a entrevista na íntegra, e vocês poderão conhecer um pouco mais da história dele, que é um dos grandes nomes da Herpetologia no Brasil. Aproveitem ao máximo!


Herpeto em Foco Paulo, de onde e quando surgiu o interesse pela herpetologia? Paulo Bernarde Começou no início de 1992, quando comecei a identificar espécimes fixados da coleção da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e a coletar naquela região e em Guararapes (SP). Comecei a correr chaves taxonômicas e a ler artigos sobre esses animais, o que me despertou grande interesse em estudar mais e desenvolver pesquisas com eles. Logo Reginaldo Machado começou a estudar esses animais junto comigo e começamos a aprender sobre esse ramo. Thaynara Mendes Quais foram os principais desafios que enfrentou para poder ser realmente respeitado e renomado pela sua profissão? Paulo Bernarde Inicialmente era a falta de um herpetólogo para me orientar na graduação. A falta de um especialista na área na UEL foi um desafio, mas tive uma ajuda e tanto de alguém que sanava pacientemente minhas dúvidas, que foi o Júlio César de Moura Leite, do Museu de História Natural do Capão da Imbuia, e agora também Professor da PUC de Curitiba. Não tive bolsa científica na graduação, fazia meus estudos frequentando a Sala de Coleções da UEL, onde tive o apoio de professores Professor Oscar Shibatta e a Professora Ângela Teresa Silva e Souza, que facilitavam o acesso a esse laboratório e elucidavam dúvidas mais gerais sobre zoologia. Após a graduação, não consegui passar nas primeiras seleções para o mestrado, mas isso não me fez desistir. Estudei e passei para a UFPR (Universidade Federal do Paraná), e meu orientador também era de outra área, o Dr. Luiz dos Anjos, especialista em aves. No doutorado também não foi diferente, não passei nas primeiras seleções. Ministrei aulas em colégios de Curitiba durante um ano, para me manter e tentar o doutorado novamente, quando então passei na UNESP de Rio Claro, com a orientação do Dr. Augusto Abe. Desde criança (cinco anos de idade!) queria ser biólogo e zoólogo, e a Amazônia me atraía. Por isso fui para Rondônia fazer minha pesquisa de doutorado e passei a dar aulas em faculdades particulares, até que passei no concurso para Professor da UFAC (Universidade Federal do Acre), Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. Cruzeiro do Sul está localizado no Alto Juruá, uma região considerada de alta biodiversidade. Alanna Medeiros Tudo que você sabe hoje fluiu naturalmente ou foi mais difícil do que aparenta? Paulo Bernarde Então, aos sete anos de idade sabia nomes científicos de vários animais e a classificação do Reino Animalia. Nunca tive dificuldades com os nomes e a leitura assídua e contínua de artigos e livros e a experiência fazem com que tudo flua naturalmente, e vamos aprendendo todo o dia.


Amanda Diniz O caminho até a consagração como herpetólogo foi muito duro? O que o fez não desistir de seguir esse caminho? Paulo Bernarde O que nunca me fez desistir foi a determinação. Praticamente tudo é possível, e você pode fazer coisas (como estudar!) para aumentar a probabilidade de conseguir se dar bem nas provas e concursos. No caminho, todos nós encontraremos dificuldades como não passar em concursos, dificuldades financeiras e outras coisas, o importante é não deixar que as frustrações (que são passageiras!) mudem seus objetivos. O que alimenta essa determinação é a paixão por poder estudar esses animais. Isso ninguém pode tirar da gente. Quando criança queria ser biólogo e mesmo aos 17 anos, quando fui fazer o vestibular, esperava ser um professor de biologia em colégio, e seria muito feliz por poder ensinar sobre essa Ciência. Não esperava um dia ser doutor, professor de uma universidade federal, dar cursos e palestras e muito menos publicar um livro (“Anfíbios e Répteis – Introdução ao estudo da herpetofauna brasileira”, meu primeiro livro, que logo será lançado. Espero poder contribuir tanto para os iniciantes como os mais experientes), e esses frutos, conquistas e realizações, vão acontecendo de forma inerente aos nossos esforços. Herpeto em Foco Você é nascido no interior de São Paulo, fez a graduação e mestrado no Paraná sendo que o campo de estudo na graduação foi em Rondônia. Como foi manter a pesquisa sem tirar o foco nas disciplinas regulares do curso? Paulo Bernarde Nas férias de janeiro-fevereiro e em julho, eu viajava para Rondônia e ficava na Fazenda Jaburi coletando espécimes, assim não atrapalhava o ano letivo. Ou seja, não parava nas férias, meu sonho era fazer pesquisas na Amazônia com anfíbios e répteis e dei o início a isso com meu TCC. Raphael Magno Qual a importância da herpetologia nos estudos ambientais como a preservação e estudo de impactos ambientais? Paulo Bernarde Hoje se fala muito de anfíbios como bioindicadores, e temos várias espécies consideradas estenóicas, que dependem de certas particularidades do ambiente para manter suas populações. Por outro lado, temos espécies consideradas eurióicas, cuja presença significa que o ambiente sofreu certa perturbação. Quando se fala em estudos ambientais em unidades de conservação, como um Plano de Manejo, é preciso ter uma ideia da riqueza do grupo, grau de endemismo (espécies que só existem ali!), presença de espécies ameaçadas de extinção (tanto na lista nacional como nas estaduais) e espécies com populações sofrendo impactos devido à caça e coleta (como crocodilianos e quelônios). Por isso, em estudos ambientais, o mais importante não é obter uma lista do que tem lá e sim entender o que significa a presença de cada espécie da lista.


Adailes Florence Mesmo sendo um profissional e amante do que faz, o medo está presente quanto ao manejo de animais peçonhentos? Se estiver, ele atrapalha ou ajuda a manter a cautela? No começo teve dificuldades em controlar esse medo? Paulo Bernarde É bom e necessário ter respeito e cuidado com esses animais. Medo demais atrapalharia um herpetólogo que trabalhasse com serpentes na natureza (risos). Creio que a maioria de nós cresceu ouvindo coisas absurdas sobre cobras, sobre a grande distância dos botes delas, que se picasse uma pessoa ela morreria, de como elas são animais perigosos... No começo então tinha certo receio, até que as primeiras experiências mostraram que não era nada daquilo que me contaram. Quem conhece esses animais sabe como eles realmente são. Aproximadamente 150 pessoas morrem anualmente picadas por cobras no Brasil, número bem inferior aos 40 mil mortos por homicídios. As cobras peçonhentas fogem ou se enrolam, dando o bote e picando quando pisamos ou nos aproximamos delas. Portanto, as serpentes são animais tranqüilos. Fico um pouco tenso quando estou em florestas que para se deslocar em caso de acidente terei que viajar mais de 4 horas de barco, às vezes 20 horas. Nesses casos sim, todo cuidado é pouco para não sermos picados nas florestas durante a noite, quando procuramos as serpentes. Letícia Versiani Já teve medo de acidente ofídico? Ou a cautela é sempre maior? Paulo Bernarde Sempre tomei cuidado. Só fico preocupado com meus orientados quando estamos na floresta, penso que seja antes eu do que eles. E como disse anteriormente, tem situações que estou em expedições que temos certas dificuldades como a total falta de comunicação em caso de acidente e dificuldades de ir para a cidade (depender de radioamador para chamar um pequeno avião, não poder trafegar de noite com barco, horas ou mais de dias distante do socorro). Isabela Pereira Qual a maior dificuldade que já enfrentou no campo? Paulo Bernarde Por incrível que pareça o que considero maior dificuldade são insetos (risos). Uma vez ficamos quatro dias em uma localidade (Igapó-Açu) no Amazonas aguardando um hidroavião, e lá tinha pessoas com malária. Outra vez um helicóptero nos deixou em um afloramento rochoso cercado por floresta durante 24 horas e tinham muitas abelhas-europas que não paravam de voar envolta da gente, e eu que levei menos picadas tomei umas 15. Já me perdi temporariamente em florestas, mas sempre consegui sair.


Uma vez a trilha passava por uma área com muitas palmeiras e veio uma forte tempestade que derrubou várias delas, e de noite as coisas mudam também. Foi difícil, mas saímos de lá no final da noite. De noite viajando de barco, o mesmo colidiu com uma rocha e outra vez em tronco, o que assustou muito, mas nada grave. No livro que estou lançando tem um capítulo somente sobre Cuidados no campo, dando dicas de segurança para os biólogos de campo. Herpeto em Foco Sucuri, Surucucu ou Poraquê? Qual destes mais amedronta na Amazônia? Paulo Bernarde Dentro desses três, seria uma grande sucuri dentro d’água, especialmente quando estou com água no pescoço em lagos de noite atrás de anfíbios. O poraquê (Já tive alunos e conhecidos que levaram choque!) é só um choque e susto (risos). A surucucu (Lachesis muta) é uma cobra super mansa e tranqüila, lógico que não se deve manuseá-la, e pelo tamanho grande dela é difícil de não ser vista na trilha. Mas o que mais me preocupa de noite nos lagos e rios é o jacaré-açu (Melanosuchus niger), que pode chegar ter mais de 4 metros de comprimento. Mas ataques desses animais (jacarés e sucuris) são raros, só que mesmo assim estando no mesmo ambiente e horário de atividade deles a coisa é meio tensa (risos). Rodrigo Brasil Qual animal que ainda não encontrou gostaria de ver? Paulo Bernarde Boa pergunta! Eu tenho uma lista do que queria encontrar (risos). Encontrei a maioria da lista, faltam ainda as serpentes Bothriopsis taeniata, Micrurus albicinctus e Leptomicrurus narducci. Herpeto em Foco Tem algum inspirador ou um grande colaborador na área por quem nutre grande respeito e carinho? Paulo Bernarde Tenho vários que me inspiraram através de suas pesquisas e aprecio muito a leitura dos artigos, livros e teses deles: Em especial Otávio Marques, Márcio Martins, Christine Strüssmann, Ivan Sazima e Célio Haddad. Outros que li muito no início e que também aprecio suas pesquisas e a forma como escrevem são Thales de Lema, Osvaldo Rodrigues Cunha, Francisco Paiva do Nascimento e Paulo Vanzolini. Estrangeiros são Janalee Caldwell, Laurie Vitt e Harry Greene. Mas apesar dessa lista, muitos ficaram de fora, seria muito extensa. Quem eu consultava muito e ainda tiro dúvidas são o Júlio César de Moura Leite, Sérgio Morato e Renato Bérnils. Quanto a colaboradores tem meus amigos e parceiros de pesquisa como Reginaldo Machado, Luiz Carlos Turci, Saymon de Albuquerque e Marcelo Kokubum.


Herpeto em Foco Qual a situação mais engraçada que vivenciou no campo? Paulo Bernarde Uma vez, acordando em um tapiri (tipo uma cabana sem paredes), na floresta do Liberdade, vi nosso barqueiro “Petelti” correndo atrás de um animal (Pensei que era um macaco) com a câmera para fotografá-lo. Dentre poucos instantes vejo o Petelti correndo para o tapiri com o animal correndo atrás dele. Tratavase de um Jupará (Potos flavus). O Petelti subiu em cima de um banco e o bicho entrou no tapiri nervoso, mostrando os dentes e as garras. Naquela semana tinha dado aula sobre Raiva e Mamíferos para Enfermagem e pensei que aquele animal estava com o vírus da Raiva. Falei para pegarem o animal com o pinção e colocarem pra fora do tapiri. Com isso ele foi embora. Aí que lembrei que tinha recebido um e-mail naquela semana de alguém pedindo fotos dessa espécie para um livro sobre mamíferos... Peguei minha câmera e fui atrás do bicho que sumiu na floresta. André Luís Quer sair pra tomar uma cerveja e conversar sobre um futuro estágio? Paulo Bernarde (Risos, muito risos) Boa! Terei que abrir um programa para receber estagiários aqui, são muitos os interessados e não estou tendo condições de atender aos meus orientados bolsistas PIBIC. Herpeto em Foco Paulo, que dica você daria para os nossos leitores? Paulo Bernarde Muita leitura, ir pra campo, ver bichos em criadouros, ver espécimes fixados em coleções, trocar muitas ideias com especialistas, determinação e garra naquilo que querem ser, não se deixem por vencido pelos obstáculos e decepções que podemos encontrar no caminho.


E esse foi o primeiro “Entrevista em Foco”. Esperamos que tenham gostado! Agradecemos imensamente ao Professor Paulo pela contribuição com o Herpeto em Foco ao aceitar participar dessa entrevista, e aos leitores que enviaram perguntas. Você pode conhecer um pouco mais do trabalho dele acessando o seguinte endereço: Herpetofauna - http://www.herpetofauna.com.br/ Continue participando! Visite a nossa página e envie suas sugestões! Herpeto em Foco - http://www.facebook.com/herpetologia

O “Entrevista em Foco” foi pensado e desenvolvido por: Henrique Nogueira – herpeto.nogueira@hotmail.com Carlos Alberto – herpeto.junior@gmail.com

Entrevista em Foco - Dr. Paulo Sérigo Bernarde  

O Entrevista em Foco é parte do Herpeto em Foco - facebook.com/herpetologia

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