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REVISTA CARTAS RURAIS

Salvem as onças do Vale do Aço

Para viver perto do Parque Rio Doce é preciso respeitar e aprender a conviver com vizinhos como onças-pintadas. Por Hermes Quintão Editor Revista Cartas Rurais No domingo, primeiro de setembro de 2013, o principal assunto dos órgãos de imprensa da Região Metropolitana do Vale do Aço foi a vinda, no sábado anterior, do governador de Minas Gerais , Antônio Anastasia (PSDB), ao distrito de Cava Grande, em Marliéria, para autorizar o início das obras de asfaltamento da lendária MG-760, que há mais de 40 anos vem sendo prometida pelos sucessivos governos estaduais. Como toda ação provoca uma reação, especialmente

no campo político quando se aproximam as eleições gerais de 2014, é provável que dentro de algum tempo, Brasília também envie a presidente Dilma Roussef ou algum petista estrelado ao Vale do Aço, para anunciar a duplicação de outra rodovia, essa de responsabilidade do governo federal e com a péssima reputação de estrada da morte: a BR-381. Feitas essas considerações, chegou a hora de explicar o título do artigo, “Salvem as onças do Vale do Aço”, cuja existência está ameaçada, na medida em que as rodovias colocam em risco o pouco do habitat natural que resta para eles e para os próprios seres humanos: o Parque Estadual do Rio Doce. A verdade é que as obras prometidas pelos governos do PT e do PSDB reduzirão o isolamento rodoviário da Região Metropolitana do Vale do Aço. Um fator decisivo para o surgimento de novos núcleos habitacionais, além do desenvolvimento das comunidades já existentes nas áreas rurais. Tal fenômeno sócio-demográfico já vem acontecendo há alguns anos na região e agora que o asfalto finalmente parece ter chegado à MG-760, facilitando a locomoção dos moradores, a ocupação das áreas rurais do entorno regional vem se intensificando. Prova disso é o surgimento de milhares de chácaras, condomínios rurais, além de sítios de turismo, lazer ou produção em antigas fazendas de eucalipto que foram desativadas por grandes empresas regionais. É o caso, por exemplo, da Acesita Energética que está priorizando a produção de carvão vegetal no Norte de Minas para abastecer os altos-fornos da usina de Timóteo. Por essa razão, a empresa se desfez de centenas de hectares


Respeito e ordem

ìndios que viviam na região e foram exterminados por nossos ancestrais; de terras localizadas no distrito de Cava Grande, em Marliéria, que foram vendidas a particulares e divididas em lotes menores. Gradativamente, esses pedaços de ‘chão de aço’ vão sendo colonizado por milhares de cidadãos anônimos que estão realizando o sonho de voltarem para a "roça", ainda que mantenham a comodidade e o estilo de vida de continuarem morando, trabalhando ou mantendo relações sociais e de consumo nas cidades de origem. Tal fenômeno é legítimo e até positivo. Afinal, quase todo brasileiro tem raízes rurais e, portanto, o direito de viver mais próximo da natureza, assim como viviam seus pais, avós, bisavós. Entretanto, esse novo processo de colonização deve ser feito de forma ordenada e com acompanhamento rigoroso por parte das autoridades competentes afim de evitar que se cometam os mesmos erros e massacres do passado.

Se cada um dos 470 mil moradores da Região Metropolitana do Vale do Aço comprasse um lote de 1000 metros quadrados no entorno regional, seriam necessários nada menos que 47 mil hectares de terras, o equivalente a 47 mil estádios como o Mineirão, para acomodar tanta gente. Felizmente, não é todo mundo que sonha em viver na roça, ter uma casinha branca de varada, um pomar e algumas galinhas ciscando alegres no quintal, sem se darem conta de que mais cedo ou mais tarde vão parar na panela. Esses 47 mil hectares são terra demais. Para efeito de comparação, o Parque Estadual do Rio Doce que permeia a região com toda sua exuberância de matas verdes e virgens tem apenas 36 mil hectares. Portanto, desfrutar das comodidades da vida no campo é um direito dos cidadãos, mas assim como todo direito, esse pressupõe deveres, responsabilidades, manejo correto e adequado para se causar o menor impacto possível à natureza. De outro modo, se estará colocando em risco de extinção toda a rica biodiversidade do Parque Estadual do Rio Doce, que seguramente é o ‘grande pulmão’ que ajuda a despoluir o ar carregado de partículas industriais do Vale do Aço graças aos 36.970 hectares de matas nativas existentes na unidade de conservação. O local é um verdadeiro santuário ecológico, onde é possível encontrar espécies ameaçadas de extinção como o macaco mono-carvoeiro, considerado o maior primata das Américas, além de uma importante população de onças-pintadas.


Revista Cartas Rurais Vale do Aço