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natureza

cultura

modos de vida


unesp bauru 2008

Base primitiva revisitada


dedicatória ‘AOS AMORES E AMANTES DE DIFERENTES MODOS DE VIDA, EM ESPECIAL AOS NÔMADES’


Aos Amigos, Norma Constantino, Vera Maria Junqueira Villela, professoras que contribuíram para minha formação pessoal e acadêmica, Maria Carolina Lohmann, César Gugu da Costa, Juliana Okumura, pelo tempo de trabalho no Espiralando Bioarquitetura, Instituto Ambiental Vidágua, a todos os grupos e pessoas que ao longo dos anos tive contato, ao TIBÁ e Johan van Lengen pelas suas histórias contadas a mim, à Egrégora da Bioarquitetura e da Permacultura, aos Povos do passado, do Brasil e do mundo, aos Nômades, à Arquitetura Transcultural que sempre me inspirou, às Culturas locais para que guardem a riqueza da diversidade das matas e dos homens, à Natureza e a meus pais e antepassados pela Vida dada. Pelos amores de ontem e de hoje, pela construção de meu próprio mundo subjetivo. Aos amigos da vida íntima, Denise, Cauê, Nô, Tico, Rubão, Leninha e apoio de sua família, Ju minha mana, Gala e Cris, antropológicas, Bob filosófica, Mari ‘pessecóloga’, Dani, Natasha, Laura, Eli Ingá, Aline Xu, Caru, Rani, Fabiano Filardo pelo Yôga e galera da arquitetura UNESP Bauru. Enfim, pelas minhas próprias crenças e ciganices, que se perpetuem enquanto quiserem.

agradecimentos


Orientadora Norma Constantino

Orientadora Vera Maria Villela

Arquiteto convidado Cé César Gugu Costa

banca relacionada Graduando Ana Carolina da Costa Moraes Arquitetura e Urbanismo UNESP Bauru 2008

Com gratidão e sinceridade, se conclui este projeto, junto aos presentes amigos


Existe profundo no sonho Uma floresta futurista Deuses astronautas, em plena nudez Existe a terra, o fogo, água e o ar Longe existem chances para o meu amor

Na existência dos profundos Uma floresta primitiva Colônias da Terra, colônias do cé céu Existe a terra, o fogo, água e o ar Longe existem transes para o meu amor

Colônias da Terra, colônias do cé céu Existe a terra, o fogo, água e o ar Longe existem transes para o meu amor

Base Primitiva Revisitada Júpiter Maç Maçã

epígrafe


A idéia deste trabalho nasceu por uma necessidade de entender valores pessoais que estavam sendo passados há um tempo através de meus trabalhos na arquitetura. Desde o final do primeiro ano de faculdade, quando nos pediram para projetar a primeira casa, eu sem muitas idéias de fazer um projeto, comecei a pesquisar na internet e encontrei um site que falava de uma “casa autônoma”. Essa idéia de autonomia logo me encantou e o próprio desenho da casa que era peculiar e sem muitas divisões internas. Eu compilei esta idéia para o meu projeto, fiz uma casa sobre uma plataforma de madeira no terreno, justificando a necessidade de se manter a originalidade do local, entre outros conceitos como construção da casa com materiais reaproveitados (que dava singularidade pelo ar de retalhos e bricolagem), orientação solar e de ventos ideal, aproveitamento da água da chuva, relação com o entorno, local, uso de vegetação típica, etc. Depois de reverberar essa idéia, começaram a aparecer muitas coisas outras, como foi meu envolvimento com a ONG Vidágua – Bauru –SP que tem por objetivo desenvolver programas ambientais. Quando os conheci, havia a idéia de se formar um grupo para a construção de um bosque na sede do Instituto, com técnicas ecológicas de construção. Foi neste momento que tive contato com 2 (dois) arquitetos recém-formados na UNESP-Bauru, Juliana e Gugu, que já há um tempo estavam no caminho de desenvolver trabalhos comunitários junto a um assentamento rural do MST, incluindo as técnicas ecológicas de construção. Então, eu e mais uma amiga (Maria Carolina Lohmann) que já havia abraçado a causa da bioconstrução, começamos a nos prontificar ao trabalho dos arquitetos e a conhecer cada vez mais o universo da bioarquitetura nos trabalhos que víamos de grupos do mundo todo. Foi inspirador adentrar esse universo, afinal foi este que me abriu as portas para eu estar onde estou hoje, no momento de minha graduação final. Se não fossem por estes fatos, eu poderia estar em qualquer lugar, menos na bioarquitetura, já que desde o final do primeiro ano sofria com a idéia de permanecer na faculdade de arquitetura.

Dentre tantas situações que nem podem ser descritas, após 6 (seis) anos desde o momento de meu ingresso na faculdade, posso dizer que este foi o caminho (talvez o único) que me fez persistir na idéia de querer algo com arquitetura: os trabalhos participativos, as oficinas de bioconstrução, os jardins, as hortas, o trabalho com diversos grupos, crianças, jovens, adultos, enfim, a satisfação de poder integrar trabalho intelectual e manual, o pensar e realizar, e tornar isso algo simples esatisfatório, não só para mim mas para todos no processo. Assim, neste momento de finalização de ciclo, não poderia deixar de buscar raízes (antropologia, ecologia, transcultural) para questionar e reestruturar os valores que nortearam meus trabalhos durante estes anos, como um mergulho profundo às razões do Ser.

prefácio

Ser que vai além de Ser arquiteta, ou Ser bióloga, ou Ser qualquer disciplina que possa me interessar, mas um Ser que aceita suas múltiplas identidades e escolhas e a transformação destas, no eterno ‘Vir-a-Ser’.


Este trabalho visa fomentar a discussão acerca de diferentes maneiras de se viver e se relacionar com a Natureza. Para isso, constrói-se um pensamento ecossistêmico em torno dos conceitos de: Cultura, Natureza e Modos de vida, de forma a demonstrar que todos se inter-relacionam e se influenciam em cadeia circular e não-linear. Da mesma forma como a natureza é permeada por este conceito, vemos que o pensamento ecossistêmico pode ser uma nova forma de assimilação e construção do conhecimento, nos oferecendo abordagens mais completas e profundas, de micro a macro escala. Mesmo que, no primeiro momento possa parecer genérico, devemos entender que o homem em sua história natural nunca esteve tão “especializado” em seu conhecimento quanto agora. Por isso, a atuação em visões abrangentes que levem a aberturas conceituais e a diferentes áreas devem ser incentivadas, com o fim de promover a consciência crítica e fecunda das relações criadas no dia-a-dia. Para tanto, no Capí Capítulo 1 Cultura, Cultura estuda-se sobre as influências do conhecimento de sociedades primitivas e vernaculares, assim como sobre as formações sociais que se sucederam a partir delas, em especial a do Brasil, como contexto mais próximo a ser entendido, descobrindo de onde provêm algumas formas de se habitar e entender o espaç espa ço, sua natureza e os modos de vida, seja por hábitos construídos historicamente por um povo ou pela síntese da interpenetração de culturas de povos milenares, visto que o Brasil contemporâneo é representante desta última. Tomando por base ainda a Cultura, procura-se saber até que ponto estamos preparados para lidar com uma real transformação de nosso modo de vida atual, seja com o intuito de se restaurar uma aproxima aproximaç ção no contato com a terra ou mesmo mudar paradigmas de habitar, consumir e degradar os meios naturais, usando o conhecimento histórico para descobrir as influências positivas ou negativas dos hábitos culturais que se criou em nosso contexto.

resumo


No Capí Capítulo 2 Natureza, Natureza busca-se significar a natureza, tanto para nossa cultura atual como para os povos do passado, na passagem de uma cultura de caçadores nômades para uma de agricultores, por vezes sedentarizados. Ainda neste capítulo, mostra-se como a visão de mundo se transformou e no último século fez crescer por necessidade um novo movimento “planetário” para mudança de paradigmas sobre a natureza, culminando no nascimento influente do ambientalismo e de conceitos como a Ecologia Profunda e a Permacultura, também detalhadas e relacionadas neste capítulo. No Capí Capítulo 3 Modos de vida: As comunidades, comunidades pretende-se levantar, discutir e questionar diferentes modos de vida como reflexos criados pela relação próxima de natureza natureza-cultura.. Alguns destes ainda existem e persistem em sua sobrevivência por motivos diversos, como as comunidades primitivas e comunidades tradicionais, outros estão em emersão, com modos propositais de gerar comunidades, como no caso das ecovilas. Estas comunidades se mostram “à margem de um padrão global ocidentalizado”, diferentes tanto nas questões de cultura material (vestir, morar, construir, plantar, comer, trabalhar) quanto de cultura não-material (mitos, ritos, símbolos) que cultivam e desta forma, promovem uma interessante discussão sobre as formas de relacionar: natureza, cultura e modos de vida. Por fim, no Capí Capítulo 4 Aç Ações Só Sóciocio-Ambientais, Ambientais descreve-se alguns exemplos de ações sócioambientais, com o intuito de demonstrar que o potencial gerador de diferentes modos de vida pode ser promovido em qualquer ambiente, mesmo fora de “comunidades”. Inclui-se vivências pessoais da autora a fim de incentivar o crescimento de experiências fecundas e inovadoras no desenvolvimento da ecologia humana.

Palavrasalavras-chave: comunidades, ecovilas, ações sócio-ambientais, ecologia, permacultura, natureza, modos de vida, arquitetura primitiva, bioarquitetura, diversidade cultural, Brasil.


Introduç Introdução

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Capí Capítulo 1 – A Cultura

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Cultura cultivada versus cultura transplantada Os Brasis: Brasil Caipira, Caboclo e Crioulo Lições do passado: tecnologia local e expressão singular Arquitetura primitiva e arquitetura vernacular A nova síntese Capí Capítulo 2 – A Natureza

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O significado da Natureza e Agricultura dos povos O Movimento ecológico Permacultura e Natureza Capí Capítulo 3 – Modos de vida: As Comunidades

42

A palavra Comunidade Vida Tribal Sociedade Primitiva Comunidades Indígenas Comunidades Negras Rurais / Quilombolas Ecovilas / Comunidades Ecológicas 1. Ecovila no Brasil 2.. Abordagens de trabalho de ecovilas 3. Exemplos de ecovilas Capí Capítulo 4 – Ações Só Sóciocio-ambientais

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A vivência da subjetividade: Hortas e Jardins Soluções Sustentáveis - Anexos Conclusão

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Referências

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Bibliografia Videografia Linkografia Anexos

A História das Coisas (The Story of Stuff) Comida por semana 15 famílias do Mundo (Fotógrafo Peter Menzel, do livro “Hungry Planet)

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sumário


introdução

Natureza, Cultura e os Modos de vida, que o homem tem adotado ao longo da história, mesmo que possam parecer somente como ‘conceitos’ diante de uma sociedade ‘industrial e homogeneizada’, demonstram significativa importância pela forma como entendemos nossa vida e nossa maneira de estar no mundo e ser com ele. Ao longo dos anos que se sucederam a história do homem e das culturas e principalmente a história da formação de nosso país, o Brasil, pudemos perceber como essas relações de natureza, cultura e modos de vida foram se transformando e se inter-relacionando, criando assim um estreitamento que parece ser difícil distingui-los. Sendo tão diversificado e tão especial pela sua singularidade de formação social, o Brasil, também nos oferece diferentes formas de ver e viver a vida, e no tocante à cultura material e sua arquitetura não poderia ser diferente, já que teóricos concordam que “o ato de morar é acima de tudo uma manifestação cultural”. O ‘ato de morar’ não seria somente a forma particular de uma casa, mas tudo o que envolve o morar, o habitar, o viver um espaço e cultivar ‘nele’.

A palavra cultura origina-se de colere – cultivar, habitar, tomar conta, criar e preservar – e relaciona-se essencialmente com o trato do homem com a natureza, no sentido do amanho e da preservação da natureza até que ela se torne adequada à habitação humana. Como tal, a palavra indica uma atitude de carinhoso cuidado e se coloca em aguda oposição a todo esforço de sujeitar a natureza à dominação do homem. ¹

Mesmo com esta afirmação de cuidado, o que vemos hoje é uma crescente degradação do meio natural para responder aos anseios de uma cultura “global” de habitar a terra. Porém, ainda existem algumas “culturas de resistência” que sempre estiveram ligadas à questão da proximidade com a natureza e com a particularidade de seus locais, e estas demonstram de maneira inspiradora, diferentes formas de vida.

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L

ogo vemos que são nas culturas locais que “os maiores guardiões da biodiversidade e do futuro estão; nas comunidades das matas, nos litorais, nos rios, nas florestas e demais remanescentes naturais. E que a cooperação dos povos nativos e tradicionais é essencial para encontrar o rumo da sustentabilidade, palavra-irmã da dignidade e da cidadania que implica em mudanças também dos moradores das cidades, com seu consumo, com suas escolhas, com sua cultura.” (Grupo de Trabalho Amazônico) É também em comunidades atuais ‘propositalmente formadas’ que encontramos diferentes propostas de vida, retorno à natureza e busca do trabalho para a autonomia e autosuficiência. Valorizando estes meios diferenciados de produzir Cultura e se relacionar com a Natureza que estudaremos as Comunidades e os remanescentes de culturas que se ligavam à terra em seus

Modos de vida.

12 ¹ ARANHA, Maria Lucia de Arruda, MARTINS, Maria Helena Pires, Natureza e Cultura in Filosofando: introdução a Filosofia 3ª ed. Revista. São Paulo: Moderna, 2003.


capĂ­tulo 1 cultura


capítulo 1 cultura

Rapoport (1972) mostra que os fatores socioculturais são os que determinam em uma sociedade a escolha de sua forma de habitar. Compreendem esses fatores os aspectos culturais, espirituais e sociais que compõem determinada sociedade. Os assentamentos e suas habitações são a expressão física do modo de vida de uma sociedade. Ou seja, sua cultura material, sua visão de mundo, seus mitos e suas crenças. O conceito de casa deixa de ser um fato ocasional e revela-se como a reprodução de um microcosmo, principalmente nas sociedades ditas vernaculares, entre elas incluídas as nações indígenas brasileiras. (Simiema, 2000) Sendo assim, descrever um modo de vida é também uma tentativa de relatar o sentido que “um grupo de pessoas atribui a sua existência individual e coletiva, em termos de suas disponibilidades no presente e das perspectivas que se lhes delineiam no futuro.” (Crespo, 1996)

E como se muda um modo de vida que também é cultura? Para as sociedades que existiam antes da colonização portuguesa no território brasileiro, “o processo de civilização se inicia com transformações da cultura material: aceitação da indumentária, mudanças de alimentação e seu preparo, introdução de novas culturas agrícolas, o hábito do trabalho regular e mudanças nas habitações. As mudanças da cultura não–material (mitos, ritos e símbolos) só são possíveis através da aculturação das crianças, como um processo educativo desde os primeiros anos de vida.” (Simiema, 2000) O fragmento a seguir demonstra a cosmovisão indígena:

“O universo para o índio é a natureza, e a natureza compreende as criaturas, os deuses e as coisas, convivendo em relativa harmonia. São todos eles parceiros de uma mesma empreitada, responsáveis pela integridade do universo [...] São observações que sublinham a experiência da vida: cada criatura a seu modo contribui para a existência do mundo, para a criação e recriação da vida. O ser humano é apenas um dos fios da imensa teia da natureza, e embora não seja responsável pelos ritmos da natureza tem visíveis vantagens sobre os demais seres, por possuir o dom de inventar, descobrir, aperfeiçoar. Por força dessa superioridade, cabe a ele a responsabilidade de harmonizar conscientemente seu comportamento com esse grande todo; impedir que os excessos ponham em risco o equilíbrio das relações ou que uma timidez muito marcada conduza à apatia, estagnando a dinâmica vital.” (Crespo, 1996)

14 CASA FLUTUANTE, Japurá Japurá, 1865.


capí capítulo 1 cultura

Diante destas afirmações, podemos ver que nunca houve

Desta forma, vemos que, muito do que somos e

separação evidente na maneira de se produzir cultura e se relacionar com a natureza, porque, de fato, ela não existe. O conceito primordial de cultura é essa própria interação resgatada e se exclui a “erudição” de como a entendemos hoje, como mostra a citação: “A palavra cultura origina-se de colere –

produzimos é um reflexo ou mesmo um produto da cultura. EntendêEntendê-la de forma global e consciente pode gerar benefí benefícios diante das aç ações que tomamos e da maneira como escolhemos nosso modo de vida. É resgatando os conhecimentos histó históricos e nossas raí raízes culturais que seremos mais capazes de digerir todo o repertó repertório do presente. Faç Façamos isso, buscando os primó primórdios de nossa formaç formação

cultivar, habitar, tomar conta, criar e preservar – e relaciona-se essencialmente com o trato do homem com a natureza, no sentido do amanho e da preservação da natureza até que ela se torne adequada à habitação humana. Como tal, a palavra indica uma atitude de carinhoso cuidado e se coloca em aguda oposição a todo esforço de sujeitar a natureza à dominação do homem.”

social, tal como ocorreu no Brasil.

Mas, também se apresenta de outra forma, tal como: “A palavra Cultura tem vários significados, tais como cultura da terra ou cultura de uma pessoa letrada, “culta”. Em antropologia, cultura significa tudo o que o ser humano produz ao construir sua existência: as práticas, as teorias, as instituições, os valores materiais e espirituais. Se o contato com o mundo é intermediado pelo símbolo, a cultura é o conjunto de símbolos elaborados por um povo. Dada a infinita possibilidade humana de simbolizar, as culturas são múltiplas e variadas: são inúmeras as maneiras de pensar, de agir, de expressar anseios, temores e sentimentos em geral. Por isso mudam as formas de trabalhar, de se ocupar com o tempo livre, mudam as expressões artísticas e as maneiras de interpretar o mundo, tais como o mito, a filosofia ou a ciência.”

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capí capítulo 1 cultura 1. Cultura cultivada versus cultura transplantada

Desde os primórdios, o Brasil vive em estados de contradição freqüente, a começar pelo seu processo de formação social e as influências que gerou sua “civilização”, a partir de diferentes povos. Darcy Ribeiro estudou bem os processos de formação social e dizia que as evoluções sócio-culturais se davam à base de sucessivas revoluções tecnológicas geradoras de múltiplos processos civilizatórios, que deram nascimento a diversas formações econômico-sociais ou sócio-culturais. Ele afirma desta forma: “as

revoluções tecnológicas consistem em transformações prodigiosas nos modos de produção e na tecnologia militar as quais, uma vez amadurecidas, geram antagonismos com as formas anteriores de associação e com os corpos ideológicos preexistentes, provocando mudanças sociais e culturais tendentes a refazer os modos de pensar, de ser e de agir das sociedades por elas afetadas. [...] Todos os povos envolvidos nesses movimentos se transfiguram. Transfiguram-se, porém, de duas formas distintas, segundo experimentam movimentos acelerativos de autoconstrução que os modelam como povos autônomos que existem para si mesmos ou movimentos reflexos de atualização ou incorporação histórica que plasmam povos dependentes, objeto de domínio e exploração dos primeiros.” Este teórico, mesmo influenciado pelas idéias marxistas, desenvolveu seus entendimentos sob uma perspectiva diferenciada dos “modos de produção” da força de trabalho de Marx e da seqüência linear das formações sociais de Engels, que iria do Comunismo Primitivo ao Escravismo, ao Feudalismo, Capitalismo, até chegar finalmente ao Socialismo. Ele entendeu as formações sociais a partir da vertente das revoluções tecnológicas, o que renovava não só os “modos de produção”, mas todo o processo civilizatório.

Ele

distingui 8 revoluções distintas, a saber:

“Revolu Revoluç ção

Agríícola cola, responsável pelo Agr rompimento com as formações tribais de caçadores e recoletores e pelo surgimento dos primeiros núcleos de lavradores e de pastores. A Revolu Revoluç Urbana, assentada em novos ção Urbana progressos técnicos que tornaram possível a bipartição das sociedades em uma condição rural e uma condição urbana e a sua estratificação em classes econômicas, no corpo de Estados Rurais Artesanais, privatistas ou coletivistas. A Revoluç Revolu ção do regadio correspondente ao amadurecimento das primeiras civilizações regionais, na forma de Impérios Teocráticos de regadio, cuja economia se baseava na irrigação dos campos de cultivo, na metalurgia e na escrita e numa estrutura sócio-política de estado-igreja. A Revolu Revoluç ção Metalú Metal úrgica que surge com a difusão da tecnologia do ferro forjado e proporciona as bases técnicas para a expansão das formações Mercantis-Escravistas de tipo greco-romano. A Revoluç Revolu ção Pastoril, atinente aos progressos nas técnicas de utilização da força animal para a produção e da cavalaria de guerra que, ao tornar obsoleta a estratégia dos exércitos do tipo romano, enseja a estruturação dos Impérios Despóticos Salvacionistas. A Revolu Revoluç ção Mercantil, fundada principalmente, na Mercantil tecnologia da navegação oceânica, das armas

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capí capítulo 1 cultura cultura cultivada versus cultura transplantada

de fogo e na tipografia, dá lugar primeiro ao surgimento dos Impérios Mercantis Salvacionistas, os quais rompem com o feudalismo em dois pontões marginais da Europa – a Ibéria e a Rússia – e compelem povos de todo o mundo a servi-los, como colônias escravistas e mercantis; e mais tarde, ao capitalismo mercantil, com seus sistemas de dominação colonial escravista, mercantil e de povoamento. A Revolu Revoluç ção Industrial – que substituindo a força muscular humana e animal por outras fontes energéticas como o vapor, a eletricidade e o petróleo – faz surgir, primeiro, o Imperialismo Industrial que reordena as relações entre os povos de todo o mundo e, depois, dá lugar a movimentos revolucionários de reordenação interna das sociedades, fazendo nascer o Socialismo revolucionário e o Socialismo evolutivo. Já em nossos dias, se desencadeia a Revolu Revoluç ção Termonuclear – da energia nuclear, dos transistores, da cibernética – destinada, aparentemente, a possibilitar a criação de um novo tipo de civilização, já não regional nem mundial, polarizável em torno de potências imperialistas, mas estruturada como uma civilização humana solidária”.

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capí capítulo 1 cultura

O Brasil desta forma foi entendido como um território e uma cultura que sofreu um movimento de atualização ou incorporação histórica, visto que os povos que aqui existiam estavam em diferente momento de evolução sócio-cultural, resultando no entrechoque de culturas, uma em nível de organização mercantil, outra de organização tribal. Apesar de dizerem que esta “atualização” pode ser boa para ambos os povos, muitas vezes ela resultou em dominação e na falta de assimilação de um povo para com a “nova tecnologia”. Talvez seja isso que tenha acontecido no Brasil. Este passou por dois momentos decisivos, ou de atualização histórica, em seu processo de formação social e cultural: na Revolução Mercantil e na Revolução Industrial. Em ambos, não houve real assimilação ou atualização da nova tecnologia, já que o objetivo de seus colonizadores era de explorar o território e fazê-lo servir aos padrões de seu mundo. Assim, podemos dizer que foi na Revolução Mercantil que os moldes de uma civilização externa, pela primeira vez, foi adotado. E na Revolução Industrial, que estes moldes se consolidaram a fim de inserir o Brasil como mais um país fadado a processos civilizatórios ou modos de vida europeizados. Desde sempre sofremos esta influência exterior e no decorrer da história ela foi se fortalecendo como “definitiva”, para o “olhar orgulhoso” destes padrões. O que não vemos é que, muitas vezes, a “cultura” que se desenvolveu com raízes particulares a este território foi podada e suprimida por esta exterior, não permitindo de fato que esta crescesse, a partir de ações controladoras e dominantes que garantiam o padrão cultural. Muito se sabe sobre a história do Brasil, mas genericamente se sente essas influências e esses hábitos que foram se adquirindo. A cultura brasileira pode ser definida como uma conjunção de

cultura cultivada versus cultura transplantada matrizes culturais provindas ora da população nativa que pré-existia à colonização, outra de populações exteriores, tais como os colonizadores ibéricos, os escravos de raízes-afro e os demais imigrantes que, de forma ou de outra, vieram de todo o mundo, para povoar posteriormente este país. O Brasil é afinal uma “terra de Deus”, uma representante dos povos do mundo? Mais parece que sim. Aqui se fez brotar uma “identidade sem caráter” e ao mesmo tempo singular. Sodré (1996) descreve de forma sucinta as relações culturais que aqui brotaram: “Do encontro dessas três

correntes humanas, no Brasil, surgiram conflitos ou acomodações, transitórios ou duradouros, que permitem distinguir, tão logo parece a produção, por menos importante que seja, a largos traços, duas áreas culturais: a área de supremacia da cultura indígena – em extensão - economicamente secundária, com predomínio de relações feudais; a área de supremacia da cultura transplantada, economicamente principal, com predomínio de relações escravistas. [...] Rompendo o ritmo espontâneo de desenvolvimento, a passagem de extensa área de predomínio da comunidade primitiva, sob organização tribal – no estágio da pedra lascada – à fase mercantil, em que se insere como objeto de empresa de consideráveis proporções. A transplantação, no caso, importava em queimar etapas intermediárias. O processo tem todos os traços de brutalidade, de que será conseqüência, inclusive a destruição da comunidade primitiva indígena e de seus valores culturais, na área em que se implanta, com os recursos humanos e materiais

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capí capítulo 1 cultura cultura cultivada versus cultura transplantada

importados, a grande propriedade fornecedora de mercados externos.”

Mas, ainda como de forma inicial, o Brasil continuou a sofrer com as influências e mudanç mudanças culturais, só só que progressivamente de diferentes formas, não somente no choque de índios e portugueses, mas també também em momentos como a vinda de negros africanos que vieram habitar o territó território quando se consolidou a economia escravista ou mesmo na posterior profusão de etnias e ocupaç ocupação do territó território. Nós podemos ver que o Brasil é hoje uma contradiç contradição da cultura cultivada, trazida pelos indí indígenas e habitantes nativos que se ligavam à natureza, com a cultura transplantada, movida pela “erudiç erudição” ão” e pelo refinamento das funç funções, o que inclui a “especializaç especialização” ão” do modo de vida europeizado.

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capí capítulo 1 cultura 1. Os Brasis: Brasil Caipira, Caboclo e Crioulo

Segundo o antropólogo, Darcy Ribeiro em O povo brasileiro, o Brasil é uma conjunção de inúmeras matrizes, sendo que três delas, principais, geraram as restantes. Diz-se que somos um povo novo feito de povos milenares e que este encontro das diferenças dá singularidade a nossa cultura. Em seu contexto, o Brasil teve um processo de formação social e cultural que não se poderia dizer “ameno”. Este foi marcado pelo entrechoque de culturas que desde o começo gerou dominação e espoliação de umas para com outras. Neste território, antes que houvesse alguma colonização por parte de povos exteriores, havia aqui um emaranhado de gentes que lhes chamaram “Brasis”. Os Brasis eram como chamavam nossos antepassados indígenas que costumam ser classificados genericamente pela língua:

macro-jê, macro-tupi, arawak, karib e posteriormente o tupi-guarani que já era resultado da confluência com alguns povoadores. Não se sabe ao certo suas origens. Dizem que muitos destes eram nômades, que caçavam, pescavam e viviam em extremo contato com a natureza. Além disso, andavam nus, construíam suas casas com “árvores”, conheciam muito de seu território e de suas plantas e animais. Domesticaram muitas espécies para suas roças e para suas necessidades (religiosas, curativas, alimentares), sempre as utilizando com retidão e respeito. Quando seus colonizadores partiram de suas terras, também estavam emersos em seus próprios mitos pessoais, louvavam o “espírito santo” e tinham o ideal de uma “terra prometida” por Deus, que seria feito o paraíso aqui na Terra. Aqui chegaram e se assustaram, por haver pessoas tão diferentes em relação aos seus modos e ideais simbólicos, mas que por serem tão inocentes e desconhecidos dessas gentes foi possível dominá-los.

O modo de vida destes Brasis logo se taxou “primitivo” e “atrasado”. Desta forma, havia a necessidade de iniciar a jornada de “aculturação” esse povo, para serem o “povo de Deus”, o “povo do espírito santo”, que realizaria os ideais da terra prometida. Muitos processos exploratórios e massacrantes se sucederam até chegarmos ao que pode ser contado como influência atual destas culturas que persistiram e mantiveram suas raízes de organização aliada à natureza. Uma destas raízes é o Brasil Caipira, que é fruto da fusão da matriz luso com a indígena. Este, oriundo de bandeirantes não mais úteis à economia, traz muitas aproximações dos hábitos de ambas as matrizes tais como: a horta, a alimentação, o lazer, caça e pesca, a construção com fibras vegetais e madeira como provenientes dos índios e a construção de casas de barro, o linguajar arcaico decorrente dos portugueses. É muito interessante ver que esses hábitos culturais persistem mesmo sem entendermos, e ainda mais essas assimilações “confusas”, que só são descobertas quando bem estudadas. O caipira também traz dentro de si, um pouco do negro, com as danças que realizava para a construção de suas casas, o côco, o batuque e o moçambique.

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capí capítulo 1 cultura Os Brasis: Brasil Caipira, Caboclo e Crioulo

Darcy Ribeiro afirma sobre a cultura caipira: “o lazer fazia parte da cultura caipira de forma semelhante a do índio. Nas relações que se estabelecia, não havia distinção entre trabalho e arte. Por sua dieta ser baseada na caça e na pesca, recebeu de forma injusta a fama de “vagabundo”, exatamente por não separar suas relações na vida, o que o aproximava do índio, do selvagem.” Mas com o desenvolvimento da economia capitalista e da industrialização, estas culturas de diferentes Brasis, começam a desaparecer, por gerarem nas pessoas necessidades de consumo e conseqüente aumento de custo de vida e dependência de dinheiro para assumir a realidade “importada” de seu modo de viver: “Com o advento

da sociedade industrial há um impacto nessa sociedade que poderíamos dizer “arcaica”, aquilo que a sociedade consumia era praticamente produzida pelos próprios habitantes, não havia supermercados, havia feiras, não havia fábricas e sim artesanatos. Com a industrialização e conseqüente urbanização, em meados de 50 e 60, o caipira se marginaliza nas cidades para conseguir obter os novos bens de consumo. [...] As instituições básicas da cultura caipira se desintegram ao impacto da onda renovadora representada pelas novas formas de produção agrícola, pastoril e de caráter mercantil. Já não são aqueles caipiras de modos e existência arcaica e pobre, mas satisfatórios ao seu próprio juízo, com a industrialização se altera nessa constelação que tinha de fundamental que era a sua tecnologia produtiva, transformando todo o seu modo de ser, de pensar e de agir.”

Da

mesma forma como houve estas interferências neste tipo de “Brasil”, também podemos dizer que o Brasil que mais sofreu, foi o Caboclo, sem contar, o Crioulo. O primeiro por ter estabelecido suas raízes em meio à floresta, fugindo de colonizadores. O outro, por nunca ter tido lugar simbólico ou territorial reconhecido, mas nunca deixaram de tentar impor suas raízes (africanas), que por fim se estabeleceram tão fortemente como as outras. Mas é no Brasil caboclo que vemos a contradição gritante, por ser um lugar onde prevaleceram as relações indígenas, da floresta e que se tentou preservar além da cultura, seu bioma, que é o maior em biodiversidade do planeta, no caso, a Amazônia: “Nas comunidades caiçaras, isoladas dos centros urbanos, é possível

reviver um pouco da atmosfera do Brasil dos primeiros tempos. Os ancestrais dessa gente provavelmente descendem dos primeiros mestiços que habitaram o litoral. A canoa, feita a partir do tronco de árvore, se parece com as usadas pelos índios. Ela é o único meio de transporte e garante a sobrevivência.”

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capí capítulo 1 cultura

Os Brasis: Brasil Caipira, Caboclo e Crioulo

E sobre sua existência atual afirmam: “A característica

básica do Brasil Caboclo é o primitivismo de sua tecnologia adaptativa, basicamente indígena conservada e transmitida durante séculos sem grandes alterações.” Desta forma, contradiz essencialmente com a busca de um país urbano e industrializado.

Podemos

ver que diante de tantas contradiç contradições geradas pelas diferentes formas culturais em um mesmo paí país, o Brasil em sua totalidade ainda é desconhecido. Nossa civilizaç civilização não se revela, ainda hoje, capaz de desenvolver um sistema adaptativo ajustado às condiç condições particulares de nosso clima e cultura diversificada. Estamos continuamente buscando referenciais externos e isso faz com que essa situaç situação se perdure. Deverí Deveríamos nos propor a isso: ao resgate de tecnologias locais e entendimento de nossa expressão singular, como autonomia a outros dizeres.

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capí capítulo 1 cultura 3. liç lições do passado: tecnologia local e expressão singular

V

imos que, a partir de processos culturais distintos, o homem desenvolveu inúmeras formas de estar no mundo e ser com ele. Suas sucessivas revoluções tecnológicas e manifestações de diferentes modos de vida nos surpreendem pelo seu dinamismo e adaptabilidade ao meio. Muitas destas sociedades nos deixaram formas

evidentes e qualitativas de como é possível construir a vida de maneira harmoniosa consigo e entre os demais seres. Deste estudo, e desta apropriação do conhecimento da “família humana”, e também no que concerne à arquitetura, nasceram alternativas para fazer a construção de nossa vida atual, através do que chamamos “nova síntese”.

Saunders afirma que, “essas tecnologias tradicionais foram desenvolvidas tirando-se a maior vantagem possível do clima e dos materiais locais. O que é apropriado para o Ártico ou para regiões desérticas não se aplica às condições temperadas do Ocidente, mas as lições sobre as mais vantajosas orientações para se construir são parte dos ensinamentos dos mestres construtores de tempos remotos”.

A partir disto vemos que, é na cultura dos povos que temos a maior contribuição para nosso caminhar. Eles não só podem como contribuem para a criação das habitações de hoje. Inúmeras influências que nem imaginamos estão aí: as tendas nômades que se desdobram na maior área de desenvolvimento tecnológico da arquitetura a partir dos têxteis, prédios de terra que se transfiguram em estruturas de concreto, aço e vidro, abóbodas, trilitos megalíticos ou menires que originaram as

colunatas, e entre outras coisas que fizeram nascer a forma habitual de se construir atualmente com duas colunas e uma arquitrave, ou como conhecemos, dois pilares e uma viga de concreto. Nem sempre, o habitual se torna algo bom, estamos constantemente construindo e reformulando nossas formas de ser e de viver. Talvez seja isso que torne o homem um ser em mutação constante. É o que a filosofia chamou, eternos devires, ou vir-a-ser, que se encarrega de comer, digerir e regurgitar para comer de novo consciente e sucessivamente.

M

as, foi a partir da década de 60 que vimos um crescente movimento no ocidente “moderno” em relação à valorização das tradições. Bernard Rudolfsky em sua exposição intitulada “Arquitetura sem arquitetos” no Museu de Arte Moderna em 1964 Nova Iorque afirmava: “Arquitetura sem

arquitetos tenta abater nossas concepções estreitas da arte da construção introduzindo o mundo pouco familiar da arquitetura sem pedigree. O assunto é tão pouco conhecido que nós não temos nem um nome para ele. Por falta de etiqueta genérica, nós a chamaremos, segundo o caso, de: doméstica, anônimas, espontânea, indígena, rural. A beleza dessa arquitetura foi por muito tempo rejeitada como acidental, mas hoje nós deveríamos reconhecê-la como o resultado de um raro bom senso no domínio dos problemas práticos. Acima de tudo, é a humanidade dessa arquitetura que deveria provocar alguma resposta em nós.”

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capí capítulo 1 cultura

liç lições do passado: tecnologia local e expressão singular

No

Brasil, parece ter havido um movimento contrário nesta época, ao passo que, desde a colonização, não se pretendia tão fortemente, transformar as culturas tradicionais em algo mais “civilizado”. Isso se refletia em inúmeras formas: na inversão de proporções entre população rural e

urbana, na industrialização, na implementação de indústrias e exploração de recursos naturais, no desmatamento de florestas antes nunca desbravadas pelos brancos para conseqüente construção de rodovias com o pressuposto de integrar o país, no aldeamento de populações nativas antes dispersas no território, nos conflitos de terra, na consolidação do modelo de “propriedade privada” na questão fundiária (Lei de Terras de 1850), enfim, todo o projeto idealizado para a dominação e controle de culturas com o fim da submissão a um modelo ocidentalizado e hegemônico. Prova disto, a questão dos indígenas (tradição mais nativa do país) só realmente se valeu de atenção no último século, e por poucos estudiosos, ainda sendo primárias suas resoluções no Brasil.

Simiema (2000) em seu estudo sobre a habitação kaingang diz que “aldear índios, reuni-los e sedentarizá-los sob governo missionário é prática iniciada na primeira metade do século XVII pelos espanhóis e na segunda metade pelo governo português, através das conquistas e reduções de territórios. A questão era orientada por uma guerra de conquista territorial, religiosa e, secundariamente de formação de mão-de-obra. A expansão territorial brasileira dá-se da costa para os planaltos, ao longo de sua colonização, e no século XIX a questão indígena no Brasil passa a ser também uma questão de posse de terras, como decorrência desta expansão territorial, em que vão se relacionar três interesses básicos: da coroa, da igreja e dos homens brancos (Carneiro da Cunha, 1992). O aldeamento tinha dois objetivos claramente colocados: converter as populações indígenas de suas boas intenções( as dos homens brancos) e persuadi-los a abandonar os costumes “ atrasados” e adquirir costumes “ civilizados”.

A antropologia é um alicerce para o entendimento destas questões, pois como mesmo definiu Lévi-Strauss, ela está longe se ser um mero estudo sobre sociedades: “enquanto as maneiras de ser

ou agir de certos homens foram problemas para outros homens, haverá lugar para uma reflexão sobre essas diferenças que, de outra forma sempre renovada, continuarão a ser o domínio da antropologia...” Desta forma, conclui Magnani fazendo coro a Clifford Geertz (1988) “agora somos todos nativos”.

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capí capítulo 1 cultura

4. arquitetura primitiva e arquitetura vernacular

Segundo Villela, o conhecimento da arquitetura e dos historiadores da arte se limita mais freqüentemente ao conjunto dos grandes monumentos em torno da bacia do mediterrâneo, ou quase exclusivamente, aos edifícios religiosos e as construções de prestígio. A não ser em algumas monografias esparsas, o habitat cotidiano do homem comum não encontra algum lugar. Essa visão parcial não ocorre só na arquitetura. Nós conhecemos infinitamente melhor a vida dos reis, dos príncipes e dos grandes homens na história do que a existência familiar dos povos que eles governavam.

Por isso, é importante que nós estejamos atentos a outros estudos, assim como ao estudo da arquitetura primitiva e vernacular. Ainda Villela diz, “é verdade, hoje, na maioria dos programas de formação dos profissionais que deverão intervir na arquitetura e na planificação urbanística, são esses mesmos valores e modelos ligados à tradição clássica e monumental que continuam a dar as diretrizes principais e assim aumentam o abismo entre este tipo de formação e as verdadeiras necessidades de um mundo de que se afirma sobre estruturas sociais e urbanas cada vez mais complexas. [...] É assim que por exemplo Frank Lloyd Wright em 1910, na tentativa de definir suas idéias sobre esse assunto, afirmou: Somente um estudo paciente para adquirir um conhecimento da natureza em seu conteúdo interior pode guiar os princípios que devem ser estabelecidos pelo arquiteto. Condenando o “estilismo” e a “visão clássica da arquitetura” ainda ligada às regras do renascimento decadente, do Barroco, do Rococó, ele diz ainda: “É por isso que as construções vernaculares que foram feitas, em resposta às necessidades são bem adaptadas ao ambiente, eram feitas por pessoas que sabiam muito bem como as adaptar com um sentimento natural e nativo nativo, construções que foram criadas como “folclores ou músicas folclóricas” e difundidas, elas são hoje, para nós, uma matéria de estudo melhor que todos os embaraçantes ensaios acadêmicos através da Europa.”

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capí capítulo 1 cultura

arquitetura primitiva e arquitetura vernacular

Villela ainda descreve em sua tese: “A construção primitiva se encontra nas sociedades definidas como sendo primitivas pelos antropólogos. Esta definição inclui a tecnologia, os níveis econômicos e os aspectos de organização social.” Quanto à arquitetura vernacular apresentaremos suas características mais a frente, detalhadamente.

Redfield mostra que nas sociedades primitivas o conhecimento era difundido a respeito de todas as coisas e para todos, e que cada aspecto da vida da tribo concernia a cada um. Havia pouca especialização, esta poderia, entretanto aparecer no domínio dos conhecimentos religiosos. As profissões são dificilmente distinguidas (no máximo divisão de tarefas entre sexos, não sendo necessariamente obrigatório um homem ou uma mulher realizar tarefas referentes ao seu gênero se não quiserem, pelo menos em casos de tradições indígenas brasileiras) cada família em média tem a sua disposição todo conhecimento técnico. Não importa qual membro do grupo pode construir as moradias das quais o grupo necessita, mas em vários casos e por razões técnicas e sociais a construção é feita por um grupo maior. Desta forma, o estudo do “abrigo primitivo” permite também ao construtor resolver problemas estruturais de uma maneira consistente, senão idêntica às estruturas originais do “abrigo primitivo”. Suas características e soluções englobam:

1. Satisfazer as exigências fisiológicas de seus habitantes; de soluções precisas e adequadas. 2. Utilizar métodos fáceis e práticos para a construção. Elas são, por exemplo, fáceis de montar, de transportar e não tem necessidade de construções auxiliares como cimbramento e andaimes para suportar o telhado em abóbodas ou em cúpulas. 3. Apresentar uma boa solução estrutural, com o emprego e o melhor aproveitamento das propriedades específicas de cada material, obtendo boa estabilidade, e resistência à desagregação, e tudo resolvido a partir de um ponto de vista econômico.

Em outro caso, a arquitetura primitiva se torna vernacular quando há certo nível de reprodutibilidade. Quando um artesão da construção é chamado para fazer várias moradias, podemos dizer que essa construção primitiva dá origem à arquitetura vernacular pré-industrial. Mesmo nesse caso, cada membro da sociedade conhece tipos de construção, ele não é um simples consumidor. O procedimento do projeto vernacular parte de um modelo com ajustamento e variações individuais do que as construções primitivas. O modelo, ele mesmo, é o resultado da colaboração dos construtores e dos usuários, e por isso que ele é também chamado de arquitetura tradicional.” Por fim, podemos colocar as variações de classificações descritas por Amos Rapoport: 1. Primitiva – poucos tipos de construções, um modelo com mínimas variações individuais, construídos por todos. 2. Pré-industrial vernacular – maior número de tipos de construções, entretanto ainda limitado, variações individuais do modelo, construídos por artesãos. 3. Alto estilo e moderno – há vários tipos de edifícios, cada um sendo uma criação original que, entretanto, pode começar a se modificar; projetada, desenhada e construída por equipes de especialistas

.

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capí capítulo 1 cultura

arquitetura primitiva e arquitetura vernacular

a nova sí síntese

Concluindo Villela diz, podemos notar que o homem pode atingir todos esses objetivos através de sua inteligência e de sua habilidade, num ambiente de poucos recursos materiais e aspectos econômicos, culturais e tecnológicos diferenciados, onde o rendimento de tais recursos foi maximizado.

A

nova síntese consiste em realizar o que alguns arquitetos já foram capazes de fazer, se apropriar de conhecimentos do passado, usufruir das qualidades e dos saberes de agir localmente, levando em conta fatores realmente significativos, tais como, os sociais, os culturais e ambientais, para fazer prosperar as relações humanas através do espaço.

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capĂ­tulo 2 natureza


capítulo 2 natureza Tanto Cultura como Natureza se mostram como conceitos amplos (e de certa forma indefiníveis), uma vez que podem apresentar muitos significados e definições. No entanto, para o presente trabalho, entenderemos Natureza como: “Tudo aquilo que tem como característica fundamental o fato

de ser natural: ou seja, envolve todo o ‘ambiente’ existente que não teve intervenção antrópica (do homem) ou mesmo, em sentido mais amplo ‘ao que corresponde ao mundo material (todos os seres, plantas, terra, água, ar, fogo, elementos naturais, planeta) e, em extensão, ao Universo físico: toda sua matéria e energia, inseridas em um processo dinâmico que lhes é próprio e cujo funcionamento segue regras próprias (estudadas pelas ciências naturais).” Desta forma, desde que existe enquanto Ser, o Homem está inserido na dinâmica natural, e faz parte dela, como um dos maiores agentes transformadores em potencial deste meio, visto isto, comprovadamente, através das sucessivas revoluções tecnológicas que se procederam (vide capítulo Cultura). Porém, Ruy Moreira diz que, tudo na Natureza, não é mais de 1ª Natureza, na medida em que a simbolizamos através da Cultura. O homem transforma 1ª Natureza em 2ª Natureza através do trabalho e isso faz com que mantenha a vida “viva”, pela “ação”, como se desse um “sentido” à própria existência. O homem entende (principalmente o “homem civilizado”) que o rio não existe como uma entidade em si, ordem de 1ª Natureza, precisa ser simbolizado para existir e diz: “o rio está bravo”, desta forma, o aproxima de sua própria experiência de “Ser”, humanizando-o. Assim, o trabalho, a cultura, o símbolo, a natureza, estão intrinsecamente ligados e co-existem simultaneamente. Mas, o que realmente mantém a vida “viva”? Quais as necessidades que vão além da ação? Do trabalho? Há muitas controvérsias a respeito disto, o próprio universo é feito de inúmeras realidades, incluindo a imensa diversidade de formas e de seres, tanto dos reinos vegetais como animais. Como entender então necessidades se há tamanha diversidade?

P

ara o esboço de algum entendimento, poderíamos citar o texto que fala sobre a totalidade da vida-natureza: “Desde os confins do átomo, onde se

assentam os alicerces do Universo - as três famílias de partículas elementares, quarks e léptons, constituintes atômicos, bósons intermediários, mediadores das interações entre partículas - até as galáxias mais distantes, nas bordas do Cosmos, a natureza mostra um trepidante conjunto de interações dinâmicas em constante mutação. É o pulsar do movimento universal, em cuja alternância entre ordem e caos reside a extrema vitalidade criadora do mundo natural. O supremo encanto da vida está em ser ela nova a cada instante. Que encanto maior se haveria de esperar!? Partículas, moléculas, células, o ser humano, um paquiderme ou o maior corpo celeste não têm existência isolada. Nossos enfoques fragmentários dos processos é que separam os fatos, intrinsecamente integrados. É o "modus operandi" do intelecto, incapaz de perceber de per si a unidade das ocorrências sem fracioná-las. A percepção integral da realidade revela a unicidade universal, expressa na totalidade "vida conjugada à natureza", verdade maior, auto-evidente, em consonância com a qual devem estar idéias e ações humanas.”

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capí capítulo 2 natureza

o significado da Natureza e agricultura dos povos

Q

uando falamos no significado de Natureza e Agricultura para os povos primitivos e vernaculares, não fugimos muito da noção de “vida conjugada à natureza”, o que demonstra o sentido de sagrado em muitas de suas tradições. Joseph Campbell, em “O poder do Mito” traduziu inúmeras mitologias dos povos antigos e percebeu que culturas distintas apresentavam semelhanças simbólicas: “O que há nas tradições ligadas à vegetação é essa noção de identidade, por trás

da aparência de dualidade, da identidade que há por trás disso. Tudo são manifestações da Unidade. Aquele fulgor que reluz através de todas as coisas. O Jardim é o lugar da Unidade e da não-dualidade. Não-dualidade de macho e fêmea, de homem e Deus, do Bem e do Mal. Você come a dualidade (fruto do conhecimento, árvore da vida) e tem que ir embora. Essa árvore é a árvore da saída para a dualidade. A árvore da volta ao Jardim é a árvore da vida eterna.”

Para Campbell, “A mitologia é o vôo da imaginação inspirada pelas energias do corpo e da vida”. Q

uando os povos caçadores passaram a plantadores, as sementes assim como as plantas passaram a ser sua simbologia maior, para o próprio entendimento da Vida: “Um animal é uma espécie de entidade total. Quando você mata um animal, ele está morto. Mas quando você corta uma planta, surge um broto. Podar é bom para as plantas. Também na floresta, de onde se origina parte dos mitos, a vida sai de uma rocha, sai de uma a árvore que é cortada, pode parecer estar morta, mesmo que tenha mais de 300 anos, logo poderá se ver um broto de renascimento. Há uma sensação de morte que não é bem morte. Ela é necessária para que apareça a nova vida. A planta não é uma entidade total, pode ser dividida, pode renascer a partir de si mesma. E isso faz toda a diferença no próprio sentido do que é a vida. Já que o animal é uma entidade separada e a “planta” não. O fato de cortar, enterrar e depois renascer como ocorre no mundo das plantas que comemos nos traz a mitologia das plantas, dos plantadores. Numa cultura de povos caçadores quando se faz um sacrifício é como se fosse um presente, um suborno para a divindade que está sendo convidada a fazer algo por nós, ou a nos dar algo. Quando se simboliza um sacrifício numa cultura de agricultores a figura é o próprio Deus.”

Desta forma o significado da semente para as culturas passa a ser: apó ser: Da semente vem a vida, vida ap ós a morte, princíípio de vida, visão de mundo de cultura de ca caç pois era enterrada e renascia, isso gerava todo o princ çadores para agricultores. (nota pessoal: talvez disto tenha vindo a tradição de enterrar os mortos, já que, mitologicamente, enterrava-se partes de corpos para fazer brotar os alimentos e além disto, reconhece-se que a dimensão sagrada se perdeu progressivamente a medida em que passamos por processos de “tecnologização” e mecanização da vida, concordando com o teórico Cláudio Pastro, quando ele afirma que nos falta: o mito, o rito e o símbolo, para termos uma vida mais equilibrada).

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capí capítulo 2 natureza

No

Atualmente, o planeta Terra vive um per perííodo de intensas

transformaç cnicocientííficas, em contrapartida das transforma ções tté écnico -cient engendramdesequilííbrios ecol ecoló quais engendram -se fenômenos de desequil ógicos ameaç que, se não forem remediados, no limite, amea çam a vida em superfíície. Paralelamente, a tais perturba perturbaç sua superf ções, os modos de vida humanos individuais e coletivos evoluem no sentido deterioraç ão.”” (F (Fé Guattari,, As 3 de uma progressiva deteriora ção. élix Guattari ecologias) 2. o movimento ecoló ecológico

A cada momento histórico, o homem se depara com novos desafios nas formas como organiza sua vida. À base da sociedade primitiva, quando passamos de uma cultura de caçadores para de agricultores, vemos a conotação sagrada na qual era representada a natureza, mudando até mesmo o sentido de explicar a própria vida.

Mas o que não se sabe é como foi se sucedendo tantas mudanças no sentido que dávamos à natureza, chegando ao ponto hoje de vermos aparecer tantos desequilíbrios. Alguns estudiosos, afirmam que as sociedades tendem à “evoluir numa direcionalidade”, inerente às sociedades humanas, esta direcionalidade iria: do rural

ao urbano; 2. do simples ao complexo; 3. do coletivo ao indivíduo; 4. dos modos de produção artesanais e manuais, aos industriais e automatizados; 5. do tradicional ao moderno; 6. da comunidade à sociedade; 7. do atrasado ao moderno; e 8. do mecânico ao orgânico. Este “orgânico” foi entendido como o “fim das relações arcaicas” da comunidade, que só poderia surgir a partir da evolução para a sociedade, com a divisão social do trabalho.

entanto, parece que temos chegado ao ponto de questionar os reais favorecimentos desta “direcionalidade”, como expressou Wong

Un (2002): Estas dualidades, extremos de processos lineares, representam os pontos resumidos do otimismo intelectual do século XIX que se estendeu até as primeiras décadas do século XX. Confiantes nos avanços tecnológicoindustriais, e no enriquecimento dos seus países, filósofos e cientistas sociais afirmavam que haveria um "destino inevitável" das sociedades humanas: o progresso, a modernização, que traria o fim das "relações arcaicas". É certo que, ainda hoje, vemos o reflexo deste pensamento. Este ecoa entre muitas relações e continua a condicionar o homem em sua busca pelo modo de vida “modernizado” e “progresso”, ou seja, “bem-sucedido”. Mas modo de vida “progresso” pode significar muitas coisas tais como, “relações arcaicas” estabelecidas na contemporaneidade ou mesmo a “autorealização”.

Deixando

um pouco de lado as relações sociais, que serão discutidas em outros capítulos, assim como foi discutido no capítulo Cultura, vimos nascer neste século um novo movimento, peculiar a qualquer movimento social visto, já que não se tratava de “lutar” lutar” para si pró próprio, ou mesmo por alguma causa “humana” e sim para uma finalidade global que envolvia a sobrevivência da “diversidade das

espé cies””. esp écies

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capí capítulo 2 natureza

o movimento ecoló ecológico

Então,

Parece que, pela primeira vez depois de tantos séculos (ou talvez milênios), o homem recomeçou a ver-se como ser pertencente a um organismo “maior”, a Terra, geradora de processos autônomos e involuntários à vontade do homem, que ao menos tempo interconecta os seres, em suas complexas cadeias de organizar a vida. As origens deste movimento são bem dispersas, mas parece ter surgido uma eclosão por volta dos anos 50/60, quando além de questões políticas, sociais e econômicas, havia também a questão ambiental, a necessidade de se pensar na ecologia, no ambiente como um todo. Depois de sucessivas guerras que ganharam caráter global e relações desumanas que ameaçavam não mais as localidades, mas o “nível planetário”, se percebeu que os grandes poderes, além de dominar e controlar, também destruíam. No entanto, em contradição com tais percepções e movimentos, a Organização das Nações Unidas em 1968, faz uma convocação para se realizar a primeira Conferência internacional, a fim de discutir os problemas relacionados ao meio ambiente.

foi desta forma que, pela primeira vez, surge o termo “desenvolvimento sustentável”, assim como muitos documentos que conceituavam diretrizes para este desenvolvimento. Conferências mundiais viraram declarações mundiais, que viraram documentos diversos tais como: Carta da Terra, Relat Relató ório Nosso Futuro

Brundtland,, Protocolo de Kyoto, Comum ou Brundtland Declaraç Declaraç Princíípios Declara ção de Estocolmo, Declara ção de Princ Declaraç sobre Florestas, Declara ção para o milênio, Agenda Internacional, Agenda Brasileira ou até mesmo as tão conhecidas Agendas 21. Vinte e um, porque estávamos entrando no século 21 e precisávamos desta forma “nortear as nossas ações”. Foram através das Agendas que esse movimento mundial tomou de fato um caráter regional e mais prático.

prá tico, porque as agendas poderiam Regional e pr ático ser produzidas pela própria localidade, tomando por base as “diretrizes mundiais”, mas criando acima disto, suas necessidades ou forças para ação. Das Conferências Mundiais, tivemos três, a saber:

É claro que, por trás de tal movimentação mundial, já havia de ter muitos movimentos pulsantes. As estratégias do poder, nem sempre, são preocupações resolutas, decididas a resolverem com integridade o destino de nossa humanidade. Muitas dessas preocupações envolvem medos de perdas de padrões de vida, de impedimentos aos “fazeres” das grandes corporações.

Naç Conferência das Na ções Unidas sobre o Meio Ambiente em Estocolmo, 1972, Conferência das Naç Na ções Unidas para o Meio Ambiente e o RioECODesenvolvimento ou Rio -92 ou ECO -92, Rio de Naç Janeiro, 1992 e Conferência das Na ções Unidas Sustentá sobre Ambiente e Desenvolvimento Sustent ável, a

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capí capítulo 2 natureza

o movimento ecoló ecológico

Joanesburgo,, África do Sul, chamada Rio+10 ou conferência de Joanesburgo Riorealizada em 2002, dez anos depois da Rio -92.

Das manifestações de movimentos ecológicos podemos definir genericamente,

como

sendo

suas

características:

questionamentos das crises sociais, tais como crescimento exponencial da população humana, deterioração dos recursos naturais renováveis e não-renováveis, sistemas produtivos poluentes e de baixa eficiência energética, além do consumismo.

Ambientalismo

pode

ser

definido

como:

“multissetorial,

pluriclassista e transnacional, constituindo-se no conjunto de agentes potencialmente capazes de promover o desenvolvimento sustentável ou ecodesenvolvimento. Não se define como meramente social, mas sim como histórico por atingir diversos setores sociais, dentro ou fora do governo e das empresas, além de ter uma perspectiva ampla, histórica; trata-se de um movimento civilizatório por questionar os valores fundamentais da civilização ocidental (separação sujeito-objeto, razão-emoção, etc.) Outra característica que diferencia este enfoque é a constatação da emergência de valores pós-materialistas na civilização ocidental, o que se evidencia na aproximação ecumênica das várias religiões e no interesse pela "meditação" entre os jovens (desde o movimento de contracultura, nos anos 60).” (Sérgio Luis Boeira)

Multissetorial, ultissetorial,

visto que é constituí constituído por vá vários setores socioculturais, sem ordem hierá hierárquica entre eles, a saber:

•Ambientalismo stricto sensu; sensu; Associações e grupos comunitários ambientalistas, diferenciados em três tipos: profissionais, semiprofissionais e amadores. * Ambientalismo governamental; Indivíduos e grupos de agências estatais de meio ambiente (em nível federal, estadual e municipal). * Socioambientalismo; Socioambientalismo; Organizações não-governamentais, sindicatos e movimentos sociais que têm outros objetivos precípuos, mas que incorporam a proteção ambiental como uma dimensão relevante de sua atuação. * Ambientalismo dos cientistas; Pessoas, grupos e instituições que realizam pesquisa científica sobre a problemática ambiental. * Ambientalismo empresarial; Gerentes e empresários que começam a pautar seus processos produtivos e investimentos pelo critério da sustentabilidade ambiental. * Ambientalismo dos polí políticos profissionais; Lideranças partidárias emergentes, que incentivam a criação de políticas específicas sobre meio ambiente no setor público. * Ambientalismo religioso ou espiritualista; Integrantes das várias religiões e tradições espirituais que vinculam a problemática à consciência do sagrado e do divino, enfatizando a relevância da questão ética. * Ambientalismo dos educadores da pré-escola, primeiro e segundo graus * Ambientalismo pró saú pró-sa úde; É formado por terapeutas, mestres em artes marciais e todos os que enfatizam o valor da saúde, considerando, em primeiro plano, a capacidade orgânica de reequilíbrio do corpo humano (pela homeopatia, alimentação natural, exercícios leves, acupuntura, do-in, tai-chi-chuan, etc). * Ambientalismo dos partidos verdes; Os partidos verdes bem ou mal têm sido a única renovação significativa dos sistemas partidários em todo o mundo desde a 2ª Guerra. Depois da Guerra Fria surgem como opções eleitorais cada vez mais visíveis ideologicamente, embora a viabilidade de cada um deles seja muito peculiar.

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o movimento ecoló ecológico

Dentre

as abordagens mais crescentes, está o ambientalismo “religioso” ou “espiritual”. Este resgata a problemática do sagrado e do divino, enfatizando a relevância da questão ética para com a natureza, como se ressurgisse a forma como os povos primitivos davam seu significado à natureza, com uma conotação “sagrada” para explicar a própria vida. Na década de 70, um filósofo norueguês Arne Naess fez surgir um movimento chamado “Ecologia Profunda”. No entanto, é pela mão de Bill Devall e George Sessions, ambos estadounidenses, que as idéias e princípios quer, do movimento quer da sua plataforma, são dados a conhecer ao mundo. Assim dizem: “este movimento surge como resposta

filosófica e ética à crise ecológica que se tem vindo a acentuar quer no mundo físico quer nas nossas percepções deste. A designação ecologia profunda (deep ecology) surge por oposição ao termo ecologia superficial (shalow ecology) que Naess atribui aos aspectos mais técnicos e menos filosóficos da ecologia. O termo profundo refere-se a uma abordagem reflexiva e crítica que, transcendendo as questões operacionais, conduz o indivíduo a questionar o seu papel e a sua condição no mundo, conduzindo a uma eventual construção da sua filosofia ecológica. Por outro lado o termo superficial refere-se às abordagens mais pragmáticas, muitas vezes associa-as ao desenvolvimento de “tecnologias verdes” que não revela preocupações de caráter afetivo ou filosófico na relação do indivíduo com o meio circundante. Ainda que Naess seja um pouco crítico em relação à abordagem da ecologia superficial, referindo que os seus objetivos são essencialmente “a saúde e riqueza das comunidades dos países desenvolvidos”, não deixa de valorizar os aspectos científico-tecnológicos da ecologia como nos é dado a perceber quando afirma que “o movimento ecologia profunda é suportado pelos resultados das investigações em ecologia e, mais recentemente, nos trabalhos da biologia conservativa”.

Dentre as características e diferenciações da ecologia profunda e da visão de mundo atual da natureza estão: Visão de Mundo

Ecologia Profunda

Domínio da Natureza

Harmonia com a Natureza

Ambiente natural como recurso para os seres humanos

Toda a Natureza tem valor intínseco

Seres humanos são superiores aos demais seres vivos

Igualdade entre as diferentes espécies

Crescimento econômico e material como base para o crescimento humano

Objetivos materiais a serviço de objetivos maiores de auto-realização

Crença em amplas reservas de recursos

Planeta tem recursos limitados

Progresso e soluções baseados em alta tecnologia

Tecnologia apropriada e ciência não dominante

Consumismo

Fazendo com o necessário e reciclando

Comunidade nacional centralizada

Biorregiões e Reconhecimento de tradições das minoriais

Naess A. The shallow and the deep, long-range ecology movements: a summary. Inquiry 1973;16:95:100.

capí capítulo 2 natureza

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capí capítulo 2 natureza

o movimento ecoló ecológico

Não se sabe ao certo, até at que ponto estes novos paradigmas são aceitos ou dados como reais, (são muitas as áreas que começam a se influenciar, desde a “nova física” até “a nova biologia”, entre teóricos que já ganham referencial mundial,

Fritjof Capra, Gregory Bateson, Rupert Sheldrake, David Bohm, e também os trabalhos científicos de James Lovelock, Humberto Maturana, Amit Goswami, que se encarregam de dar “base” teórico-científica para a realização do que se chamou “Ecologia profunda”). Mas, se verifica que a cada dia há h mais adeptos, pessoas buscando formas de ser e estar no mundo, promulgando valores que são muito parecidos com os da “Ecologia Ecologia profunda”. profunda . Como sugeriu Cláudio Cl udio Pastro, Pastro, “o que nos falta é o mito, o rito e o símbolo” nesta modernidade desenfreada. E o mito, este é maior que o fato.

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capí capítulo 2 natureza

3. permacultura e natureza

" O segredo, na verdade, é não fazer. Tudo está está sendo feito pela pró própria natureza, a gente só só tem que observar e assumir uma parceria com ela, entrando num sistema de coco-criaç criação. Tudo o que precisamos fazer é descobrir nossa funç fun ção junto àquele ecossistema para que ele possa se desenvolver melhor. E seguir o princí princípio do Tao, Tao, o fluxo da pró própria natureza.“ natureza.“ ERNST GOTSCH

Um

crescente conceito (e ainda pouco conhecido) que se aproxima ao movimento ecológico é o de Permacultura. A Permacultura está “no caldo” e no “emaranhado” contexto das ações que começaram a nascer como “resposta” aos problemas ambientais globais. Sendo criada por dois australianos, Bill Mollison e David Holmgren na década de 1970, a Permacultura ganhou muito adeptos ambientalistas por ela promover o conceito de “cultura permanente” ou mesmo da “sustentabilidade”. Segundo dizem, a permacultura nasceu restrita à agricultura, permanent agriculture, e mais tarde se estendeu para significar permanent culture, que se refere a todos os processos de organização humana ou assentamentos humanos, em suas diferentes escalas, sob a ótica do “planejamento sustentável”.

Bill

definiu permacultura Mollison (1990) primeiramente como “um sistema evolutivo integrado

de espécies vegetais e animais perenes úteis ao homem” e depois para “um sistema de planejamento para a criação de ambientes humanos sustentáveis”, resultando um salto na busca de uma cultura permanente, envolvendo também aspectos éticos, socioeconômicos e ambientais. Para isso, estabelecesse princípios que envolvem: o

planejamento, a implantação e a manutenção de ecossistemas cultivados no campo ou nas cidades, de modo a que eles tenham a diversidade, a estabilidade e a resistência dos ecossistemas naturais. Alimento saudável, habitação e energia devem ser alguns dos elementos providos de forma sustentável para criar culturas permanentes.

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capí capítulo 2 natureza

permacultura e natureza

Mas para criar culturas permanentes é necessário que se realize ações práticas e experimentais, gestando alguma terra ou alguma área para que se possa dizer que se faz permacultura, talvez seja por isso que a permacultura tenha ganhado adeptos de comunidades ecológicas, sítios, vilas e

consolidado institutos de permacultura em vários lugares do mundo, já que é algo essencialmente prático, capaz de resolver situações do cotidiano humano. Segundo Pamplona, Mollison e Holmgren buscaram princípios éticos universais surgidos no seio de sociedades indígenas e das tradições espirituais, que são orientadas na lógica básica da cooperação e solidariedade. Por isso, a permacultura é enriquecida com uma ética própria que se diz: cuidar da terra, das pessoas e compartilhar excedentes, entre as outras 7 áreas de influência que compõem sua “flor” com 7 pétalas. Como sugeriu Mollison (1990), a ética da Permacultura serve bem para iluminar nossos esforços diários de trabalho com a natureza a partir de observações prolongadas e cuidadosas, com base nos saberes tradicionais e na ciência moderna, substituindo ações impensadas e imaturas por planejamento consciente.

Como já dito, a “permacultura contada” não passa de outra utopia para um mundo demasiado “mecânico”, incapaz de entender como se pode consorciar natureza e economia. Mas, um exemplo de que isto é possível é Ernst Gotsch, agricultor e pesquisador suíço que veio morar no Brasil por conta de seu espanto às condições que algumas regiões se encontravam. Há 20 anos estabeleceu-se numa fazenda ao sul da Bahia, onde, ainda hoje, pesquisa e desenvolve os Sistemas Agroflorestais, que acabaram se vinculando a técnicas da permacultura. Esses sistemas respondem à demanda de produção alimentar através de consórcios de plantas e diversidades de culturas, fugindo dos moldes estabelecidos atualmente pela agricultura tradicional, na qual utiliza agrotóxico e plantio de uma única espécie em

grande extensão (monocultura), entre outras técnicas nãoapropriadas à preservação de plantas e animais. Ele afirma: “Aprofunda-te na matéria! Abre os teus sensos! Tenta perceber as formas dadas pela própria natureza! E tu chegarás a criar laços mais íntimos com ela. Isto acarretará mais sensibilidade nos tratos, nas relações com nossos irmãos (seres vivos) no campo e na floresta, bem como nas relações entre os seres humanos. Assim, a agricultura voltará a ser o que ela era, no sentido da palavra: cultura. Uma tentativa culta de conseguir o necessário daquilo que precisamos para nos alimentarmos, além das outras matérias primas essenciais para nossa vida, sem a necessidade de diminuir e empobrecer a vida no lugar, na terra. Isto implica em considerarmos um gasto mínimo de energia, onde não cabe maquinaria pesada, agrotóxicos, fertilizantes químicos e outros adubos, trazidos de fora do sistema. A agricultura, dessa forma, passa a ser uma tentativa de harmonizar as atividades humanas com os processos naturais de vida, existentes em cada lugar que atuamos. Para conseguirmos isto, é preciso que haja em nós mesmos uma mudança fundamental, uma mudança na nossa compreensão da vida.”

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capí capítulo 2 natureza

permacultura e natureza

Desta forma, ele propõe: “Em suma, o objetivo é criar mais vida, mais fertilidade no solo, um sistema mais próspero. Isto exclui - por sua natureza fortemente entrópica - o uso do fogo para a limpeza do campo, o uso de maquinaria pesada, bem como o uso de agrotóxicos. Também exclui o uso de qualquer adubo trazido de fora, quer dizer, qualquer matéria que não seja resultado direto do metabolismo do próprio subsistema. [...] Ademais, a vida não é estática, ela é um fluxo, uma corrente de espécies e de gerações. Cada uma é determinada pelo que lhe antecedeu, e condiciona a que vem em seguida. Caso haja uma intervenção que leva à mineralização - o que é idêntico a uma descomplexificação - haverá uma perda de vida, uma regressão na sucessão. Por isso, iniciando um plantio novo, nunca faça uma queimada e nem are a terra, pois são duas intervenções que causariam uma grande perda de complexidade, de vida. Tu também não deves cultivar monoculturas, mas sim, como a natureza te ensina, plantar consórcios de espécies, o mais diversificado possível, de todas as etapas sucessionais, a caminho do clímax da vegetação natural do teu lugar. Ou então, mais facilmente, tenta entrar com a tua planta cultivada no ponto da sucessão onde ela seja aceita e levada pelos processos orgânicos do sistema. Isto é, no lugar da sucessão natural onde um tipo de vegetação com características similares iria aparecer naturalmente. Observa o que a natureza faz, aprende com ela e tenta copiá-la! Por exemplo, se tu queres cultivar feijão e milho, planta também a cana e umas laranjeiras, além de muitas outras espécies. Isto significa plantá-las todas juntas, ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Nesse consórcio de milho, feijão e outras espécies, cabe ainda, por exemplo, bananeiras, capim elefante, mandioca, inhame, pimenta malagueta, sapoti, leucena, mulungu, sapucaia, mangueira e ainda pimenta do reino nas árvores altas do futuro.

Cada espécie contribuirá para completar o consórcio e para que todas as outras prosperem melhor. Nenhuma delas cresce ou produz menos devido à presença das demais, pelo contrário, cada uma depende da outra para conseguir chegar ao estágio de desenvolvimento ótimo. É provável que as culturas que tu introduziste ainda precisem de dezenas de outras espécies de ervas, arbustos e árvores, sem contar as milhares de espécies da microflora e da fauna, para que o potencial de vida se desenvolva plenamente e para que as tuas culturas sejam prósperas e produtivas. A exemplo disso temos o feijão e o milho, que prosperam onde surge uma clareira na mata com maior acumulação de matéria orgânica, oriunda de ervas, cipós, arbustos e árvores periodicamente rejuvenescidas, portanto, um sistema naturalmente bastante rico, enquanto biodiversidade. Sabe-se, também, que o milho produz mais sendo plantado junto com o feijão, tal como ocorre com o abacaxi e a mandioca, que devem ser plantados junto com as árvores que os seguem na sucessão. Assim, o milho e o feijão, tal como o abacaxi e a mandioca, são ótimos criadores de árvores. Também a bananeira, quando plantada juntamente com laranjeira, tem mais saúde do que sem a presença dela e vice-versa. E quanto à produtividade, qualidade de frutos e potencialidade, elas dependem da companhia da ingazeira e do mulungu. Por sua vez, a sapucaia também precisa de uma vegetação próspera de um modo similar ao consórcio acima descrito, para obter um grau ótimo do seu desenvolvimento. Cada espécie desse consórcio depende dos minerais que árvores como a sapucaia mobilizam do subsolo, através das suas raízes pivotantes, tornando-os disponíveis na forma de folhas, que trocam anualmente, e nas frutas que produzem em grandes quantidades.

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capí capítulo 2 natureza

permacultura e natureza

Muitas vezes, as espécies que pretendias cultivar não são mais adaptadas para o dado lugar. Este é um fenômeno bem comum nos lugares onde a agricultura se encontra em crise. Não tentes, neste momento, usar "muletas" na forma de aração, de leiramento, de capina geral e outras atividades, que provocam efeito de mineralização acelerada e forçada. O resultado será um solo empobrecido. Trazendo adubo de fora tu não conseguirás acelerar os processos sucessionais. Com a introdução do adubo, estarás apenas criando uma ilusão para a planta que não estava prevista para aparecer e dominar naquele contexto. Quando for gasta a energia do adubo trazido de fora, o sistema vai regredir. Por isso, faz o que a natureza te ensina, planta o que pode prosperar nas condições do teu solo. Essa vegetação, por sua vez, fará o solo prosperar. Começa, se necessário, com as espécies colonizadoras e pioneiras, com as plantas mais rústicas! Escolhe as mais eficientes, aquelas que têm a maior capacidade de aumentar a vida e de melhorar o solo naquela determinada situação. Nós podemos conseguir uma melhora até mais rápida do que a observada na capoeira. Primeiro, através do uso de espécies e de consórcios de espécies mais eficientes para cada situação e -sendo árvores e arbustos plantando em alta densidade populacional. Segundo, usando sistematicamente duas técnicas. Uma é a capina seletiva, que consiste em arrancar seletivamente aquelas ervas que vêm amadurecendo e aquelas que têm sido ecofisiologicamente substituídas por plantas cultivadas. A outra técnica é a podação de herbáceas perenes, arbustos e árvores, que segue os mesmos critérios usados na capina seletiva, e consiste em cortar ou podar de acordo com a espécie e com a função dela dentro do sistema.

Temos como resultado das duas operações: 1. O temporário aumento de penetração de luz. 2. Uma maior quantidade de matéria orgânica no chão, que protege e enriquece o solo, o que resulta num aumento das atividades dos microorganismos e num PH mais próximo ao neutral (são os microorganismos que estruturam o solo, tornando desnecessário o uso da enxada). 3. Maior capacidade do solo para reter água, devido ao seu enriquecimento e sua melhor estruturação. 4. O rejuvenescimento do sistema, visível na rebrotação profusa e violenta, e na saúde próspera de todas as plantas, pouco tempo depois da intervenção realizada através da capina seletiva e da poda.

A

planta é quem faz o solo, ela traz fertilidade para a terra. Uma das principais características das plantas de todos os seres vivos, da vida inteira, do nosso planeta como macroorganismo - é de transformar, de otimizar a organização dos fatores necessários (água, minerais, raios solares ou energia) em sistema de vida. O agricultor sábio vai tentar planejar e realizar as suas intervenções de uma forma que o resultado das suas operações seja uma harmonização e uma sincronização e, talvez, no melhor dos casos, uma aceleração dos processos que contribuem para o aumento de vida.”

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capí capítulo 2 natureza

permacultura e natureza

Contudo, ainda vemos que a assimilação assimila ão teórica te rica de tais conceitos está est infinitamente longe de representar, de fato, o sentimento que se tem quando nos deparamos com uma experiência real de cultivo da terra, coisa que pode nos assustar em tal momento, por presenciarmos em nós n s mesmos a sensação sensa ão de pequenez diante dos fenômenos que se sucedem na natureza, por isso, a dica é clara: comece observando.

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capĂ­tulo 3 modos de vida


capítulo 3 modos de vida

1. a palavra comunidade

as comunidades "People today use the word "community" almost as loosely as the word "love". As a result, its meaning, like that of the "love", has become extremely fuzzy". Shaffer e Anundsen

Wong Un (2002), em seu trabalho sobre Visões de Comunidade na Saúde, descreve a impressão que a palavra Comunidade tem ganhado na história das ciências sociais: “Comunidade, metáfora social e cultural, entra dentro daquele grupo de imprecisões e amplidões que geram ansiedade e perplexidade, embora também gerem esperanças e utopias, na vida e na reflexão das pessoas. Um estudo realizado na década de 1960, somente dentro do campo das ciências sociais, contabilizou mais de noventa definições distintas de comunidade (Hamilton, in Cohen, 1989). A idéia de comunidade é uma preocupação antiga, diz Paiva (1998), revisando como já era discutida a comunidade entre os gregos. Ainda, comunidade possui, no mundo contemporâneo, o poderoso “encanto da nostalgia, da volta a uma idade de ouro, à sociedade idealizada” – tão bem descrita por Tönnies (socialista utópico) em "Comunidade e Sociedade", à maneira de um mundo perfeito onde as pessoas relacionavam-se em base à identificação comum, ao interesse na ajuda mútua, e colocando os objetivos coletivos acima dos pessoais. Acreditamos que a dimensão simbólica de comunidade (aquilo em que as pessoas acreditam, aquilo que as pessoas desejam e buscam) é a mais importante para a saúde coletiva já que ela permite que nos aproximemos, dialoguemos, proponhamos ações e depois as realizemos – sem desconsiderar, é claro, a percepção das desigualdades e situações de opressão e exploração que, sabemos bem, coexistem com os ideais e sonhos.”

E também diz sobre a importante noção de estudar esse tema: “os profissionais em geral, ao sair das universidades, não estão preparados para perceber e compreender um conjunto valioso de processos culturais e de formas de comunidade que estão se criando, modificando e desmanchando de forma acelerada, de acordo com as configurações sociais contemporâneas. [...] é vital, o reconhecimento da necessidade e das vantagens potenciais de ampliar nossas visões sobre comunidade, indo da rigidez e materialidade, para a flexibilidade e materialidade subjetividade, num processo que englobe subjetividade e integre todas estas dimensões.

Assim, vivemos uma incrível contradição, na medida em que reconhecemos a necessidade da valorização comunitária, as transformações do mundo resultaram em uma “desterritorialização” de maneiras tradicionais e de organizações sociais voltadas para a comunidade, gerando uma “modernidade líquida”, globalizada, assim como descreve Wong Un (2002) em seu texto sobre Bauman:

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capí capítulo 3 modos de vida

a palavra comunidade

Na verdade, sua crítica diz a respeito a grupos que

oje os padrões e configurações não são mais dados, e menos ainda auto-evidentes; eles são muitos se chocando entre si e contradizendo-se em seus comandos conflitantes, de tal forma que todos e cada um foram desprovidos de boa parte de seus poderes de coercivamente compelir e restringir. Qualquer rede densa de laços sociais, e em particular uma que esteja territorialmente enraizada, é um obstáculo a ser eliminado. [...] E são esse derrocar, a fragilidade, o quebradiço, o imediato dos laços e redes humanos que permitem que esses poderes operem. [...] O sucesso da nova ordem não é mais a conquista territorial, mas a destruição das fronteiras (geográficas e simbólicas) e de qualquer resistência contra ela. A desintegração das redes sociais, a "derrocada das agências efetivas de ação coletiva", é tanto condição quanto resultado do novo poder.”

pretendem propor ordens excludentes, reacionárias, e criar grupos fechados, possibilitando a discriminação e acirrando potenciais ou existentes lutas entre grupos, étnicos ou territoriais. Mas, como mesmo disse Wong Um (2002): “o que o sociólogo

“H

Neste fragmento sobre Bauman (2002), é enfatizado a fragilidade em que muitas culturas e modos particulares de vida se encontram, na medida em que crescem as generalizações de um modo de vida “desterritorializado” e hegemônico. Aliás, afirma que é justamente nesta fragilidade de vínculos sociais e afetivos que as relações hegemônicas operam. No entanto, em determinado momento diz que, não é mais possível regressar, ao menos que partamos de uma “utopia da comunalidade”, do “primitivismo” generalizado de maneira global, coisa que dificilmente ocorreria, mesmo com tantas experimentações. Mas, o que se mostra palpável é a retomada de um sentimento comunitário, de ações que possam restabelecer os vínculos com o coletivo, ao mesmo tempo, com a própria singularidade dos povos, de micro a macro escala.

polonês parece ter esquecido – ou não os considerou parte da sua reflexão – todos os movimentos de criação de outras modernidades, de outras mundializações. É o que o indiano Arjun Appadurai (1997) denominou de "modernidades alternativas" dentro do sistema mundial (World System); são novas formas de articulação cultural dentro da formalidade do sistema mundial.” E desta forma, com suma importância, afirma: “A agressão das novas técnicas de poder contra as formas associativas, as ordens alternativas, e as "redes densas de laços sociais" que atrapalham ou resistem a sua movimentação líquida, é de impacto relativo. Se, de fato, o controle da cultura oficial, da economia e das forças ordenadoras, outorga à "ordem líquida" um poder sem precedentes, acreditamos que, pelo fato de não haver mais "alvos fáceis", concentrados, as redes comunitárias de interações conseguem ser fluídas também, fazem uso das novas tecnologias, constroem éticas, estéticas, economias e políticas que, tão sabiamente como antes, garantem a supervivência do grupo, o florescimento (subalterno) das culturas em transformação. [...] talvez pelo fato de estarem acabando, os laços humanos tornam-se frágeis e transitórios, gerando ansiedade e a busca sincera de coletividade. Uma procura por retornar à "comunidade perdida".

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capí capítulo 3 modos de vida

a palavra comunidade

A

sensação de "perda de comunidade" está relacionada, no Ocidente, ao processo de individualização (a criação histórica de indivíduos baseados nas relações entre sujeitos, e nas interações com fronteiras simbólicas) processo que, ao longo de quatro séculos, foi "modelando" sujeitos autocontrolados, com "imensos" mundos interiores, que se sentem isolados e separados do resto, e que buscam, dentro de si, o seu verdadeiro "Eu" (Elias, 1994). Sabiamente, Wong Un (2002) conclui: “A interioridade, uma parte da construção cultural da pessoa (Duarte, 1997), surge do diálogo, nem sempre harmonioso, entre o "interior" do sujeito e os limites e procedimentos colocados pela sociedade. Só que, segundo Elias, o interior da pessoa e os procedimentos de controle influenciam-se mutuamente, sendo difícil separá-los, a risco de não conseguir compreender a figura completa. No mundo contemporâneo, lugar das megalópoles, das relações interpessoais baseadas nas transações comerciais, onde os indivíduos devem "correr atrás" de "objetivos" que não tiveram tempo de definir, nem liberdade para escolher, é certamente lógico esperar o sentimento de perda, a experiência de que algo foi perdido, e o aparecimento da promessa de portos seguros, paraísos comunitários (Castells, 1999), utopias colocadas além (no futuro e no passado) do insípido e solitário presente. Essas promessas, sem autor definido, assumem a forma de movimentos comunitários, movimentos étnicos, movimentos religiosos ou outras formas associativas que com freqüência – mostram-se rígidos e autoritários. Daí a pertinência da crítica elaborada por Bauman.”

No entanto, sem querer levantar juízo de valor sobre determinados tipos de associações ou comunidades, ou mesmo, descartar a importância das mesmas, tanto sociais, étnicas ou religiosas, vamos entender positivamente a noção de comunidade, como essa busca de identidade individual e coletiva e realização, que se interpenetram, e fazem ressurgir modos de vida diferenciados, assim como atuações distintas da proposta pela “globalização”:

E

“ mbora, no início, os estudos sobre movimentos

sociais não consideraram muito esta dimensão simbólica, em tempos recentes, ao pesquisar como acontecem os mecanismos de resistência e luta, foram sendo descobertas formas silenciosas, pacientes, veladas e íntimas de resistência. Surgiram também novas abordagens onde a resistência e a luta deixaram de ser o foco principal para pensar o lado "positivo", os movimentos de iniciativa, recriação, formas de burlar, de construir culturas próprias, partindo de fragmentos produzidos com fins diferentes pelos grupos hegemônicos. Essa mudança de visão é importante, pois começam a explorar-se as formas que as culturas subalternas assumem na adversidade. Além disso, graças aos avanços teóricos do feminismo, à psicanálise, e aos estudos de Foucault, incorporou-se o estudo do "privado", do "íntimo" como dimensões do político, das relações de poder. A aproximação aos movimentos sociais e, por extensão, às comunidades, passou, primeiro, da estrutura social rígida às relações sociais,

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capí capítulo 3 modos de vida

a palavra comunidade

visualizando culturas fluidas e com grande capacidade de se adaptar às novas circunstâncias; e, segundo, passou de uma visão que considera as culturas e comunidades periféricas como simples vítimas (sofredores, alienados, moribundos), a outra que os vê como grupos que resistem e criam com originalidade, fazendo uso dos mecanismos aprendidos das tradições locais e pela adaptação criativa do externo.” Consideravelmente vemos que, o termo Comunidade, vai além al m território de algo fixo, estabelecido em algum “territ territ rio”. rio . Talvez esta palavra não tenha tido tantos significados como atualmente, já j que nos encontramos em freqüente freq ente trânsito: emocional, territorial, social, cultural, etc. Mas adotaremos a definiç definição clá clássica de territó território e representaç representações destas. Assim, percebemos que estudar comunidades ou “ser com elas” elas” será será no mínimo intrigante. Formas de Associaç Associação Comunidade

Sociedade

Modos de união / Motivaç Motivação

Afetiva

Objetiva

Modelo de relaç relação

União na separaç separação

Separaç Separação na união

Círculo vital

Famí Famílialia-aldeiaaldeia-cidade

Metró Metrópolepole-naç naçãoãoEstadoEstado-Mundo

Normas e controle

UniãoUnião-hábito / CostumeCostumereligião

Convenç Convençãoão-leilei-opinião pública

Padrão de intensidade

Relaç Relações locais - Interaç Interação

Relaç Relações supralocais complexidade

Forma de unidade

Orgânica

Fonte: Wong Um (2002), Visões de Comunidade na Saúde

Mecânica (utilitá (utilitária)

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2. as comunidades

As

classicamente”” foram comunidades “classicamente caracteríística da localidade. A identificadas com a caracter comunidade local seria aquela composta por umas poucas territó geográ moradias, em um territ ório geogr áfico definido, famíílias geralmente pequeno, com pessoas constituindo fam extensas e dedicadas a atividades tradicionais como criaç domé agricultura, cria ção de animais dom ésticos, numa economia de subsistência. Usualmente relacionada com o comunitá mundo rural, a estrutura comunit ária teria dois aspectos geográ principais, o geogr áfico e o organizativo. No entanto, a partir dos termos que entendemos a palavra comunidade, sabemos que esta pode se “generalizar”, tendo outras características além destas, mas sempre motivada pela união afetiva, de forma orgânica e não “mecânica”, sendo também provedora de cultura, além de originalidade gerada através da adaptação criativa ao sistema “global”. Desta forma, nos tópicos que seguirão, veremos diferentes tipos de comunidades, como representantes de modelos que existem. As características que a definem serão de suma importância para entendermos sua dinâmica dentro do processo de hegemonia cultural e social. No que concerne à arquitetura e ao habitar propriamente, estaremos relacionando freqüentemente esses tópicos a tais modos de vida, já que neste trabalho se entende que um modo de vida também se manifesta materialmente nas ações, do construir e do gerir a matéria.

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as comunidades

1. vida tribal sociedade primitiva

D

“ e sua efêmera experiência de civilizaç civilização, os índios só só conservaram suas roupas brasileiras, o machado, a foice e a agulha de costurar. O resto foi um fracasso. Lhes construí construíam casas e viviam fora delas; tentaram fixá fixá-los em aldeias e continuaram nômades; quebravam as camas para fazer fogo e se deitavam no chão. As vacas que o governo havia enviado vagavam soltas, em manadas; eles rejeitavam com asco sua carne e seu leite. Os monjolos (..) apodreciam inú inúteis, já já que a prá prática geral seguia sendo moer à mão.” mão.” Lévivi-Strauss (1973)

Desde

tempos, sabemos que o homem além de procurar se adaptar ao meio e constituir sociedade, também objetiva dominar, seja diferentes tipos de territórios ou povos, com o intuito do poder, do controle, da riqueza e da conquista geográfica e simbólica. Mesmo antes de se iniciar a interpenetração “agressiva” de culturas no Brasil, através da chegada de povos colonizadores, já se sabia da existência de diferentes culturas que a olhos etnocêntricos, eram “primitivas”.

Como

já sabemos, primitivo é o nome dado a determinado tipo de organização social ou ao humano que vive em modos “primórdios à civilização”, normalmente “integrado à natureza selvagem”. Primórdios porque vêm primeiro, antes de qualquer conjuntura “urbana” ou “complexa”, entendendo o urbano ou mesmo a cidade como “gerador de um modo de vida especializado”.

Especializado em muitos sentidos, tanto na forma de produção do trabalho, de seus espaços e bens de consumo para atender às “necessidades humanas”, como o rebuscamento de inúmeras destas, tornando-a cada vez mais dinâmica em sua estrutura, não tendo um fim em si mesma. É peculiar como entendemos complexidade, a natureza do mundo e dos seres que não foram criados pelo homem parecem ser muito mais complexas que as simples “teias concretas de estradas ou comunicações”

Darcy Ribeiro dá nome aos diferentes processos civilizatórios que encontramos, dizendo que há como distinguir duas vias possíveis: a primeira que designou como acelera aceleraç evolutiva, ção evolutiva

corresponde a uma progressão de um povo de uma a outra etapa da evolução sócio-cultural, com a preservação de sua autonomia étnica, cultural e política. A segunda, atualiza atualizaç ção ou incorporaç histó incorpora ção hist órica, corresponde à conscrição de povos estranhos por centros exógenos de dominação que os convertem em seus “proletariados externos”, destinados a produzir excedentes para a manutenção de seus padrões de vida do núcleo cêntrico. Em lugar de uma aceleração evolutiva, os povos americanos experimentaram uma atualização histórica. Este processo representou muitas vezes espoliação e despotismo.

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capí capítulo 3 modos de vida

as comunidades

vida tribal sociedade primitiva

Desta

forma, Darcy afirma: “estes últimos não experimentaram o processo civilizatório desencadeado pela revolução tecnológica como uma ascensão de uma a outra etapa da evolução humana, mas como uma dominação despótica que os priva de sua autonomia e só lhes permite conhecer parcialmente a nova tecnologia”. Mas, o que não se procurou saber é se eles estavam dispostos a conhecer essas novas tecnologias, ou ao menos, se lhes interessava. No âmbito da antropologia, há muitos estudos que tentam perfazer estas questões e de certa forma valorizar a cosmovisão¹ de povos que estiveram submetidos a processos civilizatórios “sacrificantes”. Nas sociedades ditas primitivas, ainda existentes em vários lugares do mundo, há significativa diferença na maneira de viver a vida em relação aos padrões “globais” das teias “complexas” e “densas” de pessoas e cidades que se formaram. Suas características englobam em geral:

trabalho não-especializado, inexistência de uma moeda de troca (quando acontece é à base de produto por produto), apropriação do conhecimento por todos, (apesar de haver divisão de tarefas específicas entre homem e mulher que lhes é ensinado desde pequenos, cada família tem a sua disposição tudo que precisa para ser auto-suficiente), construção de habitações com materiais disponíveis no local, cultivo de alimentos em forma de roça itinerante, pesca (através de armadilhas no rio ou instrumentos fabricados por eles), coleta, caça, artesanato (cerâmica, tecelagem ou cestaria, além da confecção de instrumentos para o trabalho e étnicos, para identificação de seu povo, através da ornamentação, em rituais, danças, etc.),

vida comunitária como base de sociabilização, onde apesar de realizarem atividades individuais e divididas por sexo, se encontram freqüentemente ligados por trabalhos e danças coletivas, assim como por “iniciações” ou “ritos de passagem” em várias épocas da vida.

Muitos

destes grupos também tinham como base a

itinerância em seus territórios, ou seja, eram nômades, sendo isto modificado pela condição de vida social imposta por grupos dominantes que acabou por privatizar a terra. Estes povos que as florestas habitavam tinham um conhecimento não-sistêmico, ou seja, a forma de transmissão de cultura não era dada através da existência de instituições ou da escrita, mas sim pela “ancestralidade” (de geração em geração, ou mesmo pelo grupo social, que iniciava seus “filhos” na tradição), pela prática de suas experimentações em vida ou mesmo pela comunicação oral. Não há divisão clara entre trabalho e lazer, nem ao menos de realidade e sonho. Muito pouco desta cultura permaneceu em nosso país, mas ainda existem locais “inexplorados”, com os chamados ¹ cosmovisão é uma tradução da palavra alemã weltanschauung, que significa ‘modo de olhar o mundo’ (welt - mundo, schauen - olhar).

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as comunidades

vida tribal sociedade primitiva

“povos isolados” que já foram reconhecidos pelas instituições. Estes povos, de uma forma ou de outra, já sabem de nossa existência. Freqüentemente, se vêem envoltos de sobrevôos de helicópteros e aviões, atirando flechas para tentar se proteger de tal elemento desconhecido. Qual seria a implicação deste contato, afinal?

Certa

vez, ouvindo sobre povos primitivos africanos, contou-se que em determinado época também houve este tipo de influência, com helicópteros e aviões, e que após retornar a esta tribo para entendê-los, muitos dos desenhos e hábitos que se produziam eram no encontro da “deusificação” destes elementos, como se estes representassem uma soberania sobre eles.

Sobre

a situação contemporânea destes povos, pouco se tem a dizer, já que só no Brasil, há uma diversidade inimaginável de etnias, cada qual em sua própria cosmovisão, que se aglomeraram e se sedentarizaram em meio a reservas naturais, parques ecológicos, aldeias ou fragmentos de floresta. Seu território é demarcado por instituições que ditam normas e que fazem de tudo para “preservá-los” ao mesmo tempo em que buscam “integrá-los” a uma unidade territorial e federativa.

Cabe a todos nó nós o entendimento destas questões para fazermos florescer o respeito de uma sociedade disposta a aceitar os diferentes modos de vida.

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as comunidades

2. comunidades indí indígenas “Onça existe para ficar no mato, para comer bicho e também para enfeitar a mata; pássaros e passarinhos, para ficar na árvore, para se criar, dar penas e, alguns, para comer; peixe, para ficar na lagoa à espera de quem os queira pescar. História existe para ser contada pelos velhos. História do índio é como a de civilizado, serve para que se conheça como se fazem as coisas, para não esquecer o antigo, enfim, para não acabar. Gente serve pra ficar em pé, trabalhar, namorar, casar e ter filhos.” Visão de mundo kamaiurá

Diz-se sílvícula ao índio, aborígene ou habitante primitivo do país. Segundo art. 3º, I, do Estatuto do Índio (Lei nº 6.001/73): "Índio ou silvícola - É todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é intensificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional” e comunidade indígena ou grupo tribal ao: “conjunto de famílias ou comunidades índias, quer vivendo em estado de completo isolamento em relação aos outros setores da comunhão nacional, quer em contatos intermitentes ou permanentes, sem contudo estarem neles integrados.”

N

o entanto, atualmente, das comunidades remanescentes indígenas que ainda sobrevivem, poucas se mantêm totalmente fidedignas a sua tradição e valores étnicos. Seus costumes tanto como suas mitologias já incluem o “civilizado” como participante do processo, tentando explicar a partir delas a contradição que vêem em suas diferentes maneiras de ser e existir. Um fragmento de uma declaração dos índios kamaiurás, moradores atualmente do Parque do Xingu expressa essa cosmovisão: “Mavutsinin criou ambos com a intenção de formar uma grande aldeia no Morená. Quando os dois se

tornaram adultos, Mavutsinin fez um arco preto e uma arma de fogo. Chamou os rapazes e colocou-os diante dos objetos. Mandou que o kamaiurá pegasse a arma de fogo: “Você pode pegar aquela, meu neto.” Mas o kamaiurá manteve sua escolha. Diante disso, o civilizado pegou a arma de fogo para si. Irado com o desfecho dos acontecimentos, Mavutsinin falou: “Você civilizado vai para longe, seu irmão fica por aqui mesmo.” Frustada idéia da grande aldeia, o criador definiu o destino diverso dos dois, dando ao índio o peixe e o beiju e ao civilizado o porco, o arroz, a gordura, o tijolo, o machado e uma lista interminável de bens. Ainda hoje, no Morená, podese ver o kamaiurá todo pintado, sentado num banco com forma de urubu e segurando firme seu arco. Dizem mesmo que o civilizado, entristecido com a decisão de Mavutsinin, lá está também perto do índio. Lá ficarão eles, se nunca morrer, sempre sentados e calados.” O contato destas comunidades com o “civilizado” tem realizado inúmeras transformações e gerado, crescentemente, dependências do índio para com as “instituições” do homem branco. Antes vivendo mais livres e sem demarcações territoriais podiam transitar como nômades que eram, sem as burocracias dos “postos” que foram se instalando nas reservas..

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capí capítulo 3 modos de vida

as comunidades

comunidades indí indígenas

Diante de dificultosa situação, não se sabe mais os critérios para admitir limites das influências entre índios e civilizados. Mas podemos de forma geral representar a situação de uma comunidade indígena, entre outras coisas, pelo seu trabalho na terra e atividades ligadas à auto-suficiencia alimentar: “tanto

Junqueira diz sobre a situação dos kamaiurás: “Em linhas gerais, duas preocupações básicas orientam as atividades do parque: garantir a sobrevivência das populações indígenas da área e evitar a desorganização da vida tribal. Na prática, a administração luta pela preservação da inviolabilidade do território indígena, fornece serviços médicos e dentários preventivos e curativos, buscando ainda persuadir o índio ao hábito da consulta e do tratamento; introduz produtos agrícolas e técnicas de trabalho capazes de aumentar a produção de alimentos e enriquecer a dieta nativa; controla a entrada de pessoas na região e suas relações com os índios; procura evitar a saída de índios para fora dos limites do parque; faz doação regular de artigos industrializados, dos quais o índio passou a depender; e, finalmente, fornece, àqueles que se interessam, treinamento prático em tarefas usuais do parque: ajudante de cozinha, cozinheiro, pedreiro, carpinteiro, responsável pela manutenção de máquinas e motores, etc. Essa política de fato iniciou-se por volta de 1946 quando os irmãos Villas Boas estabeleceram acampamento na área e hoje já é possível avaliar a viabilidadde dos princípios que procuram defender.”

naquela época como agora, a terra sempre se constitui em objeto de trabalho, objeto sobre o qual aplica-se energia humana para se ter como produto um terreno limpo, pronto para o plantio. Assim, foi a substituição do machado de pedra pelo de metal que provocou a grande mudança. Garantiu fartura ao facilitar a abertura de roças, possibilitando relação melhor entre trabalho e produção. O kaiamurá a isso se refere, poderando: “antigamente, trabalhava-se duro, mas pouco. Custava muito derrubar árvore com machado de pedra. Hoje, trabalha-se muito: em pouco tempo se derruba a mata”. Desta forma, o que se denominou desenvolvimento agrícola nada mais é do que maior produtividade gerada pela utilização do instrumento de metal, proveniente de uma sociedade tecnologicamente mais avançada. A mudança fundamental que aí ocorre diz respeito à qualidade do instrumento de trabalho e não ao surgmento de novo tipo de instrumento. Considerando ainda que o machado de metal é produzido fora do grupo kamaiurá é de se supor que o sistema de utilização da terra tenha permanecido o mesmo e com ele mantido constante o número de horas de trabalho. Essa mudança, que parece ter atingido principalmente a dieta indígena, adquire significado mais profundo quando se analisa a qualidade dos vínculos que desde então se estabeleceram entre a sociedade doadora do metal e a indígena”.

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comunidades indí indígenas

Mas ao mesmo tempo que o metal não resultou em significativa mudança no modo como se organizavam no trabalho, definiu o grau de dependência da economia nativa frente à brasileira. Como diz Junqueira: “é irreversível por ser impraticável o retorno

ao machado de pedra ou a reprodução local do machado de ferro, mesmo que a organização do trabalho não tivesse se alterado, nem criado grupos especializados, por estar o kamaiurá desvinculado do processo de sua fabricação.” Desta forma, compreendem atividades indígenas:

plantar, roçar, comer, pescar, construir suas casas, preparar a comida, dançar, ritualizar, ter filhos e as vezes rir e chorar, quando a noite se encontram para dormir nas casas (conta-se que uns choram outros riem e fica como um “coro de bichos” na floresta). Sobre a visão kamaiurá do modo de vida do homem civilizado pode-se dizer: “Como Mavutsinin ficou

muito bravo com kamaiurá, deu deusapé -lhe apenas sap é para construir casa; ao civilizado deu tijolo. A casa de caraib é muito forte, muito bonita e limpa. A do índio é fraca e suja. Índio não limpa, índio é assim mesmo. (Quando as casas se enchem de pulgas, queima-se tudo e constroem de novo). Pensando bem, civilizado já não é mais como índio. É muito diferente. O primeiro civilizado que apareceu aqui disse que se chamava caraib. Não se sabe se era esse o seu nome.

A

palavra não é da língua kamaiurá. Mais tarde, eles mesmos se distinguiram em militar, alemão, inglês... Índio antigo chamava a todos: caraib. Caraib vive de forma diferente do índio não só porque tem máquina. Também trabalha diferente. Trabalha para ganhar roupa, para comprar coisas. Índio não. Trabalha, mas “não paga não”. Trabalha só para ele, para a mulher e filho. Não trabalho para o outro. Trabalha pouco. É melhor trabalhar como índio. Caraib trabalha demais: vai trabalhar, às 11 horas vê o relógio: está na hora de ir embora. Almoça. Ao meio dia vê relógio: está na hora de voltar e trabalhar. Trabalha. Vê relógio: é muito tarde, hora de voltar para casa. Está cansado e com fome. Trabalha muito assim porque tem muito o que fazer. Índio não. Trabalha só uma vez. Vai à roça, qando sente sol quente volta logo para comer beiju, mingau, peixe. Kamaiurá come muito, mais do que caraib. Come toda hora, o dia inteiro. Não tem hora para comer. Quando à noite chega gente da pescaria e o pessoal da aldeia está dormindo, dono do peixe os acorda. Índio não dorme para comer. Não se entende como caraib agüenta esperar para comer! Caraib joga fora sobra de comida, dá pra cachorro, porco. Índio come tudo. Caraib come às 11 horas, depois só a noite. Não bebe água, bebe muito pouquinho. Índio não, toma cauim, fica com sede toma mais cauim, toma cauim o dia inteiro. Civilizado poderia viver assim como índio: ir pescar enquanto mulher trabalha beiju, mandioca. Mas civilizado não vive assim. Poderia se quisesse. Talvez não viva porque não queira.” queira.”

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E

assim, concluem: “É bom viver como índio, como se vive agora. Antigamente tinha muito feiticeiro. As crianças de hoje viverão, quando adultas, como índio, isto é, como se vive hoje e como se viveu sempre. Se quiserem viver como caraib então vão usar sempre camisa, não saberão mais lutar, nem fazer roça, nem pescar (e isso se aprende deste criança). Bom é viver assim, índio não gosta de mudar: nasceu índio vive como índio. Pode mudar se quiser, mas não é bom. Índio fica aqui trabalhando, lutando, dançando. É bom estudar, para saber ler, entender tudo. Estudar, mas ficar do jeito que está: índio. É bom assim, caraib vem um pouquinho por aqui, depois vai embora. Índio não pode morar na cidade. Gostaria de visitar, conhecer, ver como faz tudo isso que caraib tem. Mas não acostuma lá. Volta logo. Índio morre aqui mesmo.”

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3. comunidades negras rurais quilombolas

“Zumbi, ôôô zumbi/ o que é que você ta querendo/ que não fica mais aqui?/ tô querendo a igualdade/ to buscando a liberdade/ e por isso eu vou fugir/ vo chamar o quilombola/ pra resistência camaradinha”” (autor construir, camaradinha desconhecido domíínio popular) dom

As

comunidades negras rurais ou quilombolas representam uma realidade social aproximada da dos índios em nosso território. São inúmeras as populações que viveram isoladas por muitos anos com o fim da resistência. Quando eram explorados e considerados escravos, alguns almejavam restabelecer sua condição tribal, advinda como herança de seus antepassados africanos. Desta forma, fugiam para os recantos da capoeira e por lá ficavam. Mas isso não foi um contexto existente somente na época da escravatura. Ele continua a existir como um fenômeno presente para muitos descendentes de negros escravos e ocupando várias partes de nosso território brasileiro com a existência de mais de 2 mil comunidades quilombolas.

Foi

na constituição de 1988 que ficou estabelecido às comunidades renascentes de quilombo seu direito à propriedade do território: “Aos remanescentes das

comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos.” Até antes disso, não havia grandes esperanças que isso fosse possível acontecer: “Apesar do reconhecimento dos

direitos territoriais dessas comunidades pela constituição de 1988 - tardio, aliás, porque consagrado quando mais cento anos haviam se passado desde a data de abolição da escravatura - ainda prevalece a estratégia deliberada pelas elites escravocratas com o objetivo de evitar que os negros pudessem ter a posse legal de terras. Mesmo que este tipo de posse não ameaçasse o perfil da estrutura agrária do país e o Estado jamais tenha deixado de beneficiar famílias de imigrantes com grandes extensões, a Lei da Terra, de 1850, pela qual toda e qualquer terra devoluta só poderia ser obtida através de compra - e por preço elevado - foi um sinal bastante eloqüente de que não estariam em nenhum momento futuro dispostas a garantir aos negros a possibilidade de emancipação econômica. Depois, entre a revogação da lei e a promulgação da Constituição atual, a omissão pura e simples do Estado em relação às áreas remanescentes de quilombos foi a maneira de negar a posse de áreas secularmente ocupadas.”

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Com a concretização desse direito suscitou logo de início um Assim, acalorado debate sobre o conceito de quilombo e de remanescente de quilombo. Trabalhar com uma conceituação adequada fazia-se fundamental, já que era isso o que definiria quem teria ou não o direito à propriedade da terra:

“Contemporaneamente, portanto, o termo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de uma população estritamente homogênea. Da mesma forma nem sempre foram constituídos a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados, mas, sobretudo, consistem em grupos que desenvolveram práticas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos num determinado lugar. [...] Deste modo, comunidades remanescentes de quilombo são grupos sociais cuja identidade étnica os distingue do restante da sociedade. [...] O que caracterizava o quilombo, portanto, não era o isolamento e a fuga e sim a resistência e a autonomia. O que define o quilombo é o movimento de transição da condição de escravo para a de camponês livre.” Desta forma, não somente como condição de escravo fugidio um quilombo se conforma: “estudos mostraram que as

comunidades de quilombo se constituíram a partir de uma grande diversidade de processos, que incluem as fugas com ocupação de terras livres e geralmente isoladas, mas também as heranças, doações, recebimentos de terras como pagamento de serviços prestados ao Estado, simples permanência nas terras que ocupavam e cultivavam no interior de grandes propriedades, bem como a compra de terras, tanto durante a vigência do sistema escravocrata quanto após sua abolição.”

fica evidente uma realidade social muito mais complexa do que poderíamos supor. Nos últimos anos que se sucederam, novas articulações foram feitas, estabelecendo outras diretrizes para a consolidação do direito à propriedade, o que de certa forma, ainda barra a posse efetiva: “Atualmente, a legislação brasileira adota e

reconhece que a determinação da condição quilombola advém da auto-identificação [...] inclusive porque adotam o mesmo regime de propriedade e produção comunal. [...] A contribuição do governo Lula para a paralisia do preceito constitucional não é menor que as contribuições de governos pregressos. A lentidão com que dá andamento aos processos de regularização fundiária, é uma evidência de que esta atividade nunca foi uma prioridade deste governo: em março de 2008, 87% dos processos abertos no Incra (450 processos) aguardavam pelo relatório de identificação do território, que constitui a etapa inicial da regularização fundiária, e no ano passado foram publicados apenas 20 relatórios técnicos de identificação e delimitação. É óbvio que a causa mais imediata de tamanha lentidão é a escassez de recursos orçamentários efetivamente aplicados na atividade, que em nenhum destes anos de governo chegou a pelo menos metade do que constava no Orçamento Geral da União. É o que se espera de um governo que não abre mão da política de geração de elevado superávit primário que inviabiliza a integralidade e continuidade das políticas públicas, em especial aquelas destinadas ao atendimento dos direitos sociais. Mas seria ingênuo acreditar que essa lentidão se deve tão somente à política de contenção do gasto público que atinge o conjunto das políticas sociais devidas pelo

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estado; é evidente que se trata de política deliberada para não desagradar ou mesmo para favorecer na prática os grupos interessados nas áreas quilombolas.Durante o ano de 2003, a paralisia foi justificada com o argumento de que faltava um decreto que o regulamentasse; um falso argumento, tanto que bem antes da vigência do futuro decreto, entre os anos de 1995 e 2000, 20 terras quilombolas foram tituladas pelo governo FHC. Mas o Decreto 4.887/2003, assinado em cerimônia pública marcada por extraordinária euforia, na Serra da Barriga, sítio onde se localizava o Quilombo dos Palmares, pouco serviu até este momento para dar agilidade à titulação das terras quilombolas. Apesar de detalhar os procedimentos para a titulação, confirmando competência do INCRA para executar também esta modalidade especial de reforma agrária e da Fundação Cultural Palmares para zelar pela identidade quilombola e certificar esta condição, logo o decreto foi considerado inaplicável sem uma Instrução Normativa, editada apenas em abril de 2004, sem trazer acréscimos ao decreto e condenada pelo próprio governo a um tortuoso processo de revisão que pareceu ter chegado a um desfecho, enquanto marco legal, com a edição da Instrução Normativa INCRA Nº 20/2005, em setembro de 2005. Pareceu! O governo Lula não deixa de criar novas exigências para dar aplicabilidade à determinação constitucional e a seu próprio decreto regulamentar, como que justificando, por via inversa, que até abril do corrente ano, em mais de 5 anos de governo, tenha regularizado apenas 7 áreas quilombolas.[...] O próprio presidente Lula admitiu ver como entraves as comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais que se

comunidades negras rurais quilombolas

opõem a seu plano desenvolvimentista- predatório, aderindo à opinião de que as terras quilombolas são ociosas e precisam ser exploradas pelos grupos que têm dinheiro para gerar desenvolvimento. Na prática, está do lado dos mais fortes nos conflitos agrários que envolvem terras quilombolas: as empresas dedicadas à exploração da madeira ou ao cultivo de grandes monoculturas, em diferentes estados. [...] Um governo que optou por se afirmar como o mais entusiasta e determinado promotor do agronegócio, não pode aceitar que permaneçam sob a posse de pobres remanescentes quilombolas as terras que podem servir para a monocultura e a produção de commodities a qualquer preço. Mas essa opção não se dá sem uma firme resistência das comunidades agredidas. O impasse está criado com uma renovada resistência quilombola aos 120 anos depois de abolida oficialmente a escravatura no Brasil”. (Rodrigues, 2008). Mesmo diante destas tristes constataç temos constatações, demonstrado que a existência de diferentes modos de vida é algo quase indissociá indissociável às mú múltiplas realidades dos homens e das culturas, que devemos persistir em tentar construí construí-los.

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3. Comunidades ecoló ecológicas ecovilas

Desta forma, tomamos como exemplo, as comunidades ecológicas que tem demonstrado significativa diferença em soluções para o cotidiano humano, tais como: na

habitaç alimentaç habita ção, na alimenta ção, no uso da água, saneamento e energia. Talvez por estarem desvinculadas de grandes centros urbanos sejam alvos de muitas críticas, tais como neohippies, neo-ruralistas, românticos, arcaicos, etc. Mas nenhuma delas é suficientemente forte para designar algum “juízo de valor” sobre as pessoas ou as ações que tentam promover.

Diferente das duas realidades sociais anteriores, comunidades indígenas e comunidades quilombolas, as

comunidades ecológicas são assentamentos criados propositalmente , com fins ligados a questão da preservação ambiental e desenvolvimento de modelos geradores de resposta ao problema da “sustentabilidade”. Como se sabe, este termo ganhou inúmeras interpretações e como todo novo conceito, se popularizou de forma a haver diversas conotações que nem sempre correspondem ao propósito inicial. Mas como também julgar o propósito deste termo? Em uma das declarações das Nações Unidas, Relatório Brundtland, pela primeira vez o termo “desenvolvimento sustentável” foi instaurado, definindo como: “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades

presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Mas, entre tantos conceitos e definições o que, de fato, pode ser visto como “desenvolvimento sustentável” são ações locais, que superam a utopia de qualquer órgão internacional, ou mesmo nacional, de resolver os problemas do mundo.

Na verdade, o que não se vê, é que por trás disso, há a vontade de experimentar a realização de novos modos de vida, sem esperar depender de outrem ou mesmo estar vinculado a alguma condição “revolucionária” ou prerrogativa da negação dos padrões sociais das cidades. Talvez por existir uma “falta de demanda” para a ocorrência destas possibilidades no meio urbano, é que seja necessário cultivar um lugar “alheio”, como se só fosse possível a aceitação destas em um lugar que não está “taxado” com tantos parâmetros na forma de ser e habitar. Mesmo assim, muitas destas técnicas estão sendo procuradas por pessoas. E em forma de cursos, estas comunidades ecológicas começam a se tornar progressivamente institutos de pesquisa, promovendo a disseminação do conhecimento através de vivências teórico-práticas.

É

fato que, muitas destas comunidades ainda estão submetidas a padrões de consumo como nas cidades. Não há como também, nos dias atuais, se manter totalmente isento de algumas relações estabelecidas pelo “modo de vida global”.

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas a década de 90, Robert Gilman autor do livro “O que é uma ecovila” definiu: “Ecovila é

O que muita gente confunde é essa relação de criar novos modos de N vida, com a existência de um padrão social maior que conforma a todos, como com o dinheiro, com as tecnologias, etc. As comunidades não necessariamente precisam excluir esses elementos para serem “boas comunidades” ou para se firmarem como existentes. Só pelo fato de buscarem a autonomia em sua parte e em sua localidade, já apresentam pontos de culminância favoráveis ao “desfacelamento” do padrão social maior, mesmo que não tenha como objetivo (ou seja possível) “destruílo”. Como já sabemos, a relação local-global é um limiar muito tênue em meio aos padrões de vida que conhecemos. Além disso, reconhecendo a necessidade de se olhar para as particularidades destas ações sociais e comunitárias, é que atingiremos uma nova forma de singularidade e aceitação das diferenças humanas. Compreende o conceito de uma comunidade ecológica: “assentamentos humanos, rurais ou urbanos, no Norte ou no Sul, que buscam a criação de modelos de vida sustentável. Elas surgem de acordo com as características de suas próprias biorregiões e englobam tipicamente quatro dimensões possíveis: a social, a ecológica, a cultural ou mesmo a espiritual, combinadas numa abordagem que estimula o desenvolvimento comunitário e pessoal. O conceito de ecovilas oferece um único modelo, embora com múltiplas manifestações locais. No núcleo do modelo está a celebração da diversidade cultural, espiritual e ecológica e o impulso para se recriar comunidades humanas em que as pessoas possam redescobrir as relações saudáveis e sustentáveis consigo mesmas, a sociedade e a Terra. O modelo de ecovila tem proposto soluções viáveis para erradicação da pobreza e da degradação do meio-ambiente e combina um contexto de apoio sociocultural com um estilo de vida de baixo impacto. O que é sustentado numa ecovila não é o crescimento econômico ou o desenvolvimento, mas toda a rede de vida da qual depende nossa sobrevivência futura de longo prazo. Uma ecovila é programada de tal maneira que os negócios, as estruturas físicas e tecnológicas não interfiram com a habilidade inerente à natureza de manter a vida.”

um assentamento de escala humana, multifuncional, no qual as atividades humanas são integradas sem danificação ao mundo natural, de forma a apoiar o desenvolvimento humano saudável, podendo continuar no futuro indefinido.” Neste mesmo momento, havia uma emersão de pesquisas de campo voltadas a descobrir exemplos de comunidades sustentáveis ao redor do mundo. Isso significou através da organização Gaia Trust da Dinamarca, a reunião de algumas comunidades que futuramente iriam se tornar a Rede Global de Ecovilas, que hoje conta com mais de 15 mil representantes. Inicialmente, como se descreve sobre a fundação, “a conferencia “Ecovilas e

Comunidades Sustentáveis – modelos de vida no Século XXI” atraiu 400 participantes de todo o mundo, e mais 300 que não puderam acompanhar. Nesta ocasião foi estabelecida a Rede Global de Ecovilas -GEN-, com um secretariado internacional na Dinamarca e três regionais: nos EUA cobrindo todas as Américas, na Austrália cobrindo a Oceania e a Ásia, na Alemanha cobrindo o continente Europeu e África. Cada secretariado recebeu o mandato de construir e fortalecer redes regionais e nacionais, de promover cooperação entre as regiões, e de divulgar a experiência das ecovilas para os formuladores de políticas, planejadores e o público em geral.”

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas

“Criada em 1995 por 9 ecovilas “sementes”, The Farm, EUA, Lebensgarten, Alemanha, Crystal Waters, Australia, Eco-ville St Petersburg, Russia, Gyurufu, Hungria, Projeto Laddak, India, Auroville, India, Findhorn Foundation, Scotland, Associaçao Dinamarquesa de Ecovilas, Dinamarca, hoje a Global Ecovillage Network - Rede Global de Ecovilas- engloba mais de 15.000 ecovilas transformando-se no que é chamado de “A Revolução do Habitat”. O movimento foi muito auxiliado pelo surgimento da Internet, como um instrumento de uma rede internacional e, podemos afirmar que a rede virtual fez o movimento descobrir sua real força e diversidade.”

Hoje, o Brasil jáj conta com alguns exemplos de experiências destas, algumas bembem-sucedidas com pouco mais de 10 anos, outras que ainda estão surgindo. Como tudo que é recente, novos conceitos ou paradigmas sempre levam tempo para serem digeridos. Ainda bem.

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3.1 Ecovila no Brasil

Muitas ecovilas no Brasil se mostram próximas na maneira como atuam.

D

as mais conhecidas e divulgadas, sabe-se que, procuram atingir a autonomia com o uso mínimo de recursos criando sempre ciclos que se retroalimentam. Entre essas características de autonomia estão:

produç produ ção local e orgânica de alimentos, sistemas de renová energias renov áveis, materiais de baixo impacto construç ambiental na constru ção, aproveitamento e reciclagem capitaç da água, capita ção de água da chuva, apoios social e alé capacitaç familiar, al ém de programas de capacita ção profissional educaç e educa ção ambiental.

Desta forma, estas características podem englobar categorias genéricas tais como: habita habitaç alimentaç ção, alimenta ção,

uso da água, saneamento e energia, entre outras.

A habitação se desenvolve de diferentes maneiras. Há muitas técnicas possíveis de construção, mas é principalmente nas de “terra-crua” que se baseiam. Entre elas estão principalmente:

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Ecovila no Brasil

•Adobe – um “tijolo milenar” que não precisa ser cozido e nisto consiste sua vantagem ambiental. Sua mistura envolve terra, água e palha. Normalmente, é feito com os pés ou as mãos do construtor, sendo moldados em fôrmas de madeira para posteriormente serem secados ao sol.

• Cob – uma massa muito parecida com a do adobe, com a diferença de não ser moldada em fôrmas para virar tijolo. Normalmente, é empilhada em cima de fundações que saem do solo, podendo ser de pedra ou de qualquer outro material impermeabilizante. Permite maior liberdade plástica no momento da construção.

•Superadobe –

sacos de polipropileno preenchidos com terra para serem empilhados e apiloados em camadas. Com grande rendimento, permite construções quadradas, circulares e abobadadas. Suas condições térmicas são tão excelentes quanto as outras técnicas, aliando o baixo custo.

•Taipa

de pilão - utiliza-se terra (e talvez cimento) socada dentro de fôrmas de ferro ou madeira. As fôrmas são montadas no local e devem resistir à pressão exercida no ato de pilar.

•T T

aipa leve ou de mão – pode ser desenvolvida de várias formas, com armadura prévia (de madeira, bambu, entre outros) que será preenchida com barro pelas pessoas ou mesmo com palha molhada em caldo de barro que posteriormente é colocada entre uma forma e apiloada. Ambas, sugerem paredes leves que podem ser usadas como divisórias internas ou mesmo forros para mezaninos, suportando carga estrutural.

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habitaç habitação terraterra-crua

comunidades ecoló ecológicas ecovilas

S

uperadobe

A

dobe

C

ob

T

aipas (leve e de pilão)

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Ecovila no Brasil

Além destas técnicas bem difundidas de terra-crua, há outras como: o bambu, as casas de terra terracalfetice,, o teto teto-palha, o calfetice -

verde, reaproveitamento de materiais, o mosaico e rebocos naturais. Dentre estas, o bambu é um elemento altamente complexo que pode ser usado de diversas formas, sendo algumas espécies apropriadas para a construção. No entanto, precisaríamos de um capítulo inteiramente dedicado a este para que fizéssemos jus às suas funções e utilidades. As casas de terraterra-palha são muito usadas em climas extremos para que minimizem a amplitude térmica do ambiente interno com o isolamento de paredes através de fardos de palha, sendo posteriormente revestidas com algum material, como terra ou madeira. O calfetice é uma técnica colombiana que envolve a utilização de terra, cal, cimento e fibra vegetal, sendo mais comum, os sacos de estopas. Essa mistura pode ser usada como reboco natural nas paredes de terra ou mesmo aplicado em estruturas como coberturas, etc. O tetoteto-verde é um telhado que pode absorver outras funções além de simples cobertura, com a implantação de um jardim para servir de comida, em caso de hortas, ou mesmo como contemplação e varanda. Além das funções estéticas, sua mais importante característica é aumentar a área de permeabilidade do solo (retirada quando construímos) e isolar temperaturas, tornando mais ameno o ambiente da casa.

Em

relação a aproveitamento de materiais e aplicaç ção de mosaicos, estes são elementos aplica importantes que atualmente têm feito parte da noção estética destas construções. São facilmente aplicáveis podendo ser usado inclusive cerâmicas descartadas pelas lojas, o que é muito comum. Outras tecnologias são voltadas para água, energia, saneamento e alimentação. Os

banheiros secos, os filtros biológicos, a captação da água da chuva, cisternas de ferrocimento, aquecedor solar de baixo custo, a produção local de alimentos, são algumas das possibilidades de realização destes recursos. Contudo, não iremos nos prolongar em descrever a forma de realizá-los, visto que há muito disto sendo divulgado. O que se pretende mostrar é a forma como tais comunidades resolvem suas demandas de sobrevivência e como continuamente tem buscado sua autonomia. Mas, além destes elementos básicos, de suprimento das necessidades há ações de arte e cultura sendo feitas. Cuidados com a saúde e espiritualidade inclusive, incorporando práticas de trabalho com pessoas e consigo mesmo.

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas

habitaç habitação outras té técnicas

T

erraerra-palha

B

ambu

M

osaico

R

eboco natural e

C

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas

habitaç habitação outras té técnicas

R

eaproveitamento de materiais

T

ecnologias alternativas

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas

habitaç habitação outras té técnicas

T

etoeto-grama

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cap铆 cap铆tulo 3 modos de vida

as comunidades

comunidades ecol贸 ecol贸gicas ecovilas

saneamento

B

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas

energia

S

olar – Aquecedor solar de baixo custo

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas

produç produção de alimentos

J

ardim comestí comestível e hortahorta-mandala

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas

Quadro Quadro comparativo entre as populaç populações de assentamentos (adaptado de Bill Mollison and Christopher Alexander)

Número de pessoas

Comentário

30 a 40

Mínimo número de pessoas para cobrir a maioria das funções humanas.

200 a 300

Mínimo para a variabilidade genética humana.

600 a 1.000

Máximo para o relacionamento pessoal e a representatividade de todos.

1.000 a 5.000

Máximo para uma federação de ecovilas.

7.000 a 40.000

Funcional somente se organizado em vilas ou cooperativas confederadas.

50000

Máximo para uma cidade organizada.

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comunidades ecoló ecológicas ecovilas

3.2. abordagens de trabalho de ecovilas

Atualmente, as ecovilas de maior destaque na mídia informativa (rádio, TV., jornais) ou interativa (internet), estão se propondo a disseminar seus conhecimentos através de cursos intensivos de curta duração, fazendo vivências teórico-práticas em sua comunidade e permitindo ao visitante a “estadia inclusiva” para experimentação de novos hábitos cotidianos.

mudanç alimentaç relaç espaç relaç A mudan ça na alimenta ção, na rela ção com o espa ço, na rela ção com as pessoas e principalmente com o aprendizado são formas de introduzir nos participantes consciência da própria vida.

formas

diferenciadas

de

Q

uando questionamos o sentido que nossos hábitos cotidianos tomaram, começa-se a ver que nem tudo o que fazemos ou realizamos é algo verdadeiro, algo essencial que brotou de nós mesmos. Muitos de nossos hábitos e ações advêm de maneiras “culturais” assimiladas, ou seja, a forma como nossa família e o nosso meio nos ensinou ou como nós o observamos. A educação, os amigos, relações sociais em geral, espaços, trabalhos, são os principais motivadores de fazerem existir nossas “maneiras culturais”, sendo estas as “determinantes” de nosso Ser e do nosso viver. Desta forma, o Ser é influenciado e influencia constantemente a cultura e esta determina nossa relação com a natureza, que é tudo o que se manifesta enquanto matéria, não criada pelo homem.

M

esmo as “matérias supostamente criadas” não são totalmente frutos de sua própria criação, já que o homem depende de uma “matéria-primordial”, a ser manipulada e transformada em uma nova forma. A “matériaprimeira” ou “natural” é o que faz do homem “criador”, mas que se poderia dizer ser muito mais “co-criador” ou “transformador” do que propriamente o “criador” ou o “dono” de tudo que se manifesta.

Desta forma, se relacionando com a natureza e produzindo “cultura” (que foi definida e

discutida inúmeras vezes nesta publicação, não somente no sentido habitual da palavra, mas em sua epistemologia), o Homem ou o Ser cria seus modos de vida.

Assim,

poderíamos representar esse pensamento em forma “ecossistêmica” e “circular” que pode seguir seu fluxo em ambos os sentidos, horário ou anti-horário, sendo este entendido assim:

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as comunidades

comunidades ecol贸 ecol贸gicas ecovilas

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as comunidades

abordagens de trabalho de ecovilas m exemplo de experimentação de novos hábitos do cotidiano nas ecovilas é o “banheiro seco”. O banheiro seco consiste em um sanitá compostá sanit ário compost ável que não se utiliza de água para levar a “matéria-morta” que eliminamos até seu devido destino. O homem atual centralizou e especializou de tal forma os seus “serviços” e “necessidades” que não temos mais nem a consciência de conseguir tratar os nossos lixos e nossos resíduos. Ele amontoa um pequeno “problema” a outros inúmeros e faz com que isso se torne um “grande problema” ambiental. O que seria mais insano do que “cagar” na água para depois tratá-la, para depois “bebê-la”? Existem índices que comprovam a existência freqüente de coliformes fecais em nossa água, pela quantidade de água boa e potável que utilizamos para simplesmente transportar os nossos dejetos para um local de tratamento.

U

O banheiro seco é uma forma de tratar localmente a substância transformando-a em composto utilizável para a terra. Ele fica isento de bactérias nocivas e maus cheiros quando tratado devidamente e no tempo certo. Não se trata de re-instaurar modos “arcaicos” de vida como os que conhecemos no passado, “as latrinas” ou “poços de terra” que poluíam a terra, contaminavam o lençol freático e às vezes até transmitiam doenças. Mas de aperfeiçoar um sistema, torná-lo vantajoso e confiável.

O banheiro seco com sua compostagem à sol e serragem faz com que o “cocô” não se torne um problema ambiental e que esse resíduo limpo e cheiroso, volte para onde se gerou: a terra! Não há coisa mais bonita do que se pensar que não mataremos rios, ou a nós mesmos, com ambientes aquáticos mal-cheirosos, nem poluiremos lençóis ou água potável ou não beberemos água com coliformes

comunidades ecoló ecológicas ecovilas fecais em nossa água, pela quantidade de água boa e potável que utilizamos para simplesmente transportar os nossos dejetos para um local de tratamento, normalmente longe de nossa casa?

E

stamos rodeados de falsos movimentos, de falsas ações que nos trazem mais desvantagens do que crescimento e transformação. Criar sistemas mais próximos dos ecossistemas naturais é o que se busca para consolidar

sustentá culturas permanentes e sustent áveis. Não há somente uma forma de concebê-las e sustentá-las. Como no caso do banheiro seco, existem outras formas, também adotadas pelas comunidades, que tornam o “problema” do saneamento algo saudável e totalmente solucionável. São exemplos disto: a biorremediação (Tratamento biológico de efluentes), o infiltrador séptico ou mesmo o círculo de bananeiras que seguem o mesmo princípio de tratar, mas desta vez, com água. São sistemas que reciclam a água e a tornam saudável para retornar ao ambiente sem danos ecológicos. Isso inclui a extinção de aditivos químicos para o tratamento da mesma. É feito somente com a utilização de plantas, capazes de se adaptar a um “ecossistema poluído” e separar a água do material sólido através da evaporação e filtragem, entre outros processos que são promovidos a partir da forma de construção dos sistemas.

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as comunidades

comunidades ecoló ecológicas ecovilas

abordagens de trabalho de ecovilas

As vantagens são inúmeras, pois servem em locais onde já exista o sistema convencional, tratam em nível industrial e/ou residencial, não incluem químicos e é uma tecnologia barata e segura, de fácil apropriação. Em especial a biorremediação (plantas direto em ambiente aquático ou brejoso com quantidade elevada de matéria orgânica) oferece: o tratamento de toda a água cinza (pias,

chuveiros, exceto descargas) da residência, não exala odores, causa grande efeito visual positivo ao seu jardim, enriquece o jardim ou propriedade com imensa variedade de plantas e ecossistemas variados, atrai fauna diversificada.

74 Infiltrador sé séptico que pode ser usado para adaptar sistemas convencionais de esgoto

Biorremediaç Biorremediação com plantas


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abordagens de trabalho de ecovilas

Desta forma, vemos que, assim como no passado, o homem pode se utilizar de té técnicas mais adaptadas ao seu contexto local, sem depender de “grandes soluç soluções” ões” que utilizam excessiva tecnologia para resolver problemas simples e necessidades que por se centralizarem criam problemas ambientais em grande escala. Podemos notar que esses problemas se tornam “soluç soluções” ões” dentro de um sistema planejado e cí cíclico, cujos objetivos são atingidos atravé através da inteligência e habilidade, num ambiente com poucos recursos materiais e aspectos econômicos, culturais e tecnoló tecnológicos diferenciados, diferenciados, onde o rendimento de tais recursos foi maximizado.

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3.3 exemplos de ecovilas do Brasil

Como vimos, as ecovilas, ou representantes destas tais como sítios, institutos, etc, se propõem a diversas atividades que vão desde o suprimento das necessidades até a promoção de atividades culturais e artísticas. A maioria delas se desenvolvem sobre princípios e éticas comuns, que englobam também a permacultura.

Suas características globais envolvem (podendo se diferenciar através de diferentes abordagens): -Produ Produç Produção local e orgânica de alimentos; - Uso de energias renová renováveis; - Bioconstruç Bioconstrução; - Diversidade cultural e espiritual; - Governanç Governança circular; - Economia solidá solidária; - Educaç Educação transdisciplinar; transdisciplinar; - Saú Saúde integral; - Comunicaç Comunicação global e soluç solução local.

São

exemplos de ecovilas, sítios, institutos de permacultura ou comunidades com fins diversos:

- TIBÁ TIBÁ – Tecnologia Intuitiva e BioBio-Arquitetura – Bom Jardim – RJ www.tibarose.com - IPEMA – Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica – Ubatuba – SP http://www.ipemabrasil.org.br/ - Ecocentro IPEC – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado Pirenópolis – GO www.ecocentro.org - IPA – Instituto de Permacultura da Amazônia - Manaus AM http://www.ipapermacultura.org/

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- Ecovila Clareando www.clareando.com.br - Vila Yamaguish – Jaguariúna – SP http://www.yamaguishi.com.br/ - IPAB – Instituto de Permacultura Austro Brasileiro Florianópolis - SC http://www.permacultura.org.br/ipab/ - IPB – Instituto de Permacultura da Bahia - Lauro de Freitas - BA http://www.permacultura-bahia.org.br/ - IPCP – Instituto de Permacultura CerradoCerrado-Pantanal - Campo Grande - MS http://www.tortuga.com/permacultura/paginas_na_ portugues.htm - IPEP – Instituto de Permacultura e Ecovilas da Pampa - Bagé - RS http://www.ipep.org.br/ - IPERS – Instituto de Permacultura do Rio Grande do Sul - Porto Alegre - RS http://permaculturars.org.br/newsite/modules/news/ - IPETERRAS – Instituto de Permacultura em Terras Secas – Irecê - BA http://www.ipeterras.org/ - IPOEMA – Instituto de Permacultura: Organizaç Organização, Ecovilas e Meio Ambiente – Brasília - DF http://www.ipoema.org.br/ - OPA – Organizaç Organização de Permacultura e Arte – Salvador - BA http://www.opabrasil.org/portuguese/homeport.ht ml

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exemplos de ecovilas do Brasil

comunidades ecoló ecológicas ecovilas

-EcoOca EcoOca – Instituto Capixaba de Permacultura e Tecnologias Intuitivas - Alfredo Chaves - ES http://www.ecooca.com.br/ - ABRA144 – Aldeia Biorregional Amazônica (AM) http://www.abra144.org/ -Asa Asa Branca (DF) http://www.asabranca.org.br/ - Sítio Beira Serra - Botucatu - SP www.beiraserra.com.br - Fazenda Marizá Marizá – Epicentro Marizá Agricultura sustentável (BA) http://www.marsha.com.br - SeteLombas (SC) http://www.setelombas.com.br/ -Coletivo Coletivo Permacultores (SP) http://permacoletivo.wordpress.com/ - Vida de Clara Luz – Perdizes - SP http://vidadeclaraluz.com.br - Permacultura na Escola – Educação para sustentabilidade escolar http://permaculturanaescola.wordpress.com/

Desta

forma, podemos ver que diferentes modos de vida estão continuamente sendo desenvolvidos, tentando resolver a busca da realizaç realização do ser e a garantia da sucessão dos homens e da vida no planeta.

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capítulo 4 ações sócio-ambientais


capítulo 4 ações sócio-ambientais

E

“ xiste uma ecologia das id idé éias danosas, assim como existe uma daninhas”” Gregory ecologia das ervas daninhas Bateson

Às

vezes, pode não parecer fácil a transformação ou mesmo a ação de questionar o próprio modo de vida para mover-se em direção a uma “ecologia humana”. Com tudo que temos visto, as comunidades são algumas das ações possíveis realizadas por indivíduos que almejaram restaurar ou restabelecer vínculos com um modo de vida “mais

natural”. Mas ainda assim, existem ações que estão sendo feitas nas cidades ou no meio urbano que também são de significativa importância para o contexto da ecologia e da preservação do meio de maneira geral. Estas ações, ditas sociais ou ambientais, podem envolver: agricultura ou hortas urbanas, separa separaç ção de lixo

reciclá orgânico e lixo recicl ável, compostagem do lixo orgânico (que reduç pode ser utilizado para cultivo de plantas e de hortas), redu ção utilizaç combustííveis da utiliza ção de meios de transportes que usam combust possíível), fósseis (utilizando a bicicleta ou o andar à pé quando poss reduç consumo consciente, redu ção de consumo de produtos

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saú altamente industrializados que prejudicam a sa úde e meio naturais”” como frutas, ambiente, consumo de “produtos naturais hortaliç pequenos”” produtores da legumes e hortali ças da época, de “pequenos comé apropriaç região (privilegiando o com ércio local e justo), apropria ção de espaç pú espa ços livres p úblicos (priorizando e promovendo atividades ecoló públicas para a comunidade), uso de tté écnicas ecol ógicas para a construç espaç captaç constru ção dos espa ços, capta ção da água da chuva, reaproveitamento e reciclagem da água, aumento de área verde floresta”” e de jardins na cidade para permeabilidade do de “floresta promoç solo, promo ção de trabalhos que realizem seus idealizadores e os envolvidos no processo, trabalhos educativos com grupos de crianç crian ças, jovens, adultos, com o fim de disseminar aç conhecimento, entre outras a ções que possam gerar um estabeleç sistema que se retroalimente e que se estabele ça como ccííclico.

Todas essas alternativas são apenas algumas possíveis (dentre a infinita potencialidade) para demonstrar que, dentro de nosso ambiente somos agentes transformadores, com muito mais poder de ação do que poderíamos prever. Nossos fatores de escolha influem nas demandas geradas pela sociedade e da sociedade. Devemos contribuir com um sentimento de realização e menos alienado possível, com relação a nossas escolhas de trabalho e de vida. Muito antes de responder a “necessidades sociais” devemos responder a nossa demanda existencial que é a busca pelo cessar do sofrimento, que é inerente a todo ser, já que verdades são tão diversas como seres humanos. Muitos são os que têm buscado verdades acabadas, poucos os que sugerem para si sua própria verdade.

Como

mesmo disse Wong Un (2002), sugerir o caminho poético de transformação; pensá-lo como

ferramenta de conhecimento, não deveria ser tomado como signo de idealismo nem de falta de praticidade. Não temos sequer pensado em abrir mão da razão crítica. Sabemos que as emoções sem razões e sem éticas viram pesadelos. A poesia pensardo mundo, pensar -se como um ser que é criado, ao mesmo tempo, pelo mundo e pelo íntimo pessoal, é uma interlocutora, companheira de viagem; nunca uma verdade única nem absoluta. [...] Não temos demonstrado nada. Nenhuma hipótese foi provada. Não há receitas nem produtos acabados. Ninguém poderá extrair o "básico do básico" deste trabalho. Mas, talvez, hoje os saberes devam ser, como os mundos sociais, mais vaporosos, flexíveis como os bambus, ser espelhos d’água, suaves como a brisa que neste instante entra pela janela.

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hortas e jardins

sóciocio-ambientais a vivência da subjetividade

Partindo da idéia de criar a própria subjetividade, realizei ao longo dos Quando se lida com algo “vivo” e tão “dinâmico” anos que estive na faculdade de arquitetura, alguns projetos que foram implantados em escolas ou mesmo em residências. Uns foram feitos somente com ajuda de custos de materiais e transportes, outros com alguma contribuição ao trabalho de projeto e execução. Em 2006, realizei projeto de extensão com a professora Norma Constantino intitulado “Jardins terapêuticos” em comunidade escolar, sendo este projeto uma continuação de projetos de educação ambiental e de jardins que eu já estava envolvida, a partir de parcerias que foram se consolidando desde 2004. Primeiramente, uma destas parcerias foi com o Instituto Ambiental Vidágua, organização não-governamental que desenvolve programas ambientais e posteriormente, parceria junto a arquitetos formados pela própria UNESP-Bauru que, no final, resultou em uma atuação através do Espiralando Bioarquitetura, idealizado pelo arquiteto César Augusto da Costa. O trabalho de criação e execução em muitos deles foi coletivo e substancial, provendo grande crescimento e aprendizado para a maioria dos envolvidos no processo. Desde o começo, a atuação se mostrou de forma experimental, ou seja, havia conhecimento teórico, porém nada comparável à vivência que se pretendia realizar, bem diferenciada em relação às “projeções” teóricas anteriores.

como um jardim, horta ou planta, não se tem total domínio sobre suas respostas, fazendo com que atuemos com mais desenvoltura e menos rigidez teó teórica com relação ao projeto.

Desenhar ou

projetar um jardim nem sempre é igual a desenhar uma casa ou qualquer objeto que pode ser “modelado” rapidamente. A natureza se encarrega de fazer sua parte, suas adaptações mais apropriadas, que nem sempre são o ideal de “beleza” para os homens.

S

aber cuidar da terra e das plantas de forma paciente e natural é também muito importante, porque os tempos da natureza não são iguais aos nossos, e desta forma muitas vezes tentamos “apressar” o que poderia ser resolvido com mais tranqüilidade.

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hortas e jardins

a vivência da subjetividade

sóciocio-ambientais

A idéia de criar espaços verdes que oferecessem uma maior variedade de funções e menos gasto de energia para sua manutenção também era objetivo do trabalho. Pensar o jardim como uma interação com o corpo e com a casa foi uma das maiores respostas que encontramos. O jardim poderia ser: cheirado, degustado, apreciado, utilizado como

espaço recreativo ou educativo ou mesmo como restaurador de mazelas do cotidiano. O jardim comestível, um dos exemplos destes, pode compor a beleza e ser muito mais dinâmico do que um jardim que contenha somente plantas ornamentais, já que, como o próprio nome diz, se incorpora plantas que poderão ser comidas resultando assim na atualização freqüente de sua paisagem. A beleza, em grande parte, do jardim está nisso. Oferecer a seus usuários essa consciência do dinamismo que é a natureza, do movimento de que todas as coisas estão submetidas. Olhar um jardim e vê-lo monótono e sempre igual, como se não demandasse de cuidados, é como vê-lo morto. Poderíamos entender também a arquitetura desta forma, com dinamismo e não fixidez, através dos cuidados que demanda por exemplo uma “casa orgânica” , como é a proposta da bioarquitetura. Se não fosse dinâmica e requeresse pequenas manutenções como o jardim, não seria uma “casa planetária”, estaria sendo tão agressiva quanto às de concreto que demoram muitos anos para se degradar, porém também degradam e às vezes de forma até mais “feia” do que as “naturais”. A vantagem nisso tudo, além de sabermos de suas qualidades térmicas e ambientais, é que estamos diante de uma situação que podemos escolher: autonomia ou isenção.

Estamos

sempre muito ocupados para olhar a nossa volta, para nosso terreno, para nossa casa, para uma plantinha que você desconhece a importância de sua existência. E quando você se vê tendo de cuidar das coisas, logo se assusta, por isso é mais fácil pensar numa “casa de concreto que não desmancha mesmo” (e prejudica seus pulmões sem saber) e que logo não será de responsabilidade sua fazê-la retornar à natureza. aç Paradigmas, modos de vida, a ções são sempre engrenagens sociais que às vezes nos prendem, às vezes nos libertam. Iniciar processos de autotransformação pessoal e coletiva, com a finalidade de ampliar nossa capacidade de

enxergar, sentir, adquirir, refletir e pensar nossa prática de vida, é o que tem me motivado a seguir em frente.

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hortas e jardins

comunitá horta escolar comunit ária

sóciocio-ambientais Horta Comunitá Comunitária

A maioria dos estudantes da Escola Major Fraga são filhos de pequenos agricultores rurais. Foram projetadas pequenas hortas em forma de fechadura, um design proposto pela permacultura, ciência que projeta espaços sustentáveis com excelente desempenho energético. Após a apresentação teórica sobre bioarquitetura, os estudantes aprenderam a reconhecer e preparar a terra, amassar o barro e fazer adobes. Cada turma construiu sua própria horta, plantou hortaliças e ficou responsável por cuidar e acompanhar seu desenvolvimento. Também foram construídos uma espiral de ervas e um forno de barro. Local: E.E.P.G Major Fraga, Tibiriçá – SP Agradecimentos: À todos os alunos que participaram, professores e funcionários da Escola Major Fraga. Data: Segundo Semestre de 2004 Fotos: Ana Moraes e Gugu. extraíído de Espiralando Bioarquitetura Texto extra

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hortas e jardins projeto de extensão jardins terapêuticos

sóciocio-ambientais

Escola Ecoló Ecológica

Os estudantes da 1ª série ao 3º colegial da Escola Carolina participaram ativamente da revitalização de um espaço da escola. A construção ocorreu durante o período das aulas, onde foi reservado um horário para que cada turma pudesse aprender e participar. Amassaram o barro, moldaram os canteiros, o banco e a bioescultura de um lagarto cujo rabo culmina numa espiral de ervas, aplicaram a técnica do revestimento em calfetice e plantaram o jardim. Alguns estudantes se envolveram tanto que participaram da construção fora de seu período de aula, inclusive aos sábados e domingos. Local: Escola Estadual Carolina, Bauru – SP Técnica: Cob revestido com calfetice colorido. Agradecimentos: À todos os alunos que participaram, professores e funcionários da Escola Carolina; ao Emerson e Fernando. Data: junho de 2006 Fotos: Ana Moraes e Gugu. extraíído de Espiralando Bioarquitetura Texto extra

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hortas e jardins

jardim residencial

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Local: Junqueiró Junqueirópolis – SP Técnica: Cob revestido com argamassa comum Agradecimentos: À Dona Elza e sua famí família e aos operá operários que se propuseram a fazer diferente. extraíído de Espiralando Bioarquitetura Texto extra

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jardim residencial

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Local: Junqueiró Junqueirópolis – SP Técnica: Cob revestido com argamassa comum Agradecimentos: À Dona Elza e sua famí família e aos operá operários que se propuseram a fazer diferente. extraíído de Espiralando Bioarquitetura Texto extra

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capí capítulo 4 aç ações sóciocio-ambientais

soluções sustentáveis anexos


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soluç soluções sustentá sustentáveis

anexos

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soluç soluções sustentá sustentáveis

anexos

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soluç soluções sustentá sustentáveis

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soluç soluções sustentá sustentáveis

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soluç soluções sustentá sustentáveis

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soluç soluções sustentá sustentáveis

anexos

sóciocio-ambientais

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in-conclus達o


inin-conclusão

“O que est está á em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre aceleraç mutaç cnicoesse planeta, no contexto da acelera ção das muta ções tté écnico cientííficas e do consider considerá demográ funç cient ável crescimento demogr áfico. Em fun ção do contíínuo desenvolvimento do trabalho maqu maquíínico redobrado pela cont revoluç informá forç disponíível uma revolu ção inform ática, as for ças produtivas vão tornar dispon quantidade cada vez maior do tempo de atividade humana potencial. potencial. Mas com que finalidade? A do desemprego, da marginalidade angú opressiva, da solidão, da ociosidade, da ang ústia, da neurose, o ou da criaç reinvenç cultura, da cria ção, da pesquisa, da reinven ção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade?” sensibilidade?” (Fé Guattari)) (F élix Guattari

“Casem asemrespiraç Mundo.”” (Osvaldo Alcântara) -se os poetas com a respira ção do Mundo. De tudo que temos visto, podemos dizer que o essencial é o foco no Ser. Ser, não somente como resposta individualista, de busca de alguma identidade particular, mas em sentidos amplificados e geradores de entendimentos mútuos, coletivos e individuais, conscientes. Como sabemos, o Ser está continuamente buscando o sentido de tudo que se realiza em vida. Este é “porta motriz” de sua própria cultura e das escolhas vivenciadas, seus modos de vida. Cabe a todos nós, enquanto “seres” que somos, almejar a realização da consciência e o cessar do sofrimento. Talvez só a partir disso, poderemos nos relacionar de forma saudável tanto com nosso planeta como com os demais seres da naturezaprimeira e propor formas concretas de transformação de culturas e de modos de vida.

C

om isso também, poderemos fortalecer nossos vínculos afetivos e consolidar ações afirmativas, e não mais negativas, dentro da dinâmica social. Sem atitudes de combate ou de agressão, é provável que se prospere mais e progressivamente diante de si e dos outros. Consolidar o entendimento da “alteridade”, do reconhecimento do outro é um grande passo para aceitar a diversidade que se manifesta no mundo. Isso não significa “submissão intelectual”, nem ao menos ausência de questionamentos, muito pelo contrário, deveríamos estar prontos a começar a conciliar razão-emoção, para uma abrangência do pensamento que se chamaria “ecossistêmico”. Relacionando os entendimentos e integrando o ser em si próprio, também de forma ecossistêmica, veríamos que o mundo caminharia com maior autonomia e menos dependências e carências, sentimentais, materiais, mentais, etc.. Esta autonomia daria ao mundo prazeres nas relações, não mais hierarquizadas e centralizadoras de poder.

Todos

seriam potências criadoras de sua própria realidade, permitindo a construção de um mundo onde, utopicamente, como nas sociedades primitivas, não respondesse a demandas de exploração e sim de trabalhos integradores da própria liberdade, da beleza e da arte de estar vivo.

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urbana-experimental-expansoes

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ABCTERRA Associação Brasileira dos Construtores com Terra http://www.abcterra.com.br/ Arquitetura Vernacular http://en.wikipedia.org/wiki/Vernacular_architecture http://www.greatbuildings.com/architects/Vernacular.html http://www.vernarch.com/aboutUs.htm Bioterra http://bioterra.blogspot.com/ Desenho Cultura Arquitetura – Curso de Pós-graduação FAU – Design e Arquitetura http://www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/i_minami/AUP5844/aula1.htm Drop city - Experimental Community http://www.clarkrichert.com/ Espiralando Bioarquitetura http://www.espiralando.com.br/ Ecocentro IPEC – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado http://www.ecocentro.org/inicio.do Instituto Socioambiental – ISA www.socioambiental.org.br Projeto Quilombolas www.quilombo.org.br Tom da Amazônia – Cadernos do Professor www.tomdaamazonia.org.br/index.asp?id=biblioteca Green Home Building http://www.greenhomebuilding.com/ Cobworks http://www.cobworks.com/gallery.htm Cobtogether http://www.cobtogether.com/index.html Ecologia Profunda http://www.ufrgs.br/bioetica/ecoprof.htm Cob in corn wall - Ecologically conscious builders http://cobincornwall.com/index2.htm Cob projects http://www.cobprojects.info/ Earthed world http://www.earthedworld.co.uk/ Earth architecture http://www.eartharchitecture.org/ Permacultura www.permacultura.org.br/ http://www.permear.org.br/ LareSol Energia Solar www.laresol.com.br Agricultura Urbana http://www.agriculturaurbana.org.br/RAU/AU1/AU1conceito.html


pelo meu, na verdade adoro todas as minhas coisas.Já se perguntou de onde vêm todas as coisas que compramos e para onde vão quando nos desfazemos delas?Não conseguia deixar de pensar nisso,por isso quis saber mais sobre o assunto.E os livros diziam que as coisas se deslocam ao longo de um sistema:Da Extração para a Produção, para a Distribuição, para o Consumo, e para o Tratamento de Lixo.Isso tudo se chama 'A Economia de Materiais'.Bem, estudei um pouco mais.Eu passei dez anos viajando pelo mundo atrás de pistas de onde vêm as nossas coisas e para onde vão.E sabe o que descobri?Esta não é toda a história.Falta muita coisa nesta explicação.Em primeiro lugar, neste sistema parece que tudo está bem.Sem problemas!Mas, na verdade é um sistema em crise.porque tratar-se de um sistema linear e nós vivermos num planeta finito,e não se pode gerir um sistema linear num planeta finito, indefinidamente.Em todas as suas etapas, este sistema interage com o mundo real.A vida real não acontece numa página em branco,interage com sociedades, culturas, economias, o ambiente,e durante as etapas a vida vai se chocando contra os seus limites.Limites que aqui não vemos porque o diagrama está incompleto.Então, voltemos atrás pra preencher alguns espaços e ver o que falta.Um das coisas mais importantes em falta são as pessoas.Sim, pessoas!As pessoas vivem e trabalham em todas as etapas deste sistema.Onde algumas pessoas são um pouco mais importantes que outras,algumas têm maior poder de decisão.Quem são elas? Comecemos pelo governo.Meus amigos dizem que devia usar um tanque para simbolizar o governo e isso é uma realidade em muitos países, e cada vez mais também no nosso,afinal, mais de 50% dos nossos impostos vão para os militares.Mas vou usar uma pessoa para simbolizar o governo,porque acredito nos valores e na visão de que o governo deve ser das pessoas, pelas pessoas, para as pessoas.A função do governo é olhar por nós, cuidar de nós.É esse o seu trabalho!Depois vêm as corporações.O que leva as corporações parecerem maiores que o governo é porque elas são maiores que o governo.Atualmente, entre as 100 maiores economias na Terra, 51 são corporações.À medida que as corporações foram crescendo em tamanho e poder assistimos a uma pequena mudança no governo,como se estivessem mais preocupados com o bem estar deles do que com o nosso.

Muito

bem.

Então

vejamos

o

que

mais

falta

nesta

imagem.Começaremos pela Extração,que é uma palavra pomposa para 'exploração de recursos naturais',que, por sua vez, é uma palavra pomposa para 'destruir o planeta'.A verdade é que cortamos as árvores, arrebentamos as montanhas para extrair os metais,consumimos toda a água e exterminamos os animais.Aqui enfrentamos o nosso primeiro limite.Estamos ficando sem recursos naturais.Estamos utilizando demasiados materiais.Sei que isto pode ser difícil de ouvir, mas é a verdade,por isso temos de lidar com isso.Durante apenas as três últimas décadas,foram consumidos 33% dos recursos naturais do planeta.Desapareceram!Cortamos, minamos, perfuramos e destruímos o planeta tão depressa que estamos debilitando a capacidade do planeta para sustentar o nosso modo de vida.Aonde eu vivo, nos Estados Unidos,resta-nos menos de 4% da nossa floresta original. 40% dos cursos de água estão impróprios para consumo.E o nosso problema não é apenas estarmos utilizando demasiados recursos,mas o fato de estarmos utilizando mais do que a nossa parte.Temos 5% da população mundial, mas usamos 30% dos recursos mundiais. Se todos consumissem ao ritmo dos Estados Unidos, precisaríamos de três a cinco planetas.E sabe uma coisa? Só temos um! transcrição

anexo 1

Então, a resposta do meu país a esta limitação é simplesmente ir

tomar dos outros,Este é o terceiro mundo!Que alguém dirá tratar-se apenas de uma expressão para designar o local para onde foram as nossas matérias primas. E o que é que acontece? A mesma coisa! Destruição do local!75% das zonas de pesca do planeta estão sendo exploradas ao máximo ou além da sua capacidade.Desapareceram 80% das florestas originais do planeta.Só na Amazônia, perdemos 2.000 árvores por minuto.O equivalente a um campo de futebol por minuto!Então, e as pessoas que aqui vivem? (apontando para o mapa do terceiro mundo)Bem, de acordo com estes sujeitos, (apontando para as grandes corporações)

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Vocês têm um destes? (desconectando-se de um ipod). Sou louca


Eles não são donos destes recursos ,mesmo que vivam lá há gerações.Não são donos dos meios de produção e não compram muitas coisas.Neste sistema, quem não possuí nem compra muitas coisas não têm valor.A seguir, as matérias primas seguem para a Produção,aonde utilizamos energia para misturar químicos tóxicos com recursos naturais para produzir produtos contaminados com tóxicos.Há atualmente no comércio, mais de 100.000 químicos sintéticos,apenas um punhado foi testado para avaliar o seu impacto na saúde,e nenhum foi testado em relação aos impactos sinérgicos na saúde, ou seja, à interação com todos os outros químicos aos quais estamos expostos diariamente.Por isso, desconhecemos o impacto total deles na saúde e no ambiente. Mas sabemos uma coisa: os tóxicos entram e saem.Enquanto continuarmos a introduzi-los nos nossos sistemas de produção industrial,continuaremos a inserir estes tóxicos nos produtos que levamos para nossas casas, trabalho e escolas, e claro para nossos corpos.Como os BFRs, ou retardantes de incêndio à base de brometo.que tornam as coisas mais resistentes ao fogo, mas são super tóxicos.São neurotóxicos, ou seja, tóxicos para o cérebro.O que é que estamos fazendo usando estes químicos? Apesar disso, os usamos em nossos computadores, eletrodomésticos, sofás, colchões e até alguns travesseiros.Sim, pegamos nossos travesseiros, os revestimos com neurotoxinas,os levamos para casa e dormimos por 8 horas com eles!?!Não sei... mas acho que num país com tanto potencial,poderíamos ter uma maneira melhor de evitar que as cabeças peguem fogo a noite.Sabia que essas toxinas se vão acumulando ao longo da cadeia alimentares e concentram nos nossos corpos?Sabe qual é o alimento do topo da cadeia alimentar com nível mais elevado de químicos tóxicos? O leite materno.Isto significa que os menores membros das nossas sociedades, os nossos bebês, recebem as maiores doses de químicos tóxicos das suas vidas a partir do leite das suas mães.Não acha que é uma incrível violação?A amamentação deveria ser o mais importante ato humano de nutrição.

Devia

ser algo sagrado e seguro.A amamentação continua a ser o melhor e as mães devem

amamentar,mas nós devíamos proteger esse ato!Eles (indicando as corporações/governos) deviam protegê-lo.Eu pensava que estavam zelando pelos nossos interesses!As pessoas que mais sofrem com estes produtos químicos são os trabalhadores das fábricas, muitos são mulheres em idade reprodutiva que trabalham com toxinas que afetam a gestação, carcinogênicos e muito mais.Agora eu pergunto:que tipo de mulher, em idade reprodutiva, trabalharia num emprego deste,exposta a estas toxinas, a não ser uma mulher sem outra alternativa?Essa é uma das 'maravilhas' deste sistema,A erosão dos ecossistemas e economias locais, aqui, (indicando o terceiro mundo)garante um fluxo constante de pessoas sem alternativas.

para cidades, aonde muitas vivem em bairros de lata, à procura de emprego, por mais tóxico que seja.Não só os recursos são desperdiçados ao longo deste sistema, mas também pessoas.Comunidades inteiras que são desfeitas.Sim, as toxinas entram e saem.Muitas delas saem das fábricas em produtos,e muitas mais que saem como subprodutos ou poluição, e estamos falando de muita poluição.Nos Estados Unidos, as indústrias admitem liberar mais de 1.800.000 kg de químicos tóxicos por ano.Deve ser muito mais, porque isto é o que eles admitem.Trata-se de outro limite, porque quem quer ver e respirar1.800.000 kg de químicos tóxicos por ano?Então o que eles fazem?Mudam as fábricas poluidoras para o estrangeiro,para poluir outros países.Mas, surpresa!Grande parte dessa poluição volta para nós trazida pelo vento.E o que acontece depois de todos estes recursos naturais serem transformados em produtos?Passam por aqui, para a distribuição, o que significa vender todo o lixo contaminado com toxinas o mais rapidamente possível.Aqui, o objetivo é manter os preços baixos,com as pessoas comprando os produtos em constante movimento.Como eles mantêm os preços baixos? Pagam salários baixos aos trabalhadores das lojas e restringem o acesso aos seguros de saúde sempre que podem.Tudo se resume em exteriorizar os custos.

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No mundo, há 200.000 pessoas por dia se deslocando de ambientes que as sustentaram ao longo de gerações,


O verdadeiro custo de produção não se reflete no preço.Em outras Em

Ele disse: "A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo a nossa forma de vida, que tornemos a compra e uso de bens em rituais,que procuremos a nossa satisfação espiritual a satisfação do nosso ego, no consumo... Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas a um ritmo cada vez maior.” O conselheiro econômico do presidente Eisenhower disse:"O principal objetivo da economia americana é produzir mais bens de consumo.“ Mais bens de consumo? O nosso principal objetivo?Não é providenciar cuidados médicos,ou educação, ou transportes seguros,ou sustentabilidade ou justiça? Bens de consumo?! Como é que eles nos fizeram adotar este sistema de forma tão entusiástica? Bem, duas das suas estratégias mais bem sucedidas são:

.

a obsolescência planejada e obsolescência perceptiva

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palavras, não pagamos aquilo que compramos.Outro dia estive pensando nisto.Ia a caminho do trabalho e queria ouvir as notícias,por isso entrei numa loja para comprar um rádio.Encontrei um pequeno rádio verde e engraçado que custava $4.99 dólares.Na fila do caixa pensei:Como $4.99 podem refletir o custo da produção e transporte deste rádio até ele chegar nas minhas mãos?O metal deve ter sido extraído na África do Sul,o petróleo, provavelmente do Iraque,o plástico, produzido na China,e, talvez, montado por uma criança de 15 anos numa fábrica do México.$4.99 não paga nem o aluguel do espaço ocupado na prateleira nem parte do salário do empregado que me atendeu ou as viagens de navio e caminhão que o rádio fez.Foi assim que eu me apercebi que eu não paguei o valor do rádio.Então, quem pagou?Estas pessoas (indicando o terceiro mundo) pagaram com a perda do espaço dos seus recursos naturais.Estas,(indicando a fábrica) pagaram com a perda do ar puro,com o aumento de doenças como asma e câncer.As crianças do Congo pagaram com o seu futuro, pois 30% delas abandonam a escola para trabalhar nas minas de coltan, um metal que usamos em aparelhos eletrônicos baratos e descartáveis.Estas pessoas pagaram por não terem direito ao seguro de saúde.Ao longo deste sistema, pessoas contribuíram para que eu comprasse o rádio por $4.99.Mas essas contribuições não são registradas por nenhum contabilista. É isto que eu quero dizer com 'exteriorizar o verdadeiro custo de produção'.E isso leva-nos até à seta dourada do Consumo.o coração do sistema, o motor que o impulsiona.É tão importante que proteger esta seta, quase tornou prioridade daqueles dois sujeitos. (o governo e as corporações)É por isso que após o 11 de Setembro, quando o nosso país estava em choque e o presidente Bush poderia ter sugerido fazer luto, rezar, ter esperança...Mas não... ele disse para fazermos compras! Compras!Nos tornamos numa nação de consumidores.Nossa principal identidade passou a ser de consumidores.Não mães, professores, agricultores, mas consumidores!Nosso valor é medido e demonstrado pelo quanto contribuímos para esta seta.Quanto consumimos... não é isso que fazemos? Compramos, compramos, compramos...Manter os produtos circulando... e como circulam...Sabe qual é a percentagem do total dos produtos que circulam através deste sistema que ainda são usados 6 meses depois da venda na América do Norte?50%? 20%? Não... Um por cento! Um!

outras palavras,99% das coisas que nós cultivamos,

processamos, transformamos,99% das coisas que percorrem o sistema são lixo em menos de 6 meses.Como é que podemos gerir um planeta com este nível de rendimento?Mas não foi sempre assim.Hoje, o consumidor médio americano consome o dobro de há 50 anos.Perguntem à vossa avó.No tempo dela a boa gestão, a engenhosidade e a poupança eram valorizados.Então, como é que isto aconteceu?Bem, não aconteceu simplesmente. Foi planejado. Pouco depois da Segunda Guerra Mundial,estes sujeitos (as corporações) estudavam a forma de impulsionar a economia.O analista de vendas, Victor Leboux,articulou a solução que se tornaria a norma de todo o sistema.


Obsolescência planejada é uma outra forma de dizer "criado para ir para o lixo". Eles fazem as coisas de modo que sejam inúteis tão rápido quanto possível para as jogarmos fora e voltarmos a comprar.Isso é óbvio em sacolas ou copos de plástico, mas agora verifica-se isso em coisas maiores como esfregões, DVDs, máquinas fotográficas, churrasqueiras, quase tudo! Até computadores!Já reparou que quando compra um computador,a tecnologia muda tão rapidamente que em pouco anos se torna quase um impedimento para a comunicação?Fiquei curiosa e abri um destes computadores para ver o que tinha dentro.E descobri que a peça que se muda a cada ano é apenas uma pecinha no canto.Mas não se pode mudar apenas essa peça, porque cada nova versão tem um formato diferente,tem de jogar tudo fora e comprar um novo.Estive lendo sobre o design industrial da década de 1950,quando a obsolescência planejada começou a aparecer.Esses designers eram muito claros sobre o assunto.Chegavam a debater quão rápido conseguiam que um aparelho avariasse,mas de modo a que o consumidor mantivesse fé suficiente para ir comprar outro.Foi tão intencional!Mas as coisas não avariam suficientemente rápido para manter esta seta funcionando.Por isso, existe também a obsolescência perceptiva. A obsolescência perceptiva nos convence a jogar fora coisas que ainda são perfeitamente úteis.Como fazem isso? Mudam a aparência das coisas.Por isso, se comprou suas coisas há alguns anos,todos percebem que vocês não têm contribuído para esta seta.E como nosso valor depende da nossa contribuição para esta seta,isso pode ser embaraçoso.Por exemplo, se eu tiver o mesmo monitor de computador gordo e branco na minha mesa por 5 anos,e a minha colega tiver comprado um computador novo,ela vai ter um monitor plano, brilhante que combina com o computador, com o celular e até com as canetas.

Ela parece estar operando uma nave espacial,e eu... pareço que tenho uma máquina de lavar na mesa.A moda é outro bom exemplo...Já se perguntou porque os saltos dos sapatos das mulheres passam de largos para finos num ano, e no próximo de finos para largos? Não é por haver um debate sobre qual deles é mais saudável É porque usar saltos largos num ano de saltos finos mostra que não contribuiu recentemente para a seta,por isso não vale tanto quanto a pessoa com saltos finos ao seu lado,ou em um anúncio.É para comprarmos sapatos novos.A publicidade e a mídia em geral têm um papel importante nisto.Cada um de nós nos Estados Unidos,é bombardeado com mais de 3.000 anúncios por dia.Vemos mais publicidade num ano do que as pessoas de há 50 anos viam em toda a vida.Qual é o objetivo de um anúncio se não nos fazer infelizes com o que temos?

estamos errados...mas tudo se resolve se formos às compras. A mídia também ajuda a esconder tudo isto e tudo isto. (indicando ambos os extremos do fluxo do consumo). Por isso, a única parte da economia que vemos são as compras. A extração, produção e envio para o lixo, acontecem fora do nosso campo de visão.Por isso, nos Estados Unidos temos mais coisas do que tivemos antes,mas pesquisas mostram nossa felicidade declinando.Nossa felicidade teve o seu pico na década de 1950,a mesma época em que a febre consumista explodiu.ãham!! Coincidência interessante! Acho que sei o porquê.Temos mais coisas, porém menos tempo para o que realmente nos faz felizes:amigos, família, tempo livre. Estamos trabalhando mais do que nunca. Alguns analistas dizem que não temos tão pouco tempo livre desde a sociedade feudal.E sabem quais são as duas atividades que mais fazemos no pouco tempo livre que temos? Ver televisão e fazer compras!Nós americanos, passamos 3 a 4 vezes mais tempo comprando do que os Europeus. Assim, estamos nesta situação ridícula, vamos trabalhar talvez em dois empregos,e quando chegamos em casa exaustos e sentamos no sofá novo para ver televisão,e os anúncios dizem que não prestamos, então vamos às compras para nos sentirmos melhor,depois trabalhamos mais para pagar o que compramos,

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Por isso, nos dizem 3.000 vezes por dia que o nosso cabelo está errado,nossa pele, nossas roupas, nossos móveis, nossos carros, nós


compramos,e chegamos em casa mais cansados, vemos mais televisão, que nos diz para fazermos compras outra vez,e estamos neste ciclo de "trabalhar-ver-comprar",e podíamos simplesmente parar.Então, no final, o que acontece a todas estas coisas que compramos?Neste ritmo de consumo, não cabe tudo em casa, apesar do tamanho médio das casas ter duplicado neste país desde os anos 70.Vai tudo para o lixo.E isso leva-nos ao Tratamento do lixo.Esta é a parte da economia de materiais que conhecemos melhor,porque nós temos que levar o lixo até à esquina.Cada americano produz 2 kg de lixo por dia, o dobro do que fazíamos há 30 anos.Todo este lixo, ou é despejado num aterro, que é um grande buraco no chão,ou, ainda pior, primeiro é incinerado e depois despejado num aterro.As duas formas poluem o ar, o solo, a água, sem esquecer que alteram o clima.A incineração é realmente ruim.Lembra daqueles tóxicos da fase da produção? Bem, queimar o lixo libera esses tóxicos no ar.Pior ainda, produz super-tóxicos novos, como a dioxina.A dioxina é a substância mais tóxica feita pelo homem,e os incineradores são a principal fonte de dioxinas.Isso significa que podemos parar a principal fonte da mais tóxica substância

novo. novo (Videoclipe e documentário em cd anexo)

Fonte: www.storyofstuff.com

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conhecida e feita pelo homem, simplesmente parando de queimar o lixo.Podemos parar hoje! Algumas empresas não querem criar aterros e incineradores aqui,por isso também exportam os resíduos.Então, e a reciclagem? A reciclagem ajuda? Sim, a reciclagem ajuda.A reciclagem reduz o lixo nesta extremidade, (indicando o Tratamento do lixo)e depois reduz a pressão para minerar e colher mais nesta extremidade.(indicando a matéria prima) Sim, sim, sim, todos devemos reciclar.Mas reciclar não é suficiente.Reciclar nunca será suficiente, por duas razões:Primeiro, o lixo que vem de nossas casas é apenas a ponta do iceberg.Para cada saco de lixo que deixamos na esquina, 70 sacos de lixo são criados anteriormente só para fazer o lixo desse saco que deixamos na esquina.Assim, mesmo que pudéssemos reciclar 100% do lixo das nossas casas,não se chegaria ao coração do problema.Além disso, grande parte do lixo não pode ser reciclado,ou porque contém demasiados tóxicos, ou porque é criado de início para não ser reciclável.Como aquelas caixas de suco que têm camadas de metal, papel e plástico, todas coladas.Não dá para separar essas camadas para reciclá-las.Como se vê, é um sistema em crise.Por todo o percurso, estamos batendo em limites.Do clima em mudança ao decréscimo da felicidade,Simplesmente não está funcionando.Mas a parte boa de um problema tão generalizado é haver tantos pontos de intervenção.Há pessoas trabalhando aqui (indicando o terceiro mundo), salvando florestas, e aqui (indicando a indústria), na produção limpa.Pessoas trabalhando em direitos do trabalho,em comércio justo, em consumo consciente, no bloqueio de aterros e incineradoras.E, muito importante, em recuperar o nosso governo,para que seja realmente pelas pessoas e para as pessoas.Todo este trabalho é criticamente importante, mas as coisas vão realmente começar a se mover quando enxergarmos as ligações,quando enxergarmos o panorama geral.Quando as pessoas ao longo do sistema se unirem,podemos reivindicar e transformar este sistema linear em algo novo,um sistema que não desperdice recursos ou pessoas.Porque aquilo de que precisamos nos livrar é da antiga mentalidade de usar e jogar fora.Há uma nova escola de pensamento neste assunto,e é baseada em sustentabilidade e equidade.Química verde, zero resíduos,produção em ciclo fechado, energia renovável,economias locais vivas. Já está acontecendo.Há quem diga que é irrealista, idealista, que não pode acontecer.Mas eu digo que quem é irrealista são os que querem continuar pelo velho caminho.Isso é que é sonhar.Lembrem-se que a velha forma não aconteceu por acaso.Não é como a gravidade, com que temos que conviver.As pessoas as criaram, e nós também somos pessoas,por isso vamos criar algo


Fonte: . malvados

anexo 2

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Comida Hungry Planet


Fonte: . malvados

anexo 2

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Comida Hungry Planet

famíílias do Mundo Fonte: . Internet Comida por semana 15 fam (Fotó Menzel,, do livro “Hungry Planet Planet)) (Fot ógrafo Peter Menzel



Natureza, Cultura e Modos de vida - Base primitiva revisitada