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2 CORÍNTIOS Introdução Plano do livro Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4

Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo

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Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo

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Capítulo 13

INTRODUÇÃO I. CONTATOS DE PAULO COM A CIDADE DE CORINTO O evangelho alcançou a cidade de Corinto, a principal da Acaia, cerca de vinte anos após a crucifixão de Jesus. A população era constituída de gregos nativos, colonos romanos e de judeus. A cidade estava situada na principal rota comercial entre o Leste e o Oeste, por isso havia uma corrente ininterrupta de comerciantes de espírito inquieto e vivaz. Nas próprias cartas aos coríntios descobre-se o efeito de tal atmosfera na vida dos crentes dali. Somos informados a respeito de duas visitas de Paulo a Corinto em At 18 e At 20.1-3. Ele também manteve correspondência com aquela igreja em várias ocasiões, como recebia também cartas e informações dos crentes. (Veja-se 1Co 7.1; 2Co 2.4). As relações do apóstolo com a Igreja de Corinto revelam um caráter muito íntimo e pessoal. Ele foi o pioneiro na evangelização da cidade, (1Co 3.6 e 4.15) e acompanhava o crescimento daquela igreja com vivo interesse. Ali existiam dificuldades peculiares. Havia muito entusiasmo de mistura com muita propensão ao erro, algumas vezes o espírito sectário tomava vulto e parece que o Apóstolo teve seus detratores que procuraram minar sua influência. Isto se constata muito facilmente na segunda epístola. A primeira visita a Corinto verificou-se no que chamamos de segunda viagem missionária de Paulo. Ali chegou ele após sua visita a


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 2 Atenas, logo pregando na sinagoga (At 18.4). Paulo enfrentou tal oposição da parte dos judeus, que foi levado a declarar: “Sobre a vossa cabeça o vosso sangue! eu dele estou limpo, e desde agora vou para os gentios”. (At 18.6). Tais palavras parecem sugerir controvérsia sobre a culpa da crucifixão de Jesus. Que o apóstolo fez da Cruz seu assunto fundamental em Corinto, prova-o o que encontramos na primeira carta: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado», (1Co 2.2). Talvez a experiência do apóstolo em Atenas o tivesse levado a esta decisão, o que é bem possível. Ao mesmo tempo houve alguns convertidos de entre os judeus. O primeiro foi Áquila e sua esposa Priscila. Não eram naturais de Corinto, mas residiam ali e Paulo morou com eles (At 18.1-3). Depois vem Crispo, principal da sinagoga. (At 18.8). Este creu no Senhor com toda sua família. A seguir, vem Sóstenes (1Co 1.1) que pode ser o mesmo referido em At 18.17, como o “principal da sinagoga”. Se assim é, ele também recebeu a fé em Jesus Cristo. Mais tarde viajou com Paulo e esteve com ele em Éfeso, pois seu nome está na relação daqueles da Igreja de Corinto aos quais Paulo envia saudações na primeira carta (1Co 1.1). Todavia, o êxito mais importante de Paulo foi entre os próprios coríntios, a respeito dos quais se diz: “muitos dos coríntios... criam” (At 18.8). Também Deus lhe assegurou por meio de uma visão: “tenho muito povo nesta cidade” (At 18.10). Os judeus hostis continuaram a perseguir o apóstolo e, eventualmente, o trouxeram perante Gálio, lugar-tenente ou procônsul romano da Acaia (At 18.12). Gálio não deu atenção a esses judeus e o incidente refluiu sobre a cabeça de Sóstenes, que era o principal da sinagoga, isto através de uma demonstração antijudaica por parte da população grega (At 18.17). A menção do nome de Gálio como procônsul dá-nos razão de colocar a primeira visita de Paulo a Corinto entre os anos 50 a 55 do primeiro século, pois o consulado de Gálio é colocado no verão, ano 51, ou o mais tardar no ano 52. O apóstolo demorou-se ali cerca de dezoito meses (At 18.11), o que lhe deu excelente oportunidade para estabelecer a igreja naquela cidade. Não foi


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 3 a sua maior permanência em um só lugar, pois lemos de sua estada por dois anos, mais tarde, em Éfeso (At 19.10). II. AS VISITAS DE PAULO A CORINTO Quantas vezes o apóstolo ainda visitou Corinto? Somente mais uma visita está registrada em At 20.1-3. Não há pormenores, mas foi uma visita anterior à sua última viagem a Jerusalém e, por isso, pode ser considerada como sua última visita a Corinto. Desse modo, temos em Atos o registro da primeira e da última visitas. Nas epístolas que ora estudamos, o apóstolo fala como se esta última visita fosse realmente uma terceira (2Co 13.1). Neste particular, não há dúvida que existe certa ambigüidade, visto como foi cancelada uma visita que havia sido prometida (2Co 1.23). Se outra visita foi realizada, não há referência explícita, o que torna difícil encontrar solução segura sobre a questão. O que sabemos é que Paulo teve de escrever com certo rigor aos coríntios sobre a conduta deles (2Co 2.4), e adiou sua prometida visita a fim de que não estivesse presente para repreendê-los mais severamente do que por meio da sua carta (2Co 1.23). Se a visita prometida não foi realizada, então não houve uma visita intermediária. III. A DATA DAS EPÍSTOLAS O valor da discussão deste assunto está simplesmente em reconstituir as circunstâncias que se relacionam com a redação de 1 e 2 Coríntios. Sabemos que Paulo demorou por dezoito meses em Corinto, na sua primeira visita, viajando depois, por mar, até Éfeso; visitou Jerusalém e Antioquia, percorreu os lugares da Ásia Menor onde, anteriormente, fizera trabalho missionário, voltando então a Éfeso onde demorou dois anos (At 18.11,18-23-19.1). Escreveu de Éfeso a primeira carta aos Coríntios, talvez um ano após sua chegada ali, no ano 55 A. D. A carta foi escrita, em parte para condenar o espírito faccioso existente entre eles, fato que lhe chegou ao conhecimento por intermédio dos membros da família de Cloe (1Co 1.11) e, em parte, para repreender os


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 4 coríntios por motivo de um ato de baixa imoralidade cometido por um membro daquela igreja e contra quem eles não tomaram as medidas radicais que o caso exigia (1Co 5.1-8); e também foi escrita para responder a respeito de certas questões, sobre as quais lhe haviam solicitado conselhos (1Co 7.1). Parece que Timóteo já estava viajando para Corinto, quando Paulo escreveu esta carta (1Co 16.10) de modo que esta foi levada diretamente a Corinto por algum outro portador. Sabemos com segurança que pouco tempo após Paulo haver escrito esta carta (embora não fosse a primeira que escrevera aos coríntios, como vemos em 1Co 5.9), ele mesmo partiu para Corinto via Macedônia (1Co 16.5). Embora tenha sido este o plano que ele estabeleceu finalmente, já havia previamente falado em ir primeiro a Corinto e, então, à Macedônia, voltando após a Corinto. Faz referência a esta intenção declarada antes (2Co 1.15-16) porque parece que alguns ficaram ofendidos por causa da modificação do plano, e tentaram, fazendo referências aviltantes, solapar sua influência entre os coríntios. Poderíamos ainda supor que o portador que levou a primeira carta aos coríntios regressou logo a Éfeso, com informações sérias a respeito do estado daquela igreja. Em conseqüência disso, Paulo, em vez de visitar Corinto imediatamente escreveu às pressas uma carta (que não chegou até nós), na qual repreendeu os coríntios um pouco severamente, carta que enviou a Corinto pelas mãos de Tito. (Veja-se 2Co 2.3-4,9 e 7.5-16). Isto deixou o apóstolo muito preocupado e muito ansioso por saber, logo que possível, como os coríntios tinham reagido a tal reprovação. Tito tinha de voltar pela Macedônia; e Paulo deixou Éfeso e foi primeiro a Trôade e, depois, à Macedônia, no intuito de encontrar Tito o mais breve possível. Quando o encontrou ficou muitíssimo alegre em saber, por intermédio dele, que aquela carta severa tivera efeito benéfico, e que os coríntios haviam reconhecido plenamente o ponto de vista do apóstolo (2Co 2.12-14). Em conseqüência disto escreveu a carta que chamamos 2 aos Coríntios e enviou Tito de volta com a mesma, juntamente com


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 5 outros dois irmãos (2Co 8.16-24). Esses entregaram a epístola e também completaram o recolhimento de uma coleta que tinha sido levantada em Corinto para os crentes pobres em Jerusalém (2Co 8.11). 2 Coríntios foi portanto escrita da Macedônia e expressou a alegria de Paulo sobre os resultados alcançados em Corinto. Nela, todavia, o apóstolo também não hesitou em ministrar-lhes as lições a respeito da “discórdia” sobre a qual se deteve nos últimos quatro capítulos (10.1-13.10). Esta reconstituição é apenas conjectural e não é aceita por muitos. Alguns admitem que essa carta tão severa e mencionada em 2Co 2.3 é a mesma 1 Coríntios; outros sugerem que 2 Coríntios, como a possuímos, é constituída de duas ou três divisões tomadas de epístolas diferentes, escritas por Paulo aos coríntios em diferentes ocasiões. Tais divisões distintas seriam 1 a 9, exceção feita de 6.14-7.1, e 10.1-13.10. Tal possibilidade não pode ser desdenhada e a ela nos referiremos depois. Tal ponto de vista, porém, não é absolutamente necessário, e excelentes argumentos podem ser alinhados em favor da unidade de 2 Coríntios, como esta se apresenta. Em qualquer caso, porém, a autoria de Paulo quanto ao conteúdo total é indisputável. Eventualmente, o próprio Paulo chegou a Corinto partindo da Macedônia, onde se demorou, por três meses. Uma vez mais teve de escapar à perseguição dos judeus e deixou Corinto por terra em vez de viajar por mar, como era sua intenção a princípio (At 20.3). Até onde é possível verificar-se, o apóstolo jamais voltou a Corinto. IV. EVIDÊNCIA EXTERNA Muito tempo depois, Clemente de Roma enviou uma carta à Igreja de Corinto, escrita daquela cidade. Isto ocorreu mais ou menos no ano 95 A. D. e nessa carta Clemente faz referência a uma epístola de Paulo que pode ser identificada com a 1Coríntios. Essa referência posterior torna 1 Coríntios uma das mais bem autenticadas epístolas do Novo Testamento. Possivelmente a referência mais remota a 2 Coríntios é encontrada nos


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 6 escritos de Irineu e Clemente de Alexandria, já nos fins do segundo século, mas a genuinidade da epístola jamais foi posta em dúvida. V. A IGREJA EM CORINTO A Igreja em Corinto foi formada a princípio de uns poucos judeus e muitos gentios, como já foi dito. Seus pontos fracos e fortes podem ser notados através do estudo das cartas que Paulo lhe endereçou. Em nenhuma dessas epístolas, contudo, nem no relato das visitas de Paulo encontrado nos Atos, nos é referido exatamente o que aconteceu na igreja e que deu lugar à severa repreensão que lhes foi aplicada. Somos informados de um caso de incesto peculiarmente vergonhoso (1Co 5.15); houve também um caso de um «que fez o mal» (2Co 7.12), se é que se trata de duas pessoas diferentes. Mas deduzimos que houve um motivo mais geral, além dos referidos, que inquietou o apóstolo, como algum movimento que lançava dúvidas sobre o seu apostolado, e lhe contrapunha um rival (2Co 11.1-6). Não temos bastante luz sobre este assunto para, com exatidão, traçar o curso dos acontecimentos. Tentemos chegar a uma conclusão até onde possível. Do livro de Atos sabemos que Apolo também visitou a Acaia (e certamente Corinto, a capital) e pregou ali com bastante aceitação (At 18.28). Ele é também mencionado por Paulo elogiosamente, em 1 Coríntios – "Apolo regou” (3.6). E é interessante observar que o nome de Apolo foi um dos escolhidos para líder de um partido - “Eu sou de Apolo” - (1Co 1.12). Do que lemos a seu respeito em Atos, parece ter sido um judeu culto que se tornou cristão e orador eloqüente. Evidentemente não era responsável pela criação do partido que tinha o seu nome como bandeira, nem tampouco Paulo pelo outro que tinha o seu. Timóteo, Tito e Suas também trabalharam com Paulo em Corinto (Veja-se At 18.5 e 1 e 2 Coríntios, onde se fala deles). Tem-se especulado se Pedro fez alguma visita a Corinto, e isto por causa da referência ao «Partido de Cefas» (1Co 1.12). Em todo o Novo Testamento não se pode descobrir qualquer referência ou idéia de ter


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 7 ocorrido tal visita. Que representaria, em particular, esse partido de Cefas? É um problema para o qual não se tem resposta certa; mas devido ao fato de o próprio Paulo em sua epístola aos Gálatas declarar: «Resisti a Pedro face a face» (Gl 2.11), é possível que notícias dessa desavença entre eles em assunto de tanta seriedade tivessem chegado a Corinto e ali alguns ficassem do lado de Pedro. O caso teria sido, então, a estrita observância da lei judaica por todos os cristãos. VI. PROPÓSITO DE PAULO EM ESCREVER A índole do povo de Corinto, devido à população ser constituída de raças diversas, prestava-se a divisões partidárias. Até mesmo os crentes foram atingidos por esse espírito sectarista, ostentando os nomes dos líderes mais destacados, até mesmo o do próprio Cristo, para fazer sobressair suas várias divisões. Contra isto o apóstolo tinha de escrever de maneira muito forte, e os primeiros quatro capítulos de 1 Coríntios são destinados a salientar o mal do espírito sectário entre os cristãos. Paulo atribui a causa dessas divisões a uma falsa concepção de sabedoria, de um lado, e do ministério cristão, do outro. Essas divisões na igreja eram um mal, não somente por causa da amargura que produziam, mas também porque os mestres, cujos nomes os diversos partidos adotavam, não viviam a se opor mutuamente. Isto acontecia entre a população pagã de Corinto, onde existiam mestres de opiniões opostas. Por exemplo, Públio Élio Aristides, do segundo século informa que “em cada rua de Corinto pode-se encontrar um ‘sábio’ que tem sua própria solução para os problemas da vida”. Esse partidarismo pode ser atribuído à natural tendência entre os gregos para certa inconstância mental; também uma curiosidade em torno de mistérios, a qual se satisfazia com muitas explicações possíveis, sem necessariamente decidir sobre qual era a verdadeira (cf. At 17.21). Para que a comunidade cristã não seguisse tal tendência, o apóstolo escreveu energicamente: “Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós?” (1Co 1.13).


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 8 Todavia, temos apenas considerado os nomes dos partidos mencionados em 1 Coríntios. Todos esses nomes eram de homens genuinamente bons, e a dificuldade não foi causada por eles, mas pelos próprios coríntios que usavam os nomes deles para fins sectaristas. Em 2 Coríntios encontramos uma situação diferente, porque agora um grupo de outros “apóstolos” surgiu, solapando a influência de Paulo, que a eles se refere nos últimos quatro capítulos dessa epístola. Quando os menciona, é levado a usar de grande clareza de linguagem. Mostra a atitude deles. Diziam: “Suas cartas (de Paulo), com efeito, são graves e fortes, mas a presença dele é fraca, e a palavra, desprezível” (2Co 10.10). Contra estes Paulo tem de falar acerca de si próprio, de uma maneira que, obviamente, o fere. “Mas o que faço, e farei, é para cortar ocasião àqueles que a buscam” (2Co 11.12); e “o que falo, não o falo segundo o Senhor e, sim, como por loucura nesta confiança de gloriar-me” (2Co 11.17). E segue uma relação de experiências de sua própria vida, que não teríamos conhecido, se esses semeadores de desordens na igreja de Corinto não tivessem dado lugar a isso. Assim, do mal resultou o bem. O que nos inspira maior interesse, ao contemplarmos esses acontecimentos, é o fato de o apóstolo ter-se conservado em comunhão com tal grupo de crentes sectaristas. Não se separou deles, como se fossem gente intratável, mas cumpriu a ordem de nosso Senhor «não desesperando de ninguém» (ver Lc 6.35). E em meio a essas palavras de controvérsia pessoal, podemos sentir o espírito do amor cristão e a operação do princípio proclamado em 1Co 13. «Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol das vossas almas. Se bem que tanto mais vos ame, tanto menos seja amado por vós» (2Co 12.15). VII. DUAS CARTAS, OU TRÊS? Façamos aqui uma digressão a fim de considerar se esses capítulos (2Co 10 a 13), na posição que ocupam atualmente, não estão deslocados, devendo então ser considerados como uma carta separada, e mesmo como a carta referida em 2Co 2.3-4. Vejamos como Paulo a descreve:


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 9 “E isto escrevi para que, quando for, não tenha tristeza da parte daqueles que deveriam alegrar-me; confiando em todos vós de que a minha alegria é também a vossa. Porque no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida”. Agora, se passarmos diretamente destas palavras para o cap. 10, podemos apreciar a força do argumento acima apresentado. O cap. 10 assim começa: “E eu mesmo, Paulo, vos rogo, pela mansidão e benignidade de Cristo, eu que, na verdade, quando presente entre vós, sou humilde; mas, quando ausente, ousado para convosco, sim, eu vos rogo que não tenha de ser ousado, quando presente, servindo-me daquela firmeza com que penso devo tratar alguns que nos julgam como se andássemos em disposições de mundano proceder”. Mais adiante, em 11.2-3, lemos: “Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva, com a sua astúcia, assim também sejam corrompidas as vossas mentes, e se apartem da simplicidade e pureza devidas a Cristo”. Tais sentimentos, pensam alguns, ajustam-se tão bem à descrição que Paulo faz da referida carta, que muitos comentadores concluem constituírem estes capítulos a carta em questão e, portanto, devem ser cronologicamente colocados antes de 1 a 9. A atual colocação, porém, é encontrada em todos os manuscritos e não aparece qualquer evidência que indique não pertencerem os quatro últimos capítulos originalmente aos primeiros nove. Portanto, a questão só pode ser discutida do ponto de vista da evidência interna, não se conseguindo unanimidade de opinião. Em defesa da correção da ordem atual pode-se argumentar que os caps. 1 a 9, embora registrem alegria, também contêm reprimenda (veja-se por exemplo 1.23). Isto indica que a reprimenda não está inteiramente fora


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 10 do pensamento do autor, por isso o tom de advertência dos últimos quatro capítulos pode seguir apropriadamente a matéria dos nove primeiros. Demais disto, o tom ou linguagem de 10 a 13 não é todo de hostilidade; e pode-se dizer não ser bastante severo para justificar a alegação feita de ser uma carta de repreensão. Amor genuíno e profundo interesse assinalam esses capítulos (veja-se por exemplo 12.20): “Temo, pois, que, indo ter convosco, não vos encontre na forma em que vos quero, e que também vós me acheis diferente do que esperáveis, e que haja entre vós contendas, invejas, iras, porfias, detrações, intrigas, orgulho e tumultos”. Quando se consideram essas qualidades de cada divisão, o teor geral de cada seção não é tão diferente que a última não possa vir em seguimento da primeira. Teria o apóstolo conseguido reatar suas boas relações cristãs com a Igreja de Corinto, e também entre os membros da própria Igreja? Aqueles que colocam os caps. 10 a 13 antes dos caps. 1 a 9 podem responder: Sim. Se achamos que a ordem desses capítulos deve ser como se apresenta na carta, podemos ainda crer que Paulo, pelo Espírito Santo, teria sido uma vez mais “consolado e confortado” como o fora nas ocasiões anteriores (veja-se 2Co 1.1-14). VIII. O ENSINO DESTAS EPÍSTOLAS A igreja de Corinto era, a um só tempo, fonte de alegria e de ansiedade para o apóstolo. As duas epístolas que estudamos são caracterizadas por um espírito de interesse pessoal intenso, da parte do autor, pelos crentes dali. Este interesse impediu-o de desenvolver uma linha de doutrina, como, por exemplo, na epístola aos Gálatas; ou uma apresentação sistemática do caminho da salvação em Cristo Jesus, como é o caso de Romanos (embora seja interessante recordar que a carta aos Romanos foi escrita em Corinto). Muitos tópicos doutrinários são abordados, alguns de capital importância para a compreensão da fé cristã. Certas divisões tratam da natureza da sabedoria humana e da sabedoria divina (1Co 1 a 4); a doutrina da conduta crista (1Co 5; 6; 8; 9


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 11 e 11); o conceito cristão do casamento (1Co 7; cf. 2Co 6.14-7.1); a instituição e significação da Ceia do Senhor (1Co 10 e 11.17-34). Ha também o ensino relativo à unidade da Igreja (1Co 12-13; 16.1-9 e 2Co 8 e 9); sobre os dons espirituais (1Co 14); sobre a Ressurreição (1Co 15) e o ministério cristão (2Co 3.1-6.10; 10.1-13.13). Desta relação pode se constatar que uma perda muito grande a Igreja teria sofrido se estas epístolas não tivessem sido escritas ou preservadas. PLANO DO LIVRO I. TRIBULAÇÕES E VIAGENS RECENTES DO APÓSTOLO - 1.1-2.13 a) Saudação (1.1-2) b) Deus conforta o Seu povo (1.3-11) c) Paulo nega que tenha sido volúvel (1.12-22) d) Razões pessoais de não ter visitado Corinto (1.23-2.4) e) O Apóstolo exorta ao perdão (2.5-13) II. A NATUREZA DO MINISTÉRIO CRISTÃO - 2.14-6.10 a) O Evangelho triunfa (2.14-3.6) b) A glória do Evangelho é maior e patente (3.7-4.6) c) Tesouro celestial em vasos de barro (4.7-18) d) A casa terrena e a celestial (5.1-10) e) O ministério da reconciliação (5.11-6.10) III. UM APELO PESSOAL - 6.11-7.16 a) O afeto seja mútuo (6.11-13) b) Exortação à separação (6.14-7.1) c) Paulo regozija-se com o arrependimento deles (7.2-16) IV. A COLETA PARA OS POBRES DA JUDÉIA - 8.1-9.15 a) Tito tomará providências sobre ela (8.1-15)


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) b) Arranjos feitos para levantá-la (8.16-9.5) c) Princípios da contribuição cristã (9.6-15)

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V. AUTORIDADE APOSTÓLICA DE PAULO - 10.1-13.10 a) Paulo defende-se de falsas acusações (10.1-18) b) O caráter do ministério de Paulo (11.1-15) c) A defesa de Paulo baseia-se em sua vida e obra (11.16-12.11) d) O amor e o interesse do Apóstolo (12.12-21) e) Última exortação (13.1-10) VI. CONCLUSÃO - 13.11-14 COMENTÁRIO I. TRIBULAÇÕES E VIAGENS RECENTES DO APÓSTOLO - 1.1-2.13

2 Coríntios 1 a) Saudação (1.1-2) É interessante comparar as sentenças introdutórias desta epístola com as de 1 Coríntios. Notamos a omissão da palavra “chamado” na frase “chamado... para ser apóstolo” (1Co 1.1). A frase assim mais extensa convinha a uma primeira carta. Semelhantemente, ele se referira aos coríntios, na primeira carta, como “chamados para ser santos” (1Co 1.2). A posição e vocação deles estão já bem claras e, por isso, não é necessário repeti-las. São simplesmente a igreja de Deus que está em Corinto (1). Na primeira carta o apóstolo generaliza mais as relações da igreja de Corinto, estendendo-as a «todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo» (1Co 1.2). Aqui dirige a atenção deles para os cristãos que lhes ficavam perto - todos os santos em toda a


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 13 Acaia (1). É bom lembrar aos crentes a conveniência da camaradagem com outros que lhes sejam vizinhos, assim como os laços que os prendem, em Cristo, aos que estão longe. b) Deus conforta o Seu povo (1.3-11) Em seguida, Paulo fere a nota predominante desta Epístola - a necessidade de reconciliação uma atitude misericordiosa de uns para com os outros, uma consolação mútua - e isto ele faz referindo Deus como o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação (3). As experiências pessoais recentes que tivera em Éfeso (ver 1Co 15.32; At 19) dão significação especial às palavras dos vers. 4 e 5. Manifestam-se em grande medida (5). Para o apóstolo, sofrer por Cristo constituía o maior gozo, por fazê-lo sentir-se mais achegado ao Senhor; e sua experiência constante era que, em tais casos, a graça de Deus se mostrava tanto mais transbordante (ver também 4.10). Os mesmos sofrimentos (6). O apóstolo atribui aos coríntios, em face da indiferença geral, os mesmos sentimentos de dor e aflição que ele próprio experimentara, e também confia que agora eles gozem a mesma consolação concedida por Deus. A nossa esperança a respeito de vós está firme (7). A uma pessoa que tenha estado caída por certo tempo é de grande auxílio, para sua reabilitação, que seus companheiros tenham dela um conceito elevado. Desesperado até da própria vida (8). O tumulto em Éfeso fora uma ameaça à vida do apóstolo (ver At 19), mas essa experiência fizerao reconhecer uma vez mais que sua segurança estava nas mãos de Deus. Sentença (9). Pelo que dizia respeito à sua natureza humana, a morte parecia inevitável.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 14 c) Paulo nega que tenha sido volúvel (1.12-22) O testemunho da nossa consciência (12). As epístolas, assim como os Atos, mostram que Paulo era coerente, em consciência, nas suas maneiras de agir. Simplicidade e pia sinceridade (12). O grego tem «santidade e sinceridade de Deus» (ARA) isto é, a santidade e a sinceridade que Deus concede em Sua graça. Sabedoria carnal (12). Ver notas sobre 1Co 1.18-25 e 2.6-16. Nenhuma outra coisa (13). O apóstolo ensina e escreve as mesmas coisas coerentemente. Vossa alegria (14). Parece que ele sentia, de modo especial, uma relação espiritual íntima com os coríntios e, falando desse modo, espera que se regozijem a seu respeito, assim como ele próprio se alegra acerca deles. Dia do Senhor Jesus (14); é uma expressa o de sentido geral, do triunfo manifesto de Cristo como Salvador e juiz. Resume tudo quanto se ensina na Escritura sobre a segunda vinda e o juízo. Segundo benefício (15). Paulo esperava visitar Corinto, seguir daí à Macedônia e regressar a Corinto, dando assim duas oportunidades a esta cidade (ver a Introdução). Alguns cristãos dali se ressentiram de o apóstolo haver falhado em realizar esse plano. A carne (17). Falta de firmeza para executar uma tarefa é característica de «homens carnais». Paulo afirma enfaticamente que não é homem de duas palavras, «sim e não». Deus é fiel (18). No tocante ao nosso Deus, não há que desconfiar, e Paulo toma para si o mesmo padrão elevado. A pregação do Evangelho entre eles, levada a efeito por Paulo, Silvano e Timóteo, fora uma coisa positiva e definida. Porque em Cristo todas as promessas de Deus se realizam. Deus, igualmente, diz ele, nos confirmou convosco (21), e nos ungiu (21), e nos selou (22); isto é, Deus imprimiu em nós a sua marca, como propriedade sua. Deu-nos o penhor do Espírito em nossos corações (22), isto é, o pagamento do sinal, ou uma amostra do poder do Espírito Santo.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) d) Razões pessoais de não ter visitado Corinto (1.23-2.4)

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Para vos poupar (23). Paulo adiou sua visita para que suas comoções serenassem, e não hesita em empregar linguagem calculada a persuadir os homens quanto à sua sinceridade. Domínio (24). O apóstolo não pretende exercer autoridade definitiva sobre os coríntios, no tocante à fé; antes, nivela-se a eles como irmão nessa mesma fé. Fé (24). A palavra grega traz as idéias de confiança pessoal e obediência.

2 Coríntios 2 Voltar (2.1). Tanto quanto saibamos do Novo Testamento, somente há certeza de duas visitas a Corinto. Portanto o verbo voltar, aí, podia ter interpretação mais ampla e ser tomado como referência a uma comunicação recebida de Paulo, quer por carta (não existe mais?), quer por um recado. Escrevi (3). Isto favorece a idéia de que houve uma carta que hoje se considera perdida (ver a Introdução). e) O Apóstolo exorta ao perdão (2.5-13) Se alguém causou tristeza (5). Paulo não é bem explícito aqui na censura, demonstrando assim, como cristão, um espírito benévolo. Os crentes não devem guardar lembrança de afrontas recebidas e já perdoadas. Pela versão ARA deste versículo, nota-se que Paulo afirma ser a ofensa prejudicial à igreja toda. Pode sugerir que à igreja não havia tomado aquela vergonha suficientemente a sério. Deveis, pelo contrário, perdoar-lhe (7). O crente deve sempre estar pronto a perdoar (como foi perdoado por Deus). Isto concorda com o ensino de nosso Senhor. Consumido por excessiva tristeza (7); desaconselha castigo muito severo.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 16 Confirmeis (8); Isto é, «ratifiqueis», leveis sem falta o arrependido a saber que está plenamente reabilitado. Podemos inferir dessas palavras que essa restauração se faria recebendo de volta ao convívio da igreja, como pecador arrependido. Foi por isso também que vos escrevi (9). A «carta perdida» evidentemente exortava que se tratasse com a devida caridade o caso aflitivo, cujos pormenores nos são desconhecidos. Na pessoa de Cristo (10); o grego tem «na presença de Cristo» (ARA) significando a certeza de que Cristo estava presente, aprovando. A frase implica «agindo em lugar de Cristo», e é mais uma referência à restauração oficial do ofensor por Paulo, agindo este em lugar de Cristo, Rei e Cabeça da Igreja. Satanás (11); o adversário obteria vantagem sobre a igreja se perdurassem sentimentos de severidade. Trôade (12). O apóstolo lembra suas recentes viagens para que os coríntios saibam ter ele estado todo o tempo procurando só fazer a vontade de Deus, e não estava faltando à promessa de visitá-los, como podia parecer a qualquer observador superficial. A narrativa de At 20 é muito breve, sem pormenores. Relata simplesmente que Paulo, depois do tumulto de Éfeso, “partiu para a Macedônia. Havendo atravessado aquelas terras, fortalecendo-os com muitas exortações, dirigiu-se para a Grécia, onde se demorou três meses” (At 20.1-3). A presente epístola foi escrita da Macedônia durante o tempo referido nesses versículos. II. A NATUREZA DO MINISTÉRIO CRISTÃO - 2.14-6.10 O apóstolo interrompe de súbito a narrativa para falar da natureza do ministério cristão. Podemos supô-lo muito perturbado em espírito acerca dos coríntios, como teriam recebido suas repreensões, mandadas na «epístola perdida». Mas, pensando nisto, é levado a ver a natureza maravilhosa do ministério que Cristo lhe cometeu, e então passa a falar sobre ele. Fazendo assim, glorifica a Deus que «concedeu tais dons aos


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 17 homens» (Ef 4.8), e também ergue o nível da disputa, entre si e os coríntios, a um plano elevado. a) O Evangelho triunfa (2.14-3.6) Graças a Deus (14). Em suas cartas Paulo acha continuamente motivo de dar graças. Nesta epístola cf. 8.16-9.15. Conduz em triunfo (14). Pode ter surgido na mente do apóstolo o costume antigo de conduzir em marcha triunfal os adversários vencidos. Assim, alegra-se ele por ser o crente «conduzido em triunfo» por Cristo. Fragrância (14) é uma palavra originalmente relacionada com os sacrifícios, e aqui é introduzida ao lembrar-se Paulo do incenso que se usava nos préstitos triunfais. O apóstolo tem espalhado por toda a parte o conhecimento de Deus, assim como o turiferário disseminava a fragrância do incenso. Mas a pregação da palavra produz um duplo efeito. Aos que aceitam a mensagem e são salvos (15), ela traz vida; aos que se recusam a ouvi-la, seu efeito é cheiro de morte (16), visto como em conseqüência dessa recusa eles se perdem (15). Suficiente (16). Apercebendo-se Paulo de tão poderosa influência que dele emana, reconhece humildemente sua insuficiência e sua dependência de Deus (veja-se também 3.5). Muitos que corrompem a palavra de Deus (17). O apóstolo de modo algum atenua o rigor da mensagem do evangelho para fazê-la mais aceitável ao pensamento humano. Tal processo, aliás já começara em seus dias. Em Cristo (17). Toda a vida, pensamento e ações de Paulo centralizavam-se em Cristo. Esta forma de expressão é sua favorita (cf. Gl 2.20).


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2 Coríntios 3 Cartas de recomendação (3.1). Sobre essa prática de recomendar mestres a outras igrejas, veja-se At 18.27. Parece que alguns mestres haviam visitado Corinto, levando tais cartas, talvez escritas pelos presbíteros de Jerusalém. Paulo aqui argumenta que a posse de tais documentos não garantia a verdade do ensino do mestre que os exibisse. Meio melhor de julgar o mestre era o fruto do seu trabalho. Assim, os que se haviam convertido por seu ministério em Corinto eram sua carta, a qual, se devidamente lida, era suficiente recomendação. Do uso da expressão outra vez (1), repetida em 5.12, pode parecer que os mestres seus oponentes estavam acusando-o de se haver recomendado a si próprio, e então lembravam que essa credencial não inspirava muita confiança, comparada com as cartas de que eram portadores. Mais adiante, em 10.12, Paulo faz voltar contra eles essa acusação. Carta de Cristo (3); frase impressionante, que se refere à mensagem proclamada pelo testemunho da vida do crente quando dirigido pelo Espírito do Deus vivente. O pensamento leva a uma referência ao velho concerto, que também fora escrito por Deus, cujas leis apelavam ao sentimento exterior dos homens. Contrasta-se então isto com o novo concerto, que é operação íntima, do reino da mente e do espírito. Tábuas de carne... (3); melhor dito, “tábuas que são corações de carne”, o que torna mais clara a referência a Ez 11.19. A frase inteira lembra Jr 31.33. Nossa suficiência vem de Deus (5). O ministro nada é (ver 1Cr 4); Deus é quem opera eficazmente. Neste e no verso seguinte, Paulo responde a pergunta que fez em 2.16. Testamento (6); o grego tem “concerto”, aliança (ARA). A Bíblia fala do “antigo concerto” e do “novo concerto” descrevendo a lei, de um lado, e do outro lado o dom divino da graça mediante Jesus Cristo. Letra... espírito (6). Estas palavras contrastam a primeira dispensação com a última. O Judaísmo fora a observância de uma lei,


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 19 mas o Cristianismo consiste em viver uma vida. Um ministério de preceitos devia ser mortal devido à incapacidade de o homem conformar-se ao que estava escrito (“a letra”); porém a mensagem de salvação traz vida por meio do espiritual ou do vivificante, qualidades que o Espírito Santo outorga ao evangelho. Paulo tem ainda em mente aqui passagens como Jr 31.31-34 e Ez 11.19-20. b) A glória do evangelho é maior e patente (3.7-4.6) Ministério da morte (7). Referindo-se deste modo à lei de Moisés, o apóstolo lembra que a morte foi o que resultou do fracasso do homem em guardar a lei. Apesar disso, a instalação desse ministério foi acompanhada de muita glória - a glória do Sinai, e igualmente a que se refletiu no rosto de Moisés. A razão disso é que a lei revela a vontade de Deus. Maior glória (8). O dom da vida será ainda mais abundante para a glória de Deus, porque agora a misericórdia e o amor se combinam com a justiça no conhecimento que o homem tem de Deus. Condenação... justiça (9). Sob a lei, o homem foi condenado por causa de sua provada injustiça. Em Cristo, ele recebe uma justiça, não sua própria, justiça que é perfeita à vista de Deus. Esta é ministrada com muito maior glória. Ousadia no falar (12). O apóstolo não usa de meios termos em sua pregação; nem precisa dar uma forma aprimorada ao que diz. A mensagem do evangelho é de extrema e urgente necessidade, pelo que dispensa enfeites humanos. Véu (13); é referência a Êx 34.32-35. Terminação (13). A idéia na mente do apóstolo parece ser que Moisés velou a face para que os israelitas não vissem a transitoriedade da dispensação (inaugurada daquela forma) com o desvanecimento da glória. Falharam, porém, em perceber tanto o propósito da lei como a dispensação nova e maior que se seguiria.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 20 Em Cristo é removido (14). Paulo recebeu de Deus a comissão especial de proclamar a plenitude de Cristo, isto é, que Ele era o cumprimento ou o “fim” (ver Rm 10.4) da lei; de sorte que quem tivesse Cristo tinha, nEle, toda a justiça reclamada pela lei. (Este tema é mais desenvolvido em Gálatas e Romanos). O Senhor (17), isto é, o Senhor Cristo. Paulo parece empregar aqui a palavra Espírito no sentido em que a empregou nos vv. 6 e 8 acima, de modo que permanece ainda o contraste implícito com a «letra». Há liberdade (17), isto é, a consciência da natureza repressora e condenadora da lei é dissipada. Os crentes não mais desejam quebrar a lei; estão imbuídos do espírito dessa mesma lei. Mudados (18); a ARA tem “Mas todos nós, com o rosto desvendado, contemplando como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, como na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. Isto ensina que o homem que se voltou para Cristo e O reflete em sua vida, é transformado mais e mais em glória, por Cristo, que é o Espírito. A lei contém a mente do Espírito.

2 Coríntios 4 Não desfalecemos (4.1). O apóstolo, estava sempre ciente da glória do ministério do evangelho, e certo de que os seres humanos, por si mesmos, eram indignos dele; daí tornar a dizer que Deus dá a graça (ou misericórdia) para o ministério, e assim sustenta a glória deste com o Seu poder. Não andando com astúcia (2). Nenhuma argumentação humana serve para recomendar o evangelho ao mundo; isto se torna astúcia, inevitavelmente. Tratando enganosamente a palavra de Deus (2). O verbo grego traduzido “tratando enganosamente” reitera a idéia de astúcia, isto é, a manobra humana com um fim em mira, que não é a verdade; cf. 3.12 acima. A frase a palavra de Deus pode-se interpretar em sentido amplo, como revelação de Deus. Que se refere aqui primeiramente à mensagem


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 21 do evangelho, não há duvida; mas também se refere à revelação de Deus no velho concerto, que serve de painel de fundo ao evangelho; e assim podia, em última instância, interpretar-se (por nós hoje) como se referindo à Bíblia toda. Recomendando-nos à consciência de todo homem (2). O evangelho recomenda-se a todos, exceto aos malfeitores voluntários, e o crente deve ser pessoa cuja vida todos possam recomendar. Encoberto (3). A palavra “encoberto” é a mesma usada em 3.13, (punha véu), e o pensamento se liga àquela passagem. O deus deste século (4). A referência é à ordem temporal presente. A Bíblia atribuí este papel a Satanás (Ver 1Co 5.5). A luz da glória do evangelho de Cristo (4). O trabalho do deus deste mundo tem por objetivo desviar da luz os homens. Paulo outra vez chama atenção para a “glória” do evangelho, talvez tendo ainda em mente o ministério da lei. Imagem de Deus (4). “Ninguém jamais viu a Deus: o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). Em 1Co 11.7, Paulo declara que o homem é “a imagem de Deus”, voltando o pensamento a Gn 1.26. O pecado deslustrou essa imagem em toda a humanidade; mas é vista de novo, perfeitamente, em Cristo. Brilhe a luz (6); é referência a Gn 1.3. Cristo, a luz do mundo (Jo 8.12) brilha no coração do crente. Iluminação espiritual acompanha a regeneração, e esta por sua vez origina-se em Cristo. A idéia do versículo no argumento de Paulo é que Deus foi quem brilhou; portanto, toda incredulidade no homem deve-se não à obscuridade da mensagem, mas à deliberada hostilidade do mesmo homem. Porque a verdadeira luz agora resplandece, Paulo proclama-a. c) O tesouro celestial em vasos de barro (4.7-18) O verso 7 torna a expressar a verdadeira origem e poder do ministério cristão. O ministro é vaso de barro. Ver 3.5, acima.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 22 Abatidos (9). A vida de Paulo era cheia de aflições. Todavia, a despeito de seus sofrimentos, sabia que podia ser muito pior. Não permite que sua fé seja abalada. Levando no corpo o morrer de Jesus (10). Era assim que o apóstolo podia interpretar as aflições que suportava ministrando no nome de Cristo. Seu Mestre sofrera grandes aflições nos dias de sua vida na carne, e o discípulo está pronto para experimentar os mesmos dissabores; porque neles e por eles sente consigo a presença de Cristo, transformando tais aflições mortais em retumbante vitória. Assim sendo, também a vida de Jesus (10) se manifesta no corpo do discípulo, isto é, nas suas experiências terrenas. O verso 11 reitera o pensamento. Morte... vida (12). A vida árdua do apóstolo contrasta-se com o fruto de salvação manifesto em seus convertidos. Eu cri (13). No grego esse verbo tem a mesma raiz da palavra “fé”. Confiança pessoal em Deus conduz a testemunho por Ele, ainda que isso inclua nova narrativa das aflições. O salmista tivera a mesma experiência. (Ver Sl 116.9-11). Por amor de vós (15). O apóstolo torna a expressar seu desejo pessoal da salvação dos coríntios. Homem interior (16). O espírito de Paulo revigorava-se mais e mais nos seus trabalhos por Cristo, a despeito do esgotamento físico a que as aflições o submetiam. Os vv. 17 e 18 expressam confiança no cuidado de Deus pelo crente. Não contém uma «filosofia do sofrimento», isto é, não explicam a causa ou o propósito do sofrimento, mas afirmam, sim, o conhecimento seguro da realidade das coisas eternas, em face das quais as temporais são de somenos importância (cf. Rm 8.18). Uma riqueza de sentido está no uso que ele faz da frase nossa leve aflição (17), com que descreve tudo quanto sofrera.


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2 Coríntios 5 d) A casa terrestre e a celestial (5.1-10) O cap. 5 está intimamente relacionado com o precedente, e desenvolve mais a idéia da glória eterna do crente, em contraste com sua presente vida temporal. Da parte de Deus um edifício (1). Paulo entra em maiores particularidades, quando trata da ressurreição pessoal dos crentes, do que a maioria dos outros escritores do Novo Testamento. A casa terrestre do espírito do homem é comparada a um tabernáculo, ou «tenda», mas a casa celestial, a um edifício (1). Céus (1); isto é, as regiões espirituais onde Deus habita. O plural é de uso judaico. A Escritura com essa palavra descreve-nos o «lugar» e o «estado» da alma em bemaventurança. Não é incorreto dizer que nada está revelado a respeito do céu, a não ser a felicidade dos que, por Cristo, são levados para lá. Isto basta como estímulo da fé. Não por querermos ser despidos (4). Paulo não deseja morrer, senão experimentar “vitória sobre a morte” o que vai ser a sorte feliz dos crentes que estiverem vivos na vinda de Cristo (ver 1Co 15.50-55). Foi o próprio Deus quem nos preparou para isto (5). Deus preparou os crentes para a vida no céu, e essa vida incluirá existência “no corpo”. Enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor (6). A íntima união com Cristo, após a morte, ou em Sua vinda, em comparação com a qual esta vida pode ser descrita como um estar “ausente” dEle, é o que leva o apóstolo a fazer esta declaração. Fé... vista (7). Estas palavras indicam a diferença entre os dois estados. Por isso nos esforçamos (9). Note-se que o apóstolo não deixou que a contemplação do estado celestial lhe paralisasse as mãos para o trabalho de Cristo, o qual precisa ser realizado nesta vida terrena.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 24 Tribunal (10). A palavra grega, aí, significa “trono para a concessão de prêmios” e era empregada com relação aos jogos olímpicos. O “trono do juízo de Deus”, em Ap 20.11, é uma palavra diferente. A idéia de galardão para os fiéis aparece claramente no ensino de nosso Senhor (veja-se a parábola dos Talentos, Mt 25.14-30), e também nos escritos em geral do Novo Testamento. A palavra compareçamos (10), também, sugere um comparecimento para receber prêmios, não para juízo. Pode ser traduzida “sejamos conhecidos” (cf. verso 11). O vocábulo grego receba (10) tem sentidos vários, como «suprir», «levar», «ganhar». O sentido, pois, seria que os crentes, trabalhando por Cristo, podem realizar algumas coisas boas, e outras más (lit. «sem valor»). A espécie de cada uma será revelada quando “nos manifestarmos perante o tribunal de Cristo”. e) O ministério da reconciliação (5.11-6.10) O apóstolo passa a indicar o efeito do ministério cristão nas vidas de homens e mulheres que atendem ao evangelho. E roga aos seus leitores que aceitem a reconciliação que Deus providenciou mediante Cristo. Temor do Senhor (11); isto é, reverência para com Deus. Persuadimos (11). Nossa argumentação é com os homens, diz ele, porém Deus conhece nossa mente íntima. A vossa consciência nos reconheça (11). Neste ponto Paulo parece voltar ao pensamento de 3.12. Espera que os coríntios percebam a sinceridade do seu ministério. É isto que deve recomendar seu trabalho perante eles. Cf. 10.18. Gloriarmos (12); lit. “vangloriardes”. Alguns tinham insinuado nos coríntios o desprezo por Paulo e seus companheiros, porque estes viviam em tais aperturas. Mas um exame da vida íntima do apóstolo darlhes-á toda a resposta de que precisam para transmitir àqueles cuja ufania se limitava a exterioridades. Cf. 10.7 e ver a nota sobre 10.12. Pelo versículo 13 o apóstolo provavelmente leva os coríntios a saber que,


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 25 pareça ele louco ou não, é ministro de Deus, não o afetando a opinião que dele façam os seus detratores. Talvez estas palavras visem a responder a duas críticas diferentes. Alguns possivelmente dissessem que ele era um extático; outros, que era demasiadamente moderado, sóbrio, um morto em vida. Os versos seguintes dão-nos um conhecimento valioso da compreensão que o apóstolo tinha da morte de Cristo. Começa dizendo que o amor de Cristo nos constrange (14); isto é, o amor que Cristo mostrou pela raça humana, morrendo por ela, faz que se robusteça a lealdade do apóstolo por tão grande Salvador. Se Cristo morreu assim por todos (14; lit. “em lugar de todos”), devem todos considerar-se como havendo morrido também; porque Cristo representa em grau supremo toda a raça humana. (Ver Cl 1.17, “nEle tudo subsiste”). Por conseguinte, não devem viver mais para si mesmos, mas para ele (15). Note-se a repetição: “Um morreu por todos”... “ele morreu por todos”... “aquele que por eles morreu”. A morte de Cristo para a salvação do homem é a suprema revelação do amor de Deus e, pois, deve “apoderar-se de nós” (“constranger-nos”). A ninguém conhecemos segundo a carne (16); isto é, fazendo da vida na carne ou terrena o padrão de nosso julgamento. Conhecemos a Cristo segundo a carne (16). Cristo também viveu sua vida terrena, mas agora não pensamos mais nEle sob este aspecto. Já agora não o conhecemos deste modo (16). Jesus não somente passou para o reino do espírito, como também a revelação de quem Ele era - o Filho de Deus faz que o conhecimento terreno que dEle se teve passe a plano secundário. Mais adiante, a heresia conhecida por docetismo ensinava que a vida terrena de Cristo fora irreal; todavia o apóstolo está longe de querer insinuar isto aqui. Nova criatura (17); o crente, igualmente, entrou em nova esfera de existência.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 26 Os vv. 18 e 19 apresentam o plano de Deus de reconciliar o mundo consigo, o que abre aos homens este novo âmbito de vida. Reconciliou (18). É Deus mesmo quem extingue o pecado do mundo. É a expiação que possibilita a reconciliação (ver também Rm 5.10). Não imputando aos homens as suas transgressões (19). É um ato de Deus que mostra a profundeza do Seu amor e misericórdia pelos fracos seres humanos. Cristo levou sobre Si o fardo inteiro do pecado, de sorte que o homem está livre de ter que responder pelo seu passado de transgressões. Deus... em Cristo, reconciliando (19). Este versículo não é tanto uma prova da divindade de nosso Senhor (Deus em Cristo), como é uma declaração de que Deus estava reconciliando em Cristo. Ministério da reconciliação (18). Palavra da reconciliação (19). Descrevendo por estes dois modos o seu ministério, o apóstolo dá ênfase aos elementos «declaração» (palavra) e «aplicação». Embaixadores em nome de Cristo (20). Atrás de toda a atividade apostólica, estava a consciência que ele tinha da Pessoa de Cristo. O apóstolo emprega aqui uma palavra indicativa de uma posição de elevadíssima honra outorgada pelo Cristo Vivo. Rogamos que vos reconcilieis com Deus (20). Era este o grande anelo do apóstolo com relação à humanidade inteira. Concita os homens a aceitar a reconciliação que Deus operou em Cristo. A morte de nosso Senhor foi eficaz não somente para desfazer a hostilidade do homem para com Deus, como também para resolver a necessidade que Deus tinha de afastar-se do homem. O caminho agora está aberto para o perdão divino. Deus o fez (isto é, a Cristo) pecado por nós (21). Provavelmente é esta uma frase sem precedente na literatura, apropriada a descrever um fato único, sem igual. Cristo não foi feito “pecador”, e sim pecado. Portanto, o castigo que sofreu não foi por pecados seus, mas levou sobre Si toda a culpa do pecado do mundo inteiro. (O leitor deve ler Gl 3.13 e Rm 8.3 para verificar os modos de Paulo expressar a mesma verdade revelada).


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 27 Ele suportou isto por nós (21), para que fôssemos libertos do pecado e nos reconciliássemos com Deus. Esta reconciliação tem também um significado positivo, porque por ela somos feitos justiça de Deus nele (21); isto é, somos considerados justos por Deus, embora na realidade ainda não o sejamos. Esta é a doutrina da justificação. Há um paralelismo entre o fato de Cristo ser feito pecado, apesar de Ele mesmo ser impecável, e o crente ser considerado justo desde o primeiro momento de sua fé.

2 Coríntios 6 O apóstolo agora resume em termos gerais a obra e o caráter de um ministro. Em vão (6.1); isto é, sem que seu efeito se manifeste na vida de cada um. O verso 2 é citação de Is 49.8, que encerra uma profecia messiânica. Dia da salvação (2); isto é, a época em que a salvação se faz presente, pelo fato de ter sido trazida por Cristo. O ministério não seja censurado (3). O apóstolo reconhece que o mau procedimento dos seus convertidos servirá para descrédito do seu ministério para com eles. Nos vv. 4-10 descreve a natureza e caráter do ministério que ele tem exercido. Em tudo recomendando-nos a nós mesmos (4). Cf. 3.12; 5.12. Vai aqui a resposta àqueles que têm posto em dúvida suas credenciais de apóstolo. Em todas as circunstâncias, Paulo e seus companheiros mostravam que não tinham “recebido a graça de Deus em vão”, e assim se tornavam um exemplo para os coríntios. Através de toda espécie de experiência difícil (4-5) e a despeito de acusações falsas e opiniões contrárias a respeito deles (8-9), a pureza do seu caráter provava-se pelo teor espiritual da vida que levavam (6), pela verdade e poder de sua mensagem (7), e pelo modo como reagiam aos sofrimentos que lhes eram infligidos (9-10). É desta forma que o verdadeiro ministro de Deus se recomenda à atenção dos seus ouvintes.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) III. UM APELO PESSOAL - 6.11-7.16

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a) O afeto seja mútuo (6.11-13) O apóstolo, de um modo pessoal, volta-se agora para os coríntios e lhes faz um apelo ardente para que entre eles haja afeição e sinceridade mútuas. Não tendes limites em nós (12); isto é, «Não vos damos um lugar limitado em nossa afeição; vós é que limitais a afeição que podíeis gozar de nossa parte». Retribuição (13); isto é, «dai-me, assim como eu vos dou». Paulo deseja tocar em assunto que pode magoá-los, mas reafirma que lhes tem amor. b) Exortação à separação (6.14-7.1) Esta seção parece um tanto isolada, visto como o assunto pessoal volta a ser tratado em 7.2 e segs., que reatam o pensamento de 6.13. O tema, aqui, é casamento com incrédulos, tópico que também foi discutido em 1Co 7.10 e segs. O apóstolo exorta vigorosamente os crentes a que não se misturem com incrédulos no sentido de participarem do seu modo de vida. O casamento, naturalmente, é a maneira suprema de se partilhar da vida de outrem; mas o apóstolo parece ampliar o escopo de sua exortação à medida que vai escrevendo. Belial, o Maligno (15); isto é, Satanás. Vós sois o templo do Deus vivente (16). Esta é uma das grandes frases da Escritura, revelação maravilhosa em poucas palavras tão cheias de sentido. Deus habita nos corações e mora na vida dos crentes; Ele nenhuma comunhão tem com Satanás. Por conseguinte, os crentes não podem tolerar a companhia dos incrédulos, naquelas atividades que os distinguem como tais. Retirai-vos (17). É citação de Is 52.11, onde o profeta se dirigiu aos sacerdotes. Como os sacerdotes de Israel deviam ser rigorosamente «limpos», assim agora todos os cristãos devem sê-lo, visto como todos


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 29 são «sacerdotes». O apóstolo amplia o pensamento da passagem de Isaías por meio de uma referência também a Ez 37.27.

2 Coríntios 7 Carne e espírito (7.1). O homem inteiro deve manter-se puro. c) Paulo regozija-se com o arrependimento deles (7.2-16) Acolhei-nos (2). Voltamos ao tema suscitado em 6.13. O apóstolo torna a referir a ansiedade que tivera com a disputa entre si e os coríntios, ansiedade que sentiu quando partira para a Macedônia, e lá aguardara a chegada de Tito. Este tópico ajuda-nos a conjecturar quanto à ocasião e às circunstâncias em que esta epístola foi escrita; dela nos ocupamos na Introdução (ver esta). Ele escrevera-lhes uma carta enérgica, levada provavelmente por Tito. Assim que a despachou, sentiu que se excedera na linguagem, perdendo de todo a simpatia dos coríntios. Não me arrependo, embora já me tenha arrependido (8). Transbordou de alegria quando soube, por meio de Tito, que eles haviam recebido a carta num espírito de vero arrependimento (Ver vv. 4,6,9,13). Da qual ninguém se arrepende (10); o arrependimento que conduz à salvação não é nunca para se lamentar. A tristeza do mundo produz morte (10). Quando os prazeres do mundo falham, como acontece inevitavelmente, o fim é desespero e morte. Por causa do que fez o mal (12); a natureza exata do malfeito não está declarada. Não se tem certeza se foi o mesmo caso narrado em 1Co 5.1. Vossa solicitude a nosso favor (12). O apóstolo continua regozijando-se na “desavença, que tanto mais granjeou estima”, tendo isto revelado aos coríntios quanto cuidavam dele. Neste ponto, eles deram um exemplo de justa correspondência ao evangelho, de como a graça de Deus opera na restauração dos laços de amor.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 30 IV. A COLETA PARA OS POBRES DA JUDÉIA - 8.1-9.15

2 Coríntios 8 a) Tito tomará providências sobre a coleta (8.1-15) O trecho que agora consideramos é de grande interesse, embora o assunto, sendo uma “coleta especial”, possa parecer de importância passageira. O interesse, no entanto, jaz no fato de o apóstolo exortar os irmãos da Acaia a que juntem suas ofertas às dos irmãos da Macedônia, a fim de suprirem as necessidades materiais dos crentes pobres de Jerusalém. Assim aprendemos da Escritura que temos obrigações para com nossos irmãos mais pobres; e que o cumprimento dessas obrigações pode ter rica significação espiritual. As circunstâncias na Macedônia, quando esta coleta foi levantada, não eram de prosperidade. Os irmãos ali estavam em muita prova de tribulação e profunda pobreza (2), quando contribuíram liberalmente e, com efeito, acima de suas posses (3). E ficaram ansiosos por fazer chegar essas ofertas ao seu destino por mãos de Paulo e seus companheiros, considerando essa dádiva aos santos de Jerusalém como expressão de companheirismo e assistência (4). Tito (6). Foi Tito quem empreendeu coleta idêntica entre os coríntios. O apóstolo exorta-os a que mostrem o mesmo zelo neste assunto prático, cristão, assim como se mostravam zelosos na fé, na palavra, no saber e em todo o cuidado (7), matérias estas de caráter mais «espiritual». É claro que ele considerava a plena vida cristã abrangendo ambas estas atividades. Admite, entretanto, no verso 8, que lhe falta autoridade para exigir deles a coleta; apenas lhes dá oportunidade de provar, como ele diz, a sinceridade do vosso amor (8). O verso 9 resume admiravelmente todo o propósito da encarnação. A posição de glória que Cristo desfrutava com o Pai foi por Ele sacrificada, a fim de nos auxiliar. Cf. Fp 2.6-7. Assim, devemos sacrificar alguma coisa para ajudar a outros. Veja-se também 1Pe 2.20-21, onde a vida e a morte de nosso Senhor nos são apresentadas como exemplo.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 31 Desde o ano passado (10). Uma referência de data que ajuda a colocar a redação desta epístola em determinado tempo. Evidentemente por essa época os coríntios haviam empreendido fazer essa coleta; agora Paulo incita-os a levá-la a cabo. Talvez se detenha algo neste assunto para levá-los a ocupar-se de um assunto prático, como antídoto seguro das suas querelas em torno de assuntos que agora devem esquecer. Boa vontade (12). Cf. o elogio de nosso Senhor à viúva que “de sua pobreza” deu uma quantia assaz pequena (Mc 12.41-44). Ninguém pode dar o que não possui. Nosso Senhor atenta para o espírito em que a dádiva é feita. Note-se também que deve haver uma igualdade (14), no sentido de que ninguém deve ser sobrecarregado na contribuição, não havendo da parte de quem a recebe uma necessidade correspondente. Outros não devem ser indevidamente aliviados, e vós sobrecarregados (13). Outra ocasião pode surgir em que as posições se invertam. O que muito colheu (15). É uma citação livre de Êx 16.18. b) Arranjos feitos para o levantamento da coleta (8.16-9.5) Este passo mostra a capacidade de organização de Paulo e quanto conhecia a natureza humana. Tito é um dos que tomarão providências para o levantamento da coleta. Outro irmão (18) o ajudará, e talvez ainda outro ou dois mais (ver 9.5). O «irmão» mencionado no verso 18 não sabemos quem era, mas evidentemente era bem conhecido dos coríntios, porque o seu louvor no evangelho estava espalhado por todas as igrejas (18). Além do que, fora eleito pelas igrejas para viajar com Paulo (19). Podíamos pensar em Barnabé ou João Marcos; a qualquer dos dois conviriam essas palavras. Outros têm sugerido Lucas e Apolo. Nossa boa vontade (19). Os vv. 20 e 21 mostram o desejo de Paulo de que o destino de cada centavo seja bem conhecido. Nosso irmão (22). É outro cristão desconhecido. Usando de um pouco de liberdade, podemos pensar que esse irmão era um «contador» cristão, cujo entusiasmo aumentaria em face da boa vontade dos


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 32 coríntios, visto como à profissão de contabilista aliava o seu dom de evangelista. Tito... mensageiros das igrejas (23). De Tito se certifica que era emissário pessoal de Paulo, não na categoria de servo seu, mas evidentemente dedicado ao grande apóstolo, a quem com alegria ajudava; “verdadeiro filho, segundo a fé comum”, é como Paulo o chama em Tt 1.4. A palavra grega «mensageiros» é «apóstolos». Seu emprego aqui em sentido geral parece indicar que esse termo não tinha ainda adquirido o sentido específico que hoje lhe damos. Eram homens designados por conselhos de igrejas locais, enviados para levar saudações e instruções a outras igrejas, ou evangelizar novas áreas. Eram «viajantes em prol de Cristo».

2 Coríntios 9 O apóstolo evidentemente tem falado aos cristãos macedônios do zelo dos coríntios a respeito da coleta; mas, conhecendo a fraqueza da natureza humana, e talvez temendo as conseqüências das disputas que haviam surgido, toma a precaução de enviar na frente esse grupo de mensageiros; de modo que, quando vier, acompanhado talvez de alguns macedônios, a coleta esteja pronta, e corresponda à expectativa. Não de avareza (5). O apóstolo esforçou-se por erguer o ato da contribuição a um alto nível espiritual. c) Princípios da contribuição cristã (9.6-15) Prossegue o apóstolo referindo o espírito com que os crentes devem contribuir para socorrer os outros em suas necessidades, e como o recebimento, com gratidão, dessas dádivas deve levar seus beneficiários a orar em favor dos ofertantes. Assim, estabelece-se uma bênção recíproca, e o apóstolo glorifica a Deus ao contemplar este resultado abençoado. Aquele que semeia pouco (6). É uma lição que a natureza nos ensina, aplicada à vida espiritual. Se a semente é semeada com


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 33 parcimônia, a safra será escassa. Assim, se nos retraímos, ou se relutamos em nosso serviço cristão, a colheita será diminuta. O verso 7 dá-nos o espírito desse serviço. A quem dá com alegria (7). O grego tem «hilaridade». Sugere um espírito de real prazer, que faz a pessoa não caber em si. Deus pode (é poderoso) (8). O homem não dá do que é propriamente seu, e sim daquilo que Deus lhe tem dado. A Bíblia lembra-nos isto em muitas passagens - «Das tuas mãos to damos» (1Cr 29.14). No verso 9, o apóstolo cita o Sl 112.9. Este Salmo descreve o gênero de vida de um homem justo. Será rico em sua casa, e dará a outros. Não temerá notícias más porque seu coração está firme em Deus. Em outras palavras, a Bíblia ensina que o homem de Deus não sofrerá necessidade, mas terá de fato o suficiente para dar a outros. Dará pão (10); a ARA dá o sentido com maior clareza: “Aquele que dá semente ao que semeia, e pão para alimento, também suprirá e aumentará a vossa sementeira, e multiplicará os frutos da vossa justiça”. Redunda em muitas graças a Deus (12). Deus organizou a vida humana por tal forma, que o nosso serviço pelos outros redunda em bênção para nós e contribui para a glória de Deus, que é o Criador de todas as coisas. Obediência da vossa confissão quanto ao evangelho de Cristo (13). Os santos, que vão receber a dádiva, dar-lhe-ão tanto melhor acolhida por proceder ela da aceitação do evangelho pelos coríntios. Oram eles a vosso favor (14). Um elo de amor é forjado por essas dádivas. Graças a Deus (15). A contemplação de todos estes resultados leva o apóstolo a regozijar-se, em espírito, com a operação de Deus no coração humano. Seu dom inefável (15). Cf. 8.9. O apóstolo é levado naturalmente a pensar na generosidade divina para com os homens, dando-lhes Cristo pensamento este que nunca encontra palavras adequadas que o expressem.


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V. AUTORIDADE APOSTÓLICA DE PAULO - 10.1-13.10

2 Coríntios 10 No cap. 10, penetramos numa atmosfera totalmente diferente daquela do capítulo anterior. Por esta razão, crêem alguns que esta seção é parte da carta perdida, na qual o apóstolo falou com tanta severidade aos coríntios que temeu perder de todo, com essa atitude, a amizade deles (ver 7.8). a) Paulo defende-se de falsas acusações (10.1-18) Neste capítulo, as acusações que o apóstolo refere, das quais precisa defender-se, são, primeiramente, que sua presença entre eles é desprezível (1), mas, quando está ausente, escreve com ousadia (10); em segundo lugar, que ele anda segundo a carne (2). Obviamente, tinham surgido alguns detratores que procuravam solapar sua autoridade. Talvez não fossem coríntios, mas outros «apóstolos itinerantes», os quais procuravam obter apoio para si falando mal dos outros. Os tais teriam conhecido os escritos de Paulo, não só os dirigidos aos coríntios, mas a outras igrejas também; daí o termo cartas (10) poderem significar mais do que cartas aos coríntios. Procuravam estabelecer uma comparação desfavorável entre estes «documentos graves e fortes» e o aspecto e modo de falar, sem importância, do apóstolo que os escreveu. Tal afirmação podemos atribuir a ciúme; não precisamos tomá-la como expressão de realidade. O homem que quase chegou a persuadir o rei Agripa a tornar-se cristão, ou que pôde com um discurso silenciar uma turba amotinada, não é crível que fosse fraco e desprezível quando falava (10). Hoje conhecemos algo da força da propaganda - a repetição constante de mentiras que, em conseqüência disso, são aceitas como verdade. Tais detratores eram propagandistas desse tipo. O apóstolo desafia os coríntios a que ponderem de novo o assunto.


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 35 Relativamente à segunda acusação, o apóstolo distingue entre andar segundo a carne e andar na carne (31). Esta última hipótese é de necessidade, enquanto vivemos aqui. O sentido da primeira frase seria viver para este mundo, de acordo com os seus padrões. No caso vertente, parece referir-se à maneira de Paulo pregar o evangelho e seu hábito de prover ele mesmo ao seu sustento, em contraste com uma apresentação mais elaborada da religião e a aceitação de hospitalidade, como de direito, por alguns outros «apóstolos», que visitaram Corinto (ver 11.13). À primeira vista, esse «andar segundo a carne» calha nesses «apóstolos», antes que em Paulo. Todavia, uma coisa que distingue a falsa propaganda é atribuir seus próprios defeitos àqueles a quem ela persegue. Podemos compreender de várias alusões feitas desta epístola que esses apóstolos faziam muita exibição e alarde que impressionaram algumas pessoas. Paulo, por outro lado, era humilde e manso no modo de se conduzir, sempre considerando os outros e tendo aversão à imposição de seus direitos. A acolhida, que essa propaganda mentirosa obteve, forçou o apóstolo a narrar outra vez seus sofrimentos por Cristo, sem paralelo entre os falsos apóstolos. Com esta Introdução geral em mente, podemos agora considerar a passagem nos seus pormenores. Mansidão e benignidade de Cristo (1); a história de Jesus, que o evangelho nos conta, confirma isto. O apóstolo procura apresentar em si as características do seu Mestre. As armas da nossa milícia não são carnais e, sim, poderosas em Deus para destruir fortalezas (4). A palavra “carnais” aqui pode-se compreender como primeiramente se referindo a métodos adotados por homens «naturais» para triunfarem de seus inimigos, ou alcançarem seus propósitos. Do verso 5 deduzimos que é de pensamento e de comportamento que o apóstolo está principalmente cogitando. Nesta esfera, argumentação, intimidação e compulsão constituem-se os métodos de homens naturais. Fortalezas; isto pode referi-se a opiniões


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 36 defendidas extremamente. Estas devem ser examinadas à luz do conhecimento de Deus, e abandonadas, se forem falsas. Todo pensamento deve ser trazido cativo à obediência de Cristo (5). É claro que o apóstolo traz em mente uma parte da igreja de Corinto contra a qual receia que tem de tomar uma atitude rigorosa. É a última medida que desejaria tomar, mas não hesitará em tomá-la, se for necessário. Olhais... segundo a aparência? (7); provavelmente a melhor tradução é na afirmativa. O pensamento liga-se outra vez ao argumento do verso 12 e segs. Os que se gloriam por essa forma proclamam-se pertencentes a Cristo de maneira especial (cf. a referência ao «partido de Cristo» em 1Co 1.12), porém Paulo Lhe pertence de igual modo. Porque ainda que eu me glorie mais alguma coisa (8). Pode referir-se outra vez a uma das críticas que lhe faziam. A ARA traduz “se eu me gloriar um pouco mais”. Louvam-se a si mesmos (12). Esta parecia ser uma acusação que lhe faziam pregadores que por lá andaram (cf. 3.1-5.12). Paulo devolve a acusação aos seus detratores. Sua experiência espiritual fazia-o afastar de si qualquer coisa que nele pudesse atrair elogios; humilhava-se completamente por estar cônscio da mudança que a graça de Deus, agindo em sua vida, havia operado nele. Porém, no caso vertente, é forçado a falar como de homem para homens, e tornar a contar suas próprias obras e procedimento. Até vós (13). O apóstolo passa a relatar as experiências que tivera, as quais foram como que o fundamento, para que eventualmente recebesse de Deus o privilégio de pregar aos coríntios. Assim, espera poder agora ser capaz de prosseguir, como diz, para além das vossas fronteiras (16). Se atentarmos para Rm 15.19-24, veremos que ele esperava visitar a parte ocidental da Grécia, Roma e até a Espanha. Em campo alheio (16). O verso 17 dá a entender que ele atribui a glória ao Senhor. O verso 18 deve ser lido à luz de 3.1; 5.12; 10.12.


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2 Coríntios 11 b) O caráter do ministério de Paulo (11.1-15) Agora o apóstolo prorrompe num discurso calculado a desmascarar esses falsos mestres. Faz isto porque zela pelos coríntios (2) e muito se aflige em pensar que eles podem ser desencaminhados. Deseja apresentá-los a Cristo como virgem pura (2), isto é, como povo cuja fé não foi contaminada pela falsidade. Anseia que as mentes deles não sejam corrompidas e se apartem da simplicidade que há em Cristo (3). Note-se que a ARA insere as palavras “e pureza” depois de simplicidade. Em vista da atitude dos críticos modernos para com os primeiros capítulos do Gênesis, é de grande interesse a menção que Paulo faz, neste versículo, à narrativa da tentação de Eva pela serpente. O apóstolo gostava muito de se reportar ao Velho Testamento. Várias vezes em suas epístolas ele se refere a Adão (v. g. 1Co 15; Rm 5). São freqüentes também referências a Abraão, Davi e outras personagens do Velho Testamento. Censura os coríntios por darem ouvidos, pacientemente, a falsos mestres. A esses de boa mente tolerais (4); ou por outra, «vós sois muito pacientes»; diz isto sem dúvida com ironia. Falto no falar (6). A frase significa: não obedece às regras da retórica ensinadas nas escolas. Paulo desafia-os a considerar se, no final de tudo, ele não os levou a apreciar coisas mais profundas do que esses tais (os mais excelentes) apóstolos (5), frase esta igualmente irônica, significando aqueles que eram mais do que simples mensageiros. Impunham-se como autoridades. Paulo refere-se ao fato de não ter sido pesado a eles. Alguns eram bastante estultos para pensar que o evangelho por ele pregado tinha, por isso mesmo, menos valor. Cf. 12.13 com o verso 7. Despojei (roubei) outras igrejas (8). Paulo está mostrando, realmente, que não recebia absolutamente salário para pregar o evangelho. Se o que outras igrejas lhe deram para seu sustento, tinha de ser considerado como «proventos» ou ganhos, então ele tinha com efeito


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 38 «despojado» (roubado) essas igrejas, visto como o serviço não fora prestado a elas, e sim aos coríntios. Deste modo, ele reduz o argumento todo a um absurdo. Suas necessidades sempre eram supridas e, se não tinha recebido mesmo qualquer coisa material da parte dos coríntios, foi porque os cristãos macedônios tinham ido ao encontro da maior parte de tais necessidades. Quanto a isto, sabemos, de At 18.5, que Timóteo e Silas foram portadores desse auxílio ao apóstolo. Sobre o princípio geral enunciado nestes versículos, vejam-se as notas em torno de 1Co 9.1-27. Serem considerados iguais a nós (12). É um desafio lançado aos falsos apóstolos, para que tratem de ganhar a vida. Satanás... seus próprios ministros (14-15). O Novo Testamento ensina que temos um adversário espiritual em atividade neste mundo, a saber, Satanás; e que este escraviza homens para serem ministros seus. O «evangelho» deles pretendia apresentar-se como «evangelho de justiça», com o fito de enredar os incautos. É essencial que os que de fato desejam salvar-se saibam que a justiça lhes vem somente pela fé em Cristo Jesus, não de obras que pratiquem, para que ninguém se vanglorie (ver Ef 2.9); e devem usar este conhecimento que têm do assunto no exame de qualquer ensino que lhes for apresentado. c) A defesa de Paulo baseia-se em sua vida e obra (11.16-12.11) Passa agora o apóstolo a defender-se narrando outra vez as agruras pelas quais passou. Reconhece que o que vai fazer não é segundo o Senhor (17). Nisto, não vai de encontro a qualquer coisa fundamental, porém apenas não está de acordo com o procedimento costumeiro dos cristãos, os quais não andam se gabando. De boa mente tolerais os insensatos (19). Possivelmente o apóstolo, com delicadeza, está sendo irônico neste versículo. Gente superior pode usar de um pouco de condescendência com os de baixa classe! Mas, diz ele no verso 20, estais vendo o que esses falsos apóstolos vos fazem com o vosso consentimento. Paulo está sugerindo, outra vez com ironia, que ele não ousara avançar tanto, e que os tais lançavam-lhe


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 39 em rosto tamanha fraqueza. Então, prossegue comparando suas próprias qualificações, como apóstolo, com as dos outros mestres deles, ao narrar de novo suas experiências como ministro de Cristo. Da narrativa apresentada nos Atos colhemos bastante informação que nos possibilita identificar alguns dos incidentes referidos nos vv. 23-27. Como fora de mim (23). O apóstolo considera esta espécie de argumento como tolice, inconveniente para um cristão; mas forçam-no a isto. A preocupação com todas as igrejas (28). Os labores estupendos de Paulo por Cristo estão indicados nesta frase. Era um obreiro infatigável, tanto fisicamente (viajava sempre) como mentalmente (escreveu numerosas epístolas) e espiritualmente. Seu exemplo é um estímulo para todos quantos empreendem trabalho missionário. Nos versos 32 e 33, alude à sua fuga emocionante de Damasco, narrada em At 9.24-25. O apóstolo menciona Aretas (32) por nome. Este seria Aretas IV, rei dos Árabes Nabateus. É o único lugar onde se diz que ele também dominava sobre Damasco. A história secular não registra este fato.

2 Coríntios 12 Prosseguindo a descrever suas experiências, volta-se agora à esfera das visões e revelações (12.1). Nesta conexão, a entender-se que as palavras conheço um homem em Cristo (2) se referem de fato a ele próprio, o apóstolo torna-se reticente e dá a experiência como não tendo sido sua. A natureza desta fica além do que nos é comum, e temos de aceitá-la como nos é narrada aí, sem tentar explicá-la ou procurar um caso que lhe seja paralelo. Terceiro céu (2), isto é, o lugar onde Deus habita. «Primeiro céu» dizia-se da atmosfera onde voam as aves. O «segundo» era a região do sol, da lua e das estrelas. Paraíso (4). Palavra usada na cosmologia judaica, equivalente a terceiro céu; era considerado a mansão dos bem-aventurados. Palavras


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 40 inefáveis (4); isto é, idéias que lhe foram comunicadas não por meio de palavras, como ordinariamente. As quais não é lícito ao homem referir (4). É esta a percepção espiritual do apóstolo sobre a inviolabilidade de sua experiência. As coisas profundas do espírito não podem ser explicadas em linguagem humana. No verso 5, ele torna a expressar que era indigno dessa experiência, não desejando parecer mais do que era aos olhos de todos (6). Regozijava-se de que em si mesmo não era nada; talvez mesmo seu físico não tivesse qualquer atrativo, de modo que o interesse de todos se fixasse na mensagem que pregava, e não na sua personalidade. Espinho na carne (7); alguma enfermidade física, de que se queixava continuamente. Não o incapacitava para o trabalho, porém era como «espinho» que de vez em quando o atormentava. Note-se a atitude do apóstolo para com esse dissabor. Orou três vezes para se ver livre dele (8; cf. Mt 26.36 e segs.) e recebeu a resposta de que a graça de Deus lhe era bastante (9). Noutras palavras, Deus prometeu-lhe que esse sofrimento jamais o venceria, no sentido de impedi-lo de trabalhar para Ele. Este incidente é de muito interesse para os obreiros cristãos que lutam com empecilhos de qualquer que seja a natureza. Também diz respeito ao caso de doenças e ao ministério de cura, para que não desanimemos de esperar alívio em resposta às nossas orações, mas reconheçamos que algumas vezes Deus pode ter um motivo quando nos recusa um restabelecimento completo da saúde. A condição espiritual do enfermo é mais importante do que sua sanidade física. A oração pelos doentes é um ministério cristão que sempre se acompanha de bênçãos. No caso de Paulo, ele sentia real prazer nas enfermidades (10), tanto quanto em outros tormentos, porque em tudo isto sentia o poder de Cristo (9) sobre ele repousando. Experimentando isto, pôde dizer – em nada fui inferior aos mais excelentes apóstolos (11); talvez outra referência irônica aos tais


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 41 apóstolos que alardeavam suas próprias virtudes, orgulhando-se de suas credenciais (cf. 11.5,13). d) O amor e o interesse do apóstolo (12.12-21) Nesta seção, ele declara que todo o seu desejo é a edificação da igreja dos coríntios. Não é a glorificação de si mesmo o que ele procura; em tudo quanto fazia era levado pelo amor que lhes votava. Todo este tópico denota ironia, ao referir-se Paulo outra vez a algumas acusações que lhe faziam, e ao mostrar quanto eram absurdas. Cf. verso 12. Não vou atrás dos vossos bens, mas procuro a vós outros (14). Era este o seu modo de proceder. Coisas materiais não o fascinavam, porque ele já possuía algo das riquezas de Cristo. Pela terceira vez (14). Veja-se abaixo nota sobre 13.1. Eu de boa mente me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol das vossas almas (15). Incansável era a sua atitude de serviço para com eles, e todavia parecia-lhe que, apesar de tanto anelar a afeição deles e quanto mais lhes revelava amor, tanto menos era por eles amado. Sendo astuto, vos prendi com dolo (16). Estes sentimentos Paulo está repudiando, mas aqui, de modo causticante, emprega as palavras que os seus detratores usam, como que dizendo: «Ora, eu vos prendi com dolo, não foi mesmo?». E então refuta insinuação tão vil com as palavras que se seguem (17-18). Embora fosse um idealista destemido, Paulo era também um indivíduo prático. Não hesita em dizer, nos vv. 20 e 21, o que acontecerá de fato quando ele os visitar da próxima vez. Reconhece que muitos que pecaram em matéria de impureza, prostituição e lascívia (21) podiam não ter-se arrependido; e, neste caso, é ele quem vai sentir-se humilhado. O vero discípulo de Cristo identifica-se por tal forma com o seu Mestre divino, que vem a sentir as tristezas dEste com relação aos pecadores.


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2 Coríntios 13 e) Última exortação (13.1-10) Terceira vez (1). Podemos entender as três visitas assim: a registada em At 18.1, a visita de que ele desistiu (ver 1.16) e esta que agora tem em mira (ver a Introdução). Sabe o apóstolo existirem ainda membros da Igreja de Corinto que persistem no pecado (2). É admissível que a situação lá fosse muito difícil para os cristãos, devido ao ambiente de baixo padrão moral; o apóstolo está lutando decididamente para arrebatá-los das garras do pecado. No vers. 7, temos outra daquelas revelações de realidade espiritual, peculiarmente intensas, que caracterizam os escritos de Paulo e os demais do Novo Testamento. Foi crucificado em fraqueza, contudo vive pelo poder de Deus (4). Ver Cristo crucificado seria vê-lO aparentemente vencido por Seus inimigos, impotente às mãos deles. Contudo, este mesmo espetáculo de fraqueza era, na realidade, uma manifestação do poder de Deus -- porque nele Deus recebeu em si a ferroada do pecado, suportou-lhe o veneno e ergueu-se triunfante. Sofrendo o efeito do pecado, isto é, a morte, Ele pareceu fraco. Mas foi a fraqueza dAquele que conhecia Sua própria força, dAquele que consentiu em ser fraco, apercebido do Seu grande poder. Nós também, diz o apóstolo, somos fracos nele; mas viveremos com ele (4). Mesmo nesta última fase da história cristã daquela igreja, o apóstolo está preparado para desafiá-los a que se examinem a si mesmos se estão na fé (5). Nenhum cristão pode dispensar este auto-exame. Serve para aprofundar a fé, onde esta for verdadeira. Reprovados (5). Esta palavra traz a idéia de rejeição depois da prova. Ninguém é rejeitado por Deus sem antes ser provado, e somente depois de provado incorrerá em reprovação, se for achado «adequado para a destruição» (Rm 9.22). O apóstolo termina a epístola exortando à honestidade (7), que leva ao aperfeiçoamento (9). Rigor (10). Paulo anseia que todas as causas de atrito sejam afastadas antes de sua chegada a Corinto, e que eles correspondam às


2 Coríntios (Novo Comentário da Bíblia) 43 suas exortações escritas. E assim nada haverá para ele destruir ou arrancar, quando chegar ali. VI. CONCLUSÃO - 13.11-14 Esta epístola fornece-nos as belas palavras da Bênção Apostólica, que se usa onde quer que os crentes se reúnam para a oração (13). Graça. Esta linda palavra bíblica tem um sentido que vai da simples idéia de «auxílio», depois «favor» e «prêmio não merecido», até o conceito de «caráter íntimo». Cristo ajuda-nos em nossa vida; favorece-nos grandemente, tornando para nós o mal em bem; e habita em nós de modo que espelhemos Seu caráter diante do mundo. A frase o amor de Deus pode-se considerar como referindo o amor do Pai; «de tal maneira amou Deus ao mundo, que deu...». Tal amor, em sua disposição de dar e perdoar, deve fazer-se sentir também na vida e nas ações dos discípulos de Cristo. A palavra comunhão também se traduz por «companheirismo», no Novo Testamento. A primeira referência aqui é àquele companheirismo que o Espírito Santo estimula ou cria no meio de todos quantos estão «em Cristo». Sempre devemos estar lembrados de que o Espírito Santo é uma Pessoa, e não mera influência. Ele é o «outro advogado» que o Pai enviou no nome do Filho, conforme a promessa de Cristo em Jo 14.26. Ele habita no meio dos crentes e os constitui em Igreja de Cristo. É também o companheiro pessoal de cada crente de per si, confortando-o, isto é, fortalecendo-o, e também trazendo-lhe à memória sua união espiritual com Cristo e, em Cristo, com todos os crentes. W. C. G. Proctor

2 Corintios - N. Comentario  

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