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EZEQUIEL Introdução Plano do livro Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12

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INTRODUÇÃO I. AUTORIA, DATA E CIRCUNSTÂNCIAS Esses três problemas estão ligados no que diz respeito a este livro. O livro foi composto principalmente na primeira pessoa e propõe ter sido escrito pelo profeta Ezequiel, que é identificado como um dos exilados judeus deportados em companhia do rei Joaquim, em 597 a.C. (1.1 e segs.). A narrativa é pontilhada por avanços progressivos de tempo, começando pelo quinto ano do cativeiro, 593 a.C. (1.2), e continuando até a vigésimo quinto ano do cativeiro, quando foram escritos os capítulos 40--48 (40.1; 29.17 e segs., escritos no ano vigésimo sétimo do cativeiro, foram mais tarde inseridos pelo profeta, nesse ponto, por uma razão especifica; ver notas no corpo do comentário). Até tempos recentes a autenticidade deste livro era aceita em geral; porém, no século atual, ele tem provido oportunidade de muitos


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 2 eruditos demonstrarem sua engenhos. Seus trabalhos, por outro lado, têm servido para apresentar claramente a natureza dos problemas exibidos por esse livro e têm capacitado seus sucessores a abordarem-no com mais inteligência. Das duas principais dificuldades que aparecem no caminho da aceitação da autenticidade de Ezequiel, a primeira pode ser tratada de modo sumário. É afirmado que este profeta, como seus antecessores, foi pregador de condenação, e nada mais. Todos os profetas pré-exílicos se declararam contra a escatologia popular de seus dias e pronunciaram apenas julgamentos contra Israel. Como, é interrogado, poderia um profeta proclamar numa ocasião a vinda de julgamento contra os pecados, e na próxima falar de maravilhosas promessas a um povo pecaminoso? Alguns mantêm, além disso que a idéia de uma era abençoada se originou na Pérsia, pelo que todas as passagens que falam dessa era devem necessariamente datar de um período posterior ao exílio, quando os israelitas estiveram em contacto com aquela nação. Segundo esse ponto de vista uma considerável porção de Ezequiel tem que ser reputada como interpolação posterior, e tal é a posição de Hölscher. Seu discípulo, von Gall, aplicou o mesmo critério a todos os profetas; o processo postulado de edições graduais dos livros proféticos, nas quais eram feitos "acréscimos" sucessivos ao texto em gerações sucessivas, evoca grande admiração em vista da engenhosidade do esquema, mas é por demais complicado para ser real. A maioria dos eruditos rejeitam a noção de que a esperança de um reino de Deus era propriedade exclusiva da nação persa; essa esperança também era indígena em Israel. É difícil de compreender por qual motivo os profetas não poderiam ter predito uma restauração após o julgamento; não se deve inferir que viam apenas o caos em vista de suas profecias de condenação, como também não se pode dizer que Jesus via apenas a ruína para o povo escolhido, quando predisse a destruição de Jerusalém (Mc 13.2). Partindo da evidência bíblica é difícil resistir ao ditado de Gressmann:


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 3 "Renovação mundial necessariamente se segue à catástrofe mundial". O próprio Ezequiel provê a melhor resposta para essa questão: "Como pôde um profeta ligar ameaçar com promessas para que essa combinação surtisse algum efeito sobre os seus ouvintes?" À parte do desenvolvimento observável na tendência geral de sua profecia primeiro o julgamento (1-32), e então a consolação (33-48) - ele mistura os dois elementos de tal maneira que cria um senso de vergonha no momento mesmo em que é apresentada a promessa. Ver especialmente Ez 20.42 e segs.: "E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu vos fizer voltar à terra de Israel... E ali vos lembrareis de vossos caminhos, e de todos os vossos atos com que vos contaminastes, e tereis nojo de vós mesmos, por todas as vossas maldades que tendes cometido". (A passagem inteira de 20.33-44 deve ser cuidadosamente lida, pois aqui também se pode observar uma espécie de doutrina sobre a remanescente). Pode-se adicionar que essa posição geral está sendo adotada por um número cada vez maior de eruditos do Antigo Testamento; quanto a detalhes maiores, o estudante poderá examinar as obras padrões sobre a teologia e a escatologia do Antigo Testamento. A segunda consideração principal é mais importante e tem ocasionado a maior parte das teorias mais recentes a respeito do livro de Ezequiel. Apesar de que o profeta vivia na Babilônia, dirigia-se constantemente aos judeus deixados em Jerusalém. Expedia profecias simbólicas para benefício deles, as quais não obstante, não podiam ver; conhecia perfeitamente a situação deles; descrevia acontecimentos que testemunhara suceder em Jerusalém e suas circunvizinhanças, como, por exemplo, as idolatrias dos anciães no templo (capítulo 8), a súbita morte de um deles (11.13), a tentativa de Zedequias para escapar de Jerusalém à noite (12.3-12), o fato de Nabucodonosor ter consultado sortes em encruzilhadas de estradas a caminho daquela cidade (21.18 e segs.) e o fato de mais tarde haver-se acampado fora de Jerusalém (24.2). Que um homem que vivia na Babilônia pudesse testemunhar acontecimentos dessa ordem em lugar tão remoto como Jerusalém parece falta de bom


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 4 senso para uma época científica como a nossa; por conseguinte, alguns argumentam que deve ser procurada alguma outra solução. Ou Ezequiel realmente vivia em Jerusalém, e não na Babilônia, e seu livro incorpora suas profecias genuínas com as de um redator posterior que se dizia viver como exilado (conforme opinião de Herntrich); ou a situação inteira é fictícia e a obra é comparável aos escritos apocalípticos pseudônimos do judaísmo posterior, e pertenceria, em realidade, à época de Alexandre (segundo opinião de Torrey). Dessas duas alternativas dificilmente alguém leva a sério a segunda, mas a primeira merece considerável atenção e é aceita por Oesterley (Introduction to the Old Testament, págs. 324-325). Cooke, entretanto, é o porta-voz dos sentimentos de muitos críticos ao dizer que é tão difícil acreditar num redator altamente imaginário como aceitar as declarações contidas no texto (I. C. C., pág. 23). Conseqüentemente, ele aceita a autenticidade do livro nos seus aspectos principais; e o consenso da erudição moderna está de seu lado. Guillaume tem, além disso, relacionado esse extraordinário dom de segunda vista possuído por Ezequiel a outros fenômenos semelhantes do Antigo Testamento, e até mesmo no moderno mundo beduíno. Mediante suas pesquisas ele nos tem capacitado a compreender melhor um tipo de mente que tem pouco em comum com a moderna civilização ocidental (Prophecy and Divination; ver especialmente as págs. 155-158). Se essa controvérsia não tiver servido para outro propósito, portanto, do que de destacar o caráter verdadeiramente extraordinário de Ezequiel, mesmo assim não terá sido vã. Ezequiel, pois, ministrou para sua nação, tanto para aquela porção que estava no exílio como para aquela outra que permaneceu na pátria. Ele era contemporâneo mais jovem de Jeremias; e, a julgar pelos ecos do profeta mais idoso no livro de Ezequiel, aquele deve ter mantido considerável contacto com este.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 5 II. CONTEÚDO Conforme demonstra o esboço do conteúdo (ver adiante), o livro foi construído segundo um plano claramente definido, e o escritor aderiu firmemente aos assentos de cada seção. Após a visão introdutória dos capítulos 1--3, Ezequiel se concentra quase exclusivamente em desnudar a iniqüidade de seu povo. Sem dó arrasta seus pecados para debaixo da luz e pronuncia contra eles o julgamento de Deus. Por meio de ações simbólicas, parábolas, oratória inflamada e declarações lógicas ele reitera seu tema que versa sobre a iniqüidade da nação e sobre sua inevitável destruição. A repetição da denúncia e da ameaça de condenação é tão constante a ponto de fazer o leitor recuar horrorizado, especialmente em vista do fato que, enquanto que outras obras proféticas iluminam suas ameaças com promessas, este elemento falta quase inteiramente na primeira seção do livro de Ezequiel. E quando ele permite que brilhe algum raio de esperança, este usualmente se torna vermelho como fogo, pelo que a restauração referida se torna algo vergonhoso e não algo que causasse alegria (ver, por exemplo, 16.53-58; 20.43-44). Nisso, como também em outros aspectos, Ezequiel mostra afinidades com o autor do livro de Apocalipse, pois ambas as obras exibem, como nenhum outro em seus respectivos Testamentos, o insaciável terror da ira de Deus. A segunda seção (capítulos 25--32) limita-se aos oráculos dirigidos centra as noções circunvizinhas de Israel, tanto os estados vassalos que assaltaram os judeus em sua hora de amargura como as grandes nações da época. Aqui a imaginação poética de Ezequiel sobe a seu clímax; são-nos dados alguns dos quadros falados mais vividos do Antigo Testamento em seus oráculos contra o príncipe de Tiro e o Faraó do Egito. É curioso que Ezequiel faça silêncio quanto ao destino da Babilônia, o principal poder destruidor de Jerusalém. Alguns acreditam que, visto que essa nação deve ter necessariamente figurado nas profecias condenatórias de Ezequiel, que a Babilônia deve aparecer aqui sob o símbolo de Gogue, na profecia dos capítulos 38 e 39. Não


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 6 obstante, não existe no texto a menor indicação dessa possibilidade, e tudo parece apontar contra tal identificação. Pode-se sentir que, à semelhança de Jeremias, Ezequiel considerava Nabucodonosor como um servo de Jeová, e assim considerava suas ações como divinamente ordenadas; diferentemente de Jeremias, porém, Ezequiel não recebeu qualquer palavra subseqüente a respeito da Babilônia, e por isso deixou a questão nas mãos de Deus. O ponto principal do ministério de Ezequiel foi ocasionado pela chegada de um mensageiro enviado de Jerusalém, anunciando a queda da cidade (33.21). Em face do consistente ceticismo do povo para com sua pregação, esse acontecimento constituiu a confirmação divina a seu ministério. Daí por diante o povo se reunia para ouvi-lo (33.30). Agora ele estava livre para entregar-se à tarefa de reabilitar a nação espalhada, e isso forma o tema dos capítulos 33--37. Desde muito tem sido motivo de perplexidade o fato que, após a restauração da nação na era messiânica, Ezequiel tenha falado sobre um novo levante de poderes estrangeiros contra Israel (38 e 39). Existem, não obstante, razões convincentes por detrás desse ensino, e não podemos ver qualquer necessidade de negar sua autoria a Ezequiel. Ver as notas introdutórias a esses dois capítulos, no corpo do comentário. A conclusão do livro (40--48) é o produto de uma mente devota que por longo tempo e afetuosamente ponderou a respeito da adoração de Israel em sua vindoura era de bênção. Somos aqui fortemente relembrados que Ezequiel era ao mesmo tempo um sacerdote e um profeta. Nessa qualidade, ele combinava em si mesmo as duas grandes correntes da tradição de Israel. Numa terra purificada de toda impureza, é exibida a adoração ideal num templo ideal a ser observada por um povo ideal. III. CARACTERÍSTICAS Duas características da personalidade de Ezequiel já têm sido mencionadas, a saber, a vivacidade de sua imaginação e seus poderes


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 7 sem paralelo de telepatia, clarividência e prognóstico. Essas coisas se combinavam com um senso avassalador sobre a transcendência de Deus que pode produzir passagens de literatura que, de muitos modos, parecem estranhas para a mente moderna, mas que são ricamente recompensadoras para o investigador. Por exemplo, quantos são os que têm ficado tão perplexos pelo relato de Ezequiel sobre sua visão inaugural, no capítulo primeiro, a ponto de não continuarem a leitura de seu livro? No entanto, uma vez compreendido esse capítulo fica percebido que ele é altamente significativo e dotado de grande valor espiritual, como os próprios judeus reconheciam. (Uma afirmação do Mishnah registra que a Carruagem, isto é, Ez 1, e a Criação, isto é, Gn 1, são dois particulares que devem ser expostos apenas para uma pessoa prudente; Ag 2.1, citado por Cooke, pág. 23). Observações semelhantes poderiam ser feitas no tocante a muitas passagens obscuras e negligenciadas de Ezequiel. Em certas direções Ezequiel foi o pioneiro de movimentos de pensamento que estavam destinados a se desenvolverem como características do judaísmo posterior. Ele foi o primeiro a declarar, com clareza dogmática, a verdade da responsabilidade individual. Mediante a freqüência de suas visões e a natureza de êxtase de muitas de suas afirmações, e especialmente mediante suas profecias concernentes a Gogue e o reino futuro, ele moldou um tipo de profecia que, no tempo devido, conduziu ao movimento apocalíptico. Ezequiel, pois, é a ponte entre a profecia e o apocalipse. Além disso, devido a seu treinamento sacerdotal ele se sentia naturalmente mais interessa do na adoração do que no evangelismo; conseqüentemente, o espírito missionário, tão evidente nos últimos capítulos, de Isaías está quase totalmente ausente nos escritos de Ezequiel. Em todas essas questões, a saber, a responsabilidade individual, a profecia apocalíptica e o esquecimento dos gentios na contemplação de reino de Deus, o judaísmo foi muito além de Ezequiel e, em certas direções produziu, realmente, uma caricatura de seu ensinamento. (Ver, por exemplo, as anotações


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 8 introdutórias ao capítulo 18, no corpo do comentário). É injusto, todavia, culpar Ezequiel desses desenvolvimentos infelizes, como é injusto culpar Daniel por causa das puerilidades de alguns escritos apocalípticos, ou culpar o apóstolo Paulo por causa da doutrina da predestinação à condenação. Onde Ezequiel e Daniel fizeram silêncio, ou quando muito, se mostraram implícitos, o judaísmo se tornou explícito e exagerado, tal como a lógica de algumas pessoas as leva até uma posição que a maioria dos crentes cristãos acredita seria rebatida por Paulo. É infeliz em alto grau, por conseguinte, que muitos eruditos bíblicos depreciem Ezequiel como retrógrado em sua doutrina. Pelo contrário, seu livro faz importantíssima contribuição, na providência de Deus, para o desdobramento da revelação de Deus na Bíblia. Precisa ser estudado com maior simpatia do que alguns estudiosos modernos estão presentemente inclinados a fazê-lo. Finalmente, poderia ser talvez mencionado que em alguns lugares o texto de Ezequiel tem sofrido muito devido à transmissão do texto. Indicar cada uma dessas dificuldades exigiria mais espaço do que é permitido num comentário desta extensão. Somente as correções mais importantes tem sido salientadas na exposição. Ao estudante interessado é recomendado um utilíssimo comentário, por G. A. Cooke, no I. C. C. Apesar de que em alguns respeitos ultrapassa na questão de conjetura além do que os eruditos conservadores geralmente permitiram, tal comentário é caracterizado em seu corpo principal pelo menos por uma recomendável sobriedade de julgamento. Este escritor não tem hesitado em aproveitar dele freqüentemente. PLANO DO LIVRO O PECADO DE ISRAEL E O JUÍZO IMINENTE - 1.1-24.27 I. A CHAMADA DE EZEQUIEL - 1.1-3.27 II. QUATRO PROFECIAS POR AÇÕES - 4.1-5.17 III. PROFECIA CONTRA OS MONTES DE ISRAEL - 6.1-14


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia)

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IV. A IMINENTE CONDENAÇÃO DE ISRAEL - 7.1-27 V. PECADO E JULGAMENTO DE JERUSALÉM: ABANDONADA POR DEUS - 8.1-11.25 VI. PROFECIAS CONTRA JERUSALÉM - 12.1-24.27

PROFECIAS CONTRA NAÇÕES ESTRANGEIRAS - 25.1-32.32 VII. PROFECIAS CONTRA TRIBOS CIRCUNVIZINHAS - 25.1-17 VIII. PROFECIAS CONTRA TIRO - 26.1-28.26 IX. PROFECIAS CONTRA O EGITO - 29.1-32.32 A RESTAURAÇÃO DE ISRAEL - 33.1-48.35 X. A RESPONSABILIDADE DO PROFETA E DO POVO - 33.1-20 XI. O PONTO CENTRAL DO MINISTÉRIO DE EZEQUIEL - 33.21-33 XII. VOLTA DE ISRAEL À SUA PRÓPRIA PÁTRIA - 34.1-37.28 XIII. PROFECIA CONTRA GOGUE - 38.1-39.29 XIV O TEMPLO E O POVO NO REINO DE DEUS - 40.1-48.35

COMENTÁRIO O PECADO DE ISRAEL E O JUÍZO IMINENTE - 1.1-24.27

Ezequiel 1 I. A CHAMADA DE EZEQUIEL - 1.1-3.27 a) A visão sobre a glória de Deus (1.1-28) Não se sabe a partir de que época Ezequiel data o ano trigésimo (1), se a partir da era babilônica ou a partir da era israelita. Orígenes julgava que representava sua própria idade.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 10 No quinto ano do cativeiro do rei Joaquim (2), porém, fixa a data como sendo 593 a.C. Evidências sobre estabelecimentos judaicos têm sido encontrados em Nippur, à beira do rio Quebar (1), que pelos babilônios era conhecido como "o Grande Canal"; que Ezequiel tenha recebido visões de Deus (1) em tal lugar seria considerado revolucionário por muitos de seus compatriotas, cujos sentimentos se expressavam antes em afirmações como as de Sl 137. À semelhança de outros antes dele, a chamada de Ezequiel para o ofício profético veio por meio de uma visão de Deus. Porém, como freqüentemente acontece no êxtase profético (cf. At 10), a natureza da visão era condicionada pelo ambiente do recipiente. Neste caso foi a aproximação de uma nuvem tempestuosa o meio pelo qual Deus Se revelou a Ezequiel (4). O negrume da nuvem, o resplendor avermelhado e desnatural, e os coriscos que relampejavam, proveram a moldura para a manifestação da maior glória de Deus. (Ver Guillaume, Prophecy and Divination, págs. 155-156, e comparar a seguinte reportagem sobre uma tempestade no Eufrates: "Densas massas de nuvens escuras, com estrias alaranjadas, vermelhas e amarelas apareceram vindas do OSO, aproximando-se em espantosa velocidade... Por essa altura as nuvens pareciam verdadeiramente terríveis. Por debaixo da mais escura delas havia uma coleção de material, de cor carmesim escuro, que rolava em nossa direção com rapidez espantosa... Tudo se tornou calmo e claro como antes, e talvez vinte e cinco minutos não se tivessem passado desde o começo, progresso e término daquele temível furacão". Chesney, em Narrative of the Euphrates Expedition, citado por Cooke, em I. C. C., pág. 10). Note-se o termo repetido, semelhança (5,10,13, etc.); Ezequiel podia sugerir apenas paralelos para as figuras vistas em sua visão. Os animais (5) com sua roda (15) formavam uma carruagem extraterrena para o trono de Deus. O comentário dos rabinos, quanto aos rostos dos animais (10) é freqüentemente citado com aprovação; "a águia é exaltada entre as aves; o boi é exaltado entre os animais domésticos; o leão é exaltado entre os animais ferozes; o homem é exaltado entre as


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 11 criaturas; e todos eles tem recebido domínio, e lhes tem sido proporcionada grandeza; não obstante, acham-se abaixo da carruagem do Santo" (Midrash R. Shemoth, 23, sobre Êx 15.1). Cf. Ap 4.7. As rodas (15-16) permitiam que a carruagem viajasse para todos os lugares, um lembrete necessário para os exilados (ver nota sobre os vv. 1 e 2). Vistas da posição em que se achava Ezequiel, parecia que revolviam uma dentro da outra; sua construção era como se uma roda estivesse no meio da outra, embora, em realidade, houvesse apenas quatro rodas, cada qual separada das demais, nas quatro esquinas de um quadrado. O movimento das rodas (17) é impossível de ser imaginado, se tivermos em mente veículos ordinários; era uma carruagem sobrenatural! Suas cambas (isto é, suas circunferências) eram cheias de olhos ao redor (18). Esses olhos denotavam inteligência, pois o espírito da criatura vivente estava nas rodas (20). Uma semelhança de firmamento (22); ou melhor, "plataforma"; raki'a é palavra traduzida com "firmamento" (nesta versão como "expansão") em Gn 1; porém, sua significação fundamental é: "algo feito de forma firme e chata por pressão". E é essa significação que está aqui em mente. Servia de base para o trono de Jeová (26), e era carregado pelos animais vivos. Note-se que nos vv. 26-28 o profeta não diz de modo definido que viu a Jeová, mas tão somente a semelhança dum homem e a semelhança da glória do Senhor. (Segundo diz o Talmude, há o "rosto maior" e o "rosto menor" de Deus, e ao homem é dado ver somente este último; cf. Jo 1.18). Não obstante, aquilo que Ezequiel viu foi o suficiente para deixá-lo aterrado; cf. Is 6.5; Dn 10.8-9; Ap 1.17). b) A chamada e a comissão do profeta (2.1-3.3)

Ezequiel 2 O título Filho do homem (1,3, etc.), aplicado a si mesmo, é característica de Ezequiel e salienta sua posição de mera criatura em


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 12 comparação com a majestade do Criador. Foi título usado por Deus ao dirigir-se ao profeta, e não por Ezequiel a si mesmo, aparentemente para mostrar que seu dever era servir de porta-voz da vontade divina, e nada mais. Hão de saber que esteve no meio deles um profeta (5) encontra paralelo na expressão freqüentemente repetida: "saberão que eu sou Jeová". Ambas essas verdades tornar-se-iam evidentes quando Deus cumprisse as predições do profeta; cf. 33.32-33; Dt 18.21 e segs. Ao profeta é ordenado que não compartilhasse da rebeldia de sua nação ocultando do povo as mensagens que Deus lhe declarasse (8). O fato que Deus tocou diretamente na boca de Jeremias (Jr 1.9) mas deu um rolo de livro a Ezequiel (9) ilustra a diferença entre os dois profetas; o primeiro caso declara a imanência de Deus, e o segundo a Sua transcendência. O escrito sobre o livro, por dentro e por fora (10), contrário ao uso normal, indica a plenitude de seu conteúdo. Lamentações e suspiros e ais (10) forma uma justa descrição da maior parte da profecia de Ezequiel. Sua mensagem não foi alterada até que, de conformidade com a promessa do verso 5, Deus cumpriu Suas palavras mediante a destruição de Jerusalém (33.21 e segs.).

Ezequiel 3 Come este rolo (3.1). Não há nada de mecânico nesse modo de inspiração; o fato que Ezequiel devia mastigar o rolo mostra que ele devia tornar sua a mensagem. A despeito da natureza da mensagem, para o profeta seu gosto foi doce como o mel (3), pois "é doce fazer a vontade de Deus e ser incumbido de tarefas em Seu serviço" (McFadyen). Note-se a variação na experiência do escritor apocalíptico do Novo Testamento (Ap 10.10). c) A comissão é destacada (3.4-15) O profeta não foi enviado a uma nação estrangeira (5), nem ao mundo pagão em geral (6); pois, se assim tivesse acontecido, tê-lo-iam


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 13 ouvido. Israel, entretanto, não ouviria nem o profeta nem o próprio Deus (7). Um povo "profundo de lábios e pesado de língua" (5, como diz certa versão) indica "um povo cuja fala soava gutural e confusa para os ouvidos hebreus" (Cooke). A obstinação tradicional de Israel é referida por nosso Senhor em Mt 11.21-24; Lc 4.24-27. Cf. Is 1.7 e Jr 1.17-19 com os vv. 8 e 9. Aos do cativeiro (11). A missão de Ezequiel embora dirigida a todo o Israel (4), fica agora demonstrada como visando especifica e imediatamente a seus companheiros de exílio. Isso seria necessário em vista de suas circunstâncias; mas o escrito do livro, ou mesmo de suas seções separadas, tornaria sua mensagem à disposição da nação inteira. A partida da carruagem gloriosa deixa o profeta com uma realização de tristeza, no ardor do meu espírito (14). Porém, foi compelido a dar início a seu ministério profético. Ele se mudou para TelAbibe, "a casa das espigas verdes", um dos principais centros dos exilados. Foram necessários sete dias para que ele se recuperasse dos efeitos da visão (15). d) O profeta como vigia (3.16-21) Eu te dei por atalaia (17). O trabalho de um vigia era avisar a cidade de algum perigo iminente; assim também Ezequiel deveria avisar seu povo a respeito do desastre que estava prestes a desabar sobre eles. A passagem tem em mente a catástrofe que estava a ponto de sobrevir a Jerusalém, mas o profeta não hesitou em aplicá-la de modo geral. Sua importância jaz na relação a ser estabelecida entre Ezequiel e seus ouvintes; ele se sentia responsável por eles individualmente e precisava advertir cada qual na qualidade de fiel pastor (18,20); eles eram individualmente responsáveis por suas ações e seu destino, pois Deus trataria com eles como pessoas morais, e não como uma unidade (19). Tratava-se de uma concepção revolucionária e marcou um passo


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 14 significativo no processo da revelação. Ver notas sobre os capítulos 18 e 33.1-20. e) Ordenado o silêncio (3.22-27) A Ezequiel foi ordenado permanecer em sua casa (24), talvez devido a alguma ameaça de violência (25). A mudez viria sobre ele (26), exceto quando Jeová abrisse sua boca em declaração profética (27). Caso este episódio esteja aqui no lugar que lhe convém, o ministério de Ezequiel foi, portanto, um ministério particular, que só recebia aqueles que vinham à sua casa (cf. 8.1), até que chegaram a ele as notícias da queda de Jerusalém (33.21-22). Alguns sentem que isso aparece de modo estranho, em vista da comissão anterior; sugerem que este parágrafo talvez esteja deslocado e talvez pertença a um período posterior do ministério de Ezequiel. Se esse for o caso, o verso 27 está ligado a uma ocasião específica quando Deus faria cessar a mudez do profeta (ver 33.21-22). A transferência sugerida não é impossível, especialmente em vista do fato que o parágrafo anterior recebe uma boa significação onde se encontra, e pode-se permitir que retenha essa posição: "sua liberdade de movimento seria restringida pelos exilados... Deus restringiria suas afirmações, permitindo-lhe falar somente quando fosse especialmente orientado a fazê-lo" (Wardle). II. QUATRO PROFECIAS POR AÇÕES 4.1-5.17

Ezequiel 4 a) O cerco de Jerusalém (4.1-3) O tijolo (1) usado por Ezequiel seria feito de barro mole, e a gravação seria feita por meio de um estilete; terminado esse trabalho, o tijolo mole seria cozido num forno. Presumivelmente, as ações descritas no verso 2 eram desenhos a ser feitos sobre o tijolo.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 15 A sertã de ferro (3) talvez simbolizasse as poderosas fortificações que seriam armadas contra a cidade. b) O exílio (4.4-8) O profeta se deitou de lado, levando a maldade de Israel, isto é, o castigo devido à iniqüidade, pelo período do exílio (4). A Septuaginta diz cento e noventa em lugar de trezentos e noventa, nos vv. 5 e 9, e provavelmente está correta. Pelos vv. 5,6 e 9 concluímos que Ezequiel deveria ficar deitado por 150 dias do lado esquerdo e 40 dias do lado direito; o período que medeia desde a deportação sob Tiglate-Pileser, em 734 a.C. (2Rs 15.29) até a conquista de Jerusalém, em 586 a.C., é de 148 anos, isto é, aproximadamente 150 anos, enquanto que os quarenta anos (designação geral de uma geração) referentes a Judá correspondem aproximadamente ao período de 586 a 536 a.C., o tempo do exílio de Judá na Babilônia. Cooke sugere que a cifra "trezentos e noventa" se deve a um copista que interpretou a maldade da casa de Israel (4) como o período inteiro do pecado de Israel. De conformidade com a cronologia do livro de Reis, o período desde a divisão do reino sob Roboão, até 596 a.C., foi de 394 1/2 anos. c) A fome (4.9-17) Devem ser distinguidos aqui dois pensamentos acerca da fome que se aproximava: a escassez de alimentos (9-11,16-17), e a impureza que estava envolvida no comer tal alimento numa terra estrangeira (12-15). A curiosa mistura de cereais, no verso 9, subentende meramente sua escassez, e não deve ser comparada com Lv 19.19. Vinte siclos (10) eram cerca de 255 gramas; a sexta parte dum him (11) era cerca de 1,1 litro. O esterco (12) usado para cozer o pão era para servir de combustível. Para Ezequiel, criado como sacerdote, excrementos


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 16 humanos era algo por demais revoltante; em resposta às suas orações (14) foi-lhe permitido empregar esterco de vacas (15), que até hoje continua sendo usado como combustível pelos beduínos. Cf. Os 9.3 e segs.; Am 7.17 com o verso 13. Todas as terras fora de Canaã eram impuras, e semelhantemente seus produtos, pois Jeová não era adorado nelas.

Ezequiel 5 d) A matança (5.1-4) Rapar a cabeça era figura que representava catástrofe; ver Is 7.20; Jr 41.5. Aqui o ato representa a sorte dos habitantes de Jerusalém; deveriam ser queimados, mortos e espalhados (2); a espada a perseguir aqueles que fugiam da cidade (2c) indica quão completa seria a destruição. Dos poucos que verdadeiramente escapariam (os amarrados ás vestes de Ezequiel, verso 3) alguns, ainda, haveriam de perecer (4), pelo que o remanescente se tornaria verdadeiramente diminuto. Ezequiel, dessa maneira, se apega à doutrina do remanescente (ver também 6.8-10; 9.8; 11.13), a despeito das asseverações em contrário de alguns; porém, tal doutrina está inteiramente subordinada à sua mensagem de julgamento até a queda de Jerusalém, após o que o remanescente se torna seu tema dominante. e) Uma exposição dos sinais (5.5-17) Jerusalém é o centro do mundo, tanto por sua posição geográfica como por seu privilégio (5; cf. 38.12). Isso torna seu excesso de iniqüidade sobre as nações ainda mais odioso (cf. 16.47 e segs.; Jr 2.10 e segs.). O argumento do verso 7 subentende que as nações ao redor de Israel andavam de conformidade com a luz que possuíam, o que não acontecia com Israel; portanto, de conformidade com isso, Deus retribuiria aos pecados de Seu povo aos olhos das nações (8), tanto


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 17 como exemplo como vindicação à Sua santidade. Cf. Lv 26.29 e Dt 28.53 com o verso 10, profecias cumpridas no acontecimento (Lm 4.10). À peste e o sangue (17) fazem parte de uma praga só; assim temos as quatro maldições de Lv 26, a fome, as más bestas, a peste e a espada. Elas ocorrem novamente em 14.21 e figuram dentre as pragas do livro de Apocalipse (Ap 6.7-8).

Ezequiel 6 III. PROFECIA CONTRA OS MONTES DE ISRAEL - 6.1-14 Ezequiel se refere à nação sob a figura de os montes de Israel (2), visto que formavam sua principal característica; trata-se, realmente, de "uma serra central montanhosa a baixar em direção às planícies estreitas ao longo do Mediterrâneo e do Jordão" (Toy). Além disso, montes e outeiros (3) são usualmente associados à idolatria pelos profetas (exemplo, Is 65.7; Jr 3.6; Os 4.13). Ribeiros (3); algumas versões dizem "ravinas". Estes e os vales eram usados para os impuros ritos e a adoração a Moloque (ver Jr 7.3132). Vossos altos (3) eram, originalmente, lugares elevados apenas, mas depois vieram a denotar os locais onde estavam situados os santuários idólatras; havia muitos desses lugares pela terra onde a adoração era oferecida ostensivamente a Jeová, mas que, em realidade, pouco diferia da adoração prestada pelos vizinhos de Israel. Evidentemente as reformas dirigidas por Ezequias e Josias tinham sido inúteis (2Rs 18.4; 23.5). Imagens (4); algumas versões dizem "imagens do sol"; em heb. hammanim eram, provavelmente, imagem de Baal hamman, "o Baal resplandecente", em realidade, não eram representações do deus sol, embora esse culto possivelmente estivesse ligado à adoração ao sol, no templo (ver 8.16 e segs.). Para que saibais que eu sou o Senhor (7). Uma frase característica de Ezequiel; ocorre nos vv. 10,13 e 14 e cerca de sessenta


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 18 vezes mais em outras passagens. O motivo da ação de Jeová é sempre fazer com que as nações reconheçam que só Ele é deidade e tem poder. Me quebrantei por causa do seu coração corrompido (9); melhor, como diz certa tradução "quebrantei o corrompido coração deles". Deus quebranta o coração mediante a tristeza a fim de produzir o arrependimento. Bate... bate (11). As ações de Ezequiel parecem expressar antes exultação que horror (ver 21.17; 22.13; 25.6). Ah! (11; na Septuaginta, euge, euge, isto é, Bravo!), como se o profeta exultasse no julgamento vindouro. Sua preocupação era a vindicação da honra de Jeová, e não tanto o destino dos pecadores. Cf. Ap 19.1-4. A destruição dos idólatras, no meio dos Seus ídolos (13) revelará a impotência destes últimos e convencerá os sobreviventes que somente Jeová é Deus. Dibla (14), (situada a leste do mar Morto, ao sul), é quase certamente um equívoco em lugar de Ribla (que jazia muito mais ao norte perto de "vindo para Hamate", 48.1), visto que em hebraico d e r são quase idênticos. "Do deserto a Ribla", portanto, representa o equivalente à frase mais bem conhecida: "De Dã a Berseba".

Ezequiel 7 IV. A IMINENTE CONDENAÇÃO DE ISRAEL - 7.1-27 Há quatro oráculos curtos neste capítulo (vv. 2-4,5-9,10-11 e 1213) seguidos por uma exposição sobre seu tema comum (vv. 14-27). Visto que é dito que o fim estava iminente, e a data em 1.1 permite apenas sete anos até à queda de Jerusalém, é possível que este capítulo tenha sido escrito mais tarde. A data, no fim de uma seção, não abarca necessariamente tudo quanto se segue até ser dada a data seguinte. O oráculo foi dirigido aos montes de Israel (2), mas, não obstante, os vv. 5-7,10,12 parecem ter em mente o dia do Senhor, com sua significação universal. Por conseguinte, é melhor traduzir a frase


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 19 final desse versículo como "os quatro cantos da terra", como em Is 11.12. O julgamento contra Israel é comparado com o pano de fundo do julgamento das nações. Note-se o jogo de palavras, como no verso 6, o fim (hakkes) vem ou "acorda" (hekis). Um só mal (5), isto é, um mal final. Vem o tempo; chegado, é o dia (7). Que isso é uma referência ao dia do Senhor parece claro mediante uma comparação com 30.3; Dn 12.1; Jl 1.15; Ml 4.1. Os vv. 10 e 11 registram um oráculo rítmico que apresenta o âmago da profecia. Tudo estava maduro para o julgamento, "a árvore já havia rebentado em folhas e flores!" (Cooke). A vara de impiedade provavelmente se refere ao rei de Israel e sua corte. Cf. a uso freqüente do vocábulo "vara" para significar o cetro de Israel (exemplo, 19.11). O comprar e o vender dos verso 12 e 13 parece ser de propriedades, em que o vendedor aparece a fazê-lo contra sua própria inclinação (cf. 1Rs 21.1-16), ou a fazê-lo por um preço inconvenientemente baixo. O profeta diz que um não precisa ficar alegre nem o outro precisa ficar triste, pois ambos dentro em pouco seriam envolvidos numa catástrofe. Muitos têm julgado que o verso 13 se refere à lei do jubileu (Lv 25.10 e segs.), e é possível que assim seja. Outro modo, o profeta estaria dando prosseguimento ao pensamento do versículo 12; comprar de volta terras ancestrais era algo inconcebível, pois "a nação seria quebrantada e as questões sobre propriedades deixariam de ter interesse" (Toy). Comparando-se a última cláusula do verso 19 com o verso 20, verifica-se que a impureza de sua prata e seu ouro (19) era devido ao fato de terem sido consagrados para os ídolos. Nesta versão o verso 20 está bem traduzido (cf. Is 30.22). Os ídolos de que ele fala seriam entregues aos invasores por Jeová (21). Faze uma cadeia (23) pode ser uma ordem para o profeta fazer uma ação simbólica, pois de outro modo sua significação seria desconhecida. Uma tríplice divisão religiosa do povo é indicada no verso


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 20 26; o profeta, quanto à palavra imediata de Jeová; o sacerdote, quanto à instrução baseada na lei; os anciãos, quanto aos conselhos sobre as questões civis. O verso 27 apresenta uma tríplice divisão social: o rei, o príncipe (isto é, os "príncipes"; o singular é coletivo, como em 22.6); e o povo da terra. V. PECADO E JULGAMENTO ABANDONADA POR DEUS - 8.1-11.25

DE

JERUSALÉM:

Ezequiel 8 a) Os idólatras no templo (8.1-18) A data (verso 1) é agosto-setembro de 592 a.C., catorze meses depois da visão inaugural de Ezequiel (1.1). Quanto à aparência de fogo (2; heb., esh), a Septuaginta lê como em 1.26-27: "semelhança de homem" (em heb., ish). Ezequiel foi transportado em visão para o templo e vê terem lugar ali práticas idólatras. Não se trata aqui de uma reconstrução pictórica feita pelo profeta, baseada em reportagem recebida de outras fontes, mas antes, uma descrição de coisas vistas por meio de um dom sobrenaturalmente intensificado de "segunda visão". A distância entre Babilônia e Jerusalém torna espantoso o caráter desse episódio, porém, não é sem paralelos na Bíblia. Cf. 2Rs 5.26; 6.8-12; Is 21.6-10. A imagem dos ciúmes (3); isto é, uma imagem que fazia despertar os ciúmes de Jeová) talvez fosse uma "asherah" (poste sagrado). Manassés havia erguido tal imagem (semel, uma palavra incomum é aqui empregada no original) no templo, e mais tarde a removeu (2Cr 33.7,15). Este talvez tenha sido o mesmo ídolo recolocado em seu lugar. Câmaras pintadas de imagens é uma tradução duvidosa (12; em heb., mashkith). A Septuaginta lê: "suas câmaras secretas", que é uma conjetura tão boa como todas as que até agora têm sido feitas. Cf. 9.9; Is 29.15.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 21 Tamuz (14), uma divindade babilônica, era o deus da vegetação, cuja morte, por ocasião do período de grande calor, era lamentada anualmente, e cuja ressurreição era celebrada na primavera. O tempo tradicional dessa lamentação era no quarto mês, por isso mesmo chamado de "Tamuz"; porém, como esta visão teve lugar no sexto mês, Adoravam o sol (16). A adoração ao sol era praticada entre os cananeus, mas ultimamente havia sido reintroduzida por meio da Assíria (2Rs 23.5,11; Jr 8.2). Entre o pórtico e o altar (16) era o lugar onde os sacerdotes faziam orações (Jl 2.17), naturalmente de rosto voltado para o templo; nesse local, de costas para o templo do Senhor, tinha lugar a adoração ao sol, numa demonstração a mais completa possível de renúncia e Jeová. Cf. 2Cr 29.6. Ei-los a chegar o ramo ao seu nariz (17) representa uma forma de idolatria que pode ser posta paralelamente aos ritos persas e babilônicos. (Quanto às diversas explicações possíveis, consultem-se os comentários mais volumosos).

Ezequiel 9 b) O julgamento de Jerusalém (9.1-11) Se certas versões forem seguidas quanto ao verso 1, aos executores é dito diretamente: "Aproximai-vos, executores da cidade!" Seis homens com um homem vestido de linho (2) perfaziam um grupo de sete pessoas; indubitavelmente eram seres angélicos. Cf. os sete anjos que estão sempre defronte de Deus (Ap 8.2,6) e que ali também aparecem como executores da ira de Deus. E marca (4). Os justos foram marcados (a palavra significa, estranhamente, uma marca em forma de cruz) para serem distinguidos dos idólatras e para lhes ser garantida a proteção de Jeová. Cf. Êx 12.23; Ap 7.3-8; 13.16-18; 14.1. Começai pelo meu santuário (6); cf. 1Pe 4.17.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 22 O restante de Israel (8) denota os habitantes de Jerusalém. O reino do norte já tinha sido levado para o cativeiro, em 722. a.C., e Judá já tinha sofrido um cativeiro parcial, em 597 a.C. Em contraste com seu grito, em 6.11, e com sua usual atitude de completa simpatia com os julgamentos divinos contra Israel, aqui Ezequiel pleiteia por misericórdia para com seus compatriotas errantes. A resposta é dada nos vv. 9 e 10; a culpa da terra é tão repugnante que o castigo não pode ser desviado. O Senhor deixou a terra (9; isto é, a terra santa), ou seja, Jeová havia abandonado Seu povo, conforme era evidenciado por suas contínuas tribulações. Por conseguinte, da parte deles não havia ocorrido àqueles apóstatas que a adversidade de que sofriam era um julgamento justo de Jeová contra sua iniqüidade.

Ezequiel 10 c) O incêndio de Jerusalém (10.1-22) O trono (1) estava vazio (cf. 9.3); os querubins aguardavam Jeová para alçar vôo e partir. O destruidor da cidade era o homem, vestido de linho (2) que anteriormente havia feito uma marca nos fiéis separando-os para a preservação; todos os sete anjos, dessa forma, eram ministros vingativos, como em Ap 8.1-11.15. Querubim (2; no original no singular) é um termo coletivo que inclui os quatro querubins, como em 9.3. Nada nos é informado sobre a destruição da cidade, senão que o anjo comissionado para isso tomou o fogo dentre os querubins (cf. Is 6.6) e saiu (7). A visão profetizava os incêndios que efetivamente destruíram Jerusalém, em 586 a.C. (2Rs 25.9); porém, mais significativa que a predição foi a revelação da identidade do Destruidor - o próprio Deus. O propósito da repetição dos vv. 9-22 é somente impressionar o leitor com esse mesmo fato; pois a descrição da glória de Deus e da


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 23 carruagem já fora dada no capítulo primeiro. Sua recorrência aqui, de modo detalhado, sublinha o espantoso fato que Deus, que os homens julgavam estar inseparavelmente ligado ao Seu santuário e à Sua cidade, é Quem haveria de destruir ambas essas coisas e abandonar suas ruínas. Devido à fantasia de alguns copistas de séculos posteriores, algo da descrição dos vv. 9-22 se encontra de modo confuso e difícil de seguir. Por exemplo, 11a fala sobre as rodas, 11b evidentemente tem os querubins em mente; o verso 13 ficaria melhor se coloca do após o verso 6; o primeiro rosto, no verso 14, deveria ser rosto de "boi" e não de querubim como em 1.10 (a não ser que sigamos o rabino Resh Lakish: "Ezequiel buscou o Misericordioso a respeito dele (do rosto de boi) e Ele o transformou em querube"); o verso 15 interrompe a seqüência e antecipa os vv. 19-20. Saiu a glória do Senhor (18). Jeová abandonou o templo pela entrada da porta oriental (19); 11.22-23 registra o fato que Ele se afastou completamente da cidade.

Ezequiel 11 d) Julgamento dos conspiradores em Jerusalém (11.1-13) Esta cidade e a panela (3). Esta declaração mostra a inclinação dos pensamentos daqueles homens. Os muros da cidade haveriam de protegê-los assim como a panela protege a carne do fogo; as advertências dos profetas, pois, poderiam ser ignoradas. Pode-se entender que a primeira cláusula implica em "nossa presente ocupação deve ser a guerra, e não a edificação de casas; vamos combater até o fim". Essa interpretação, porém, ultrapassa o sentido do texto. A Septuaginta traduz: "Não têm sido edificadas casas decentemente?", refletindo, talvez, a jubilação dos príncipes por terem dominado os efeitos da invasão de 597 a.C., e deixando subentendido que no presente não havia causa para preocupação.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 24 Caso a tradução marginal de algumas versões, acompanhada por esta versão, for seguida: "Não está próximo o tempo de edificar casas...?", devemos compreender uma atitude de desafio às advertências proféticas, um ato flagrante de incredulidade em sua veracidade. Vossos mortos... são a carne (7). As únicas pessoas que haveriam de usufruir de segurança na cidade seriam as vítimas abatidas pelos conspiradores; estes últimos seriam tirados da cidade (9) e seriam executados nas fronteiras da terra (10). Ver o cumprimento disso (2Rs 25.18-21). O verso 13 faz parte integral da visão mas presume que o acontecimento efetivamente ocorreu enquanto Ezequiel "estava olhando". O fenômeno pode ser comparado com a visão sobre os idólatras no templo (capítulo 8), com a do início do cerco de Jerusalém (24.2), com a da morte de sua esposa (24.16), com a, da cessação de tua mudez (24.25; cf. 33.21-22). e) Promessa de restauração (11.14-25) Teus irmãos (15) são os companheiros de exílio de Ezequiel, que vieram de Judá; toda a casa de Israel (15) são os descendentes daqueles que foram transportados do norte de Israel, em 722 a.C. (cf. 20.40; 36.10). Apartai-vos para longe do Senhor (15). A zombaria dos que restavam em Jerusalém refletia a antiga noção que o poder de Jeová se limitava à Sua terra; estar longe dEle era o mesmo que ser expulso de Sua presença (cf. 1Sm 26.19). A promessa de Deus, no vers. 16, nega tal idéia, porém. A glória do Senhor (23) retira-se inteiramente da cidade (cf. 10.18-19). Muitos exegetas acreditam que as duas visões em 11.1-21 ocorreram mais tarde que o resto dos capítulos 8--11, e que foram colocadas aqui porque dizem respeito a acontecimentos vistos no templo e na apóstata Jerusalém.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 25 Admite-se que 11.1-13 aparece estranhamente após a descrição da destruição do povo em capítulo 9 e após o incêndio da cidade no capítulo 10; a mensagem de restauração (11.14-21) também se adaptaria melhor no período imediatamente anterior à destruição da cidade. Entretanto, não é sábio mostrar-se dogmático numa ou noutra direção. VI. PROFECIAS CONTRA JERUSALÉM - 12.1-24.27

Ezequiel 12 a) Um quadro do exílio iminente (12.1-20) Casa rebelde, (2); isto é, os exilados entre os quais vivia o profeta; eram tão obtusos como os judeus de Jerusalém! O verso 5 nos dá uma ilustração do desespero dos assediados e das ruínas de suas propriedades; ver 2Rs 25.4. Cobrirás a tua cara, para que não vejas (6). Uma alusão à fuga e ao destino de Zedequias. Ver o verso 12, que diz: "para que com os seus olhos (Ele) não veja". A Septuaginta traduz no passivo: "para que ele não seja visto com os olhos", isto é, a coberta no rosto serviria de disfarce. Mas o versículo também profetiza o castigo infligido pelos babilônios contra o rei, o qual foi cegado em Ribla e levado cativo para a Babilônia (2Rs 25.5-7). Saberão (15); isto é, aqueles que escaparam de Jerusalém, saberão que Jeová é o Senhor quando experimentarem esses horrores segundo a profecia. As nações entre as quais viajassem também saberiam a respeito (16), pois aquela demonstração do poder de Jeová as convencerá que somente Ele é Deus. O objetivo de deixar sobreviventes da catástrofe era somente para honrar o nome de Jeová. A profecia por ações sobre as aperturas do cerco (17-20) é semelhante à de 4.9-17 (ver especialmente 4.16-17). As ações simbólicas da passagem anterior, porém, representam a escassez que prevaleceria durante o cerco; esta última salienta o terror durante aqueles dias.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 26 b) Os profetas e o povo (12.21-14.11) Esta passagem consiste de um grupo de cinco oráculos que tratam de profecias, verdadeiras e falsas, e da atitude adotada pelo povo com referência às mesmas. 1. O CETICISMO É REPREENDIDO (12.21-28). Dois oráculos (vv. 21-25,26-28) suprem motivos para a descrença popular na profecia. O primeiro é expresso pelo provérbio: Prolongar-se-ão os dias, e perecerá toda a visão (22); isto é, o tempo passa mas as muitas ameaças de destruição nunca se realizam (cf. 2Pe 3.4). O elemento de demora teria sido agravado pelo ministério de Jeremias. Durante os últimos trinta anos ele havia anunciado o vindouro julgamento de Jerusalém; mas os eventos pareciam desacreditá-lo. A resposta que Ezequiel obteve de Deus foi: Chegaram os dias e a palavra de toda a visão (23). A segunda objeção vinha daqueles que haviam aceitado a veracidade da profecia, mas consideravam que ela se aplicava a tempos que estão longe (27). A mesma resposta é dada aos tais: Não será mais diferida nenhuma das minhas palavras (28).

Ezequiel 13 2. DENÚNCIAS CONTRA FALSOS PROFETAS E PROFETISAS (13.1-23). Os profetas falsos eram uma ameaça por motivo de sua oposição à verdadeira Palavra de Deus e sua propagação da inverdade (2-3). Cf. as lutas de Jeremias contra eles (Jr 5.30-31; 14.13-18; 23.9-40; 29.8-10,21-23). Quanto ao teste da validade do ministério de um profeta ver Dt 13.1-5; 18.21-22. Os teus profetas... são como raposas (4); isto é, mostravam-se nocivos e destruidores. Com o verso 5 contrastar 1Sm 25.16. Adivinhações (6) é a obtenção de um oráculo mediante a leitura de sortes e desenho; cf. 21.21.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 27 Registros da casa de Israel (9); isto é, o registro dos cidadãos na bendita era vindoura. Cf. o uso anterior da idéia, em Êx 32.32 e segs., e o símbolo desenvolvido em Lc 10.20; Ap 20.15. Cal não adubada (10 e segs.); em heb., taphel, que seria melhor traduzir como "adobe caiado". Os falsos profetas meramente caiavam as paredes inseguras do estado, em lugar de fortalecê-las. Quando Deus houvesse de derrubar a parede, seriam sepultados debaixo das ruínas. As profetisas falsas costuravam tiras (não almofadas) sobre os punhos (não sovacos) das vestes (18), um processo de mágica pelo qual julgavam coser poder sobre o consulente, ou então simbolizava o poder da feiticeira em amarrar suas vítimas. As cobertas para a cabeça, lenços de cabeça (e não travesseiros) serviam para propósito semelhante, embora a derivação do termo (mispachoth, de uma raiz acadiana sapahu, soltar) sugira o poder oposto de soltar de uma influência. Almas (18 e segs.); isto é, "pessoas"; não há pensamento aqui de distinguir entre o espírito e o homem. A última cláusula do verso 18 deveria ser traduzida como afirmação: "Caçais as pessoas de meu povo, mas vossas próprios pessoas mantendes vivas". O verso 19 deve ser traduzido: "Vós me tendes profanado (visto que as feiticeiras invocam o nome de Jeová em seus ritos) com punhados de cevada e com pedaços esfarinhados de pão"; esses pedaços serviam não como recompensa, mas eram usados para adivinhar o futuro, tal como o fígado da vítima abatida num sacrifício. Os vv. 20-23 descrevem a sorte de todos aqueles que praticam adivinhações dessa espécie. As falsas profetisas compartilhavam do julgamento contra os falsos profetas.

Ezequiel 14 3. INTERROGADORES IDÓLATRAS (14.1-11). Vieram a mim alguns... dos anciãos (1). É provável que os exilados se dirigissem freqüentemente a Ezequiel, aguardando uma palavra da parte de Deus que saísse de seus lábios (cf. 33.30). À


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 28 semelhança dos pagãos, aqueles anciãos pensavam que podiam adorar qualquer deus além do seu próprio (3-4); não haviam entendido o significado de "eu o Senhor teu Deus sou Deus zeloso" (Êx 20.5 ver também Ez 16.38-42). Eu, o Senhor, vindo ele, lhe responderei (4); Jeová não usaria qualquer intermediário para replicar a tal homem. Sua voz sairia em ações de julgamento como nos versos 12 e segs. Que se alienar de mim (7); lit., "dedicar-se para não seguir-me"; cf. Os 9.10. Tal como era o povo assim o profeta; ambos eram igualmente corruptos (9). Somente um profeta enganado daria para os idólatras uma resposta como se dela se derivasse de Jeová, e ambos haveriam de carregar com seu castigo. Alguns interpretam o "engano" de um profeta por Jeová como uma instância do Antigo Testamento que despreza causas secundárias; isto é, o estado enganado do profeta se devia à sua própria perversão de consciência, mas, visto que as conseqüências do pecado, igualmente com a lei moral, são ordenadas por Deus, poder-se-ia dizer que o engano era produzido por Deus. Tal maneira de argumentar, entretanto, soaria completamente estranha para Ezequiel. Cf. Ez 3.20; 1Rs 22.21 e segs. c) A razoabilidade do julgamento (14.12-23) Nos vv. 12-20 é estabelecido um princípio geral - que o julgamento de um povo perverso não é desviado pela justiça de alguns poucos o verso 21 aplica o princípio a Jerusalém. Para ilustrá-lo e frisálo são induzidos três notáveis exemplos de homens justos. Noé (que salvou sua família, Gn 6.8), Daniel (que salvou seus amigos, Dn 1.6-20?) e igualmente Jó (Jó 42.7-10). As realizações desses homens não devem ser citadas como exemplos sobre a paciência habitual de Deus. Quando Jeová sentencia uma terra culpada somente os justos conseguirão ser livrados. Possivelmente Ezequiel tinha ouvido que os homens de Jerusalém olhavam para a cidade como sua esperança de salvação, baseados na história da intercessão de Abraão por Sodoma (Gn 18.23 e


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 29 segs.); mas o profeta replica: "Este é o princípio segundo o qual Deus age; se é verdadeiro em geral, Quanto mais no caso de Jerusalém (21), que não conta nem com Noé, nem com Daniel e nem com Jó!" Cf. declaração semelhante de Jeremias sobre a inutilidade de intercessão por Jerusalém, mesmo que fosse da parte de Moisés e Samuel (Jr 7.16; 15.14). Quanto ao princípio da responsabilidade individual, aqui subentendido, cf. o capítulo 18. Daniel (14,20). Os expositores há muito têm interrogado se o homem aqui chamado por este nome é o mesmo Daniel do livro que tem seu nome, presumivelmente um contemporâneo de Ezequiel, ou se seria algum patriarca de antiguidade semelhante à de Noé e Jó. Que os fenícios conheciam tal pessoa é atestado por referência a ele nos tabletes de Ras Shamra, cerca de 1400 a.C. E que seu nome é escrito ali conforme escrito no livro de Ezequiel, e não no livro de Daniel, é outro fato que indica que talvez seja referido aqui o patriarca, e não o profeta. O remanescente que escapasse mostraria, por suas vidas corrompidas, quão justo tinha sido o juízo contra Jerusalém, e assim as mentes dos exilados ficariam descansadas. E vereis... e ficareis consolados (22).

Ezequiel 15 d) Uma vinha para ser queimada (15.1-8) Esta parábola sugere que certos israelitas se tinham comparado, conforme Isaías havia feito com um propósito diferente, à vinha entre as árvores, a preferida entre as nações aos olhos de Deus. Mas Ezequiel corrige tal noção. Israel não passava de uma vinha agreste da floresta (não uma vinha cultivada, como em outras passagens do Antigo Testamento); longe de ser melhor que as outras árvores, ela era inútil para qualquer outra coisa senão para servir de combustível. Assim como a vinha estava destinada, digamos assim, a ser queimada pela sua própria


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 30 natureza, semelhantemente Jerusalém estava destinada para a destruição (6).

Ezequiel 16 e) Uma mulher sem fé (16.1-63) Este discurso procura mostrar, de maneira alegórica, que a história de Israel constitui "um registro sem interrupções de negras apostasias" (McFadyen). Foi composto em quatro movimentos: 1. Uma adaptação, talvez, de uma história popular concernente a um bebê encontrado que se tornou rainha (3.43). 2. As notórias irmãs de Jerusalém, Samaria e Sodoma, eram justas em comparação consigo (44-52). 3. Jerusalém só podia ser restabelecida juntamente com aquelas comunidades irmãs anteriormente desprezadas (53-58). 4. A penitente Jerusalém receberia uma nova aliança da parte de Deus (59-63). Quanto à comparação entre Jerusalém e uma esposa infiel, cf. Is 1.21; Jr 3.1 e segs.; Os 2.2-23. A alegoria é desenvolvida com uma candura que tende a chocar a mente ocidental, mas era perfeitamente normal para os orientais. Amorreu... hetéia (3). "A genealogia é moral, e não étnica" (Toy). Não obstante, os ancestrais arameus de Israel eram aparentados dos amorreus (ou cananeus) e tinham afinidades com certos dos heteus. Àquela criança foi negado o cuidado normal (4). "Filha de pais pagãos, recebeu tratamento pagão por ocasião de seu nascimento" (Cooke). Estendi sobre ti a ourela do meu manto (8). Quanto a esse costume, ver Rt 3.9. Na alegoria é possível que isso se refira ao pacto do Sinal, enquanto que os vv. 9-14 podem ser aplicados à crescente prosperidade da nação até os dias de Salomão. Em lugar de pele de texugo (10), leia-se "couro"; cf. Êx 25.5. O processo mau, descrito no verso 15, começou quando Israel adotou os santuários cananeus da Palestina (cf. 20.28; Jr 2.5-7). As ações descritas no verso 18 representam o tratamento dado aos ídolos por ocasião das festividades.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 31 Teus filhos e tuas filhas... os sacrificaste (20). Embora Josias tenha eliminado essa prática iníqua durante algum tempo (2Rs 23.10) é provável que tal prática tenha sido reavivada durante os dias desesperados do cerco. O verso 26 faz referência à perene tendência de Israel de esperar auxílio da parte do Egito; cf. Is 30.1-5; 31.1-3. Semelhantemente, o verso 28 se refere à dependência à Assíria (2Rs 16.7 e segs.; Os 5.13; 8.9), e o vers. 29 se refere à confiança posta na Caldéia, isto é, Babilônia (2Rs 20.12 e segs.). Os vv. 35-43 descrevem o castigo de Jerusalém; será o castigo infligido a uma prostituta - humilhação e morte (ver o verso 38). O pecado de Jerusalém não apenas era tão grave como o de seus predecessores pagãos (44-45), não apenas da mesma ordem que o pecado das ímpias cidades de Samaria e Sodoma (46), mas ainda era pior que o pecado dessas cidades (47-51). Ela seria forçada a confessar seu pecado inexprimível (52). Não é necessário supor que os feitos de Israel fossem de caráter pior que os de Samaria e Sodoma; pois sem dúvida a hediondez de sua culpa era acentuada pelo fato de seu privilégio sem paralelo de estar desposada com Jeová. Cf. Am 3.2. A promessa de restauração (53-58) é feita de tal modo que trouxe bem pouco consolo para Jerusalém. Ela só poderia ser reintegrada juntamente com Samaria e Sodoma, as quais seriam consoladas pelo vergonhoso reconhecimento que lhes seria feito pela sua vizinha até então orgulhosa e justa aos próprios olhos. Eu me lembrarei do meu concerto (60). Esse é o único ponto brilhante em todo o céu entenebrecido. Jeová fará com ela um pacto eterno de tal natureza que restauraria completamente as relações interrompidas, e lhe devolveria sua antiga posição. Esse é o "novo concerto" de Jr 31.31 e segs. Ver. também Ez 37.26; Is 59.21; 61.8.


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Ezequiel 17 f) O abutre e a vinha (17.1-24) Uma grande águia (3); em heb., nesher. Conforme demonstrado em Jó 39.27-30 e Mq 1.16, o abutre; aqui simboliza Nabucodonosor. Líbano é a região montanhosa de Judá; o mais alto ramo dum cedro (3) é Joaquim, rei de Judá (2Rs 24.10-16). Terra de mercancia (4) designa Babilônia. Zedequias, filho de Josias, foi feito rei por Nabucodonosor em lugar de Joaquim (2Rs 24.16). A localização junto às grandes águas denota a Palestina; cf. Dt 11.11. A videira mui larga (6). A metáfora deixa de lado o cedro. Cooke liga essa sentença ao versículo 5 e, por meio de uma alteração nos pontos vocálicos faz com que leia: "para que cresça e se torne numa videira esparramada". Nabucodonosor estabeleceu Zedequias sobre o trono para que fosse um vassalo submisso. Mais uma grande águia (7). Este outro abutre é o Faraó Ofra; ver. Jr 44.30. Os vv. 11-21 interpretam essa linguagem figurada. Zedequias é denunciado por ter-se voltado para o Egito procurando ajuda contra a Babilônia (15). Os profetas falaram em uníssono contra Israel por ela apelar para o Egito, embora os motivos deles variem (ver, por exemplo, Is 30.1-5; 31.1-3; Jr 2.36). Não foi a infelicidade da medida política da revolta que despertou a indignação de Ezequiel, mas foi o fato de Zedequias ter traído seu juramento de fidelidade a Nabucodonosor (1518). Pelo verso 19 fica claro que Zedequias deve ter invocado o nome de Jeová nesse seu juramento; desrespeitá-lo era sujeitar à desgraça o Nome (cf. Js 9.15-20). Quanto a outra instância em que Zedequias quebra um juramento seu, ver Jr 34.8-22. Os vv. 22-24 formam, realmente, uma parábola adicional em que as figuras dos vv. 3 e 4 são diferentemente aplicadas. O mais tenro, tirado do principal dos seus renovos (22) é o Messias da casa de Davi (Jr 23.5 e segs.; 33.15), que será plantado no monte Sião e protegerá a


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 33 nação restaurada do exílio. Quanto à imagem de uma árvore a servir de abrigo para as feras e os pássaros, cf. 31.6,12; Dn 4.12,21; Mc 4.32.

Ezequiel 18 g) Retribuição e responsabilidade (18.1-32) O ensinamento deste capítulo, sumarizado no verso 20, necessita ser colocado no contexto do livro inteiro para poder ser aquilatado com justiça. Seu principal propósito é vindicar a justiça de Deus e tem em mente certa crise particular. Os contemporâneos do profeta alegavam que estavam sendo castigados por causa dos pecados da geração anterior. Ezequiel declarou que Deus não age dessa maneira, mas considera cada homem responsável por seus feitos e lhes retribui segundo esse princípio. Esse é um princípio fundamental da religião revelada. Ezequiel foi o primeiro a declará-la claramente. Que tal princípio pode ser abusado é indubitável, especialmente se os homens divorciarem o indivíduo da sociedade. Porém, o profeta não faz isso; usualmente ele tem em mente a nação inteira e, realmente, é difícil reconciliar este capítulo com as predições sobre a total destruição de Jerusalém (exemplo, verso 12; 7.10-27; 11.7-12), tão real é a unidade da nação para o profeta. O ensino de Ezequiel tem muitas facetas: devem ser observadas em seu conjunto para que possa ser devidamente apreciado. O divorciar esse princípio de seu contexto levou certos homens a argumentar que a condição de um homem era reflexo do julgamento de Deus contra ele pelo que a adversidade seria o fruto do pecado e a prosperidade seria o resultado da retidão. O livro de Jó é dirigido contra a distorção no ensinamento de Ezequiel, mas ninguém pode dizer com razão que o livro de Jó tinha em mira o livro de Ezequiel. O provérbio (2) era corrente em Jerusalém (Jr 31.29) e dali chegou até os exilados na Babilônia. No verso 4 é estabelecido o princípio da forma abreviada. Então, como ilustração, Ezequiel considera o caso de


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 34 três gerações um homem justo que prossegue em sua retidão (5-9), seu filho que se comporta iniquamente (10-13) e seu neto, que repudia a maldade de seu pai (14-17). No verso 20 é elaborado esse princípio; cada homem receberá a justa retribuição de sua conduta. Ezequiel tinha em mente primariamente o julgamento vindouro de Jerusalém e a restauração que se seguiria; porém, ele considerava isso como capaz de aplicação geral. Se o ímpio se converter... não morrerá (21). Um homem não somente está livre do pecado de seu pai; mas pode livrar-se de seu próprio passado, se assim o desejar. Pode arrepender-se imediatamente. Kraetzschmar declara que o verso 23 e "a palavra mais preciosa de todo o livro de Ezequiel". Cf. 1Tm 2.4; 2Pe 3.9. Criai em vós um coração novo (31); cf. 36.26, "vos darei um coração novo". A mesma verdade dupla é expressa em Fp 2.12-13.

Ezequiel 19 h) Lamentação por causa de reis (19.1-14) Neste capítulo são reunidas duas elegias; na primeira os líderes de Judá são pintados como leões (1-9), e na segunda como ramos de uma vinha (10-14). Se os dois poemas foram escritos ao mesmo tempo, o segundo tem caráter de predição (ver nota sobre o verso 14); porém, se o verso 14 descreve acontecimentos passados, então o segundo poema foi escrito mais tarde, seguindo o modelo do primeiro e sendo reunido a ele. 1. A LEOA E SEUS CACHORRINHOS (19.1-9). Tua mãe (2) é a nação, Israel, ou, mais estritamente falando, Judá, como no verso 10. O leãozinho (3) representa Jeoacaz, que foi aprisionado por Faraó Neco após um reino de apenas três meses, e foi levado cativo para o Egito, em 608 A. C. (4; ver 2Rs 23.31-34).


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 35 Outro dos seus cachorros (5). Jeoaquim, irmão de Jeoacaz, o sucedeu no trono, mas seu reinado é passado em silêncio, porque seu fim foi pacífico. Joaquim, filho de Jeoaquim, é aqui descrito. Depois de três meses como rei foi levado para a Babilônia, por Nabucodonosor, em 597 A. C. (9; ver 2Rs 24.8-16). Uma dupla aplicação pode ser vista nos vv. 8, 9; não apenas os leões eram capturados dessa maneira, para diversão esportiva dos reis assírios, mas os príncipes conquistados também eram aprisionados em gaiolas para servirem de espetáculo público. 2. A VINHA E SUAS VARAS (19.10-14). Os vv. 11 e 12 deveriam ler, acompanhando as versões grega, latina e aramaica, como se houvesse uma única vara; mas é incerto qual governante é aqui referido, se Joaquim, como nos vv. 5-9, ou Zedequias, como no verso 14; a primeira interpretação parece preferível. A vara dos seus ramos (14) era Zedequias, que foi considerado responsável pela destruição de Jerusalém, visto que a cidade teria sido poupada se ele se tivesse submetido aos babilônios. Cf. Jr 38.20-23.

Ezequiel 20 i) A história da apóstata Israel (20.1-44) A situação é semelhante à do capítulo 14; anciãos vieram para consultarem o Senhor (1) por intermédio de Ezequiel. Tal como em 14.3, eles tinham "levantado os seus ídolos nos seus corações" assim também aqui, mas o profeta foi capaz de perceber a intenção deles de se amoldarem à idolatria de seu ambiente (32). A resposta de Jeová, em ambas as ocasiões, é julgamento contra os idólatras (14.7-8; 20.33-39). Esta revisão da história de Israel exibe as fortunas de Israel no Egito (59), no deserto (10-26), em Canaã (27-29), no presente (30-32), a atravessar um outro deserto (33-39), e a restabelecer-se na Palestina (4044). A data (verso 1) foi julho-agosto de 591 A. C., onze meses após a visão dada em 8.1.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 36 Levantei a minha mão (5); isto é, para reforçar o juramento (cf. Gn 14.22; Dn 12.7; Ap 10.5-7). Rebelaram-se contra mim (8). Não temos qualquer informação sobre uma rebelião dos judeus no Egito, a não ser que aqui seja referido Êx 5.21. Talvez tenham existido outras tradições sobre esse período da história de Israel, correntes nos dias de Ezequiel, e que por ele foram aproveitadas. O que fiz... foi por amor do meu nome (9); isto é, a fim de que Sua reputação, entre as nações, não sofresse por causa de aparente incapacidade para cumprir Sua palavra (cf. Nm 14.16; Dt 9.28). Seu coração andava após os seus ídolos (16); cf. Êx 32.1-6; Nm 25.1-3. Estatutos que não eram bons... (25). Uma reversão do propósito normal das leis de Jeová; ver o verso 11. O sacrificar os filhos (26) era, evidentemente, considerado como um cumprimento da lei de Êx 13.12, uma interpretação que o profeta parece considerar como devida à cegueira judicial imposta por Deus (cf. 14.9 nota; Is 6.10-12 e a observação de Cooke em I. C. C., págs. 218-219). Traduza-se o v. 29: "Qual é o alto lugar (bama) para o qual vós vindes (ba'im)?" Nos vv. 33-38 o julgamento é mesclado com a misericórdia. Jeová liderará Seu povo tirando-o da terra do exílio, assim como os retirou do Egito séculos atrás (34); os culpados perecerão no deserto, tal como na primeira viagem (35-38; cf. Os 2.16-17). O quadro sobre a futura redenção, como um segundo êxodo, é freqüente nos escritos dos profetas. Ver, por exemplo, Is 41.17-20; 43.16-21; Jr 23.7-8; Mq 7.15-17. j) A espada do Senhor (20.45-21.32) Os justos sobreviventes de Israel retornarão à sua própria terra e adorarão a Jeová (40-44). Mediante esse ato redentor Jeová tornar-se-á conhecido como o único Deus, tanto para o mundo gentio (41) como


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 37 para Israel (42). Tal como em 16.61-63, a promessa é misturada com memórias sobre sua pecaminosidade anterior (43,44). Um novo capítulo tem início em 20.45, no texto hebraico; nossos revisores seguiram as antigas versões em suas divisões de capítulos. Quatro oráculos são aqui reunidos: a destruição de Jerusalém pelo incêndio e pela espada (20.45-21.7); o cântico da espada (21.8-17); Nabucodonosor nas encruzilhadas das estradas (21.18-27); e o julgamento de Amom (21.28-32). Se os vv. 21,22 nos fornecem outro exemplo da visão clarividente de Ezequiel (cf. cap. 8), então o capítulo data de 588 A. C., quando Nabucodonosor marchou contra Jerusalém. O Sul (46) é a Palestina; embora ficasse a oeste da Babilônia era assim descrita porque as caravanas subiam ao longo do Eufrates e depois seguiam para o sul, atravessando a Síria. Não é este um proferidor de parábolas? (49). Tais palavras refletem o ceticismo do povo, e não a habilidade que tinham de interpretar o que Ezequiel lhes dizia.

Ezequiel 21 Mas em 21.3 e segs. o profeta usa uma figura mais clara para assegurar que todos compreendem o significado de seu provérbio anterior. Suspira (6). Esta profecia por ação tinha a intenção de mostrar o modo como as notícias sobre a catástrofe seriam recebidas; cf. 12.1720. "Uma ode selvagem à espada caldaica vingadora" é a descrição feita por Toy aos vv. 8-17. Certos dos versículos, especialmente 10 e 13, são de difícil elucidação, devido à transmissão faltosa do texto. Bate pois tua coxa (12); isto é, a fim de expressar mágoa (cf. Jr 31.19). Os "mortalmente feridos" se refere a Zedequias, como no verso 30. Ver nota sobre o verso 25. Propõe dois caminhos (19). Ezequiel deveria traçar (na areia?) duas estradas partindo de um mesmo ponto, isto é, Babilônia, mas seguindo em diferentes direções, uma levando até Jerusalém e a outra até


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 38 Rabá, capital de Amom. Nabucodonosor é visto na encruzilhada (21). Ele empregava adivinhações para determinar qual estrada haveria de tomar. Flechas eram usadas do mesmo modo que as sortes; numa estava marcado "Jerusalém" e na outra "Amom"; seriam balançadas dentro de uma aljava, e então uma era tirada. Entranhas, isto é, "fígado"; devido a suas ligações com o sangue, o fígado era considerado a sede da vida; a cor e as marcas no fígado de uma ovelha sacrificada proviam augúrios sobre o futuro. Terafins eram pequenas imagens de forma humana cf. 1Sm 19.13,16. Aos olhos deles (23); isto é, aos homens de Jerusalém, que acreditariam que a adivinhação era falsa. Com o v. 25 cf. o verso 14. Ó profano; versões há que dizem aqui "o mortalmente ferido"; outras preferem traduzir como "desonrado". Ao revés... (27). A sucessão monárquica e o estado seriam reduzidos a ruínas, até à vinda do Messias. A última metade do versículo cita Gn 49.10: "até que venha Siló"; essa metade deve ser lida: "até que venha aquele de quem é (shello)". A linguagem dos vv. 28-32 é reminiscência dos vv. 9,10; mas aqui a espada é a de Amom desembainhada contra Israel, por ocasião do ataque de Nabucodonosor; Jeová fará desaparecer toda memória sobre Amom (32), um contraste com o futuro destino de Israel (20.40-44).

Ezequiel 22 l) Denúncia contra Jerusalém (22.1-31) Três oráculos devem ser distinguidos: os pecados de sangue da cidade (1-16); o derreter de Israel (17-22); a acusação das "classes e das massas" (McFadyen) (23-31). Jerusalém, por sua culpa, tinha causado a aproximação de seu número completo de dias e anos (4). Esta versão diz: "teus dias" e "o fim dos teus anos" (cf. 21.23). Os príncipes (6) abusavam de sua autoridade cometendo homicídios judiciais (cf. 2Rs 24.3-4).


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 39 Homens caluniadores (9); isto é, informantes que se livraram de seus inimigos por meio de acusações falsas. Eis que bati as mãos (13); um sinal de escárnio (cf. 21.14,17). Algumas versões dizem quanto ao verso 16 "Serei profanado por teu intermédio"; ver 20.9n. No segundo oráculo aparece como minério não refinado (18); Jeová a dissolve na fornalha, mas a escória é o único resultado. Bronze estanho, ferro e chumbo (18) foi o que se precipitou do minério ao ser dissolvido pela primeira vez, do qual a prata é em seguida separada. O ponto do oráculo é a figura de julgamento envolvida na idéia da dissolução. Diferentemente de outros profetas que empregam essa figura, Ezequiel exclui a possibilidade de refinação; sua geração não passa de escória! (cf. Sl 119.119). Conjuração dos sons profetas há (25). A Septuaginta lê "príncipes" (nasi, em lugar de nabi). Se tal texto for aceito, então Ezequiel acusa todas as gamas da sociedade de Jerusalém, os "príncipes" (25; isto é, membros da casa real), os sacerdotes (26), os "nobres" (27; aqui traduzido como príncipes; mas em heb., sarim, isto é, oficiais e cabeças de famílias importantes), os profetas (28), e o povo comum (29). Busquei... mas a ninguém achei (30). Nenhum dos líderes oficiais defendia a retidão e o verdadeiro bem-estar de Israel. Ezequiel, naturalmente, considerava Jeremias, a quem aqueles líderes haviam perseguido, como um caso à parte (cf. Is 59.16; 63.5).

Ezequiel 23 m) Oolá e Oolibá (23.1-49) Este capítulo se divide em duas partes. Os vv. 1-35 dão a alegoria sobre duas irmãs, Samaria e Jerusalém, mediante o uso de figuras semelhantes às empregadas no capítulo 16 (ver notas ali). Porém, enquanto o poema anterior tinha em mente as más influências da religião


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 40 dos cananeus, aqui o que é condenado são os pactos com as nações estrangeiras. Os vv. 36-49 formam um apêndice, desenvolvendo essa alegoria de modo diferente, possivelmente com uma situação diferente em mente. Aqui as duas irmãs são vistas juntas, e são acusadas por adorarem a Moloque e por profanarem o santuário e o sábado (37-39); as alianças com nações estrangeiras parecem ter sido feitas com aqueles povos que bordejavam Israel (42), e não com impérios distantes. Os dois nomes (4) são idênticos quanto ao seu significado, sendo formas femininas de ohel, uma "tenda". Talvez tenham em vista as tendas associadas com a adoração falsa (ver 16.16). Com todos os seus ídolos se contaminou (7). As alianças políticas usualmente envolviam a adoção dos cultos do poder superior. Samaria havia estabelecido alianças com a Assíria (5 e segs.) e com o Egito (8); Jerusalém foi ainda mais além, e se aproximou também da Babilônia (14-18). A adoração assíria (12) foi popularizada por Manassés e permaneceu na cidade até sua queda (ver 2Rs 21.1-9; Jr 44.15-19). Lhes mandou mensageiros à Caldéia (16). A Ocasião disso é desconhecida, a não ser que seja a que é registrada em 2Rs 24.1. No vv. 20 está em mente a solicitação de ajuda egípcia contra a Babilônia, Jr 37.7 e segs. Pecode, Soa e Coa (23) eram as tribos que ficavam a leste do rio Tigre. Nua e despida (29). Esse tirar as vestes de Oolibá representa a devastação de Jerusalém. O verso 40 descreve uma petição feita a um povo distante, rogando auxílio, talvez contra os babilônios. Beberrões do deserto (42); seriam os vizinhos próximos de Israel, árabes, edomitas, moabitas, etc. (cf. Jr 27.3 e segs.). Os homens justos (45) dificilmente poderão ser os babilônios (cf. 7.21-24); são os poucos homens de Jerusalém que permaneceram fiéis a


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 41 Jeová e condenaram a orientação da política nacional. Oolá e Oolibá serão julgadas como adúlteras (47; ver Dt 22.23-24).

Ezequiel 24 n) O começo do fim (24.1-27) Há três temas ligados um ao outro neste capítulo: a parábola do caldeirão enferrujado (1-14); o sinal da morte da esposa de Ezequiel (1524); o término da mudez do profeta (25-27). Calculando a partir do cativeiro de Joaquim, a data (verso 1), seria janeiro de 588 A C. Ver 2Rs 25.1. O conhecimento sobre o cerco (2) ilustra novamente o dom de clarividência sobrenaturalmente intensificado que Ezequiel possuía. O estabelecer e o anunciar essa data certamente constituiu uma confirmação pública de seu oficio profético, quando as notícias se infiltraram, numa data um pouco posterior. Põe a panela ao lume (3). Talvez Ezequiel estivesse realmente a preparar uma refeição, num caldeirão, quando veio a ele a palavra de Deus, declarando que aquilo servia de símbolo quanto ao julgamento de Jerusalém. O emprego da figura é inteiramente oposto ao uso da mesma em 11.3. Tira dela pedaço a pedaço (6). A carne não devia ser comida, mas antes, jogada fora, o que era símbolo do povo que seria espalhado. A última cláusula deste versículo deixa subentendido que a sorte foi lançada em 597 A. C., quanto aos que deveriam seguir para o cativeiro; desta vez não haveria opção. A cidade era como uma panela cuja "ferrugem" (6; isto é "derramamento de sangue"-- e não escuma, como nesta versão) não seria removida. O único recurso era virar a panela de boca para baixo, sobre o fogo, e dissolvê-la (11). Jerusalém tinha de ser destruída para poder ser purificada (12-14). A esposa de Ezequiel faleceu subitamente, dum golpe (16), ou "praga" (cf. Nm 14.37). O profeta deveria ocultar sua mágoa e não


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 42 lamentar (17). No dia seguinte ao da morte de sua esposa, ele deu prosseguimento às suas ocupações normais (18). Isso fez com que seus companheiros de exílio o interrogassem acerca do significado de tal conduta (19). É explicado, nos vv. 20-24, que Jerusalém e seu santuário eram tão prezados por eles como uma esposa por seu esposo: quando ouvissem falar em sua destruição, e na perda de seus parentes, eles, igualmente, deveriam encurvar-se em silêncio perante Deus; seria Seu justo julgamento. Deve-se ler os vv. 25-27 como se fosse uma só sentença: "no dia em que eu lhes tirar a sua fortaleza... nesse dia virá ter contigo algum que escapar... nesse dia abrir-se-á a tua boca". Um considerável lapso de tempo deveria ocorrer entre o verso 25 e o verso 26. Cf. Jr 52.5-7 com Ez 33.21. As restrições divinas ao ministério de Ezequiel cessariam quando chegasse o mensageiro vindo de Jerusalém. Ver nota sobre 3.26. PROFECIAS CONTRA NAÇÕES ESTRANGEIRAS - 25.1-32.32 As denúncias contra Jerusalém estavam terminadas. Antes de dar início às suas predições de restauração (33-48), o profeta insere este grupo de oráculos contra os inimigos de Israel (embora alguns deles pertençam a uma data posterior) para indicar que todos os poderes hostis deveriam ser quebrados antes de Israel ser reinstalada em glória.

Ezequiel 25 VII. PROFECIAS CONTRA TRIBOS CIRCUNVIZINHAS – 25.1-17 a) Amom (25.1-7) Embora, por ocasião da invasão babilônica, Amom se tenha juntado a Edom, Moabe e outros, procurando persuadir Zedequias a revoltar-se (Jr 27.1-11), por ocasião da queda de Jerusalém, os amonitas


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 43 se apossaram de cidades israelitas (Jr 49.1 e segs.). Ezequiel não faz menção dessas coisas, mas apenas da maliciosa alegria de Amom em vista da desgraça que caiu sobre Israel (3,6). Note-se que, no verso 3, o profeta fala sobre a desolação de Jerusalém como acontecimento passado. b) Moabe (25.8-11) Jeremias denunciou Moabe por causa de sua arrogância e rebeldia contra Jeová e por causa de seus insultos contra Israel (Jr 48.25 e segs.). Sofonias fala do fato de terem assaltado os judeus (Sf 2.8). Ezequiel denuncia os moabitas por terem rejeitado, zombeteiramente, a reivindicação de Israel de ser uma nação separada, em vista de suas relações com Jeová (8). c) Edom (25.12-14) Quanto à malícia de Edom contra Israel, por ocasião da queda de Jerusalém, Cf. Ez 35.10-15; Ob 10-16; Sl 137.7. d) Os filisteus (25.15-17) Não temos informação quanto ao seu comportamento para com Israel nesse período, senão a que nos é prestada nesta passagem. Os quereteus, em certo período, formavam parte da guarda pessoal de Davi (2Sm 8.18; 15.18; 20.7). Ver nota sobre Jz 3.3. VIII. PROFECIAS CONTRA TIRO - 26.1-28.26 Os fatos da situação contemporânea explicam a proeminência dada por Ezequiel para Tiro. Os babilônios estavam prestes a pôr cerco na cidade. Qual seria o resultado? "Baseados em terreno patriótico e


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 44 religioso, os judeus exilados sentiam-se envolvidos na questão. Ezequiel não duvidava que isso resultaria na queda e na extinção de Tiro (26); ele antecipa sua ruína numa magnífica lamentação fúnebre (27); e ameaça seu rei de justa retribuição (28)" (Cooke).

Ezequiel 26 a) A queda de Tiro (26.1-21) Tiro exultava no que acontecera a Jerusalém, pois ela tinha sido a porta dos povos (2). O tráfico das caravanas, vindas do norte ou do sul, eram sujeitas a impostos pelos judeus. Como se o mar fizesse subir as suas ondas (3). Tiro estava edificada numa ilha rochosa, "no coração dos mares" (27.4), uma posição que facilitava o comércio e a tornava aparentemente inexpugnável. Suas filhas que estão no campo (6) eram as cidades do continente que dela dependiam. No original, Ezequiel sempre escreve o nome do monarca babilônico (7) da maneira mais aproximada possível do original babilônico, Nabukudurri-usur, "Nebo protege minhas fronteiras". Essa descrição da campanha, nos vv. 8-12, pressupõe a ereção de um molhe que partia do continente à ilha, um procedimento provavelmente adotado por Nabucodonosor (cf. 29.18 nota), e que certamente foi seguido por Alexandre, com sucesso completo, em 332 A. C. As colunas da tua força (11) seriam aqueles associados ao culto a Melcarte, o deus de Tiro. As ilhas (15) são as costas e as ilhas do Mediterrâneo com as quais comerciava Tiro. Te farei descer com os que descem à cova (20). Tiro seria rebaixada até o Seol. Em lugar de estabelecei a glória na terra dos


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 45 viventes (20), a Septuaginta diz: "não permanecerá na terra dos vivos", o que está mais de conformidade com o contexto.

Ezequiel 27 b) Lamento sobre Tiro (27.1-36) A elegia propriamente dita (vv. 3-9,25-36) assemelha Tiro a um navio equipado luxuosamente, carregado de mercadorias, que naufragou devido a uma tempestade e que foi lamentado por aqueles que tinham investido capital nele. A seção central (9-25), que descreve o comércio de Tiro, não mantém essa imagem; porém, isso não é razão suficiente para negarmos sua autenticidade. O capítulo inteiro muito influenciou o autor do livro de Apocalipse, que aplica suas imagens ao império anticristão de seus próprios dias (Ap 18). Senir (5) era o nome amorreu para o monte Hermom (Dt 3.9). Ilhas dos quiteus (6; algumas versões dizem "quitim") originalmente queria dizer a ilha de Chipre, mas as "ilhas de quitim" passaram a representar as ilhas e costas do mar Mediterrâneo. Os lídios (Lídia?) e Pute (10) (na costa africana do mar Vermelho) são colocados juntos por causa de sua similaridade de nomes, e não por causa de alguma suposta proximidade geográfica. Os três nomes são suficientes para demonstrar que os mercenários de Tiro vinham de todos os quadrantes do mundo antigo. Os gamaditas (11) talvez viessem do norte da Síria. Társis (12) é Tartessu, um porto no sul da Espanha. Javã (13); os jônicos da Ásia Menor. Tubal e Meseque (13); situados no leste da Ásia Menor (ver 38.2 nota). Togarma (14); Armênia. Dedã (15); uma tribo árabe em Edom. Minite (17), em Jz 11.33, é uma vila dos amonitas. Com uma pequena alteração nas consoantes, consegue-se o termo "especiarias". Panague (17); talvez uma palavra emprestada do acadiano, pannigu, que é uma espécie de comida ou bolo (Cooke).


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 46 Dedã (20), associada com os árabes, não deve ser confundida com a Dedã do verso 15. Seba (22) ficava a 1.950 quilômetros ao sul de Jerusalém no sul da Arábia (cf. 1Rs 10). As cidades do verso 23 se situavam na Mesopotâmia. Nos vv. 25-27 é retomada a imagem principal do poema; o ótimo navio que é Tiro naufraga e toda a sua tripulação perece. Quanto ao vento oriental (26) cf. Sl 48.7; mas talvez seja uma alusão à Babilônia. Os vv. 29-34 descrevem a lamentação dos marinheiros em vista da perda de Tiro. Cf. Ap 18.17-19. Os moradores das ilhas (35) é frase que pode referir-se particularmente aos mercadores dentre os povos (36); cf. verso 3. Quanto às lamentações dos reis e dos negociantes, cf. Ap 18.9-17.

Ezequiel 28 c) Lamento pelo rei de Tiro (28.1-19) O príncipe de Tiro (Itobal II) é invocado aqui (2) como representante da cidade; sua auto-exaltação ao estado de divindade é típica do orgulho do povo. A posição inexpugnável da cidade, sobre uma rocha, relembra-o sobre o monte místico de Deus (14,16); assim como Deus reina supremamente ali, tão seguramente sentia-se o rei ali, entronizado no meio dos mares (2). Daniel (3); ver 14.20 nota. A morte (no original, plural intensivo) dos traspassados (8) não seria acompanhada de sepultamento. Visto que os fenícios praticavam a circuncisão, a morte dos incircuncisos (10) era algo vergonhoso, envolvendo uma posição desonrosa no Seol. Nos vv. 11-19 Ezequiel parece haver adotado para sua elegia uma história popular, presumivelmente corrente em Tiro e noutros lugares, sobre um ser primitivo que habita no Jardim de Deus em esplendor e


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 47 pureza mas que subseqüentemente foi expulso dali por causa do pecado de orgulho; assim também o rei de Tiro haveria de cair dentro em breve de sua glória. Parece que a história era uma versão altamente mitológica da história do terceiro capítulo de Gênesis; mas o profeta não hesitou em usá-la, visto que era bem conhecida e se prestava admiravelmente para seu propósito. Tua cobertura (13); isto é, "vestes"; Os deuses babilônicos eram freqüentemente vestidos em mantos ornamentados de jóias. Nove pedras preciosas são aqui enumeradas; a Septuaginta nomeia doze, idênticos às pedras das vestes do Sumo Sacerdote (Êx 28.17-20); talvez as três pedras que estão faltando tenham sido tiradas por acidente do texto hebraico. Após a lista, ler: "de ouro era a obra de teus tambores e dos teus pífaros" (Cooke). Quanto ao verso 14, a Septuaginta- diz: "com o querube... te estabeleci", e novamente, no verso 16: "o querube te destruiu", variações essas que alteram materialmente a história, mas que são geralmente adotadas pelos expositores. A moral da história é aplicada primeiramente ao rei (17) e em seguida à cidade (18). Ambos seriam levados à ruína completa. d) Profecia contra Sidom (28.20-26) Sidom haveria de compartilhar da sorte de sua vizinha. Noutros trechos as duas cidades são nomeadas juntamente (exemplo, Is 23; Jl 3.4 e segs.). Os vv. 24-26 estabelecem o tema não somente dos caps. 25-32, mas também da seção que trata sobre a restauração de Israel (caps. 34 e segs.); a destruição dos inimigos de Israel era necessária tanto para o estabelecimento de Israel no reino de Deus como para servir de demonstração, a todas as nações, quanto ao fato que só Jeová é deidade.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) IX. PROFECIAS CONTRA O EGITO 29.1-32.32

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Estes oráculos se originaram durante o período do cerco e da conquista de Jerusalém (587-585 A. C.), excetuando 29.17-21, que foi trecho escrito em 571 A. C.

Ezequiel 29 a) A queda do Egito (29.1-16) A data (verso 1) é janeiro de 587 A. C. Faraó (2) é endereçado (como o rei de Tiro no capítulo 28) como representante do gênio de seu povo. Gunkel argumenta, com considerável irrefutabilidade, que Ezequiel, no verso 3, faz Faraó usar a linguagem do caos-dragão das águas (ver a anotação de Haupt em Toy) e não simplesmente a linguagem de um crocodilo; sua sorte (4-5) é assim semelhante à do monstro na história de Tiamate; ver também 32.2-8. Com vv. 6 e 7 cf. Is 36.6. Nos vv. 8-12 é aplicada a alegoria. O Egito sofreria uma sorte semelhante à de Israel, devastação e dispersão entre as nações por quarenta anos. Leia-se o verso 10 como: "desde Migdol até Siene"; essas eram as cidades que ficavam nos extremos norte e sul do Egito. À semelhança de Israel, o Egito seria restaurado (13-16), mas não a uma posição de glória: será o mais baixo dos reinos (15). b) O salário de Nabucodonosor (29.17-21) A data (verso 17) é abril de 571 A. C. É a data mais tardia que aparece no livro e indica que esse oráculo foi adicionado como apêndice. Nabucodonosor muito se esforçou para conquistar Tiro; cabeças ficaram calvas e ombros ficaram esfolados, devido à dificílima construção de um molhe desde o continente até à cidade (18). Contudo, não houve paga da parte de Tiro (18). A cidade capitulou, mas houve bem pouco


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 49 despojo; os tírios tiveram tempo suficiente para embarcar e retirar seus valores. Jeová recompensará seu "servo" (Jr 27.6) dando-lhe os despojos do Egito. Nabucodonosor invadiu o Egito cerca de 568 A. C. Israel será restaurada uma vez mais ao poder (21). O cumprimento dessas profecias abrirá a boca do profeta em ação de graças e em renovado ministério Profético; e as críticas de seus ouvintes, por causa do cumprimento incompleto de sua profecia referente a Tiro, seriam silenciadas.

Ezequiel 30 c) O dia do Egito (30.1-26) Nos vv. 1-19 encontramos a descrição da aproximação do dia do Senhor sobre o Egito; e nos vv. 20-26 temos a eliminação do poder de Faraó por Nabucodonosor. Ah! aquele dia (2). Ver nota sobre 7.2 e cf. Jl 2.1-2; Sf 1.15. O verso 5 dá uma lista de províncias e aliados do Egito que deverão compartilhar dessa ruína. A mistura de gente ('ereb) não eram os árabes ('arabh) mas antes, estrangeiros que viviam no Egito (cf. Jr 25.20); a mesma palavra denota a "mistura de gente" em Israel (Êx 12.38) e estrangeiros na Babilônia (Jr 50.37). Em lugar de Cube, um nome desconhecido, a Septuaginta tem Lube, isto é, a Líbia. Os filhos da terra do concerto e uma nação confederada com o Egito, mas desconhecida; é improvável que signifique Israel, como a Septuaginta subentende e algumas versões encorajam. A destruição do Egito é descrita com detalhes (13-19), e cidades principais são destacadas para menção particular. Em lugar de Imagens (13; em heb. elilim), A Septuaginta lê "chefes" (em heb. elim), o que é favorecido por muitos comentadores. Áven (17; isto é, "o nada") é uma pronúncia desprezível de "On" sendo que as duas letras são pronunciadas como em hebraico. Era famosa por seu templo dedicado ao sol, donde se deriva seu nome. "Bete-Semes" (Casa do Sol) em Jr 43.13, e seu nome


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 50 em grego, Heliópolis (Cidade do Sol). Em Pibsete era adorada a deusa com cabeça de gato, Ubastete. O oráculo dos vv. 20-26, datado de abril de 587 A. C. (verso 20), se originou por ocasião da derrota de Faraó Hofra, infligida por Nabucodonosor, o que é caracterizado como o quebrar de um dos braços de Faraó, com conseqüente enfraquecimento de seu poder (21). Isso será seguido pela derrota seguinte que derrubaria completamente o monarca egípcio (22 e segs.).

Ezequiel 31 d) O grande cedro que é Faraó (31.1-18) A alegoria tem três movimentos: os vv. 2-9 são uma descrição de Faraó como representante do Egito, sob a figura de um enorme e alto cedro; os vv. 10-14 descrevem a destruição da grande árvore e os versículos 15-18 descrevem a reação a esse acontecimento, por parte do restante das nações. Tanto este como o próximo capítulo têm paralelos com Is 14.4-20. Menção sobre o abismo (4), o jardim de Deus (8) e o Éden (9,18) indicam a probabilidade de um segundo plano semelhante ao do capítulo 28 (onde ver notas). No verso 3 ler: "Eis que havia um cedro no Líbano". A letra inicial de t'asshur (cedro) caiu para produzir 'asshur, isto é, Assíria. O contexto mostra claramente que o profeta tinha Faraó em mente. Em lugar de ramos espessos (3) leia-se, acompanhando a Septuaginta, "nuvens". A linguagem figurada dos vv. 5 e 6 é freqüentemente empregada para indicar a grandeza de um reino (cf. 17.23; Dn 4.11-12; Mc 4.32). O pecado de Faraó era o orgulho (10), onde fracassa a maioria dos tiranos (cf. 28.6; Is 14.13 e segs.; Dn 11.12). A queda de Faraó devia servir de advertência para todas as nações para que não viessem a cometer a mesma falta (14).


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 51 A mais poderosa das nações (11; algumas versões dizem "o poderoso dos pagãos") isto é, Nabucodonosor. Os mais formidáveis das nações (12), seus exércitos. A imagem dos vv. 15 e 16 fotografa o efeito da queda de Faraó sobre as nações deixadas sobre a terra. Se, segundo a Septuaginta omitirmos do verso 16 a parte que diz: na terra mais baixa, então a figura pode ser levada consistentemente até o fim; as nações rivais foram consoladas pelo fato de estarem livres de domínio do Egito. Em lugar de inferno (17) ler "Seol". Faraó havia de reunir-se, no Seol, aos incircuncisos e ao traspassados em batalha (18). Visto que os egípcios observavam a circuncisão e, ainda mais que os demais povos orientais, davam grande atenção ao sepultamento, isso envolvia a pior desgraça possível- inclusão entre as camadas mais vis do mundo invisível.

Ezequiel 32 e) Lamento por causa de Faraó e do Egito (32.1-32) A primeira lamentação (1-16) trata principalmente de Faraó, a segunda (17-32) da descida da nação ao Seol, embora em ambos os poemas o pensamento passe, imperceptivelmente, do governante, para o povo. O primeiro poema divide-se, por sua vez, em duas partes; os vers. 2-10 descrevem a sorte do monstro aquático que é Faraó; e os vers. 1116 descrevem a desolação do Egito levada a efeito pelo rei da Babilônia. A data (verso 1) é o fim de fevereiro de 585 A. C., oito meses após a queda de Jerusalém. Semelhante eras (2); pode ser melhor traduzido de outra raiz mas com a mesma forma (damah), como: "estás destruído". Não há conexão entre essa referência a um filho de leão e a alegoria seguinte, serve apenas de observação introdutória. Foste como um dragão nos mares (2). A maioria dos comentadores acredita que isso se refere simplesmente ao crocodilo,


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 52 como também em 29.3-5. Mais provável é que seja um eco da alegoria do monstro-caos, que relatava como o monstro Tiamate, personificação das águas, lutou contra o céu e foi destruído por Marduque. De seu corpo foi feita a criação material, mas uma parte dele foi reservada como alimento para o homem (II Baruque 29.4). A história é aplicada para quaisquer povos tiranos (exemplo, Is 27.1; Dn 7), mas especialmente para o Egito (Is 30.7; 51.9-10), assim mostrando tanto seu mau caráter como sua destruição certa. Seu uso aqui explica a linguagem extraordinária dos vv. 4-8. O profeta, em seguida, passa do julgamento do rei (11-12) para o julgamento da nação (12-15); a linguagem alegórica parece ser mantida nos vv. 13 e 14, e as águas agitadas se acalmam e novamente se tornam límpidas; que nem homem nem animal os perturba ainda é um sinal de desolação. O mês do verso 17 presumivelmente é o mesmo do versículo primeiro, sendo que a palavra veio catorze dias mais tarde. Nos versículos que se seguem o profeta pinta o Egito a partir para a terra dos finados, conseqüência de sua destruição. O Egito é obrigado a fazer isso por ordem do profeta (19-20). Ali os egípcios encontrarão os exércitos das grandes nações do passado, Assíria. Elá, Meseque e Tubal (22-27), juntamente com as nações hostis do presente, Edom, os príncipes do norte (isto é, as terras fronteiriças com a Fenícia) e Sidom, todas as quais, evidentemente, seriam destruídas (29-30). Quando o Egito perecer devido ao julgamento de Deus, então Faraó pelo menos terá o frio consolo de saber que o seu não foi o único império que foi lançado na sepultura (31)! A RESTAURAÇÃO DE ISRAEL - 33.1-48.35

Ezequiel 33 X. A RESPONSABILIDADE DO PROFETA E DO POVO - 33.1-20


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 53 A interpretação desta passagem depende de seu verdadeiro contexto. Se, como muitos sustentam, os vv. 21 e 22 podem determinar o capítulo inteiro, então esta seção se relaciona ao julgamento de Deus contra os pecadores, antes do restabelecimento de Israel no reino glorioso. "Morrer" é partir desta vida antes da restauração; "viver" é desfrutar dos privilégios do reino. Quanto a esse texto, 20.33-42 forma um excelente paralelo. Se, entretanto, os vv. 2 e segs., 10 e 20 implicam os últimos estágios desesperados do cerco de Jerusalém, e o conseqüente desespero da nação, então este capítulo constitui uma advertência final ao povo. Talvez a última seja a alternativa preferível. A parábola dos vv. 1-6 se baseia no costume de estabelecer um vigia sobre o muro da cidade, em ocasiões de perigo, a fim de vigiar a aproximação do inimigo. A terrível responsabilidade da posição do atalaia é o que está principalmente em mente aqui. Com o verso 6 cf. Gn 9.5. Com seriedade semelhante Ezequiel devia cuidar de seu ofício naquela crítica conjuntura que a nação atravessava (7-9). Estes versículos se repelem em 3.17-19, sobre os quais ver notas. Assim como o atalaia tinha a responsabilidade de fazer soar o alarma, assim também o povo tinha o dever de atender ao alarma. O verso 10 subentende tanto a admissão da justiça das desgraças que tinham caído sobre a nação como a atitude de desespero. Ezequiel os conclamou para a renovação da fé e da esperança, frisando a graça de Deus (11), a importância do estado presente do indivíduo e não sua vida passada (12-19) e a possibilidade de arrependimento e perdão imediatos (11,14-16,19). XI. O PONTO CENTRAL DO MINISTÉRIO DE EZEQUIEL - 33.21-33 Chegara o dia pelo qual Ezequiel havia esperado por sete anos! De agora em diante ele estava livre para devotar-se ao ministério de edificação em lugar de destruição, e assim desenvolveu a mensagem que


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 54 anteriormente apenas havia indicado (ver, por exemplo, 16.60 e segs.; 17.22 e segs.; 20.33 e segs.). A data (verso 21) provavelmente se baseia sobre a maneira babilônica de contar os anos, começando pela primavera; em Jr 39.2 o ano é contado começando-se pelo outono; pelo que, julho de 586 A. C., a data da queda da cidade, é o décimo primeiro ano do cativeiro, segundo a contagem de Jeremias, o décimo segundo, segundo a contagem de Ezequiel. As notícias sobre a captura da cidade, dessa maneira, chegaram aos ouvidos de Ezequiel seis meses mais tarde. Quanto à mudez de Ezequiel, ver notas sobre 3.26. Os vv. 23-29 contêm uma mensagem de julgamento contra os judeus deixados em sua pátria. Quanto a uma situação similar, cf. 11.14 e segs. Os vv. 30-33 nos fornecem uma idéia sobre a popularidade de que desfrutava o profeta, sem dúvida intensificada pelo cumprimento de sua mensagem. Porém, o entusiasmo do povo era superficial; a palavra do profeta não era obedecida por eles. No verso 31, em lugar de lisonjeiam com a sua boca, a Septuaginta diz: "mentiras estão em suas bocas". Ezequiel se assemelhava ao caso de uma das canções de amor que se deliciavam em ouvir (32); mas, provavelmente, devemos compreender que ele era como um daqueles cantores, e não a própria canção. Quando vier isto (33); isto é, quando aquilo se cumprisse, então perceberiam a verdade pessoal de suas palavras. A referência, aqui não é ao julgamento mas à redenção e às condições de seu usufruto, que é o tema que daqui por diante domina sua pregação. XII. VOLTA DE ISRAEL À SUA PRÓPRIA PÁTRIA 34.1-37.28

Ezequiel 34 a) Ovelhas indefesas e pastores infiéis (34.1-31) A alegoria, aparentemente um desenvolvimento de Jr 23.1-4, se divide em duas seções: os rapazes governantes de Israel, que deveriam


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 55 arcar com a responsabilidade de assaltarem o povo (1-16); e as relações pelas quais Deus tratava com a própria nação (17-31). Os pastores (2), conforme fica claro pelo fim do verso 4 eram os governantes de Israel, especialmente aqueles que ultimamente haviam governado a nação. Quanto à figura cf. Sl 78.70 e segs.; Is 44.28; 63.11; Jr 2.8; Zc 11; 13.7. Minhas ovelhas andam espalhadas (6), minhas ovelhas vieram a servir de pasto (8). Uma descrição simbólica da opressão contra Israel (por poderes tais como a Assíria, o Egito, a Babilônia) e da dispersão após a queda de Jerusalém. Cf. 1Rs 22.17 e Mt 9.36 com o verso 5. As farei vir... e as trarei à sua terra (13). Os exilados seriam trazidos de volta de todas as terras para onde foram espalhados (incluindo o Egito, a Fenícia e a Arábia, como também a Babilônia) e seriam estabelecidos debaixo do governo de Jeová. A ternura de Ezequiel, por tanto tempo oculta em suas profecias, pode ser vista muito claramente nesta descrição sobre o beneficente governo de Deus como o Pastor de Seu povo (14-16); Cf. Lc 15.3-7; Jo 10; Hb 13.20; 1Pe 2.25; Ap 7.17. No verso 17 a figura é alterada. O profeta deixa de lado o rei e se revolta para os oficiais menos categorizados, os quais, não obstante, tiranizavam seus compatriotas. Este versículo talvez tenha sugerido, a nosso Senhor, Sua parábola sobre as ovelhas e os bodes (Mt 25.31 e segs.). O ensino da passagem inteira nos faz lembrar de 20.37-38; a restauração está mesclada com o julgamento. Levantarei (23); cf. 2Sm 7.12; Am 9.11. Um só pastor (23) implica em um rebanho (não dois como anteriormente); ver 37.24 e cf. Jo 10.16. Ele será outro Davi (24) por meio de quem Deus governa; cf. 37.25; 46.1-18. Note-se que seu aparecimento é conseqüência da salvação realizada por Deus. Essa salvação é conseguida pelo Messias -uma doutrina distintivamente do Novo Testamento -- o que é previsto somente na última porção de Isaías.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 56 O conceito de paz (25) é entre a terra e o povo, e está ligada à remoção da besta ruim da terra, que surgiria no período do exílio; cf. Lv 25.4-6 e um pacto semelhante em Os 2.18. Somente então seria seguro para um homem dormir nos bosques (25). Uma plantação de renome (29); a palavra é um coletivo singular, subentendendo plantações tão frutíferas a ponto de se tornarem famosas. Juntamente com a Septuaginta e com a versão latina, omitir homens, no verso 31, e ler: "Vós sois minhas ovelhas... e eu, vosso Deus"; cf. Ap 21.3.

Ezequiel 35 b) A extirpação de Edom (35.1-15) A inserção deste oráculo de condenação em profecias de restauração é explicada pela tentativa que Edom fez de ocupar Israel e Judá (10). Visto que a restauração de Israel depende de sua volta à terra, Edom precisava primeiramente ser vencido; tal julgamento era exigido por causa da crueldade (5-6) e da blasfêmia (10-13) desse antigo adversário de Israel. Monte de Seir (2) é, propriamente falando, a serra montanhosa ao sul do Mar Morto; mas também denota o país dos edomitas. A inimizade perpétua de Edom (5) para com Israel recua até às origens das duas nações (Gn 27.41). Edom havia evidentemente ajudado os babilônios na matança de 581 A. C., caracterizada como "tempo de extrema iniqüidade" (5; cf. 21.25,29). Edom reivindicava o território de Judá e Israel como sua própria possessão (10). Porém, visto que tal território era considerado herança de Jeová ("a terra do Senhor", Os 9.3) e que seria novamente tomada por Ele (48.35), a reivindicação de Edom não passava de blasfêmia (12) aos olhos do profeta; cf. os vv. 12-13; Ob 12. O verso 14 indica que Edom não terá parte no reino de Deus.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia)

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Ezequiel 36 c) Restauração e regeneração (36.1-38) A recuperação externa de Israel é tratada nos vv. 1-15, e sua renovação interna é tratada nos vv. 16-38. Tal como em 6.1-7, os montes (1) significam o próprio país, pois são sua mais proeminente característica geográfica. Mas, enquanto que no capítulo 6 os "montes" foram denunciados, aqui são consolados com promessas de bênçãos. O inimigo (2) zombeteiro denota os estados vassalos, que bordejavam as fronteiras de Israel (ver capítulo 25), mas a referência especial é à Edom, cujo ódio é o assunto do capítulo 35. O zelo de Jeová (5) se acende pelo fato das nações se terem apossado de Sua terra e terem zombado de seu povo. O mesmo zelo que absolveu Israel (23.25) traz agora julgamento contra aquelas nações e conduz Israel a uma gloriosa reinstalação (39.25). O fim do exílio estava prestes a vir (8). Essa é a concepção profética normal no tocante à redenção do fim dos tempos, tanto no Antigo Testamento como em o Novo Testamento (cf. Habã 2.3; Rm 13.12; 1Pe 4.7; Ap 1.3; 22.10). Toda a casa de Israel (10) desfrutará de restituição, e não uma tribo apenas (cf. 37.15 e segs.). Nunca mais os desfilhará (12); isto é, pelos quatro duros julgamentos; ver 15.21. O nome de Israel estava ligado ao nome de Jeová (21-22); a condição deles, portanto, refletia sobre a honra de seu Deus. As nações julgavam que a desgraça de Israel era devida à impotência de Jeová (20); mas a restauração à bênção, na própria terra de Israel, faria com que todos vissem que o governo de Jeová se caracterizava pela santidade, e não pela fraqueza, e assim Seu nome seria reverenciado por todos (23). A concepção faz parte integral do pensamento de Ezequiel e tem caráter moral no mais elevado grau. A purificação de pecados, embora descrita na linguagem do cerimonial (5), é simbólica da renovação moral; cf. Zc 13.1.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 58 O coração novo e o espírito novo (26) são praticamente sinônimos, operações ocasionadas pelo dom do Espírito de Deus; não devemos imaginar que se trate simplesmente da inspiração de uma nova disposição, pois se trata de um dom sobrenatural. A concessão do Espírito Santo é freqüentemente associada, pelos profetas, com a vinda da nova era (cf. 39.29; Is 44.3; 59.21; Jl 2.28-29; At 2.16 e segs.). A passagem é o paralelo de Ezequiel sobre o "concerto novo" de Jeremias (Jr 31.31 e segs.). Multiplicarei o fruto... (30). A fertilidade sobrenatural da terra é um sinal do reino de Deus; cf. o verso 35; ver também 47.1-12; Is 35.12; 55.13; Zc 8.12. A população também aumentará (38), pelo que as cidades seriam tão apinhadas de gente como as ruas de Jerusalém costumavam ficar quando os sacrifícios de animais atraíam as multidões por ocasião dos grandes festivais.

Ezequiel 37 d) Restauração e reunião de Israel (37.1-28) Ezequiel prediz o reavivamento político de sua nação (vv. 1-14) e a reunião de suas duas divisões (vv. 15-28). Quer o profeta tenha visto no verso 1 o vale (ou "planície") em visão, ou quer tenha sido impelido pelo Espírito para ir até àquele lugar e ali receber a visão (como em 3.22), não é claro. Os ossos secos (2) indicam um exército morto em batalha. Para os desanimados de Israel, a nação parecia estar em estado semelhante. Tanto a pergunta como a resposta do verso 3 refletem o estado da desesperadora situação (cf. verso 11; 33.10); nada senão um estupendo ato de Deus poderia efetuar uma restauração. No verso 9 a mesma palavra hebraica, ruach, significa ao mesmo tempo ventos, e "espírito". A frase, quatro ventos (9), é uma expressão idiomática acadiana que significa os quatro quadrantes da terra (ver Cooke, I. C. C., pág. 400). O hálito de Deus não veio dos ventos, no sentido de identidade com eles, mas veio das extremidades da terra.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 59 Deve-se traduzir, portanto: "Profetiza ao sopro, profetiza... e diz ao sopro... Vem dos quatro quadrantes, ó sopro, e sopra sobre esses mortos". Cf. o grego pneuma e a ambigüidade em Jo 3.8 que disso se origina. A interpretação da visão altera a figura por considerar os israelitas como sepultados em tumbas (12), em lugar de considerá-los espalhados pelo terreno. Essa é uma predição sobre a reintegração da vida política de Israel, e não de alguma ressurreição literal dos mortos. Alguns expositores anseiam por salientar que a doutrina da ressurreição era desconhecida então em Israel. É pertinente perguntar, entretanto, se é mais provável que o dogma da ressurreição se originou dessa passagem, como muitos acreditam, ou se a passagem não é antes uma aplicação da idéia da ressurreição, com a qual Ezequiel já estava familiarizado. Parece extraordinário, em vista do ensino posterior sobre a ressurreição, que um profeta tenha criado tal figura sem qualquer conhecimento sobre a doutrina. A probabilidade parece indicar que temos aqui um uso figurado de uma concepção que já era corrente em seus círculos. Nos vv. 15-28, Ezequiel introduz um símbolo. Dois pedaços de madeira, representando os reinos hebreus do norte do sul (José e Judá são, respectivamente, suas principais tribos), são reunidos a fim de formar um só pedaço, simbolizando a unidade da nação por ocasião do retorno à pátria. Naquele tempo a casa de Davi reinará sobre a nação unida, para sempre (22,24-25; ver notas sobre 33.23-24). Algumas vezes é salientado que isso nunca aconteceu na história de Israel de após o exílio; porém, o profeta está olhando para nada menos que o advento do reino messiânico, quando o tabernáculo de Deus estiver entre Seu povo (27; ver Ap 21.3). Naquela ocasião a nação reconhecerá o poder de Jeová mediante a redenção do povo, por Ele efetuada (28).


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) XIII. PROFECIA CONTRA GOGUE - 38.1-39.29

60

Estes dois capítulos são sem paralelo na profecia do Antigo Testamento, visto que descrevem um levante de poderes estrangeiros, contra o povo de Deus, após o início do reino messiânico. O profeta já havia predito a bênção vindoura de Israel (33-37); agora fotografa a nação como se há muito ela estivesse estabelecida em sua própria terra e transformada numa próspera comunidade (38.8,11-12,14), uma condição que, de conformidade com seu ensinamento anterior, envolve arrependimento, regeneração e reavivamento político antes disso (3337). Enquanto que o profeta disse que a restauração de Israel estava "prestes a vir" (36.8), agora ele diz que Gogue se reunirá depois de muitos dias... no fim dos anos (38.8). O motivo que sublinhava essa profecia era a necessidade que havia de que os poderes gentios hostis fossem destruídos, em cumprimento de profecias anteriores (38.17; 39.8), e também de que as nações do mundo aprendessem a respeito do poder, santidade e deidade única de Jeová (ver nota sobre 39.7). O autor do livro de Apocalipse empregou ambos estes capítulos para dar vivacidade a sua descrição sobre Armagedom, antes do milênio (Ap 19.17-18), e adaptou a idéia essencial dos mesmos para descrever a rebelião final dos ímpios dentre a humanidade, no fim do milênio, antes da nova criação (20.7-9). Comparando-se os dois escritos, devemo-nos relembrar que Ezequiel nada sabia sobre uma nova criação, e nem que uma nova Israel haveria de herdar o reino; se João quis incorporar a profecia, teve necessidade de alterar sua forma. De conformidade com seu uso da profecia do Antigo Testamento em geral, o apóstolo não hesitou em fazê-lo.

Ezequiel 38 Gogue (2); talvez derivado de "Gagaia", terra de bárbaros, mencionada nas cartas de Amarna. E o nome de seu líder. Magogue é tanto sua terra (como aqui) como o povo (39.6). Em Ap 20.8, Gogue e


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 61 Magogue representam, simbolicamente, as nações ímpias do mundo inteiro. Meseque e Tubal (2) são sempre nomeados juntos, tanto nos escritos seculares como nos escritos bíblicos, (ver, por exemplo, Gn 10.2; Ez 27.13; 32.26). Portanto, o texto desta e de outras versões, príncipe e chefe de Meseque e de Tubal, é preferível ao da Septuaginta e outras versões, que dizem: "príncipe de Ros (Rússia?), Meseque e Tubal". Meseque e tubal ficavam, provavelmente, a leste da Ásia Menor e usualmente são identificados com a Frígia e a Capadócia; o fato de alguns os considerarem sinônimos de Moscou e Tobolsk, e de Ros ser equiparado com a Rússia, é indefensável. Pute (5) é a África Oriental. Gomer (6) é ligado com Magogue, em Gn 10.2. Eram chamados Gimirrai pelos assírios e Cimérios pelos gregos. Vindos do norte do mar Negro, pelo tempo de Ezequiel se haviam estabelecido na Ásia Menor. Seu nome sobrevive em Gamir, o nome armênio da Capadócia. Togarma (6), no nordeste da Ásia Menor, é a Armênia. Do ponto de vista de Ezequiel parecia-lhe ficar "da banda do norte" (6), como também, para o autor de Salmos de Salomão, Roma era considerada a "parte extrema da terra" (Sl 8.16). Depois de muitos dias (8); a invasão não deverá ocorrer senão depois de muito tempo. Cf. Is 24.22. No fim dos anos (8) indica o período do reino (cf. Is 2.2). Israel, há muito estabelecido pacificamente em sua própria terra, não teme ataque, e assim habita em aldeias não muradas... sem muros... onde não há... ferrolho nem portas (11; cf. Zc 2.4). Comerciantes e escravos pela face da terra inteira se interessam pelo resultado da campanha (13). A destruição de Gogue será efetuada por terremoto (19-20), lutas intestinas (21) e pragas semelhantes às do livro de Êxodo contra o Egito (22-23); presume-se que Israel atravessará em segurança por todas essas calamidades, como da vez anterior. A referência a profetas passados, no verso 17, deve ter em mente passagens tais como Sf 3.8; Jr 3.6; e talvez,


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 62 visto que os profetas falaram nos tempos antigos, a referência também diga respeito a profecias conhecidas de Ezequiel, mas que desde então pereceram.

Ezequiel 39 Os vv. 1-20 do capítulo 39 cobrem o mesmo terreno que 38.24,14-23 (ver especialmente o início dos dois capítulos). A repetição serve para salientar a maravilhosa natureza dessa libertação; o número de armas queimadas pelos israelitas, e o longo período de tempo necessário para enterrar os cadáveres mostra a imensidade dos exércitos de Gogue, enquanto que a festa dos pássaros e feras frisa quão completa será a vitória. Tanto Israel como as nações aprenderão acerca da grandeza de Jeová mediante esse julgamento (7). Esse é um tema freqüentemente repetido da profecia (cf. 38.16,23; 39.13,21-23,25-29). O sepultamento de Gogue e suas hostes terá lugar em um vale a leste do mar Morto (11-16); estritamente falando, isso será fora das fronteiras de Israel, no reino de Deus (47.18), mas será em local suficientemente próximo para servir de memorial de honra para a nação vitoriosa. A remoção de todos os traços de cadáveres é medida necessária para a completa purificação da terra (cf. Nm 35.33-34; Lv 5.2). O quadro sobre a festa de Jeová (nos vv. 17-20) serve para sublinhar a terrível destruição de Gogue e seus exércitos. Inclui uma mudança de figura, corpos não podem ser ao mesmo tempo comidos e sepultados; porém, a inconsistência é superficial, e, de qualquer modo desaparece à luz dos vv. 14 e 15, pelo que é muito inseguro sugerir-se que o quadro foi originado por outra pessoa e que se relaciona à época dos persas ou dos gregos. Os vv. 21 e 22 salientam a suprema lição que deverá ser aprendida por Israel e pelas nações. O cativeiro de Israel e a destruição de Gogue, igualmente, revelam a santidade de Deus e a Sua infalível graça para com Seu povo.


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 63 Os vv. 25-29 formam um sumário de conclusão no que tange às profecias de Ezequiel sobre a restauração: Deus certamente porá em obras a Sua palavra referente a Israel, e tornará Seu nome glorioso em toda a terra. XIV. O TEMPLO E O POVO NO REINO DE DEUS - 40.1-48. 35

Os capítulos finais dos escritos de Ezequiel formam um estranho contraste com a furiosa oratória das profecias anteriores. Em realidade, formam o complemento essencial dos julgamentos que ele havia enunciado. Ezequiel era ao mesmo tempo sacerdote e profeta. Sua alegre tarefa foi contrabalançar as profecias sobre a ruína do templo, a partida de Jeová, e a dispersão da nação, com uma detalhada predição sobre a reconstrução do templo, a volta de Jeová ao Seu povo, e a reorganização da vida nacional. Não era suficiente declarar que a nação haveria de retornar e erigir outro templo; era necessário instruir sobre como edificálo. Para assegurar a santidade do templo, do povo e da adoração igualmente, foram prestadas instruções minuciosas pelo profeta, instruções essas que são fruto de prolongada visão e meditação. Se a leitura dessas instruções nos parece enfadonha, precisamos lembrar que, para a mente judaica, era impossível dedicar planejamento e pensamento demasiados ao lugar cujo nome é "O Senhor está ali" (48.35). Tal foi o espírito com o qual foram escritos esses capítulos. É preciso pouco esforço de imaginação para perceber que, entre os companheiros de exílio de Ezequiel, isso excitaria tanto interesse e discussão como qualquer das outras coisas que ele já havia editado. Precisamos adicionar uma observação concernente à interpretação desses capítulos. Dificilmente será necessário dizer que Ezequiel apresentou aqui planos que ele esperava serem realizados mais tarde. Transformá-los deliberadamente numa descrição simbólica sobre a adoração na Igreja Cristã nem deve entrar em cogitação. A visão também não teve o propósito de ser entendida como algo que seria cumprido em


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 64 condições normais, conforme mostra o capítulo 47; mas era um plano para ser levado a efeito na era do reino de Deus. Alguns expositores, de conformidade com isso, esperam a reconstrução do templo por ocasião da segunda vinda de Cristo e um cumprimento exato de todas as predições de Ezequiel por ocasião do reino de Cristo. Esse ponto de vista é desafiado por certos princípios fundamentais do Novo Testamento. 1. A expiação de nosso Senhor anulou todos os sacrifícios para sempre (Hb 10.18). 2. Os herdeiros do reino não são mais a nação judaica, mas a Igreja, a nova Israel, na qual a antiga Israel pode encontrar seu verdadeiro lugar (Mt 21.43; 1Pe 2.9-10). 3. João, no Apocalipse, adapta esses capítulos para descrever a Igreja no reino de Deus (Ap 21.1-22.5) e remove deles todos os traços de judaísmo. Falar sobre um "duplo cumprimento" para todas essas coisas ao mesmo tempo, pelo que haveria dois Israéis a reinar no reino, duas Novas Jerusaléns, etc., dois governantes da semente de Davi, um Soberano terreno e outro celestial, e assim por diante, é exigir credenciais para o incrível. A conclusão da profecia de Ezequiel, por conseguinte, deve ser considerada como uma verdadeira predição sobre o reino de Deus, dada sob as formas com as quais o profeta estava familiarizado, a saber, as formas de sua própria dispensação (judaica). A verdade essencial dessas predições serão incorporadas na nova era sob formas próprias da nova dispensação (cristã). Como isso será realizado e esboçado para nós no livro de Apocalipse (21.1-22.5). a) O plano do novo templo (40.1-42.20) É impossível, nos limites deste comentário, tentar dar uma exposição completa da descrição de Ezequiel sobre o templo futuro. Isso deve ser deixado aos trabalhos mais volumosos. A leitura de seus planos


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 65 será grandemente facilitada se cada parágrafo for comparado aos desenhos inclusos.

Ezequiel 40 Ezequiel foi transportado em visão para o monte Sião, onde seu anjo guia o saudou (40.1-4). A primeira coisa que lhe feriu os olhos foi o muro que rodeava os limites do templo (5; ver diagrama n.º 1). Passando por uma grande entrada, no lado oriental, construída em estilo semelhante a muitas entradas que ele tinha visto em templos da Babilônia (6-16; ver diagrama n.º 2), ele chegou ao átrio exterior ao redor do qual havia um pavimento e trinta câmaras separadas, para serem usados pelo povo durante as ocasiões festivas (17-19). No lado do norte e do sul havia entradas semelhantes àquela pela qual ele havia entrado (20-26). Nas quatro esquinas havia cozinhas para o povo (marcadas "K"), mas essas não são descritas senão em 46.21-24. Ele atravessou outra grande entrada e entrou no átrio interior, que ficava num nível pouco mais elevado (notar as referências a degraus, nos vv. 26,31 e 34), e contemplou os arranjos feitos para a preparação de sacrifícios, bem como certas câmaras para uso exclusivo dos sacerdotes (28-47). Havia também portarias ao sul (28-31) e ao norte (35-37). O próprio templo é então descrito: primeiramente o pórtico (48-49).

Ezequiel 41 E então a nave ou "templo" (41.1-2) e então o "santo lugar" (3-4). Ver diagramas n.º 1 e n.º 3. Rodeando o templo, pelos lados do norte, do oeste e do sul, havia câmaras com três pavimentos, trinta salas em cada andar, presumivelmente para serem usadas para guarda de utensílios, etc., necessários para o serviço do templo (5-11). A oeste do templo ficava um edifício separado (marcado "B"), cujo propósito não é mencionado mas que talvez servisse como depósito (12). As medidas totais do templo e suas circunvizinhanças imediatas são então supridas (13-17), e uma descrição sobre o interior do templo se segue, nos versos


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 66 18-26. Quanto ao lugar vazio (11) ver diagrama n.º 3; e quanto ao lugar separado (12-14) ver diagrama n.º 1 "S.P.".

Ezequiel 42 Ao norte do templo, no átrio interior, havia dois blocos de edifícios com três pavimentos, um deles com duas vezes o comprimento do outro. O maior servia para ser usado pelos sacerdotes para comerem os sacrifícios (42.13), e o menor servia como vestuários (14). Edificações semelhantes se encontravam no lado sul do templo (42.1-14; ver diagrama n.º 1, "Câmaras dos Sacerdotes"). Em seguida a essas havia Cozinhas dos Sacerdotes (marcas P. K.), porém estas não são descritas senão em 46.19-20. O quadrado dos limites do templo tinha 500 cúbitos de lado (15-20, se lermos, com a Septuaginta, "cúbitos" em lugar de canas).

Ezequiel 43 b) Jeová retorna ao templo (43.1-12) Como feliz conclusão dessa pesquisa no templo, Ezequiel viu Jeová a retornar no Seu resplendor, pela porta que anteriormente Ele havia saído (10.19 e segs.; 11.23), para dali por diante nunca mais abandoná-lo (7). Ao profeta é então dito que, no futuro, a prática vergonhosa de colocar os sepulcros de reis israelitas próximos do santuário deveria cessar (7). Enquanto que no passado o palácio real era contíguo ao templo, separado dele apenas por um muro (8), aqui, o monte de Sião inteiro seria "santíssimo" (12). c) O altar (43.13-27) O altar é descrito nos vv. 13-17, e o procedimento para sua consagração, nos vv. 18-27. O sumário de Toy sobre essa descrição a respeito do altar esclarece admiravelmente seus pontos obscuros: "inclui


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 67 ele uma base com vinte e sete pés quadrados e dezoito polegadas de altura, com uma cornija com cerca de nove polegadas de largura; sobre isso está posto um quadrado de vinte e quatro pés, com três pés de altura; sobre esse um quadrado de vinte e um pés, e seis pés de altura; e sobre esse a lareira, com dezoito pés quadrados e seis pés de altura, sobre a qual era colocada a vítima; nas quatro extremidades estão os chifres, com dezoito polegadas de altura, originalmente, talvez projeções nas quais eram amarradas as vítimas". Essa tradução de medidas hebraicas para medidas inglesas, feita por Toy, obscurece o fato, entretanto, que evidentemente eram medidas simbólicas: Cooke salienta o fato que o altar-lareira do cimo tinha doze cúbitos quadrados, e que a altura, incluindo os chifres, também era de doze cúbitos.

Ezequiel 44 d) Levitas e sacerdotes (44.1-31) Após o parágrafo introdutório, concernente ao cerramento permanente da porta externa para o oriente, (1-4), é discutido o tópico principal do capítulo, a saber, a posição e os ofícios das duas principais classes de sacerdotes. Anteriormente o trabalho braçal do santuário era feito por estranhos, provavelmente prisioneiros de guerra (cf. Ed 8.20; Zc 14.21). Isso, declara Ezequiel, constituía uma ofensa a Deus e precisava cessar (6-9). Os estrangeiros seriam substituídos pelos sacerdotes anteriores dos santuários do país, os "levitas" que muito tinham sido responsáveis pelo declínio religioso de Israel (10-14). Esse procedimento resolveria de imediato o problema sobre como evitar o trabalho estrangeiro e pronunciava um julgamento contra a conduta dos levitas, pois até ali tinham sido excluídos das funções sacerdotais mais elevadas. Os sacerdotes levitas eram da linhagem de Zadoque (15), que foi feito sacerdote principal por Salomão, quando Abiatar e sua família foram excluídos do oficio sacerdotal (1Rs 2.26-27,35). Haviam


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 68 continuado a ministrar no templo de Jerusalém daquele tempo em diante e, a despeito de suas aberrações (cf. capítulo 8), eram reputados como os perpetuadores da verdadeira adoração a Jeová. Suas obrigações e deveres são esboçados nos vv. 15-27, e seus direitos de sustento, nos vv. 28-31. Quanto aos problemas envolvidos na aquilatação das relações entre Ezequiel, Deuteronômio, e o "Código Sacerdotal", consultem-se os comentários mais volumosos. Ver também The New Bible Handbook, de G. T. Manley, págs. 229, 230, e A Short Introduction to the Pentateuch, capítulo X, de G. C. Aalders. e) Oblações e ofertas (45.1-46.24)

Ezequiel 45 Uma oferta da terra deveria ser oferecida a Jeová (1), composta de um território com cerca de 29 quilômetros quadrados. Dessa terra, uma faixa com dois quintos de seu comprimento pertencia aos sacerdotes, e no centro dessa faixa ficava o templo (1-4); uma outra faixa, mais ao norte, e das mesmas proporções, era para os levitas (5), e o quinto restante, ao sul, fora designado para a cidade (6). A leste e a oeste desse quadrado, estendendo-se para o Jordão e para o Mediterrâneo respectivamente, ficava o território do príncipe (7-8). O esquema inteiro parece que tinha o propósito de salvaguardar a santidade do templo, tornando-o, verdadeiramente, um "santíssimo". Uma advertência ao príncipe e seus filhos, para que não oprimam o povo como seus antepassados haviam feito (cf. 1Sm 26.19; 1Rs 21.19) é seguida por uma declaração sobre os padrões corretos de pesos e medidas (10-12), uma fonte de perpétua dificuldade, tanto naqueles como em tempos comparativamente modernos. Os vv. 13-17 esboçam os impostos que deveriam ser pagos ao príncipe para que fossem providos os sacrifícios regulares. Duas festividades anuais deveriam ser observadas, a Páscoa, no primeiro mês (21-24) e a festa da colheita ou dos tabernáculos, no sétimo mês (25). Uma espécie de dia de expiação deveria anteceder cada


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 69 uma dessas festividades (18-20). No verso 20 deve ser seguida a citação tirada da Septuaginta e aproveitada por algumas versões: "assim farás no sétimo mês, no primeiro dia do mês".

Ezequiel 46 O sábado, a lua nova e as ofertas diárias são detalhadas em 46.1-18, juntamente com os privilégios e obrigações do príncipe. Apesar de que o príncipe, como o restante da população, não tinha permissão de entrar no átrio interior, podia, entretanto, tomar posição no vestíbulo da porta interna do oriente (isto é, a extremidade ocidental da porta dando frente para o átrio interior) a fim de observar mais de perto os sacrifícios (1-2). Ele deveria fazer as ofertas determinadas cada sábado (4-5), e cada lua nova (6-7). No verso 8 é novamente frisado que ele não devia entrar no átrio interior. Quando o templo estivesse repleto, por ocasião das festas, os adoradores deveriam passar pelos átrios, do templo de porta em porta, não saindo pelo mesmo portão por onde haviam entrado (9); isso se aplicava até mesmo ao príncipe (10). O mandato a respeito do príncipe legar sua propriedade (16-18) parece ser uma limitação a seus poderes, tanto para assegurar que seu território permanecerá na posse da família real como para impedir que ele se apossasse das terras do povo comum (cf. 45.9n.). O ano da liberdade (17) mais provavelmente era o qüinquagésimo ano, o ano de jubileu (Lv 25.13-15), e não o sétimo ano ou ano sabático (Êx 23.10-11; cf. Ez 21.2). São em seguida descritas as cozinhas para uso dos sacerdotes (1920) e do povo (21-24), as primeiras estando situadas no noroeste e no sudoeste do átrio interior (marcadas "P.K." no diagrama n.º 1, pág. 813), adjacentes aos edifícios de três pavimentos que corriam paralelos ao templo (43.1-14); e as últimas estando situadas nas quatro esquinas do átrio externo (marcadas "C" no diagrama n.º 1). As cozinhas para o povo são chamadas também de átrios (22-23); eram compostas de "uma parede baixa" rodeando cada uma dessas esquinas; no chão, abaixo e


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 70 dentro dessas paredes, havia recessos para as lareiras ou cozinhas, onde eram preparadas as "refeições" (Cooke). Este parágrafo inteiro se adaptaria muito melhor após 42.20, e é possível que tenha sido deslocado de sua posição.

Ezequiel 47 f) O rio da vida (47.1-12) O profeta viu um rio a emergir de debaixo da porta do templo e a correr para o leste (1), deixando a área do templo justamente abaixo da porta oriental. (Note-se que Ezequiel teve de fazer um atalho para atingir aquele local; ver 44.1-2). Passando ao longo de suas margens, ele traçou seu curso até que, deixando de ser um mero filete de água (3), ele se tornou um rio profundo (5). Naquele terreno, anteriormente desértico, havia abundância de árvores de cada margem do rio (7), que produziam um ciclo perpétuo de frutos e folhas com propriedades curativas (12). A água do rio era notável, tornando doces até mesmo as águas do mar Morto, e permitindo a multiplicação de peixes por onde quer que fluísse (8-10), um particular que indubitavelmente faz referência ao fato que os peixes levados pelo Jordão abaixo, até o mar Morto, são lançados mortos nas praias deste. A descrição deve ser entendida literalmente, mas é possível, igualmente, que sua intenção tenha sido mostrar que a fonte da bênção à nação, na Nova Era, não será outra senão o próprio Jeová em Seu santuário. Muitas outras lições podem ser aprendidas pelo crente cristão, visto que o apóstolo João, no Apocalipse do Novo Testamento, empregou, caracteristicamente, suas figuras, a fim de retratar as bênçãos espirituais da Igreja na era da consumação (Ap 22.2). g) Fronteiras e disposições da terra (47.13-48.35) A fronteira norte corria desde o mar Mediterrâneo, justamente ao norte de Tiro, até um ponto próximo de Damasco (15-17); a fronteira


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 71 oriental era formada pelo rio Jordão e pelo mar Morto (18); a fronteira sul desde um ponto pouco abaixo do mar Morto até à boca do chamado rio do Egito (19; não se trata do rio Nilo; consulte-se um mapa bíblico e veja-se abaixo); a fronteira ocidental era formada pelo mar Mediterrâneo (20). Nenhum território a leste do rio Jordão se achava incluído, nem foi levado em consideração o antigo ideal que as fronteiras de Israel se estendessem do Nilo ao Eufrates (ver, por exemplo, Gn 15.18; Êx 23.31). Isso talvez se deva ao fato que o alvo de Ezequiel era "concentração e não expansão" (Cooke); o profeta desejava ardentemente que não houvesse contaminação da Terra Santa por meio da influência dos gentios (cf. 44.9). Por outro lado, a concessão de plena participação na herança, por parte dos estrangeiros que peregrinam no meio de vós (22-23) é mais generosa que qualquer outra legislação do Antigo Testamento quanto a essas questões (mas cf. Lv 19.34; 24.22; Nm 9.14).

Ezequiel 48 A disposição da terra (48.1-35) é denominada pela posição do templo e seus terrenos; sete tribos foram colocadas ao norte da oblação (1-7) e cinco foram colocadas ao sul (23-29). Isso, juntamente com a transferência das "duas tribos e meia" do leste do Jordão para o lado ocidental, envolverá uma alteração na partilha para não ser mais como nos tempos antigos (cf. Js 13-17). Digno de atenção especial é a remoção de Judá, do sul para o norte. Tem sido sugerido que "as tribos descendentes de Léia e Raquel são loteadas mais próximas da oblação que as tribos descendentes de Bilha e Zilpa (Gn 35.23-26), como se as posições mais privilegiadas fossem determinadas pela pureza relativa de sangue" (I. C. C., pág. 531). A oblação (8-22) já foi descrita em 45.1-8. Em ambos os capítulos deveríamos ler, provavelmente, cúbitos em lugar de canas no concernente às medidas; ver notas sobre 45.1-8 e cf. 42.15-20 nota. Pode-se inferir que Jerusalém será habitada por membros vindos de


Ezequiel (Novo Comentário da Bíblia) 72 todas as tribos de Israel (19). Ezequiel dá atenção especial à oblação, à área da cidade e à própria cidade como tendo a forma de um quadrado (20,15,16). Essa característica também impressionou o apóstolo João, o qual, porém adicionou que a altura da cidade também tinha a mesma medida que seu comprimento e largura, fazendo, dessa maneira, com que a cidade tivesse o formato de um cubo perfeito, um tremendo "santíssimo" (Ap 21.16). As portas, semelhantemente, têm lugar na cidade descrita por João (cf. os vv. 30-34 com Ap 21.12-13), mas entre elas haveria doze alicerces apostólicos (Ap 21.14); a cidade é uma instituição cristã, e não judaica! A descrição inteira sobre a terra e o povo no reino de Deus termina, apropriadamente, com uma declaração sobre o nome dado à Cidade de Deus, Jehovah Shammah, O Senhor está ali (35). O desenvolvimento desse tema é o deleite constante do escritor apocalíptico do Novo Testamento, que por muitas e muitas vezes menciona a presença de Deus como o principal motivo da alegria da cidade celestial (Ap 21.1-22.5; cf. especialmente 21.3-4,7,22-23; 22.3-5). G. R. Beasley-Murray.


Ezequiel - N. Comentario