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DANIEL Introdução Plano do livro Capítulo 1 Capítulo 4 Capítulo 2 Capítulo 5 Capítulo 3 Capítulo 6

Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9

Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12

INTRODUÇÃO I. POSIÇÃO NO "CÂNON" Na Bíblia hebraica o livro de Daniel se encontra na terceira divisão, os Hagiographa, e não na segunda, na qual aparecem os livros proféticos. A razão disso não é que Daniel tenha sido escrito depois dos livros proféticos. Em algumas listas, pode-se observar, Daniel é incluído na segunda divisão do "cânon". Entretanto, o motivo pelo qual Daniel veio a ser colocado na posição que atualmente ocupa depende da posição de seu escritor na economia do Antigo Testamento. Os autores dos livros proféticos eram homens que ocupavam a posição técnica de profeta; isto é, eram homens especialmente levantados por Deus para servir de mediadores entre Deus e a nação, declarando ao povo as palavras idênticas que Deus lhes tinha revelado. Daniel, porém, não foi profeta nesse sentido restrito e técnico. Foi antes um estadista na corte de monarcas pagãos. Na qualidade de estadista, possuía realmente o dom profético, embora não tenha ocupado o ofício profético, e é nesse sentido, aparentemente, que o Novo Testamento o chama de profeta (Mt 24.15). Portanto, Daniel foi estadista, inspirado por Deus para escrever o livro que tem seu nome, pelo que também esse livro aparece no "cânon" do Antigo Testamento na terceira divisão, entre os escritos de outros homens inspirados que não ocuparam o ofício profético.


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 2 II. PROPÓSITO No monte Sinai, no deserto, o Deus do céu e da terra depositou Sua afeição de modo peculiar sobre Israel, escolhendo essa nação para ser Seu povo e declarando que Ele seria seu Deus. Dessa maneira entrou em relação de concerto com Israel, manifestando tal relação por um poderoso ato de livramento. Seu propósito para com essa nação era que ela fosse um "reino de sacerdotes" e que Deus fosse seu governante. Assim foi estabelecida a teocracia (governo de Deus). Israel deveria ser uma nação santa, uma luz para iluminar os gentios e dar testemunho do conhecimento salvador do verdadeiro Deus a todos. Israel, todavia, não foi fiel a esse alto propósito. Depois que já se achava por algum tempo na Terra Prometida, exibiu insatisfação com os princípios fundamentais da teocracia ao solicitar um rei humano, para que fosse semelhante às nações ao seu derredor. Em primeiro lugar lhe foi dado um homem mau como rei, e então um homem segundo o próprio coração de Deus. Davi, entretanto, era homem de guerra, pelo que não foi senão durante o reinado pacífico de Salomão que o templo, o símbolo externo do reino de Deus, foi edificado. Após a morte de Salomão rebelaram-se as tribos do norte, renunciando às promessas da aliança. Dessa ocasião em diante, tanto nos reinos do norte como do sul, a iniqüidade passou a caracterizar o povo, pelo que Deus anunciou Sua intenção de destruí-los (cf. Os 1.6; Am 2.13-16; Is 6.11-12, etc.). Os instrumentos que o Deus soberano empregou para realizar Seu propósito de fazer ponto final na teocracia foram os assírios e babilônios. Sob o poder dessas nações o povo teocrático foi levado em cativeiro, e o exílio ou período de "Indignação" foi iniciado (Is 10.25; Dn 8.19). O próprio exílio foi seguido por um período de expectativa e preparação para a vinda do Messias. Foi revelado que um período de setenta vezes sete tinha sido determinado por Deus para a materialização da obra messiânica (Dn 9.24-27). O livro de Daniel, um produto do exílio, serve para mostrar que o próprio exílio não seria permanente. Pelo contrário, a própria nação que havia conquistado Israel desapareceria da cena da


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 3 história para ser substituída por outra e, de fato, por três outros grandes impérios humanos. Enquanto esses impérios estivessem em existência, entretanto, o Deus do céu erigiria outro reino que, diferentemente dos reinos humanos, seria ao mesmo tempo universal e eterno. O propósito de Daniel, por conseguinte, é ensinar a verdade que, embora o povo de Deus esteja escravizado em uma nação pagã, o próprio Deus é seu soberano e aquele que em última análise dispõe dos destinos, tanto dos indivíduos como das nações. Essa verdade é ensinada por meio de um rico uso de símbolos e comparações, e o motivo dessa característica se encontra no fato que as revelações feitas a Daniel tiveram a forma de visão. O livro de Daniel, pois, pode assim ser chamado de obra apocalíptica, mas se eleva muito acima dos apocalipses pós-canônicos. A única obra que pode com justiça ser-lhe comparada é o livro neo-testamentário do Apocalipse. Essencialmente, Daniel exibe as qualidades de um livro verdadeiramente profético e suas comparações são usadas tendo em vista um propósito didático. III. AUTOR O livro de Daniel é um produto do exílio e foi escrito pelo próprio Daniel. Pode-se notar que Daniel fala na primeira pessoa do singular e assevera que as revelações foram feitas a Ele (Dn 7.2,4 e segs.; 8.1 e segs. 8.15 e segs.; 9.2 e segs. etc.). Visto, entretanto, que esse livro forma uma unidade, segue-se que o autor da segunda porção (capítulos 7 a 12) deve também ter composto a primeira (capítulos 1 a 6). O segundo capítulo, por exemplo, é preparatório para os capítulos 7 e 8, que desenvolvem seu conteúdo de modo mais completo e claramente o pressupõem. As idéias do livro refletem um ponto de vista básico e essa unidade literária tem sido reconhecida por eruditos de diferentes escolas de pensamento. O livro de Daniel reflete ambientes babilônicos e persas, e as alegadas objeções históricas (que serão discutidas no comentário) não são realmente válidas. Finalmente, uma aprovação indireta à


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 4 autenticidade do livro parece encontrar-se nas seguintes passagens do Novo Testamento: Mt 10.23; 16.27 e segs.; 19.28; 24.30; 25.31; 26.64. Na Igreja Cristã tem sido tradicionalmente mantido, devido às reivindicações do próprio livro, que o Daniel histórico foi seu autor. A primeira dúvida conhecida a ser lançada sobre esse ponto de vista veio da parte de Porfírio de Tiro (nascido cerca de 232-233 A. C.), um vigoroso oponente do Cristianismo, que sustentava que essa obra era produto de um judeu que vivera no tempo dos macabeus. Durante os séculos XVIII e XIX, particularmente este último, a opinião de Porfírio parece ter ocupado posição proeminente no mundo erudito. Foi largamente mantido que o livro de Daniel fora escrito por um judeu desconhecido, que vivera no tempo de Antíoco Epifanes. Os motivos para tal opinião eram a notável exatidão pela qual aquele período é descrito em Daniel, as supostas inexatidões históricas no livro, e a alegada linguagem mais recente empregada na composição da profecia. Algumas vezes, igualmente, podia-se verificar uma atitude de aversão para com o caráter sobrenatural do livro, o que evidentemente tinha levado certos homens a procurarem negar seu autêntico caráter profético. Recentemente, contudo, talvez principalmente como resultado do estudo de Hölscher ("Die Entstehung des Buches Daniel", em Theologische Studien und Kritiken XCII, 1919, págs. 113-138), tem sido mais evidente a tendência de reconhecer a antiguidade de muito material básico em Daniel. Mas até hoje é mantido – erroneamente, segundo acreditamos – que o livro, em sua presente forma, vem desde o segundo século A. C., mas que muito de seu material, particularmente na primeira porção, é muito mais antigo. Será útil considerar de passagem algumas das objeções históricas que têm sido levantadas contra o livro de Daniel. Em primeiro lugar é alegado que o uso do termo "caldeu" deixa entrever uma era posterior ao século VI A. C. No livro de Daniel esse termo é empregado num sentido étnico para denotar uma raça e é igualmente usado de modo mais restrito para indicar uma classe


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 5 particular, a saber, os sábios. Segundo é alegado, porém, este último uso só teve origem muito depois do tempo de Daniel. Em resposta pode-se dizer que Heródoto (cerca de 440 A. C.,) fala dos caldeus como uma casta de tal modo que demonstra que assim deveria ser considerado já desde muito antes desse tempo. Mas, visto que as referências extrabíblicas são tão poucas, não sabemos bastante para asseverar que as representações em Daniel acham-se em erro. Também têm alguns acusado que Daniel nunca teria sido admitido no sacerdócio babilônico nem teria sido feito seu cabeça. A leitura cuidadosa da profecia, entretanto, mostra que Daniel meramente exercia autoridade política (2.48-49). Não existe evidência de que ele tenha sido admitido ou iniciado em qualquer casta religiosa. Se o livro de Daniel fosse realmente de data posterior, como poderíamos conceber que o autor posterior pintasse Daniel a entrar numa casta pagã? Algumas vezes tem sido mantido que não há alusões extra-bíblicas referentes ao relato da loucura de Nabucodonosor, pelo que concluem que essa narrativa bíblica não é histórica. Não obstante, o historiador Eusébio cita, de Abidenus, uma descrição sobre os últimos dias de Nabucodonosor na qual a linguagem é tal que subentende que algo estranho havia ocorrido perto do fim da vida do rei. Existem algumas similaridades nesse relato com o que é exposto em Daniel. Em Berosus, igualmente (registrado na obra de Josefo, Contra Acionem, 1.20) há certo reflexo sobre o fato da loucura do rei. Deveria ser salientado, entretanto, que mesmo que não houvesse ecos extra-bíblicos sobre o fato do desvario de Nabucodonosor, por si mesmo isso não significaria que o relato bíblico não é histórico. A objeção a ter sido Daniel autor do livro também tem sido apresentada baseada no fato que a linguagem aramaica, na qual uma porção do livro foi escrita, pertence a um período posterior ao de Daniel. Apesar de que nada existe no próprio aramaico do livro de Daniel para excluir a autoria de Daniel, parece muito provável que os caracteres aramaicos são aqueles chamados aramaico "Reich" ou "Reino"; isto é, o


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 6 que foi introduzido no Império persa por Dario I. Esse fato, entretanto, exclui Daniel como autor? De maneira alguma. É perfeitamente possível que o aramaico no qual o livro de Daniel se encontra escrito seja simplesmente uma modernização do aramaico no qual o livro foi originalmente composto. A questão da autoria do livro deve ser estabelecida sobre outras bases que não a da linguagem em que foi escrito. IV. LITERATURA O estudioso poderá encontrar uma completa exposição sobre o moderno ponto de vista no comentário de James A. Montgomery (The International Critical Commentary Series). Esse mesmo ponto de vista é também exposto nos eruditos artigos de H. H. Rowley. O presente escritor tem procurado expor o livro do ponto de vista do Protestantismo ortodoxo em The Prophecy of Daniel (Grand Rapids, 1949). PLANO DO LIVRO I. DANIEL ELEVADO AO PODER -- 1.1-21 II. O SONHO DO REI INTERPRETADO POR DANIEL -- 2.1-49 III. O EPISÓDIO DA FORNALHA ARDENTE - 3.1-30 IV. SEGUNDO SONHO INTERPRETADO POR DANIEL -- 4.1-37 V. FESTA DE BELSAZAR E ESCRITA MISTERIOSA -- 5.1-30 VI. DANIEL NA COVA DOS LEÕES -- 5. 31-6.28 VII. VISÃO DE DANIEL SOBRE AS QUATRO FERAS -- 7.1-28 VIII. VISÃO DE DANIEL SOBRE O CARNEIRO E O BODE -- 8.1-27


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IX. ORAÇÃO DE DANIEL -- 9.1-23 X. PROFECIA SOBRE OS SETENTA VEZES SETE -- 9.24-27 XI. A VISÃO DE DEUS -- 10.1-11.1 XII. REVELAÇÃO SOBRE O FUTURO -- 11.2-20 XIII. OS TEMPOS DE ANTÍOCO E DO ANTICRISTO -- 11.21-12.3 XIV. CONCLUSÃO DA PROFECIA -- 12.4-13

COMENTÁRIO I. DANIEL ELEVADO AO PODER - 1.1-21

Daniel 1 a) Expedição de Nabucodonosor (1.1-2) No ano terceiro de reinado de Jeoaquim... (1). De conformidade com Jeremias (25.1; 46.2) a expedição de Nabucodonosor contra Jerusalém teve lugar no quarto ano de Jeoaquim. Daniel, entretanto, evidentemente emprega o método babilônico de computação, pelo qual o primeiro ano é considerado como o ano seguinte ao da subida do rei ao trono. Portanto, o primeiro ano seria igual ao segundo ano, conforme a maneira de computar da Palestina, e o terceiro ano (computação babilônica) e o quarto ano (da Palestina) seriam iguais e equivalentes. Por conseguinte, não há conflito com Jeremias. Jeoaquim, rei de Judá (1). Ele foi elevado ao trono pelo rei do Egito. Foi um rei perverso que, no seu quarto ano de reinado, se tornou súdito de Nabucodonosor, e que três anos mais tarde se revoltou. Reinou por onze anos e seu filho, também chamado Joaquim, o sucedeu no trono. Ver 2Rs 23.36-24.9; Jr 22.18-19; 36.30.


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 8 Não é afirmado que Nabucodonosor tenha atacado Jerusalém na qualidade de rei. Pelo contrário, ele é chamado rei de Babilônia prolepticamente. Note-se, igualmente, que Daniel não assevera que Nabucodonosor tenha conquistado Jerusalém, como alguns críticos têm dito. Pode ser, conforme Berosus (Josefo, Contra Apionem 1.19; Antiguidades X. XI: 1) disse, que lhe chegou a notícia da morte de seu pai, e que ele regressou à Babilônia para assumir a posição de rei. b) Os jovens judeus na corte de Babilônia (1.3-16) A etimologia da palavra Aspenaz (3) é incerta. O indivíduo, entretanto, era um delegado chefe ou oficial na corte. No versículo 3 não são mencionadas três classes diferentes; mas antes, a frase filhos de Israel é geral, e as outras duas, da linhagem real e dos nobres, são explicativas. O significado é: "israelitas, tanto da linhagem real como dos nobres". Entre esses o rei desejava aqueles que possuíssem mente sã e corpo são (4) e que pudessem, por conseguinte, servir mais eficientemente na corte. A fim de realizar esse desígnio, o rei apontou uma ração de cada dia (5), tanto de seu próprio alimento como de seu vinho. No versículo 6 são apresentados os jovens hebreus, e aprendemos que seus nomes foram mudados. Daniel assentou no seu coração não se contaminar com a porção diária (8), e a razão disso evidentemente foi que aquele alimento e bebida tinham sido consagrados mediante algum ritual pagão, e comêlo ou bebê-lo, na opinião de Daniel, torná-lo-ia culpado de adoração idólatra. Daniel, portanto, se aproximou do eunuco chefe e Deus tornou esse oficial favoravelmente disposto para com ele (9). O despenseiro (11; evidentemente um oficial debaixo das ordens do eunuco chefe) concedeu a Daniel o que ele solicitava, e no fim do tempo marcado a aparência dos jovens hebreus era melhor e estavam mais cheios de carne que aqueles que tinham compartilhado da ração do rei (15). Assim teve início o triunfo do poder e da graça de Deus na Babilônia.


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 9 As vidas dos quatro jovens estavam nas mãos de Deus. Ele lhes deu conhecimento (17) para que pudessem discernir entre o que era verídico na instrução que recebiam, que dizia respeito aos campos das letras (isto é, literatura) e sabedoria (isto é, ciência) (17). Daniel também obteve entendimento ou facilidade na interpretação de sonhos ou visões. Essa menção de visão e sonhos (17) é um reflexo exato do ambiente babilônico do livro. O versículo 21 não significa que Daniel continuou somente até ao primeiro ano do rei Ciro. Antes, visto que o ano primeiro de Ciro foi o ano que marcou o término do exílio, esse fato é mencionado para demonstrar que Daniel continuou até mesmo nesse tempo. A linguagem não implica que ele não tenha continuado além dessa data.

Daniel 2 II. O SONHO DO REI INTERPRETADO POR DANIEL - 2.1-49

a) O sonho de Nabucodonosor (2.1-16) No segundo ano (1). Alguns pensam que esta frase entra em conflito com o período de treinamento de três anos, mencionado no capítulo primeiro. Mas a frase "três anos" (1.5) necessita referir-se tão somente a certas porções de anos (cf., por exemplo, 2Rs 18.9-10; Jr 34.14; Mc 8.31), pelo que o primeiro ano de treinamento poderia compreender parte do ano da subida de Nabucodonosor ao trono, e o terceiro ano poderia compreender parte do segundo ano de seu reinado (computação babilônica). O rei ficou tão perturbado com seu sonho que passou-lhe o seu sono (1). Por isso convocou imediatamente aqueles que acreditava serem capazes de dizer-lhe o significado de seu sonho. Esses homens desejaram saber qual o sonho, para que pudessem interpretá-lo (4). A palavra siríaco (4), isto é, "aramaico", parece designada para chamar a atenção ao fato que desde esse ponto até o fim do capítulo 7 a linguagem empregada é o aramaico. Pode ser, contudo,


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 10 que a palavra sirva para indicar a linguagem na qual os caldeus falaram com o rei. Alguns críticos têm afirmado que tal declaração não poderia ser histórica; porém, à luz da recentemente descoberta (1942) carta de Adon, em aramaico, tal objeção já não tem valor (cf. "More Light on Daniel's First Verse" em Bible League Quarterly, n.º 203, 1950, págs. 6-8, de F. F. Bruce). No que tange ao aramaico usado no livro de Daniel, pode ser dito que nada existe nele que por si mesmo pudesse excluir ter sido empregado por Daniel. Se, entretanto, o presente aramaico provasse ser posterior, não afetaria a autoria de Daniel, mas meramente demonstraria que o aramaico original foi modernizado por um escritor de data posterior. É difícil determinar por qual razão são empregados dois idiomas no livro de Daniel; mas o próprio Daniel provavelmente assim escreveu, empregando o aramaico, ou linguagem do mundo, para aquelas seções de seu livro que versam principalmente sobre as histórias dos impérios mundiais, e empregando o hebraico para aquelas seções que desenvolvem o futuro do povo de Deus e de Seu reino. O motivo pelo qual o rei não queria relatar seu sonho não era que o havia esquecido (versículo 5 deveria ser traduzido não o que foi me tem escapado, mas "a coisa é certa para mim"), mas que ele queria testar os sábios. Sereis despedaçados (5). A crueldade contida nessa ameaça era generalizada na antiguidade, e caracterizava a maneira de tratar dos reis babilônicos. Os caldeus declaram sua incapacidade de relatar e interpretar o sonho, asseverando que tal conhecimento só pode ser encontrado entre os deuses cuja morada não é com a carne (11). Mediante essa confissão os caldeus fazem referência a Deus, pois mesmo no negro paganismo permanecia a persuasão que Deus existe (cf. Rm 1.21). O rei, entretanto ficou indignado e ordenou que os sábios fossem executados (12-13). Daniel, sabiamente, interveio e solicitou um prazo (14-16).


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) b) Oração de Daniel (2.17-23)

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A interpretação é chamada de segredo (18), visto que se trata daquilo que não pode ser obtido pela razão humana isolada. Em resposta à revelação, Daniel bendisse a Deus em oração. A Deus pertence a sabedoria – Ele é onisciente e todo-sábio – e a força – pois governa tudo (20). O curso da história está nas mãos de Deus, que altera os tempos e as estações, e o destino dos governantes também está sob Seu controle. Quando a verdadeira sabedoria é encontrada entre os homens, essa é um dom de Deus, e o verdadeiro entendimento também vem da parte dEle (21). Ele revela o profundo e o escondido (22), a saber, as maravilhosas obras de Deus visando a salvação dos homens. Foi a esse Deus soberano que Daniel expressou seus agradecimentos. c) A interpretação do sonho (2.24-49) Quando Daniel reapareceu perante o rei procurou deixar claro que não viera dar a interpretação do sonho mediante seu próprio poder, mas deu a glória a Deus (28). O sonho foi de natureza escatológica, isto é, tinha a ver com o fim dos dias ou, em outras palavras, com a era messiânica (cf. At 2.16-17; 1Tm 4.1; Hb 1.1). Daniel relata o conteúdo do sonho descrevendo o colosso que o rei tinha visto, cujas diversas porções eram feitas de diferentes metais. A cabeça de ouro foi identificada como o próprio Nabucodonosor, e isso provavelmente significa que devemos compreender o império babilônico representado por seu grande rei. Outras partes da imagem, segundo Daniel, representam outros reinos. Diferentes interpretações a respeito dessa simbologia têm sido aventadas. A maioria dos eruditos críticos que negam a autenticidade de Daniel acreditam que os quatro impérios representados pelo colosso são: Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. Tem sido sustentado por alguns dos


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 12 advogados dessa posição que, visto que a Média não existia como império separado após a queda da Babilônia, que o livro de Daniel está, portanto, laborando em erro. Há, entretanto, fortes razões para que essa identificação seja rejeitada (ver The Prophecy of Daniel, págs. 275294). Objeções a esse ponto de vista serão destacadas conforme for prosseguindo a exposição. De tempos em tempos os eruditos conservadores têm identificado os reinos como Babilônia, Medo-Pérsia, o Império de Alexandre, e os sucessores de Alexandre. Mas, em sua maioria, a posição conservadora tradicional tem sido a identificação desses reinos como Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Essa é a única posição que pode interpretar corretamente o versículo 44, um versículo que declara distintamente que o reino messiânico seria erigido nos dias dos reinos já mencionados. Os dois primeiros pontos de vista assumem que o reino messiânico será erigido após os quatro impérios humanos, e isso está definidamente contra o ensino do versículo 44. O ensino dispensacionalista interpreta os dez dedos da imagem como a representar um tempo que o Império Romano será revivificado e dividido em dez reinos. Deve-se notar, entretanto, que menção nenhuma é feita quanto ao número dos artelhos. A pedra cortada, sem mão (34) representa o Messias e o crescimento do reino messiânico, reino esse que é descrito como de duração eterna e de origem divina (44), assim ficando contrastado com os impérios humanos e temporais do colosso. Deus é Deus dos deuses... (47). A confissão do Nabucodonosor em realidade não se eleva acima do nível do politeísmo. Ele reconhece a superioridade do Deus de Daniel; contudo, não O adora como o único verdadeiro Deus. Não é necessário imaginar que o engrandecimento de Daniel (48) tenha envolvido necessariamente o profeta nas superstições de Babilônia. Podemos estar certos que um homem de devoção total a Deus, tal como ele foi, o conservaria livre de tal conspiração.


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Daniel 3 III. O EPISÓDIO DA FORNALHA ARDENTE 3.1-30 Uma estátua (1). Era costume entre os reis assírios erigirem estátuas de si mesmos. Que aquela fosse uma estátua do próprio Nabucodonosor, entretanto, não é expressamente afirmado. É possível que o fato de Daniel haver identificado a cabeça de ouro com o rei (2.38) e sua própria satisfação devido ao número de suas conquistas (entre as quais, provavelmente, Jerusalém podia ser agora incluída) tenha levado Nabucodonosor a ficar cheio de orgulho, erigindo aquela estátua tanto em honra de seu deus como em sua própria honra. De ouro (1). Não é preciso entender necessariamente que a estátua tenha sido feita de ouro sólido, pois pode ter sido recoberta de ouro. Também é possível que tenha sido posta sobre um pedestal, e na forma de um obelisco que, na base, tinha três metros de largura. O aspecto grotesco da estátua não é argumento contra a historicidade do relato e uma evidência de haver sido genuína é o emprego do sistema sexagésimo babilônico. Campo de Dura (1) é um lugar vasto entre montanhas, cuja exata localização não tem sido determinada, embora a palavra duru (um muro que fecha) seja regularmente comum em babilônico. Objeção contra a autenticidade do livro de Daniel tem sido aventada por causa da presença de alegadas palavras gregas no verso 5. Os nomes de três dos instrumentos musicais (a saber, os que são traduzidos como harpa, sambuca e saltério) têm sido algumas vezes considerados como de origem grega. Caso sejam gregas, assim diz o argumento, então certamente Daniel não as teria conhecido, visto que viveu tão antes do levantamento da cultura grega. Não obstante, ainda que tais palavras fossem realmente de origem grega, de forma alguma seguir-se-ia que Daniel não poderia tê-las usado, visto que a cultura grega se espalhou desde bem cedo e havia soldados gregos no exército de Nabucodonosor (ver The Prophecy of Daniel, pág. 87).


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 14 O caráter injusto da acusação contra os companheiros de Daniel deveria ser notado (12). Seus acusadores declaram-nos judeus, assim frisando que eram estrangeiros, com a possível implicação que, sendo estrangeiros, não seriam leais. Note-se, ainda, a declaração que o rei havia honrado aqueles judeus, deixando subentendido que lhes faltava gratidão. Tem sido levantada a questão por que Daniel não é mencionado nesse capítulo. Várias sugestões têm sido feitas tentando dar resposta, mas, nenhuma delas é satisfatória. Visto que a Bíblia não menciona Daniel nesse ponto, é inútil especular sobre a questão. Tomado de ira, o rei ordena que os três homens acusados lhe fossem trazidos à presença, oferecendo-lhes oportunidade de negar a acusação (14). O versículo 16 oferece alguma dificuldade e seria mais apropriado traduzir sua última parte como: "... não necessitamos, com respeito a esse assunto, defender-nos perante ti". Em outras palavras, os três reconhecem a verdade da acusação e, em lugar de se defenderem, estão dispostos a deixar seu caso nas mãos de Deus. O versículo 17 não lança qualquer dúvida sobre a capacidade de Deus para salvar, mas antes, salienta Sua habilidade ética, isto é, se Deus em Sua vontade puder livrar, Ele o fará. Em resposta, Nabucodonosor ordena que a fornalha seja aquecida sete vezes mais do que o costumeiro e os três são projetados no meio das chamas (19). O versículo 25 apresenta o espanto do rei ao perceber que, em adição aos três judeus, havia na fornalha alguém "semelhante ao filho dos deuses". Por meio da abertura no fundo da fornalha, o rei viu uma quarta pessoa e, embora falando do ponto de vista de um homem estribado na superstição babilônica, reconheceu a presença de um Ser sobrenatural, alguém da raça dos deuses. O rei pagão, naturalmente, não podia reconhecer a verdadeira identidade dAquele que estava em sua presença. Alguns têm pensado que se tratava de um anjo que apareceu na fornalha; mais provavelmente, porém, temos aqui uma manifestação préencarnada do Filho de Deus.


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 15 No livramento dos três foi realizado um grande milagre por Deus. Milagre é um ato, realizado no mundo externo pelo poder sobrenatural de Deus, contrário ao curso comum da natureza (embora não necessariamente levado a efeito contra os meios ordinários da natureza), e seu propósito é servir de sinal ou comprovação. Um milagre, por conseguinte, não deve ser considerado meramente como uma obra poderosa, mas como uma obra poderosa designada a comprovar os propósitos redentores de Deus. A milagrosa libertação da fornalha ardente tinha o propósito de demonstrar a soberania do verdadeiro Deus sobre a nação que havia feito cativa Israel. Nabucodonosor reconhece a superioridade do Deus de Israel porquanto não há outro Deus que possa livrar como este (29). Embora o rei tenha progredido além do que disse em 2.47, não havia ainda falado movido por um coração dominado pela fé.

Daniel 4 IV. SEGUNDO SONHO INTERPRETADO POR DANIEL 4.1-37

a) O sonho de Nabucodonosor (4.1-18) A doxologia (1-3), com a qual tem início o quarto capítulo, apresenta algumas dificuldades, visto que sua linguagem exibe familiaridade com o pensamento bíblico, e alguns mantêm que isso é de estranhar, tendo vindo da parte de um monarca pagão. Não nos devemos esquecer, todavia, que Daniel exercia influência sobre o rei e que a linguagem teocrática do edito provavelmente se deve à influência de Daniel. Nabucodonosor assevera que havia tido um sonho que os caldeus não tinham podido interpretar, mas que Daniel, no qual há o espírito dos deuses santos (8) havia interpretado o sonho. Essa frase particular poderia ser parafraseada como "aquilo que pertence à verdadeira deidade pode ser encontrado em Daniel". Talvez o motivo pelo qual o rei não


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 16 convocou Daniel imediatamente tenha sido, não que ele se esquecera de Daniel, mas por haver percebido que o sonho dizia respeito à humilhação que teria de sofrer nas mãos do Deus de Daniel. Ele nada queria ter com o Deus de Daniel, até que fosse obrigado a apelar para Ele, impelido por necessidade extrema. Nos versículos 10-18 é relatado o conteúdo do sonho. No meio da terra (10); isto é, a árvore ocupava sobre a terra uma posição central que assim atraía a atenção. Evidentemente o rei reconheceu a si mesmo nesse simbolismo. Um vigia, um santo (13); isto é, um vigia que era santo; somente um indivíduo é referido aqui. A linguagem é própria do paganismo, pois foi o rei quem falou. Provavelmente o rei, ao mencionar o vigia, se referia aos anjos que conhecia devido à religião babilônica. No versículo 16 o tronco da árvore é personificado. Seu coração deveria ser transformado "para" o que não era humano. Isso seria feito até que passem sobre ele sete tempos (ou períodos de tempo, cuja duração não é declarada). Visto que a duração do tempo não é revelada, não nos assiste o direito de identificar a duração em termos de anos. O rei interpreta o decreto como tendo sido originado nos santos (17), mas essa interpretação pagã é repudiada por Daniel, que afirma tratar-se do decreto do Altíssimo que viera sobre o rei (24). b) Interpretação e cumprimento do sonho (4.19-37) Ao ouvir a descrição do sonho, Daniel ficou perplexo, pois ele mesmo desejava o bem para o rei, mas percebeu que o sonho continha o anúncio de um julgamento contra o rei da parte de Deus. Quase uma hora (19); a frase é idiomática; não significa que Daniel tenha ficado assombrado pelo espaço de quase uma hora; pois poderíamos traduzi-la corretamente como "por um momento". Então Daniel interpreta o sonho e adverte o rei sobre o que deve ser feito se o período de tranqüilidade, antes do julgamento, tiver de ser prolongado


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 17 (27). Geralmente é assumido que, se Nabucodonosor se tivesse arrependido, seria afastada a calamidade ameaçada. O texto, entretanto, não menciona o afastamento do julgamento predito. Parece que o pensamento é que o julgamento ameaçado viria a fim de conduzir Nabucodonosor ao conhecimento do verdadeiro Deus (25). Entretanto, caso ele se arrependesse de seus pecados, gozaria de um mais prolongado período de tranqüilidade. Jerônimo, e muitos que o seguiram, interpretaram o versículo 27 como se este dissesse: "Redime teus pecados por meio de esmolas e tuas iniqüidades demonstrando misericórdia aos pobres". Isso, naturalmente, ensinaria salvação por meio do mérito das obras humanas; tal pensamento, entretanto, é estranho não só para esse versículo, como também para a Bíblia inteira. As palavras de Daniel não significam: "Redime teus pecados por meio de esmolas", mas antes, quebra (isto é, interrompe) teus pecados, por meio de ações justas. Em outras palavras, aqui há em vista um mandamento que visa ao arrependimento, voltando-se do mal para praticar o bem. É uma perversão do texto forçá-lo para que ensine a doutrina da salvação por meio do mérito humano. O versículo 30 deveria ser observado, visto que reflete com tanta exatidão a atitude de Nabucodonosor. Ele era primariamente um edificador, e não um guerreiro, e suas próprias declarações, preservadas em inscrições cuneiformes, mostram seu orgulho na cidade e no palácio que ele reconstruiu. O julgamento sobreveio a Nabucodonosor conforme fora predito, e ele foi expulso do meio dos homens, aparentemente afetado da enfermidade conhecida como licantropia (33). No fim do tempo predito, voltou ao rei a sua razão e com um coração de fé louvou ao verdadeiro Deus (34-37).


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Daniel 5 V. FESTA DE BELSAZAR E ESCRITA MISTERIOSA - 5.1-30

O quinto capítulo de Daniel, embora tenha sido freqüentemente atacado como inexato em suas afirmações é, não obstante, digno de atenção devido à sua exatidão. Houve tempo quando o nome Belsazar foi muito difícil para ser explicado pelos expositores, visto que seu nome não aparece nos monumentos antigos. Por isso, enquanto que alguns procuravam por vários meios identificá-lo, outros negavam completamente sua existência. Entretanto, o nome do rei, conforme discussão subseqüente salientará, tem sido encontrado em tabletes cuneiformes e não pode haver dúvidas quanto à sua historicidade. Dessa forma fica demonstrado que a Bíblia está correta em sua menção sobre Belsazar. O rei Belsazar (1). Essa afirmação tem sido criticada (mui habilmente pelo prof. H. H. Rowley em "The Historicity of the Fifth Chapter of Daniel" em The Journal of Theological Studies, vol. XXXII, págs. 12-31), em vista do fato que Belsazar nunca reinou como monarca único e nunca é designado como rei (sharru) nas inscrições cuneiformes. Além disso, é mantido que não há evidência que demonstre que Belsazar tenha governado sobre o trono como subordinado a Nabonido, seu pai. Em réplica a essas acusações podemos notar, em primeiro lugar, que a palavra aramaica malka (rei) não precisa ter o sentido de monarca ou rei único (ver R. D. Wilson, Studies in the Book of Daniel, 1917, págs. 83-95). Outrossim, um dos documentos cuneiformes afirma que Nabonido confiou o trono a Belsazar. Ora, segue-se que, se o trono tem sido confiado a um homem e que esse homem administra as questões do reino, então está agindo como rei. Foi precisamente esse o caso de Belsazar. Embora Belsazar seja consistentemente chamado de "filho do rei", nos documentos cuneiformes é, contudo, apresentado a desempenhar


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 19 também funções reais (ver The Prophecy of Daniel, págs. 115-118, onde há evidências sobre isso). Com toda a probabilidade havia uma coregência entre Nabonido e Belsazar, na qual Belsazar ocupava uma posição subordinada. Entretanto, em vista do fato que ele era o homem sobre o trono com quem Israel tinha de tratar, é designado rei no livro de Daniel. Nenhuma objeção válida pode ser levantada contra esse uso. Grande banquete (1). Aqui, novamente, encontramos a exatidão deste capítulo, pois grandes banquetes, eram uma característica da antiguidade. O termo mil evidentemente deve ser considerado como um número arredondado e serve para indicar o tamanho do banquete. Era costume, nas festas orientais, que o rei se assentasse numa plataforma elevada, separada dos hóspedes. Portanto, na declaração que Belsazar bebeu na presença dos mil (1) temos outra instância sobre a exatidão do capítulo. No versículo 2 é dito que Nabucodonosor foi pai de Belsazar e visto que parece não ter sido esse realmente o caso, alguns comentaristas tem considerado que o texto neste ponto labora em erro. Entretanto, dado que o uso da palavra "pai" nos idiomas semíticos, era vago, não há necessidade de haver erro aqui. A palavra "pai" podia ser usada pelo menos de oito maneiras diferentes e é possível que seu emprego aqui tenha meramente o sentido de ancestral. Na estucada parede (5). Escavações têm demonstrado que a parede do palácio tinha uma fina camada de esboço pintado esse esboço era branco pelo que qualquer objeto escuro movendo-se à sua superfície tornava-se distintamente visível. Quando viu a mão o rei ficou assombrado despertando do estupor de sua bebedeira e prometeu que o homem que pudesse ler o escrito na parede seria feito no reino, o terceiro dominador (ou "triúnviro") (7). A palavra traduzida como terceiro dominador significa "um dos três" e isso incluiria, na ordem de autoridade, Nabonido, Belsazar e Daniel. O emprego da palavra implica que o próprio Belsazar era apenas o segundo


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 20 no reino. Isso é um sinal de exatidão tal que seria inconcebível se o livro de Daniel fosse um produto do segundo século A. C.. Falou a rainha, e disse (10). O fato da rainha haver se dirigido ao rei também atesta igualmente sobre a notável exatidão do presente capítulo. Na Babilônia a rainha mãe ocupava a mais proeminente posição no palácio real. Devido à sua intervenção foi chamado Daniel. Ele rejeitou a recompensa real e, após pregar ao rei no to- cante à sua perversidade (18-23) prosseguiu para interpretar o estranho escrito (2528). Cada uma das palavras contém um duplo sentido: MENE, enumerado; isto é, Deus havia enumerado (mena) os dias da duração do reino; TEQUEL, um siclo, que indicava que Belsazar havia sido pesado (na balança) e encontrado deficiente; PERES, teu reino é dividido (peres) e dado aos medos e persas (paras). A palavra paras parece salientar que os persas seriam o poder dominante perante o qual Babilônia sucumbiria. Ao ler o escrito, Daniel leu UFARSIM (25), mas, ao dar a interpretação, empregou a forma PERES (28). O U é a conjunção aramaica "e", que seria omitida ao ser dada a interpretação. Farsim é uma forma plural, enquanto que peres é singular. À base de algumas versões antigas parece que peres é a forma original e que o plural farsim possivelmente pode ser considerada como obra de um escriba que talvez tivesse em mente a palavra que significa persas (paras). VI. DANIEL NA COVA DOS LEÕES - 5.31-6.28 O versículo 31 do capítulo quinto pertence realmente ao sexto capítulo e assim é tratado aqui. A menção de Dario, o medo, constitui um problema, visto que Dario é desconhecido na história secular. Têm sido feitas tentativas para identificá-lo com Cambises, Astíages, Ciaxares e Gobrias, mas, na opinião do presente escritor, essas tentativas não são convincentes. O período da queda de Babilônia é um tanto obscuro e é possível que Dario tenha sido uma figura que de outro modo passaria


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 21 despercebida, a quem Ciro confiou o trono. Embora sua identidade ainda não tenha sido estabelecida, por si mesmo isso não indica que ele não tenha sido uma figura histórica. Nem se segue que o escritor de Daniel tenha concebido, como tem sido afirmado por alguns, que houvesse um império medo separado, após a queda de Babilônia. É dito que Dario foi medo simplesmente por motivo de sua descendência de sangue; não é aqui afirmado que ele tenha sido rei dos medos. Nesse mesmo contexto (verso 28) os medos e persas aparecem juntos e em 6.8 é mencionada a lei dos medos e dos persas (e não meramente a dos medos). Toda a evidência, no livro de Daniel, salienta o fato que o reino que se seguiu à Babilônia foi o da Média-Pérsia, e não apenas o da Média.

Daniel 6 Dario nomeou 120 "sátrapas" ou "protetores do reino" para cuidar do novo país conquistado. Essa declaração não está fora de harmonia com a história secular. Desde que Daniel se distinguiu em sua posição (3), a inveja apareceu entre os outros e procuraram um meio de destruílo. Foram Juntos (6); essa frase pode ser melhor traduzida como "foram pactuados", isto é, agiram em harmonia. Fazer uma petição (7), isto é, um pedido religioso, visto que o rei seria considerado como único representante da deidade. Muitos críticos, por considerarem impossível tal ação durante os dias dos reis persas, acreditam que esse relato não é histórico. Entretanto, apesar de que possa haver certas dificuldades no relato, ao mesmo tempo o rei bem poderá ter sido vencido pela sutil lisonja da proposta e tenha cedido a ela. A insensata e iníqua decisão do rei, porém, não levou Daniel a ser infiel a Deus. Tendo continuado a orar (10), Daniel não se tornou culpado de ostentação, mas evidentemente assim orava para que pudesse ser visto somente por aqueles que desejavam espioná-lo.


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 22 Tem sido levantada objeção contra o relato da cova dos leões, objeção essa edificada sobre a premissa de que a cova deve ter sido construída de maneira particular. Com toda a probabilidade havia uma abertura no alto, pela qual Daniel foi baixado na cova e pela qual mais tarde o rei falou com Daniel e, igualmente, uma abertura em um dos lados, pela qual as feras eram alimentadas. Provavelmente foi esta última entrada que foi fechada pela pedra e pelo selo; a abertura pelo alto evidentemente era alta demais para permitir que qualquer homem escapasse por ela. Na punição dos acusadores (24) não precisamos assumir, como no caso de alguns comentaristas, que 120 sátrapas juntamente com suas esposas e filhos, foram projetados na cova. O grupo de acusadores provavelmente era pequeno, e somente esses, como instigadores do ataque contra Daniel, indubitavelmente foram os únicos castigados. Note-se a frase aqueles homens que tinham acusado (isto é, caluniado) Daniel (24), que parece destacar os culpados dos restantes. Não é preciso imaginar que o autor desse nobre relato tenha introduzido um absurdo, afirmando que todos, os sátrapas e suas famílias foram lançados na cova e tivessem caído no poder dos leões antes de chegar ao fundo da cova. A exatidão do relato deve ser frisada, visto que, de acordo com o costume persa, os parentes de um homem eram punidos por causa de seu crime. O capítulo termina com uma declaração sobre a prosperidade de Daniel no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa (28). A designação de Ciro mostra que ele era de diferente descendência real da de Dario, que era medo. Entretanto, o reino sobre o qual ambos reinavam, era o mesmo; não houve primeiramente por um medo e então por um persa.


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Daniel 7 VII. VISÃO DE DANIEL SOBRE AS QUATRO FERAS - 7.1-28

O assunto deste capítulo é o mesmo do capítulo segundo. O sonho que Daniel viu e as visões da sua cabeça (1) não foram originados em sua mente ou cérebro, mas antes, vieram à sua cabeça e foram intelectualmente apreendidos. O sonho e as visões eram revelações especiais e divinamente impostas, conforme subentende o resto do capítulo. Estamos tratando, portanto, não com um sonho comum de Daniel, mas com uma revelação da parte do próprio Deus. No sonho, os quatro ventos do céu combatiam no mar grande (2). O mar representa a humanidade (cf. versículo 17); não se trata do Mediterrâneo nem de qualquer mar particular o que aqui é referido, mas simplesmente o abismo vasto e ilimitado. Os quatro ventos cardeais simbolizam os poderes celestes e esses poderes celestes põem em movimento as nações do mundo. A primeira fera a emergir do mar corresponde à cabeça de ouro da imagem (2.32). O simbolismo do leão e das asas de águia (4) representa a Babilônia, conforme se pode ver por meio de Jr 4.7; 49.19; Hb 1.8; Ez 17.3. É difícil perceber como um escritor, que vivesse muito tempo depois da destruição do império babilônico, poderia aprender acerca desse simbolismo. A Babilônia é representada pela mais majestosa das criaturas. A alteração que se verificou nesse animal evidentemente se refere ao evento da loucura de Nabucodonosor e sua subseqüente restauração. Tanto externa como internamente, um processo de humanização teve lugar. A segunda fera a surgir do mar tem um aspecto duplo. Os pés de um dos lados estavam levantados para o propósito do animal adiantar-se, enquanto que os pés do outro lado não estavam assim levantados (5). À fera é ordenado que devore a carne que já estava em sua boca. Têm sido feitas tentativas para identificar as três costelas, mas provavelmente é


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 24 melhor considerar o número como arredondado e não buscar identificações específicas. A terceira fera que se levantou do mar é um leopardo ou "pantera", animal notável por sua velocidade e agilidade. Nas suas costas (6); essa frase também pode ser traduzida como "sobre seus lados", e pode ser que, à semelhança das representações de feras com asas, vistas na Babilônia, essa fera tivesse asas de seus lados. As asas evidentemente denotam rapidez. Quatro cabeças (6). Não se referem aos quatro reis persas mencionados em Dn 11.2, nem aos quatro sucessores das conquistas de Alexandre, mas antes, têm em vista simbolizar o caráter universal desse reino ou seja, os quatro quadrantes da terra. Em Dn 2.39 é dito que esse reino "terá domínio sobre toda a terra". O quarto animal é introduzido com particular solenidade. E indescritível, pois no reino animal não há nada que se lhe compare. A descrição salienta apenas o caráter destruidor da fera. Diferente (7). No aramaico é empregado um particípio que pode ser traduzido como "agia diferentemente". Há três pontos, no aparecimento dessa quarta fera, que exigem atenção especial: primeiro, é mencionada a própria fera; segundo, são mencionados os dez chifres sobre a cabeça da fera; e terceiro, é mencionado o pequeno chifre. Parece, portanto, que, devido à ordem da declaração, temos em frente uma história que se vai desdobrando. Depois de contemplar a fera, Daniel passou a contemplar os dez chifres e então contemplou outra ponta pequena (8). Essa ponta ou "chifre" é descrita como "pequena", mas agia constantemente como se fosse grande. Dessa maneira, aparece um contraste. Esse pequeno chifre não cresce em tamanho, como aquele que é mencionado no capítulo oitavo. A descrição da ponta como pequena serve para chamar atenção para os olhos e para a boca, que dizia blasfêmias e coisas presunçosas contra Deus. O versículo 9 introduz uma cena celestial de julgamento. Foram postos. O pensamento é que os tronos foram colocados em preparação


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 25 para o julgamento. O ancião de dias; a significação literal da frase é: "um avançado em dias". A figura que se achava sobre o trono, por conseguinte, era a de uma Pessoa idosa e venerável. O simbolismo tenciona significar que Deus está assentado sobre o trono, pronto para pronunciar o julgamento. A cena do julgamento é majestosamente concebida e a tensão com que é antecipado o pronunciamento do juízo é intensificada pelo fato que, durante toda a preparação da cena, Daniel ouve a boca da pequena ponta a dizer coisas grandiosas (11). Na visão, o julgamento cai primeiramente sobre a quarta fera, um julgamento que a destrói completamente. Quando a pequena ponta é destruída, então desaparece inteiramente o poder do quarto reino (11). As três primeiras feras que foram vistas na visão perdem o poder do governar, mas não obstante recebem a permissão de continuar existindo até a vinda do tempo que Deus determinou (12). O versículo 13 introduz um novo aspecto na cena, pois o julgamento não fica concluído pela destruição das feras, mas inclui também o estabelecimento do reino do filho do homem. Nas nuvens (13); isso é, acompanhado pelas nuvens. Essa descrição tem o propósito de expressar a deidade dAquele que vem nas nuvens, pois se trata de um simbolismo que expressa julgamento (cf. Is 19.1; Sl 104.3; 18.10-18; Mt 24.30; Mc 13.26; Ap 1.7). Leia-se "um filho do homem" e não o filho do homem; pode-se traduzir literalmente "a semelhança de um filho de homem". Trata-se de uma personagem em forma humana, distinguida das feras que representavam os quatro reinos dos homens. Não é declarado explicitamente que a figura fosse um homem, mas que era semelhante a um homem. Dessa maneira, trata-se de uma personagem semelhante a homem, diferente das feras que se elevaram do mar. Essa figura celestial é escoltada majestosamente perante o ancião de dias, e é lhe entregue um reino eterno e universal (14). É agora necessário inquirir quanto à interpretação da visão. Podese observar três pontos de vista:


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 26 1. Entre os eruditos que não sustentam que Daniel tenha sido o autor do livro, é geralmente imaginado que as quatro feras que emergiram do mar representam os seguintes reinos: Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. Visto que tal ordem de reinos nunca ocorreu historicamente, tais eruditos assumem conseqüentemente que quanto a esse ponto o livro de Daniel é culpado de um erro histórico. Há diversos argumentos aduzidos por aqueles que favorecem a identificação dos reinos que acabamos de mencionar. É mantido, por exemplo, que se Roma, e não a Grécia, é representada pela quarta fera, então a profecia não concorda com a história. Quando, em 476 D. C., o império romano chegou ao fim, não se levantaram dele dez reinos. Portanto, argúem que a quarta fera não pode significar Roma. Em oposição a esse raciocínio, contudo, pode-se dizer que o número dez não deve ser pressionado e considerado literalmente; trata-se de um número arredondado, e o simbolismo das dez pontas meramente tem referência a uma segunda fase da história da fera. Podese salientar, outrossim que aqueles que vêem na quarta fera uma referência à Grécia também têm grande dificuldade para identificar os dez reis ou reinos. De fato, é impossível fazer tal identificação. Usualmente são feitas tentativas para descobrir dez reis sucessivos após a morte de Alexandre, enquanto que a fase do simbolismo das dez pontas recai não sobre a sucessão mas sobre a contemporaneidade dos reinos; as dez pontas existem durante uma segunda fase da história da fera. É mantido, ainda, que a pequena ponta do capítulo sétimo deve ser identificada com a pequena ponta do capítulo oitavo. Ora, esta última ponta é expressamente identificada (8.23) como um rei que se levantaria da Grécia, pelo que aqueles concluem que a pequena ponta do capítulo sétimo também deve levantar-se da Grécia e que, por conseguinte, a quarta fera deve representar a Grécia, e não Roma. Todavia, em resposta a isso duas coisas podem ser afirmadas. Em primeiro lugar, a descrição da pequena ponta do capítulo sétimo e a da pequena ponta do capítulo oitavo demonstram além de qualquer dúvida, que sua intenção não é


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 27 serem identificadas. Se alguém alistar as características de cada uma dessas pontas e notar cuidadosamente o que é dito a respeito de cada qual, ficará impressionado com a dessemelhança entre as duas. Em segundo lugar, se alguém comparar cuidadosamente tudo quanto é dito no capítulo sétimo concernente à fera sem descrição (versículo 7) com a descrição do bode (Grécia) no oitavo capítulo, descobrirá quão essencialmente diferentes são os dois chifres. Diferem no que respeita à origem, à natureza e ao destino. Alguns também argúem que Dario é representado como um medo que governou depois de Belsazar e antes de Ciro. Entretanto, tal declaração não é completamente exata; em porção alguma do livro de Daniel é dito que Dario governou antes de Ciro. Também tem sido dito, além disso, que Dario é chamado de medo enquanto que Ciro é denominado persa, sendo assim destacada uma distinção racial. Entretanto, essa distinção racial tem a ver com os próprios indivíduos e não com o reino sobre o qual reinaram, reino esse que, no livro de Daniel, é o reino dos caldeus. Finalmente, alguns argúem que, de conformidade com Dn 5.28 o reino seria dividido entre os medos e os persas. Com respeito a esses argumentos, deveríamos notar que embora Dario seja identificado como medo, não se segue de maneira alguma que o império sobre o qual ele governou foi a Média. Tal dedução é non sequitur. Além disso, quando é dito que o reino seria dividido (v. 28), a significação é que sua presente forma (a forma que tinha quando Belsazar era rei) seria quebrada e seria entregue ao inimigo, os medos e os persas. Esse versículo não significa que uma parte do reino seria entregue aos medos e que outra parte seria entregue aos persas. À luz das considerações acima, portanto, sentimo-nos constrangidos a rejeitar a identidade das quatro feras que consideram a Grécia como representada pela quarta fera. (Nota: O estudioso que quiser ler uma defesa capaz sobre a identificação esboçada acima, deveria consultar a obra de H. H. Rowley, Darius the Mede and the Four World Empires, 1935. Quanto


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 28 à posição conservadora examinar The Prophecy of Daniel, págs. 275294). Os advogados da posição esboçada acima identificam a figura celestial semelhante a um Filho de homem com o povo de Israel, "os santos do Altíssimo". Em apoio a essa interpretação apelam para 7.18,27 onde é dito que o reino será dado aos santos. Entretanto, os santos recebê-lo-ão como algo que lhes será confiado pelo Filho do homem, para possuí-lo para sempre. O Filho do homem é apresentado como uma figura sobrenatural, pelo que não é possível identificá-lo com os santos. Pelo contrário, como reis, eles reinam em Seu reino. 2. A segunda interpretação é mantida pela escola de pensamento dispensacionalista. Essa concorda com o ponto de vista tradicional que identifica os reinos como Babilônia, Média-Pérsia, Grécia e Roma. Acredita-se, porém, que haverá um Império Romano revivificado que será dividido em dez reinos, pelo que as dez pontas da fera são comparadas com os dez artelhos da imagem que aparece no segundo capítulo. Esse período dos dez reinos, segundo dizem, ocorrerá após o retorno de Cristo para vir buscar Seu povo. A pequena ponta significa um príncipe do Império Romano revivificado que será inspirado satanicamente. Entretanto, precisamos deixar a discussão detalhada sobre esse ponto de vista ao considerarmos a passagem em 9.24-27. 3. A interpretação que este escritor acredita ser correta é a seguinte. Visto que as quatro feras emergem do mar (humanidade), representam, portanto, reinos que têm origem humana e, conseqüentemente, são ao mesmo tempo temporais e não universais. A primeira fera representa a Babilônia. A segunda, conforme demonstrado por seu duplo caráter, representa a Média-Pérsia, e não a Média apenas. A terceira representa a Grécia. E a quarta fera simboliza o Império Romano histórico. Quanto às dez pontas, representam os reinos que deverão existir durante a segunda fase da história da quarta fera. Não se segue necessariamente que esses reinos devam levantar-se imediatamente


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 29 depois da queda de Roma, mas tão somente que serão capazes de traçar sua origem até Roma. São contemporâneos somente no sentido que existem durante esse período particular; não será necessário que sejam realmente contemporâneos. Quando chegar ao seu fim esse segundo período, virá um terceiro período, que é introduzido mediante o aparecimento da pequena ponta. Pelo próprio simbolismo não é possível dizer se essa pequena ponta representa um homem, um governo, uma coligação de governos ou uma ideologia. Só se sabe que fará oposição aos santos até que o julgamento de Deus traga a destruição completa da quarta fera. O reino dado ao Filho do homem não é humano, mas tem origem divina, e é ao mesmo tempo universal e eterno. A figura celestial representa os santos, mas conforme mostra o simbolismo, é um Personagem divino. Era essa visão que nosso Senhor tinha em mente ao chamar a Si mesmo de Filho do homem. Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi abatido (15). Na própria visão, Daniel se apresenta a fim de mostrar como ele foi afetado pelo que viu. Os santos do Altíssimo (18); não os judeus, em distinção aos gentios, mas sim, os redimidos, isto é, os crentes verdadeiros, que seriam um reino de sacerdotes e nação santa (Êx 19.16). Não fundaram por si mesmos o reino, mas receberam-no como algo confiado pelo Filho do homem, para quem foi dado o reino. Foi dado o juízo (22). Esse versículo expressa o resultado final da guerra que a pequena ponta fará contra o povo de Deus. O juízo será feito por Deus a favor de Seu povo, pelo que ficam em eterna e segura possessão do reino. Um tempo, e tempos, e metade dum tempo (25). Essas palavras caracterizam a intensidade da perseguição movida pela pequena ponta. A duração do período indicado pela palavra tempo não é indicada e, conseqüentemente, não podemos garantir que se trate de um ano. A própria expressão é cronologicamente indefinida, ainda que seu


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 30 significado seja bastante claro. O poder da pequena ponta aparecerá por um tempo, e então por dois tempos. Assim é expresso simbolicamente que a intensidade do poder da pequena ponta será dobrada. Parece que esse poder continuará a crescer, e deveríamos esperar que isso seria dito pelas palavras quatro tempos assim perfazendo um total de sete tempos simbolizando completo e perfeito triunfo da parte do perseguidor. Entretanto em lugar disso, encontramos a menção de "metade dum tempo", e assim aprendemos a respeito do súbito fim do poder da pequena ponta, um fim realizado, segundo acreditamos, pelo julgamento divino e pela volta do Senhor do céu.

Daniel 8 VIII. VISÃO DE DANIEL SOBRE O CARNEIRO E O BODE - 8.1-27 a) A visão é descrita (8.1-14) Na cidade de Susã (2). Algumas versões adicionam, "no castelo". Tratava-se de Susã, a capital da Pérsia, que no Antigo Testamento é constantemente designada como a "fortaleza". Não devemos pensar que Daniel estivesse realmente presente na Pérsia, a contemplar a visão ali, mas antes que, ao contemplar a visão (2), na visão se encontrava em Susã. Um carneiro (3); o carneiro com os dois chifres representa a Média-Pérsia (ver versículo 20). As marradas do carneiro (4) simbolizam as rápidas conquistas dos reis persas. Um bode (5); o bode representa a Grécia (ver versículo 21), enquanto que a ponta notável (ou "conspícua") representa o primeiro rei, a saber, Alexandre (ver versículo 21). O simbolismo do bode a ferir o carneiro (7) significa a conquista da Média-Pérsia pela Grécia.


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 31 Aquela grande ponta foi quebrada (8); assim é simbolizada a morte de Alexandre. Os quatro chifres que se levantaram em seu lugar (8) representam os quatro reinos nos quais foi dividido o império de Alexandre, a saber, a Macedônia, a Trácia, a Síria e o Egito. No versículo 9, a ponta que apareceu, em realidade não é descrita como pequena, mas é dito que "saiu da pequenez", isto é, do estado de ser pequeno. Tendo começado como algo pequeno, aquela ponta foi crescendo até tornar-se grande em poder. A terra formosa (9); trata-se de uma designação de Canaã, a Terra prometida (cf. Jr 3.19). Exército do céu (10); isto é, as estrelas (cf. Jr 33.22); o simbolismo se refere aos santos, que são os objetos do ataque. O príncipe (11) é o próprio Deus. O fato que se engrandeceu (ou agiu grandiosamente) até Deus, consiste na remoção dos sacrifícios do templo. No versículo 14 a duração da desolação causada pelo chifre é estabelecido como duas mil e trezentas tardes e manhãs (ou dias). Isso não significa 1.150 dias, mas realmente 2.300 dias. A expressão "tardes e manhãs" (provavelmente baseada em Gn 1) significa um dia. O período total das abominações de Antíoco Epifânio se estenderia de 171 A. C. a 165 A. C., e então o santuário seria restaurado. Enquanto Daniel, em sua mente, buscava compreender a visão, um anjo semelhante a homem se pôs ao seu lado (15). No versículo 19, no determinado tempo do fim, não se refere ao fim de todas as coisas, nem ao fim do julgamento, mas ao fim do período de aflições que sobrevirão sobre Israel. No último tempo da ira (19); isto é, o fim do período do aparecimento de Antíoco Epifânio. Feroz de cara (23); isto é, alguém que é obstinado, inexorável; a referência aqui é a Antíoco. Entendido em adivinhações (23); isto é, alguém que seria mestre em dissimulações. Sem mão (25); isto é, sem o concurso de mão humana. Deus é que porá fim no poder do tirano.


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Daniel 9 IX. ORAÇÃO DE DANIEL - 9.1-23 Livros (2). Esse termo evidentemente Se refere às Escrituras. Pelo estudo dos escritos de Jeremias, Daniel entendeu que o período de exílio se prolongaria por setenta anos (Jr 25.12). Portanto, Daniel voltou-se para Deus, em súplica, por causa dos pecados de seu povo. Nos versículos 4-14 Daniel reconhece a culpa de Israel e, nesse reconhecimento, inclui sua própria pessoa. Os versículos 15-19 constituem um apelo pedindo a misericórdia e o perdão de Deus. Enquanto Daniel ainda estava ocupado em oração veio Gabriel da parte de Deus para tornar Daniel sábio de entendimento (20-23). X. PROFECIA SOBRE OS SETENTA VEZES SETE - 9.24-27 Esta notável seção declara que um período definido de tempo havia sido decretado por Deus para a realização da restauração de Seu povo da escravidão. O tema geral, a saber, a decretação de um período de setenta setes, estabelecido no versículo 24, e os detalhes são tratados nos três versículos subseqüentes. Será necessário discutir a significação de praticamente cada palavra desta breve seção. Setenta semanas (24). A palavra que usualmente é traduzida como semanas seria mais exatamente traduzida como "setes". Significa um período dividido em sete porções, sendo que a duração exata desse período dividido em sete não é estabelecida. A palavra aparece primeiramente no hebraico e poderíamos parafraseá-la como "um período de setes, de fato, setenta deles". Estão determinadas; isto é, os setes haviam sido decretados por Deus como o período em que seria realizada a redenção messiânica. Sobre; isto é, no tocante ao povo de Daniel e a Jerusalém, a cidade santa. A revelação desse período decretado, portanto, tem referência direta à


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 33 oração de Daniel. O tempo do exílio estava quase no fim; o que restaria, pois, para o povo de Deus? Em resposta, foi revelado que, com respeito a esse povo, havia sido determinado um período de setenta setes, no qual a salvação deles seria realizada. Os setenta setes foram determinados com o propósito expresso de produzir seis resultados, três dos quais negativos e três dos quais positivos. Para extinguir a transgressão; transgressão que de outro modo estaria aberta e nua e que tinha de ser fechada e eliminada, para que não mais seja considerada como existente. Dar fim aos pecados e expiar a iniqüidade. A linguagem implica que seria oferecido um sacrifício necessário, à base do qual seria perdoada a iniqüidade. Assim, o resultado negativo obtido é a abolição da maldição que separa Deus do homem. A natureza dessa maldição transparece no uso das palavras transgressão, pecados e iniqüidade. São em seguida descritos os três resultados positivos. Trazer a justiça eterna. Essa justiça será transmitida vinda do exterior, a saber, de Deus por intermédio do Messias. Essa expressão positiva corresponde à primeira negativa; é removida a transgressão e, em seu lugar, é introduzida a justiça eterna de Deus, que, segundo aprendemos em o Novo Testamento, é recebida pelo crente exclusivamente por meio da fé. Selar a visão e a profecia. A referência aqui é à dispensação do Antigo Testamento, durante a qual o profeta era o representante de Deus perante a nação; e a visão era um dos meios pelo qual Deus tornava conhecida Sua revelação aos profetas. Profeta era um israelita levantado por Deus como porta-voz credenciado, para transmitir as palavras de Deus ao povo. Deus fazia Sua vontade conhecida dos profetas por meio de sonhos e visões (ver Nm 12.1-8). A instituição profética inteira era típica do grande Profeta que viria e, visto que estava sob Moisés, compartilhava do caráter preparatório da era do Antigo Testamento. Quando cessou esse método de revelação, a própria dispensação do


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 34 Antigo Testamento chegou ao seu fim, isso é o que é dito com a selagem da visão e da profecia. Para ungir o Santo dos santos. Esta frase difícil, que literalmente traduzida seria "uma santidade de santidades", aparentemente se refere ao fato do Messias ter sido imbuído do Espírito do Senhor. Pode-se assim ver que os seis objetivos que seriam realizados são todos messiânicos, e pode-se notar que, quando nosso Senhor ascendeu ao céu, cada um desses propósitos tinha sido cumprido. Nos versículos 25-27 são estabelecidos os detalhes sobre o período de setenta setes. O versículo 25 estabelece o início desse período e a duração do tempo até o aparecimento do Messias. A Daniel é ordenado saber e entender a mensagem. Desde a saída da ordem. A tradução deste último termo significa apenas "palavras", O texto se refere à "saída de uma palavra" da parte de Deus, e não à expedição de algum edito da parte de qualquer monarca persa. Ao mesmo tempo, os efeitos da saída dessa palavra apareceram na história humana, e isso sucedeu durante o primeiro ano do reinado de Ciro, quando permitiu que os judeus retornassem à sua terra. O terminus a quo, por conseguinte, dos setenta setes, foi o ano 538-537 A.C. Essa palavra que procedeu de Deus se referia à restauração da cidade de Jerusalém à sua condição anterior. Até ao Messias, o Príncipe; algumas versões traduzem: "até ao ungido"; isto é, alguém que é ao mesmo tempo ungido e também príncipe, ou, em outras palavras, alguém que é sacerdote e príncipe. Existe apenas Um para Quem podem aplicar-se essas palavras, a saber, Jesus, que é o Cristo. Desde o terminus a quo da profecia até o aparecimento do ungido é dito que restavam "sete setes e sessenta e dois setes". É possível que os sete setes representam o período antes do primeiro retorno do exílio sob Zorobabel e da obra de Esdras e Neemias haver sido completada, enquanto que os sessenta e dois setes


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 35 representam o período entre esse tempo e o primeiro advento de Jesus Cristo. Os setes deveriam ser considerados números simbólicos. O versículo 26 trata daquilo que deverá ter lugar após o término dos sessenta e dois setes. Dois acontecimentos são mencionados, mas não é esclarecido se esses sucederão durante o septuagésimo sete ou não, nem quanto tempo depois do término dos sessenta e dois setes. Em primeiro lugar é dito que o ungido será tirado. Esse Messias é que foi "tirado" por meio da crucificação. E não será mais. Por essa expressão é estabelecida a completa rejeição do Messias, tanto pelos homens como por Deus. Em segundo lugar, esse versículo menciona a sorte de a cidade o santuário (isto é, Jerusalém e o templo), que seriam destruídos pelo povo do príncipe que há de vir. Parece que aqui temos uma clara profecia acerca da destruição de Jerusalém durante o reinado de Vespasiano. Até ao fim, isto é, da destruição, continuariam a guerra e a desolação. Ele firmará um concerto (27); melhor tradução seria "ele fará o concerto prevalecer". As palavras hebraicas são incomuns. Algumas vezes são interpretadas como se significassem simplesmente "fazer um concerto". Tal interpretação porém é incorreta, pois não faz justiça ao original que pode significar apenas fazer "prevalecer" um concerto ou "tornar firme um concerto". Fica subentendido que tal concerto já existia, mas que seus termos e condições foram agora tornados efetivos. Quem é esse que faz prevalecer o concerto? Muitos pensam que o sujeito da frase seja o príncipe que há de vir do versículo 26, e ligam-no a Antíoco Epifânio ou ao governante de um futuro Império Romano revivificado. Entretanto a palavra príncipe encontra-se aqui em posição subordinada, e é muito improvável que essa palavra seja o sujeito do versículo 27. É melhor considerar o sujeito como o Messias, visto que Ele é a Pessoa mais proeminente desta passagem. O concerto que deverá prevalecer seria o concerto da graça pelo qual o Messias, por meio de Sua vida e morte, obtém a salvação


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 36 para Seu povo. O septuagésimo sete (um número simbólico) se refere, dessa maneira, ao tempo da vida terrena de nosso Senhor. Na metade desse sete o Messias, por meio da Sua morte, faz cessar os sacrifícios judaicos (cf. Hb 8.13). E sobre a casa (ou "pináculo") das abominações virá o assolador. Em resultado ou conseqüência da morte do Messias alguém que é assolador (isto é, o príncipe romano Tito) aparece sobre "a asa das abominações" (isto é, sobre o pináculo do templo). Por essa linguagem é dado a entender a completa destruição do templo. Esse estado de destruição continuará até à consumação ou "fim completo", que foi determinada por Deus e tem sido derramada sobre a desolação (isto é, as ruínas de Jerusalém e do templo). Esta profecia sobre os setenta setes é uma das mais difíceis de todo o Antigo Testamento e, embora as interpretações quase formem legião, limitar-nos-emos a discussões de três que podem ser consideradas de importância particular. 1. Aqueles que não sustentam o caráter digno de absoluta confiança e a autoridade divina das Escrituras, afirmam que a passagem se refere a Antíoco Epifânio. A desolação descrita no versículo 27, portanto, seria provocada por Antíoco; a pessoa ungida do versículo 25 usualmente é considerada como o sacerdote Onias III, e a passagem inteira é privada de seu caráter messiânico. As objeções a esse tipo de interpretação, no entanto, são tão sérias que é impossível considerá-la como correta. 2. Uma interpretação largamente difundida hoje em dia é o da escola de pensamento dispensacionalista. Os advogados desse ponto de vista naturalmente diferem entre si em alguns pontos, mas sua posição é essencialmente a que segue. O início dos setenta setes é usualmente considerado como o ano vigésimo do reinado de Artaxerxes, que se afirma ser 445 A. C. (ver Ne 2). O período de sete setes se refere à restauração do exílio e à


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 37 reconstrução de Jerusalém, e o período de sessenta e dois setes nos leva até à entrada triunfal de Cristo em Jerusalém. As promessas feitas no versículo 24, entretanto, segundo esse ponto de vista, não foram cumpridas por ocasião do primeiro advento de Cristo e o septuagésimo sete não se segue imediatamente ao sexagésimo nono sete. Antes, entre esses dois setes consecutivos intervém um longo parêntese que é conhecido como a "era da Igreja", um período que não foi revelado aos profetas do Antigo Testamento. Quando esse parêntese tiver terminado, então Jesus Cristo retornará a Seu povo e o septuagésimo sete (de sete anos de duração) terá início. O príncipe do versículo 26, fará aliança com muitos judeus pelo espaço de um sete. Como retribuição à fidelidade que os judeus lhe demonstrarão, ele lhes permitirá que reconstruam o templo e realizem sacrifícios. No meio desse sete (isto é, após 3 1/2 anos, ele violará a aliança, e terá começo uma feroz perseguição que se prolongará pelos 3 1/2 anos restantes do sete, quando Cristo então retornará em companhia de Seus santos a fim de reinar por mil anos. Pela exposição esboçada acima, pode ser verificado que o presente escritor considera que as dificuldades que esse ponto de vista tem de vencer são muito grandes. 3. A interpretação messiânica tradicional envolve menos dificuldades do que as outras e, ao mesmo tempo, faz justiça à linguagem do texto. Segundo esse ponto de vista os setenta setes servem como número simbólico para o período que fora decretado para a realização da salvação messiânica (versículo 24). No versículo 25 é nos ensinado que se seguem dois segmentos de tempo desde a saída da palavra da parte de Deus para reconstruir Jerusalém até o aparecimento de Cristo. Depois de se terem passado esses dois segmentos de tempo, o Messias seria tirado do meio dos viventes por meio da morte, e Jerusalém e o templo seriam destruídos pelos exércitos romanos de Tito. O Messias entretanto, faria os sacrifícios judaicos cessarem por meio de Sua morte, e faria isso no meio do septuagésimo sete. Em conseqüência, o templo seria destruído e a destruição continuará até o fim determinado


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 38 por Deus. O ponto exato do término do período de setenta setes não é revelado. A ênfase recai antes muito mais sobre os grandes resultados que esse período produzirá do que sobre seu início e fim. XI. A VISÃO DE DEUS - 10.1-11.1

Daniel 10 A revelação registrada neste capítulo foi dada a Daniel no ano terceiro de Ciro (1), o que demonstra que ele continuou na Babilônia mesmo depois do tempo mencionado em 1.21. Por qual motivo ele não retornou à Palestina com Zorobabel, não é dito. Deve-se notar que Daniel menciona seu nome babilônio, Beltessazar, aparentemente movido pelo desejo, agora que o Império Babilônio havia caído, de preservar sua identidade entre seu próprio povo. Trata duma guerra prolongada (1). Com toda a probabilidade a significação é "por um longo tempo", visto que a palavra Saba, que aqui é traduzida "guerra", tem sido encontrada nos tabletes de Mari com o sentido de "tempo". Na ocasião em que essa revelação foi feita a Daniel, ele estava ocupado em lamentações, indubitavelmente ocasionadas pela reflexão sobre os pecados do seu próprio povo. Vi um homem (5); a revelação é uma teofania ou aparição préencarnada do Filho eterno. A linguagem da descrição nos faz lembrar da linguagem de Ez 1 (cf. também Ap 1.13-15). A visão produziu em Daniel um efeito de enfraquecimento (8). Daniel, homem muito desejado (11). Cf. 9.23. Sendo-lhe assegurado que era homem desejado por Deus, Daniel é encorajado e preparado a ouvir a mensagem que segundo é informado, diz respeito aos derradeiros dias (14), isto é, à era messiânica. É relatado primeiramente (20) que Aquele que falava haveria de pelejar contra o príncipe dos persas (isto é, o poder espiritual por detrás dos deuses da Pérsia), e quando se saísse Ele vitorioso (saindo eu,


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 39 isto é, vitorioso da batalha), apresentar-se-ia o príncipe da Grécia e seria igualmente combatido. Somente Miguel estava à mão para prestar ajuda, assim como, no primeiro ano de Dario, o medo, Aquele que falava o havia ajudado (10.21; 11.1; cf. versículo 13). Assim sendo, havia severas provações que o povo de Deus teria de atravessar.

Daniel 11 XII. REVELAÇÃO SOBRE O FUTURO - 11.2-20 O versículo 2 significa que três reis haveriam de surgir depois de Ciro, e que o quarto depois deles despertaria todo o reino da Grécia. Os reis, portanto, deveriam ser Ciro e mais três que ainda surgiram -Cambises, Smerdis e Dario Histaspes – e o quarto, Xerxes. Um rei valente (3); isto é, Alexandre, o Grande. Quando Alexandre subisse ao poder, seu reino seria partido. Ao falecer na Babilônia, Alexandre tinha cerca de trinta e dois anos de Idade. Por ocasião de sua morte seus doze generais dividiram os ganhos entre si. Por algum tempo Arideus, um dos guardiões de um dos filhos de Alexandre, foi quem governou, mas logo o império foi partido em quatro divisões. O rei do Sul (5); isto é, o rei do Egito (Cf. versículo 8). A dinastia que governou o Egito, depois da partilha do reino de Alexandre, era conhecida por Ptolemaica, enquanto que aquela que governou a Síria era conhecida por Selêucida. O rei do sul é Ptolomeu Soter (322-305 A. C.), enquanto que o príncipe mencionado é Seleuco. A filha do rei do Sul (6); isto é, Berenice, a filha de Ptolomeu, que se casou com Antíoco II, mas que foi incapaz de manter-se em vista da rivalidade de outra esposa, Laodice. Antíoco finalmente se divorciou de Berenice e Laodice encorajou seus filhos a assassinarem Berenice. Do renovo das suas raízes (7). O irmão de Berenice (isto é, de sua linha ancestral) veio contra o exército do norte e conseguiu eliminar


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 40 Laodice pela morte. As Escrituras, então, continuam relatando as diversas batalhas e guerras entre os Ptolomeus e os Selêucidas, até o aparecimento de Antíoco Epifânio. XIII. OS TEMPOS DE ANTÍOCO E DO ANTICRISTO - 11.21-12.3

Um homem vil (21). Com essa descrição é apresentado Antíoco Epifânio. Por meio de lisonjas ele se aliou aos reis de Pérgamo, e os sírios cederam a ele. Ele era mestre em astúcia e traição, pelo que seus contemporâneos apelidaram-no de Epimanes (maluco), em lugar do título que ele mesmo se deu, Epifanes (ilustre). O príncipe do concerto (22). A identificação deste príncipe não é certa, mas a linguagem parece referir-se a algum príncipe que mantinha relações de aliança com Antíoco. Subirá (23); uma declaração geral da elevação de Antíoco ao poder. Caladamente (24). Quando todos se julgavam seguros, ele surgiu. Ele tomaria as mais férteis das províncias e as fortalezas da terra do Egito. Os versículos 25-28 descrevem a primeira campanha de Antíoco contra o Egito, uma campanha na qual o Ptolomeu egípcio não pôde resistir em vista da traição daqueles que deveriam tê-lo apoiado. Antíoco (27) demonstrou hospitalidade para com seu inimigo, mas, em realidade violou o costume da hospitalidade oriental proferindo palavras mentirosas. Por ocasião de seu retorno Antíoco voltou o coração contra o santo concerto (28), isto é, a terra da Palestina. O versículo 29 descreve outra campanha contra o Egito, que é a terceira. Aparentemente tinha havido ainda uma segunda campanha, sobre a qual o livro de Daniel faz silêncio. Deve-se notar, incidentalmente, que esse relato inteiro é transcrito no tempo verbal futuro. Segundo o escritor sagrado, esses acontecimentos ainda não se


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 41 tinham desenrolado, mas deveriam ocorrer no futuro. O relato, por conseguinte, apresenta-se como verdadeira profecia. Navios... lhe causarão tristezas, e voltará e se indignará (30). A presença dos romanos obrigou Antíoco a partir do Egito e assim, tomado de ira voltou sua atenção para a Palestina. Jerusalém foi atacada em um sábado e um altar pagão foi erigido sobre o altar das ofertas queimadas. Certos Judeus apóstatas foram pervertidos (32), e serviram para materializar os desígnios do conquistador, mas muitos entre os judeus, os verdadeiros eleitos, sofreram a morte não querendo ceder a Antíoco (cf. 1 Mac 1.62). Nessa ocasião homens de verdadeira fé foram capazes de instruir a outros, embora sofressem grandemente (33). O pequeno socorro (34) que ajudou os fiéis se refere aparentemente a Judas Macabeu. Alguns dos sábios que o seguiram tropeçaram por causa da severidade da perseguição. Ao mesmo tempo, a rebelião de Judas Macabeu foi bem sucedida, e, a 25 de dezembro de 165 A. C., foi rededicado o altar do templo. Os vv. 36-45 se revestem de particular interesse. Muitos expositores acreditam que dão prosseguimento à descrição a respeito de Antíoco. Mas, há certa dificuldade nessa posição, entretanto, visto que a morte de Antíoco foi muito diferente da que é aqui descrita. A interpretação que pode ser chamada de tradicional na Igreja Cristã é a que considera esses versículos como referências ao Anticristo. Antíoco Epifânio, que perseguiu a congregação judaica pouco antes do primeiro advento de Cristo, pode ser considerado como tipo do Anticristo, que perseguirá a Igreja pouco antes do segundo advento de Cristo. O versículo 36 estabelece que o rei aludido se engrandecerá sobre todo o deus, uma descrição que não pode ser bem aplicada a Antíoco Epifânio. Semelhantemente, é difícil ver em que Antíoco teria demonstrado falta de respeito para com os deuses de seus pais (37). A linguagem dos versículos 40-45 ensina que no fim da era presente o Anticristo ocupar-se-á de um feroz conflito. Ele finalmente


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 42 tomará posição entre o mar grande (o Mediterrâneo) e o monte santo e glorioso (isto é, Sião) onde virá o seu fim.

Daniel 12 Quando esses acontecimentos tiverem lugar, todo aquele que for achado escrito no livro (12.1), será livrado. A referência aqui é aos eleitos, aqueles que estão predestinados para a vida eterna. A perseguição movida pelo Anticristo fará com que muitos venham a cair. Aqueles cujos nomes estão escritos no livro, todavia, serão livrados. Isso é verdade também no tocante aos que dormem (2). Muitos deles (a referência é sobre aqueles que morrerão durante a tribulação – e não sobre todos os mortos) ressuscitarão, alguns para a vida eterna e outros para a eterna repreensão. Aqui é feita referência não à ressurreição geral, mas antes, ao fato que a salvação não será apenas para aqueles que estiverem vivos, mas também para certos dentre aqueles que perderam suas vidas durante a perseguição. XIV. CONCLUSÃO DA PROFECIA - 12.4-13 A Daniel é ordenado que proteja as palavras que tinham acabado de lhe ser reveladas até o tempo do fim. O conhecimento dos propósitos de Deus se encontra no mundo, nas Escrituras, mas os homens correrão de um para outro lado em vão, não os procurando no único lugar em que a verdade pode ser encontrada. O versículo sete se refere novamente à duração do poder do Anticristo e ao seu fim (ver nota sobre 7.25). Os números que aparecem nos versículos 11 e 12 devem ser tomados simbolicamente – os 1.290 dias simbolizando o período da perseguição movida por Antíoco, enquanto que os 1.335 dias aparentemente simbolizam o período inteiro da perseguição, até sua consumação. Aquele que perseverar durante todo esse período será bendito.


Daniel (Novo Comentário da Bíblia) 43 O próprio Daniel é assegurado quanto à sua salvação, e que receberia sua porção no fim dos dias (13). Que esse mesmo destino seja o de todos quantos lerem estas palavras. Edward J. Young.


Daniel - N. Comentario