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EDITORIAL

Manoel Canuto

O Culto Simples

T

emos hoje uma verdadeira batalha em torno da defesa da

homem adorá-lo. Deus sempre colocou diante do homem princípios

liberdade religiosa. Muitas entidades, até mesmo não religio-

para a pureza da adoração. Deus não pode ser cultuado segundo as

sas, buscam a defesa da livre prática das muitas crenças. E

imaginações e invenções humanas, nem através de qualquer repre-

toda esta batalha gira essencialmente em torno do modo como se

sentação visível. A ênfase é que Deus não pode ser cultuado através

presta culto à sua divindade. O mundo tem defendido, com poucas

de nenhum outro modo que não seja prescrito ou ordenado nas

exceções, que cada pessoa adore livremente ao seu deus. Alguns, e não poucos, manifestam a opinião de que não se deve condenar nenhuma religião, sob pena de incorrer em condenável crime do preconceito contra a cidadania. Todos dizem que qualquer pessoa tem o “direito” de adorar ao deus que deseja e da forma que imagina. I. G. Vos afirma que se esta palavra “direito” não for bem entendida teremos muita confusão e mal entendido. Na verdade há uma diferença entre direito civil e direito moral. O direito civil tem sua validade no âmbito da sociedade humana, mas o direito moral tem

Escrituras. Por isso o crente não pode pensar como o mundo pensa. Sua liberdade religiosa não deve ser vista como uma liberdade para fazer o que deseja, mas como uma libertação das ciladas e amarras de Satanás que o incita a adorar da maneira que ele pensa; o Cristão é liberto de seus pensamentos carnais para fazer a vontade de Deus revelada na Bíblia. Segundo as Escrituras, o culto não deve ser prestado a anjos, nem a santos, nem a qualquer outra criatura, mas somente a Deus Pai, Fi-

validade no âmbito da Lei moral de Deus. Ninguém pode impedir

lho e Espírito Santo. Deve ser um culto simples através da oração com

que um homem de muitas posses gaste seu dinheiro em orgias e

ações de graça, da leitura das Escrituras, da sã pregação da Palavra,

em práticas mundanas se esse é seu desejo. O que o governo pode

do cântico dos salmos, pela administração correta dos sacramentos e,

e deve fazer é cobrar deste homem, que ele pague seus impostos e

em ocasiões especiais, com ações de graça, jejum, votos e juramentos.

não proceda de forma a afrontar ou prejudicar qualquer cidadão.

Assim dizem os teólogos de Westminster.

No entanto, quando este homem está diante de Deus, usando des-

Somos gratos aos reformadores por redescobrirem o culto sim-

tas práticas carnais, ele tem de abandoná-las e pensar naquilo que

ples praticado no período apostólico. Dr. Pipa de Greenville ilustra

Deus determinou que não deve ser feito, sob pena de ser condenado

aos seus alunos a simplicidade do culto reformado, dizendo: “Outra

ao prestar contas no dia do juízo. Assim, podemos entender que a

maneira de pensar sobre a simplicidade do culto é o que chamo de

lei civil garante a qualquer pessoa cultuar seu deus como desejar ou até mesmo nunca cultuar, desde que alguma coisa escandalosa não seja praticada, ou não coloque em risco a vida de alguém ou não degrade a sociedade civil. Mas muitos crentes imaginam que esta lei civil de liberdade religiosa deve ser aplicada nas igrejas de hoje. Esquecem que diante da Lei moral de Deus ninguém tem o direito de adorá-Lo da forma como deseja. O homem tem uma natureza corrompida e esta corrupção o leva sempre a buscar uma forma impura de cultuar a Deus, mes-

portabilidade (de portátil) de culto. Portabilidade significa que nós podemos realizar nossa adoração em qualquer lugar. Essa é a simplicidade da adoração, nós apenas precisamos de um púlpito, uma mesa para a comunhão, um livro de louvor, um pequeno frasco de água, um pouco de vinho e um pão ― isso é o suficiente”. Quão diferente dos dias de hoje! Não preciso mencion ar as distorções cúlticas praticadas hoje quando este princípio da simplicidade é esquecido. Deus adverte no 2º mandamento: “porque eu sou o SENHOR,

mo que suas intenções sejam sinceras. Desde cedo o homem teve

teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até

de aprender a cultuar ao Criador. Foi-lhe necessário adorar com fé,

à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço miseri-

para que Deus aceitasse sua adoração ― fé em alguma verdade. O

córdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus

homem tem de adorar crendo na vontade de Deus revelada. Vemos

mandamentos” (Ex 20:5-6).

em toda a Escritura que Deus sempre estabeleceu o modo correto do

REVISTA OS PURITANOS Ano XVII - Número 4 - 2009 Editor Manoel Canuto mscanuto@uol.com.br Conselho Editorial Josafá Vasconcelos e Manoel Canuto

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Boa leitura.

Revisores Manoel Canuto; Linda Oliveira Tradutores Linda Oliveira; Marcos Vasconcelos, Márcio Dória, Josafá Vasconcelos Projeto Gráfico e Capa Heraldo F. de Almeida Impressão Facioli Gráfica e Editora Ltda. Fone: 11- 6957-5111 — São Paulo-SP

OS PURITANOS é uma publicação trimestral da CLIRE — Centro de Literatura Reformada R. São João, 473 - São José, Recife-PE, CEP 52020-120 Fone/Fax: (81) 3223-3642 E-mail: ospuritanos@gmail.com DIRETORIA CLIRE: Ademir Silva, Adriano Gama, Waldemir Magalhães.

Revista Os Puritanos 4•2009


Adoração Reformada Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim o adorem (Jo.4:24)

Dr. David Murray

M

Eles entenderam que nesta área da adoração, a melhor forma de se centralizar em Deus era se centralizar na

uitos crentes e igrejas, em todo mundo, estão

Palavra. Quando eles jogaram fora tudo que era feito

redescobrindo a verdade a respeito da adora-

pelo homem, isso deixou um vácuo a ser preenchido.

ção reformada. Isso é uma providência mara-

vilhosa da parte de Deus, mas na maioria das vezes essa

Dentro deste vácuo eles tinham de colocar a adoração centrada na Palavra de Deus.

verdade reformada tem se limitado apenas à doutrina

Inicialmente vamos focalizar esta área dos cânticos

da salvação. Em outras palavras esta reforma estancou

de louvor. A Reforma passou por dois estágios na re-

no ponto referente às doutrinas da graça e não foi além,

forma dos cânticos na Igreja. Em primeiro lugar, Lute-

não progrediu para outras áreas, como por exemplo, a

ro foi o pai do cântico congregacional. Ele viu que por

vida cristã e o culto cristão. Isto na verdade não é uma

mais de mil anos na Igreja os cânticos estavam nas

reforma plena porque a reforma verdadeira e plena

mãos dos corais, dos monges e das freiras e não nas

atinge todas as áreas da plenitude de vida dos cristãos

mãos do povo de Deus. Uma das primeiras coisas que

e da Igreja. Quero falar sobre o tópico da necessidade

Martinho Lutero fez em 1524 foi introduzir na Igreja

de se trazer reforma para toda a área que diz respeito

o uso do hinário. Lutero trouxe de volta ao povo de

à adoração. Gostaria de tratar de três áreas neste tema.

Deus o cântico congregacional. Eles não precisavam

Na primeira gostaria de tratar da história da reforma

mais vir ao culto vendo-o apenas como uma forma de

na adoração. Em segundo lugar tratar da regulamenta-

simples performance, mas eles vinham para partici-

ção da adoração bíblica e em terceiro lugar tratar das

par. A segunda etapa foi com Calvino. Lutero restau-

razões para termos uma adoração bíblica.

rou o louvor congregacional, mas Calvino restaurou a cântico bíblico. Calvino via que na igreja primitiva,

I) A Reforma da Adoração Bíblica → Quando os

no início do Novo Testamento, a igreja cantava os

reformadores redescobriram o evangelho bíblico, eles

salmos. Ele percebeu que o coração não apenas deve

também perceberam a necessidade da redescoberta da

ser guiado pela Bíblia, mas que a adoração deve ser

adoração bíblica. Quando perceberam a salvação em

repleta de Bíblia e que o cântico na adoração bíblica

termos de glorificar a Deus, nos termos da centralidade

não precisa apenas ser guiado pelos princípios bíbli-

de Deus, então perceberam que a adoração resultan-

cos, mas deveria ser cheio de conteúdo bíblico. Então,

te disso também deve ser uma adoração centrada em

Calvino reintroduziu o saltério na igreja de Cristo.

Deus e que O glorifique. Os reformadores viam muitas

Para Calvino a adoração a Deus deveria ser o encon-

coisas e acréscimos humanos colocados na adoração a

tro com a Palavra, a leitura da Palavra, a pregação

Deus como os altares, as vestimentas, as velas, os ou-

da Palavra, o cântico da Palavra. Tudo tinha de ser

tros sacramentos, incensos, etc. e para retornar a uma

centralizado na Palavra de Deus. Esta é uma breve

adoração centrada em Deus eles teriam de jogar fora

história da reforma na adoração bíblica.

todos aqueles acréscimos humanos. Martinho Lutero iniciou este processo. Zuínglio, Martin Bucer e Calvino

II) A Regulamentação da Adoração Bíblica →

continuaram depois dele. Cada um deles ia jogando fora

Todo cristão tem algum tipo de regulamentação acer-

mais e mais aquilo que pertencia à imaginação humana

ca da adoração. Todo crente coloca uma linha (limite)

e trazendo mais e mais aquilo que era centrado em Deus.

em algum lugar no culto. De um lado da linha há uma

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David Murray

adoração aceitável e do outro lado da

e. PRESCRIÇÃO. É a regra usada por

minou. E se os governadores humanos

linha uma que é inaceitável. Todos nós

Calvino que a descobriu na Palavra de

fazem assim, quanto mais o Rei dos

estamos de acordo que existem algu-

Deus: Somente aquilo que é ordenado

Reis e o Senhor dos Senhores. De onde

mas coisas que são boas para o culto e

na Bíblia deve ser permitido e usado

tiramos isso na Bíblia? Vejamos em

outras que não devem existir no culto.

no culto a Deus. Verdadeira adoração é

Levítico 10. 1-3:

A única questão é: Como e onde vamos

adoração ordenada nas Escrituras con-

“Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram

colocar esta “linha” demarcatória? Qual

forme a vontade de Deus. Se não for

cada um o seu incensário, e puseram

a regra que vamos seguir para saber o

ordenado, não é autorizado. A Bíblia

neles fogo, e sobre este, incenso, e trou-

que é aceitável e o que é inaceitável?

ordena dramatização, teatro, no culto?

xeram fogo estranho perante a face do

Deixe-me dar algumas regras que são

Não. A Bíblia ordena o uso de velas?

SENHOR, o que lhes não ordenara. Então,

usadas em nossos dias. Todos nós te-

Não. A Bíblia ordena o uso de vestimen-

saiu fogo de diante do SENHOR e os con-

mos alguma destas regras.

tas clericais? Não. Então, temos aqui a

sumiu; e morreram perante o SENHOR.

regra mais radical de todas. É o Princí-

E falou Moisés a Arão: Isto é o que o

a. O PASSADO. “Sempre foi assim!”, muitos dizem. E se foi suficiente para as

pio Regulador. Mas, de certa forma nós

SENHOR disse: Mostrarei a minha san-

pessoas do passado, será bom para nós

podemos dizer que todas aquelas regras

tidade naqueles que se cheguem a mim

também hoje. “Nossos pais adoraram

são “princípios reguladores”. Todas elas

e serei glorificado diante de todo o povo.

assim então, assim nós adoraremos”.

regulam o culto. Então, todos nós temos

Porém Arão se calou” (Lv 10:1-3).

Dessa forma o passado é a regra para

algum tipo de princípio regulador. As-

o presente.

sim a pergunta é: Será que este nosso

Vejamos aqui a frase-chave, no final do v. 1: “o que lhes não ordenara”.

b. A PREFERÊNCIA. Esta a regra do

princípio regulador é o Princípio Regu-

Estes homens eram religiosos e ado­

que eu gosto, do que eu quero e do que

lador da Bíblia? O Princípio Regulador

radores; tinham boas intenções e prova-

eu acho agradável. Eu gosto assim; eu

bíblico, como podemos demonstrar, é a

velmente eram sinceros, mas fizeram o

me sinto bem com isso; isso está de

prescrição. Somente aquilo que foi pres-

que não havia sido ordenado por Deus.

acordo com minha personalidade; é a

crito e ordenado é permitido. Quando

minha preferência.

estamos considerando nossa adoração,

“Pois, visto que não a levastes na pri-

E também em 1 Crônicas 15.13:

c. PRAGMATISMO. Isso funciona, atrai

é esta a pergunta que devemos fazer:

meira vez, o SENHOR, nosso Deus,

pessoas e é popular? Então, vamos fa-

Deus ordenou isso? Não devemos per-

irrompeu contra nós, porque, então,

zer assim! Não fazer de outra forma,

guntar: Ele proibiu isso? Isso foi sempre

não o buscamos, segundo nos fora or-

porque não seria popular e não atrai-

feito assim? Gostamos disso? Também

denado”.

ria as pessoas. Assim, nossa regra é o

não devemos perguntar: “isso funcio-

pragmatismo: o que funciona.

na?”. E assim por diante.

Lembramos que aqui Davi e o povo de Israel tentaram levar a arca da alian-

d. PROIBIÇÃO. Tudo é permitido no

Por que Deus fez assim com o cul-

ça para Jerusalém e isto era uma coisa

culto desde que não seja explicitamente

to? Em parte é porque temos corações

boa; estavam com muita sinceridade, ti-

proibido na Palavra de Deus. Esse foi o

pecaminosos e corruptos. Nossos co-

nham boas motivações. Mas eles não fi-

princípio que Lutero usou. Ele basica-

rações não são confiáveis! E não pode-

zeram segundo as ordenanças de Deus.

mente disse: Se a Bíblia não proíbe as

mos confiar em nossos corações para

Por isso, quando Uzá tentou tocar na

velas, então podemos usá-las e assim

acharmos a forma correta de adorar a

arca, Deus o matou. Assim eles disse-

por diante. Então, se conclui, não ha-

Deus. Por isso Deus nos deu direcio-

vendo uma clara proibição, podemos

namento suficiente para que sigamos.

ram: “não o buscamos, segundo nos fora ordenado”. Podemos ver a mesma coisa

fazer. Bem, a Bíblia não proíbe em ne-

E este direcionamento é uma direção

com o Rei Jeroboão e o Rei Uzias que

nhum lugar a dramatização no culto,

externa a nós. Deus tem o direito de

foram castigados por terem adorado a

então pode-se usar o drama, o teatro e

decidir como Ele mesmo quer que

Deus de uma forma que Ele não tinha

assim por diante.

seja adorado. Pense no presidente do

ordenado. Deus tem nos dado muitas

Eu diria que estas são as quatro re-

Brasil. É ele quem decide como fun-

advertências sobre o que Deus nos fará

gras mais usadas hoje pelas pessoas

ciona seu governo, como as pessoas

se não respeitamos aquilo que Ele tem

para saber o que devem fazer no culto.

devem se aproximar dele. Ele decide

definido. Quando nós realmente abra-

Mas a pergunta a ser feita é: Elas são

o cerimonial para receber as pessoas.

çamos este princípio de que somente

Bíblicas? A resposta é: Não! Então, qual

Se nós desejamos agradá-lo, então va-

aquilo que Deus tem ordenado é legíti-

é a regra bíblica?

mos seguir tudo aquilo que ele deter-

mo no culto, o que sobra, então?

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Adoração Reformada

A Confissão de Fé de Westminster

não apenas Salmos, mas outros hinos e

para a nova dispensação, porque acom-

que inclui estes dois textos citados, no 2º

cânticos também”. Temos duas coisas

panhou a última celebração da páscoa

Mandamento da Lei e no Capítulo XXI, I

a dizer em resposta a esta afirmação:

e a primeira celebração da Santa Ceia

(Do Culto e do Dia de Repouso), afirma:

1. OS TÍTULOS DOS SALMOS DO VE-

do Senhor. Neste versículo Jesus está

“Mas a forma aceitável de cultuar o Deus

LHO TESTAMENTO → Primeiro, veja-

dizendo que estes mesmos Salmos do

verdadeiro é instituída por sua própria

mos os títulos dos Salmos do VT. Eles

Antigo Testamento são adequados e

vontade revelada, de modo que ele não

são tra­duzidos em grego (na Septua-

suficientes no Novo Testamento.

pode ser cultuado segundo as imagina-

ginta) usando estes três títulos coloca-

Então, como vimos antes, no Velho

ções e invenções humanas, nem segun-

dos nestes versículos citados. Quando

Testamento nós temos prescrição e exem-

do as sugestões de Satanás, sob alguma

Paulo está falando deste cantar os “sal-

plo. Mas também no Novo Testamento

representação visível, ou por qualquer

nós temos prescrição e

outra forma não prescrita na Sagrada

mos, cânticos e hinos espirituais”, ele está

Escritura” (CFW).

se referindo ao livro

tanto, como os refor-

exemplo. Vemos, por-

Veja o que lemos aqui. Nós não po-

de Salmos que con-

madores restauraram

demos adorar a Deus usando ídolos ou

tém “salmos, hinos

o Princípio Regulador

qualquer outra forma não ordenada na Palavra. Mas alguém poderia di-

e cânticos espirituais”. Esta ex­pressão,

zer: “Eu nunca iria adorar a Deus com

“cânticos espi­rituais”,

ídolos”. Mas aqui a Confissão de Fé de

significa cânticos do

Westminster reúne o ensino bíblico

Espírito Santo ― Cân­

sobre este assunto e diz que qualquer

ticos inspirados pelo

adoração que não encontra prescrição

Espírito Santo. Pelos

ordenada por Deus na Palavra, é idola-

títulos dos Salmos, nós

A Verdadeira adoração é adoração ordenada nas Escrituras

do culto. Sendo assim, o culto precisa ser algo ordenado hoje. Recentemente

li

uma citação de Ray Lanning que é um perito reformado neste assunto de culto e ele

tria. Não é que você está adorando ao

entendemos que Paulo

Deus errado, mas a questão é que você

está dizendo: “Salmos,

está adorando a Deus de forma errada;

Salmos e mais Salmos”.

das pelos reformado-

de uma forma não ordenada nas Sagra-

2. EXEMPLO DO

res, nenhuma foi mais

das Escrituras. Então, podemos usar

NOVO TESTAMENTO

dramática do que a

isso também na área do louvor, nos

→ A segunda coisa é

mudança do culto pú-

cânticos, porque podemos e devemos

o exemplo que temos

blico”. Calvino disse:

aplicar este princípio a todas as áreas

no NT. Por exemplo, Mateus 26.30: “E, “Todo serviço a Deus que é inventado

do culto. Do início até o fim, Deus tem

Deus sem o Seu expresso mandamen-

na isto e aquilo. E nos cânticos de lou-

tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras”. Veja: “... tendo cantado um hino”. Aqui Jesus estava senta-

vor, o que Deus nos ordenou a usar?

do com seus discípulos na última Ceia

sérias.

ordenado esta área ou aquela; Ele orde-

dizia: “Das muitas mudanças

implementa-

pelo cérebro do homem na religião de to é idolatria”. Estas palavras são bem

Segundo o pensamento dos reforma-

Pascal e na primeira mesa da Santa Ceia.

dores, Deus nos ordenou o cântico dos

Aqui mais uma vez hino, no grego,

III. As Razões do Culto Bíblico → Por

Salmos. No Velho Testamento temos

significa Salmo. Naquela época, esta era

que tudo isso é importante? Por que

exemplos dos Salmos sendo cantados,

uma prática bem conhecida na igreja

estamos enfatizando estas coisas? Por que Deus deseja assim?

mas também no Novo Testamento. Por

judaica. Quando os judeus estavam

exemplo, Colossenses 3:16 ― “Habite,

celebrando a páscoa, eles cantavam

ricamente, em vós a palavra de Cristo;

os hinos pascais. Esses hinos pascais

Primeiro, porque seguindo este pa-

instruí-vos e aconselhai-vos mutuamen-

nós os encontramos dos Salmos 113

drão bíblico, conseguiremos ter simpli-

1º) Simplicidade

te em toda a sabedoria, louvando a Deus,

ao 118. Jesus cantou com seus discípu-

cidade. Todas as decisões sobre o que

com salmos, e hinos, e cânticos espiri-

los estes hinos. Um comentarista disse

deve existir no culto se tornam tão

tuais, com gratidão, em vosso coração”.

que o canto destes Salmos de Hallel,

simples. Não importa quantas pessoas,

Vemos também isso em Efésios 5:19. À

por Cristo e seus discípulos na noite da

sejam elas jovens ou velhas, cheguem

primeira vista, vendo estes versículos

Sua traição, marca o momento no qual

dizendo: “Esta é uma idéia ótima para

você pode dizer: “Então eu posso cantar

o saltério passa da antiga dispensação

o culto”. Nós não precisamos consultar

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David Murray

o passado, não precisamos perguntar

da aos seus próprios olhos. Um dia você

Criador, Cristo o Provedor, Cristo o Guia,

se isso vai ser popular, não precisamos

entra em uma igreja, outro dia em outra

Cristo o Defensor, e assim por diante...

perguntar se isso vai funcionar, não é

igreja, e percebe uma diferença enorme

Então cantaremos estes Salmos de uma

necessário procurar na Bíblia para ver

entre elas. Uma diferença tão grande que

forma trinitariana.

se há uma proibição, mas simplesmen-

estas igrejas nunca chegarão a se reu-

2) Em segundo lugar podemos can-

te perguntar: “Isso foi ordenado? Isso é

nir para adorar juntas. Todas aquelas

tar os Salmos de Cristo (acerca de Cris-

requerido?”. Simplicidade! Realmente

regras não bíblicas têm levado a Igreja

to). Quantos salmos estão profetizando

isso iria simplificar de forma impressio-

às chamadas guerras litúrgicas. Imagi-

sobre a vinda de Cristo a este mundo?

nante os cultos de adoração nas igrejas.

nemos se todas as igrejas no Brasil fe-

Fiz uma lista rápida. Veja o Salmo 45:6

2º) Espiritualidade

chassem as suas portas e tivessem uma

que fala da divindade de Cristo; Salmo

Um segunda razão é a espiritualida-

reunião a portas fechadas. Dissessem:

2:7 que diz que Ele é o Filho eterno; o

de. A igreja Católica Romana chegou a “Vamos abrir a Bíblia e, baseados na Pa-

Salmo 8:5 fala da encarnação de Cristo;

ter um sistema de culto tão complexo

lavra de Deus, vamos decidir o que Deus

os ofícios de Cristo como mediador no

que o povo ficava assistindo apenas

ordena para estar presente em nossos

Salmo 40:9-10 e Salmo 110:4; Salmo

aquilo que é externo na adoração. Eles

cultos; se acharmos alguma coisa que é

41:9, que fala da traição do Senhor; o

esqueceram que Deus quer ver nosso

ordenada na Bíblia, isso estará presente;

julgamento de Cristo no Salmo 35:11;

coração e que é necessário que o culto

se não acharmos uma ordenança para

a rejeição de Cristo no Salmo 22:6; o

seja espiritual. Quanto mais tornamos

determinada coisa, isso fica fora”. Não

sepultamento e rejeição de Cristo no

complexo nosso culto, mais externo,

temos dúvida de que muitas coisas se-

Salmo 16: 9-11; a ascensão de Cristo no

mais exterior ele se torna. Mas se tira-

riam colocadas fora. Mas, imaginemos

Salmo 47:5; a segunda vinda de Cristo

mos tudo que apela aos nossos olhos

se depois dessa decisão as portas fos-

no Salmo 50:3-4. Como pode alguém di-

e nossos sentidos, nossa visão, nosso

sem abertas e todos se reunissem para

zer que Cristo não está nos Salmos? Está

tato, então chegarem a ter algo bem

uma adoração conjunta. Todos eles es-

ou não está? Muitos têm a vista curta.

simples e assim podemos nos focar no

tariam no “mesmo script”. Talvez isso

Todos os Salmos que estamos entoando,

coração e não naquilo que está lá fora.

requeresse algum tempo, mas todos

cantam Cristo. Nós cantamos a Cristo e nós cantamos de Cristo.

Por isso os reformadores pintaram de

chegariam ao mesmo ponto. Isso uniria

cal todas as igrejas, por dentro e por

as igrejas de forma extraordinária e im-

3) Em terceiro lugar cantamos por

fora. Tiraram todas as janelas com

pressionante. Impressionaria o mundo,

meio de Cristo. Quando estamos ofere-

seus vitrais coloridos; aboliram todas

também. Isso impactaria o mundo mais

cendo um culto a nosso Deus, devemos

as vestimentas clericais; todos os in-

do que nossas divisões estão fazendo.

oferecê-lo pela mediação de Cristo.

censos e sinos; tudo que impressiona-

4º) A glória de Deus

4) Em quarto lugar cantamos com

va os olhos. “Vamos simplificar”, eles

Uma quarta razão é a glória de Deus.

Cristo. Que hinário Cristo usava quando

disseram “para que o povo possa nova-

Se nós dissermos: “Nós não somos con-

esteve neste mundo? Ele usava o livro

mente adorar de coração. Isso melhora

fiáveis para dizer o que é apropriado

de Salmos. Isso era o maná da Sua alma.

a espiritualidade”. Já participei de cul-

para o culto; só Deus tem o direito de

Esses foram os cânticos que sua mãe o

tos onde a adoração era bem extrava-

dizer o que é legítimo na adoração e eu

ensinou a cantar. Foram os cânticos que

gante, bem impressionante aos olhos e

me submeto a tudo aquilo que Ele orde-

Ele tinha na memória quando estava na

aos ouvidos. De fato isso tem sido de-

na”, o que isso me diz? Diz que Deus es-

Sinagoga; foram estes os cânticos que

masiado para ser provado, vivenciado.

teja em seu trono e eu esteja no pó! Isso

gradativamente lhe revelavam todas

Nestas adorações os sentidos têm sido

dá a Deus todo o seu direito e nos torna

as implicações do seu trabalho como

tão estimulados que nos faz perguntar

seus servos. Assim Deus é glorificado.

Mediador. Portanto, vemos que em

se aqui está sendo realizado um culto que parte do coração. 3º) Unidade A terceira razão é a unidade. Qual é a

Mais uma vez vamos nos focar apenas nos Salmos.

momentos críticos e importantes de sua vida, estes Salmos surgem em seu

1) Podemos cantar os Salmos a Cris- coração. Estes Salmos edificavam sua to. Quando lemos a palavra “Deus” ou própria alma. O primeiro Salmo que

conseqüência quando as pessoas estão

“Senhor” ou “Rei”, nos Salmos, podemos

uma mãe judia ensinava a seu filho era

seguindo várias regras quanto ao culto?

cantar estas coisas a Cristo o Senhor,

aquele que dizia: “Em tuas mãos entrego

A consequência é a divisão da igreja de

Cristo o Rei. Seus títulos e seus nomes

o meu espírito”. Quais foram as últimas

Cristo! Cada igreja faz aquilo que agra-

se acham em todos os Salmos. Cristo o

palavras que saíram da boca de Jesus?

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Adoração Reformada

Veja o Salmo 22 e o 69. Eles nos revelam

vilégio podermos tomar estes mesmos

homens. Ele diz: “em vão me adoram”.

tudo que estava se passando na mente e

cânticos em nossos lábios e podermos

Então, vamos ter a coragem de fazer

no coração de Jesus quando ele estava

cantar com Cristo como Ele cantou. Ele

uma reforma na adoração.

morrendo. Os Evangelhos nos revelam

cantou assim e nós cantamos também. Nós

4) Vamos tentar persuadir outras

e relatam muitas coisas dos sofrimentos

cantamos a Ele, nós cantamos Dele, canta-

pessoas. É esta a palavra correta: PER-

externos de Cristo, mas não chegam a

mos por meio Dele e com Ele.

nos informar aquilo que estava se passando no seu coração. Mas os Salmos

SUADIR. Mas não vamos agir de forma

Deixe-me encerrar com algumas colocações finais:

a destruir igrejas, mas usar de gentileza, de sabedoria, de forma gradativa, ten-

1) Por que fazemos o que fazemos?

tando ganhar as pessoas, tendo paciên-

evento da morte de Jesus estes Salmos

Qualquer que seja o modo de nosso culto

cia com elas porque por muitas vezes

profetizam e nos predizem os pensa-

é preciso que entenda-

elas foram abençoa-

mentos, temores e desejos que enche-

mos o porquê estamos

das com outros hinos

ram o coração de Jesus. Então, quando

fazendo assim. Não é

e corinhos em suas

estamos cantando os Salmos guardemos

suficiente

vidas. Você não deve

em nossas mentes o fato de que Cristo

que sempre foi feito

nos informam disso. Mil anos antes do

dizermos

cantava estes Salmos, o Senhor medita-

assim ou que todo

va neles. Onde e quando Cristo cantou

mundo faz assim ou

estes Salmos? Como Ele cantou estes

que nos agrada fazer

Salmos? Você não teria muito prazer e

assim, porque isso não

gozo em ouvir o próprio Cristo cantan-

é uma defesa contra a

do estes Salmos? Por exemplo, não seria

corrupção do nosso

prazeroso ouvi-lo cantando as palavras

coração. A única defe-

do Salmo 118.17-19?

sa contra a corrupção

“Não morrerei, mas viverei; e contarei as

obras do SENHOR. O SENHOR me cas-

do nosso culto é o seguinte: Isto Deus tem

tigou muito, mas não me entregou à mor-

nos ORDENADO! Se-

te. Abri-me as portas da justiça; entrarei

gure, entenda, exami-

Lutero restaurou

esperar que de uma forma súbita elas entendam tudo isso. De uma forma gradativa

o louvor

vamos introduzindo

congregacional,

to bíblico. Um pu-

mas Calvino o cântico bíblico

mais e mais um culritano, William Romaine, disse: “Eu sei que esta adoração é um ponto que dói, por isso eu vou tocar nele de uma forma

por elas, e louvarei ao SENHOR”.

ne e aplique este prin-

muito delicada, com

Veja o Salmo 69. 19-21:

cípio e seja capaz de

a

“Tu conheces a minha afronta, a minha

vergonha e o meu vexame; todos os meus

defender toda a parte da sua adoração à luz deste princípio.

maior

gentileza

que eu posso, na esperança de fazer algum bem”. Ninguém

adversários estão à tua vista. O opróbrio

2) Adore de verdade. Uma coisa é

se achega a um ferimento para magoá-

partiu-me o coração, e desfaleci; esperei

dar uma palestra sobre adoração. Uma

lo no intuito de curar. Mas vai, como

por piedade, mas debalde; por consolado-

coisa é lermos muitos livros sobre ado-

uma mãe ou uma amável enfermeira,

res, e não os achei. Por alimento me de-

ração, e podemos até nos tornar peritos

com muita habilidade, limpando e cui-

ram fel e na minha sede me deram a beber

no assunto de adoração. Mas você sabe

dando lentamente. Mantenha sempre

vinagre”.

adorar? Você se dobra a Deus? Em sua

na mente o grande propósito: Não ape-

São palavras muitíssimo emocionan-

vida há uma adoração real, de coração a

nas uma igreja pura e purificada, mas

coração, ao seu amado Salvador?

uma igreja unida e cheia de amor.

tes. Procure pensar em Cristo cantando estes cânticos no culto doméstico e em

3) Vamos ter a coragem de fazer

Existem duas formas eficazes para se

particular. Lemos de Cristo saindo à noi-

uma reforma em nosso culto se assim

persuadir e que são muito melhor do que todas as palestras que você possa dar:

te para o deserto para orar e clamar a

for necessário. Lembram-se do que Je-

seu Pai. Não teria Ele usado destas pa-

sus disse em Mateus 15.8-9: “Este povo

lavras em seus lábios santos? Não teria

coração.

Ele os cantou? Quando Ele os cantou?

se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens”. Notem que

Ele era o Salvador dos Salmos. Que pri-

não são os preceitos de Deus, mas de

e que essas épocas também coincidi-

cantados estes cânticos com todo sentimento e paixão? Jesus cantava aquilo que Ele mesmo iria experimentar. Como

Revista Os Puritanos 4•2009

(a) Cante os Salmos com alegria no (b) Se você é pastor pregue os Salmos. Se olhar para trás, para a história do culto bíblico, verá a época quando os Salmos caíram em desuso

7


David Murray

ram com o momento quando não se tinha a pregação de Cristo nos Salmos. Quando você estiver pregando Cristo nos Salmos será muito mais fácil persuadir o povo a cantar os Salmos para Cristo. 5) Em último lugar. Toda nossa adoração deve ser uma antecipação do céu. Deve ter um sabor do céu vindouro. Esse é o grande fim da adoração, nos levar ao céu e até trazer o céu até nós. Naquele dia quando não houver mais nenhuma divisão e nenhum argumento restar, todo propósito da adoração aqui na terra deve ser para nos dá um pequeno sabor do céu vindouro. Esperamos e oramos que esta seja nossa experiência. Transcrição da palestra proferida por Dr. David Murray na Sala de Leitura da CLIRE e do Projeto Os Puritanos em Recife e repetida no Simpósio Os Puritanos em Maragogi/AL/2009. Perguntas e respostas feitas após a palestra em Recife 1ª Pergunta: Na Bíblia existem outros cânticos. O de Maria, o de Ana, o de Simeão, nas cartas de Paulo, em Apocalipse e outros locais. Muitos argumentam contra Salmodia exclusiva afirmando que estes hinos eram cantados, e não eram Salmos. O que dizer deste argumento? Resposta: É sempre bom, em todas as áreas da vida, começar com um princípio e depois tratar dos casos mais difíceis. Mas, por exemplo, no caso do aborto, muitas pessoas começam este tema com os casos mais difíceis como incesto e estupro e concluem que devemos praticar aborto livre (para evitar esta gestação indesejada). Elas não começam com um princípio e, à luz deste princípio, olham para os casos mais difíceis. Então, a primeira pergunta a ser feita é: Isto é um princípio bíblico? Se for, então devemos começar por ele e depois olhar tudo à luz deste princípio; olhar os casos mais difíceis à luz deste princípio. Não devemos olhar para os casos difíceis e jogar fora o princípio. Como nós devemos ver estes cânticos que as pessoas alegam serem cânticos das Escrituras e que não são Salmos? Primeiro, eu acho que muitos dos cânticos que as pessoas alegam serem cânticos na verdade não são cânticos. Por exemplo, em Filipenses 2:6-11, nada indica que seja um cântico, apenas os comentaristas dizem que é um cântico. Em segundo lugar, o cântico de Maria e o cântico de Simeão, foram realmente cânticos de louvor inspirados, mas nunca foram usados no louvor público a Deus. O princípio do qual estamos mencionando fala do culto público, onde Deus é adorado de uma forma organizada e formal. Este princípio não diz que as pessoas, em seus momentos devocionais particulares, não

8

possam cantar cânticos de louvor a Deus que surgem de seus próprios corações. Não há evidência de que os cânticos de Maria e Simeão tenham sido usados de uma forma geral na igreja primitiva. Há uma ou duas evidências do uso do cântico de Maria na literatura da igreja primitiva, mas considerando a grande quantidade de literatura existente, isso não é considerado como menção. 2ª Pergunta: O que dizer de pastores que usam o livro de Apocalipse e o louvor no céu como modelo de louvor para nós hoje na igreja? Apocalipse é um princípio que devemos usar? Resposta: Aqui há uma diferença grande. Há uma diferença entre o céu e nós. Usar a adoração celestial como modelo para nós hoje é um pecado. O que é seguro para ser permitido no céu, talvez não seja seguro para ser permitido aqui na terra. Se no céu só existe santos perfeitos e glorificados, é muito mais seguro dar a eles liberdade para cantarem o que eles desejam. É muito mais seguro dá-lhes esta liberdade no céu do que a nós na terra. Se a nós, que temos corações pecaminosos, nos for dada esta liberdade, veremos exatamente o que tem sido visto no mundo inteiro. Esta é uma diferença muito grande e sem paralelo.

relutância em usar esta terminologia. Mas onde eu teria uma preocupação a enfatizar é que se você realmente souber o que é errado e mesmo assim faz e continua a fazer, isso é muito grave. Muitas pessoas, por ignorância não estão tão adiantadas nesta escala e eu não devo me aproximar destas pessoas e dizer: é fogo estranho! Devemos de uma forma gentil, sábia, num primeiro tempo, tentar empurrá-las no sentido da perfeição e chamar outros a fazer o mesmo. Há casos difíceis. Se eu tivesse dado esta palestra na Escócia ou nos Estados Unidos eu teria recebido as mesmas perguntas. Todos nós sabemos quais os casos difíceis. Mas não devemos deixar estes casos difíceis nos desviar a atenção da necessidade maior de aplicar os princípios bíblicos.

4ª Pergunta: Quando nos convidam a visitar uma igreja que tem um culto que não é bíblico, do que devemos participar? Como participar dos hinos, das orações e leitura da Palavra? Resumido, quando nos convidam a visitar uma igreja e esta é uma chance que temos de levá-las à nossa igreja como retribuição à nossa visita, como devemos participar deste culto não bíblico? Resposta: Esta é uma pergunta difícil. Depende de onde estamos e onde eles estão na escala. Vinte anos atrás eu passei um período de um 3ª Pergunta: ano no leste europeu. Eu estava ajudando o Qual o princípio que está por trás do uso de tre- pastor numa congregação bem remota na chos da Escritura para fazer cânticos de louvor? Hungria. Um grupo de garotas estava cheganDevemos ver isso como fogo estranho? do para um retiro em um convento católico Resposta: Tenho duas respostas que desejo romano, perto dali. Estas jovens disseram que dar a este tipo de pergunta. Em primeiro lu- poderiam participar do nosso culto naquele dia gar, a Bíblia contém cânticos que Deus nos se, no outro dia, nós participássemos na adodeu para que cantemos, e todo o resto da Es- ração com elas. Nossos jovens e eu pensamos: critura está lá para lermos e pregarmos. Mas o “Isso parece ser muito bom”. À noite elas participreceito para o louvor, tanto no VT como NT, param conosco no culto e durante todo o culto é o cântico dos salmos. Então, se apenas algu- pregamos a graça de Deus. Nenhuma obra, nemas partes das Sagradas Escrituras nos foram nhuma obra, nenhuma obra...! Somente Cristo... dadas para cantarmos, isso não significa que Somente Cristo...! Estávamos ali martelando todas as suas partes nos foram dadas para can- estas verdades. Mas no outro dia, ao amanhetarmos. Então, perguntamos, é fogo estranho cer, logo pensamos: “Puxa, temos hoje de ir à cantarmos o cântico de Maria no culto públi- capela católico-romana”. Então, todos nós foco? Acho que devemos ver as coisas de uma mos lá constrangidos e nunca vou me esquecer forma escalonada (gradação). Por exemplo, da sensação que tive logo ao entrar, porque vejamos o caso do homicídio. Matar alguém vi que teria de pregar debaixo de um enorme é errado. Mas se você mata cem pessoas, isso crucifixo dourado. Havia imagem de Maria, de é bem pior. E matar mil pessoas é mais grave José e, em todo lugar, havia uma imagem de ainda. Aos olhos de Deus algumas coisas são um santo. Percebi que havia tomado a decisão vistas de forma mais grave do que outras. Ve- errada, pois a Bíblia nos diz que devemos fugir jamos nossas roupas. Uma das recomendações da idolatria. Então, todos devemos nos pergunda Bíblia é a modéstia no trajar. Vejamos uma tar: Será que podemos chegar a este nível de ser escala. De um lado da escala há uma pessoa tão ofensivos a Deus? que se veste perfeitamente modesta, e do ou- Há um versículo que acredito ser relevante aqui: tro lado da escala há alguém que nem vestiu Mateus 15:8-9. “Este povo se aproxima de mim qualquer roupa, mas entre estas duas pessoas com a sua boca e me honra com os seus lábios, há alguém que está no meio. Vendo isso, va- mas o seu coração está longe de mim. Mas, em mos considerar a questão do culto. De um lado vão me adoram, ensinando doutrinas que são há um culto perfeito e nenhum de nós chegou preceitos dos homens”. Veja que há duas coia este ponto nesta terra. Olhando na direção sas erradas com este culto. Um culto que não da escala da perfeição, vemos no outro lado o tem coração e não tem ordenanças (prescribezerro de ouro ou o lado de Nadabe e Abiú. ções) divinas. Eles tinham adoração somada Isso é fogo estranho! às ordenanças dos homens. Deus está dizendo Mas há um espectro muito grande entre os dois aqui: “Era melhor fecharem suas bíblias e voltaextremos. Todos nós estamos em algum lugar rem para casa porque sua adoração é vã”. Esta nesta escala e estamos tentando nos aproximar pergunta deve estar sempre em nossas mentes: mais e mais do culto perfeito. O fato de você “Como isto pode me parecer algo muito bom ou não chegar do lado perfeito da escala, isso não lindo?”. Esta não é a pergunta correta e sim: significa que seja fogo estranho. Eu teria muita “Isto é bom aos olhos de Deus?”.

Revista Os Puritanos 4•2009


O que Fazer no Culto no Dia do Senhor? Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional (Rm.12:1).

Pr. Terry Johnson

Q

quando “apresentamos” a Deus o nosso corpo como um “sacrifício vivo e santo”. Esse é um “culto racional” (Rm

ual a importância de respondermos esta ques-

12:1). A finalidade do evangelho é tornar pecadores san-

tão? Vamos colocar desta maneira: Que impor-

tos, a fim de serem adoradores. Note como o Senhor

tância tem a adoração? Você precisa parar para

Jesus passa do tópico adoração para o de salvação no

pensar nisso por um instante, comparando a adoração

verso 22, “Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos

com outras várias atividades da vida. E mesmo se fi-

o que sabemos porque a salvação vem dos judeus” (Jo

zermos uma consideração superficial, iremos chegar,

4:22). Ser salvo é ser liberto da ignorância e da opres-

indubitavelmente à conclusão de que, nada do que fa-

são da idolatria. Para os judeus, “saber” como adorar, é

zemos é tão importante quanto a adoração. Não, nada

possuir a “salvação”, nada menos. Talvez não estejamos

de natureza secular, como trabalho, diversão, ou mes-

acostumados a ver a coisa dessa forma, como estou

mo a vida familiar, nem mesmo as atividades de cunho

apresentando agora, mas esse é o ensino do Novo Tes-

religioso, como evangelismo, comunhão, caridade ou

tamento. A finalidade ou o propósito do evangelismo

qualquer disciplina espiritual particular é tão impor-

e de missões é criar um povo para adorar a Deus. Os

tante. Não há, portanto, pergunta mais importante a

discípulos de Cristo são “pedras vivas”, “edificados casa

ser respondida que essa!

espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de ofere-

No texto básico que iremos examinar, Jesus diz que

cerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus” (1Pd

o Pai “procura” verdadeiros adoradores (Jo 4:23). É

2:5; Ef 2:18-22). Deus criou “um povo para si mesmo”

dessa forma que Jesus resume a atividade salvífica do

para que “proclamassem as virtudes dAquele que os

Pai. Qual o interesse do Pai na pregação do evangelho?

chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pd

O que Ele intenta fazer por meio do seu Filho? Qual é

2:9). Nisso se constitui a obra missionária da igreja, a

o fim último da encarnação, da expiação e de toda a

vida cristã e a vida de adoração. John Piper resume

redenção? É o Pai buscando adoradores! Que forma

bem nosso ponto:

inusitada e não habitual de Deus se dirigir a pecadores!

Missões não é o objetivo principal da igreja, mas sim a

No entanto, é assim. Robert G. Rayburn ressalta que “Em

adoração. Missões existem porque Deus é o alvo e não o

nenhum lugar nas Escrituras lemos que Deus tenha bus-

homem. Quando esta era passar e os incontáveis milhões

cado qualquer coisa dos pecadores”. A Bíblia não nos diz

de redimidos caírem com o rosto em terra diante do trono

que Deus busca testemunhas, servos ou contribuintes.

de Deus, não haverá mais missões. Trata-se de uma neces-

Ele busca adoradores. Rayburn continua, “não é sem

sidade temporária, mas a adoração existirá para sempre.2

motivo que a única vez na Escritura onde a palavra

A adoração é a nossa “prioridade máxima”, como o

buscar é usada como atividade de Deus, é em conexão

título de um recente livro declara. Cada Filho de Deus

com a busca de verdadeiros adoradores”.1

deveria saber disso.

Há, então, um sentido verdadeiro em que o Evange-

Não é apenas a Bíblia que enfatiza a importância da

lho Cristão trata da adoração. O “evangelho eterno” que

adoração; a herança Presbiteriana e Reformada faz o

pregamos é resumido pelo anjo em Apocalipse 14:7,

mesmo. Muitos historiadores modernos do período da

como: “Temei a Deus e dai-lhe glória (…) e adorai aquele

Reforma, têm feito com que a personalidade marcante

que fez o céu (…)” Como já vimos, a vida cristã é apre-

de Lutero, na sua luta pela fé, acabe obscurecendo o

sentada pelo apóstolo Paulo como um ato de adoração

coração da Reforma Suíça e Calvinista. Para Lutero e os

Revista Os Puritanos 4•2009

9


Pr. Terry Johnson

luteranos, o foco principal era a Justifi-

nham “deixado os ídolos para servirem

de Calvino e os da Igreja Anglicana

cação pela Fé. “Como pode um homem

ao Deus vivo” (1Ts 1:9).

oficial era a questão da adoração. Por

ser justo diante de Deus?” era a ques-

Em 1543, um folheto intitulado On

cem anos os Puritanos lutaram para re-

tão fundamental. Mas para Zuínglio,

the Necessity of Reforming the Chur-

formar o Livro Comum de Orações de

Calvino e a “nata dos Reformadores”,

ch (Sobre a necessidade de Reformar a

acordo com os padrões de Genebra, cul-

o tema principal não era a justificação,

Igreja), Calvino lista os dois elementos

minando com a Guerra Civil, a convoca-

conquanto reconhecessem sua impor-

que definem o Cristianismo, os quais,

ção da Assembléia de Westminster e a

tância. O foco deles era a adoração.

em suas palavras, constituem “o todo da

aprovação por parte do Parlamento do

“Como Deus deveria ser adorado?” cons-

substância do Cristianismo”. Esses dois

Diretory for the Public Worship of God

tituía a pergunta crucial. Para os lute-

elementos são primeiro “um conheci-

(Diretório do Culto Público de Deus)10

ranos, o inimigo da fé eram as “obras”.

mento de qual é a maneira certa de se

para os reinos da Inglaterra, Escócia,

adorar a Deus; e o segundo é a fonte

Gales e Irlanda.

Para os Reformados, a “idolatria”. Carlos M. N. Eire, em seu aclamado

de onde emana a salvação”.6 W. Robert

Não, de fato não estamos acostuma-

War Against the Idols (Guerra contra os

Godfrey comenta, “De forma enfática

dos a pensar na adoração dessa forma

ídolos), relembra à nossa geração aquilo

Calvino coloca a adoração à frente da

hoje. A situação presente não poderia

que os antigos historiadores já haviam

salvação em sua lista dos dois elemen-

ser mais irônica, mesmo onde encon-

percebido. “O foco central do Protestan-

tos mais importantes do Cristianismo

tramos igrejas que se identificam como

tismo Reformado foi a interpretação da

bíblico”. Eire comenta mais adiante:

herdeiras da Reforma, como a PCA, a

7

qual, em nome da liberdade, falha em

adoração (…)”. Distinguindo os lutera-

Calvino define o lugar da adoração como

nos dos zuinglianos, ele diz:

nenhum dos seus predecessores tinha

prover diretórios para a adoração. Pou-

feito antes (…) Adoração, ele diz, deve

cos têm disposição para pensar com

os zuinglianos, a proposta Reformada

ser o interesse central dos cristãos. Não

cuidado a respeito da adoração. Um

não era encontrar um Deus justo, mas

é uma questão periférica, mas a “subs-

número menor ainda vê a necessidade

em voltar-se da idolatria para o Deus

tância última” da Fé Cristã (…) alguém já

disso. Não somente muitos não vêem

verdadeiro.3

disse que esta se tornou a definição fun-

nenhuma conexão entre doutrina e

damental que caracteriza o Calvinismo.

vida prática, como também não vêem

Qual é o ponto central do estudo

conexão entre adoração e vida prática.

A diferença principal é que, para

O mesmo pode ser dito das obras de Heinrich Bullinger (sucessor de Zu-

8

ínglio em Zurique), Martin Bucer em

bíblico e teológico do evangelismo

Assim, para que regularmos a adoração,

Estrasburgo, William Farel em Neu-

e de missões, do conhecimento de

quando geralmente se presume que isso

chatel, e mais tarde João Calvino em

Deus e de toda a religião cristã? A

só serviria para dividir e é algo que não

Genebra. A Reforma se espalhou com

resposta é: a adoração. O verdadeiro

tem valor prioritário? Nós tendemos a

esses homens pregando contra a adora-

conhecimento de Deus leva à adora-

ser como os detratores de Calvino, que

ção medieval idólatra, e o povo respon-

ção correta, que por sua vez, leva ao

o acusaram de fraturar a unidade da

deu com sua fúria iconoclasta. Vitrais

viver correto. Os teólogos da Reforma

igreja com futilidades. Como esses de-

eram quebrados, relíquias eram profa-

pregaram Soli Deo Gloria em todas as

tratores, no entanto, estamos errados

nadas, estátuas despedaçadas, altares

áreas da vida, porque eles tinham em

acerca disso. Questões acerca de como

danificados e igrejas lavadas e caiadas

vista a adoração.

devemos adorar a Deus são as mais im-

novamente. Farel, diz Eire, “usava as

Fazendo da adoração o componente

portantes de todas, por direito próprio

imagens e a missa como tema dos seus

existencial necessário do conhecimento,

e por suas aplicações abrangentes.

sermões para dar curso à Reforma”.4

Calvino a torna o elo entre pensamento

Em Genebra durante os primeiros anos

e ação, entre a teologia e a sua aplicação

da Reforma, “o foco da atenção não era

prática. Foi uma teologia eminentemen-

o assunto da justificação, mas as missas

te prática que Calvino desenvolveu como

e as imagens e tudo que dizia respei-

resultado disso. Religião não é meramen-

to aos seus abusos”.5 Ambos, Farel e

te um conjunto de doutrinas, mas antes,

Calvino descreveram suas conversões,

uma forma de adorar, um estilo de vida.9

não como sendo salvos das obras de

Não somente no continente Euro-

injustiça prioritariamente, mas da ido-

peu, mas também na Grã-Bretanha, o

latria. Como os tessalonissences, eles ti-

coração da batalha entre os seguidores

10

Pr. Terry Johnson NOTAS: 1. O Come Let Us Worship, pp. 15, 16.; 2 Let The Nations Be Glad, the Supremacy of God in Missions, Grand Rapids: Baker Books, 1993; 3 Carlos M. N. Eire, War Against the Idols (Cambridge: Cambridge University Press, 1986), pp. 2, 85; 4 Ibid., p.119; 5 Ibid., p.143; 6 Ibid., p.126; (também encontrado na Selected Works of John Calvin, vol. 1, p.126); 7 Robert W. Godfrey, “Calvin and the Worship of God” (manuscrito não publicado, s.d.); 8 Carlos M. N. Eire, War Agaisnt the Idols, pp. 232, 233; 9 Ibid., p. 232. 10 Publicado pela Editora Os Puritanos – Diretório de Culto de Westminster

Revista Os Puritanos 4•2009


Os Puritanos e o Quarto Mandamento O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. (Mc 2:27) J.I.Packer

N

do no mesmo, em seu sentido cristão, que proíba trabalho ou diversão no domingo, com prejuízo do tempo de

este ponto, os puritanos iam à frente dos refor-

culto. A maior parte dos reformadores falava no mesmo

madores. Estes últimos tinham seguido Agos-

tom. O que há de notável é que suas declarações, em

tinho e o ensino medieval em geral, negando

outros contextos, mostram que “os reformadores, como

que o domingo fosse, em qualquer sentido, um dia de

um grupo, defendiam a autoridade divina e a obrigação

descanso. Eles afiançavam que o sábado, prescrito pelo

de se observar o quarto mandamento, requerendo que

quarto mandamento, era um mandamento tipicamen-

um dia em cada sete fosse empregado na adoração e

te judaico, prefiguração do “descanso” da relação da

serviço de Deus, admitindo somente as obras de neces-

graça-fé com Cristo.

sidade e de misericórdia, em favor dos pobres e aflitos”.

Eis a explicação de Calvino:

É um quebra cabeça, porém, porque eles nunca per-

“... é extremamente apta a analogia entre o sinal externo

ceberam a incoerência entre afirmar isso, em termos

e a realidade simbolizada, visto que a nossa santificação

gerais, ao mesmo tempo em que defendiam a exegese

consiste na mortificação de nossa própria vontade... Deve-

de Agostinho sobre o domingo cristão. Podemos apenas

mos desistir de todos os atos de nossa própria mente a fim

supor que isso se deve ao fato que não queriam entreter

de que, operando Deus em nós, possamos descansar nEle,

a idéia de que Agostinho poderia estar enganado, razão

conforme ensina o apóstolo (Hb.3:13;4:3,9).

que os cegava para o fato que estavam montando dois

Mas agora que Cristo já veio, o tipo foi cancelado, e seria

cavalos ao mesmo tempo.

um erro perpetuá-lo, tal como seria um equívoco continuar a oferecer os sacrifícios levíticos.

Os puritanos, contudo, corrigiram essa incoerência. Eles insistiam, de forma virtualmente unânime que,

Calvino apelava aqui para Colossenses 2:16, que ele

embora os reformadores estivessem certos ao enxer-

interpretava como alusão ao dia semanal de descanso.

garem apenas um sentido típico e temporário em al-

Ele admitia que, além e acima de sua significação típica,

gumas das prescrições detalhadas no sábado judaico,

o quarto mandamento também ensina o princípio que

contudo, eles também percebiam o princípio de um dia

deve haver adoração pública e privada, além de servir

de descanso, para efeito de adoração pública e privada

de dia de descanso para os servos e empregados, pelo

a Deus, no fim de cada seis dias de trabalho, como uma

que a plena interpretação cristã seria:

lei da criação, estabelecida em benefício do homem, e,

Primeiro, por toda a nossa vida podemos ter por alvo um

portanto, obrigatória para o homem, enquanto ele vi-

descanso constante de nossas próprias obras, a fim de que

ver neste mundo. Também destacavam que, figurando

o Senhor possa operar em nós por meio do Seu Santo Es-

entre nove leis indubitavelmente morais e permanentes

pírito; segundo, cada indivíduo deveria se exercitar com

do decálogo, o quarto mandamento dificilmente teria

diligência em meditação devota nas obras de Deus, e... to-

uma natureza apenas típica e temporária.

dos devem observar a ordem legal determinada pela Igreja

De fato, eles viam esse mandamento como parte in-

para que se ouça a Palavra, administrando as ordenanças e

tegral da primeira tábua da lei, que aborda sistematica-

a oração pública; terceiro, devemos evitar oprimir àqueles

mente a questão da adoração: “O primeiro mandamento

que nos estiveram sujeitos.

fixa o objetivo, o segundo, o meio, o terceiro, a maneira,

Mas Calvino falava como se isso fosse tudo quanto

e o quarto, o tempo”. Também observaram que o quarto

aquele mandamento agora prescreve, nada encontran-

mandamento começa com as palavras “lembra-te...”. E

Revista Os Puritanos 4•2009

11


J. I. Packer

isso nos faz recuar até antes da institui-

que prescreve a adoração apropriada

ção mosaica. Observaram que o trecho

ao Criador), e, como tal, era perpetu-

bem sintetizada na Confissão de Fé de

de Gênesis 2:1 ss. representa o sétimo

amente obrigatória para todos os ho-

Westminster (XXI: vii-viii):

dia de descanso como o próprio descan-

mens. Assim, quando o Novo Testamen-

so de Deus, terminada a criação, e que a

to diz-nos que os cristãos se reuniam

vii. Como é lei da natureza que, em geral,

sanção atrelada ao quarto mandamen-

para adorar no primeiro dia da semana

uma devida proporção do tempo seja des-

to, em Êxodo 20:8 ss., olha de volta para

(ver Atos 20:7; cf. I Co.16:1), guardan-

tinada ao culto de Deus, assim também

aquele fato, retratando o dia como um

do aquele dia como “o dia do Senhor”

em sua palavra, por um preceito positivo,

memorial semanal da criação, “para ser

(Ap.1:10), isso só pode significar uma

moral e perpétuo, preceito que obriga a to-

observado para a glória do Criador, como dever que temos de servi-Lo, e como um encorajamento para confiarmos naquele que criou os céus e a terra. Por meio da santificação do sábado, os judeus declaravam que eles adoravam ao Deus que criou a terra...”. Assim falou Matthew

na doutrina do dia do Senhor, a qual é

coisa: por preceito apostólico, e, prova-

dos os homens em todos os séculos, Deus

velmente, de fato, por injunção domi-

designou particularmente um dia em sete

nical durante os quarenta dias antes

para ser um sábado (descanso) santificado

da ascensão, esse tornara-se o dia em

por Ele; desde o princípio do mundo, até

que os homens, doravante, deveriam

a ressurreição de Cristo, esse dia foi o úl-

guardar o dia de descanso prescrito

timo da semana; e desde a ressurreição de

pelo quarto mandamento. Os puritanos

Cristo foi mudado para o primeiro dia da

Henry, exegeta de um período posterior

notavam que essa mudança, do sétimo

semana, dia que na Escritura é chamado

aos puritanos, mas que os representou

dia da semana (o dia que assinalara o

Domingo, ou dia do Senhor, e que há de

em sua própria época ao comentar

fim da antiga criação) para o primeiro

continuar até ao fim do mundo como o

sobre Êxodo 20:11. Henry também

(o dia da ressurreição de Cristo, que

sábado cristão.

frisou que o mandamento afirma que

assinala o início da nova criação), não

Ref. Ex. 20:8-11; Gen. 2:3; I Cor. 16:1-2;

Deus santificou o sétimo dia (ou seja,

excluída pelas palavras do quarto man-

At. 20:7; Apoc.1:10; Mat. 5: 17-18.

apropriou-o para Si mesmo) e o aben-

damento, meramente determina que

çoou (isto é, “injetou bênçãos no mes- “devemos descansar e guardar, como

viii. Este sábado é santificado ao Senhor

mo, encorajando-nos a esperar bênçãos

descanso, cada sétimo dia...mas...de

quando os homens, tendo devidamente

da parte Dele, na observância religiosa

modo algum determina onde deve co-

preparado os seus corações e de antemão

daquele dia”); e também frisou que Cris-

meçar a seqüência de dias... Não há, no

ordenado os seus negócios ordinários, não

to, embora tivesse reinterpretado a lei

quarto mandamento, qualquer orienta-

só guardam, durante todo o dia, um santo

sobre o sábado, não o cancelou, mas

ção sobre como computar o tempo...”.

descanso das suas próprias obras, palavras

antes, firmou-o, observando-o Ele mes-

Portanto, coisa alguma impede-nos de

e pensamentos a respeito dos seus empre-

mo, e mostrando que esperava que seus

supor que o Novo Testamento parece

gos seculares e das suas recreações, mas

discípulos continuassem a observá-lo

requerer que foram os apóstolos que fi-

também ocupam todo o tempo em exercí-

(cf. Mt.24:20).

zeram a alteração. Nesse caso, tornara-

cios públicos e particulares de culto e nos

Tudo isso, argumentavam os purita-

se claro que a condenação (em Cl.2:16)

deveres de necessidade e misericórdia.

nos, mostra que o descanso do sétimo

do sabatismo judaico nada tem a ver

Ref. Ex. 16:23-26,29:30, e 31:15-16;

dia, era mais que um mandamento ju-

com a observância do dia do Senhor.

Isa.58:13.

daico; antes, era um memorial da cria-

Essas, em esboço, eram as considera-

ção, parte da lei moral (primeira tábua,

ções feitas pelos puritanos, com base

J. I. Packer

Catecismo Maior de Westminster P.116 → Que se exige no quarto mandamento?

O quarto mandamento exige de todos os homens o santificar ou o guardar santos para Deus todos os tempos especificados que Deus designou em Sua Palavra, expressamente um dia inteiro em cada sete; que era o sétimo desde o princípio do mundo até à ressurreição de Cristo, e o primeiro dia da semana desde então até ao dia de hoje, e há de assim continuar até ao fim do mundo; o qual é o sábado cristão, e no Novo Testamento é chamado o dia do Senhor (Domingo). Ref. Gn. 2:3; 1 Co. 16:2; At. 20:7: Jo. 26:19, 26: Ap. 1:10.

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Revista Os Puritanos 4•2009


A Natureza da Verdadeira Adoração Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus (João 3:3) Geoffrey Thomas

1

Pai. Disse Jesus: “os verdadeiros adoradores adoram o Pai”. Naturalmente, o Pai só pode ser adorado através

A verdadeira adoração é prestada a Deus somen-

do Filho e o objeto da nossa adoração é a divindade

te por aqueles que nasceram do Espírito de Deus.

como um todo: Pai, Filho e Espírito Santo. Certamente

“Aquele que é nascido da carne, é carne”, disse

nós adoramos a Jesus, mas é errado adorarmos somen-

Jesus e, portanto, toda assim chamada adoração feita

te a Jesus e torná-lo o centro de nossa adoração, negli-

por pecadores não rege­nerados é carnal. Somente um

genciando ao Pai.

coração regenerado pode cantar o novo cântico (Salmo 40:3).

5. A verdadeira adoração surge a partir de um contínuo andar com Deus → Um homem que difi-

2. A verdadeira adoração só pode ser realiza- cilmente pensa em Deus durante os seis dias da semana, da através do Espírito Santo → “Os verdadeiros não está apto a adorá-lo correta­mente no sétimo dia. Se adoradores adoram o Pai em espírito” disse Jesus e, por- tal pessoa fala o quanto está­ se “regozijando” na adotanto, unicamente através da iluminação que o Espírito

ração, al­guma coisa está errada com ele! Ele está­ se

concede às nossas mentes, e os sentimentos dela pro­

entretendo ou está recebendo aquela vaga sensação de

duzidos em nossos corações é que a nossa adoração

desafio que o homem natural desfruta. Por outro lado,

pode ser edificante para nós e agradável a Deus. Os

em meio à verdadeira adoração, tal pessoa deveria sen-

dons de liderança concedidos pelo Espírito a pastores

tir quanto está afastada de Deus e sentir uma tristeza

e mestres são uma parte essencial de adoração pública.

santa por sua negli­gência com a glória do Senhor.

3. A verdadeira adoração é estruturada pelas Escrituras → “Os verdadeiros ado­radores adoram... em verdade”, disse Jesus. A Bíblia nos revela o Deus a Quem devemos adorar e como devemos fazê-lo: “com reverência e santo temor”. As Escrituras produzem a atmosfera e

6. A verdadeira adoração requer prepa­ração → Um homem não pode simplesmente achegar-se à presença de Deus sem qualquer preparação de coração e alma e esperar, então, por uma “adoração instantânea”. Davi disse: “Ao meu coração me ocorre: buscai a minha

fornecem os temas, as orações, os louvores e a pregação.

presença; buscarei, pois, Senhor, a Tua presença”. (Sl.

Dessa forma, possuímos um padrão para conhecer o

27:8). A verdadeira adoração, no dia do Senhor, surge

que é certo e o que é errado em tudo o que é falado e

de uma mente preparada para Deus, encorajada por

cantado. Desfrutamos, também, uma maravilhosa liber-

uma oração ardorosa pela bênção do Senhor sobre a

dade de todas as tradições e artefatos que são introdu-

noite do sábado e a manhã do dia do Senhor.

zidos por homens não espirituais, na inútil tentativa de “tornar” a adoração mais “importante” e “sig­nificativa”. A verdadeira adoração é essencialmente simples.

7. A verdadeira adoração deveria ser acompanhada pela meditação → Eis por que exortamos as pessoas a cuidarem da maneira pela qual empregam

4. A verdadeira adoração é centralizada em Deus → Não é centralizada na “ins­piração”, tampouco nos

o seu tempo após o término do culto. Todo o proveito

sentimentos; nem mesmo é centralizada em Jesus ―

pode ser destruído. A graça é uma planta delicada, pode

não somos adoradores só de Jesus. Ela se centraliza no

ser facilmente danificada. Se quisermos aproveitar da

Revista Os Puritanos 4•2009

advindo da exposição e aplicação da Palavra de Deus

13


Geoffrey Thomas

adoração prestada, isso deve ser feito

fazer algo inesperado. Não, e­les não

voravelmente com os argumentos bem

por meio de uma tentativa verdadeira

devem con­centrar-se muito nos meios

construídos e confiantes, acoplados

de reter a principal lição da pregação.

de adoração; seus pensamentos devem

com a reverência constante observados

estar centralizados em Deus. A verda-

nas orações das gerações anteriores.

8. A verdadeira adoração é sempre um produto e uma perspectiva da grandeza de Deus e da nossa pequenez → O profeta Isaías vê a grandeza de Deus e clama: “Ai de mim! Estou perdido! porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exér­citos!” (Is.6:5). João, na ilha de Patmos, vê o Senhor

deixamos simplesmente que as coisas

rer. No primeiro dia da semana eles se

e nos diz: “Quando o vi, caí a seus pés,

caminhem, mas unicamente queremos

reuniam para partir o pão, ouvir a Pala-

deira adoração é caracterizada pelo de qualquer concentração no homem.

10. A verdadeira adoração tem seu clímax no dia do Senhor → A liber-

esquecimento de si mesmo e ausência O publicano permaneceu em pé, distan-

dade que o povo de Deus desfruta sob

te, abaixou sua cabeça e orou: “Ó Deus,

a nova aliança não lhes dá o direito de

sê misericordioso comigo, pecador”. Em

se reunirem somente quando se senti-

nossos cultos, dirigidos pelas Escritu-

rem conduzidos ou dirigidos a fazê-lo.

ras e dependentes de Cristo, estamos

Na Igreja apostólica, a adoração tinha

ver­dadeiramente adorando a Deus; não

períodos pré-determinados para ocor-

como morto” (Ap.1: 17). Qualquer coisa

adorar; nós adoramos o Deus vivo em

vra de Deus e recolher as ofertas (Atos

de novo que introduzimos na adoração,

espírito e em verdade, sabendo que o

20:7; I Co.16:2). Mesmo que eles não

que não tenha como objetivo exaltar a

Pai está buscando ativamente tais pes-

sentissem o mesmo ânimo para realizar

Deus é simplesmente uma concessão

soas que o adorem! Nós não cremos que

essas coisas naquele dia e se sentissem

ao desejo por novidade que, caracteriza

todas essas novas ênfases na esponta-

mais inclinados às coisas religiosas no

todos os homens naturais.

neidade e na condução da adoração por

terceiro dia, por exemplo, era no pri-

homens, mulheres e jovens nos estejam

meiro dia que eles deviam reunir-se

9. A verdadeira adoração sempre é aceita por Deus → Devemos ser mui-

levando a uma conscientização maior

para adorar. O mesmo pode ser dito

sobre Deus e à verdadeira adoração.

hoje. Nós não somos “Adventistas do

to cuidadosos para não abrigar pensa-

Pelo contrário, existem abundantes evi-

quinto dia”, daqueles que se reúnem na

mentos que inferiorizam a nossa ado-

dências de que a adoração se encontra

quinta feira à noite e nos orgulhamos

ração! Expressões depreciativas, tais

em declínio. Consideremos, por exem-

das bênçãos maravilhosas e da fantás-

como aquelas que descrevem a adora-

plo, a mudança em nosso modo de nos

tica comunhão quando o Senhor “real-

ção como um “san­duíche de hinos”, so-

dirigirmos a Deus, o que tem ocorrido

mente” se reúne com dez de nós. Não,

mente encorajam a atitude que revela

nos últimos vinte anos.

que nossa adoração é formal, exterior

Será que isso repre­senta um pro-

e sem liberdade e que, se nós estivésse-

gresso e um amadurecimento no culto

mos realmente adorando, então deverí-

e oração públicos? O que será que signi-

amos ter barulho, liderança espontânea

fica essa nova linguagem utilizada para

e excitação. Na realidade, na verdadeira

orarmos: “Nós só queremos te adorar,

adoração, as pessoas não ficam sempre

Te louvar”; “Somente a Ti, Jesus, que-

sentadas na ponta dos bancos imagi-

remos adorar”? As frases truncadas e

nando quem será o próximo a dizer ou

curtas podem ser comparadas desfa-

nós devemos reunir­-nos no Espírito no dia designado, o dia do Senhor e com todo o povo de Deus. Em 1994, Geoffrey Thomas era pastor da Igreja Batista Alfred Place Baptist Church em Aberystwyth, Pais de Gales. Ele também trabalhava como editor Assistente da Banner of Truth e do The Evangelical Times (Banner of Truth – Nº 153, junho/1976). *Artigo publicado no Jornal Os Puritanos, Ano II – Nº 5 – Setembro/Outubro - 1994

Catecismo de Heidelberg

P.103 → Que é que Deus requer no quarto mandamento? Primeiro, que o ministério do Evangelho e as escolas cristãs sejam mantidas1 e que eu, especialmente no dia de descanso, seja diligente em ir à igreja de Deus2 para ouvir à Palavra de Deus3, participe dos sacramentos4, para invocar publicamente ao Senhor5 e para praticar a caridade cristã para com os necessitados6. Segundo, para que em todos os dias da minha vida eu cesse as minhas más obras, deixe o Senhor operar em mim por Seu Espírito Santo, e assim começar nesta vida o descanso eterno7. 1. Dt 6.4-9; 20-25; 1Co 9.13, 14; 2Tm 2.2; 3.13-17; Tt 1.5. 2. Dt 12.5-12; Sl 40.9, 10; 68.26; At 2.42-47; Hb 10.23-25. 3. Rm 10.14-17; 1Co 14.2633; 1Tm 4.13. 4. 1Co 11.23, 24. 5. Cl 3.16; 1Tm 2.1. 6. Sl 50.14; 1Co 16.2; 2Co 8; 9. 7. Is 66.23; Hb 4.9-11..

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Revista Os Puritanos 4•2009


O Supremo Triunfo de Cristo “Ditas estas palavras, foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos” (Atos 1:9) John R. de Witt

N

― Cristo está sendo elevado ― para o céu na presença dos seus discípulos. Em vista aqui, está uma transição

o Novo Testamento, nem de longe se fala da as-

local. Cristo esteve com os seus discípulos. Jesus falou

censão o tanto que se fala da ressurreição de

com eles. Cristo passou aproximadamente trinta e três

Cristo. A ressurreição é o grande foco do ensino

anos nesta terra, mas agora Ele está conosco não mais

do Novo Testamento. A sua ressurreição dos mortos

naquele literal e físico sentido da palavra. Ele foi ele-

selou tudo o que ele fizera em obediência ao Pai. Por-

vado ao céu, recebido na presença do seu Pai e nosso

que Cristo se levantou da sepultura, sabemos que ele

Pai. Do monte chamado das Oliveiras onde Ele e seus

realizou de fato aquilo a que se propusera. Mas o Novo

discípulos se encontravam, foi tomado, recebido para

Testamento fala muito especificamente da ascensão

dentro do céu. “E uma nuvem o encobriu dos seus olhos”

do Senhor aos céus. Devemos tentar compreender um

(Atos 1:9). Frequentemente nas escrituras “nuvem” ou

pouco do que a ascensão pode e deve significar para

“nuvens”, podem ser mencionadas em relação a Deus e

nós. Além disso, pode-se dizer que a ressurreição e a as-

à sua majestade e glória. No Antigo Testamento quando Deus mostrava-se para o seu povo ele frequentemente

censão são da mesma categoria, são uma única peça de

fazia isto por intermédio de uma nuvem. Deus guiou

tecido, e não podem ser facilmente separadas.

Israel através do deserto naqueles longos e fatigantes

F.F. Bruce, em seu comentário sobre Atos, disse:

anos do seu vaguear, por meio de uma coluna de nuvem

“Na pregação apostólica a ressurreição e ascensão de Cris-

durante o dia e uma coluna de fogo durante a noite.

to parecem representar um movimento contínuo e ambos

Quando Deus se mostrou presente na dedicação do ta-

juntamente constituem sua exaltação. Mas essa exaltação à

bernáculo no deserto, a nuvem, a glória, a shekkinah (a

mão direita de Deus, aquilo que o Dia da Ascensão de Jesus

manifestação da presença do ser divino) cobriu o lugar

Cristo de fato comemora [no calendário litúrgico católico],

e depois disso permaneceu acima da Arca da Aliança

não foi adiada para o quadragésimo dia após seu triunfo

no Santo dos Santos.

sobre a morte”.

Depois, foi-nos dito também, que quando o Senhor

A verdade é que o Senhor não entrou primeiro na

Jesus Cristo foi transfigurado, quando algo da sua glória

presença do Pai, não foi primeiro assentado à mão di-

suprema brilhou através da sua natureza humana, Ele e

reita do Pai, no dia exato da ascensão. Conquanto Ele

seus discípulos com Ele foram envolvidos numa nuvem.

estivesse com seus discípulos durante os quarenta dias

Então, da nuvem Deus disse: “Este é o meu filho amado

entre a ressurreição e a ascensão, a maior parte desse

em quem me comprazo” (Mc. 17:5). Depois há a segunda

período foi passada noutro lugar. Mas como devemos

vinda: “Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá,

entender esse “outro lugar”? Talvez o Senhor estivesse

até quantos o transpassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente, amém!” (Ap. 1:7).

recolhido num aposento em algum lugar da terra ― numa caverna, numa casa segura, num túmulo? Ele estava e com toda a certeza estivera na presença

Podemos entender de que as Escrituras nos falam

do seu Pai e à sua mão direita, já exaltado ao mais alto

nestas passagens e em muitas outras, que “nuvem” em

grau.

relação a Deus, fala de glória, grandeza e majestade.

Você observará imediatamente, do que Lucas nos

“Nuvem”, nestas circunstâncias, pode ser teofania. E

conta nesta passagem, que a ascensão é a subida visível

quando nos é dito que o Senhor Jesus foi recebido fora

Revista Os Puritanos 4•2009

15


John R. de Witt

da sua vista por uma nuvem, não deve-

Mas, se isto é verdade, se Ele está conosco

fala, portanto, da exaltação dessa pes-

mos entender que Ele subiu até que pas-

de acordo com sua própria promessa, e

soa no sentido de que nossa natureza

sou a barreira fornecida pelas nuvens

mesmo até o fim do mundo, então que

foi glorificada e elevada à posição de

e depois continuou indo para cima até

devemos entender da ascensão? A ascen-

honra à mão direita de Deus. Mas, o Se-

que seus discípulos não mais puderam

são, na natureza do caso, significa que Ele

nhor Jesus Cristo quanto à sua deidade,

vê-Io mas, ao contrário, que Ele foi re-

foi levado de nós, que Ele não está mais

sendo Deus como o é, e por essa ra-

cebido na glória celestial.

conosco, que não mais podemos falar com

zão, onipresente, está sempre conosco como prometeu que estaria.

Deus, o Pai, tornou-o à si uma vez

Ele como os seus discípulos eram acostu-

mais Deus O Filho, e assentou-o à sua

mados a fazer. Ele foi embora. Nós, porém,

Agora vamos refletir um pouquinho

própria mão direita com toda a majes-

precisamos compreender muito claro e

sobre o que isto significaria. A ascen-

tade e glória devidas

cuidadosamente em

são não é meramente uma doutrina que

a Ele como Mediador

nossas próprias men-

pode interessar aos especialistas no

e como Rei. A ascen-

tes que a ascensão

campo da Teologia Sistemática e que

são é a festa da en-

não fala do aumento

não nos toca ou move. Ao contrário, a

tronização do nosso

da glória e majesta-

ascensão do nosso Senhor relaciona-se

de dadas ao Senhor

com a minha experiência e com a sua.

Rei

Mediador,

da

sua exaltação para o lugar de honra e preeminência à mão direita de Deus Pai. Mas agora, em segundo lugar, um outro problema tem de ser tratado aqui com relação à ascensão do

É uma grande coisa ter um amigo na corte,

Jesus Cristo como a segunda pessoa da Trindade ou de qualquer mudança em seu ser. Da mesma forma

1. Devemos compreender imediatamente que a ascensão fala da aceitabilidade à vista do Pai, da obra que o seu Filho realizou → O

um que pode

devemos

falar por nós

censão não significa

prema dignidade e honra. Porque Deus

que, quanto à sua dei-

altamente o exaltou, e deu-lhe um nome

entender

Salvador completou sua incumbência

claramente que a as-

mediatória e o Pai elevou-o para su-

Senhor Jesus Cristo

dade, o Senhor Jesus

que está acima de todo nome, para que

por causa de um pos-

Cristo, a despeito da

ao nome de Jesus todo joelho deverá se

sível mal-entendido

sua própria promes-

dobrar; nos céus, na terra e debaixo da

ou de uma má inter-

sa em contrário, não

terra, e que toda língua confessará que

mais está conosco.

Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de

pretação. Neste sentido dois problemas podem levantar-se

O que está em jogo aqui é nossa com-

Deus Pai (Fp. 2:9-11).

em nossas mentes ao pensarmos neste

preensão da exaltação da pessoa do

Eu digo que a ascensão é um atesta-

ser recebido na glória.

mediador que não é apenas Deus, mas

do de aceitabilidade da sua obra reden-

O primeiro deles é este: Por que o Se-

também homem. Ele é o homem-Deus.

tiva. Que Ele ascendeu e que governa da

nhor precisava de qualquer argumen-

Ele é Emanuel. E Emanuel signifi-

sua posição de dignidade à mão direita

tação de sua majestade quanto a que

ca “Deus conosco” ou “Deus que está

do Pai e deve significar para nós que

a ascensão lhe deu? Não era Ele desde

conosco”. Ele tomou para si mesmo a

Deus agradou-se do que Ele fez. O que

a eternidade o próprio Filho de Deus?

nossa natureza. Ele é o eterno Filho de

Ele nos diz no evangelho, no Novo Tes-

Quem pode acrescentar qualquer coisa

Deus, e é completamente apropriado

tamento, na palavra que vem para nós

à sua dignidade e poder? “No principio

que devamos nos dirigir a Ele como

de redenção, a qual é nossa em e atra-

era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus” (Jo 1:1). Desde a eter-

a deidade. “Meu Senhor e meu Deus”

vés do seu sangue, é verdadeiro. Nós

disse-lhe Tomé (Jo 20:28). Mas Ele é

podemos depender dela.

nidade, por definição, na natureza do

também um de nós. Ele é um homem.

caso, Ele já tem todo poder e toda glória.

Ele assumiu nossa natureza. Jesus tem

O outro, o segundo problema, é sim-

um corpo. Esse corpo está agora glori-

plesmente este: Antes da sua ascensão

ficado realmente; mas não é menos que

2. A ascensão de Cristo significa que nós temos um porta-voz na presença de Deus o Pai → É uma

Ele mesmo prometeu aos seus discípulos:

um corpo por conta disso. E a transição

grande coisa ter um amigo na corte,

“E eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt. 28:20).

local que teve lugar; e a subida da ter-

um que pode falar por nós. Deixados

ra para o céu da pessoa do Mediador,

por nós mesmos na sala-do-trono de

16

Revista Os Puritanos 4•2009


O Supremo Triunfo de Cristo

Deus, tendo de responder por tudo que

e começar nosso trabalho novamente

está dizendo para você? Ele está asse-

temos feito e tudo o que temos falha-

com consciências lavadas e limpas e

gurando a você ― você que crê nele e

do em fazer, nós estaríamos sem voz e

com coração cheio de grande regozijo.

cuja vida tem sido transformada pelo

sem defesa. Devemos ser cuidadosos a

Não importa quão escuro esteja o céu,

seu poder ― que porque Ele está lá

respeito de orar por justiça. Você pede

não importa quão problemática a vida

como ascendeu, o que vive e reina, você

justiça? Deus proíbe que a justiça deve

possa nos parecer algumas vezes, não

também estará lá um dia.

ser feita a mim, pois nesse caso eu devo

importa quão repleta de dificuldades e

perecer totalmente e estar para sempre

com problemas aparentemente insolú-

coberto de vergonha e confusão na face.

veis, há vitória porque o Senhor Jesus

A justiça não é feita a mim a não ser no

Cristo reina à mão direita do Pai.

sentido de que a própria justiça santa

ocorreu o Pentecostes. A Igreja recebeu

do tribunal, a sala do trono de Deus. É

3. A ascensão de Cristo significa que a ressurreição, que agora ainda está em perspectiva para nós, também já nos é uma realidade em princípio → porque o nosso Salva-

uma coisa maravilhosa saber da pre-

dor é, mesmo agora, como nós seremos

de Deus foi satisfeita através da morte, sepultamento e ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Daí, eu não tenho que temer na sala

4. A ascensão de Cristo significa que Ele nos enviou o seu Espírito Santo → Dez dias depois da ascensão o dom do Espírito Santo em poder. O próprio Senhor disse em tantas palavras que sua ascensão significava ao mesmo tempo o dom do Espírito Santo:

do eu tropeço e caio no pecado, quando

“Mas eu vos digo a verdade: Convémvos que eu vá, porque, se eu não for, o um dia. Quando Ele levantou-se dentre consolador não virá para vós outros; se os mortos, Ele assim o fez, não como um porém eu for, eu vo-lo enviarei”. (João

eu cometo erros, quando eu falho em

espírito desincorporado, mas em carne

fazer o que devia, e quando eu faço o

e osso (Lc. 24:39). Agora Ele ascendeu

Assim o Senhor, por meio de sua as-

que não devia, eu O tenho ali. Aquele

aos céus. Além disso, Jesus provou que

censão, deu-nos uma garantia de que

que faz intercessão por mim, Aquele

ainda tinha um corpo, um corpo glorifi-

nós teremos a capacitação da qual ne-

que fala a meu favor e cuja influência

cado mesmo quando comeu peixe e mel

cessitamos. Ser-nos-á dado o comissio-

é infinita porque Ele próprio é o Filho

(Lc. 24:41-43). Agora Ele ascendeu aos

namento que devemos ter, se teremos

de Deus.

sença de Cristo ao meu lado, ali. Quan-

16:7).

céus e está à mão direita do nosso Pai

de fazer sua obra. O Espírito Santo dá

O Senhor está ao lado de seu Pai

celestial. Ele está lá como o testemunho,

vida nova; Ele é o autor da regeneração;

para nos representar e interceder por

o atestado, a evidência de que nós, um

Ele é o capacitador do povo de Deus;

nós: “Eis que estou convosco sempre”.

dia igualmente, estaremos lá.

Ele é aquele que toma a mensagem do

Ele quis que soubéssemos que, muito

Não deixe que o seu coração se

evangelho e a comprova de maneira

embora esteja à mão direita do nosso

perturbe: Vós credes em Deus, crede

convincente. Veja a ligação, a inelutável

Pai celestial e não fisicamente conosco,

também em mim. Na casa de meu Pai

ligação, entre a ascensão, por um lado,

Ele está ali como nosso Mediador e nos-

há muitas moradas: se assim não fora,

e o dom do Espírito Santo, por outro

so Rei. Por conta disso podemos dormir

eu vo-lo teria dito. Eu vou preparar-vos

lado.

à noite, podemos levantar dia após dia

lugar (Jo 14:1-3). Você ouve o que Ele

John R. de Witt

A Confissão de Fé Escocesa 10º Capítulo A Ressurreição → Visto que era impossível que as dores da morte pudessem reter cativo o Autor da vida,1 cremos sem nenhuma dúvida que nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado morto e sepultado, o qual desceu ao inferno, ressuscitou para nossa justificação2 e para a destruição daquele que era o autor do pecado, e nos trouxe de novo a vida, a nós que estávamos sujeitos à morte e ao seu cativeiro 3. Sabemos que sua ressurreição foi confirmada pelos testemunhos de seus inimigos4 e pela ressurreição dos mortos, cujos sepulcros se abriram e eles ressuscitaram e apareceram a muitos dentro da cidade de Jerusalém,5 e que foi também confirmada pelos testemunhos dos anjos,6 pelos sentidos e pelo julgamento dos apóstolos e de outros que privaram com ele e com ele comeram e beberam depois da sua ressurreição 7. 1. At 2:24.; 2. At 3:26; Rm 6:5, 9; 4:25.; 3. Hb 2:14-15; 4. Mt 28:4.; 5. Mt 27:52-53; 6. Mt 28:5-6; 7. Jo 20:27; 21:7,12-13; Lc 24:41-43.

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A Escolha da Pessoa do Nosso Redentor Quando Deus designou a redenção da humanidade, Sua grande sabedoria revelou-se no fato de que Ele mesmo determinou que o Seu Único Filho fosse a pessoa que executaria essa tarefa. Ele era o redentor escolhido pelo próprio Deus e, por essa razão, é chamado nas Escrituras de “O Escolhido de Deus” (Is 42.1). A sabedoria na escolha dessa Pessoa se manifesta no fato dEle ser, em todos os aspectos, a pessoa mais apropriada para executar essa tarefa. Era necessário que a pessoa do Redentor fosse uma pessoa divina. Ninguém, senão um ser divino era competente o suficiente para essa grande obra. Ela era totalmente inadequada para qualquer outra criatura. Era imprescindível que o Redentor dos pecadores fosse infinitamente santo em si mesmo. Ninguém poderia remover a infinita maldade do pecado, senão alguém que fosse infinitamente separado do pecado e contra o pecado. E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa

mais adequada para ser o Redentor. Para que a pessoa fosse competente o suficiente para realizar essa tarefa, era imprescindível que ela fosse uma pessoa infinitamente digna e excelente e pudesse ser merecedora de infinitas bênçãos. E em relação a esse aspecto, o Filho de Deus é pessoa mais adequada. Era necessário que essa pessoa fosse alguém com sabedoria e poder infinitos, pois essa era uma obra tão difícil que exigia alguém com esses atributos. E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa mais adequada para ser o Redentor. Era imprescindível que essa pessoa fosse muito amada por Deus Pai para que Ele concedesse um valor infinito ao acordo feito entre os dois, devido a Sua estima por essa pessoa, de modo que o amor do Pai por essa pessoa pudesse equilibrar a ofensa e a provocação causada pelos nossos pecados. E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa mais adequada para

ser o Redentor. Somos aceitos pelo Pai, “no Amado” (Ef 1.6). Era imprescindível que essa pessoa fosse alguém com autoridade absoluta para agir por si mesmo; alguém que não fosse um sevo ou um súdito, pois alguém que não pudesse agir por sua própria autoridade não teria valor algum. Aquele que fosse um servo e não pudesse fazer nada além do que aquilo que era obrigado a fazer não seria digno para essa tarefa. E aquele que não possuía coisa alguma que não fosse absolutamente sua não poderia pagar o preço da redenção de outro.

E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa mais adequada para ser o Redentor. Ninguém, senão um ser divino poderia ser adequado para ser esse Redentor. Essa pessoa deveria ser alguém que possuísse misericórdia e graça infinitas, pois nenhuma outra pessoa, senão alguém como Ele, poderia realizar uma obra tão difícil em prol de uma criatura tão indigna quanto o homem. E em relação a esse aspecto, Cristo é a pessoa mais adequada para ser o Redentor. Era imprescindível que essa pessoa possuísse verdade e fidelidade perfeitas e imutáveis. Caso contrário, não seria uma pessoa adequada, de quem poderíamos depender para realizar tamanha tarefa. E em relação a esse aspecto, Cristo é a

pessoa mais adequada para ser o Redentor. A sabedoria de Deus em escolher Seu Filho Eterno se manifesta não somente no fato dEle ser a pessoa mais adequada, mas também no fato dEle ser a única Pessoa adequada dentre todas, quer criadas ou não. Nenhum ser criado ― quer fosse homem, quer fosse anjo ― era adequado para realizar essa tarefa… Isso revela a sabedoria divina em saber que Cristo era a pessoa adequada. Nenhum outro, senão Aquele que possui a sabedoria divina poderia conhecer esse fato. Nenhum outro, senão Aquele que possui a sabedoria divina poderia pensar em Cristo para ser o Redentor dos pecadores. Pois, visto que Cristo também é Deus, Ele é uma das Pessoas contra Quem o homem pecou e que foi ofendida pelo pecado de rebelião do homem. Quem, senão o Deus infinitamente sábio poderia pensar em Cristo para ser o Redentor de pecadores que haviam pecado contra Ele, os quais eram Seus inimigos e mereciam o mal infinito de Suas mãos? Quem poderia pensar nEle como Aquele que colocaria o Seu coração no homem e teria amor e compaixão infinitos por ele, exibindo sabedoria, poder e merecimento infinitos pela redenção do homem?

Jonathan Edwards

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Revista Os Puritanos 4•2009


A Piedade nas Ordenanças As ordenanças fortalecem nossa fé, ajudando-nos a nos oferecermos como um sacrifício vivo a Deus Dr. Joel Beeke

C

Como crentes, precisamos constantemente de alimento. Nunca atingimos um ponto em que não preci-

alvino define as ordenanças como testemunhos

samos mais ouvir a Palavra, ou orar ou ser nutridos

“da graça divi­na para conosco, confirmada por um

pelas ordenanças. Temos de crescer e desen­volver

sinal exterior, com atestação mútua de nossa pie-

permanentemente. Visto que continuamos a pecar,

dade para com Ele”.1 As ordenanças são “exercí­cios da

porque portamos uma natureza pecaminosa, temos

piedade”. As ordenanças fortalecem nossa fé, ajudando-

necessidade constante de perdão e graça. Assim, a

nos a nos oferecermos como um sacrifício vivo a Deus.

Ceia do Senhor, juntamente com a pre­gação da Pala-

Para Calvino, assim como para Agostinho, as orde-

vra, nos diz vez após vez: precisamos de Cristo, pre­

nanças são a Palavra visível. A Palavra pregada nos al-

cisamos ser renovados em Cristo, edificados nEle. As

cança pelos ouvidos; a Palavra visível, pelos olhos. As

ordenanças prometem que Cristo está presente para

ordenanças mostram o mesmo Cris­to apresentado na

receber-nos, abençoar-nos e renovar-nos.

Palavra pregada, comunicando-O de um modo diferente.

Para Calvino, a palavra conversão não significava

Nas ordenanças, Deus se acomoda à nossa fraqueza.

apenas o ato inicial de vir à fé; também significava

Quando ouvimos a Palavra pregada indiscriminadamen-

renovação e crescimento di­ário no seguir a Cristo.

te, podemos inda­gar: isto é realmente para mim? Isto

As ordenanças nos guiam a esta conversão diária.

se aplica a mim? No entanto, nas ordenanças Deus nos

Elas nos dizem que precisamos da graça de Cristo

atinge e toca de modo individual, dizendo:

todos os dias. Temos de obter forças em Cristo, es-

“Sim, é para você. A promessa se estende a você”. Assim, as ordenanças ministram à nossa fraqueza, tornando pessoais as promessas, para aqueles que crêem em Cristo para a salvação.

pecialmente por meio do corpo sacrificado na cruz em nosso favor. Calvino escreveu: “Visto que a eterna Palavra de Deus é a fonte da vida, a carne de Cristo é o canal que

Nas ordenanças, Deus vem ao seu povo, encoraja-o,

derrama sobre nós a vida que reside intrinsecamente

capacita-o a conhecer a Cristo, edifica-o e o alimenta

em sua divindade. Na carne de Cristo foi realizada a

nEle mesmo. O batismo promove a piedade como um

redenção do homem; nela, foi oferecido um sacri­fício

símbolo do fato de que os crentes es­tão enxertados

para expiar o pecado, e uma obediência foi rendida a

em Cristo, que são renovados pelo Espírito e adotados

Deus, a fim de reconciliá-Lo conosco. A carne de Cristo

na família do Pai celestial.2 De modo semelhante, a

estava cheia da santificação do Espírito Santo. Final-

Ceia do Se­nhor mostra como esses filhos adotados

mente, tendo vencido a mor­te, Cristo foi recebido na

são alimentados por seu Pai amoroso. Calvino gostava

glória celestial”.4 Em outras palavras, o Espírito santi-

de referir-se à Ceia do Senhor como a nutrição para a

ficou o corpo de Cristo, que Ele ofereceu na cruz como

alma. “Os sinais são o pão e o vinho que repre­sentam

expiação pelo pecado. Aquele corpo foi ressuscitado

para nós o alimento invisível que recebemos da car-

dentre os mortos e recebido no céu. Em cada etapa de

ne e do sangue de Cristo”, ele disse. “Cristo é o único

nossa redenção, o corpo de Cristo é o caminho para

alimento de nossa alma; portanto, o Pai celestial nos

Deus. Na Ceia do Senhor, Cristo vem ao nosso encontro

convida a vir a Cristo, para que, renovados pelo par-

e diz: “Meu corpo ainda é dado em favor de vocês. Pela

tir dEle, obtenhamos forças, repetidas vezes, até que

fé, vocês podem ter comunhão comigo e receber o meu

cheguemos à imortalidade celestial”.3

corpo e todos os seus benefícios salvíficos”.

Revista Os Puritanos 4•2009

19


Joel Beeke

Calvino ensinava que, na Ceia, Cristo

fim alimentar nosso corpo físico, assim

uns aos outros e testemunham os laços

não nos dá apenas os seus benefícios,

tam­bém a nossa alma recebe, pela fé, o

que desfrutam com os outros crentes

Ele se dá a Si mesmo e os seus benefí-

corpo e o sangue de Cristo para alimen-

na unidade do corpo de Cristo.13

cios, assim como o faz na pregação da

tar nossa vida espiritual.

Palavra. Cristo também nos torna parte

Oferecemos esse sacrifício de grati-

Quando temos comunhão com Cris-

dão em resposta ao sacrifí­cio de Cristo

de seu corpo, quando se dá em nosso

to por meio das ordenanças, crescemos

por nós. Rendemos nossa vida em res-

favor. Calvino não podia explicar com

em graça. Essa é a razão por que as

posta ao ban­quete celestial que Deus

exatidão como isso acontece na Ceia do

ordenanças são cha­madas de meios de

coloca diante de nós, na Ceia. Pela gra-

Senhor, pois isso é mais fácil de ser ex-

graça. As ordenanças nos estimulam

ça do Espírito, a Ceia do Senhor nos ca-

perimentado do que de ser explicado.

em nosso progresso em direção ao céu.

pacita, como um sacerdócio real, a nos

No en­tanto, Calvino não disse que Cristo

Promovem confiança nas promessas de

oferecermos como um sacrifício vivo de

deixa o céu para entrar no pão. Pelo con-

Deus, por meio da morte redentora de

louvor e grati­dão a Deus.14

trário, na Ceia do Senhor somos chama-

Cristo, “significada e se­lada”. Visto que

A Ceia do Senhor nos impulsiona

dos a elevar nosso coração ao céu, onde

as ordenanças são alianças, elas con-

tanto à piedade da graça como à da gra-

Cristo está, e a não nos prendermos ao

têm promessas pelas quais “a consci-

tidão, como mostrou Brian Gerrish.15

ência pode ser despertada à segurança

A liberalidade do Pai e a resposta de

de sal­vação”, disse Calvino.8 O Espírito

gratidão da parte de seus filhos são um

20

pão e ao vinho externos. Somos elevados ao céu mediante a obra do Espírito Santo em nosso cora-

capacita o crente a “ver” a Palavra gra-

tema recor­rente na teologia de Calvino.

ção. Conforme disse Calvino: “Cristo

vada nas ordenanças e receber a “paz

“Devemos reverenciar grandemente esse

está ausente de nós no que se refere

de consciência” que lhe é oferecida nas

Pai, com piedade grata e amor intenso”,

ao seu corpo; mas, habitando em nós

ordenanças.9

Calvino nos adverte, “a ponto de nos de-

por meio do seu Espírito, Ele nos eleva

Finalmente, as ordenanças promo-

dicarmos totalmente a obedecer-Lhe e a

ao céu, ao encontro dEle mesmo, trans­

vem a piedade por nos mo­tivarem a

honrá-Lo em tudo”.16 A Ceia do Senhor

mitindo-nos o poder vivificador de sua

agradecer e louvar a Deus por sua graça

é a dramatização litúrgica da graça e da

carne, assim como os raios de sol nos

abundante. As ordenanças também exi-

gratidão, que estão no âmago da pieda-

revigoram por meio de seu calor vital”.5

gem que “confirmemos nossa piedade

de.17

Participar da carne de Cristo é um ato

para com Ele”. Como disse Calvino: “O

Na Ceia do Senhor, o elemento huma-

espiritual, e não um ato carnal que en-

Senhor traz à nossa memória a grande

no e o divino da piedade são mantidos

volve uma “transfusão de substâncias”.6

generosidade de sua bondade e nos ins-

em tensão dinâmica. Nesse intercâmbio

As ordenanças podem ser vistas

pira a reconhecê-la; e, ao mesmo tempo,

dinâmico, Deus se move em direção ao

como escadas pelas quais as­cendemos

nos adverte a não sermos ingratos em

crente, enquanto o Espírito Santo consu-

ao céu. “Porque somos incapazes de

relação a tão profusa liberalidade; an-

ma a união fundamentada na Palavra. Ao

voar suficientemen­te alto para nos

tes, devemos proclamar com louvores

mesmo tempo, o crente se move em di-

aproximarmos de Deus, Ele nos orde-

adequados e celebrar [a Ceia do Senhor]

reção a Deus, por contemplar o Salvador

nou as orde­nanças, como escadas”, dis-

dando-Lhe graças”. 10

que o revigora e fortalece. Nisso, Deus é

se Calvino. “Se um homem deseja pular

Duas coisas acontecem na Ceia do

até às alturas, quebrará seu pescoço na

Senhor: o receber de Cristo e o render-

tentativa; mas, se ele tem escadas, será

se do crente. Do ponto de vista de Deus,

capaz de prosseguir com confiança. De

a Ceia não é eu­carística — disse Calvino,

modo seme­lhante, se temos de chegar

pois Cristo não é oferecido novamente.

ao nosso Deus, temos de usar os meios

Tampouco é eucarística em termos dos

que Ele instituiu, visto que Ele sabe o que

méritos do homem, pois não podemos

é adequado para nós. Deus nos deu esse

oferecer nada a Deus como sacrifício.

maravilhoso amparo, encorajamento e

No entanto, a Ceia é eucarística em ter-

vigor em nossa fraqueza”.7

mos de nossas ações de graça.11 Esse

Nunca devemos adorar o pão, por-

sacrifício é uma parte indispensável

que Cristo não está no pão. Antes, en-

da Ceia do Senhor, que inclui “todos os

contramos a Cristo por meio do pão.

deveres de amor”.12 A Ceia é uma festa

Assim como nossa boca recebe o pão a

agape em que os comungan­tes animam

20

glorificado, e o crente, edificado.18 Extraído do livro Vencendo o Mundo, Dr. Joel Beeke, Editora FIEL, pgs. 57-62 Notas: 1. Institutes. 4.14.1; 2. Institutes. 4.16.9. Ver também: WALLACE, Ronald S. Calvin’s doctrine of the Word and sacrament. London: Oliver and Boyd, 1953. p. 175-183. OLD, H. O. The shaping of the reformed baptismal rite in the sixteen century. Grand Rapids: Eerdmans, 1992. 3. Institutes. 4.17.812. 4. Ibid. 5. Institutes. 4.17.24,33. 6. Institutes. 4.17.12. 7. C0. 9:47,522. 8. Institutes. 4.14.18. 9. Commentary, 1 Coríntios 11.25. 10. Commentary, Mateus 3.11; Atos 2.38; 1 Pedra 3.21. 11. OS. 1:136, 145. 12. Institutes. 4.18.3. 13. Institutes. 4.18.17. 14. Institutes. 4.17.44. 15. Institutes. 4.18.13. 16. CALVIN’S eucharistic piety. In: FOXGROVER, David. The legacy of John Calvin. Grand Rapids: CRC, 2000. p. 53. 17. OS. 1:76. 18. GERRISH, Brian A. Grace and gratitude: the eucharistic theology of John Calvin. Minneapolis: Fortress Press, 1993. p. 19-20. 19. GREVE, Lionel. Freedom and discipline in the theology of John Calvin, William Perkins, and john Wesley: an examination of the origin and nature of pietism. Dissertação (Ph. D). 1975. f. 124¬-125. Hartford Seminary Foundation, 1975.

Revista Os Puritanos 4•2009


A Igreja — Agente da Evangelização Incontestavelmente, a Igreja cristã é a agente que Deus designou para a obra de evangelização R. B. Kuiper

I

(Mateus 16.19; 18.18), autorizando-os deste modo a formular as condições para a relação de membros da

ncontestavelmente, a Igreja cristã é a agente que

Sua Igreja. É evidente que, histórica e doutrinariamen-

Deus designou para a obra de evangelização. Contu-

te, os apóstolos foram o alicerce da Igreja organizada

do, ao se afirmar isso, é bom definir o termo Igreja.

do Novo Testamento. Mudando a metáfora, os apóstolos

Neste contexto o vocábulo tem dois pontos de refe-

foram a Igreja em embrião. Conclui-se que, quando Cristo

rência que, embora inseparáveis, apropriadamente se

encarregou seus apósto­los de fazerem discípulos de todas

distinguem um do outro. Tanto a Igreja como organi-

as nações, deu essa ordem a eles e à Igreja organizada dos

zação, operando por meio dos seus ofícios especiais,

tempos subsequentes.

como a Igreja como organismo de crentes, cada um

O pentecostes não é a data de nascimento da Igre-

dos quais desempenha um ofício geral ou universal;

ja Cristã. A Igreja veio à existência no jardim do Éden.

são agentes da evangelização ordenada por Deus.

Entretanto, aconteceram algumas mudanças verdadei-

O que se segue é uma demonstração bíblica e um

ramente grandes da Igreja quando o Espírito Santo

desenvolvimento dessa proposição dupla.

foi derramado sobre ela. Como já foi dito, uma dessas

A Igreja Como Organização → Nem todas as Igre-

versalismo.

mudanças foi a transição do nacionalismo para o unijas têm o mesmo grau de organização. Umas ordenam

Outra mudança, estreitamente relacionada com a

oficiais, outras não. Nem todas as Igrejas que adotam

anterior, foi a separação de Igreja e Estado. Na velha dis-

oficiais reconhecem o mesmo número deles. Todavia,

pensação a Igreja e o estado, se bem que não identifica-

inevitavelmente, toda Igreja tem organização em algu-

dos, estavam interligados intimamente. Israel era uma

ma extensão. E a Escritura o requer. Organizar grupos

teocracia; pode-se dizer um Esta­do-Igreja. Agora que a

de cristãos em Igrejas era o invariável costume do mis-

Igreja se havia tornado universal, tinha que ser cortada

sionário Paulo. Na Ásia Menor, ele e Barnabé ordena-

do estado judaico. Pois foi o que ocorreu. E este é um

ram presbíteros em cada uma das Igrejas (Atos 14.23).

modo de dizer que no Pentecoste a Igreja adquiriu sua

A Bíblia ensina claramente que a evangelização é

organização próp ia e distinta. Não é impróprio afirmar

tarefa da Igreja organizada.

que, embora o Pentecoste não assinale o natalício da

Os apóstolos, a quem a Cabeça da Igreja dera o man-

Igreja cristã como tal, ele assinala o dia do nascimento

damento mis­sionário, foram o alicerce da Igreja orga-

da organização da Igreja neotestamentária. Foi nesse

nizada neotestamentária. Quando Pedro, como porta-

sentido que a Igreja recebeu poder do Espírito Santo

voz dos doze, tinha confessado que Jesus é o Cristo,

para testemunhar de Cristo “em Jerusalém, em toda a

o Filho de Deus vivo, disse o Senhor: “Eu te digo que Judéia, em Samaria, e até os confins da terra” (Atos 1.8). tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” Havia uma Igreja organizada em Antioquia da Síria. (Mateus 16.18). A “pedra” de que Jesus falou não era Ela recebeu esta ordem do Espírito Santo: “Separai-me nem Pedro como indivíduo, nem meramente sua confis- agora a Barnabé e a SauIo para a obra a que os tenho são, mas, sim, o Pedro confessante como representante chamado”. A Igreja obedeceu. É significativo que se diz dos apóstolos. E a “Igreja” mencionada era uma orga-

que Barnabé e Saulo foram enviados como missionários

nização, como transparece do fato de que foi adiante

pela Igreja e pelo Espírito Santo. “Então, depois que jejuaram, oraram e lhes impuseram as mãos, os despediram.

e confiou “as chaves do reino dos céus” aos apóstolos

Revista Os Puritanos 4•2009

21


R. B. Kuiper

Enviados, pois, pelo Espírito Santo, des- ser evangelista, exercesse um segundo ceram a Selêucia e dali navegaram para ofício. Chipre” (Atos 13.2-4). Em resumo, SauEvidentemente o nome evangelista

esse título dos obreiros não ordenados

lo e Barnabé foram ordenados missio-

era dado às vezes a homens que ser-

que fazem trabalho evangelizante não

nários, divina e eclesiasticamente.

viam como pregadores itinerantes. De-

deve ser considerado como exigência

particularmente aos não salvos, bem podem ser assim denominados. Retirar

A argumentação recém apresen-

pois de pregar o Evangelho num lugar,

de princípio. E como será demonstrado

tada é incontestável. É preciso ano­tar

partiam logo para outro. Em rápida

a seguir, é próprio afirmar que, num

como fato estabelecido que a Igreja

sucessão Filipe foi levado pelo Espíri-

sentido real, todo cristão está obriga­

como organização é agente que Deus

to para pregar em Samaria, na estrada

do a ser evangelista, por dever sagrado.

nomeou para a obra de evangelização.

de Jerusalém a Gaza, e em Azoto (Atos

O assunto recém-considerado é de

Daí, seus oficiais devem aplicar-se à

8:5,26,40). Assim o evangelista, saindo

importância relativamente menor. Res-

evangelização, ordenar missionários e

de uma dada locali­dade, deixava lugar

ta considerar uma questão decidida-

enviar trabalhadores para a seara. Não

para um pastor ou mestre. Talvez seja

mente importante.

se conclua, porém, que somente os seus

esta a razão porque os pastores e mes-

Desde a Reforma do século dezes-

oficiais têm o dever de dedicar·se ativa-

tres são mencionados logo em seguida

seis, o protestantismo sempre ensinou

mente à evangelização. Sob os seus aus-

aos evangelistas em Efésios 4:11.

que três marcas distinguem a verda-

pícios, direção e governo os membros

O fato de que em Efésios 4:11 a fun-

deira Igreja da falsa. São a autêntica

da Igreja em geral têm a obrigação de

ção dos evangelistas é introdu­zida en-

pregação da Palavra de Deus, a mi-

levar o Evangelho aos não salvos.

tre as funções temporárias de apóstolos

nistração dos sacramentos de acordo

Aqui é preciso dizer algo acerca do

e profetas e as funções permanentes

com os preceitos de Cristo, e o fiel

uso bíblico do termo evangelista. Apa-

de pastores e mestres, dá surgimento

exercício da disciplina eclesiás­tica.

rece três vezes no Novo Testamento.

à questão se era para os evangelistas

Em vista da incondicional exigência

Em Atos 21:8 Felipe é chamado de

servirem somente à Igreja apostólica

da Palavra de Deus de que a Igreja se

“evangelista”. Efésios 4:11: “E ele deu

ou também à Igreja das eras posterio-

aplique à evangelização, pergunta-se

uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres”. Em 2 Timóteo 4:5

res. Não é difícil encontrar a resposta.

se não deveria ser acrescen­tada uma

Os evangelistas exerceram autoridade

quarta marca, a saber, a evangelização

extraordinária, com estreita afinidade

dos não salvos. Esta matéria merece

Paulo admoesta o seu filho espiritual di-

com a dos apóstolos. Tinham autorida-

séria consideração. Talvez se possa

zendo: “Faze o trabalho de evangelista”. À

de para nomear presbíteros (Tito 1:5) e

indagar se existe em algum lugar al-

luz destas passagens, parecem ter base

para exercer disciplina individualmen-

guma Igreja que negligencie comple-

certas conclusões.

te (Tito 3:10). Evidentemente os evan-

tamente a evangeliza­ção. Mas caso

O evangelista não ocupou um quar-

gelistas receberam autoridade especial

haja uma Igreja assim, ela está-se ne-

to ofício da Igreja apostólica em acrés-

dos apóstolos, com os quais estavam

gando a si mesma abertamente. Para

cimo aos três ofícios de presbítero

associados intimamente. Poder-se-ia

usar uma expressão um tanto banal, a

regente, presbítero docente e diácono.

dizer que eram apóstolos por delega-

evangelização é essencial, não somen-

Isso parece que devia ser uma conclu-

ção. E isto só pode significar que sua

te ao bem estar da Igreja, mas à pró-

são já evidente, pois Cristo, a Cabeça

posição na Igreja era temporá­ria, como

pria existência dela. Evangelizar é da

da Igreja, exerce o tríplice ofício de

a dos apóstolos.

essência da verdadeira Igreja. Contudo,

rei, profeta e sacerdote, e os três ofí-

Se a palavra evangelista não pode

cios eclesiásticos mencionados acima

ser empregada hoje pela Igreja é ou-

uma quarta marca às três tradicionais.

O representam nesse tríplice ofício.

tra coisa. Tirar essa conclusão poderia

Pois a evangelização está implícita na

Dificilmente se pode pensar num quar-

demonstrar um biblicismo doen­tio. É

primeira e principal marca. Pregação

to ofício em coordenação com os três.

certo que no presente a Igreja já não

autêntica é pregação da Palavra de

isto não indica que deve ser adicionada

Esta conclusão é confirmada pelo fato

tem evangelistas no sentido especial e

Deus não adulterada, por certo, mas

de que Filipe, o evangelista, era diáco-

específico em voga na era apostólica.

é também pregação de toda a Palavra.

no (Atos 6:5) e Timóteo, o evangelista,

Mas isto não é razão bastante para le-

Não se pode dizer que a Igreja que

era sem dúvida presbítero (1 Timóteo

var-nos a evitar aquele nome. Por exem-

deixa por completo de evangelizar os

4:14; 1 Tessalonicenses 3:2). É impro-

plo, os pregadores ordenados pela Igre-

não salvos esteja proclamando todo o

vável que qualquer deles, em virtude de

ja organizada para levar o Evangelho

conselho de Deus. A evangelização faz

22

Revista Os Puritanos 4•2009


A Igreja, Agente da Evangelização

parte integrante da pregação legítima.

Deus instituiu oficiais especiais em

Espírito!” (vers. 29). Esse foi um desejo

Quem sabe se poderia reformular a ex-

Sua Igreja. Mas a Escritura tam­bém

profético. Séculos mais tarde, o profe-

pressão verbalizada da primeira marca

ensina que há um ofício universal de

ta Joel predisse o cumpri­mento desse

da verdadeira Igreja de modo que res-

que participam todos os Cristãos. Todo

desejo. Deus disse por intermédio dele:

salte essa verdade.

crente em Cristo detém o tríplice ofício

“E acontecerá depois que derramarei o

Outra matéria de considerável im-

de profeta, sacerdote e rei. Esta verdade

portância precisa ser mencionada. Pau-

é afirmada sucintamente em 1 Pedro

lo ordenou ao evangelista Timóteo: “O que de mim ouviste, entre muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idô­neos para instruir a outros” (2 Timóteo 2:2). Uma implica-

2:9: “Vós,porém, sois raça eleita, sacer-

fazer provisão para o preparo de evan-

dócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.

gelistas, particularmente daqueles que

A Igreja é uma reale-

ção dessa ordem é que a Igreja precisa

têm em mente dedicar a vida toda à

za de sacerdo­tes, um

apre­sentação do Evangelho aos per-

sacerdócio de reis. E

didos. Neste ponto muitas Igrejas são

cada sacerdote e rei

falto­sas. Quase todas as denominações

tem o dever de procla­

possuem uma ou mais escolas teológi­

mar as excelências do

cas para a preparação de ministros. O

seu Salvador. É sua

meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; e também sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu espírito naqueles dias” (Joel 2.28,29). Essa profecia

Pregação

autêntica é pregação da Palavra de Deus, mas é também

cumpriu-se no Pentecostes, quando não só os apóstolos, mas todos os membros da Igreja de Jerusa­ lém estavam reunidos unânimes num mesmo lugar, e “todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, confor­me o Espírito lhes concedia que falassem” (Atos 2.1,4). Tem-

currículo de muitos desses seminários

função como profeta.

visa principalmente ― quase exclusi-

A experiência de

vamente até ― ao preparo de homens

Eldade e Medade nar-

para servirem como pastores de Igrejas

rada em Números 11

estabelecidas. Muitíssimo mais atenção

é tão instrutiva como

devia ser dada à preparação de evan-

interessante. Moisés

gelistas.

não podia levar so-

que o Pentecostes dá

zinho a carga de

lugar ao sacerdócio

pregação de toda a Palavra

se dito com acerto

A Igreja como Organismo → A Igre-

julgar os filhos de

ja organizada foi instituída por Deus.

Israel durante a sua peregrinação no

Pode-se muito bem dizer igualmente

Ele é seu fundador. Não declarou o Fi-

deserto. À ordem de Deus, foram desig-

que o derramamento do Espírito fez de

lho de Deus: “Sobre esta pedra edificarei

nados setenta anciãos como seus assis-

cada membro da Igreja um evangelista.

a minha igreja”. (Mateus l6.l8)? Por essa

tentes. Em dada ocasião, eles estavam

Assim foi no dia de Pentecoste e assim

razão os homens deviam escrupulosa­

reunidos no tabernáculo, o Espírito de

continua sendo hoje. Cada cristão é um

mente tomar cuidado para não privá-la

Deus veio sobre eles, e profetizaram.

agente da evangelização, ordenado por

de suas prerrogativas. E ela não tem

Entretanto, Eldade e Medade, embora

Deus.

universal dos crentes.

prerrogativa mais preciosa do que a de

pertencentes aos setenta, estavam fora

Desta maneira, o crente dá testemu-

evangelizar o mundo.

do tabernáculo, no acampamento. Sur-

nho de Cristo aos seus vizinhos, aos

Apesar disso, não segue que todo

preendentemente, o Espírito veio sobre

seus companheiros de trabalho na loja,

empreendimento evangelístico deve

eles também, e profetizaram. Um jovem

no armazém ou no escritório, a seus

estar sob o direto e completo controle

correu a contar a Moisés esta flagran-

colegas de estudos e a seus professo-

da Igreja como organização. A Igreja

te irregularidade. Josué, filho de Num,

res, àqueles sobre os quais tem auto-

tem outro aspecto. Além de ser organi-

zeloso servidor de Moisés, exclamou:

ridade e àqueles que têm autoridade

zação, é organismo. Como organização

“Moisés, meu senhor, proíbe-os”. Que foi

sobre ele. Convida os seus vizinhos

ela opera por meio dos seus oficiais;

que Moisés fez? Repreendeu Eldade e

que não pertencem a nenhuma Igreja

como organismo ela opera por meio

Medade? Não fez nada disso. Ao invés,

a que frequentem os cultos de sua Igre-

dos seus membros, individualmente

disse: “Oxalá todo o povo do Senhor fosse

ja, reúne em casa os filhos deles para

considerados.

profeta, que o Senhor lhes desse o Seu

contar-lhes histórias bíblicas e coloca

Revista Os Puritanos 4•2009

23


R. B. Kuiper

folhetos evangélicos ao alcance de toda

são de origem humana e podem apli­

de Deus, e aquela organização sentiu-se

gente em lugares públicos. Distribui

car-se à evangelização, estas devem vi-

constrangida a apelar para a ordenação

Bíblias nos lares, hotéis e motéis. Em

giar sempre no sentido de evitarem que

de missionários verdadeiramente evan-

suma, semeia a se­mente do Evangelho

venham a suplantar a primeira em sua

gélicos. Quando, no primeiro quartel do

onde pode e lança o pão do Evangelho

qualidade de agente da evange­lização.

século atual, a Igreja Presbi­teriana nos

a muitas águas. E para fazer isso tudo

Nestes dias em que ― geralmente

Estados Unidos da América caiu sob

não tem por que pedir autorização aos

falando ― a Igreja organizada não goza

o fascínio do modernis­mo, homens e

oficiais da sua Igreja. Cristo, seu Senhor,

tão alta estima como devia, nem mesmo

mulheres fiéis criaram a Junta Inde-

o autorizou. Não obstante, ele o faz na

por seus próprios membros, essa adver-

pendente de Missões Presbiterianas

qualidade de membro do corpo de Cris-

tência está longe de ser supérflua. Não é

Estrangeiras. Esses são exemplos de

to, a Igreja.

nem um pouco raro que missões e cam-

medidas radicais, justificadas porém

Aquilo que o crente pode fazer como

panhas evangelísticas sejam dirigidas

pelas situações de emergência ― medi-

indivíduo, pode fazer também em co-

por juntas ou comissões independentes

das dignas de louvor, verdadeiramente

laboração com outros cristãos. Grupos

do controle eclesiástico. Normalmente

heróicas. Todavia, deve-se reconhecer

ou associações voluntárias de cristãos

isto não deveria acontecer. Sabe-se

que são exceções à regra. Antes de se

podem traduzir, publicar e distribuir as

de associações dessas que costumam

darem tais passos, deve-se fazer todo o

Escrituras, trans­mitir o Evangelho pela

enviar evangelistas ordenados e mes-

possível para persuadir a Igreja organi-

produção e disseminação de literatura

mo costumam ordenar evangelistas.

zada a cumprir o seu dever, e a fazê-lo a

cristã, e por muitos e variados meios

Em condições normais essas práticas

contento. E, se forem tomadas aquelas

pode propagar as boas novas da salva-

devem ser julgadas completamente

medidas extremas, deverão ser postas

ção onde esta não é conhecida.

irregula­res. É evidente que atividades

de lado assim que surgir uma Igreja ca-

Tem-se tentado algumas vezes traçar uma aguda linha de demarca­ção entre a

dessa natureza são prerrogativas da

paz e desejosa de levar adiante a obra

Igreja organizada.

de evangelização verdadeiramente cris-

atividade evangelística da Igreja como

Se as condições de uma Igreja po-

organização, e a obra evangelística ade-

dem ou não tornar-se tão anormais que

A Igreja como organização, e a Igreja

quadamente levada adiante pela Igreja

justifiquem esses modos de proceder, é

como organismo são ambas agentes da

como organismo, mas nunca se alcan-

outra questão. Quando a Igreja da In-

evangelização, agentes ordenados por

çou pleno sucesso nessas tentativas.

glaterra negligenciou as missões, mui-

Deus. Não podem entrar em conflito

Proeminentes

evangélicos

tos dos seus membros se congregaram

uma com a outra, pois são dois aspectos

chegaram à conclusão de que isto não

em sociedades missionárias. Elas se en-

do corpo uno de Cristo. Devem traba-

é nem necessário nem possível. Entre-

carregaram de fazer o que competia à

lhar harmoniosamente para apressar o

teó­logos

tã.

tanto, pelo menos um ponto precisa ser

Igreja, e que esta deixou de fazer. Quan-

dia em que todas as nações que Ele fez,

estabelecido. Visto que a Igreja organi-

do, em meados do século dezenove, a

venham perante o Senhor, adorem-no, e glorifiquem o Seu nome (Salmo 86:9).

zada foi instituída por Deus e deve apli-

Igreja oficial da Holanda sucumbiu ao

car-se à evangelização, ao passo que as

modernismo teológico, alguns dos seus

associações voluntárias de cristãos, ain-

membros fundaram uma organização

Extraído com permissão de “Evangelização Teocên-

da que legítimas e bem intencionadas,

para a direção de missões fiéis à Palavra

trica”, PES - PP. 93-100

Segunda Confissão Helvética 16. Da fé e das boas obras, e da sua recompensa, e do mérito do homem Obras de escolha humana → E na verdade, obras e cultos que escolhemos por nosso arbítrio não são agradáveis a Deus. A estes São Paulo denomina ethelothreskia (CI 2.23). Desses o Senhor diz no Evangelho: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt. 15.9). Portanto, desaprovamos tais obras, mas aprovamos e estimulamos aquelas que são da vontade e de mandado de Deus.

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Revista Os Puritanos 4•2009


As Escrituras — Nossa Conselheira “Com efeito, os teus testemunhos são o meu prazer, são os meus conselheiros” (Sl 119:24) Charles Bridges

O

Todavia para aqueles que fazem da Palavra seu deleite, sempre haverão de considerá-la seu conselheiro. Uma

que mais poderíamos desejar em tempos de

leitura superficial nunca nos fará compreender acerca

lutas senão conforto e direcionamento. Davi

do gozo santo e do conselho nela contidos. Ela deve

possuía estas bênçãos. Como fruto de sua “me-

ser aplicada em nossa experiência particular, em nos-

ditação nos mandamentos do Senhor”, eles eram o seu

sa conversação diária e consultada naquelas ocasiões

“deleite” na angústia e conselheiros na perplexidade.

rotineiras quando, esquecidos de nossa necessidade de

Ele não trocaria este deleite pelo maior dos prazeres

orientação divina, somos freqüentemente inclinados a

terrenos (vv. 14, 97, 103 e 127 com Sl 4:7). Tão sabia-

seguir nosso próprio conselho. O cristão é um homem

mente estes conselheiros dirigiram seus passos, que,

de fé em cada passo de sua caminhada. O uso cotidia-

não obstante “príncipes se assentaram e falaram contra

no e a familiaridade com os testemunhos de Deus (Nm

ele”, não puderam acusá-lo por nenhum motivo ou falta

9:15-23) revelar-se-ão como a coluna e a nuvem em

(1 Sm. 18:14; Sl 101:2; com Dn. 6:4, 5). Os mandamentos do Senhor foram verdadeiramente “os homens do seu conselho”. Ele se conduziu pelas

todos os reveses de sua vereda celestial. Para o cristão, a Palavra será como o Urim e Tumim — um infalível conselheiro.

ordenanças do Livro de Deus, colocadas diante de si,

Entretanto, algumas vezes a perplexidade se ergue

como recurso vindo do mais experiente dos conselhei-

em meio ao conflito, não aquele entre nossa consciên-

ros. Ou ainda quando os profetas lhe entregavam a Pa-

cia e a indulgência pecaminosa (na qual a sinceridade

lavra diretamente da boca de Deus. Desta forma, mesmo

cristã invariavelmente determinaria o rumo a trilhar),

como súdito ou como Rei, Davi possuía conselhos. De

mas entre deveres e deveres. Quando, porém, certas

um lado estava Saul e seus conselheiros (v. 23). No ou-

obrigações parecem conflitar-se entre si, o conselho da

tro, Davi e os testemunhos do seu Deus. Pensemos: qual

Palavra definirá a importância relativa delas, conexão e

estava mais bem provido daquela sabedoria que é útil

dependência, a disposição da providência, a orientação

para guiar? Posteriormente já como Rei, Davi estava

que tem sido concedida ao povo de Deus em situações

obrigado a fazer dos “testemunhos do seu Deus seus

semelhantes e a luz que a vida diária de nosso Modelo

conselheiros” (Dt. 17:18-20); e certamente através da

Maior demonstra diante de nós. A questão principal,

constante consideração à voz destes mandamentos, ele

porém, é cultivar o hábito mental que se encaixa mais

usufruiu grande prosperidade terrena.

naturalmente com o conselho da Palavra. “Caminhando

Em um mundo como este cercado de tentações por

no temor do Senhor” (veja Salmo 25:12,14) com espírito

toda a parte, precisamos principalmente de conselhos

humilde de dependência, fugindo da idolatria de tomar

sábios e sadios. Mas em nosso interior, todos nós tra-

conselho com nossos corações, não podemos material-

zemos um péssimo conselheiro e nossa tolice é dar ou-

mente errar. Deve haver uma confluência entre nossa

vidos à sua voz. Deus nos tem concedido sua Palavra

disposição e a promessa divina — uma vigilância contra

como um conselheiro infalível e “aquele que dá ouvidos

a propensão impetuosa da carne; uma consideração vi-

ao conselho é sábio” (Pv.12:15)

gorosa pela glória de Deus e uma submissão mansa ao

Pois bem, nós valorizamos o privilégio deste conse-

seu gracioso desígnio.

lho celestial? Cada progresso tem de aprofundar nosso

Se, contudo, o conselho não se mostrar infalível, a

deleite nele. Um interesse leviano impede esta benção.

falta não está na Palavra, mas na obscuridade de nossa

Revista Os Puritanos 4•2009

25


Charles Bridges

percepção. Neste caso, não precisamos

para

caminharmos

cautelosamente

tivéssemos ouvindo uma revelação di-

de uma regra mais clara ou um guia

naqueles pontos de dúvida em relação

reta dos céus. Não queremos uma nova

mais seguro, mas de uma visão precisa.

ao conselho celestial, que podem co-

revelação, ou uma voz sensível do alto

E por fim, se não pudermos definir cada

mungar com nossa inclinação natural.

para cada novo acontecimento. Basta

ato de nosso dever (já que para tal, até

No retrospecto de nossas experiências

apenas aquilo que nosso Pai nos deu:

o mundo em si mesmo “não poderia conter os livros que deveriam ser escritos”)

passadas, quantos passos equivocados

esta abençoada “lâmpada para nossos

podem ser atribuídos ao conselho de

pés e luz para nossos caminhos” (Sl 119:

mesmo assim o conselho determina o

nossos próprios corações, buscados e

105; compare Pv. 6:23).

padrão pelo qual a mais insignificante

seguidos pela nossa negligência ao con-

Deixe-me então inquirir — Qual é o

das ações da mente deve ser submetida

selho de Deus (Josué 9:14 Isaías 30:1-

conselho de Deus que me fala direta-

(1Co. 10:31 e Cl 3:17) e a postura que

3), ainda que nenhuma circunstância

mente? Se eu sou um pecador adorme-

refletirá a luz da vontade de Deus sobre

de incerteza tenha nos assaltado, mes-

cido, ele me adverte para deixar o peca-

nossa conduta (Mateus 6:22,23).

mo estando nós em espírito de humil-

do (Pv.1:24-31; Ez. 33:11); convida-me

Porém estejamos apercebidos que

dade, simplicidade, santidade, quando

ao Salvador (Isaías 55:1 João 7:37) e

qualquer desejo de sinceridade no co-

aparentemente o conselho do Senhor

me instrui a esperar em Deus (Os. 12:6).

ração (1Sm 28.6; Ez 14:2-4) qualquer

nos faltava!

Se for um mestre, ensoberbecido na for-

concessão à auto-suficiência sempre

Uma dependência exagerada do

ma da piedade, o conselho me mostra a

bloqueará as avenidas desse conselho

conselho humano (Isaías 2:22), seja

minha real condição (Ap. 3:17). Ele me

e luz divinos. Volta e meia estamos

ele de vivos ou de mortos, obstrui

educa na completa suficiência de Cris-

inconscientemente andando “nas laba- grandemente a influência completa redas do nosso próprio fogo, e entre as da Palavra. Ainda que tais conselhos faíscas, que acendemos” (Isaías 50:11). possam ser de grande valia; ainda que

da hipocrisia (Lc.12:1). Se pela graça

to (Ap.3:18) e adverte acerca do perigo sou filho de Deus, ainda necessito do

Talvez, de acordo com o que con-

possam estar bem próximos e em con-

conselho paterno para me restaurar da

cebemos, buscamos a orientação do

cordância com a Palavra, não devemos

constante apostasia (Jr. 3:12,13), para

conselho do Senhor, supondo que es-

esquecer que eles não são a Palavra,

motivar-me à redobrada vigilância (I Ts

távamos caminhando nele. Mas, no ato

mas que são falíveis. Portanto não po-

5:6 Ap. 3:2), fortalecer minha confiança

e durante a preparação para a busca,

dem ser colocados em primeiro plano

na plenitude de sua graça (Is. 26:4) e

sujeitamos nossas intenções e inclina-

ou seguidos com aquela total confiança

na fidelidade de seu amor (Hb. 12:5,6).

ções a um escrutínio severo, cauteloso,

a que somos advertidos a colocar na re-

Sempre terei motivo para agradecer e

e com uma atitude de auto-suspeita? O

velação de Deus. Por outro lado, o que é ter a Palavra

reconhecer - “Louvarei ao Senhor que me aconselhou” (Sl 16:7). Em cada passo

cruz? “Cada pensamento foi trazido cati-

de Deus como nosso Conselheiro? Não é

da minha caminhada, avançarei glorifi-

vo à obediência de Cristo”? (II Co. 10:5).

estar nele mesmo, “o único Deus sábio”?

cando ao meu Deus e Pai pela fidelidade

coração foi educado na disciplina da

Ou nosso coração não foi possuído pelo

Quando nossas Bíblias, em períodos de

de seu conselho até o fim: “Guiar-me-ás

objetivo almejado antes que o conselho

dificuldade, são buscadas em humilda-

fosse buscado da boca do Senhor? (Jr

de, oração e espírito dócil, tornamo-nos

com teu conselho, e depois me receberás na glória” (Sl 73:24) .

42). Oh! Quão cuidadosos devemos ser

tão dependentes do Senhor como se es-

Charles Bridges

Salmo 84:1-4 Quão amáveis são os teus tabernáculos, SENHOR dos Exércitos! 2A minha alma está desejosa, e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo. 3Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha seus filhos, até mesmo nos teus altares, SENHOR dos Exércitos, Rei meu e Deus meu. 4 Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão continuamente.

1

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Revista Os Puritanos 4•2009


Não Dê Ouvidos ao Diabo “Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? (Lucas 12:20)

Edward Donnelly

O

se a crer no que Ele lhe diz nenhuma exibição de som e luz mudará o seu destino.

objetivo de satanás é conduzir você gentilmen-

Se você ainda é jovem, forte e saudável, o diabo pode

te para o inferno, e ele é o mestre das trevosas

indicar a você o absurdo de se incomodar agora com

artes da persuasão. Se você tem algum conhe-

a morte e com o juízo. Ora, você tem muitos anos pela

cimento da Bíblia, ele pode adotar uma abordagem teo-

frente! Haverá bastante tempo quando você ficar velho.

lógica, concitando você a esperar por uma experiência

Mas, como você sabe que viverá até à velhice? A um ho-

tipo “caminho de Damasco”, por alguma intervenção

mem que estava convencido de que contava ainda com

cataclísmica e irresistível de Deus. Aqui está satanás,

muitos anos e que dissera a si mesmo: “descansa, come

o estudioso da Bíblia, persuadindo você a raciocinar

bebe e folga”, Jesus disse: “Mas Deus lhe disse: louco,

desta maneira: “Deus é soberano, não é? Ele tem os

esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:19,20). Na

Seus eleitos, dos quais nenhum se perderá. E ninguém

memorável ilustração de Jonathan Edwards, os ímpios

poderá crer, se Deus não lhe der capacidade para isso.

são como pessoas que estão andando sobre um poço

Muito bem, pois, se eu sou um dos eleitos, que Deus

cuja cobertura apodrecida em muitos pontos está fraca

desça do céu, detenha meus passos, e me desperte e

de­mais para lhes suportar o peso. Mas elas não sabem

me leve à fé. Quando Ele fizer isso, vou crer. Enquanto

onde estão os lugares fracos, e cada passo está cheio

não chegar esse momento especial, continua­rei como

de perigo. A qual­quer momento você pode escorregar

estou”.

através da estrutura do tempo, e cair no mundo por vir.

Você se lembra do rico da parábola que queria um

Deus o está mantendo vivo até agora e, se você não é um

momento especial como esse para os seus irmãos incré-

convertido, Ele está tão irado com você quanto o está

dulos? Ele na verdade pediu que lhes fosse enviado um

com os que já estão no inferno. Esta noite você vai para

mensageiro do além. “Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes

a cama nas mãos de um Deus irado. Que motivo você

à casa de meu pai. Pois tenho cinco irmãos; para que lhes

tem para acreditar que vai acordar? E, se não acordar,

dê testemunho, a fim de que não venham também para

onde estará você?

este lugar de tormento” (Lucas 16:27,28). Que reunião

Talvez você tenha medo de que riam de você. Você

evangelística sensacional teria sido essa! Imaginemos

sabe que deve fazer as pazes com Deus, mas, e os seus

quão dramático seria o convite impresso: “Na próxima

amigos? Eles são espertos, sofisticados, irreverentes.

semana, na Igreja Reformada Betânia - Orador Especial,

Você tem ouvido as zombarias que eles fazem da reli-

Vindo Diretamente da Eternidade. Somente uma apre-

gião, e provavelmente se juntou a eles nisso. Que diriam

sentação. Não deixe de ouvir esse visitante que vem do

eles, se você se tornasse cristão? Você já pode ouvir as

mundo futuro!” Mas a resposta de Abraão foi água fria

críticas deles, ver as suas expressões de desprezo e dó.

na caldeira: “Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. Se

Mas você vai deixar que outras pessoas o envi­em para

não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acredi-

o inferno? Vai permitir que o riso escarninho delas o

tarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (Lucas

mantenha fora da salvação? Que horrível paródia de

16:29,31). Para a sua conversão você não pode depen-

amizade! Quantos “amigos” amaldiçoarão uns aos ou-

der de intervenções extra­ordinárias de Deus. Nem pre-

tros no mundo vindouro? “Cristo Se aproximou de mim”,

cisa disso, pois EIe proveu na Bíblia toda a informação

eles rosnarão, “mas eu pensei demais na boa opinião de

de que você necessita para a salvação. Se você recusar-

vocês. Vocês me arruinaram. É em parte por causa de

Revista Os Puritanos 4•2009

27


Edward Donnelly

vocês que eu estou aqui”. E se odiarão

testarão: “Senhor, Senhor, não profeti-

Que mais posso dizer? Pela Palavra

uns aos outros por toda a eternidade. A

zamos em teu nome? E em teu nome

de Deus você viu um pouco de como é

condenação eterna é um preço dema-

não expulsamos demônios? E em teu

o inferno. Não posso acreditar que você

siado alto ara pagar pela amizade.

nome não fizemos muitas maravilhas?

queira ir para lá. Todavia, se não clamar

Ou talvez você esteja gostando mui-

(Mateus 7:22,23). Certamente não va-

a Cristo para que o salve, esse é o desti-

to dos prazeres este mundo pecamino-

mos para o inferno”. Entretanto irão,

no que você estará escolhendo. Estaria

so, e reluta em abandoná-los. Há uma

pois nunca nasceram de novo, nunca

você realmente determinado a escolher

ter­rível ironia nas palavras de Abraão

foram feitas novas pessoas. Sua fé era

tal desgraça?

ao rico que estava no inferno: “Filho,

superficial e irreal.

E o aspecto mais estulto de todos

lembra-te de que recebeste os teus

Pode ser que, mesmo agora, você não

é que a sua condenação eterna é des-

bens em tua vida” (Lucas 16:25). “Os

creia. Você não vai deixar um pregador

necessária. Pois o Senhor Jesus Cristo

teus bens.” Como essas palavras devem

intimidá-lo com um espantalho primiti-

está pleite­ando com você neste exato

ter raspado angustiosamente a alma

vo como esse. Você não aceita - nem acei-

momento. Enquanto você lê estas pa-

daquele ser condenado e atormentado!

tará - que existe inferno, ou, se aceita,

lavras, ele o está chamando a Si, orde-

“Meus bens! Sim eu achava que eram

não admite que vai para lá. Certamente

nando-lhe que abandone o pecado, que

“bens”, que eram “coisas boas” (VA). Eu

esse é o ponto de vista da maioria. Numa

só leva à destruição. Ele é infinitamente

me entreguei a elas, ao dinheiro, ao

recente pesquisa da Gallup, nos Estados

misericordioso e bondoso. Se Lhe pedir

luxo e ao egocentrismo. Eu as avaliei co-

Unidos, não mais que quatro por cento

que seja o seu Salvador, Ele o receberá e

locando-as acima de tudo mais e vendi

das pessoas consultadas achavam que

lhe perdoará. Ele o lavará e o purificará,

por elas a minha alma imortal. Contudo,

poderiam acabar indo parar no inferno.

e o tornará salvo e seguro para sempre,

que penso dessas “coisas boas” agora?”

Outrora muitas almas perdidas pensa-

e você será santo e feliz, aguardando

Haverá freqüentadores de igreja no

vam o mesmo. Não acreditavam no infer-

uma eternidade de gozo e glória no céu.

inferno. No dia do juízo alguns prega-

no. Acreditam agora por­que é onde elas

“Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endure-

dores, evangelistas e líderes estarão

estão. Mas para elas é tarde demais. Para

çais os vossos corações” (Hebreus 4:7).

diante de Cristo com anelante sorriso

você não é tarde demais - ainda. Deus lhe

no rosto, esperando receber o Seu “Bem

está dando uma oportunidade de livrar-

está”. Mas, para seu assombro e horror,

se clamando a Seu Filho para que seja o

Extraído do livro Depois da Morte — O Quê?, Editora

Ele dirá: ‘’Apartai-vos de mim”. Eles pro-

seu Salvador.

PES, PP. 68-71

Confissão de Fé de Westminster Capítulo XVII → Da Perseverança do Santos I. Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos1. II. Esta perseverança dos santos não depende do livre arbítrio deles, mas da imutabilidade do decreto da eleição, procedente do livre e imutável amor de Deus Pai, da eficácia do mérito e intercessão de Jesus Cristo, da permanência do Espírito e da semente de Deus neles e da natureza do pacto da graça; de todas estas coisas vêm a sua certeza e infalibilidade2. I. Ref. • Fl. 1: 6; João 10: 28-29; I Pe. 1:5, 9. II. II Tm. 2:19; Jer. 31:3; Jo. 17:11, 24; Hb 7:25; Lc. 22:32; Rm. 8:33, 34, 38-39; Jo 14:16-17; I Jo 2:27 e 3:9; Jr. 32:40; II Ts. 3:3; I João 2:19; Jo. 10:28.

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Revista Os Puritanos 4•2009


Nosso Lugar de Refúgio “E será aquele varão como um esconderijo contra o vento, e um refúgio contra a tempestade, como ribeiros de água em lugares secos...”(Isaías 32:2) Jonathan Edwards

V

quando estamos debaixo de um bom abrigo, a tempestade que deveria cair sobre nossas cabeças, cai sobre

ivemos num mundo pervertido, onde enfrenta-

o abrigo.

mos constantemente um exército de tristezas e

Cristo foi escolhido e encarregado pelo Pai para essa

problemas. Grande parte de nossa vida é gasta

obra de amparo das almas desamparadas. Jesus Cristo

em chorar os males presentes e passados ou em temer

quis que a ira do Pai fosse descarregada contra sua

os que ainda estão no futuro.

própria cabeça, e não sobre nós, miseráveis pecadores.

Ora, existe um firme alicerce de paz e segurança

Por muitas vezes, Cristo é chamado de eleito de Deus,

para aqueles que experimentam tais aflições em favor

ou Seu escolhido, por haver sido selecionado pelo Pai

de outros, ou que, pessoalmente, enfrentam tais peri-

para essa obra. Os nomes “Messias” e “Cristo” signifi-

gos. Jesus Cristo é um refúgio em qualquer situação; há

cam “ungido”, porquanto Deus O nomeou e capacitou

uma base para apoio racional e paz na Sua pessoa sem

para a tarefa de salvar o Seu povo. Cristo disse: “A von-

importar o que nos ameace. Aquele cujo coração está

tade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna” (João 6:40).

firmado e confiante em Cristo não precisa temer más notícias. “Como em redor de Jerusalém estão os montes, assim o Senhor, em derredor do seu povo, desde agora a para sempre” (Salmos 125:2) ― assim está Cristo em

pecados, sem nos atingir. A razão do medo e do deses-

derredor daqueles que nEle confiam.

pero do pecador é a justiça e a lei de Deus. Cada letra e

Vejamos como Jesus Cristo é um alicerce suficiente para a paz e a segurança. Cristo comprometeu-se a amparar todos aqueles que O temem, contanto que O busquem. Essa é a obra

No tocante à salvação, se estamos em Cristo Jesus, a justiça e a lei passam de largo com respeito aos nossos

cada sinal da lei têm de ser cumpridos (Mateus 5:18). É mais fácil que o céu e a terra sejam destruídos do que a justiça não venha a ser executada; não há possibilidade de que o pecado escape à justiça.

na qual Ele se empenhou antes mesmo da fundação do

Mas, se a alma trêmula e desesperada, temerosa da

mundo. É o que sempre ocupou seus pensamentos e

justiça, correr para Cristo, encontrará nEle um escon-

intenções; desde a eternidade, encarregou-se de ser o

derijo seguro. “De maneira que a lei nos serviu de aio

refúgio dos temerosos.

para nos conduzir a Cristo” (Gálatas 3:24). Cristo sofreu

Sua sabedoria é tal que jamais tomaria sobre Si um en-

o golpe da justiça, e a maldição da lei caiu toda sobre

cargo para o qual não fosse idôneo. Aqueles que estão afli-

Ele; Cristo sofreu toda a vingança que se destinava ao

tos e na tormenta do medo, se vierem a Jesus Cristo, serão

pecado que cada um de nós cometeu. “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gálatas 3:13).

libertados de seus temores, pois Ele tem prometido protegêlos. Ele disse aos seus discípulos: “Não temais” (Mt.10:31). Cristo, por sua livre vontade, se tornou a garantia da-

Portanto, se Cristo sofreu pelo crente, já não é neces-

queles que nEle confiam. Espontaneamente se colocou

sário que este sofra; e por que teria o crente de temer?

no lugar deles. Por sua própria iniciativa, encarregou-

Se aqueles que temem se aproximarem de Cristo, nada

Se de ser o responsável por eles, como o bom pastor que

mais terão a temer das ameaças da lei. Ela não lhes diz

dá a vida por suas ovelhas (João 10:11).

respeito.

Se então em Cristo Jesus, a tempestade dos proble-

O amor de Cristo, sua compaixão e misericordiosos

mas recai sobre Ele e não sobre aqueles; assim como

cuidados são tais, que podemos ter a certeza de que

Revista Os Puritanos 4•2009

29


Jonathan Edwards

Ele está pronto a receber todos quantos

em paz conosco. Em Cristo, porém, há

desimpedido. Basta vir a Cristo; é sufi-

vêm a Ele. Ele é tão cheio de amor e bon-

um meio de livre comunicação entre

dade, que está disposto a nada menos

Deus e nós, a fim de que possamos

ciente sentar-se à sombra dEle, a “grande rocha em terra sedenta” (Isaías 32.2).

que nos receber e defender, se formos a

ir a Deus e de que Ele se comunique

Cristo não exige dinheiro em troca de

Ele. “O que vem a mim, de modo nenhum

conosco pelo Espírito Santo.

sua paz. Mas chama-nos para O buscar-

o lançarei fora” (João 6:37). Cristo está

mos livremente e sem preço. Ainda que

de nós. Seus braços estão abertos para

Jesus deixou isso claro, ao dizer: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João

receber-nos. Deleita-Se quando almas

14:6).

tão-somente outorgar-lhe esse descan-

mais do que pronto a compadecer-se

desesperadas O procuram.

pobres e sem dinheiro, podemos ir a Ele. Cristo não se dá por aluguel; Ele deseja

Cristo infunde forças e um princí-

so. Como Mediador, sua obra consiste

A excelência de Cristo é mais do que

pio vital e novo na alma cansada que

em dar descanso aos exaustos. E nisso

suficiente e satisfatória para a alma. A

apela para Ele. O pecador, antes de vir

Ele se deleita.

alma busca aquilo que lhe é superior. A

a Cristo, está tão enfermo quanto um

Há em Cristo descanso e doce refri-

alma carnal imagina que as coisas ter-

homem enfraquecido e esgotado, cujo

gério para aqueles que estão cansados

renas são excelentes. Alguns dão mais

organismo tenha sido consumido por

das perseguições. A maior parte do tem-

valor às riquezas, outros têm na mais

grave enfermidade. Está cheio de dores

po, o povo de Deus tem sido perseguido

alta estima as honras, e, para outros, os

e tão fraco, que não pode andar nem

neste mundo. Há intervalos ocasionais

prazeres carnais parecem ser os mais

ficar de pé. Por isso, Cristo é comparado

de paz e prosperidade, mas geralmente

revigorosos. Porém, a alma não pode

a um médico. “Os são não precisam de

acontece o contrário.

achar contentamento em nenhuma

médico, e sim os doentes” (Mateus 9:12).

Satanás tem usado de grande malí-

dessas coisas, pois cedo descobre o fim

Quando Ele vem e profere uma palavra,

cia contra o povo de Deus, na medida

instila um princípio vital naquele que

em que esse povo procura seguir a

antes estava morto (João 11:25-26). Ele

Deus. Assim, por muitas vezes, o povo

daquilo que lhe dava algum consolo. A verdadeira excelência acha-se em Jesus Cristo, e quando os homens che-

transmite o início da vida espiritual e o

de Deus tem sido extremamente perse-

gam a conhecê-la, sua busca termina, e

começo da vida eterna.

guido, e milhares têm sido condenados

suas mentes encontram o descanso. Em

Cristo proporciona o seu Espírito, o

à morte. Satanás está sempre pronto,

Cristo, as suas mentes vêem uma glória

qual acalma o coração e é como uma

“como leão que ruge procurando alguém

para devorar” (1 Pedro 5.8).

transcendente e agradável. Percebem

brisa refrescante. Ele outorga aquela

que até então estiveram perseguindo

força mediante a qual ampara as mãos

sombras, mas que, agora, encontraram

prostradas e fortalece os joelhos débeis.

tudo aquilo de que precisamos. Neces-

a substância, a realidade. Antes, bus-

Cristo dá profundo consolo e gozo

sitamos de vestes, e Cristo não apenas

cavam a felicidade num riacho, mas

àqueles que vêm a Ele, e isso basta para

nos dá vestes, mas também a Si mesmo,

agora encontraram-na no oceano. É

que se esqueçam de toda a luta ante-

para ser a nossa vestimenta. “Porque to-

exatamente como Cristo prometeu.

rior. Um pouco de paz verdadeira, um

“Vinde a mim, todos os que estais cansa-

pouco da alegria do evidente amor de

dos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes” (Gálatas 3.27).

Cristo tem se dado a nós para ser

dos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”

Cristo, um pouco da esperança da vida

Em Cristo há provisão para satisfa-

(Mateus 11:28).

eterna, são todo-suficientes para com-

ção e pleno contentamento das almas sedentas e necessitadas. Cristo é “como ribeiros de águas em lugares secos” (Isa-

A manifestação do amor de Cristo

pensar toda a luta e a fraqueza e para

dá à alma satisfação abundante. Entre

apagá-las de nossa memória. Essa paz,

amigos terrenos tem havido exemplos

que resulta da verdadeira fé, ultrapassa

ías 32:2) ou em um deserto ressequido,

de grande afeição. Mas nunca houve

o entendimento e é um gozo inefável

onde há grande escassez de água e os

amor igual ao de Cristo para com os

(Filipenses 4:7).

viajantes morrem de sede.

crentes.

Considere a Cristo como um re-

Cristo é um rio de águas, pois há

Sendo Ele o caminho para o Pai, há

médio para as suas aflições. Você não

nEle uma plenitude tal, uma provisão

nEle provisão para satisfazer e conten-

precisa de asas de pomba para voar a

tão abundante, que satisfaz a alma mais

tar a alma sedenta e ansiosa. Estamos

um refúgio distante e descansar, pois

necessitada e ansiosa. Cristo é suficien-

naturalmente separados de Deus por

Cristo está bem perto.

te não só para uma alma sedenta, mas

causa de nossos pecados; e Deus está

Não é mister realizar prodígios para

também é a fonte que nunca seca, sem

longe de nós — nosso Criador não está

obter esse descanso. O caminho está

importar quantos venham a Ele. Um

30

Revista Os Puritanos 4•2009


Nosso Lugar de Refúgio

homem sedento não esgota esse rio, ao

garem a Jesus Cristo! Oh! Que sejamos

parte do Senhor Jesus por você; nada

saciar nEle continuamente a sua sede.

persuadidos a nos ocultarmos nEle!

terá de sofrer. Se alguma coisa tiver

“Aquele, porém, que beber da água que eu

Que maior segurança poderíamos de-

de ser feita, Cristo há de fazê-la. Você

lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (João

sejar? Ele se comprometeu a defender-

nada terá de fazer, além de permane-

nos e salvar-nos.

cer quieto e olhar. “Mas os que esperam

4.14).

sar nEle calmamente. Aquiete-se e veja

Nada temos a fazer, além de descan-

Como somos felizes quando nossos

o que o Senhor Jesus fará por você. Se

corações ficam persuadidos a se ache-

tiver de haver sofrimento, esse será da

no SENHOR, renovam as suas forças” (Isaías 40.31). Fonte: Revista “Fé para Hoje”, número 15, Editora Fiel.

Como Posso livrar-me do Vício em Entretenimento? Pastor, eu creio que amo a Cristo de verdade, mas a maior parte do tempo eu prefiro passar entretendo-me do que gastá-lo na Palavra de Deus. Como eu quebro essa influência que o entretenimento tem sobre o meu coração? Essa é uma pergunta muito boa. E eu penso que ela é especialmente pertinente porque nós vivemos, eu creio, mais agora do que nunca, em dias em que coisas que entretêm estão imediatamente acessíveis. Eu estava pensando esses dias na diferença entre nossas tentações e, digamos, as tentações de 250 anos atrás, nos dias de Jonathan Edwards. Edwards escreveria sobre a tolice de pessoas jovens que se juntam para ter “conversações frívolas” ou outras coisas ainda piores. (Uma delas chamava-se “Empacotar”: ir juntos para a cama, permanecendo vestidos. Apenas apimentando a vida um pouco. A vida era enfadonha há 250 anos na Nova Inglaterra.) Hoje nós levamos em nossos bolsos, rádio, televisão, internet e jogos e qualquer coisa que seja excitante e cheia de diversão! E “diversão” é uma palavra que é usada hoje na igreja de forma desenfreada! É um adjetivo, é um substantivo, é um verbo, porque nós exercemos o ministério buscando ajustar-nos a essa mentalidade. Estou profundamente preocupado com isso. Eu quero defender a seriedade a respeito de Deus, em vez de torná-lo palatável fazendo com que Ele pareça “divertido”, transformando-O em mais uma peça de entretenimento. Assim, a pergunta é: “Como você se livra dessa dependência?”. 1. Reconhecer que ela existe é um enorme passo na direção certa. 2. Busque a Deus seriamente sobre isso. Ore como um louco para que Deus abra seus olhos para ver coisas maravilhosas na Sua lei. 3. Aprofunde-se na Bíblia, até mesmo quando você não tem vontade, suplicando a Deus que abra seus olhos para ver o que realmente está lá. 4. Entre em um grupo onde se conversa sobre coisas sérias. 5. Comece a compartilhar sua fé. Uma das razões porque nós não somos movidos por nossa própria fé como deveríamos é porque nós quase nunca conversamos sobre ela com os não-crentes. Nossa fé começa a ficar como um tipo de coisa de estufa e então começa a gerar um sentimento de irrealidade sobre si mesma. E então as forças do entretenimento começam a ter maior influência sobre nossas vidas. Portanto essas seriam algumas das coisas, mas no final das contas é um presente da graça poder sentir a glória de Deus. Uma última sugestão: pense em sua morte. Pense muito em sua morte. Pergunte a si mesmo o que você gostaria de estar fazendo no fim da vida, ou nas horas, ou dias, que antecedem o encontro com Cristo. Eu tenho feito muito isso por esses dias. Eu penso no impacto da morte e o que eu gostaria de estar fazendo e como eu me prepararia para encontrá-lO e prestar contas a Ele. John Piper. Extraído do site Desiring God. Tradução: Juliano Heyse (mail@bomcaminho.com)

Revista Os Puritanos 4•2009

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Verdadeira Educação Através da Educação Mas, avancemos expondo o que é próprio desta matéria. Paulo escreve que Cristo “deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” [Ef 4.10-13]. Vemos como Deus, que poderia levar os seus à perfeição num instante, contudo não queria que eles crescessem à idade adulta senão pela educação da Igreja; vemos expressar-se o modo pelo qual esta educação se processa: que aos pastores foi incumbida a pregação da doutrina celeste; vemos que todos, à uma, estão sujeitos à mesma disposição, de sorte que se permitam ser dirigidos, com espírito brando e dócil, pelos mestres criados para esta função. E com esta marca Isaías assinalara outrora o reino de Cristo: “Meu Espírito, que está em ti, e as palavras que pus em tua boca, jamais se apartarão nem de tua boca, nem da boca de tua semente e de seus descendentes” [Is 59.21]. Do quê se segue que são dignos de que pereçam de fome e inanição todos e quaisquer que desprezam o alimento espiritual da alma a si divinamente oferecido pelas mãos da Igreja. Deus instila em nós a fé, mas pela instrumentalidade de seu evangelho, como adverte Paulo, de que “a fé vem do ouvir” [Rm 10.17], assim como também em Deus reside seu poder de salvar, mas, segundo atesta o próprio Paulo, o exibe e o desenvolve na pregação do evangelho [Rm 1.16]. Com este propósito Deus outrora quis que se realizassem assembléias sacras no santuário, a fim de que a doutrina proferida pela boca do sacerdote alimentasse o senso comum da fé. Tampouco visam a outra coisa esses títulos magníficos onde o templo é chamado “o lugar do descanso de Deus” [Sl 132.14], o santuário de seu domicílio [Is 57.15]; onde se diz ele estar assentado entre querubins [Sl 80.1]; donde apreço, amor, reverência e dignidade granjeiem ao ministério da doutrina celeste, aos quais, de outra sorte, derrogaria não pouco a aparência de um homem mortal e desprezado. Portanto, para que saibamos que diante de nós põe um tesouro inestimável em vasos de barro [2Co 4.7], Deus mesmo se apresenta em nosso meio; e visto que ele é o Autor desta ordem, quer ser reconhecido presente em sua instituição. Consequentemente, depois que proibiu aos seus a se devotarem a augúrios, a adivinhações, a artes mágicas, a necromancia e a outras superstições [Lv 19.31; Dt 18.10, 11], acrescenta que dará o que em tudo deva ser suficiente, isto é, que nunca estarão destituídos de profetas [Dt 18.15]. Mas, assim como não delegou aos anjos o povo antigo, pelo contrário, suscitou mestres da terra que, de fato, desempenhassem o ofício angélico, assim também quer ensinar-nos por meios humanos. Com efeito, assim como outrora Deus não se contentou com a mera lei, mas acrescentou sacerdotes que fossem intérpretes, de cujos lábios o povo lhe indagasse o verdadeiro sentido, assim também hoje não quer apenas que lhe estejamos atentos à leitura, mas ainda lhe prepõe mestres por cuja obra sejamos ajudados, coisas tais de dupla utilidade, pois, de um lado, nos prova a obediência por meio de ótimo teste, quando ouvimos seus ministros falando não de forma distinta dele mesmo; por outro lado, também nos socorre em nossa fraqueza quando, para nos atrair a si, nos prefere falar através de intérpretes, em vez de atroar em sua majestade e fazer-nos fugir dele. E de fato, quanto nos convenha esta forma familiar de ensinar, todos os piedosos sentem o pavor com que, com razão, a majestade de Deus os consterna. João Calvino, Intitutas 4.1.5

32

Revista Os Puritanos 4•2009


A Inerrância das Escrituras “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir”. (Mt.5:17) Morton H. Smith

P

a Palavra de Deus escrita. Isso significa que apesar de ela chegar até nós através de autores humanos (o que

ara um breve estudo do assunto da inerrância

nunca se negou), a Bíblia é também a Palavra de Deus,

das Escrituras, eu indico a vocês o ensaio que

e como Palavra de Deus ela é completamente confiável,

pode ser encontrado na internet se procurarmos

a regra infalível de fé e de prática.

por “inerrância das Escrituras” ou na “Latimer House”,

Alguns têm argumentado que a doutrina da

escrito pelo Dr. Kevin Vanhoozer, Professor Honorário

inerrância foi “inventada” no século XIX pelos teólogos

de Teologia e Estudos Religiosos em New College, Uni-

de Princeton, B. B. Warfield e A. A. Hodge. É importan-

versity of Edimburg. Considero o seu tratamento tão

te lembrar que a formulação de doutrinas particulares

útil, que estou seguindo o seu esboço a respeito desse

ocorre apenas quando há necessidade para isso. Isto

assunto.

é, uma doutrina específica pode ser formulada apenas

Quando falamos da inspiração das Escrituras, esta­

quando algo que está implícito a esta fé é negado. O

mos falando da maneira pela qual Deus transmitiu a

falso ensino provoca uma repreensão explícita. Isto é

Escritura aos autores humanos. A palavra traduzida por

tão verdadeiro com respeito à doutrina da inerrância

“inspirada” em II Timóteo 3:16 significa literalmente “so-

como o foi com relação às doutrinas da Trindade, ou da

prada por Deus”. As Escrituras são tidas como “sopradas por Deus”, o que significa dizer que elas são as verda-

justificação pela fé.

deiras Palavras de Deus. Assim, a inspiração fala da “ori-

plicitamente durante toda a história da Igreja anterior

gem da autoridade bíblica”, enquanto a inerrância des-

ao século XIX. Esta visão das Escrituras consistia num

creve a sua natureza. “Por inerrância nos referimos não

reflexo da visão dos próprios autores bíblicos. Pode-

O conceito da veracidade da Bíblia era assumido im-

apenas ao fato de que a Bíblia “não contém erro”, mas

mos, dessa forma, concluir, com respeito a todo este

também a sua impossibilidade de errar.” A inerrância e

assunto do testemunho do Antigo Testamento sobre si

a infalibilidade, definidas positivamente, referem-se à

mesmo, que ele certamente reivindica ser divinamente

absoluta veracidade da Bíblia. Essa é uma propriedade

originado. Uma porção menciona outra porção como

crucial e central da Bíblia.

autoritativa. Finalmente, não há contradição entre

A base para a doutrina da inerrância bíblica deriva-

quaisquer partes do Antigo Testamento. Em virtude

se tanto da natureza de Deus como do ensino da Bíblia a

disso, alguém bem poderia supor que a visão da ins-

respeito dela própria. Em primeiro lugar, a doutrina bí-

piração sustentada pelo Antigo Testamento é a que

blica e cristã sobre a pessoa de Deus concebe-O perfeito

chamamos de inspiração plenária verbal, resultando

em todos os seus atributos. Ele é, portanto, onisciente,

numa Palavra Infalível. À medida que estudamos o

totalmente sábio e totalmente bom. Sendo assim, segue-

testemunho do Novo Testamento a respeito do Anti-

se que Deus fala a verdade. Ele não diz mentiras; Ele não

go, descobriremos que esta é exatamente a doutrina

ignora coisa alguma. Dessa forma, a Palavra de Deus

que nos está sendo apresentada por Cristo e por Seus

está livre de todo erro que provenha de engano cons-

discípulos. Que esta era a visão predominante do povo

ciente ou de ignorância inconsciente. Essa é a confissão

judeu pode ser visto na maneira pela qual as declara-

unânime do salmista, dos profetas, do Senhor Jesus e

ções de Jesus e dos seus discípulos sobre o assunto não

dos apóstolos. Em segundo lugar, a Bíblia apresenta a

provocam nenhuma reação dos judeus que não seja a

si mesma como “soprada por Deus”, sendo ela, portanto,

aceitação deste ponto de vista.

Revista Os Puritanos 4•2009

33


Morton H. Smith

O próprio Jesus diz que a Escritura

hebraico, e para a minúscula projeção

10:33-36. Jesus havia acabado de ser

não pode falhar. A visão que Ele tinha

que distingue uma letra da outra. Seria

desafiado quanto a sua reivindicação

do Antigo Testamento era a de que este

semelhante a nos referirmos ao ponto

de ser um com o Pai. Ele citou o Salmo

era verdadeiro, fidedigno, digno de con-

da letra “i” e ao traço do “t”, no portu-

82:6 em resposta ao desafio.

fiança. Os autores do Novo Testamen-

guês. O professor J. Murray diz:

É justamente esse apelo às Escritu-

to compartilhavam e refletiram essa

Haveria alguma outra maneira de estabe-

ras o eixo de toda a sua defesa. É difícil

mesma estima elevada que possuíam

lecer de modo mais conclusivo a acuraci-

achar explicação para isso em qualquer

das Escrituras. O testemunho de Jesus

dade meticulosa, a validade e a verdade da

outra base se não que Ele considerava

referente ao Antigo Testamento como

lei do que a linguagem a que Jesus atrela

as Escrituras como o irrefutável instru-

refletido em Mateus 5:17-18 é especial-

sua própria e única formula de assevera-

mento de defesa. Pois, “a Escritura não

pode falhar”.

mente relevante num

ção?... É difícil compre-

dia e numa época que

ender por que aqueles

A passagem citada era da porção das

tem presenciado uma

que aceitam a doutrina

Escrituras que pode ter sido omitida de

Por inerrância

da inspiração tropecem

Mateus 5:17 e seguintes. Aqui, ele mos-

na doutrina da inspira-

tra a mesma alta consideração por esta

nos referimos não

ção verbal. Pois as pa-

porção do Antigo Testamento como Ele

lavras são as mediado-

fez com respeito à Lei e aos Profetas.

rejeição generalizada da inspiração verbal. Primeiro, os termos “a lei e os profetas” da maneira como foi usado por Jesus aqui, re­ fere-se provavelmente à totalidade do An­ tigo Testamento. Se, entretanto,

alguém

insiste que se refira apenas às duas primeiras sessões do An­ tigo Testamento, não há motivo para a

apenas ao fato de que a Bíblia “não

ras do pensamento, e

Ele apela para a Escritura porque

no que diz respeito às

ela é verdadeira e intrinsecamente uma

Escrituras, as palavras

finalidade. E quando ele diz que a Es-

contém erro”, mas

escritas são as únicas

critura não pode falhar, ele está certa-

mediadoras da comuni-

mente usando a palavra Escritura, no

também a sua

cação. Se os pensamen-

seu sentido mais compreensivo, como

tos são inspirados, as

incluindo tudo o que os judeus da épo-

impossibilidade

palavras devem ser... A

ca reconheciam como Escritura, a saber,

de errar

indissolubilidade da lei

todos os livros canônicos do Antigo Tes-

se estende a cada um

tamento. Assim, é ao Antigo Testamen-

acre­ditar que Jesus faria qualquer distinção ou trataria a terceira porção de ma-

de seus “is” e “tils”. Tal

to que sem qualquer reserva ou exce-

indissolubilidade

ção ele se refere ao dizer que ele “não

não

seria um atributo da lei

pode falhar”... Ele afirma a infalibilidade

se esta fosse falível em algum detalhe,

da Escritura na sua totalidade e não dei-

neira diferente. Essa passagem fornece

pois se assim fosse, ela seria algum dia

xa lugar para qualquer suposição como

a visão própria de Jesus sobre o Antigo

reduzida a nada. E assim é justo dizer que,

a de graus de inspiração ou falibilidade.

Testamento, ou pelo menos, sobre uma

em cada detalhe, a lei era considerada

A Escritura é inviolável. O testemunho

boa parte dele. Ele não veio para des-

por ele infalível e portanto, indissolúvel. É

do nosso Senhor não significa nada

truí-lo. A palavra para destruir (katalu-

realmente uma estranha predisposição a

menos que isso. A natureza crucial de

sai) significa ab-rogar, demolir, desinte-

de professar a aceitação da infalibilidade

tal testemunho enfatizada pelo fato de

grar ou anular. Jesus afirma aqui que a

de Cristo e ao mesmo tempo rejeitar as

que é dado em resposta à mais séria das

sua obra messiânica não destruirá a Lei

claras implicações dos seus ensinos. Nada

acusações e é em defesa desta mais es-

e os profetas, mas os deixará intactos.

poderia ser mais claro que isso, qual seja,

tupenda reivindicação que ele sustenta

Positivamente, Ele veio para cumprir. A

que nos menores detalhes a Lei é toma-

tal testemunho.

palavra usada para cumprir (plerosai)

da por Cristo e encontra, no seu cumpri-

Além dessas passagens específicas,

fala de um cumprimento completo.

mento, sua permanente personificação e

há também uma série de materiais nos

No versículo 18, Jesus aplica essa

validade. Pela mais absoluta necessidade,

Evangelhos que nos levam a concluir

afirmação geral para os detalhes me-

existe apenas uma conclusão, qual seja,

que ele mantém esta mais alta avalia-

nores da lei. Ele veio para cumprir,

que a Lei é infalível e inerrante.

ção das Escrituras como um todo.

não apenas em termos gerais, mas até

A segunda passagem que nos mos-

mesmo as minúcias da lei. O “i” e o “til”

tra a visão particular de Jesus com re-

tação e reverência. A única explicação

referem-se à menor letra do alfabeto

ferência ao Antigo Testamento é João

para tal atitude é que o que a Escritura

34

Sua atitude é a de meticulosa acei-

Revista Os Puritanos 4•2009


A Inerrância das Escrituras

disse, Deus disse, que a Escritura era a

pode ser definida da seguinte maneira:

ou noutro lugar para que o crente mais

Palavra de Deus, que era a Palavra de

“A inerrância da Escritura significa que

simples encontre tal ensino. Quando há

Deus porque era Escritura e que era ou

a Escritura, em seus manuscritos origi-

conflito a respeito de alguma particu-

se tornou Escritura porque era a Pala-

nais e quando interpretada de acordo

lar interpretação bíblica, “ela deve ser

vra de Deus.

com o sentido pretendido, fala verdadei-

atribuída ao intérprete falível e não ao

ramente sobre tudo o que afirma”. Essa

texto infalível”.

Como já foi notado, as doutrinas particulares são formuladas com o

definição fornece duas qualificações.

propósito de refutar erros. A reforma

instrumentalidade humana dos escrito-

da doutrina da autoridade bíblica como

1) Primeira: só se afirma a inerrância dos textos originais → Se for objeta-

parte das confissões protestantes no sé-

do que agora nós não

protestante adotou o desenvolvimento

No processo de escrita, Deus usou a res. Isso incluía o uso do vocabulário e da personalidade dos escritores individuais. Ao fazer isso, ele não

culo XVI em oposição à idéia Católica

possuímos os manus-

permitiu que o erro

Romana das tradições humanas como a

critos originais, deve

adentrasse na Bíblia.

autoridade suprema na Igreja. A doutri-

ser observado que es­

na da inerrância bíblica foi formulada

tudos da crítica tex­

em oposição às negações da veracidade

tual têm sido capazes

da Bíblia. Essas negações surgiram com

essencialmente de re­

o alto criticismo liberal do fim do sécu-

construir o texto origi-

lo XIX. Por trás desse desenvolvimento

nal. Mesmo onde for

estavam os tão conhecidos pensadores

possível haver mais

“iluministas” do século XVII. O Deísmo

de uma leitura, que

daquele século aceitou a idéia de que a

possa ser verdadeira,

fonte da verdade era a razão ao invés da

não há maiores dou-

revelação. Mais e mais a Bíblia passou a

trinas da fé cristã que

ser vista como qualquer outro livro. As

seriam

suposições naturalistas dos deístas re-

com a escolha de uma

jeitavam a possibilidade da ação divina

das leituras.

modificadas

A visão que

Ele usou as formas da linguagem

humana,

Jesus tinha

da cultura do escritor.

do AT era a de

sol se levantando é

que este era verdadeiro, fidedigno, digno de confiança.

na história. O resultado foi que a crítica

Por exemplo, falar do refletir a experiência humana. Isso não significa que tal expressão tem o propósito de afirmar o entendimento científico completo da relação do Sol com a Terra. Usar formas humanas de comunicação

não

assim abandonada. Dentro desta nova

2) A segunda qualificação é “quando interpretada conforme o sentido pretendido” → Deve-se ser sempre

analogia com a encarnação da Segunda

visão do mundo, a idéia da autoridade

bastante cuidadoso ao interpretar a Bí-

Pessoa da Trindade. Do mesmo modo

bíblica foi abandonada. Os críticos li-

blia conforme o propósito para que ela

que assumir a natureza humana não o

berais históricos argumentaram que os

foi escrita. É tentador reivindicar para

envolveu em pecado, assim também a

autores da Bíblia foram homens do seu

as interpretações de alguém a mesma

Palavra de Deus foi escrita sem prescin-

tempo, limitados pela visão de mundo/

autoridade que tem o próprio texto

dir da sua veracidade.

Bíblica procurou explicar a origem da Escritura por uma visão naturalista. A origem sobrenatural da Escritura foi

quer dizer necessariamente que há erro na comunicação. Pode-se sugerir uma

imaginário daqueles dias. Foi contra

bíblico. Se for objetado que nós não

essa generalizada rejeição da autoria

temos uma sentença definida de qual

inerrância é mal representada como

Algumas

vezes

a

doutrina

da

que a doutrina da inerrância bíblica, im-

seja a interpretação de uma passagem,

se implicasse em que todo o que a

plícita de início, foi explicitamente for-

a resposta deve ser encontrada na dou-

sustenta pratica uma interpretação

mulada (por Warfield e Hodge). A dou-

trina da perspicuidade das Escrituras,

literalista da Escritura. Deve-se fazer

trina da inerrância bíblica, entretanto,

não na doutrina da inerrância. Ou seja,

uma distinção entre verdade literal

não é uma nova doutrina teológica. É a

a Escritura não é sempre igualmente

e interpretação literal. Alguém pode

articulação do que sempre fôra a visão

clara, mas pela comparação de Escri-

apegar-se à inerrância, e por conse-

implícita e pressuposta da Igreja duran-

tura com Escritura, ela se interpreta

guinte, à verdade literal das proposi-

te a maior parte da história da Igreja.

a si mesma, de modo que tudo o que

ções feitas na Bíblia sem sustentar que

O que a doutrina da inerrância bíblica

é necessário para a salvação e para a

toda a Bíblia deve ser interpretada de

estabelece explicitamente? A doutrina

vida está suficientemente claro num

uma maneira literal, quando este não

Revista Os Puritanos 4•2009

35


Morton H. Smith

era “o propósito do autor ou da forma literária do texto”.

A pergunta que devemos fazer quan-

diferentes, e não apenas para declarar

do interpretamos a Bíblia é: “que tipo

fatos. A inerrância, então, é um deriva-

de literatura é essa? Ela visa ser histó-

do da infalibilidade: Quando o propósi-

cular deve ser considerado quando bus-

rica e cronológica, ou a ênfase está no

to da Bíblia é fazer afirmações verdadei-

camos determinar se um erro existe ou

conteúdo da mensagem do que fala? A

ras, ela o faz também sem falha. Ainda

não. Por exemplo, na conversa regular

literatura de parábolas é bem diferente

assim, os demais atos pronunciados

nós freqüentemente usamos figuras

de uma narrativa histórica, ou da litera- ― advertências, promessas, questões ―

gerais, ao invés de figuras precisamen-

tura apocalíptica. Se levantamos a ques-

te exatas. Podemos dizer que uma pa-

tão com relação a se o texto deve ser to-

O contexto de qualquer texto parti-

são infalíveis também. O próprio entendimento da Bíblia

lestra durou uma hora, quando ela só

mado literalmente, a resposta será dada

sobre a verdade destaca a questão da

durou 55 minutos. Por outro lado, se

em termos do contexto. “O sentido lite-

confiança. A Palavra de Deus é verda-

alguém estiver dirigindo um programa

ral é o seu sentido literário: o sentido

deira, pois ela é digna de confiança ―

de televisão, ele teria que ser mais pre-

que o autor tencionava transmitir, na e

digna de confiança para atentar, para

ciso ao designar a duração da palestra.

através de uma forma literária particu-

tornar verdade sua reivindicação e para

Dessa forma, o contexto determina o

lar. Inerrância significa que cada frase,

cumprir seu propósito. Podemos, assim,

tipo de precisão que deve ser esperado.

quando interpretada corretamente (de

falar das promessas da Bíblia, das suas

Em outras palavras, o erro é dependen-

acordo com o seu gênero literário e seu

ordens, advertências, etc. como sendo

te do contexto. A questão quanto a uma

senso literário), é totalmente confiável.

verdadeiras à medida que estas sejam

passagem ser interpretada de maneira

O termo mais antigo para se expres-

também dignas de confiança. Juntos, os

literal depende do seu gênero literário.

sar a autoridade bíblica — infalibilida-

termos inerrância e infalibilidade lem-

Por exemplo, quando Jesus fala de si

de—permanece útil. Infalibilidade quer

bram-nos de que a Palavra de Deus é

mesmo como sendo uma “porta” (João

dizer que a Escritura nunca falha no

totalmente digna de confiança, não ape-

10:1), ele não pretende que procuremos

seu propósito. A Bíblia cumpre todas

nas quando fala, mas também quando

pela maçaneta ou dobradiça. Devemos

as suas reivindicações da verdade. A

exemplifica a verdade.

ser sensíveis ao fato de que isto é uma

Palavra de Deus nunca leva ao erro. É

metáfora, que não se propõe a ser to-

importante relembrar que a linguagem

mada literalmente.

pode ser usada para vários propósitos

Dr. Morton Smith é Prof. de Teologia Sistemática e Bíblica no Greenville Presbyterian Teological Seminary – SC, USA

A Lei do Culto ... oferecei sacrifício de louvores do que é levedado, e apregoai ofertas voluntárias, e publicai-as, porque disso gostais, ó filhos de Israel, disse o SENHOR Deus. Am 4.5 Ao afirmar que os israelitas gostavam de fazer essas coisas, Deus repreende a presunção de inventarem por conta própria novos modos de culto; é como se ele dissesse: “Não exigi de vocês nenhum sacrifício senão os apresentados em Jerusalém, mas vocês os oferecem a mim em lugares profanos. Por isso considerem os seus sacrifícios como oferecidos a vocês mesmos, e não a mim”. Sabemos verdadeiramente como os hipócritas, quando praticam quaisquer de suas obras e cerimônias frívolas, sempre convertem Deus em devedor deles; pois acham

36

Revista Os Puritanos 4•2009


que Deus está obrigado a eles. “Vocês deviam ter me consultado e apenas obedecido à minha palavra, deviam ter atentado àquilo que me agrada, o que eu ordenei; mas vocês desprezaram a minha palavra, negligenciaram a minha lei e foram atrás do que lhes agradava e procedia das suas próprias fantasias. Assim, visto que a própria vontade é a lei de vocês, busquem a recompensa em si mesmos, pois eu não admito nada disso. O que eu exijo é submissão implícita, nada mais procuro senão obediência à minha lei; como vocês não cumprem nada disso, mas agem segundo a própria vontade, isso não é adorar o meu nome”.

Oração:

Concede, ó Deus onipotente, que assim como queres que a nossa vida seja moldada pelo preceito da tua lei, na qual nos revelaste aquilo que é do teu agrado, para não deambularmos na incerteza, mas te prestemos obediência — ó concede que nos submetamos inteiramente a ti e te consagremos não somente toda a nossa vida e todos os nossos labores, mas também te ofereçamos como sacrifício o nosso entendimento e toda prudência e bom senso que tenhamos, de sorte que, ao te servirmos espiritualmente possamos realmente glorificar o teu nome, por meio de Cristo nosso Senhor. Amém.

João Calvino. Devotions and prayers of John Calvin, 52 one-page devotions with selected prayers on facing pages. Org. Charles E. Edwards. Old Paths Gospel Press. S/d. Pags. 42 e 43. Tradução: Marcos Vasconcelos, julho/2009. E-mail: mjsvasconcelos@gmail.com; Blog: http://mensreformata.blogspot.com/

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