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1998

No.2

Alexandre Wollner Designer egresso da Escola de Ulm, Wollner fala sobre formação de designers no Brasil


Editorial

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1998 segue o pensamento de Willian R. Miller, que diz : “Design é o processo de pensamento que leva a criação de alguma coisa”, isto é, ele está enraizado em nossa sociedade, presente em todos espaços, melhorando, adaptando, aperfeiçoando, trazendo ordem e coerência. O ritmo de criação é frenético, há sempr uma novidade pintando por aí sempre surpr e cada vez mais somos surpreendidos r com os resultados. e A 1998 traz então uma série de resobr os diversos campos portagens sobre s acr do design, inspirando, acrescentando, abor dispersando cconhecimento, abordan-

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do os problemas oblemas enfr enfrentados e acima de tudo valorizando os trabalhos dos profissonais deste seguimento. eramos que você se inspire, que a Esperamos partir do que foi compartilhado aqui, ência e motivação para os tenha referência seus projetos, e quem sabe, em um futuro bem próximo a sua criação esteja aqui também! HENRIQUE LOBO Diretor Executivo henrique@1998magazine.com THANMARA MAFRA Diretor Executivo thanmara@1998magazine.com


8 SUMÁRIO

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Entrevista Wollner

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Música.Inspiração na Moda

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Robert Capa

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Galeria GE

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Recorte urbano

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Entrevista

Formação e Alexandre informação Wollner Pioneiro do que se entende por design no país, Wollner, 85, cria desde os anos 1950 identidades visuais que ficaram no imaginário do país

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Texto: Ana Goyeneche Foto: Pedro Ungaretti

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utor do projeto visual de grandes empresas presentes em nosso diaa-dia, Alexandre Wollner é um dos nomes mais importantes do design brasileiro, uma real autoridade quando se trata de rigor gráfico. Designer egresso da Escola de Ulm, fundou o primeiro escritório de design do país e, há 50 anos atrás, participou da fundação da primeira instituição brasileira de ensino superior em design. Wollner, como poucos, preza pela lucidez e tem coragem para se posicionar criticamente, denunciando a apropriação do design pelo marketing e a publicidade. Buscamos, a seguir, provocar uma reflexão entre o design de ontem e de hoje.


Em 53 o senhor foi selecionado por Max Bill para estudar na Escola de Ulm. Sobre este período, contou que chegou a participar de grupos de estudos de física quântica (1). Hoje se afirma ao cansaço a multifinterl transdisciplinaridade do design no meio acadêmico e profissional. Como vê a influência destes estudos complementares, realizados em Ulm, na sua formação como designer? A oportunidade que tivemos em Ulm foi justamente a de saber o que significa design. Ninguém sabia, nem eu. Sabia que gostava de fazer desenho, mas fui percebendo que o desenho apenas para publicar numa revista ou num jornal não tinha função alguma, a não ser uma coisa puramente estética, sem grandes critérios, algo que é bonito ou é feio, styling, coisa assim. Pouca função. Aí comecei a descobrir, lá na escola do Max Bill, que existia um tipo de conceito, de formação, para a gente fazer projetos adequados às necessidades humanas. Já havia a definição de que design não é um processo criativo aleatório, de moda ou qualquer coisa assim. É simplesmente um processo objetivo de necessidades. E, para isso, a gente passou a aprender matemática, geometria, antropologia social, antropologia cultural, física, etc. Nós todos, alunos e professores, íamos aprender o que era design e como se deveria ensinar em design, pois a maioria dos alunos tinha uma tendência estética, artística, e não era possivel fazer pintura nem escultura dentro daquela escola. Ela existia para ensinar, justamente, uma nova modalidade de função profissional, que era o design. Os professores deveriam ensinar de acordo com as necessidades de formação dos designers. Se chamassem um semiótico, ele falaria sobre semiótica para o design. Max Bense, que já era profissional de filosofia do mais alto nível lá na Alemanha, aprendeu com os professores o que era design e o que ele deveria ensinar dentro da profissão. A função deles [professores] era adequar novas informações sobre design dentro da semiótica, da semântica, da matemática, da antropologia social, etc. O que hoje está descaracterizando a profissão de designer é que nas escolas boa parte das pessoas que dão aula de design não têm a integração com as funções, necessidades do design com outras disciplinas (o matemático ensina, por exemplo, matemática para design, o fisico idem, etc)”.

"...nas escolas boa parte das pessoas que dão aula de design não têm a integração com as funções, necessidades do design com outras disciplinas."


Simplesmente sabem o que é design e fazem uma especulação, normalmente acadêmica, sem a experiência de design. Lá em Ulm não era possível fazer isso. Você tinha que aprender o que era design e não dava aula de semiótica, de semântica ou Gestalt, sem ser em função da profissão. Tanto é que a física também foi mais ou menos orientada neste sentido. Nós não fomos aprender física, mas apenas o conceito da possibilidade do processo criativo quântico. Ninguém se tornou professor de fisica quântica. A formação profissional em design chegou ao Brasil pelas portas da Esdi (Escola Superior de Desenho Industrial), fundada em 62, que lhe teve como um dos mentores. Sabe-se que o modelo esdiano de ensino sofreu duras críticas, de diversos autores, dentre eles Aloísio Magalhães (2). Muitas delas referemse à implantação de um modelo de profissão que funcionava bem na Alemanha mas que não sofreu grandes modificações para adequar-se ao contexto brasileiro (3), ponto que deve concordar. Hoje, ao atingirmos 50 anos da manifestação profissional do desenho industrial no país, como avalia o ensino de design daquela época em relação à presente? Era muito difícil. Imagine, o tipo de pensamento alemão, americano, ou inglês, daquela época, dentro da comunidade universitária brasileira. Se hoje ainda é difícil, imagine naquele tempo. Então eles diziam: “Você é muito alemão, muito exigente”. Em Ulm, não havia notas, os professores se reuniam a cada três meses, discutiam o comportamento dos alunos, e aqueles que não podiam frequentar eram convidados em ir embora. Por outro lado, muitos professores também eram convidados a ir embora pelos próprios os alunos se não dessem todas as informações de que necessitavam. Aloísio Magalhães também participou da criação da Esdi, porém era mais orientado à posição da estética cultural da escola francesa, para artes e ofícios. Posteriormente ele teve mais influência dos americanos. Um cara super inteligente, super sensível, e que começou a notar esta diferença no contato conosco. Mas como fazer no Brasil? Como se põe desenho industrial num país que não tem indústria? Até hoje nós estamos com este problema. O Brasil não investe em novos produtos e necessidades industriais. Não temos um grupo cultural, ou de estudantes, Esdi, para mim, ainda é a melhor escola de design que temos aqui no Brasil.

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Sabe-se que é grande conhecedor de sistemas de proporção. Podemos citar Fibonacci, Villard de Honnercourt, Durer, Da Vinci, Alberti, Vitrúvio,Le Corbusier. No entanto, poucos profissionais ou acadêmicos brasileiros demonstram valorizar tal conhecimento. Com sorte, nos lembraremos de alguma breve menção à proporção áurea nas aulas de faculdade. Pode nos falar da lógica que existe nestas proporções, e por que usá-las em projetos? Uma folha quando nasce, cresce na proporção de Fibonacci. Cachorro, minhoca, borboleta, tudo cresce assim. Fibonacci está em tudo. Igual quando você estuda gramática. Como você transmite uma informação sem lhe dar uma proporção adequada à mente humana?Assim ela não persistirá e desaparecerá logo. Há um ótimo professor, Luiz Barco, que fez vários DVDs sobre Matemática. Todas estas informações existem, mas os professores não te informam e nem coordenam com o processo criativo de design dos alunos.

Malha construtiva para a marca Coqueiro

"Nada pode ser feito sem seguir uma proporção, senão tudo cai"


Como já mencionamos, a manifestação profissional do design no país completa 50 anos. Podemos dizer que poucas coisas permanecem tão iguais quanto o desentendimento que sempre existiu acerca do real papel do designer e seu campo de atuação. A cada novo curso técnico ou superior surgem novas definições, ainda mais abrangentes que a anterior, que tendem a abarcar as mais diversas atividades, colocando-as sob o guardachuva do design. Hoje se fala em Design Inteligente, Design Estratégico, Motion Design, Branding, Design de Games, Design de Superfícies, Design Thinking - última moda - dentre muitos outros. O que pensa disso? Há denominador comum pra tantas frentes de trabalho diferentes? Não, não existe. É simplesmente uma maneira de consumismo. É claro que existem as novas tecnologias, que você tem que aprender. Mas você não pode misturar funções totalmente diferentes como publicidade, marketing, design e etc. São marqueteiros a maioria dos designers que fazem branding, e estão desvirtuando a função do design. Isto porque ninguém sabe o que é design. Em Ulm, design não era uma coisa nova, mas ate hoje, se você perguntar para qualquer um "o que é design", ninguém sabe responder.

Série constelações. Obras recentes de Alexandre Wollner

Existem várias outras formações ou informações de acordo com objetivos de mercado ou possibilidade de você fazer um enfoque diferente, mas que não tem nada a ver co design. Poucos profissionais diplomados nas nossas escolas tem uma verdadeira possibilidade de desenvolver profissionalmente design. Eles não tem a possibilidade de desenvolver o design como dever ser, estruturalmente".


A C I S Ú M

A D O

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A D O M O Ã

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"Sem música a vida seria um erro", escreveu Nietzsche , um conceito que ainda é válido para muitos criadores . Música atinge a maioria das disciplinas criativas , inspirando e influenciando designers, artistas e escritores , e que afeta as pessoas em uma maneira que o cinema ou a literatura não pode; não sendo necessariamente proveniente do som, mas também da imagem e performance do artista.

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úsicos inspiram os designers , estilistas vestem músicos , os músicos se tornar designers. A relação entre moda e música é uma questão complicada , muitas vezes é baseada na imagem de um cantor ou banda , ao invés do som. A designer Kathryn Wilson, por exemplo, teve como inspiração, para a criação de um de seus sapatos, a cantora Neozelandesa Kimbra. A moda pode alimentar-se e muitas vezes ajuda a definir melhor um movimento musical "Rock chic" ainda é, provavelmente, a tendência da moda com vínculo musical mais difundido, como se vê , mais uma vez , na nova coleção de Saint Laurent Paris - projetado por um dos mais famosos fãs de música da moda , Hedi Slimane . O designer é conhecido por sua silhueta superskinny aparentemente perfeito para

estrelas do rock . O Mantra de longa data do Slimane foi "Fashion = música + juventude + sexo " , e sua paixão musical é mais profunda . Ele disse a Style.com que não há moda sem música. Em sua função anterior na Dior Homme , ele encomendou trilhas sonoras originais para desfiles , e disse que poderia ter um show inteiro em sua cabeça depois de ouvir uma canção. Depois de se aposentar do design, ele começou a trabalhar com fotografia , utilizando estrelas do rock como modelos, recentemente, Silmane retornou à pista com Saint Laurent e seu amor pela música também, com trilha sonora da banda Daft Punk e pista iluminada como se fosse um concerto. O músico britânico Jarvis Cocker não é um fã do trabalho de Slimane e do hábito de explorar a música no

O que eu mais gosto sobre a música é que as pessoas apropriam-se dela e isto reflete no modo em como se vestem. Então é uma coisa muito pessoal." Jarvis Cocker

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contexto fashion; " O que eu mais gosto sobre a música é que as pessoas apropriam-se dela e isto reflete no modo em como se vestem. Então é uma coisa muito pessoal". Jean -Paul Gaultier, que criou o sutie de cone da Madonna, deixando-a ainda mais famosa, realizou recentemente um show como uma "homenagem a todas as estrelas da música pop dos anos 80 que influenciaram a moda e minha moda com seu look" , com modelos vestidas de Sade , Annie Lennox, Boy George , Michael Jackson, Abba , David Bowie como Ziggy Stardust , Grace Jones e, sim , Madonna . O impacto da música sobre os tipos artísticos locais podem ser um pouco menos flagrante do que uma homenagem de Gaultier gloriosamente cafona , mas para muitos a influência ainda é forte .

"não há moda sem música. Hedi Slimane


Julho de 2014 - $ 21,00


1998 No.2