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Som na perifa

Qual o ritmo da ZL?

A diversidade cultural da Zona Leste pulsa como um coração em taquicardia e com a pluralidade musical não poderia ser diferente Da redação

É

ou jovens animados que botam para quebrar, literalmente, ao som de funk ou hip hop com o porta-malas do carro aberto durante a madrugada; há também mocinhas que escutam seus ídolos do sertanejo no mais alto volume e, quem sabe, aquelas mais animadas que ouvem forró e dançam com um rebolado de fazer inveja. Para você, qual o é som da “perifa”?

fácil reparar: em uma única rua de um bairro qualquer da Zona Leste dá para encontrar todos os ritmos possíveis. Basta analisar sua extensão em dias e horários distintos. Tem a dona de casa que gosta de ouvir MPB ao faxinar seu lar às sextas-feiras ou a família animada que curte um churrasco no fim de semana ao som de samba; talvez ainda encontremos adolescentes intimistas que ouvem um rock clássico em seus quartos nas manhãs Arquivo Pessoal

For all

Sacha Arcanjo, forrozeiro da região 20 -

“Olha, que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais. Olha, quem tá fora quer entrar, mas quem tá dentro não sai”. Você pode até não gostar do ritmo, mas, em algum momento, já ouviu, ao som da sanfona, esse trecho da música do cantor e compositor Dominguinhos, considerado por muitos o responsável pela popularização do forró em todas as regiões do país. De raízes nordestinas, o nome é ‘gringo’ e vem do inglês for all (para to-


A voz rouca da dos, em português). No entanto, periferia o som da sanfona ganhou brilho em outros palcos, ou melhor, em Caetano. solo paulista. Chico. Gal. A Praça Padre Tom. Não é Aleixo Monteipreciso acresro Mafra, pocentar seus pularmente corespectivos nhecida como sobrenomes “Praça do para saber que Forró”, em se tratam de São Miguel grandes expoPaulista, entes da Múé prova sica Popular da imporBrasileira tância do O ritmo na Edvaldo Santana, o trovador de São Miguel (MPB). gênero muZona Leste sical cresceu da capital. O com efervescência no fim local chegou a receber multida década de 1960 devido à dões para ouvir e dançar ao som insatisfação política gerada da sanfona, mas os shows de pela Ditadura Militar. A misforró desapareceram após a retura de samba, bossa nova forma do local. “A preservação e ritmos latino-americanos da capela São Miguel Arcanjo, não pode faltar na MPB. anexo à praça, foi a principal O amor pela música está justificativa para o fim dos no sangue. Suas maiores shows no local”, lembra influências são o violão do Cláudio Omena, escritor pai e as tarefas do bar da e poeta da região. mãe que o faziam andar Como bom nordestipelo bairro e conhecer nono, o forrozeiro Sacha vas músicas. Quando isso Arcanjo é um dos acontece, não há trabalho muitos apaixonaem indústria ou escritório dos pelo ritmo. “O que impeça ou o segura. São forró é uma linguaMiguel Paulista é o berço de gem que une múEdvaldo Santana, o “Tom sica, poesia, dança Waits da Pauliceia”. e outras manifestaSua voz rouca era alvo de ções culturais tipibrincadeiras dos colegas. camente do agreste “Eu sempre tive um calo nordestino e é visto nas cordas vocais. Não opecomo expressão de rei até hoje. ‘Ah, esse pato velhos e jovens músirouco vai cantar onde?’”, cos”, afirma. Déborah Aranhos

“O forró é uma linguagem que une música, poesia, dança e outras manifestações culturais”. Sacha Arcanjo

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Aumente o volume e sinta o groove! Efraim Caetano

Rap, DJ, break e grafite compõem os pilares da cultura hiphop. De suas raízes negras dos subúrbios de Nova Iorque na não tão longínqua década de 1970, o gênero chegou ao Brasil na década seguinte e hoje, 30 Nelson Triunfo, o “pai do hip hop” anos mais tarde, recorda. Mas o “trovador segue firme e forte nas de São Miguel” não se inperiferias e na grande timidou, seguiu em frente mídia. Rimas, improvie com a ajuda de Tom Zé sos, roupas largas e penlevou seu grupo, o Matéria teados afros marcam a Prima, a lançar o primeiro identidade do hip-hop. álbum autointitulado, em O pernambucano Nel1975. Anos mais tarde, após son Triunfo, pioneiro do poucos trabalhos com sua gênero, conta como tem banda, Santana decidiu sesido sua luta diária de 40 guir carreira solo. Seu prianos. Em um churrasco meiro álbum, Lobo Solide domingo à tarde, Triuntário, é datado de 1993. De fo, o “pai do hip hop”, abriu lá para cá, o artista lançou a roda não para dançar, mas mais sete álbuns, sempre sim falar sobre sua vida e carde maneira independente. reira. “Eu fui o primeiro cara Suas parcerias vão de Paua transformar a dança black lo Leminski, Arnaldo Ancomo dança profissional no tunes e Zélia Duncan. Brasil”, afirma. Seu envol“Minha música é brasileivimento com a música nera, feita em São Paulo, na gra começou ainda quando periferia, com toda influêncriança ao ouvir James Brocia da música negra, latinown, sua maior influência. americana, do blues, samba, Hoje, aos 59 anos, Triunfo xote, da salsa, mas genuiterá sua autobiografia e um namente música popular documentário sobre sua brasileira”, afirma. Edvaldo vida previstos para serem Santana é o Brasil em som e lançados no fim deste ano. ritmo. “A cultura black repre-

senta a grande chance que eu tive de me expressar. É o que me dá abertura, vida, voz ativa”, diz. Ser o primeiro no país a construir o hiphop com sangue e suor não impediu Nelson Triunfo de levar uma vida simples, longe dos holofotes. Seu maior “triunfo” é estar vivo.

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Divulgação

Solta o batidão!

Baile funk do MC Jotta

Se não pode com eles, junte-se a eles. Essa deveria ser a frase de todos os funkeiros que abusam de batidas envolventes para chamar a atenção do público. Com isso, o funk paulista, ou apenas funk ostentação, ganha cada vez mais adeptos e fãs. Muitos Mc’s que fazem o som da Zona Leste atuam no funk ostentação e frisam em suas letras bens materiais e mulheres. “O ‘proibidão’ não é mais gravado porque alguns Mc’s foram


Divulgação

música contagiante, o sertanejo ganha disparado como o ritmo da Zona Leste. Mesmo em dia útil, uma terçafeira, e sob um frio de 13 graus, a dupla Sergio D’ Oliveira e Marcos conseguiu arrastar uma centena de pessoas para o Feijãozinho Bar, na Patriarca. Por volta das 23h, o bar já estava lotado e a cada minuto mais pessoas vestidas a caráter chegavam. Já embaladas pelas músicas que traziam na ponta da língua, as meninas entravam na casa e logo eram tiradas para dançar. Os passos e os gestos minuciosamente coreografados atraíam a atenção de quem ainda não se arriscava no salão. “O som da Zona Leste é assim: um sertanejo dançante, alegre, para ninguém ficar parado. A galera sai para a balada sertaneja para dançar, curtir, para extravasar, curtir uma noite boa e soltar as energias ruins. Nessa noite vai ter muito arrocha e muita ‘pegação’”. Foi assim que Marcos Brunholli respondeu à pergunta sobre qual é o som da Zona Leste e já anunciando as expectativas para a noite, minutos 24 -

antes de subir no palco. O boom do sertanejo universitário nos últimos tempos cativou um público mais jovem que, antes, passeava por outros estilos musicais. “O sertanejo ganhou uma nova roupagem. Graças a Deus, com o universitário conseguimos atender a um público que antes não atingíamos que é a juventude. Por volta dos anos 1990, o sertanejo era coisa de caipira e depois virou de dor de cotovelo. Agora, veio o sertanejo universitário que atinge um público que antes curtia pop rock e a gente conseguiu cativar”, afirma Sergio D’Oliveira.

As músicas precisam ter essência. “Quando você transmite emoções, tudo passa a ser verdadeiro”, diz Pedro Lemes de Santana, músico e vocalista da banda Identidade Sonora. Nascido e criado em São Miguel Paulista, a música entrou em sua vida aos seis anos de idade e quando disse ao seu pai que queria trocar o teclado por uma guitarra, Pedro já sabia que rock era o que ia seguir. Hoje, ensaios diários e muita dedicação fazem parte de sua rotina para lançar o CD de sua banda em dezembro deste ano. “Meu jeito de compor é da Zona Leste. Pegar trem super lotado depois de um dia de trabalho me inspirou a escrever algumas letras. Talvez se eu estivesse na Linha Amarela não teria escrito”, conta. As expectativas são grandes. O grupo conta com a participação especial de Fabiano Carelli, guitarrista do Capital Inicial, e produção de GustaBanda Identidade Sonora vo Breier, produtor de bandas como CaO Rock da ZL chorro Grande, Chimarruts e Nenhum de Nós. “O rock Guitarra afiada, baixo granão está em sua melhor fase, ve, bateria estalando os oumas viemos para mudar essa vidos e voz que expressam cena. Nosso objetivo é consesentimentos são elementos guir viver de música, inspifundamentais para compor rados no bom e velho rock uma banda de rock. Mas não nacional dos anos 90”, afiré só disso que vive o rock. ma Santana.


No gingado do samba Nascido no Brasil em meados do século 19, o samba é sinônimo de festa e alegria nos bares e avenidas. Por onde passa, a música reúne milhares de fãs e atrai novos adeptos para um dos ritmos

Efraim Caetano

Sambista Cláudio Francisco, conhecido como Dhow

é uma brincadeira igual a, por exemplo, jogar bola”, disse Cláudio Francisco “Dhow”, um dos seis integrantes do grupo Mania da Cor Sampa. Há 22 anos ‘brincando’ com os amigos e agitando bares e casas de shows na Zona Leste, “Dhow” lembra que muitos outros ritmos surgiram na região para “competir com o samba”, mas nenhum tomou espaço. “O funk arrasta multidão, principalmente o público mais jovem. Mas, diferente do funk, o samba não tem alternância. Ele é e sempre vai ser o ritmo da Zona Leste”, afirmou.

mais populares do país. Na capital paulista, o prestígio do samba rendeu um local só para ele: o sambódromo Evolução do do Anhembi, na Zona Norte. caipira Ali, bem ao lado da via expressa mais famosa do Brasil, a Marginal Tietê, anualmente 14 escolas de samba desfilam para cerca de 60 mil pessoas nas arquibancadas e outras milhões ligadas pela TV no Brasil e no mundo. Do outro lado da cidade, mais precisamente no Jardim Helena, o samba também representa Dupla sertaneja Sergio D’Oliveira e Marcos casa cheia aos bares da região. “Aos fins de semana reunimos a raSe depender do público paziada e vamos para os baboêmio, que gosta de danres brincar. Isso, para mim, çar grudado ao som de uma Efraim Caetano

indiciados por apologia ao crime”, afirma Mauro Adriano dos Santos Junior, conhecido como Mc Jotta M. Sua música “Capital dos Monstrão” está próxima da marca de 130 mil views no Youtube em menos de dois meses. Quando a equipe da Porantim questiona o porquê da Zona Leste amar tanto o funk e se o ritmo é mesmo o do m o m en t o , Jotta M é sucinto nas palavras: “Ele representa o que toda pessoa de periferia quer ter”, diz. Mesmo com tantos ritmos disputando o posto de mais querido pela população da M agita a galera Zona Leste, não há quem negue que o funk está na boca do povo, na porta dos bailes, nas ruas, em todo e qualquer lugar. O funk, que antes era do “povão”, passa a ser de todos.

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Qual o ritmo da ZL?