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Crônica

Entre quatro linhas Por Henrique Santiago

A Vila Cisper era palco de mais uma festa. O domingo era uma festa só. O time da rua de baixo ganhou da equipe da rua de cima. Eu não carregava o peso de ser o “10”, até porque minha seleção jogava sem camisa para não confundir com o uniforme do adversário. Tampouco era um craque, mas usei a ousadia futebolística típica do brasileiro para provocar os desconsolados perdedores: “Vocês não viram Pelé, mas me viram jogar”. O meu gol de letra estava entalado na garganta de cada um deles. Na noite do mesmo dia, deitei, cansado, no sofá com os pés levantados como se fossem o troféu da Copa do Mundo exposto para todos verem. Os pés da vitória. Tirei o típico cochilo dominical de quem se entedia facilmente com a programação da TV. Tudo estava em preto e branco. Olhei para mim e, para o meu estranhamento, vestia o uniforme Juventus da Mooca. Eu estava no famoso estádio da Rua Javari. Não havia um assento livre. Homens, mulheres e crianças gritavam e festejavam harmoniosamente. Ainda desentendido, dei mais um giro ao redor e vi o placar que indicava Juventus 0 x 3 Santos. O inesquecível time de Manga, Zito, Coutinho... E Pelé. E lá estava ele, Pelé, o craque da camisa 10, que observava a bola com olhares furtivos de um goleador com apetite voraz. Pensei em correr até ele e pedir um autógrafo, mas o técnico gritou para eu voltar à defesa. O Juventus não poderia

tomar mais um gol. Já eram quase 42 minutos da etapa final. O “Moleque Travesso”, como era chamado, teve o doce tirado da boca. Tarde demais. Corri até o círculo central e, no exato momento, fiquei hipnotizado com o que vi. Pelé recebeu a pelota na entrada da grande área e me enganou. Pensei que ele fosse dominar, mas deu um chapéu no primeiro que apareceu. O segundo e o terceiro ficaram para trás com mais dois chapeuzinhos aplicados. Só faltava o goleiro. Era só chutar para o gol e correr para o abraço. Mas Pelé fez o improvável mais uma vez e deu um chapéu no goleiro, que comeu grama ao voar seco na bola, e concluiu com uma forte testada para o fundo Cristiano Siqueira da rede. Ali, eu vi um gigante correr e tocar as estrelas ao comemorar com os seus famosos socos no ar. O público aplaudia de pé. Para minha surpresa, Pelé correu até mim, a imagem petrificada, e disse: “Agora sim você me viu jogar, entende?”. E sorriu. Acordei abruptamente sem compreender o que tinha acontecido. Eu via tudo em cores. Não vestia a camiseta do Moleque Travesso. O único público presente era eu. Com os olhos semiabertos, acompanhei, ainda meio lento, a principal notícia do programa esportivo: “Juventus da Mooca homenageia Pelé por gol de placa”. - 13

Entre quatro linhas  

Crônica publicada na Revista Porantim, veículo impresso experimental do Trabalho de Curso da Universidade Cruzeiro do Sul, cujo objetivo foi...

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