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Célia A. N. Passoni

Literatura

Fuvest Unicamp Estudo das obras, resumos, análise de textos, exercícios.

3ª edição atualizada, 2013

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COLEÇÃO NÚCLEO DE LITERATURA Organização e Apresentação: Célia A. N. Passoni

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

FUVEST/UNICAMP: estudo das obras, resumos e análise de textos, exercícios / organizado por Célia A. N. Passoni. – 3ª. ed. – São Paulo: Núcleo, 2012. Vários autores. ISBN 978-85-7263-342-0 1. Literatura (Vestibular) 2. Literatura brasileira (Vestibular) 3. Literatura portuguesa (Vestibular) I. Passoni, Célia A. N. 12-05840

CDD-378.1664

Índices para catálogo sistemático: 1. Vestibulares: Literatura 378.1664 2. Vestibulares: Literatura brasileira 378.1664 3. Vestibulares: Literatura portuguesa 378.1664

Todos os direitos reservados EDITORA NÚCLEO Central de Atendimento Rua Vergueiro, 1987 – cj. B CEP 04101-000 – São Paulo, SP – Brasil Tel./Fax: (0**11) 2187-1130 www.editoranucleo.com.br E-mail: livros@editoranucleo.com.br

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Índice Viagens na minha terra Almeida Garrett. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 Til José de Alencar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .25 Memórias de um sargento de milícias Manuel Antônio de Almeida. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .35 Memórias póstumas de Brás Cubas Machado de Assis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .47 O cortiço Aluísio Azevedo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .61 A cidade e as serras Eça de Queirós . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .73 Vidas secas Graciliano Ramos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .89 Capitães da Areia Jorge Amado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 Sentimento do mundo Carlos Drummond de Andrade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117

Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129

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Importante Como utilizar A Fuvest e a Unicamp têm recomendado a leitura de algumas obras que os examinadores julgam ser as mais significativas no desenvolvimento da história das literaturas brasileira e portuguesa. Na prova de Português, as questões de literatura costumam exigir não só um bom domínio dos volumes, alguns detalhes sobre personagens, sequência de capítulos, estilo dos autores, etc., como também associações temáticas e estilísticas entre os autores. Por esse motivo, sugere-se a leitura de todas as obras de forma integral. Desde 2007, Unicamp e Fuvest unificaram a lista de leituras obrigatórias, mas mantiveram as características peculiares de seus exames. Por isso, recomenda-se que o vestibulando estude os exames anteriores das duas fundações. Os estudos apresentados a seguir visam a dar um painel do enredo, levando em conta algumas particularidades estilísticas, de modo a permitir, àqueles que já leram, recordar passagens mais importantes, estabelecer relações obra/estilo de época e compará-las intertextualmente, apontando-lhes aspectos comuns e seus diferenciais. Lembramos que os resumos não têm a pretensão de captar a especificidade das obras e, consequentemente, as particularidades das questões dos referidos exames. Abordagem Nas próximas páginas, o vestibulando encontrará o esquema literário da obra, contendo apresentação do autor e do narrador, estilo de época, personagens, linguagem, tempo e espaço e um resumo do enredo, ou análises comentadas de poesias. Questões em teste e questões escritas Na finalização dos estudos dos autores, o estudante encontrará testes – inéditos ou recolhidos de vestibulares – que abordam as principais caracterísFuvest/Unicamp 01_apresentacao.indd 7

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ticas da obra, bem como algumas questões escritas. No final, são apresentados os gabaritos dos testes e uma possível resposta para as questões escritas, lembrando que são sugestões de resposta, servindo como roteiro de conferência, porque cada questão admite mais de uma possibilidade de abordagem. Esperamos que a obra possa ser de algum proveito, contribuindo, assim, para seu melhor desempenho nas provas de Português e, de modo geral, para seu sucesso nos vestibulares.

Bons exames!

Célia A. N. Passoni

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ROMANTISMO

Viagens na minha terra Almeida Garrett

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Conhecendo o autor Almeida Garrett (1799-1854) foi um dos mais representativos nomes do Romantismo em Portugal. Hábil no uso da palavra, domina tanto o verso quanto a prosa. Defendeu ideias revolucionárias, participou da revolução liberal de 1820, seguindo, depois, para exílio na Inglaterra em 1823. Aí tomou contato com o movimento romântico, descobrindo Shakespeare, Walter Scott entre outros autores, visitando castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias góticas, vivências que se refletiriam na sua obra posterior. Em 1824, seguiu para a França, onde escreveu Camões (1825) e Dona Branca (1826), poemas considerados marcos das tendências românticas em Portugal. Em 1826, foi anistiado e pôde regressar à pátria, dedicando-se ao jornalismo. Deixou Portugal novamente em 1828, com o retorno de D. Miguel. Novamente na Inglaterra, torna-se ávido leitor das obras tanto inglesas quanto francesas. Mergulhou na literatura, filosofia e história. Com a vitória do liberalismo na revolução de setembro de 1836, instalou-se novamente em Portugal, após curta estadia em Bruxelas como cônsul-geral e encarregado de negócios, onde lê Schiller e Goethe. Em Portugal exerceu cargos políticos, distinguindo-se nos anos 1830 e 1840 como um dos maiores oradores nacionais. Foram de sua iniciativa a criação do Conservatório de Arte Dramática, da Inspeção-Geral dos Teatros, do Panteão Nacional e do Teatro Normal (atualmente Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa). Mais do que construir um teatro, Garrett procurou renovar a produção dramática nacional segundo os cânones já vigentes no estrangeiro. Elegante, bon-vivant e, acima de tudo, frequentador da alta roda lisbonense, facilmente conquistava amores e acumulava inimigos, não só por suas ideias inflamadas e sua oratória convincente que vertia ideias polêmicas e, muitas vezes, desgastantes... Foi agraciado com o título de visconde e falece vítima de um cancro.

A inserção das Viagens No início do século XIX, Portugal atravessava uma das mais conturbadas épocas da sua história: a invasão das tropas francesas; a difusão das ideias liberais e a Revolução Liberal do Porto em 1820; a promulgação da Constituição de 1822; a contrarrevolução absolutista de 1823; outorga da Carta Constitucional e perjúrio de D. Miguel; lutas liberais, entre outras. Nesse contexto, ativo participante dos acontecimentos de sua pátria, sofrendo perseguições, exílios e prisões por causa de suas ideias, Garrett foi um típico homem de seu tempo. Ao lado do ativista, encontrava-se um produtivo artista, com vasta obra, na qual mesclou tendência clássica com romântica, a primeira advinda de sua formação, a última adquirida por influência de seu exílio na Inglaterra e na França. Fuvest/Unicamp 02_viagens-minha-terra.indd 11

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As Viagens na minha terra estão inseridas na prosa de feições românticas. A obra chegou a ser chamada de Viagem, por se tratar de uma única viagem. No entanto, o autor optou pelo plural, talvez por pretender associar a viagem real com aquelas conseguidas através das inúmeras viagens mentais ou digressões, que serão comentadas mais adiante. Viagens na minha terra foi publicada inicialmente na Revista Universal Lisbonense entre 1842-44 e era precedida da seguinte nota da redação: O escrito, cuja publicação agora encetamos, é exemplar de gênero precioso e novo em nossa literatura. A seu autor, o Sr. Conselheiro Almeida Garrett, que nos honra com a sua amizade e colaboração, cabe a glória de ter aberto mais de um caminho, que outros após ele têm seguido e hão de seguir. – O teatro moderno, e o romance pátrio fundou-os ele incontestavelmente. As Impressões de Viagens, como em todos os países de adiantada civilização hoje se escrevem em grande abundância, – estreia-as também ele agora. – No que damos à luz oferecemos pois aos frívolos um estudo desenfastiado, – aos estudiosos, uma recreação prestadia – aos engenhos fecundos, um incentivo poderoso.

A obra tem 49 capítulos e foi editada em dois volumes no ano de 1846, sendo, então, revisada pelo autor. As observações contidas nas páginas do livro nascem de uma viagem realizada pelo autor a convite do político e correligionário Passos de Manuel, eminente parlamentar e um dos vultos mais proeminentes do liberalismo. Se, por um lado, Viagens na minha terra pertence à literatura, mesclando ficção e literatura de viagem, contendo descrições detalhadas da região percorrida por Garrett e seus companheiros; por outro, constitui uma fonte de documentação que revela aspectos da história de Portugal, fixa momentos fundamentais da política, sendo possível representar, por meio dela, a passagem de uma estrutura política arcaica para a modernidade. Passado, presente e futuro são simbolizados pelos personagens que compõem a novela inserida no volume, conforme será visto posteriormente.

De viagem e viagens Na introdução, o narrador em primeira pessoa confessa ter recebido influência dos autores ingleses Swift, Sterne e do francês Xavier de Maistre, este último citado logo nas primeiras páginas: Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio como São Petersburgo – entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Dos mesmos autores herda a tendência para as divagações, diluídas por toda obra. Se, por um lado, as digressões são ornamentos preciosos para o leitor 12 02_viagens-minha-terra.indd 12

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poder compreender a bagagem ideológica do autor, adentrar os seus pensamentos políticos, a sua visão de arte, a forma com que encara as línguas e as culturas estrangeiras, mormente francesas e inglesas, com as quais conviveu boa parte de sua vida; por outro, tornam a obra fragmentada, com prejuízos para a sequência, porque a pena corre solta, e Garrett se deixa levar pelos impulsos do pensamento. Portanto, as Viagens não são um livro para se ler corridamente, pois são necessárias pausas para que o leitor possa acompanhar as interferências pessoais e ideológicas do autor, enfim, sentir todo processo criativo. Nesse contexto, a linearidade cede lugar a reflexões do narrador. Por exemplo, a novela da “menina dos rouxinóis”, que de certa maneira é o fio condutor da fabulação, só tem início no capítulo XI, depois de inúmeros preâmbulos, e segue, com uma série de interrupções, até o final da obra. As divagações têm os mais variados conteúdos: vão desde estudos acerca da arte, da história de Portugal, o proselitismo político em que Garrett deixa patente suas ideias liberais, até uma vasta demonstração de sua cultura literária clássica e moderna. Observe, por exemplo, a seguinte passagem, em que, a pretexto de mostrar hospedagens e caminho percorrido, lança mão de vários artifícios que vão de citações filosóficas e literárias a ironias pautadas na realidade portuguesa. Eu comungava silenciosamente comigo nestas graves meditações, e revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida: – se o administrar justiça direita aos povos valia a pena de andar um desembargador a pé!... Lutava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do espírito – quando a Providência, que nos maiores apertos e tentações não nos abandona nunca, me trouxe a generosa oferta de um amigo e companheiro do vapor, o Sr. L.S.: era a sua invejada carroça, e nela me deu lugar até à Azambuja. A virtude é o galardão1 de si mesma, disse um filósofo antigo; e eu não creio no famoso dito de Bentham2, que sabedoria antiga seja um sofisma3. O mais moderno é o mais velho, não há dúvida; mas o antigo, que dura ainda, é porque tem achado na experiência a confirmação que o moderno não tem. Jeremias Bentham também fazia o seu sofisma como qualquer outro. Vamos percorrendo lentamente aquele mal composto marachão4, que poucos palmos se eleva do nível baixo e salgadiço do solo; de inverno não se passará sem perigo; ainda agora se não anda sem incômodo e receio. Estamos em Vila Nova e às portas do nojento caravançarai5, único asilo do viajante nesta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino. Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruínas este asqueroso lugarejo, desde que ali ao pé tem a estação dos vapores, que são a comodidade, a vida, a alma do Ribatejo. Imagino que uma aldeia de alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e cômoda. 1 Galardão – prêmio, recompensa. 2 Bentham – Jeremias Bentham (1748-1832), filósofo e jurista inglês. Desenvolveu a teoria ética do utilitarismo, segundo a qual todo objeto tem sua utilidade definida pela capacidade de produzir prazer e evitar a dor, permitindo a realização do indivíduo, sem, no entanto, comprometer o bem-estar coletivo. 3 Sofisma – argumento articulado a partir de uma aparente lógica mas que induz ao erro, raciocínio inconsistente. 4 Marachão – represamento. 5 Caravançarai – estalagem.

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Oh! Sancho, Sancho, nem sequer tu reinarás entre nós! Caiu o carunchoso trono de teu predecessor, antagonista, e às vezes amo; açoitaram-te essas nádegas para desencantar a formosa del Toboso, proclamaram-te depois rei em Barataria, e nesta tua província lusitana nem o paternal governo de teu estúpido materialismo pode estabelecer-se para cômodo e salvação do corpo, já que a alma... oh! a alma... Falemos noutra coisa. Fujamos depressa deste monturo6. – É monótona, árida e sem frescura de árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal medrada, a longos e desiguais espaços, mostra o seu tronco raquítico e braços contorcidos, ornados de ramúsculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é mais alvacento e desbotado que o costume. O solo, porém, com raras exceções, é ótimo e, a troco de pouco trabalho e insignificante despesa, daria uma estrada tão boa como as melhores da Europa. Dizia um secretário de Estado, meu amigo, que, para se repartir com igualdade o melhoramento das ruas por toda a Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os três meses. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as calendas gregas, eu hei de propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada ano, como a desobriga. Aí está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas casas. É a primeira povoação que dá indício de estarmos nas férteis margens do Nilo português. Corremos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo cumula as três distintas funções, de hotel, de restaurant e de café da terra. Santo Deus! Que bruxa que está à porta! Que antro lá dentro! ... Cai-me a pena da mão.

As formas de narrar No transcorrer da narrativa, o autor interpõe os mais diferentes tons, desde o melodramático de gosto romântico, vazando assim a história de Joaninha, a menina dos rouxinóis, até certo tom realista, não raro permeado de pontadas irônicas ou humorísticas com que fluem as digressões e que revelam sua profunda erudição.  A linguagem A obra é escrita em linguagem até então desconhecida dos portugueses, transcorrendo ora nervosa, ora leve e corrente; inovando o nível vocabular, incluindo neologismos e termos bilíngues. Bom exemplo é dado pelo verbo “flartar” (flertar), obtido do inglês to flirt, com equivalência de sentidos; o que permite ao autor a observação: O tom perfeito da sociedade inglesa inventou uma palavra que não há nem pode haver noutras línguas, enquanto a civilização as não apurar. To flirt – é um verbo inocente, que se conjuga ali entre os dois sexos e não significa namorar – palavra grossa e absurda, que eu detesto –; não significa “fazer a corte”; é mais do que estar amável; é menos do que galantear; não 6 Monturo – monte de lixo.

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obriga a nada; não tem consequências; começa-se, acaba-se, interrompe-se, adia-se, continua-se, acaba-se ou descontinua-se à vontade e sem comprometimento. Eu flartava, nós flartávamos, elas flartavam...

Como este, Garrett faz uso de muitos outros termos ingleses, franceses ou italianos, aproveitados da língua ou aportuguesados, como: chaperão, chefe de obra, esquissa, retreta, tapessada (do francês), desapontar, fashionável, gim (do inglês) e barbarismos, como lady, parlour, shakehands, cavassing, são observados no transcorrer da obra. Tal versatilidade linguística só terá correspondente no final século XIX, com a prosa inovadora de Eça de Queirós. As Viagens são, portanto, sui generis, não pelo enredo que é sobremaneira frágil, mas por terem encarado de forma diversa e criativa o diálogo do português com outras línguas. Saboroso na obra é ver coexistirem pacificamente a erudição, o coloquialismo urbano e provinciano, o bilinguísmo e os neologismos, demonstrando a vivacidade da língua harmoniosamente.  O gênero literário Como o volume não segue uma linha definida, também não tem uma definição precisa de gênero; o autor vai dando asas à imaginação e à divagação, aproximando-se do jeito indeciso dos românticos. Com cenas recolhidas pela imaginação sonhadora, adornando-as com descrições perfeitas, Garrett cria a figura de Joaninha, a “menina dos rouxinóis”. Também romântico é o antagonismo tenebroso, tipo roman noir, que advém da figura de Frei Dinis. E o leitor está porta adentro do sonho, tentando desvendar-lhe a essência que, na verdade, é a essência do próprio artista. Além disso, mescla crônicas de viagem no mais puro estilo exigido pelo gênero. Boa parte da obra, no entanto, trata de aspectos da viagem propriamente dita. Nesse sentido, pode-se afirmar que ao lado de descrições das paisagens, opiniões acerca da política, referências históricas de Portugal, interpõe-se um momento lírico-dramático em que Garrett conta a história da “menina dos rouxinóis”, história que ele ouviu de um companheiro de viagem. Finalmente, a partir de determinado momento, realidade (a viagem) e ficção (a história de Joaninha) se fundem. Nos onze primeiros capítulos, entre demonstrações da vasta erudição de Garrett, o leitor é conduzido ao vale de Santarém, tal como os relatos de viagem costumam fazer; referindo-se a datas, companheiros e meio de transporte. São 17 deste mês de julho, ano da graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou quase no fim da praça quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T. que chega em estado.

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A viagem dura nove dias e os viajantes atravessam cerca de setenta quilômetros, seguindo a rota desenhada no mapa a seguir:

O estuário do rio Tejo é cortado a vapor. Em seguida, de montaria, os viajantes pernoitam em Azambuja, depois em Cartaxo para finalmente chegarem ao vale de Santarém. Aí, o autor é conduzido a uma janela e passa a narrar a história de Joaninha. O vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração. À esquerda do vale, e abrigado do norte pela montanha que ali se corta quase a pique, está um maciço de verdura do mais belo viço e variedade. A faia, o freixo, o álamo, entrelaçam os ramos amigos; a madressilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões; a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem e alcatifam o chão. Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não dilapidada – com certo ar de conforto grosseiro, e carregada na cor pelo tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janela é larga e baixa; parece mais ornada e também mais antiga que o resto do edifício que todavia mal se vê... Interessou-me aquela janela.

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Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali? Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço. Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por detrás... Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!... era completo o romance. Como há de ser belo ver pôr o sol daquela janela!... E ouvir cantar os rouxinóis!... E ver raiar uma alvorada de maio!... Se haverá ali quem a aproveite, a deliciosa janela?... quem aprecie e saiba gozar todo o prazer tranquilo, todos os santos gozos de alma que parece que lhe andam esvoaçando em torno? Se for homem é poeta; se é mulher está namorada. São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher namorada: veem, sentem pensam, falam como a outra gente não vê, não sente, não pensa nem fala. Na maior paixão, no mais acrisolado7 afeto do homem que não é poeta, entra sempre o seu tanto de vil prosa humana: é liga sem que não se lavra o mais fino do seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada deveras sublima-se, idealiza-se logo, toda ela é poesia; e não há dor física, interesse material, nem deleites sensuais que a façam descer ao positivo da existência prosaica. Estava eu nestas meditações, começou um rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga que há muito tempo me lembra de ouvir. Era ao pé da dita janela! E respondeu-lhe logo outro do lado oposto; e travou-se entre ambos um desafio tão regular em estrofes alternadas tão bem medidas, tão acentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance, esqueci-me de tudo o mais. Lembrou-me o rouxinol de Bernardim Ribeiro8, o que se deixou cair na água de cansado. O arvoredo, a janela, os rouxinóis... àquela hora, o fim da tarde... que faltava para completar o romance? Um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão – vestido de branco – oh! branco por força... – a frente descaída sobre a mão esquerda, o braço direito pendente, os olhos alçados ao céu... De que cor os olhos? Não sei, que importa! É amiudar muito demais a pintura, que deve ser a grandes e largos traços para ser romântica, vaporosa, desenhar-se no vago da idealidade poética... – Os olhos, os olhos... – disse eu, pensando já alto, e todo no meu êxtase – os olhos... pretos. – Pois eram verdes! – Verdes os olhos... dela, do vulto na janela? – Verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhantes, sem preço. – Quê! Pois realmente?... É gracejo isso, ou realmente há ali uma mulher, bonita, bonita, e?... – Ali não há ninguém – ninguém que se nomeie hoje, mas houve... oh! houve um anjo, um anjo, que deve estar no céu. – Bem dizia eu que aquela janela... 7 8

Acrisolado – purificado, depurado. Bernardim Ribeiro (1482?-1552?) – escritor e poeta renascentista, autor da novela Menina e moça.

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– É a janela dos rouxinóis... – Que lá estão a cantar. – Estão, esses lá estão ainda como há dez anos – os mesmos ou outros, mas a menina dos rouxinóis foi-se e não voltou. – A menina dos rouxinóis! Que história é essa? Pois deveras tem uma história aquela janela? – É um romance todo inteiro, todo feito como dizem os franceses, e conta-se em duas palavras. – Vamos a ele. A menina dos rouxinóis, menina com os olhos verdes! Deve ser interessantíssimo. Vamos à história já. – Pois vamos. Apeemo-nos e descansemos um bocado. Já se vê que este diálogo passava entre mim e outro dos nossos companheiros de viagem. Apeamo-nos com efeito; sentamo-nos; e eis aqui a história da menina dos rouxinóis, como ela se contou. É o primeiro episódio da minha odisseia: estou com medo de entrar nele, porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o português não é bom para isto, que em francês que há outro não sei quê... Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque enfim, enfim, deles me rio eu: mas poesia ou romance, música ou drama de que as mulheres não gostem, é porque não presta. Ainda assim, belas e amáveis leitoras, entendamo-nos: o que eu vou contar não é um romance, não tem aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes raros; é uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão. Acabemos aqui o capítulo em forma de prólogo; e a matéria do meu conto para o seguinte.

 A fabulação A história mal começa e já é interrompida por longa digressão sobre barões e frades, mas as sementes da trama são lançadas: uma bela aldeã, órfã de pai e mãe, criada pela avó, D. Francisca Joana, mulher cega e amargurada. Um frade, antigo corregedor de comarca que abandona a vida civil e assume, na eclesiástica, o nome de Frei Dinis da Cruz, sendo ele a única companhia da família, sempre às sextas-feiras. Outro elemento masculino importante para a trama está ausente. É Carlos, neto de D. Francisca, igualmente órfão, pois a mãe morrera ao lhe dar a vida e cujo suposto pai havia desaparecido, juntamente com o pai de Joaninha, em uma cheia do Tejo, quando o saveiro em que viajavam naufragou. Tudo parece envolto em uma aura de mistério que instiga a imaginação. São todos ingredientes indispensáveis para uma boa trama romântica. Conduzir habilmente o enredo é tarefa do bom escritor e Garrett sabe, no momento em que isto se faz necessário, prender a atenção do leitor, mesmo quando ele mesmo está perdido em uma excessiva rede de intrincados pensamentos. Ao retomar a história, dois anos são passados desde a partida de Carlos. Frei Dinis assume o papel de antagonista por sua forma de vida e de crença, e, principalmente, por suas posições rígidas contra a filosofia dos liberais, acusando as 18 02_viagens-minha-terra.indd 18

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ideias defendidas por ela de “perversoras de toda a ideia sã, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticável”. O chamado liberalismo, esse entendia ele: “Reduz-se”, dizia, “a duas coisas, duvidar e destruir por princípio, adquirir e enriquecer por fim; é uma seita toda material em que a carne domina e o espírito serve; tem muita força para o mal; bem verdadeiro, real e perdurável, não o pode fazer. Curar com uma revolução liberal um país estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tísico: a falta de sangue diminui as ânsias do pulmão por algum tempo, mas as forças vão-se, e a morte é a mais certa”. Dos grandes e eternos princípios da Igualdade e da Liberdade dizia: “Em eles os praticando deveras, os liberais, faço-me eu liberal também. Mas não há perigo: se os não entendem! Para entender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na igualdade é preciso ter o Evangelho no coração.” As instituições monásticas eram, no seu entender e no seu sistema, condição essencial de existência para a sociedade civil – para uma sociedade normal. Não paliava9 os abusos dos conventos, não cobria os defeitos dos monges, acusava mais severamente que ninguém a sua relaxação10; mas sustentava que, removido aquele tipo da perfeição evangélica, toda a vida cristã ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remédio, precipitar-se no golfão do materialismo estúpido e brutal em que todos os vínculos sociais apodreciam e caíam e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoísta – última fase da civilização exagerada que vai tocar no outro extremo da vida selvagem.

Ao mesmo tempo, Frei Dinis é responsável por acender a chama da suspeita: descobre-se que há um espantoso e grande segredo entre ele e a velha, que levou à morte a mãe de Carlos. Tamanho drama parece não combinar com a frescura da paisagem, a leveza do retrato feminino traçado, o tom justo do diálogo, nem com o caráter reformador da obra. Observe, por exemplo, o trecho já citado, em que o narrador chega ao vale de Santarém, destaca a beleza da paisagem, a janela que o motiva a contar o caso de Joaninha, a lembrança da suavidade poética. Outro exemplo: ao iniciar a novela, Garrett recheia-a de belos quadros românticos, como o da neta que acorre ao chamado da avó cega, numa suavidade e leveza que contrastam com o sabor da tragédia pretendida no enredo. Tornemos à velhinha. Estava ela ali sentada na dita cadeira, e diante de si tinha uma dobadoira11 que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha ter às mãos e enrolar-se no já crescido novelo. Era o único sinal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso, velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa escultura de Antônio Ferreira12 ou um daqueles quadros tão verdadeiros do morgado13 de Setúbal. 9 Paliar – encobrir, dissimular, disfarçar. 10 Relaxação – ato ou efeito de relaxar. 11 Dobadoira – artefato para proceder ao enovelamento dos fios. 12 Antônio Ferreira (1528-1569) – poeta e escritor renascentista que ficou conhecido como “o Horácio português”. 13 Morgado – bens inalienáveis destinados ao primogênito da família.

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O movimento bem visível da dobadoira era regular, e respondia ao movimento quase imperceptível das mãos da velha. Era regular o movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguindo outros dois, três minutos, tornava a parar: e nesta regularidade de intermitências se ia alternando como um pulso de um que treme sezões. Mas a velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar do seu lavor era porque o trabalho interior do espírito dobrava, de vez em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas a suspensão era curta e mesurada: reagia a vontade, e a dobadoira tornava a andar. Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o poente, não os tirou dessa direção nem os inclinava de modo algum para a dobadoira que lhe ficava um pouco mais à esquerda. Não pestanejavam, e o azul de suas pupilas, que devia ter sido brilhante como o das safiras, parecia desbotado e sem lume. O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou tranquilamente as mãos e o novelo no regaço, e chamou para dentro da casa: – Joaninha? Uma voz doce, pura, mas vibrante, destas vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro da alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de dentro: – Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou. – Querida filha!... Como ela me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando puderes. É a meada que se me embaraçou. A velha era cega, cega de gota-serena, e paciente, resignada como a providência misericordiosa de Deus permite quase sempre que sejam os que neste mundo destinou à dura provança de tão desconsolado martírio.

Chega ao vale o oficial Carlos, defensor das causas liberais, primo e amigo de infância de Joaninha, a quem a moça julgava morto. Reencontrá-lo significou fazer nascer no coração da menina o mais profundo amor. Embora Carlos também esteja apaixonado por Joana, não lhe escapam as outras mulheres – o coração volúvel do rapaz bate no ritmo de ardentes paixões. A sequência narrativa é interrompida por novas digressões, mas o autor se vê obrigado a terminar a obra, colocar pontos-finais – no intrincado caso amoroso, desfazer duas cruéis dúvidas: a quem pertencerá o coração do nobre rapaz, já que ele oscila entre a inglesa Georgina e a portuguesa Joaninha?; descobrir o mistério que envolve a morte do pai é seu segundo objetivo. As características de Carlos são semelhantes às do próprio Garrett; o personagem, portanto, com suas dúvidas amorosas e suas ideias políticas, torna-se uma espécie de alter ego do autor. Georgina chega a Portugal em busca de seu amor. Carlos, em campanha na guerra civil, defendendo os liberais pela deposição de D. Miguel, foi ferido e posteriormente recolhido por Frei Dinis ao convento de São Francisco. Mediante explicações de Georgina, o frade abre-lhe as portas do convento para que a moça servisse de enfermeira ao ferido. Entre quatro paredes estão reunidos os principais personagens que compuseram a trama, resta agora dar-lhes um desfecho. Mas, ao rapaz é poupado o 20 02_viagens-minha-terra.indd 20

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esforço da solução, uma vez que ela vem pronta, pelas mãos de Georgina. Já recuperado, Carlos pôde abrir-se para Georgina, declarando seu amor por ela. Porém tarde demais, porque a moça, tomada por profunda afeição pela singela Joaninha, revela que não o ama mais, e que é nos braços da prima que Carlos encontrará a felicidade. Como um bom dramaturgo, chega, também, o momento de grandes revelações. Frei Dinis é acusado de ter matado o genro e o filho da velha Francisca, ignorando a identidade deles quando de um assalto. Ao avançar sobre o assassino para vingar a morte de seu pai, outra revelação é configurada – o verdadeiro pai de Carlos é o frade. Diante de confissões tão reveladoras, o rapaz opta por fugir e por escrever uma carta em que dá explicações à pessoa que mais comoções sofreu – Joaninha. A menina dos rouxinóis ensandeceu e, logo depois, veio a falecer. Mas as coisas andam a passos de carruagem, e antes de dar ao leitor a conclusão, Garrett compõe uma série de outras digressões, mas nada impede o leitor de saltar algumas páginas e chegar mais rapidamente ao desfecho de tão melodramática história, que há muito vem se arrastando. É aí que o escritor, atando as duas pontas da narrativa, recupera as páginas iniciais, fechando a trágica novela da vida da menina dos rouxinóis. E o narrador volta a ser o turista português em viagem de recreio por sua pátria, que conversa com Frei Dinis, tendo por ouvinte a velha Francisca, que, sofrida com a morte da neta e com o esquecimento do neto, agora barão, apenas vegeta à espera da morte. Em um único capítulo, Garrett resume todo o final da narrativa de forma rápida e certeira, em oposição à direção tomada até então. Dito isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviário e pôs-se a rezar. A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns segundos. Nenhum me deu mais atenção, nem pareceu cônscio da minha estada ali. Sentia-me como na presença da morte e aterrei-me. Fiz um esforço sobre mim mesmo, fui deliberadamente ao meu cavalo, montei, piquei desesperado de esporas, e não parei senão no Cartaxo. Encontrei ali os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fora da vila à hospedeira casa do Sr. L. S. Rimos e folgamos até alta noite: o resto dormimos a sono solto. Mas eu sonhei com o frade, com a velha – e com uma enorme constelação de barões que luzia num céu de papel, donde choviam, como farrapos de neve, numa noite polar, notas azuis, verdes, brancas, amarelas, de todas as cores e matizes possíveis. Eram milhões e milhões de milhões... Nunca vi tanto milhão, nem ouvi falar de tanta riqueza senão nas Mil e uma noites. Acordei no outro dia e não vi nada... só uns pobres que pediam esmola à porta. Meti a mão na algibeira, e não achei senão notas... papéis! Parti para Lisboa cheio de agoiros, de enguiços e de tristes pressentimentos. O vapor vinha quase vazio, mas nem por isso andou mais depressa. Eram boas cinco horas da tarde quando desembarcamos no Terreiro do Paço.

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Assim terminou a minha viagem a Santarém; e assim termina este livro. Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra. Se assim pensares, leitor benévolo, quem sabe? pode ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e vá peregrinando por esse Portugal fora, em busca de histórias para te contar. Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar. Escusada é a jura, porém. Se as estradas fossem de papel, fá-las-iam, não digo que não. Mas de metal! Que tenha o governo juízo, que as faça de pedra, que pode, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.

Considerações finais As frequentes menções a Dom Quixote e Sancho Pança têm a intenção de contrapor o idealismo do cavaleiro ao materialismo de seu companheiro. Quixote é austero, Sancho é prático; Quixote é idealista, Sancho é realista. Estendendo a comparação, vê-se, em Viagens na minha terra uma divisão de polos que representam, à sua maneira, a história de Portugal. Recuperando a narrativa e as digressões do autor, tem-se uma forma de representar passado e presente. Joaninha, por exemplo, representa um Portugal idealizado, de beleza, simplicidade, ingenuidade e de grandeza. Pode simbolizar o momento em que, politicamente, defendiam-se as ideias absolutistas que levaram os portugueses a navegar por mares desconhecidos. É a apoteose política e econômica do país, momento de orgulho e de grandes perspectivas. Trata-se de um Portugal agrícola, promissor e autossuficiente. Ao mesmo tempo significa a possibilidade de retomar as glórias do passado e crescer rumo ao desenvolvimento. Ao lado da menina dos rouxinóis está a força e a vitalidade da juventude, representada por Carlos. O jovem é audaz, disposto a dar sua vida por sua causa. Ao fazer oposição a Dom Miguel, representa a busca pela modernidade, a inserção de Portugal novamente no mundo representativo, alter ego de Garrett na defesa do liberalismo. No entanto, deve-se lembrar de que, no final, Carlos rende-se ao título de nobreza e ao dinheiro, o que o fará vítima do ostracismo e, de certa forma, da alienação social, que o aproxima do materialismo. Portanto, é um momento em Portugal que coincide com o tempo de Garrett, em que os ideais não estão constituídos. Por esse par, têm-se representado dois Portugais: agrícola x urbano, inocente x guerreiro e duas formas de alienação: a que leva à loucura e à morte, no caso de Joaninha; a que leva ao abandono das lutas, no caso de Carlos. Tanto quanto Joaninha, Georgina, a namorada inglesa de Carlos, está do lado do bem, representa a influência de uma cultura estrangeira, à qual Garrett rende imenso respeito. Ela é capaz de atitudes abnegadas e de se tornar reclusa ao saber que seu grande amor não lhe pertence. Entre os antagonistas, situa-se Frei 22 02_viagens-minha-terra.indd 22

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Dinis, que metaforiza um Portugal arcaico. Antes de se tornar frade, pelos erros cometidos, percebe-se que era preso a paixões carnais. Tornou-se homem de princípios austeros e de crenças rígidas, exercendo grande influência sobre Joaninha e a avó. Representa o lado da Igreja autoritária e dogmática, punitiva e poderosa. O exercício do sacerdócio era uma forma de se redimir dos erros mundanos, espiritualizar-se. Finalmente, a velha avó e sua cegueira e posterior alienação era subserviente, passiva, aceitava as ordens do Frei Dinis como se fosse obrigada a seguir seus passos. Representa certa cegueira com que os portugueses assumiram algumas ideias para as quais não estavam preparados politicamente. Enfim, Portugal é representado, nas páginas do livro de Garrett por meio de meandros literários que o leitor tem de desvendar no transcorrer da leitura. Mais ainda, Garrett possui outro mérito: fazer uma narrativa diferenciada dos padrões usuais, abrir caminhos para o advento de grandes autores que beberão em sua fonte, como Eça de Queirós e Machado de Assis. Dono de uma linguagem inovadora deixa herdeiros nas literaturas em língua portuguesa tal como é de se esperar de grandes autores. Textos extraídos de: Almeida Garrett. Viagens na minha terra. São Paulo: Núcleo, 1992.

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ROMANTISMO

Til José de Alencar

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Um escritor bem-intencionado José Martiniano de Alencar (1829, Mecejana, CE - 1877, Rio de Janeiro, RJ) forma-se em Direito em 1850 e inicia sua carreira de jornalista no Correio Mercantil (RJ) quatro anos depois. Em 1956, já no Diário do Rio de Janeiro, trava uma célebre polêmica com Gonçalves de Magalhães, publicando as Cartas sobre a Confederação dos Tamoios, as quais provocam reação no imperador D. Pedro II, que o pretere em favor do autor de Suspiros poéticos e saudades. Pouco depois, estreia em romance com o folhetim Cinco minutos, mas sua primeira obra de vulto sai em 1857, quando publica o épico indianista O guarani, que inspiraria o compositor erudito Carlos Gomes a escrever uma ópera homônima de estrondoso sucesso. Em 1860, falece seu pai, senador revolucionário e político de renome. O contato do escritor com a lida política do pai influenciaria o jovem Alencar por toda a vida, resultando em um intenso e permanente interesse pelas questões de ordem pública, chamando a atenção sobre causas que afligiam e dividiam a sociedade, como: o nativismo, a prostituição, o escravagismo, a corrupção a minar as ralas fronteiras do império, entre outras. José de Alencar desempenhou um leque impressionante de atividades correlatas: foi jornalista, crítico, advogado (seu verdadeiro ganha-pão), polemista, orador, dramaturgo, pesquisador aguçado, estilista ímpar da língua e romancista, o primeiro grande prosador da literatura do Brasil. Em tudo, incansavelmente almejando – nunca é demais realçar – a justa medida da brasilidade, numa análise histórica, sociológica, artística e psicológica a um só tempo (nesses termos, o autor pode ser vislumbrado como um precursor legítimo, embora remoto e fundamentalmente romântico, do Modernismo de 1922). Elegeu-se deputado em 1861 e foi reeleito várias vezes. Em 1868, ocupa a pasta de ministro da Justiça. Suas constantes desavenças com o imperador D. Pedro II, que lhe vetara a entrada no Senado, em 1869, levam-no a se apartar da carreira política, em 1870. Em 1876, ele, seus seis filhos e sua esposa Georgiana leiloam os bens e se mudam para a Europa, com o fito de tratar da sua precária saúde: Alencar, por quase toda a vida, foi vítima da tuberculose. Não obtendo efeito o tratamento em terra estrangeira, regressa ao Rio de Janeiro, vindo a falecer em 1877. É impressionante como em tão pouco tempo Alencar obteve êxito em praticamente tudo o que compôs e fez, impondo-se entre os intelectuais brasileiros como um dos maiores nomes de sua época. De espírito nacionalista, Alencar procurou descobrir o Brasil espacial e temporalmente, compondo quatro tipos de romances que seriam a base de toda a prosa brasileira posterior: (i) romances urbanos, em que trabalha o tempo presente (do escritor) e o meio urbano, nos quais desenha as relações egoístas e interesseiras que se firmam entre os indivíduos, subjugados pelo dinheiro. Neles, o amor subordina-se à posse e ao dinheiro, emFuvest/Unicamp 03_til.indd 27

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bora, como solução, seja encontrado um termo conciliador e a redenção: Lucíola, Diva e Senhora ilustram com perfeição esse ciclo; (ii) romances históricos, nos quais Alencar recupera e enaltece o passado e a memória nacionais, como em As minas de prata, Alfarrábios e o também indianista O guarani; (iii) romances indianistas, em que se pode contemplar a cartilha de Rousseau na pintura do “bom selvagem”, tendo como cenário a selva virgem do país recém-descoberto ou totalmente virgem. O índio nobre, valente, plasmado com grande viço e ambientado numa natureza luxuriante, de rara beleza e idealização épica: O guarani, Iracema e Ubirajara são notáveis exemplos; (iv) romances regionalistas, nos quais retrata o presente e a formação de uma sociedade rural/sertaneja, em que a honra, o sangue, a tradição local e uma certa moralidade (pautada em convenções simples, mas imperiosas) prevalecem. São regionalistas os romances O gaúcho, O tronco do ipê, Til e O sertanejo.

Til, o regionalismo paulista Publicado em 1872, o romance Til está entre os chamados romances regionalistas de Alencar, registrando aspectos como vestuário, festividades, alguns modos de fala, alguns códigos sociais e familiares, e valores que retratam um país ainda em formação, agreste e bruto, que adentra o interior, distanciando-se dos focos urbanos. Sobre essa paragem bucólica, perdida nos desvãos da imaginária geografia brasileira, comenta o próprio José de Alencar, em seu prefácio a outro livro de sua lavra, Sonhos d’ouro (também de 1872): Onde não se propaga com rapidez a luz da civilização, que de repente cambia a cor local, encontra-se ainda em pureza original, sem mescla, esse viver singelo de nosso país (...) recantos, que guardam intacto, ou quase, o passado. O tronco do ipê; Til e O gaúcho vieram dali...

Til é, tipicamente, um romance romântico: obra leve e lírica, repleta de peripécias, segredos inconfessáveis, coincidências do destino e eventos muitas vezes inverossímeis, que se tornam possíveis graças à pena precisa e experiente do narrador, que conduz a trama com elegância e competência. O romance revela os namoricos, arrufos, caprichos e, em suma, a descoberta do amor entre quatro adolescentes inseparáveis: Afonso, Linda, Miguel e Berta. A obra é escrita em terceira pessoa, por um cuidadoso narrador observador que não se inibe em se colocar na narrativa usando a primeira pessoa. A ação se passa no ano de 1846. O cenário básico e pano de fundo é o interior paulista, uma região que encontra seus primeiros momentos de progresso com a expansão da cultura cafeeira e também da cana-de-açúcar:

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Cerca de uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba, e à margem deste último rio, estava situada a fazenda das Palmas. Ficava no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que então contava a província de São Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo em campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer nos campos de Itu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais. Mas dificilmente se encontram já aqueles gigantes da selva brasileira, cujos troncos enormes deram as grandes canoas, que serviram à exploração de Mato Grosso. Daí partiam pelo caminho d’água as expedições que os arrojados paulistas levavam às regiões desconhecidas do Cuiabá, descortinando o deserto, e rasgando as entranhas da terra virgem, para arrancar-lhe as fezes, que o mundo chama ouro e comunga como a verdadeira hóstia. No ano de 1846 era de recente fundação a fazenda das Palmas, que Luís Galvão, seu proprietário, recebera de herança paterna, ainda nas condições de simples situação, com um velho casebre de caipira, dois cafezais e alguma pouca roça. Tinha Luís Galvão o gênio empreendedor e gosto para a lavoura; casando com a filha de um capitalista de Campinas, que lhe trouxe de dote algumas dezenas de contos de réis, além do crédito, pôde ele, dando alas à sua atividade, fundar uma importante fazenda, que a muitos respeitos servia de norma e escola ao agricultor brasileiro. Ao passo que se ia adiantando a lavra das terras, erguia-se na chapada fronteira ao rio uma bela casa de morada em dois lances abarracados, com um pequeno mirante no centro, sobreposto à larga portada; esta abria para o patamar, ladrilhado, de uma pequena escada de seis degraus, que descia ao terreiro. Formava o edifício uma face da vasta quadra, onde se fora levantando sucessivamente casas para o administrador e feitores, senzalas para os escravos, o engenho de cana, a fábrica do café, tulhas de feijão e milho, além de outros acessórios do grande estabelecimento rural, que veio a tornar-se depois a fazenda das Palmas. Do terreiro da casa partia o caminho principal da fazenda, que se estendia pelo espigão da colina, e bifurcava-se de espaço a espaço para serventia das várias jeiras de lavoura. O ramo principal, fugindo aos alagados e descrevendo uma grande curva, ia entroncar-se, a meia légua de Santa Bárbara, na estrada geral da Constituição a Campinas.

A fazenda das Palmas era propriedade de Luís Galvão, que a herdara e a tornara próspera, como “norma e escola ao agricultor brasileiro”. Casa-se Galvão com a filha de um rico capitalista de Campinas, D. Ermelinda. Da união, nascem os gêmeos Afonso e Linda, apelido que a distinguia, por ter o mesmo nome da mãe. Esse par juvenil irá contracenar com Miguel e Berta, esta última órfã e irmã de criação de Miguel. Filha de um capitalista de Campinas, D. Ermelinda recebera em um colégio inglês da corte educação esmerada, que desenvolveu a natural distinção de seu espírito. Recolhida à sua província, teria sem dúvida perdido ao atrito dos costumes do interior aquele tom fidalgo, se fosse ele um artifício do hábito, em vez de um dom, que era da natureza, o qual o exemplo não fizera senão polir.

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O entrecho começa quando Berta salva Miguel da descomunal fúria de um impiedoso assassino da região, Jão Fera. Adiante, saberemos que Fera anda às voltas com um certo Barroso, que lhe encomendara a morte de Luís Galvão, dono da fazenda Palmas. Um núcleo dramático se constrói em torno do poder e autoridade, verdadeiramente inexplicáveis, que a “pequena, esperta, ligeira, buliçosa” Berta exerce sobre o matador. Berta é, em tudo, a síntese romântica da femme perfeita: pura, ingênua, abnegada, caridosa e menina; mas, ao mesmo tempo, sedutora e mulher: “A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela”. Ela enfeitiça os personagens, que orbitam em torno de sua pureza e beleza. Contradição viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação. A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.

Por intermédio de Berta, também Luís Galvão acaba livre das garras de Jão Fera, obra encomendada por Barroso, como vingança por um crime que Luís Galvão cometera na juventude. Jão Fera, reconhecendo a menina através da nuvem de sangue que lhe inflamava o olhar, e vendo-a afrontar-lhe os ímpetos, não abateu logo de todo o fero senho, mas foi-se aplacando a pouco e pouco. A ira que se arrojava do seu aspecto, retraiu-se e de novo afundou pelas rugas do semblante, como a pantera que recolhe à jaula, rangendo os dentes. Sua alma se impregnava do fluido luminoso dos olhos de Berta, e ele sentia-se trespassado pelo desprezo que vertia no sorriso acerbo esse coração nobre e puro, sublevado pela indignação. De repente começaram a tremer-lhe os músculos da face, como os ramos do pinheiro percutidos pela borrasca; e as pálpebras caíram-lhe, vendando-lhe a pupila ardente e rúbida. – Estavas aqui para matar alguém? perguntou a menina com um timbre de voz, semelhante ao ringir do vidro. Respondeu o capanga com uma palavra, que em vez de sair-lhe dos lábios, aprofundou-se pelo vasto peito a rugir como se penetrasse em um antro.

Seguem-se inúmeros episódios, e o quebra-cabeça, afinal, se concatena e se deslinda: no passado, Luís Galvão, galanteador, rico e jovem, protegido pelo capanga Jão Fera, lançara-se em inúmeras aventuras amorosas. Uma delas, com o grande amor, reprimido e devocional, de Fera: Besita. Esta, percebendo o descompromisso de Luís, contrai núpcias com Ribeiro, “mas este ao sair da igreja recebeu uma carta, que o chamava a toda pressa a Itu para salvar a maior parte da herança”. Ribeiro não volta, abandona a esposa e ganha o mundo numa vida, de forma inconsequente e irresponsável, abandonando a esposa e não dando notícias de seu paradeiro. Por puro capricho oportunista, Luís Galvão, disfarçado, uma noite invade 30 03_til.indd 30

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o quarto de Besita e a engravida. Diga-se, de passagem, que Besita é totalmente inocente, foi enganada e violentada. Desse encontro nasce Berta. Devotado a seu grande amor, Jão Fera torna-se um anjo da guarda permanente da mãe e da filha. Eis, porém, que algum tempo depois Ribeiro retorna e compreende a traição: vê a mãe brincando com a filhinha, ainda bebê, e, num assomo de ira, mata Besita e foge, antes que Jão pudesse fazer qualquer coisa. O bebê, então, é entregue, por Jão, aos cuidados de nhá Tudinha, mãe de Miguel, e a história toda é abafada. É nesse momento que Jão Fera se torna o selvagem e sanguinário assassino, revelado no romance. Seu ódio por Ribeiro é incontrolável e visceral. Ocorre que, por um arranjo da fatalidade, será esse mesmo Ribeiro quem, passados vinte anos, e sob o falso nome de Barroso, irá contratar os serviços de Fera. Ambos não se reconhecem, mas instintivamente se detestam. Os fatos se sucedem, até que a verdade vem à tona. Berta descobre sua origem; Luís a aceita como filha e herdeira (embora a moça decline disso, optando por cuidar dos enjeitados, como ela); Fera vinga a memória da amada, Besita, barbaramente destroçando Barroso (Ribeiro), com as próprias mãos. Entretanto, Jão Fera, embrenhado na espessura, atirava ao chão o corpo do Ribeiro, quase desfalecido pelo terror e pela constrição formidável dos braços que o arrochavam. O capanga sacara a faca da cinta, e com o golpe suspenso procurou sofregamente um lugar para ferir, mas de modo que reanimasse com a mais intensa dor, aquele corpo desmaiado sem contudo lhe tirar a vida, que ele queria conservar como um avaro, para sua vingança. Ao cabo de um instante de hesitação arremessou de si a arma, arquejante aos arrancos daquela sanha. Agachando-se então como um tigre que prepara o salto, com os dentes rangidos e os lábios espumantes, se arremessou em cima do Ribeiro e tripudiou sobre o corpo em um frenesi de selvagem ferocidade. Quem o visse dilacerando a vítima com as mãos transformadas em garras, pensaria que a fera de vulto humano ia devorar a presa e já palpitava com o prazer de trincar as carnes vivas do inimigo. Soou perto um brado de horror. Transido e estúpido, Jão Fera viu Berta fugindo espavorida daquele sítio, ao qual a guiara o Brás, por uma estulta malignidade. O idiota espreitara a cena anterior, e forjara no seu bestunto aquela vingança. O furor de Jão Fera transportou-se do cadáver, que já não o podia cevar, ao monstrengo; na sua raiva o teria despedaçado, se este não corresse a abrigar-se sob a proteção de Berta.

Ao cabo, Jão Fera se redimiu por inspiração sublime de Berta. Trabalha no eito, como escravo, mas livre das misérias que o embalaram. Til é um exemplar volume romântico, que versa sobre adultério, vingança, honra e amores proibidos.

Til, obra pictórica com riqueza psicológica Os personagens de Til são planos, isto é, têm pouca profundidade ou estofo psicológico. Agem de forma convencional, caracterizando tipos pontuais e Fuvest/Unicamp 03_til.indd 31

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bem-definidos, cumprindo as necessidades românticas de criar uma narrativa que oscila entre o bem e o mal, o certo e o errado, o sublime e o grotesco. As personagens estão inseridas no cenário agreste e rude em que são articulados os fatos enfeixados no enredo. No entanto, na medida em que a narrativa caminha, a mão de Alencar desenha um contorno psicológico, tênue, porém preciso, de modo que o leitor é capaz de perceber quão lapidadas são suas personagens. Nesse sentido, ele antecipa a análise dos traços humanos, que tanto celebrizaria Machado de Assis: Toda a força vital da boicininga se concentrava no olhar, donde coava-se uma flama tépida, por entre as titilações da membrana sutil, que reveste a retina da serpente. Encadeada por este fio luminoso ao olhar cintilante de Berta, o medonho réptil parecia como deslumbrado com súbito lampejo.

Uma exceção, na caracterização de tipos, se abre a Jão Fera personagem denso que, sob inúmeros aspectos, nos remete ao Realismo. Embora profundamente romântico em suas motivações interiores, Jão é construído como “fera” e depois é desconstruído pela “bela” – a menina Berta – e passa da pura barbárie à ascese e redenção, num percurso que muito lembra a conversão religiosa: de fato, Berta é pintada como uma freira, a quem se deve uma devoção imaculada e transformadora: todos os personagens macabros são submissos à magia de sua presença: Zana, a escrava louca; Brás, o abobalhado filho da irmã de Luís e Jão Fera, o vingador. Justifica-se, assim, o último capítulo do livro, “Alma sóror”. Quando o Sol escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do crepúsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a seus pés, o idiota, a louca e o facínora remido. Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça. Era a flor da caridade, alma sóror.

Jão Fera trava uma batalha final contra si mesmo e vence, ou seja, ameniza sua consciência e fica em paz consigo mesmo. Vemo-lo, ao término do romance, carpindo a terra, na enxada, numa renúncia à vida de banditismo e aventura que levara até então. O homem “fera” concilia-se com a natureza (segundo os preceitos do Romantismo) e dela tira o seu sustento e a paz de seu espírito.

Til, romance social As personagens secundárias, e o contexto em que surgem, dão um agradável tempero à narrativa. O detalhismo de Alencar nos remete, como um cineasta, aos mínimos detalhes das festividades (capítulo XVI – São João), dos falares, dos cantares (“Cadonga, deixa de partes / É melhor desenganar / Que este negro da 32 03_til.indd 32

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carepa / Não há fogo pra queimar”), da hierarquia social, das intrigas, dos códigos de conduta da fazenda e do campo, regrados a valentia, justiça e brio. Tipos como Chico Tinguá, Gonçalo Suçuarana, a preta Florência, etc., revelam uma época e uma vivência social, estruturadas sobre relações de confiança, tradição e família. Em Til, a renúncia a uma filha bastarda, Berta, se transforma em pano de fundo a desvendar os mecanismos de uma sociedade marcada pelo preconceito, pela separação entre ricos e pobres, doentes e sãos, pela injustiça e, principalmente, pela regra de se fazer justiça com as próprias mãos.

Do til ao abecê do estilo Certa vez, Gonçalves Dias aludiu à “poesia grande e santa” que, fervorosamente, ele almejava – e obteve. O mesmo se dirá de José de Alencar, um autêntico poeta na prosa. Sua linguagem, cheia de inovações estilísticas, adjetivação farta, subjetividade e esmero nas descrições, com cenários inebriantes e paradisíacos, enaltecendo, como poucos, a terra e a gente brasileira, é traço singular seu. Como se lerá, páginas adiante, “Til” é o apelido que o demente Brás (criatura bestializada, exposta numa tintura quase naturalista) empresta a Berta, pois entende que o sinal gráfico do til está passeando no rostinho da menina, no nariz, no desenho das orelhas, nos lábios finos e meigos, etc. Evidentemente, Alencar gera metalinguagem, e o próprio romance Til passa a simbolizar um esforço em prol da construção de uma escritura excepcional. Permitido o jogo de palavras, Til se transforma numa grande lição de estilo, numa linda obra de arte. Textos extraídos de: José de Alencar. Til. São Paulo: Núcleo, 2012.

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ROMANTISMO

Memórias de um sargento de milícias Manuel Antônio de Almeida

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Crônicas da vida suburbana Escrito em pleno desenvolvimento do movimento romântico (1836-1881), Memórias de um sargento de milícias não pode ser classificado como autenticamente romântico por fugir dos padrões tradicionais do romance do século XIX. Enquanto romancistas urbanos como José de Alencar (1829-1877) e Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) escreviam seus romances sem preocupações de datar ou localizar as ações, tecendo personagens oriundas ou com livre trânsito pelas camadas mais privilegiadas, Manuel Antônio de Almeida inicia seu relato de forma diferente, pontuando tanto o tempo como o espaço suburbano. O mesmo ocorre quanto à linguagem utilizada, mais prolixa e mais elaborada nos dois primeiros românticos e mais solta, econômica e rápida em Manuel Antônio de Almeida. São dados a seguir trechos dos romances urbanos Senhora, A moreninha e Memórias de um sargento de milícias, para serem constatadas as diferenças apontadas. Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela. Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões. Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade. Era rica e formosa. Duas opulências, que se realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante. Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira o seu fulgor? Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia. Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros. Aurélia era órfã; tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade. Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina. (José de Alencar. Senhora. São Paulo: Ed. Núcleo, 2010.)

Seriam pouco mais ou menos onze da manhã quando o batelão de Augusto abordou à ilha de... Embarcando às dez horas, ele designou ao seu palinuro o lugar a que se destinava, e deitou-se para ler mais à vontade o Jornal do Comércio. Soprava vento fresco e, muito antes do que supunha, Augusto ergueu-se, ouvindo a voz de Leopoldo que o esperava na praia. – Bem-vindo sejas, Augusto. Não sabes o que tens perdido...

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– Então... muita gente, Leopoldo? – Não: pouca, mas escolhida. No entanto, Augusto pagou, despediu o seu bateleiro, que se foi remando e cantando com seus companheiros. Leopoldo deu-lhe o braço, e, enquanto por uma bela avenida, orlada de coqueiros, se dirigiam à elegante casa que lhes ficava a trinta braças do mar, o curioso estudante recém-chegado examinava o lindo quadro que a seus olhos tinha e do qual, para não sermos prolixos, daremos ideia em duas palavras. A ilha de... é tão pitoresca como pequena. A casa da avó de Filipe ocupa exatamente o centro dela. A avenida por onde iam os estudantes a divide em duas metades, das quais a que fica à esquerda de quem desembarca está simetricamente coberta de belos arvoredos, estimáveis ou pelos frutos de que se carregam, ou... (Joaquim Manuel de Macedo. A moreninha. São Paulo: Ed. Núcleo, 1996.)

Era no tempo do rei.1 Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo – O canto dos meirinhos2 –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. (Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Ed. Núcleo, 2011.)

O autor, para a confecção do volume, recolhe cuidadosamente as informações que lhe foram fornecidas por um colega de repartição, Antônio César Ramos. Esse português, há longos anos radicado no Brasil, viera para cá como soldado e, depois, chegara a sargento de milícias, ainda na Época Colonial, sob o comando de um certo major, autoritário e disciplinado, conhecido como Vidigal. O título, Memórias, marca o primeiro desafio a ser enfrentado pelo leitor: usualmente, um livro de memórias é narrado em primeira pessoa e relata episódios da vida de um personagem, geralmente protagonista. Nas Memórias de Manuel Antônio de Almeida, prevalece a ambiguidade, uma vez que o leitor não sabe de quem são as memórias: do português, de quem o autor ouviu os relatos, ou de Leonardo, o “herói” do livro e futuro sargento de milícias? A marca da dúvida nasce do deslocamento do foco narrativo para a terceira pessoa e possibilita um dinamismo interativo, cabendo ao leitor questionar, participar ou tomar partido. Outro ponto a assinalar é que Manuel Antônio de Almeida pretendia narrar a acidentada vida de uma criança nascida no começo do século XIX, mas foi muito além, já que fez uma esplêndida reconstituição de época nas camadas suburba1 Observe-se que existem claramente dois tempos: o tempo do narrador, século XIX, contemporâneo à escritura do volume, e o tempo dos fatos narrados, 1º quartel do século XIX. No entanto, esse início remete o leitor à indeterminação temporal do “Era uma vez...” comum nos contos de fada. 2 meirinhos – antigos funcionários judiciais, equivalentes aos oficiais de justiça.

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nas: da obra, aflora um Rio de Janeiro mais popular; são focalizados costumes, usos, moda, divertimentos, brigas familiares, intrigas de comadres, superstições, música, linguagem e relações sociais peculiares aos meios retratados. Aliando bom humor a uma certa dose de realismo, justapõe várias histórias tendo como elo o personagem principal, malandro e traquinas, que figura mais como anti-herói e lembra as peripécias de heróis do tipo picaresco3. A mola mestra do livro é o movimento: a um acontecimento segue outro e mais outro, o que faz Mário de Andrade assinalar que o livro só termina quando o inútil da felicidade começa, quando não são mais possíveis as peripécias do anti-herói, “guapo rapaz que nasceu sob a égide da aventura e das proezas”.

Uma obra em folhetins As Memórias de Manuel Antônio de Almeida, por terem sido publicadas esparsamente, apresentam algumas características que a tornam sui generis. O autor pôde acompanhar o gosto dos leitores e, de certa forma, interferiu na composição dos capítulos para agradá-los e mantê-los cativos. Quase todos os episódios são nucleares, marcados por algum incidente motivador que, geralmente, é utilizado como pretexto para dar maior colorido ao cenário. Assim, o leitor contempla um Rio de Janeiro festivo, agitado, movimentado pelos tipos populares, cujas ações personificam as funções que exercem. São eles: o barbeiro, a parteira, os ciganos, o mestre de cerimônias, o toma-largura e a moça do caldo. Somente de relance é possível perceber o que ocorre no Paço, através de figurantes como um fidalgo, um oficial superior, dois clérigos e uma senhora rica. Resta lembrar que o único personagem autenticamente histórico da obra é o major Vidigal, principal representante da autoridade policial que serviu nas ruas de 1809 a 1824, quando, então, se aposentou. Deve-se ter em mente que “popular” de modo algum refere-se a pobreza: nesse Rio retratado, não há carências, o dinheiro corre solto, as heranças são grandes, e os dotes, atraentes. O estilo jornalístico é reforçado pela utilização de uma linguagem sem exageros, rápida, leve e solta, aproximando-se da oralidade, inclusive pela quase, ausência de metáforas.

3 picaresco – o herói picaresco é característico de certo tipo de novela, comum na Espanha do século XVI. Participa de episódios de aventuras, geralmente na pele de um criado ladino ou de um andarilho. Sagaz observador, o pícaro registra as fraquezas, desfila casos e cria tipos, de modo a traçar uma visão de largo espectro da época. Normalmente, suas peripécias apresentam uma velada crítica social e relatam com certa fidelidade as camadas sociais mais populares. No entanto, o pícaro é velhaco, cínico e ladino, qualidades que não se encaixam perfeitamente em Leonardo, que sempre angaria simpatias e protetores. Além do mais, é o pícaro que usualmente narra, em primeira pessoa, suas aventuras, o que não ocorre com o volume de Manuel Antônio de Almeida, narrado em terceira pessoa, com passagens na 1ª pessoa do plural.

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A travessia de um malandro Filho de beliscões e pisadelas Em um único capítulo o autor narra as origens do herói. Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça, ambos portugueses, vieram para o Brasil e conheceram-se no navio. Leonardo assenta uma pisadela em Maria, que retribui com beliscões. Entre beliscões e pisadelas, a mulher vê-se grávida. Já no Rio, foram morar juntos e nasce, sete meses depois, um filho, (...) formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história.

O batizado de Leonardo Ao completar sete anos, Leonardo é descrito como um menino travesso, irrequieto e teimoso. Acresce que o pai, desconfiado da traição de Maria, trava com ela uma enorme discussão, culminando com a fuga da amante. Algum tempo depois, fica-se sabendo que Maria da Hortaliça retorna a Portugal em companhia de um capitão de navio. Como o pai não assumiu o menino e a mãe o havia abandonado, o compadre de Leonardo Pataca, padrinho do herói, passa a educá-lo. Barbeiro de profissão, com mais de cinquenta anos, solteiro e solitário, o padrinho afeiçoa-se muito ao afilhado, a ponto de perdoá-lo sempre e até mesmo contemporizar com benevolência as travessuras do moleque. Não foram poucas as malandragens de Leonardo. Ele fugia, embrenhava-se no meio de ciganos, atiçava os vizinhos, fazia enormes algazarras, desmanchava procissões, enfim, fazia tudo o que era possível fazer para infernizar a vida dos outros. No entanto, era simpático, alegre e, por isso, facilmente perdoado. Entra em cena a comadre, parteira de profissão e religiosa por convicção. Ambos – padrinho e madrinha – desejavam um grande futuro para o moleque. Ele queria fazer do afilhado um padre; ela, que aprendesse um ofício; mas o menino não tinha vocação nem para padre nem para artista. A única coisa que fazia, e muito bem, era vadiar. Como sempre acontece a quem tem muito onde escolher, o pequeno, a quem o padrinho queria fazer clérigo mandando-o a Coimbra, a quem a madrinha queria fazer artista metendo-o na Conceição, a quem D. Maria queria fazer rábula4 arranjando-o em algum cartório, e a quem enfim cada conhecido ou amigo queria dar um destino que julgava mais conveniente às inclinações que nele descobria, o pequeno, dizemos, tendo tantas coisas boas, escolheu a pior possível: nem foi para Coimbra, nem para a Conceição, nem para cartório algum; não fez nenhuma destas coisas, nem também outra qualquer: constituiu-se um completo vadio, vadio-mestre, vadio tipo. 4

rábula – advogado que usa de ardis e bravatas para enredar as questões.

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O padrinho desesperava com isso vinte vezes em cada dia por ver frustrado o seu belo sonho, porém não se animava mais a contrariar o afilhado, e deixava-o ir à sua vontade.

Enquanto Leonardo vai crescendo e traquinando, o narrador focaliza o pai. Após ser abandonado por Maria da Hortaliça, Leonardo Pataca chora por algum tempo a ausência da amante, mas logo se consola nos braços de uma cigana. Não contente, recorre à feitiçaria para poder conquistá-la e durante um ritual “místico” é preso pelo major Vidigal, astuto e poderoso policial que a todos fazia tremer. Só se livra da prisão graças à comadre, que resolve interceder junto a um tenente-coronel, velho conhecido seu, cujo filho havia seduzido Maria, a mãe de nosso herói. Quanto à cigana, ela era também amante de um clérigo, mestre de cerimônia da Igreja da Sé. A vingança do enciumado e preterido Leonardo Pataca é consumada quando, em uma briga na casa da cigana, o padre é apanhado pelo Vidigal. Mais para frente, já idoso, Leonardo Pataca torna-se mais bonachão; apertara-se em novos laços amorosos, desta vez com Chiquinha, filha da comadre. Amasiado, torna-se pai de uma menina mansa e risonha, em tudo diferente do irmão. Voltando à vida do herói, Dona Maria, louca por demandas, simpatiza com o malandro. “Já se vê que o menino não era dos mais infelizes, pois que, se tinha inimigos, achava também protetores por toda parte.” Dona Maria recebe a tutela de uma sobrinha, Luisinha, moça roceira que herdara cerca de mil cruzados. Por essa época Leonardo já deixara as estripulias de criança. Quando o compadre visitava a velha senhora, fato que ocorria com relativa frequência, Leonardo sempre o acompanhava “e fazia diabruras pela casa enquanto estava em idade disso, e depois que lhe perdeu o gosto, sentava-se em um canto e dormia de aborrecimento”. No entanto, nosso herói fica realmente perturbado ao conhecer Luisinha, uma moça roceira, feiosa, em tudo diferente das heroínas românticas. A cena que se deu quando Luisinha é apresentada aos dois é de profunda leveza e rara felicidade. Depois de mais algumas palavras trocadas entre os dois, D. Maria chamou por sua sobrinha, e esta apareceu. Leonardo lançou-lhe os olhos, e a custo conteve o riso. Era a sobrinha de D. Maria já muito desenvolvida, porém que, tendo perdido as graças de menina, ainda não tinha adquirido a beleza de moça: era alta, magra, pálida: andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira. Trajava nesse dia um vestido de chita roxa muito comprido, quase sem roda, e de cintura muito curta; tinha ao pescoço um lenço encarnado de Alcobaça. Por mais que o compadre a questionasse, apenas murmurou algumas frases ininteligíveis com voz rouca e sumida. Mal a deixaram livre, desapareceu sem olhar para ninguém. Vendo-a ir-se, Leonardo tornou a rir-se interiormente. Quando se retiraram, riu-se ele pelo caminho à sua vontade. O padrinho indagou a causa da sua hilaridade; respondeu-lhe que não se podia lembrar da menina sem rir-se. – Então lembras-te dela muito a miúdo, porque muito a miúdo te ris.

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Leonardo viu que esta observação era verdadeira. Durante alguns dias umas poucas de vezes falou na sobrinha da D. Maria; e apenas o padrinho lhe anunciou que teriam de fazer a visita do costume, sem saber porque, pulou de contente, e, ao contrário dos outros dias, foi o primeiro a vestir-se e dar-se por pronto. Saíram e encaminharam-se para o seu destino.

O apaixonado Leonardo E assim Leonardo se apaixona por Luisinha. Certo dia, quando iam, compadre e afilhado, à visita costumeira a dona Maria, encontraram lá o senhor José Manuel, velhaco de quilate, “crônica viva, porém crônica escandalosa, não só de todos os seus conhecidos e amigos, e das famílias destes, mas ainda dos conhecidos e amigos dos seus amigos e conhecidos e de suas famílias”. Como (...) D. Maria era, como dissemos, rica e velha; não tinha outro herdeiro senão sua sobrinha: se morresse D. Maria, Luisinha ficaria arranjada, e como era muito criança e mostrava ser muito simples, era uma esposa conveniente a qualquer esperto que se achasse, como José Manuel, em disponibilidade; este pois fazia a corte à velha com intenções na sobrinha. Quando Leonardo, esclarecido pela sagacidade do padrinho, entrou no conhecimento destas coisas, ficou fora de si, e a ideia mais pacífica que teve foi que podia mui bem, quando fosse visitar D. Maria, munir-se de uma das navalhas mais afiadas de seu padrinho, e na primeira ocasião oportuna fazer de um só golpe em dois o pescoço de José Manuel. Porém teve de aplacar-se e ceder às admoestações do padrinho, que sabia de todos os seus sentimentos, e que os aprovava.

Enciumado com a concorrência, Leonardo resolve declarar, bastante sem jeito, o seu amor. Entrementes, arma-se um plano para desbancar José Manuel. A comadre, como era excelente fofoqueira, soube de um caso em que o velhaco roubara a bolsa de dinheiro de uma moça e foi logo, ao pé do ouvido, contar para dona Maria. Assim, José Manuel cai no conceito da honesta velhota. Mas o pelintra não se deixa vencer e continua a abeirar-se da jovem, ou melhor, do dinheiro dela, com a ajuda de um mestre de rezas, um cego muito afamado como arranjador de casamentos. Enquanto isso, o padrinho morre, deixando considerável herança a Leonardo. (...) tratou-se de resolver uma importante questão: para a companhia de quem iria o Leonardo? A abertura do testamento feita nesse mesmo dia resolveu a questão. O compadre havia instituído a Leonardo por seu universal herdeiro. A comadre informou de semelhante coisa ao Leonardo Pataca, e este apresentou-se para tomar conta de seu filho. Não pareceu o rapaz muito satisfeito com a graça: não sei como veio-lhe à ideia aquele terrível pontapé que o fizera fugir de casa; além disso raríssimas vezes vira depois disso a seu pai, e estava completamente desacostumado dele. Não havia porém outro remédio; foi preciso obedecer e acompanhá-lo para casa, onde encontrou sua pequena irmã, e quem a pusera no mundo.

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Novas travessuras Herdeiro de um “bom par de mil cruzados”, passou a viver em companhia do pai, mas, em breve, começam as brigas entre Chiquinha e o enteado, culminando com o pai correndo atrás do rapaz com um espadim em punho. Eis que, na fuga, Leonardo encontra um colega de arruaças, ex-sacristão da Sé, com um bando de amigos. Ao vê-lo apurado, o malandro convida-o a reunir-se ao grupo. Foi assim que conheceu Vidinha, uma mulata de altura regular, dentes muito brancos, lábios grossos e úmidos, excelente cantora de modinhas. Imediatamente, encantou Leonardo. Quando o bando foi embora, Leonardo os acompanhou, hospedando-se na casa de Vidinha, em companhia do amigo Tomás da Sé. Enquanto Leonardo se envolve com Vidinha, José Manuel continua suas investidas para conquistar Luisinha, tratando, primeiro, de desfazer a fofoca maldosa. A madrinha, não podendo interceder em favor do afilhado, simplesmente retarda seus intentos. Preocupada com o sumiço do rapaz, passa a procurá-lo, encontrando-o após uma briga dele com um dos três primos de Vidinha. Confabularam a madrinha e as duas tias de Vidinha, ajeitaram-se as coisas e Leonardo continuou lá. Certo dia, foram a um piquenique e encontraram o major Vidigal, que prendeu o rapaz por vadiagem. Uma série de episódios dão sequência às articulações do enredo: como Leonardo havia abandonado Luisinha porque ficara encantado com a faceira Vidinha, José Manuel encontra terreno livre para seus intentos e aproveita-se de uma demanda para pedir a moça em casamento a dona Maria. Luisinha, sentindo-se traída, desolada e sem amor, aceita o velhaco como marido: Deixemos aos noivos o gozo tranquilo da sua lua de mel; deixemos D. Maria desfazer-se em carinhos e conselhos à sua sobrinha, que os recebia indiferentemente, e em atenções para com José Manuel, cuja cabeça se tinha tornado repentinamente uma aritmética completa, toda algarismos, toda cálculos, toda multiplicações; e voltemos a saber o que foi feito do Leonardo, a quem deixamos na ocasião em que fora arrancado pelo Vidigal dos braços do amor e da folia.

Enquanto é levado à prisão, Leonardo medita e encontra uma oportunidade de escapar, conseguindo retornar à casa de Vidinha. Na vida profissional de Vidigal, nunca malandro algum havia escapado de suas garras ou o desrespeitado daquela maneira. O major passa, por isso, a caçá-lo, nutrindo desejos de vingança pela humilhação sofrida e pelo escárnio com que os granadeiros o haviam tratado. A comadre, para amainar a ira do major, arranja um emprego para o afilhado na ucharia5 real. Alguns incidentes acontecem. Primeiro, Leonardo começa a encher de mantimentos a despensa de Vidinha, mantimentos esses roubados da despensa real. Segundo, resolve ir à casa do toma-largura6 quando o homem lá não estava, para entregar um “caldo” à mulher dele como pretexto para namorá-la; 5 6

ucharia – depósito de mantimentos, despensa. toma-largura – talaveira, criado do Paço.

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no entanto o toma-largura chega no momento exato, surpreendendo os dois em atitude suspeita. Leonardo é perseguido e precisa fugir. No outro dia, nosso herói é despedido. O caso se espalha; Vidinha, enciumada e furiosa, vai tomar satisfações com a moça do caldo e desfeitear o toma-largura. Acontece, porém, que o homem gostou da mulata e passou a cortejá-la. Leonardo, que havia seguido a amante até a porta da ucharia, não conseguiu entrar porque Vidigal enfim o apanhou, transformando-o em granadeiro. Satisfaçamos agora em poucas palavras a curiosidade que têm sem dúvida os leitores de saber o como chegara o Leonardo à posição em que se achava. Agarrado pelo major na porta da ucharia, como se sabe, fora por ele em pessoa conduzido a lugar seguro, donde só saíra para sentar praça no Regimento Novo. Todos os batalhões que havia na cidade tinham uma companhia de granadeiros, e havendo uma vaga na companhia do Regimento Novo, fora o Leonardo escolhido para preenchê-la. Sabendo disto o major, reclamou-o para seu serviço (porque era dessas companhias de granadeiros que se tiravam soldados para o serviço policial), pois como homem experimentado naquelas coisas, pressentira que ele lhe seria um valioso auxiliar. Até um certo ponto o major não se enganou. Com efeito o Leonardo, sendo naturalmente astuto, e então até ali vivido numa rica escola de vadiação e peraltismo, deveria conhecer todas as manhas do ofício. Havia porém uma circunstância que o impedia de prestar bons serviços, e era que com ele próprio, com suas próprias façanhas, tinha muitas vezes o major de gastar o tempo que lhe era preciso para o demais. (...)

Um final feliz As diabruras de Leonardo continuam, e tantas faz que acaba novamente sendo levado à prisão, somente conseguindo a liberdade com a ajuda da madrinha, que desencavou uma antiga namorada do major, para poder interceder pelo afilhado. Acresce que José Manuel morre, Luisinha, viúva, reencontra Leonardo e reatam o antigo namoro. Como Leonardo era sargento de linha, não podia se casar, mas “podia ficar ele soldado e casar, dando baixa na tropa de linha, e passando-se no mesmo posto para as Milícias”. Em poucas linhas, o autor encerra a história com uma sequência rápida dos fatos. Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de Dona Maria, a do Leonardo Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui o ponto-final.

Considerações finais Memórias de um sargento de milícias é um dos mais excêntricos romances do século XIX, o primeiro na Literatura Brasileira a focalizar camadas populares com cenas reais em que a narrativa escapa da visão rósea do Romantismo. As personagens são o que são, não idealizadas e, portanto, não são seres viventes em 44 04_memo-sargento.indd 44

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um mundo estandartizado, dividido entre o Bem e o Mal. Foi Manuel Antônio de Almeida o escritor que insuflou gotas de humor, abandonou a sofisticação das construções linguísticas, aproximando sua obra de um linguajar oral; descontraído, em estilo de “conversa com o leitor”, tal como hoje fazem os cronistas de jornal. E, principalmente, arquitetou o estilo “malandro” de ser, uma malandragem alegre, versátil, inteligente, característica de certos tipos brasileiros, que, dialeticamente, oscilam entre dois universos antagônicos, a ordem (o casamento, a religião, a milícia) e a desordem (a vida desregrada, a corrupção da Igreja, as algazarras populares). A propósito, vale lembrar que o crítico Antonio Candido, no ensaio “A dialética da malandragem”, classifica a novela como um exemplar romântico, mas de um Romantismo diferente dos padrões usuais. Textos extraídos de: Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Núcleo, 2011.

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Memรณrias pรณstumas de Brรกs Cubas Machado de Assis

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Um divisor de águas Em 1880, a Revista Brasileira publica, entre março e dezembro, os capítulos do quinto romance de Machado de Assis. No ano seguinte, sai publicado, pela Tipografia Nacional, Memórias póstumas de Brás Cubas. A obra é considerada a divisora de águas não só da literatura brasileira – marcando o início da estética realista – como também da literatura machadiana, pois estabelece a ruptura do escritor com os padrões que o norteavam até então, muito embora já estivesse esboçando modificações na visão de mundo e na técnica de escrever desde laiá Garcia, volume de 1878. Machado de Assis estabelece uma série de rupturas alicerçadas em dois pontos fundamentais: ele quebra a linearidade da narrativa tradicional e desloca o interesse do enredo para a personagem. Ao optar por uma lógica independente da cronologia, o narrador permite que o leitor faça com ele uma viagem descontínua através dos tempos, sem que se perca o rumo dos acontecimentos, possibilitando a inserção de cuidadosas reflexões em qualquer um dos capítulos da obra, ou permitindo a condução dos acontecimentos sem ficar à mercê da necessidade de encadear os assuntos um após outro. Porém, a grande ruptura ocorre na preferência do autor não pelo enredo, mas pela caracterização das personagens, analisadas por meio de seus aspectos comportamentais, isto é, por meio da postura que assumem diante dos acontecimentos e da sociedade em que vivem. Essa caracterização psicológica constitui uma das maiores contribuições de Machado para a literatura do Brasil. É por meio da análise das personagens que o escritor documenta a sua época e a sociedade em que vive, lembrando que Machado jamais revela outra sociedade que não as camadas mais privilegiadas do Rio de Janeiro e só registra o que pode captar pela observação. Brás Cubas, por exemplo, nasce em 1805, no Rio de Janeiro, e aí morre em 1869. Em um compasso histórico são referidos acontecimentos que se passam e evoluem a partir do Rio de D. João, da Independência, do Primeiro Reinado, da Regência, do Segundo Reinado, dos partidos políticos, das ideias liberais e conservadoras. Assim, o leitor conhece a necessidade que esse homem tem de adaptar-se à sua época e de sobressair nela para poder ter seu nome na história. Por isso, se faz necessário perseguir o dinheiro e o poder, e buscar a ascensão social. Embora a crítica feita pelo escritor seja ferrenha, Machado sabe camuflá-la, permeando-a com aparente isenção e vazando-a com ironia e cinismo. O julgamento que se pode fazer dos acontecimentos sai do leitor a partir de suas posições morais e de valores defendidos. A elite social detém o poder e o dinheiro. Em torno dela existem aqueles que estão sob seu domínio: o escravo, como posse, e o pequeno capitalista, que já surge no meio urbano. O Brasil retratado é essencialmente agrário e vive de Fuvest/Unicamp 05_memo-postumas.indd 49

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exportar matérias-primas e importar manufaturados, desde tecidos e adornos até revistas, livros e espetáculos culturais. Enfim, um país de contrastes. Engana-se, porém, quem vê Machado de Assis circunscrito à sua época. Ele é capaz de desenhar um homem universal, com suas dúvidas, suas excentricidades, seu egoísmo, seu ceticismo, sua melancolia e suas necessidades. Um homem que pode ser encontrado no transcorrer dos séculos, pois, na essência, ele é o mesmo.

O morto e o mundo A obra é narrada em primeira pessoa, por um morto que oniscientemente se propõe a analisar a si e aos outros. Sabe-se que um romance em primeira pessoa é parcial e o leitor só conhece a realidade sob a óptica do narrador-personagem. No entanto, pelo fato de ser um romance retrospectivo e dada a posição do narrador-morto, observa-se a onisciência, por exemplo, na referência aos pensamentos de personagens, bem como na forma de manipulá-los a seu bel-prazer. O primeiro interesse do leitor, só satisfeito integralmente no último capítulo, é saber por que um morto resolve escrever suas memórias. Brás Cubas, durante sua vida, demonstrando vaidade incomum, perseguiu a imortalidade. Segundo ele, várias são as formas para atingi-la: por meio do casamento e dos filhos, por meio da política ou por meio de contribuições científicas. Confessa que não foi casado, não teve filhos, não foi político, e sua tentativa de registrar seu nome nos anais da ciência havia morrido com ele – o emplasto. Corroído pelo pessimismo, cético por excelência, Brás Cubas tenta articular uma vingança contra a sociedade e, ao mesmo tempo, numa derradeira tentativa, procura imortalizar-se escrevendo um livro póstumo. Não há dúvida de que Brás Cubas é a encarnação de profundas mudanças sofridas por Machado. Em 1878, receoso de estar sofrendo um mal incurável, o autor faz um retiro em Friburgo. Provavelmente aí iniciou uma revisão de seus valores morais e estéticos, os quais deixaria vir à tona, moldando-os na visão de mundo de Brás Cubas. O leitor, logo de início, encontra uma inesperada dedicatória: “ao verme que primeiro roeu as frias carnes” de um cadáver. Em seguida vem a explicação: um defunto-autor “para quem a campa foi outro berço”, para quem a morte significou o início de uma nova atividade, a de escritor. Consciente da renovação iniciada, ironicamente afirma que começar de forma diferente – do fim para o começo – deixaria o “escrito mais galante e mais novo”, menos vulgar, menos romântico. Com falsa humildade, parafraseando Stendhal1, conduz os “talvez cinco leitores” pelas memórias marcadas pelo trinômio pessimismo-humor-ironia. 1 Stendhal – pseudônimo de Henry Beyle (1783-1852), romancista francês; escreveu O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma, suas obras mais famosas.

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Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa2 e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio3. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente4 extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

O narrador relata seu enterro com a frieza do morto, sem deixar de confessar, embora veladamente, que não passa de um fracasso. Basta verificar que ao seu enterro compareceram onze pessoas, prova de sua insignificância, que ele procurou minimizar alegando a falta de anúncio e o dia chuvoso, provas incontestáveis de uma “mentira” para satisfazer a vaidade de seu ego. Para não dar mais tempo à autopiedade e já com vistas nos passos futuros, o narrador apresenta alguns de seus traços caracterizadores – “sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro e possuía cerca de trezentos contos” – e introduz o tempo e o espaço – “mês de agosto de 1869” na “bela chácara de Catumbi”, onde encontrou a morte. É no capítulo inicial que definitivamente rompe com a visão idealizadora da personagem romântica, ao mostrar seu profundo apego aos bens materiais, sobretudo ao dinheiro, que tudo paga e tudo compra, inclusive a gratidão do “bom e fiel amigo” que, na derradeira homenagem, articula um pomposo discurso, irmanando sentimento e natureza, numa crítica às efusões sentimentais do Romantismo. Duas são as preocupações do protagonista: a primeira é tornar a obra tanto mais próxima da realidade quanto da veracidade dos acontecimentos, de modo a envolver o leitor na verossimilhança; daí relatar com lucidez, precisão e lógica até mesmo o delírio que antecedeu sua morte. A segunda, leva-o a desenhar sua genealogia, enaltecendo e valorizando uma ascendência certamente menos nobre que endinheirada, mas ansiosa de tradição e notoriedade, reafirmando, ao leitor, o profundo apego de Brás Cubas aos bens mundanos e à tradição.

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galhofa – zombaria, brincadeira. conúbio – aliança, ligação. nimiamente – exageradamente.

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Mas é necessário estabelecer um fio narrativo e, depois de apresentar-se defunto, identificar-se como membro de uma sociedade viciada, colocar pitadas de suspense em torno de alguns vultos que serão retomados mais adiante; volta-se, num salto temporal, à infância para começar seu relato de forma quase cronológica. Recuperar e analisar as personagens que, de uma forma ou de outra, contribuíram para a formação de sua personalidade é a principal tarefa a que se impôs. No entanto, antes de passar aos acontecimentos que marcaram sua vida, em um capítulo denominado “O delírio” (capítulo VII), o narrador passa a revelar, de forma plenamente lógica, as contradições e os pesadelos que advêm da contemplação dos tempos, percorrendo, em uma viagem através dos séculos, do mais longínquo passado ao mais distante futuro. (...) Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. (...)

Nesse capítulo, o narrador conversa com Pandora5, em um diálogo cujo conteúdo estará na base da construção narrativa e de uma alegoria da humanidade; a força e a indiferença de sua fala, a vontade de viver e a ânsia de poder constituem a essência do homem. (...) Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio. – Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga. Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas. – Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo. – Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência. – Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver. 5 Pandora – na mitologia clássica, é a primeira mulher, e seu nome significa “aquela que tem todos os dons”. Cada deus lhe atribuiu um dom, mas Zeus destinou-a à punição da raça humana. Enviou Pandora a Epimeteu, mandando-lhe de presente um vaso tampado. Assim que chegou à terra, Pandora, movida por imensa curiosidade, destampou o vaso, libertando os males que ali estavam aprisionados e eles se espalharam pela humanidade. Só restou no fundo do vaso a esperança, que não conseguiu sair a tempo, pois logo Pandora repôs a tampa em seu lugar. Assim, os homens ficaram condenados a sofrer eternamente todos os tipos de males.

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No capítulo IX, “Transição”, o narrador dá um salto e retorna à infância, iniciando a exposição quase linear dos acontecimentos, mas não se esquecendo das digressões e reflexões dos mais diferentes tipos, tanto filosóficas quanto psicológicas. E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão-pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método. Na verdade, era tempo. Que isto de método, sendo, como é, uma coisa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteirão. É como a eloquência, que há uma genuína e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha. Vamos ao dia 20 de outubro.

A partir daí, a narrativa começa a ter uma certa ordem cronológica. Menino bem-nascido, Brás Cubas é criado cheio de mimos e momos. O narrador salta os tempos escolares e passa à adolescência, relatando seu caso amoroso com a espanhola Marcela, prostituta sem pudores que representa outra grande quebra em relação a modelos românticos. (...) Era boa moça, lépida6, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas7; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes.

Encontram-se pela primeira vez logo após a Independência. Contava ele 17 anos. Mas o pai, percebendo os gastos do rapaz com o namoro, resolve mandá-lo estudar na Europa e, dessa forma, esquecer Marcela. O resumo da relação amorosa está em uma das mais célebres passagens da obra: ... Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.

Retorna por ocasião da morte da mãe. Ainda abalado, passa a viver em retiro. Quem o tira desse estado de apatia é o pai, ao lhe propor o casamento com Virgília, filha do Conselheiro Dutra, homem de grande influência política. Aceitando o casamento, junto viria a Câmara dos Deputados. Antes, porém, de retornar à vida na Corte, Brás Cubas enamora-se da filha de D. Eusébia: (...) Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa!

Chamava-se Eugênia, que ironicamente significa “bem-nascida”. Por preconceito, foge da moça e volta à cidade. Finalmente, vai à casa do Conselheiro Dutra.

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lépida – ágil, esperta. estouvamentos e berlindas – atitudes e comportamentos reprováveis.

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(...) Era uma pérola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males públicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era legítima; convinha, porém, esperar alguns meses. E logo me apresentou à mulher, – uma estimável senhora, – e à filha, que não desmentiu em nada o panegírico8 de meu pai. (...)

Depois de um mês, ele e Virgília estavam íntimos. Enquanto isso, faz um parênteses e conta que certo dia, entrando em uma loja, reencontra Marcela, com o rosto amarelo e bexiguento, que nada lembrava a beleza e a opulência de outrora. Retorna ao namoro com Virgília para narrar algo surpreendente, em um capítulo saboroso em que compara metaforicamente a audácia da águia com a beleza do pavão. Então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve a menor violência de família. Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi; tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro. – Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um ano. Virgília replicou: – Promete que algum dia me fará baronesa? – Marquesa, porque eu serei marquês. Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma. O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.

Morre-lhe o pai, seguem-se a partilha da herança, discussões com a irmã (Sabina) e o cunhado (Cotrim). Começa a viver reclusamente: (...) indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a maior parte do tempo passei-a comigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias, ora buliçoso9, ora apático, entre a ambição e o desânimo. Escrevia política e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas públicas, e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta. Quando me lembrava do Lobo Neves, que era já deputado, e de Virgília, futura marquesa, perguntava a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves, – eu, que valia mais, muito mais do que ele, – e dizia isto a olhar para a ponta do nariz…

Após permanecer algum tempo fora do Rio, Virgília volta. Os dois se reencontram em um baile: (...) em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos. 8 9

panegírico – elogio. buliçoso – agitado, ativo, esperto.

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A valsa é uma deliciosa coisa. Valsamos; não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.

Cerca de três semanas depois, Brás Cubas recebe um convite de Lobo Neves, marido de Virgília, para uma reunião íntima. O reencontro com a antiga namorada foi promissor: desta vez os dois valsam novamente, mas com apertos de mãos e abraços mais fortes. Brota em ambos uma profunda atração, o que faz Brás Cubas cogitar: Mas, com a breca! quem me explicará a razão desta diferença? Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-lo e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a vê-la, damos três ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delírio. A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa diferença?

Engatilhado o caso amoroso, o adultério é consumado em um capítulo extremamente sugestivo, denominado “O velho diálogo de Adão e Eva”, feito com pontinhos. A partir daí, Brás Cubas põe-se a narrar o encontro com Quincas Borba. Antigo colega de escola, vive uma vida de misérias e privações. É pedinte de rua, mora no terceiro degrau das escadas de São Francisco e furta o relógio de Brás Cubas. Enquanto pobre, o narrador faz questão de mantê-lo à distância, esquecendo-se do caso, desviando o pensamento para outras coisas, demonstrando o seu descaso pela miséria humana. Somente depois, Brás Cubas aproximou-se de Quincas Borba. Adiante, o narrador começa a encontrar problemas no relacionamento com a amante. Virgília acredita que o marido desconfia de alguma coisa, pois já não a trata da mesma maneira. Brás Cubas tenta convencê-la a fugir, para qualquer parte do mundo onde pudessem viver em paz, mas a moça recusa-se. Propõe então que aluguem uma casa, convidando, para tomar conta dela e encobrir os encontros, uma antiga criada de Virgília, D. Plácida, que inicialmente rejeita a ideia de servir ao casal, mas, ao cabo de seis meses, alivia a consciência com algumas histórias patéticas inventadas por Brás Cubas. Este não lhe é ingrato e lhe oferta cinco contos de réis (quantia que encontrara perdida em uma praia deserta). Os amantes vivem tranquilos por alguns meses. Só têm a felicidade abalada com a notícia de que Lobo Neves seria nomeado presidente de província. Brás Cubas pensa que o caso está chegando ao final, mas Lobo Neves necessita de um secretário e o convida para o cargo. Quem o dissuade é o cunhado Cotrim, alegando que a viagem é perigosa, pois todos sabem das suas ligações adúlteras. No entanto, Lobo Neves, supersticioso, recusa a nomeação, pois o decreto trazia a data de 13. Sucedem-se episódios importantes, como uma carta anônima denunciando as intimidades de Brás Cubas, a gravidez de Virgília e a profunda decepção do narrador com o aborto daquele que teria sido seu filho; e, finalmente, uma carta surpreendente de Quincas Borba, herdeiro de grande fortuna de um parente mineiro de Barbacena. Fuvest/Unicamp 05_memo-postumas.indd 55

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Uma carta extraordinária Por esse tempo recebi uma carta extraordinária, acompanhada de um objeto não menos extraordinário. Eis o que a carta dizia: “Meu caro Brás Cubas, Há tempos, no Passeio Público, tomei-lhe de empréstimo um relógio. Tenho a satisfação de restituir-lho com esta carta. A diferença é que não é o mesmo, porém outro, não digo superior, mas igual ao primeiro. Que voulez-vous, monseigneur? – como dizia Fígaro, – c’est la misère10. Muitas coisas se deram depois do nosso encontro; irei contá-las pelo miúdo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago aquelas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da escada de S. Francisco; finalmente, almoço. Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe um trabalho, fruto de longo estudo, um novo sistema de filosofia, que não só explica e descreve a origem e a consumação das coisas, como faz dar um grande passo adiante de Zenon11 e Sêneca12, cujo estoicismo era um verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente espantoso esse meu sistema; retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória o nosso país. Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas, princípio das coisas. Minha primeira ideia revelava uma grande enfatuação13; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia menos. Verá, meu caro Brás Cubas, verá que é deveras um monumento; e se alguma coisa há que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida, é o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade. Ei-las na minha mão, essas duas esquivas; após tantos séculos de lutas, pesquisas, descobertas, sistemas e quedas, ei-las nas mãos do homem. Até breve, meu caro Brás Cubas. Saudades do Velho amigo Joaquim Borba dos Santos.” Li esta carta sem entendê-la. Vinha com ela uma boceta contendo um bonito relógio com as minhas iniciais gravadas, e esta frase: Lembrança do velho Quincas. Voltei à carta, reli-a com pausa, com atenção. A restituição do relógio excluía toda a ideia de burla; a lucidez, a serenidade, a convicção, – um pouco jactanciosa14, é certo, – pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; há coisas que se não podem reaver integralmente; mas enfim a regeneração não era impossível. Guardei a carta e o relógio, e esperei a filosofia.

10 Que voulez-vous, monseigneur? c’est la misère – “O que vós quereis, senhor? é a miséria”. Fígaro, personagem criado pelo teatrólogo francês Beaumarchais (1732-1799), é um humilde barbeiro que tudo faz para sobreviver. 11 Zenon – Zenon de Cício (c. 335-263 a.C.), filósofo grego, fundador do estoicismo. A virtude era, para ele, a meta final da vida; dor e prazer não possuíam nenhuma importância: diante deles, o homem deveria permanecer impassível. 12 Sêneca – Lucius Annaeus Seneca (c. 4 a.C.-65), filósofo, escritor e político romano, grande entusiasta e divulgador do estoicismo. 13 enfatuação – soberba, vaidade. 14 jactanciosa – arrogante.

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Cotrim e Sabina armam o casamento de Brás Cubas com uma parenta afastada, recém-chegada à corte: (...) uma D. Eulália, ou mais familiarmente Nhã-loló, moça graciosa, um tanto acanhada a princípio, mas só a princípio. Faltava-lhe elegância, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim, exceto quando desciam ao prato; mas Nhã-loló comia tão pouco, que quase não olhava para o prato. (...)

Brás Cubas esquiva-se, mas torna a encontrar Virgília: (...) Ao pé da graciosa donzela, parecia-me tomado de uma sensação dupla e indefinível. Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal15, l’ange et la bête, com a diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas aí estavam bem juntinhas, – l’ange, que dizia algumas coisas do céu, – e la bête, que…

Entrementes três coisas acontecem. A primeira é a suspeita (praticamente certeza) do adultério por parte de Lobo Neves. Ele vai à casa de D. Plácida e quase pega os amantes em delito. A segunda é o reaparecimento de Quincas Borba, que veio ter com Brás Cubas, a fim de expor sua teoria filosófica. A terceira é a nova nomeação de Lobo Neves para presidente de província. Brás Cubas agarra-se à esperança de outra recusa. (...) se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém, a data de 31, e esta simples transposição de algarismos eliminou deles a substância diabólica. Que profundas que são as molas da vida!

Virgília parte com o marido. No capítulo CXV, Brás Cubas mostra a “dor” da separação e analisa com muita propriedade a forma de encarar o amor de uma personagem realista, distanciando-se do fatalismo romântico. Não a vi partir; mas à hora marcada senti alguma coisa que não era dor nem prazer, uma coisa mista, alívio e saudade, tudo misturado, em iguais doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lágrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biográfico. A realidade pura é que eu almocei, como nos demais dias, acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura, e ao estômago com os acepipes16 de M. Prudhon...

Inicialmente, Brás Cubas sente o gosto da viuvez, mas duas forças o compelem a voltar à vida agitada de costume. Uma – Sabina – que com empenho armava o casamento do irmão com Nhã-loló. Outra – Quincas Borba – que finalmente expõe ao narrador a teoria do Humanitismo, sistema filosófico criado por ele e destinado a substituir todos os demais, cujos fundamentos estão transcritos no capítulo CXVII. 15 Pascal – Blaise Pascal (1623-1662), matemático, físico, teólogo e escritor francês. Inventou, em 1647, a máquina de calcular; como escritor, tornou-se célebre com a obra Pensamentos, publicada postumamente em 1669. 16 acepipes – petiscos.

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Entre o queijo e o café, demonstrou-me Quincas Borba que o seu sistema era a destruição da dor. A dor, segundo o Humanitismo, é uma pura ilusão. Quando a criança é ameaçada por um pau, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposição é que constitui a base da ilusão humana, herdada e transmitida. Não basta certamente a adoção do sistema para acabar logo com a dor, mas é indispensável; o resto é a natural evolução das coisas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que ele é o próprio Humanitas, não tem mais do que remontar o pensamento à substância original para obstar qualquer sensação dolorosa. A evolução, porém, é tão profunda, que mal se lhe podem assinar alguns milhares de anos. Quincas Borba leu-me daí a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de cem páginas cada um, com letra miúda e citações latinas. O último volume compunha-se de um tratado político, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do sistema, posto que concebida com um formidável rigor de lógica. Reorganizada a sociedade pelo método dele, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anônima, a miséria, a fome, as doenças; mas sendo esses supostos flagelos verdadeiros equívocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substância interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existência não impediria a felicidade humana. Mas ainda quando tais flagelos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro à concepção acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destruído o sistema, e por dois motivos: 1º porque sendo Humanitas a substância criadora e absoluta, cada indivíduo deveria achar a maior delícia do mundo em sacrificar-se ao princípio de que descende; 2º porque, ainda assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu recreio dele, como as estrelas, as brisas, as tâmaras e o ruibarbo. Pangloss17, dizia-me ele ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire.

Aos quarenta anos surge a possibilidade de casamento com Nhã-loló. Resolve o narrador procurar o cunhado, para expor-lhe seu desejo matrimonial, principalmente por amar a harmonia familiar. Mas não chega a se casar, pois a jovem morre aos dezenove anos de idade. (...) Ficam sabendo que morreu; acrescentarei que foi por ocasião da primeira entrada da febre amarela. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até o último jazigo, e me despedi triste, mas sem lágrimas. Concluí que talvez não a amasse deveras. (...) não cheguei a entender a necessidade da epidemia, menos ainda daquela morte. Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes. Quincas Borba, porém, explicou-me que epidemias eram úteis à espécie, embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos; fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espetáculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivência do maior número. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado às garras da peste; mas esta pergunta era tão insensata, que ficou sem resposta.

17 Pangloss – personagem de Cândido, romance satírico de Voltaire, pseudônimo de François-Marie Arouet, escritor francês (1694-1778). Pangloss é um otimista inveterado, para quem tudo está pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis.

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Brás Cubas, aos cinquenta anos, reencontra Virgília. Foi num baile em 1855. (...) Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul, e ostentava às luzes o mesmo par de ombros de outro tempo. Não era a frescura da primeira idade; ao contrário; mas ainda estava formosa, de uma formosura outoniça, realçada pela noite. Lembra-me que falamos muito, sem aludir a coisa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou então um olhar, e mais nada. Pouco depois retirou-se; eu fui vê-la descer as escadas, e não sei por que fenômeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os filósofos essa frase bárbara) murmurei comigo esta palavra profundamente retrospectiva: – Magnífica!

Mais uma vez Brás Cubas tenta a carreira política, mas ela novamente lhe escapa. Não consegue ser ministro. Por esta altura, recebe um bilhete de Virgília, pedindo-lhe para socorrer D. Plácida, que estava muito mal. Ela havia perdido todo o dinheiro que lhe dera Brás Cubas. Um carteiro, fingindo-se enamorado, casara-se com ela; no final de alguns meses, inventou um negócio e fugiu com todas as posses da mulher. Brás Cubas dá-lhe algum dinheiro e a interna na Misericórdia, onde ela morre uma semana depois. Quincas Borba ainda não publicara seu livro contendo a teoria filosófica do Humanitismo. A aplicação política da teoria seria a base de um programa jornalístico assinado por Brás Cubas. Publicado o jornal oposicionista: (...) Vinte e quatro horas depois, aparecia em outros uma declaração do Cotrim, dizendo, em substância, que “posto não militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a pátria, achava conveniente deixar bem claro que não tinha influência nem parte direta ou indireta na folha de seu cunhado, o Dr. Brás Cubas, cujas ideias e procedimento político inteiramente reprovava. O atual ministério (como aliás qualquer outro composto de iguais capacidades) parecia-lhe destinado a promover a felicidade pública”.

As relações do narrador com os parentes, que até então foram amistosas, acabam rompidas. Mas o jornal de Brás Cubas morre; morre também Lobo Neves: (...) com o pé na escada ministerial. Correu, ao menos durante algumas semanas, que ele ia ser ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não é impossível que a notícia da morte me deixasse alguma tranquilidade, alívio, e um ou dois minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade; juro aos séculos que é a pura verdade. Fui ao enterro. Na sala mortuária achei Virgília, ao pé do féretro, a soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o enterro, abraçou-se ao caixão, aflita; vieram tirá-la e levá-la para dentro. Digo-vos que as lágrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemitério; e, para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra na garganta ou na consciência. (...)

Seguem-se a reconciliação com o cunhado e o reencontro com Marcela, que o narrador viu morrer pobremente; ainda mais deprimente foi constatar a miséria em que vivia Eugênia “tão coxa como a deixara, e ainda mais triste”. Fuvest/Unicamp 05_memo-postumas.indd 59

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Brás Cubas testemunha a semidemência e a morte do filósofo Quincas Borba, para finalmente narrar, com pessimismo e melancolia, seu último capítulo, em que, de negativas, consegue extrair um saldo positivo no balanço de sua própria vida. Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do céu. O acaso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos. Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

Considerações finais Ao final de seu último capítulo, Brás Cubas melancolicamente chega a um saldo positivo para sua vida: não teve filhos. Por que não quis transmitir o legado da miséria humana? Desde que Pandora anunciou que a humanidade era governada pelas leis do egoísmo e da autopreservação, o discurso da personagem-narrador de Memórias póstumas de Brás Cubas tenta provar com lucidez que a vida humana se esvai em cada trecho percorrido, massacrada pelas veleidades. O que se leva ao outro lado do mistério? Somente reflexões marcadas pelo ceticismo irônico e pessimismo melancólico que perpassam as falsidades das relações humanas, marcadas pelas traições e valores relativamente frágeis; enfim, um legado nada digno de orgulho. Textos extraídos de: Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Núcleo, 2012.

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NATURALISMO

O cortiço Aluísio Azevedo

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Sob a ótica do Realismo Os movimentos realista e naturalista chegaram ao Brasil com relativo atraso, deixando suas marcas em nossa literatura somente a partir da década de 1880. Na Europa, o Romantismo há muito havia deixado lugar para as ideias novas. Divulgadas a partir de 1850, tais ideias eram voltadas para o estudo e a compreensão da filosofia positivista de Auguste Comte1, para entendimento e aplicação das teorias da seleção natural e das influências exercidas pelo meio na formação do indivíduo, conforme as teorias de Darwin2 e de Taine3. Começaram a ser pensadas e divulgadas as doutrinas sociais que procuravam explicar o comportamento e a situação das populações de camadas menos privilegiadas que se formavam nas cidades e que cresciam em ritmo acelerado, devido ao grande surto industrial, ao mesmo tempo em que se questionavam conceitos como justiça, classe social, economia, entre outros temas. Não que a pobreza estivesse aumentando substancialmente e a situação fosse muito pior que no passado. O que se configurava era uma nova realidade urbana até então desconhecida. Ao invés de se espalharem pelos campos, os pobres e miseráveis aglomeravam-se nas cidades, produzindo um efeito de proximidade quase desconhecido dos meios intelectuais. O Romantismo idealizara o campo por estar distante dele; acreditara na natureza, contemplando-a e fazendo dela a confidente de suas convulsões sentimentais. Também propusera temas voltados para o social, acusando governos de práticas políticas indesejáveis, mas associando ao proselitismo político soluções fáceis e rápidas, de modo a não melindrar o público leitor e manter a auréola de perfeição que os românticos almejavam. A realidade que agora se afigura é por demais forte para um escritor contemplá-la com a mesma idealização romântica. Pela proximidade das transformações, urgia uma nova postura, mais áspera, mais direta, que criticava o que havia para ser criticado. A realidade é para ser vista de frente e ser denunciada em toda sua extensão. Em 1857, espelhando o confronto moral entre dois mundos – o romântico e o realista – foi publicado, na França, Madame Bovary, o marco realista de Flaubert4. 1 Auguste Comte – Isidore Auguste Marie François Xavier Comte (1798-1857). Nasceu em Montpellier, na França, e aos 16 anos já ingressava na Escola Politécnica de Paris. Fundador do positivismo, escola filosófica de larga influência no Brasil. 2 Darwin – Charles Robert Darwin (1809-1882), célebre naturalista inglês. Fez parte de uma expedição às costas da América do Sul (1831-1836), reunindo os primeiros materiais da sua obra Da origem das espécies por via da seleção natural (1859). 3 Taine – Hippolyte Adolphe Taine (1828-1893). Escritor, crítico e filósofo francês. Foi o mais expressivo teórico do Naturalismo, influenciando de forma decisiva no desenvolvimento de toda a literatura de sua época. 4 Flaubert – Gustave Flaubert (1821-1880). Um dos maiores nomes da literatura francesa, artista de rara perfeição técnica, caracterizado pela escolha da palavra exata que melhor traduzisse seu pensamento. Retratista de costumes, em sua obra mais difundida, Madame Bovary, traça um perfil fiel da vida burguesa.

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No Brasil, José de Alencar levava ao público neste mesmo ano O guarani, concebido dentro dos padrões mais fiéis do Romantismo, que ainda tinha longo caminho a percorrer entre os leitores brasileiros. Foram necessárias mais de duas décadas para as novas concepções chegarem ao Brasil, assim mesmo, via Portugal. Causando impacto em boa parte do meio intelectual brasileiro, fascinado pela prosa vigorosa, o estilo insinuante e a moral desgarrada, finalmente chegam ao Brasil os romances de Eça de Queirós. Lembremos que O crime do padre Amaro é de 1876 e O primo Basílio é de 1878. Se as obras exportadas do além-Atlântico estarreceram os pacatos leitores da antiga colônia, é certo que também deixaram admiradores e discípulos e, dentre eles, o mais ilustre é sem dúvida Aluísio Azevedo. O escritor maranhense, de um só fôlego, redige e publica em 1881 O mulato, balanceando características da nova estética com os remanescentes da escola anterior. Essa obra constituiu uma verdadeira bomba de efeito destruidor, detonada em meio a uma comunidade que se viu retratada em boa parte das cenas de denúncia à sociedade e ao clero. Foram tantas as críticas, foram tão pujantes os ataques, que incompatibilizaram o autor com sua terra natal. Para prosseguir em suas andanças literárias, Aluísio Azevedo precisou renunciar ao Maranhão, seguindo para o Rio de Janeiro, a convite do irmão Artur Azevedo. O Naturalismo ganhava seu primeiro grande seguidor entre nós. Não se deve esquecer que, no mesmo ano de O mulato, Machado de Assis publicava Memórias póstumas de Brás Cubas, revigorando a prosa de ficção brasileira e marcando o início do chamado Realismo. Entre nós, as duas correntes estão muito próximas temporal e tematicamente. Voltemos a Aluísio. Já no Rio, pretendendo estudar as características da vida urbana então em plena expansão, redigiu seu segundo grande romance, publicado em folhetins em 1883. Casa de pensão nasceu da excelência do observador, que se sentia deslumbrado por populações, e procurava captar a psicologia social e não a individual. Ao se voltar para o trabalho da vida em coletividade, Aluísio Azevedo iniciava uma linha até então desconhecida do romance brasileiro – o romance social. Nas vidas que se cruzam em Casa de pensão, o romancista tornou muito reais e brasileiros os conglomerados humanos. Estavam abertos os caminhos para O cortiço, o melhor de seus romances, que veio a público em 1890. Nesse intervalo, o autor procurou manter vivo o ideal de sobreviver com literatura. Escreveu produção folhetinesca com que pretendia angariar as simpatias do público.

Subterrâneos da sociedade Para produzir O cortiço, Aluísio Azevedo ateve-se à observação de dois ambientes: a habitação coletiva e o sobrado, representando do baixo para o alto os extremos sociais do Rio de Janeiro do século XIX. A apresentação desses dois am64 06_o-cortico.indd 64

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bientes nasce no primeiro capítulo e vai ganhando corpo até dominar quase todas as situações. O cortiço – representado pela linha horizontal – tem vida própria e seu colorido confunde-se com o personagem João Romão, tornando-se o ponto culminante da obra, daí ser o título escolhido pelo autor. Por outro lado, o sobrado – espelhado na linha vertical – torna-se um monumento, símbolo do ápice, ou seja, do ponto aonde se quer chegar. João Romão não saía nunca a passeio, nem ia à missa aos domingos; tudo que rendia a sua venda e mais a quitanda seguia direitinho para a caixa econômica e daí então para o banco. Tanto assim que, um ano depois da aquisição da crioula, indo em hasta pública algumas braças de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem perda de tempo, de construir três casinhas de porta e janela. Que milagres de esperteza e de economia não realizou ele nessa construção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra; pedra, que o velhaco fora de horas, junto com a amiga, furtava à pedreira do fundo, da mesma forma que subtraíam o material das casas em obra que havia por ali perto. Esses furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do melhor sucesso, graças à circunstância de que nesse tempo a polícia não se mostrava muito por aquelas alturas. João Romão observava durante o dia quais as obras em que ficava material para o dia seguinte, e à noite lá estava ele rente, mais a Bertoleza, a removerem tábuas, tijolos, telhas, sacos de cal, para o meio da rua, com tamanha habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma carga e partia para casa, enquanto o outro ficava de alcateia ao lado do resto, pronto a dar sinal, em caso de perigo; e, quando o que tinha ido voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez. Nada lhe escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavalos de pau, o banco ou a ferramenta dos marceneiros. E o fato é que aquelas três casinhas, tão engenhosamente construídas, foram o ponto de partida do grande cortiço de São Romão. Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua bodega; e, à proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e o número de moradores. Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio afinal a comprar uma boa parte da bela pedreira, que ele todos os dias, ao cair da tarde, assentado um instante à porta da venda, contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça. Pôs lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lajedos e paralelepípedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em grosso que, dentro de ano e meio, arrematava já todo o espaço compreendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnífico para construir. Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita da

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venda, separado desta apenas por aquelas vinte braças; e de sorte que todo o flanco esquerdo do prédio, coisa de uns vinte e tantos metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janelas de peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-ia ele para lá com a família, pois que a mulher, Dona Estela, senhora pretensiosa e com fumaças de nobreza, já não podia suportar a residência no centro da cidade, como também sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pálida e precisava de largueza para enrijar e tomar corpo.

O conjunto da obra nasce do resultado de ações intercambiadas de personagens que habitam o cortiço, isto é, da movimentação de todo esse ambiente que surge nas linhas do volume, em contraste e em confronto com seu abastado vizinho. Enquanto a narrativa caminha, o cortiço se antropomorfiza. Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.

Transforma-se em um corpo maciço, capaz de enfrentar com vida as mais diversas situações, ao mesmo tempo em que retrata a influência do meio modelando o homem. Nesse ponto, são nítidos os passos que norteiam o escritor – Aluísio Azevedo deixa-se levar pelos preceitos da estética naturalista, em que todos, sem exceção, sofrem transformações físicas e morais contaminadas pelo meio em que imperam a falta de travas morais e a depravação. Verifica-se uma lenta metamorfose que transforma homens em animais ao longo da obra, processo conhecido como zoomorfização: (...) depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta. (...) Leandra, por alcunha a “Machona”, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo. Rita Baiana (...) uma cadela no cio.

Até mesmo o cortiço, quase humanamente, reveste-se de novas cores e melhor clientela social, numa trajetória proporcionalmente inversa à deterioração de ambientes semelhantes, como a do cortiço “Cabeça de Gato” – àqueles que não conseguem se manter, resta a degradação maior de cair em cortiços cada vez mais miseráveis. Ao mudar suas feições, o ambiente somente confirma a mudança de status de seu dono, que, depois de derramar sangue, suor e lágrimas, atinge, enfim, o ápice social. E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguém confiava roupa à desgraçada, e nem ela podia dar conta de qualquer trabalho. Pobre mulher! chegara ao extremo dos extremos. Coitada! já não causava dó, causava repugnância e nojo. Apagaram-se-lhe os últimos vestígios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria, dessa embriaguez sombria e mórbida que se não dissipa nunca.

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O seu quarto era o mais imundo e o pior de toda a estalagem; homens malvados abusavam dela, muitos de uma vez, aproveitando-se da quase completa inconsciência da infeliz. Agora, o menor trago de aguardente a punha logo pronta; acordava todas as manhãs apatetada, muito triste, sem ânimo para viver esse dia, mas era só correr à garrafa e voltavam-lhe as risadas frouxas, de boca que já se não governa. Um empregado de João Romão, que ultimamente fazia as vezes dele na estalagem, por três vezes a enxotou, e ela, de todas, pediu que lhe dessem alguns dias de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao último em que Pombinha apareceu por lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro, despejaram-lhe os tarecos na rua. E a mísera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no “Cabeça de Gato” que, à proporção que o São Romão se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalterável, para sempre, o verdadeiro tipo da estalagem fluminense, a legítima, a legendária; aquela em que há um samba e um rolo por noite; aquela em que se matam homens sem a polícia descobrir os assassinos; viveiro de larvas sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma cama; paraíso de vermes, brejo de lodo quente e fumegante, donde brota a vida brutalmente, como de uma podridão.

João Romão gradativamente torna-se o dono do terreno, dos barracos, de uma pedreira e de uma venda. Em tudo – física e moralmente – ele está identificado ao cortiço. Ele não hesita em falsificar, roubar, explorar. No entanto, como todos os outros habitantes, trabalha de sol a sol. O que o diferencia do restante é a mesquinhez, a avareza e a avidez por poder. Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.

O trecho permite verificar quão asquerosa é a figura surrada, ávida, miserável de João Romão, percorrendo as redondezas, sempre cobiçando com os olhos o que de imediato não podia possuir. Coincidentemente, o físico do personagem é tão desgastado como sua falta de moral: baixote, socado, em mangas de camisa, calças arregaçadas e de tamancos. O sovina guarda vintém por vintém para chegar à posição do patrício Miranda, morador do sobrado. Enfim, João Romão consegue a impressionante proeza de “economizar” à custa de sua própria comida: mata a fome (animal) com restos da comida dos trabalhadores da pedreira, sequer se dá ao luxo de vez ou outra satisfazer a parte Fuvest/Unicamp 06_o-cortico.indd 67

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do homem, do prazer, do gosto pessoal. É movido a interesses, sempre visando à ascensão social. Ao atingir seus objetivos, assume outros valores e outra personalidade: muda a vestimenta, escova os dentes, adentra em assuntos mundanos, compra mobílias, enfim, dá-se a pequenos luxos para satisfazer sua vaidade. Encontra no casamento com Zulmira a confirmação de seus anseios. Para chegar onde quer, João Romão explora os trabalhadores da pedreira pagando-lhes um salário ínfimo, alugando-lhes os barracos e retendo o pouco que lhes resta do dinheiro ou na venda ou nos juros muito altos (de 8% ao mês!) cobrados por cada vintém emprestado. Ao oferecer desde quinquilharias até alimento, o português toca no ponto fraco daqueles trabalhadores, que se tornam presas fáceis, pois, segundo o autor naturalista, o espírito preguiçoso do brasileiro se deixa acomodar inconscientemente à situação. Aos personagens, não lhes são permitidas quaisquer reações, e o meio passa a dominá-los, incondicionalmente, mantendo-os a curtas rédeas. O meio é forte e determina cada uma das ações, cada um dos pensamentos. Não há lugar para sentimentos pessoais, os moradores só se unem para defender o ambiente, gozar prazeres terrenos, comentar e espalhar notícias, enfrentar companheiros e trabalhar. E tudo serve para enriquecer cada vez mais João Romão. Para “crescer” verdadeiramente na sociedade, ser um nobre, João Romão não hesita em cortar o último laço que o prendia à pobreza. Devolve Bertoleza à escravidão, a mesma escrava que o servira como amante e como empregada, e que fora vilmente enganada pelo finório que lhe levara o dinheiro em troca de uma alforria forjada. Vizinho do cortiço está o sobrado, espaço reservado aos que foram mais bem-sucedidos. Centrado na figura de Miranda, Aluísio Azevedo atém-se à trajetória deste outro português, igualmente comerciante, igualmente ganancioso, vivendo uma complexa situação. É aviltado moralmente pelo adultério da mulher, coloca em dúvida a paternidade da própria filha e, no entanto, não se rebela contra os fatos que o aviltam, pois está cioso da necessidade de manter as aparências para resguardar-se socialmente. Vendeu-se ao dote da mulher e tem de aturá-la. Busca avidamente o baronato para fugir da realidade mesquinha e torpe que o rodeia, como se o título servisse para amortecer-lhe a consciência. Entre os dois extremos sociais, tomam corpo outros personagens. Avultam gradativamente as ruidosas lavadeiras que alugam os cubículos e as tinas de lavar; mulheres que estão em perfeita interação com a paisagem, retratadas como elementos a brotarem da terra e a se multiplicarem, povoando o cortiço sempre e mais. Integram e completam o quadro uma galeria de tipos que vão de empregados braçais da pedreira aos operários da fábrica de massas italianas. Surgem, para cada um dos personagens, muitas e movimentadas histórias. É visível a simpatia com que o autor retrata essa multidão colorida de trabalhadores. Inversa é a forma 68 06_o-cortico.indd 68

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com que relata o amoralismo das classes mais abastadas. Do outro lado do cortiço, no sobrado, estão os parasitas, aqueles que não trabalham, mas vivem de favores, da prestação de serviços de todos os tipos, desde leves arranjos matrimoniais, que lhes rendem algum dinheiro, até boladas maiores por serviços mais “difíceis”, tais como encontrar os donos de escravas fugitivas, plenamente exemplificado na figura de Botelho, que promove, por alguns contos de réis, a aproximação de João Romão e Miranda e o casamento do vendeiro, dono do cortiço, com Zulmira, a filha do dono do sobrado, além de sugerir como João Romão poderia se ver livre de Bertoleza. Em todos os personagens, o autor aponta os defeitos morais, os casos de depravação sexual, a falta de travas da multidão de tipos que se multiplicam por páginas e páginas do livro, enfileirando personagens que se embriagam, entregam-se a outros vícios, dançam cheios de lascívia, tornam-se preguiçosos e, segundo o autor, abrasileiram-se. Em comum, independentemente da classe social, eles carregam a bagagem de taras hereditárias ou adquiridas. Entre os vícios e os divertimentos, os personagens exalam promiscuidades devastadoras, liberam uma sexualidade extravagante, bem ao gosto dos naturalistas. Se a leitura de O cortiço já não escandaliza os leitores de épocas mais recentes, ainda provoca espíritos mais puritanos devido a cenas que envolvem sexo, descritas quase fotograficamente, inclusive de relações homossexuais. Exagera-se em tudo para poder provar com precisão o poder do binômio sexo/ dinheiro. Não há habitante que possa ser salvo. Impossível listar a quantidade de exemplos a explorar o amoralismo do meio que leva à depravação. Tem-se como mais perfeito exemplo o caso de Jerônimo, português trabalhador e honrado que se abrasileira, tornando-se lascivo, preguiçoso, ardente e vingativo. Caído de amor por Rita Baiana, lavadeira de boa índole, símbolo da volúpia e do prazer, a qual provoca com sua sensualidade o confronto entre o amante Firmo e Jerônimo, culminando na morte do primeiro. Outro caso é o de Pombinha, conduzida gradativamente à prostituição, porque não resiste às pressões do meio e aos chamamentos eróticos do próprio corpo. De certa forma, o autor força algumas cenas, polvilhando-as com chavões do naturalismo. É o caso da chegada das regras da jovem, logo após os contatos homossexuais com a prostituta e lésbica Léoni. Destaca-se, neste clima, o Albino, ser indistinto, afeminado, também lavadeiro, que vivia entre as mulheres. Há ainda a Bruxa, misto de feiticeira, curandeira e louca, que ateia fogo – outro chavão naturalista – ao cortiço, motivo para as reformas e os melhoramentos relatados no final. Hábil observador, Aluísio Azevedo não deixa escapar cenas perfeitas, como quando contrapõe o clima quente à umidade da pele das lavadeiras. Explorando com sucesso as sinestesias, acaba por envolver o leitor em uma combinação perfeita dos sentidos, traduzidos em quadros saborosos que expõem a vida cotidiana Fuvest/Unicamp 06_o-cortico.indd 69

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em ebulição, com movimentos raramente vistos na literatura brasileira, como o incêndio do cortiço, um dos mais felizes exemplos. A Bruxa conseguira afinal realizar o seu sonho de louca: o cortiço ia arder; não haveria meio de reprimir aquele cruento devorar de labaredas. Os cabeças de gato, leais nas suas justas de partido, abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o auxílio de um sinistro e dispostos até a socorrer o inimigo, se assim fosse preciso. E nenhum dos carapicus os feriu pelas costas. A luta ficava para outra ocasião. E a cena transformou-se num relance; os mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a salvar os miseráveis bens que possuíam sobre a terra. Fechou-se um entra e sai de maribondos defronte daquelas cem casinhas ameaçadas pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao ombro, numa balbúrdia de doidos. O pátio e a rua enchiam-se agora de camas velhas e colchões espocados. Ninguém se conhecia naquela zumba de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas pela dor e pelo desespero. Da casa do Barão saíam clamores apopléticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com um ataque. E começou a aparecer água. Quem a trouxe? ninguém sabia dizê-lo; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chamas. Os sinos da vizinhança começaram a badalar. E tudo era um clamor. A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha acesa. Estava horrível; nunca fora tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens, dava-lhe um caráter fantástico de fúria saída do inferno. E ela ria-se, ébria de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, vitoriosa no meio daquela orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em segredo a sua alma extravagante de maluca. Ia atirar-se cá para fora, quando se ouviu estalar o madeiramento da casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca num montão de brasas. Os sinos continuavam a badalar aflitos. Surgiam aguadeiros com as suas pipas em carroça, alvoroçados, fazendo cada qual maior empenho em chegar antes dos outros e apanhar os dez mil-réis da gratificação. A polícia defendia a passagem ao povo que queria entrar. A rua lá fora estava já atravancada com o despojo de quase toda a estalagem. E as labaredas iam galopando desembestadas para a direita e para a esquerda do número 88. Um papagaio, esquecido à parede de uma das casinhas e preso à gaiola, gritava furioso, como se pedisse socorro. Dentro de meia hora o cortiço tinha de ficar em cinzas. Mas um fragor de repiques de campainhas e estridente silvar de válvulas encheu de súbito todo o quarteirão, anunciando que chegava o corpo de bombeiros. E logo em seguida apontaram carros à desfilada, e um bando de demônios de blusa clara, armados uns de archotes e outros de escadinhas de ferro, apoderaram-se do sinistro, dominando-o incontinenti, como uma expedição mágica, sem uma palavra, sem hesitações e sem atropelos. A um só tempo viram-se fartas mangas de água chicoteando o fogo por todos os lados; enquanto, sem se saber como, homens, mais ágeis que macacos, escalavam os telhados abrasados por escadas que mal se distinguiam; e outros invadiam o coração vermelho do incêndio, a dardejar duchas em torno de si, rodando, saltando, piruetando, até estrangularem as chamas que se atiravam ferozes para cima deles, como dentro de um inferno; ao passo que

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outros, cá de fora, imperturbáveis, com uma limpeza de máquina moderna, fuzilavam de água toda a estalagem, número por número, resolvidos a não deixar uma só telha enxuta.

Da época literária, Aluísio Azevedo herda a linguagem embebida na norma culta, no vocabulário escolhido, na frase lapidada. Do dom de observação nasce o coloquial, chegando a registrar as contrações típicas da pronúncia de portugueses, os sotaques encontrados em diferentes regiões suburbanas, as gírias tão comuns na fala. Esse cuidado com a tradução da linguagem popular torna o volume, ainda hoje, motivo de bons estudos que possibilitam investigar a evolução da linguagem coloquial dentro da literatura. Os quadros populares, as personagens adequadas, o jeito de falar, tornam O cortiço um dos mais interessantes volumes do século XIX, principalmente porque o autor faz pesquisa social sem o ranço de se deixar levar por ideologias, sem procurar justificar nada, imparcial para tratar dos personagens, mas deixando-se levar por uma simpatia contagiante. No trabalho com o meio, manifesta-se sem pieguismos e sem comoções, traduzindo de forma quase imparcial os problemas de camadas populares.

Considerações finais Se se podem descontar pontos por certas cenas exageradas, como a ironia muito forçada na condecoração de João Romão por méritos abolicionistas justamente quando ele patrocinava o suicídio de Bertoleza; ou na cena em que é descrita a chegada das regras de Pombinha, após contatos homossexuais com Léoni; também se podem atribuir à obra saldos positivos. Para regozijo da camada feminista, nada melhor do que constatar a importância da mulher, demonstrada pela força que exerce sobre os homens e pelas mudanças que induz nos comportamentos. Para os aficionados por História, é interessante observar o sistema financeiro do Período Imperial, bem como investigar a qualidade de vida das camadas menos abastadas – quem poderia imaginar que o pobre passava a queijo, vinho, manteiga e bacalhau! Uma miséria abastada... Mais dois créditos: Aluísio Azevedo levou ao conhecimento do leitor o “jeitinho brasileiro de ser”, o mistério da vida que fervilha nas camadas menos privilegiadas; o segundo, e mais importante, é ter retratado um Rio de Janeiro não somente como habitat de uma fauna humana que vive do funcionalismo público, que parasita nos bastidores da política, que sobrevive às custas de “favores” feitos a outros, que pratica usura e mais uma série de maldições que ainda hoje acompanham os brasileiros, como também um Rio de Janeiro que trabalha, que se movimenta no dia a dia para tornar a cidade economicamente viável. Há mérito maior que conseguir equacionar a vida social de uma época? Isso Aluísio Azevedo soube fazer como nenhum outro. Fuvest/Unicamp 06_o-cortico.indd 71

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Assim, eram às vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando, entre outros assuntos palpitantes, vinha à discussão o movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da Lei Rio Branco. Então o Botelho ficava possesso e vomitava frases terríveis, para a direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo, e vociferava imprecações, aproveitando aquela válvula para desafogar o velho ódio acumulado dentro dele ...

Para aqueles que se interessam por conhecer as nuances históricas e sociais do Brasil do século XIX, basta desvendar os segredos do romance. Página por página, a leitura vai se transformando em uma gostosa revelação, demonstrando, mais uma vez, a alquimia da palavra impressa. Registram-se cenas que deixam o leitor ciente das condições sociais, políticas e econômicas de um Rio de Janeiro que abre suas portas para o século XX, assume as condições de metrópole brasileira e passa a ser referência cultural do povo brasileiro. Vislumbram-se os cotidianos dos polos sociais, a luta para se atingir ideais e uma multidão de “marionetes”, que são conduzidas a seus destinos predeterminados pelas leis da natureza e pela influência do ambiente em que vivem. Textos extraídos de: Aluísio Azevedo. O cortiço. São Paulo: Núcleo, 2010.

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REALISMO

A cidade e as serras Eรงa de Queirรณs

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O escritor e suas obras Publicado em 1901, no ano seguinte ao da morte de Eça de Queirós, o romance A cidade e as serras foi desenvolvido a partir da ideia central contida no conto “Civilização”, datado de 1892. Na verdade, o escritor pretendia publicar uma série de pequenos volumes em que analisaria flagrantes da vida portuguesa. Havia ainda, por parte do autor, a promessa de algo mais curto que o normal, o volume não passaria de quatro capítulos e cerca de 130 páginas. Ao que parece, os editores demoravam muito para finalizar obras muito extensas, dificultadas pelo trabalho de composição tipográfica, revisão, correção do autor e divulgação. Em 1895, durante cerca de cinco meses, Eça revisou as provas deste volume e introduziu inúmeras modificações. Após a morte do escritor, em 1900, os primeiros capítulos já se encontravam compostos e os demais, ainda em manuscrito, inclusive alguns capítulos inacabados. Coube a Ramalho Ortigão1, grande amigo do escritor, rever os originais, decifrá-los, revisar as provas já compostas e, inclusive, emendar algumas partes que careciam de sentido. Para situar a obra A cidade e as serras no contexto das obras de Eça de Queirós, é necessário revê-la como um todo. Ao publicar o conto “Singularidades duma rapariga loura”, Eça foi considerado o iniciador da narrativa realista em Portugal. Em seguida, escreveu, em conjunto com o amigo Ramalho Ortigão, a novela policial O mistério da estrada de Sintra. Participava do jornal mensal As Farpas que, como o próprio nome indica, tece inflamados artigos propondo reformas e satirizando os costumes, a literatura e a política de Portugal. Após discursar sobre “O Realismo como nova expressão de Arte” nas célebres conferências do Casino Lisboense, publicou, em 1875, O crime do padre Amaro, romance crítico em que combate a sociedade estagnada e o clero, e coloca em prática a técnica realista de descrever aspectos psicofisiológicos com riqueza de detalhes. Em 1878, volta-se para a família pequeno-burguesa escrevendo o volume urbano O primo Basílio, revendo a educação da mulher, a constituição moral da família e o ataque ferrenho às instituições burocráticas de Portugal. Produziu, dez anos depois, Os Maias, ambientado em Portugal e em Paris, focalizando com ironia e sarcasmo as altas esferas da sociedade, revelando-se mordaz e irreverente no tratamento da política, da vida social e da literatura, com quadros repletos de vivacidade e riqueza estilística. Encerra-se aí a sua fase combativa, em que a literatura serve como escudo contra instituições, e as palavras são as lanças a serem atiradas com ironia contra 1 Ramalho Ortigão – José Duarte Ramalho Ortigão (1836-1915), grande educador e escritor português, criticou radicalmente os costumes e os vícios de sua época.

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Portugal, numa necessidade de denunciar o que havia de pequeno e estagnado em relação a outros países, principalmente europeus. Nesse período, o autor exercita com perfeição suas técnicas narrativas, manuseia a linguagem com preocupações formais, analisa os caracteres de suas personagens, lapida seu estilo e soluciona seus problemas de índole literária, ao estabelecer criteriosamente os limites da imaginação e da observação da realidade. Depois de Os Maias, inicia uma nova fase, tão elaborada estilisticamente, quanto preocupada em dar vazão à imaginação, que deixa correr mais solta. Assim, escreve O mandarim, novela de caráter fantástico, colocando “Sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia”, e, pelo mesmo lema, conduz o volume A relíquia. A partir de A relíquia percebe-se o início de uma nova fase, em que o escritor reconsidera sua pátria, revê o português e Portugal com outros olhos, abandona a sátira mordaz com que vinha retratando a vida portuguesa, substituindo-a por uma ternura calma e sincera, quase uma redenção, à maneira de desculpas, por ter escrito romances em que denunciava o atraso e o provincianismo da terra. A ilustre casa de Ramires traz Eça de Queirós referindo-se liricamente aos grandes valores portugueses: o homem, a paisagem e as origens históricas; em A cidade e as serras acredita na vida simples e rústica, liberta o bucolismo2, valoriza os seres simples, a distância da civilização, a pureza da vida campestre na mais sincera contaminação romântica. Volta-se para a descrição das paisagens mais familiares que costumava ver na infância. O primitivo de A cidade e as serras e o apego histórico de A ilustre casa de Ramires compõem os romances da última fase do escritor, que, juntamente com Correspondência de Fradique Mendes, colocam fecho de ouro aos escritos de Eça de Queirós.

Ajustes da civilização O romance é escrito em primeira pessoa por José Fernandes, personagem de segundo plano na narrativa. O narrador-observador centraliza seu interesse na figura de Jacinto, descrevendo-o como homem extremamente forte e rico, que, embora tenha nascido em Paris, no 202 dos Campos Elísios, tem seus proventos recolhidos de Portugal, onde a família possui extensas terras, desde os tempos de D. Dinis. Plantações e produção de vinho, cortiça e oliveira, lhe rendem excelente pecúnio, suficiente para bancar uma vida milionária na Cidade Luz. O avô de Jacinto, também Jacinto, gordo e rico, a quem chamavam de D. Galeão, era um

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Bucolismo – espírito de integração do homem com a natureza.

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fanático miguelista. Quando D. Miguel3 deixou o poder, Jacinto Galeão exilou-se voluntariamente em Paris, lá morrendo de indigestão. D. Angelina Fafes, após a morte do marido, não regressou a Portugal, e, em Paris, criou seu filho, o franzino e adoentado Cintinho, que se casou com a filha de um desembargador, nascendo desta união o protagonista. Desde pequeno Jacinto brilhara, quer por sua intelig��ncia, quer por sua sagacidade. Aos 23 anos tornou-se um soberbo rapaz, vestido impecavelmente, cabelos e bigodes bem-tratados, e feliz da vida. Tudo de melhor acontecia com ele, sendo chamado pelos companheiros de “Príncipe da Grã-Ventura”. Positivista4 inflamado, Jacinto defendia a ideia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. A maior preocupação de Jacinto era defender a tese de que civilização é igual a cidade grande, e máquina é progresso. Exulta o fonógrafo, o telefone cujos fios cortam milhares de ruas, barulhos de veículos, multidões... Civilização é enxergar à frente. Com estes olhos que recebemos da Madre Natureza, lestos5 e sãos, nós podemos apenas distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Nada mais! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões6 de geleia e caixas de ameixa seca. Concluo portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção: tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os do meu telescópio, de composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia de um astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da natureza, elevado pela Civilização à sua máxima potência da visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado. Aplica esta prova a todos os órgãos e compreende o meu princípio. Enquanto à inteligência, e à felicidade que dela se tira pela incansável acumulação das noções, só te peço que compares Renan e o Grilo... Claro é portanto que nos devemos cercar de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a vantagem de viver.

Em fevereiro de 1880, Zé Fernandes recebe um chamado urgente do tio para que retorne a Portugal. Parte para Guiães, pequena cidade serrana. Somente 3 D. Miguel – infante de Portugal (1802-1866), filho de D. João VI e da rainha D. Carlota Joaquina. Veio com a família real para o Brasil em 1808 e regressou a Portugal em 1821 com seu pai. Em 1826, jurou a Carta Constitucional, reconheceu seu irmão (nosso D. Pedro I) como sucessor legítimo de seu pai e casou-se com sua sobrinha D. Maria, filha do seu irmão D. Pedro. Em 1828 assumiu a regência, jurando fidelidade novamente à Carta. Semanas depois fez-se proclamar rei absoluto e iniciou um período de perseguição aos liberais (defensores da Constituição). Seguiu-se a guerra civil de 1832-1834, com a derrota de D. Miguel e a vitória dos liberais, ocupando o trono D. Pedro IV (no Brasil, D. Pedro I). 4 Positivismo – doutrina filosófica desenvolvida pelo francês Augusto Comte (1768-1857) caracterizada por valorizar a Ciência e a experimentação contra qualquer espécie de metafísica; o movimento busca o concreto, o real como base de qualquer conhecimento. 5 Lestos – ágeis, ligeiros. 6 Boiões – frascos, recipientes.

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após sete anos de vida na província, retorna a Paris e reencontra Jacinto no 202 dos Campos Elísios. O narrador presenciou coisas espantosas: um elevador para ligar dois andares do palacete; no gabinete de trabalho havia aparelhos mecânicos cheios de artifícios; e, enquanto Jacinto escreve para Madame d’Oriol, José Fernandes visita uma enorme biblioteca de trinta mil títulos, os mais diversos possíveis, dos mais renomados autores às mais diferentes ciências. A visita termina com uma refeição em que foram servidas as mais sofisticadas iguarias e um convite de Jacinto ao narrador, para que ele se hospedasse no 202.

Primeiros desencantos Zé Fernandes, a partir daí, pôde observar com maior atenção o amigo; suas intensas atividades o desgastavam e, com o passar do tempo, constatou que Jacinto foi perdendo a credulidade, ao perceber a futilidade das pessoas com quem convivia, a inutilidade de muitas das coisas de sua tão decantada civilização. Nos raros momentos em que conseguiam passear, confessava ao amigo que o barulho das ruas o incomodava, a multidão o molestava: ele atravessava um período de nítido desencanto. Alguns incidentes contribuíram sobremaneira para afetar o estado de ânimo de Jacinto: um acidente podia tomar proporções enormes na comunidade fútil em que vivia, como por exemplo, o rompimento de um dos tubos da sala de banho, jorrando água quente por todo o quarto, inundando os tapetes, foi o bastante para fazer aparecer uma pilha de telegramas, alguns inclusive com um riso sarcástico, como o do Grão-Duque Casimiro, dizendo que não mais apareceria pelo 202 sem que tivesse uma boia de salvação. As reuniões sociais estavam ficando maçantes. Em uma recepção ao Grão-Duque, Jacinto já não aguentava o farfalhar das sedas das mulheres quando lhes explicava o uso dos diferentes aparelhos, o tetrafone, o numerador de páginas, o microfone... O criado veio lhe informar que o peixe a ser servido ficara entalado no elevador e os convidados puseram-se a pescá-lo, inutilmente, porque o peixe não chegou à mesa, fato que deixou ainda mais aborrecido o anfitrião. Claramente percebia eu que o meu Jacinto atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa, e ele tão afundado na sua mole densidade, que as glórias ou os tormentos de um camarada não o comoviam, como muito remotas, intangíveis, separadas da sua sensibilidade por imensas camadas de algodão. Pobre Príncipe da Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia, com os pés no regaço do pedicuro! Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão bravamente todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua luta contra a Força e a Matéria!

Preocupado, Zé Fernandes consulta o fiel criado Grilo sobre o que está ocorrendo com Jacinto. O homem respondeu com tamanho conhecimento de causa que espantou o narrador. Uma simples palavra poderia definir todo o tédio de que era acometido: o patrão sofria de “fartura”. 78 07_cidade-e-as-serras.indd 78

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Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris; e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a “delícia de viver”, ele não encontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o esforço de uma corrida curta numa tipoia fácil. Pobre Jacinto! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a crônica até aos anúncios, com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o solitário, que só possuísse na sua solidão esse alimento intelectual, do que o parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu nesse verão capciosamente o arrastava a um café-concerto, ou ao festivo Pavilhão d’Armenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira, com um maravilhoso ramo de orquídeas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o castão7 da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada, que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e então com veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus clubes, ao fundo dos Campos Elísios. Não se ocupara mais das suas sociedades e companhias, nem dos telefones de Constantinopla8, nem das religiões esotéricas, nem do bazar espiritualista, cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de ébano, de onde o Grilo as varria tristemente como o lixo de uma vida finda. Também lentamente se despegava de todas as suas convivências. As páginas da agenda cor-de-rosa murcha andavam desafogadas e brancas. E se ainda cediam a um passeio de mail-coach9, ou a um convite para algum castelo amigo dos arredores de Paris, era tão arrastadamente, com um esforço saturado ao enfiar o paletó leve, que me lembrava sempre um homem, depois de um gordo jantar de província, a estalar, que, por polidez ou em obediência a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia10 de ovos! Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem-cerradas e bem-defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu Príncipe se o seu próprio 202, com todo aquele tremendo recheio de Civilização, não lhe desse uma sensação dolorosa de abafamento, de atulhamento!...

Certo dia, enquanto esperavam ser recebidos por Madame d’Oriol, José Fernandes e Jacinto subiram à Basílica do Sacré-Coeur, em construção no alto de Montmartre. Ao se recostarem na borda do terraço, puderam contemplar Paris envolta em uma nuvem cinzenta e fria, motivando profundas reflexões, pois a cidade – tão cheia de vida, de ouro, de riquezas, de cultura e resplandescências, incluindo o soberbo 202, com todas as suas sofisticações – estava agora sucumbida sob as nuvens cinzentas, a cidade não passava de uma ilusão. ... uma ilusão! E a mais amarga, porque o homem pensa ter na cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido11 e escanifrado12 ou obeso e afogado em unto13 7 8 9 10 11 12 13

Castão – parte superior da bengala. Telefones de Constantinopla – alusão à modernidade vazia, ao progresso prosaico. Mail-coach – termo inglês, significa diligência. Lampreia – tipo de peixe, muito saboroso. Ressequido – seco, mirrado. Escanifrado – muito magro, descarnado. Unto – gordura, banha, óleo.

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de ossos moles como trapos, de nervos trêmulos como arames, com cangalhas14, com chinós15, com dentaduras de chumbo sem sangue, sem febre, sem viço16, torto, corcunda – esse ser em que Deus, espantado, mal pôde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral; cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência; pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar: rico e superior como um Jacinto, a sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, prazer, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem tão alto que Deus com ele recompensa os santos) onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar – e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na cidade se desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos; onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arrátel17, como a de vaca! Contempla esse velho deus do himeneu18, que circula trazendo em vez do ondeante facho da paixão a apertada carteira do dote! (...) Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de ideias e fórmulas que constitui a atmosfera mental das cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas; ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola19, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão. (...) Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames – o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade!

Zé Fernandes continuou a filosofar, acrescentando preocupações de caráter social, indagando a posição dos pequenos que, como vermes, se arrastavam pelo chão, enquanto os poderosos os massacravam; eles iam às óperas aquecidos, lançando aos pobres não mais que algumas migalhas. Religiosamente, acreditava ser necessário um novo Messias que ensinasse às multidões a humildade e a mansidão. 14 15 16 17 18 19

Cangalhas – armações que transportam a carga das bestas. Chinós – cabeleiras. Viço – vida, vigor. Arrátel – antiga unidade de peso, equivalente a 429 g ou 16 onças. Himeneu – casamento, matrimônio. Gloríola – glória vã, fútil.

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Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais, que só nela existem! (...) A tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o capital der ao trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada20. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade. (...) Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade, estendida na planície, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a moleza cinzenta da tarde, filosofando – considerando que para esta iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou afrouxarão a exploração das plebes, se uma influência celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no pecado – e contra ele são impotentes os prantos dos humanitários, os raciocínios dos lógicos, as bombas dos anarquistas. Para amolecer tão duro granito só uma doçura divina. Eis pois a esperança da Terra novamente posta num Messias!...

De Schopenhauer21 ao Eclesiastes22: pessimismo Como já havia planejado, o narrador partiu para uma viagem pela Europa e, ao retornar, procurou o amigo e tentou descobrir o que lhe passava na alma, pois encontrou-o mais pessimista que nunca, depressão revelada pelas leituras do Eclesiastes e do filósofo pessimista Schopenhauer. Nessas leituras, encontrava um certo amparo ao comprovar que todo mal era resultante de uma lei universal e, a partir daí, encontrou uma grata ocupação – maldizer a vida. Ao mesmo tempo, sobrecarregou sua existência com fervores humanísticos. Mas de nada adiantava, pois Jacinto estava mesmo desolado. No inverno escuro e pessimista, Jacinto acordou certa manhã e comunicou a José Fernandes que estava de partida para Tormes. Decidiu viajar ao receber uma carta de Silvério, seu procurador, que dizia estarem concluídos os trabalhos de reerguimento da capela para onde seriam trasladados os restos mortais de seus avós que ele não conhecera, mas de quem o 202 estava cheio de recordações. Os preparativos para a viagem envolveram uma mudança da civilização para as serras. Jacinto encaixotou camas de pena, banheiras, cortinas, divãs, tapetes, livros, despachou tudo para poder enfrentar com conforto um mês nas serras. Enquanto isso, renascia nele o amor pela cidade. Partiram os dois amigos de volta a Portugal. As cidades passavam pelas janelas do trem: da França para a Espanha, da Espanha para Portugal... Tomado por 20 Ratinhada – do verbo ratinhar: dar com parcimônia, regatear. 21 Schopenhauer – Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, acentuadamente pessimista, para quem a vida é apenas dor. O seu pessimismo teve grande influência na arte e na filosofia do século XIX. Sua obra mais conhecida é O mundo como vontade e representação. 22 Eclesiastes – livro do Antigo Testamento, atribuído a Salomão, um dos mais belos e filosóficos textos da Bíblia. Desenvolve a máxima famosa: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.

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uma suave emoção, José Fernandes estava feliz em rever a pátria; Jacinto, aborrecido e enfadado principalmente porque, em Medina (Espanha), as malas ficaram em compartimentos errados quando foi feita a baldeação. O narrador, com o intuito de acalmar o amigo, diz-lhe que a Companhia cuidaria de tudo. E ficaram os dois só com a roupa do corpo. Enfim, chegaram em Tormes. ... e ambos em pé, às janelas, esperamos com alvoroço a pequenina estação de Tormes, termo ditoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás, a serra coberta de velho e denso arvoredo...

Desembarcaram em Tormes, onde o narrador encontrou o velho amigo Pimenta, chefe da estação. Após apresentar-lhe o senhor de Tormes, indagou por Silvério, o procurador de Jacinto em terras portuguesas. Começaram então outros desastres da viagem. Silvério não os aguardava: havia partido há dois meses para o Castelo de Vide. Os criados Grilo e Anatole, que aparentemente estavam com as 23 malas em outro compartimento, não foram encontrados, o trem apitou e partiu, deixando os dois sem nada. Não havia cavalos para atravessarem a serra, pois Melchior, o caseiro, não os esperava senão para o mês seguinte. Pimenta arranjou-lhes uma égua e um burro e ambos seguiram serra acima. Esqueceram, por alguns instantes, os infortúnios passados enquanto contemplavam a beleza da paisagem. Mas o pior ainda estava por acontecer: os caixotes despachados de Paris há quatro meses não haviam chegado, e o mais civilizado dos homens estava totalmente à mercê das serras. Como ninguém os esperava, a casa não estava pronta para recebê-los, a reforma acontecia devagar, os telhados ainda continuavam sem telhas, as vidraças sem vidros. Zé Fernandes sugeriu que rumassem para casa de sua tia Vicência, em Guiães, e Jacinto retrucou que ia mesmo para Lisboa. Melchior arranjou como pôde um jantarzinho, caseiro e simples, longe das comidas sofisticadas, das taças de cristal, dos metais e porcelanas. Uma comida que serviu para matar gostosamente a fome dos viajantes. O senhor de Tormes regalou-se com o jantar que lhe parecera, à primeira vista, insuportável; e o caseiro, diante das manifestações de regozijo perante a comida, pensou que seu senhor passava fome em Paris. O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão23, terminou por bradar: – “É divino!” Mas nada o entusiasmava como um vinho de Tormes, caindo 23 Platão – filósofo grego (428-347 a.C.), discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles, um dos maiores filósofos de todos os tempos.

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do alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de otimismo na face, citou Virgílio24: – Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras?

Após o jantar, ambos ficaram contemplando o céu cheio de estrelas, passaram a ver os astros que na cidade não se dignavam ou não conseguiam observar. O narrador ia-se deixando levar por um contato tão estreito com a paisagem, que em breve surgia uma identificação total do homem com a natureza e em tudo percebia-se Deus, num claro processo panteísta muito comum entre os românticos e que Eça passou a assumir. – Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado? – Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral? – Não sei. Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Ele, porque na sua biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre astronomia, e o saber assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande25, constituímos modos diversos de um ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta unidade. Moléculas do mesmo todo, governadas pela mesma lei, rolando para o mesmo fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro – tudo é o mesmo corpo, onde circula como um sangue, o mesmo deus. E nenhum frêmito de vida, por menor, passa numa fibra desse sublime corpo, que se não repercuta em todas, até às mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. Quando um sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, embaixo na horta, sente um secreto arrepio de morte; e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno26 estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei: – Acredita!... O sol tremeu. E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce, perece, renasce.

O cansaço vence os dois viajantes. José Fernandes adormece sob os apelos de Jacinto para que ele lhe enviasse algumas peças brancas e lhe reservasse alojamento em um bom hotel de Lisboa. Uma semana depois que José Fernan24 Virgílio – (71-19 a.C.) o mais célebre dos poetas latinos, autor da Eneida, das Geórgicas e das Bucólicas. 25 Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande – nesta passagem, Eça sobrepõe, à maneira panteísta, seres diversos em um todo único. 26 Saturno – na mitologia grega, filho de Urano e Gea. Devorava seus próprios filhos. Um deles, Júpiter, destronou-o e expulsou-o do céu.

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des havia partido para Guiães, recebeu suas malas e imediatamente enviou um telegrama para Lisboa, endereçado ao hotel Bragança, agradecendo pela bagagem que fora encontrada e alegrando-se pelo amigo estar novamente gozando os privilégios de seres civilizados. No entanto, não obteve resposta. Certo dia, o narrador voltando de Flor da Malva, da casa de sua prima Joaninha, parou na venda de Manuel Rico, e ficou sabendo algo surpreendente através do sobrinho de Melchior: Jacinto permanecia em Tormes já há cinco semanas. Ao visitar Jacinto, José Fernandes o encontrou totalmente mudado, física e mentalmente. Nada nele denunciava um homem franzino; estava encorpado, corado, como um verdadeiro montês. E, principalmente, havia perdido o pessimismo. Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia as palmas – como Catão27 para chamar os servos, na Roma simples. E gritava: – Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha! Pulei, imensamente divertido: – Oh Jacinto! E as águas carbonatadas? E as fosfatadas? E as esterilizadas? E as sódicas?... O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém soberbo. E aclamou a aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da água refulgente, que uma bela moça trazia num prato.

Um homem de bem com a vida Um outro Jacinto nascia, um homem para quem o campo já não mais era insignificante. Cada momento no novo espaço representava uma nova e alegre descoberta. Enfim, era um homem de bem com sua vida. Aproveitando a presença do amigo, Jacinto providenciou a transladação dos corpos de seus antepassados para a Capelinha da Carriça, agora reconstruída. Zé Fernandes, hábil observador do amigo, percebeu que Jacinto não se contentava em ser o apreciador passivo dos encantos da natureza. Ele queria participar de tudo, e lhe surgiam grandes ideias como encher pastos, construir currais perfeitos, máquinas para produzir queijos... Certo dia, ao percorrer seus domínios, Jacinto conheceu o outro lado da vida no campo: uma criança muito franzina viera pedir socorro para a mãe agonizante. A partir desse momento, as decisões de Jacinto tomaram novo rumo, pois ele conheceu o lado triste da serra, e reagiu, primeiro com caridade, depois, com a reconstrução das casas para dar novo alento aos humildes. Em uma das inúmeras visitas que lhe fez o narrador, Jacinto confessou que pretendia introduzir um pouco de civilização naqueles cantos tão rústicos. O povo da região começou a agra27 Catão – também conhecido como Catão, o Antigo (234-149 a.C.), romano célebre pela austeridade dos seus princípios e pelo esforço para reprimir o luxo, que começava a corromper Roma. Escreveu um tratado sobre agricultura (De Re Rustica) muito interessante.

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decer as benfeitorias e logo passou a circular a lenda de que o senhor de Tormes era D. Sebastião28 que havia voltado para ressuscitar Portugal. Convidado por Zé Fernandes para o aniversário de tia Vicência, Jacinto encontraria aí a oportunidade de conhecer seus vizinhos, outros proprietários. No entanto, a recepção não foi aquilo que o narrador esperava. Havia uma frieza por parte dos habitantes da região, exceto tia Vicência que o recebeu como verdadeiro sobrinho. Ao terminarem a ceia, vieram a saber o porquê daquela frieza: eles ignorantemente pensavam que o senhor de Tormes fosse miguelista como o avô e que pretendia restituir D. Miguel ao poder. E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com a sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de “Dr. Agudo:” – “Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...” E o mesmo fino olhar me indicava o D. Teotônio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Teotônio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista, – e na sua inesperada vinda ao solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo de uma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas eleições próximas, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o “Dr. Agudo”.

Este jantar serviu de pretexto para o narrador mostrar a mentalidade atrasada da sociedade serrana e aquilo que fazia sorrir Jacinto era, na verdade, um abismo entre a ignorância e o progresso. A serra estava impregnada de ideias retrógradas, ainda absolutistas, enquanto no final do século polvilhavam novas teorias e doutrinas filosóficas e políticas. Tentou-se ainda um jogo de voltarete para animar a noite, mas a ameaça de uma tempestade fez os convidados baterem em retirada. A manhã seguinte estava fresca e clara. José Fernandes levou o amigo até Flor da Malva, para visitar sua prima Joaninha que não pudera comparecer à reunião, pois o pai, Adrião, estava acamado. No caminho, encontram João Torrado, um velho eremita que supôs estar diante de D. Sebastião. Essa figura ilustrava o lado da profundidade do mito na mentalidade simples, pois, ao saudar Jacinto como um profeta, trata-o como “pai dos pobres”. Nele estão associadas a sabedoria e a simplicidade do povo. E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto

28 D. Sebastião – décimo sexto rei português, desaparecido na Batalha de Alcácer-Quibir. Transformou-se em figura lendária, e seu retorno simbolizaria o ressurgimento de Portugal.

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os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado. – Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza. O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta. – A mão! E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo murmurando: – Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara! Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão: – Pois louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe, que não perdi o meu dia, e vi um homem! Eu então debrucei-me para ele, mais em confidência: – Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos sítios, que el-rei D. Sebastião voltará? O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo da espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a procissão dos seus pensamentos: – Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vai, nem quem vem.

A chegada a Flor da Malva prepara o desfecho do romance. Joaninha, que não tem sequer uma fala na narrativa, jovem de uma formosura ímpar, estaria destinada a ser a senhora de Tormes. Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passo e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos cabelos, – lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azuis. E foi assim que Jacinto, nessa tarde de setembro, na Flor da Malva, viu aquela com quem casou, em maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira já de rosas.

Cinco anos se passaram em plena felicidade por ver correrem por aquelas terras duas fidalgas crianças, Teresinha e Jacinto. Os caixotes embarcados de Paris enfim chegaram a Tormes e serviram para demonstrar o agora total equilíbrio do protagonista: aproveitar o que poderia ser aproveitado e desprezar as inutilidades da civilização, justificando deste modo a observação feita por Grilo: “Sua Excelência brotara”. Certamente Jacinto descobrira seus melhores valores: era feliz e fazia os outros felizes. Algumas vezes Jacinto falou em levar a esposa para conhecer o 202 e a civilização, mas o projeto, por um motivo ou por outro, era sempre adiado. Quem voltou a Paris foi Zé Fernandes e lá, sentindo-se abandonado e entediado, descobriu uma porção de fantoches a viverem uma vida falsa e mesquinha. 86 07_cidade-e-as-serras.indd 86

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Percebeu que os antigos conhecidos eram seres frágeis e vazios, idênticos entre si e massas impessoais, amorfas, feitas para agradar ou desagradar os outros conforme seus interesses. Não suportando a cidade, retornou a Portugal. Esse serrano que anteriormente valorizava os encantos da civilização foi tomado pelos mesmos sentimentos de Jacinto e confirmou uma simples verdade: no fundo, reabilitou Eça de Queirós com o seu Portugal. Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartava havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova, e de pó de arroz, de entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique29, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços garrafas do nosso rascante30 e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Château-isto, Château-aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo pilhérias senis. Esta sordidez da planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre; – e aí, no meio de uma multidão elegante de senhoras, de duquesas, de generais, de todo o alto pessoal da cidade, eu recebia, do alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres damas. E recolhia enjoado com tanto relento de alcova, vagamente dispéptico31 com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, por me não divertir, não compreender a cidade, e errar através dela e da sua civilização superior, com reserva ridícula de um censor, de um Catão austero. “Oh senhores!”, pensava eu “pois não me divertirei nesta deliciosa cidade?” Entrara comigo o bolor da velhice? ...

Textos extraídos de: Eça de Queirós. A cidade e as serras. São Paulo: Núcleo, 1994.

29 Arrebique – enfeite ou cosmético de visível mau-gosto. 30 Rascante – que arranha, áspero. 31 Dispéptico – aquele que sofre de dispepsia: distúrbio da função digestiva.

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MODERNISMO

Vidas secas Graciliano Ramos

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Em busca da perfeição Publicado em 1938, Vidas secas é considerado o mais humano e poético dos romances de Graciliano Ramos. Seguindo Caetés, São Bernardo e Angústia, todos em primeira pessoa, apresenta uma ruptura em relação aos romances anteriores por apresentar o foco narrativo em terceira pessoa. Trata-se de uma inovação porque o autor estava habituado a focalizar um personagem-narrador preocupado em investigar seu mundo interior, elaborando uma espécie de autoanálise em que a personagem descortina sua visão da realidade. A postura assumida em Vidas secas volta-se para a análise de características mais objetivas, com personagens não entregues à própria sorte, mas dirigidas, em seus destinos, pelas mãos do narrador. Dessa forma, a revolta egoísta cede lugar ao tratamento mais amplo, aberto a outros tipos de sentimentos, entre os quais se incluem a compaixão, a compreensão e a simpatia. Uma característica da narrativa em terceira pessoa é a onisciência do narrador, capaz de mostrar seca e friamente a miséria e a situação precária do mundo exterior. Outra característica possível é a utilização do discurso indireto livre, que tem como vantagem permitir ao narrador expandir sua “fala” e abrir-se para revelar o que pensam e sentem as personagens, sem passar pelo crivo do narrador. Ao lapidar estes recursos, Graciliano ajusta a maneira objetiva de analisar a realidade a uma certa pessoalidade devido à forma envolvente com que trata o interior da personagem, mostrando ao leitor não só a paisagem inóspita e os desajustes sociais, como também o modo de ser, de pensar e de sentir das personagens. Uma segunda novidade do livro é quanto à forma de composição. Cada um dos treze capítulos constitui uma célula com ritmo próprio, de modo que o leitor não encontra aí sua leitura habitual, direcionada e linear. A marcação do tempo não é cronológica, existem somente algumas poucas referências a um tempo indeterminado que serve para dirigir o leitor, mas o faz de maneira insólita e tateante. Ocorre o mesmo quanto ao espaço, apresentado na amplitude da catinga, em uma certa fazenda, perto de um povoado indeterminado. Os capítulos inicial e final contêm o mesmo assunto – a família parte em retirada – e têm, para diferenciá-los, o tratamento espaço-temporal. O primeiro – “Mudança” – traz os retirantes fugindo da seca e se refugiando na mesma região, defrontando-se com o espaço de uma fazenda abandonada. No último – “Fuga” – a família parte para outra região, onde enfrentará o desconhecido que se lhe afigura paradoxalmente como esperança e medo. Deve-se observar como são sugestivos os vocábulos: fuga acrescenta ao significado de mudança o tom fatal imposto pelo fato de se rumar ao encontro do desconhecido. A configuração desses dois capítulos lembra visualmente uma espiral com o espaço sendo apresentado em um crescente, tendo em comum o fato de apresentar ao leitor o universo físico em que ocorre a tragédia social da seca. Fuvest/Unicamp 08_vidas-secas.indd 91

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Aos elementos humanos da família cabem quatro capítulos – “Fabiano”, “sinha Vitória”, “O menino mais novo”, “O menino mais velho” – e têm como elo dois aspectos: o primeiro é a miséria do mundo físico (paisagem) extensiva ao mundo intelectual (linguagem) dos retirantes; o segundo, decorrente da carência de linguagem, deixa transparecer a mundividência de cada um deles, traduzida em duas posturas básicas: a falta de comunicação entre os participantes do grupo e a força interior atribuída pelo autor às personagens, a partir da utilização do discurso indireto livre. Uma personagem não humana, mas humanizada, é a cadela Baleia, à qual Graciliano dedica um capítulo, justamente o de sua morte. Mais humanizada que as crianças, a cadela atrai a simpatia do leitor por sua espontaneidade, vivacidade e capacidade de comunicar-se com outras personagens, sendo ela o único elemento estranho à família a vencer as barreiras da incomunicabilidade. Baleia, cujo nome espelha as ansiedades do sertanejo em constante procura pela água, também atende às necessidades lúdicas, o relacionamento leve que apraz o homo ludens, e, finalmente, o bicho é o elemento que aproxima as espécies, embora, no contexto da obra, torne as reações humanas muito próximas dos instintos animais (processo de antropomorfização, recurso usual entre os escritores naturalistas). Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro de cabras. (...)

Baleia acumula outras importantes funções na narrativa: ela é guia, indicando a direção a ser tomada; é muitas vezes responsável pela sobrevivência do grupo como animal de caça; é companheira das crianças nas folganças e dos adultos no trabalho. São atividades que a fazem partilhar a qualidade de personagem humana na narrativa. Ela pensa e age mais racionalmente do que outros elementos do grupo, daí decorre a consciência profunda, manifestada quando de sua morte. Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles. Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinha Vitória guardava o cachimbo. Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. (...) A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandaca-

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ru penetravam na carne meio comida pela doença. (...) Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás.

Dois capítulos são dedicados ao soldado amarelo: no primeiro – “Cadeia” – ele é o símbolo da repressão gratuita da autoridade: ... A autoridade rondou por ali um instante, desejosa de puxar questão. Não achando pretexto, avizinhou-se e plantou o salto da reiuna em cima da alpercata do vaqueiro. – Isso não se faz, moço, protestou Fabiano. Estou quieto. Veja que mole e quente é pé de gente. O outro continuou a pisar com força. Fabiano impacientou-se e xingou a mãe dele. Aí o amarelo apitou, e em poucos minutos o destacamento da cidade rodeava o jatobá. – Toca pra frente, berrou o cabo. Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusação medonha e não se defendeu. – Está certo, disse o cabo. Faça lombo, paisano. Fabiano caiu de joelhos, repetidamente uma lâmina de facão bateu-lhe no peito, outra nas costas. Em seguida abriram uma porta, deram-lhe um safanão que o arremessou para as trevas do cárcere. A chave tilintou na fechadura, e Fabiano ergueu-se atordoado, cambaleou, sentou-se num canto, rosnando: – Hum! hum! Por que tinham feito aquilo? Era o que não podia saber. Pessoa de bons costumes, sim senhor, nunca fora preso. De repente um fuzuê sem motivo. Achava-se tão perturbado que nem acreditava naquela desgraça. Tinham-lhe caído todos em cima, de supetão, como uns condenados. Assim um homem não podia resistir.

Em outro quadro – “Soldado amarelo” – o autor alude à covardia desta mesma autoridade quando distante das insígnias. Interessante notar que o adjetivo amarelo pode ser entendido como uma alusão ao cáqui da farda, à cor doentia do sertanejo e, por fim, ao pavor demonstrado pelo soldado quando distante do destacamento policial. ... De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade. (...) O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia. E Fabiano tinha vontade de levantar o facão de novo. Tinha vontade, mas os músculos afrouxavam. Realmente não quisera matar um cristão: procedera como quando, a montar brabo, evitava galhos e espinhos. (...) ... Nunca vira uma pessoa tremer assim. Cachorro. Ele não era dunga na cidade? não pisava os pés dos matutos, na feira? não botava gente na cadeia? Sem-vergonha, mofino.

Outro capítulo – “Contas” –, dedicado a deixar explícita a exploração do homem, é assentado no terror produzido pelo nome “patrão”, força bruta envolta em uma ausente identidade, em parte responsável pela desestrutura social encontrada no Nordeste: Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não

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tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia. Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros. Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria! O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda. Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. (...)

Sem dúvida, Graciliano deixa-se nortear por ideias socialistas, ao colocar a explicação de tão intrincado problema social nas mãos ou do governo oligárquico – até onde pode representar o soldado amarelo a defender os interesses de uma minoria e abusar da autoridade – ou do proprietário de terras, explorador insensível do sofrimento humano. É importante lembrar que as regiões predominantemente secas do Nordeste são, ainda hoje, dominadas pelas grandes propriedades extensivas de criação de gado. Dois capítulos são dedicados a devastar a intimidade da família. O primeiro – “Inverno” – trata do desconforto sofrido em uma noite chuvosa, típica do inverno dessas regiões, quando todos estão encolhidos ao redor de uma fogueira sofrendo as intempéries da umidade. O segundo – “Festa” – focaliza-os em dia de Natal na feira da cidade. Ambos têm como característica a capacidade de Graciliano Ramos de deixar transparente o visual, com a força pictórica de um artista plástico, demonstrando com pinceladas coloridas o pequeno mundo de personagens sofridas. Talvez o capítulo mais dramático da obra seja aquele que prenuncia uma nova seca – “O mundo coberto de penas” – relatando a luta incessante que os animais, inclusive o homem, travam na constante luta pela sobrevivência. O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. (...) Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos, consertando cercas. De re-

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pente, um risco no céu, outros riscos, milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes. (...)

Diante da força narrativa dos quadros, o enredo torna-se frágil: um grupo de nordestinos, composto de Fabiano, a mulher (sinha Vitória), dois filhos, uma cadela (Baleia) e, no início, um papagaio batem em retirada. Para a sobrevivência do grupo, é travada uma luta incessante, incluindo o sacrifício do papagaio e a mesquinha contribuição de Baleia através da caça de um preá, servindo para adiar a morte do grupo. Após tempos de caminhada, abrigam-se em uma fazenda abandonada. Vêm as chuvas, Fabiano oferece seus préstimos de vaqueiro e continua na fazenda consciente de sua transitoriedade naquelas paragens, quer porque o patrão poderia expulsá-los a qualquer instante, quer pela seca, terror constante por ser um processo cíclico e real. Nesse intervalo, Baleia morre. Quase desamparados, partem em busca de novas terras quando chegam as secas, mas desta vez fugindo para a cidade grande, acalentados pela esperança de uma vida melhor. Dos elementos constitutivos de Vidas secas podem ser destacados: a paisagem, a linguagem e o problema social, todos eles entrelaçados.

Paisagem: o sertão a pegar fogo No início do volume, Graciliano Ramos apresenta a paisagem nordestina, utilizando pouquíssimas palavras, vocábulos diretos e predominantemente denotativos, justamente para reforçar-lhe a característica principal: a seca. Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes.

O termo planície, denotativo de espaço amplo, é restringido por avermelhada. Os elementos que designam vida (juazeiros) estão na paisagem apenas como duas manchas verdes. A quase ausência de outros elementos indicativos de vida apenas corrobora a proposta do autor de introduzir uma paisagem praticamente morta. A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

Visualmente, a paisagem estende-se vermelha. O escritor, através do jogo das cores (branca e negra), completa o desencanto do cenário, uma vez que o branco é a cor das ossadas e o negro, a dos urubus. Triste e miserável cenário que estará presente em toda a obra, vencendo a vida porque traz em si o próprio significado da morte. Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham fugido...

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O meio físico serve de apoio para a apresentação de personagens que se identificam com a paisagem de modo a apresentar ao leitor a característica quase simbiótica que une o humano ao local por ele habitado. No entanto, nem tudo no Nordeste é seca. Ao chegar o inverno, as chuvas chegam e acuam as personagens porque também as maltratam: a água é, ao mesmo tempo, sinônimo de fertilidade e de destruição e morte. No capítulo “Inverno”, à maneira de um artista plástico, o autor retrata a família reunida em frente do fogo, estampando todo o drama da miséria e do desamparo: A família estava reunida em torno do fogo, Fabiano sentado no pilão caído, sinha Vitória de pernas cruzadas, as coxas servindo de travesseiros aos filhos. A cachorra Baleia, com o traseiro no chão e o resto do corpo levantado, olhava as brasas que se cobriam de cinza. Estava um frio medonho, as goteiras pingavam lá fora, o vento sacudia os ramos das catingueiras, e o barulho do rio era como um trovão distante.

Ambientados neste pequeno mundo, as personagens ficam frágeis e quebradiças diante de cenários não familiares, como é notado nas vezes em que elas vão ao povoado próximo. A cidade do “Soldado amarelo” e da “Festa” as amedronta porque as comprime. Fabiano só encontra forças para pensar agressivamente, desafiar e reagir aos brados quando fortalecido pela bebida. Fabiano estava silencioso, olhando as imagens e as velas acesas, constrangido na roupa nova, o pescoço esticado, pisando em brasas. A multidão apertava-o mais que a roupa, embaraçava-o. De perneiras, gibão e guarda-peito, andava metido numa caixa, como tatu, mas saltava no lombo de um bicho e voava na catinga. Agora não podia virar-se: mãos e braços roçavam-lhe o corpo. (...) Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. (...) Bebeu ainda uma vez e empertigou-se, olhou as pessoas desafiando-as. Estava resolvido a fazer uma asneira. (...)

A mesma catinga que abriga por algum tempo as personagens torna-se-lhes hostil. Há uma nova fuga: do espaço restrito partem rumo à terra desconhecida/prometida e, como o espaço que se abre, florescem as esperanças para os miseráveis em retirada. Não sentia a espingarda, o saco, as pedras miúdas que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro de carniças que lhe empestavam o caminho. (...) Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era. (...) Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. (...) Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos.

No encerramento do volume, Graciliano Ramos patenteia certa inverossimilhança, ao permitir que Fabiano divague muito além do que lhe fora permitido até 96 08_vidas-secas.indd 96

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então. Uma possível explicação é a de ser a perspectiva da cidade uma ampliação dos horizontes da personagem (Fabiano), uma vez que durante a narrativa suas aspirações quanto ao futuro ou mesmo quanto ao presente eram reduzidas, porque na luta contra o meio ingrato as atenções são sempre dirigidas para a chance de sobrevivência.

Linguagem: o reflexo das secas Um dos aspectos mais construtivos de Vidas secas diz respeito ao trabalho do escritor com a linguagem. Primeiramente é possível verificar a propriedade vocabular do autor com relação à paisagem e à apresentação das personagens. Ao tratar o cenário, como já foi esboçado, a linguagem enxuta serve para caracterizar a ambientação seca e miserável do Nordeste. Uma segunda maneira de analisar a propriedade vocabular diz respeito ao tratamento das personagens. O autor, para apresentá-las, atribui a estas um universo estreito em que o pensamento é moldado por palavras escolhidas de um vocabulário parco; daí surgirem ambições pequenas e limites estreitos para os pensamentos dos retirantes. Uma, duas, três, havia mais de cinco estrelas no céu. A Lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta.

Na passagem anterior tem-se uma mostra de quão pequeno é o universo de Fabiano. O número cinco é equivalente ao infinito no demonstrativo de quantidade que ele pretende dar às estrelas do céu. Em contraponto, percebe-se que o domínio do mundo físico se dá menos pelo pensamento que pela experiência sensitiva, tornando o empírico determinante nas relações do homem com o ambiente. Analogamente, a relação dos membros da família entre si e com o grupo é feita mais pela comunicação gestual e/ou onomatopaica que pela palavra, que, no entanto, é o dom supremo do ser racional. A redução do humano à condição de bicho é uma decorrência tão necessária quanto elevar o bicho à condição humana, irmanados que estão na luta pela sobrevivência e no constante desafio de enfrentar o ambiente inóspito. – Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

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– Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha. – Um bicho, Fabiano. Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.

Sinha Vitória tinha aspirações tão pequenas quanto Fabiano; seu infinito era ter uma cama, simbolizando a estabilidade, uma felicidade perseguida, mas não fácil de atingir. Unia o casal a quase certeza de que a vida naquelas paragens é marcada pela transitoriedade, não havendo raízes; o dia vindouro é inseguro, daí apegarem-se a sonhos; por mais miúdos que fossem, serviam como válvulas de escape. Avizinhou-se da janela baixa da cozinha, viu os meninos entretidos no barreiro, sujos de lama, fabricando bois de barro, que secavam ao sol, sob o pé-de-turco, e não encontrou motivo para repreendê-los. Pensou de novo na cama de varas e mentalmente xingou Fabiano. Dormiam naquilo, tinha-se acostumado, mas seria mais agradável dormirem numa cama de lastro de couro, como outras pessoas. (…) Sinha Vitória desejava possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau.

Seu Tomás da bolandeira surge, neste contexto, como um ser posto entre o humano e o divino, tornando-se o símbolo do saber, da humildade e da justiça. Restam algumas questões: até que ponto os envolvidos pela miséria estariam conscientes dos maus-tratos sofridos? Até que ponto a miséria sentida é mais forte que a consciência que se tem dela? É possível uma revolta de Fabiano, se ele não apresenta possibilidades de articulá-la concretamente devido aos limites de sua linguagem? A velhice e a educação dos filhos poderiam efetivamente ser pensadas dentro dos limites estreitos da consciência dos retirantes?

Patrão e soldado amarelo: entre a opressão e a repressão Dois capítulos de Vidas secas são dedicados ao problema da submissão do personagem diante da autoridade: “Contas” (capítulo X) e “Cadeia” (capítulo III). Em “Contas”, o patrão engana a personagem com contas que ele não entende e que diferem das feitas por sinha Vitória. Diante da “insolência” da personagem 98 08_vidas-secas.indd 98

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ao tentar contestar a autoridade do fazendeiro, impõe-se a submissão. O leitor, por meio do discurso indireto livre, capta o fluxo do pensamento de Fabiano, que revela sua incapacidade de articular e, consequentemente, de argumentar a seu favor: “com o avô fora assim, com o pai fora assim e com ele também se repetiria a mesma história?”. Embora sem se conformar, resigna-se e humildemente pede desculpas diante da autoridade. O patrão representa o poder pela propriedade e pelo dinheiro, portanto, o poder econômico. Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!

Em “Cadeia” tem-se outro momento de tensão do volume. Fabiano vai à cidade, encontra um soldado que o convida para um jogo de cartas. Fabiano é ludibriado no jogo, perde, desacata a autoridade, é humilhado e preso. A farda do soldado é sua autoridade. A personagem tem consciência de que não fizera nada e, se quisesse, poderia agredir o soldado, mas não o faz porque o soldado representa a autoridade instituída. Apenas esboça sua pequena indignação: Por que tinham feito aquilo? Era o que não podia saber. Pessoa de bons costumes, sim senhor, nunca fora preso. De repente um fuzuê sem motivo. Achava-se tão perturbado que nem acreditava naquela desgraça. Tinham-lhe caído todos em cima, de supetão, como uns condenados. Assim um homem não podia resistir.

Deve-se registrar que o capítulo mostra o poder político estabelecido a partir da utilização das forças armadas, representadas pelo amarelo (cáqui) da farda e simboliza o grupo repressor, coagindo e se impondo. Pode-se estabelecer um paralelo entre a força bruta do grupo e submissão do indivíduo que não se insubordina e aceita passivamente a sua condição. Essa visão é bem marcada em “Soldado amarelo” (capítulo XI) em que o mesmo soldado, estando sozinho, isto é, longe do grupo, é submetido ao jugo do indivíduo e “amarela”, ou seja, perde sua forma de coerção.

Existem soluções? O problema social tratado em Vidas secas é extremamente brasileiro e de âmbito regional. A seca gera miséria, e a miséria, a morte e a desolação. Nesse sentido, é lícito pensar que não sobram alternativas para os retirantes a não ser as migrações contínuas de terra para terra, na mesma região, caracterizando a mudança; ou de região para região, transfigurando-se em fuga. Em qualquer cenário, a relação estabelecida entre os retirantes e a fazenda ou a cidade grande é de vassalagem e de exploração, uma vez que esses homens Fuvest/Unicamp 08_vidas-secas.indd 99

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fortes acabam sendo tomados como mão de obra barata. Confundidas estão a seca e a exploração sofrida pelos miseráveis, e Graciliano retrata a dura e cruel realidade. No entanto, percebe-se que o vaqueiro respeita o trabalho que executa e ama a terra em que vive. Mas o sentimento telúrico fica amortecido diante do sofrimento advindo da falta de condições que viabilizam a sobrevivência do grupo, e o respeito pelo trabalho não lhe confere forças suficientes para enfrentar os poderosos. A vida nada tem de diferente da paisagem, resumos que são da miséria e da seca. O meio agride o homem, interferindo nas relações sociais. Nesse sentido, ao lado da tendência neorrealista coexiste a forte tendência neonaturalista em Vidas secas. Para concluir, é interessante notar a relação de semelhança entre os termos catinga, opção gráfica de Graciliano (ele poderia ter optado pela forma caatinga), para designar o lugar onde acontecem as ações do volume; e catinga, de catingar, fedor, mau cheiro; por extensão, o desagradável odor de morte que exala dessas regiões. As intempéries da natureza são geradoras da morte. Graciliano procura denunciar a falta de amparo sofrida por esses homens fortes sujeitos ao abandono e à falta de solidariedade. Em todos e em tudo estão as marcas do terror impressas pelos tempos cruéis de uma natureza ingrata. Não há mão que se levante para lutar pelos desamparados, não há governo que mude a situação já enraizada na própria estrutura do poder. Para os sertanejos só existe o caminho da esperança rumo ao Sul. Textos extraídos de: Graciliano Ramos. Vidas secas. São Paulo: Record, 2000.

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MODERNISMO

CapitĂŁes da Areia Jorge Amado

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Paladino da Justiça Jorge Amado (1912-2001) foi um dos escritores mais significativos da segunda geração modernista (1930-1945), também conhecida como neorrealista. Baiano de nascimento, exerceu o jornalismo e participou ativamente da vida política da região, envolvido na chamada esquerda comunista. Influenciado pela ideologia, coloca em muitas de suas obras os problemas relacionados com as injustiças sociais, a exploração do homem pelo homem e o poder exercido pelos “senhores de terra”. Como bom baiano, dedicou-se ao estudo das religiões e tradições afro-brasileiras, registrando aspectos pitorescos dos costumes e da vida de sua terra natal em boa parte de suas obras. É um dos autores mais populares da moderna ficção brasileira, traduzido para inúmeros idiomas, reconhecido internacionalmente e fonte de influência para as literaturas de língua portuguesa, tanto em Portugal como nos países lusófonos da África. Sua trajetória literária pode ser estudada em duas fases, tendo como obra delimitadora Gabriela, cravo e canela (1958). A primeira tem início com País do carnaval (1932) e se estende até Subterrâneos da liberdade (1954), contendo boa parte da ficção ideologicamente engajada de Jorge Amado. Situa-se nessa fase Capitães da Areia (1937), seu sexto romance. Capitães da Areia é uma narrativa de teor realista, revelando ao leitor um mundo de miséria, pobreza, desnutrição, desamparo, desesperança, mas também de companheirismo e poesia. Tem como ponto de partida e de chegada um trapiche, ou armazém abandonado, à beira-mar em Salvador, em que quase uma centena de crianças de rua procura abrigo. O livro não tem propriamente um enredo; intercala quadros vividos por personagens que revelam certas facetas do bando e da realidade, focados em suas vidas devassas, praticando pequenos crimes e envolvidos em toda a sorte de vícios, sem amparo de autoridades ou do assistencialismo religioso. Os meninos são liderados por Pedro Bala, moleque de 15 anos, filho de um operário assassinado durante uma greve, que tutela as ações das crianças sob sua guarda, comandando os expedientes para obter dinheiro e alimentos. A obra é escrita em terceira pessoa por um autor onisciente, que procura ser imparcial, ou seja, procura não se envolver na narrativa, mas se permite investigar o interior das personagens e dirigir o enredo. O livro serve como uma arma de denúncia contra o que existe de problemático na conjuntura social, daí seu caráter engajado. Ao registrar diferenças sociais e religiosas, os preconceitos e as discrepâncias de tratamento, a forma de falar e de agir de diferentes camadas sociais, Jorge Amado elabora um painel amplo e colorido da cidade de Salvador no final da década de 1930. Como não há determinação do tempo, percebe-se que as ações vinculam-se às estratégias do cangaceiro Lampião, tido como uma espéFuvest/Unicamp 09_capitaes-de-areia.indd 103

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cie de Robin Hood pela população mais carente. As ações de Lampião (que se estendem até 1938, ano de sua morte) tornam-se referências temporais, embora o volume seja datado de 1937. Um aspecto interessante da estrutura da obra está na forma como Jorge Amado inicia o romance, tendo como ponto de partida uma série de reportagens que versam sobre o tema “crimes cometidos por crianças abandonadas”. Capitães da Areia, o primeiro romance urbano do escritor, recorre a expedientes quase românticos para angariar a simpatia do leitor que, se por um lado fica condoído com a vida dos maltrapilhos, também nutre certo desprezo pelas camadas mais privilegiadas da população, que tapam os olhos diante de uma realidade ingrata. Jorge Amado chega ao século XXI renovado e atual. Suas preocupações com desajustes sociais ainda hoje são estampadas em noticiários, as ações dos personagens da década de 1930 são muito semelhantes às das crianças abandonadas e infratoras que ainda hoje constituem problemas de difícil solução.

Estrutura e enredo Prólogo: “Cartas à redação” O primeiro ponto importante na estruturação do romance é a forma extremamente criativa como o autor o introduz. Abrindo-se para o universo jornalístico, há, no prólogo intitulado “Cartas à redação”, transcrições ipsis litteris1 de algumas reportagens e cartas publicadas no Jornal da Tarde, desencadeadas pela notícia “Crianças ladronas”, cujo assunto é o roubo ocorrido na casa de um rico comerciante residente em um bairro de elite de Salvador. A reportagem aponta crianças abandonadas como responsáveis pelo crime. Em seguida, são transcritas cinco cartas vazadas em linguagens diferentes, representando camadas sociais também diferentes. A primeira, escrita em tom oficial, é redigida em nome do chefe de polícia, que se exime de responsabilidade quanto ao crime, alegando que tais furtos deveriam ser coibidos pelo Juizado de Menores. A segunda carta, em linguagem floreada, vem assinada pelo Juiz de Menores, defendendo-se da acusação, colocando-se à disposição da polícia, mas passando a responsabilidade para o reformatório. A terceira e a quarta cartas contrastam com as demais pela linguagem utilizada. Na terceira, pedindo desculpas pela letra e pelos erros, uma mãe trabalhadora acusa o reformatório de não ser um lugar de aprendizagem, mas de deformação do caráter das crianças que lá são acolhidas, sendo deploráveis as condições de vida dos menores nesse local. A quarta carta, assinada pelo padre José Pedro, é marcada por uma linguagem mais enxuta; referenda as acusações da costureira, alegando 1

ipsis litteris (locução adverbial) – nos mesmos termos; tal como está escrito.

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desumanidade no tratamento das crianças recolhidas na instituição. A sexta carta, subscrita pelo diretor do reformatório, refuta as acusações de forma laudatória. Após visita às instalações do reformatório, o jornal publica uma nota na primeira página, em que elogia o estabelecimento – “modelar onde reinam a paz e o trabalho – um diretor que é um amigo – ótima comida...” –, ou seja, apoia os procedimentos educacionais do reformatório. Conforme a notoriedade do autor da carta, ela é publicada em uma determinada página, facilitando (ou dificultando) a leitura da mesma. O prólogo escrito de forma sui generis2 procura dar verossimilhança ao conteúdo do livro, chamando a atenção do leitor para a realidade que ele deverá encontrar ao virar as páginas do livro.

1ª parte: “Sob a lua, num velho trapiche abandonado” Subdividida em 10 capítulos, a primeira parte apresenta o local em que as ações transcorrerão. Um trapiche (ou armazém abandonado), à beira-mar, que no passado fora um local movimentado e agora está sujo e infestado de ratos. Fora frequentado inicialmente pela marginália, até ser tomado pelo bando dos Capitães da Areia. Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar-oceano, as noites diante dele eram de um verde-escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite.

Ao contrário de outros grupos espalhados pela cidade, os Capitães da Areia têm líder, seguem normas e, principalmente, obedecem a um chefe que cumpre o papel de “manter um lar” para as crianças que ali vivem. Pedro Bala, quase naturalmente, surge como líder e tem o papel de harmonizar, manter a ordem e, de certa maneira, ensiná-los a agir sob certas circunstâncias. Com quinze anos, audaz, ativo e conhecedor de todos os recantos da cidade, é marcado por uma cicatriz e por seus cabelos loiros. Poucos lhe conheceram a mãe, e o pai “morrera de um balaço”, daí talvez a origem de seu apelido. Para firmar a liderança, Pedro Bala destituiu o caboclo Raimundo, após uma luta pelo “poder”. 2

sui generis (locução adjetiva) – sem semelhança com nenhum outro, único no gênero; original, singular.

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Não durou muito na chefia o caboclo Raimundo. Pedro Bala era muito mais ativo, sabia planejar os trabalhos, sabia tratar com os outros, trazia nos olhos e na voz a autoridade de chefe. Um dia brigaram. A desgraça de Raimundo foi puxar uma navalha e cortar o rosto de Pedro, um talho que ficou para o resto da vida. Os outros se meteram e como Pedro estava desarmado deram razão a ele e ficaram esperando a revanche, que não tardou. Uma noite, quando Raimundo quis surrar Barandão, Pedro tomou as dores do negrinho e rolaram na luta mais sensacional a que as areias do cais jamais assistiram. Raimundo era mais alto e mais velho. Porém Pedro Bala, o cabelo loiro voando, a cicatriz vermelha no rosto, era de uma agilidade espantosa e desde esse dia Raimundo deixou não só a chefia dos Capitães da Areia, como o próprio areal. Engajou tempos depois num navio.

O último parágrafo do primeiro capítulo revela o olhar lírico do autor para com os desvalidos, que Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.

O segundo capítulo introduz alguns outros personagens. João Grande, subchefe, menino de 13 anos, moleque de bom coração e senso de justiça, não tinha inteligência aguçada, mas sua enorme força muscular o fizera temido. Sem-Pernas, espião do grupo, sabia fingir e agir em benefício próprio; agressivo e revoltado por causa de um defeito físico, perdera os pais na imensidão da cidade, e se aproveitava do fato de ser coxo para angariar a simpatia de uma mãe de família. João José, cujo apelido é Professor, é o mais culto do bando, praticamente autodidata, lia para os pequenos e se interessava por qualquer livro que lhe caía nas mãos; além disso, tinha pendor para as artes plásticas, desenhando com giz a realidade que o circundava com precisão. O Gato, mais malandro que os outros, tornara-se amante de uma prostituta e dela recebia o necessário para sua sobrevivência; é sinônimo de vigarista que tira proveito dos outros. Pirulito era uma verdadeira vocação religiosa e tinha entre seus roubos e pertences duas imagens sagradas. Barandão e Almiro destacam-se por representarem o despertar da homossexualidade. Boa-Vida é malandro como Gato, mas não é galã; por ser feio, conquista os outros pelo gingado, pelo jeito de tocar violão e cantar. Volta Seca, alto e magro, é outro elemento esquematizado e tipificado, como são vários outros perfis humanos rejeitados pela vida e pela sociedade. Praticamente todos os personagens da obra são conhecidos pelos apelidos que, de uma forma ou de outra, representam alguma anomalia ou característica física ou psicológica. O autor, ao caracterizar os personagens, evidencia aspectos da vida dos garotos que permitem revelar suas angústias, seus temores, sua formação moral. Trata-se de crianças cuja personalidade fora construída no desamparo, sem o guia da educação e sem o conforto, o carinho e a proteção dos pais. Essas crianças ape106 09_capitaes-de-areia.indd 106

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nas encontram algum amparo em Don’Aninha, mãe de santo do terreiro da Cruz de Opô Afonjá, no padre José Pedro e em Querido-de-Deus, o capoeirista. ... O Sem-Pernas recuou e a sua angústia cresceu. Todos procuravam um carinho, qualquer coisa fora daquela vida: o Professor naqueles livros que lia a noite toda, o Gato na cama de uma mulher da vida que lhe dava dinheiro, Pirulito na oração que o transfigurava, Barandão e Almiro no amor na areia do cais. O Sem-Pernas sentia que uma angústia o tomava e que era impossível dormir. Se dormisse viriam os maus sonhos da cadeia. Queria que aparecesse alguém a quem ele pudesse torturar com dichotes. Queria uma briga. Pensou em ir acender um fósforo na perna de um que dormisse. Mas quando olhou da porta do trapiche, sentiu somente pena e uma doida vontade de fugir. E saiu correndo pelo areal, correndo sem fito, fugindo da sua angústia.

No capítulo três da primeira parte, o leitor conhece Querido-de-Deus, que os contrata para um “trabalho”. A forma como as crianças agem, desde a articulação de um roubo, até sua execução, é mostrada com pequenos detalhes. No capítulo seguinte, “As luzes do carrossel”, o leitor conhece a face infantil das crianças, deslumbradas com um carrossel itinerante que, embora decadente, desperta a ingenuidade dos meninos. Um bando de pequenos criminosos mostra-se infantil diante de um carrossel. Nhozinho França, dono de um decadente parque de diversões, contrata Sem-Pernas e Volta Seca para ajudarem-no a vender os ingressos. Os meninos acolhem a ideia com entusiasmo, ajudando a montar o engenho e a vender ingressos. Certa hora Nhozinho França manda que o Sem-Pernas vá substituir Volta Seca na venda de bilhetes. E manda que Volta Seca vá andar no carrossel. E o menino toma o cavalo que serviu a Lampião. E enquanto dura a corrida, vai pulando como se cavalgasse um verdadeiro cavalo. E faz movimentos com o dedo, como se atirasse nos que vão na sua frente, e na sua imaginação os vê cair banhados em sangue, sob os tiros da sua repetição... E o cavalo corre e cada vez corre mais, e ele mata a todos, porque são todos soldados ou fazendeiros ricos. Depois possui nos bancos a todas as mulheres, saqueia vilas, cidades, trens de ferro, montado no seu cavalo, armado com seu rifle. Depois vai o Sem-Pernas. Vai calado, uma estranha comoção o possui. Vai como um crente para uma missa, um amante para o seio da mulher amada, um suicida para a morte. Vai pálido e coxeia. Monta um cavalo azul que tem estrelas pintadas no lombo de madeira. Os lábios estão apertados, seus ouvidos não ouvem a música da pianola. Só vê as luzes que giram com ele e prende em si a certeza de que está num carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame. Pensa que é um deles e fecha os olhos para guardar melhor esta certeza. Já não vê os soldados que o surraram, o homem de colete que ria. Volta Seca os matou na sua corrida. O Sem-Pernas vai teso no seu cavalo. É como se corresse sobre o mar para as estrelas na mais maravilhosa viagem do mundo. Uma viagem como o Professor nunca leu nem inventou. Seu coração bate tanto, tanto, que ele o aperta com a mão.

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Ainda nesse capítulo, o leitor conhece o padre José Pedro, uma das poucas pessoas a ter acesso ao esconderijo do bando. O padre é abnegado, preocupa-se com os desamparados e, por isso, recebe advertências do alto clero. De origem humilde, seu maior sonho era tornar-se pároco, mas, apesar das promessas, nunca recebera uma paróquia. Enquanto todos desdenham os Capitães da Areia, o padre procura entendê-los, tratando-os com dignidade e, aos poucos, angaria a confiança do grupo. Paradoxalmente ao que se espera da religião, é condenado por suas atitudes diante dos humildes, como se percebe pela conversa entre ele e uma devota: – O senhor não se envergonha de estar nesse meio, padre? Um sacerdote do Senhor? Um homem de responsabilidade, no meio desta gentalha... – São crianças, senhora. A velha olhou superior e fez um gesto de desprezo com a boca. O padre continuou: – Cristo disse: “Deixai vir a mim as criancinhas”... – Criancinhas... Criancinhas... – cuspia a velha. (...) – Isso não são crianças, são ladrões. Velhacos, ladrões. Isso não são crianças ...

No capítulo “Docas”, em conversa com o estivador João de Adão, Pedro Bala fica sabendo da vida heroica do pai, também estivador no porto, morto pela Cavalaria em uma greve. Ainda ouve a promessa de que, assim que quisesse, teria garantido o ingresso nas docas, e, dessa forma, poderia seguir os passos do pai. Nesse momento, pela primeira vez, Pedro Bala sente-se atraído pelo desejo de participar de lutas libertárias. Ao mesmo tempo, ao longo dos capítulos, Jorge Amado vai registrando suas observações sobre o meio religioso da Bahia, marcado pelo sincretismo, algo muito pronunciado na vida baiana. Pedro Bala veio sozinho pelas ruas da cidade, pois o Boa-Vida fora com o Querido-de-Deus dançar num bleforé. Desceu as ladeiras que o conduziam à cidade baixa. Ia devagar, como se carregasse um peso dentro de si, ia como que curvado por dentro. Pensava na conversa da tarde com João de Adão, conversa que o alegrara porque ficara sabendo que seu pai fora um homem valente do cais, um homem que chegara a deixar uma história. Mas João de Adão falara também dos direitos dos doqueiros. Pedro Bala nunca tinha ouvido falar naquilo e, no entanto, fora por estes direitos que seu pai morrera. E depois, na macumba do Gantois, Omolu, paramentada de vermelho, dissera que o dia da vingança dos pobres não tardaria em chegar.

O esboço da consciência política coincide com a explosão do instinto animalesco que o leva a violentar, nas areias da praia, uma jovem de quinze anos, ainda virgem. Atormentado pelo desejo, não pensa na desumanidade da violência que está praticando, mas, depois do ato ... tinha vontade de se jogar no mar para se lavar de toda aquela inquietação, a vontade de se vingar dos homens que tinham matado seu pai, o ódio que sentia contra a cidade rica que se estendia do outro lado do mar, na Barra, na Vitória, na Graça, o desespero da sua vida de criança abandonada e perseguida, a pena que sentia pela pobre negrinha, uma criança também.

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Outros casos são narrados no transcorrer dos capítulos dessa primeira parte. Em “Aventuras de Ogum”, são relatadas a agilidade, inteligência e presteza dos meninos para resgatar das mãos da polícia a imagem de Ogum. Em meio à grosseira realidade, até a religião passa pelo crivo das diferenças sociais. ... Os candomblés batiam em desagravo a Ogum e talvez num deles ou em muitos deles Omolu anunciasse a vingança do povo pobre. Don’Aninha disse aos meninos com uma voz amarga: – Não deixam os pobres viver... Não deixam nem o deus dos pobres em paz. Pobre não pode dançar, não pode cantar pra seu deus, não pode pedir uma graça a seu deus. – Sua voz era amarga, uma voz que não parecia da mãe de santo Don’Aninha. – Não se contentam de matar os pobres a fome. Agora tiram os santos dos pobres... – e alçava os punhos.

Em “Deus sorri como um negrinho”, é revelada, de forma lírica e poética, a vocação religiosa e mística de Pirulito, quando de um roubo de uma imagem santa. Os paradoxos do grupo são acentuados principalmente quando se contrasta a profunda desumanidade com a inconsciência de uma sociedade que privilegia certos valores, mas que fecha os olhos para o real, que finge caridade, mas delega ao outro fazê-la. ... O difícil para o padre José Pedro era conciliar as coisas. Mas ia tenteando e por vezes sorria satisfeito dos resultados. A não ser quando João de Adão ria dele e dizia que só a revolução acertaria tudo aquilo. Lá em cima, na cidade alta, os homens ricos e as mulheres queriam que os Capitães da Areia fossem para as prisões, para o Reformatório, que era pior que as prisões. Lá embaixo, nas docas, João de Adão queria acabar com os ricos, fazer tudo igual, dar escola aos meninos. O padre queria dar casa, escola, carinho e conforto aos meninos sem a revolução, sem acabar com os ricos. Mas de todos os lados era uma barreira. Ficava como perdido e pedia a Deus que o inspirasse. E com certo pavor via que, quando pensava no problema, dava, sem sequer o sentir, razão ao doqueiro João de Adão. Então era possuído de temor, porque não fora assim que lhe haviam ensinado, e rezava horas seguidas para que Deus o iluminasse. Pirulito fora a grande conquista do padre José Pedro entre os Capitães da Areia. Tinha fama de ser um dos mais malvados do grupo, contavam dele que uma vez pusera o punhal na garganta de um menino que não queria lhe emprestar dinheiro e o fora enfiando devagarinho, sem tremer, até que o sangue começou a correr e o outro lhe deu tudo que queria.

O verdadeiro sentido da religião está no trecho em que Pirulito, movido pela fé e encantado com a imagem do Menino Jesus que vê em uma vitrine, rouba mais uma vez, mas transfigurado pelos ensinamentos religiosos incutidos pelo padre, sonha com um milagre, uma doação da Virgem. ... Sim, foi a Virgem, que agora estende o Menino para Pirulito o quanto podem seus braços e o chama com sua doce voz: – Leve e cuide dele... Cuide bem... Pirulito avança. Vê o inferno, o castigo de Deus, suas mãos e sua cabeça a arder uma

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vida que nunca acaba. Mas sacode o corpo como que jogando longe a visão, recebe o Menino que a Virgem lhe entrega, o encosta ao peito e desaparece na rua. Não olha o Menino. Mas sente que agora, encostado ao seu peito, o Menino sorri, não tem mais fome nem sede nem frio .

Os três substantivos que encerram a citação abrem-se para o capítulo “Família”. Os meninos planejam fazer grande roubo em uma casa rica e usam Sem-Pernas como isca. Aproveitando-se de sua deficiência, Sem-Pernas sondaria a casa e indicaria ao grupo os objetos de valor que poderiam ser levados. No entanto, a família rica havia perdido um filho ainda criança, e, ao verem um menino com quase a mesma idade do filho, condoem-se e o tratam com carinho. A perspectiva de um lar faz Sem-Pernas esmorecer e refletir sobre suas próprias necessidades de proteção, mas sua consciência “de classe” e o apego ao grupo superam a vontade que teve de se entregar aos prazeres de uma família. ... Desta vez não o deixaram na cozinha com seus molambos, não o puseram a dormir no quintal. Deram-lhe roupa, um quarto, comida na sala de jantar. Era um hóspede (...) E fumando o seu cigarro escondido (o Sem-Pernas pergunta a si mesmo por que está se escondendo para fumar), o Sem-Pernas pensa sem compreender (...), mas tem medo. E levanta-se, sai do seu esconderijo e vai fumar bem por baixo da janela da senhora. Assim verão que ele é um menino perdido, (...) Assim o mandarão para a cozinha, e ele poderá levar para diante sua obra de vingança, conservar o ódio no seu coração. (...) E diante dos seus olhos passa a visão do homem de colete que vê os soldados a espancar o Sem-Pernas e ri numa gargalhada brutal. Isso há de impedir sempre o Sem-Pernas de ver o rosto bondoso de dona Ester, o gesto protetor das mãos do padre José Pedro, a solidariedade dos músculos grevistas do estivador João de Adão. Será sozinho e seu ódio alcança a todos, brancos e negros, homens e mulheres, ricos e pobres. Por isso teme que sejam bons para consigo.

Os três últimos capítulos da primeira parte do livro, “Manhã como um quadro”, “Alastrim” e “Destino”, tratam, respectivamente, de uma antecipação do destino do Professor, que, no futuro, se transformará em grande pintor e revelará ao mundo a arte na criança que chora; a morte e a miséria das comunidades carentes, quando do surto de varíola que se alastra pela região e o tratamento subumano que é dado aos doentes; e, finalmente, da semente da revolução que começa a germinar em Pedro Bala. Numa mesa pediram cachaça. Houve um movimento de copos no balcão. Um velho então disse: – Ninguém pode mudar o destino. É coisa feita lá em cima – apontava o céu. Mas João de Adão falou de outra mesa: – Um dia a gente muda o destino dos pobres... Pedro Bala levantou a cabeça, Professor ouviu sorridente. Mas João Grande e Boa-Vida pareciam apoiar as palavras do velho, que repetiu: – Ninguém pode mudar, não. Está escrito lá em cima. – Um dia a gente muda... – disse Pedro Bala, e todos olharam para o menino.

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2ª parte: “Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos” A segunda parte, composta por oito capítulos, gira em torno de uma nova personagem, apresentada no capítulo “Filha de bexiguento”. Trata-se de Dora, menina que perde os pais vitimados pela bexiga que se alastrou pela cidade e a deixou órfã, com um irmão menor, Zé Fuinha, sob seus cuidados. Como é rejeitada por todos, principalmente por causa da doença dos pais, Dora só consegue abrigo entre os Capitães da Areia. No início, a menina é vista como mulher e os meninos do trapiche querem violentá-la, mas o Professor, Pedro Bala e João Grande protegem a jovem, não deixando que nada de mal lhe aconteça. Gradativamente, Dora vai deixando o papel de criança desabrigada para assumir o papel de mãe carinhosa e meiga, protetora e defensora de uma prole que ela não tivera, mas que faz questão de cuidar, conforme é dito em “Dora, mãe”. ... A mão de Dora o toca de novo. Agora a sensação é diferente. Não é mais um arrepio de desejo. É aquela sensação de carinho bom, de segurança que lhe davam as mãos de sua mãe. Dora está por trás dele, ele não vê. Imagina então que é sua mãe que voltou. Gato está pequenino de novo, vestido com um camisolão de bulgariana e nas brincadeiras pelas ladeiras do morro o rompe todo. E sua mãe vem, faz com que ele se sente na sua frente e suas mãos ágeis manejam a agulha, de quando em vez tocam e lhe dão aquela sensação de felicidade absoluta. Nenhum desejo. Somente felicidade. Ela voltou, remenda as camisas do Gato. Uma vontade de deitar no colo de Dora e deixar que ela cante para ele dormir, como quando era pequenino. Se recorda que ainda é uma criança. Mas só na idade, porque no mais é igual a um homem, furtando para viver, dormindo todas as noites com uma mulher da vida, tomando dinheiro dela. Mas nesta noite é totalmente criança, esquece Dalva, suas mãos que o arranham, lábios que prendem os seus em beijos longos, sexo que o absorve. Esquece sua vida de pequeno batedor de carteiras, de dono de um baralho marcado, jogador desonesto. Esquece tudo, é apenas um menino de quatorze anos com uma mãezinha que remenda suas camisas. Vontade de que ela cante para ele dormir... Uma daquelas cantigas de ninar que falam em bicho-papão. Dora morde a linha, se inclina para ele. Os cabelos loiros dela tocam no ombro do Gato. Mas ele não tem outro desejo senão que ela continue a ser sua mãezinha. (...) Levanta, olha Dora com olhos agradecidos: – Você é a mãezinha da gente, agora... – mas fica encabulado do que diz, pensa que Dora não compreenderá mesmo, porque ela está rindo com seu rosto sério de quase mulherzinha. Mas Professor compreende, e Gato, na frente de Dora, falando numa voz feliz, mas sem desejo, chamando-a de mãe, e ela sorrindo com seu ar maternal de quase mulherzinha, fica gravado na cabeça do Professor como um quadro.

Embora secretamente, o Professor passara a amar a menina e, no futuro, em suas produções artísticas, jamais deixará de colocar a imagem dela. No capítulo “Dora, irmã e noiva”, a partir da integração definitiva da menina ao grupo, inclusive participando como menino das atividades, assume, além do papel de mãe, o papel de irmã. Fuvest/Unicamp 09_capitaes-de-areia.indd 111

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Andava com eles pelas ruas, igual a um dos Capitães da Areia. Já não achava a cidade inimiga. Agora a amava também, aprendia a andar nos becos, nas ladeiras, a pongar nos bondes, nos automóveis em disparada. Era ágil como o mais ágil. Andava sempre com Pedro Bala, João Grande e Professor. João Grande não a largava, era como uma sombra de Dora, e se babava de satisfação quando ela o chamava com sua voz amiga de “meu irmão”. O negro a seguia como um cachorro e se dedicara totalmente a ela. Vivia num assombro das qualidades de Dora. Quase a achava tão valente como Pedro Bala. Dizia o Professor num espanto: – É valente como um homem... Professor preferia que não fosse assim. Sonhava com um olhar de carinho dos olhos da Dora. Mas não daquele carinho maternal que ela tinha para os menores e para os mais tristes, Volta Seca, Pirulito. Tampouco um olhar fraternal, como os o que ela lançava a João Grande, a Sem-Pernas, a Gato e a ele mesmo. Queria um daqueles olhares plenos de amor que ela lançava a Pedro Bala quando o via na carreira, fugindo da polícia ou de um homem que dizia na porta de uma loja: – Ladrão! Ladrão! Me furtaram... Daqueles olhares ela só tinha para Pedro Bala, e este nem reparava. Professor ouve os elogios de João Grande, mas não sorri. (...) Ela de longe sorria para Pedro Bala. Não havia nenhuma malícia no seu sorriso. Mas seu olhar era diferente do olhar de irmã que lançava aos outros. Era um doce olhar de noiva, de noiva ingênua e tímida. Talvez mesmo não soubessem que era amor. Apesar de não ser noite de lua, havia um romântico romance no casarão colonial. Ela sorria e baixava os olhos, por vezes piscava com um olho porque pensava que isto era namorar. E seu coração batia rápido quando o olhava. Não sabia que isso era amor.

O capítulo “Reformatório” retoma as notícias do Jornal da Tarde, deixando o leitor a par do que ocorrera com o bando desde o assalto frustrado até a captura de Dora e Pedro Bala. Em “Orfanato”, os pequenos criminosos, não querendo denunciar os outros membros do grupo, tampouco o esconderijo que lhes serve de abrigo, aceitam resignados a sorte: Pedro Bala vai preso e Dora é conduzida ao orfanato. Os dois passam os maiores dissabores nas duas instituições até que são soltos pelos companheiros. O caráter de Pedro Bala, verdadeiro líder, modela-se ainda mais, pois, mesmo na solitária, mesmo sofrendo horrores, não se deixa seduzir pelas facilidades que lhe prometem, não denuncia, não admite delatar nenhum de seus companheiros. Entrementes, Dora adoece e míngua de uma febre que a corrói. Ao serem soltos pelos companheiros, a menina já se encontra nos últimos lampejos de vida. No capítulo “Dora, esposa”, no seu último ato consciente, torna-se completamente mulher e entrega-se a Pedro Bala. Encerrando a segunda parte do livro tem-se “Como uma estrela de loira cabeleira”, mostrando a morte como encantamento e, como quer Pedro Bala, Dora é transmudada em estrela, aquela que o guiará. Contam no cais da Bahia que quando morre um homem valente vira estrela no céu. Assim foi com Zumbi, com Lucas da Feira, com Besouro, todos os negros valentes. Mas nunca se viu um caso de uma mulher por mais valente que fosse, virar estrela depois de morta. (...)

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Que importa tampouco que os astrônomos afirmem que foi um cometa que passou sobre a Bahia naquela noite? O que Pedro Bala viu foi Dora feita estrela, indo para o céu.”

3ª parte: “Canção da Bahia, canção da liberdade” O narrador fecha o romance relatando o destino dos membros que foram destacados ao longo do romance. As crianças tornam-se jovens e adultos e vão deixando o trapiche. Professor parte para o Rio de Janeiro e inicia um curso de pintura acadêmica, mas logo o abandona para dar vazão a seu veio artístico natural, popular, espontâneo. Torna-se um pintor de sucesso, com direito a uma exposição. Nessa noite, Professor não acendeu vela, não abriu livro de história. Ficou calado quando João Grande veio para seu lado. Arrumava suas coisas numa trouxa. Quase tudo era livro. João Grande olhava sem dizer nada, mas compreendia muito, se bem todos dissessem que não havia negro mais burro (...) Ainda de longe, Professor vê o boné de Pedro, que se sacode no cais. E no meio daqueles homens desconhecidos, oficiais fardados, comerciantes e senhoritas, fica tímido, não sabe que fazer, sente que toda a sua coragem ficou com os Capitães da Areia. Mas dentro do seu peito vem uma marca de amor à liberdade. Marca que o faria abandonar o velho pintor que lhe ensina coisas acadêmicas para ir pintar por sua conta quadros que, antes de admirar, espantam todo o país.

Pirulito “desiste da sua liberdade, de ver e ouvir o espetáculo do mundo, da marca de aventura dos Capitães da Areia para ouvir o chamado de Deus”, ingressa na ordem dos Capuchinhos e ensina catecismo para crianças pobres. Padre José Pedro finalmente realiza seu grande sonho e recebe sua paróquia, pequena e esquecida, no meio do cangaço, numa perdida vila do alto sertão. Ao despedir-se, o padre vê reconhecido seu trabalho: recebe o agradecimento dos meninos. Boa-Vida torna-se mais um malandro a vagar pelas ruas da cidade, “toca seu violão, come e bebe do melhor, apaixona as cabrochas bonitas com sua voz e sua música. Arma fuzuês nas festas, e quando a polícia o persegue, vem se esconder no trapiche”. Gato viaja para Ilhéus em companhia de Dalva, prostituta e sua amante, torna-se “jogador, vigarista e gigolô de mulheres”. João Grande ingressa na Marinha Mercante. Volta Seca, após ser preso e torturado, encontra-se com o grupo de Lampião e engaja-se, porque seu caminho é a vingança, “porque agora tinha uma missão na vida: matar soldados de polícia.” O destino mais trágico foi o de Sem-Pernas, que, para não se entregar à polícia, “sobe para o pequeno muro, volve o rosto para os guardas que ainda correm, ri com toda a força do seu ódio, cospe na cara de um que se aproxima estendendo os braços, se atira de costas no espaço, como se fosse um trapezista de circo”. Fuvest/Unicamp 09_capitaes-de-areia.indd 113

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... Só Pedro Bala não sabe o que fazer. Dentro em pouco será mais que rapazola, será um homem e terá que deixar para outro a chefia dos Capitães da Areia. Para onde irá? Não poderá ser um intelectual como Professor, cujas mãos só viviam para pintar, não nasceu para malandro, como Boa-Vida, que não sente o espetáculo da luta diária dos homens, que só ama andar vagabundeando pelas ruas, conversar acocorado nas docas, beber nas festas de morro. Pedro sente o espetáculo dos homens, acha que aquela liberdade não é suficiente para a sede de liberdade que tem dentro de si. Tampouco sente o chamado de Deus, como Pirulito o sentiu. Para ele, as pregações do padre José Pedro nunca disseram nada. Gostava do padre como de um homem bom. Só as palavras de João de Adão encontravam acolhida no seu coração. Mas João de Adão mesmo sabe muito pouco. O que tem é músculos potentes e voz autoritária, e no entanto amiga, para chefiar uma greve. Tampouco Pedro Bala quer ir como Gato enganar os coronéis de Ilhéus, arrancar o dinheiro deles. Quer qualquer coisa que não sabe ainda o que é, e por isso se demora entre os Capitães da Areia.

No capítulo “Notícias de jornal”, Jorge Amado novamente volta à redação do Jornal da Tarde para, em forma de notícia, estampar manchetes, selando o destino dos meninos: Professor expõe “cenas e retratos de meninos pobres. É que todos os sentimentos bons estão sempre representados na figura de uma menina magra de cabelos loiros e faces febris”; Gato e Volta Seca são presos. Enquanto para uns o caminho é a lei ou a morte, para outros é a luta por um mundo melhor. Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vários não tinham existência legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam nas fábricas, passados de mão em mão, e que eram lidos à luz de fifós, publicavam sempre notícias sobre um militante proletário, o camarada Pedro Bala, que estava perseguido pela polícia de cinco estados como organizador de greves, como dirigente de partidos ilegais, como perigoso inimigo da ordem estabelecida. No ano em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais (únicas bocas que ainda falavam) clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder da sua classe, que se encontrava preso numa colônia. E, no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E, apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.

Considerações finais Capitães da Areia, embora não seja a obra-prima de Jorge Amado, tem ainda hoje sua força na maneira contundente com que ele critica a sociedade como um todo, sociedade marcada pelos contrastes, pelo descaso das autoridades e pelo segregacionismo com que os mais privilegiados eliminam de suas existências a consciência de que existem camadas mais pobres. Percebe-se, também, o preconceito com que as crianças abandonadas são tratadas e como são segregados não só aqueles que vivem na miséria, como aque114 09_capitaes-de-areia.indd 114

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les que sofrem de alguma doença, principalmente se se tratar de alguma doença contagiosa. Os meninos que representam os desamparados e desafortunados, de uma forma ou de outra, lutam para saírem da miséria em que vivem, seja por meio do roubo, da malandragem, ou por meio da arte, da política ou da religião. Há a concepção do herói moderno, o anti-herói, construído a partir da malandragem, da maneira como ele burla a realidade para sobreviver em meio às intempéries. Há os verdadeiros heróis, aqueles que transcendem a existência alienada em busca de algo mais substancial – o intelectual, pela denúncia através de sua arte; o líder político, pela luta para a construção de uma nova realidade; o religioso, por acreditar que nosso reino é em outro mundo. Alguns personagens, que representam os deslocados, têm final trágico, são presos ou mortos – final possível para todos aqueles que não se integram no quadro de redenção proposto pelo autor e são os geradores de conflitos. As pequenas histórias protagonizadas pelos integrantes do bando dos Capitães da Areia são articuladas para comover o leitor, e essa narrativa feita com pequenos quadros alimenta uma espiral crescente que levará Pedro Bala a estabelecer seus valores e, de certa forma, alinhavar o fio condutor da narrativa. Todos giram em torno dele e em torno do trapiche. Praticamente inexistem personagens que estão no outro lado, pertencentes às camadas mais privilegiadas. Deles só ouvimos a voz, a voz que destoa, que caracteriza a profunda discrepância social. Textos extraídos de: Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Ed. Record, 74. ed.

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MODERNISMO

Sentimento do mundo Carlos Drummond de Andrade

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Vida somente poesia Em 1902, na cidade mineira de Itabira, nasce Carlos Drummond de Andrade, um dos mais representativos poetas da moderna literatura brasileira. Como ele mesmo diz, é filho de pais burgueses, que o educam no temor de Deus. Faz os primeiros estudos na cidade natal e daí segue para Belo Horizonte. Posteriormente, estuda como interno no Colégio Anchieta, educandário dirigido por padres jesuítas, em Friburgo. Conforme escreve em Confissões de Minas: Primeiro aluno da classe, é verdade que mais velho que a maioria dos colegas, comportava-me como um anjo, tinha saudades da família, e todos os outros bons sentimentos, mas expulsaram-me por “insubordinação mental”. (...) A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda a minha vida. Perdi a fé. Perdi tempo. E sobretudo perdi a confiança na justiça dos que me julgavam. Mas ganhei vida, e fiz alguns amigos inesquecíveis.

Para obter diploma, frequenta o curso de Farmácia, mas não chega a exercer a profissão. Mantém amizade com um grupo de intelectuais mineiros e se corresponde com os modernistas Manuel Bandeira e Mário de Andrade. Encabeçando A Revista (1925), Drummond torna-se um dos líderes do Movimento Modernista em Minas. Em 1928, na Revista de Antropofagia publica o polêmico “No meio do caminho”, que provocará o último grande escândalo da fase heroica do Modernismo (1922-1930). Casado, leciona Português e Geografia no interior de Minas; retorna a Belo Horizonte, onde se dedica ao jornalismo. Aceita depois a nomeação de funcionário da Secretaria da Educação. Transfere-se para o Rio como Chefe de Gabinete do ministro da Educação Gustavo Capanema, cargo que exerce até 1945. Burocrata por excelência, adepto da vida pacata e regular, aposenta-se em 1962 como funcionário público do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico. Morre em 1987, pouco depois do falecimento de sua única filha.

“Meu verso é minha consolação” Carlos Drummond de Andrade estreia em 1930 com a publicação do volume Alguma poesia, reunindo produções que vão de 1925 até 1930. Projetou-se, então, num crescente nos meios culturais do Brasil, sendo considerado uma das maiores expressões da poesia lírica do Modernismo. Se, por um lado, é escritor extremamente individual – traduzindo em linguagem seca, precisa e direta notas do mais puro lirismo –, por outro, soube dar à sua poesia notações populares, cadências brasileiras muitas vezes impregnadas de valores autobiográficos. Influenciado por sua vivência mineira de Itabira, sua infância, seu ambiente familiar repleto de tradições, mistura sentimentalismo com irreverência e humor – “Eta vida besta, meu Deus.” – refletindo sua profunda compreensão dos vaFuvest/Unicamp 10_sentimento-do-mundo.indd 119

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lores que o cercam. Captando a realidade simples, cotidiana, torna-se o intérprete do homem moderno, sendo esse mesmo homem o motivo das maiores atenções do poeta, tanto nas relações dele com a realidade imediata, como no questionamento dos grandes problemas que ele enfrenta no mundo. Assim, sua poética se abre para captar o aspecto social. Em Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945), manifesta sua reação ante a miséria do homem no mundo moderno, sufocado por uma falta de humanidade, massacrado por todos os mecanismos que constituem o processo de alienação. Acrescenta-se à problemática social a consciência de um poeta que leva a poesia a sério, isto é, acredita que a manipulação da palavra é tarefa de grande responsabilidade e, por isso, investiga as possibilidades da expressão e da comunicação. Cria, assim, uma linguagem poética inconfundível, tecnicamente perfeita para adequar-se às necessidades de sua temática. Convidado para escrever sua autobiografia para a Revista Acadêmica1, Drummond tece comentários sobre suas produções: Penso ter resolvido as contradições elementares da minha poesia num terceiro volume, Sentimento do mundo (1940). Só as elementares: meu progresso é lentíssimo, componho muito pouco, não me julgo substancialmente e permanentemente poeta. Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos. Infelizmente, exige-se pouco do nosso poeta; menos do que se reclama ao pintor, ao músico, ao romancista...

Herdeiro de 1922, Drummond verseja livremente, mas não teme aderir ao verso tradicional, obedecendo, por vezes, às regras do soneto e da metrificação. Na busca do formalismo, o poeta perde um pouco a sua imaginação, os ritmos regulares fazem-no artífice do poema, sem a riqueza e originalidade dos ritmos livres. Ele mesmo, percebendo que estava tolhido, diz: “Tenho saudades de mim mesmo”, e, na necessidade de renovar-se, afirma: “preciso de outro verso bem diferente”. Assim, abandona as formas fixas e volta a exprimir-se em versos moldados no fluxo de sua poética. Não chega a ser concretista, mas pesquisa, em algumas produções, a desintegração da palavra. Com humor, ironia e irreverência, os poemas de Drummond evoluem com sua prática poética. Através deles contemplam-se as transformações ocorridas no próprio poeta e as transformações estéticas, sociais, políticas e muitas outras pelas quais o mundo passa. Drummond é um atestado de evolução, recuperação, recriação e consciência de que fazer poesia é algo de extrema seriedade. 1 “Autobiografia para uma revista”, escrita para a Revista Acadêmica, foi incluída em Confissões de Minas e pode ser lida na íntegra no volume Obra completa da editora Aguilar, 1964.

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Entre eu e o mundo Publicado em 1940, Sentimento do mundo é o terceiro livro de Carlos Drummond de Andrade, seguindo Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934). O volume de 1940 abre uma nova fase na poesia de um dos maiores poetas do Brasil de todos os tempos, reunindo produções escritas entre 1935 e 1940. São poucos poemas - 28 no total - que traduzem a visão do poeta de si mesmo e as reflexões dele sobre o mundo à sua volta, tendendo para um olhar crítico e significativamente político que abre caminho para produções posteriores mais específicas como José (1942) e A rosa do povo (1945). Sentimento do mundo é uma obra que retrata o tempo de angústias que antecede a 2ª Grande Guerra, o crescimento do nazifascismo, as imposições do Estado Novo de Getúlio Vargas e as tensões advindas da eclosão do maior conflito mundial do século, a própria guerra. Drummond quer, pela palavra, refletir sobre esse tempo, tempo em que impera o pessimismo e, sobretudo, as dúvidas sobre até onde chega a incapacidade de o homem reagir ao estado catastrófico que se prenuncia e a inconsequência humana de não se rebelar diante dos problemas que o mundo enfrenta. Ao se perceber impotente diante da amplitude dos problemas com que se depara, o poeta confessa-se pessimista e solitário: Tenho apenas duas mãos, / e o sentimento do mundo, / mas estou cheio de escravos, / minhas lembranças escorrem / e o corpo transige / na confluência do amor. (...) esse amanhecer / mais noite que a noite.

Drummond é dono de uma linguagem poética única, revelada na escolha do termo preciso, na composição do verso enxuto, no comedimento da mensagem, na disciplina exigida pelo fazer poético. Mescla melancolia, amargura, sarcasmo, ironia, esperança – sentimentos e sensações extremamente pessoais, com uma incrível capacidade analítica, refletindo criticamente sobre a realidade que o circunda. De uma poesia pessoal, abre-se para uma temática universal, ou seja, toma por tema as mazelas sociais que servem como pano de fundo para expressar os dramas universais do homem. Ao organizar sua Antologia poética, o poeta a estruturou a partir de nove seções: 1) o indivíduo; 2) a terra natal; 3) a família; 4) amigos; 5) o choque social; 6) o conhecimento amoroso; 7) a própria poesia; 8) exercícios lúdicos e 9) uma visão, ou tentativa de, da existência, assim nomeadas: “um eu todo retorcido”; “uma província: esta”; “a família que me dei”; “cantar de amigos”; “na praça de convites”; “amar-amaro”; “poesia contemplada”; “uma, duas argolinhas” e “tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo”. Para a análise de alguns poemas de Sentimento do mundo, seguiremos, até onde possível, as sugestões temáticas do próprio autor, divididas em 4 segmentos: Fuvest/Unicamp 10_sentimento-do-mundo.indd 121

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1) O indivíduo e suas reflexões a) “Um eu todo retorcido” Seção que investiga a formação do poeta e sua visão de mundo. Sempre lúcido, discorre com amargor, pessimismo e ironia sobre o que ele, atento observador, capta de si mesmo e das coisas que o rodeiam. Inserem-se, além de “Sentimento do mundo” algumas de suas poesias mais significativas, como: “Poema da necessidade”, em uma sequência anafórica são despejadas as necessidades como se, para consertar o mundo, houvesse a necessidade de substituir a todos e acabar com o mundo: É preciso casar João, / é preciso suportar Antônio / é preciso odiar Melquíades, / é preciso substituir nós todos (...) e anunciar o fim do mundo.

Ou em “A noite dissolve os homens” em que medita sobre a incomunicabilidade em paralelo com a escuridão sombria da noite que desce. Em paralelo, o poeta pode contrapor a aurora, como o ressurgir, embora tênue, da esperança: A noite é mortal, / completa, sem reticências, / a noite dissolve os homens (...) Havemos de amanhecer. O mundo / se tinge com as tintas da antemanhã / e o sangue que escorre é doce, de tão necessário / para cobrir tuas pálidas faces, aurora.

b) O tempo, a velhice e a morte Em alguns poemas de Sentimento do mundo, a ideia de morte está intimamente ligada à sensação da passagem do tempo. O mundo é cambiante, ora a vida se expande, ora se reduz, implacavelmente. Essa sensação pode ser traduzida de maneira séria, mas pode trazer toques de um humor ácido. A vida se esvai aos poucos, tendo como interlocutora as “Dentaduras duplas”: ... feéricas dentaduras, / admiráveis presas, / mastigando lestas / e indiferentes / a carne da vida.

c) A família e a terra natal Embora não tão presente nas poesias de Sentimento do mundo, o tema encontra dois grandes momentos na obra. O primeiro, em “Confidência do itabirano”, em que o poeta revela a insatisfação do indivíduo consigo mesmo e com seu passado e sua formação. Por meio da memória, surge a amargura de se ver desprovido de boas recordações do passado: Tive ouro, tive gado, tive fazendas. / Hoje sou funcionário público. / Itabira é apenas uma fotografia na parede. / Mas como dói.

O berço da família surge a partir da contemplação de um álbum de fotografias hiperbólico: ...alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, ...

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que traz visões intoleráveis como se tivessem a engolfar o homem, fazendo surgir “Os mortos de sobrecasaca”. Outro poema que pode ser encaixado nesta seção é “Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte”, lenda urbana narrada em primeira pessoa. Ela, a moça-fantasma, vaga sem destino e, etérea, transfigurada em mulher de rua que transcende solitária: Agora estou consolada, / disse tudo que queria, / subirei àquela nuvem, / serei lâmina gelada, / cintilarei sobre os homens.

d) O cantar de amigos Manuel Bandeira completa cinquenta anos em 1939. Merece toda a ternura em uma bela homenagem repleta de carinho que lhe faz o amigo em “Ode ao cinquentenário do poeta brasileiro”, composta das leituras e releituras e por fragmentos de poesias de Manuel Bandeira: Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa, / anunciando que tua vida passou à toa, à toa. / Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino, / diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito infiltrado. / Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarapitados nos burros velhos. / Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite...

2) Reflexões sobre a poesia e suas possibilidades Nessa seção, estão agrupadas as poesias que discorrem sobre o ato ou a necessidade de escrever. Drummond, arquiteto consciente da palavra, investiga e avalia os mecanismos subjacentes à criação poética, bem como as possibilidades que a linguagem tem de subverter a ordem do mundo, como em “Mãos dadas”. Não serei o poeta de um mundo caduco / (...) O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente.

Em “Congresso internacional do medo”, o poeta deixa-se levar pelo medo, medo individual que, em um crescendo, contamina a sociedade, esteriliza, empareda e paralisa, sepulta os homens e os mantém em isolamento: Provisoriamente não cantaremos o amor, / (...) cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, / depois morreremos de medo / e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

O que o faz dizer, lucidamente, que a poesia vai estar a serviço de outras causas, aquelas que darão motivos para reflexões do social, em que será possível apontar as necessidades e as discrepâncias do homem no seu meio social e no mundo em que vive, vislumbrando uma possibilidade de futuro, como em “Mundo grande”: Então, meu coração também pode crescer / Entre o amor e o fogo, / entre a vida e o fogo, meu coração cresce dez metros e explode. / Ó vida futura! nós te criaremos.

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3) O social: nosso tempo Criar o futuro, para Drummond, remete fazer da poesia uma forma de resistência: é a forma de sobrevivência e de esperança, mesmo que longínqua, de um amanhecer, como nos versos de “A noite dissolve os homens”. ...as mãos dos sobreviventes se enlaçam, / os corpos hirtos adquirem uma fluidez, / uma inocência, um perdão simples e macio... / Havemos de amanhecer...

Mas não há otimismo, a visão do poeta continua sombria e pessimista. Assim, emerge de um contraponto entre esperança e dor a necessidade de inquirir e de buscar a essência subjacente das coisas. É por meio da poesia que o poeta sonda as possibilidades de capturar o que é imutável e eterno, sem mistificações. Em “Os ombros suportam o mundo”: Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. / Tempo de absoluta depuração. / Tempo, em que não se diz mais: meu amor (...) Chegou um tempo em que não adianta morrer. / Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. / A vida apenas, sem mistificação.

Em “Lembrança do mundo antigo”, o poeta contrapõe o passado ao presente: no passado, havia luz, tranquilidade, paz em um mundo possível que merece ser rememorado: ... Mas passeava no jardim, pela manhã!!! / Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

Ou em “Madrigal lúgubre” em que retoma o motivo em contraposição ao presente (fora) nefasto, amedrontado e sombrio, e o passado (dentro): trata-se de uma abertura para a realidade: Cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico, / é o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada. / Dentro, vossas mãos níveas e mecânicas tecem algo parecido com um véu. / O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo espantoso / que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo.

O engajamento também está presente nas reflexões do poeta sobre as discrepâncias sociais, a alienação e a necessidade de se pensar em reformas. Drummond adere às ideias socialistas a fim de fazer de seu poema uma arma de combate à miséria do trabalhador brasileiro. Na crônica poética “Operários no mar”, ao divinizar o operário, distancia-o do burguês, representado pelo próprio poeta: Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos.

4) Os dramas do cotidiano Nesse conjunto, há uma espécie de alargamento do gosto pelo cotidiano, concebendo uma poesia que sai das ruas, do contato com o dia a dia, como se vê em “Menino chorando na noite”, “Morro da Babilônia”, “Revelação do subúrbio”, “Inocentes do Leblon”, entre outras. 124 10_sentimento-do-mundo.indd 124

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5) Exercícios poéticos: “uma, duas argolinhas” Dois poemas de Sentimento do mundo podem partilhar a temática proposta por Drummond. Em “Bolero de Ravel”, o poeta dialoga com a composição de Ravel, tentando combinar o andamento da poesia com a música. A composição do músico francês tem um ritmo invariável e uma melodia uniforme e repetitiva. A sensação de mudança é dada pelo acréscimo de instrumentos – cordas, percussão, metais e madeiras. Em La possession du monde há uma ironia em que se confunde a posse do mundo com a posse de uma fruta. Rompendo com a respeitabilidade acadêmica, Georges Duhamel, eminente intelectual francês, membro da Academia Francesa, que abandonou a Medicina para dedicar-se à literatura, interrompe uma conversa para pedir “uma engraçada fruta amarela”, ou seja, um mamão. Houve uma hora em que ele se levantou / (em meio a erudita dissertação científica). / Ia, talvez, confiar a mensagem da Europa / aos corações cativos da jovem América... / Mas apontou apenas para a vertical / e pediu ce cocasse fruit jaune.

Algumas características dos poemas de Sentimento do mundo. 1) “Sentimento do mundo”

Psicologia do fazer poético, reflexão sobre as impossibilidades do eu e do mundo, pessimismo e negativismo.

2) “Confidência do itabirano”

Heranças pessoais, amargura, melancolia e sensação de impotência diante do destino, autobiografia.

3) “Poema da necessidade”

Verificação das necessidades tanto individuais como coletivas. Visão apocalíptica.

4) “Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte”

Lirismo fabuloso, trabalho com o imaginário popular, marginalidade e purificação.

5) “Tristeza do império”

Desejos e necessidades. Ironiza os anseios burgueses.

6) “Operários no mar”

Crônica poética, reflexões sobre classes e antagonismos sociais, mistério poético da realidade.

7) “Menino chorando na noite”

Lirismo utópico. Incorporação do sofrimento alheio, dor universal em busca da fraternidade e da solidariedade.

8) “Morro da Babilônia”

Alusão ao samba, à música, ao poder e à “Babilônia” em que se transformou o morro. Fuvest/Unicamp

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Medo como motor das possibilidades 9) “Congresso internacional do medo” de poesia, medo que paralisa e esteriliza tanto o indivíduo quanto a sociedade. 10) “Os mortos de sobrecasaca”

Autobiográfico. Sondagem do passado a partir da contemplação de fotos: da ironia zombeteira à explosão do sentimento.

11) “Brinde ao juízo final”

Poesia antiacadêmica. Reflexão sobre a participação do poeta no mundo.

12) “Privilégio do mar”

Alegoria que trata do problema social e das diferenças humanas.

13) “Inocentes do Leblon”

Poesia de caráter social que critica certas esferas da burguesia. Alienação.

14) “Canção do berço”

Desde o berço o destino está traçado: o amor, a carne, a vida e os beijos não têm a importância que a sociedade de consumo lhes dá.

15) “Indecisão do Meier”

Poesia do cotidiano. Ressalta possibilidades de escolha.

16) “Bolero de Ravel”

Poesia lúdica: dialoga com a melodia de Ravel e expressa impossibilidades.

17) “La possession du monde”

Poesia lúdica, explorando contraste entre o acessório e o essencial. Ironia.

18) “Ode no cinquentenário do poeta brasileiro”

Ode a Manuel Bandeira, poesia que enaltece os 50 anos do poeta.

19) “Os ombros suportam o mundo”

Poesia de grande significação existencial, passagem do tempo e a vida sem mistificações.

20) “Mãos dadas”

Sentimento do mundo: metalinguagem, explorando necessidade de valorizar o presente como matéria poética.

21) “Dentaduras duplas”

Sátira bem-humorada, revelando a passagem do tempo e as reflexões sobre a velhice.

22) “Revelação do subúrbio”

Minas, o subúrbio como forma de revelar a pequenez de algumas cidades.

23) “A noite dissolve os homens”

Contraste entre a noite que dissolve os homens e a aurora que simboliza a revitalização (perspectiva da luz).

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24) “Madrigal lúgubre”

Confronto entre o suave e o real, o campestre (madrigal) e o lúgubre (tempo de guerra).

25) “Lembrança do mundo antigo”

Revisitando o tempo e a vida passada em confronto com o mundo presente.

26) “Elegia 1938”

Desconstrução da utopia. Angústia e pessimismo diante da indiferença.

27) “Mundo grande”

Intertextualidade: Drummond e Tomás Antônio Gonzaga, dualidade, esperança no futuro.

28) “Noturno à janela do apartamento”

Contemplação da noite e do farol da ilha Rasa. Fluxo da vida.

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Exercícios escritos, testes e respostas

Viagens na minha terra Almeida Garrett (1 a 19) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 Til José de Alencar (20 a 35) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 Memórias de um sargento de milícias Manuel Antônio de Almeida (36 a 68) . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 Memórias póstumas de Brás Cubas Machado de Assis (69 a 104). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154 O cortiço Aluísio Azevedo (105 a 131) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163 A cidade e as serras Eça de Queirós (132 a 150) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173 Vidas secas Graciliano Ramos (151 a 188) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182 Capitães da Areia Jorge Amado (189 a 207) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 Sentimento do mundo Carlos Drummond de Andrade (208 a 227). . . . . . . . . . . . . 200

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Viagens na minha terra Almeida Garrett Exercícios testes Texto para as questões de 01 a 03. Este é que é o pinhal da Azambuja? Não pode ser. Esta, aquela antiga selva, temida quase religiosamente como um bosque druídico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar histórias de Pedro de Malas-Artes que logo, em imaginação, lhe não pusesse a cena aqui perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do Capitão Roldão e da dama Leonarda!... Oh! Que ainda me faltava perder mais esta ilusão... Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sítios medonhos desta espessura? Pois isto é possível, pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia prontos e recortados para os colocar aqui todos os amáveis Salteadores de Schiller, e os elegantes facínoras de Ausberge-des-Adrets, eu hei de perder os maus chefes d’obra! Que é perdê-los isto – não ter onde os pôr!...” (Almeida Garrett. Viagens na minha terra. São Paulo: Núcleo, 1992. pp. 31-32.) 01. Segundo o texto: a) o autor segue para Azambuja em sua viagem e lá encontra tudo que sua imaginação infantil ainda recordava. b) o pronome demonstrativo “Esta” reforça a decepção que o autor tem ao iniciar o trecho com uma indagação e afirmar, logo em seguida, “Não pode ser”. c) com “um bosque druídico” o autor quis dizer que as lendas e tradições ligadas ao pinheiral continuam vigorosas e ainda presentes no imaginário popular. d) o autor se diz decepcionado com o que viu, pois sua memória não conseguiu reconstituir a história de Pedro Malas-Artes, muito presente na sua infância. e) as citações de personagens como dama Leonarda e Capitão Roldão remetem o leitor aos dramas românticos ouvidos pelo autor.

02. O autor mostra-se: a) decepcionado b) ludibriado c) infeliz d) intransigente e) revoltado 03. A menção aos Salteadores de Schiller e Ausberge-des-Adrets: a) indicam que, devido a ausência de ambiente, os personagens das peças mencionadas já não terão cenário. b) revelam tão somente a erudição do autor. c) reforçam a intenção do autor de confundir o leitor. d) definem os personagens que deveriam ser inseridos no contexto da narrativa. e) marcam a ausência de estilo a que o escritor está sujeito, necessitando, ele mesmo, de recorrer aos clássicos franceses e ingleses. 04. A respeito de Viagens na minha terra são feitas três afirmações. I. É possível refazer uma história de Portugal a partir das personagens presentes na fabulação. II. A ironia utilizada por Garrett, pelo seu tom crítico e sarcástico, muitas vezes o indispõe com os políticos de sua época. III. Garrett incorre em erro ao nomear seu livro de Viagens, uma vez que se trata de uma única viagem feita de Lisboa a Santarém. Estão corretas: a) somente as afirmações I e II. b) somente as afirmações I e III. c) somente as afirmações II e III. d) somente uma afirmação. e) todas as afirmações. 05. Sobre Viagens na minha terra são feitas as seguintes afirmações. I. Garrett aproxima-se da língua falada que, no entanto, não deixa de ser literária, isto é, conscientemente artística. II. Em Garrett é possível perceber um estilo

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que vai desde o mais elaborado, próximo dos clássicos, passando por laivos românticos até prenunciar a refinada ironia de Eça de Queirós. III. A leveza da paisagem de Santarém contrasta com o drama carregado vivenciado pelas personagens da novela que envolve Joaninha, a menina dos rouxinóis. Está(ão) correta(s): a) somente a afirmação l. b) somente a afirmação II. c) somente as afirmações l e II. d) somente as afirmações l e III. e) as afirmações l, II e III. 06. Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio como São Petersburgo – entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal. Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvore que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crônica. Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal e que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita. No parágrafo inicial, o autor diz entender que viagens à roda de um quarto: a) só são possíveis para autores que não têm imaginação e são incapazes de criar histórias. b) em climas temperados, não existem viagens da forma como foram mencionadas. c) são propícias para quando os autores vivem em ambientes mórbidos e sufocantes. d) são pretextos para que os autores possam fazer reflexões.

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e) são formas de desanuviar os invernos estressantes de cidades como São Petersburgo. (Unifesp) Textos para as questões de 07 a 10. Texto I: O vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência. (...) Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração. À esquerda do vale, e abrigado do norte pela montanha que ali se corta quase a pique, está um maciço de verdura do mais belo viço e variedade. (...) Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga, mas não dilapidada – (...) A janela é larga e baixa; parece mais ornada e também mais antiga que o resto do edifício, que todavia mal se vê...” (Almeida Garrett, Viagens na minha terra.)

Texto II: Depois, fatigado do esforço supremo, [o rio] se estende sobre a terra, e adormece numa linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes. A vegetação nessas paragens ostentava outrora todo o seu luxo e vigor; florestas virgens se estendiam ao longo das margens do rio, que corria no meio das arcarias de verdura e dos capitéis formados pelos leques das palmeiras. Tudo era grande e pomposo no cenário que a natureza, sublime artista, tinha decorado para os dramas majestosos dos elementos, em que o homem é apenas um simples comparsa. (...) Entretanto, via-se à margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construída sobre uma eminência e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a ique.” (José de Alencar, O guarani.)

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Texto III: Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço De estar a ela um dia reclinado: Ali em vale um monte está mudado: Quanto pode dos anos o progresso! Árvores aqui vi tão florescentes, Que faziam perpétua a primavera: Nem troncos vejo agora decadentes. (Cláudio Manuel da Costa, Sonetos-VII.)

07. Podem ser encontradas características predominantes do estilo neoclássico ou arcádico apenas: a) no texto I. b) no texto II. c) no texto III. d) nos textos I e II. e) nos textos II e III. 08. Há correspondência ou equivalência de sentido entre os segmentos transcritos em: a) “sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita” = “florestas virgens se estendiam ao longo das margens do rio, que corria no meio das arcarias de verdura e dos capitéis formados pelos leques das palmeiras.” = “Árvores aqui vi tão florescentes, / Que faziam perpétua a primavera” b) “não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência.” = “A vegetação nessas paragens ostentava outrora todo o seu luxo e vigor” = “Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço / De estar a ela um dia reclinado” c) “O vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita” = “Depois, fatigado do esforço supremo, [o rio] se estende sobre a terra, e adormece numa linda bacia que a natureza formou” = “Ali em vale um monte está mudado: / Quanto pode dos anos o progresso!” d) “não há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente” = “Tudo era grande e pomposo no cenário que a natureza, sublime artista, tinha decorado para os dramas majestosos dos elementos” = “Nem troncos vejo agora decadentes.” e) “Imagina-se por aqui o Éden que o primei-

ro homem habitou” = “protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique” = “Ali em vale um monte está mudado: / Quanto pode dos anos o progresso!” 09. Com uma exceção, todos os segmentos a seguir, transcritos do texto I, poderiam ser convertidos da terceira para a primeira pessoa, sem perda do sentido dado pela perspectiva do narrador. A única exceção está em: a) “Imagina-se por aqui o Éden...” b) “... montanha que ali se corta quase a pique...” c) “... em tudo quanto se vê e se sente...” d) “... vê-se por entre um claro das árvores...” e) “... que todavia mal se vê...” 10. Lendo-se atentamente os textos I (de Almeida Garrett) e II (de José de Alencar), percebe-se que ambos os narradores se identificam quanto à atitude de admiração e louvor à natureza contemplada. Entretanto, verifica-se também, entre os dois, uma diferença profunda e marcante no seu ato contemplativo, quanto aos valores atribuídos a essa natureza. Essa diferença é marcada: a) pela existência da vegetação. b) pela avaliação da magnitude e da beleza do cenário. c) pela inclusão, na paisagem natural, da habitação humana. d) pelo predomínio das referências ao mundo vegetal sobre as referências ao mundo mineral (terra, rocha, montanha, etc.). e) pela explicitação da perda do paraíso terrestre. (Faap) Texto para as questões de 11 a 15. À esquerda do vale, e abrigado do norte pela montanha que ali se corta quase a pique, está um maciço de verdura do mais belo viço e variedade. A faia, o freixo, o álamo, entrelaçam os ramos amigos; a madressilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões; a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem e alcatifam o chão. Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não dilapidada – com certo ar de conforto grosseiro, e carregada na cor pelo tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janela é larga e baixa; parece-me mais ornada e também mais antiga que o resto do edifício que todavia mal se vê...

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Interessou-me aquela janela. Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali? Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço. Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por detrás. Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!... era completo o romance. Se haverá ali quem a aproveite, a deliciosa janela? E ouvir cantar os rouxinóis!... E ver raiar uma alvorada de maio!... Se haverá ali quem a aproveite, a deliciosa janela? ... quem aprecie e saiba gozar todo o prazer tranquilo, todos os santos gozos de alma que parece que lhe andam esvoaçando em torno? Se for homem é poeta; se é mulher está enamorada. São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher namorada; veem, sentem, pensam, falam como a outra gente não vê, não sente, não pensa nem fala. Na maior paixão, no mais acrisolado afeto do homem que não é poeta, entre sempre o seu tanto de vil prosa humana: é liga sem que não se lavra o mais fino do seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada deveras sublima-se, idealiza-se logo, toda ela é poesia, e não há dor física, interesse material, nem deleites sensuais que a façam descer ao positivo da existência prosaica. Estava eu nestas meditações, começou um rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga que há muito tempo me lembra de ouvir. Era ao pé da dita janela! E respondeu-lhe logo outro do lado oposto; e travou-se entre ambos um desafio tão regular em estrofes alternadas tão bem medidas, tão acentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance, esqueci-me de tudo o mais. Lembrou-me o rouxinol de Bernardim Ribeiro, o que se deixou cair na água de cansado. O arvoredo, a janela, os rouxinóis... àquela hora, o fim de tarde... o que faltava para completar o romance? (Almeida Garrett. Viagens na minha terra. Cap. X.)

11. “... maciço de verdura do mais belo viço e variedade”; “grinaldas e festões”; “carregada na cor pelo tempo”; “uma cortina branca... e um vulto por detrás”; “E ver raiar uma alvorada de maio”; “O arvoredo, a janela, os rouxinóis... àquela hora, o fim da tarde”. Predominam nestas passagens as imagens:

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a) visuais b) auditivas c) gustativas d) olfativas e) tácteis 12. Observe: “E ouvir cantar os rouxinóis”; “começou um rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga que há muito tempo me lembra de ouvir”; “e travou-se entre ambos um desafio tão regular, em estrofes alternadas tão bem medidas, tão acentuadas e perfeitas”. Predominam nestas passagens as imagens: a) visuais b) auditivas c) gustativas d) olfativas e) tácteis 13. A personificação que dá sentimento e qualidade humanos a coisas, pode ser encontrada neste exemplo: a) “... o álamo entrelaçam os ramos amigos...” b) “A janela é larga e baixa...” c) “Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?” d) “Se for homem é poeta; se for mulher está enamorada.” e) “Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por detrás.” 14. “Se for homem é poeta; se é mulher está enamorada”. Observe a correspondência ou a simetria entre homem e mulher. É exemplo de: a) anacoluto b) onomatopeia c) silepse d) pleonasmo e) paralelismo 15. “Lembrou-me o rouxinol de Bernadim Ribeiro, o que se deixou cair na água de cansado”. O autor faz referência a um famoso escritor antigo em relação à época dele. Com efeito, Bernadim Ribeiro, em Portugal, cultivou a poesia e a prosa de ficção (Menina e moça). Se é anterior a ele, então Bernadim viveu na época do: a) Renascimento b) Romantismo c) Realismo d) Parnasianismo e) Simbolismo

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Exercícios escritos Texto para as questões 16 e 17. Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar segredo; depois desta desgraça, não me importa já nada. Saberás, pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler. Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que vamos estudar a História, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo da natureza, colori-los das cores verdadeiras da História... isso é trabalho difícil, longo, delicado; exige um estudo, um talento, e sobretudo um tacto!... Não, senhor; a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico. Todo o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas damas, Um pai, Dois ou três filhos de dezenove a trinta anos, Um criado velho, Um monstro, encarregado de fazer as maldades, Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios. Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul – como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrap-books; forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões; com os palavrões iluminam-se... (estilo de pintor pinta-monos). – E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original.

16. Almeida Garrett (1799-1854), que pertenceu à primeira fase do romantismo português, é poeta, prosador e dramaturgo dos mais importantes da literatura portuguesa. Em Viagens na minha terra (1846), mistura, em prosa rica, variada e espirituosa, o relato jornalístico, a literatura de viagens, as divagações sobre temas da época e os comentários críticos, muitas vezes mordazes, sobre a literatura em voga, no período. Releia o texto que lhe apresentamos e, a seguir, responda: a) A que gêneros literários se refere Almeida Garrett? b) Quais os principais defeitos, segundo Garrett, dos escritores portugueses que elaboravam obras de tais gêneros? 17. No texto apresentado, Garrett se dirige mais de uma vez ao leitor, de maneira informal e descontraída, como se estivesse dialogando com ele. Baseado nesta observação, demonstre de que modo o tom de informalidade se revela também nas formas de tratamento gramatical que o escritor usa para dirigir-se ao leitor. 18. D. Francisca, avó de Joaninha, em Viagens na minha terra, tem um final trágico que pode ser lido como uma crítica do autor à situação em que Portugal encontra-se. Explique essa situação histórica tendo por base a narrativa. 19. Em Viagens na minha terra, Garrett coloca um forte intertexto com D. Quixote de la Mancha, de Cervantes. Explique por que essa relação é importante e em que medida ela se concretiza na obra.

(Almeida Garrett. Viagens na minha terra. Cap. V – fragmento. Obra Completa I. Porto: Lello & Irmão, 1963. pp. 27-28.)

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Respostas esta que sempre estabelecia os ditames.

Gabarito dos testes 01.b

02.a

03.a

04.a

05.e

06.d

07.c

08.a

09.b

10.b

11.a

12.b

13.a

14.e

15.a

Respostas possíveis para as questões escritas 16. a) Garrett menciona os gêneros:

• •

dramático – teatro; épico – romance (narrativa de ficção).

De passagem, faz referência a crônicas, não como gênero literário, mas àquelas pertencentes à historiografia. b) Garrett critica os autores portugueses, por imitarem os franceses e serem artificiais na criação literária. 17. Essa informalidade mostra-se no uso oscilante das formas de tratamento, expressas nas pessoas verbais:

• •

tu: “te vou explicar”; você: “Eu lhe explico”.

“Não seja (você) pateta...”. 18. D. Francisca, a avó de Joaninha, era a personificação do Portugal subserviente, passivo, que sempre se dobrava às ordens da Igreja, uma vez que era

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Sua descrição é um demonstrativo da tristeza, resignação, impotência. Sua postura é a reminiscência da dor, que não pode ver e pouco fala, “morta de alma para tudo”, assim como Portugal, um país com um corpo agonizante. “Estava ela ali sentada na dita cadeira, e diante de si tinha uma dobadoura que se movia regularmente. (...) Era o único sinal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso, velha, cadeira, dobadoura, tudo parecia uma graciosa escultura de Antônio Ferreira (...) A velha era cega, cega de gota-serena, e paciente, resignada como a providência misericordiosa de Deus permite quase sempre que sejam os que neste mundo destinou à dura provança de tão desconsolado martírio.” (cap. XI.) D. Francisca em sua cegueira é a manifestação da imprudência com que o liberalismo foi assumido em Portugal. Isso evidencia a falta de visão e o despreparo dos defensores do liberalismo, uma vez que não havia a devida articulação para colocá-lo em prática naquele momento. Assim, como D. Francisca, o país impotente assiste à sua destruição. 19. A figura de D. Quixote liga-se diretamente a um ideário mais espiritualista, à origem do liberalismo; já Sancho Pança está ligado a um lado mais materialista. Dessa forma, podemos dizer que as figuras de Quixote e Sancho representam as mudanças pelas quais Portugal vinha passando (absolutismo/ liberalismo; materialismo/espiritualismo). No plano do enredo, podemos dizer que se ligam ora a Carlos (de Quixote a Sancho) e ora a Frei Dinis (de Sancho a Quixote).

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Til José de Alencar Exercícios testes 20. O nascimento de Berta está envolto em um segredo: a) Seu pai não é o marido de Besita, porque ela era amante de Luís Galvão. b) Seu pai é Luís Galvão, que se fizera passar por Ribeiro, marido de Besita. c) Seu pai é Jão Fera, apaixonado por Besita e seu antigo protetor. d) Ela é adotada por Ribeiro e Besita. e) Ela é adotada por Luís Galvão e D. Ermelinda. 21. Observe as afirmações a seguir sobre o romance Til, de José de Alencar. I. O romance pode ser enquadrado na literatura regionalista, uma vez que apresenta usos e costumes de uma determinada região. II. Tem-se um narrador em 3a pessoa e observador, que não se furta a comentar a maioria das situações vivenciadas pelos personagens principais. III. O tempo da narração é indefinido, contendo flashbacks que explicam o presente da narrativa. Está(ão) correta(s) a(s) afirmação(ões): a) I, apenas. b) I e III. c) III, apenas. d) II e III. e) II, apenas. 22. Com base no enredo de Til, de José de Alencar, indique a alternativa que completa a frase a seguir: Linda é apaixonada por (A), que é convencido por (B) desse amor. (B) descobre ser irmã de Linda e (C), já que é filha de (D). a) A-Afonso, B-Besita, C-Miguel, D-Ribeiro. b) A-Miguel, B-Berta, C-Jão Fera , D-Ribeiro. c) A-Afonso, B-Zana, C-Luís, D-Jão Fera. d) A-Luís, B-D. Ermelinda, C-Miguel, D-Luís. e) A-Miguel, B-Berta, C-Afonso, D-Luís. 23. No início do romance Til, Berta e Miguel sentem-se atraídos. No entanto, a heroína desiste do romance com o rapaz, pois ela:

a) descobre que eles são meios-irmãos. b) ama Afonso. c) não quer magoar a amiga que é apaixonada por ele. d) fez uma promessa de tornar-se freira. e) irá se mudar para longe. Texto para as questões 24 e 25. Entrou em casa para consolar nhá Tudinha; e instantes depois se restabeleceu a cena plácida e melancólica do começo da tarde. Quando o Sol escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do crepúsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a seus pés, o idiota, a louca e o facínora remido. Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares*, onde não penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça. Era a flor da caridade, alma sóror. (*) Algares: grutas, cavernas.

24. O trecho anterior deixa entrever uma característica da estética romântica: a) Busca por espaços bucólicos, esplendorosos e cheios de luz. b) Presença da religiosidade e idealização da mulher segundo símbolo de santidade. c) Busca por um ideário ilusório e fantasioso, remontando as imagens recolhidas da literatura medieval. d) Presença de religiosidade atrelada a uma heroína de personalidade fraca. e) Presença de uma heroína egoísta, fruto do meio em que vive. 25. Sabendo que essa é a cena final do romance Til, o motivo de nhá Tudinha precisar ser consolada é o fato de: a) ter perdido o marido. b) o filho Miguel ter ido estudar em São Paulo.

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c) a filha Berta não morar mais em sua casa. d) ter perdido o filho. e) Berta ter ido para a casa de seu verdadeiro pai. 26. Segundo o crítico Antonio Candido, o “... fator dinâmico na obra de Alencar é a desarmonia, o contraste duma situação, duma pessoa ou dum sentimento normal e tido por isso como bom, com uma situação, pessoa ou sentimento discordante.” A forma mais comum dessa desarmonia seria o choque entre o bem e o mal. Aponte a alternativa que traz a forma refinada desse sentimento de discordância em Til. a) O amor irrealizado de Berta e Miguel. b) O casamento por interesse entre Berta e Ribeiro. c) O desvio de conduta de Jão Fera. d) Os desvios psicológicos de Brás. e) A quebra de confiança entre Berta e Linda. 27. O plano de vingança de Ribeiro (Barroso) ia além da morte de Luís Galvão, pois: a) o vingador pretendia executar também Berta, fruto do amor entre Besita e Luís Galvão. b) o homem pretendia executar todas as testemunhas do assassinato de Besita, principalmente Zana e Brás. c) Ribeiro invejou a felicidade familiar de seu grande inimigo e queria tomar para si a esposa e os filhos dele. d) o vingador não se contentaria jamais com uma única morte e pretendia matar toda a família de Luís Galvão para lavar sua honra. e) Ribeiro gostaria de apagar todo o seu passado e viver em paz em outra região do país.

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28. No capítulo XXVI, “O abecê”, encontra-se a explicação do título do romance. Só não está correto afirmar que o sinal gráfico é: a) o elo que Alencar encontrou para construir a narrativa, associando-o ao deslumbramento provocado por Berta no demente Brás. b) o virtuosismo do til que se identifica plena e completamente aos traços estilísticos com que o autor descreve os aspectos físicos da personagem Berta. c) as feições da personagem principal, que são semelhantes e se harmonizam com o til na concepção do demente Brás. d) a relação entre o sinal gráfico e o demente Brás que tem rancor por todos aqueles que o circundam, excetuando Berta, identificada com a mesma perfeição do til. e) a necessidade que os românticos têm de provocar no leitor a curiosidade para desvendar o suspense e o mistério que envolve certos pormenores da narrativa. 29. Em Til, personagens como Jão Fera, Brás e Zana são concebidos: a) de maneira romântica, lembrando os tons macabros com que Victor Hugo pintou o corcunda de Notre Dame. b) como personagens planas, que emergem da bestialidade e percorrem os labirintos do ódio em caminho para a redenção. c) como personagens sem nenhuma importância na narrativa, a não ser marcar o desfecho grotesco da obra. d) de forma a contrapor com a harmonia, e a felicidade que combina paisagem e harmonia familiar. e) de forma quase realista/naturalista, por representarem a evolução do ódio à redenção, a bestialidade incivilizada e à loucura.

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Exercícios escritos Texto para as questões 30 e 31. Finalmente, no segundo lugar da esquerda defronte da moça via-se um menino de 15 anos de idade, cuja figura destoava de todo o ponto, no quadro daquela família, que respirava a graça e a inteligência. Era feio, e não só isso, porém mal amanhado e descomposto em seus gestos.Tinha um ar pasmo que embotava-lhe a fisionomia; e da pupila baça coava-se um olhar morno, a divagar pelo espaço com expressão indiferente e parva. Curvado como um arco sobre a mesa, com as vestes em desalinho e os cabelos revoltos, abraçava uma xícara de almoço, que lhe ficava abaixo do queixo; e escancarando a boca enorme para sorver de um bocado a grande broa de milho, ensopada no café, mastigava a tenra massa a fortes dentadas e sofregamente como se estivesse rilhando um couro. Percebia-se logo que a influência de D. Ermelinda não penetrara nesse membro enfezado da família, refratário a todo o preceito de ordem e arranjo. Por isso a dona da casa, quando presidia a mesa de seu lugar de honra, observando o serviço e ocupando-se de todos, não transpunha aquele ângulo, onde sentava-se o pequeno. Se acontecia a seu olhar, circulando a sala, passar por aí, cegava-se e fugia com desgosto. Naquele momento acabava o menino de fazer uma das costumadas estrepolias, virando com o queixo a xícara, que entornou-lhe todo o café no peito da camisa. – Hô, hô, hô!... fez ele com um riso gutural e apatetado. Acudiu a Rosa, para enxugar-lhe com o guardanapo a cara, pois ele não se mexia. – Que vergonha! murmurou a crioula em meia voz. Marmanjo deste tamanho não sabe comer na mesa. 30. O excerto anterior, retirado de Til, de José de Alencar, apresenta uma personagem importante da trama. Diga de quem se trata e sua importância para a obra. 31. O excerto apresenta D. Ermelinda. Comente sobre a situação dessa personagem na obra e sobre sua personalidade a partir do texto e do conhecimento da obra como um todo.

32. Fiel às tradições da antiga profissão, entendia ele lá de si para si que um bom processo de ferrar bestas devia ser por força excelente método de ensinar a leitura e a tabuada; e fossem tirá-lo dessa ideia! Assim encaixava o abecê na cachola do menino com a mesma limpeza e prontidão com que metia um cravo na ferradura. Era negócio de dois gritos, um safanão e três marteladas. O excerto anterior fala de um personagem temível na obra. De quem se trata? A quem ele está diretamente ligado? A quem ele se opõe? 33. Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça. Era a flor da caridade, alma sóror. O trecho anterior é o final do romance Til. Comente a relação da heroína com os atributos que lhe são conferidos nesse excerto. Leia os dois textos a seguir e responda a questão 34. Texto I: Rolos de chamas envoltas em denso bulcão de fumo subiam aos ares. A casa das Palmas e suas dependências, vistas de longe, pareciam submersas em um turbilhão de fogo, que surgia das entranhas da terra e convolvia-se pelo negrume do espaço. Açoitada pelo vento, a labareda estorcendo-se e rabiando, rugia de sanha; ou sufocada um instante pelas abóbadas de fumaça e pelas camadas de palhiço, troava como um canhão, arrojando-se às nuvens. De instante a instante ouvia-se uma descarga de fuzilaria, correndo ao longo daquela faixa incendiada que figurava a ala de um exército em renhida batalha. Eram os gomos das canas, que estalavam ao intenso calor do fogo. Com os sibilos da labareda enroscada no ar, confundiam-se os silvos das cascavéis e jararacas, que surpreendidas pelo incêndio, arremessavam-se furiosas contra o fogo e rompiam estortegando pelo campo abrasado. As aves noturnas deslumbradas com o súbito clarão, fugiam soltando guinchos de terror,

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enquanto as feras, insufladas pelo instinto da desolação, uivavam no fundo da floresta e trotavam ligeiras para arrebatarem a presa ao incêndio e se abeberarem de sangue. Medonho espetáculo! O incêndio crescia com tal velocidade, que parecia uma catarata de fogo, a inundar o espaço, ameaçando comunicar-se à floresta, e submergir a terra em um pélago de chamas. Do seio daquele surdo rumor produzido pelo ressolho da labareda, se desprendeu e reboou ao longe um grito soturno; mugir da turba espavorida antes as tremendas convulsões da natureza. – Fogo!... fogo!... fogo!... Correndo à janela e abrindo-a outra vez, Luís Galvão recuou espantado com a viva claridade, que o incêndio projetava sobre o terreiro e que lhe ferira os olhos. Foi rápido, porém, o deslumbramento. Debruçando-se no peitoril e descobrindo o foco do incêndio que vomitava labaredas como a cratera de um vulcão, o fazendeiro compenetrou-se imediatamente da realidade. – O que é? perguntou D. Ermelinda, que parara aterrada no meio do aposento. – Fogo no canavial. Atirada esta resposta à mulher, Luís Galvão saltou no terreiro e deitou a correr para as plantações, lançando aos brados aquelas mesmas palavras, como aviso aos feitores e gente da fazenda. (José de Alencar, Til.)

va, e só muito tarde cada qual cuidou de pregar olho, depois de reacomodar, entre plangentes lamentações, o que se salvou do destroço. O tempo levantou de novo à meia-noite. Ao romper da aurora já muita gente estava de pé e o vendeiro passava uma revista minuciosa no pátio, avaliando e carpindo, inconsolável e furioso, o seu prejuízo. De vez em quando soltava uma praga. Além do que escangalharam os urbanos dentro das casas, havia muita tina partida, muito jirau quebrado, lampiões em fanicos, hortas e cercas arrasadas; o portão da frente e a tabuleta foram reduzidos a lenha. João Romão meditava, para cobrir o dano, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem, aumentando-lhes o aluguel dos cômodos e o preço dos gêneros. Viu-se numa dobadoura durante o dia inteiro; desde pela manhã dera logo as providências para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa possível: mandou buscar novas tinas; fabricar novos jiraus e consertar os quebrados; pôs gente a remendar o portão e a tabuleta. Ao meio-dia teve de comparecer à presença do subdelegado na secretaria da polícia. Foi mesmo em mangas de camisa e sem meias; muitos do cortiço o acompanharam, quer por espírito de camaradagem, quer por simples curiosidade. (Aluísio Azevedo, O cortiço.)

34. A partir da leitura dos dois excertos, aponte as semelhanças e diferenças na concepção do incêndio.

Texto II: A Bruxa, por influência sugestiva da loucura de Marciana, piorou do juízo e tentou incendiar o cortiço. Enquanto os companheiros o defendiam a unhas e dentes, ela, com todo o disfarce, carregava palha e sarrafos para o número 12 e preparava uma fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as consequências foram do mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando como aquela ao fogo, não escaparam à devastação da polícia. Algumas ficaram completamente assoladas. E a coisa seria ainda mais feia, se não viera o providencial aguaceiro apagar também o outro incêndio ainda pior, que de parte a parte, lavrara nos ânimos. A polícia retirou-se sem levar nenhum preso. “A ir um, iriam todos à estação! Deus te livre! Demais, para quê? o que ela queria fazer, fez! Estava satisfeita!” Apesar do empenho do João Romão, ninguém conseguiu descobrir o autor da sinistra tentati-

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Textos para a questão 35. Texto I: Congo  é um dos muitos conjuntos de  danças, músicas e manifestações folclóricas trazidos pelos  escravos  ao  Brasil  no  Período Colonial. É particularmente caracterizado pelo uso de  tambores  em variados tamanhos,  trajes  e  coreografias  típicas e  cânticos  que invocam os deuses. Atualmente é uma manifestação folclórico-religiosa, em que se prestam homenagens a São Benedito e a Nossa Senhora da Penha, em festas que acontecem ao longo dos meses de dezembro e janeiro. São comuns no Espírito Santo as festas dedicadas a São Benedito, onde se derruba uma árvore alta, corta-se os galhos, deixando só o tronco (“mastro de São Benedito”), que é levado pelas ruas e depois fixado no pátio da festa, com um estandarte contendo a figura do santo. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Congo_(folclore))

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Texto II: Ao repique de sinos e estrondo dos rojões, desfilava pelo largo da matriz a luzida cavalgada do Congo, precedida por um terno de rabecas e frautas, que compunham a banda de música. Adiante vinham o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente ajaezados e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros e damas da corte, que não ficavam somenos aos soberanos do imaginário reino africano. Fazia de rainha Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança; e todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas. O luxo que ostentavam fora pago, parte com as suas economias, e parte com dádivas dos senhores, cuja vaidade se personificava nos próprios escravos. Cada um desses ricos fazendeiros se desvanecia da admiração que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente seus pajens, e pelos soberbos cavalos fogosos que eles meneavam com certo donaire. No meio das figuras, vestidas à antiga e de fantasia, saltavam outras, cobertas ou antes eriçadas da cabeça aos pés com os molhos de um capim duro e híspido. Agitado pelo contínuo movimento, produzia essa croça verde um vivo sussurro, ao qual respondiam os chocalhos de latas e as cabaças, que tangiam os pretos assim mascarados. Esse resquício dos folgares e danças dos índios caiapós dava à festa africana uns ressaibos americanos, que faziam inteiro contraste com as galas e louçanias emprestadas pela moda europeia, ou pelos usos do Oriente. De ordinário costumam as pretas fazer a sua folgança do Congo nas proximidades do Natal; mas nesse ano não a tinham podido aprontar para aquele tempo. (José de Alencar, Til.)

Texto III: Pedro Bala sentiu uma onda dentro de si. Os pobres não tinham nada. O padre José Pedro dizia que os pobres um dia iriam para o reino dos céus, onde Deus seria igual para todos. Mas a razão jovem de Pedro Bala não achava justiça naquilo. No reino do céu seriam iguais. Mas já tinham sido desiguais na terra, a balança pendia sempre para um lado. As imprecações da mãe de santo enchiam a

noite mais que o ruído dos agogôs e atabaques que desagravavam Ogum. Don’Aninha era magra e alta, um tipo aristocrático de negra, e sabia levar como nenhuma das negras da cidade suas roupas de baiana. Tinha o rosto alegre, se bem bastasse um olhar seu para inspirar absoluto respeito. Nisso se parecia com o padre José Pedro. Mas agora estava com um ar terrível e suas imprecações contra os ricos e a polícia enchiam a noite da Bahia e o coração de Pedro Bala. Quando a deixaram, rodeada das suas filhas de santo, que beijavam sua mão, Pedro Bala prometeu: – Deixa estar, mãe Aninha, que amanhã te trago Ogum. Ela bateu a mão na cabeça loira dele, sorriu. João Grande e o Sem-Pernas beijaram a mão da negra. Desceram a ladeira. Os agogôs e atabaques ressoavam desagravando Ogum. O Sem-Pernas não acreditava em nada, mas devia favores a Don’Aninha. Perguntou: – O que é que a gente vai fazer? O troço está na polícia. João Grande cuspiu, estava com certo receio. – Não chame Ogum de troço, Sem-Pernas. Ele castiga... – Tá preso, não pode fazer nada – riu o Sem-Pernas. João Grande calou a boca, porque sabia que Ogum era grande demais, mesmo na cadeia podia castigar o Sem-Pernas. Pedro Bala coçou o queixo, pediu um cigarro: – Deixa eu matutar. A gente tem que dar conta. A gente garantiu a Aninha. Agora tem que fazer. Desceram para o trapiche. A chuva entrava pelos buracos do teto, a maior parte dos meninos se amontoavam nos cantos onde ainda havia telhado. O Professor tentara acender sua vela, mas o vento parecia brincar com ele, apagava-a de minuto a minuto. Afinal ele desistiu de ler essa noite e ficou peruando um jogo de sete e meio que o Gato bancava, ajudado por Boa-Vida, num canto. Moedas no chão, mas nenhum rumor desviava Pirulito das suas orações diante da Virgem e de Santo Antônio. (Jorge Amado, Capitães da Areia.)

35. Os trechos anteriores mostram uma característica cultural brasileira muito comum. Explique, resumidamente, do que se trata.

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Respostas Gabarito dos testes 20.b

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25.b

Respostas possíveis para as questões escritas 30. Trata-se de Brás, um menino com problemas mentais, que se afeiçoa à protagonista Berta, a qual procura, por meio de ensinamentos escolares, integrá-lo à vida social. É Brás que, em uma das aulas que tinha com a moça, dá a ela o apelido de Til, já que a achava graciosa como o acento gráfico. Seu relacionamento com Berta mostra claramente a força integradora e socializadora da protagonista. 31. D. Ermelinda é a esposa de Luís Galvão. Casa-se com ele na juventude e tem dois filhos, Linda e Afonso. Representa a mulher da elite agrária do século XIX, dedicada ao marido e aos filhos, bem como aos afazeres domésticos. Ela é força harmonizadora e de imposição da ordem na família Galvão e aceita o passado de Luís Galvão em nome da paz familiar e de sua posição social.

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32. Trata-se de Domingão, o professor arrumado por Luís Galvão para ensinar as primeiras letras a seu sobrinho. A personagem encontra-se diretamente ligado a Brás. O professor se opõe a Berta, já que esta ensina com calma, paciência e carinho, enquanto Domingão acredita que a educação se faz com castigos físicos. 33. Berta é abnegada, deixa de se relacionar com Miguel, pois a melhor amiga estava apaixonada por ele. Passa então a convencê-lo de que esse amor vale a pena. Também é caridosa, como mostra sua atitude com Brás, o deficiente mental, a quem ela tenta socializar, com paciência e amor. Além disso, sabe reconhecer os que a ajudaram, retribuindo com verdadeira alma cristã, como acontece com Zana e Jão Fera. 34. Os dois incêndios não foram acidentais. No caso de Til, foi planejado, com intenção criminosa, por Ribeiro. No caso de O cortiço, ocorreu espontaneamente, após outras tentativas, por causa da loucura da personagem Bruxa. 35. Os três textos falam do sincretismo religioso, que consiste na mistura de crenças e de elementos das religiões afro com práticas da religião católica, como mostrado nos excertos.

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Memórias de um sargento de milícias Manuel Antônio de Almeida Exercícios testes Texto para as questões de 36 a 38. Era no tempo do rei. Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo – O canto dos meirinhos –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamavam o processo. Daí sua influência moral. Mas tinham ainda outra influência, que é justamente a que falta aos de hoje: era a influência que derivava de suas condições físicas. Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes, nem no seu semblante nem no seu trajar, confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desse belo tempo não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos: nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isso por um grave chapéu armado.

36. O “canto dos meirinhos” refere-se: a) ao hino corporativo entoado nos encontros desses funcionários judiciais. b) à taberna frequentada pelos integrantes da máfia. c) à repartição pública onde se concentravam esses funcionários judiciais. d) ao recanto urbano onde se reuniam esses funcionários do Judiciário. e) ao único lugar onde eram encontrados esses funcionários do Judiciário. 37. Depreende-se do texto que: a) na época em que os meirinhos eram pessoas muito consideradas, havia uma quantidade grande de questões judiciais no Rio de Janeiro. b) os meirinhos eram funcionários imperiais voltados para as atividades de censura e controle das diversões públicas. c) os meirinhos eram juristas altamente especializados em processualística, ou melhor, dominavam completamente a teoria e a prática do processo judicial. d) os meirinhos eram funcionários graduados do Poder Judiciário que desfrutavam de sólida posição material e política. e) os meirinhos eram uma classe de funcionários imperiais que se ocupavam exclusivamente da instrução e julgamento de quaisquer questões policiais. 38. O autor sugere que: a) a influência moral dos meirinhos derivava tanto do tipo de trabalho que faziam como do porte físico que possuíam. b) o prestígio social dos meirinhos resultava tão somente das insígnias de prosperidade econômica que faziam questão de exibir. c) a consideração de que desfrutavam os meirinhos na Corte prendia-se sobretudo à identidade de pontos de vista que partilhavam com a nobreza.

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d) se comparados a outras categorias de funcionários do Judiciário, os meirinhos não gozavam de um prestígio social proporcional a seu poder político. e) a força de que dispunham os meirinhos no tempo do rei se assentava no controle estrito que exerciam sobre as tramoias judiciais e sobre a moda masculina. 39. (FCC) Daqui em diante trataremos o nosso memorando pelo seu nome de batismo: não nos ocorre se já dissemos que ele tinha o nome do pai; mas se não o dissemos, fique agora dito. E para que se possa saber quando falamos do pai e quando do filho, daremos a este o nome de Leonardo e acrescentaremos o apelido de Pataca, já muito vulgarizado nesse tempo, quando quisermos tratar daquele. Em Memórias de um sargento de milícias, de que é exemplo o excerto anterior, Manuel Antônio de Almeida cria uma personagem principal: a) atípica, presa ao império da sensualidade e oprimida pela carga genética. b) de elite, representante das camadas aristocráticas da sociedade e cujas desventuras traduzem a desagregação da burguesia do tempo. c) complexa, rica de mistério e profundidade psicológica, cuja intensa vida interior se vai revelando no curso dos acontecimentos. d) popular, tipicamente um anti-herói, por meio do qual se faz a crítica dos valores da sociedade burguesa e das instituições da época. e) idealizada, com qualidades físicas e morais que representam o protótipo dos heróis do romance romântico. Texto para as questões de 40 a 42. O Leonardo começou a procurar com os olhos alguma coisa ou alguém que tinha curiosidade de ver; deu com o que procurava: era Luisinha. Há muito que os dois se não viam; não puderam pois ocultar o embaraço de que se acharam tomados. E foi tanto maior essa emoção, que ambos ficaram surpreendidos um do outro. Luisinha achou Leonardo um guapo rapagão de bigodes e suíça; elegante até onde pode sê-lo, um soldado de granadeiros, com o seu uniforme de sargento bem assente. Leonardo achou Luisinha uma moça espigada, airosa mesmo, olhos e cabelos pretos, tendo

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perdido todo aquele acanhamento físico de outrora. Além disso seus olhos, avermelhados pelas lágrimas, seu rosto empalidecido, se não verdadeiramente pelos desgostos daquele dia, seguramente pelos antecedentes, tinham nessa ocasião um toque de beleza melancólica, que em regra geral não devia prender muito a atenção de um sargento de granadeiros, mas que enterneceu ao sargento Leonardo, que apesar de tudo, não era um sargento como qualquer. E tanto assim, que durante a cena muda que se passou, quando os dois deram com os olhos um no outro, passaram rapidamente pelo pensamento do Leonardo os lances de sua vida de outrora, e remontando de fato em fato, chegou àquela ridícula mas ingênua cena da sua declaração de amor a Luisinha. Pareceu-lhe que tinha então escolhido mal a ocasião, e que agora isso teria um lugar muito mais acertado. A comadre, que dava uma perspicaz atenção a tudo o que se passava, como que leu na alma do afilhado aqueles pensamentos todos; fez um gesto quase imperceptível de alegria: raiava-lhe na mente alguma ideia luminosa. Começou então a retraçar um antigo plano em cuja execução por muito tempo trabalhava, e cujas probabilidades de êxito lhe haviam reaparecido no que se acabava de passar. 40. Qual das passagens citadas a seguir revela que as personagens não se falaram? a) “... os dois deram com os olhos um no outro...” b) “Luisinha achou Leonardo um guapo rapagão de bigodes e suíça;” c) “... durante a cena muda que se passou...” d) “... remontando de fato em fato, chegou àquela ridícula mas ingênua cena de sua declaração de amor a Luisinha.” e) “... fez um gesto quase imperceptível de alegria...” 41. Observe as seguintes passagens do texto: “... tendo perdido todo aquele acanhamento físico de outrora.” “... passaram rapidamente pelo pensamento do Leonardo os lances de sua vida de outrora...” Elas indicam, respectivamente: a) a diferença que Leonardo observou na figura de Luisinha e o ressurgimento de seu amor por ela. b) a aparente mudança de Luisinha que, embora tivesse perdido o acanhamento, conti-

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nuava sendo uma jovem tímida; e as travessuras da vida de Leonardo. c) o endurecimento físico de Luisinha, que reafirma os sofrimentos por que passou a moça nas mãos do marido; e o ressurgimento do amor de Leonardo por Luisinha. d) o amadurecimento físico de Luisinha em comparação com a aparência acanhada que tinha outrora e o retroceder do pensamento de Leonardo, recapitulando o passado. e) a postura desembaraçada de Luisinha, que se sentia senhora de si no enterro do marido; e as reflexões que Leonardo pôde fazer a partir de tais observações. 42. Em qual alternativa os termos correspondem corretamente às expressões destacadas? “... uma moça espigada, airosa mesmo.” “... não era um sargento como qualquer.” “... com seu uniforme de sargento bem assente.” a) esbelta – vulgar – bem-talhado b) elegante – diferente – bem-assentado c) orgulhosa – comum – apertado d) infeliz – incomum – ajustado e) garbosa – invulgar – desalinhado Texto para as questões 43 e 44. Manuel Antônio deseja contar de que maneira se vivia no Rio popularesco de D. João VI; as famílias mal-organizadas, os vadios, as procissões, as festas e as danças, a polícia; o mecanismo dos empenhos, influências, compadrios, punições que determinavam certa forma de consciência e se manifestavam por certos tipos de comportamento (...). O livro aparece, pois, como sequência de situações. (Antonio Candido, Formação da literatura brasileira.)

43. O texto crítico faz alusão à “sequência de situações” como uma série de pequenos relatos no interior de Memórias de um sargento de milícias. Em qual alternativa há pelo menos um relato que não faz parte do volume referido? a) Leonardo Pataca (o pai) amasia-se com Chiquinha, filha da comadre, e com ela tem uma filha, em tudo contrária ao irmão. b) Maria da Hortaliça retorna a Portugal em companhia de um capitão de navio, abandonando o filho para não mais tornar a vê-lo. c) Vidinha, enciumada, vai tomar satisfações com a moça do caldo e acaba envolvida em um rumoroso acidente que culmina com o

assassinato do toma-largura, amante da moça. d) Luisinha casa-se com José Manuel, embora nunca tenha deixado de gostar de Leonardo. e) O major Vidigal prende Leonardo e depois acaba por engajá-lo à Milícia. 44. A “sequência de situações”, referida por Antonio Candido, aparece aparentemente solta, no entanto: a) há uma unidade na obra, dada pela figura do anti-herói Leonardo, pois a estrutura é de novela. b) a unidade da obra, embora rara, é dada pelo narrador que enlaça as personagens, em um único ambiente. c) a unidade da obra é dada pelas personagens secundárias e pelo fato de a narração se situar em um tempo determinado. d) há uma unidade da obra, dada justamente pela população das camadas menos privilegiadas do Rio de Janeiro e pela estrutura de novela. e) não há unidade na obra, embora a estrutura de novela pudesse permitir um enlaçamento dos fatos. 45. Como sempre acontece a quem tem muito onde escolher, o pequeno, a quem o padrinho queria fazer clérigo mandando-o a Coimbra, a quem a madrinha queria fazer artista metendo-o na Conceição, a quem D. Maria queria fazer rábula arranjando-o em algum cartório, e a quem enfim cada conhecido ou amigo queria dar um destino que julgava mais conveniente às inclinações que nele descobria, o pequeno, dizemos, tendo tantas coisas boas, escolheu a pior possível: nem foi para Coimbra, nem para a Conceição, nem para cartório algum; não fez nenhuma destas coisas, nem também outra qualquer: constituiu-se um completo vadio, vadio mestre, vadio tipo. (...) Era a sobrinha de D. Maria já muito desenvolvida, porém que, tendo perdido as graças de menina, ainda não tinha adquirido a beleza de moça: era alta, magra, pálida; andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira.

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Tomando como ponto de partida os textos apresentados anteriormente, é possível afirmar que: a) a obra é totalmente romântica, pela idealização com que descreve a personagem feminina. b) a caracterização das personagens reflete as preocupações do mais puro realismo presentes em todas as obras do autor. c) enquanto a personagem masculina ajusta-se mais à figura de um malandro, a figura feminina é construída sem idealização, descrita quase à maneira do movimento realista que ainda estava por vir. d) devido à maneira direta de focalizar as personagens e descrevê-las retirando delas as características idealizadoras, seu autor é considerado o primeiro grande realista da literatura brasileira. e) enquanto a personagem masculina é um típico herói, a personagem feminina, tímida e singela, é descrita à maneira romântica. 46. A respeito de Memórias de um sargento de milícias, só não é lícito dizer que: a) sua linguagem fácil e seus vocábulos corriqueiros tecem uma espécie de documentação da fala em camadas mais populares. b) o herói, filho de beliscões e pisadelas, escapa da concepção tradicional de personagem romântica. c) são frequentes as interferências do narrador, que mantém diálogo com o leitor para que ambos – leitor e autor – possam meditar a respeito do desenvolvimento da obra, em uma atitude claramente metalinguística. d) o livro teve reconhecimento tardio principalmente porque nele não se encontram os ingredientes comuns aos romances da época. e) Manuel Antônio de Almeida volta-se para a confecção de tipos com rica caracterização psicológica, permitindo ao leitor conhecer o mundo exterior e interior das personagens. 47. (Fuvest) Era este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita e chupada, e excessivamente calvo; usava de óculos, tinha pretensões de latinista, e dava bolos nos discípulos por dá cá aquela palha. Por isso era um dos mais acreditados na cidade. O barbeiro entrou acompanhado pelo afilhado, que ficou um pouco esca-

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briado à vista do aspecto da escola, que nunca tinha imaginado. (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.)

Observando-se, neste trecho, os elementos descritivos, o vocabulário e, especialmente, a lógica da exposição, verifica-se que a posição do narrador frente aos fatos narrados caracteriza-se pela atitude: a) crítica, em que os costumes são analisados e submetidos a julgamento. b) lírico-satírica, apontando para um juízo moral pressuposto. c) cômico-irônica, com abstenção de juízo moral definitivo. d) analítica, em que o narrador onisciente prioriza seu afastamento do narrado. e) imitativa ou de identificação, que suprime a distância entre o narrador e o narrado. 48. (Mack) A comadre Cumpre-nos agora dizer alguma cousa a respeito de uma personagem que representará no decorrer desta história um importante papel, e que o leitor apenas conhece, porque nela tocamos de passagem no primeiro capítulo: é a comadre. Era a comadre uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonachona, ingênua ou tola até um certo ponto e finória até outro; vivia do ofício de parteira, que adotara por curiosidade, e benzia de quebranto; todos a conheciam por muito beata e pela mais desabrida papa-missa da cidade. (Manuel Antônio de Almeida)

Considere as seguintes afirmações. I. Apesar de romântica, a obra destaca-se pela quebra da idealização dos personagens. II. Valorização das peripécias em detrimento da análise psicológica, retratação de aspectos pitorescos da vida urbana, estilo despojado típico da crônica de costumes são traços que identificam a obra. III. O protagonista Leonardo é considerado um herói pícaro, cujo objetivo na vida é, basicamente, a luta pela sobrevivência. Assinale: a) se todas estão corretas. b) se todas estão incorretas. c) se apenas I e III estão corretas. d) se apenas II e III estão corretas. e) se apenas I está correta.

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49. (ITA) Assinale a opção correta com relação à obra Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida: a) O livro trata da história de um amor impossível passada no século XIX. b) A história é contada numa linguagem popular da mesma maneira como foram escritas outras obras da época. c) O livro trata das peripécias do protagonista, personagem cômico, pobre e sem nobreza de caráter. d) A história se passa num ambiente rural, tal como a história de O sertanejo, de José de Alencar. e) A história é contada numa linguagem que segue os padrões clássicos da época. 50. (PUC) O trecho a seguir foi extraído da obra Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Refere-se ao primeiro e último parágrafos do capítulo XXII – “Aliança” – Tomo I. A partir dele, responda a questão: Se Leonardo se afligira do modo que acabamos de ver pelo contratempo que lhe sobreviera com o aparecimento e com as disposições de José Manuel, o padrinho não se incomodava menos com isso; vendo que o afilhado se fazia homem, e tendo decididamente abortado aquele seu gigantesco plano de mandá-lo à Coimbra, enxergava na sobrinha de D. Maria um meio de vida excelente para o seu rapaz. Verdade é que se lembrava de que D. Maria podia com muito justa razão, se as cousas continuassem do mesmo modo, quando chegasse o momento do desfecho das cousas, recusar sua sobrinha a um rapaz que não se ocupava em cousa alguma, e que não tinha futuro. Por este motivo muitas vezes instava com o afilhado para que ensaiasse na cara de algum freguês tolo entrar no ofício; porém este recusava-se obstinadamente. A comadre, quando alguma vez aparecia por casa do barbeiro, não cessava de insistir no seu antigo projeto de fazer o rapaz entrar para a Conceição. Uma ocasião em que nisso falou diante dele, custou-lhe a história uma forte sarabanda: o rapaz tomara gosto à vida de vadio, e por princípio algum queria deixá-la. E se em outras ocasiões estava ele desse humor, agora depois dos últimos acontecimentos, quando o amor e o ciúme lhe ocupavam a alma, não queria ouvir falar em semelhantes cousas; acreditava que a sua melhor ocupação devia consistir em dar cabo do rival que se lhe antepusera. (...)

Veremos quais foram os resultados que alcançaram o compadre e o Leonardo com a aliança formada com a comadre contra o concorrente à Luisinha. No trecho “Se Leonardo se afligira do modo que acabamos de ver pelo contratempo que lhe sobreviera com o aparecimento e com as disposições de José Manuel, o padrinho não se incomodava menos com isso...” a última oração funciona como um argumento em relação à primeira. Esse argumento indica: a) causa em relação à primeira oração, justificando a ideia proposta. b) condição em relação à primeira oração, apresentando uma hipótese diante da ideia proposta. c) fim em relação à primeira oração, mostrando a finalidade da ideia proposta. d) oposição em relação à primeira oração, invertendo a ideia proposta. e) acréscimo em relação à primeira oração, reforçando a ideia proposta. (Fuvest) Texto para as questões 51 e 52. Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe1 em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da Hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia2 rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal-apessoado, e sobretudo era maganão3. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.” (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.)

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Glossário: (1) algibebe – mascate, vendedor ambulante. (2) saloia – aldeã das imediações de Lisboa. (3) maganão – brincalhão, jovial, divertido. 51. Nesse excerto, o modo pelo qual é relatado o início do relacionamento entre Leonardo e Maria: a) manifesta os sentimentos antilusitanos do autor, que enfatiza a grosseria dos portugueses em oposição ao refinamento dos brasileiros. b) revela os preconceitos sociais do autor, que retrata de maneira cômica as classes populares, mas de maneira respeitosa a aristocracia e o clero. c) reduz as relações amorosas a seus aspectos sexuais e fisiológicos, conforme os ditames do Naturalismo. d) opõe-se ao tratamento idealizante e sentimental das relações amorosas, dominante no Romantismo. e) evidencia a brutalidade das relações inter-raciais, própria do contexto colonial-escravista. 52. No excerto, o narrador incorpora elementos da linguagem usada pela maioria das personagens da obra, como se verifica em: a) “... aborrecera-se porém do negócio...” b) “... de que o vemos empossado...” c) “... rechonchuda e bonitota.” d) “... envergonhada do gracejo...” e) “... amantes tão extremosos...” 53. (PUC) Das alternativas a seguir, indique a que contraria as características mais significativas do romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. a) Romance de costumes que descreve a vida da coletividade urbana do Rio de Janeiro, na época de D. João VI. b) Narrativa de malandragem, já que Leonardo, personagem principal, encarna o tipo do malandro amoral que vive o presente, sem qualquer preocupação com o futuro. c) Livro que se liga aos romances de aventura, marcado por intenção crítica contra a hipocrisia, a venalidade, a injustiça e a corrupção social. d) Obra considerada de transição para um novo estilo de época, ou seja, o Realismo/Naturalismo. e) Romance histórico que pretende narrar fatos de tonalidade heroica da vida brasileira, como os vividos pelo major Vidigal, ambientados no tempo do rei.

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(Mack) Texto para as questões 54 e 55. O major era pecador antigo, e no seu tempo fora daqueles de que se diz que não deram o seu quinhão ao vigário: restava-lhe ainda hoje alguma cousa que às ve5 zes lhe recordava o passado: essa alguma cousa era a Maria Regalada que morava na prainha. Maria Regalada fora no seu tempo uma mocetona de truz*, como vulgarmente se diz: era de um gênio so10 bremaneira folgazão, vivia em contínua alegria, ria-se de tudo, e de cada vez que se ria fazia-o por muito tempo e com muito gosto; daí é que vinha o apelido – regalada – que haviam ajuntado a seu nome. Isto de apelidos, era no tempo destas 15 histórias uma cousa muito comum; não estranhem pois os leitores que muitas das personagens que aqui figuram tenham esse apêndice ao seu nome. (Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias.) (*) de truz – de primeira ordem, magnífica.

54. No segmento “fora daqueles de que se diz que não deram o seu quinhão ao vigário”, a expressão não deu o seu quinhão ao vigário: a) foi empregada em sentido figurado e deve ser entendida assim: “não agia em conformidade com a moral e os bons costumes”. b) é um recurso de estilo, utilizado para levar à compreensão do seguinte traço pecaminoso da personagem: “rejeitava o pagamento do dízimo”. c) constitui uma metáfora, com a qual o narrador caracteriza o traço de incredulidade da personagem com relação à fé católica. d) pode ser substituída, sem prejuízo do sentido original, por: “não desempenhava nenhuma atividade assistencial”. e) compõe a caracterização do major e, denotativamente, aponta para a seguinte ideia: “não reconhecia seus erros perante o pároco”. 55. A frase que, no contexto, pode ser corretamente entendida como uma consequência é: a) “... essa alguma cousa era a Maria Regalada...” (linhas 5 e 6) b) “Maria Regalada fora no seu tempo uma mocetona de truz...” (linhas 7 e 8) c) “... era de um gênio sobremaneira folgazão...” (linhas 9 e 10) d) “... fazia-o por muito tempo e com muito gosto...” (linhas 12 e 13) e) “... não estranhem pois os leitores...” (linhas 16 e 17)

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56. (PUC) Era a sobrinha de D. Maria já muito desenvolvida, porém que, tendo perdido as graças de menina, ainda não tinha adquirido a beleza de moça: era alta, magra, pálida; andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira. O trecho anterior é do romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Dele pode afirmar-se que: a) confirma o padrão romântico da descrição da personagem feminina, representada nessa obra por Luisinha. b) exemplifica a afirmação de que o referido romance estava em descompasso com os padrões e o tom do Romantismo. c) não fere o estilo romântico de descrever e narrar, pois se justifica por seu caráter de transição da estética romântica para a realista. d) justifica, dentro do Romantismo, a caracterização sempre idealizada do perfil feminino de suas personagens. e) insere-se na estética romântica, apesar das características negativas da personagem, que fazem dela legítima representante da dialética da malandragem. 57. (Fuvest) Os leitores estarão lembrados do que o compadre dissera quando estava a fazer castelos no ar a respeito do afilhado, e pensando em dar-lhe o mesmo ofício que exercia, isto é, daquele arranjei-me, cuja explicação prometemos dar. Vamos agora cumprir a promessa. Se alguém perguntasse ao compadre por seus pais, por seus parentes, por seu nascimento, nada saberia responder, porque nada sabia a respeito. Tudo de que se recordava de sua história reduzia-se a bem pouco. Quando chegara à idade de dar acordo da vida achou-se em casa de um barbeiro que dele cuidava, porém que nunca lhe disse se era ou não seu pai ou seu parente, nem tampouco o motivo por que tratava da sua pessoa. Também nunca isso lhe dera cuidado, nem lhe veio a curiosidade de indagá-lo. Esse homem ensinara-lhe o ofício, e por inaudito milagre também a ler e a escrever. Enquanto foi aprendiz passou em casa do seu... mestre, em falta de outro nome, uma vida que por um lado se parecia com a do fâmulo*, por outro

com a do filho, por outro com a do agregado, e que afinal não era senão vida de enjeitado, que o leitor sem dúvida já adivinhou que ele o era. A troco disso dava-lhe o mestre sustento e morada, e pagava-se do que por ele tinha já feito. (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.) (*) fâmulo – empregado, criado.

Nesse excerto, mostra-se que o compadre provinha de uma situação de família irregular e ambígua. No contexto do livro, as situações desse tipo: a) caracterizam os costumes dos brasileiros, por oposição aos dos imigrantes portugueses. b) são apresentadas como consequência da intensa mestiçagem racial, própria da colonização. c) contrastam com os rígidos padrões morais dominantes no Rio de Janeiro oitocentista. d) ocorrem com frequência no grupo social mais amplamente representado. e) começam a ser corrigidas pela doutrina e pelos exemplos do clero católico. (Unifesp) Para responder as questões de números 58 a 61, leia os dois textos a seguir. Texto 1:

(Adaptado de releitura de uma passagem do início do romance Memórias de um sargento de milícias. Disponível em www.fotolog.terra.com.br/biradantas.)

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Texto 2: Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos: foram os dois morar juntos: e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho (...). E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história.” (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.)

58. Com base nas informações do texto 1, é correto afirmar que Leonardo: a) acreditava que a vida no Brasil poderia ser tão interessante quanto a de Portugal. b) saiu de Portugal em companhia de sua namorada, Maria da Hortaliça. c) buscava um ofício lucrativo e agradável no Brasil, como o que tinha em Portugal. d) veio ao Brasil em razão de seu enfado com a vida que levava em Portugal. e) via o Brasil como um lugar de raras chances de êxito pessoal. 59. Com base nas informações verbais e visuais, é correto afirmar que o beliscão de Maria representa: a) a cumplicidade na situação de aproximação desencadeada pela pisadela. b) o desdém da quitandeira frente à intenção de aproximação de Leonardo. c) a condenação à atitude de Leonardo, por supor uma intimidade indesejada. d) o repúdio da quitandeira à situação, vendo Leonardo como homem desprezível. e) a aceitação de uma amizade, mas não de uma aproximação íntima entre ambos. 60. Observando as formas verbais fora, aborrecera-se e viera, é correto afirmar que representam ações: a) simultâneas, por essa razão expressas todas no mesmo tempo e modo verbal. b) inconclusas em um tempo anterior ao plano das ações narradas no pretérito imperfeito. c) simultâneas e frequentes no tempo passado, daí a opção pelo pretérito imperfeito. d) situadas em diferentes momentos, por isso expressas em diferentes tempos verbais. e) situadas num tempo anterior ao plano das ações narradas no pretérito perfeito. 61. Analise as afirmações sobre Memórias de um sargento de milícias.

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I. Esse romance incorpora, dentre outros valores do Romantismo, a idealização da mulher e do amor. II. O protagonista da história, Leonardinho, filho de Leonardo e Maria da Hortaliça, afasta-se do perfil de herói romântico, e sua história desenvolve-se numa narrativa em que se denunciam as mazelas sociais. III. A obra retrata a alta sociedade carioca do século XIX, criticando o jogo de interesses sociais. Está correto apenas o que se afirma em: a) I. b) II. c) III. d) I e III. e) II e III. 62. (PUC) Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos; foram os dous morar juntos; e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história. O trecho anterior integra o romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Considerando o romance como um todo, indique a alternativa que contém informações que não são pertinentes a essa obra. a) É classificado como romance folhetinesco, e foi publicado em capítulos no jornal carioca Correio Mercantil entre 1852 e 1853. b) Segundo alguns críticos, pode ser considerado precursor do movimento realista, por causa da forma como caracteriza o cotidiano dos personagens, moradores dos bairros populares do Rio de Janeiro. c) É considerado como o romance da malandragem, narrado em terceira pessoa e inteiramente aclimatado no tempo em que D. João VI governou o Brasil. d) É considerado um romance picaresco, por causa das ações de seu herói principal, e plenamente identificado com o ideário romântico vigente na literatura da época. e) Prende-se ao Romantismo brasileiro, ainda que apresente um certo descompasso com os padrões e o tom da estética romântica.

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Exercícios escritos 63. (Unicamp) No capítulo XXIII das Memórias de um sargento de milícias, o major Vidigal é visitado por três mulheres que intercedem por Leonardo. O major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas porém reconheceu as três, correu apressado à camarinha vizinha, e envergou o mais depressa que pôde a farda; como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar, tamancos, e um lenço de Alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao vê-lo assim, apesar da aflição em que se achava, mal pôde conter uma risada que lhe veio aos lábios. Compare essa imagem do major com a que ele tem nos capítulos anteriores. Diga se a nova imagem do major antecipa o resultado da visita das três mulheres e explique por quê.

cartório, e a quem enfim cada conhecido ou amigo queria dar um destino que julgava mais conveniente às inclinações que nele descobria, o pequeno, dizemos, tendo tantas coisas boas, escolheu a pior possível: nem foi para Coimbra, nem para a Conceição, nem para cartório algum; não fez nenhuma destas coisas, nem também outra qualquer: constituiu-se um completo vadio, vadio mestre, vadio tipo. (...) Era a sobrinha de D. Maria já muito desenvolvida, porém que, tendo perdido as graças de menina, ainda não tinha adquirido a beleza de moça: era alta, magra, pálida; andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira. (Manuel Antônio de Almeida)

64. (Unicamp) Manuel Antônio deseja contar de que maneira se vivia no Rio popularesco de D. João VI; as famílias mal-organizadas, os vadios, as procissões, as festas e as danças, a polícia; o mecanismo dos empenhos, influências, compadrios, punições que determinavam certa forma de consciência e se manifestavam por certos tipos de comportamento (...). O livro aparece, pois, como sequência de situações. (Antonio Candido, Formação da literatura brasileira.)

Podemos entender a “sequência de situações” a que se refere Antonio Candido como uma série de pequenos relatos no interior de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. a) Quem dá unidade, na obra, a essa sequência de relatos aparentemente soltos? b) Cite um desses relatos e mostre como ele se articula com a linha mestra do romance. 65. (PUC) Como sempre acontece a quem tem muito onde escolher, o pequeno, a quem o padrinho queria fazer clérigo mandando-o a Coimbra, a quem a madrinha queria fazer artista metendo-o na Conceição, a quem D. Maria queria fazer rábula, arranjando-o em algum

Tomando como ponto de partida a descrição das personagens presentes nos trechos anteriores, e considerando o romance como um todo, justifique a afirmação do crítico Antonio Candido de que Memórias de um sargento de milícias, obra escrita no Romantismo, estava meio em descompasso com os padrões e o tom do momento. 66. (Fuvest) Considere o seguinte fragmento do antepenúltimo capítulo de Memórias de um sargento de milícias, no qual se narra a visita que D. Maria, Maria Regalada e a comadre fizeram ao major Vidigal, para interceder por Leonardo (filho): O major recebeu-as de rodaque1 de chita e tamancos, não tendo a princípio suposto o quilate da visita; apenas porém reconheceu as três, correu apressado à camarinha2 vizinha, e envergou o mais depressa que pôde a farda: como o tempo urgia, e era uma incivilidade deixar sós as senhoras, não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda, calças de enfiar3, tamancos, e um lenço de Alcobaça sobre o ombro, segundo seu uso. A comadre, ao vê-lo assim, apesar da aflição em que se achava, mal pôde conter uma risada que lhe veio aos lábios.

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(1) rodaque – espécie de casaco. (2) camarinha – quarto. (3) calças de enfiar – calças de uso doméstico. a) Considerando o fragmento no contexto da obra, interprete o contraste que se verifica entre as peças do vestuário com que o major voltou à sala para conversar com as visitas. b) Qual a relação entre o referido vestuário do major e a sua decisão de favorecer Leonardo (filho), fazendo concessões quanto à aplicação da lei? 67. (Fuvest) Leia o trecho de abertura de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida e responda ao que se pede. Era no tempo do rei. Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo – O canto dos meirinhos –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. a) A frase “Era no tempo do rei” refere-se a um período histórico determinado e possui, também, uma conotação marcada pela indeterminação temporal. Identifique tanto o período histórico a que se refere a frase quanto a mencionada conotação que ela também apresenta.

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b) No trecho aqui reproduzido, o narrador compara duas épocas diferentes: o seu próprio tempo e o tempo do rei. Esse procedimento é raro ou frequente no livro? Com que objetivos o narrador o adota? 68. (Fuvest) Leia o excerto de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, para responder o que se pede. Caldo entornado A comadre, tendo deixado o major entregue à sua vergonha, dirigira-se imediatamente para a casa onde se achava Leonardo para felicitá-lo e contar-lhe o desespero em que a sua fuga tinha posto o Vidigal. (...) A comadre, segundo seu costume, aproveitou o ensejo, e depois que se aborreceu de falar no major desenrolou um sermão ao Leonardo, (...). O tema do sermão foi a necessidade de buscar o Leonardo uma ocupação, de abandonar a vida que levava, gostosa sim, porém sujeita a emergências tais como a que acabava de dar-se. A sanção de todas as leis que a pregadora impunha ao seu ouvinte eram as garras do Vidigal. Você concorda com as afirmações que seguem? Justifique suas respostas. a) Vê-se, no excerto, que a comadre procura incutir em Leonardo princípios morais destinados a corrigir o comportamento do afilhado. b) No sermão que prega a Leonardo, a comadre manifesta a convicção de que o trabalho é fator decisivo na formação da personalidade de um jovem.

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Respostas Gabarito dos testes 36.d

37.a

38.a

39.d

40.c

42.a

43.c

48.a

49.c

54.a

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59.a

Respostas possíveis para as questões escritas 63. Essa imagem descontraída e pouco marcial não combina com a figura atemorizante com que o major Vidigal se impunha, nas suas missões policiais, perante a população carioca. Diante dessa figura tão à vontade e receptiva, o leitor conclui, por antecipação, que Vidigal atenderia o pedido das três senhoras, no sentido de que libertasse, sem castigo, Leonardo (filho). 64. a) Como a estrutura é de uma novela, quem dá unidade à obra é o anti-herói Leonardo. b) Por exemplo, as histórias paralelas de Leonardo Pataca (o pai) que se “casa” com Chiquinha, filha da comadre; a Maria da Hortaliça retornando a Portugal; os ciúmes de Vidinha que acabam por jogá-la nos braços do toma-largura; o casamento de Luisinha com José Manuel; os casos do major Vidigal; entre outros. Todos os episódios, aparentemente desvinculados, que formam narrativas paralelas acabam alinhavados pelas ligações dos personagens com Leonardo (filho). 65. O “descompasso” entre Memórias de um sargento de milícias e as outras obras do período mostra-se, quanto às personagens: • na utilização do herói-pícaro (ou anti-herói) como protagonista – Leonardo filho ajusta-se mais à figura de um malandro que a de um mocinho; • na figura feminina construída sem idealização, descrita quase à maneira realista-naturalista que ainda estava por vir.

Além da caracterização pouco (ou quase nada) romântica das personagens, o livro gira em torno de camadas sociais e ambientes diversos dos que eram exibidos nas obras tipicamente românticas – Manuel Antônio de Almeida enfoca o universo dos pequenos funcionários públicos, dos trabalhadores da baixa burguesia, dos moradores dos subúrbios e até dos morros cariocas. 66. a) O major Vidigal, personagem responsável pela manutenção da ordem social no romance Memórias de um sargento de milícias, volta à sala “de farda, calças de enfiar, tamancos e um lenço de Alcobaça”, ou seja, parte de seu traje remete ao universo da lei e da ordem (a farda, o lenço) e parte se relaciona ao improviso e à desordem (a calça, os tamancos). A personagem materializa, portanto, as esferas da lei/não lei em seu próprio traje. b) Atendendo à intercessão das três senhoras, Vidigal se decide pela libertação de Leonardo, ou seja, deixa de cumprir a lei em nome de seus interesses particulares. Ele transita, assim, entre o cumprimento da lei e o não cumprimento dela, o que, aliás, é tematizado no próprio traje disparatado com que essa personagem se apresenta. 67. a) O período histórico é o primeiro quartel do século XIX, quando da vinda da família real (1808) e do rei D. João VI. Ao mesmo tempo, existe uma indeterminação temporal, típica dos contos de fada: “Era uma vez...”. b) Jogar com dois tempos é procedimento frequente no livro e o autor o utiliza para contrapor o tempo presente (do narrador) ao passado, muitas vezes resultando na ironia, no humor e no movimento da obra. 68. a) Não. Ela não quer corrigir as ações de Leonardo, mas, temerosa das “garras do Vidigal”, procura incutir no afilhado a necessidade de encontrar meios de escapar delas, no caso, pelo trabalho. b) Não. O sermão da comadre prega a necessidade de Leonardo buscar uma ocupação para escapar às garras de Vidigal, revelando-se assim a ausência de preocupação com a formação do caráter do jovem.

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Memórias póstumas de Brás Cubas Machado de Assis Exercícios teste 69. (Mack) Sobre o romance Memórias póstumas de Brás Cubas, não é correto afirmar que: a) é uma obra inovadora do processo narrativo, que introduz o Realismo no Brasil. b) Brás Cubas atua como defunto-narrador, capaz de alterar a sequência do tempo cronológico. c) o memorialismo exarcebado acaba por conferir à obra um caráter de crônica. d) constitui um romance de crítica ao Romantismo, deixando entrever muita ironia em vários momentos da narrativa. e) revela crítica intensa aos valores da sociedade e ao próprio público leitor da época. 70. (FGV) O romance Memórias póstumas de Brás Cubas foi publicado num momento significativo da literatura brasileira, tanto para a carreira de Machado de Assis, como para o desenvolvimento da prosa no Brasil. Tornou-se um divisor entre: a) a prosa romântica e a realista-naturalista. b) o romantismo e o cientificismo literário. c) os remanescentes clássicos e a necessidade de modernização. d) o espírito conservador e o espírito revolucionário. e) a prosa finissecular e a imposição renovadora da época. 71. (FCC) Memórias póstumas de Brás Cubas é considerado romance divisor de águas da obra machadiana porque, a partir dele, o autor: a) assume de vez a visão romântica da realidade, apenas esboçada nos romances da chamada primeira fase. b) se insere na estética naturalista, ao denunciar as mazelas sociais, os casos patológicos e os aspectos mais repugnantes da realidade. c) procede a uma retifïcação da própria obra, através da voz de personagens por meio das

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quais renega os valores da primeira fase. d) antecede as conquistas modernistas, com uma postura crítica diante da civilização industrial e uma atitude de denúncia das misérias do mundo rural. e) desmistifica as idealizações românticas e assume uma visão crítica que, despindo as aparências que encobrem a realidade, busca as razões últimas das ações humanas. 72. (FEI) Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.)

Assinale a alternativa que apresenta a característica de Machado de Assis que melhor se aplica ao texto anterior: a) Machado de Assis procura lançar a dúvida quanto à verdadeira identidade das pessoas: aparentamos o que somos ou somos o que aparentamos. b) A literatura machadiana busca as causas secretas do ser humano. O homem é um ser complexo, voltado para a maldade. c) Machado de Assis mostra uma visão pessimista, desencantada do ser humano. Apresenta o homem com falhas, egoísmo, ambições, vaidade, cinismo, hipocrisia. d) Ele é o cientista psicólogo. Procura, constantemente, analisar o comportamento do homem, desvendando sua miséria e apresentando-o como perverso e egoísta.

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e) O narrador, muitas vezes, constrói a obra com o leitor, isto é, o narrador interrompe para discutir, trocar ideias, comentar a própria narrativa. 73. (Fatec) (...) e tudo ficou sob a guarda de Dona Plácida, suposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa. Custou-lhe muito a aceitar a casa: farejara a intenção e doía-lhe o ofício: mas afinal cedeu. (...) Eu queria angariá-la (...). Quando obtive a confiança, imaginei uma história patética dos meus amores com Virgília, um caso anterior ao casamento, a resistência do pai, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novela. Dona Plácida não rejeitou uma só página da novela; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciência. Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que a Dona Plácida era minha sogra. Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio de cinco contos. Considerando o trecho de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, assinale a alternativa correta quanto ao procedimento do narrador. a) Denuncia o comportamento de Plácida, que coloca o dinheiro acima de qualquer outro valor. b) Ironiza a atitude de Plácida, que aceita como verdadeira uma história inventada. c) Fica comovido com a dor de Plácida e passa a tratá-la como sogra. d) Identifica-se com Plácida, para quem o ideal amoroso está acima das convenções sociais. e) Critica a atitude de Plácida, que valoriza a instituição familiar falida. (Fuvest) Texto para as questões de 74 a 79. Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: a diferença radical entre este livro e o Pentateuco. (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.)

74. Assinale a alternativa que apresenta só palavras relacionais retiradas do texto. a) uso, seja, algum, para, mas. b) e, eu, entre, este, em. c) em, para, ou, mas, entre. d) berço, nascimento, campa, princípio, fim. e) vulgar, diferente, galante, novo, radical. 75. “... levaram a adotar...” “... a sua morte...” “... não a pôs...” As três ocorrências de a são, respectivamente: a) preposição, pronome, preposição. b) pronome, artigo, preposição. c) preposição, artigo, pronome. d) artigo, artigo, preposição. e) artigo, pronome, pronome. 76. O autor afirma que: a) vai começar suas memórias pela narração de seu nascimento. b) vai adotar uma sequência narrativa vulgar. c) o que o levou a escrever suas memórias foram duas considerações sobre a vida e a morte. d) vai começar suas memórias pela narração da sua morte. e) vai adotar a mesma sequência narrativa utilizada por Moisés. 77. Definindo-se como um “defunto autor”, o narrador: a) pôde descrever a própria morte. b) escreveu suas memórias antes de morrer. c) obteve em vida o reconhecimento de sua obra. d) ressuscitou na sua obra após a morte. e) descreveu a morte após o nascimento. 78. Segundo o narrador, Moisés contou sua morte no: a) promontório. b) meio do livro. c) fim do livro. d) introito. e) começo da missa. 79. O tom predominante no texto é de: a) luto e tristeza. b) humor e ironia. c) pessimismo e resignação. d) mágoa e hesitação. e) surpresa e nostalgia.

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(Fatec) Texto que servirá de referência para responder a questão 80. Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário, eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. Era isto Virgília, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, – devoção, ou talvez medo; creio que medo. Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida; era aquilo com dezesseis anos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando estas páginas vierem à luz, – tu que me lês Virgília amada, não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não me tornou rabugento, nem injusto. – Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos? Ah! indiscreta! ah! ignorantona! (Machado de Assis)

80. No texto anterior, podem-se observar as seguintes características da prosa machadiana: a) Romance de costumes, preocupa-se em reproduzir a vida na Corte do século XIX; purismo na linguagem. b) Intromissão do narrador, que conversa com o leitor; idealização na composição de personagens. c) Distanciamento dos problemas do seu tempo: escapismo; superficialidade na criação de personagens.

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d) Ceticismo, pessimismo em relação ao ser humano; romance histórico. e) Quebra da estrutura habitual da narrativa; refinada ironia na composição de personagens. 81. (Fuvest) O senão do livro Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... (Machado de Assis)

Tendo em vista o contexto das Memórias póstumas de Brás Cubas, é correto afirmar que, nesse excerto: a) as imagens que se referem ao próprio livro, mesmo exageradas, apontam para características que esse romance de fato apresenta. b) ao ponderar a opinião do leitor, o narrador novamente evidencia o respeito e a consideração que tem por ele. c) o movimento autocrítíco põe em relevo, principalmente, a modéstia e a contenção características do narrador. d) o fato de o narrador dirigir-se diretamente ao leitor configura um momento de exceção no livro. e) a atitude do narrador contradiz a constância e a persistência com que habitualmente executa seus projetos. 82. (PUC-C) Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.

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A condição anterior na qual se apresenta o narrador das Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, permitiu-lhe: a) isentar-se de qualquer compromisso com a realidade objetiva, permanecendo no plano do imaginário e do fantástico. b) manter um frio julgamento de sua própria história, dispensando as marcas subjetivas da ironia e do humor. c) reconstruir caprichosamente a totalidade da própria história, com humor crítico e discreta melancolia. d) pairar acima das fraquezas humanas, analisando-as com rigor ético e severidade moral. e) satirizar as tendências românticas e espiritualistas da época, submetendo-as a uma visão cientifïcista da História.

e lógico, apresenta afirmações que ultrapassam a razão e o senso comum. b) a combinação de hesitações e autocrítica já caracteriza o tom de arrependimento com que o defunto autor relatará sua vida improdutiva. c) as hesitações e dúvidas revelam a presença de um narrador inseguro, que teme assumir a condução da narrativa e a autoridade sobre os fatos narrados. d) as preocupações com questões de método e as reflexões de ordem moral mostram um narrador alheio às meras questões literárias, tais como estilo e originalidade. e) as considerações sobre o método e sobre a lógica da narração configuram o modo característico de se iniciar o romance no Realismo.

(Fuvest) Texto para as questões de 83 a 85.

84. A metáfora presente em “a campa foi outro berço” baseia-se: a) na relação abstrato/concreto que há em campa/berço. b) no sentido conotativo que assume a palavra campa. c) na relação de similaridade estabelecida entre campa e berço. d) no sentido denotativo que tem a palavra berço. e) na relação todo/parte que existe em campa/berço.

Óbito do autor Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Capítulo Primeiro.)

83. Considerando-se este fragmento no contexto da obra a que pertence, é correto afirmar que, nele: a) o discurso argumentativo, de tipo racional

85. No texto, o particípio suposto expressa uma ideia de: a) causa b) finalidade c) tempo d) concessão e) conformidade

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Exercícios escritos 86. (Unicamp) A conhecida ironia de Machado de Assis fica evidente na seguinte passagem do romance Memórias póstumas de Brás Cubas:

Digo-vos que as lágrimas eram verdadeiras”? b) Transcreva do texto a frase que, revelando o estado de espírito do narrador, indicia seu envolvimento com Virgília.

... Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (...).

(FGV) Texto para as questões de 88 a 93.

Nesse, como em muitos outros trechos de seus romances, o escritor usa com maestria as palavras, obtendo, através da sua combinação, o efeito irônico desejado. Diga qual é a ironia presente na passagem citada e explique de que maneira Machado consegue obter o efeito irônico através das relações de significação que se estabelecem entre as palavras que ele escolheu. (PUC) Instrução: a questão de número 87 refere-se ao texto a seguir. No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluía Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada ministerial. Correu ao menos durante algumas semanas, que ele ia ser ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não é impossível que a notícia da morte me deixasse alguma tranquilidade, alívio, e um ou dois minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade: juro aos séculos que é a pura verdade. Fui ao enterro. Na sala mortu��ria achei Virgília, ao pé do féretro, a soluçar. Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o enterro, abraçou-se ao caixão, aflita; vieram tirá-la e levá-la para dentro. Digo-vos que as lágrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemitério; e, para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra na garganta ou na consciência. No cemitério, principalmente quando deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova, o baque surdo da cal deu-me um estremecimento passageiro, é certo, mas desagradável; e depois a tarde tinha o peso e a cor do chumbo; o cemitério, as roupas pretas... (Machado de Assis)

87. a) Considerando o romance Memórias póstumas de Brás Cubas como um todo, qual o verdadeiro motivo que teria levado o narrador a afirmar, referindo-se a Virgília: “Quando levantou a cabeça, vi que chorava deveras. (...)

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Capítulo LXXVI O estrume Súbito deu-me a consciência um repelão, acusou-me de ter feito capitular a probidade de D. Plácida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era melhor que concubina, e eu tinha-a baixado a esse ofício, à custa de obséquios e dinheiros. Foi o que me disse a consciência; fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a ex-costureira, da gratidão desta, enfim da necessidade. Notou a resistência de D. Plácida, as lágrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silêncios, os olhos baixos, e a minha arte em suportar tudo isso, até vencê-la. E repuxou-me outra vez de um modo irritado e nervoso. Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de D. Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma compensação. Se não fossem os meus amores, provavelmente D. Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã. A consciência concordou, e eu fui abrir a porta a Virgília. 88. “Medianeira não era melhor que concubina, e eu tinha-a baixado a esse ofício...” a) Afinal qual o ofício de D. Plácida? b) Que diferença existe entre um e outro? 89. “Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a ex-costureira, da gratidão desta, enfim da necessidade.” a) De que necessidade se trata? b) D. Plácida não aceitou de pronto. O que denota a resistência dela descrita no texto? 90. A personagem precisou exercitar sua “arte em suportar tudo isso, até vencê-la”.

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a) Por que arte? b) Como conciliar essa vitória da personagem com a necessidade da alínea “a” da questão anterior? 91. No texto a personagem joga com as palavras virtude e vício. a) De que vício e de que virtude se trata? b) Que análise permite o fato de a personagem relacionar ambos? 92. “... acusou-me de ter feito capitular a probidade de D. Plácida...” a) Dê o significado do verbo capitular. b) Probidade é derivado de probo. O que significa probo? 93. “Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de D. Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma compensação.” Há neste período uma oração coordenada sindética adversativa que é ao mesmo tempo principal em relação a uma subordinada substantiva objetiva direta. a) Qual é essa oração coordenada sindética adversativa que é também principal? b) Qual a sua oração subordinada substantiva objetiva direta? (Fuvest) Texto para as questões de 94 a 101.

Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber. – Está bom, perdoa-lhe, disse eu. – Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado! Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjecturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto! (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.)

O vergalho Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: – “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova. – Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado! – Meu senhor! gemia o outro. – Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, – o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele. – É, sim, nhonhô. – Fez-te alguma coisa ? – É um vadio e um bêbado muito grande.

94. Na sua opinião, o capítulo em questão mostra um autor preocupado com a instituição escravagista ou apenas preocupado em revelar formas do comportamento humano? Justifique sua resposta. 95. O narrador diz que gosta dos capítulos alegres. a) O capítulo em questão é alegre? b) Fundamente sua resposta. 96. No diálogo entre Nhonhô e Prudêncio há diferentes registros de fala. a) Aponte esses registros. b) O que esses registros indicam? 97. Observe atentamente as falas das personagens ao longo do capítulo. a) Entre que personagens ocorre o tratamento em segunda pessoa do singular? b) E o tratamento em terceira pessoa do singular?

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98. “... perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.” a) Em que tipo de discurso foi elaborada essa interrogativa? b) Transforme-a em discurso direto. 99. Brás Cubas é o Nhonhô em questão. Qual a origem e o significado da palavra Nhonhô? 100. “Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido...” a) A forma verbal sinto seria melhor compreendida como percebo ou como lamento? b) Qual a fundamentação que o contexto oferece para sua resposta? 101. O dicionário informa que vergalho é o órgão genital dos bois e dos cavalos; depois de cortado e seco, é também o azorrague feito desse órgão. Qual o sentido que a palavra vergalho assume em cada uma destas frases: a) “Cala a boca, besta! replicava o vergalho.” b) “Quem havia de ser o do vergalho?” 102. (Fuvest) Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.)

a) Explique resumidamente o que era o “emplasto” e por que deveria ter trazido celebridade a Brás Cubas. b) Relacionando-a sucintamente ao contexto sócio-histórico em que se desenvolve o enredo do romance, explique a frase “coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto”.

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103. (Unicamp) No romance Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador fornece ao leitor uma visão nada lisonjeira das personagens, especialmente quando se trata das personagens femininas. a) Sabendo que essa visão do narrador é acentuada no processo de construção daquela que foi a sua primeira e grande paixão de juventude, identifique essa personagem e cite ao menos um dos traços que a caracterizam. b) Referindo-se a D. Plácida, afirma o narrador: “Foi assim que lhe acabou o nojo”. Qual a função exercida por essa personagem na trama do citado romance? De que nojo se trata e de que modo ele teria acabado? 104. (Unicamp) Leia a sequir o capítulo CX, de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e que significativamente tem o título de “31”: Uma semana depois, Lobo Neves foi nomeado presidente de província. Agarrei-me à esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém, a data de 31, e esta simples transposição de algarismos eliminou deles a substância diabólica. Que profundas que são as molas da vida! a) O narrador refere-se aí a um episódio de bastante importância para o prosseguimento de sua vida amorosa. Quais as relações entre o narrador e a personagem Lobo Neves aí citada? b) Que episódio anterior deve ser levado em conta para se entender o trecho “Agarrei-me à esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13” ? c) A frase “Que profundas que são as molas da vida!” pode ser interpretada como irônica no contexto do romance. Por quê?

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Respostas b) “que a velhice de D. Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade”

Gabarito dos testes 69.c

70.a

71.e

72.e

73.b

74.c

75.c

76.d

77.a

78.c

79.b

80.e

81.a

82.c

83.a

84.c

85.d

Respostas possíveis para as questões escritas 86. A ironia está na conotação comercial, vinculando a duração do amor ao dinheiro. Na verdade, Marcela não amou Brás Cubas; apenas teve com ele uma relação motivada pelo interesse. O pensamento irônico nasce da combinação entre a pouca duração temporal e a vultosa quantia envolvidas no caso amoroso. 87. a) Por ter sido Virgília, durante algum tempo, amante de Brás Cubas, este supôs que ela não “amava” o marido, daí estranhar aquelas lágrimas que não eram por simples conveniência. b) “levava uma pedra na garganta ou na consciência”. 88. a) Encobertar os amores ilícitos de Virgília com Brás Cubas. b) Concubina é a amante, aquela que vive amasiada. Medianeira é a intermediária. No caso de D. Plácida, encoberta os amores ilícitos recebendo pagamento. 89. a) Dona Plácida estava passando por dificuldades financeiras, quando Virgília a procurou. b) “lágrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silêncios, os olhos baixos”. 90. a) Arte significa toda a técnica, todos os malabarismos que a personagem teve de enfrentar para conseguir vencer o humor de D. Plácida. b) Enquanto o tempo corre, a consciência de D. Plácida vai-se acomodando à situação e, entre a necessidade material e a moral, vence a primeira. 91. a) No texto, vício é o adultério – uma vez desencadeado, não volta atrás; virtude é a caridade de acolher uma mendiga. b) No caso de Brás Cubas, não haveria a virtude se não houvesse o vício, isto é, se não houvesse amores ilícitos não haveria a prática da caridade. 92. a) Fazer render, ceder. b) Probo: aquele que tem caráter íntegro, honesto. 93. a) “mas aleguei”

94. O autor se preocupa tanto com as formas de comportamento humano quanto com a escravidão. Com o comportamento porque faz uma reflexão ampla sobre a maneira pela qual os seres humanos descontam as injúrias recebidas, injuriando outros. Com a escravidão porque vivia numa sociedade onde havia senhores e escravos e ele mesmo, narrador, fora um senhor de escravo, e talvez por esta razão o episódio chama-lhe a atenção. 95. a) O capítulo não é alegre. b) O capítulo descreve, entre outros aspectos, um episódio no qual um ex-escravo está aplicando castigos físicos em um escravo e as reflexões que este fato suscita no narrador. 96. a) • “Ainda hoje deixei ele na quitanda (...) para na venda beber...” – falar coloquial e inculto de Prudêncio; • “Fez-te alguma coisa?”; “... perdoa-lhe” – falar culto de Nhonhô. b) Indicam os diferentes graus de cultura e, consequentemente, de nível social entre Nhonhô e Prudêncio. Apesar da alforria, a relação senhor-escravo permanece, sendo explicitada também no plano da linguagem. 97. a) Na 2ª pessoa estão as falas de: • Prudêncio dirigindo-se ao escravo: “Toma, diabo!”; “Cala a boca, besta!”; “Entra para casa, bêbado!”; • Brás Cubas dirigindo-se a Prudêncio: “Fez-te alguma coisa?”. b) Na 3ª pessoa está a fala de Prudêncio dirigindo-se a Brás Cubas: “Nhonhô manda, não pede” denotando a distância entre as personagens. Deve-se observar a mudança de pessoa na fala de Prudêncio, que, ao utilizar a 2ª pessoa referindo-se ao escravo assemelha-se à postura de Nhonhô referindo-se a ele. 98. a) Discurso indireto. b) Perguntei-lhe: – Esse preto é seu escravo? 99. Nhonhô é o tratamento que os escravos davam ao senhor. É uma variante de senhor > sinhô > nhonhô > ioiô. 100. a) Como lamento. b) Brás Cubas lamentava o fato de ter perdido a infinidade de reflexões que seriam “matéria para um bom capítulo, e talvez alegre” porque o autor gostava “dos capítulos alegres”.

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101. a) O vergalho está no sentido figurado e se refere a Prudêncio. b) Vergalho está no sentido literal, significando açoite, chicote. 102. a) O emplasto é uma espécie de panaceia universal, uma vez que seria um medicamento que curaria todas as doenças da humanidade, das mais simples às mais complexas. Por outro lado, o emplasto significaria para Brás Cubas a perseguida imortalidade, dando-lhe o “primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza”. b) Brás Cubas vive de rendimentos dos bens herdados; representa uma parte da elite social do Rio de Janeiro do século XIX que não precisava do trabalho para sua sobrevivência. No contexto de uma sociedade escravocrata, Brás reflete a posição do senhor, insensível e egoísta. 103. a) Marcela, prostituta, extremamente interessada em homens que lhe possam trazer bons rendimentos.

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b) Dona Plácida é “medianeira”, uma antiga ama de Virgília que vai acobertar as relações adúlteras entre esta e Brás Cubas. Quando lhe é proposto que tome conta da casinha da Gamboa, lança mão de um invólucro moral (nojo) para recusar tal função, mas esse nojo é convenientemente superado quando Brás Cubas lhe oferece dinheiro pela tarefa que executará. 104. a) Brás Cubas e Lobo Neves tinham relações amistosas, embora fossem rivais no campo amoroso. b) A primeira nomeação de Lobo Neves para presidente de província veio datada de 13 e, como ele era supersticioso, recusou a nomeação, permanecendo no Rio, o que permitiu a continuidade do caso amoroso entre Brás Cubas e Virgília. c) A frase é irônica porque Brás Cubas, ao tratar das crendices (no caso a troca de 13 por 31), critica a forma como os homens se deixam levar por coisas supérfluas e/ou casuísmos.

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O cortiço Aluísio Azevedo Exercícios testes (Fatec) Leia o texto para responder as questões 105 e 106. Ao chegarem à casa, João Romão pediu ao cúmplice que entrasse e levou-o para o seu escritório. – Descanse um pouco... disse-lhe. – É, se eu soubesse que eles se não demoravam muito ficava para ajudá-lo. – Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada. Tomavam café, quando um empregado subiu para dizer que lá embaixo estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que desejava falar ao dono da casa. – Vou já, respondeu este. E acrescentou para o Botelho: – São eles! – Deve ser, confirmou o velho. E desceram logo. – Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao armazém. Um homem alto, com ar de estroina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha de papel. João Romão, um pouco trêmulo, abriu-a defronte dos olhos e leu-a demoradamente. Um silêncio formou-se em torno dele; os caixeiros pararam em meio do serviço, intimidados por aquela cena em que entrava a polícia. – Está aqui com efeito... disse afinal o negociante. Pensei que fosse livre... – É minha escrava, afirmou o outro. Quer entregar-ma?... – Mas imediatamente. – Onde está ela? – Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar... O sujeito fez sinal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, à frente deles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atrás, pálido, com as mãos cruzadas nas costas. Atravessaram o armazém, depois um pequeno corredor que dava para um pátio calçado, chegaram finalmente à cozinha. Bertoleza, que

havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cócoras, no chão, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando viu parar defronte dela aquele grupo sinistro. Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo compreendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro. Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os olhos em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe o ombro. – É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a segui-los. – Prendam-na! É escrava minha! A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmadas no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar. Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado. E depois emborcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue. João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos. Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito. Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas. (Aluísio Azevedo, O cortiço.)

105. Para livrar-se de Bertoleza, João Romão agiu de forma dissimulada, tramando contra

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ela, como mostram alguns índices explicitados no texto. Assinale a alternativa contendo somente passagens marcadas por tais índices: a) “São quatro e meia, segredou-lhe na escada.” / “Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.” b) “João Romão pediu ao cúmplice...” / “– Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce...” c) “– Descanse um pouco... disse-lhe.” / “João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos.” d) “E acrescentou para o Botelho: – São eles!” / “Tenha a bondade de entrar...” e) “– Vou já, respondeu este.” / “Pensei que fosse livre...” 106. Com base no texto, considere as seguintes afirmações: I. Nesse trecho, Aluísio Azevedo mostra-se irônico ao expor como era frágil o movimento abolicionista, já que a cena revela o contraste entre a aparência e a essência de João Romão diante da escravidão. II. A narrativa se desenrola em linguagem simples, em tom coloquial, como é próprio da prosa naturalista. III. Mostra-se o traço naturalista na descrição da morte de Bertoleza, pela óptica do animalesco, com referências como “ímpeto de anta bravia, (...) rugindo e esfocinhando”. IV. Também é marca do Naturalismo a construção de personagens como João Romão, que desprezava a moral para atingir seus objetivos. Deve-se concluir que estão corretas as afirmações: a) I, II e III, somente. b) II, III e IV, somente. c) II e III, somente. d) I, III e IV, somente. e) I, II, III e IV. 107. (ITA) Acerca do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, não é correto dizer que: a) todas as personagens, por serem muito pobres, enveredam pelo mundo do crime ou da prostituição. b) as personagens Bertoleza, Rita Baiana e Pombinha, ainda que sejam pobres, possuem temperamentos distintos. c) homens e mulheres são, na sua maioria, vítimas de uma situação de pobreza que os desumaniza muito.

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d) as personagens, na sua maioria, sejam homens ou mulheres, vivem quase que exclusivamente em função dos impulsos do desejo e da perversidade sexual. e) a vida difícil das personagens, tão ligadas à criminalidade e à prostituição, é condicionada pelo meio adverso em que vivem e por problemas biopatológicos. 108. (Unifesp) Fechou-se um entra e sai de marimbondos defronte daquelas cem casinhas ameaçadas pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao ombro, numa balbúrdia de doidos. O pátio e a rua enchiam-se agora de camas velhas e colchões espocados. Ninguém se conhecia naquela zumba de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas pela dor e pelo desespero. Da casa do Barão saíam clamores apopléticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com um ataque. E começou a aparecer água. Quem a trouxe? Ninguém sabia dizê-lo; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chamas. Os sinos da vizinhança começaram a badalar. E tudo era um clamor. A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha acesa. Estava horrível; nunca fora tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens, dava-lhe um caráter fantástico de fúria saída do inferno. E ela ria-se, ébria de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, vitoriosa no meio daquela orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em segredo a sua alma extravagante de maluca. Ia atirar-se cá para fora, quando se ouviu estalar o madeiramento da casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca num montão de brasas. (Aluísio Azevedo, O cortiço.)

Releia o fragmento de O cortiço, com especial atenção aos dois trechos a seguir. Ninguém se conhecia naquela zumba de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas pela dor e pelo desespero. (...) E começou a aparecer água. Quem a trouxe? Ninguém sabia dizê-lo; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chamas.

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No fragmento, rico em efeitos descritivos e soluções literárias que configuram imagens plásticas no espírito do leitor, Aluísio Azevedo apresenta características psicológicas de comportamento comunitário. Aponte a alternativa que explicita o que os dois trechos têm em comum. a) Preocupação de um em relação à tragédia do outro, no primeiro trecho, e preocupação de poucos em relação à tragédia comum, no segundo trecho. b) Desprezo de uns pelos outros, no primeiro trecho, e desprezo de todos por si próprios, no segundo trecho. c) Angústia de um não poder ajudar o outro, no primeiro trecho, e angústia de não se conhecer o outro, por quem se é ajudado, no segundo trecho. d) Desespero que se expressa por murmúrios, no primeiro trecho, e desespero que se expressa por apatia, no segundo trecho. e) Anonimato da confusão e do “salve-se quem puder”, no primeiro trecho, e anonimato da cooperação e do “todos por todos”, no segundo trecho. 109. (Mack) Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem, conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e empunhando a sua chibata com que tinha o costume de fustigar as calças de brim, ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava “teso” e por cima do ombro. A mulher, a quem ele só dava “tu” quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência do seu temperamento e não do arbítrio do seu caráter. (Aluísio Azevedo)

Assinale a alternativa que apresenta comentário crítico adequado ao texto. a) Para o escritor realista, imbuído dos princípios cientificistas do século XIX, a beleza física das personagens deve necessariamente corresponder à beleza moral. b) A personagem de romance romântico notabiliza-se por um comportamento social agressivo, que contrasta com a afetividade, característica do convívio familiar. c) De acordo com os cânones da estética naturalista, a indolência típica do comporta-

mento feminino torna as mulheres frágeis e volúveis. d) Para o escritor naturalista, os traços instintivos determinam o comportamento das pessoas. e) O escritor realista defende a tese de que o autoritarismo é resultado da herança genética, sendo, portanto, independente da posição social. 110. (Mack)

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Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos (...). A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam (...). E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. (Aluísio Azevedo, O cortiço.)

Considerando o fragmento transcrito no contexto do romance, a expressão “abrasileirou-se” (linhas 10 e 11) revela que Jerônimo: a) adquiriu comportamento solto e criativo, voltando-se para a fruição artística. b) transformou-se num homem amoroso e mais inteligente. c) ficou motivado a ascender social e economicamente. d) recuperou a saúde física, graças aos estímulos da natureza tropical. e) tornou-se mais inclinado aos prazeres sensuais. 111. Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas, e cujas raízes piores e mais grossas do que serpentes, minavam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo e abalando tudo. (Aluísio Azevedo, O cortiço.)

A partir da leitura do trecho anterior, e tendo em vista o contexto social retratado pela obra, pode-se dizer que:

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a) Miranda, ex-morador do cortiço, mudou-se porque não conseguia se adaptar a esse ambiente rude e hostil. b) vizinho do cortiço, Miranda admirava a força e a coragem dos trabalhadores da pedreira. c) diferente de Miranda, que demonstra desprezo pelos moradores do cortiço, estes o admiravam, por ser um modelo de homem íntegro e bem-sucedido nos negócios. d) a personagem Miranda é representante do clero, o que justifica seu moralismo com relação aos moradores do cortiço. e) o sobrado, onde mora Miranda, e o cortiço representam lados opostos dentro da sociedade carioca retratada pelo romance. 112. Texto I: A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha a “Machona”, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo. Texto II: Não podia tirar os olhos daquela criatura de catorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças com as pontas atadas uma à outra, a modo do tempo, desciam pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo. Contrastando-se as descrições apresentadas em cada um dos excertos, são feitas as seguintes afirmações: I. As personagens, descritas de modo bastante pormenorizado, pertencem ao mesmo romance. II. O estilo naturalista de descrição está bem claro no primeiro trecho. III. O segundo trecho apresenta uma das personagens femininas mais marcantes da história da literatura brasileira: Capitu, do romance Dom Casmurro, escrito por Machado de Assis. IV. Leandra, descrita como personagem tipicamente naturalista, conforme o texto I, e Pombinha, jovem adolescente pura e sem malícia, conforme o texto II, são personagens secundárias. Está correto o que se afirma em: a) I e II. b) I, II e IV.

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c) II e III. d) III, apenas. e) IV, apenas. 113. Assinale a alternativa incorreta: a) João Romão é ganancioso e mesquinho, sendo capaz de muitas desonestidades para atingir seu objetivo de acumular dinheiro. b) Rita Baiana é uma mulata bonita e sensual que trabalha como lavadeira e está sempre disposta a ajudar os outros. c) Jerônimo, a princípio, mostra-se bastante saudoso de sua terra, mas, indo morar no cortiço, sucumbe às influências perniciosas do meio e transforma-se totalmente. d) Pombinha, embora seja moradora do cortiço, mostra-se como uma exceção a esse meio dentro do romance, comportando-se de maneira diversa dos demais personagens, durante todo o desenrolar da história. e) Miranda, português que se torna vizinho do cortiço de João Romão, cultiva em relação a este um profundo sentimento de inveja, embora tal sentimento vá se invertendo ao longo do romance, ou seja, é João Romão quem passa a sentir inveja de Miranda. (ITA) Texto para as questões 114 e 115. Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado freneticamente, erguendo e baixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra titilando. Em torno o entusiasmo tocava ao delírio; um grito de aplauso explodia de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito saído do sangue. E as palmas insistiam cadentes, certas, num ritmo nervoso, numa persistência de loucura. E, arrastado por ela, pulou à arena o Firmo, ágil, de borracha, a fazer coisas fantásticas com as pernas, a derreter-se todo, a sumir-se no chão,

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a ressurgir inteiro com um pulo, os pés no espaço, batendo os calcanhares, os braços a querer fugir-lhe dos ombros, a cabeça a querer saltar-se. E depois, surgiu também a Florinda e logo o Albino e até, quem diria! o grave e circunspecto Alexandre. O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam dançar. Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos enamorados. Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.“ 114. Dadas as afirmações: I. O narrador, predominantemente onisciente, preocupa-se preferencialmente com o mundo interior das personagens. II. O narrador, observador, enfatiza aspectos sensuais do comportamento da personagem e seleciona da realidade aspectos perceptíveis pelos sentidos. III. O narrador, após sugerir alguns elementos perceptíveis da realidade, subjetivamente enfatiza aspectos positivos do comportamento da personagem. Inferimos que, de acordo com o texto, pode(m) estar correta(s): a) todas. b) apenas a I.

c) apenas a II. d) apenas a III. e) as afirmações II e III. 115. I. O narrador caracteriza Rita através de uma série de metáforas relacionadas às sensações táteis, visuais, olfativas e gustativas. II. Por algumas características observáveis no texto, podemos incluí-lo no estilo de época que dominou a segunda metade do século XIX e início do século XX. III. Enfatiza-se no texto o comportamento animal do ser humano. De acordo com o texto, pode(m) estar correta(s): a) todas. b) apenas a I. c) apenas a II. d) apenas a III. e) nenhuma das afirmações anteriores. 116. Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem, conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças de brim, ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava teso e por cima do ombro. A mulher, a quem ele só dava “tu“ quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência do seu temperamento e não do arbítrio do seu caráter. Em relação ao excerto anterior, analise as seguintes assertivas: I. Quando estava em casa, de folga, Alexandre era muito duro (“chão”) com os amigos. II. Quando vestia sua farda, Alexandre parecia vestir uma outra personalidade, mais séria, sisuda, moderada. III. A honestidade da mulher é destacada como um positivo traço de seu caráter. Estão corretas: a) I, II e III. b) I e II, apenas. c) I e III, apenas. d) II e III, apenas. e) II, apenas. 117. E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo,

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uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco. No trecho anterior, o autor procura descrever o cortiço: a) atenuando os problemas sociais por meio do determinismo. b) acentuando a inocência e a fragilidade das personagens, as quais, contra a vontade, tinham de viver como bichos. c) vinculando-o às formas mais primitivas e poéticas da natureza, ainda que isso involuntariamente destacasse um aspecto sombrio e asqueroso. d) acentuando o modo animalesco como viviam seus moradores, comparando-os aos vermes que habitam o esterco. e) obedecendo aos padrões realistas, ou seja, de modo objetivo e fiel à realidade, privando-se de exageros e metáforas. 118. Afinal, já não lhe bastava sortir o seu estabelecimento nos armazéns fornecedores; começou a receber alguns gêneros diretamente da Europa: o vinho, por exemplo, que ele dantes comprava aos quintos nas casas de atacado, vinha-lhe agora de Portugal às pipas, e de cada uma fazia três com água e cachaça; e despachava faturas de barris de manteiga, de caixas de conserva, caixões de fósforos, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias. Criou armazéns para depósito, aboliu a quitanda e transferiu o dormitório, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de tamanho e ganhou mais duas portas. Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de tudo: objetos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensílios de escritório, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa de mulher, chapéus de palha próprios para o serviço ao sol, perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e anéis e brincos de metal ordinário. E toda a gentalha daquelas redondezas ia cair lá, ou então ali ao lado, na casa de pasto, onde os operários das fábricas e os trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam bebendo e conversando até às dez horas da noite, entre o espesso fumo dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampiões de querosene. Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, quando algum

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precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco. E sobre este cobre, quase sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por cento ao mês, um pouco mais do que levava aos que garantiam a dívida com penhores de ouro ou prata. No excerto anterior, encontram-se inúmeras táticas de que João Romão se valeu para prosperar seu negócio, exceto: a) eliminar os intermediários, comprando produtos diretamente da Europa. b) misturar vinho com água e cachaça para reduzir seu teor alcoólico, preservando assim a saúde de seus clientes. c) aumentar a variedade de produtos à venda em seu estabelecimento. d) ampliar o espaço físico do recinto, transformando sua taverna num bazar. e) emprestar dinheiro cobrando juros. 119. (UEL) A questão refere-se aos trechos a seguir. Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita da venda, separado desta apenas por aquelas vinte braças; e de sorte que todo o flanco esquerdo do prédio, coisa de uns vinte e tantos metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janelas de peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante português, estabelecido na rua do Hospício com uma loja de fazendas por atacado. (...) E durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado diante daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas, e cujas raízes piores e mais grossas do que serpentes miravam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo e abalando tudo. (Aluísio Azevedo. O cortiço. São Paulo: Martins, 1974. 26. ed. pp. 23 e 33.) Com base nos fragmentos citados e nos conhecimentos sobre o romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, considere as afirmações a seguir. I. A descrição do cortiço, feita através de uma linguagem metafórica, indica que, no roman-

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ce, esse espaço coletivo adquire vida orgânica, revelando-se um “ser” cuja força de crescimento assemelha-se ao poderio de raízes em desenvolvimento constante que ameaçam tudo abalar. II. A inquietação de Miranda quanto ao crescimento do cortiço deve-se ao fato de que sua casa, o sobrado, ainda que fosse uma construção imponente, não possuía uma estrutura capaz de suportar o crescimento desenfreado do vizinho, que ameaçava derrubar sua habitação. III. Não obstante a oposição entre o sobrado e o cortiço em termos de aparência física dos ambientes, os moradores de um e outro espaço não se distinguem totalmente, haja vista que seus comportamentos se assemelham em vários aspectos, como, por exemplo, os de João Romão e Miranda. IV. Os dois ambientes descritos marcam uma oposição entre o coletivo (o cortiço) e o individual (o sobrado) e, por extensão, remetem também à estratificação presente no contexto do Rio de Janeiro do final do século XIX. Estão corretas apenas as afirmativas: a) l e II. b) l e III. c) II e IV. d) l, III e IV. e) II, IIl e IV.

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(Fuvest) Texto para as questões de 120 a 125.

volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros. E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. (...) E o curioso é que, quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados para a esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos. (Aluísio Azevedo, O cortiço.)

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Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati “pra cortar a friagem”. Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e

120. Considere as seguintes afirmações, relacionadas ao excerto de O cortiço: I. O sol, que, no texto, se associa fortemente ao Brasil e à “pátria”, é um símbolo que percorre o livro como manifestação da natureza tropical e, em certas passagens, representa o princípio masculino da fertilidade. II. A visão do Brasil expressa no texto manifesta a ambiguidade do intelectual brasileiro da época em que a obra foi escrita, o qual acatava e rejeitava a sua terra, dela se orgulhava e envergonhava, nela confiava e dela desesperava. III. O narrador aceita a visão exótico-romântica de uma natureza (brasileira) poderosa e transformadora, reinterpretando-a em chave naturalista. Aplica-se ao texto o que se afirma em: a) I, somente. b) II, somente.

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c) II e III, somente. d) I e III, somente. e) I, II e III. 121. Ao comparar Jerônimo com uma crisálida, o narrador alude, em linguagem literária, a fenômenos do desenvolvimento da borboleta, por meio das seguintes expressões do texto: I. “transformação, lenta e profunda” (linha 6); II. “reviscerando” (linha 8); III. “alando” (linha 8); IV. “trabalho misterioso e surdo” (linhas 9 e 10). Tais fenômenos estão corretamente indicados em: a) I, apenas. b) I e II, apenas. c) III e IV, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 122. Os costumes a que adere Jerônimo em sua transformação, relatada no excerto, têm como referência, na época em que se passa a história, o modo de vida: a) dos degredados portugueses enviados ao Brasil sem a companhia da família. b) dos escravos domésticos, na região urbana da Corte, durante o Segundo Reinado. c) das elites produtoras de café, nas fazendas opulentas do Vale do Paraíba fluminense. d) dos homens livres pobres, particularmente em região urbana. e) dos negros quilombolas, homiziados em refúgios isolados e anárquicos. 123. Um traço cultural que decorre da presença da escravidão no Brasil e que está implícito nas considerações do narrador do excerto é a: a) desvalorização da mestiçagem brasileira.

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b) promoção da música a emblema da nação. c) desconsideração do valor do trabalho. d) crença na existência de um caráter nacional brasileiro. e) tendência ao antilusitanismo. 124. No trecho “dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um monarca gigante” (linhas 45 a 48), o narrador tem como referência: a) a chapada dos Guimarães, anteriormente coberta por vegetação de cerrado. b) os desfiladeiros de Itaimbezinho, outrora revestidos por exuberante floresta tropical. c) a chapada Diamantina, então coberta por florestas de araucária. d) a serra do Mar, que abrigava originalmente a densa mata Atlântica. e) a serra da Borborema, caracterizada, no passado, pela vegetação da caatinga. 125. Destes comentários sobre os trechos destacados, o único que está correto é: a) “tragava dois dedos de parati” (linha 4): expressão típica da variedade linguística predominante no discurso do narrador. b) “pra cortar a friagem“ (linhas 4 e 5): essa expressão está entre aspas, no texto, para indicar que se trata do uso do discurso indireto livre. c) “patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos” (linhas 13 e 14): assume o sentido de “registravam oficialmente”. d) “posto que em detrimento das suas forças físicas” (linhas 33 e 34): equivale, quanto ao sentido, a “desde que em favor”. e) “tornava-se (...) imprevidente” (linha 18) e “resignando-se (...) às imposições do sol” (linhas 21 e 22): trata-se do mesmo prefixo, apresentando, portanto, idêntico sentido.

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Exercícios escritos 126. E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe, perdida ao cair da noite num lugar desconhecido e agreste. (...). E Piedade, assentada à soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a hora em que saíra da sua terra... (Aluísio Azevedo, O cortiço.)

a) Identifique no trecho anterior duas figuras de linguagem. b) Que sentido tais recursos dão ao texto? 127. Sim, João Romão já convidava para beber alguma coisa. Mas não era à toa que o fazia, que aquele mesmo não metia prego sem estopa! Sobre o trecho anterior, responda: a) Qual a classificação morfológica e função sintática de “o”? b) Qual o possível significado da expressão “não metia prego sem estopa”? 128. Botelho conhecia as faltas de Estela como as palmas da própria mão. O Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e muitas vezes lhe confiara em ocasiões desesperadas de desabafo, declarando francamente o quanto no íntimo a desprezava e a razão por que não a punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a razão; entendia também que os sérios interesses comerciais estavam acima de tudo. – Uma mulher naquelas condições, dizia ele convicto, representa nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza! Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ela... – Ora! explicava o marido. Eu me sirvo dela como quem se serve de uma escarradeira! O capítulo II menciona o personagem Miranda, e contém importante informação sobre o espaço em que se desenvolvem as ações. Com base no trecho anterior e no capítulo como um todo, responda: a) Que sentimento Miranda nutria com relação a João Romão? b) Como o velho Botelho é introduzido no romance? Resuma a história de vida do personagem.

c) Como você interpreta a frase de Miranda, a respeito de sua esposa: “Eu me sirvo dela como quem se serve de uma escarradeira”? 129. a) Qual é a principal atividade remunerada das mulheres? Por quê? b) Existe alguma simetria na construção das personagens Piedade e Bertoleza? 130. No capítulo XV o escritor coloca um importante episódio que envolve dois personagens: Firmo e Jerônimo. a) O que acontece com Firmo? b) Qual a relação desse episódio com o abrasileiramento de Jerônimo? 131. (Unicamp) Leia o seguinte comentário a respeito de O cortiço, de Aluísio Azevedo: Com efeito, o que há n’O cortiço são formas primitivas de amealhamento*, a partir de muito pouco ou quase nada, exigindo uma espécie de rigoroso ascetismo inicial e aceitação de modalidades diretas e brutais de exploração, incluindo o furto (...) como forma de ganho e a transformação da mulher escrava em companheira-máquina. (...) Aluísio foi, salvo erro meu, o primeiro dos nossos romancistas a descrever minuciosamente o mecanismo de formação de riqueza individual. (...) N’O cortiço [o dinheiro] se torna implicitamente objeto central da narrativa, cujo ritmo acaba se ajustando ao ritmo da sua acumulação, tomada pela primeira vez no Brasil como eixo da composição ficcional. (Antonio Candido. “De cortiço a cortiço”. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993.) (*) amealhar: acumular (riqueza), juntar (dinheiro) aos poucos.

a) Explique a que se referem o rigoroso ascetismo inicial da personagem em questão e as modalidades diretas e brutais de exploração que ela emprega. b) Identifique a “mulher escrava” e o modo como se dá sua transformação em “companheira-máquina”.

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Respostas amizade antiga com Miranda – com quem chegou a trabalhar na juventude –, foi morar com este.

Gabarito dos testes 105.b

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108.e

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117.d 118.b

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121.e

122.d

123.c

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124.d

Respostas possíveis para as questões escritas 126. a) Metáfora, em ”E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe...”, pois Piedade é tida como vaca; comparação, em “E Piedade, assentada à soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono”, trecho no qual a mesma personagem é comparada a um cão. b) Tais recursos criam um processo de identificação da personagem com animais, ou seja, tenta-se chamar atenção para os aspectos mais primitivos do homem, algo que foi intensamente explorado pelo Naturalismo. 127. a) Sintaticamente, o termo “o” tem função de objeto direto do verbo fazer; morfologicamente, tal termo assume a classificação de pronome substantivo demonstrativo. b) Tal expressão, dentro do contexto, significa agir de modo pensado. 128. a) Miranda nutria um misto de raiva e inveja em relação a João Romão. Raiva por causa de o vizinho não ter aceitado negociar com ele um pedaço de terreno; inveja por causa da prosperidade financeira de João Romão. b) João Botelho era um agregado na casa de Miranda. Como ele vivia de favor, esforçava-se para agradar os donos da casa. João Botelho era comerciante, trabalhou com especulações, chegando inclusive a enriquecer. No entanto, pouco a pouco foi perdendo sua fortuna e, aproveitando-se de uma

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c) Miranda se referia à esposa sem doçura ou encanto, como se ela fosse um mero objeto destituído de maior importância. 129. a) No ambiente retratado no livro, a principal atividade remunerada das mulheres era lavadora de roupa, visto que aproveitavam as condições propícias que o cortiço oferecia: espaço adequado e água em abundância. b) Sim. Ambas vivem à mercê de seus homens e são destinadas a serem vítimas da traição deles. 130. a) Enganado por Pataca, Firmo vai à praia com a esperança de flagar Rita Baiana com algum estranho. No entanto, Pataca e outros dois homens o encurralam e batem nele até Firmo falecer. b) Após o ataque, Jerônimo efetua o pagamento aos capangas e paga-lhes uma bebida. Consegue ainda, como recordação, a navalha da vítima. Depois de se despedir dos comparsas, ele vai para casa, onde se encontra com Rita Baiana. A perda das travas morais que culmina com a eliminação de Firmo constitui a total adaptação de Jerônimo ao meio e, consequentemente, a sua entrega aos desregramentos e à lubricidade. 131. a) Trata-se do personagem João Romão, que, para enriquecer, sacrifica-se a si mesmo, vivendo uma vida mesquinha e miserável; contentando-se com os restos dos outros, rouba e explora os trabalhadores da pedreira e os inquilinos do cortiço; usa e abusa da serviçal Bertoleza com uma única finalidade – aumentar seus bens. b) A “mulher escrava” em questão é Bertoleza. João Romão aproxima-se dela, finge que a protege, falsifica a carta de alforria, embolsa o dinheiro que ela ajuntara e emprega-a, sem salário, como quituteira da venda, fazendo-a trabalhar incansavelmente. A mulher, profundamente grata pela “liberdade” comprada, é duplamente explorada: como empregada, por tornar-se “mula de carga” de João Romão e como amante, usada apenas sexualmente, sem qualquer envolvimento afetivo.

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A cidade e as serras Eça de Queirós Exercícios testes Texto para as questões 132 e 133. Suma ciência x Suma potência 132. No romance A cidade e as serras, o ideal anteriormente exposto: a) é seguido pelo protagonista desde o início até o final do volume. b) é seguido pelo narrador, que o abandona devido à constatação de que o campo pode propiciar uma vida melhor. c) é seguido pelo protagonista que, no entanto, acaba por rejeitá-lo ao constatar que o homem pode ser mais feliz no campo. d) é aceito pelo narrador e para ilustrá-lo utiliza o exemplo do seu grande amigo Jacinto. e) é aceito pelo protagonista e para ilustrá-lo utiliza o exemplo de Júlio Dinis. 133. O conceito exposto no texto: a) é pura e simplesmente teórico e idealista. b) é uma equação idealista que o protagonista procura colocar em prática cercando-se dos avanços tecnológicos que a riqueza pode comprar. c) é a síntese da bem-aventurança que persegue o protagonista da primeira à última página do volume. d) consiste na essência da filosofia futurista defendida pelo narrador da obra. e) é a essência do Positivismo defendida pelo autor no volume. Texto para a questão 134. – Ora essa! Então o Sr. D. Jacinto está em Tormes? O meu espanto divertiu o Severo: – Então Vossa Excelência... Pois em Tormes é que ele está, há mais de cinco semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma grandeza! 134. O texto indica: a) o espanto do protagonista pelo fato de Ja-

cinto não ter voltado a Paris, como era de se esperar. b) o espanto de Severo, filho de Melchior, ao perceber que o narrador não sabia que Jacinto não tinha planos de partir. c) a preocupação de Severo, pois ele acreditava que o patrão esquecera de avisar seus amigos de que ficaria mais tempo em Tormes. d) a surpresa do narrador ao constatar que Jacinto ficara em Tormes. e) que Severo se divertiu ao saber que o narrador desconhecia a intenção de Jacinto de permanecer mais tempo nas serras. Texto para as questões 135 e 136. – Ó Jacinto, eu daqui a um instante também quero água! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia toda viva da serra... (...) – É uma bela moça, mas uma bruta (...) Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Por isso a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido, todavia, não parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... São porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um repouso! 135. a) O trecho demonstra que Jacinto não comungava do mesmo entusiasmo do amigo ao se referir à beleza da mulher do campo. b) O trecho ilustra duas diferentes posições de Jacinto a respeito da mulher do campo: sensível e bela por um lado, bruta e leal por outro. c) O trecho se refere à inutilidade e à falsidade das mulheres do campo se comparadas com os animais. d) O trecho destaca a delicadeza e a sensi-

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bilidade das mulheres do campo, dons que o homem só pode encontrar nos seres que vivem em perfeita interação com a Natureza. e) O trecho mostra que Zé Fernandes é realista e Jacinto é idealista. 136. Depreende-se do texto que: a) as relações humanas em nada diferenciam das relações animais, por isso, Ana Vaqueira e seu marido são chamados de “brutos” pelo narrador. b) no campo, as relações humanas, por mais primárias e brutais que sejam, têm a riqueza da autenticidade sem disfarces de conveniência. c) o homem encontra seus verdadeiros sentimentos somente quando contempla a beleza da mulher campesina. d) as relações humanas do homem campesino não têm a riqueza e a sensibilidade das relações do homem urbano. e) Jacinto e Zé Fernandes têm exatamente as mesmas posições com relação aos sentimentos do homem do campo. 137. Em determinado momento do romance, as leituras prediletas de Jacinto eram Schopenhauer e Eclesiastes. Daí, é possível deduzir que cresciam no personagem: a) o tédio e o pessimismo. b) a crença e a esperança. c) o descaso e a ociosidade. d) a dúvida e a vaidade. e) a inveja e o pessimismo. 138. Assinale a alternativa incorreta: a) A vida no campo é apresentada como modelar, excetuando o momento em que Jacinto reconhece a realidade da fome nos casebres, a necessidade de reformas e de mais privilégios ao homem do campo. De certa maneira, reforça a tese da inflamada e revolucionária geração de 1870. b) Ao retomar o tema do conto “Civilização”, A cidade e as serras desenvolve um assunto que sempre fascinou Eça de Queirós: a ideia do encontro com a terra-mãe, com a doçura de viver no campo. Esta forma idealista de enxergar a natureza indica uma aproximação do idealismo romântico. c) Através da máxima: “O homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado” determina o poder da cidade, da técnica, do brilho de quem pode comandar os destinos da humanidade. Constitui a base

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teórica da primeira parte do romance. d) A cidade era concebida como algo distante da solidão e Paris um teto que abriga milhões de seres humanos. Com o passar do tempo, Jacinto percebe que sua civilização o agride, o isola, o entedia e o maltrata. Este jogo de opostos constitui o centro de interesses de A cidade e as serras. e) Embora Eça de Queirós seja considerado o grande renovador do romance em Portugal, sua linguagem torna-se empobrecida devido à utilização de um linguajar popular, incorreto e errado. 139. O fiel criado Grilo diz que o patrão sofria de “fartura” porque: a) constatou que a doença do narrador era de fundo psicológico. b) percebeu que a apatia de Jacinto era devida aos excessos permitidos pela fortuna. c) concluiu que riqueza não traz felicidade. d) confirmou o que o narrador já sabia: a fartura de Jacinto não lhe trazia esperanças de uma vida melhor. e) nem o narrador, nem Jacinto puderam perceber quanta filosofia guardava o humilde criado. 140. Ao visitar a vasta biblioteca de Jacinto, o narrador percebe: a) a atração que as literaturas exerciam sobre o protagonista. b) a preocupação com encadernações luxuosas, o que tornava uniforme a aparência das estantes. c) uma diversidade enorme de títulos e temas, remetendo ao início das oscilações psicológicas do protagonista. d) a diversidade de títulos, mas sempre tendendo aos mesmos temas: a ciência e o progresso tecnológico. e) a atração que a ciência e a psicologia exercem sobre o protagonista. 141. Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartava havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção.

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O pensamento exposto no texto pode ser atribuído a: a) Jacinto, antes do encontro das serras. b) Jacinto, quando retornou a Paris, depois de descobrir a beleza do campo. c) a Jacinto, durante o período de depressão e pessimismo. d) ao narrador, que redescobre a beleza do campo somente depois de constatar o tédio da cidade. e) ao narrador, que ao retornar a Paris sentiu-se enganado pelas aparências da civilização. 142. (Fuvest) Tendo em vista o conjunto de proposições e teses desenvolvidas em A cidade e as serras, pode-se concluir que é coerente com o universo ideológico dessa obra o que se afirma em: a) A personalidade não se desenvolve pelo simples acúmulo passivo de experiências, desprovido de empenho radical, nem, tampouco, pela simples erudição ou pelo privilégio.

b) A atividade intelectual do indivíduo deve-se fazer acompanhar do labor produtivo do trabalho braçal, sem o que o homem se infelicita e desviriliza. c) O sentimento de integração a um mundo finalmente reconciliado, o sujeito só o alcança pela experiência avassaladora da paixão amorosa, vivida como devoção irracional e absoluta a outro ser. d) Elites nacionais autênticas são as que adotam, como norma de sua própria conduta, os usos e costumes do país profundo, constituído pelas populações pobres e distantes dos centros urbanos. e) Uma vida adulta equilibrada e bem desenvolvida em todos os seus aspectos implica a participação do indivíduo na política partidária, nas atividades religiosas e na produção literária.

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Exercícios escritos 143. (Fuvest) Os romances de Eça de Queirós costumam apresentar críticas a aspectos importantes da sociedade portuguesa, frequentemente acompanhadas de propostas (explícitas ou implícitas) de reforma social. Em A cidade e as serras: a) qual o aspecto que se critica nas elites portuguesas? b) qual é a relação, segundo preconiza o romance, que essas elites deveriam estabelecer com as classes subalternas? 144. Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em Paris, nas escolas do Bairro Latino – para onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles malvados me riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, numa tarde de procissão, na Sofia, a cara sórdida do Dr. Pais Pita. Ora nesse tempo Jacinto concebera uma ideia... Este Príncipe concebera a ideia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. E por homem civilizado o meu camarada entendia aquele que, robustecendo a sua força pensante (...) quase onipotente, quase onisciente, e apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacinto formulava copiosamente a sua ideia, quando conversávamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias filosóficas, no Boulevard Saint-Michel. a) Como caracterizar o narrador? b) Quem é Jacinto? c) Qual característica psicológica de Jacinto é fundamental como pedra de toque para o desenvolvimento da trama? 145. Levando-se em conta o tema de A cidade e as serras, leia os versos de Bocage e a propaganda de um edifício em construção: Vem, ó Marília, vem lograr comigo Destes alegres campos a beleza, Destas copadas árvores o abrigo: Deixa louvar da corte a vã grandeza: Quanto me agrada mais estar contigo Notando as perfeições da Natureza!

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a) O que há em comum entre eles? b) O que os diferencia? 146. Texto I: E, então, surgiu por trás da parede do alpendre um rapazito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita miúda, toda amarela sob a porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago pasmo e vago medo. (...) O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade: – Nada, este é sãozinho... Coitado, assim amarelito e enfezadito porque... Que quer V. Exª? Mal comido, muita miséria... Quando há o bocadito de pão aquilo é para todo o rancho. Muita fomezinha, muita fomezinha. Jacinto pulou bruscamente a borda do carro. – Fome? Então ele tem fome? Mas há aqui fome? Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a mim, ora ao Silvério, a confirmação desta miséria insuspeita. E

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fui eu que esclareci o meu Príncipe: – Está claro que há fome, homem! Tu imaginavas que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria... Texto II: ... Era um pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que delas, como de deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu vago Está bem... está bem... . Fui eu que dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar das nossas pessoas. Mas como ele, com o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo as mãos (...). Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que as varria, despejadas e vazias, para um canto escuso dos céus. Texto III: – Não! Não nos iludamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea, em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... São porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um repouso. a) As passagens anteriores ilustram a tendência que Eça de Queirós vinha mantendo até então. Qual é? b) De que maneira A cidade e as serras marca o início de uma nova fase na obra do escritor? 147. Texto I: ... amou aquele bom infante como nunca amara, apesar de tão guloso, o seu ventre, e

apesar de tão devoto, o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do “seu salvador“, enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo. Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer as saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinho. Texto II: O Cintinho crescera. Era um moço mais esguio e lívido que um círio, de longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de sufocações, errava em camisa com uma lamparina através do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam a “Sombra“. (...) mais tarde, com a melada flor dos seus vinte anos, brotou nele outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada num convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava, consertava relógios e fabricava chapéus (...) Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra. Texto III: Jacinto medrou com a segurança, a rijeza, a seiva de um pinheiro das dunas. Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Tabuada, o Latim entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. (...) Todos os seus amigos (éramos três, contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo) lhe conservaram sempre amizades puras e certas. (...) Rijo, rico, indiferente ao Estado e ao Governo dos Homens, nunca lhe conhecemos outra ambição além de compreender bem as Ideias Gerais, e a sua inteligência, nos anos alegres de escolas e controvérsias, circulava dentro das filosofias mais densas (...) Texto IV: Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passo e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco

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da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos cabelos, – lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminosos olhos negros (...) E foi assim que Jacinto (...) na Flor da Malva, viu aquela com quem casou, em maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira já de rosas. a) No primeiro texto é apresentado Jacinto Galeão. Explique, a partir do texto, algumas de suas características. b) No segundo texto é apresentado Cintinho, pai de Jacinto. Dê algumas de suas características. c) No terceiro fragmento, o narrador refere-se a Jacinto da mesma maneira? Quem é Grilo? d) É possível perceber alguma intenção de Eça ao retratar esses personagens de maneiras diversas? e) Qual é a importância de Joaninha? 148. Leia o trecho de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda o que se pede. Então, de trás da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, solenemente: – Bendito seja o Pai dos Pobres! E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. E mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado. – Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza. O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía, cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta. – A mão! E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando: – Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara! (...) Eu então debrucei a face para ele, mais em confidência: – Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo

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você dizer por aí, pelos sítios, que el-rei D. Sebastião voltara? a) No trecho, Jacinto é chamado, pelo velho, de “Pai dos Pobres”. Essa qualificação indica que Jacinto mantinha com os pobres da serra uma relação democrática e igualitária? Justifique sua resposta. b) Tendo em vista o contexto da obra, explique sucintamente por que o narrador, no final do trecho, se refere a “el-rei D. Sebastião”. 149. (Fuvest) Leia o excerto de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda ao que se pede. Na sala, a tia Vicência ainda nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam no silêncio e paz do serão debandado: – Ora uma coisa assim! Nem querem ficar para tomar um copinho de geleia, um cálice de vinho do Porto! – Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! – exclamei desafogando o meu tédio. – Todo esse mulherio emudeceu, os amigos com um ar desconfiado... Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero: – Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples... Todas estas raparigas me pareceram ótimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que eu não sou miguelista. Então contamos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisas! E mau seria... – Mas o Sr. Jacinto, não é? – Eu, minha senhora, sou socialista... a) Defina sucintamente o miguelismo a que se refere o texto e indique a relação que há entre essa corrente política e a história do Brasil. b) Tendo em vista o contexto da obra, explique o que significa, para Jacinto, ser “socialista”. 150. (Unicamp) Os trechos a seguir foram extraídos de A cidade e as serras, de Eça de Queirós. Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado por Jacinto – apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Srª. D. Angelina! Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras

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gradeadas com charutos e livros. Na antecâmera, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tépida duma tarde de Maio, em Guiães. Um criado, mais atento ao termômetro que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, esparziam um vapor, aromatizando e salutarmente umedecendo aquele ar delicado e superfino. Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser: – Eis a Civilização! – Meus amigos, há uma desgraça... Dornan pulou na cadeira: – Fogo? – Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos que inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e não se movia, encalhado! (...) O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre

o poço escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o Grão-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxão tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inércia de bronze eterno. (Eça de Queirós. A cidade e as serras. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006. pp. 28-63.)

a) Levando em consideração os dois trechos, explique qual é o significado do enguiço do elevador. b) Como o desfecho do romance se relaciona com esse espisódio?

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Respostas Gabarito dos testes 132.c

133.b

134.d

135.a

136.b

138.e

139.b

140.c

141.e

142.a

137.a

Respostas possíveis para as questões escritas 143. a) O atraso e o conservadorismo. b) A proposta do romance é uma reforma social, encabeçada pelos mais privilegiados, que promovesse a assistência social através do amparo e proteção aos menos favorecidos. Quando Jacinto, protagonista de A cidade e as serras, teve seu apelido mudado de “Príncipe da Grã-Ventura” para “Pai dos Pobres” esse caráter paternalista fica evidenciado. 144. a) O volume é narrado em 1ª pessoa por José Fernandes, que também é personagem secundário, portando-se como mero espectador (observador). Limita-se a narrar de forma objetiva o que deduz de suas observações. b) Jacinto é o personagem principal, motivo das observações de José Fernandes que o conheceu em Paris, nas escolas do Bairro Latino. c) A euforia com que defende a ideia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. 145. a) O bucolismo ou a valorização da natureza é um tema além de escolas literárias e reflete a necessidade de o homem procurar refúgio na natureza. b) A época em que foram redigidos, a linguagem utilizada, a forma de composição, prosa (Eça) e poesia (Bocage). O texto de Eça e os versos de Bocage são ideológicos enquanto o último é propagandístico, mudando, portanto, as funções de linguagem de emotiva e poética nos dois literatos para apelativa na propaganda. 146. a) Realismo/Naturalismo. b) Eça tem como tema a restauração do nacionalismo e a exaltação ao meio campestre (bucolismo), temas estes que não fazem parte do ideário realista. 147. a) O avô de Jacinto, Galeão, era miguelista e desprezava D. Pedro. Com a derrota de D. Miguel, Galeão abandona voluntariamente Portugal e passa a viver em Paris. Como era rico proprietário, desfrutava de uma vida confortável em terras estrangeiras.

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b) Apelidado de “a Sombra”, era doentio e frágil. Morreu tuberculoso pouco antes do nascimento de seu único filho. Teve dois interesses: os tornos e a mulher. c) Jacinto é rico, inteligente, forte e culto. Os outros personagens da leva parisiense são apresentados caricaturescamente. Grilo é escudeiro de Jacinto, um negro livre e observador arguto do patrão, a quem é profundamente dedicado. d) Contrapõe a mediocridade dos portugueses desterrados à inteligência de Jacinto para, com ele, metaforizar o retorno de um autêntico Portugal. e) Joaninha é personagem que representa a capitulação de Jacinto. Ela fixara o personagem no campo. 148. a) Não. Jacinto faz uma série de obras em Tormes visando ao bem da gente pobre da serra, mas isso não caracteriza uma relação social de igualdade entre ele e os outros, pois ele jamais abdicou de sua posição de grande senhor rural. As reformas foram impulsionadas pelo espírito cristão de caridade, as quais fazem com que Jacinto seja chamado de “Pai dos Pobres”, numa alusão a São Francisco de Assis. b) Para a gente pobre de Tormes, Jacinto era “el-rei D. Sebastião” que voltara para cuidar de seu povo. Nesse sentido, Jacinto encarna o mito do “Desejado”, o qual viria para promover o bem-estar de sua gente, crença que na cultura portuguesa é conhecida como sebastianismo. 149. a) Trata-se da corrente política que apoiava D. Miguel de Bragança, em sua disputa com seu irmão D. Pedro I (D. Pedro IV, em Portugal) pela Coroa portuguesa. A volta de D. Pedro I a Portugal, em 1831, acentuou o vazio de poder no Brasil, provocando as grandes e graves crises políticas do Período Regencial, que apressaram a aprovação da maioridade de D. Pedro II em 1840. b) Para Jacinto, ser socialista era estar do lado dos pobres. Nesse sentido, sem nunca deixar de ser o grande proprietário rural que era, tomou uma série de medidas que beneficiavam a estes. Por isso, Jacinto foi identificado a D. Sebastião, que voltara para cuidar de seu povo, sendo também chamado de “Pai dos Pobres”. 150. a) O enguiço do elevador serve para o narrador expor, de modo crítico e irônico, a dependência, cada vez maior, do homem em relação à tecnologia (ou às “necessidades” criadas pelo progresso do mundo moderno). b) No desfecho do romance, fica clara a ideia de que é necessário separar o fútil do útil: por exem-

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plo, Jacinto instala telefone nas serras de Tormes em razão de sua utilidade, o que contrasta com o episódio do elevador, o símbolo do fútil, das falsas necessidades criadas pela modernidade. Não se trata de descartar a tecnologia, o progresso, a

modernidade em nome de uma pretensa pureza e preservação do mundo natural, mas de absorver do progresso apenas o que realmente contribui para a felicidade do homem.

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Vidas secas Graciliano Ramos Exercícios testes 151. (Fatec) Fabiano ouviu o falatório desconexo do bêbado, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras sem sentido, conversava à toa. Mas irou-se com a comparação, deu murradas na parede. Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito?

153. (PUC-C) Considere o texto a seguir de Vidas secas, de Graciliano Ramos.

(Graciliano Ramos, Vidas secas.)

A utilização sistemática de um tempo verbal, no trecho destacado de Vidas secas, de Graciliano Ramos, deve ser considerada: a) um recurso excepcional, num romance em que são raras as imagens do futuro, dada a condição das personagens. b) uma marca estilística que expressa, ao longo do romance, o regime de expectativa em que vivem os protagonistas. c) um traço da ironia do narrador, produzido pelo distanciamento objetivo que ele preserva em relação às suas personagens. d) um traço estilístico em que se apoia o narrador para figurar o caráter utópico que imprimiu a esse romance. e) uma característica de estilo de um romance em que o tempo subjetivo determina a sequência das ações.

Nesse trecho, a expressão “... não sabe falar direito?” reforça o ponto de vista predominante do narrador, que define: a) uma ambiguidade muito marcante no comportamento de Fabiano. b) o conflito entre Fabiano e o poder representado pelo soldado amarelo. c) o domínio da linguagem culta (padrão) como capacidade primeira, que garante ao homem a defesa do direito à liberdade. d) a identificação de Fabiano com seu Tomás da bolandeira. e) a “indecisão dolorosa” de Fabiano em situações que não exigiam o domínio da palavra. 152. (ITA) Assinale a melhor opção, considerando as seguintes asserções sobre Fabiano, personagem de Vidas secas, de Graciliano Ramos: I. Devido às dificuldades pelas quais passou no sertão, tornou-se um homem rude, mandante da morte de vários inimigos seus. II. Comparava-se, com orgulho, aos animais, pois era um homem errante que vivia fugindo da seca. III. Sentia-se fraco para exigir seus direitos diante de patrões e autoridades, por isso não se considerava um homem, mas um bicho. Está(ão) correta(s): a) apenas I. b) apenas III. c) I e II. d) I e III. e) II e III.

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Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos.

(FEI) O texto a seguir refere-se às questões 154 e 155.

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Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera (...). – Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos esta-

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vam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era um homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. (...) Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: – Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

154. Assinale a alternativa que interpreta incorretamente o trecho anterior: a) Fabiano mostra-se orgulhoso por ter conseguido livrar a família da miséria absoluta. b) As lembranças do passado enchem de beleza e ternura a vida de Fabiano. c) No trecho citado, o autor se refere ao processo de desumanização ao qual os retirantes nordestinos são submetidos, comparando-os a animais. d) Depois de muito sofrimento, Fabiano e sua família conseguem se instalar em uma pequena propriedade rural. e) Nesse trecho, evidencia-se que Fabiano e sua família são retirantes da seca. 155. O estilo do autor do texto anterior é caracterizado pelo frequente emprego do discurso indireto livre. Assinale a alternativa que transcreve uma passagem em que esse recurso é exemplificado: a) “... a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera...” (linhas 9 e 10) b) “Fabiano ia satisfeito.” (linha 1) c) “Sim senhor, arrumara-se.” (linhas 1 e 2) d) “Olhou em torno, com receio...” (linha 19) e) “– Fabiano, você é um homem...” (linha 11) Texto para as questões 156 e 157. Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopeias. Na verdade fala-

va pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas. Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: – Esses capetas têm ideias... 156. Assinale a alternativa correta: a) Fabiano costuma questionar a manipulação das palavras por parte dos poderosos. b) Fabiano se afeiçoa aos animais, pois compreende a linguagem dos bichos. c) A linguagem e a conduta de Fabiano refletem a aridez da região. d) Fabiano, muito curioso, não gostaria que os seus filhos se tornassem curiosos como o pai. e) Fabiano é um exímio comunicador, pois consegue se comunicar com os animais e com os brutos. 157. Indique a opção incorreta: a) A “gente da cidade” é vista como uma gente culturalmente mais preparada, pois conhece as palavras compridas e difíceis. b) O mundo descrito no texto é tão árido que chega a desumanizar as pessoas, evitando a comunicação e as relações humanas. c) Fabiano conhece bem os seus direitos. d) As palavras são “inúteis”, pois no mundo de Fabiano quase não há diálogo. e) Fabiano é descrito como um animal, arisco, instintivo e temeroso da ação dos “homens”. 158. A propósito da passagem “– Esses capetas têm ideias...”, é correto afirmar que: a) Fabiano aprova a criatividade dos filhos. b) “ter ideias”, no contexto da obra, é perigoso em virtude das limitações socioculturais a que estão confinadas as personagens. c) Fabiano associa a palavra “capetas” a “ideias”, mas essa associação é involuntária e totalmente desprovida de sentido. d) as reticências indicam um pensamento truncado, o que, aliás, é muito pouco frequente no protagonista. e) Fabiano possui um invejável poder de síntese e por isso usa poucas palavras.

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159. Aponte a opção que melhor se encaixa no fragmento a seguir: Fabiano estirava o beiço e rosnava. Aquela coisa arriada e achacada metia as pessoas na cadeia, dava-lhes surra. Não entendia. Se fosse uma criatura de saúde e muque, estava certo. Enfim apanhar do governo não é desfeita, e Fabiano até sentiria orgulho ao recordar-se da aventura. Mas aquilo... Soltou uns grunhidos. Por que motivo o governo aproveitava gente assim? a) Fabiano, ao ver como é franzino o soldado amarelo, compreende que o poder é uma questão de farda, e não de força física. b) Fabiano se sentiria humilhado se apanhasse do governo. c) O governo, aos olhos de Fabiano, é um “grande soldado amarelo”. d) Se “apanhar do governo não é desfeita”, Fabiano, conclui-se, aprova a ação covarde do soldado amarelo, que é uma autoridade do governo. e) Esse é o episódio em que Fabiano mata o soldado amarelo. 160. O trecho a seguir revela algumas das crenças e ambições de sinha Vitória. Leia-o e indique a alternativa correta. Preparou-se para cuspir novamente. Por uma extravagante associação, relacionou esse ato com a lembrança da cama. Se o cuspo alcançasse o terreiro, a cama seria comprada antes do fim do ano. Encheu a boca de saliva, inclinou-se – e não conseguiu o que esperava. Fez várias tentativas, inutilmente. O resultado foi secar a garganta. Ergueu-se desapontada. Besteira, aquilo não valia. a) A passagem revela o mecanismo da superstição do povo nordestino, que costuma obter seus bens a partir de encantamentos. b) Sinha Vitória não vai conseguir a cama apenas porque não conseguiu cuspir longe. c) É possível associar “cuspo” a água (fertilidade) e “secar a garganta” a seca (infertilidade). d) Sinha Vitória considerava a cama uma coisa supérflua, e por isso não cuspiu com mais força. e) A mágica do cuspir funcionava com Fabiano, mas não com sinha Vitória. (Fuvest) Texto para as questões 161 e 162. Na planície avermelhada, os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham

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caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. (Graciliano Ramos, Vidas secas.)

161. Reestruturando-se o terceiro período do texto, mantém-se o sentido original apenas em: a) A viagem progredira bem três léguas, uma vez que haviam repousado bastante na areia do rio seco, dado que ordinariamente andavam pouco. b) Haviam repousado bastante na areia do rio seco; a viagem progredira bem três léguas porque ordinariamente andavam pouco. c) Porque haviam repousado bastante na areia do rio seco, ordinariamente andavam pouco, e a viagem progredira bem três léguas. d) Ainda que ordinariamente andassem pouco, a viagem progredira bem três léguas, pois haviam repousado bastante na areia do rio seco. e) Em virtude de andarem ordinariamente pouco e de haverem repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. 162. Tendo em vista a relação, nesse texto, entre o vocabulário e os efeitos de sentido, é incorreto afirmar que: a) o adjetivo “avermelhada” retrata o rigor do clima. b) “rio seco”, “galhos pelados”, “catinga rala” caracterizam um espaço hostil aos viajantes. c) as palavras empregadas pelo narrador reproduzem as das personagens. d) os nomes dos viajantes substituem-se por um adjetivo substantivado: “os infelizes”. e) a expressão “o dia inteiro” equivale a “todo o dia”. (Fuvest) Texto para as questões 163 e 164. Sinha Vitória falou assim, mas Fabiano resmungou, franziu a testa, achando a frase extravagante. Aves matarem bois e cabras, que lembrança! Olhou a mulher, desconfiado, julgou que ela estivesse tresvariando. (Graciliano Ramos, Vidas secas.)

163. Uma das características do estilo de Vidas secas é o uso do discurso indireto livre, que ocorre no trecho:

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a) “Sinha Vitória falou assim” b) “Fabiano resmungou” c) “franziu a testa” d) “que lembrança” e) “Olhou a mulher” 164. O prefixo assinalado em “tresvariando” traduz ideia de: a) substituição b) contiguidade c) privação d) inferioridade e) intensidade (Fuvest) Texto para as questões de 165 a 168. Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia. Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros. Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria! O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda. Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com gente rica? Bruto, sim senhor, mas sabia respeitar os homens. Devia ser ignorância da mulher, provavelmente devia ser ignorância da mulher. Até estranhara as contas dela. En-

fim, como não sabia ler (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha. Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra. O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo. Na porta, virando-se, enganchou as rosetas das esporas, afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no chão como cascos. Foi até a esquina, parou, tomou fôlego. Não deviam tratá-lo assim. Dirigiu-se ao quadro lentamente. Diante da bodega de seu Inácio virou o rosto e fez uma curva larga. Depois que acontecera aquela miséria, temia passar ali. Sentou-se numa calçada, tirou do bolso o dinheiro, examinou-o, procurando adivinhar quanto lhe tinham furtado. Não podia dizer em voz alta que aquilo era um furto, mas era. Tomavam-lhe o gado quase de graça e ainda inventavam juro. Que juro! O que havia era safadeza. (Graciliano Ramos, Vidas secas.)

165. O texto, assim como todo o livro de que foi extraído, está escrito em terceira pessoa. No entanto, o recurso frequente ao discurso indireto livre, com a ambiguidade que lhe é característica, permite ao autor explorar “o filete da escavação interior”, na expressão de Antonio Candido. Assinalar a alternativa em que a passagem é nitidamente discurso indireto livre: a) “Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora das contas davam-lhe uma ninharia.” b) “Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano.” c) “Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos.” d) “Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada!” e) “O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo.” 166. O texto, no seu conjunto, revela que Fabiano: a) ousou enfrentar o branco, provando-lhe que as contas dele estavam erradas. b) ao perceber que era lesado, defendeu com êxito seus direitos. c) conscientizou-se de que era vítima de safadeza, e conseguiu justiça. d) concluiu que era explorado na venda do gado e nas contas. e) indignou-se com sua situação, mas voltou às boas com o patrão.

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167. A respeito de sinha Vitória, a mulher de Fabiano, é possível afirmar que: a) tinha miolo, não errava nas operações e tentava atenuar os conflitos do marido com o patrão. b) era mesmo ignorante; quando Fabiano percebeu seu erro, foi pedir desculpas ao patrão. c) além de errar nas contas, irritava-se com a diferença dos juros. d) suas contas sempre diferiam das do patrão, mas ela pedia a Fabiano que se conformasse. e) era o único apoio do vaqueiro, mas infelizmente sua ação não tinha efeito. 168. Assinalar a alternativa que apresenta orações de mesma classificação que as deste período: “Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos.” a) “Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos de Fabiano.” b) “Foi até a esquina, parou, tomou fôlego.” c) “Depois que acontecera aquela miséria, temia passar ali.” d) “Tomavam-lhe o gado quase de graça e ainda inventavam juro.” e) “Não podia dizer em voz alta que aquilo era um furto, mas era.” 169. (PUC) Dos enunciados a seguir, indique aquele que não condiz com as características de Fabiano, personagem de Vidas secas, obra de Graciliano Ramos. a) Era vaqueiro, via-se mais como bicho do que como homem, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco. b) Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais, tinha um vocabulário pequeno e falava uma língua cantada, monossilábica e gutural. c) Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos, vivia em terra alheia e cuidava de animais alheios. d) Era bruto, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Violento, não respeitava o governo e odiava seu Tomás da bolandeira, homem que falava bem, lia livros e sabia onde tinha as ventas. e) Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão, cortar mandacaru e ensebar látegos. 170. (Fuvest) Um escritor classificou Vidas secas como “romance desmontável”, tendo em vista sua composição descontínua, feita

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de episódios relativamente independentes e sequências parcialmente truncadas. Essas características da composição do livro: a) constituem um traço de estilo típico dos romances de Graciliano Ramos e do regionalismo nordestino. b) indicam que ele pertence à fase inicial de Graciliano Ramos, quando este ainda seguia os ditames do primeiro momento do Modernismo. c) diminuem o seu alcance expressivo, na medida em que dificultam uma visão adequada da realidade sertaneja. d) revelam, nele, a influência da prosa seca e lacônica de Euclides da Cunha, em Os sertões. e) relacionam-se à visão limitada e fragmentária que as próprias personagens têm do mundo. 171. (PUC) Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos, consertando cercas. De repente, um risco no céu, outros riscos, milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes. O crítico Álvaro Lins, referindo-se a Vidas secas, obra de Graciliano Ramos, da qual se extraiu o trecho anterior, afirma que, além de ser o mais humano e comovente dos livros do autor, é “o que contém maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que é áspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados teluricamente”. Por outro lado, merece destaque, dentre os elementos constitutivos dessa obra, a paisagem, a linguagem e o problema social. Assim, a respeito da linguagem de Vidas secas, é correto afirmar-se que: a) apresenta um estilo seco, conciso e sem sentimentalismo, o que retira da obra a força poética e impede a presença de características estéticas. b) caracteriza-se por vocabulário erudito e próprio dos meios urbanos, marcado por estilo rebuscado e grandiloquente. c) revela um estilo seco, de frase contida, clara e correta, reduzida ao essencial e com vocabulário meticulosamente escolhido. d) apresenta grande poder descritivo e capacidade de visualização, mas apoia-se em sintaxe marcada por períodos longos e de estrutura subordinativa, o que prejudica sua compreensão.

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e) marca-se por estilo frouxo e sintaxe desconexa, à semelhança da própria estrutura da novela que se constrói de capítulos soltos e ordenação circular. 172. (ITA) Os romances de Machado de Assis e os de Graciliano Ramos são exemplos bem-acabados da forte presença do realismo na literatura brasileira. Entretanto, há diferenças bem marcantes entre a ficção realista do século XIX e a ficção de cunho realista da Geração de 30. Algumas delas são: I. As obras realistas do século XIX (em particular os romances de Machado de Assis) retratam a burguesia rica, enquanto os romances de Graciliano Ramos retratam apenas os retirantes vítimas da seca. II. No século XIX, o Realismo tem preferência pela temática do adultério feminino e do triângulo amoroso, tema este que não é central nas obras da Geração de 30, que se preocupam mais com a desigualdade social. III. Os romances machadianos são urbanos; as obras de Graciliano Ramos retratam, em geral, os ambientes rurais do Nordeste. IV. No Realismo do século XIX, as personagens, em geral, são mesquinhas, vis e medíocres. Já na ficção realista dos anos 1930, as personagens são, sobretudo, produtos de um meio social adverso e injusto. Estão corretas: a) apenas I, II e III. b) apenas I, II e IV. c) apenas II, III e IV. d) apenas III e IV. e) todas. (Mack) Textos para as questões 173 e 174. Texto I: Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos (...). A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam (...). E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. (Aluísio Azevedo, O cortiço.)

Texto II: Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de tréguas. É o batalha-

dor perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso e forte (...). Reflete, nestas aparências que se contrabatem, a própria natureza que o rodeia. (Euclides da Cunha, Os sertões.)

Texto III: Vivia longe dos homens, só se dava bem com os animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. (Graciliano Ramos, Vidas secas.)

173. No texto III, a descrição do personagem Fabiano aponta para as seguintes características, exceto: a) adaptação do personagem ao meio natural. b) identificação com o animal. c) caráter antissocial. d) comportamento primitivo e espontâneo. e) revolta devido a sua condição familiar. 174. Considere as seguintes afirmações acerca dos textos I, II e III: I. Nos três fragmentos o narrador descreve aspectos físicos e comportamentais de personagens do sertão brasileiro, marcados pela vida agreste e miserável. II. Embora publicadas em contextos diferentes, as respectivas obras se enquadram no mesmo estilo de época: o Realismo. III. Nos três fragmentos revela-se uma concepção determinista do homem. Assinale: a) se apenas a afirmação I estiver correta. b) se apenas a afirmação II estiver correta. c) se apenas a afirmação III estiver correta. d) se apenas as afirmações I e III estiverem corretas. e) se nenhuma afirmação estiver correta. 175. (PUC) O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia apegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da abeira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado (...) Alguns dias

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antes estava sossegado, preparando látegos, consertando cercas. De repente, um risco no céu, outros riscos, milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes. (...) O trecho anterior é de Vidas secas, obra de Graciliano Ramos. Dele é correto afirmar que: a) emprega linguagem figurada e explora a gradação como recurso estilístico para anunciar a passagem de aves a caminho do Sul.

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b) utiliza apenas linguagem referencial, uma vez que o objetivo é informar sobre a nova seca que se anuncia. c) emprega linguagem com função apelativa com o objetivo de configurar, com imagens visuais, em dimensão plástica, o quadro da penúria da seca. d) despreza o uso de recursos estilísticos e marca-se por fatalismo exagerado, impedindo a manifestação poética da linguagem. e) vale-se de linguagem marcadamente emotiva, capaz de revelar o estado de angústia do casal agoniado que sonhava desgraças.

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Exercícios escritos 176. (Unicamp) O capítulo “O mundo coberto de penas”, do romance Vidas secas (Graciliano Ramos), inicia-se com a seguinte descrição feita pelo narrador:

b) Como o episódio escolhido por você exemplifica a relação, percebida por Fabiano, entre um uso mais “difícil” da linguagem e o poder exercido por determinadas pessoas?

O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. (...) O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. Sinha Vitória falou assim, mas Fabiano resmungou, franziu a testa, achando a frase extravagante. Aves matarem bois e cabras, que lembrança! (...) Um bicho de penas matar o gado! Provavelmente sinha Vitória não estava regulando.

178. (PUC)

a) Sinha Vitória vê a chegada das aves ao bebedouro do gado como um sinal. De acordo com o enredo de Vidas secas, o que simboliza a chegada das aves? b) Transcreva, do trecho citado, uma passagem que confirme a resposta dada ao item anterior. c) Como o sinal identificado por sinha Vitória pode ser relacionado à trajetória da família de Fabiano, em Vidas secas? 177. (Unicamp) Uma personagem constantemente mencionada em Vidas secas, de Graciliano Ramos, é seu Tomás da bolandeira. Homem letrado, é tido como um exemplo de “sabedoria” por Fabiano, que muitas vezes o vê como um modelo. Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo. Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! quem disse que não obedeciam? a) Cite um episódio do romance em que fica evidente a dificuldade de expressão de Fabiano, na presença de pessoas que julga superiores.

Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no bebedouro dos animais um pouco de lama. Cavou a areia com as unhas, esperou que a água marejasse e, debruçando-se no chão, bebeu muito. Saciado, caiu de papo para cima, olhando as estrelas, que vinham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas estrelas, havia mais de cinco estrelas no céu. O poente cobria-se de cirros – e uma alegria doida enchia o coração de Fabiano. (Graciliano Ramos, Vidas secas.)

Álvaro Lins afirma que “o mais brasileiro dos livros do Sr. Graciliano Ramos é sem dúvida a novela Vidas secas, publicada em 1938 (...). Além de ser o mais humano e comovente dos livros de ficção deste autor, Vidas secas é o que contém maior sentimento da terra nordestina”. A respeito dessa obra, responda: a) Por que o título Vidas secas? b) O que há em comum entre o primeiro e o último capítulos dessa novela? 179. (Unicamp) Em Vidas secas, após ter vencido as dificuldades, postas no início da narrativa, Fabiano afirma: “Fabiano, você é um homem...”. Corrige-se logo depois: “Você é um bicho, Fabiano”. Em seguida, encontrando-se com a cadelinha, diz: “Você é um bicho, Baleia”. Ao chamar a si mesmo e a Baleia de “bicho”, Fabiano estabelece uma identificação com ela. Na leitura de Vidas secas, podem-se perceber vários motivos para essa identificação. Cite dois desses motivos. (Fuvest) As questões de 180 a 182 referem-se ao texto a seguir, extraído de Vidas secas, obra de Graciliano Ramos. Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não havia sinal de comida. (...) Sinha Vitória, queimando o assento no chão, as mãos

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cruzadas segurando os joelhos ossudos, pensava em acontecimentos antigos que não se relacionavam: festas de casamento, vaquejadas, novenas, tudo numa confusão. 180. “Ainda na véspera eram seis viventes”. “seis viventes” coloca num mesmo grupo homens e animais. O que os aproxima? 181. Na obra de Graciliano Ramos, o social e o psicológico coexistem. Comente essa afirmação, utilizando elementos do texto. 182. Vidas secas, reconhecidamente, compõe-se de capítulos que se constituem em quadros destacáveis, como se fossem narrativas autônomas. a) O que confere unidade à obra? b) Qual a relação existente entre o capítulo inicial, “Mudança”, e o final, “Fuga”? 183. (FGV) O menino mais novo teve uma dúvida e apresentou-a timidamente ao irmão. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moças bem vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intrincada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura encerrassem. (Graciliano Ramos, Vidas secas.)

A escassez da linguagem verbal é um dos traços mais marcantes dos sertanejos de Vidas secas. Em vários episódios do livro examinam-se os efeitos dessa carência na vida das personagens. a) Que resultado dessa carência aparece no trecho anterior? b) Mencione outra passagem do livro em que

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essa carência se manifesta, apontando suas consequências para a personagem. 184. (ITA) O romance Vidas secas de Graciliano Ramos, publicado em 1938, é um marco da ficção social brasileira, pois registra de forma bastante realista a vida miserável de uma família de retirantes que vive no sertão nordestino. A cachorra Baleia tem um papel especial no livro, pois é sobretudo na relação dos personagens com esse animal que podemos perceber que elas não se desumanizam, apesar de suas condições de vida. Considerando essa ideia, explique qual a importância do capítulo “Baleia” no romance. 185. (Fuvest) E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Esse é o retrato de Fabiano, do livro Vidas secas, de Graciliano Ramos. a) Por que o autor enumera os caracteres físicos de Fabiano? b) Que sentido tem a palavra cabra no texto? 186. (PUC) O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. (...) Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos, consertando cercas. De repente, um risco no céu, outros riscos, milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes. (...) (Graciliano Ramos)

O texto integra o romance Vidas secas, de Graciliano Ramos. A linguagem sintética caracteriza um texto enxuto e conciso, não porém

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destituído de marcas poéticas que dão a ele colorido e visualidade. a) Considerando o romance como um todo, o que prenuncia o trecho em questão? b) Destaque, no trecho dado, o elemento que indicia o que vai acontecer. c) Ainda no trecho em questão, destaque: • uma gradação. • uma prosopopeia. • uma sinédoque. • uma hipérbole. 187. (Fuvest) Leia as afirmações a seguir e responda o que se pede. I. A dureza do clima, que se manifesta principalmente nas grandes secas periódicas, explica todas as aflições de Fabiano ao longo da narrativa de Vidas secas, de Graciliano Ramos. a) Você concorda com essa afirmação? Justifique sucintamente sua resposta. II. Apesar de quase atrofiadas na sua rusticidade, as personagens de Vidas secas, de Graciliano Ramos, conservam um filete de investigação da interioridade: cada uma delas se perscruta, reflete, tenta compreender a si e ao mundo, ajustando-o à sua visão. b) Você considera essa afirmação correta? Justifique brevemente sua resposta. 188. (Unicamp) Os trechos a seguir foram extraídos de Memórias de um sargento de milícias e Vidas secas, respectivamente. O som daquela voz que dissera “abra a porta” lançara entre eles, como dissemos, o espanto e o medo. E não foi sem razão; era ela o anúncio de um grande aperto, de que por certo não poderiam escapar. Nesse tempo ainda não estava organizada a polícia da cidade, ou antes estava-o de um modo em harmonia com as tendências e ideias da época. O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo o que dizia respeito a esse ramo de administração; era o

juiz que julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não haviam testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que dava, fazia o que queria, ninguém lhe tomava contas. Exercia enfim uma espécie de inquirição policial. Entretanto, façamos-lhe justiça, dados os descontos necessários às ideias do tempo, em verdade não abusava ele muito de seu poder, e o empregava em certos casos muito bem empregado. (Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um sargento de milícias. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978. p. 21.)

Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano: – Como é, camarada? Vamos jogar um trinta e um lá dentro? Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira: – Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme. Levantou-se e caminhou atrás do amarelo, que era autoridade e mandava. Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia. (Graciliano Ramos. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 28.)

a) Que semelhanças e diferenças podem ser apontadas entre o Major Vidigal, de Memórias de um sargento de milícias, e o soldado amarelo, de Vidas secas? b) Como essas semelhanças e diferenças se relacionam com as características de cada uma das obras?

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Respostas Gabarito dos testes 151.c

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Respostas possíveis para as questões escritas 176. a) O retorno das secas. b) “... provavelmente o sertão ia pegar fogo.” c) Os retirantes, como as aves, “vinham (...) arranchavam-se (...) seguiam viagem para o Sul.” 177. a) Tanto diante do soldado amarelo (autoridade oficial) como diante do patrão é clara a dificuldade de expressão de Fabiano. b) Fabiano tem dificuldade em entender o que as pessoas dizem. Nos casos citados, a personagem não consegue articular sua defesa externa, embora internamente rumine as injustiças sofridas quando é torturado pelo soldado que o prendera injustamente durante um jogo de cartas, ou se sente incapaz de argumentar diante do patrão na hora do acerto de contas. Assume sua inferioridade em relação àqueles que detêm o poder. A relação mando-poder verbal recebe três distinções: mando pelo gosto do poder (soldado amarelo), mando pela posição econômica (patrão) e o mando “suave” de Tomás da bolandeira, em sua humildade de homem culto e cortês. 178. a) Porque reflete o problema do Nordeste – a seca – que gera a profunda miséria das personagens, daí Vidas (personagens e paisagens) secas (miséria social e fenômeno natural). b) Ambos escrevem sobre a fuga das personagens. O primeiro é a fuga da seca, que se dá no mesmo meio rural (do sítio seco para a fazenda de gado). O último é a fuga para a cidade grande. 179. Em Vidas secas ocorre uma animalização do homem: “Você é um bicho, Fabiano”. Entre os motivos que estabelecem a identidade homem-animal, podemos mencionar a falta de domínio da linguagem (Fabiano, como os bichos, expressa-se por grunhidos), a ausência de nomes dos filhos (sem identidade, como os bichos), a falta de consideração social (fazendo que o homem perca sua

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dignidade) e a fome, que rebaixa as personagens a animais lutando pela sobrevivência. Cabe salientar que, paralelamente à animalização do homem, ocorre uma antropomorfização do animal. O ato de devorar o papagaio, durante a retirada, é claramente um ato antropofágico, em que se come um “elemento da família”. Baleia, a cadela, tem nome, ao contrário dos meninos; quando ela está morrendo, sonha (como os homens) com um mundo cheio de preás, que ela comeria à farta – até ela, como os seres humanos, constrói uma utopia. 180. A miséria e a seca. 181. Como se observa no texto, o plano social – a fome, a falta de comida; enfim, a miséria, a seca – articula-se com o plano psicológico, em que o narrador onisciente vai nos revelando o fluxo de consciência de sinha Vitória, o caos mental – festas, vaquejadas, novenas, “tudo numa confusão”. 182. a) São dois os fatores que dão unidade à obra: as personagens e o trabalho com a paisagem miserável e seca. b) “Mudança” e “Fuga” são capítulos que tratam da retirada da família de um ponto para outro, caracterizando o processo gradativo de expulsão do homem da terra. No primeiro, as personagens partem em retirada e se alojam em um ponto (fazenda abandonada) na mesma região, indicando simples deslocamento. No segundo, está caracterizada a busca por um espaço libertador, procurado em outra região distante, indicando a expulsão. 183. a) As personagens sentem medo do inatingível (linguagem) que se tornou um mito. b) A escassez da linguagem verbal pode ter como consequências o medo, como, por exemplo, no episódio do soldado amarelo, ou na descrição das relações de Fabiano com o patrão. Pode ainda ter como consequência a admiração e o respeito, como por seu Tomás da bolandeira. 184. No volume Vidas secas, o capítulo “Baleia” tem uma significação especial: foi o quadro que deu origem ao romance. É importante notar que a cachorrinha mereceu um capítulo inteiro para si. Ela é uma personagem não humana que se antropomorfiza: tem identidade, marcada pelo nome próprio; garante a sobrevivência das pessoas quando fogem (é animal de caça); tem desejos e sonhos (“um mundo cheio de preás”), etc. As personagens humanas se descaracterizam como humanos (zoomorfização): não têm identidade (por exemplo, Fabiano de quê?); animalizam-se para conseguir forças para enfrentar o meio árido em que vivem. A presença de Baleia (mesmo após a sua morte)

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não deixa os humanos se esquecerem de que são homens, ela é um elo com uma humanidade que se dilui. Cabe ressaltar que há uma ironia no nome dela, uma vez que se trata de um animal pequeno, magro e de um ambiente notadamente seco. Assim, o nome Baleia poderia representar a permanente busca por água. 185. a) Ao enumerar características físicas de Fabiano, o autor o associa à paisagem ressecada do Nordeste: vermelho, queimado e ruivo, tendo como cobertura o céu azul/olhos azuis. Dessa forma identifica o homem com a natureza. b) No texto, o termo é utilizado em oposição a homem: “ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros...”; e em oposição a branco (pessoas que Fabiano julgava superiores a ele): “encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra”. 186. a) Prenuncia que “o sertão ia pegar fogo”. Indica o início de uma longa estiagem e de um novo período de seca. b) O indício do que vai acontecer está caracterizado pela invasão das aves de arribação. c) • Gradação: “Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e (...) seguiam viagem para o Sul” ou “... um risco no céu, outros riscos, milhares de riscos juntos”.

• Prosopopeia: “O sol chupava...”. • Sinédoque: “... chupava os poços” (poços por água)

ou “... cobria-se de arribações” (arribações por aves). • Hipérbole: “o sertão ia pegar fogo” ou “... milhares de riscos juntos...”. 187. a) Não. A dureza do clima justifica boa parte das aflições de Fabiano, mas não todas. A personagem também é oprimida socialmente quer pelo Estado, como no episódio do soldado amarelo, quer pela exploração do patrão. b) Sim, em termos, considerando apenas as personagens do núcleo familiar. Estas tendem a um movimento de interiorização, de autorreflexão, como no exemplo célebre: “Você é um bicho, Fabiano“. Por outro lado, elas tendem a modelar o mundo de acordo com seus próprios limites sociais e culturais, como os de linguagem, por exemplo. 188. a) Ambos representam o poder, a autoridade e, também, o abuso no exercício de suas funções. No entanto, diferenciam-se em um ponto essencial: o major Vidigal é elemento de repressão, enquanto o soldado amarelo é, sobretudo, elemento de opressão. b) Memórias de um sargento de milícias, em vários momentos, alinha-se aos romances de costumes, retratando práticas de um determinado momento da vida social brasileira; no caso, como o poder policial era exercido e sob quais circunstâncias. Vidas secas, por sua vez, pretende ser uma obra de denúncia social e política, revelando um conjunto de forças naturais e sociais que flagelam e oprimem o homem.

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Capitães da Areia Jorge Amado Exercícios teste 189. Assinale a alternativa incorreta quanto aos personagens de Capitães da Areia: a) Gato e Boa-Vida são semelhantes, já que ambos são exemplos daqueles que se utilizam da malandragem para obter recompensas. b) Gato e Boa-Vida são contrastantes, já que o primeiro é elegante e sedutor e o segundo é mulato, troncudo e feio. c) Enquanto Pirulito é a essência da abnegação, Sem-Pernas é o rancor compulsivo e feroz. d) Volta Seca, como Sem-Pernas, é vingativo e mau; ambos são incapazes de um ato de companheirismo. e) Boa-Vida e Pirulito são personagens que contrastam, porque o primeiro encaminha-se para a vida boêmia e o segundo encontra-se na ascese. 190. Em Capitães da Areia: a) a linguagem é simples, os capítulos são sequenciais e há demarcação precisa do tempo. b) na fala das personagens, o autor emprega a variante não padrão; os capítulos narram episódios isolados. c) predomina na obra um tom panfletário, deflagrado pela luta entre classes sociais, e a trama se concentra em um único conflito: a greve dos operários. d) todas as personagens são caracterizadas como vítimas, por isso pode-se concluir que o autor pretende chamar a atenção para a interação entre classes sociais. e) apesar de se aproximar do coloquial, o autor faz uso apenas da linguagem padrão. 191. Sobre Capitães da Areia é correto afirmar que: a) os meninos são caracterizados ora como homens, ora como crianças, como se pode observar no episódio do carrossel e na narração de suas aventuras amorosas. b) Jorge Amado, à maneira de Euclides da Cunha, privilegia a descrição da Bahia, deten-

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do-se na caracterização do tipo malandro. c) na obra, fica claro o conflito entre o sertão baiano, mais pobre e dominado pelo latifúndio, e a zona litorânea, marcada pela riqueza do cacau. d) o trapiche torna-se o personagem principal do volume, como ocorre em O cortiço, cuja personagem principal é o próprio cortiço. e) trata-se de um romance completamente maniqueísta, pois as personagens são construídas de tal modo que se tornam tipos lineares, sem nuances psicológicas. 192. Da leitura dos volumes Vidas secas e Capitães da Areia, conclui-se que: a) são volumes que não pertencem ao regionalismo nordestino. b) representam o ponto mais alto das obras de seus autores, respectivamente, Jorge Amado e Graciliano Ramos. c) são escritos de forma que o leitor possa lê-los a partir de qualquer ponto, porque são construídos com capítulos que constituem unidades autônomas. d) é possível observar pontos comuns, já que ambos são formados pela narração de pequenos quadros. e) têm somente personagens caracterizados por seus apelidos. Texto para as questões de 193 a 195. – Boa-tarde, dona Margarida. Mas a viúva Margarida Santos assestou novamente o “lorgnon“ de ouro: – O senhor não se envergonha de estar nesse meio, padre? Um sacerdote do Senhor? Um homem de responsabilidade, no meio desta gentalha... – São crianças, senhora. A velha olhou superior e fez um gesto de desprezo com a boca. O padre continuou: – Cristo disse: “Deixais vir a mim as criancinhas...”. – Criancinhas... Criancinhas... – cuspia a velha.

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(...) Pedro Bala aí riu escandalosamente, pensando que se não fosse pelo padre a velha já não teria o “barret“ nem tampouco o “lorgnon“... 193. Levando-se em consideração o trecho anterior e o livro como um todo, assinale a alternativa correta: a) Dona Margarida procura alertar o padre José Pedro, pois este, sem o saber, estava ajudando os Capitães da Areia. b) O padre José Pedro se aproximou dos jovens com segundas intenções, em nada ligadas à religião ou à caridade. c) O ponto de desacordo entre o padre José Pedro e Dona Margarida é o fato de esta ser ateia e aquele, religioso. d) O trecho ilustra uma questão polêmica em torno dos menores marginalizados, indagando se eles seriam vítimas ou culpados. e) O trecho ressalta o poder argumentativo de Pedro Bala, na tentativa de ludibriar tanto o padre como a velha. 194. A respeito do texto são feitas três afirmações: I. Dona Margarida, embora essencialmente religiosa, é exemplo de ideal de virtudes que não coincide com a prática. II. O padre José Pedro, destituído de vocação religiosa, encontra na caridade uma forma de satisfazer sua necessidade de pregar o bem. III. Pedro Bala respeita o padre, mas não se pode afirmar que seja um crente ou que tenha sentimentos religiosos. Estão corretas: a) todas as afirmações. b) somente as afirmações I e II. c) somente as afirmações I e III. d) somente as afirmações II e III. e) nenhuma das afirmações. 195. Lorgnon é uma palavra de origem francesa e designa uma espécie de óculos sem hastes. O autor utiliza o termo: a) como uma forma de mostrar que além do português ele também sabe o francês. b) para designar um tipo de óculos que não existe no Brasil. c) para dar à mulher uma característica particular, mostrando-lhe a deficiência visual. d) para distinguir o status da mulher de uma classe social superior a de seus interlocutores.

e) como forma de registrar a superioridade da mulher diante da criança abandonada. 196. A respeito dos personagens do romance Capitães da Areia, assinale a alternativa incorreta. a) Eles são identificados pelos cognomes, geralmente extraídos de uma qualidade ou de um defeito físico ou psicológico. b) Uma das funções dos apelidos é dar ao leitor uma visão do modo de ser de cada um dos habitantes do trapiche. c) Aqueles que não estão ligados ao trapiche só são referidos pelo primeiro nome. d) Só quem os pequenos abandonados respeitam e/ou amam tem acesso ao trapiche. e) Para serem aceitos no grupo, os meninos passavam por um ritual de iniciação. 197. Leia o texto. Uma vez, e era o verão, um homem parara vestido com um grosso sobretudo para tomar um refresco numa das cantinas da cidade. Parecia um estrangeiro. Era pelo meio da tarde e o calor doía nas carnes. Mas o homem parecia não senti-lo, vestido com seu sobretudo novo. No trecho, Jorge Amado utiliza uma figura de linguagem que consiste no entrecruzamento de sensações. Trata-se de um processo: a) metafórico b) metonímico c) sinestésico d) sintático-semântico e) paralelístico 198. Leia o texto. – Professor... Professor... – O que é? – Professor estava semiadormecido. – Eu quero uma coisa. Professor sentou-se. O rosto sombrio de Volta Seca estava meio invisível na escuridão. – É tu, Volta Seca? Que é que tu quer? – Quero que tu leia pra eu ouvir essa notícia de Lampião que o Diário traz. Tem um retrato. – Deixa pra amanhã que eu leio. – Lê hoje, que eu amanhã te ensino a imitar direitinho um canário. O professor buscou uma vela, acendeu, começou a ler a notícia do jornal. Lampião tinha entrado numa vila da Bahia, matara oito soldados, deflorara moças, saqueara os cofres da prefeitura. O rosto sombrio de Volta Seca se iluminou. Sua boca apertada se abriu num sorriso.

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E ainda feliz deixou o Professor, que apagava a vela, e foi para o seu canto. Levava o jornal para cortar o retrato do grupo de Lampião. Dentro dele ia uma alegria de primavera. Levando em consideração o trecho anterior e o livro como um todo, analise as afirmações a seguir: I. Professor, na verdade, era mais um dos Capitães da Areia. Ele recebeu essa alcunha devido a seu gosto pela leitura. II. Volta Seca sofre uma profunda inquietação ao saber que Lampião, seu padrinho, cometia diversos crimes bárbaros pelo interior da Bahia. III. Volta Seca vê Lampião menos como criminoso que como símbolo de luta e revolta. Assinale: a) se todas estiverem corretas. b) se apenas I e II estiverem corretas. c) se apenas II e III estiverem corretas. d) se apenas II estiver incorreta. e) se apenas III estiver correta.

O trecho anterior é do romance Capitães da Areia, de Jorge Amado. De acordo com o texto, indique a alternativa verdadeira: a) A regeneração se dá porque, segundo o Juiz de Menores, em carta à redação do jornal, o reformatório é um ambiente onde se respiram paz e trabalho e onde as crianças são tratadas com o maior carinho.

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200. (Fuvest) Inimigo da riqueza e do trabalho, amigo das festas, da música, do corpo das cabrochas. Malandro. Armador de fuzuês. Jogador de capoeira navalhista, ladrão quando se fizer preciso. (Jorge Amado, Capitães da Areia.)

199. (PUC) O diretor do Reformatório Baiano para Menores Abandonados e Delinquentes é um velho amigo do Jornal da Tarde. Certa vez uma reportagem nossa desfez um círculo de calúnias jogadas contra aquele estabelecimento de educação e seu diretor. Hoje, ele se achava na polícia esperando poder levar consigo o menor Pedro Bala. A uma pergunta nossa respondeu: – Ele se regenerará. Veja o título da casa que dirijo: “Reformatório”. Ele se reformará. E a outra pergunta nossa, sorriu: – Fugir? Não é fácil fugir do Reformatório. Posso lhe garantir que não o fará.

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b) A referência à fuga é desnecessária, visto que ninguém consegue de lá escapar, nem mesmo Pedro Bala. c) A matéria jornalística é isenta na defesa do diretor do reformatório, que, aliás, é um velho amigo do Jornal da Tarde. d) A afirmação do diretor sobre a regeneração é irônica e subentende o tratamento que é dispensado aos menores que para lá são conduzidos. e) A reforma aludida é possível porque conta com a ação apostólica do padre José Pedro junto ao reformatório e cuja ação é respeitada pelo diretor.

O tipo cujo perfil se traça, em linhas gerais, nesse excerto, aparece em romances como Memórias de um sargento de milícias, O cortiço, além de Capitães da Areia. Essa recorrência indica que: a) certas estruturas e tipos sociais originários do Período Colonial foram repostos durante muito tempo nos processos de transformação da sociedade brasileira. b) o atraso relativo das regiões Norte e Nordeste atraiu para elas a migração de tipos sociais que o progresso expulsaria do Sul/ Sudeste. c) os romancistas brasileiros, embora críticos da sociedade, militaram com patriotismo na defesa de nossas personagens mais típicas e mais queridas. d) certas ideologias exóticas influenciaram negativamente os romancistas brasileiros, fazendo-os representar, em suas obras, tipos sociais já extintos quando elas foram escritas. e) a criança abandonada, personagem central dos três livros, torna-se, na idade adulta, um elemento nocivo à sociedade dos homens de bem.

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Exercícios escritos 201. [Don’Aninha] tinha o rosto alegre, se bem bastasse um olhar seu para inspirar absoluto respeito. Nisso se parecia com padre José Pedro. a) Que significado possível pode ter a aproximação dessas duas personagens (José Pedro e Don’Aninha)? b) Qual o envolvimento das duas personagens citadas com o grupo de crianças abandonadas? 202. O nome ou apelido do indivíduo em algumas culturas é bastante significativo. Explique a razão dos apelidos emprestados aos seguintes personagens: Sem Pernas, Professor e João Grande. 203. Pedro Bala, antes de sair, falou para todos os capitães da areia: – Minha gente, eu vou fazer um troço difícil. Se eu não aparecer até de manhã, vocês fica sabendo que eu tou na polícia e não demoro a ta no reformatório, até fugir. Ou até vocês me tirar de lá. (...) – Pedro foi fazer um troço difícil. Se não voltar de manhã, é que ta na chave... a) Identifique no excerto anterior uma figura de linguagem e justifique a resposta com uma passagem do texto. b) É comum na representação da fala da personagem o uso de uma linguagem mais coloquial. Busque no texto um exemplo de desvio da norma padrão e reescreva-o segundo essa norma. 204. Querido-de-Deus, que era um pescador valente e capoeirista sem igual, também acreditava neles [nos deuses negros que vieram da África], misturava-os com os santos dos brancos que tinham vindo da Europa. a) Qual o nome dado a essa mistura religiosa? b) Além da religião, qual é a outra manifestação cultural africana presente no texto? 205. a) Caracterize o tempo em Capitães da Areia. b) Explique o título dado ao volume. 206. (Unicamp) Leia o trecho a seguir, do capítulo “As luzes do carrossel”, de Capitães da Areia: O sertanejo trepou no carrossel, deu corda na pianola e começou a música de uma valsa antiga. O rosto sombrio de Volta Seca se abria num

sorriso. Espiava a pianola, espiava os meninos envoltos em alegria. Escutavam religiosamente aquela música que saía do bojo do carrossel na magia da noite da cidade da Bahia só para os ouvidos aventureiros e pobres dos Capitães da Areia. Todos estavam silenciosos. Um operário que vinha pela rua, vendo a aglomeração de meninos na praça, veio para o lado deles. E ficou também parado, escutando a velha música. Então a luz da lua se estendeu sobre todos, as estrelas brilhavam ainda mais no céu, o mar ficou de todo manso (talvez que lemanjá tivesse vindo também ouvir a música) e a cidade era como que um grande carrossel onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia. Nesse momento de música eles sentiram-se donos da cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música. Volta Seca não pensava com certeza em Lampião nesse momento. Pedro Bala não pensava em ser um dia o chefe de todos os malandros da cidade. O Sem-Pernas em se jogar no mar, onde os sonhos são todos belos. Porque a música saía do bojo do velho carrossel só para eles e para o operário que parara. E era uma valsa velha e triste, já esquecida por todos os homens da cidade. (Jorge Amado. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 68.)

a) De que modo esse capítulo estabelece um contraste com os demais do romance? Quais são os elementos desse contraste? b) Qual a relação de tal contraste com o tema do livro? 207. (Fuvest) Leia o seguinte excerto de Capitães da Areia, de Jorge Amado, e responda ao que se pede. O sertão comove os olhos de Volta Seca. O trem não corre, este vai devagar, cortando as terras do sertão. Aqui tudo é lírico, pobre e belo. Só a miséria dos homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes que conseguem criar beleza dentro desta miséria. Que não farão quando Lampião libertar toda a caatinga, implantar a justiça e a liberdade? Compare a visão do sertão que aparece no excerto de Capitães da Areia com a que está

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presente no livro Vidas secas, de Graciliano Ramos, considerando os seguintes aspectos: a) a terra (o meio fĂ­sico); b) o homem (o sertanejo).

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Responda, conforme solicitado, considerando cada um desses aspectos nas duas obras citadas.

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Respostas conduzidas, mas que importunam, fazem-se presentes, deixam suas marcas. Interessante notar o da em vez do de no título.

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200.a

196.e

Respostas possíveis para as questões escritas 201. a) Don’Aninha é mãe de santo, portanto, uma representante das religiões africanas. A aproximação das duas personagens é um sinal do convívio pacífico dessas crenças. b) As duas personagens servem de apoio para as crianças. São os únicos elementos fora do trapiche que mantêm ligação com o grupo. 202. Sem-Pernas é coxo, Professor é o único do trapiche que conhece leitura e João Grande recebe esse nome não só porque é maior que os demais, mas porque também tem um bom coração. 203. a) “ta na chave” – metonímia. A chave pela cadeia, ou seja, parte pelo todo. b) “eu tou” – eu estou. 204. a) Sincretismo religioso. b) A prática da capoeira. 205. a) O tempo, relativamente extenso, mas impreciso, compreende um retalho da vida dos meninos, desde a infância até a maturidade. Contudo, há a oportunidade de conhecer com mais intensidade o tempo de alguns personagens como Pedro Bala e Dora. b) O título é metafórico. Pode-se pensar em jovens que vivem à beira-mar, portanto, nas areias da praia onde se situa o trapiche, e de lá comandam suas vidas, daí o capitães. Pode-se ir além, pensar em crianças que, como areia, são dissolvidas, levadas,

206. a) Nesse capítulo, as personagens são apresentadas em um estado de intensa alegria, despertado pelo contato com as luzes do carrossel, viabilizando a ligação, até então perdida, com o lúdico, ou seja, com a magia do carrossel. Ao se depararem com as luzes do brinquedo, os meninos se esquecem da realidade brutal, de modo que aqueles homens em corpos de meninos não só readquirem, momentaneamente, a infância perdida, como também ressignificam a cidade da Bahia, na medida em que a veem como “um grande carrossel onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia”. Por meio dessa ressignificação, estabelece-se um contraste entre os comportamentos das personagens, pois, ao longo do romance, são apresentadas como transgressoras e, nesse capítulo, são vistas pelo lado infantil, ingênuo e desamparado de cada uma delas, humanizando-as. b) O tema do livro é a ação das crianças como adultos marginais; porém, no capítulo “As luzes do carrossel”, a infância roubada é restituída às personagens, ainda que momentaneamente. Jorge Amado chama a atenção do leitor para um problema social que transforma a criança em vítima dos preconceitos e da violência da sociedade. 207. a) O sertão, para Volta Seca, é “lírico, pobre e belo” e “comove os olhos”. Em Capitães da Areia, o sertão é belo porque “homens (...) conseguem criar beleza dentro dessa miséria”. Em Vidas secas, a terra é pobre e seca e é fator determinante para a miséria. b) O homem, em Capitães da Areia, é capaz de transcender seu estado de miséria e criar beleza, justiça e liberdade por meio de uma tomada de consciência de seu papel social. Em Vidas secas, ele é incapaz de superar a miséria que se revela tanto no plano físico quanto no intelectual.

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Sentimento do mundo Carlos Drummond de Andrade Exercícios testes 208. Considerando-se a obra Sentimento do mundo, é possível afirmar que Drummond: a) explora todos os aspectos que já foram trabalhados nos livros anteriores e acrescenta uma visível preocupação com o momento social. b) focaliza com menor intensidade aspectos de seu “eu” em detrimento de uma crítica à família e à terra natal. c) minimiza a situação social em função de seus problemas pessoais. d) aprofunda a temática que já vinha desenvolvendo em função de suas preocupações com a situação de conflito que se aproxima. e) revitaliza sua poesia em função de sua preocupação com o versejar de forma moderna. 209. (UFSM-RS) Assinale a alternativa incorreta a respeito da poesia de Carlos Drummond de Andrade: a) O jogo verbal, em alguns poemas, acentua a relativização das várias faces da realidade. b) O sujeito poético, várias vezes, reveste suas expressões de um fino traço de humor. c) O sujeito poético, constantemente, transmite sensações de dúvida e de negação. d) Os versos que contêm uma ênfase mística podem ser vistos como produtos do fervor católico do poeta. e) Importantes poemas publicados na década de 1940 tratam de temas de caráter social. Texto para as questões 210 e 211. Mundo grande Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo, por isso me grito, por isso frequento os jornais, me exponho [cruamente nas livrarias: preciso de todos. 210. A percepção de que não dá conta do mundo, leva o poeta a:

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a) querer se aproximar dos outros e partilhar o mundo. b) buscar se desconstruir em função de sua incapacidade de lidar com seus problemas. c) comprometer-se com outras formas de poesia, principalmente aquelas que não fazem apelo social. d) refugiar-se em si mesmo, procurando despir-se de suas angústias. e) confessar-se incapaz de lidar com problemas pessoais. 211. É comum na literatura os poetas dialogarem com outros poetas/textos. Nos versos de “Mundo grande”, Carlos Drummond de Andrade refere-se aos seguintes versos: Eu tenho um coração maior que o mundo, tu, formosa Marília, bem o sabes: Um coração, e basta, onde tu mesma cabes. a) do poeta árcade Cláudio Manuel da Costa. b) do escritor romântico Almeida Garrett. c) do maior representante do Arcadismo em Portugal: Bocage. d) do introdutor do Romantismo no Brasil. e) do maior representante do Arcadismo no Brasil. 212. Os poemas de caráter autobiográfico de Drummond: a) remetem às lembranças da família bem estruturada que perdeu as posses com as frequentes crises econômicas do governo Vargas, como se lê em “Confidência do itabirano”. b) tratam da família, centrada na figura da mãe opressora que se transformou, após a morte, em uma simples fotografia, como em “Os mortos de sobrecasaca”. c) as lembranças da terra natal que lhe trazem recordações nem sempre salutares e que, mesmo passados muitos anos, ainda deixam profundos sulcos no presente, como em “Confidência do itabirano”.

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d) tratam da terra natal, sempre motivo de boas recordações, uma terra farta e fértil só se esvai quando o sol se põe, como em “Revelação do subúrbio”. e) remetem às lembranças das pessoas com que conviveu, revividas pelos seus retratos expostos em uma sala da casa da fazenda, como em “Os mortos de sobrecasaca”. Texto para a questão 213. Madrigal lúgubre Em vossa casa feita de cadáveres, ó princesa! Ó donzela! Em vossa casa, de onde o sangue escorre, Quisera eu morar. (...) 213. Sabendo-se que madrigal é uma composição poética ou poético-musical que traz um tema singelo ou exprime um pensamento terno ou galante, pode-se inferir que: a) o título do poema deixa antever a grande antítese trabalhada, já que o termo “lúgubre” se antepõe à leveza do “madrigal”. b) o termo foi usado com propriedade por Drummond, no poema ele trará as reminiscências que guarda dos contos de fadas e das personagens fantásticas. c) ao usar “cadáveres” para ilustrar uma casa já morta, o autor destaca a importância dos contos de fada para a formação do imaginário infantil. d) o autor pretende contrapor o que ele viveu no passado, no aconchego da família, e o presente, nefasto e repleto de maus presságios. e) o poeta metaforiza a passagem do tempo e o envelhecimento dos contos de fada, agora cadáveres. Texto para a questão 214. Elegia 1938 (...) Coração orgulhoso, tens pressa de confessar [tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a [injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de [Manhattan. 214. Elegia é um poema, geralmente terno e triste, em que tem por tema algo que faz o poeta sofrer. Sabendo-se disso, o trecho final de “Elegia 1938” permite inferir que o poeta:

a) sente-se desconfortável diante da sua incapacidade de dinamitar a ilha de Manhattan. b) faz uma reflexão sobre sua incapacidade de atingir seus ideais de igualdade, levando-o a acreditar que qualquer luta deve ser coletiva. c) faz um apelo revolucionário para que se possa chegar a um bom termo as intervenções terroristas nos Estados Unidos da América. d) reforça a preocupação do poeta com o “mundo caduco” em que só existem momentos pacíficos breves que, na verdade, constituem preparação para outras intervenções. e) resvala na esperança de poder se unir a outros homens para que se possa articular uma ação conjunta em favor dos pobres e necessitados. Texto para as questões 215 e 216. La possession du monde Os homens célebres visitam a cidade. Obrigatoriamente exaltam a paisagem. Alguns se arriscam no Mangue, outros se limitam ao Pão de Açúcar, mas somente George Duhamel passou a manhã inteira no meu quintal. Ou antes, no quintal vizinho do meu quintal. Sentado na pedra, espiando os mamoeiros, conversava com o eminente neurologista. Houve uma hora em que ele se levantou (em meio a erudita dissertação científica). Ia, talvez, confiar a mensagem da Europa aos corações cativos da jovem América... Mas apontou apenas para a vertical e pediu ce cocasse fruit jaune. 215. Esse poema é caracteristicamente modernista porque nele: a) a uniformidade dos versos reforça a simplicidade preconizada pelo poeta. b) tematiza-se aspectos do cotidiano, com ironia e bom humor, vazando-os em versos descompromissados com a estética tradicional. c) satiriza-se o estilo pomposo da poesia francesa a partir da menção ao acadêmico Georges Duhamel. d) a linguagem coloquial dos versos livres apresenta com humor o cotidiano encarnado em uma simples conversa de botequim. e) o dia a dia surge como novo palco das sensações poéticas, sem que se imprima alguma nota diferenciada no fazer poético. 216. Destacam-se nesse poema características marcantes de Drummond. São elas:

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a) a ruptura com a lírica tradicional, a ironia e o estilo prosaico. b) a memória familiar, o canto elegíaco e sentimental. c) a exposição da timidez pessoal, a fala amargurada e a recuperação da forma fixa. d) a preocupação de cunho social, o pessimismo e a desintegração do verso livre. e) a tendência ao metafísico, o discurso rebuscado e o humor sutil. (UEL) As questões 217 e 218 referem-se aos textos que seguem. Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. (...) Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! (Carlos Drummond de Andrade. “Confidência do itabirano”. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. p. 101.)

Che Guevara (1967) Que boina, que belo, que barba... Que sonho, que sanha, que santo... O olhar que, na foto célebre, escruta ao longe, e espreita, e espia, confïrma-o como inigualável sentinela da utopia. (...) Che Guevara (2001) É apenas um pôster na parede. Mas como dói. (Renato Pompeu de Toledo. “Epigramário dos náufragos dos anos 60”. Veja, 21.02.2001. p. 150.)

217. O final do texto de Toledo: a) faz um plágio do texto de Drummond, o que é um sinal de desonestidade e incapacidade criativa do autor. b) coincide acidentalmente com o texto de Drummond; como ambos retratam situações semelhantes, usam também textos análogos. c) evoca intencionalmente o conhecido poema de Drummond, para marcar a semelhança de sentimentos.

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d) faz uma paródia do poema de Drummond, imitando-o em um texto que se caracteriza pelo sentimentalismo. e) apresenta uma paráfrase do poema de Drummond, com o propósito de divulgá-lo entre os leitores da revista em que está publicado. 218. Comparando-se o início dos textos dos dois autores, observa-se que: a) embora com algumas diferenças nos elementos selecionados, ambos fazem referência a um passado marcado pela luta por um ideal político. b) para Drummond, lembrar Itabira dói, devido à saudade de sua juventude; para Toledo, lembrar Che Guevara dói, devido à descrença atual nos ideais dos anos 60. c) ambos gostariam de voltar ao passado, representado, no poema de Drummond, pela foto de sua cidade natal e, no texto de Toledo, pelo pôster de um herói de sua juventude. d) há uma semelhança no início dos dois textos, pois os autores retratam o mesmo período da história do Brasil. e) ambos têm como tema principal a tristeza pela perda da juventude. 219. (Mack) É preciso casar João, é preciso suportar Antônio, é preciso odiar Melquíades, é preciso substituir nós todos. É preciso salvar o país, é preciso crer em Deus, é preciso pagar as dívidas, é preciso comprar um rádio, é preciso esquecer fulana. O paralelismo dos versos, no contexto, contribui para a expressão: a) de uma visão idealizada das relações humanas. b) da ideia do caráter ininterrupto das pressões sociais sobre o indivíduo. c) da interrupção da obrigatoriedade. d) do constante questionamento sobre a fugacidade do tempo. e) do bem-estar produzido pela utopia como única possibilidade de realização. 220. (UFJF) Leia, agora, o poema “Lembrança do mundo antigo”, de Carlos Drummond de Andrade.

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Lembrança do mundo antigo Clara passeava no jardim com as crianças. O céu era verde sobre o gramado, a água era dourada sob as pontes, outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados, o guarda-civil sorria, passavam bicicletas, a menina pisou a relva para pegar um pássaro, o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era [tranquilo ao redor de Clara. As crianças olhavam para o céu: não era proibido. A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não [havia perigo. Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os [insetos. Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas, esperava cartas que custavam a chegar, nem sempre podia usar vestido novo. Mas [ passeava no jardim, pela manhã!!! Havia jardim, havia manhãs naquele tempo!!! (Carlos Drummond de Andrade. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 61.)

A leitura do poema permite afirmar que o mundo de Clara é: a) uma distorção da realidade. b) uma sátira à inocência. c) uma idealização da realidade. d) um rompimento com a simplicidade. e) uma desvalorização da vida simples. 221. (FGV) Considere as seguintes afirmações sobre o poema de Drummond: Tristeza do império Os conselheiros angustiados ante o colo ebúrneo das donzelas opulentas que ao piano abemolavam “bus-co a cam-pi-na se-re-na pa-ra li-vre sus-pi-rar”, esqueciam a guerra do Paraguai, o enfado bolorento de São Cristóvão, a dor cada vez mais forte dos negros e sorvendo mecânicos uma pitada de rapé, sonhavam a futura libertação dos instintos e ninhos de amor a serem instalados nos [arranha-céus de Copacabana, com rádio e telefone automático. (Carlos Drummond de Andrade. Sentimento do mundo)

I. As referências temporais e espaciais do texto permitem situar na segunda metade do século XIX a cena nele figurada.

II. No texto, o contraste entre a linguagem de gosto antigo e a dicção moderna, ao invés de marcar uma ruptura histórica, realça a continuidade do comportamento das elites. III. O poeta trata com ironia cortante a aura de liberdade que costuma acompanhar as referências à liberação sexual ocorrida no século XX. Está correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) II, apenas. c) I e II, apenas. d) II e III, apenas. e) I, II e III. 222. (UFT) A noite dissolve os homens A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me [perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se [combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o [medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança... Os suspiros acusam a presença negra que paralisa [os guerreiros. E o amor não abre caminho na noite. A noite é mortal, completa, sem reticências, a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes [cintilantes! nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem [remédio... Os suicidas tinham razão. Aurora, entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais a e dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo fascista se decompõe ao contato [de teus teus dedos frios, que ainda se não modelaram [mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. Minha fadiga encontrará em ti o seu termo, minha carne estremece na certeza de tua vinda.

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O suor é um óleo suave, as mãos dos sobrevi se enlaçam, os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma [inocência, um perdão simples e macio... Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora. (Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.)

Assinale a resposta incorreta: a) O ponto de exclamação marca um estado

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de espírito do poeta, fazendo o leitor crer que aquela noite tenha sido diferente das demais. b) O poeta transita entre concreto e abstrato, utilizando-se da linguagem figurada, muito comum nesse gênero textual. c) O pronome relativo “que” em “que outrora me perturbavam” funciona como sujeito da oração que introduz. Sua função é unir orações por coordenação. d) Os versos narram, em primeira pessoa, a escuridão da noite, encadeando, por gradação, o processo de dissolução dos homens.

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Exercícios escritos 223. (UFJF) Leia, com atenção, o texto a seguir: Congresso internacional do medo Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso [companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos [desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o [medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos [democratas, cantaremos o medo da morte e o medo de depois [da morte, depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas [e medrosas. (Carlos Drummond de Andrade. Nova reunião. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1983. p. 71.)

No poema, as únicas ações realizadas pelo homem são cantar o medo e morrer de medo. Explique a relação entre essas duas ações e o verso final – “e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”. 224. (UFBA) I. Riquezas naturais Muitos metaes pepinos romans e figos De muitas castas Cidras limões e laranjas Uma infinidade Muitas cannas daçucre Infinito algodam Também há muito paobrasil Nestas capitanias (Oswald de Andrade. Pau-Brasil. 2. ed. São Paulo: Globo/Secretaria de Estado da Cultura, 1990. p. 72.)

II. Revelação do subúrbio Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, [contra a vidraça do carro, vendo o subúrbio passar. O subúrbio todo se condensa para ser visto [depressa,

com medo de não repararmos suficientemente em suas luzes que mal têm tempo de brilhar. A noite come o subúrbio e logo o devolve, ele reage, luta, se esforça, até que vem o campo onde pela manhã repontam [laranjais e à noite só existe a tristeza do Brasil. (Carlos Drummond de Andrade. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. p. 112.)

Analise os diferentes modos de sentir, pensar, viver e dizer as imagens do país, representados nos textos. 225. (Fuvest) Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. a) Identifique o autor do poema e o movimento literário a que pertence. b) O que se entende por “mundo caduco”? (Fuvest) Texto para a questão 226. Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem [vista da janela, Não distribuirei entorpecentes ou cartas de [suicídio, Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por [serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, [os homens presentes, A vida presente. 226. a) Indique um verso do texto em que o autor rejeita uma característica do Romantismo. b) Qual é a característica rejeitada?

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227. (UFBA) Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte Eu sou a Moça-Fantasma que espera na Rua do Chumbo o carro da madrugada. Eu sou branca e longa e fria, a minha carne é um suspiro na madrugada da serra. Eu sou a Moça-Fantasma. O meu nome era Maria. Maria-Que-Morreu-Antes. Sou a vossa namorada que morreu de apendicite, no desastre de automóvel ou suicidou-se na praia e seus cabelos ficaram longos na vossa lembrança. Eu nunca fui deste mundo: Se beijava, minha boca dizia de outros planetas em que os amantes se queimam num fogo casto e se tornam estrelas, sem ironia. Morri sem ter tido tempo de ser vossa, como as outras. Não me conformo com isso, e quando as polícias dormem em mim e fora de mim, meu espectro itinerante desce a Serra do Curral, vai olhando as casas novas, ronda as hortas amorosas (Rua Cláudio Manuel da Costa), para no Abrigo Ceará, não há abrigo. Um perfume que não conheço me invade: é o cheiro do vosso sono quente, doce, enrodilhado nos braços das espanholas... Oh! deixai-me dormir convosco. E vai, como não encontro nenhum dos meus namorados, que as francesas conquistaram, e que beberam todo o uísque existente no Brasil (agora dormem embriagados), espreito os carros que passam com choferes que não suspeitam de minha brancura e fogem. Os tímidos guardas-civis, coitados! Um quis me prender. Abri-lhe os braços... Incrédulo,

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me apalpou. Não tinha carne e por cima do vestido e por baixo do vestido era a mesma ausência branca, um só desespero branco... Podeis ver: o que era corpo foi comido pelo gato. As moças que ainda estão vivas (hão de morrer, ficai certos) têm medo que eu apareça e lhes puxe a perna... Engano. Eu fui moça, serei moça deserta, per omnia secula1. Não quero saber de moças. Mas os moços me perturbam Não sei como libertar-me. Se o fantasma não sofresse, se eles ainda me gostassem e o espiritismo consentisse, mas eu sei que é proibido, vós sois carne, eu sou vapor. Um vapor que se dissolve quando o sol rompe na Serra. Agora estou consolada, disse tudo que queria. subirei àquela nuvem, serei lâmina gelada, cintilarei sobre os homens. Meu reflexo na piscina da Avenida Paraúna (estrelas não se compreendem), ninguém o compreenderá. (Carlos Drummond de Andrade. Sentimento do mundo. In: Afrânio Coutinho (Org.). Carlos Drummond de Andrade. Obra completa: poesia. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. pp. 102-103. (Biblioteca Luso-Brasileira. Série Brasileira))

Sobre o poema, é correto afirmar: 01) O texto é permeado por um tom de lamento da moça-fantasma, motivado pela perda do mundo real. 02) O espaço físico pelo qual a personagem transita é delimitado na superfície do texto. 04) As expressões “eu sou branca”, “minha brancura”, “ausência branca” e “desespero branco” intensificam a ideia de um ser abstrato, inorgânico. 08) O discurso lírico da segunda estrofe identifica a figura do fantasma com outros seres que se tornaram invisíveis para o mundo real. 1

per omnia secula – por todos os séculos.

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16) A voz poética revela desejo de comunhão com a natureza, com o sagrado e com os homens. 32) O poema lírico revela imagens de tédio, de ódio e de desespero de um ser oprimido, desejoso de mudanças sociais.

64) O final do poema evidencia o restabelecimento da integração da personagem com o mundo real. Indique o valor da soma das alternativas corretas e justifique sua resposta.

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Respostas b) As características rejeitadas são: uma forma de lirismo-amoroso e a natureza idealizada.

Gabarito dos testes 208.d 209.d

210.a

211.e

212.c

213.a

227. 15 (01 + 02 + 04 + 08)

214.b 215.b

216.a

217.c

218.b

219.b

220.c

222.c

01) Correto. Com diversas passagens do texto, o tom de lamento predomina, como se pode perceber em “morri sem ter tido tempo de ser vossa, como as outras”.

221.e

Respostas possíveis para as questões escritas 223. No contexto do entreguerras, da ditadura de Vargas e da afirmação do capitalismo industrial, o eu lírico enfatiza o medo através das formas versais e do verso final, criticando a apatia política e social advinda desse sentimento, ressaltando que será este a herança das futuras gerações. 224. Em “Riquezas naturais”, Oswald de Andrade faz uma releitura da literatura de informação da época do descobrimento. Ele enumera as belezas do Brasil daquela época, como os “muitos metaes” e o “paobrasil”. Drummond, em “Revelação do subúrbio”, evidencia a “tristeza do Brasil” de seu tempo; seu olhar recai sobre o subúrbio de Minas Gerais, com uma oposição entre o dia e a noite, que reforça a ideia de luta e tristeza.

02) Correto. O espaço físico “real”, no poema, é confirmado pela presença de logradouros (Rua Cláudio Manuel da Costa), personagens (guardas-civis), bem como comportamentos mundanos (“beberam todo uísque existente no Brasil”). 04) Correto. A recorrência do aspecto de “brancura”, no poema, denota ideia de espiritualidade e, portanto, de abstração. 08) Correto. Fica evidente, na 2ª estrofe, que o eu lírico compara sua morte com as outras mortes de pessoas que também não mais fazem parte do mundo “real” (“Sou a vossa namorada / que morreu de apendicite / no desastre de automóvel / ou suicidou-se na praia”). 16) Incorreto. Não aparece, no poema, qualquer desejo de comunhão com a natureza, com o sagrado e com os homens.

225. a) Carlos Drummond de Andrade – Modernismo. b) Mundo passado (e ultrapassado). Drummond está negando o passado nostálgico, romântico, idealizado. Seu compromisso é com o presente e com a realidade.

32) Incorreto. Não aparecem os sentimentos de desespero e de desejo de mudanças sociais, entretanto são comprovadas as imagens de tédio (“Agora estou consolada, / disse tudo que queria”) e ódio (“Como não encontro nenhum dos meus namorados que as francesas conquistaram”).

226. a) “Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, / Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela”.

64) Incorreto. Fica comprovado, através da última estrofe, que o eu lírico continua atrelado ao mundo metafísico.

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