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Tradução: Lu lima Revisão Inicial:

Elaine C.; Deh

Ricci; Danny B., Camila Trigueiro, Silvana R. Segunda Revisão : Light Angel Revisão Final: Ella Books Leitura Final: Ella Books Formatação: Lola


Adorei a revisão desse florzinha. Principalmente da vovozinha, esperta, terna, uma gracinha. Acho que no fim ela é o verdadeiro Anjo de Milo. O enredo nos mostra o quanto nem sempre aquilo que vemos expressa a verdade dos fatos. Milo é assim, só quer acreditar no que acha certo de acordo com sua forma de ver a vida, mas aprende uma dura lição, ao constatar que nem sempre o que vê, é realmente a verdade e que não devemos julgar as pessoas precipitadamente. É um livro leve, bem gostoso para ler numa tarde, numa rede na varanda. Tradutora Lu

Uma delicinha de livro, bem água com açúcar com uma dose extra de fofura, em alguns momentos quis esganar os personagens confesso kkkkkk com aquela confusão toda que poderia muito bem ter sido evitada com uma conversa, mas tirando isso amei revisa-lo. Ella Books


Nesta Milos

pequena

Kosta

era

ilha

grega,

o

mestre.

Rowenna Mas Blake nĂŁo amava e era muito disposto a mostrar a esse

grego

convencido,

seria o proprietĂĄrio.

nunca


Rowenna olhou pela janela enquanto esperava, sentada muito ereta e com os ombros para trás, tal e como lhe tinha indicado tia Alice antes de se despedir. "Não o esqueça, Wenna", havia-lhe dito, chamando-a carinhosamente por seu apelido de infância, "Não nasceu dotada de uma grande beleza como sua irmã. Mas tem os olhos da sua mãe. E seu sorriso caloroso com o qual podia contagiar ao ser mais triste. E tem seu coração. E sua inteligência. Seja elegante. Fale quando deva falar e guarda silêncio quando deva calar. E sob nenhuma circunstância, permita que ninguém te humilhe, promete?". Wenna havia prometido e então, a tinha abraçado fortemente e depois subido naquele avião que a levaria até sua nova vida. Recordou com tristeza a expressão chorosa da tia Alice. Ferir seus sentimentos era a última coisa que queria. Entretanto, as circunstâncias a haviam obrigado a tomar aquela decisão. Por mais que adorasse a sua tia e por muito que sentisse falta dela, era a única alternativa possível


depois de.... Não queria pensar mais nisso. Esfregou as mãos com nervosismo, as deixando cair sobre seu colo ao escutar o ruído da porta ao se abrir. A sala onde aguardava há mais de quinze minutos, era enorme. Mas no mesmo instante em que aquela figura irrompeu na sala, pareceu-lhe que está diminuíra

repentinamente.

Wenna

também

se

sentiu

incrivelmente menor. O homem, que a observava fixamente, também parecia pensar como era insignificante a moça que tinha a sua frente. De fato, começava a incomodá-la com o escrutínio ao qual a submetia. Sentiu como os olhos dele percorriam com descaramento sua figura miúda, seu rosto ovalado emoldurado pelo cabelo que Wenna tinha recolhido em uma singela trança. Ela estudou-o por sua vez. Devia ter uns trinta ou quarenta anos. A tez morena, os olhos negros, brilhantes

e

o

cabelo

do

mesmo

tom

azeviche

das

sobrancelhas espessas. Uma enorme cicatriz cruzava sua bochecha direita da parte inferior do olho até a borda superior dos lábios, concedendo a sua expressão um aspecto quase diabólico. Como a teria adquirido? Usava um corte de cabelo nada convencional, muito comprido, cobrindo a nuca, ligeiramente alvoroçado na frente e com umas costeletas que precisavam ser aparadas com urgência. Wenna desviou o olhar para a linha do pescoço. Seus ombros eram largos e os braços, musculosos e longos, se cruzavam sobre o peito para lhe

conceder

um

ar

de

insolência

que

não

passou

despercebido a ela. Por fim, o homem abandonou sua postura inicial e se aproximou dela com lentidão, lhe indicando com um gesto arrogante que voltasse a ocupar sua cadeira. Sem


dúvida, ele estava acostumado a que os outros obedecessem a suas ordens sem pigarrear e por essa vez, Wenna aceitou. Talvez estivesse se precipitando ao lhe julgar. Tia Alice sempre dizia que não devia se confiar nas aparências, que inclusive no interior do animal mais feroz, sempre se escondia um coração. Observou-lhe com dissimulação. Mas temeu que naquela ocasião, tia Alice teria uma enorme decepção. Não havia nada amável nele. Ao escutar pela primeira vez sua voz, soube que não lhe tinha julgado equivocadamente. — É jovem demais. — Seu tom era frio e os escuros olhos se cravaram nela ao falar, examinando novamente sua aparência para confirmar o comentário anterior. — É um prazer lhe conhecer, senhor Kosta. — Wenna não se deixou impressionar por sua rudeza. Já havia sido advertida sobre as muitas e variadas virtudes de Milos Kosta, antes de aceitar o trabalho. Entre os atrativos de sua personalidade, estava o de fazer que o resto dos mortais se sentisse vulgar, justamente o que fazia com ela nesse momento. Embora Wenna já tivesse decidido que aquele pequeno detalhe não seria um obstáculo para ela. — Temia que tivesse sido esquecida. Ele arqueou as sobrancelhas, contrariado e surpreso. Acaso esperava que ela saísse correndo só porque era intencionadamente grosseiro na primeira entrevista? Wenna rezou para que ele não descobrisse que na verdade tremia dos pés à cabeça.


— E tinha esquecido. — Seu tom era agora sarcástico. — Tinha coisas mais importantes para fazer, senhorita... — Blake. Rowenna Blake. — Clareou um pouco a voz e sorriu,

tentando

inutilmente

que

ele

correspondesse

cordialmente com outro sorriso. É obvio, não o fez. Em lugar disso, começou a passear a seu redor. Observava-a como se ela fosse um inseto interessante que possivelmente poderia cravar em alguma agulha e acrescentar a sua coleção de pessoas aniquiladas por sua falta de humanidade. — Se está tão ocupado, então devo lhe agradecer por me dedicar uns minutos de seu tempo. — Não me agradeça, senhorita Blake. A senhora Kosta quis que a recebesse pessoalmente. Wenna assentiu, consciente de que para aquele homem, ela não era mais que outro inconveniente que lhe impunha sua caprichosa avó. — E bem, senhorita Blake, que classe de nome é esse, Rowena? — Perguntava como se lhe desgostasse, embora Wenna tinha impressão que pouco lhe incomodava que tivesse qualquer outro nome. — É de procedência... — Começou a dizer, mas ele a cortou imediatamente, levantando sua mão e agitando-a no ar com impaciência. —Bom, é somente um nome, senhor Kosta. —Bem. Como deseja que a chamemos? —Rowenna está bem. —Murmurou. Ia dizer que seus amigos a chamavam Wenna, mas imaginou que lhe pareceria


ridículo. Por outro lado, eles não eram amigos. E por sua forma de se comportar, intuía que jamais o seriam. —De acordo. —Aceitou ele, encolhendo os ombros com indiferença. —Para mim, será a senhorita Blake. Você pode me chamar de senhor Kosta. Wenna pensou que ele só faltou acrescentar "ou amo ou, meu senhor," e teria resultado igualmente desagradável. —À senhora Kosta, todos a chamamos Nana. — Informou-lhe. —Ela gosta e assim você deve se dirigir a ela a menos que lhe indique o contrário. Quanto a seu trabalho, há certas coisas que deve ter bem claras. Nana está acostumada a madrugar, gosta de dar um passeio até a praia antes do café da manhã. Deverá acompanha-la cada manhã, chova, neve ou faça sol. Toma cinco tipos de comprimidos ao dia. Não sei exatamente para que servem, mas a faço responsável para que ela os tome todos, sem exceção. Ao meio-dia, almoçamos. É a única refeição que fazemos juntos, já que o resto do dia o passo fora e volto à noite. Nana gosta de conversar e gosta que a escutem quando o faz. Eu não tenho tempo nem paciência para isso, assim a partir deste momento,

você

será

sua

confidente,

sua

amiga,

sua

companheira. Às 22:00 horas, minha avó deve estar na cama. Nem um minuto mais nenhum menos. Seu médico nos advertiu de que precisa descansar e não se esgotar muito. Como terá adivinhado, também será sua responsabilidade. Não quero que me incomode ou me interrompa, a menos que seja estritamente necessário. E quando digo necessário, quero dizer que se trate de algo vital e de máxima urgência.


Se Nana e você não combinarem na primeira semana, está despedida. Se não tomar seus remédios ou cumprir seus horários de dormir, está despedida. Se notar que Nana está descuidada ou é infeliz, está despedida. E se me causar problemas, está despedida. Alguma dúvida, senhorita Blake? Wenna mal conseguia articular por conta do espanto. Quem ele achava que era, como se atrevia a lhe falar daquele modo? Reprimiu o impulso de lhe mandar ao diabo e voltar por onde havia vindo. Entretanto, ao dar uma olhada pela janela, soube que não podia fazer nada disso. A anciã que tomava limonada no jardim, placidamente acomodada em sua cadeira de rodas, foi razão suficiente para que não dissesse a aquele arrogante o que podia fazer com toda aquele monte de regras estúpidas. Não a conhecia ainda. Mas a expressão de seu rosto sulcado de rugas, gotejavam ternura. Recordou-a de sua querida tia Alice, quem sempre tinha uma palavra amável para os outros. Decidiu seguir seu exemplo e sorriu apesar de sua raiva. —Nenhuma, senhor Kosta. —Respondeu, olhando-o abertamente e sem temor. —Só falta tratar um tema. Queria saber qual será meu dia livre e se for possível, também poderia me indicar onde fica a agência de correios. Precisarei enviar regularmente algumas cartas e.... —Pode ter folga aos domingos e uma tarde a cada semana. —Atalhou com tom cortante. —É obvio, sobra lhe dizer que esperamos que saiba se comportar em seu tempo livre. O qual se traduz em nada de drogas, álcool ou saídas


noturnas. E nada de homens, dentro ou fora da casa, estou sendo claro, senhorita Blake? —Muito claro, senhor Kosta. Mas eu... —Estava tão indignada, que não encontrou as palavras adequadas para se defender. —Não me interessa sua vida privada anterior, senhorita Blake. Mas enquanto trabalhe para mim, será uma dama de companhia exemplar. Se descobrir que fez algo que ponha em dúvida meu nome ou o nome de minha família... —Já sei. Estou despedida. —Terminou a frase por ele, tentando não parecer muito cínica ao fazê-lo. Pela forma como ele apertava suas mandíbulas, contrariado, soube que não o tinha enganado. —Vejo que captou a mensagem. E espero que não o leve levianamente, senhorita Blake. Porque lhe advirto que a benevolência não é uma de minhas virtudes. À menor falha que cometa, farei que saia de minha casa tão rápido que não achará nenhuma graça, acredite. —Não estava fazendo piada. —Replicou e ele a lançou um olhar que gelaria o inferno. —Assim espero. —Advertiu o homem. —Agora direi a Kalina que lhe mostre seus aposentos, tudo bem, senhorita Blake? Sua voz estava carregada de sarcasmo. Wenna assentiu com a cabeça.


—Bem. Tenho que ir. Senhorita Blake.... Espero que sua estadia na ilha seja agradável. —Por um momento, pareceulhe ver um flash de amabilidade no modo em que a olhava da porta. Claro que em seguida desapareceu e foi substituído por aquela máscara austera e insípida que era o seu rosto.

***

—Querida menina. —A anciã a beijou na testa e tomou suas mãos as pressionando ligeiramente, em sinal de boasvindas.

Wenna

ocupou

uma

cadeira

junto

a

Nana,

desfrutando da suave brisa que acariciava seu rosto. Havia tomado um banho e trocado a roupa que utilizou durante a viagem. Como ninguém lhe tinha indicado o contrário, esqueceu a ideia de perguntar à anciã se desejava que usasse algum tipo de uniforme. Odiava os uniformes e por outro lado, intuía que Nana não era o tipo de pessoa que considerava essencial algo como a vestimenta. De fato, ela mesma usava um singelo vestido e cobria seus ombros com um xale que já tinha começado a escorregar por seus braços. Wenna o colocou melhor e a anciã a agradeceu com um olhar carinhoso. —Estava ansiosa por te conhecer. —Eu também, Nana. —Disse com sinceridade e olhou ao seu redor, extasiada pela beleza do bem cuidado jardim. Realmente, aquele taxista que a tinha conduzido até ali, não tinha mentido. A ilha era a mais formosa que tinha visto e aquele jardim, o paraíso na terra.


Nana comentou algo em seu próprio idioma e ao ver como ela arqueava as sobrancelhas sem compreender, sorriu. —Terá que me perdoar, querida. —Desculpou-se. —Às vezes, esqueço que meu mundo não é o resto do mundo. Mas me esforçarei o quanto possa e aproveitarei para praticar meu horrível inglês. Estava te dizendo que é justamente como havia te imaginado. Sim, tal e como sua tia Alice explicou em sua carta. Wenna esperava que tia Alice não tivesse revelado todos os detalhes sobre sua vida. Particularmente, havia algo que preferia guardar para si o resto de sua vida e não voltar a falar disso com ninguém. —E como me imaginava, Nana? —Perguntou, feliz porque a anciã a tratava mais como a alguém da família que como a uma empregada. Sentiu que já a adorava e adorava a ilha só por isso. —Assim. —Emoldurou seu rosto com as mãos para observá-la fixamente. —Preciosa, doce, singela e cheia de vida. A resposta a todas as minhas orações. Acabaram-se essas mulheres amarguradas vestidas de preto, dizendo-me o tempo todo o que tenho que fazer.... Por fim, o senhor escutou minhas preces e me enviou um anjo que alegrará meus dias. —Não

sou

um

anjo,

Nana.

—Interrompeu-a

com

ternura. —E embora não me vista de preto, terei que vigiá-la igualmente. Seu neto foi muito claro a esse respeito.


—Milos? —Nana sorriu. —Adivinho que já esteve lhe assustando com suas bobagens, não é assim, menina? —Bem... —Não queria se meter em problemas logo no primeiro dia. Mas tampouco podia mentir a alguém que a olhasse com tanto carinho. —Ele somente se preocupa com o seu bem-estar. —Meu bem-estar! —Soltou uma gargalhada que aliviou a preocupação da moça. —Esse meu neto me manteria o dia inteiro metida na cama se lhe deixasse.... Quero-lhe com a alma, menina. Mas às vezes, quando o olho, sinto falta do meu pequeno e travesso neto, que brincava entre minhas saias e me fazia rir com suas tolices. Sabe uma coisa? Às vezes, ao olhar, acredito que não conheço o homem de expressão séria e ameaçadora em que se converteu... —Não fique triste, Nana. O senhor Kosta parece amá-la muito. —Eu sei, querida. Embora devesse sorrir um pouco mais para mim. —Reconheceu. —Isso aliviaria todas as minhas enfermidades. Claro que agora tenho você. Vamos ser grandes amigas, verá. —OH, Nana... —Wenna não pôde evitar que lhe escapassem algumas lágrimas. —Estou tão feliz por estar aqui.... Obrigado por me escolher. —Obrigada a você, Wenna.... É assim te chamam, não? Sua tia Alice dizia em sua carta. —Sim.


—É um nome muito bonito. Assim como você. — Estreitou-a contra seu peito. —Minha querida. A ilha será seu lar a partir de hoje. Acredita que poderá ficar para sempre junto a esta velha, não se aborrecerá e irá querer partir, quando eu estiver mais apegada a ti? —Prometo. Não irei... A menos que você o deseje. Nana a afastou para voltar a olhá-la com seus olhos de mulher sábia. Parecia ler em seu interior ao fazê-lo. —Isso nunca acontecerá. E agora.... Teria a amabilidade de ler um pouco para mim? Minha vista já não é o que era e tenho está interessante novela romântica... Wenna disse que sim, entusiasmada ante a ideia de que nascia entre elas uma grande amizade. Algo que esperava preencher o vazio de sua vida, apesar de todos os Milos Kosta do mundo.

***

Durante o mês seguinte e para sua estranheza, o senhor Kosta não deu sinais de vida. Embora houvesse dito que almoçaria junto a sua avó os dias, precisou fazer uma importante viagem de negócios. O certo é que Wenna se alegrou contra sua vontade. Não tinha confessado a Nana, mas a presença de Milos a deixava nervosa. Ele não era como as demais pessoas daquela casa. Era antipático, brusco e grosseiro. E tinha mostrado um evidente desprezo por ela,


por ser de classe inferior. Entretanto, não lhe importou que fosse assim. O pessoal que trabalhava para ele compensava com sua amabilidade a prepotência do dono da casa. Kalina, a governanta, era uma mulher de meia idade que servia à família Kosta por volta de duas décadas. Para Nana, Kalina era mais que uma empregada. Era sua amiga, uma espécie de irmã mais nova. Alguém que de vez em quando passava por cima de sua dieta e lhe dava de presente um cardápio especial com molhos, doces e tudo que Nana desejasse nesse dia. Era seu segredo e Wenna tinha prometido que não diria nada se fosse algo apenas esporádico. Niko, o jardineiro, devia ter uns quarenta anos. Era robusto e tinha perdido quase todo o cabelo, ficando somente umas mechas grisalhas nas têmporas. Sempre sorria ao vê-la passar e lhe dava de presente algumas flores das que cortava do jardim. Nana desfrutava vendo como ela enchia os vasos de toda a casa e aspirava satisfeita seu aroma enquanto tomavam uma limonada. A mulher do Niko era a cozinheira e ela sim seguia estritamente as ordens do senhor Kosta quanto à dieta de Nana. A anciã lhe tinha contado que em uma ocasião, tinhalhe desobedecido e preparado para Nana uma deliciosa mouse de chocolate, tão açucarada que o médico teve que vir no dia seguinte para controlar sua glicose. Milos Kosta ficou furioso e se não fosse pela intervenção de Nana, a pobre senhora teria sido despedida imediatamente. Assim a partir de então, a boa mulher evitava improvisar. Precisamente, Nana se tinha queixado essa noite e tinha tido um breve ataque de raiva porque dizia que estava farta de que a


tratassem como a uma anciã. Claro, assim que Wenna tinha subido a seu quarto para lhe dar boa noite, tinha se acalmado. —Perdoa-me, querida menina? —Olhava-a com olhos sonolentos e Wenna apertou com ternura sua mão sobre os lençóis. Nana deu um longo suspiro. —Sei que às vezes sou uma velha resmungona insuportável. Mas prometo que serei obediente, se não me repreender pelo de antes. —Sem repreensões, Nana. —Wenna a beijou na testa e lhe colocou o travesseiro sob a cabeça. —Como poderia? É a melhor pessoa que conheço. —Aí, querida.... É tão estranha... —A mulher sorriu sonolenta. —Sempre consegue me arrancar um sorriso. Lembra tanto a mim mesma... —Durma, Nana. Doces sonhos. Wenna fechou a porta atrás de si. Bocejou contra sua vontade. A verdade é que era cedo para ir para cama. Desceu ao salão e comprovou que todas as luzes da casa já estavam apagadas. Todos tinham se deitado. Dirigiu-se à biblioteca, disposta a ler um pouco até que o sono a vencesse. Estava acostumada a fazê-lo frequentemente desde que Nana lhe apresentou a maravilhosa biblioteca propriedade da família Kosta. Wenna tinha encontrado um lugar onde podia estar só consigo mesma, com a única companhia de uma boa leitura e seus próprios pensamentos. Como era costume, deixou as luzes apagadas e acendeu unicamente o abajur na mesa junto à elegante poltrona. Percorreu com o olhar a imensa


estante e seus olhos brilharam na escuridão ao localizar o que estava procurando. "Romeu e Julieta", um clássico que adorava e que tinha decidido ler pela quarta vez. Estendeu sua mão até o livro, mas retrocedeu assustada ao ver que outra mão interceptava a sua no ar. Piscou repetidamente, tratando de distinguir na penumbra o rosto do intruso. —Uma grande escolha.

***

O som daquela voz acabou com suas dúvidas. Era inconfundível. Milos Kosta havia retornado. Wenna apertou o livro contra seu peito, como se fosse um escudo contra um inimigo. Possivelmente contra ele, que ao inclinar um pouco a cabeça, recebeu em pleno rosto o feixe de luz que provinha do abajur. Wenna esquadrinhou em silêncio sua expressão. Não parecia estar de mau humor, o que lhe pareceu um bom sinal. Entretanto, desconfiou de sua repentina amabilidade. Milos Kosta era tudo menos amável. Viu-o acender um cigarro e aspirar a fumaça lentamente. Olhava-a fixamente e Wenna se afastou dele, incômoda. —Não o estava roubando. —Esclareceu, certa de que se não o fizesse, ele era bem capaz de acusá-la disso. —Nana disse que eu podia pegar o que quisesse se devolvesse logo ao mesmo lugar. Levarei esse ao meu quarto...


—Por quê? —Perguntou ele sem mover-se de seu lugar e sem deixar de olhá-la. —Pode ler aqui, senhorita Blake. Acaso não faz isso todas as noites? —Como sabe? —Tenho meus espiões. Já lhe adverti que a vigiaria. —O tom dele era zombador. —Então, seus espiões devem ter lhe informado que segui

ao

da

letra

suas

instruções.

—Respondeu,

controlando a raiva em seu interior. Embora a mesma raiva a impulsionou a acrescentar. —Assim como vê, não lhe dei motivos para me despedir, senhor Kosta. —É sarcasmo isso que noto em sua voz, senhorita Blake? —Arqueou as sobrancelhas. Parecia se divertir com a forma como ela se defendia de suas brincadeiras. Escutou como estalava a língua um par de vezes. —Precisamente hoje, que estou sendo amável contigo. Não acredito que o mereça. Wenna passou junto a ele sem responder. —Não

diz

nada?

—Milos

interceptou

seu

passo,

colocando-se ante a porta para evitar que ela fugisse. —Boa noite, senhor Kosta. —Murmurou, ela. Não pôde ver como a expressão do homem se suavizava. —Parte? Não quer conversar um momento? —Não sei de que poderíamos falar. —Replicou Wenna, consciente de que aquela proximidade a incomodava sem que pudesse explicar os motivos.


Ele apontou a poltrona e ocupou outra que estava junto a ela. Wenna obedeceu, perguntando-se o que estaria tramando a perversa mente daquele homem misterioso. Alguma vez sorria? A ideia a assaltou enquanto observava com dissimulação a expressão séria do seu rosto. —Me conte algo sobre você. —Convidou-a e seu tom era enganosamente cordial ao falar. —Aborreceria lhe. —Então, me aborreça um pouco, senhorita Blake. — Insistiu, desta vez havia um matiz imperioso que ela foi incapaz de ignorar. —O que quer saber? —Me diga, porque uma garota jovem e bonita como você, decidiu escolher um trabalho tão insípido como este? Não acredito que tenha encontrado muita diversão nesta casa. —Passo-o bem com a Nana, Senhor Kosta. —Objetou com sinceridade. —E além disso, Kalina e os outros, são boas pessoas. —E? —E não é diversão o que procurava ao vir aqui. — Acrescentou. —Ah, não? —Ele provocou novamente. —O que era então, senhorita Blake? Talvez estivesse fugindo de seus fantasmas? Acredita que a ilha é um lugar paradisíaco onde encontrará seu príncipe encantado?


—Não disse isso. —Wenna mordeu os lábios. Não tinha intenção de lhe explicar os motivos que a tinham levado até ali. Não eram de sua conta. —E não acredito em contos de fadas. —Mas lê Shakespeare. —Observou ele com cinismo. — No fundo, é uma romântica, não é assim? —Talvez. —Reconheceu irritada e levantou o queixo em atitude desafiante. —É um motivo de demissão? —Por que está na defensiva comigo, senhorita Blake? Dou-lhe medo? —Claro que não. —Ainda não. O que lhe contou minha avó? Deve ter dito que sou um mau neto e que a faço sofrer porque me preocupo em excesso com sua saúde? —Não. Me disse que você era um menino encantador. E que lhe entristece ver que se converteu em... —Deteve-se, compreendendo que estava indo muito longe em seus comentários. —No que, senhorita Blake? Em um homem sem escrúpulos, insociável, pouco carinhoso e insensível? —Ele terminou a frase por ela. Escutou sua risada seca na escuridão. —É assim como você me vê? —Não sou ninguém para opinar. —Faça-o, por favor. Sei que o está desejando. —Nesse caso. —Wenna clareou um pouco a voz antes de continuar. —Lhe direi que me parece imperdoável que você


passe tão pouco tempo com sua avó. Por mais importante que sejam seus negócios, Nana deveria sê-lo mais. Você é sua única família. E ela te necessita. —Te disseram isso? Que sou sua única família? —Milos franziu o cenho. Uma vez mais, Wenna compreendeu que era melhor não manter nenhum tipo de conversação com alguém como ele. Intuía que tudo o que fizesse ou dissesse, iria enfurece-lo de qualquer jeito. —Senhorita Blake... Ia dizer algo, mas sua expressão se tornou zombadora novamente ao se dirigir a ela mudando de tema. —Disse que Kalina e o resto de meus empregados eram boas

pessoas.

—Comentou

enquanto

abandonava

seu

assento para ficar de pé a escassos centímetros dela. —O que acha de mim? Não lhe pareço também uma boa pessoa? —Não lhe conheço o suficiente. —Respondeu precavida. A estava desafiando a que expressasse abertamente sua opinião. Mas Wenna sabia que se o fizesse, Milos Kosta não demoraria em pôr suas malas na porta. —Uma resposta inteligente. O que diria se propusesse um trato em troca de que mais adiante me esclarecesse sua opinião sobre mim? Wenna não soube o que responder. Pensou-o uns segundos. —Um trato.... Que classe de trato? —Fechei um negócio muito satisfatório em Nova Iorque. Disponho de algumas semanas livres e depois terei que partir


novamente. —Informou, como se esperasse que ela desse saltos de alegria ante a inestimável concessão que os fazia com sua presença. —Proponho-lhe uma coisa. Ficarei esse tempo em casa e lhe demonstrarei que posso ser gentil quando me proponho. Demonstrarei que sou o neto que toda avó sonha. Mas você.... Terá que ser menos hostil comigo. E depois, engolirá suas palavras de reprovação de antes. E é obvio, apagará esse olhar de censura de seus olhos. Wenna permanecia muda pelo assombro. —O que acha, aceita? —Isso não é um trato, senhor Kosta. —Respondeu, enfim, saindo de seu estupor. —Sou sua empregada. Não tem que me pedir permissão para permanecer em sua casa. —E não o estou pedindo. —Os olhos dele brilhavam com intensidade e Wenna não estava certa se era somente por ela contradizê-lo perigosamente. —Mas pelo que sei, minha avó se apegou a você. Não te parece que poderíamos tentar ser amigos, apesar da opinião que tenhamos um do outro? Wenna não sabia que opinião podia ter ele de alguém como ela. Não a conhecia, não sabia nada sobre ela. Não podia sequer imaginar a imensa dor que atravessava seu coração cada noite quando ficava a sós em seu quarto. —Senhorita Blake? Ainda não me respondeu. —Farei tudo o que faça Nana feliz. —E esclareceu imediatamente. —Tudo o que se refira a meu trabalho, quero dizer.


—Isso soa

como

advertência, senhorita Blake.

Escutou-o rir secamente. —Que outra coisa acredita que poderia me interessar em você? Wenna suportou que a estudasse atentamente na escuridão da sala. Milos Kosta não teve nenhuma pressa em fazê-lo. Primeiro, seu olhar percorreu o rosto desprovido completamente de maquiagem. Os olhos curiosos cor avelã, o nariz

pequeno

e

arrebitado,

os

lábios

carnudos

e

entreabertos, bem-dispostos para protestar em qualquer momento. Sorriu para si mesmo, se perguntando que tipo de jovem mulher frágil e ao mesmo tempo cheia de força era Rowenna Blake. Depois, seu olhar baixou até seu peito, que se elevava agitadamente por baixo daquela camisola que tinha sido desenhado para apagar o menor arrebatamento de paixão em um homem. A peça a cobria dos pés à cabeça. Como uma armadura de proteção impenetrável contra os tipos que possivelmente como ele nesse instante, viam-na como uma presa fácil de seduzir. Seria? Era a senhorita Blake desse tipo de mulheres que sonhavam romanticamente à luz da lua e se entregavam ao primeiro que lhe sussurrava palavras enganosamente doces ao ouvido? Lhe assaltou a extraordinária ideia de provar sua teoria. O que faria a educada Rowenna, como reagiria se ele decidisse lhe dar uma lição e lhe fizesse esquecer a má imagem que tinha dele e a convertesse em uma imagem ainda pior? Seu olhar retornou ao lugar inicial. Os olhos dela se cravavam nele, o queixo erguido com altivez esperando que dissesse algo. Entretanto, não foi capaz de lançar nenhum comentário desagradável ou


se comportar do modo que teria feito com qualquer outra mulher

naquelas

simplesmente,

circunstâncias.

lhe

dirigir

um

Por

que

não

podia

par

de

observações

desagradáveis e humilhantes sobre seu aspecto? Sabia a resposta. Simplesmente, Rowenna não era qualquer mulher. Havia algo nela que lhe desconcertava. Possivelmente era aquele ar de inocência ao que não estava acostumado. As mulheres com as quais saia, eram escolhidas com muito cuidado. Belas, pouco inteligentes e que facilmente se contentavam com pérolas e não voltava a vê-las jamais. Muito discretas. Mas não inocentes. Absolutamente inocentes. Aproximou-se mais dela, sabendo que isso a faria vulnerável. Deu uma larga baforada em seu cigarro e expulsou a fumaça diretamente sobre o rosto dela, provocando que a jovem tossisse ruidosamente. —E então? —Insistiu, sem desculpar-se por sua falta de delicadeza. —Não

imaginei

nem

por

um

momento

que

lhe

interessasse nada de minha pessoa que não tivesse a ver com meu emprego. —Respondeu Wenna com orgulho. —Nunca fui pretensiosa, senhor Kosta. —Não me diga. —Lançou uma sonora gargalhada que retumbou nos ouvidos da jovem. —Deve reconhecer que não é apropriado que você ande por minha casa vestida com essa camisola, não lhe parece? Wenna instintivamente cobriu o peito com o exemplar do Romeu e Julieta.


—Não foi minha intenção... —Tenho certeza que não foi. —Interrompeu-a com secura.

—Embora

possa

estar tranquila.

senhorita Blake. Não estou interessado.

Tinha

razão,


Deixou-a ali plantada, o coração palpitando e os nervos à flor de pele. Wenna não esperou um segundo, temendo que se o fizesse, Milos Kosta retornaria disposto a seguir divertindo-se a suas custas. Enquanto se acomodava entre os lençóis, não podia concentrar-se na leitura que tinha escolhido. Suas emoções eram confusas. Por que lhe tinha incomodado que ele tenha sido tão sincero a respeito de suas intenções com ela? Devia sentir-se feliz que ele não a visse além de suas funções como dama de companhia. Realmente, devia agradecer por ser invisível para ele. Um homem como Milos Kosta só era sinônimo de problemas. E ela não precisava deles. Muito menos nesses momentos tão difíceis, quando a lembrança de Jason estava ainda tão recente.... Soluçou em silêncio, sentindo-se aliviada ao derramar as primeiras lágrimas. Odiava chorar. Odiava ser tão débil. Mas na solidão, ninguém podia lhe reprovar que fosse. Ninguém a escutava. E tia Alice não sofria vendo como o mundo


desmoronava a seu redor. Sobressaltou-se ao escutar o golpe seco de punhos em sua porta. Quem podia ser? Aproximouse cuidadosamente. ― Senhorita Blake, está bem? Wenna entreabriu a porta, surpreendida. Esfregou os olhos com o dorso da mão e sorriu, rezando que ele não tivesse escutado seus soluços. ― Estava chorando? ― A expressão dele era tão estranha que Wenna foi incapaz de articular uma palavra para responder. ― Não negue. Ouvi ao passar por sua porta. É por algo que disse? ― Não é nada, de verdade.... É somente que... ― Assinalou com um gesto o livro aberto sobre a cama e sorriu. ― Shakespeare sempre me emociona. Ele franziu o cenho e deu uma olhada em seu relógio de pulso. ― Mente muito mal, senhorita Blake. Mas não discutirei com você. ― Desta vez, dedicou-lhe um sorriso que parecia franco. ― Será melhor que se deite logo. É muito tarde. ― Boa noite, senhor Kosta. ― Fechou a porta com suavidade. Ouviu que também lhe dava boa noite e depois escutou seus passos afastando-se no corredor. Disse que tinha que ser mais cuidadosa no futuro. Se alguma vez eles descobrissem o verdadeiro motivo para ter escolhido aquele emprego, teria que responder a muitas perguntas que não desejava responder. E o que é pior, sentiriam pena e compaixão por ela. Isso seria muito mais duro de suportar.


"Não voltarei a fazê-lo. Não voltarei a chorar. Nunca mais", prometeu-se e desobedecendo aos conselhos do senhor Kosta, retomou a leitura. ― Como que não tem o que vestir? ― Nina negou repetidamente

com

a

cabeça,

sacudindo

sua

mão

afetuosamente. ― Temos que resolver isso, criatura. Isto é uma ilha e temos uma praia maravilhosa. Acredita que vou permitir que vá a praia cada manhã só para me acompanhar? Decididamente, não. Rotundamente, não.... Direi ao Jericó que nos leve ao centro e faremos algumas compras. E, primeiro, será escolher um bonito traje de banho para minha preciosa Rowena. ― Nina, não acredito... ― Silêncio, menina. ― Nina sorriu, emocionada ante a ideia de sair às compras. ― Sou muito mais velha e mais esperta que você. E estou doente. Deve me contentar em tudo que te peça, não concorda? E, além disso, toda essa roupa que tem é horrível. Uma moça de sua idade não deve andar vestida com esses trapos. Necessita de uma mudança. Nada de roupa cinza e escura. Cores, isso é o que precisa. Alguns vestidos que ressaltem sua figura. E uns.... Como se chamam essas calças que usam as garotas hoje, esses informais? Ah, já sei. Uns jeans. Não, melhor, um par. E algumas camisetas de algodão e.... ― Mas eu... ― Ia dizer lhe que não queria nada disso. Encontrava-se bem sendo como era, passando invisível para o resto do mundo.


― Sem, mas! Agora mesmo chamaremos o Jericó. E foi completamente impossível fazê-la mudar de ideia. Pela tarde, as duas estavam esgotadas depois de percorrer todas as lojas da ilha. Wenna tinha insistido em que parecia um esbanjamento inútil de dinheiro, já que não haveria oportunidade em que precisasse usar toda aquela roupa. Mas Nina não a escutava. Tinha sido cortante a respeito. "Menina, sempre há uma boa ocasião para estar bonita." Quando Wenna tinha visto as faturas, apressou-se a oferecer que lhe descontassem de seu salário aquela quantidade escandalosa de dinheiro, sabendo que teria que trabalhar para a família Kosta uma eternidade para pagá-lo. Entretanto, Nina lhe havia dito que esquecesse a ideia. Havia dito que não ia tolerar que sua dama de companhia se vestisse como uma anciã amargurada. E que dado que esse era seu desejo, podia tomar a renovação de vestuário como seu novo uniforme. O certo é que quando Wenna se trocou para o jantar e desceu a sala de jantar, todos a olharam com assombro. Tinha escolhido uma singela camiseta azul e jeans justos. Os dedos dos pés apareciam com graça de suas novas sandálias, fazendo complemento com o resto da indumentária. Informal, isso é o que Nina havia dito. Saudou com acanhamento antes de ocupar seu assento, sem que passasse despercebido o modo em que Milos Kosta a observava do outro lado da mesa. ― Querida menina... ― Nina aplaudiu como uma menina, feliz pelo resultado de seu experimento. ― Por fim parece o anjo que é. Não está linda, Milos?


Ele não respondeu. Fez um ligeiro movimento de cabeça como resposta e engoliu de um bocado um bom pedaço de carne. ― Não faça conta. ― Sussurrou Nina sem deixar de sorrir.

― Meu neto é muito hábil quando quer se fazer de

cego. ― Pode ser que seja cego, Nina. ― A voz dele as sobressaltou. ― Mas não sou surdo. Será que poderá lembrar-se na próxima vez que me criticar? ― Não te criticava, Milos. ― A anciã deslizou a mão sobre a toalha para tomar a dele. Milos a beijou carinhosamente. Apesar de sua eterna expressão mal-humorada, amava-a. Era algo evidente inclusive para uma desconhecida como Rowena. ― Só dizia a Wenna que não deve sentir-se ofendida. ― Ofendida? Porque não lhe dedico alguns elogios estúpidos? ― Desviou o olhar para a jovem. ― Estou certo de que a senhorita Blake é suficientemente inteligente para compreender que está preciosa. Embora eu não diga. Não é assim, senhorita Blake? ― É obvio. ― Wenna piscou. Compreendeu que, indiretamente, ele já o havia dito. Não só com palavras. O havia dito com a expressão de seu rosto ao vê-la irromper na sala. Wenna tinha notado que a observava com surpresa, mas também com certa admiração. Soube que era tudo que podia esperar de alguém como ele. ― Aí, Milos.... Por que tem que ser tão antipático? Se continuar assim, não irá encontrar uma esposa, sabia?


Nenhuma mulher quer como marido um homem grosseiro que nunca sorri nem faz elogios. ― Advertiu-lhe de bom humor, embora no fundo, Wenna intuiu que a anciã temia que seus augúrios se cumprissem. ― Acaso não sente compaixão por sua pobre avó doente? Não quer alegrar meus últimos dias, enchendo esta casa com meia dúzia de pequenos diabinhos com sua cara? ― Já falamos sobre isso, Nina. ― Atalhou ele com sua habitual brutalidade. ― Nada disso. Não pediu minha opinião, Milos. ― Porque não tem nada que opinar. ― Deixou seu guardanapo sobre a toalha e por um momento, Wenna acreditou que ia explodir e dirigir sua raiva contra a anciã. Em lugar disso, viu-lhe respirar fundo e suavizar a expressão. ― Nina, te amo. Já sabe o quanto. Mas isso não te dá o direito de enfiar o nariz em minha vida sentimental. ― Que vida sentimental, querido neto? ― Nina sorriu novamente. ― Filho.... Sair de vez em quando com alguma de suas amigas, não é ter "vida sentimental". Não acredito que uma velha como eu tenha que te dizer isto, Milos. Mas sua vida sentimental brilha por sua ausência. Quão mesmo sua amabilidade. ― Nina. ― Os olhos dele brilhavam com intensidade. Sem dúvida, custava-lhe enormemente não responder a sua avó tal e como seu mau gênio lhe impulsionava a fazê-lo. ― Não siga por esse caminho ou teremos problemas.


O

que

fará,

querido

Milos?

Me

castigar

sem

sobremesa? ― Voltou-se para Wenna. ― Olhe bem. É o homem mais atraente da ilha. E o mais rico. Mas não conseguirá entrar no coração de uma boa mulher. E sabe porque, anjo? Porque uma boa mulher espera que um bom homem a faça feliz. E este tolo, meu neto não conhece o significado dessa palavra. Wenna não disse nada. Suspeitou que se abrisse a boca sequer para pedir que lhe passasse a manteiga, Milos Kosta pularia sobre ela. Para sua surpresa, o homem pareceu adivinhar o que estava pensando. E com um rápido gesto, pôs a manteiga ao seu dispor. ― Obrigado. ― Murmurou. ― Não há de que. Nina, por que não deixamos de falar de mim e de meu incerto futuro amoroso por um momento? Creio que a senhorita Blake tem muitas coisas interessantes que nos contar de sua vida na cidade. Wenna tragou saliva com dificuldade. Isso sim tinha sido um golpe baixo. Livrava-se de Nina e em troca, farejava em sua intimidade. "Obrigado, senhor Kosta", esteve a ponto de lhe dizer. ― Por exemplo, senhorita Blake, a que se dedicava antes? ― Eu.... Trabalhava na loja de tia Alice. Em uma floricultura. ― Explicou sem muito entusiasmo. ― Na verdade, minha irmã Kate e eu levávamos o negócio. Tia Alice nos criou desde que nossos pais morreram e ao tornamo-nos


maiores, compreendemos que necessitava de ajuda na floricultura. ― Compreenderam-no? Que comovente! ― O tom de Milos era sarcástico. ― Disse que tinha uma irmã... ― Kate. ― Wenna lhe fulminou com o olhar. Não era tão boba para não se dar conta do que ele tinha tentado insinuar com

seu

comentário.

Pensava

que

eram

um

par

de

aproveitadoras que esperavam herdar a fortuna de sua tia. Isso era porque não a conhecia, nem conhecia a tia Alice. E é obvio, não conhecia os detalhes econômicos que rodeavam aquele acordo entre elas. Não podia saber que o negócio de tia Alice tinha estado a ponto de fechar até que ela e Kate tinham decidido investir todas suas economias na floricultura e tirá-la a ruína custe o que custasse. O deviam à mulher que tinha sido virtualmente sua mãe todos aqueles anos. ― Essa sua irmã... Continua trabalhando para sua tia? ― Sim. Junto com seu marido. ― Wenna tentou fazer que sua voz não parecesse muito afetada ao falar. ― E você? Por que se foi? ― A pergunta era direta. Milos Kosta era muito perspicaz quando se propunha. E isso estava claro. Observava-a fixamente, esperando sua resposta. ― Precisava trocar de ares. ― Mentiu. Lembrava tanto do aroma dos jasmins ao entrar na loja, que temeu que ele adivinhasse a nostalgia em seu olhar. ― Seu trabalho a aborrecia?


― Não disse isso. ― Replicou. Por que tinha que deturpar tudo para que ela parecesse alguém materialista e sem coração? Ela não era assim. Como era possível que pensasse assim? ― Então, considerou que já tinha saldado a dívida que tinha com sua tia. ― Claro que não... ― Mas, o que acontecia com aquele homem? ― Eu não teria dinheiro no mundo para pagar o carinho de tia Alice. ― Mas teve muita pressa em aceitar este emprego. ― Porque eu... ― Olhou desesperada à anciã que escutava tudo sem intervir. ― Isso não é nosso assunto, Milos. ― Disse Nina ao fim e Wenna agradeceu em silêncio. ― Somente deve nos importar que seja lá o que pôs este anjo em nosso caminho, foi uma sorte. ― Sim, uma grande sorte. ― Murmurou ele para si mesmo sem deixar de observá-la com o cenho franzido e aqueles olhos penetrantes que pareciam querer adivinhar todos seus segredos. ― Esta manhã estou um pouco cansada, menina. ― Anunciou Nina de repente e se voltou para seu neto com um sorriso resplandecente. Wenna suspeitou que tramava algo e desejou desesperadamente que não se tratasse do que estava pensando.


― Quer que chame o Doutor? ― Pergunta soando ansiosa, mas a anciã negou com um gesto. ― Está certa, Nina? ― Só estou cansada. ― Repetiu e tomou a mão do homem para pressioná-la com doçura. ― Mas me causa pena que está criatura perca um dia tão maravilhoso por minha culpa. Querido, por que não mostra a Wenna a maravilhosa vida na ilha? E não invente desculpas, Milos. Sei muito bem que não tem nada melhor que fazer. ― Nina, não.... Prefiro ficar com você, de verdade. ― Estava sendo tão sincera que temeu que ele desse conta do quanto lhe desagradava a ideia. ― Além disso, estou segura de que o senhor Kosta... ― O senhor Kosta estará encantado de ser seu guia, senhorita Blake. ― As palavras dele a deixaram estupefata. Havia dito que...? Wenna tragou com dificuldade. ― Agradeço senhor Kosta, mas é que eu... ― Será uma honra, senhorita Blake. Espero-a no salão dentro de quinze minutos. ― Milos se levantou com um movimento felino, dando por resolvida a conversação. Wenna olhou com angustia à idosa. Nina parecia feliz ante a ideia de que seu insociável neto se mostrasse mais amável ao fim. Wenna se sentiu incapaz de desiludi-la. ― Oh, Nina, porque fez isso? Não quero ser uma carga para ninguém. ― Murmurou, embora suas negativas se debilitavam à medida que a anciã piscava de maneira deliciosa para enrolá-la.


― E não o é, querida. ― Apoiou sua mão sobre a mesa. ― Os dois são jovens. Precisam divertir-se. E por outro lado, será bom ao Milos um pouco de companhia humana para variar. Ao ver como ela arqueava as sobrancelhas, Nina voltou a sorrir. ― Querida. ― Esclareceu. ― Meu neto passa muito tempo entre pessoas às que não lhes importa nada que não seja aumentar suas fortunas. Quando lhe ouço falar de seus "tubarões" e "peixes gordos" e essas "harpias" com as que se relaciona... Filha, eu não sei muito do reino animal, mas tenho tanto medo de que ele mesmo se converta algum dia em um deles... Sem emoções, sem coração... Não acredito que o possa entender, mas ele... Ah, meu pequeno anjo... Milos esqueceu como tratar aos seres humanos de verdade. Wenna viu a si mesma como o cordeiro que levam ao matadouro.

Pior

ainda,

o

cordeiro

que

lobo

espreita,

esperando o momento oportuno para atacar. Pelas palavras de Nina, Milos Kosta bem podia ser aquele lobo vigilante. De fato, ele já a tinha advertido no primeiro dia. Embora possivelmente, o orgulhoso senhor Kosta não podia imaginar então, que Nina lhe obrigaria ser babá para ela. ― Não tenha medo, criatura. ― Animou-a Nina. ― Não é tão feroz o leão como o pintam. Wenna emitiu um riso forçado, rogando em seu interior que a boa mulher deixasse de fazer comparações que somente conseguiam aterrorizá-la mais. A última coisa que


queria era tê-lo como inimigo. E estava segura de que se Nina insistia em estragar suas férias daquela maneira, Milos Kosta inventaria um modo de desfazer-se dela. Ainda assim, beijou à anciã na bochecha, em sinal de agradecimento. ― Divirta-se, anjo. É uma ordem. ― Nina a beijou e Wenna teve a sensação de que também lhe agradecia algo com aquele beijo. ― Por que está tão séria senhorita Blake? ― A voz dele interrompeu seus pensamentos. Estava olhando como dois pequenos empurravam com esforço uma cesta repleta de peixes recém pescados. Deviam ter uns oito ou nove anos e apesar do esforço, sorriam. Wenna adivinhou pela enorme semelhança entre ambos, que eram irmãos. O menino era apenas uns centímetros mais baixo que a menina, mas era enternecedor ver como tratava de carregar a maior parte do peso para aliviar sua irmã. Sem querer, a cena havia lhe trazia lembranças que agora a entristeciam. Sobre ela. E sobre Kate. Sobre o muito que se amavam. Muitas vezes, ela tinha puxado o carrinho de mão as plantas de tia Alice do mesmo modo em que aquele pequeno o fazia nesse instante. Kate não tinha nascido para realizar trabalhos tão duros e Wenna estava acostumada a fazer sua parte para evitar que os ossos de tia Alice carregassem mais peso de que podiam suportar. Não era uma recriminação, isso nunca. Kate tinha outras muitas virtudes pelas quais a adorava. Tinha aquele toque de delicadeza, aquela forma de falar que envolvia tudo e que fazia que todos voltassem a cabeça ao vê-la passar. Sim, Kate era preciosa, sempre foi. Ainda o era.


― Senhorita Blake? ― Insistiu ele e Wenna afastou o olhar escurecido dos meninos. ― Está bem? ― Sim. ― Mentiu e assinalou aos irmãos, que quase tinham alcançado o veículo de seu pai e levantavam com a fronte molhada de suor a pesada cesta. ― Estava pensando... São tão pequenos.... Não é justo que tenham que trabalhar tão duro. Deveriam estar brincando com outros meninos de sua idade, não acha? Escutou sua risada seca. Milos Kosta jamais ria como o resto dos mortais. Inclusive era tão pouco natural, ele deixava bem claro que considerava aquela expressão como um sinal de debilidade. ― Para eles também é uma brincadeira, senhorita Blake. E por outro lado, têm que ganhar a vida. ― Explicou, tomando seu braço para levá-la até o posto improvisado que o pai dos moços tinha montado ao redor de sua caminhonete. No momento, alguns turistas que rondavam se aproximaram até ela guiados pelo aroma de pescado fresco. Milos saudou o homem, estreitando sua mão sem lhe importar que a sua ficasse impregnada com aquele forte aroma. Wenna lhes viu falar em seu idioma. Supôs que negociava o preço. O homem assinalou um par de peças e Milos assentiu agradado, tirando sua carteira e lhe entregando o combinado. Depois, viu-lhe depositar umas moedas nas palmas abertas dos meninos. Os dois perguntaram algo a seu pai. Este lhes deu um tapinha no traseiro e os deixou ir. Wenna os seguiu com o olhar e sorriu quando se detiveram em uma barraca de


caramelos e encheram seus bolsos com orgulho para logo unir-se ao grupo de meninos que brincavam de correr por ali. ― Vê? Não sofra mais, senhorita Blake. Olhe como felizes estão felizes. ― Milos a arrastou para outra banca onde uma bela mulher exibia sua coleção de lenços para o cabelo. Wenna estava tentando lhe explicar que não desejava provar nenhum, mas ele a obrigou a agradar à mulher. Colocou-o sobre sua cabeça e o atou na nuca com lentidão, observando depois o resultado com expressão indecifrável. Wenna não sabia exatamente o que ele estava vendo. Mas ao cravar os olhos nos dele, pareceu-lhe que era impossível que aquilo que via refletido nas pupilas masculinas fora ela mesma. Fechou os olhos, comovida pela visão de sua própria imagem. De fato, ele não podia sequer imaginar que a mulher de suas pupilas brilhava sozinha porque estava ali, no interior de seus olhos negros como o azeviche... Wenna abriu os olhos novamente,

confundida.

Ele

continuava

observando-a

fixamente. ― Agora sim parece uma de nós. ― Disse ele. E pela primeira vez, seu sorriso foi sincero, espontâneo. Wenna correspondeu com uma careta de satisfação. A mulher da banca falava sem parar, atraindo a atenção de todos e Milos se voltou para ela, fazendo repetidos gestos com as mãos e mostrando sua carteira. ― Será melhor pagar ou acreditará que vamos roubá-la. Wenna não respondeu. Sentia-se feliz somente pelo fato de que ele já não a considerasse uma intrusa. Era mais do que tinha esperado em um só dia. Passearam o resto da


manhã e Wenna teve que lhe pedir que não gastasse mais dinheiro em coisas para ela. Sem dúvida, Milos Kosta estava decidido que ela falasse maravilhas dele ao chegar em casa. Era evidente que queria contentar a Nina, mas Wenna não necessitava nenhuma daquelas miçangas. Parecia-lhe mais que suficiente que a tivesse presentado com o lenço. Na hora do almoço, lhe ofereceu que comessem algo típico. Wenna assinalou a bolsa de pescado que ele tinha carregado todo o caminho. ― É uma pena que se estrague. ― Comentou e como resposta, Milos fez um gesto à idosa que tecia na porta de sua casa, muito perto de onde eles passeavam. A velha mulher deixou o trabalho a um lado e aceitou de bom grau o presente que lhe faziam. Disse algo que Wenna não entendeu e ele assentiu finalmente depois de negar várias vezes. ― Diz que aceitará se deixarmos que prepare uma peça para nós. ― Informou Milos e lhe indicou que se sentasse sobre

as

rochas,

pegando

sua

mão

para

evitar

que

escorregasse. ― E que nos avisará assim que estiver preparado. ―

OH,

mas

não

podemos...

Wenna

estava

envergonhada. Por sua culpa, aquela pobre mulher tinha interrompido seu prazenteiro trabalho. É óbvio, Milos Kosta já tinha entregado à mulher uma boa quantidade de dinheiro em troca do trabalho. A anciã não parecia irritada ou zangada. Ao contrário, mostrou-se feliz ante o oferecimento. Mas isso não evitou que Wenna reconhecesse algo que odiava reconhecer: o dinheiro podia comprar tudo. Ao menos, nisso


devia acreditar o poderoso senhor da ilha. Possivelmente acreditasse, mas Wenna estava certa de que cedo ou tarde, ele compreenderia que havia coisas que não estavam à venda. Talvez, já sabia e tão somente tratava de impressioná-la com aquele

esbanjamento

inútil.

Ou

talvez,

apenas

talvez,

realmente ele desejava ajudar aquela gente que ganhava a vida como podiam. ― Ainda está triste? ― Perguntou ele, como se o silêncio de lhe provocasse o irresistível desejo de rompê-lo, apesar da quietude do lugar. O mar golpeava brandamente as rochas e Wenna se deixava envolver por aquele som mágico, enquanto os dedos de seu pé descalço brincavam com os do outro pé. ― Não estava triste. Porque estaria? ― Ia acrescentar que era impossível que alguém estivesse ao contemplar aquela bela paisagem. Nem sequer ela. ― Por aqueles pequenos. Acreditou que estavam sendo explorados, não é assim? ― Por um momento, pareceu-lhe que havia uma ligeira recriminação em seu tom de voz. Milos Kosta amava a ilha, disso não havia dúvida. Tinha-lhe ofendido ao pensar algo assim, por mais que não o houvesse dito em voz alta. ― Esse não é nosso estilo, senhorita Blake. E eu não permitiria. ― Claro. Mas você não é todo-poderoso, senhor Kosta. ― Recordou-lhe com uma sutileza que não enganou ao homem. ― Mesmo para alguém como você, há coisas que escapam de seu controle.


― Que coisas? ― Ele se divertia vendo como ela tratava de lhe fazer descer do pedestal em que ele tinha subido por méritos próprios. ― Me diga uma. ― Por exemplo... ― Wenna pensou. Não sabia com a via incrivelmente bela. Como uma sereia, doce e cândida, emitindo aqueles leves ruídos que eram suas palavras, disposta a enfiar-se em uma disputa verbal para lhe demonstrar o quanto segura estava de si mesma. Entretanto, seus dentes mordiam seus lábios com certa insegurança enquanto entreabria as pálpebras em atitude pensativa. Milos não podia afastar os olhos daquela boca e ameaçava chegar mais perto para quebrar o feitiço. Desviou o olhar para outro lado, irritado consigo mesmo pelo rumo que tomavam seus pensamentos. De repente, Wenna fez que seu pé salpicasse um pingo de água sobre os imaculados sapatos do homem. ― Por exemplo, não se pode controlar ao mar, vê? ... Milos se afastou uns centímetros, observando perplexo seus sapatos molhados. ― Vê? ― Insistiu ela, inexplicavelmente feliz por demonstrar sua teoria. ― E muitas vezes, tampouco pode controlar seu mau humor. De fato.... Agora está a ponto de zangar-se comigo. ― Equivoca-se. E quanto ao mar... ― Ele sorriu outra vez com aquela risada que devia ser nova em seu repertório de feições e da qual desconhecia a força atrativa. ― Me dê alguns dias e o terei sob controle.


Wenna riu baixinho. Então o senhor Kosta podia ser engraçado além de extremamente desagradável.... Isso sim estava sendo uma grata surpresa. ― Foi muito bonito o que fez por esses meninos. ― Comentou ela, lhe olhando diretamente nos olhos. Milos encolheu os ombros. ― Não finja que não fez uma boa ação, senhor Kosta. Não sou tão ingênua. ― Não o é? ― Ele arqueou as sobrancelhas com expressão zombeteira. ― Eu acredito que sim, senhorita Blake. E uma romântica empedernida, se me permitir a observação. ― Pode... ― Wenna se ruborizou contra sua vontade. ― Mas você foi muito generoso com eles. E o foi com essa pobre anciã. Possivelmente não seja... Recordou a frase que tinha pronunciado Nina aquela manhã. O que havia dito? "Não é tão feroz como o pintam". ― Não seja o que, senhorita Blake? ― Ele se mostrava muito interessado em que completasse a frase, mas ao ver que ela não dizia nada, fez ele mesmo. ― Um caipira miserável, egoísta, desprezível e presunçoso? O modo em que ele o disse, devolveu-a à realidade com brutalidade. Por fim, o verdadeiro senhor Kosta descobria sua autêntica personalidade. Mas tinha esquecido acrescentar de uma longa lista de adjetivos que, por sua própria segurança, Wenna preferiu omitir. ― O gato comeu sua língua, senhorita Blake? ― Inquiriu com ironia. ― Ou é muito educada para ser sincera? Pense


bem.

Ninguém

poderá

escutá-la,

prometo.

Será

nosso

segredo. ― Por que insiste em me humilhar sempre, senhor Kosta? ― Wenna não ocultou sua raiva. Ergueu-se sobre a rocha disposta a voltar para a casa a pé se fosse necessário. ― Acaso há algo em mim que lhe repele? Ele a reteve, capturando sua mão no ar e a puxando até que ambos ficaram muito perto um do outro. Naqueles instantes, sua expressão era de irritação, era mesma tinha mostrado ao vê-la pela primeira vez. Mas seus olhos... Wenna era incapaz de identificar o que revelava o intenso olhar masculino. ― Será melhor que eu volte para casa. ― Murmurou, mas ele não soltava sua mão. ― Por favor... ― E vamos perder o almoço? Wenna girou sobre os calcanhares, lhe ignorando, embora ao caminhar sobre as rochas, teve que deter-se. A senhora lhes saudava, mostrando parte do pescado que Milos lhe tinha presenteado e que a mulher tinha cozinhado para eles. Milos trocou umas palavras com ela e Wenna supôs que lhe havia dito que podia dispor de seu almoço de outra maneira.

Viu

como

um

grupo

de

pirralhos

famintos,

provavelmente todos netos da anciã, aproximavam-se dela sorridentes. Quando ele a alcançou, Wenna já estava muito furiosa para escutar uma só palavra. Agradeceu que tivesse a decência de caminhar em silêncio a seu lado durante todo o


trajeto até a casa. Já na porta, ele a chamou de uma forma que fez que Wenna se voltasse ainda mais zangada. ― Como disse? ― Espetou-lhe, certa de que sua imaginação lhe tinha pregado uma peça. ― Eu disse "anjo", não é assim como a chama minha avó? ― Ainda a ridiculariza. Será que alguma vez se cansaria? Wenna tampou os ouvidos com as mãos para não lhe escutar. Seus lábios lhe roçaram o cabelo ao falar baixinho para evitar que outros lhes ouvissem. ― O doce e estranho anjo da vovó.... Por que será que produz o efeito contrário em mim? Não confio em anjos que me tiram o controle, senhorita Blake. ― E eu não confio em gente que desfruta humilhando os outros, senhor Kosta. ― Desafiou-lhe com o olhar, enquanto se despojava do lenço que lhe tinha dado e o lançava ao rosto. ― E pode ficar com isto. Não preciso dele. ― Mas ficou perfeito. ― Ele o recolheu e aspirou o aroma que provinha do tecido, embora sua expressão era irônica ao fazê-lo. ― Por favor... ― Basta. ― Senhorita Blake... ― Sua voz se suavizou ligeiramente, mas não tanto como para ocultar a brincadeira de seus olhos. ― Contará a Nina que fui um menino mau? ― Talvez o faça. ― Ameaçou-lhe, consciente de que ele não acreditava. ― Talvez lhe convenha saber que tipo de homem tem por neto.


― Não o fará. ― Subitamente, o tom dele se endureceu. ― Lhe magoaria o coração. ― Não. Você o faria. ― Apontou-lhe com o dedo indicador e ele o afastou com teatral delicadeza. ― Mas tem razão. Nina estará melhor enquanto siga acreditando... ― O que, senhorita Blake? ― Convidou-a a continuar. ― Que tem algo no lugar dessa pedra que lhe faz de coração. ― O soltou sem disfarces, tal e como desejava fazêlo. Olhou-lhe desafiante. ― E então? Estou despedida? ― Está brincando? ― Ele acendeu um cigarro e exalou um pequeno círculo que se rompeu justo no nariz da mulher. Wenna o separou de um tapa. ― E perder o resto de minhas férias vendo como gosta de me irritar? Wenna apertou os lábios, indignada. Desapareceu tão rápido quanto pode, lhe deixando ali plantado e na boa companhia de sua própria vaidade. Kalina estava dobrando uns lençóis e Wenna se ofereceu a ajudá-la. A mulher se mostrava sempre reservada quando trabalhava, mas aquele dia parecia sentir curiosidade pelo passeio que ela e o senhor Kosta tinham compartilhado. ― Gostou da ilha, senhorita Blake? ― Muito. É... Não sei como explicar. ― Wenna sorriu, esquecendo o incidente e disposta a que nada danificasse a lembrança de quanto tinha visto. ― É maravilhoso. Acredito que se quisesse, poderia me apaixonar por este lugar.


― Já está apaixonada, querida menina.... Note-se como brilham seus olhos. ― Kalina sorria e a obrigava a girar para o espelho. ― A ilha já a apanhou, doçura. Agora nunca poderá partir. "Oxalá fora certo" pensou Wenna esperançada. "Oxalá pudesse ficar para sempre e não pensar nunca mais em..." ― O senhor Kosta foi amável com você?

Wenna não soube o que responder. Era evidente que Kalina tinha percebido seu aborrecimento ao entrar na casa. —Bom, o senhor Kosta.... É o senhor Kosta. —Concluiu, desejando não ter se delatado. —Esse menino... —Kalina agitou várias vezes a cabeça. —Não minta querida. Milos é famoso por seu mau gênio. —Por que é assim? Quero dizer que... —Já sei, menina. Insuportável, grosseiro e muitas outras coisas que prefiro não falar. —Kalina sorriu de repente. —Mas nem sempre foi assim, sabe? Houve um tempo, em que as risadas desses dois pirralhos impertinentes enchiam esta casa... Claro que isso, já faz muito. —Dois? —Wenna franziu o cenho. —Acreditava que Nana não tinha mais família. —Claro que não. —Kalina entreabriu as pálpebras, recordando com nostalgia. —O senhor Kosta e seu primo se criaram juntos com a avó Nana depois que os pais de ambos morreram naquele trágico acidente. Viajavam juntos, os pais


do Milos e os de Andreas.... Foi terrível. Da noite para o dia, os dois órfãos, sozinhos no mundo.... Se não fosse pela senhora Kosta, não sei o que teria sido desses pequenos... —O que aconteceu com o seu primo? —Inquiriu, comovida por sua história e intrigada ao mesmo tempo. —Andreas? Ele e Milos cresceram juntos. Unha e carne, compreende?

Mas com o tempo, foram se distanciando...

Andreas sempre foi... Bom, digamos que nunca foi tão formal como Milos. A pobre senhora sofreu muito quando eles tiveram aquela forte discussão.... Ah, mas não quero recordar mais coisas tristes. Ajuda-me a levar isto para cima, senhorita Blake? Wenna a seguiu, desejando saber mais alguma coisa

sobre

Milos

e

o

desconhecido

Andreas

Kosta.

Perguntou-se se seria tão insuportável como seu primo. Embora uma coisa era certa: Ele não estava ali e Milos sim. Inclusive para ela estava claro qual dos dois se preocupava com Nana. —Kalina... —Wenna ia entregando à mulher os lençóis e ela os guardava na enorme cômoda sem lhe prestar muita atenção. —Me conte porque brigaram o senhor Kosta e seu primo. —Oh, não querida... Milos me despediria se soubesse que ando fofocando contigo. —Embora pela forma como Kalina sorria, Wenna soube que terminaria por lhe revelar alguns detalhes. E ela a fez prometer que não contaria a ninguém. —Bom... Foi depois de que Milos retornou de uma


de suas viagens. Surpreendeu a todos trazendo consigo a uma bela mulher que parecia que era filha de um importante homem de negócios. Era perfeita para ele.... Elegante e distinta. Desde o primeiro momento, soubemos que havia algo especial entre eles dois, embora Milos somente a apresentou como uma convidada. O certo é que Andreas passava então mais tempo na ilha. Cansou-se de percorrer o mundo. Andreas é pintor, sabia? Wenna negou com um gesto, profundamente intrigada com a história. —Oxalá o conhece. Andreas é tão diferente do senhor Kosta... —O que aconteceu, Kalina? —Instigou-a a continuar. —Ah, sim.... Então, esses dois meninos começaram a se comportar de repente como se competissem todo o tempo. Queriam impressioná-la. Cada um a enchia com atenção, presentes e elogios assim que o outro se virava... E por fim, um deles perdeu a batalha. Wenna franziu o cenho. Que classe de pessoas eram aqueles dois homens, que consideravam a mulher como um troféu de batalha? —Andreas e ela fugiram numa manhã. Não voltamos a saber deles até que recebemos um postal da Suíça, em que comunicavam seu enlace matrimonial. —Casaram-se?


—OH, não, querida.... Depois que ela descobriu que Andreas não tinha intenção de formar um lar convencional, abandonou-lhe. Andreas queria viajar, tornar-se famoso com seus quadros.... Tudo isso a decepcionou. E retornou. — Kalina sorriu para si mesma. —Tentou convencer a Milos de que tudo tinha sido um tremendo engano e de que lhe amava. Mas então, o senhor Kosta já não queria escutá-la. E é obvio, tampouco quis aceitar as desculpas de Andreas. Após isso, não se dirigem a palavra. Fará três anos no próximo mês. —OH, é terrível... —É querida. Embora Nana e eu rezemos todas noites para que nosso Andreas volte para casa. Ele era tão especial.... Pode ser que tenha sido insensato e se deixado levar por seus impulsos. Mas isso não lhe converte em um monstro, sabe? Ao menos, não para mim.... Eu criei esses dois pirralhos, senhorita Blake. E sei muito bem de que massa foram feitos. —Possivelmente

necessitem

tempo

para

se

perdoarem. —Comentou, guiada por sua própria experiência. Sabia que em certas ocasiões, a força do sangue podia chegar a ser mais poderosa que qualquer rixa. —Talvez. —Assentiu Kalina. —Mas, quanto tempo mais acredita que aguentará a pobre senhora? Ela adora o Andreas. E sente o mesmo pelo Milos. Quanto tempo espera que seu coração suporte esta situação? Às vezes, sinto tanta pena dela...


—Não podemos fazer algo para arrumar as coisas entre eles?

—Perguntou

Wenna,

esperançada

e

desejosa

de

contribuir à felicidade de Nana. —Poderíamos falar com o senhor Kosta e lhe pedir... —Está louca? Minha doce senhorita... —Kalina lhe deu um tapinha na bochecha com afeto. —Milos mataria nós duas. De fato, mataria a mim só por haver lhe contado. E agora, esqueça essa tolice e me ajude a descer o jogo de mesa limpa. —Está bem. —Mas Wenna continuava pensando nisso enquanto a seguia. E se fosse possível? E se no fundo daquela alma que devia existir em algum lugar de sua retorcida natureza, o senhor Kosta estava disposto a fazer o que era melhor para Nana? Compreendeu que tinha que fazer algo a respeito, embora não soubesse como fazer isso.


—Posso ajudá-la em algo, senhorita Blake? —Ele não levantou o olhar de sua leitura ao se dirigir a ela. Ainda assim, Wenna estava decidida a não se deixar intimidar por seus maus modos. Rodeou a mesa de centro que adornava a biblioteca e se atreveu a ficar de pé frente a ele, segura de que podia permanecer ali durante horas e o orgulhoso senhor Kosta nem sequer repararia em sua presença. Pior para ele, porque não tinha intenção de partir até que a escutasse. —É muito tarde. Deveria estar na cama. —Preciso falar de algo contigo. —Ao ver que continuava a ignorando, acrescentou. —É importante. Milos fechou o livro com brutalidade e o lançou sobre a mesa, cruzando depois as pernas e as colocando no mesmo local com a mesma delicadeza. Acendeu um cigarro e cravou seu olhar cheio de impaciência nela. —Esse assunto tão importante, está relacionado com a minha avó? —Perguntou com voz fria e Wenna negou. —


Então, vá para a cama, senhorita Blake. Já lhe disse que não queria que me incomodasse salvo no referente à Nana. —Bom... Sim tem a ver com ela na verdade. —Confessou com um fio de voz. —Acaba de me dizer o contrário. —Apontou Milos contrariado. —Não estou segura... —Não está segura de havê-lo dito? —Ele parecia estar a ponto de expulsá-la da biblioteca sem a menor cerimônia. — Bebeu muito vinho durante o jantar, senhorita Blake? —Estou um pouco confusa.... Posso me sentar? —Por favor. —Ele apontou ao sofá contiguo. —Mas seja breve. Quero chegar ao terceiro capítulo do meu livro antes de ficar velho, querida. —Se você... —Ia dizer lhe que se não a interrompesse todo o momento, já teria explicado para o que tinha ido vê-lo. Mas

compreendeu

que

se

fizesse,

suas

escassas

possibilidades de êxito se veriam reduzidas a menos que nada. —A verdade, é que é por Nana que me atrevo a lhe pedir isto... —Me pedir o que, senhorita Blake? —Agora, ele se mostrava surpreso e possivelmente divertido pela expressão séria da mulher. —Não está contente com seu salário? —Não se trata disso. Estou muito satisfeita com o que me paga, senhor Kosta. —Replicou, irritada porque uma vez mais, para ele tudo se traduzia em dinheiro.


—Teve problemas com algum de meus empregados? —Não, não... —Pois vá direto ao ponto, Por Deus. Fará que durma entre sua primeira e última hesitação. Wenna apertou os lábios, sufocando a raiva em seu interior. —Está

bem,

vou

dizer.

—Armou-se

de

coragem,

preparando-se para a enxurrada de impropérios que estava segura que ele soltaria quando terminasse. Falou-lhe com sutileza

de

certos

rumores

que

tinha

escutado,

sem

identificar em nenhum momento à fonte daqueles rumores. Sob nenhum conceito, queria causar problemas a Kalina. Desviou sua atenção como pôde, ressaltando o fato de que notava certa tristeza em Nana quando falava de seu outro neto que não via fazia tempo. E sem saber como, propôs-lhe que pelo bem de Nana, fizesse algo a respeito. Depois de uns minutos que se fizeram intermináveis, ele voltou a pegar seu livro. Abriu-a onde a tinha fechado e continuou sua leitura como se a mulher que ocupava o sofá ao lado, fora alguém completamente invisível para não lhe perturbar com sua presença. Wenna pigarreou com acanhamento para atrair sua atenção. —Sim, senhorita Blake? —Ele levantou o olhar sem vontade. Seus olhos lançavam faíscas ao olhá-la. —Não me respondeu. —Recordou-lhe em voz baixa.


—Realmente esperava que o fizesse? —Seu tom era sarcástico. —Esperava que considerasse, senhor Kosta. Os nódulos dele empalideceram ao pressionar com força o livro. —Volte para seu quarto, querida. —Disse e Wenna percebeu o matiz imperativo de suas palavras. Ele estava ordenando. Como se atrevia? Como podia ser tão insensível quando estava em jogo a felicidade de Nana? —Mas eu.... Me diga se vai ao menos considerar? — Insistiu e desta vez, ela foi a primeira surpreendida pela firmeza que adquiria sua voz. Por um instante, acreditou que lhe lançaria sua interessante leitura na cara. Em lugar disso, Milos a deixou novamente a um lado e se levantou, inclinando-se depois sobre ela para amedrontá-la com sua elevada estatura. Wenna sequer pestanejou temerosa de que se o fazia, o demônio que havia nele a arrastaria ao inferno por semelhante atrevimento. —O que estou considerando seriamente, senhorita Blake, é enviá-la de volta para sua casa no primeiro avião. — As palavras dele eram dardos envenenados que caíam sobre ela sem compaixão. —E possivelmente, não antes de um par de palmadas por colocar o nariz onde não deve. —Mas eu só queria... —Não me importa o que queria. —Silenciou-a. —Acaso acredita que o mundo gira em torno de seus desejos, senhorita Blake?


"Com certeza que não", pensou Wenna. Se fosse assim, ele teria desaparecido por arte de magia naquele instante. —Mas se o pensasse melhor... Milos a puxou pelos ombros, cravando seus dedos neles até obrigá-la a ficar em pé frente a ele. —Pela última vez, Rowenna. —Ao escutar seu nome nos lábios do homem, Wenna não pôde evitar sentir um estremecimento. —Quer subir para o seu quarto e rezar suas orações em lugar de me incomodar com suas românticas ideias sobre as famílias perfeitas? —Não. —Wenna se mostrou serena. O rosto do Milos estava tão perto do dela que seus fôlegos se confundiam na penumbra da sala. —Não? —Ele franziu o cenho, confuso. Observava-a como se de repente, aquela insignificante criatura acabasse de lançar sua luva contra ele. E não estava seguro de querer aceitar a provocação que lia no valente olhar. Seus olhos percorreram sem querer suas feições. Não era especialmente formosa. Entretanto.... Aqueles lábios sugestivos, insolentes se abriam inconscientemente, alheios ao efeito que causavam nele. Capturou a boca feminina sem a menor cerimônia, explorando com ferocidade o interior e se deleitando com sua estranha doçura. Afastou-a em seguida, furioso consigo mesmo e com ela por não impedir o que tinha acontecido. — Não vou me desculpar, senhorita Blake. Adverti-lhe que não me causasse problemas.


—Não esperava que o fizesse. —Wenna se afastou dele, dominando com muita dificuldade o tremor de suas pernas. —Se houvesse um pouco de sensatez em você, partiria agora mesmo. —Sugeriu ele enquanto acendia outro cigarro como se nada tivesse ocorrido. —E se você fosse mais humano, pensaria em... —Não já lhe demonstrei que sou muito humano, senhorita Blake? —Sua pergunta soava a brincadeira e Wenna apertou os punhos contra as laterais do corpo, reprimindo o impulso de lhe esbofetear. —O que me demonstrou senhor Kosta, é que não lhe importa ninguém que não seja você mesmo. —Respondeu, ignorando o descaramento com que a observava. —Nem sequer Nana. —Porque utilizei o único método que conheço para fazer uma mulher se calar? —E porque, certamente, me confundiu com o tipo de mulheres com as quais está acostumado a tratar. —Desafioulhe. —Não tenho por costume me dar por vencida facilmente. A risada dele era uma tortura aos ouvidos femininos. Ainda a ridicularizava, mas desta vez sua brincadeira não conseguia disfarçar seu desconcerto. —Isso é um convite? —Perguntou ele, aproximando-se perigosamente. Wenna retrocedeu e se dirigiu à porta. —Gostaria que fosse não é mesmo? —Wenna foi contundente ao falar. —Gostaria de acrescentá-lo à longa


lista de defeitos pelos quais jamais deveria ter me contratado, não é isso? Ele não negou. Fumou seu cigarro lentamente, com sua cerimônia habitual. —Equivoca-se, senhor Kosta.... Pode ser que eu não seja a dama de companhia perfeita que você esperava. —Sua voz começava a fraquejar. —Mas amo a Nana. E não acredito que saiba sequer o significado dessa palavra, já que é incapaz de dobrar seu orgulho para vê-la feliz. Desta vez, Milos Kosta soltou uma sonora gargalhada que retumbou na biblioteca. —Todo este sermão por um simples beijo, senhorita Blake? —Percorreu com seus dedos o rosto dela, deixando que finalmente se fechassem sobre o pescoço feminino com suavidade. Wenna se afastou com um movimento brusco e ele

voltou

a

sorrir

com

expressão

maquiavélica.

Definitivamente, não parecem as palavras de um anjo. O que faria se decidisse tomá-la em meus braços e levá-la ao meu quarto, doce Rowena? Escaparia da ilha, horrorizada? Tomaria os hábitos e se encerraria em algum monastério perdido para expiar seus pecados? —Isso não acontecerá. —Replicou com todas as suas forças enquanto sentia ainda o tato daqueles dedos sobre sua pele.

—Eu

nunca

me

converteria

em

uma

de

suas

marionetes, senhor Kosta. —Não me diga! —Exclamou divertido por sua atitude digna e aparentemente serena. —Mas não descarta a


possibilidade de que eu o tente. Te assusta a ideia, senhorita Blake? —Não. Você já deixou bem claro que não há nada em mim que desperte seu interesse. —Wenna conteve o fôlego quando os dedos dele se aproximaram novamente e com descaramento, levantaram a lapela de sua camisa para descobrir um pouco seus seios. Afastou-lhe a mão com um tapa que terminou no ar, pois ele já a tinha retirado antecipando sua reação. —É certo. —Aceitou ele esquivando o olhar com rapidez. —Continua a não me interessar. Embora talvez.... Talvez seja isso o que a inquieta. Acaso esse homem, que a deixou partir com essa expressão desolada que a caracteriza, tampouco estava interessado? É isso, senhorita Blake? —Não sei de que está falando. —Wenna estava a ponto de sair, mas ele se interpôs em seu caminho, ocultando a porta com seu corpo. —Por favor, me deixe. —Então é isso... —Milos entrecerro as pálpebras. —Não quer falar disso? —Não tenho nada que dizer. —Não?

Você

é

uma

charlatã,

sabia!

—Provocava

intencionalmente e Wenna tratou de girar a maçaneta da porta. Os dedos dele se fecharam como ganchos de ferro sobre sua mão. —Vamos, não seja tímida. Me conte o que aconteceu. Abandonou-a por outra?


Wenna não tinha intenção de falar, apesar dele acertava em quase todas suas hipóteses. Já era bastante doloroso se recordar a cada noite. —Por isso decidiu partir para longe, abandonando a sua querida tia Alice, sua irmã e seu maravilhoso trabalho de encantadora florista? —Milos Kosta não podia ser mais cruel. Wenna reprimiu as lágrimas. —Pode confiar em mim, senhorita Blake. Como já a terão informado, sou um tipo desprezível com as mulheres. Assim entendo muito do comportamento de tipos desprezíveis como eu. —Deixe-me ir, por favor... —Então descobri seu segredo, Rowenna. —Gabou-se, acariciando sua mão com suavidade e soltando-a depois. — Possivelmente falaremos disso em outra ocasião. Wenna não esperou nem um segundo para desaparecer. Temeu que ele mudasse de opinião e a retivesse durante toda a noite. Ao chegar em seu quarto, meteu-se na cama de um salto, cobrindo-se com os lençóis até o queixo. Odiava-lhe. Odiava a Milos Kosta com tal intensidade que pensou que era impossível odiar tanto a uma pessoa e seguir sendo um ser humano.


Nessa manhã, a ilha tinha amanhecido banhada por um belíssimo sol que incitava a passear. Nina tinha posto um vaporoso vestido novo de linho e um chapéu que lhe protegia o rosto das queimaduras. Wenna tinha optado por uma camiseta sem mangas e shorts e também protegia a cabeça com um singelo gorro de palha, presente de Kalina. Nesse momento, as duas estavam sentadas na areia da praia e Wenna lia com entusiasmo um novo capítulo de sua novela para Nina. Modulava sua voz e a mudava de tom para dar mais veracidade ao relato à medida que avançava e se metia na pele dos personagens. Já passara um bom momento, quando uma sombra se abateu sobre elas, as surpreendendo. Nina se virou sorridente. – Milos, que surpresa! – Puxou sua calça para obrigá-lo a sentar-se sobre a areia. – Ficará um momento conosco?


– Claro. – Olhou Wenna com olhos zombadores. – Não perderia por nada no mundo o relato da senhorita Blake. Quanto tempo estivera as espiando? A julgar por seu comentário, devia ser o bastante. – Na verdade, ia descansar um pouco. – Replicou, marcando com a guia a novela e fechando-a com brutalidade. – Se incomoda, Nina? – É obvio que não, querida, mas... O que é isso? Olhe-a, Milos. Pobre menina... – A senhora assinalava suas coxas avermelhadas. Milos também as observava e Wenna as tampou instintivamente com a toalha. Ele estalou a língua contrariado. – Me deixe ver. – como ela não obedecia, Milos retirou pessoalmente a toalha e franziu o cenho ao descobrir que sua pele tinha adquirido um tom excessivamente rosado. – Não usou a loção protetora que Kalina lhe deu? Wenna negou com um gesto, envergonhada. – No que estava pensando, senhorita Blake? – Fazia um dia tão lindo. Não acreditei que... –

Precisamente.

É

que

quer

queimar-se

ou

simplesmente, é uma irresponsável? – Ele parecia zangado e Wenna encolheu os ombros, convencida de que fizesse o que fizesse, não conseguiria apaziguar seu mau humor. – Nina, tem aquela pomada milagrosa que sempre leva em seu nécessaire?


A anciã rebuscou com nervosismo e seu rosto se iluminou quando encontrou o que lhe pedia. – Isto lhe aliviará a ardência. – Comentou Milos, enquanto suas mãos esfregavam sem nenhuma delicadeza as coxas da jovem. – Agora, vá para casa. E se quer continuar desfrutando de seu dia na praia, será melhor que troque esses.... Interrompeu-se, detendo o olhar durante uns segundos nos shorts que deixavam descobertas as torneadas pernas femininas. – Bom, tire o que quer que isso seja? – Repetiu irritado. – Além disso, não acredito que seja apropriado que brinque de correr pela ilha meio nua, senhorita Blake. – Mas, Milos, o que pensa? – Interveio Nina com voz firme. – Estamos na praia. Como quer que a pobre garota se vista? – Não sei..., mas não assim. Não é decente, vovó. – Disse sem olhá-la, como se a visão inocente de suas coxas fosse algo pecaminoso e obsceno e não pudesse suportar. Wenna não dizia nada. Olhava de um para outro, até que cravou os olhos nele, em espera de uma desculpa. É obvio Milos Kosta não teve a decência de desculpar-se. E mais, continuava observando-a como se de repente, lhe ofendesse somente por atrever-se a ter pernas. – Não me ouviu, senhorita Blake? Wenna correu para casa, apesar de sentir a pele quente e ardida a cada passo que dava. Meteu-se em seu quarto e ainda estava tentando tirar os shorts quando escutou o golpe seco de punhos na porta. Cobriu-se com a bata e abriu,


amaldiçoando em voz baixa quando ele a empurrou para irromper no quarto. – Já lhe ouvi antes. – Disse, apontando os jeans sobre a cama. – Apenas que... Milos a obrigou a sentar-se na cama e lhe elevou a bata acima dos joelhos. – Não se sente capaz de fazê-lo sozinha, senhorita Blake? – Perguntou com ironia, comovido no fundo pela expressão de dor da jovem. Deslizou as mãos sob o interior da bata, arrastando para baixo com cuidado o objeto que a atormentava. Wenna continha a respiração e suspirou quando lhe retirou os shorts da discórdia. – Melhor? Acredito que deveria esquecer-se das calças por um tempo. Wenna arqueou as sobrancelhas sem compreender. Milos abriu de par em par o armário e tirou um dos vestidos de gaze que Nina lhe tinha comprado. – Isto ficará bom. – Deixou-o cair junto a ela. Em lugar de partir, permaneceu de pé frente a ela, pensativo. – Rowena... Não quis ofendê-la quando disse... – Que me vestia de forma indecente? – Ela não estava disposta a deixar fácil. O qual era por outro lado uma ingenuidade de sua parte. Milos Kosta já tinha demonstrado que lhe importava a opinião que tivesse dele. – Não sei o que me acomete em relação a você. – Ele parecia duvidar pela primeira vez ao dirigir-se a ela. – Nunca quero ofendê-la e sem saber como, sempre o faço.


– Não importa. – Replicou ela, consciente de que jamais lhe ofereceria uma desculpa formal. – Não tem que ser amável comigo, senhor Kosta. Mas não volte a me humilhar. Mesmo que seja sua empregada não lhe dá direito a isso. – Então, procure comportar-se de acordo com suas obrigações aqui. – Advertiu-a e Wenna comprovou que sua expressão era agora de fúria. – E seja mais recatada. Não está de férias, senhorita Blake. Não pode passear pela ilha vestida como uma turista, atraindo o olhar de todos os homens de menos de sessenta anos. Wenna suspeitou que o que realmente lhe enfurecia era que ele mesmo não pudesse afastar seu próprio olhar dela. Embora não entendesse porque, já que tinha sido bastante explícito quanto ao fato de que ela não encaixava em seu ideal feminino. – Terminou? – Perguntou com tranquilidade ao ver como ele acendia um cigarro com dedos trêmulos. – Ainda tenho que me vestir senhor Kosta. – Não me provoque senhorita Blake. – Milos a fulminou com aqueles olhos intensamente negros. – Saia do meu quarto, senhor Kosta. – Pediu-lhe com fingida amabilidade e acrescentou, esperando que ele não notasse quão assustada estava. – Por favor. – Atreve-se a me dar ordens em minha própria casa? Rowenna não respondeu e ele aguardou uns segundos, como se esperasse que ela se jogasse a seus pés pedindo um pouco de clemência antes que a executasse com seu olhar


desumano. Ao ver que ela não se movia, apertou os lábios até que todas as linhas de seu rosto se marcaram para lhe conferir um aspecto demoníaco. Depois, fechou a porta com uma força que poderia ter feito retumbar os alicerces da casa. Era sua tarde livre e como não sabia o que fazer com ela, aceitou o convite da Kalina. Tinha-lhe pedido que a acompanhasse até o povoado para visita à sua família. Até esse momento, Wenna não tinha pensado que a encantada Kalina pudesse ter mais família que não fosse a senhora Kosta. Não imaginava tendo sua própria família depois de ter consagrado sua vida à enriquecida família para a qual trabalhava fazia mais de quinze anos. Por esse motivo, ficou gratamente surpreendida ao descobrir que Kalina tinha uma irmã mais nova, um cunhado e sobrinhos que a adoravam. Receberam-na com beijos e abraços carinhosos assim que ambas atravessaram a porta de seu humilde lar. Os sobrinhos da Kalina eram dois adolescentes rebeldes de quatorze e dezesseis anos. Isaías e Helena aceitaram com alegria os presentes que sua tia lhes trazia da casa. Nina lhes tinha enviado doces e algumas peças de roupa. Também lhes mandava livros e um pouco de dinheiro que Kalina entregou a sua irmã dissimuladamente. Não é que a família da Kalina fosse ingrata, mas ela preferia que seu cunhado não se sentisse ofendido. Era um homem honrado e trabalhador que não tinha tido muita sorte na vida. Agora se dedicava à pesca e nas épocas piores, com a ajuda da Kalina, todos seguiam adiante como podiam. O importante, como lhe havia dito Kalina durante o trajeto, é que era um bom pai. E um marido


carinhoso que amava a sua esposa e a seus filhos. Nesse momento, enquanto elas conversavam animadamente sobre os acontecimentos da semana, ela se embelezava com um gracioso avental tecido à mão e preparava o jantar para todos. Nada opulento. Pão recém assado, peixe fresco ao forno

enfeitado

com

umas

verduras

que

eles

mesmo

cultivavam. De sobremesa, alguns doces que Kalina havia trazido da casa. Sentaram-se à mesa e Wenna se emocionou as escutar as orações do homem, dando obrigado por aquele dia em que novamente se reuniam. Kalina lhe explicou que uma parte de suas orações, tinha-as dedicado à sua convidada, quer dizer, a ela mesma. Disse-lhe que seu cunhado tinha expresso seus melhores desejos e que a benzia e esperava que fosse tão feliz na ilha como eram eles. Wenna reprimiu as lágrimas que se amontoavam a seus olhos. Aquelas pessoas demonstravam ser realmente bondosas ao abrir as portas de sua casa e de seus corações a uma estranha. Não tinha palavras para corresponder a aquele gesto. E seus anfitriões devem ter adivinhado, porque começaram a falar entre eles para evitar que ela rompesse a chorar. De volta à casa, ela permanecia pensativa e Kalina tomou sua mão para que ambas caminhassem no mesmo ritmo. Wenna a pressionou com força, notando como o calor da mão da mulher esquentava sua própria mão gelada. – Menina, vai pegar uma pneumonia... – Murmurou Kalina, advertindo-a com o olhar. – Deveria levar algum agasalho antes de sair.


– Não se preocupe Kalina. Minha tia sempre costumava me dizer que não entendia como é que era a única em casa que nunca se resfriava. – Respondeu com um sorriso. Mas seu nariz e suas bochechas estavam tão geladas como seus dedos, que se entrelaçavam com os da mulher. – Dizia que tinha uma saúde de ferro. – Isso são tolices. – Kalina tirou o xale e lhe cobriu com ele os ombros. Wenna tratou de devolver-lhe, mas ela negou. – Menina, eu já sou velha. E te asseguro que estes ossos estão mais que acostumados ao clima da ilha. – Obrigado.... É muito amável. – Ficou um bom momento calada. Quase tinham chegado à casa, quando algo lhe assaltou a mente ao recordar a agradável tarde que tinham passado. – Kalina... Não sente falta da sua família? Quero dizer... Bom, a senhora Kosta é muito boa e é evidente que ela a quer como a uma irmã. Mas essa gente... O senhor Eriko e seus sobrinhos.... Você parece dar-se tão bem com eles. É uma pena que tenha que viver toda a semana separada deles. – Adoro-lhes. São minha vida, sabe? – Kalina encolheu os ombros. – Mas cada um faz seu caminho, querida. E não duvide que não tentei lhes convencer de que deviam viver comigo. Wenna arqueou as sobrancelhas, surpreendida. – Querida menina... – Kalina a abraçou para aquecê-la. Ainda faltavam alguns metros para alcançar a casa. – A senhora Nina sempre quis que minha família vivesse conosco,


na casa dos Kosta. Mas meu cunhado, embora seja um bom homem, tem sua dignidade. Jamais quis ouvir uma palavra disso. Em uma ocasião, minha sobrinha Helena caiu muito doente e Eriko aceitou que lhe trouxesse para a casa, onde há boa calefação e maiores comodidades. Mas assim que Helena se repôs, veio buscá-la. Não o culpo. Pode ser que eles sejam pobres, menina. Mas têm um ao outro. E têm muito amor. E isso é que necessitam para serem felizes. E, além disso, há meu querido Pavlos. – Pavlos? – Não te falei dele? – Os olhos de Kalina resplandeceram de orgulho. – Pavlos é meu sobrinho maior. Graças a Deus, Eriko permitiu faz alguns anos que me responsabilizasse por sua educação. Pavlos era muito bom estudante. Conseguiu uma bolsa para estudar medicina na Inglaterra e todos os meses, mando-lhe uma pequena mesada para ajudar em seus gastos ali. O pobre menino se arruma com o mínimo, assim é meu Pavlos. E precisamente este ano, terminará seus estudos. Em um par de meses, teremos um médico na família e com sorte, poderá ganhar o suficiente para que sua família tenha uma vida melhor. Não te parece maravilhoso? Wenna assentiu, tão feliz como se a notícia lhe afetasse diretamente. Olhou para Kalina, maravilhada. Cada vez mais, recordava-lhe tia Alice. Sempre disposta a ajudar a outros, sempre generosa e amável. – Vamos nos apressar, querida.... Já sinto meus lábios congelando... – Deteve-se um momento na porta, cravando


seus olhos grandes e expressivos em algo no que acabava de reparar. Puxou-a, arrastando-a até a casa, alvoroçada e apontando o veículo estacionado na entrada. —É ele... Bendito seja Deus! Está aqui... – O que acontece...? – Wenna não entendia nada. De repente, Kalina parecia ter perdido o juízo enquanto a levava para dentro. – Meu menino voltou... – As palavras lhe saíam entrecortadas por causa do pranto e Wenna decidiu que era preferível não perguntar mais e descobrir ela mesma, do que estava falando a mulher. Acompanhou-a até o salão e esperou pacientemente no lugar menos visível da sala, observando com interesse a cena que se desenvolvia frente a seus olhos. Kalina espremia contra seu proeminente peito ao homem que se achava de pé junto a Nina. Assim que a viu chegar, ele tinha aberto seus braços para abraça-la neles e a beijava efusivamente no cabelo, na fronte e no rosto. Wenna estudou as feições do homem. Era extraordinariamente atraente. O cabelo negro, curto e penteado para trás com descuido. Os olhos cor azeviche contrastando com sua pele bronzeada e as feições perfeitas que recordavam aquelas esculturas gregas que se viam nos livros de arte. Para falar a verdade, era o homem mais atraente que tinha visto em sua vida. Rezou em silêncio para que ninguém tivesse notado a preocupação que sentia ao lhe olhar. Desviou o olhar, envergonhada e ao fazê-lo, seus olhos tropeçaram com alguém que também observava a cena, escondido como ela para evitar que a magia daquele encontro se rompesse por


culpa de terceiros. Milos Kosta estava muito perto e quase a roçou ao cruzar os braços sobre o peito para cravar nela seus olhos zombeteiros. Pelo contrário, ele não parecia perturbado. Nem sequer comovido. Em realidade, Milos Kosta parecia furioso e Wenna se perguntou quem podia ser aquele atraente recém-chegado que fazia que as pupilas de Kosta brilhassem de raiva contida. – Impressionada, senhorita Blake? – Seu tom estava carregado de sarcasmo ao dirigir-se a ela. – Andreas está acostumado a causar esse efeito nas mulheres. Embora deva dizer, que esperava que você estivesse acima dessas frivolidades. – Andreas...? – Wenna gaguejava pela surpresa. Não era possível.... Possivelmente e apesar de tudo, Milos tinha escutado a seu coração? – Quero dizer, o senhor Kosta.... Quer dizer... O outro senhor Kosta? – Assim é. O filho pródigo por fim retorna a casa. – Respondeu ele com ironia. Empurrou-a com brutalidade para o grupo que se desfazia em amostras de afeto a uns passos deles. – Venha, senhorita Blake. Farei as honras e lhe apresentarei ao homem que segundo você, deveria conviver com Nina em meu lugar. – Eu não... – ia lhe dizer que nunca tinha pensado algo assim. – Não seja tímida, anjo. Suspeito que a partir deste momento, meu primo Andreas tem uma nova admiradora, estou equivocado?


– Eu não... – Repetiu como uma parva, mas ele levantou um dedo e o colocou sobre seus lábios palpitantes para silenciá-la. – Você não? – Ele sorriu com aquele sorriso que era tudo menos amistoso e lhe sussurrou ao ouvido. – Vi como lhe olhava, senhorita Blake. Andreas também está acostumado a causar esse efeito. Por alguma razão que desconheço todas as jovens com a cabeça cheia de pássaros como você, veem-lhe como ao fornido herói de seus sonhos. – Ofende-me com suas insinuações, senhor Kosta... – Defendeu-se e retrocedeu com intenção de não permitir que ele a humilhasse em presença dos outros. Adivinhou que essa era justamente sua intenção pelo modo em que a insultava com suas palavras. Mas ele a obrigou a permanecer onde estava, cravando os dedos longos e fortes em seus ombros. – Ofendo-a, senhorita Blake? – Perguntou com dureza. – Venha comigo. E apague essa expressão de espanto de seu rosto, vão pensar que a estava torturando. Havia dito como se não fosse isso precisamente o que estava fazendo. Wenna se conteve. Desejava desaparecer dali antes que Milos continuasse burlando-se dela. Mas ao que parece, os planos do Milos Kosta eram outros e Wenna quis ter o poder de decifrar o que escondia seu olhar malicioso quando a apresentou ao homem que a observava com atenção.


— Olhe que surpresa, Wenna... — Nina resplandecia de felicidade. — Meu querido neto veio ficar um tempo conosco.... Estou tão contente que pareço estar sonhando. — Andreas... A senhorita Rowenna Blake. — Milos analisou com olhos entrecerrados o breve instante em que seu primo estreitou a mão pálida da mulher. — Tenha muito cuidado, primo. Segundo a vovó, a senhorita Blake é algo assim como uma bruxa, não é assim, Nina? — Não diga tolices, Milos. A idosa fez que Wenna se sentasse junto a ela e esfregou afetuosamente sua bochecha. — Está gelada, criatura... Andreas, Rowenna não se parece em nada a uma bruxa. Na verdade, ela é nosso querido anjo... E deve trata-la bem. Do contrário, terá que se ver comigo. Nina brincava. Era evidente que não considerava que Andreas fosse um perigo para ninguém.


— Claro, vovó. Estou seguro de que a senhorita Blake e eu vamos nos dá muito bem. — Beijou sua mão galantemente e Wenna a retirou imediatamente ao ver como Milos apertava os lábios contrariado. — Posso chamá-la de Wenna? A vovó me disse que é assim como a chamam seus amigos. — Wenna... Está bem. — Murmurou, sobressaltada. Não podia evitar pensar em quão distintos eram os dois homens. Andreas Kosta era totalmente o oposto de seu primo. Galante e cordial, seu sorriso desprendia amabilidade ao dirigir-se a ela. Milos... Milos cravava seus olhos nela como se quisesse assassiná-la somente por estar ali — Se me desculparem, tenho que subir para me trocar. Despediu-se de todos com um gesto e subiu a escada que conduzia a seu quarto como se a perseguissem muitos demônios. Estava a ponto de fechar a porta, quando algo se interpôs e a fez girar sobre os calcanhares. Milos Kosta tinha seu braço apoiado no vão da porta e a observava em silêncio. Wenna não disse nada. Estava tão surpreendida pela visita de Andreas que não era capaz de articular palavras que expressassem seu desconcerto. — Acredito que mereço uma desculpa, senhorita Blake. — Disse ele com voz grave, inclinando-se um pouco sobre ela e soprando sobre sua face com brutalidade para afastar algo invisível no rosto feminino que devia lhe incomodar. Milos torceu os lábios em uma careta ao ver como ela dava um tapa como

resposta

a

seu

inesperado

gesto.

Tranquila,


senhorita Blake. Só pretendia devolvê-la à realidade. Ainda parece impressionada por meu atraente primo. Ela negou repetidamente com a cabeça. — Já lhe disse que mente muito mal, querida. — Ele a percorreu dos pés à cabeça com o olhar e depois, sorriu com desdém antes de perguntar. — Ansiosa para colocar-se em seu melhor vestido para exibi-lo ante o Andreas? Advirto-lhe que perde tempo, senhorita Blake. Você não é seu tipo. Wenna mordeu os lábios, envergonhada. Era necessário que ele fosse tão cruel ao expressar a opinião que tinha dela? Pensou que era injusto. Ela já sabia perfeitamente que não era o tipo de Andreas Kosta. Na realidade, era muito consciente de que não era o tipo de nenhum dos homens que tinha conhecido. Mas competir com sua irmã Kate nunca tinha sido tão duro. Escutar continuamente dos lábios daquele

homem

sem

coração

que

ela

era

alguém

insignificante, a fazia sentir tão pequena e insegura que mal podia respirar em sua presença. Apesar disso, armou-se de valor disposta a enfrenta-lo com as únicas armas que possuía: sua honestidade e sua determinação de levar a cabo o conselho de tia Alice e não deixar que ninguém pisoteasse sua dignidade. — Não tenho intenção de exibir nada para ninguém, senhor Kosta. — Replicou com um fio de voz. —Só pretendo fazer o trabalho para o qual você me contratou. — Não a contratei para que se convertesse na senhorita respondona que questiona tudo o que faço. — Atalhou com


dureza, lhe recordando o motivo pelo qual Andreas Kosta tinha vindo. — E por certo, ainda espero essa desculpa, senhorita Blake. Wenna duvidou um instante. Sabia que ele não partiria até que obtivesse o que tinha ido procurar. E sabia que desfrutava enormemente atormentando-a enquanto esse momento chegava. — Senhor Kosta, eu... — Começou sem saber bem o que ele esperava ouvir. — Está terrivelmente arrependida por pensar que sou uma pessoa egoísta e sem sentimentos que somente se preocupa com si mesma? — Continuou por ela, divertido pelo modo em que as bochechas da jovem avermelhavam ao lhe escutar. — Reconhece que me julgou com ligeireza, senhorita Blake? —Talvez. — Wenna gaguejava sem querer. — Lamenta haver-se precipitado em suas opiniões, senhorita Blake? — Milos nunca teria o suficiente. Queria humilhá-la e deixar bem claro qual era sua situação naquela casa. — Promete ser mais discreta no futuro e não colocar seu pequeno e curioso nariz em assuntos que não sejam de sua incumbência? — É óbvio que somente posso responder que sim. — Defendeu-se fracamente, consciente de que era justo o que ele pretendia. — Equivoca-se, querida. — Milos se inclinou um pouco novamente. Os rostos de ambos ficaram à mesma altura e


Wenna pôde comprovar com desagrado que ele a observava com certo desprezo. — Há outra coisa que pode fazer. Ela franziu o cenho sem compreender a que se referia. — Pode me mandar ao diabo e me lançar alguns insultos em pró de sua dignidade. E pode fazer suas malas e retornar ao lugar de onde veio. — A expressão dele era indecifrável. — Pode fugir outra vez, senhorita Blake. Pode reunir-se com sua adorável tia e sua encantadora irmã e vender

orquídeas

em

seu

bonito

estabelecimento

tão

heroicamente salvo pelas agradecidas órfãs. E pode inclusive enfrentar a esse tipo desprezível que não soube ver o anjo que havia em você e preferiu feri-la. Na verdade, pode fazer tudo isso

em

lugar

de

ficar

aqui

plantada,

suportando

estoicamente minhas humilhações para me demonstrar que não me tem medo. Mas não o fará, não é assim, senhorita Blake? Não é tão valente no fundo. Wenna

piscou,

lutando

contra

as

lágrimas

que

ameaçavam brotando de seus olhos. — Então, senhorita Blake.... Promete ser obediente e guardar ideias angelicais no futuro? — Desafiou-a que fizesse tudo o que havia dito com antecedência. Mas tinha razão, por mais que ela odiasse que fosse assim. Não era tão valente. Não podia voltar para casa depois do acontecido. Milos Kosta não poderia, embora quisesse, abrir feridas mais profundas das que já havia em seu coração. Assentiu com o queixo e ele


sorriu com expressão triunfal e maliciosa ao mesmo tempo. —Boa garota. E lembre-se do que lhe disse sobre o Andreas. Deixou-a ali, completamente derrotada ante a evidente falta de consideração que mostrava para ela. Wenna fechou a porta com cuidado e uma vez lá dentro, deixou que as lágrimas corressem livremente por suas bochechas. Por que a odiava tanto? Por que a ofendia? Não tinha feito nada que lhe prejudicasse ou pusesse em perigo estimada reputação ou a de sua família. Entretanto, por alguma razão que desconhecia Milos Kosta a desprezava. Agarrou a garganta com os dedos, reprimindo os gemidos que queriam escapar. Ninguém devia escutar seus soluços. Ninguém devia saber que não tinha aonde ir e que por isso, deixaria que o perverso senhor Kosta a fizesse alvo de todas suas ofensas. — Aborrecida, Wenna? Wenna se voltou ao escutar seu nome e ao fazê-lo, as conchas que tinha recolhido, caíram a seus pés. Agachou-se para pegá-las e Andreas se apressou a ajudá-la em um gesto que transbordava galanteria. Sorriu-lhe com acanhamento. Passou toda a semana lhe evitando e agora, parecia quase impossível retirar-se sem que ele se perguntasse por quê. Decidiu permanecer de pé, silenciosa como uma estátua. —

Obrigado.

Murmurou

sem

lhe

encará-lo

diretamente. Em sua memória, as advertências do senhor Kosta sobre seu primo, estavam frescas e soavam igualmente ameaçadores como se ainda a pouco Milos as gritasse em seu ouvido.


— Gostaria de me acompanhar ao povoado, Wenna? Reuniu todas as conchas e as depositou com suavidade no interior da palma da mão dela, fechando-a depois com sua própria mão. Seus dedos eram magros e seu contato quente. Convidavam a estreitá-los, mas ela sabia que não podia fazer algo assim. Aquele demônio podia estar espreitando em qualquer curva da praia, disposto a acusa-la do pior solo por aceitar aquela mão amiga. —Por favor, diga que sim. A vovó me disse que é sua tarde livre. — Pensava me entreter com algum artesanato e um pouco de leitura. — Mostrou-lhe as conchas que ele mesmo tinha recolhido, sentindo-se estúpida. Que classe de desculpa era essa? Nem sequer alguém tão amável como Andreas Kosta podia deixar de perceber o fato de que fugia e não se incomodar por isso. Acrescentou outra desculpa. —Minha mãe nos ensinou quando éramos pequenas a aproveitar alguns tipos de objetos e convertê-los em divertidos colares. Tinha pensado que possivelmente em alguma ocasião, Kalina gostaria de me acompanhar e os dar de presente às meninas do povoado. — É uma grande ideia, Wenna. —Pegou sua mão livre, arrastando-a para a casa. — Mas não hoje. Uma garota tão bonita como você deve procurar distrações mais de acordo com sua idade, não acha? — É que eu... — Não aceitarei um não por resposta. — Andreas já estava empurrando-a com delicadeza para as escadas. —


Coloque algo confortável e vamos dar um passeio. Prometo trazê-la de volta para casa antes que sua limusine se converta em abobora, "Anjo da Nina". Wenna não pôde evitar sorrir abertamente. Já tinha acostumado a que todos a chamassem assim. E o certo é que gostava que o fizessem. Todos... Exceto o arrogante Milos Kosta. Quando ele a chamava daquela maneira, não havia nada que indicasse afeto ou avaliação em seu tom de voz. Quando ele o fazia, somente havia brincadeira e fazia com que sua pele se arrepiasse por causa da raiva contida. Mas desta vez, era um homem encantador quem se dirigia a ela daquele modo que denotava sua natureza amável.

Assim

se

sentiu

incapaz

de

rechaçar

seu

oferecimento e correu escada acima para trocar de roupa. Quando Andreas a viu retornar, embelezada com um singelo vestido de algodão e umas sandálias, soltou um divertido assobio de admiração. E aquilo foi suficiente para que ela esquecesse as palavras do Milos e pensasse que lhe esperava um dia dos mais agradáveis. Foi exatamente isso o que aconteceu. Andreas conhecia lugares da ilha que ela nem sequer podia imaginar que existiam. Visitaram muitos vizinhos que havia tempo ele não via por causa de sua longa ausência. Wenna se surpreendeu ao comprovar que todos seus velhos amigos lhe recebiam calorosamente. Como era possível que alguém assim fosse tão mau como Milos lhe tinha feito acreditar? Sem dúvida, Milos Kosta nunca se deu ao trabalho de conhecer realmente ao homem que chamava de primo. Andreas era a pessoa mais


doce e afável que tinha conhecido. Os pirralhos do mercado se amontoaram a seu redor ao vê-lo chegar. Faziam-lhe perguntas sobre suas viagens, sobre o resto do mundo que talvez eles nunca conhecessem, sobre as estrelas de cinema que conhecia e sobre as belas mulheres que posavam para seus quadros... Wenna lhe escutava encantada enquanto ele relatava pacientemente suas aventuras e os pequenos lhe lançavam brincadeiras e lhe pediam que lhes contasse mais coisas e que lhes comprasse guloseimas no quiosque próximo. Depois de um bom tempo pelo qual Andreas nem sequer parecia cansado da gritaria dos meninos, levou-a para comer num restaurante típico especialmente dirigido aos turistas. Wenna quis lhe dizer que aquele lugar era muito caro e que preferia um lanche rápido em algum quiosque. Mas ele a silenciou com uma piscadela e puxou cortesmente uma cadeira para que ela a ocupasse. — Deveríamos... —Começou, mas Andreas levantou seu dedo, divertido. — Wenna, permite que escolha o menu? Este é meu restaurante favorito. E lhe asseguro que conheço muitos em todo mundo. — Fez com cerimônia, entoando teatralmente o nome dos pratos que vinham escritos na carta em francês e inglês. Em qualquer idioma, a voz de Andreas soava como uma canção suave que convidava a rir. Wenna o fez sem vergonha e ele assentiu grato. — Deveria rir mais frequentemente. Fica linda quando o faz.


— Obrigado. — Não há de que... E agora, "bon a petit" —Anunciou ao ver chegar os pratos que tinha pedido. Enquanto comiam, conversaram de temas muito variados. Wenna teve especial cuidado em não mencionar nada relacionado com o senhor Kosta. Não queria que nada estragasse a refeição, já que Andreas tinha tido a gentileza de convidá-la a compartilhá-la com ele. Entretanto, Andreas não parecia especialmente resistente a falar de seu antipático primo. Durante a sobremesa, ele já tinha tomado a decisão de abordar o tema por própria iniciativa—Me diga uma coisa, Wenna.... Como é que o áspero caráter do Milos não a fez renunciar a este trabalho ainda? — Por favor, Andreas... — Pediu-lhe, sentindo-se incômoda. — Ah, não tenha medo de me contar isso. — Andreas sorriu — Sei muito bem como se comporta meu querido primo. A estas alturas, já deve feito o número do senhor de Rochester, não é assim? Wenna

abriu

a boca para protestar, mas ele

a

interrompeu de novo. — Não se preocupe Wenna. Não deve temer nada. Seu segredo irá comigo para o túmulo. – Segurou sua mão com afeto. — Mas não permita que Milos a intimide. Na verdade, ele não foi sempre assim. Antes, nós fomos bons amigos, não lhe disseram? Wenna não respondeu.


— Lhe contaram porque Milos e eu brigamos, Wenna? — Sob seu olhar amável, Wenna reconheceu pela primeira vez os mesmos olhos ardilosos de Milos. Não podiam negar o parentesco que lhes unia. Mas então, Andreas sorriu de novo e Wenna compreendeu que fosse como fosse, Andreas seguia sendo muito diferente desse outro homem que censurava cada uma de suas palavras. —Foi depois que Alexia e eu fugimos. Por favor, não se escandalize... Ele encheu sua taça ao ver como ela se afundava em seu assento ruborizada pelo alcance de suas confissões. — A mãe da Alexia é grega como nós. – Explicou. — Seu pai, um importante homem de negócios que emigrou para os Estados Unidos. Quando Milos nos apresentou, acreditei que pôr fim tinha conhecido a mulher de minha vida..., mas me equivoquei. Os dois nos equivocamos. Olhou-a com expressão desconsolada. — Acredita que sou uma pessoa horrível por haver roubado a garota de Milos? – A pergunta foi feita em tom sério, mas Wenna percebeu o ligeiro toque de humor que se escondia atrás daquela falsa seriedade. — Não tema em dizer, anjo. Em realidade, todos acreditam que eu sou. Exceto minha querida avó, para quem sempre serei o neto adorável que sentava sobre seus joelhos e a fazia rir. — Não me parece que seja horrível. —Disse em voz baixa e escutou sua risada suave do outro lado da mesa. — E se me permite isso...


— Claro que permito, é obvio. — Concedeu ele de bom grado, surpreso pelo modo em que ela temia expressar sua opinião. — Wenna, eu não sou Milos. Pode dizer o que quiser. Não farei que a despeçam somente por ter ideias próprias. — Nesse caso... — Ela levantou o olhar para ele, perturbada pelo tom íntimo que tomava a conversação. — Acredito que cometeu um engano ao fazer algo assim. A relação da senhorita Alexia com seu primo deveria ser sagrada para você. Nunca deveria interferir. — Estou de acordo. Mas ela me abandonou. Não lhe parece suficiente castigo? — Perguntou, cravando nela seus olhos de menino que se negava a crescer. —Milos já teve tempo para me perdoar. — Possivelmente já fez. Fez que voltasse, não é assim? — Recordou-lhe com doçura e ele assentiu. — Suponho que quer dizer algo. — Talvez Milos não seja tão malvado como pensamos, Wenna. Comentou divertida — Talvez nosso Milos seja no fundo uma alma caridosa disposta a absolver meus pecados. — Talvez. — Wenna não insistiu nisso. Não estava tão segura de que o senhor Kosta fosse todo isso que Andreas havia descrito. Mas não disse para não diminuir suas esperanças de reconciliação. O resto do dia passou com tanta rapidez que quando retornaram para casa à noite, já era tão tarde que mal podia


acreditar que horas eram. Os outros já havia se deitado e ao despedir-se de Andreas no salão, sentiu uma repentina tristeza pelo maravilhoso dia que tinham compartilhado e que chegava a seu fim. — Boa noite, Anjo de Nina. — Sussurrou-lhe Andreas ao ouvido. — Não fique acordada até muito tarde ou Nina ralhará comigo amanhã. — Não se preocupe. Vou procurar algo para ler e vou para a cama. —

Boa

ruidosamente,

noite.

Repetiu

desculpando-se

Andreas

imediatamente.

e

bocejou —

Sinto

muito. Muitas emoções para um só dia. — Boa noite, Andreas. — Ela caminhou devagar até a porta de seu quarto, que ficava do outro lado do corredor em frente ao de Andreas. Ouviu-lhe bocejar de novo na escuridão e fechar a porta ao entrar. Sorriu. Parecia-lhe que entre eles podia surgir uma bonita amizade que nada tinha que ver com as maliciosas insinuações do Milos Kosta. Com essa ideia que a animava, entrou em seu quarto e se despiu, sem perceber que a poucos passos de sua porta, alguém tinha espiado cada movimento no corredor. — Dormiu bem, senhorita Blake? A voz dele a sobressaltou. Voltou-se com seu copo de suco de tomate na mão e lhe olhou com súbita expressão de culpabilidade. Novamente, ele estava furioso por algo, podia lê-lo em seu olhar. E novamente, ela tinha a culpa. Assim não


se incomodou em aumentar sua ira, consciente de que sua resposta, fosse qual fosse, não seria de seu agrado. — Suco de tomate? Para a ressaca? — Insistiu com sarcasmo enquanto afastava uma das cadeiras para sentar muito perto dela. — Vejo que não perdeu o tempo, Rowena. Teve muita pressa em desobedecer minhas instruções com respeito a Andreas. — Me proíbe de ser sociável com seu primo, senhor Kosta? — Wenna tratou de não parecer zangada, embora realmente estivesse. Ele não disse nada. Estreitou as pálpebras,

possivelmente

avaliando

a

possibilidade

de

despedi-la imediatamente e sem lhe dar a oportunidade de defender-se. — E para sua informação, ontem à noite tomei somente duas taças de vinho. Não estava ébria, se for o que insinua. Eu nunca bebo. — Para sua informação, senhorita Blake. — Imitou seu tom de voz e se inclinou sobre a mesa, lhe passando um guardanapo que ela tomou com dedos trêmulos para limpar os restos de suco de seus lábios. — Somente me preocupava com sua saúde. Mas já que diz, considero duas taças de vinho mais que suficiente para alguém, que afirma não beber, perca a cabeça. — Não sei aonde quer chegar, senhor Kosta. — Não sabe? — Ele arqueou as sobrancelhas. — O direi. — O que quero saber, querida, é se meu primo Andreas conseguiu conquistá-la finalmente. Foi assim? Sente-se como


se flutuasse em uma nuvem e sonha com a próxima vez em que ele vai convidá-la para sair? Não se engane, senhorita Blake. Andreas não é dos que ficam. Partirá e lhe quebrará o coração, acredite. E apesar de tê-la advertido, para você sempre serei o vilão e Andreas o menino inadaptado que ninguém compreende. — Não é isso. — Replicou em voz baixa. — Não me considera um vilão? — Perguntou com fingida surpresa. — Não é certo que eu imagine coisas sobre o senhor Andreas. — Esclareceu, com as bochechas ruborizadas. — Você retorce tudo para me incomodar. — E consigo senhorita Blake? — Sim. — Eu gosto disso. — Sente-se bem me humilhando, não é? — Wenna ia dar meia volta e retornar para junto de Nina, que a esperava no jardim. Mas Milos capturou sua mão ao passar junto dele e a obrigou a permanecer imóvel, enquanto a estudava atentamente com seu olhar ardiloso. — Não tão rápido querida. Ainda não terminamos nossa conversa. Por sorte, Andreas irrompeu na cozinha nesse momento e Milos soltou sua mão com brutalidade, saudando com um movimento de sobrancelha ao recém-chegado.


— Bom dia, Wenna.... Que surpresa, Milos. — Andreas era bastante inteligente para dar-se conta de que ela se alegrou de que interrompesse. — Não pensei que estivesse em casa, primo. — Esperava que desaparecesse sozinho porque decidiste conceder umas migalhas de seu tempo a sua esquecida família? – A pergunta se traduzia em uma velada ameaça que Andreas preferiu ignorar. — Também me alegro em te ver, Milos. — Andreas sorriu e lhe piscou para a jovem que observava a cena. – Na verdade, temia que retornasse a seus negócios para evitar minha companhia. — Alguém tem que ganhar o dinheiro que esbanja com seus excessos, primo. — Foi um golpe baixo, direto ao orgulho de Andreas, quem se limitou a encolher os ombros com indiferença. — Por certo, tornei a receber notícias desse cassino, que jurou sobre a tumba de meu tio não voltar a visitar, recorda? Dei instruções a meu contador para fazer a transferência esta mesma manhã, se é que te interessa. — Obrigado. — Desta vez, o rosto do Andreas tinha perdido toda sua cor. Wenna sentiu compaixão por ele e pelo modo com que Milos lhe envergonhava em sua presença. Compreendeu de repente que possivelmente a visita de Andreas obedecia a outros motivos que nada tinham que ver com o bem-estar de Nina. Ainda assim, se compadeceu. Milos


Kosta não tinha direito a lhe rebaixar daquela maneira. — Farei que receba o dinheiro assim que... — Já sei. Assim que vender um de seus quadros. — Atalhou com secura. Durante um instante, sua expressão se suavizou ao cravar os olhos em Andreas. — Não quero que me devolva o maldito dinheiro. Mas não tolerarei que arraste nosso sobrenome pelos cassinos de meio continente como se fôssemos vulgares estelionatários. Entendeu? — Perfeitamente. — Andreas levantou a vista do chão ao falar. — Não terá que voltar a se preocupar com isso. — Espero que sim. Porque penso em falar disto com a vovó se for necessário. Você me conhece. — Aproximou-se da porta e a olhou antes de sair. — Quanto a você, senhorita Blake... Não terminou a frase. Amaldiçoou entre dentes e desapareceu. Wenna tomou ar, aliviada. Andreas estava sentado, com a cabeça entre as mãos e uma expressão abatida que a comoveu. — Sinto muito... — Começou, mas ele agitou a cabeça, indicando com isso que nada do que dissesse lhe faria sentir melhor. — Não se preocupe anjo. — Andreas suspirou. — A verdade é que Milos tem direito a estar furioso. Essa gente... Os do cassino, compreende? Não é a primeira vez que Milos se vê comprometido com eles para liquidar minhas dívidas. E isso lhe deixa com um humor de cães.


Wenna mordeu os lábios com nervosismo. Não estava segura de querer escutar aquele tipo de confissões que só diziam respeito a família. No fim das contas, ela não era mais que uma estranha e o senhor Kosta tinha tido muito cuidado em deixar isso bem claro. — Não me olhe assim, Wenna... — Pediu Andreas com tristeza. — Não sou um jogador... Só que... Bom, às vezes um homem faz muitas tolices para impressionar uma mulher. Acredita em mim? — Acredito, mas... — Mas? — Ele parecia disposto a escutar qualquer conselho que viesse dela. — Em seu lugar, trataria de utilizar minhas outras virtudes para conseguir esse propósito. — Atreveu-se a dizer e acrescentou, feliz porque Andreas a escutava com atenção. — Andreas... Já sei que mal lhe conheço. Mas você parece um bom homem. Amável e sensível... E atraente. E pelo que sei também um excelente pintor. Todo isso deveria bastar para que uma mulher se sentisse orgulhosa de que se interessasse por ela. — Você estaria orgulhosa de alguém como eu? Sem ofício nem bens... A ovelha negra da família? — Perguntou maravilhado e mais animado por suas palavras. — Estaria se lhe amasse, Andreas. — Particularizou, rezando porque ele não interpretasse aquilo como um convite a cortejá-la.


— É uma boa garota, Wenna. — Ele acariciou sua mão e ao fazê-lo, Wenna soube que não havia nada erótico em sua carícia. Alegrou-se. Não queria provocar mais situações desagradáveis com o arrogante senhor Kosta. — Pergunto-me porque continua aqui. — Por Nina. — Respondeu com um sorriso. — E pela Kalina e os outros.... Todos foram carinhosos comigo e me sinto agradecida disso. —

E

Milos?

Também

por

ele?

Inquiriu

com

perspicácia. Wenna não respondeu. Milos Kosta não precisava dela. Não precisava de ninguém. Ainda assim, pensou que em parte, ele também era um motivo para ficar. Era uma provocação levantar-se cada manhã e demonstrar a si mesma que era capaz de sobreviver outro dia sem que Milos a esmagasse com sua arrogância. — Posaria para mim, Anjo? Quero pintá-la.... Tenho que fazê-lo. Acabo de descobrir que você será minha musa. Tranquila, calada... Como uma bela criatura que não pertence a este mundo. Diga que sim, por favor. Wenna negou, ruborizada por seu pedido. — Do que estão falando meus dois jovens preferidos? Wenna inclinou a cabeça para olhar a Nina. Caminhava para eles, apoiada em sua elegante bengala de marfim e ao chegar perto dela, rodeou-a com seu braço livre.


— Vovó — Andreas a beijou com afeto. – Estou tentando convencer a senhorita Wenna para que seja minha modelo. — Sério? — A senhora a estreitou contra seu ombro. — E disse que sim? — Ainda não, Nina. Esperava que me ajudasse a convencê-la. — Anjo.... Tem que fazê-lo. Será sua obra prima. Não é certo, Milos? Wenna quis que a terra a tragasse ao comprovar que ele tinha seguido Nina e escutava a conversa a escassos passos. Seus olhos a fulminaram ao tropeçar com os dela. — Sem dúvida, Nina. —Comentou com ironia. — O Louvre estará orgulhoso de substituir o retrato da Monalisa pelo da senhorita Blake. — Que parvo é, Milos... — Nina lhe beliscou a bochecha e ele esboçou um sorriso seco, expressando com isso a alegria que lhe produzia a notícia. — Que coisas diz... Nossa Rowenna é tão bonita que essa Monalisa morreria de inveja, não acha? — Se você diz, vovó... Wenna avermelhou de vergonha. Era evidente que ele zombava e que a considerava muito vulgar para merecer que Andreas perdesse seu tempo com ela. Talvez por essa razão, decidiu que aceitaria. — Será uma honra, Andreas. — Disse com voz firme. — Se realmente acreditar que posso servir.


— Brinca? — Andreas passou junto a eles, emocionado e feliz por quão fácil tinha sido vencer sua resistência inicial. — Começaremos hoje mesmo. O mundo se renderá a seus pés quando tiver terminado. Milos

também

se

retirou.

Mas

antes

de

fazê-lo,

aproximou-se com dissimulo para lhe sussurrar algo ao ouvido. — Vejo-a no jantar, senhorita Blake. Quer dizer, se suas novas obrigações permitirem. — Havia uma velada ameaça no modo como havia dito. Wenna já se arrependia por ter aceitado. Mas ao ver a alegria com que Nina lhe falava das excelentes qualidades de Andreas como pintor, tratou de não pensar mais nisso. Entretanto, não o viu durante o jantar. Não porque suas obrigações não permitissem, mas sim porque Wenna tinha sido

muito

convincente

ao

desculpar-se

ante

todos

argumentando que tinha uma terrível dor de cabeça. Em parte, era certo. A sessão para o quadro de Andreas a tinha deixado exausta. Permanecer tanto tempo quieta como uma estátua não era tarefa fácil, sobretudo tendo em conta que ela nunca tinha sido uma pessoa ociosa. Por outro lado, não desejava encontrar-se na mesa com o olhar acusador do Milos. Embora não o pudesse evitar eternamente, preferiu esperar que todos estivessem deitados para ir à cozinha em busca de um copo de leite quente. Ajudaria a conciliar o sono, pensou enquanto sorvia lentamente na escuridão do salão. Sentou-se sobre o tapete, com os pés encolhidos no estômago e as costas apoiada contra o sofá de Nina. Fechou


os olhos durante um instante, desfrutando do silêncio e da paz que lhe proporcionava a escuridão. — Esgotada, senhorita Blake? A voz de Milos a sobressaltou e se apressou a ficar em pé, procurando com o olhar o lugar de onde provinha aquela voz. Viu a claridade quando ele acendeu um cigarro e tragou saliva ao descobrir o perto que estava dela. Sua sombra se recortava junto a ampla janela e Wenna estreitou as pálpebras para lhe ver melhor, ajudada agora pela luz da lua que se filtrava pela cortina. — Ser a obra prima de alguém como Andreas não é tarefa fácil. – Zombou ao ver que ela não respondia. Wenna avermelhou por causa da vergonha, mas se alegrou de que ele não pudesse percebê-lo na penumbra. — Andreas tem muito talento, senhor Kosta. — Replicou em voz baixa. — Estou certa de que inclusive com uma modelo vulgar como eu, seu trabalho não será medíocre. — Não mencionei a palavra vulgar, senhorita Blake. — Voltou-se para ela e ao fazê-lo, desta vez pôde distinguir melhor seu rosto à luz. Sua expressão era severa ao olhá-la. — Mas em qualquer caso, tem razão. Inclusive tratando-se de você, Andreas fará que pareça encantadora. — É melhor eu ir agora. — Murmurou, desalentada ante o fato evidente de que aquele homem nunca a trataria com mais respeito de que tinha mostrado até agora. — Por que não fica um momento, senhorita Blake?


— Para que continue zombando de mim? — Atreveu-se a perguntar e escutou uma risada suave como resposta. — Obrigado. Acredito que não. — Não lhe pareço um bom ouvinte, Rowenna? — Seu tom era sarcástico. — Vejo que não. Possivelmente seja porque me compara continuamente com meu adorável primo. Ou possivelmente esteja se perguntando em que momento de nossas vidas, ele se tornou o homem arrumado e galante, enquanto que eu sou um tipo arrogante que provoca sua rejeição. Equivoco-me? — Só quero ir descansar. — Replicou consciente de que ele se aproximou muito ao pronunciar as últimas palavras. — Mas eu não quero que vá, senhorita Blake. — Retevea, interpondo-se em seu caminho e observando-a fixamente enquanto exalava uma larga baforada de fumaça. —Desejo que sejamos amigos, é tão difícil que compreenda? — Você não deseja que sejamos amigos. — Corrigiu com voz

débil.

Somente

quer

que

todos

lhe

rendam

homenagem. — E porque lhe incomoda tanto, querida? — Ele ria de novo. — Todos o fazem. Acaso se considera diferente do resto? — Não. Mas você não comprou o direito a pisotear minha dignidade quando me contratou. — Não o fiz? — Milos arqueava as sobrancelhas, o que lhe conferia um aspecto realmente aterrador. — É provável então que tenhamos que revisar alguns pontos desse


contrato, senhorita Blake. Porque, para sua informação, digo que nesta casa sou eu quem dá as ordens. E sou eu quem decide no que ocupa seu valioso tempo. E é obvio, sou eu quem pago cada minuto desse tempo. — Nesse caso, sugiro-lhe que relate esse detalhe ao senhor Andreas. — Wenna mal podia conter as lágrimas ao falar. — Já que não desejo que nem você nem eu esbanjemos meu tempo e seu dinheiro em algo que parece lhe desgostar tanto. — Não se preocupe senhorita Blake. Farei assim que tenha ocasião. — Ele se afastou para que a jovem pudesse passar a seu lado. Mas a chamou antes que abandonasse o salão. —Senhorita Blake.... Não sofra muito ok? Deixarei que meu primo termine seu retrato. — Mudou de opinião, senhor Kosta? — Inquiriu com um fio de voz, as mãos tremulas apertadas ao redor do cristal do copo de leite vazio. — Absolutamente. Mas não quero frustrar sua recém descoberta

faceta

de

musa

inspiradora.

Zombava

novamente. — Embora antes, pretendo lhe arrancar uma promessa, senhorita Blake. Wenna não disse nada. Esperava que ele lançasse algum outro comentário desagradável que a faria chorar irremediavelmente. — Me prometa que a única coisa que meu primo levará de você quando se for, será esse maldito quadro. — Olhou-a


com seus olhos brilhantes e ardilosos enquanto capturava sua mão. — Não compreendo... — Só diga que promete. — Ordenou Milos e desta vez, sua expressão se tornou quase furiosa. — Vamos senhorita Blake. Só uma pequena promessa e a deixarei partir. — Prometo... prometo, mas deixei-me ir .... Eu suplico. — Está bem. — Soltou-a com brutalidade. — Corra para o seu quarto, Anjo da Nina. Sonhe enquanto pode com o idiota de meu primo..., mas amanhã, a dura realidade não terá mudado para você. Porque, para você, senhorita Blake, eu sou a dura realidade. Wenna não quis escutar mais. Fugiu tão rápido quanto seus pés permitiram e se fechou em seu quarto. O coração pulsava desenfreadamente e ainda sentia o contato daqueles dedos sobre sua pele. Por que lhe tinha pedido algo assim? Que estranhos pensamentos cruzavam a mente do Milos Kosta ao lhe fazer um pedido como aquele? Nem sequer valia a pena pensar nisso, embora isso não era o que mais a preocupava.

O

pior

era

aquela

sensação,

aquele

formigamento na boca do estômago e aquele ardor na mão que ele tinha segurado sem nenhuma delicadeza para retê-la. O que significava? Fechou os olhos, espantada. Milos Kosta não era ninguém, não era nada para ela.... Então, porque não podia deixar de pensar que, de algum jeito, ele se a considerava uma de suas propriedades?


— Querida menina... — Nina havia coberto os olhos da jovem com suas mãos. Esperava que um ansioso Andreas lhe desse o sinal que indicava que tudo estava preparado. Não lhe tinha permitido ver o quadro ainda. Havia dito que traria má sorte que o visse antes que estivesse terminado. E Wenna tinha aceitado sem titubear. Afinal, ele era o artista. E quando pôr fim pôde abrir os olhos e Andreas a segurou pelos ombros

para

girá-la

e

deixá-la

admirar

sua

obra,

compreendeu que tinha razão. Afogou uma exclamação, sentindo que suas bochechas se tingiam de rubor quando Nina

aplaudiu

repetidamente.

Abriu

os

olhos

desmesuradamente. Não podia acreditar que ela fosse a mulher do quadro.... Simplesmente, era belíssimo. — É...é... — Balbuciou incapaz de articular palavras que expressassem sua gratidão. Realmente, ninguém nunca a fez se sentir como nesse momento. Andreas Kosta podia ter todos os defeitos do mundo mais do que seu primo Milos queria inventar. Mas naquela tela, tinha posto seu coração e a tinha feito muito feliz. Porque tinha conseguido captar uma beleza que nada tinha a ver com a simples aparência física. Andreas tinha pintado sua alma, seu interior.... Estava tão emocionada que continha com muita dificuldade as lágrimas. Olhou nos olhos. — Obrigado. — É você, anjo. Não me dê obrigado. —Andreas se afastou um pouco para observar sua própria criação. — Pensando-o bem, sou eu quem deveria lhe dar isso É o melhor que fiz em muito tempo. E devo isso a você.


Andreas a tratava como era habitual desde que posava para ele. Havia dito muito sério: "Angel, não posso te pintar enquanto nós tratamos com tanta cerimônia" E a partir desse dia, a relação entre ambos tinha sido a de dois bons amigos que compartilhavam suas inquietações. Precisamente na noite anterior, Andreas lhe havia dito que sairiam para celebrar que o término do quadro. E também que seria uma espécie de despedida, embora ainda não houvesse dito a Nina. Por fim, Andreas tinha compreendido que devia tomar as rédeas de sua vida. E enquanto esperava sua grande oportunidade, tinha aceitado a oferta de uma importante galeria de arte em Nova Iorque. Ao que parece, ofereceram-lhe uma generosa oferta. Um posto de restaurador que lhe pagaria o bastante para viver tranquilamente e lhe deixaria suficiente tempo livre para pintar. Wenna se alegrava por ele. Mas a deprimiu recordar que à manhã seguinte, seu bom amigo teria partido. Sentiria falta dele. E Nina ficaria muito triste. Embora as duas ficassem contentes por Andreas demonstrar ao fim que era capaz de se cuidar sozinho. — Eu gostaria que fosse seu. — Anunciou Andreas. — Aceitará que seja meu presente, anjo? Wenna negou com um sorriso. Intuía que Andreas somente o dizia por cortesia. Na verdade, era como tomar um filho de seu pai ao nascer. Pensou que Andreas desejava realmente ter a oportunidade de exibi-lo na galeria, com a esperança possivelmente de que algum mecenas visse a mesma ternura que ela tinha visto na tela.


— Prometeu que me faria famosa. — Recordou-lhe com carinho. — Mas talvez dentro de um tempo, se ninguém mais gostar, aceitarei. — Trato feito. – Apertou-lhe a mão e quando Wenna a estreitou, Andreas puxou-a para beijá-la espontaneamente nos lábios. Foi um beijo fugaz, de amigos. Embora não tão fugaz para não ser visto pelo homem que atravessava nesse instante o salão dirigindo-se para eles. Nina pigarreou, divertida. Andreas a soltou imediatamente ao perceber a censura no olhar do Milos. — Bom dia a todos. — Saudou sem entusiasmo e acrescentou com sarcasmo, voltando-se para olhar para Andreas. — Vejo que madrugou, o que não é seu costume. Celebramos algo, primo? — Olhe você mesmo. — Nina lhe empurrou, fazendo que se colocasse em frente a tela. Milos passeou ao redor do quadro, com a mesma expressão severa que lhe caracterizava sempre. Depois, olhou para Wenna e ao fazê-lo, a severidade de seu rosto tinha sido substituída por outra de suas virtudes favoritas: A ironia. — Mas, o que temos aqui? — Tinha acendido um de seus cigarros e como era de esperar, expulsou a fumaça intencionadamente sobre a face da jovem. — Se não é nossa queridíssima senhorita Blake.... Quem poderia dizer! — Por acaso não gostou, senhor Kosta? — Perguntou Wenna, ofendida por seu tom zombador. — Já disse que não seria vulgar somente porque sou.


— Não gostei? — Ele arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa. — Absolutamente. Estou certo de que muitos milionários brigarão por ele quando o leiloarem em alguma galeria. Primo.... Conseguiu que a senhorita Blake pareça algo, menos a senhorita Blake. — A senhorita Blake é mais bonita pessoalmente. — Replicou Nina, irritada. Mas Wenna lhe indicou com um gesto que não tinha importância. Ainda assim, a anciã não estava disposta a tolerar que ninguém a importunasse em sua presença e ela agradeceu em silêncio. — Claro que está muito cego para ver isso, Milos. Está muito cego para ver qualquer coisa... Nina resmungou algo mais em grego e apesar de que Wenna não a entendeu, soube que não era nada bom. Milos tinha empalidecido ao escutar suas palavras. — Vovó... — Começou a falar para defender-se, mas Nina lhe afastou com brutalidade, utilizando sua bengala. — Saia da minha frente! — Sorriu para Wenna, que tinha corado visivelmente. – Me acompanha anjo? Vamos ler alguns capítulos dessa interessante novela. Sabe essa.... Onde os cavalheiros se comportam como cavalheiros e não como animais selvagens. Bom dia, Milos. Andreas, vejo-os durante o almoço.... Vamos, menina? Wenna a seguiu, ansiosa por desaparecer. Para falar a verdade, Milos Kosta já não podia humilhá-la mais. Mas temendo que ele descarregasse nela seu mau humor e


sentindo-se uma covarde por isso, deixou-o ali plantado em companhia de seu primo. Andreas saberia perdoá-la. — Viria comigo se lhe pedisse? A pergunta do Andreas a pegou de surpresa. Quase engasgou com o pedaço de carne que estava mastigando e outros clientes se voltaram para ela, alarmados ao escutá-la tossir ruidosamente. Wenna se desculpou com um sorriso e aceitou agradecida o copo de água que Andreas lhe oferecia. — Não queria que se engasgasse Anjo. Peço desculpas por

minha

estupidez.

Andreas

afastou

o

olhar,

envergonhado. Wenna moveu a cabeça, lhe indicando com isso que tudo estava bem. — Mas, viria comigo? —Insistiu. — Andreas, eu... — Já se o que vai dizer. — Ele dobrou seu guardanapo com cuidado e o deixou sobre a mesa, estendendo as mãos sobre a toalha para capturar as dela. — Não me ama. — E você não me ama. — Particularizou, procurando não ser brusca ao falar. A última coisa que desejava era ferir alguém que tinha sido tão bom com ela. — Mas poderia chegar a me apaixonar por você, Anjo. Seria muito fácil te amar. — Andreas sorriu com certa tristeza. — E muito conveniente. É uma boa influência para mim, sabia? Desde que te conheço sou uma pessoa melhor. Acredito que se tivesse conhecido antes, seria um Andreas


diferente.... Definitivamente, um bom homem terá muita sorte algum dia. — Andreas... — Já sei, já sei. Não serei eu. — Voltou a sorrir. — Mas tinha que tentar ao menos. Me diga uma coisa, Wenna. Ficará muito tempo com a vovó? Acredito que ela já decidiu te adotar como parte da família. — Isso me faz muito feliz. Também eu me sinto parte da família... — Não lhe disse que isso não incluía o desagradável Milos Kosta, mas Andreas o intuiu pelo modo em que ela titubeou ao final. — Faria Nina muito feliz ficando na ilha, anjo. E a mim. — Acrescentou com uma piscadela. — Será um prazer vir visita-la mais frequentemente. Embora não queira fugir comigo. — Andreas... Já disse para Nina que vai partir? — Perguntou com uma sombra de pesar no olhar. — Antes que saíssemos falei com ela. E ficou feito uma fera no princípio. – Deu um meio sorriso. — Além disso, ameacei de te levar comigo se não se comportasse como uma velhinha responsável. Isso a acalmou imediatamente. "Por nada do mundo, tirará minha menina desta casa", disse-me. É óbvio que tampouco ela me considera um bom partido. — OH, Andreas.... Se julga tão pouco ... — Suspirou, enquanto ele indicava ao garçom que lhes trouxesse a conta.


— Não fique triste, anjo. O primo Milos se ocupará de você. — Ao pronunciar essas palavras e ver como ela empalidecia, voltou a sorrir. — Não tenha medo, Wenna. Só estava brincando. Mas ela não estava segura de que não aconteceria tal e como ele havia dito. De fato, Milos Kosta parecia ansioso por ter o caminho livre com ela. Enquanto Andreas tinha estado perto, Milos tinha mantido a distância. Agora que ele ia embora.... Quem a faria rir de novo? Tratou de não pensar nisso enquanto se dirigiam para casa.


Andreas se recolheu cedo, já que devia madrugar para sua viagem rumo à sua nova vida. Assim Wenna procurou não

lhe

segurar,

apesar

de

desfrutar

enormemente

conversando com ele, e lhe deixou partir com uma afetuosa saudação. Ficou descalça para não fazer ruído e levava as sandálias em uma das mãos. Empurrou a porta com lentidão, percorrendo com passos inseguros a distância até a enorme biblioteca. Estava muito escuro e tateou procurando pelo interruptor de luz. Antes que o alcançasse, a luz de repente invadiu o cômodo. Wenna retrocedeu, assustada. Milos Kosta estava frente a ela, sentado no sofá com as pernas estiradas e nesse momento, deixava cair a um lado o braço que tinha estendido para chegar ao interruptor antes dela. Wenna o observou furtivamente. Tinha o cabelo revolto, algumas mechas lhe caíam com rebeldia sobre a fronte e lhe viu levar a mão sobre eles em um gesto inútil por devolvê-los ao seu lugar.


Provavelmente devia ter dormido naquela incômoda posição e isso fazia com que tivesse aquela expressão mal-humorada que, por outro lado, era sua expressão habitual.

Usava

calças pretas e uma camisa branca muito elegante, que agora saía pela cintura da calça, os botões abertos até a metade do peito,

exibindo-o

sem

pudor.

Wenna

afastou

o

olhar

imediatamente e seguiu o movimento de seus dedos enquanto ele tirava seu maço de cigarros da calça, inclinando com preguiça seu corpo e acendia um com a mesma cerimônia de sempre. Aspirando a primeira fumaça e a expulsando depois no rosto de quem tivesse diante. Por sorte, ela estava a uns passos. Mas Milos lhe indicou com uma inclinação de queixo que se aproximasse. — Fique onde possa vê-la, senhorita Blake. Não vou mordê-la. — A voz soava grave e distante, como se falasse de dentro de um túmulo.... Possivelmente desde aquele inferno onde ele era o amo e o senhor e onde encerrava a todas as almas que como ela, não tinham o valor para enfrentá-lo. Ainda assim, obedeceu e com passo hesitante se aproximou cortando a distância que havia entre eles. A luz do foco lhe dava diretamente no rosto e Wenna piscou, sentindo-se como uma prisioneira submetida a interrogatório. Os olhos dele percorreram com descaramento a figura feminina, envolta naquele singelo vestido de gaze que deixava entrever suas curvas sob o feixe de luz. Os olhos voaram para a mão dela, que ainda sustentava as sandálias. Estreitou as pálpebras e Wenna viu como suas mandíbulas se esticavam ao imaginar


Deus sabe que classe de novas humilhações sobre seu vulgar aspecto. — Vejo que tem passado bem. — Comentou com sarcasmo, assinalando seus pés descalços. — Andreas e você se despiram pelo caminho para economizar tempo, senhorita Blake? — Perdão? — Wenna pensou que tinha escutado mau. Era impossível que ele a insultasse daquele modo. — Já me ouviu. — Ele recolheu as pernas, dobrando ligeiramente os joelhos e cruzou os braços sobre o peito, recriminando-a com o olhar. — Acredito ter sido bastante claro com respeito a suas obrigações nesta casa, senhorita Blake. — Só tentava ser amável, senhor Kosta. — Defendeu-se, consciente de que ele pretendia rebaixá-la novamente. — Precisa que te lembre quais eram essas obrigações? — Perguntou com dureza, ignorando-a deliberadamente. — Fazer companhia a Nana e se comportar como uma mulher decente, lembra-se, senhorita Blake? E é obvio, que sob nenhum conceito, isso inclui paquerar com meu primo e se lançar a sua conquista como se sentisse a imperiosa necessidade de demonstrar a todos que tipo de mulher é na verdade. — E que tipo de mulher sou, segundo você? — Atreveuse a dizer, furiosa pelo modo com que ele a tratava. — Suportará que lhe diga sem chorar e alarmar a toda a casa com seus soluços? — Lançou lhe um olhar tão hostil


que ela permaneceu em silêncio, incapaz de se mostrar firme como desejava. — Não sairá correndo para procurar consolo em seu valente herói, que a resgatou de nossa aborrecida companhia? Wenna sabia que se referia a Andreas. Sem saber por que, ele já tinha dado por certo que Andreas era o príncipe encantado que rondava seus sonhos. Que ironia... Milos Kosta nem sequer podia imaginar que em seus sonhos, já não havia lugar para príncipes, nem para contos de fadas. Entretanto, reconheceu que a visita de Andreas era uma espécie de trégua na guerra que lhe tinha declarado desde que chegasse. — Então... não me delatará para Nana e lhe contará que sou um monstro sem sentimentos, ainda que lhe diga o que não gosta? — Insistiu, zombando quando ela levantou o queixo com orgulho. — Sendo assim... Direi que esta noite realmente parece um anjo, senhorita Blake. Wenna já estava resignada a usar as unhas para se defender, quando as palavras dele a deixaram boquiaberta. Em lugar de atacá-la, Milos Kosta fazia um elogio. Estava preparada para qualquer coisa vinda dele. Exceto para aquilo. — Você disse...? — Tentou assimilar o que estava acontecendo. Acaso era uma nova estratégia para humilhála? Wenna mordeu os lábios com nervosismo, odiando-se porque no fundo, Milos a tinha feito estremecer. Quis acreditar que fosse por causa da surpresa, mas o certo é que


ao lhe olhar, teve que reconhecer que quando sorria, Milos Kosta parecia quase humano. — Está preciosa, senhorita Blake. — Continuou ele e havia algo em seus olhos que Wenna não pôde ou não quis decifrar. Milos abandonou o sofá e ficou de pé frente a ela, observando-a fixamente. — Olhe-se.... As pupilas brilhantes por causa do vinho, as bochechas rosadas, os lábios palpitantes, entreabertos... E este vestido... Seus dedos acariciaram lentamente a fina alça que o segurava sobre a pele, deslizando-a sobre o ombro e deixando-a escorregar sobre o seu braço nu. Wenna cobriu o peito com as mãos instintivamente, temendo que o resto do vestido tivesse a mesma sorte. Mas ele não a tocou. Somente a olhava como se quisesse ter o poder de fazê-la desaparecer para acabar de uma vez com suas preocupações. — Pergunto-me o que faria nosso querido Andreas se estivesse em meu lugar... — Murmurou e ao fazê-lo sua boca roçou apenas o nariz dela. — Uma jovem bonita como você, tão vulnerável, tão disposta a se render ao feitiço do amor, à menor amostra de galanteria... E o que faria você, senhorita Blake, se em lugar do odioso senhor da casa, papel que me toca desempenhar, fosse ele quem a tivesse assim? Tremula e preparada para se entregar como uma virgem em sua noite de núpcias.... Aceitaria jogar pela janela todas as suas boas intenções? Deixaria se vencer ante ao fato evidente de que é mulher e de que sua própria natureza a impulsiona a receber um homem entre seus braços? E se esse homem fosse alguém como eu? Pense bem, senhorita Blake.... Um tipo


desprezível e sem sentimentos, um homem que somente se importa em ganhar, custe o que custar..., mas também um homem que uma vez foi menino.... Um pobre órfão, convertido em alguém sombrio pelos percalços da vida... O pequeno

que

Nana

adora

e

tem

saudades...

Faria,

possivelmente por ela, para fazê-la feliz? Aceitaria, senhorita Blake? Seu tom era afetado e teatral ao falar. Sem dúvida, ele não se considerava uma vítima e é obvio, não desejava que lhe salvasse. Apenas zombava dela, esperando que em um momento de debilidade caísse na armadilha. Mas Wenna não era tão estúpida e apesar de que por um momento, acreditasse ver de verdade o menino de que falava Milos, não se deixou enganar. — Jamais aceitaria. — Disse com segurança e ele arqueou as sobrancelhas, surpreso pela provocação que lia no olhar feminino. Wenna acrescentou com firmeza. — Nunca me entregaria a alguém a quem não amasse. — Não o faria? Nem sequer se com isso proporcionasse uns poucos dias de felicidade a uma anciã que possivelmente não verá outra primavera? Wenna tragou saliva. O que queria dizer, do que estava falando? Nana não podia estar tão doente... Milos mentia somente para atormentá-la. — Por que me diz tudo isso? — Recriminou lhe e a voz vibrava por causa do temor de que suas palavras fossem verdadeiras.


— Porque é justamente o que quero lhe propor, senhorita Blake. — Milos lançou uma larga baforada de fumaça sobre seus olhos, impedindo que ela pudesse ver a expressão de seu rosto. — E desejo saber até onde está disposta a chegar. — Você pretende que eu...? — Agora já não compreendia absolutamente nada. Possivelmente tinha tomado muito vinho.

Ou

possivelmente....

Possivelmente

estava

sonhando e Milos Kosta formava parte de um pesadelo do qual despertaria de um momento para outro. — Seja minha amante? — Ele soltou uma gargalhada seca que retumbou nos ouvidos da Wenna. — Não vejo que benefício tiraria disso, senhorita Blake. Já lhe disse que não estava interessado, recorda? Na verdade, quero lhe propor algo mais proveitoso para ambos. Wenna não disse nada. Mantinha a esperança de que o pesadelo terminasse o quanto antes. — Proponho-lhe que façamos com que os últimos dias de Nana sejam tal e como ela deseja. — Explicou com voz neutra e desprovida de emoção, imprimindo depois à sua voz um tom irônico ao continuar. — Uma família feliz, estável.... Um neto correto e uma mulher correta a seu lado e com sorte e se o tempo estiver ao nosso lado, os passos de um novo Kosta

brincando

de

correr

pelos

corredores.

Entende,

senhorita Blake? Wenna negou com a cabeça. Entendê-lo? Beliscava-se com dissimulo para se convencer de que aquilo era real.


— Estou lhe pedindo que seja minha esposa, Rowena.

***

Wenna tampou os ouvidos, convencida de que se desejasse com força, Milos desapareceria e nada disso seria real. Entretanto, uns dedos fortes lhe retiraram as mãos da cabeça e a obrigaram a lhe olhar. Milos seguia ali, espectador, aguardando uma resposta. — Está louco... — Foi a única coisa que conseguiu sussurrar em meio a sua confusão. — Talvez. Mas deixe que lhe explique a conveniência deste negócio antes de rechaçar minha oferta. — Milos fez que se sentasse no mesmo sofá que ele tinha ocupado antes. Enquanto ele permaneceu de pé, sustentando seu olhar para impedir que se afastasse envergonhada. — Você, senhorita Blake, será a senhora Kosta todo o tempo em que Nana esteja conosco. Durante esse tempo, gozará dos privilégios de meu sobrenome. Um guarda-roupa à altura de uma verdadeira dama, joias, reuniões de sociedade, uma conta corrente em seu nome.... Tudo que sempre pôde ter sonhado. Só tem que o dizer e farei que seja seu. Você somente deve se comportar como a esposa perfeita e fazer que minha avó acredite que deixa em segurança. Unicamente, seja com ela tal e como é agora, salvo que poderá chamá-la avó e encherá de alegria seu coração. E quando chegar o dia em que Nana nos abandone, será livre. Rica e livre, senhorita Blake. Sem mais


amarras e com uma suculenta soma de dinheiro, fruto de seu sacrifício. — Está zombando de mim... — Wenna não podia acreditar no que ouvia. Na verdade, ele esperava que sequer pensasse nisso? — Absolutamente, querida. Nunca falei mais sério. — Milos se sentou sobre o braço do sofá, com a intenção de intimidá-la

com

sua

proximidade.

Estava

conseguindo.

Wenna se encolheu, afastando-se o quanto pôde de seu contato. Olhou-o com receio. Como podia estar tão tranquilo, depois de lhe propor algo semelhante? E se não fosse tão somente uma brincadeira de mau gosto? E se ele estivesse realmente lhe expondo o que ela tinha entendido? A ideia era tão ridícula como aterradora. Milos acrescentou para acelerar seu processo de assimilação. — Medite durante a noite se quiser, senhorita Blake. Não quero que se precipite. Afinal de contas, você não tem ninguém que a aconselhe... Havia dito com tom doloroso, insistindo no fato de que efetivamente, ela não tinha ninguém. Por alguma razão, ele sabia muito bem que Wenna não podia retroceder no caminho. Era desprezível o modo em que ele se gabava disso e o utilizava em seu próprio benefício. — Mas pense também que não tem ninguém a quem recorrer no caso de recusar minha oferta. — Recordou-lhe com crueldade. — Se eu contrair matrimônio com qualquer outra mulher, espero não necessitar de seus serviços. Ponhase

em

meu

lugar,

senhorita

Blake.

Seria

absurdo


proporcionar companhia estranha à vovó quando pode estar tão bem acompanhada entre membros de sua família, não acha? — Entendo... — Se formava um nó em sua garganta que lhe impedia de falar. — OH, não, senhorita Blake. Não acredito que entenda. — Milos tomou a liberdade de colocar seus dedos desprovidos de delicadeza sob o queixo feminino, obrigando-a a girar o rosto para ele. — Existem dois grandes desejos que não permitirei que Nana leve para o túmulo sem que sejam satisfeitos. Um, é me ver felizmente casado. O outro, ver como Andreas assenta a cabeça. Como é evidente que não posso fazer nada para cumprir o segundo, tenho a responsabilidade de cumprir o primeiro, custe o que custar. E suspeito, senhorita Blake, que minha fortuna sofrerá danos menores se escolher a você em lugar da uma dessas harpias com as quais vovó me acusa de me relacionar. Não é que as menospreze,

entenda...

prefiro

evitar

um

divórcio

milionário, Rowena. Mas lhe prometo que serei generoso quando chegar o momento. Wenna se sentiu incapaz de lhe escutar um segundo mais. Levantou-se de um salto e se afastou bastante dele para que não percebesse o acelerado pulsar de seu coração. — Você... — Tremia como um pudim ao dirigir-se ao homem. — Por quem me toma? .... Acaso acredita que seu maldito dinheiro pode comprar tudo?


— Já lhe disse em uma ocasião o que pensava sobre isso. — Milos aludiu àquela conversa na praia, a única vez que Wenna tinha visto um vislumbre de humanidade em seu rosto ao atender aqueles meninos. Como estava errada, pensou com rancor. — Tudo tem um preço, querida. Você só diga o seu e se for razoável, prometo não pechinchar. — Por que eu...? Por que não...? — Porque não uma mulher de meu círculo social? — Milos completou a frase por ela. Ouviu-o sorrir. — Muito simples senhorita Blake. Porque quando o matrimônio acabar, não tenho intenção de que voltemos a nos ver. E não poderia ser assim se se tratasse de alguma mulher com as quais estou acostumado a sair. Esses tipos de mulheres não posso apagar de minha vida só me propondo a isso. Mas você é diferente. Não chama muito a atenção, não gosta de tumultos e não é bastante atraente para me pôr em evidência flertando com os homens com os quais faço negócios. E não a imagino armando um escândalo para sair nos jornais. Imagino-a agarrando sua pequena fortuna e desaparecendo com rapidez para se afastar de minha desagradável presença. Mas sobretudo, e essa é a razão mais importante, porque minha avó a adora. — Mas disse que haveria um novo Kosta... — Gaguejava sem que pudesse controlar-se. — Essa era a parte em que sim, brincava, senhorita Blake. — Milos cravou seus olhos escuros nela. — Não pensou nem por um instante que falava a sério, verdade?


— Não. — Respondeu com rapidez. Rezou para que ele não se desse conta de que mentia. Por um segundo, tinha imaginado o que seria despertar uma manhã sendo a mulher de Milos Kosta. Com toda a intimidade que a expressão implicava. Sua esposa.... Sacudiu a cabeça, irritada consigo mesma por se permitir pensar algo assim. — Querida senhorita Blake... — O tom dele se suavizou perigosamente, enquanto seu queixo se inclinava para roçar o cabelo da Wenna. — Sua virtude está a salvo comigo, lhe prometo. Possivelmente se alguma vez me olhasse como olhava meu atraente primo esta noite, poderia pensar que há uma verdadeira mulher em seu interior. Mas não é o caso, Rowena. Você é tão fria como este ladrilho. Milos golpeou com repentina brutalidade o chão sob seu sapato, ilustrando a opinião que lhe merecia. — Querida.... Essa expressão aterrorizada não acenderia minha paixão nem estando bêbado. —Milos quase cuspiu as palavras. — Mas se não crê, digo-lhe que desde hoje, faço um juramento. Juro-lhe sobre o que você considere mais sagrado, que não te porei um dedo em cima enquanto estejamos casados. Wenna lhe olhou com receio. — É obvio, isso implica que você tampouco me porá um dedo em cima. — Se tentava parecer engraçado, não podia ser pior. Wenna não deixava de tremer e ele, zangado, segurou-a pelos ombros. — Por Deus, diga algo, senhorita Blake. Começo a perder a paciência.


Wenna se afastou, assustada pelo brilho estranho que desprendiam dos olhos do homem. —

posso

dizer

que

acredito

que

se

tornou

completamente louco. — Respondeu com voz clara apesar de seu medo. — E pode me despedir se quiser. Não tenho intenção de seguir com esta farsa nem um minuto mais. Milos apertou os lábios com força e lhe apontou com seu dedo erguido enquanto a olhava com expressão ameaçadora. — Está me recusando, senhorita Blake? — Inquiriu com a incredulidade de quem está acostumado a ganhar. — Já zombou o bastante de mim, senhor Kosta. — Ela se dirigiu à porta, mas ele a deteve, retendo-a contra a porta com a força de seu corpo. Ao ver como ela empalidecia, afastou-se uns centímetros para observá-la melhor. — Por que agora? — Wenna articulou a frase como pôde. — Porque escutei como Andreas dizia à vovó que irá amanhã. E porque temo, senhorita Blake, que a fará correr atrás

dele

quando

partir.

Explicou

com

incrível

naturalidade. — E não penso desperdiçar a oportunidade só porque meu primo é um Dom Juan sem remédio. — Mas eu não... — Não sente compaixão por minha pobre avó? — Perguntou ele, controlando sua voz para que soasse humilde em lugar de arrogante e teatral. — Não lhe preocupa que


esteja triste quando só depende de você para que tenha uma morte doce e tranquila? — Já sabe que amo a Nana. — Replicou, sentindo-se encurralada. — Faria qualquer coisa por ela... — Exceto se casar comigo. — Salientou ele e Wenna percebeu de novo a hostilidade em seu tom de voz. — É uma loucura... — Não quer tanto assim a Nana, senhorita Blake. — Acusou-a. — Por favor, deixe-me ir... — Diga que pensará nisso. — Ordenou ele, lhe franqueando a saída. — Não posso... — Diga que pensará e deixarei que parta, senhorita Blake. — Insistiu Milos com tanta ferocidade que Wenna não pôde evitar que um gemido escapasse de seus lábios. — Diga que será um anjo para Nana e possivelmente uma tortura para mim, Rowena. Você é uma garota caridosa, não é assim? — Me deixe... — Suplicou. Milos permitiu que atravessasse a porta, mas a chamou antes que ela alcançasse as escadas. — Rowena. — Ela se voltou ao escutar seu nome. Tinhao pronunciado com tal intensidade que fazia que soasse como se pertencesse a outra mulher. — Pense. Um nome, uma posição, dinheiro para fazer o que quiser.... É um grande negócio, senhorita Blake. O que pode perder?


Que tal minha alma? Wenna pensou, mas não se incomodou em lhe responder. Fugiu para o seu quarto e se trancou nele, tratando de analisar o ocorrido. O que podia perder ao aceitar algo assim? Milos Kosta não podia saber que algo em seu interior já tinha morrido ao lhe fazer um oferecimento semelhante. Porque para sua desgraça, acabava de descobrir que aquele oferecimento, fazia que lhe visse pela primeira vez como ao homem que era. Presunçoso e arrogante. Mas também incrivelmente atraente e durante um breve instante que se esfumaçou quase antes de existir, como a alguém por quem ela poderia se apaixonar.


Wenna sorveu as lágrimas enquanto observava através do cristal como Andreas se despedia de Nina. Acabava de fazer o mesmo com ela e lhe tinha pedido que não chorasse. Mas não podia evitar. No pouco tempo que Andreas tinha estado na casa, Wenna lhe tinha tomado carinho. Tinha sido para ela uma espécie de irmão maior, divertido e protetor. O irmão que nunca tinha tido e que agora, agitava a mão de dentro

de

seu

carro

e

sorria

abertamente.

Sentiu-se

repentinamente sozinha, vazia. – Vejo que a saída de Andreas a afetou bastante. — Uma voz zombadora soou a suas costas. Wenna girou sobre os calcanhares para encontrar-se com o frio olhar de Milos Kosta. — Chora por ele ou por você, senhorita Blake? Wenna não respondeu. — Entendo... — Ele estreitou os olhos, conferindo a seu rosto uma expressão ardilosa e felina que a sobressaltou.


— Arrepende-se de não ter feito as malas. — Como diz? — Ela não entendia a que se referia. — Não me engana querida. Pensa me dizer que não alimentava a esperança de acompanhar Andreas aos Estados Unidos? Wenna apertou os lábios, indignada. Como se atrevia a compará-la com o tipo de mulheres que faria uma coisa assim? — Não faça essa cara. Pude ouvir claramente como Andreas contava à vovó que essas eram exatamente suas intenções para você.... Que guarda aí, senhorita Blake? — Milos tinha visto como ela tratava de ocultar algo em sua mão. Wenna retrocedeu assustada, consciente de que ele interpretaria mal o inocente presente do Andreas. Mas Milos era muito rápido e capturou sua mão, obrigando-a a separar os dedos para descobrir o pequeno objeto que encerrava em seu interior. Era uma pulseira de ouro com uma pequena concha, algo que a mãe de Andreas lhe tinha dado quando era criança. Uma espécie de amuleto. Andreas lhe tinha prometido que lhe traria sorte e que a ajudaria a enfrentar aos fantasmas que atormentavam sua alma. Wenna não tinha

confessado

que

os

únicos

fantasmas

que

lhe

preocupavam nesse momento, eram os que amaldiçoavam em grego e tinham os olhos de um tigre furioso. Milos

Kosta

amaldiçoava

nesse

instante

enquanto

observava com desaprovação o presente do Andreas. — Não é nada... — Apressou-se a defender-se, sabendo que seria inútil. Milos já a tinha julgado antes que tivesse a oportunidade de lhe explicar que não havia nada de mal naquele presente. —Não é? —As feições de Milos se contraíam


de ira ao falar. Soltou sua mão como se o contato lhe queimasse e acrescentou com crueldade. Andreas lhe deixou um objeto de seu amor, senhorita Blake? —

Claro

que

não.

Replicou

sem

lhe

olhar,

envergonhada pela brincadeira que havia em seus olhos. — É um amuleto.... Para a boa sorte... Andreas disse que me protegeria. — Protegê-la? Do que.... Ou deveria dizer de quem? — De nada.... Somente me protegeria. — Balbuciou. Por que estava tão furioso com ela? — De mim, talvez? — Milos emitiu uma risada seca e desagradável. Senhorita Blake.... Na verdade, acredita que se quisesse algo de você, essa bagatela do Andreas me impediria de tomá-la? Não seja ridícula. – Eu não... — Você não tem a menor ideia do que sou capaz, senhorita Blake. Cortou-a com brutalidade, empurrando-a para a janela para certificar-se de que Nina ainda estivesse fora

da

casa.

Aproximou

os

lábios

ao

ouvido,

lhe

sussurrando. — E me deixe que lhe diga algo, anjo.... Ou demônio.... Ou o que queira que você seja Rowenna Blake. Tem muita sorte de que apesar de ter demonstrado que é uma insensata, minha oferta siga de pé. — Que oferta...? — Ele não podia falar a sério. Não podia insistir naquela ideia absurda sobre o matrimônio de conveniência.


— Já sabe. — Milos soprou sobre seu cabelo com suavidade, provocando que ela tremesse ao sentir a carícia. — Embora tenha mudado de opinião. Não me arriscarei a que meu encantador primo se arrependa e dê meia volta para fazer da vida de ambos um desastre. — O que...? — Digo senhorita Blake, que quero uma resposta agora. — Seu tom era imperioso. — Casará comigo, anjo? Nada de jogos. Somente sim ou não. Mas se a resposta é não, já pode subir a preparar sua bagagem. Eu mesmo farei que se reúna com Andreas no aeroporto. Wenna não disse nada. Só olhou pela janela. — Pense bem... Veja como triste e suscetível parece Nina, despedindo-se de seu neto preferido, perguntando-se quando voltará a receber uma notícia que a faça feliz... — Ele a confundia de propósito. Wenna não podia afastar o olhar da senhora que permanecia de pé no jardim, apoiada em sua elegante bengala, os olhos aguados pela angústia.... Voltou-se para ele com gesto inexpressivo. — Sim. — Murmurou, enquanto uma vozinha seu interior lhe recordava que estava cometendo uma loucura. — Será que disse sim, senhorita Blake? — Perguntou Milos com uma mescla de brincadeira e surpresa na voz. Depois de alguns minutos em que reinou o silêncio, a porta se abriu e Nina abraçou-a sem dizer nenhuma palavra. Wenna deixou que desafogasse sua pena. – Se alegre, vovó... — Milos as interrompeu, acendendo cerimoniosamente um cigarro e gabando-se de sua vitória ante ela. Nina lhe olhou


sem compreender. — A senhorita Blake e eu acabamos de nos comprometer. Depois que Milos inventasse um romance secreto entre eles para explicar a Nina seu inesperado anúncio, Wenna se desculpou alegando de uma terrível enxaqueca. Fechou-se em seu quarto toda a manhã, perguntando-se se realmente era tão insensata como Milos havia descrito. Tinha que ser para aceitar algo como aquilo. Durante a tarde, Nina tinha reclamado sua presença, já que Milos se ausentou algumas horas de casa. Era óbvio que a idosa era bastante esperta para suspeitar que algo não se encaixava. Ao menos, Wenna esperava ser convincente e faze-la acreditar que na verdade, Milos e ela se amavam em silêncio apesar de seu trato frio na presença de outros. Não desejava ferir Nina. E não desejava enganá-la. Mas lhe parecia que Milos tinha razão em algo. Ela já não tinha outro lar que não fosse a ilha. E Nina precisava ter a segurança de que não a abandonaria também algum dia. — Sente-se aqui, menina... — Nina bateu no sofá, junto a ela e Wenna obedeceu docilmente. – Conte para Nina o que está ocorrendo... Ok? Não confio em meu neto, já sabe. Faria qualquer coisa para que eu morresse tranquila. — Nina, não... — Replicou as bochechas ruborizadas. — Angel... Não deve mentir para mim. – Atalhou e a abraçou calorosamente. – Sei que é uma boa garota. Mas temo que esse meu neto te enrede em suas artimanhas.


— Ele não... — É verdade que está apaixona do por ti? — Como Wenna não respondeu, a anciã franziu o cenho. — E você? O ama? Wenna mordeu os lábios. Se respondesse que sim, mentia para Nina. Mas se respondesse que não, mentia para ela mesma. De repente, compreendeu a gravidade de seu engano. Ela o amava! Amava Milos Kosta.... Como era possível que pensasse sequer nisso, depois do modo como a tinha tratado? Odiou-se por ter sido tão ingênua... parece que era seu destino amar a homens que nunca poderiam amá-la. Tinha sido assim ao conhecer Jason e agora.... Tudo se repetia. Tomou ar com força, assustada pelos

acontecimentos.

Milos

Kosta

não

se

parecia

absolutamente com seu amável cunhado. Ele não era alguém cheio de ternura a quem ela levaria sempre no coração como uma bonita lembrança. Jason tinha sido como um ensaio da dura prova que seria casar-se com Milos, um homem que jamais a corresponderia simplesmente porque a considerava vulgar e inferior. — Entendo... — Nina suspirou. -—Está metida em uma boa confusão, menina. Não é fácil amar ao Milos, já percebeu. —

Não

deve

preocupar-se

comigo,

Nina...

Tranquilizou-a. — Não me preocupo com você, anjo. —Sorriu com uma expressão misteriosa no rosto sulcado de rugas. — É Milos quem me preocupa. Esse arrogante não imagina nem em sonhos o que lhe espera..., mas, bem.... Deixarei que os jovens arrumem suas coisas, meu querido passarinho


assustado.

Wenna

estava

segura

de

que

havia

uma

mensagem nas palavras de Nina. Mas não conseguia captálo. Acaso a considerava uma digna oponente de seu neto? Não sabia, pensou enquanto observava como Nina se retirava para ordenar o jantar. Viu-a sorrir e não pôde afastar de sua mente a ideia de que a notícia a tinha feito imensa e estranhamente feliz. Wenna estava a ponto de deitar-se quando o golpe seco na porta a sobressaltou. Aguardou uns segundos, pensando que possivelmente tinha sido fruto de sua imaginação. Mas não. A madeira rangeu novamente sob os nódulos que a golpeavam com insistência. Murmurou um "entre" e viu como Milos Kosta irrompia no quarto, fechando com cuidado a porta a suas costas. — Estava a ponto de me deitar. — Wenna fechou a camisola até a garganta, ruborizando-se quando o olhar dele percorreu sua figura com descaramento. — Já? -—Milos passeou pelo quarto com lentidão, analisando cada pequeno detalhe. O frasco de água de colônia sobre a penteadeira, a escova para cabelos, a roupa utilizada durante o dia, perfeitamente dobrada sobre a cadeira.... Sua expressão se tornou zombadora ao tomar entre os dedos a pulseira com o amuleto que Andreas lhe tinha dado e que Wenna tinha deixado pendurado de um lado de seu espelho. Olhou-o com desprezo um momento e depois, colocou-o outra vez no lugar. Cravou seus olhos suspeitos nela.


— Pensei que devêssemos falar a sós, senhorita Blake. — Para fazer combinar nossas versões? —Perguntou doída pelo modo em que ele representava ante todos o papel de bondoso senhor rico que fazia as honras, escolhendo-a como esposa apesar de sua inferioridade. — Não será necessário, senhor Kosta. Sou consciente de que saberá dirigir a situação com seu tato habitual. Havia dito ressentidamente e se traduzia em que ele responderia a tantas perguntas como quisesse. E chegado o momento, mandaria ao resto do mundo ao diabo e tão somente a faria sua esposa sem mais contemplações. — Isso era sarcasmo, senhorita Blake? — Milos se aproximou dela com sigilo. —Recordo-lhe que tomou a decisão livremente e sem coações. Poderia mostrar-se ao menos entusiasmada ante a ideia de converter-se na senhora Kosta. Wenna mordeu os lábios. Sem coações... Ele tinha pior memória que maneiras. Esteve a ponto de lhe recordar como a tinha convidado a preparar a bagagem se declinasse de sua oferta. — Mas não era isso do que queria falar. — Adiantou-se Milos, enquanto seus olhos se detinham na boca da jovem. — Temos que acertar alguns detalhes antes da cerimônia. — O que você fizer está bom. — Apressou-se a responder, desejando que partisse e deixasse de observá-la daquela forma. A fazia se sentir muito vulnerável sob o fino tecido de sua camisola. Sua respiração se agitou quando ele


estendeu os dedos para seu rosto para afastar com súbita delicadeza uma mecha de cabelo que lhe caía sobre a fronte. — Não sonha em escolher um bonito vestido, senhorita Blake?

—Inquiriu

Milos,

estreitando

as

pálpebras

perigosamente. ——Todas as noivas sonham. —Sim... – Esquivou seu olhar. —

Amanhã

a

levarei

comigo

e

veremos

o

que

encontramos. — Anunciou ele sem afastar os olhos dos lábios femininos. — E também camisolas novas. Wenna piscou, ruborizada até as pestanas pela intimidade da conversa. — Rowenna... Olhe-se bem. — A voz dele mostrava um novo matiz que ela não soube identificar. —Minha avó jamais acreditaria que me apaixonei por alguém que usa essa sua lingerie. Teremos que procurar algo mais atrevido, não acha? — Está bem. —Respondeu, pensando que ele podia gastar todo seu dinheiro se quisesse. Mas jamais a veria com nenhuma das lingeries intimas que estavam acostumadas a usarem as mulheres que conhecia. Não tinha intenção de que a coisa chegasse tão longe entre eles. — Senhorita Blake.... Acredita que poderia fazer um esforço e não se ruborizar cada vez que a olhe? — Ele esboçou um ligeiro sorriso. Terá que a costumar-se ao fato de que vamos compartilhar a cama. Wenna abriu muito os olhos, espantada. Compartilhar a cama? — Não se alarme. — O tom do Milos se endureceu ao comprovar sua reação. — Prometo-lhe que serão somente duas semanas por ano. O resto do tempo pode desfrutar de


minha cama com gosto. Sempre e quando não for colocando um homem nela, é obvio. — Nós...? — Estava tão preocupada com aquelas duas semanas que ele tinha mencionado e que lhe pareciam uma eternidade, que nem sequer se ofendeu pelo comentário. — Dormiremos juntos? Claro, o que esperava senhorita Blake? Desejo que pareça um matrimônio real, querida. Não pretendia dormir no sofá o resto de meus dias. E por outro lado, não deixarei que você o faça neste quarto e todos se perguntem por que. — Encurralava-a à medida que falava e Wenna retrocedeu até que suas costas encostassem na parede. Milos apoiou ambas as mãos nas laterais de sua cabeça, encerrando-a no círculo de seus fortes braços. A boca dele estava quase sobre a sua e Wenna pôde sentir seu fôlego lhe acariciando o rosto. Wenna tremeu como uma folha. –—Agora mesmo, está perguntando-se o que acontecerá, não é assim, senhorita Blake? Nossa noite de núpcias.... Dou-lhe medo, anjo de Nina? — Não.... Sei que não fará nada contra minha vontade. – Respondeu sem forças, rezando para que fosse tal e como ela dizia. — Tem razão. Não o farei. — A expressão do Milos era indescritível. — Mas poderia fazer que você o desejasse. E então, já não seria contra sua vontade, certo? — Você não... — O que ele insinuava tinha feito que o coração lhe pulsasse desenfreadamente no peito. — Disse que eu não era seu tipo.


— Talvez tenha mudado de opinião, senhorita Blake. — Os lábios dele roçaram apenas a linha de seu pescoço, subindo até sua bochecha e permanecendo uns segundos no lóbulo de sua orelha para que ela pudesse escutar bem o que dizia. — Talvez me pareça terrivelmente atraente depois de converter-se na musa de meu querido primo. O que acha? – Zomba de mim... — Acha isso? —Milos capturou sua mão e a obrigou a colocá-la em seu peito. – Pode senti-lo, Rowenna Blake? —Não... — Tratou de afastar sua mão, mas ele a retinha com força. Sob os nervosos dedos, sentia os batimentos do seu coração. — Podemos ser amigos, anjo... — Sussurrou-lhe ao ouvido. —Não temos que nos condenar à castidade só porque seus princípios ordenem. Acaso não tem curiosidade por saber o que se sente junto a um homem de verdade? Wenna conteve a respiração. Ele devia acreditar que os homens de sua vida a tinham decepcionado terrivelmente. E tinha razão, mas não no sentido que sugeria. Sua única relação séria tinha sido com Jason e com ele, nunca tinha chegado a nada mais que beijos inocentes. Ainda assim, soube que se confessava. Suas humilhações só teriam começado. — Diga senhorita Blake... A sério não pensou nem por um momento? Insistiu ele e viu como ela negava com a cabeça. Durante um instante, sua boca se deteve sobre a boca feminina. Wenna mantinha seus lábios tão apertados que quase tinham perdido a cor, mas quando a boca dele começou a pressionar a sua, entreabrindo-a, todas suas


barreiras se debilitaram. Deixou que a língua dele invadisse o interior, aferrando-se sem querer a seus ombros e ofegando quando a soltou com brutalidade. — Pequena mentirosa.... Veremos o que pensa meu primo quando souber que sua donzela inspiradora cederia ante o primeiro estímulo. Wenna lhe empurrou, furiosa. Então era isso.... Maldito! Só queria lhe demonstrar quanto a desprezava. Esbofeteou lhe com força, contendo a respiração quando Milos cravou seus olhos brilhantes de ira nela, enquanto esfregava a bochecha com expressão incrédula. — Saia de meu quarto. — Ordenou-lhe com voz aparentemente firme. Na verdade, estava morta de medo. Mas não lhe daria a satisfação de reconhecê-lo. — Senhorita Blake... —O tom dele era sarcástico agora. — Considera-me um homem paciente? A pergunta a surpreendeu. O que queria dizer? Paciente? Absolutamente não era. — Não. – Respondeu com fingida segurança. — Bem.... Porque não o sou, querida. E é obvio, não sou dos que esmurram aporta de seu próprio dormitório para exigir a sua esposa que cumpra com seus deveres maritais. Entende? Wenna tomou a bata que havia sobre a cama e se cobriu com ela instintivamente. — Quero que entenda senhorita Blake, já que espero que cumpra obedientemente com esse dever em especial quando nos casarmos.


— Não! — Quase gritou e ao compreender que podia despertar a todos, baixou a voz ao falar de novo. —Você disse que não faria nada contra minha vontade... — Ah, não, meu anjo... — Algo parecido a um sorriso apareceu em seus lábios. — Foi você quem disse isso.... Eu somente concordei que faria o que desejasse tanto como eu. — Não permitirei... — O que? Que a toque? Querida.... Sinto-me tentado a seduzi-la agora mesmo somente pelo prazer de ver como irá se torturar de arrependimento amanhã. — Senhor Kosta, eu... Irei... Juro que o farei... — Tampou a face com as mãos ao ver como ele levantava sua mão para ela. Mas Milos só deslizou os dedos com suavidade sobre seu nariz, retirando-os imediatamente ao notar como ela tremia atemorizada. — Não o fará e sabe. Por minha encantadora avó, lembra? — Você não... —Senhorita Blake... Trate de não pensar muito nisso, ok? Simplesmente, vejamos o que acontece quando chegar o momento. Milos caminhou para a porta, mas antes de sair, pegou a pulseira que pendia do espelho e guardou o pendente em seu bolso. Olhou-a com expressão séria. — Não vai precisar disto, Anjo. Prometo que cuidarei bem de você. Mas Wenna não estava segura de que ele tivesse intenção de facilitar as coisas. Parece que as velhas e


amargas lembranças da traição de Andreas, reviviam nele o desejo de vingar-se. Sem dúvida, ele estava convencido de que havia algo mais que uma sincera amizade entre os dois e pretendia aproveitar a ocasião para ressarcir-se pelo passado. OH, Deus... O que ia fazer? Como permanecer na casa, junto a Nina e outros, sem que isso significasse suportar as humilhações do Milos? Sentiu-se duplamente apanhada. Porque, além disso, tinha compreendido ao beijá-la, que Milos Kosta a fazia vibrar sob seus lábios. O que significava? Como podia amar a um homem que só sabia mostrar seu lado mais cruel, que a atormentava continuamente sem motivo?


Nana lhe pediu que lesse em voz alta o telegrama que acabava de receber. Era de Andreas e os olhos da anciã ficaram marejados ao escutar seu nome. Faziam apenas duas semanas que tinha partido e já sentiam terrivelmente sua falta. "Querida

Rowenna:

Recebi

sua

carta,

onde

me

anunciava suas inesperadas bodas. Já sabe que não sou o fã número um de meu primo. Mas desejo com todo meu coração que Milos e você sejam muito felizes. Lamento não poder estar no dia da cerimônia, já que minhas obrigações em meu novo trabalho me impedem. Ainda assim, receba todo meu carinho para os dois. PS: Por favor, dê um milhão de beijos em Nana por mim. Quero-lhes muito, Andreas". É obvio, não tinha lido todo o conteúdo da nota. Reservou-se para a intimidade, a parte em que Andreas lhe dizia que se tornou louca de vez. "Wenna, perdeu a cabeça? Me diga que é uma brincadeira e correrei para te salvar assim


que puder tomar um avião. Se não for assim, diga a meu insípido primo que jamais lhe perdoarei que tenha tido mais sorte que eu". A última frase tinha sido escrita em tom de humor e Wenna sorriu para si mesma ao relê-la a caminho para o jardim. Tão absorta estava, que não reparou no homem que a observava fixamente a poucos passos. Milos tinha o cenho franzido e estalou a língua contrariado quando ela tropeçou com seu peito. Wenna amassou o papel e ocultou em suas costas, consciente de que ele ficaria furioso se descobrisse. Na verdade, pensou, qualquer motivo era bom para que ele enfurecesse. — Andreas deseja que sejamos muito Comentou,

sentindo-se

estúpida.

Milos

a

felizes. —

olhava

com

expressão reprovadora. — Nos escreveu um telegrama E.... — Me deixe ver. — Estendeu sua mão com a palma para cima, esperando que ela depositasse ali a nota. Ao ver que ela titubeava, apertou os lábios. — Senhorita Blake.... Por favor. Wenna obedeceu, temerosa de que se não o fizesse, sua reação seria pior. Aguardou que a lesse, fechando os olhos quando ele a rasgou, lançando depois os pedacinhos de papel sobre sua face. — Muito felizes? — O tom do Milos era frio. —Minha querida e assustada noiva.... Na realidade se sente com coragem para enfrentar a esta provocação? — Não sei o que... — Balbuciou. — Rowenna, só perguntarei uma vez mais. Quer fazer as malas e perseguir Andreas pelo mundo o resto de sua vida?


Ela pensou uns segundos. Claro que não queria fazer algo assim... Mas, não podia ao menos mostrar um pouco de amabilidade com ela? Era tudo que lhe pediria se tivesse a coragem de fazê-lo. Negou fracamente. — Bem. — Milos parecia satisfeito, embora suas feições continuassem contraídas pela raiva. — Então, não volte a ter segredos para mim. Não espero que me ame, senhorita Blake. Mas não tolerarei que você e Andreas ou qualquer outro homem, convertam-me no bobo da ilha. Entendeu, Rowenna Blake? — Perfeitamente. — Respondeu com um fio de voz. — Fico feliz em escutar isso. Porque se descobrir que me engana... — Tirou algo de seu bolso e o mostrou. Era um convite de casamento, com nomes elegantemente rabiscados em letras douradas. — Acredite, esse idiota do Jason Crawford lhe parecerá um verdadeiro encanto comparado comigo. Wenna empalideceu ao compreender. — É obvio, que não pretendia levá-la ao altar sem a inestimável companhia de sua família, senhorita Blake. — Anunciou ele, enquanto analisava a expressão da jovem. — Acaso me considera um selvagem sem sentimentos? Milos zombava com crueldade. Wenna adivinhou por seu olhar, que ele tinha indagado o suficiente em sua vida para saber os motivos que a tinham levado a afastar-se de seu lar. Como era de esperar, ele já a tinha condenado. Já tinha decidido que era um ser desprezível por haver se


apaixonado pelo marido de sua própria irmã. Entretanto, Milos não podia saber que já o amava antes que Kate e Jason se conhecessem. E não teve forças para tentar explicar-lhe. — Não se alegra? — Perguntou Milos, arqueando as sobrancelhas com ironia. — Muito. — Mentiu, mas não lhe enganou a julgar pela risada irônica dele. Acrescentou raivosa. —Agradeço-lhe por sua consideração. -—É um prazer fazê-la feliz. — Milos a deixou plantada. Wenna andou em círculos, inquieta. O que ia fazer? Como ia enfrentar o Jason ao mesmo tempo que se unia em matrimônio com aquele homem insensível? Era muito até para alguém que como ela, acostumada às adversidades da vida. Tentou não dar mais voltas. No dia seguinte, seria a esposa do Milos Kosta. Sua esposa! Sentiu o impulso de fugir. Mas, para onde? Para uma vida novamente vazia? E Nana? Como podia afetar a seu cansado coração o fato de que ela desaparecesse de suas vidas? Jamais se perdoaria se algo acontecesse a Nana por sua culpa. A chegada de tia Alice e o resto de sua família alvoroçou a casa durante a manhã. Além disso, os preparativos do casamento que se celebraria a tarde na pequena igreja do povoado, fez com que todos despertassem muito cedo. Wenna não pode conter as lágrimas ao ver descer tia Alice do táxi que Milos tinha enviado ao aeroporto para busca-los. Ela também estava profundamente emocionada e a abraçou com força assim que chegou perto. Depois, Kate a tinha saudado


com frieza e Jason... Ele nem sequer a tinha olhado antes de entrar na casa. Não lhe culpava por isso. Era uma surpresa para todos, especialmente para ele, que até então tinha certeza de ser o protagonista de suas fantasias mais íntimas. Um pouco mais tarde, quando os recém-chegados estavam acomodados em seus respectivos quartos, Kate entrou em seu quarto. Fez sem chamar, empurrando a porta com brutalidade. Era seu comportamento habitual desde que a tinha convertido em seu inimigo número um. Por alguma razão e embora devesse ser ela a que se sentisse ofendida e traída, Kate estava ressentida. Possivelmente temia que algum dia Wenna tentaria lhe arrebatar seu adorado marido. Nada mais longe de sua intenção. Wenna acreditou que aquela era uma oportunidade perfeita para lhe demonstrar que Jason Crawford já não fazia parte de seus sonhos. — Quem poderia dizer! —O tom de Kate era sarcástico. Sentou-se na cama, afastando com idêntica brutalidade o vestido de noiva que Wenna tinha esticado cuidadosamente. Wenna mordeu os lábios. Era evidente que Kate estava realmente furiosa. — Também me alegro em te ver, Kate. — Disse-lhe, esforçando-se para que seu tom soasse mais conciliador que o de sua irmã. —

Sério?

Inquiriu

enquanto

arqueava

as

sobrancelhas. – Acho que te alegra de que Jason esteja aqui para ver esta pantomima.... Que espera que faça Wenna? Acha que quando o sacerdote fizer a pergunta crucial se


alguém tiver algo que objetar a essa união, ele se levantará e confessará diante de todos quanto te ama? — Não seja ridícula, Katie. —Chamou-a carinhosamente pelo nome com o que se dirigia a ela antes de conhecer Jason.... Antes que fossem rivais. —Sabe muito bem que Jason só tem olhos para ti. Casou-se contigo, lembra? — Sim, fez. E você ainda me odeia por isso, não é? Wenna se aproximou dela e em um ato completamente espontâneo que surgiu do mais fundo de seu coração, abraçou-a. De repente, Katie era outra vez a menina mimosa que soluçava em seu ombro. Acariciou seu cabelo com ternura. "Pobre Katie", pensou. Devia ser muito duro para ela viver com aquele peso na consciência. Talvez por esse motivo, mostrava-se zangada e agressiva. — Não chore, Katie... —Sussurrou-lhe. —Não é nada... — OH, Wenna... — Desfez-se do abraço para olhá-la. Suas

feições

estavam

contraídas

pela

pena

e

o

arrependimento. — Sou um monstro... Saiu de casa por minha culpa.... Te causei tanto dano..., mas não pude evitálo, entende? Amo ao Jason... E agora, não deixo de pensar que vai casar com um estranho e que viverá aqui.... Tão longe.... É tudo minha culpa! Tia Alice nunca me perdoará. E você tampouco. — Claro que não.... Não tenho nada que te perdoar, Katie. — Tranquilizou-a, compreendendo quanto a queria apesar de tudo o que aconteceu. — Não é culpa de nenhuma das duas que Jason e você se apaixonaram. E não quero que


pense mais nisso, promete? Somente quero que voltemos a ser amigas, Katie... — Como pode dizer isso? Como pode pretender que não me sinta mal? Olha para você, Wenna.... Nem sequer parece feliz no dia de seu casamento.... Você não ama a esse homem. E ele.... Não, não, esse Milos Kosta parece tirado de um filme de terror... — Aferrou-se a ela outra vez, soluçando desconsoladamente.

—OH, Deus.... Jure que não vai se

casar com ele por outros motivos que não sejam por amor. — Juro, Katie. — Estava sendo sincera ao fazê-lo. Na realidade, já era tarde para enganar a si mesma. Milos Kosta podia ser arrogante e desprezível em ocasiões. Mas estava tão dentro de seu coração que agora não entendia como alguma vez tivesse confundido o sentimento que Jason lhe inspirava com o que sentia agora. O certo é que já não estava segura de que aquele sentimento tivesse sido amor. Mas estava convencida que a dor que Jason tinha lhe causado não seria nada comparada ao que sentiria quando Milos Kosta lhe dissesse algum dia que já não precisava mais dela em sua vida. Não o disse a Kate para não a entristecer ainda mais. — Poderá gostar de mim novamente? — Os preciosos olhos do Katie se abriram e fecharam várias vezes, fazendo que as lágrimas corressem por suas bochechas. —Não posso mais suportar que não nos falemos Wenna... — Nunca deixei de te querer, Katie.... É minha irmã e sempre será... — Apertou-a contra seu peito e de repente, aquele dia que esperava que fosse triste e sombrio, tornou-se


cheio de colorido. Reconciliar-se com Katie era o melhor presente de casamento que podia ter imaginado. Pensou que Milos não tinha conseguido desta vez sair-se vitorioso. Se sua intenção era provocar um enfrentamento entre ambas, a coisa não podia ter saído mais torta para ele. O faria saber assim que tivesse a oportunidade e a coragem necessária. — Wenna, esse homem.... É terrível inclusive quando não fala... — Kate baixou a voz. — Promete que se não for feliz, voltará para casa? Por desgraça, nenhuma das duas percebeu que Milos estava de pé junto à porta. Observava-as como se no interior daquele quarto, as duas mulheres celebrassem um ritual no qual ele era o sacrifício principal. — Não sofra, Kate. —A voz dele denotava sua irritação pelas palavras que acabava de escutar. — Tem minha palavra de que se isso ocorrer devolverei sua inocente irmã inteira. — Senhor Kosta! ... — Kate se ruborizou, envergonhada. Wenna simplesmente encolheu os ombros. Acostumada a seus comentários grosseiros, pareceu-lhe que aquele tinha sido quase amável dada as circunstâncias. — Não pode ver o vestido da noiva antes da cerimônia... Kate saiu correndo da habitação, fechando a porta atrás dela. Mas não o bastante rápido para que Wenna não percebesse a dureza no olhar do homem. Agora, tinha um novo motivo para desprezá-la. A cerimônia foi celebrada na mais estrita intimidade. Sua família, Nana, os empregados da casa e uns poucos


vizinhos curiosos que se perguntavam quem era a mulher insignificante que saía da igreja de braço dado com o atraente Milos

Kosta.

Tinha

pronunciado

um

sim

que

soava

atemorizado e inseguro. Ele de sua parte, havia dito com determinação. Depois, reuniram-se no jardim, onde tinha sido preparada uma espécie de festa privada. Nada ostentoso, já que assim tinha pedido Wenna expressamente. Não desejava converter aquelas bodas em um acontecimento social. E não desejava ver desfilarem ante ela um sem-fim de desconhecidos se perguntando por que alguém como Milos Kosta tinha escolhido por esposa alguém como ela. Na verdade, não desejava mais hipocrisia que a daquele enlace. Por isso, alegrou-se quando todos se retiraram logo que anoiteceu. Estava cansada. De sorrir e de fingir que tudo estava bem, quando a única coisa que queria era que aquilo terminasse quanto antes. Despiu-se rapidamente e vestiu uma de suas velhas camisolas de propósito. Soltou o cabelo daquele coque que lhe oprimia a nuca e lavou bem o rosto antes de meter-se na cama. Rezava para que seu aspecto fosse deplorável. Deu uma olhada a seu redor. Sua nova cama.... Sentiu-se estranha entre aqueles lençóis de seda que Kalina tinha colocado em honra aos recém-casados. Fechou os olhos, consciente de que a qualquer momento Milos poderia aparecer. Ele tinha deixado bem claro.... Esperava que cumprisse especialmente com esse dever. A pergunta que agora a torturava era, estaria à altura de suas expectativas? Não teve tempo de pensar. Milos entrara silenciosamente no quarto e se despia com lentidão junto à cama. Desfez-se do


terno e a camisa. Ouviu-lhe rir quando ela, adivinhando que as calças seguiriam a mesma sorte que o resto dos objetos, apressou-se a apagar a luz do abajur. Na escuridão, pôde escutar o som das calças ao cair no chão. Não quis pensar nisso enquanto sentia como o colchão se afundava sob o peso do corpo do Milos. Estaria completamente nu? Mordeu os lábios, nervosa e excitada ao mesmo tempo. A perna dele roçou

suas

coxas

ao

mover-se

e

instintivamente,

se

aconchegou a seu lado. Fingiu que dormia, controlando sua respiração e apertando com força as pálpebras. — Rowenna? — A voz dele era um murmúrio muito perto de seu ouvido. Milos tinha girado para ela e mantinha um cotovelo apoiado sobre o travesseiro. Observava-a quase maravilhado pela forma deliciosa com que ela se propunha lhe ignorar. —Não pretende que eu acredite que irá dormir em nossa noite de núpcias, verdade? Wenna conteve o fôlego. Mas não moveu um músculo — Não pôs sua camisola nova. — Comentou ele, no fundo divertido pela situação. Estava convencido de que cedo ou tarde, ela cederia a seus desejos. A questão era que não estava seguro de querer que fosse daquele modo. Havia dito mil vezes que se ela preferia sonhar acordada com Andreas ou com aquele mequetrefe do Crawford, não era problema seu. Tinha decidido que a teria de qualquer maneira. Entretanto, ao vê-la ali, assustada e encolhida como um cervo assustado.... Parecia tão frágil, tão necessitada, que se sentiu desprezível. — Será sua estratégia a partir de agora, senhorita Blake?


Como ela não respondia, Milos colou seu corpo ao dela, sentindo como estremecia ao contato com seu peito. — Diga, será? —Insistiu e ela virou por fim o rosto, compreendendo que não lhe enganaria por mais que fingisse não lhe escutar. Milos a olhou fixamente, deixando que seus olhos percorressem depois cada linha de sua face. O rosto limpo e suave, os olhos brilhantes pelo medo, o nariz pequeno e arrebitado, a boca.... Deteve-se nos lábios femininos, reprimindo o impulso de apoderar-se deles sem pensar em nada mais. O que faria a educada senhorita Blake? Pensou. Esbofetearia lhe? Saltaria da cama para enfrenta-lo? Ou pelo contrário, responderia docilmente a suas carícias e se entregaria sem reservas? Era difícil conter-se enquanto lhe olhava

com

aquela

expressão

digna

e

resignada,

lhe

desafiando a se comportar como o bruto insensível que era. — Não sei do que me fala. —Respondeu ela em voz baixa. — Não sabe? —Seu tom era sarcástico. Roçou com os dedos o tecido daquela camisola que a cobria dos pés à cabeça. — Rowenna, seu propósito era ficar horrível para esfriar minha paixão? — Claro que não... —

Está

mentindo!

Atalhou

com

repentina

brutalidade. — Mas lhe direi algo, Rowenna Blake.... Ao vê-la com essa camisola horrível, só consigo pensar no quanto vou desfrutar em tirá-la e ver o que há debaixo. — Não fala a sério...


—Claro que sim, anjo. Ela tremeu ao sentir novamente seus dedos, desta vez deslizando por seus quadris ao mesmo tempo em que subia o tecido que os cobriam. — Basta, Senhor Kosta... por favor... Milos se deteve. Uma parte dele desejava chegar até o final. Desejava apagar de uma vez por todas a lembrança de qualquer homem que tivesse posto suas mãos sobre ela. Mas aquela mulher... intuía que não era como as demais. Sabia que se fizesse algo assim, ela não o perdoaria jamais. E possivelmente não lhe importava que o fizesse. Então, o que lhe freava na verdade? Franziu o cenho, aborrecido consigo mesmo por aquela debilidade que nunca tinha sentido até conhecê-la. — Rowenna, acredito que chegou o momento de... — Começou a dizer, mas calou quando descobriu o temor nos olhos dela. – Pararmos com as formalidades, querida... será mais convincente se deixarmos de nos tratar como dois estranhos, não acha? — Está bem, senhor Kosta... — Aceitou ela, exalando um suspiro de alívio quando ele se afastou para deitar-se de barriga para cima em seu espaço. — Tudo bem se começarmos a praticar esta noite? — Perguntou Milos com certa ironia. — Eu serei Milos e você será Rowenna... minha doce e virginal esposa. Que parece disposta a tudo para que mantenha minhas mãos longe dela, equivoco-me?


— Não... não se equivoca... — Titubeou, consciente de que ele estava se esforçando por manter a calma. — É que eu... não estou preparada, senhor Kosta... — Milos. — Recordou-lhe com impaciência. — Não está? E quando calcula que estará querida? Tem uma data? .... É obvio não tem que ser exata. Um pouco aproximado... Dias, uma semana, um mês...? Wenna não respondeu e Milos apertou as mandíbulas contrariado. — Algo mais.... Um ano talvez? – Tinha perguntado com raiva e Wenna cobriu o rosto com as mãos, esperando que ele dormisse logo e deixasse de acossá-la com suas perguntas. — Está

bem.

Por

esta

noite,

comportarei-me

como

um

cavalheiro. Mas vou adverti-la, Anjo, que não tenho intenção de fazer voto de castidade para te fazer feliz. Assim resolva seus conflitos emocionais o quanto antes. E quando crer que está preparada, me avise. Será um prazer cumprir com meus deveres conjugais, asseguro-lhe isso. — Não vai a....? Milos

se

voltou

para

ela

um momento.

A

boca

entreaberta dela apanhou seu olhar sem remédio. Beijou-a com ferocidade, soltando-a imediatamente ao notar como seu corpo miúdo se esticava ao receber a brutal carícia. Sossegou como pôde a voz de sua consciência, que não cessava de lhe gritar quão insensível tinha sido. — Não, não vou te tomar pela força, satisfeita? — Rugiu, ignorando com muita dificuldade o fato de que ela estava ali,


na mesma cama, a seu lado.... Devia ter ficado louco ao pensar que Rowenna Blake era alguém a quem poderia dominar. Como se nem sequer podia dominar a si mesmo enquanto a imaginava, compartilhando sua cama, seminua? — Tente dormir, ok? — Você.... Você... —Corrigiu-se ao escutar outra vez o som rouco que provinha do homem. — Está zangado? — Zangado? —Soltou uma gargalhada desagradável. — Essa não é a palavra, querida. Mas não iria querer escutá-la, acredite. Machucaria seus puritanos ouvidos de menina bemeducada. — Eu... — Dorme. —Ordenou. E Wenna obedeceu, sabendo de que se não o fizesse, só conseguiria lhe enfurecer ainda mais, se é que isso era possível. Wenna lhe observou com dissimulação. Milos repassava os documentos que seu assistente acabava de lhe trazer. Estava aparentemente concentrado em seu trabalho, por isso ela podia olhá-lo sem temer que ele fizesse algum comentário desagradável ou jocoso sobre sua repentina curiosidade. Tinha se passado apenas uma semana desde que se casaram e já se sentia como uma autêntica esposa. Claro que ele tinha mantido sua promessa de não a tocar e isso tinha contribuído para que ela visse por fim seu lado mais humano. Por outro lado, se preocupava que ficasse todo o dia encerrado em seu escritório. Não pretendia lhe interromper quando outros se sentaram à mesa para almoçar. E Milos tinha sido muito


amável no dia anterior ao oferecer a Jason seu carro para que levasse Kate, tia Alice e ela para conhecer a ilha durante a tarde. Wenna mordeu os lábios com nervosismo. Nem sequer se atrevia a chama-lo como lhe tinha ordenado que fizesse. Na intimidade, ele seguia sendo o senhor Kosta, alguém sem coração que jamais compreenderia os sentimentos que fazia aflorar nela.... Então, era possível, somente possível, que Milos estivesse fazendo tudo aquilo por ela e não só para parecer o perfeito anfitrião ante seus convidados? A tristeza a invadiu ao pensar que sua família partiria em umas horas e que então, outra vez estaria sozinha. —

Aconteceu

alguma

coisa?

A

voz

dele

a

sobressaltou. Milos tinha levantado o olhar de seus papéis e a observava com o cenho franzido. —Nana está bem? — Sim.... Muito bem. ——Tranquilizou-o com um sorriso. — Agora mesmo está no jardim com tia Alice. Ela e Katie estão tentando introduzi-la no perigoso mundo do jogo enquanto esperam que chegue o táxi que pedimos. Milos deu uma olhada pela janela. Nana aplaudia ruidosamente ao ganhar mais uma vez a partida de cartas. — Vou me despedir deles em seguida. — Anunciou, fechando sua pasta e acendendo um cigarro. Por um momento, Wenna acreditou ver um sinal de compreensão em seus olhos. Claro que em seguida, soube que estava equivocada. —Suponho que sentirá falta deles. Em especial, desse cunhado que não deixou que te adorar todo o tempo com o olhar.


— O que diz é repugnante! — Wenna apertou os punhos, furiosa. Por que se comportava assim? Jason tinha sido correto durante sua estadia.... Não tinha sido? As dúvidas a assaltaram. E se ele tinha razão? E se Katie retornasse para casa com a impressão de que ela tinha feito algo para despertar o interesse de Jason? Disse-se que felizmente, Jason não era tão estranho como Milos. —

Sério?

——Milos

arqueou

as

sobrancelhas.

Lamento que esteja triste, querida. Mas a realidade, é que esse cara não te merece. Se a amasse, não teria ficado de braços cruzados enquanto outro coloca uma aliança em seu dedo, não acredita? — Jason é feliz junto a Katie. —Replicou, com as bochechas coradas pela raiva. — E não tem direito a falar assim dele... Não o conhece, não sabe nada dele, nem de mim... Jason só fez o correto. — Tem razão. Não sei. — Segurou sua mão para evitar que fugisse e se juntasse aos outros no jardim. — Mas te direi algo, anjo.... Um homem de verdade luta pelo que ama. Até um tipo desprezível como eu, sabe algo tão elementar. — Como poderia...? Só ama a si mesmo... – Recriminouo, doída por suas palavras. — É possível. — Aceitou, sorrindo com expressão maliciosa. — Mas eu tenho você e ele não. Capta a diferença entre os dois, querida?


— Sim... — Soltou-se com brutalidade, esfregando a mão. — A diferença é que Jason nunca me trataria como se não se importasse com meus sentimentos. — Ele já fez isso, Anjo. — Milos assinalou o veículo que nesse momento estacionava em frente à casa e se voltou para ela. — Escolheu Katie. Será melhor nos apressarmos. Seu príncipe e seu séquito partem. Wenna correu para o jardim, abraçando Katie com desespero e tratando de controlar os soluços. — Vamos, Wenna.... Não chore. — Katie a beijou na bochecha. — Prometo que viremos te visitar logo... E você e Milos podem vir nos ver quando quiserem... — Eu te amo, Katie... — Deixou que tia Alice e ela entrassem no táxi, enquanto Jason terminava de guardar a bagagem na parte traseira. Depois, estreitou sua mão com brevidade. Mas ao fazê-lo, ele a reteve mais tempo que necessário. Seus olhos se encontraram com os dela. — Vêm conosco. — Pediu-lhe, aproximando seus lábios aos

dela.

Beijou-a

fugazmente

e

Wenna

se

afastou,

envergonhada. Milos observava a cena a escassos passos. — Não pode ser feliz aqui. — Não... — Nós somos sua família, Wen... — Tinha pronunciado seu nome como estava acostumado a fazê-lo antes que ele e Katie se casassem. Odiou-lhe por ser tão débil, por render-se à tentação de uma lembrança que já não era mais que isso.... Uma formosa lembrança de algo que jamais tinha sido amor.


— E eu sou seu marido, Crawford. Assim ela fica. — O tom de Milos era gelado. Interpôs-se entre eles, estreitando com excessiva força a mão de Jason. — Volte com sua bela mulher e lhe economize está penosa cena, ok? Empurrou-lhe para o interior do veículo e agitou sua mão para o interior. Wenna permaneceu um bom momento no caminho, vendo as pessoas que amava afastarem-se de seu novo lar. Ao cabo de uns minutos, Milos rodeou sua cintura possesivamente e a conduziu ao interior da casa. Nana os seguiu. Disse que estava cansada e que preferia jantar algo leve em seu quarto. Beijou-a antes de retirar-se e Wenna esperou com resignação as recriminações de Milos. Ele analisava sua expressão. O rosto inexpressivo, o queixo erguido com altivez e os lábios apertados e sem cor.... Maldito Crawford! Tinha sido um idiota preparando aquele estúpido reencontro. — Ainda o quer? — Perguntou com frieza. — Não. — Wenna foi mais sincera do que queria. Não desejava que ele conhecesse os segredos de seu coração e aproveitasse para feri-la. Mas não fazia nenhum bem a Katie inventando uma história de amor que não existia. Milos Kosta era muito capaz de algo para demonstrar quem era. — Nunca o quis na verdade. Embora durante um tempo, pensei que fosse assim. — Mas permitiu que a beijasse diante de todos.... Acaso não tem escrúpulos?


— Só foi um beijo de despedida. – Replicou. — Mas já que o menciona, surpreende-me que alguém como você se atreva a.... — Será melhor que não continue, querida. — Milos a apontou com o dedo, ameaçador. — O que pensa fazer, senhor Kosta? — Wenna se armou de coragem, compreendendo que era sua oportunidade para lhe fazer ver que não toleraria mais humilhações. — Me castigar sem o jantar? A expressão do Milos se endureceu. — Já veremos se é tão valente.... Quando a porta de nosso quarto se fechar esta noite, senhorita Blake. — Sentenciou antes de deixá-la sozinha. Wenna soube que acabava de cometer um terrível engano.


Apesar de sua ameaça, Milos parecia ter sido tragado pela terra. Wenna tinha se cansado de vigiar a porta e finalmente, o cansaço a venceu. Em seus sonhos, Milos Kosta não era arrogante nem cruel. Em seus sonhos, ele a tomava em seus braços com suavidade e lhe sussurrava palavras cheias de ternura ao ouvido. Despertou sobressaltada ao escutar como a porta se abria com brutalidade. Acendeu o abajur de sua mesa e se endireitou sobre o travesseiro, cobrindo-se com o lençol até o queixo. Deu uma rápida olhada ao relógio. Os ponteiros de relógio marcavam três da madrugada. Desviou o olhar para a porta, observando com desgosto como ele recolhia a fechadura de aço que tinha caído ao chão por causa do golpe. Viu-o fechar a porta atrás de si, encaixando-a com impaciência. — Não estava trancada. —Informou-lhe com uma ironia que somente disfarçava seu temor.


— Amanhã mandarei arrumar. — Respondeu ele e se aproximou da cama para se despir e meter-se nela. Wenna apagou novamente a luz e fechou os olhos, evitando assim a visão de sua impressionante anatomia masculina. Prometeu que não se renderia sem lutar. Entretanto, a respiração de Milos acariciava sua nuca com insistência... — Estava certo de

que

havia

trancado

a

porta

a

chave,

dadas

as

circunstâncias. Ela percebeu o forte aroma de álcool e rezou para ele fosse do tipo de homens que adormeciam ante seu efeito. Por desgraça, Milos não parecia nem sequer afetado. A ideia a desesperou. — Está bêbado! — Acusou com um fio de voz. —Claro que não, minha querida esposa. Esperava ter essa sorte? Wenna inclinou o rosto sobre o travesseiro e ao fazê-lo, seus olhos encontraram os dele na penumbra. — Se quer consumar nosso matrimônio, pode fazê-lo.... Pode ter meu corpo, Milos Kosta..., mas nunca terá meu coração. E nunca será meu dono. — Havia dito tudo de repente, tratando de parecer segura e confiante. Embora a verdade é que todo seu ser tremia descontroladamente consciente de sua proximidade. — Seu coração.... Seu dono...? —Ele repetia as palavras imitando o tom da jovem. Escutou sua risada seca. — Querida, não sou tão ambicioso.


Milos deixou que seus dedos percorressem as feições femininas com lentidão. Depois, aqueles dedos quentes e fortes, desceram por sua garganta, fechando-se sobre ela como grilhões que apenas lhe permitiam respirar. Com sua mão livre, afastou os lençóis e passando o braço por cima de sua cabeça, fez que a luz banhasse sua figura unicamente coberta pela recatada camisola. Wenna mantinha os olhos fechados. Supôs que aquela noite, ele a tomaria para castigála por ter tido a ousadia de lhe desafiar. Seria algo rápido e na manhã seguinte, nenhum dos dois voltaria a falar do acontecido..., mas uma vez mais, Milos a surpreendeu, despojando-a com inusitada delicadeza do tecido que a envolvia. Ela não podia vê-lo. Mas os olhos do homem reluziam como duas brilhantes esferas escuras em metade do rosto sombrio. Observava-a em silêncio, tentando ver um sinal que lhe dissesse que ela também o desejava. Era tão bela que doía olhá-la, pensou, tentado por um instante a abandonar suas intenções iniciais. — Jamais o perdoarei... — Ouviu-a murmurar e todos seus bons propósitos se esfumaram. Capturou sem piedade aquela boca que se abria para exalar um suspiro de resignação. Ao afastar sua boca, viu como ela levantava seus dedos para tocar os lábios machucados pela brutal carícia. As lágrimas rodavam por suas bochechas e lhe conferiam um aspecto tão necessitado que Milos teve que reprimir o impulso de as retirar com os mesmos lábios que tinham sido causadores de sua dor. Mas ela se afastou imediatamente,


segurando outra vez o lençol com dedos duros. Ficou estirada sobre a cama, imóvel como uma estátua... — Anjo... não tem que ser desta maneira. — Disse com a voz rouca pelo desejo. Inclinou-se sobre ela para admirar encantado aqueles olhos que agora enfrentavam abertamente aos seus. — Só pode ser desta maneira. — Matizou em um tom débil e desiludido. Mentalmente, acrescentou: "Porque não me ama". — Mas juro Por Deus que nunca o perdoarei. — E se te dissesse que não aspiro ser perdoado? Feriria seus sentimentos, Rowenna Blake? — Seu fôlego lhe golpeava a face ao falar. — Nada do que diga ou faça pode me ferir. — Replicou e acrescentou para lhe incomodar. — Não tem tanto poder sobre mim, senhor Kosta. — Está segura? — Milos não permitiu que respondesse. Já não podia pensar em continuar com aquela ridícula discussão. Só queria fazê-la calar e conseguiu ao apoderar-se novamente de seus lábios. Mas desta vez não havia raiva em sua carícia. Suas mãos eram delicadas enquanto se moviam sobre o corpo dela, descobrindo lugares e sensações que Wenna nem sequer sabia que existiam. Ele sorriu ao escutar um leve gemido de prazer. Obrigou-a colocar as palmas em seu peito, avermelhando quando os dedos se enredaram timidamente no escasso pelo que o cobria. Seu perdão? Não era isso o que esperava dela. Na realidade, não sabia que esperava dela... Só sabia que percebia cada centímetro


daquela pele suave e fresca estremecendo sob suas mãos. E que tinha que fazê-la sua nesse instante ou ficaria louco. A voz de sua consciência lhe importunou no preciso instante em que estava a ponto de fazer realidade o que tanto desejava. Olhou-a longamente. — Rowenna? Ela não respondeu. — Me olhe, Rowenna.... Deseja que eu pare? Mais silencio, mais da fingida indiferença que lhe enfurecia por momentos. — Bem. — Concluiu e Wenna não pôde ver sua expressão séria na penumbra. — Porque esta noite será minha

mulher,

possivelmente,

minha

agonia,

possivelmente,

meu

paraíso...

converta-me

em

E seu

inferno..., mas, sabe o que, senhorita Blake? Ao diabo se me importa! Wenna já não escutava nada, salvo sua própria respiração agitada que se mesclava com a dele. Muito mais tarde, enquanto ele dormia ao outro lado, alheio aos pensamentos que cruzavam sua mente, Wenna chorou amargamente. Pensou que jamais confessaria. Não conhecia aquele inferno do qual ele falava. Mas estava certa de que não era esse. Não podia haver nada de mal no modo terno em que a tinha feito dele... Soluçou, apertando os lábios ao compreender que estava perdida. Amor... Milos Kosta não a amava. Pelo contrário, ela se entregou a ele com todo seu coração. Quanto tempo demoraria para Milos descobrir? Ele


tinha sido muito claro a respeito.... Não necessitava de uma esposa. Necessitava de alguém que cuidasse e ficasse com Nana durante suas longas ausências. Por isso a tinha escolhido. Porque podia dispensá-la no mesmo instante em que sua presença já não fosse útil. Tampou a boca para afogar os soluços. Não queria despertá-lo. Entretanto, ele ainda não tinha conseguido conciliar o sono e só fingia dormir para não a atormentar mais. Rodeou a estreita cintura para tranquilizá-la, mas ao notar como ela tremia, afastou-se com brutalidade. Maldita seja! O que tinha feito? Seu pranto era tão angustiante que lhe rasgava a alma.... Até esse momento, nem sequer sabia que tinha alma. Uma alma e um coração que palpitavam em seu interior ante o descobrimento de sua inocência. Por que não tinha contado? .... Odiou-a e se odiou. Odiou a todos os Jason Crawford do mundo que faziam que mulheres belas e nobres como ela sonhassem entregando-se pela primeira vez a príncipes imaginários. Ele era o menos parecido com isso. Era brusco e arrogante. E a tinha tratado como ela certamente não merecia, guiado por seus próprios temores. Pareceu-lhe que esse Crawford era desprezível porque a tinha marcado sem remédio. Agora, ela se sentia humilhada e triste. Provavelmente, ainda suspirava de amor ao recordar a apaixonada despedida daquele miserável.... Talvez tivesse imaginado que eram as mãos do Jason que a acariciavam na escuridão... A fúria se apoderou dele. — Tenta dormir, meu anjo. — Cuspiu as palavras iradas contra seu cabelo. E acrescentou com sarcasmo — Prometo


ser um cavalheiro o resto da noite e não me zangar se me for infiel em seus sonhos. Wenna não disse nada. O que podia dizer? Deixou que ele acreditasse no que lhe parecesse. De todas as formas, não tinha mentido com respeito à opinião que lhe merecia. Considerava-a pouco atrativa, vulgar e desamparada. E ao levá-la ao altar, não lhe tinha feito promessas que não estivesse disposto a cumprir. — Boa noite... — Murmurou e se aconchegou o melhor que pôde, evitando que seus corpos se roçassem. Milos não respondeu. Tinha amanhecido. A luz se filtrava pela janela e Wenna abriu os olhos, esperando encontra-lo ali. A decepção se desenhou em seu rosto ao ver que não estava. Que ingênua tinha sido.... Tinha acreditado que ele receberia a manhã junto com ela, que a pegaria pela mão e lhe pediria desculpas por ter sido horrível tanto tempo. Nada mais longe da realidade. Vestiu-se sem vontade e seguiu para a sala de jantar, onde Nana a esperava impaciente. Tomou um gole de suco apesar da inapetência que sentia e sorriu, aparentando que tinha passado uma noite maravilhosa. — Me diga agora mesmo o que está passando, anjo. — Nana agitou sua bengala no ar, incapaz de conter sua curiosidade por mais tempo. Wenna abriu a boca para seguir com aquela grande mentira que era seu casamento. Mas a fechou imediatamente ao descobrir a angústia nos olhos da anciã. — E não minta para mim, jovenzinha. Meu neto tem


aspecto de não ter dormido bem. E você tem o mesmo aspecto que ele. E não me venha com contos a respeito de sua agitada vida de casados. Porque sei muito bem que há algo suspeito. Nenhuma esposa tem essa expressão triste depois de passar uma noite de paixão junto a seu homem. — Nana... — Quero a verdade, menina. Sou velha, mas não sou tola.... Assim conte para Nana o que está ocorrendo, ok? Wenna desmoronou. Com a voz apagada pela angústia, contou-lhe a proposta de Milos e como tinha aceito, impulsionada pelo carinho que sentia por ela. Nana escutava escandalizada seu relato e quando terminou, seu rosto sulcado de rugas parecia ter perdido completamente a cor., entretanto, não disse nada. Não reprovou seu comportamento como era de esperar. Depois de uns minutos em sepulcral silêncio, indicou-lhe com um gesto que a acompanhasse ao jardim. Sentou-se à sombra e lhe disse com voz acalmada que se sentasse junto a seu lado. — Vou te fazer uma pergunta, anjo. — Dirigiu-se a ela afetuosamente para aliviar sua consciência. — Mas tem que ser sincera como nunca. Promete? — Prometo, Nana. — Wenna a olhou envergonhada. — Está apaixonada pelo Milos? Wenna titubeou um instante.


— Sim. — Respondeu, abatida pelo peso daquela realidade. — Mas ele não deve saber, Nana.... Jure que não contará. — Minha doce menina... — Estreitou-a contra seu peito, sorridente. — É tão inocente... Por acaso engoliu mesmo essa história de minha muito grave enfermidade? Bendito Milos! Wenna não compreendia nada. Só sabia que Nana estava feliz porque amava a seu neto enquanto que para ele, ela não era mais que outra de suas propriedades. Tudo era muito estranho. — E me diga, como esperas ser feliz se está tão convencida de que Milos não a quer? — Perguntou a mulher, divertida. — Sou feliz por estar aqui, Nana... — Murmurou. — Eu só quero... — Que ele a ame? – Nina bateu-lhe na mão com carinho. — Menina, esse meu neto tem muita sorte, sabia? Deixa de preocupar-se tanto. Milos tem os mesmos belos olhos de seu avô..., mas não sabe ver com eles. Compreende o que quero te dizer, anjo? Não teve tempo de responder. Kalina as interrompeu inesperadamente. — Está um dia precioso, não acha, minha boa amiga? — Nana estava radiante de felicidade, o que desconcertava a jovem que a observava sem entender.


— Claro, senhora. —Voltou-se para Wenna. — Senhora Kosta... — Ah, Kalina, deixa de formalidades.... Continua sendo nossa Wenna. — Olhou-a e ao ver como ela assentia, as duas riram em uníssono. — Bom... Wenna. —Retificou Kalina. — O senhor Kosta quer que vá vê-lo no escritório. Wenna conteve o fôlego e Nana a instigou a ir. — Vamos, não tenha medo... — Empurrou-a com suavidade. — Seu marido te chama. —

Mas

eu...

Soube

que

Nana

desejava

que

arrumassem suas diferenças em particular. Assim fez a única coisa que podia fazer. Acudir obedientemente a sua chamada. Milos

aguardava,

sentado

comodamente

em

sua

poltrona. Cravou os olhos nela quando a viu atravessar a porta para aproximar-se até onde ele a esperava. — Dormiu bem? — Se havia sarcasmo em sua voz, ela não percebeu. Embora percebeu a frieza de seu olhar. Seu coração se encolheu ao comprovar que nada tinha mudado. — Muito bem, obrigado. — Mentiu. Pensou com tristeza que mentir se converteu em um hábito para ela. — Desejava falar comigo? — Sente-se. — Ordenou e Wenna quase caiu sobre a cadeira que Milos assinalava em frente a ele. Brincava com um de seus lápis, fazendo-o rodar pela mesa várias vezes. Wenna não podia afastar o olhar daqueles dedos que na noite


anterior tinham arrancado de sua garganta suspiros de prazer. Tragou saliva com nervosismo. — Mandei chama-la porque tenho intenção de me ausentar

durante uma

temporada. — Ausentar-se? — Wenna não pôde evitar que sua voz soasse aflita. — Foi isso que disse. — O lápis se partiu em dois e Milos lançou os pedaços ao cesto de papéis com inesperada brutalidade. — Não te alegra querida? — Me alegrar? — Pelo amor de Deus! Precisa repetir tudo que digo? — Ele parecia zangado. — Sinto muito. — Desculpou-se, sem poder separar de sua mente a ideia de que ele partia por sua culpa. — Sério? — Milos se mostrava agora sarcástico. — Não vejo porque tenha que sentir. — Porque eu... — Porque você, senhorita Blake...? — Convidou-a a acabar sua frase, esquadrinhando sua expressão. — Porque eu... O decepcionei. — Disse e se arrependeu no mesmo instante em que escutou sua risada irônica. — Acredita nisso? — Milos estava furioso. — Por não responder a minhas exigências? — É que eu... — Tentou defender-se, mas ele era um adversário veloz e não a deixou continuar.


— Devia ter me dito que nunca tinha estado com um homem. — Recriminou lhe, abandonando seu assento e segurando sua mão quando ela fez gesto de levantar-se. — E do que teria servido? —Inquiriu, envergonhada pela intimidade de seu olhar. — Teria sido mais delicado. Teria... — Milos se deteve. Compreendeu que nada que dissesse a faria mudar a opinião que tinha dele. — Deveria ter me contado. — Eu... — Está bem. Suponho que ficando longe será uma espécie de recompensa por ontem à noite. — Ao ver como ela corava, acrescentou — Como vê, estou tentando demonstrar que a trato como se me importassem seus sentimentos. No fundo, esse Crawford e eu não somos tão diferentes, não acha? Os dois tentamos fazer o correto em relação a você. — Não é necessário que parta... — Murmurou, sabendo de que a notícia entristeceria a Nana... E a ela mesma. — Não é? —Milos arqueou as sobrancelhas com sarcasmo. — Me diga uma coisa, anjo. Como pensa que podemos levar esta situação? Já te adverti que não era um homem paciente. E lamento, querida. Mas tomar quase pela força a mulheres que levam meu sobrenome e dormem em minha cama, não me parece um passatempo interessante. — Por isso se vai? Para procurar outras mulheres? — Reprovou sentindo como uma ligeira pontada de ciúmes a invadia.


— Talvez. A incomoda? — Pode fazer o que quiser. — Desafiou, morrendo em seu interior ao imaginar que esses fossem seus planos. — Perfeito. Porque é justamente o que farei. Na verdade querida, não pretendo passar o resto de minhas noites fazendo amor com uma estátua. E por outro lado. — Acrescentou com uma crueldade que lhe gelou o coração. — Não quero me interpor nem por um momento entre suas fantasias sobre Crawford e você. Já tive suficiente disso, acredite. Wenna ficou tentada a lhe dizer que não era Jason com quem tinha sonhado toda a noite. Mas pensou que se era tão ignorante para não ver a realidade quando a tinha diante de seus olhos, não serviria de nada. Nunca acreditaria que o amava. E o que era pior, nunca a amaria. Milos lhe entregou um envelope que continha algumas coisas. Wenna as examinou com espanto. Tinha começado. Ele tinha muita pressa em lhe recordar que seu matrimônio não era mais que um

negócio

conveniente

para

ambos....

Para

ambos?

Reprimiu o impulso de jogar tudo na cara dele. — Aí tem um cartão de crédito em seu nome e as chaves de um dos carros. Acho que não irá querer dirigir um carro grande, assim que pedi a Niko que prepare um dos pequenos. — Sua voz soava como se recitasse de cor, desprovida de emoção. — É obvio, pode escolher o que quiser. Se não souber conduzir, Niko tem instruções de te levar a qualquer parte que desejar. E acredito que isso é tudo.


Isso era tudo? Carros, dinheiro...? Era tudo que podia lhe oferecer? A ideia a desalentou. — Quando retornará? — Perguntou com o olhar embaçado pelas lágrimas. Esfregou os olhos instintivamente ao ver como ele franzia o cenho. — Ainda não sei. Tenho que resolver alguns assuntos importantes. — Ele estudava sua expressão ao falar. — Algumas

semanas,

um

mês...

Desiludida?

Não

sofra,

Rowenna. Possivelmente quando voltar, já não a ache muito interessante. Possivelmente inclusive possa usar uma dessas bonitas camisolas novas sem temer que seu horrível marido a destroce com sua brutalidade. Ela não disse nada. — Pode se retirar, querida. Não espero que se despeça de mim como de Crawford. Sou muito consciente de que não me acha tão irresistível. — Afastou o olhar dela e se concentrou nos papéis que havia sobre sua mesa. Assim Wenna obedeceu seus desejos e não o incomodou nas horas que seguiram. Não se moveu de seu lugar enquanto via-o rondar com impaciência por toda a casa. Nana tinha lhe pedido que lesse durante um momento e embora nenhuma das duas prestasse atenção à leitura, as duas fingiam estar enormemente interessadas. — Quanto tempo estará fora, Milos? — Perguntou a anciã quando seu neto se aproximou para beijá-la na bochecha. Ele respondeu com uma elevação de ombros. —Já sabe que eu não gosto que fique tanto tempo fora de casa. E


além disso, acha correto que um marido deixe sozinha a sua mulher apenas alguns dias depois do casamento? — Vovó.... Não sou o único marido do mundo que tem que atender seus negócios. E por outro lado, sou o único marido que tem a sorte de ter se casado com a compreensiva senhorita Blake. — Olhou-a de forma estranha ao falar. — Estou convencido de que minha adorável mulherzinha encontrará algum entretenimento em minha ausência, não é assim, querida? Wenna lhe dirigiu um sorriso forçado que ocultava sua tristeza. Viu-lhe caminhar devagar até Niko, que esperava com a porta do veículo aberta. — Vá se despedir dele, menina... — Apressou-a Nana com picardia. — Eu... — Não tenha vergonha, anjo. Vá depressa! — Insistiu e ela arrastou os pés com lentidão, tomando a mesma direção do homem. Milos se voltou para ela, com um gesto mesclado de surpresa e algo mais que ela não soube decifrar. ——Só

queria

lhe

desejar

uma

boa

viagem.

Murmurou, incapaz de sustentar o olhar daqueles olhos que pareciam querer ler no interior dos seus. — Que meigo! —Respondeu ele com acidez. — Vai me emocionar, senhorita Blake.


— Já sei que não se importa comigo, mas eu... — Seus lábios palpitaram quando ele os silenciou, colocando seu dedo sobre eles. Milos a olhou longamente e sem dizer uma só palavra, capturou seus lábios com ferocidade. Depois a soltou com brutalidade. — Pode ser que me odeie, Anjo. — Sua voz era rouca e seu queixo se esticou até que seu rosto parecia de pedra. — Pode ser que esse estúpido do Crawford seja o homem de seus sonhos. E pode ser que Andreas por ter pintado esse maldito retrato te faça suspirar como uma adolescente apaixonada. Mas eu me casei contigo. Eu sou seu marido. Disse as últimas frases enfatizando especialmente as palavras. — Não esqueça. Wenna o viu entrar no carro com tanta rapidez que poderia dizer que a mera visão das lágrimas femininas o tinha perturbado. Entretanto, Milos não lançou nem sequer um olhar para trás enquanto se afastava em seu elegante veículo.


Os dias foram passando com lentidão enquanto ela esperava ansiosa. Imaginava Milos atravessando a porta de seu quarto na madrugada, despertando-a com um suave beijo

na

fronte,

lhe

murmurando

palavras

tenras....

Imaginava deitando-se a seu lado e rodeando-a com aqueles fortes braços que durante um espaço de tempo que tinha sido muito fugaz, tinham sido a expressão de seu lar. Entretanto, nada disso acontecia. Em lugar disso, ele a condenava a mais absoluta solidão. Nem umas letras para lhe dizer que estava bem, que sentia falta dela.... Que ironia! Pensou. Depois de um mês em que somente tinha ligado em duas ocasiões para saber da saúde de Nana, ainda esperava algo assim de alguém como ele. Sentiu-se estúpida por fantasiar a respeito das coisas que Milos nunca lhe diria. "Sinto saudades... Te amo..." Sem dúvida, eram palavras que não constavam no vocabulário de Milos Kosta. Quão pouco se pareciam ele e Jason. Apenas uma semana depois, tinha recebido notícias


dele. Uma carta extensa, comovedora, carregada de desculpas e boas intenções para o futuro. Nela, Jason lhe anunciava que Katie e ele esperavam um filho. Tinham descoberto ao retornar de sua viagem e Wenna adivinhava que por fim, Jason tinha descoberto seus sentimentos por ela. E queria ser um bom marido, um bom pai e um bom cunhado. Amava a Katie e ao filho que ia nascer. E desejava-lhe que fosse tão feliz como eles nesse momento. Chorou de alegria. Corria nesse momento para contar a Nana a boa notícia, quando o alvoroço no exterior da casa a alarmou. Milos! Milos havia voltado. Arrumou o cabelo com nervosismo e deu uma rápida olhada em seu aspecto no espelho do salão antes de abrir a porta.

Mas sua alegria se desvaneceu rapidamente ao

comprovar que não se tratava dele. Andreas soltou a bolsa de viagem para abraçá-la e beijá-la efusivamente. — Minha queridíssima Wenna! — Afastou-se um pouco para observá-la melhor, franzindo o cenho ao reparar nas olheiras que se desenhavam em volta de seus olhos. — Está horrível, menina. Por acaso meu desconsiderado primo não está te tratando bem? — Imagine! — Nana agitou sua bengala no ar, resmungando. — Faz mais de um mês que partiu e ainda não retornou. Parece que seja uma forma de se importar? Com uma garota tão bonita lhe esperando em casa... — Ah, vovó, melhor não me contar nada agora... — Andreas bocejou, embora Wenna soube pela piscada que deu, que somente fingia estar cansado. — Vou subir minhas coisas e logo falamos...


Aproximou-lhe os lábios ao ouvido para lhe sussurrar sem que lhe ouvisse o resto. — Espero você em meu quarto, anjo. Tenho algo para te dizer. Wenna assentiu e escapuliu assim que pôde, deixando que Kalina e outros entretivessem Nana com os preparativos do jantar de boas-vindas. Subiu apressadamente as escadas e se encontrou com Andreas, que a fez entrar e fechou a porta de seu quarto imediatamente.

Wenna

continha

a

respiração

pela

curiosidade. — Você não vai acreditar... — Andreas, está-me assustando... — Disse-lhe e ele se jogou sobre a cama e estirou os braços sob a cabeça. Tinha a mesma expressão risonha de um menino que acaba de receber seu presente de Natal. — Ah, minha encantadora musa.... Não tem por que. — Sorriu abertamente. — Adivinha a quem tive o prazer de acompanhar nessas duas últimas semanas? Wenna negou com um gesto. — Alexia Tekipoulos. — Informou entreabrindo as pálpebras. Ergueu-se inquieto sobre o travesseiro. — A muito bela e cruel Alexia.... Que me jogou aos leões e me converteu em um ser errante e em um péssimo jogador...


Falava

de

forma

teatral

e

Wenna

suspirou,

compreendendo que por mais que Andreas fingisse o contrário, aquela mulher ainda o afetava. — E bem...? — Arqueou as sobrancelhas, convidando a que lhe relatasse o resto de sua história. — Parece-me estar sonhando, anjo.... Ela se alegrou muito em me ver e como acompanhava seu pai por negócios, tivemos a oportunidade de passar mais tempo juntos... E não acreditaria no que aconteceu... — Por favor, basta. — Pediu-lhe com falsa atitude reprovadora. — Me conte de uma vez o que passou. — Disse-me que se sentiu confusa quando conheceu Milos.... Que tinha medo da minha forma de viver e que temia que eu nunca amadureceria o suficiente... — Andreas... — Apressou-lhe. — Ela me ama.... Me ama! Pode acreditar nisso? — Andreas tinha se aproximado da jovem e a tinha levantado no ar, girando com ela em seus braços em plena euforia. — Estou tão feliz que tenho vontade de beijar a todo mundo... E sem pensar, o fez. Tomou-a pelos ombros e estampou um sonoro beijo nos lábios dela, que lhe observava divertida. Embora a diversão só durou um instante, já que o som da porta ao golpear contra a parede, fez que ambos se separassem

envergonhados.

A

expressão

do

Milos era

aterradora. Sua figura se recortava na soleira e a Wenna recordou o personagem de um velho conto para crianças que sempre a tinha assustado na infância. No caso de Milos, o


personagem tomava novas dimensões. Olhar cruel, lábios apertados e aquela veia que se elevava paulatinamente na curva de seu pescoço como se estivesse a ponto de explodir. Observou como cruzava os braços sobre o peito. Apesar de tudo, teve que reconhecer que uma parte dela se alegrava de vê-lo. Seguia sendo um arrogante, grosseiro..., mas era o arrogante e grosseirão mais atraente que já tinha conhecido. — Não quer me beijar também, primo? — A voz do Milos estava carregada de desprezo e raiva. — Possivelmente não está tão feliz assim. Ou possivelmente minha encantadora esposa tenha satisfeito suas ânsias de prodigalizar beijos ao mundo. Andreas titubeou antes de aproximar-se. — Não vim a trazer problemas, Milos. E é obvio, não é meu tipo. — Disse, em um vão esforço por romper a tensão entre eles. — Mas estreitarei sua mão em sinal de paz. — Quando...? —-Wenna não pôde terminar a frase. Um só olhar furioso dele a impediu de continuar a frase. Milos apertou a mão que lhe oferecia com tanta força, que Andreas a retirou em seguida, temendo que seu pescoço fosse o próximo objetivo. — Quando cheguei? – Terminou a frase por ela com cinismo. — Faz alguns minutos. Bem a tempo para não perder

esta

comovedora

cena.

Andreas

sempre

foi

especialmente efusivo nos encontros, não é assim, primo? Embora mantinha a esperança de que minha fiel e recatada


esposa teria o bom gosto de não se lançar a seus braços como uma gata no cio. — Milos... Está sendo gratuitamente grosseiro com Wenna. — Replicou Andreas, desta vez realmente zangado. Mas a expressão do Milos seguia tão dura como granito, impassível e impenetrável. — Não me diga. — Para sua informação... — Para sua informação, primo... — Milos imitou sua voz com desdém para depois imprimir um tom feroz. — Ela não é Wenna. Nem sua musa, nem seu anjo, nem nada de nada... Chama-se Rowenna, ouviu? Rowenna Kosta, antes senhorita Rowenna Blake. E agora é minha mulher. Acredito que poderá recordar-se durante o resto de sua estadia na ilha? E dito isso, saiu amaldiçoando entre dentes em seu próprio idioma e batendo a porta atrás dele, não sem antes lançar sobre ela um último olhar furioso. Andreas a olhou, com pena ao ver como reprimia um soluço. — Valha-me Deus! — Passou a mão pelo cabelo, derrotado. — Milos está pior que da última vez. Perdeu o juízo ou lhe falta muito pouco para perdê-lo... — Será melhor eu ir... — Murmurou. — Pobrezinha... — Tratou de retê-la, mas Wenna se afastou.

Temia

que

Milos

retornasse,

desta

vez

completamente decidido a acabar com ambos. — Asseguro


que nunca o tinha visto assim... Anjo, acaso esse idiota se apaixonou por você finalmente? — Não diga tolices... — Wenna corou. — Ah, não.... Esta sim é boa! — Riu estrepitosamente. — Agora sim está metida em uma confusão, anjo. Porque meu primo jamais te deixará partir, entendeu? "E não quero partir ", quis gritar. Ninguém compreendia que o amava? Apesar de seus defeitos e do modo horrível com que a tratava. Apesar de sua rudeza, de suas ofensas... — Nós veremos no jantar... — Despediu-se, rezando para que Milos não aguardasse escondido nas curvas do corredor. Por sorte, ele tinha desaparecido. Wenna recostou as costas contra o sofá. Os outros haviam

se

recolhido

algum

tempo

após

ficarem

conversando e escutando as histórias de Andreas a respeito de seu trabalho na galeria. Por sua parte, Milos não lhe tinha dirigido a palavra por toda a noite e em certo modo, agradeceu que fosse assim. Embora fosse muito consciente de que isso não significava que Milos lhe oferecesse uma trégua.

Tão

somente

significava

que

adiava

suas

recriminações para outra ocasião. Perguntou-se se a ocasião tinha chegado quando o viu entrar na biblioteca, silencioso como um felino. Sentou-se no sofá contiguo, respeitando seu desejo de ler sob o diminuto halo de luz do abajur. Wenna suspirou. Na penumbra, sentiu-se quase a salvo. Ele não podia perceber sua expressão desencantada.


— Pensa ficar acordada até muito tarde? —Inquiriu asperamente e ela nem sequer levantou o olhar de sua leitura para responder. — Reclama as minhas obrigações conjugais? — Wenna compreendeu muito tarde que não era o momento para ser irônica. Ainda assim, não pôde evitar. — Sinto-me tentado a fazê-lo somente pelo prazer de ver como me rechaça, senhorita Blake. — Desta vez, seu tom foi estranho. Wenna conteve o fôlego quando lhe tirou o livro das mãos e o lançou com desinteresse sobre a mesinha. O que devia fazer agora? Devia lhe confessar que na realidade aguardava com impaciência o momento em que ele a seguisse até o quarto? Devia lhe confessar que também o desejava e que não podia pensar em outra coisa que não fossem seus dedos percorrendo cada centímetro de sua pele? Não acreditou oportuno. Milos Kosta já tinha bastante poder sobre ela. — Falemos, Rowenna. — Pronunciou seu nome com ênfase, enquanto se estirava comodamente, com a ameaça de que a conversação seria tão longa como gostasse. — Falar.... Do que? — Se acomodou, ocultando seu rosto da luz. — De Jason Crawford. — Soltou como um jarro de água fria e ela deu um ligeiro chute que, por sorte, ele não viu. — Jason...? — Gaguejava — O que... O que quer saber dele?


— Como o conheceu? — Milos não usava rodeios e Wenna teve a sensação de que estava ocorrendo algo. — Conte-me Anjo. Interessa-me muito conhecer sua versão da história. — Minha versão? A que...? — Sabe, querida. Durante minha ausência, tive a chance de colidir com o senhor Crawford em um restaurante. — Informou-lhe com naturalidade. — Estávamos ali por questões distintas. Eu esperava fechar um contrato com alguém e ele esperava que sua irmã Katie saísse do toalete depois de passar meia hora nele. Por causa de sua gravidez, como já sabe. Compreenderá que isso nos proporcionou suficiente tempo para conversar atentamente. — Sobre mim? — Wenna não ocultava sua surpresa. ——Sobre você. — Repetiu com voz grave e acrescentou no mesmo tom. — E sobre algumas coisas que aconteceram faz tempo. — Jason lhe contou...? — Que o apresentou à sua irmã e que te trocou por ela? — Assentiu, mas Wenna não pode ver sua face, nem se isso lhe agradava ou lhe desagradava. — Disse isso. E também que foi muito valente ao partir de casa e te afastar deles para não interferir em sua relação. Ela

não

respondeu.

Sentia-se

envergonhada

e

humilhada ante a possibilidade de que Milos sentisse pena dela. Não queria isso dele. Não necessitava sua compaixão e


era a única coisa que jamais aceitaria daquele homem sem coração. — Foi? — Insistiu ao ver que ela não respondia. — Foi tão valente, Rowenna Blake? — Só fiz o correto. —Murmurou com os lábios apertados. —

Mas permitiu

que acreditasse

o

contrário. —

Assinalou Milos, irritado. — Permitiu que acreditasse que tinha fugido porque não podia suportar a ideia de que ele e Katie fossem felizes. — Não fiz tal coisa. — Replicou em voz baixa. — Você tirou suas próprias conclusões. Quis acrescentar "como sempre". Mas lhe pareceu que Milos não estava de humor para sarcasmos. — E separou-se de tudo o que amava porque era o melhor para eles? É assim? — Sim, mas... — Titubeou um instante. — Nunca quis ao Jason.... Ao menos, agora sei que aquilo não era amor. Nem sequer sabia o que era o amor então. — Sabe? —Ele arqueou as sobrancelhas, confuso e também furioso por algo que ela não conseguia compreender. —Quer dizer que agora sim sabe? — Sei que o do Jason não era. E me basta. — Entendo.... Falou sobre isso com meu primo, querida?


— Do Jason? — Devia ser muito tola, porque não entendia que relação tinha aquilo com Andreas. Milos negou com a cabeça. Era impossível que ela imaginasse o efeito que suas palavras tinham nele. Sentia desejos de beijá-la, de torturá-la, de amá-la até não poder mais.... Tudo ao mesmo tempo. Tudo para arrancar dela aquelas sensações que ele não provocava e que lhe enchiam de raiva e de ciúmes. — De suas descobertas a respeito de tão nobre sentimento. — Zombou, fingindo uma calma que não sentia. — Suponho que Andreas tem algo que dizer a respeito. — Suponho... Ele também descobriu o amor, ele te contou? — Alegrou-lhe a ideia de que houvessem resolvido suas diferenças e pudessem falar com a confiança e o afeto que nunca deveram perder. — Não, não me contou isso. — Cuspiu a resposta, maravilhado pela forma inocente em que ela via o mundo. Os olhos

da

Rowenna

Blake

eram

capazes

de

expressar

honestidade mesmo quando não houvesse nada de honesto no que ela estava reconhecendo abertamente. Conteve-se com muita dificuldade, amaldiçoando entre dentes. Acaso não tinha o mais mínimo pudor? Acreditava que ele era outro Jason Crawford, amável e indulgente, que lhe concederia a liberdade e a deixaria partir para longe e viver como quisesse sua adoçada versão do que chamava amor? Ela não tinha a menor ideia de quão perigosa estava resultando a conversa. Olhou-a com o cenho franzido. Na verdade, estava tão louca


se acreditava que ficaria de braços cruzados enquanto Andreas lhe arrebatava a única pessoa que...? Ordenou aos seus pensamentos que se detivessem. O que estava...? Definitivamente, ele também devia ter perdido o juízo. Ele não a amava. Aquele casamento não era mais que um negócio conveniente para ambos. Por Nana. Por seu bem-estar... O que estava ocorrendo? Não tinha que ser daquele modo. Não tinha que sentir-se traído, não havia na realidade motivos para sentir-se traído. Tinha comprado sua companhia ao casar-se com ela. Possivelmente inclusive lhe outorgasse certo direito sobre seu corpo, embora odiava pensar que cada vez que a tomasse, lhe desprezaria. Mas não tinha comprado seu coração. Ela tinha sido muito clara nesse sentido. Por que sentia então que algo estava falhando em sua perfeita equação? Os lábios dela lhe confundiam. Seu olhar cristalino e sincero lhe confundia. De repente, pensou que sentiria falta daquele olhar que censurava suas maneiras más quando ela se fosse. Quando se fosse... Demônios.... Não tinha previsto algo assim. — Devo supor que meu primo tem intenção de que seja algo sério e não outra de suas aventuras passageiras? — Perguntou, com as feições contraídas pela fúria. — Assim espero. — Wenna piscou. O que lhe passava, por que não se alegrava? Pensou que Milos era muito orgulhoso para aceitar que finalmente, Alexia tinha escolhido Andreas. Afastou com um gesto brusco as lágrimas que umedeciam seus olhos. Odiou-lhe em silêncio. Era necessário que fosse tão cruel? Poderia ao menos fingir que respeitava o


fato de que ela fosse ainda sua esposa, durasse o que durasse a farsa de seu matrimônio. Poderia fingir que a notícia de Andreas não lhe deixava completamente louco e irracional e que não ardia no desejo de procurar aquela mulher para fazê-la mudar de ideia. — Devo supor igualmente, que a afortunada dama pensa resolver seus assuntos antes de cometer a estupidez de seguir Andreas ao fim do mundo? Wenna mordeu a língua. Milos nunca teria suficiente, isso era evidente. Esteve tentada a lhe mandar ao diabo e lhe dizer que perguntasse diretamente a seu primo em lugar de incomodá-la com seu ciúme. Em lugar disso assentiu. — Espera que me pareça uma boa ideia, senhorita Blake, que seja compreensivo? — Milos parecia disposto a qualquer coisa, menos mostrar-se compreensivo. Confirmar isso a torturava ainda mais, se do que era possível. — Sinceramente.... Alimenta a mais remota esperança de que dê meu consentimento a algo tão desatinado? — Pode fazer o que quiser. — Ela não ocultou desta vez sua tristeza. — O que quiser? —Milos tinha se aproximado tanto dela que suas respirações se mesclavam na escuridão. Seus dedos percorreram os lábios femininos com uma delicadeza que a desarmou. — Acredito que não, anjo. Não posso fazer que ela me ame, não acha? "Mas eu te amo", quis lhe gritar. "Te amo, maldito arrogante, por que não pode sentir o mesmo?" Desejou com


todas suas forças que algo mágico acontecesse nesse momento. Mas, algo como o que? Milos tinha deixado de pensar em outra coisa que não fosse naquela boca entreaberta, palpitante e suculenta que se abria para protestar.... Ao diabo com Andreas! Ao diabo com ela! Com seu empenho em amar aos homens que nunca poderiam amá-la como ela merecia, como ele... Como ele a amava. Estava dito. Havia dito a seu cérebro, que insistia em negar o evidente. Que a amava. Ao menos, já estava claro. Beijou-a, primeiro com brutalidade e com inusitada ternura depois. Ela percebeu a mudança na intensidade de suas carícias e se abandonou entre seus braços, encantada pelo torvelinho de emoções que despertavam aqueles dedos enredando-se em seu cabelo. Milos estreitou seu corpo com tanta força que temeu que seus ossos se quebrassem sob o abraço. Quando a soltou, ela tremia descontroladamente e deixou que suas mãos a sustentassem pelos ombros para evitar que perdesse o equilíbrio. — Diga-me que ninguém fez amor contigo, assim como eu faço... — Disse, furioso porque ela respondia com paixão a suas carícias apesar de tudo. — Diga que me deseja! — Sim... — Murmurou, comovida e turvada pela urgência de seu pedido. — Diga, Milos, te desejo.... Diga-o, droga! — Insistiu, possuído por uma ira que parecia vir do mais profundo de sua alma, em qualquer lugar que está estivesse.


— Sim, sim... Milos... te desejo. — Aceitou e não protestou quando ele a levantou nos braços para levá-la até o quarto. Muito tempo depois, enquanto ambos ofegavam ainda recuperando o fôlego perdido, Wenna se atreveu a analisar sua expressão. Milos jazia de barriga para cima, com o olhar perdido em algum ponto invisível e os lábios apertados em um gesto que revelava sua arrogância. Como podia amar a alguém que tinha feito o amor para castigá-la por culpa de outra mulher? Fechou os olhos, desesperando-se. — Está arrependida do que aconteceu? — A pergunta de Milos a pegou de surpresa. — Não. — Respondeu em um sussurro. — Alegra-me escutar isso, meu anjo... — Seu tom era mordaz, mas sua expressão sombria indicava que sua resposta não lhe agradava de tudo. — Porque não será de outro, ouviu? É minha esposa, Rowenna Blake.... Na saúde e na enfermidade, na riqueza e na pobreza, para o bom e para o mau.... Jurou, lembra? Wenna lhe escutou recitar as mesmas palavras que tinha recitado o sacerdote durante seu casamento. Pareceulhe que aquelas palavras adquiriam um novo significado em seus lábios. Um compromisso que ia mais à frente do simples ato de colocar uma aliança em seu dedo. — Sem amor... — Assinalou com tristeza, lhe voltando as costas para afogar um soluço contra o travesseiro.


— Como quiser. — Ele não negou, mas seu tom era agressivo ao acrescentar. — Será sem amor.... Escolheu isso quando aceitou ser minha esposa. Não te parecia tão terrível antes. — Não escolhi ser tratada como mais um objeto da casa... — Replicou, doída por sua falta de sensibilidade. — Nunca desejei fazer o amor com essa mesa, nem com a cadeira... — Milos assinalava na escuridão. Juntou seu corpo ao dela, rodeando-a com o braço acariciando com a boca o lóbulo de sua orelha ao falar. —Só sei que há algo em ti.... Nem um só minuto deixei de pensar nisso enquanto estive fora... Como uma enfermidade silenciosa que me comia por dentro, lentamente... Uma enfermidade, era isso para ele? Algo desagradável que lhe impedia de conciliar o sono e que sanaria quando ela estivesse bem longe? Feriu-lhe sua sinceridade. Escutou sua respiração compassada e pensou que estava dormindo. Suspirou, consciente de que no futuro, aquilo era tudo que podia esperar dele. Umas horas a seu lado na intimidade daquele quarto onde não havia espaço para o amor. — Sonhei que me dava um filho. Sobressaltou-se ao lhe escutar. De repente, o quarto começou a dar voltas. Ele tinha dito com naturalidade, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Um filho! Ao que parece, a ambição do Milos Kosta não conhecia limites.


— Eu o vi no meu sonho... — Seu fôlego lhe roçava a bochecha, provocando um estremecimento involuntário nela. — Tinha meus olhos, os olhos de meu pai e de meu avô e de toda uma geração de Kostas, o cabelo negro e abundante, a ternura de Nana... E seu sorriso.... Foi tão real que quase podia tocá-lo com minhas mãos. — Nunca... — Sussurrou, com a intenção de lhe ferir tanto como ele a tinha ferido. Milos não respondeu. Novamente, o ritmo de sua respiração a fez acreditar que estava dormindo. Entretanto, não estava. Só fingia, enquanto digeria da maneira mais civilizada a negativa dela. Conteve o impulso de acender todas as luzes. De lhe gritar a pleno pulmão que exigia que, naquele mesmo instante, desenterrasse de sua mente e de seu coração a todos os Andreas que os ocupassem. Milos não podia saber que naquela noite, lhe tinha entregue algo mais


que seu corpo. Tinha-lhe entregue seu coração sabendo de que ele o destroçaria sem contemplações. Wenna limpou os lábios, esgotada pelo terrível esforço que tinha feito para conter as náuseas em presença de Milos. Ao mesmo tempo, sentiu-se liberada daquele peso estranho que tinha suportado durante horas na boca do estômago. Embora não pudesse ter certeza ainda, suas suspeitas se confirmavam à medida que os dias passavam. Uma vez mais, Milos Kosta conseguiria o que queria. Como se fosse preciso apenas desejar, seus desejos se convertiam em realidade. Como ia abandoná-la agora que esperava um filho dele? Acariciou

com ambas

as

mãos

sua

cintura,

sorrindo

bobamente quando Nana veio sentar-se a seu lado, enquanto a observava com expressão preocupada. — Está bem, menina? — A voz de Nana soava preocupada. Wenna mentiu. Bem? Nem sequer sabia como iria conseguir.... Sozinha, com um filho que nunca teria pai... Olhou para Nana de soslaio. Quanto iria sentir saudades dela! Como gostaria que as coisas fossem diferentes e que aquela senhora adorável pudesse desfrutar de seu neto..., mas não era possível. Andreas já estava ali uma semana e a situação era insustentável. A rivalidade entre ambos crescia cada minuto que passava. Pelas noites, Milos permanecia trancado em seu escritório até muito tarde. Ouvia-o entrar no quarto quando acreditava que ela estava dormindo e soluçava em silencio ao descobrir que tinha perdido o interesse por tocá-la. Ante tal perspectiva, tinha tomado a decisão de


partir. Tinha pensado que tia Alice a receberia com os braços abertos. Ela adorava crianças e sempre podia voltar a trabalhar na loja... E por outro lado, estava Katie. Agora que as duas iam ser mães, poderiam ver seus filhos crescerem juntos. Acreditou que isso bastaria para ser feliz. Ao menos, não teria que sofrer cada dia a tortura de saber que ele não a amava... Claro que tudo isso teria que esperar. Milos parecia disposto a ficar na casa tanto tempo quanto Andreas. Por outro lado, não iria fazer a bagagem enquanto ele estivesse ali. Milos Kosta podia não a amar. Mas a considerava uma propriedade e sob nenhum conceito, deixaria que se fosse sem que ele deixasse. Pela primeira vez, desejou que Andreas encurtasse sua estadia na casa. Rezou fervorosamente para que Alexia Tekipoulos o chamasse para ficarem juntos em algum lugar afastado à ilha. — Muito bem, Nana. — Mentiu de novo e calçou as cômodas sapatilhas, levantando-se. — Darei um passeio pela praia antes de jantar. Posso, Nana? — Mas que pergunta tão tola, minha menina! — Ela sorriu. — Não é nossa prisioneira, anjo. Não tem que pedir permissão para fazer o que quiser. — Nesse caso.... Vou passear. — Correspondeu a seu sorriso com um beijo carinhoso. — Está bem. Mas não te afaste muito, querida. Kalina disse que os pescadores estão há vários dias sem voltar ao mar. — Informou muito séria. — Parece que tem um temporal


a caminho e pode ser perigoso meter-se na água. Assim não se aproxime muito das rochas, promete? — Prometo, Nana. — Agitou uma mão em despedida e começou a andar em direção à costa. Colocou um xale sobre os ombros e disse a si mesma que tinha sido muito prudente, já que começava a refrescar à medida que se aproximava da praia. Tirou as sapatilhas para facilitar a caminhada e passeou distraída, observando como os caranguejos fugiam das suas passadas. Ocultavam-se nos buracos das pedras para não serem esmagados sob seus pés ou varridos pelos golpes de mar cada vez mais impetuosos. Teve a sensação de que ela fazia o mesmo. Fugia dos problemas.... Tinha feito com Jason e Katie. E agora o fazia com Milos. Mas, que alternativa tinha? Passar o resto de seus dias junto a um homem que não a amava e que não mostrava o mais mínimo sinal de carinho por ela? Seguiu seu passeio, tratando de não pensar mais nisso. O que tinha que acontecer, aconteceria. Milos Kosta podia arrebatar seu coração, mas não permitiria que tirasse a única coisa que poderia chamar de seu no mundo. Não permitiria que a mantivesse trancada em seu castelo maravilhoso, criando seu filho e fingindo que não se importava que ele suspirasse de amor por outras mulheres quando ela não podia deixar de amá-lo apesar de tudo. Era um sacrifício que não podia enfrentar, nem sequer pelo carinho que tinha por Nana e outros. Saudou um grupo de pescadores que reparavam suas redes na orla. Um deles lhe gritou algo em sua língua, mas Wenna encolheu os ombros, sentindo pena porque suas boas intenções de esforçar-se em


aprender aquele idioma já não tinham sentido. No futuro, Milos Kosta podia gritar e amaldiçoar no idioma que tivesse vontade, porque ela já não estaria ali para aguentar. Afastouse dos pescadores, procurando com o olhar e franzindo o cenho com curiosidade ao descobrir a velha gruta que tinha falado Niko em uma ocasião. Havia dito que nativos nunca entravam nela, porque existia a lenda de que quem o fazia, nunca mais voltava a ser visto. Sentiu-se excitada por seu descobrimento. Tinha conseguindo sozinha! Sem a ajuda de ninguém, tinha sido capaz de encontrar a gruta maldita que assustava aos pequenos quando dormiam. Acreditou que Nana e ela ririam muito quando contasse a ela que a tímida senhorita Blake tinha sido bastante valente para explorar a caverna. Fazendo caso omisso das advertências que aquele dia Niko lhe tinha feito, entrou nela com expressão risonha, disposta a demonstrar a todos que era algo mais que uma esposa obediente. No princípio, sentiu-se como a indomável heroína daquelas histórias que lia para Nana. Mas depois de um bom momento, a extensão da gruta e o número de corredores ocultos pareciam não ter fim, compreendeu que estava perdida. Desanimou-se, imaginando a cena que a esperava ao retornar. Sentou-se um momento sobre uma rocha que parecia estável e calculou mentalmente o tempo que tinha transcorrido. Uma hora, duas... Nana estaria preocupada.

E

Milos

devia

estar

furioso,

certamente

repassando seu sermão para recebê-la e lhe acusar de ser uma irresponsável sem sentido comum. Mordeu os lábios, alarmada ao escutar como o mar açoitava as paredes da


gruta com insistência, como se quisesse derrubá-las e arrastar com ele. Tinha tanto medo que era só no que pensava. Tampou os ouvidos com a palma das mãos e se agachou com os joelhos encolhidos no ventre. E sem dar-se conta, adormeceu. Foi o brilho de umas lanternas que a despertou de repente. Via os halos de luz desenhando estranhas formas no fundo da gruta e ficou de pé num salto, rezando para quem quer que fosse não desistisse. "Continue iluminando, por favor... Estou aqui", repetia mentalmente, enquanto tratava de guiar-se pelas débeis luzes e encontrar a saída. Mas tudo era inútil. Seu sentido da orientação tinha ficado reduzido a nada por causa do medo. Assim ficou muito quieta no lugar onde tinha passado as últimas horas, esperando que seus misteriosos salvadores a encontrassem. Podia escutar as vozes de vários homens que avançavam para o interior da gruta, golpeando as paredes para comprovar se alguém lhes escutava ao outro lado dos corredores. Gritou com força. — Aqui! — Até esse instante, não tinha notado a umidade que empanava suas roupas e as olhou aterrada. Deu uma olhada a seu redor. Por alguma greta, o mar tinha começado a ganhar terreno na gruta e nesse momento, a água lhe cobria quase até a altura dos tornozelos. Elevou o olhar,

observando

com

desgosto

as

gotas

que

caíam

incessantemente sobre seu cabelo e o resto de seu corpo da parte superior da gruta. Estava empapada e tremia de frio.... Quanto tempo estava ali? Encheu seus pulmões de ar e continuou gritando quanto pôde. As luzes eram cada vez


mais intensas e as vozes se escutavam já próximas, até que finalmente, viu o primeiro dos homens correr para ela. — Graças a Deus! — A voz soava familiar, mas não pôde distingui-la. Quase tinha perdido a consciência e deixou que mãos fortes a elevassem no ar, afastando-a da água. — Moça inconsciente! Wenna não protestou. Sentia-se a salvo entre aqueles braços, com a bochecha apertada contra aquele peito que se elevava por causa da agitação. Não soube em que momento a tiraram da gruta. Pareceu-lhe que flutuava durante o caminho que devia conduzi-la até a casa. — Bendito seja, a encontrou! — Nana e Kalina se moviam a seu redor, mas Wenna não tinha forças para tranquiliza-las. — Santo Céu! .... Está viva? — A pergunta de Andreas soava desesperada e Wenna quis ter forças para lhe responder que tudo estava bem agora. — Claro que está viva! ... Anjo.... Pode me ouvir? — Insistiu Nana e passou os enrugados dedos pela sua fronte. — Aí, Deus.... Está geada, menina... Kalina! — Estou aqui, senhora... — Kalina já estava cobrindo-a com uma manta. Wenna replicou fracamente. Queria lhe dizer que não era necessário que montassem aquele alvoroço. Em seus sonhos, alguém forte e poderoso a tinha resgatado das vísceras da gruta e agora a protegia zelosamente de qualquer perigo que pudesse ameaçá-la. E não havia porque estar assustada.... Seu salvador continuava ali, abraçando-a,


lhe transmitindo seu calor para esquentar seus ossos e seu coração... — Meu pequeno anjo... — A voz de Nana soava longínqua e Wenna deixou que o cansaço a vencesse. — Levea para cima, Milos.... Mandarei chamar o médico. Mas Milos permanecia imóvel, com aquele corpo miúdo e empapado apertado contra o seu, o olhar vidrado e os lábios contraídos em um gesto de raiva e profunda dor. — Milos! —-Apressou-lhe a senhora. — Temos que levála para cima e fazer com que se aqueça... Ao ver que ele não reagia, Nana se impacientou e puxou sua camisa com assombroso vigor. — Milos! .... Não me ouve? .... Terá que... Ele obedeceu e subiu as escadas de modo automático. Andreas lhe seguia, mas se afastou imediatamente quando ele abriu a porta do quarto, o fulminando com o olhar. Milos empurrou a porta com o joelho e a depositou com delicadeza sobre os lençóis. Em seguida, dirigiu-se ao lavabo e com movimentos mecânicos encheu a banheira. — Posso ajudar? — Andreas se sentia impotente. Por alguma razão, Milos parecia culpa-lo pelo acontecido e intuía que não permitiria que se aproximasse dela. — Já fez o bastante. — Respondeu entre dentes, lhe empurrando com brutalidade para retornar junto à cama. — Será melhor que vá. Vou tentar fazer com que a água quente a faça reagir.


Andreas saiu do quarto, pesaroso. Milos a despojou com cuidado da roupa, incapaz de apartar o olhar de seu rosto arroxeado pelo frio. — Andreas... — "Não pode ir", Wenna estava confusa, "Tem que compreender o Milos... Também a ama"..., mas ninguém respondia. Milos a ouviu delirar e tratando de não prestar atenção ainda que lhe tinha esmigalhado a alma, conduziu-a até o banheiro para colocá-la na banheira. Depois de um bom momento esfregando seu corpo com energia até comprovar que o sangue circulava com normalidade, tirou-a da água e a envolveu em uma toalha. Deixou-a novamente na cama e a cobriu com um par de mantas. E quando terminou, recostou-se a seu lado, rodeando-a com os braços. A via frágil e indefesa, os lábios pálidos e o cabelo ainda úmido esparso sobre o travesseiro. Enredou os dedos nele, aproximando seu rosto ao dela para aspirar seu aroma. Wenna abriu os olhos um instante. Em sua mente, as imagens se amontoavam sem sentido... Andreas tinha partido? Possivelmente tinha ido unir-se com aquela mulher... Alexia... Era tão formosa como diziam todos? Era óbvio que sim.... Porque os dois a amavam... Milos a amava. Por isso não quis procurá-la e tinha deixado que aquele outro homem amável cuidasse dela.... Estava tão mal para que dormisse junto a ela? Afastou os dedos e inconscientemente, acariciou o áspero queixo do estranho. Tinha-a tratado com tanta ternura.... Como se a amasse realmente, apesar de não ser ninguém para ela... "Sinto muito... Não posso... Amo ao Milos...", quis lhe dizer. "Não deve estar aqui... Ficará furioso", mas ele não


escutava as vozes em sua mente. Somente a abraçava. E com a sensação de que não a abandonaria de novo na gruta, perdeu a consciência novamente.

— Quanto tempo dormi? — Despertou na cama, observando com olhos sonolentos à idosa. Nana lhe dirigiu um sorriso cheio de felicidade. — Uma eternidade, menina... — Beijou-a repetidamente, arrumando seu travesseiro e procurando que ficasse quieta sob os lençóis. — Mas já está bem. O doutor recomendou que deveria ficar em repouso alguns dias mais... Virgem Santa! .... Não sabe o susto que nos deste. — Estou bem, Nana... — De repente, recordou algo e seu rosto escureceu. Pressionou as mãos sobre seu ventre, assustada. — Não aconteceu nada, anjo... — Tranquilizou-a, adivinhando seus temores. —Tudo está bem. O doutor disse que é uma mulher forte e que seu filho viverá. Wenna recuperou o fôlego. — Por que não me contou isso? —Repreendeu-a com doçura. — Nunca teria deixado que fosse até a praia em seu estado... — Eu... — Quero-te como a uma filha, anjo. Mas estou muito zangada contigo. — Confessou a mulher, embora seu tom era


afetuoso ao falar.—Embora agora somente deve se preocupar em ficar bem. Teremos ocasião para falar nisso. —

Nana...

Chamou-a,

ocultando

o

olhar

envergonhado. — Milos... O.... — Está furioso, querida. Mas te prometo que o manterei na linha. Não deixarei que venha aqui para te incomodar com suas tolices. Não, senhor... Milos terá que aprender primeiro a ter boas maneiras. A porta se abriu nesse momento e Milos apareceu, irritado pelo modo com que as duas mulheres pretendiam lhe deixar à margem de suas confidências. — Nem pense em atravessar essa porta, filho. — Advertiu Nina, aproximando-se dele com o queixo muito erguido. — Não atormentará a esta criatura logo no primeiro dia depois de tudo que sofreu. — Vovó... — O tom de Milos era controlado. Mas Wenna sabia muito bem que só ocultava sua ira por baixo daquela calma aparência. Refugiou-se sob os lençóis, consciente de que não poderia escapar eternamente de suas recriminações. — Nada de vovó.... Nem sonhe que vou permitir que venha aqui, com seu mau humor e suas grosserias para atormentar minha menina... — A anciã agitou sua bengala no ar, em um claro gesto de poder que nem sequer Milos pôde ignorar. — Ainda sou a proprietária desta casa, Milos. E Por Deus que farei que saia daqui a tapas se for necessário. — Nana...


— Não me ouviu? Vamos, fora daqui... Milos não podia acreditar no que estava acontecendo. A mulher que tinha lhe criado e a mulher que amava, obrigavam-lhe a sair com o rabo entre as pernas de seu próprio quarto.... Agitou a cabeça, confuso. Podia agarrar a Nana como uma pluma e receber algumas cacetadas como resposta. E podia trancar a sua mentirosa e insensata esposa com chave até que soubesse o que fazer com ela. Mas havia algo que não podia fazer. Não podia enfrentar aquele olhar brilhante que se cravava nele enquanto Nana ameaçava lhe quebrar todos os ossos se não saísse. Atônito pela força que descobria naquelas duas mulheres unidas contra ele, deu-se por vencido. Fechou a porta atrás dele, procurando fazer o menor ruído possível. Nana se voltou para ela com expressão triunfal. — Vê como foi fácil? — Disse satisfeita. — Este meu neto sabe muito bem do que é capaz uma Kosta para proteger a sua família. — Mas, Nana... Ele é sua família. — Corrigiu-a com ternura. — Ah, eu sei, querida. — Sorriu com picardia. — Mas consegui lhe enganar, não te parece? Wenna sorriu. Sim, tinha conseguido. Por esta vez. — Direi a Kalina que te prepare um caldo bem quente. — Anunciou — Verás como logo se sentirá melhor...

Mas

antes, direi para Andreas que pode subir para despedir-se. — Andreas... Continua aqui? — Perguntou, comovida.


— Claro! Disse que não iria sem assegurar-se de que está bem. —Nana suspirou. — Embora tenha que retornar ao trabalho hoje mesmo. E por outro lado, essa Alexia lhe espera impaciente... O que acha, Anjo? Crê que essa mulher saberá amar meu neto como ele merece? — Estou convencida, Nana. É impossível não querer ao Andreas. — Tomara que tenha razão, menina. Porque nunca eu gostei dessa mulher. Influenciou meus meninos e isso foi muito ruim. — Confessou, mas sua expressão se suavizou ao acrescentar. — Entretanto, perdoo-a se for capaz de fazer Andreas feliz. Mas... E Milos? Wenna não teve coragem de perguntar. Era melhor deixar as coisas como estavam. O tempo colocaria tudo em seu lugar. E para o bem ou para o mal, ela estava disposta a deixar que o mesmo tempo decidisse seu destino. Andreas a tinha visitado assim que Nana o avisou. Wenna tinha conversado com ele animadamente, escutando seus planos de casamento com Alexia e sentindo uma ligeira pontada de inveja. Oxalá os olhos do Milos tivessem refletido aquela ilusão ao tomá-la como esposa..., mas não era assim. E não podia atrapalhar a felicidade de Andreas com seus lamentos. Prometeu-lhe que se cuidaria e que cuidaria de seu sobrinho, um "pequeno demônio Kosta" como tinha começado a chamá-lo carinhosamente. Ao vê-lo partir, sentiu que a solidão a invadia. Logo, Milos também partiria. Certamente iria atrás de Andreas em uma última e desesperada tentativa


para impedir que ele e Alexia se casassem. Já imaginava a cena. Milos retornaria à casa de braço com aquela mulher e a apresentaria a todos como a futura senhora Kosta. E então, ninguém repararia na outra senhora Kosta. Ninguém sentiria falta quando ela fizesse sua bagagem e abandonasse a casa pela porta de serviço, pela mesma que tinha entrado no primeiro dia.... Talvez Nana e os outros a recordassem em alguma ocasião, mas somente seria uma lembrança fugaz, porque nenhum deles era bastante corajoso para contradizer os desejos de Milos. E no fim, assim devia ser. Ninguém na realidade tinha culpa de Milos não a amar. Por isso, quando o viu entrar no dormitório, tentou mostrar-se cordial apesar de tudo. Nem sequer lhe incomodou que ele permanecesse de pé em frente à cama, observando-a com aquela expressão severa que lhe dizia que nunca a perdoaria não ser Alexia. — Sente-se melhor? – A pergunta foi feita em um tom ambíguo e Wenna não respondeu. Milos parecia controlar suas emoções. — Pedi a Kalina que preparasse um dos quartos de hospedes para mim. Tudo bem? — Sim. — Murmurou. Era evidente que Milos não podia suportar a ideia de ter casado com a mulher errada. — Entendo. —As mandíbulas dele se esticaram e de repente, a fúria que continha ao falar, emergiu subitamente de seu interior. — Suponho que seus planos de fugir com Andreas não saíram como esperava. — Fugir com o Andreas...? — Wenna não entendia uma palavra. Mas a indignou que tivesse o descaramento de vir


até ali para reprová-la, quando ele mesmo estava ansioso por desfazer-se dela.

Arqueou as sobrancelhas com cinismo,

lhe demonstrando que podia ser muito boa aluna se quisesse. — Teria sido um triângulo amoroso interessante. Mas não acredito essa ideia nos faria feliz. Milos apertou os punhos com força. Triângulo amoroso? Deus, era de seu filho que falavam! Que classe de mulher era aquela Rowena Blake, a quem todos chamavam anjo e que, entretanto, abria as portas do inferno para ele? — Como pode...? — Começou a perguntar, detendo-se ao ver como ela se encolhia sob os lençóis. Tinha pensado a noite inteira, dizendo-se que seria amável com ela e a faria entender... Faria entender.... Ao diabo, contudo! Como ser amável quando não deixava de pensar o que ela...? Acusou-a com o olhar, pronunciando as palavras lentamente. — Vai pedir o divórcio? Wenna piscou, fingindo que não a afetava o fato dele querer resolver tão rápido a situação. — E você? — O encarou pela primeira vez e ele cravou seus olhos brilhantes de ira nela. —Não deixarei que me separe de meu filho.

Respondeu com dureza. — Mas não quero que o faça mal. — Fazer mal a ele? —-Wenna não dava crédito ao que escutava. — Acaso ficou louco? Eu nunca... — Sério? Vai me dizer que não era isso o que pretendia quando foi à gruta? — O rosto de Milos adquiria novas tonalidades à medida que jogava aquelas acusações contra


ela. — Vai me dizer que não pensou em quão conveniente seria eliminar esse obstáculo? .... Como foi capaz, me diga? ... arriscando sua própria vida.... Tem tanto asco assim de mim? Me odeia tanto...? Responde, maldita! — Eu não...-—tratou de lhe explicar, compreendendo por fim os horríveis pensamentos que lhe enfureciam. Milos acreditava.... Sentiu que lhe falhavam as forças e em uma última tentativa de corrigir seu engano, abandonou a cama para aproximar-se dele. Seus joelhos se dobraram com debilidade e Milos a segurou pelos ombros, evitando que caísse. — Por favor, Milos... — Ele a observava com olhar sombrio. — Quem é Rowenna Blake? —Sacudiu-a bruscamente. — O que é, por todos os Santos? .... Um anjo, um demônio... O que é em realidade? "Sua esposa, Milos... Sua esposa", gritavam todos seus sentidos, mas ele não podia ouvi-los. Wenna fechou os olhos, sentindo como Milos a estreitava com desespero contra seu corpo para depois apartá-la. — Volta para a cama. — A voz dele era um rugido que provinha do mais profundo de sua alma. E seus olhos... Wenna tremeu ao descobrir o desprezo que havia neles. — Prometo que quando nosso filho nascer, te darei a liberdade que tanto anseia. Poderá ir para junto de Andreas e lhe entregar seu corpo, seu coração e toda sua maldita doçura... E Por Deus não quero voltar a ver nenhum dos dois. Mas até


esse momento, exijo que me faça um juramento. Exijo que me dê sua palavra de que não voltará a pôr em perigo sua vida ou a de meu filho. Wenna não disse nada. Sentia-se enjoada e suas palavras só pioravam tudo. —

Sua

palavra,

senhorita

Blake.

Apressou-a,

pronunciando seu nome com voz grave. Ela assentiu, derrotada. Queria que deixasse de atormentá-la de uma vez... — Por favor, saia... — Direi a Kalina que traga algo para você comer mais tarde. — Surpreendentemente, Milos não insistiu e obedeceu seu desejo de estar sozinha. Wenna soluçou amargamente assim que ficou a sós. "O que vou fazer?", perguntava-se, abatida. — Milos. Girou sobre os calcanhares ao escutar a voz de Andreas. Não recordava quanto tempo estava ali, plantado em frente à janela, observando hipnotizado o jardim onde ela se sentou cada manhã para ler com sua bela voz para Nana. A raiva lhe comia por dentro. Em alguns meses, ela partiria.... Para ficar com Andreas, para entregar-se a ele.... Talvez para lhe dar filhos desejados... Andreas lhe estendia sua mão e Milos a ignorou deliberadamente. — Vim te dizer adeus. Retorno para Nova Iorque. — Anunciou, franzindo o cenho ao ver que seu primo não respondia. — Milos?


— Quer que te deseje sorte? — Perguntou ao fim. —

Esperava

que

o

fizesse.

Andreas

sorriu

abertamente. — Milos... Sei que ainda está furioso comigo pelo que aconteceu.... Mas tem uma boa garota que espera teu filho. Não poderia esquecer o passado e desejar o mesmo para mim? — E renunciar a ela? — Exclamou e por um instante, o louco desejo de apelar para sua consciência se apoderou dele. E se Andreas continuasse sendo no fundo aquele menino que tinha crescido junto com ele? E se lhe importasse sua felicidade

o

bastante

para

sacrificar

suas

próprias

necessidades E....? Tinha que tentar. — Andreas... Nunca te pedi nada, nem sequer quando decidiu que não queria se ocupar dos negócios da família e me obrigou a fazê-lo sozinho... E sabe que sou muito orgulhoso para suplicar. — Milos, o que...? — Deixa que termine, porque te asseguro que não é fácil para mim. — Milos passou a mão pelo cabelo, inseguro. Andreas reparou em seu gesto. Milos estava inseguro? Isso sim era engraçado. Milos Kosta, o homem que jamais duvidava. Deixou-lhe continuar. — Andreas... Você a quer realmente? Prometo que não te odiarei por isso, mas tem que me dizer a verdade. Tem que estar seguro... — Se a quero? — Andreas se tinha dado por vencido. Considerava-se um homem mais ou menos inteligente, mas aquilo escapava a sua compreensão. Pareceu-lhe comovedor


que Milos se preocupasse com ele, mas era... excessivo. —Por que se preocupa tanto, Milos? — Porque eu.... Eu a amo, sabe? — Havia dito. Tomou ar com força, sentindo-se aliviado ao expressar por fim o que seu coração lhe gritava incessantemente. — E estou disposto a me afastar se me assegurar que isto não é outra de suas aventuras de menino mimado. Mas se o é..... Se não a quiser o bastante, eu.... Sei que posso fazer que me ame. Posso mudar por ela e fazê-la feliz.... Posso me converter no que ela queira que seja para tê-la a meu lado. Andreas tinha se perdido na primeira frase de sua confissão. Milos havia ficado louco de vez? — Você está dizendo...? — Gaguejava, sacudindo a cabeça confuso. — Milos, está dizendo...? Ama a Alexia? Milos

apertou

os

lábios,

furioso.

Que

classe

de

brincadeira era essa? Não compreendia que aquele não era o momento indicado para reviver velhas histórias que já não lhe importavam? — O que tem Alexia a ver com tudo isto? —Interpelou, confuso também. —Disse.... Você disse que se eu não a quisesse, você podia fazê-la feliz... — Não falava da Alexia. — De quem, então? — Gritou Andreas, incapaz de decifrar aquele enigma.


— Da Rowenna, por todos os Santos! — Respondeu Milos no mesmo tom desesperado. De repente, Andreas compreendeu tudo. Explodiu em gargalhadas, ignorando o modo com que Milos lhe fulminava com o olhar vidrado de raiva. — Acha engraçado, primo? Andreas segurava o estômago com ambas as mãos, divertido. — Muito engraçado, sim.... Acreditava que eu.... Que ela e eu... — Vejo que segue sendo o mesmo palhaço egoísta de sempre... — Milos estava a ponto de partir para evitar males maiores, quando Andreas lhe reteve. — Espera! Falemos com ela.... Acredito que temos que esclarecer algumas coisas, Milos. — Para que? Para que continue zombando? Para escutar como lhe faz promessas que não pensa cumprir e ver como destrói sua vida? — Milos negou com a cabeça. — Não acredito que seja boa ideia, primo. Tenho tanta vontade de te matar que temo que não possa me conter. — Milos, quer me matar porque Alexia e eu fizemos as pazes? — Alexia...? Já lhe disse…-—Milos se deteve. Andreas parecia muito tranquilo, dadas as circunstâncias. O que significava todo aquilo? Porque não parecia nem sequer arrependido? — Um momento.... Você não...


— Exato Milos. Eu não. E Wenna tampouco. Não lhe traímos. — Bateu-lhe no ombro afetuosamente. — Não entendo como te ocorreu que tínhamos um caso. — Mas disse que ela te amava... — Referia a Alexia, é obvio. Contei a Wenna que tínhamos decidido nos dar outra oportunidade. — Alexia e você? — Claro Milos. A sério pensa que uma mulher como Rowenna se apaixonaria por alguém como eu? — Andreas brincava, mas sua expressão se tornou séria ao acrescentar. — É a ti que ela ama, Milos. E se me permite que lhe diga isso, é o maior idiota se ainda não se deu conta disso. — Ela...? —Milos se sentiu o ser mais desprezível e retorcido. Todo esse tempo tinha acreditado... Deus, nunca lhe perdoaria o modo com que a tinha tratado. — Sim, primo. Ama-te. E que me crucifiquem se entender por que. — Andreas lhe deu um último tapinha nas costas. — Bom, tenho que ir. Cuida bem de sua esposa, Milos. E me avise quando chegar o momento de conhecer meu sobrinho. Ok?


Milos não respondeu. Andava inquieto pelo quarto, pensando como ia enfrenta-la. O que podia fazer para recuperá-la, para fazê-la esquecer todas suas ofensas, todas suas humilhações...? Tinha que pensar algo... E tinha que fazê-lo rápido. Porque se a perdesse, ele também estaria perdido para sempre. Wenna convenceu Nina para que a deixasse descer ao salão. Tinham passado dois dias desde que Milos se foi atrás de Andreas e ela não podia deixar de pensar que aquilo era o fim. Tudo tinha terminado. Milos retornaria para lhe anunciar que queria terminar aquele matrimônio para começar sua vida junto a outra mulher. Quase podia vê-lo, lhe entregando cheques e lhe fazendo a promessa de que nada ia faltar lhe ao filho de ambos. Sabia que ele nunca evitaria sua responsabilidade como pai. Mas era um estúpido se pensava que ia aceitar sua caridade. De fato, já tinha enviado um telegrama para tia Alice lhe pedindo que


preparasse seu antigo quarto. Tudo estava decidido. Criaria seu filho sozinha. Não necessitava sua ajuda, nem seu dinheiro, nem nada que viesse dele. A única coisa que desejava de Milos Kosta era algo que ele não poderia lhe dar jamais. E se não podia ter seu amor, preferia não voltar a vêlo pelo resto de sua vida. Com essa ideia desalentadora, deitou-se no sofá e se dispôs a ler um pouco. Nina ficou sentada a seu lado durante bastante tempo, mas depois de lhe assegurar que se encontrava bem e que a anciã compreendeu que precisava estar sozinha, retirou-se. As luzes da casa foram apagando uma atrás de outra e pouco a pouco, o sonho se apoderou dela. Não soube quanto tempo tinha passado, mas o toque de uns dedos em seu ombro sobressaltou-a e a fez abrir os olhos. Milos estava de pé frente a ela e havia coberto seu corpo com uma manta. Observava-a fixamente, de um modo tão estranho e distinto que Wenna pensou que não era o mesmo Milos Kosta que ela conhecia. Aquele homem não parecia furioso. Não havia sarcasmo naqueles olhos curiosos que estudavam suas facções na penumbra. Não havia ironia nos lábios que se torciam ligeiramente para formular uma desculpa que não precisava palavras. — Faz frio. — Ouviu-lhe murmurar e ela se aconchegou sob o casaco que lhe tinha dado. — Deveria estar na cama. "A cama está vazia sem você", quis lhe dizer, embora sabia que de nada serviria suplicar se ele já tinha feito sua escolha. — Pode subir sozinha? Precisa de ajuda?


Wenna suspirou. Era óbvio que ele se preocupava com o bem-estar de seu filho, mas sabê-lo não a consolava. — Posso fazê-lo, obrigada. — Replicou, doída porque para ele, ela não era mais que o valioso recipiente que continha o próximo herdeiro Kosta. — Só gostaria de ficar sozinha e seguir com minha leitura. Milos deu uma olhada ao livro que tinha caído a seus pés enquanto dormia. Recolheu-o e o colocou junto a ela com amabilidade. — Estava dormindo quando cheguei. — Assinalou. Não acreditava. — Não é certo. — Sim é, querida. — Insistiu ele e suavizou seu tom de voz ao ver como ela corava. — Rowenna... Não discutamos, de acordo? Sentarei aqui e ficarei calado enquanto acaba seu livro. — Já disse que não preciso de você. — Protestou, furiosa

porque

ele

a

tratava

como

a

uma

menina

desobediente. — E eu te ouvi, Anjo. — Pronunciou as últimas palavras em um tom que ela não pôde decifrar. — Mas de todos os modos, ficarei. — Não quero que o faça. — Sussurrou, fingindo indiferença quando ele se sentou no sofá e a puxou para obrigá-la a recostar a cabeça em suas coxas. Wenna continha


a respiração enquanto ele acariciava seus cabelos com ternura. O que estava acontecendo? — Mas quero fazê-lo, minha querida, pequena e rebelde esposa. — Milos falava em voz baixa para não despertar os outros. — Estou muito cansado, Anjo. Minha viagem foi precipitada e cheia de surpresas. Não poderíamos ficar assim toda a noite? Velarei seus sonhos e amanhã poderá brigar quanto queira, prometo-lhe isso. — Amanhã? — Wenna elevou o queixo para o olhar diretamente. — Não vai partir? — Para aonde, querida minha? — Sua risada lhe acariciou o rosto. — Este é meu lar. — Mas Andreas... E Alexia... — Espero que sejam muito felizes, Anjo. Mas não posso ficar em Nova Iorque só para vigiar que seja assim. — Explicou ele, condescendente. Sabia que também ela se fazia mil perguntas a respeito de sua repentina mudança de atitude. Pareceu-lhe que estava deliciosa inclinada sobre ele e tratando de escapar de seus braços enquanto sua mente trabalhava a toda velocidade para encontrar as respostas. — Não sofra, senhorita Blake. Fui um menino bom e fiz as pazes com meu primo. — Não está zangado? — Perguntou, surpreendida. — Claro que não! — Milos tinha os olhos fechados agora e o ar severo que estava acostumado a escurecer suas feições, tinha desaparecido.


— E não vai se divorciar de mim? — Sua voz soou apagada e ocultou o olhar para que ele não visse as lágrimas que umedeciam seus olhos. Milos abriu os olhos e os cravou nela, escuros, brilhantes... — Farei se isso te faz feliz. — Respondeu sem afastar o olhar dela. — Mas antes.... Quero te mostrar algo. Milos se levantou e acendeu uma das luzes para que ela admirasse sob a tênue luz, o tecido que lhe mostrava. Era o retrato que Andreas tinha pintado e Wenna cobriu os lábios com a mão, comovida. Milos retirou com a ponta de seus dedos as lágrimas que corriam pelas bochechas dela. — É para você. — Anunciou Milos, analisando sua reação. — O comprei de Andreas quando o acompanhei a Nova Iorque. — Ele o daria de graça se tivesse pedido com amabilidade... — Reprovou, imaginando que Milos teria feito uso de suas piores maneiras ao exigir que Andreas devolvesse o quadro à casa. — E o fez. —Surpreendeu-a novamente. — Mas recordei o que disse. Queria que fosse um começo para Andreas. Queria que ele soubesse quanto valia seu trabalho e que se sentisse orgulhoso disso. E por outro lado, não me ocorria outro lugar melhor para ele que nossa casa. Assim o comprei. Agora é teu, Anjo. E isto também... Tomou sua mão e lhe abriu a palma com cuidado, depositando nela o pendente que Andreas lhe tinha dado em uma ocasião.


Está

me

devolvendo

isso?

Inquiriu

sem

compreender. — Sim. Andreas tinha razão. — Milos sorriu. — Seu amuleto me deu sorte. Mas agora já não necessito. — Te deu sorte? —Wenna ficou de pé. A manta caiu entre os dois e Milos se agachou para recolhê-la. Ao erguerse, envolveu-a nela e seu áspero queixo roçou levemente a bochecha feminina. — Milos... Por que está aqui? — Atreveu-se a lhe abordar sem disfarces. O coração lhe pulsava com força, esperando que aquilo não fosse outro de seus sonhos. Ele estava ali, abraçava-a e a protegia do frio com seu próprio corpo. E a olhava como se houvesse algo belo nela que lhe impedisse de afastar seus olhos. — Ainda não sabe anjo? — Ouviu-lhe sussurrar em seu ouvido. — Porque conservo a esperança de que possa perdoar algum dia todas as coisas horríveis que te disse. E porque leva meu filho em seu ventre. E porque quero cuidar e te honrar e ser o melhor pai, o melhor marido... E não esqueçamos a Nina. Ela me mataria se não fosse capaz de te fazer feliz. — OH.... É muito eloquente, Milos Kosta. — Espetou-lhe furiosa,

tentando

desfazer

o

abraço

que

a

mantinha

prisioneira. Mas Milos a estreitou com mais força. — E o que me diz do amor? Não o considera imprescindível para que nosso casamento funcione?


— É obvio querida. —Milos a beijou apaixonadamente e depois, separou seus lábios para observá-la fixamente. — É meu mais firme propósito me converter em alguém digno de seu amor. Porque te asseguro, Rowenna Blake.... Que meu amor já tem. — Você... — Wenna sentiu que lhe tremiam os joelhos ao assimilar o que ele estava tratando de lhe dizer. —-Você.... Me ama? —Desde o primeiro dia que te vi. ——Milos percorreu as feições dela com adoração, deixando

que seus lábios

descansassem em seu pescoço. —Inclusive depois, quando inventei toda essa história de nosso matrimônio para agradar a Nina, sabia que nunca me liberaria de ti. Só sabia que tinha que te reter junto a mim, a qualquer preço... — Por que não me disse isso? — Porque sou Milos Kosta, querida. — Beijou-a novamente e desta vez, ela reteve seu rosto muito perto. Queria certificar-se de que o amor que lia em seus olhos era real. — Eu não se dizer "te amo", compreende doce Rowenna? Mas posso senti-lo tão fundo, aqui em meu coração... Ela pôs seus dedos no peito, justamente onde ele assinalava. Milos cobriu os dedos com os seus e os puxou, fazendo que ela rodeasse sua nuca e se colasse mais a ele. — Não o sente? —Milos lhe falava ao ouvido. — É você, anjo, que o faz pulsar. Wenna suspirou.


— Então... me ama? — Assaltou-lhe a maliciosa ideia de zombar como Milos estava acostumado a fazer com ela. — Apesar de ser rebelde, pouco atraente e vulgar E....? — Apesar de tudo isso, querida. — Milos lutava por silenciar seus lábios com sua boca ansiosa. Mas ela resistia consciente do novo poder que exercia sobre ele. Maravilhou-a urgência de suas carícias. — E será uma boa pessoa a partir de agora e deixará de olhar a todos com essa expressão arrogante? — Ah, querida minha... São muitos pedidos para uma noite, não te parece? Wenna lhe ofereceu seus lábios, sorrindo ao escutar o rouco gemido que escapava dele. — Então, serei sua esposa. — Concedeu-lhe de bom humor. — Querida.... Já é, recorda? — Milos a levantou em seus braços, subindo com lentidão os degraus da escada. — Minha esposa.... Um belo anjo que a boa sorte trouxe você até mim... meu próprio anjo. O anjo do Milos. Wenna riu baixinho. Pensou que finalmente, o amuleto do Andreas também tinha cumprido suas expectativas. Teria que avisar a tia Alice. Ao menos durante um tempo, não tinha intenção de visitá-la... do outro lado do corredor, duas mulheres bocejavam e se ocultavam na penumbra para não serem vistas.


— Aí, senhora.... Vão nos ver.... — Kalina pressionou sua mão para obrigá-la a entrar no dormitório. Mas Nina negava com a cabeça. — Sshhhiii... Olha-os, Kalina... — Sua expressão era risonha. — Ao menos, quero ter um par de bisnetos.... Crê que esses dois estarão de acordo? — Acredito, senhora.... Mas entremos ou vão nos descobrir aqui... — Não vão, não. — A anciã sorriu, divertida. — Meu neto se crê muito esperto, Kalina. Mas é somente um bobo apaixonado. Me diga uma coisa, será que devemos lhe contar que queimamos todas as respostas que recebemos quando pôs esse anúncio? Kalina a olhou horrorizada. — Ai, Deus, não... Milos é muito capaz de nós duas em um manicômio. — Tolices! .... Mas tem razão. Será melhor que não digamos. — Nina lhe bateu nas costas. — Minha velha amiga.... Fizemos um bom trabalho, não acha? — Sim, senhora. Wenna fez um sinal para Milos antes que fechasse a porta.

Ele

sorriu

para

si

mesmo.

Imaginava

aquelas

velhinhas, conspiradoras e intrigantes, escondendo-se para planejar sua seguinte estratégia... Benditas fossem as duas! Afirmou para si mesmo que algum dia lhes contaria a verdade. Contaria que as tinha descoberto queimando cada


carta que respondia a seu anúncio quando acreditavam que ele não as via. E lhes contaria que tinha guardado zelosamente a carta da Rowenna e que a havia relido várias vezes com o desejo louco de conhecê-la e trazê-la à ilha. E possivelmente lhes contaria também que se casou com ela com as mesmas artimanhas que tinha aprendido de suas duas boas professoras. Mas agora.... Agora somente queria olhá-la e lhe fazer amor longamente até o amanhecer. E foi ao amanhecer, com os primeiros raios de luz filtrando-se pela janela, que ela viu em seus olhos o imenso amor que lhe professava. — Angel do Milos... — Murmurou, feliz ao escutar como ela respondia com um suspiro delicioso. Sim, agora tudo estava em seu lugar.


Ebony clark-um anjo para mim  
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