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A "Carta de Mênfis", seguida de Acha mesmo que é necessário mudar a letra do Hino Nacional?...

Isto dos mortos é sempre uma chatice, porque trazem à superfície tudo o que queremos e não queremos. Nem nunca eu pensaria estar agora a escrever qualquer coisa sobre o Alçada Baptista, e não escrevo mesmo, mas vou directo à "Carta de Mênfis", que começou por ser uma encomenda da Associação Portuguesa de Escritores, e imediatamente fez acender os sinais de alarme todos, e acabou publicada na Revista da "Barata" (jan/fev 91), com o Zé Reis já de saída, para a Galeria "Os Cómicos", e a Graça Didier a nunca me ter perdoado o escrito. Quer dizer, com o tempo já perdoou :-) (Beijos para a Graça)


Rezava assim:

Carta de Mênfis Para o Filipe Moraes Alçada, ad usum delphini

O EGIPTO Sabes, Filipe, nunca Portugal se pareceu tanto com o Antigo Egipto, com cada um dos recantos desta desventrada Mênfis a ser tomado por esta imparável vontade de necrópoles, de procissões de defuntos e de imobilismo, com cada escritor "a partir de certa idade [...] a imaginar, a aperfeiçoar, a polir o teatro Macabro das próprias exéquias" ( A. Lobo Antunes, "As Naus", pg. 26), e, se "o país nos ensinou a ser necrófilos por tradição" (João de Mello, "Gente Feliz com Lágrimas, pg. 47), também é verdade que se podia ter guardado algum espaço para os vivos. Porém, não se guardou, e, se olhares à tua volta, ainda haverá vestígios desse tempo em que as coisas vivas eram sistematicamente substituídas pelas mortas, em que se arrancavam árvores para fabricar "livros", de tal modo que, vítimas de tudo isso, se puderam ver os próprios escritores, um certo dia, a caminho dos embalsamadores, empoleirados no alto das suas cátedras, dos seus oportunismos, dos seus jornais, esses "museus de minúcias efémeras" (J.L. Borges). E era aí que esses embalsamadores lhes arrancavam as vísceras, uma a uma, e os atafulhavam, seguidamente, com salitres, serradura e matéria inerte, ao gosto da moda, tudo isso numa consistência fingida, capaz de durar um par de anos. Enrolavam-nos, depois, nuns cem côvados de linho apropriado, e era, então, e só então, quando o escritor já não se podia mexer ou piar, que lhe começavam a pregar, sobre a múmia, amuletos e esconjuros, aos quais chamavam


"prémios". Concluída a mumificação, passeavam-lhes os corpos de cidade em cidade, enquanto as editoras se multiplicavam em "edições", que não eram mais do que uma coisa má e defunta a ser repetida, muitas vezes. Ao que parecia, todo esse afã se devia a querer alcançar a Eternidade, a pulso, embora, por mais jornais, prémios e edições que se esfregassem nela, a Eternidade se recusasse a vir assim, porquanto toda essa gente continuava, enganadoramente, a confundir os bolores de dentro, da mastaba de CÁ, com os horizontes da terra de LÁ, numa espécie de cegueira de casa sem janelas, enganada com confundir a escuridão própria com a noite alheia. E, embalados nessa espécie de estranha jangada de pedra voluntária, a que tinham reduzido o seu curral matreiro, continuavam a iluminar-se uns aos outros, num fogo de artifício diariamente lançado em pobres apoteoses de aldeia...

"Portugal está na moda" Cavaco Silva (a toda a hora, não importa onde)

"Se os senhores pregassem o caixão, agradecia: é que não há nada para me sentar, enquanto o barco não chega..." António Lobo Antunes, "As Naus"

"Ó, Aníbal, pá, eu acho que os Lusitanos do Viriato deviam ser tão salteadores como a malta do Afonso Henriques e depois do Afonso de Albuquerque. Quando os Africanos se livrarem da nossa pilhagem deles, vamos acabar por nos saltear a nós mesmos" Nuno Bragança

"Não compreendo, ó Trofónio, o que tu dizes, afinal. Mas que tu estás completamente morto vejo eu, perfeitamente." Luciano, "Diálogos dos Mortos"


"Pela primeira vez, desde a época Áurea dos Descobrimentos, Portugal volta a estar na vanguarda dos países em condições de marcar o futuro da Humanidade" Mário Soares, "O Primeiro de Janeiro", 11/6/1990

... onde "nunca se gastou tanto no primor e no preço das galas" (Padre António Vieira, "Livro Anteprimeiro da História do Futuro, pg. 71), convencidos, talvez, de que duas pobres páginas coloridas no pasquim da moda valeriam duzentos anos de depuração, e esquecendo-se, progressivamente, de que, que, ao que escreviam, faltava grandeza, comprometendo, no seu carnaval efémero, "a continuação do Português como língua de cultura", e descurando o "papel interventivo dessa linguagem na alteração dos sufocados horizontes quotidianos" (Joaquim Manuel Magalhães, "Ruy Belo", in "O Independente", 24/11/89). Pobres deles, nesse engano, não estavam nada preparados para a calamidade que os engoliu!...

A CHEIA "Triste, não é?..." (Lídia Jorge, "A Costa dos Murmúrios", pg. 185) Pois é!... Coitados, veio o dia em que uma súbita cheia do Nilo arrastou consigo, enquanto o Diabo esfregava um olho, todas as bibliotecas do Egipto! E foi vê-los, por ali abaixo, uns atrás dos outros, tantos prémios, tantas edições, tantas Obras Completas forjadas em vida! E tanto mais triste se mostrou essa calamidade quanto, assim, não te poderei mostrar [Filipe] senão os escassos restos que se salvaram das águas, fragmentos de fragmentos, cosidos e recosidos, aqui e ali, com o esforço de muitos homens! Mas vê, então, e saboreia esse punhado de cacos...

TRATADO DE ANATOMIA

"Os meus objectos! [...] ( David Mourão-Ferreira, "Um Amor Feliz", pg. 19) Ah, putinha, [...] nua da cintura para baixo[...] tu existias [...] tu Ana Dora


Q., [...] tu, Elvira de V. e S., [...] tu, Isabelinha P.M. de B. [...], tu, Octaviana T. [...], tu, Ursula von W., (Clara Pinto Correia, "Adeus, Princesa", pg. 54, [...] tu, Laurentina dos Santos Serôdio, (David Mourão-Ferreira, "Um Amor Feliz", pg. 209), uma gaja oxigenada, toda pintada, bastante entradota, mas ainda boazona [...] Floripes do Ó Cantante [...]. A das mamas maiores é para mim (Manuel Arouca, "Os Filhos da Costa do Sol", pg. 243), [...] A Zu [...] os seios, ora um, ora outro, na palma da minha mão direita [...] que tal ser igual a uma barca no mar alto ao mesmo tempo enfiada por três mastros [...] "pace maker" [...] "by pass" [...]. Coiro também eu estou, um cada vez mais coiro, e no entanto..." O que deverá ter sido um esconjuro contra o mau-olhado: "[...]entrançar os fios da tabuga para fazer taniças, andando com mogangos às costas, sobretudo tu, o mais moquenco de todos, verdadeiramente high school, um tudo nada ferro forjado acomodado na trempe [...]" ( vocabulário de João de Melo, em "Gente Feliz com Lágrimas") Ou um bom naco de prosa, atribuído a Dom Luís de Gôngora: "Há que preservar o estilo, sobretudo, quando não se tem mais nada" (Manuel Alegre, "Jornada de África", pg. 116) [...] nem o lampejo dos alguidares (Mário Cláudio, "Amadeo", pg. 103) nem a mornidão das crêperies [...] nem a planície de permeio comseus etruscos pretéritos repousando na morte, nutridos e sorridentes [...] nobilíssima de [...] dedos agilíssimos nas [...] cuecas coladas a seus volumes [...] burocrata palavroso e novo-rico de informação cultural mungida do vient-de-paraître, dependurado em seu apartamento das pracetas sociais-democratas [...] com uma diarreia de língua que não há milagres que a estanque" (José Cardoso Pires, "A República dos Corvos") Ou, ainda, escassíssimos fragmentos de uma qualquer nova poetisa de Mitilene:


"[...] Trabalhar faz cancro, não sabia?... É como a virgindade (Clara Pinto Correia, "Adeus, Princesa"). A República Democrática de Almada apresenta-se [...] a tal, das alunas boazonas [...] de forma a que a menina querida dos assistentes não tivesse que fazer mais que copiar [...] Não diz coisa com coisa, mas é boa como o milho" Ou um Livro de Viagens, do qual, infelizmente, só ficou a Língua, tão característica dos relatos do séc. XVII, apesar da pontuação restaurada: "Saberei que me enganei quando me vieres dizer que não se vê um único vulto de soldado cristão em toda a redondeza de terra que te rodeia. Ficarei aqui a vigiar e depois irei à mesquita dizer-to. És um bom muçulmano, que Alá te dê nesta vida e na eterna o prémio que perfeitamente mereces [...] Ainda assim, se não deu o capitão por satisfeito, entendendo que, por ventura, a Ilha podia ter alguma povoação mais apartada; pelo que procedendo com sua viagem, sempre arrimado à terra, descobriu um espaçoso campo, despejado de importuno bosque, que por qualquer parte ali se encontrava" (Este é o meu parágrafo favorito: começa com José Saramago, e acaba com Dom Francisco Manoel de Melo, sendo o estilo do primeiro tão obsoleto que se diria que não passaram 300 anos de evolução da Língua por cima...) Ou este despojo da Crónica Geral do Império da Brandoa: "Quando Vasco da Gama chegou de camioneta a Vila Franca de Xira, com o baralho de sueca na algibeira, a fim de se empregar no comércio das solas [...] (António Lobo Antunes, "As Naus", pg. 222) gostava de as cavalgar nuas e nu, de lhes morder os ombros (Baptista-Bastos, "A Colina de Cristal", pg. 177) [...] como a língua se demora numa afta (António Lobo Antunes, "As Naus", pg. 222) [...] e percorrer a monumentalidade náutica desse pénis florido de insígnias e de caos [...] muito maior do que o seu útero. [...] "Pose de macho?" (Armando Silva Carvalho, "A Vingança de Maria de Noronha", pg. 93) Ou esta interessante cena de bestialidade (o mesmo lixo na cabeça de ambos):


"A Sandra Lulu, ela mesma. E nua [...] arrastando o Duque, que lhe vinha ligado ao ventre pelo coito" (José Cardoso Pires, "A República dos Corvos", pg. 93) [...] e o cão sentiu a afronta. Pôs-se, por isso, a ganir grosso e desesperado (Lídia Jorge, "O Dia dos Prodígios", pg. 121) [...] Sandra, desvairada, esbracejava [...] "deite-lhe água, deite-lhe água", gritavam as vizinhas (José Cardoso Pires, "A República dos Corvos", pg. 93) [...] brandiu o cajado entre os dois corpos [...] oh porra [...] viu o macho passar como um espojinho, salpicando o chão de sangue e lambendo o sítio da sua amputação" (Lídia Jorge, "O Dia dos Prodígios", pg. 121/2) Ou, finalmente, os restos de um livro estrangeiro, aqui retido pela curiosidade (?) de empregar os artigos definidos em Português (esta porcaria também foi Grande Prémio da A.P.E...): "Os Beatles [...] yeah yeah yeah. Os Mamas and Papas California dreamin'. O Paul Simon [...] groovy. [...] Os Trogs, wild thing I Think I love you. As Teddy Bears to know, know him is to love, love him [...] O Don Mclean bye bye miss American Pie [...] but the levy was dry. Os Beach Boys ba-ba-baba-barane" (Paulo Castilho, "Fora de Horas", pg. 65) E, ao que parece, dois escólios, sobre tudo isto: "Grande monte de bosta, Deus Nosso Senhor me perdoe!... (João de Melo, "Gente Feliz com Lágrimas", pg. 241) "Não há dúvida de que a maioria dos homens não quer voar" (Manuel de Lima, "Um Homem de Barbas e outros contos", pg. 127)


O EGIPTO DEPOIS DA CHEIA (Os Vasos Comunicantes)

"Eu não achava graça àquilo: preferia os dias de Sol" A. Bessa-Luís, "Conversações com Dimitri"

"Há muito que Portugal deveria ter sido declarado praia até à fronteira..." Mário Cesariny de Vasconcellos

De costas voltadas para a sua época, toda essa literatura esquecera o tempo em que vivia, ao contrário de "toda a palavra [verdadeiramente] válida [que] só pode brotar de uma consciência enraizada na contemporaneidade" (Cesare Pavese). Cega aos problemas profundos que continuavam a perpetuar em Portugal uma nação de traumatismos, ela contentava-se com permanecer a literatura doente de um país doente, incapaz de se tornar no pretexto de arranque dessa ancestral necessidade de Modernidade. Cultivada no mesmo leito dessa doença profunda, essa prosa desenvolvia-se numa atmosfera de tédio medonho, espécie de motor malsão desligado da sua correia transmissora, posta a girar no vazio, incapaz, assim, de desencadear o único desafio possível, neste país tomado por uma neurose atávica, o desafio de saber viver o seu tempo, antes se contentando com quedar-se com "um olho apontado ao futuro e o outro vendado" (João de Melo, "Gente Feliz com Lágrimas"), ou, pior ainda, com um olho virado para o passado e o outro vendado ao futuro. Ombreando com todas as coisas turvas [...] era normal continuar a ver-se proliferar esse "masoquismo colectivo, que bem [definia] o fraquinho deste país por tudo o que [fosse] fracasso, amadorismo e misticismo de pacotilha" (Almeida Faria, "O Conquistador", pg. 32), criando desânimos e sequelas cada vez mais tortuosas, alçadas ao zénite da aberração cultural,


por um povo que, mutilado na simplicidade do direito de se pronunciar sobre as mais elementares causas/efeitos do seu dia-a-dia, e flagelado justamente aí, aí, onde podia e devia ter direito aos seus juízos singelos e à sua confirmação na realidade, via a matéria mais chã ganhar foros de enormidade. Sucediam-se, então, as deformações monstruosas do quotidiano, progressivamente encoberto por razões que a Razão desconhecia, regido por uma espécie de brumosa cabala, que parecia justificar, apenas com o seu imenso poder invisível, coisas tão revoltantes como o ditado hoje, ladrão; amanhã, Ministro. [...] Transformados em múmias, pelas necessidades do percurso, Filipe, os seus gestos limitavam-se à cópula com uns quantos cadáveres, sempre os mesmos [...] Porém, a mais perniciosa [...] era a permanente fornicação com o Poder, que, geralmente, os punha a gravitar, entontecidos, à volta da Coroa, como borboletas da Morte, completamente desvairadas, à espera de que um clarão breve os calcinasse num fumo de eternidade. Assim, temerosos de qualquer voz de arranque, acomodavam-se à voz do seu mestre, embriagados pela volúpia do momento, "aquecendo-se no calor das próprias fezes" (Almeida Faria, "O Consquistador", pg. 32) [...] porque a verdade é que a ficção contemporânea se tornara em algo que não era nem "um buraco profundo, nem o céu alto" (Maria Gabriela Llansol, "Na Casa de Julho e Agosto", pg. 70), mas uma ficção completamente "decadente porque [perdera], por um lado, o sentido do sério, e, por outro, o do riso; porque [abdicara] da gravidade e de efeitos que são imediatos e dolorosos, numa palavra, porque abdicara do Perigo" (Antonin Artaud, "O Teatro e o seu Duplo", pg. 41) [...] Esta geração perdida dormia nos faustos caseiros, em plena PÉRIODE VACHE da Literatura Portuguesa, quando a cheia chegou -- bem feito!... -arrastando consigo "a Biblioteca de Alexandria da nossa imaginação [já então] limitada a uma escala tão diminuta que metia dó e apetecia morrer" (Lídia Jorge, "A Costa dos Murmúrios", pg. 254)


Morrer!... "Carago, que nem de propósito!" (Olga Gonçalves, "Armandina e Luciano, o traficante de canários", pg. 205) Morrer!... Era isso mesmo: morrer!... A obra de toda essa gente andava mesmo a precisar de morrer... "Por quê? Ninguém quer morrer!" (Luiz Pacheco, "As Minhas Cinco Chagas de Mestre Almada Negreiros" (ainda inédito)) "Vai bardamerda!" (José Cardoso Pires, "A República dos Corvos", pg. 22) "Morrer, sim, porque não acredito que se acabe uma guerra [...] sem a morte de oficiais!" (Lídia Jorge, "A Costa dos Murmúrios", pg. 160)

Luís Alves da Costa, Lisboa, Setembro de 1990

("Inveterascet hoc quoque, et quod hodie exemplis tuemur, inter exempla erit". "Também isto envelhecerá, e o que hoje apoiamos com exemplos passará ao número dos exemplos" - Tácito, Annales, XI, 4) *

Pois é, Filipe, já não te lembravas deste texto, e eu ainda menos. Cheira a pólvora por todos os lados, mas o pior veio a seguir, quando o teu Tio Alçada (hoje morto), a par com o Soares, e no seguimento do modismo francês, veio sugerir, nas Comemorações do 10 de Junho, que eles lá organizavam, entre eles, que se devia alterar a letra do Hino Nacional (!), porque era bélica e agressiva Pois, talvez.


Antes de que ele se lembrasse de tomar a iniciativa, ou pôr a Inês Pedrosa a fazê-lo, tomei-a eu, e enviei-lhe, por correio azul, uma proposta, para debate, que rezava assim: Heróis do Bar, Pobre Povo Raça Indolente, Internacional. Levantai hoje de novo, à horinha do Telejornal. Entre as tostas e a coca cola, Ó Pátria, sente-se a voz de cada vez mais totós que "hadem" levar-te à chicória. Às Docas, às Docas! Alcân'tra Terra, Alcân'tra Mar!... Às Docas, às Docas!... C'os traficantes, marchar, marchar!... C'os traficantes, marchar, marchar!... Nunca me respondeu: talvez tenha percebido que eu o estava a mandar à merda, e até estava. Tu foste para Londres, e eu cá ando, no vaivém deste chiqueiro. Felizmente, vamo-nos encontrando, e, de cada vez, tudo muda para pior. Quanto a ele, já não nos pesa cá. Paz à sua alma...

Luís Alves da Costa, dezembro de 2008

A Carta de Mênfis  

Um epitáfio da prosa miserável do séc. XX português