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Jorge de Sena, numa extensa e magoada cena final

Com dedicatória amiga para a Manuela e a Zézinha, e algum reparo para Dona Mécia

Alguns dos piores dias dos poetas chegam-lhes depois de mortos. Contrariamente à sua vontade, e num aparato típico dos


cultivadores da Necrofilia, Jorge de Sena voltou, contra sua vontade, ao solo português. Jorge de Sena foi dos que se foi embora, porque esta terra não prestava, ou não servia. Algumas das mais amargas palavras que se escreveram sobre o horror de se estar condenado a este cativeiro de frestas lusitanas saíram da sua caneta. Foi-se embora, e disse que nunca mais voltaria. Em 30 anos, um corpo já deixa de estar bem longe de qualquer memória da matéria, e reduziu-se a um simbólico espólio de peças respeitáveis. Nós, expectantes e serenos, aguardamos as vontades dos Poetas. De Sena, sempre viperino, disse o velho Pacheco que era um espírito ávido, omnipresente, e que se adiantava a todos os outros, e dizia "presente", sempre que se invocavam as almas líricas, épicas e dramáticas, nas sessões de espiritismo de pé de galo, mas isso é agora irrelevante. Era uma alma portuguesa que queria deixar no testemunho do seu exílio a impossibilidade de plenamente se contemplar no berço pátrio. Separam-me de Sena muitas palavras azedas e demasiadas peças de betão armado. Não o tenho como poeta de cabeceira, e evoco sempre alguns dos seus poemas como lapidares, como se faz sempre com aqueles que não nos preenchem o coração. Aquilo a que se assistiu hoje, o regresso forçado de um corpo, numa época que tem tudo menos da exemplaridade e dos ideais pelo que o pensador e o homem político sempre lutaram, foi uma profanação. Por mais indignos que sejam, e são, Sócrates e Cavaco, dois seres lúgubres, que Sena, em seu tempo teria


desancado até ao fim, não se deveriam ter atrevido a tal, mas atreveram-se. A viúva sabe que o tempo existencial é finito, e num dia próximo seria a vez de o seu corpo também vir para Portugal, deixando para trás, na longínqua Califórnia, o despojo do homem que se recusara a regressar. Poderia acontecer. Não quero dizer mais nada, pois acho que que já deixei tudo dito nas entrelinhas, mas fica uma pequena maldade: Dona Mécia, numa longínqua carta, que acho que ainda tenho para aí guardada, estava armadilhada uma confissão, que acho que merece, para o dia vexado que hoje se encerra: quando comecei a escrever os "Fragmentos Musicais", era adolescente, e nunca tinha lido uma linha de Jorge de Sena. Menti-lhe, ao dizer-lhe que o que tinha escrito fora naquela linhagem que os poetas encontram e sustêm. Nada devo a si, nem ao seu marido. A verdade é que simplesmente aconteceu: a Música é demasiado grande para ser propriedade de um só, e ele rimou o que rimou, e eu depois tornei lírico o que fiz, pura e simplesmente, porque sim, mas em completa... disjunção. Os poetas mortos já não falam. Fica para os vivos a missão de falarem pela sua boca: em memória de Jorge de Sena, Dona Mécia, se me permite, vou riscar este dia do calendário dele, e também do meu. Fica a constar só no… seu.

Luís Alves da Costa, setembro de 2009


Jorge de Sena