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Há aqueles certos momentos da vida, como Borges dizia, em que se nos confronta que, em nada, nos custaria ter sabido ser um pouco melhores. Álvaro Simões já não era um homem do nosso tempo, ou, melhor dizendo, o nosso tempo já não era um tempo em que nele fizesse sentido o sentido comum da própria palavra "sentido", mas a culpa ia, toda inteira, para o Tempo, e jamais para o Álvaro.


Nós fomos os homens das conversas adiadas, do entreportas, do temos-que-marcar-um-dia-destes-para-falardessas-coisas-mais-a-fundo, mas o Tempo é uma voragem, esse tempo larvar, e corruptor, esse tempo banal, trivial e desgastado, da mecânica dos relógios, que permanentemente nos entretém em sorrisos, e polimentos do até-mais-logo, que acabará por se converter no dia do jamais-para-sempre. É verdade que entre mim e Álvaro Simões ficaram gigantescas, irremissíveis, devastadas planícies de diálogos incompletos. Tínhamos, em comum, o cinismo absoluto da visão do Tempo Presente, da substituição do Homem humano pelo homem das estatísticas, e das flexões do sentir médio, dos sem-sorrisos das rotinas, para quem certas minúcias seriam absolutamente insuportáveis, pobres cumpridores das pequenas ampulhetas de secretária, para quem a Enorme Enciclopédia do Excêntrico, do "anedoctique", do vivencial extremo, a quem nem sequer soaria, nunca, a possibilidade dos currículos das coisas bem feitas; daqueles tristes enformados do Conformismo, os seres sociais das linhas cinzentas da sua própria descrição, para quem a vida vital dos pormenores do "cadavre-exquis" -- esse ente da Insolência, que arrastamos, em todos nós, e só revelamos nas horas áureas da confissão tardia, e, mesmo assim, com o tom solene de quem reabre uma aguardente dos anos idos de 1888, nas antevésperas do Senhor Dom Pedro II, Imperador do Brasil, ser lançado às feras, pelo acto da Libertação do Humano, enquanto escravo ignóbil -- não tem qualquer sentido, de moeda de troca, no penoso arrastar de Hoje. Dividia-nos o ódio de Proust, para mim, a pedra de assento de toda a morbidez quotidiana, a grelha hermenêutica da sociedade mórbida que se curva sobre si mesma, para o Álvaro, "o livro mais chato da Literatura Francesa...", e esse é o único sorriso que libertarei na escrita deste texto, e em nada me impedia de reconhecer, nas conversas sobre o absoluto sublime do Bom-Gosto, essa coisa inefável, e cuja essência não comportava quaisquer adjectivações, nem silogismos, mas tão-só os aforismos, do "c'est-


comme-ça", do nada mais haverá a dizer, ou seja, uma certa atmosfera crepuscular, imanente a todos esses Juízos do Extremo, e o Álvaro soltava então a sua velha gargalhada... -- proustiana, "malgré-lui" --, e dizia, "mas o extremo do Bom Gosto, era Zita de Habsburgo", já exilada na Madeira, e sem quaisquer recursos, "a servir à mesa, aos seus convidados, uma simples meia papaia..." Uma meia papaia, uma meia flor, um verso cortado ao meio, uma partitura desfiada pelo Tempo, mas alicerçada, pelo extremo de uma linhagem, como esteio absoluto de uma postura, como um livro tornado ilegível, mas a quem o protocolo da vivência exigia que se continuasse a folhear, até ao infindável fim infinito das coisas questionáveis. No meio da malícia, chamei-lhe "Imortal", quando soube que entrara pelas portas altas da Academia Portuguesa de História: era o périplo brilhante do invasor, o caminhador das margens, insubmisso, que assim se sentava, de sopetão, nos elevados espaldares do Reconhecimento. São sempre essas as linhas escassas que a História escreve sobre o Homem finito e humano, como uma mera inscrição da longínqua Tebas, de Kom-Ombo, de Palmira, um epitáfio de viagem longa do "passei-por-aqui", com toda a ironia que estivesse contida no enorme abismo implícito no "aqui", no "passei" e no que realmente eu -- ele -- fui. Agora, estão adiadas as conversas do entre-portas, do cruzar de corredores, do gostaria-de-saber-o-que-pensasobre-isso, e tudo isso se tornou hoje subitamente irrelevante, como a eloquência muda do cruzar dos olhares, o timbre estudado da gargalhada, a exclamação conclusiva, mas LÁ, da frase enunciada, que nunca chegou a ser dita, mas se tornara imediatamente clara em ambos os interlocutores. Talvez eu quisesse agora tornar-me grandiloquente, e epidíctico, e afirmar que as grandes conversas do Tempo se tenham sempre desenrolado entre quem nunca realmente falou entre si, mas também isto seria agora mentira, e hiperbólico, e um mero recurso retórico para acalmar as insuportáveis marés da Tormenta. Ouvi, pela última vez, a voz do Álvaro num daqueles táxis emissores de comentários entrecortados: questionavam-no


sobre as Sete verdadeiras maravilhas do Portugal Contemporâneo. O que ele dizia despertava-me, na penumbra da noite vaga, e dos embalos mecânicos do veículo, sorrisos atrás de sorrisos, porque era ali o discurso da enunciação lateral dos pequenos pormenores, aforísticos, que alicerçam a Diferença, ou seja, tudo aquilo, em síntese, audácia e minúcia, que fazia da Portugalidade um lugar único do estar artístico na História, um capaz flectir de todos os dialectos da Produção, num sentido reconhecível, e inconfundível, de erodir o Tempo na sua sonoridade cultural própria. De algum modo, eu não o poderia dizer melhor, e se nos separavam, e separam, vivências e cronologias, aparentemente, inconciliáveis... Todavia, não se limitava a ser verdade: era apenas o discurso sapiente, a eloquência crítica, e o sarcasmo que gerava o costumado mal-estar do despertar da vontade de saber nos outros, às vezes, tão-só o de se inquirirem "por não serem aquelas palavras afirmadas com a certa certeza com que os medíocres -- e a mediocridade, nas próprias palavras dele, era sempre arrogante -- se costumava pronunciar". Atrever-me-ia a dizer, Álvaro, quixotescamente, lidava contra essa maré, arrogante e abafadora, onde o tempo contemporâneo cede ao lugar da potência, do ruído e da violência do argumento irrelevante, face ao silencioso poder da Subtileza, do reflectir de retaguarda, da conclusão sólida, que abdicou do estrelato da estridência da Fama do Agora, e é com essas palavras, o seu estar e essas memórias, em nós para sempre deixadas, e intransmissíveis, que, hoje, dia 11 de Outubro de 2007, Álvaro Simões acabou, sem o saber, de traçar o seu próprio lugar na Eternidade. Obrigado

Luís Alves da Costa, Outubro de 2007


Epígrafe, para toda a Eternidade, de Álvaro Simões