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ÂNS NEEUURR FRFLULÂA

Estrangeiros pelas ruas Por Mariana Bartz | Foto Ramiro Macedo

Por trás de um nome, escondem-se histórias de pessoas que, apesar de não terem vivido na cidade, contribuíram para nomear as vias urbanas, revelando uma faceta da presença estrangeira. Os moradores, às vezes, sequer conhecem quem foram as pessoas homenageadas em placas de ruas.

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llan Kardec, Artigas, Balzac, Cervantes, Chopin, Garcia Lorca, Francisco Ferrer, Gandhi, Goethe, Joana D’Arc e Walt Disney, entre vários outros, são alguns dos estrangeiros homenageados com nomes de rua em Porto Alegre. Enquanto a maioria dos nomes faz referência a heróis e personalidades nacionais, como forma de exaltar os grandes feitos do país, estes são exceção. Mais do que orientar o recém-chegado visitante, as placas das ruas revelam a história de uma cidade e a presença estrangeira na região, uma vez em que estão intimamente ligadas à imigração e ao desenvolvimento da Capital.

Até 1843, não havia denominações oficiais e as ruas recebiam nomes dados pelo povo, como Rua da Praia. Somente a partir da Guerra do Paraguai, em 1865, as homenagens foram destinadas, sobretudo, a heróis da guerra ou a batalhas vitoriosas. Sérgio da Costa Franco, autor do livro Porto Alegre: Guia Histórico, de 1988, afirma que isso permaneceu até o final do período imperial, em 1889, e, nessa ocasião, não houve nenhuma homenagem a estrangeiro, salvo a Giuseppe Garibaldi, por volta de 1883. “Depois, já na era republicana, as denominações obedeceram, principalmente, ao critério partidário: só os fiéis republicanos castilhistas eram homenageados. A exceção deve ter sido Carlos Von Koseritz, jornalista alemão, liberal e vítima do regime, que recebeu homenagem de rua lá por 1910 ou 1915, talvez porque fosse um destacado maçom”, ressalta ele.

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Giuseppe Garibaldi lutou pela Guerra dos Farrapos e pela independência italiana

Anderson Taborda, vigilante de um dos edifícios da Rua Garibaldi, próximo à Avenida Osvaldo Aranha, confessa que não sabe: “Garibaldi? Quem foi Garibaldi?”. Ele não tem a menor ideia. Diariamente, passa todas as manhãs observando a rua. Porém, nem isso parece instigar-lhe. “Quem foi Garibaldi eu não sei, mas se tu me perguntasse sobre o Jimi Hendrix...”, brinca Rogério Cazzeta, mais entendido de música do que de história. Há 22 anos trabalhando no meio dos vinis da Toca do Disco, ele relembra os bons tempos em que promovia shows na loja e recebia os amigos das bandas de rock. “Hoje a situação piorou bastante e as condições da rua estão péssimas. Desde que reformaram o túnel que vai até o centro, ficou muito ruim para quem é comerciante”, conta ele. Além disso, a falta de estacionamento, inexistente ao longo de toda a via, di-

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ficulta o acesso. Se muitos moradores da Garibaldi desconhecem a origem do nome da rua, Eronildo da Silva, dono do estabelecimento Chaves Garibaldi, na esquina com a Avenida Independência, é entendido no assunto. Além de conhecer a história do revolucionário italiano, afirma ainda que ele já morou em um dos casarões da rua, com sua esposa, Anita Garibaldi. “Há mais ou menos uns 20 anos aquela casa foi tombada. Hoje existe só a fachada, porque reconstruíram todo o resto”, relata o chaveiro, indignado com o descaso com os monumentos e prédios históricos da cidade. No entanto, há muitas casas tombadas nessa mesma rua, próximo ao Parque da Redenção, e várias delas poderiam ter pertencido ao herói farroupilha. Ninguém mais confirma o relato e a história toma ares de lenda urbana.

A Garibaldi é uma rua um tanto quanto emblemática. Ao afastar-se da Avenida Osvaldo Aranha e aproximar-se do Centro Histórico, ela se torna menos arborizada e, cada vez mais, deteriorada, como se tivesse sido esquecida pelas pessoas que vivem ali e pelas autoridades que poderiam fazer algo a seu favor. Já próximo à Rodoviária, o Hotel Conceição encontra-se fechado. Não há nada senão sujeira, lixo espalhado por toda a parte e moradores de rua. Como veem, as mudanças são drásticas. Nada da graça, da cor ou da alegria que lhe é tão característica próximo ao bairro Bom Fim. Outra rua que parece ter ficado perdida no tempo é a Presidente Franklin Roosevelt. Ivo Valentim, empresário, mora e trabalha ali desde 1947. Ele lembra que, não só a rua, como o bairro inteiro, antigamente, diferenciava-se do resto da cidade. Isso porque as melhores lojas, os bancos, os clubes e as sociedades mais importantes de Porto Alegre tinham suas sedes naquela região. Valentim afirma que o bairro São Geraldo, antes São João - Navegantes, era conhecido como o bairro dos estrangeiros, abrigando igrejas das mais diversas religiões.

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Theodore Rooseveldt presidiu os EUA de 1900 a 1909

Ruas Polônia, França, Madrid, Bahia, Pará e Amazonas, mostram a diversidade do local, que chegou mesmo a ser tão importante quanto o centro de Porto Alegre. “O que aconteceu foi que os outros bairros cresceram e, pouco a pouco, as pessoas foram indo embora”, conta o empresário. “Algumas lojas fecharam, mas, ainda assim, o local continua bastante industrial e comercial”. Apesar de certa decadência, expressa em fachadas envelhecidas, sem pintura, com letreiros antigos e estabelecimentos vazios, Valentim tem convicção de que esse é o melhor bairro de Porto Alegre e que ele vai tornar a ser o que era antes, quando as autoridades da cidade voltarem a olhar para ele. Formado em Ciências Políticas e Sociais, Valentim não tem dificuldades para responder quem foi Franklin Roosevelt: “O presidente dos Estados Unidos, é claro”. Sobre os motivos que levaram à troca de nome da rua, ele especula que, nessa época, entre os anos 1940 e 1950, os americanos estavam no auge, por isso a homenagem.

“O que aconteceu

foi que os outros bairros cresceram e as pessoas foram indo embora Ivo Valentim

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A farmacêutica, Janete Dutra, demonstra todo o seu amor pela rua. Adora morar ali, em um local onde todos se conhecem. A Franklin Roosevelt e as demais vias ao seu redor parecem mesmo ter conservado o aspecto interiorano, como o antigo centro comercial de alguma cidadezinha remota. Janete recorda o Carnaval de rua, que costumava ser tão popular quanto o que havia no Centro. Atrás do balcão de sua farmácia, ela sente saudade dos desfiles, do cinema e dos restaurantes que, há cerca de quarenta anos, deixaram de existir. Armindo Gonçalves, que foi levado quando era criança para o Uruguai e viveu em Montevidéu por trinta anos, compara São Geraldo com a Ciudad Vieja, bairro histórico do local onde viveu. Com mais de cinquenta anos de profissão, Gonçalves gosta do trabalho que faz como sapateiro na Galeria Eduardo, onde tem a sua oficina. Não pensa em voltar para o Uruguai. Avenida Eduardo foi o nome com que a rua ficou conhecida, oficialmente, durante muitos anos. Costa Franco esclarece que esta avenida foi aberta em 1890, no terreno de propriedade de Eduardo de Azevedo e Souza Filho. Ele foi o co-fundador da Cia. Territorial Porto-Alegrense, responsável por um grande loteamento implantado em 1895 nos bairros Navegantes e São Geraldo. Por essa via circulava o bonde São João, quando a rua ainda era conhecida por seus blocos carnavalescos e pela intensa vida social. Costa Franco aponta que a mudança para Franklin Roosevelt veio com um Decreto-Lei de 1945, firmado pelo prefeito interino Egídio Costa, como homenagem ao chefe de Estado norte-americano que acabava de participar decisivamente da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Fato importante para a cidade foi a grande naturalização de 1890, quando todos os imigrantes puderam adquirir cidadania brasileira, o que permitiu o ingresso de estrangeiros na vida política da cidade. Esse foi o caminho para futuras homenagens, porém, ainda assim, escassas. Jorge Barcellos, diretor do Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre, afirma que a denominação das ruas está profundamente ligada ao processo migratório sofrido pela cidade. A partir disso, é possível estabelecer diversos recortes,

como o estudo, organizado pelo Memorial da Câmara, em 2007, Logradouros públicos em Porto Alegre: presença feminina na denominação, que resgata a memória de ativistas, militantes e organizadoras das causas das mulheres. Barcellos destaca que, em um primeiro momento, no século XIX, chegaram até a Capital, alemães e italianos. No século seguinte, a migração já foi mais diversificada, compreendendo poloneses, japoneses e judeus. Barcellos observa ainda que, somente a partir dos anos 1930, esses imigran-

tes começaram a ganhar homenagens com nomes de ruas, na medida em que surgiram seus próprios líderes, devido à expansão urbana. E como a cidade cresceu tanto nos últimos tempos, ele acredita que existam ruas para todo mundo dar nome. Com critérios bastante diferenciados e pouco rigorosos, as ruas passaram a homenagear não só imigrantes que estreitaram laços com a cidade, mas também personalidades da Europa e dos Estados Unidos. São reflexos, pouco reversíveis, do mundo globalizado nas ruas de Porto Alegre.

Johann Wolfgang von Goethe é considerado o mais importante escritor alemão

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