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HÉLDER MEDEIROS

ELEMENTO

ALPHA A ORIGEM


AGRADECIMENTOS

Este romance não podia ter sido concluído e publicado sem o valioso contributo de várias pessoas, cuja ajuda gostava de reconhecer. Só para destacar alguns nomes — e perdoem-me qualquer omissão — começava por mandar uma palavra especial de agradecimento ao Dr. Pedro Garcia, Técnico de Divulgação Científica no Observatório Astronómico de Santana (OASA), pela revisão científica deste livro e pelos seus preciosos apontamentos e incondicional disponibilidade no esclarecimento de dúvidas. Gostava também de agradecer ao Doutor Gustavo Martins, do Centro de Investigação de Recursos Naturais (CIRN) da Universidade dos Açores, pela revisão científica em todas as áreas relativas a moléculas orgânicas. Um grande obrigado ao Comissário Rúben Medeiros, da Polícia de Segurança Pública, meu maior critico e conselheiro, por ter sido um dos primeiros a ler estas páginas e a direcioná-las no bom sentido. Ao Subcomissário Marco Lobato, da Polícia de Segurança Pública, pela leitura ponderada do manuscrito e valiosas sugestões. À Dra. Ana Freitas pela assessoria linguística e pela atenta e paciente revisão formal deste texto, salvando-me de alguns embaraços. Finalmente, ao meu editor Fernando Ranha e à equipa da VerAçor pelo seu profissionalismo e empenho. Um agradecimento especial à Micaela Medeiros pela paciência com que aturou as horas sem fim que não lhe dediquei para me entregar a este manuscrito.


De salientar que as áreas temáticas abordadas neste livro são alvo de inovações e descobertas contínuas, pelo que algumas das informações veiculadas nestas páginas podem vir a sofrer atualizações ao longo dos tempos, o que de resto é natural. Relevo apenas que a maioria das estatísticas, descobertas científicas, inovações tecnológicas, instituições, organismos governamentais, acontecimentos e locais descritos nestas páginas é real, mas tratados de forma ficcionada.


ELEMENTO ALPHA - A ORIGEM

PRÓLOGO

Detroit, Michigan - Estados Unidos A horda de nuvens que acinzentara o dia trouxera consigo uma chuva miudinha e obstinada. “Tempo nojento”, pensou Gordon Sobchak enquanto conquistava outro golo ao copo aquecido pela mão. O aroma intenso do Whyte & Mackay de 30 anos proliferou o paladar a malte, abrasando-lhe o esófago e acabando por ir jazer serenamente no seu estômago. Fechou os olhos para apreciar em pleno o final adocicado e seco do whisky. “Ah, duzentos dólares a garrafa e vale cada cêntimo!” De pé, junto à janela da sala fortificada a que chamava escritório, o homem de cabelo loiro esbranquiçado observava uma embarcação de recreio a passear-se nas águas tranquilas e recentemente descongeladas do Lago St. Clair. “Se ao menos a vida fosse assim tão simples”. Tinha duas lanchas e um barco à vela ancorados lá fora, na marina privada da propriedade, e ainda não experimentara nenhum. Às vezes desesperava por ligar os motores e navegar, talvez atravessar a fronteira imaginária no meio do Lago que separava os Estados Unidos do Canadá e ir almoçar anonimamente ao outro país, mas nunca tivera tempo. Se antes o trabalho era a sua vida, agora o seu trabalho era maior do que a vida de todos os seres vivos no planeta.

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Comprara aquela ilha no Lago, separada da cidade de Detroit apenas por uma ponte, reconstruíra a casa que lá estava e edificara as instalações para a investigação, que mantivera secreta por questões de segurança. Passou a mão pela barba loira impecavelmente aparada. Sim, tudo estava a correr bem, de acordo com os planos, e bastavam mais uns anos para que se tornasse no homem mais importante da História. Gastara grande parte da fortuna para garantir a sua imortalidade e, por Deus, ia consegui-la. Uma batida áspera na porta libertou-o dos seus pensamentos. – Entre – assentiu. – Com licença – pediu a figura avassalada de um mordomo. – Desculpe incomodar, Mister Gordon, mas o Doutor Bryce está lá em baixo e insiste em falar consigo. – Mande-o subir, por favor. Com um aceno quase impercetível, o mordomo fechou a porta e desapareceu. Ele sabia que aquela hora ia chegar, era uma questão de tempo. Seria assim tão difícil perceberem a sua visão? Estava rodeado por imbecis de mente fechada. Desta vez a porta abriu-se sem qualquer aviso. Um homem obeso vestindo uma bata branca e ostentando um farfalhudo bigode descorado marchou sala dentro e só parou antes de embater na secretária de carvalho que o separava da figura com o copo de whisky na mão. – Preciso falar consigo! Isto não pode continuar, não foi isto que combinamos!! – Doutor Bryce, como está? – perguntou afável e calmamente. – Tenho feito tudo o que me pediu, está na altura de divulgar o que sabemos. O mundo tem de conhecer o que você tem escondido nas caves da sua casa!

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– Meu caro, acalme-se. O mundo não está preparado para saber o que quer que seja. Você imagina as repercussões de uma revelação destas? – Não lhe cabe a si tomar esta decisão! Um golo mais comprido terminou o conteúdo do copo. Pousou-o tranquilamente e suspirou, como um pai que vai explicar ao filho pela milésima vez como resolver um exercício de matemática. – Doutor Bryce, o número de estrelas no universo estima-se em setenta mil triliões. Isto é o número setenta com vinte e um zeros à frente. – Eu sei o que são setenta mil triliões! – Estamos a falar de mais do que o número de grãos de areia de todas as praias da Terra. E isto apenas em estrelas, já que há mais planetas do que estrelas. Uma em cada seis estrelas estudadas possui pelo menos um planeta com massa semelhante à de Júpiter, metade têm planetas com a massa de Neptuno e dois terços têm super-Terras. Aliás, pensavase que a Terra seria um planeta singular na nossa galáxia, mas suspeita-se que afinal existem biliões de planetas com massas semelhantes à da Terra a orbitar estrelas… só na nossa galáxia, e como sabe existem milhões de galáxias. É só fazer as contas. – Onde quer chegar? – Não percebe o quão aleatória é a nossa existência? Se o público se apercebesse disto, se soubesse o que nós sabemos, não conseguiria lidar com esta informação. Doutor Bryce, Deus, como o conhecemos, seria provavelmente o primeiro a morrer! – Mister Gordon, não é ético manter este segredo! Temos de revelar o Elemento Alpha! O que você quer é lucrar com este conhecimento, nada mais!! – E o que há de errado em lucrar enquanto se trabalha para a

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melhoria da qualidade de vida da raça humana? – o homem agarrou numa caneta banhada em ouro e usou-a como apontador, mais parecendo um professor numa palestra. – O pessoal da sua equipa apresentou-me umas estatísticas muito interessantes. Você sabia que, por causa do que estamos a fazer hoje, as dez profissões que serão indispensáveis em 2034 ainda nem existem? Estou a falar de nanomédicos, fazendeiros de seres geneticamente modificados, cirurgiões de aumento de memória, pilotos espaciais, controladores de avatares, especialistas em reversão de mudanças climáticas… – fez uma pequena pausa. – O mundo está a preparar estudantes para profissões que ainda nem apareceram.É esta a revolução que estamos a preparar. Tem esta noção? – Mas a questão não é esta. – A questão é precisamente esta! – Gordon Sobchak levantou a voz pela primeira vez. – Informação é poder e, neste momento, temos nas nossas mãos a informação mais poderosa da história da humanidade! O homem circundou a secretária e juntou-se ao Doutor Bryce no outro lado. – O planeta está dependente da tecnologia como um toxicodependente de droga. – E você pretende ser o seu traficante, é isso? – Caro Dr. Bryce, a quantidade de nova informação gerada no mundo apenas este ano é maior do que a acumulada nos últimos cinco mil anos – continuou, ignorando o comentário do interlocutor. – São enviados 300 biliões de emails e 19 biliões de mensagens de texto por dia. Os utilizadores da Internet passaram de 569 milhões em 2002 para 2.27 biliões em 2012. Há dez anos atrás levava-se 12.5 minutos a descarregar uma música da internet, hoje leva-se 17 segundos. Uma só edição do The New York Times contém mais informações do que uma

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pessoa comum recebia durante toda a sua vida há 300 anos … – Isto é tudo muito interessante, mas o que tem a ver com o Elemento Alpha? – O Elemento Alpha permite-nos estar dois passos à frente da humanidade! Permite-nos dar-lhe o que ela quer, tecnologia como nunca antes vista – aproximou a face da cara papuda do Doutor Bryce. – Permitir-nos-á dar um salto que, de outra forma e ao ritmo atual, por mais vertiginoso que este seja, levaríamos cerca de duzentos anos a dar. – Mas a que preço? – A um preço perfeitamente aceitável. – Não! Recuso-me! As pessoas têm o direito de conhecer o seu lugar no Universo, de conhecer as suas origens! Vou sair daqui e vou divulgar o que sei! Não há nada pior do que um homem que se quer armar em Deus, Mister Gordon.Tenho muita pena, sei que você investiu muito em mim, mas eu... O cientista de bata branca nem ouviu o som da sua própria pele a rasgar. A dor lancinante que lhe dominou a garganta cortou-lhe a palavra e deu por si a lutar desesperadamente por uma golfada de ar. Abriu muito os olhos num tom de súplica e tentou soltar-se, mas o homem à sua frente mantinha-se firmemente agarrado à caneta de ouro que lhe espetara na traqueia. Levou as duas mãos aos ombros do atacante e fixou o olhar de agonia naquela que seria a última visão da sua vida: uma face impressa num acento de raiva e desdém. O homem abriu a mão e o corpo do Doutor Bryce, ainda com a caneta a sair-lhe da garganta, caiu inerte no chão. Pressionou o botão que chamava a criadagem e serviu-se de outro copo de Whyte & Mackay. Quando a porta do gabinete se abriu, a primeira coisa que o mordomo viu foi o cadáver do cientista que encaminhara até ali minutos

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antes. Lançou um suspiro cansado, como um contínuo que acabou de limpar o chão apenas para alguém derramar uma chávena de café a seguir. – Antoine, trate disto, por favor. Reúna a equipa do Doutor Bryce e... trate deles também – Gordon Sobchak voltou ao seu lugar junto à janela, ao fundo o Lago St. Clair. – Você estava errado, Doutor Bryce – disse para si. – Há algo muito pior do que um homem que se quer armar em Deus; um homem que pode ser Deus.

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Prólogo "Elemento Alpha"