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Alternativa Após implantação do VLT, número de passageiros de trem subiu 6,1% em João Pessoa. Pág. B3

Editor: Andréa Alves Subeditor: Julio Silva

Domingo, 27 de agosto de 2017 B1

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As novas famílias

Diversidade. IBGE revela que 51% dos lares do País já não são formados por pai, mãe e filhos Beto Pessoa

O Censo de 2010 identificou 19 laços de parentesco no Brasil. O modelo tradicional de família esteve presente em 49,9% dos domicílios. Em agosto é comemorado o Mês da Família, evento organizado por representantes da igreja católica para celebrar o modelo tradicional das relações de parentesco. Dados do Instituto Brasilei-

ro de Geografi a e Estatística (IBGE) apontam, entretanto, que 51% das casas brasileiras já não são compostas por pai, mãe e filhos, assumindo arranjos e filiações mais diversificados. Neste impasse de ideias e conceitos, fica a pergunta: como se confi gura uma família? O IBGE, através do Censo de 2010, identificou 19 laços de parentesco no país. O modelo tradicional de família, composta por um casal heterossexual e fi lhos, esteve presente em 49,9% dos domicílios, enquanto a maioria, 50,1%, afirmaram fazer parte de outras configurações de parentesco. Entre

elas, as famílias homoafetivas, que, segundo o Censo 2010, já são 60 mil no Brasil, 53,8% delas comandadas por mulheres. Uma dessas é a família da ca ntora Gabr iel la (Gabi)

Araújo e da analista de marketing Júlia Guedon. Ensinamentos. De irmão mais novo, Sandrinho passou a ser fi lho, amigo e companheiro, características

Eu tinha 21 anos quando a minha mãe faleceu. Sandrinho, que também é filho dela, era muito pequeno. Assumi esse papel e responsabilidade de forma orgânica, pois, naquela situação, era o único caminho possível Gabriella Araújo, cantora

essenciais para se constituir uma família, destaca Gabi Araújo. “Família é cuidado, respeito, dedicação, amor, zelo. É alicerce, conforto. São as pessoas que você escolhe amar e contar para o que der e vier. Todos os dias ensino Sandrinho a respeitar os outros, sobretudo às mulheres, combatendo machismo desde cedo. Respeitando ao próximo, ele pode ser quem ele quiser”, disse. Afeto e companheirismo: palavras-chave quando se conceitua uma família, é o que defende Júlia Guedon, companheira de Gabi. “Sempre me pareceu natural casar com outra mulher, estranho seria discordar de uma coisa pura como o amor que se sente por alguém. Mas quando a gente começa a notar o olhar estranho dos outros, você passa a se questionar, se perguntar se está no melhor caminho”. Júlia diz que no dia a dia com Sandrinho fortaleceu seus ideais sobre relações e configurações familiares. “Quando Sandrinho entrou nas nossas vidas passei a não temer os julgamentos. Ensinar a uma criança o significado de respeito e amor, notar que ela aprende com muita facilidade, traz uma mudança na sua percepção. Se uma criança pequena entende que amor é bacana, independentemente do gênero do casal, que absurdo seria nos questionarmos”, disse Júlia.

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CIDADES

Paraíba Domingo, 27 de agosto de 2017

Conceito‘fabricado’ Teoria. Especialista explica que modelo de família foi inventado na Revolução Industrial Beto Pessoa

Antropólogo diz que o conceito de família, como conhecemos hoje, nunca foi algo natural, mas forjado durante o transcorrer da história da humanidade. Professor do Programa de Pós-graduação em Sociologia (PPGS/UFPB), o an-

tropólogo Adriano de León explica que o conceito de família nunca foi natural, mas sim forjado com o passar dos séculos. “O fundamentalismo enxerga a família no singular, num modelo único. É importante ressaltar que este conceito de família foi pensado, inventado durante a Revolução Industrial para atender ao capital”, disse. Na avaliação do pesquisador, este modelo tem sido questionado, dados os novos modelos e confi gurações das relações sociais. “O funda-

mentalismo deixa de considerar família tanto aquelas homoparentais (for mada por gays e lésbicas), como também inseminação in vitro ou a barriga de aluguel (maternidade por substituição), por exemplo. Acontece que a família cada vez menos é singular, está cada vez mais plural”, disse o professor. Famílias plurais. A i nda há diversos outras configurações possíveis. Crianças criadas por irmãos. Netos criados por avós. Casas compostas por mães solteiras,

Essencial “Nossa família tem um formato diferente da tradicional, mas ninguém pode dizer que não somos uma família. Temos o essencial para isso” Dandara Thaís Dantas. Estudante .

pais solteiros e seus filhos. Neste mosaico de possibilidades, afirmar um modelo único de família é não entender as configurações do mundo contemporâneo, é o que defende a estudante Dandara Thaís Dantas, de 20 anos, que mora com a irmã, a avó e o irmão de 3 anos de idade. “Na minha avaliação, família não precisa necessariamente de um provedor, a fi gura de um pai, por exemplo. É preciso, antes disso, diversos outros valores. Afeto, cuidado e parceria são fundamentais. Hoje as famílias são mais complexas do que se imagina, outros parâmetros são usados para se defi nir o que é família”, disse. Apesar de jovem, Dandara diz que viver numa família que não se encaixa no modelo “tradicional” a tornou uma pessoa mais madura, companheira e responsável. “Quantas famílias ‘tradicionais’ existem aí e a responsabilidade doméstica recai toda sobre a mãe? Isso para mim não é cumplicidade, não é uma família. Minha idéia de família é amor, parceria. Isso nós conseguimos construir na minha casa”, disse. O irmão de Dandara, Marcos Geovane Alcântara Fil ho, veio de Patos, à 317 quilômetros da Capital, após a mãe da jovem falecer, em fevereiro deste ano. A avó, Francisca Dantas Ferreira, que tem limitações por causa da idade, também saiu do Sertão para morar com Dandara e a irmã em João Pessoa.

Novo sentido

A professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia (PPGA/ UFPB), Márcia Longhi, que ministra a disciplina “Organização Social e Parentesco”, explica que no início dos estudos antropológicos, por exemplo, se analisava as relações sociais de parentesco dos indígenas e aborígenes, muito divergente daquilo que os pesquisadores entendiam, à época, como “família”. “Lá o parentesco era muito diferente desta família nuclear, que hoje entendemos tradicional. Era uma organização social que tinha sua lógica própria”, destacou Márcia Longhi. Nesta reconfiguração de conceitos contemporânea, as famílias vão adquirindo novos sentidos. “Até um tempo atrás, a família estava muito ligada aos laços sanguíneos. Hoje, com as novas tecnologias reprodutivas, novas relações, tudo está sendo confrontado. Já percebemos a família como algo muito maior que os laços sanguíneos, existe toda uma conectividade que valoriza mais o sentido de ‘agregar’, ligadas à solidariedade, afeto e interesses comuns, do que necessariamente nos laços sanguíneos”.

Novas Famílias  

Reportagem: Beto Pessoa

Novas Famílias  

Reportagem: Beto Pessoa

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