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FICHA TÉCNICA / TECHNICAL SPECIFICATIONS EDITORES / EDITORS Bernardo de Vasconcelos Luís de Vasconcelos Marco Câmara DESIGN / DESIGN Marco Câmara CAPA / COVER Marco Câmara COLABORADORES / COLLABORATORS Dina de Vasconcelos Jorge Marques TRADUÇÃO E REVISÃO / TRANSLATION AND REVISION Bernardo de Vasconcelos HEART MAGAZINE é uma publicação trimestral da Heart Magazine / is a Heart Magazine quarterly publication Funchal - Madeira - Portugal www.issuu.com/heart.magazine Todos os artigos são da responsabilidade dos seus autores e, assim sendo, não refletem totalmente a opinião da revista. É expressamente proibida a reprodução parcial ou total de textos e imagens por qualquer meio, sem prévia autorização dos autores e do editor da revista. All articles are of the responsibility of the authors and, therefore, do not fully reflect the opinion of the magazine. It is forbidden to totally or partially reproduce text and images by any means without prior permission of the authors and the editor of the magazine. PARA COLABORAR / TO CONTRIBUTE: Consulte condições em / see how to at www.heartmagazine.pt https://www.facebook.com/pages/Heart-Magazine/417432924997242 e/ou / and/or Envie e-mail para / send an email to geral@heartmagazine.pt Os textos em PT da estrita responsabilidade da Heart Magazine apresentam-se segundo o novo acordo ortográfico. A escolha ortográfica de cada participante é da sua responsabilidade pessoal. Heart Magazine © Registo Nº / Registration No. 5790/2012 junto da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC) – Portugal / with the Inspectorate-General for Cultural Activities (IGAC) – Portugal ISSN 2182-9667


ÍNDICE INDEX

EDITORIAL LOCUS ENTREVISTA (AITKEN PEARSON) ALICE SOUSA ANA CARDOSA ANA PAIS OLIVEIRA ANTÓNIO CASTRO BARAHONA POSSOLLO CARLOS FARINHA CARLOS GODINHO CONSPIRAÇÕES NA COZINHA DA: PAZ DAVID ROSADO DÉL FALANTE DILAR PEREIRA DOMINGAS PITA E. SIRGADO DE SOUSA ERNESTO COELHO SILVA FILIPA JASMINS GRAÇA BERIMBAU GRACINDA CANDEIAS HÉLDER FRANCO JOÃO MORGADO JOSÉ ASSIS LETHES PAIVA LUÍS ABREU LUÍS GONÇALVES LUÍS PEREIRA LUZ HENRIQUES MARIA RAFAEL MARTA CRÓ MIGUEL SANTOS NELSON CAIRES PEDRO BERENGUER PEDRO CHAGAS FREITAS PEDRO ZAMITH RAINER SPLITT RUI HORTA PEREIRA SOFIA AGUIAR SOFIA LEITÃO TERESA DURÃO FUSING VÍTOR SOUSA ZORAYDA

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Editorial A Terra Mãe Reduzidos a uma esfera azul num braço da galáxia, adentro do espaço negro do cosmos na sua infinitude, continuamos centrados em destruir a casa que nos suporta a existência, enquanto acreditamos, ignorantemente, que o planeta não é um ser vivo, que podemos cirurgicamente eviscerá-lo da sua riqueza natural em todos os seus reinos sem consequências de maior para este e para a humanidade em nome do desenvolvimento sustentável porque, arrogantemente, consideramos que somos a única e digníssima espécie vertical. Aqui, onde tudo parece valer, desde a barbárie, a morte, o extermínio em massa, filhos de uma maldade gratuita, são atitudes assentes em valores que assumimos como garantia de que a terra seja a provedora de todas as necessidades dos bípedes evoluídos. Nesse processo vitimizamo-nos directa e indirectamente, já que todas as problemáticas desde que o homem existe, continuam a ecoar pelos séculos, onde simplesmente a roupagem é diferente, não havendo nada de novo debaixo do sol como o Rei Salomão, na sua infinita sabedoria, proferiu. E depois, Gaia, o Espírito da Terra age como sempre o fez no seu percurso de existência evolutivo e também reage, onde se perde já a noção de causa e efeito. Deste modo, espantamo-nos com o tempo que está a ficar estranho e louco, e temos medo que o céu nos caia sobre a cabeça. Falamos em castigo divino e recordo A Epopeia de Gilgamesh, o livro mais antigo da humanidade, que fala de um Dilúvio, o equivalente mesopotâmico à história de Noé, absorvida pela Bíblia, onde A Terra é Despojada do Pecado para Renascer. Estaremos presentemente mais evoluídos apesar de uma

nova lufada espiritual sem precedentes? Quero acreditar que sim. Trouxemos Deus do alto para dentro de nós, entendemos que a adultez é a responsabilização única e pessoal dos nossos próprios actos. Compreendemos que somos todos um e estamos cientes das consequências vindouras. Mas falta-nos ainda Amor, a única coisa real capaz de dissipar as trevas e inundar de luz o coração dos homens. E os artistas são exímios nessa tarefa, de doarem amor, de tocarem o coração. Infelizmente, neste momento, existe uma guerra contra as artes e a cultura como referiu Sampaio da Nóvoa – “sim, a guerra”, sublinhou - contra as artes, humanidades e ciências sociais, que, disse, “não é de agora. Volta e torna a voltar, sobretudo nos tempos de crise, nos tempos em que justamente mais precisamos das humanidades”, questionando-se se “nada interessa a não ser o que tem uma utilidade imediata”. “Utilidade imediata? Mas para quê? E para quem? Repita-se: a poesia é a única prova concreta da existência do homem. Ninguém decretou a existência da literatura, das artes e da criação. Ninguém decretará a sua extinção, o seu desaparecimento, a sua inutilidade. Temos um dever de resistência perante esta visão empobrecida do mundo, do conhecimento e da ciência. Não há culturas dispensáveis.”1 E neste dia 21 de Março, Dia Mundial da Poesia, Dia Mundial da Árvore, Dia Mundial da Floresta, a Heart Magazine eleva-se uma vez mais, divulgando e enaltecendo a arte e a cultura, dando a reflectir através do Coração Estrela ancorado à Terra através de um abraço internacional, linearmente equatorial a máxima de que Heart won’t let art die!. Luís de Vasconcelos 1 In http://expresso.sapo.pt/crise-e-instrumento-de-dominacao-alertasampaio-da-novoa=f858453#ixzz2wED5oFTu, acedido em 18.03.2014.

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Editorial Mother Earth Reduced to a blue ball in a galaxy arm, within the black space of the cosmos in its infinity, we are still focused on destroying the home that supports our existence, while believing, ignorantly, that the planet is not a live body, that we can surgically eviscerate it of its natural wealth in all of its kingdoms without major consequences for it and for humanity, in the name of sustainable development, because we arrogantly believe that we are the only dignified and upright species. Here, where everything and anything goes, from barbarism, death, mass murder, sons and daughters of gratuitous evil, attitudes based on values ​​which we take for granted that the land is the provider of all the needs of evolved bipeds. In this process, we directly and indirectly victimize ourselves, since all the issues since the existence of man continue to echo across the centuries, simply attired in different clothing, and there is nothing new under the sun, as King Solomon, in his infinite wisdom, stated. And then, Gaia, the Earth Spirit, always acts like it did in its evolutionary journey of existence and also reacts, where one now loses the notion of cause and effect. Thus, one is struck by the fact that the weather is getting weird and crazy, and we fear that the sky may fall on our heads. We speak of divine punishment and recall The Epic of Gilgamesh, the oldest book of mankind, which tells of a flood, the Mesopotamian equivalent to the story of Noah, absorbed by the Bible, where the Earth is Stripped of Sin to be Reborn. Are we at present more evolved despite an unprecedented new spiritual breath? I wish to believe we are. We brought God from the heights into ourselves; we understand that

adulthood is a unique and personal accountability for our own actions. We understand that we are all one and we are aware of future consequences. But we still lack Love, the only real thing that can dispel darkness and flood the hearts of men with light. And artists are proficient in this task, of donating love, of touching the heart. Unfortunately, at this moment, there is a war against the arts and culture as stated Sampaio da Nóvoa. “Yes, the war,” against the arts, humanities and social sciences, he stressed, “is not new. It returns, time and time again, especially in times of crisis, in times when we need the humanities the most”, questioning if “nothing matters beyond what has immediate utility.” “Immediate utility? But for what? And for whom? Let us repeat: poetry is the only concrete evidence of the existence of man. Nobody decreed the existence of literature, of the arts and of creation. No one will decree its extinction, its disappearance, its uselessness. We have a duty of resistance against this impoverished view of the world, of knowledge and of science. There are no dispensable cultures.”1 And on this day, 21 March, World Poetry Day, World Tree Day, World Forestry Day, Heart Magazine arises again, publishing and praising art and culture, allowing people to reflect via the Heart Star anchored to the Earth through an international embrace, linearly equatorial thus the maximum that Heart will not let art die! Luís de Vasconcelos

1 In http://expresso.sapo.pt/crise-e-instrumento-de-dominacao-alertasampaio-da-novoa=f858453#ixzz2wED5oFTu, last accessed on 18.03.2014.

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LuĂ­s Filipe, Pintor / Painter

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Locus Entre_ Vista Aitken Pearson HM: Bom dia, Aitken Pearson, fundador e diretor do Madeira Film Festival. Obrigado por conceder esta entrevista à Heart Magazine. AP: É um prazer. HM: Tanto quanto sabemos, o Madeira Film Festival surgiu de seu desejo de estabelecer um festival de cinema de pequena escala, um que iria prestar homenagem à Floresta Laurissilva da Madeira como sendo um verdadeiro laboratório da vida. A sua pequena equipa de cinco elementos parece ter feito maravilhas até agora. Como é que tudo isto aconteceu? AP: Inicialmente, eu pretendia estabelecer um pequeno festival de cinema, na Escócia, mas, por uma razão ou outra, não se desenvolveu. Poucos meses depois, estava eu a andar sozinho pela floresta Laurissilva, perto das Queimadas, mais especificamente, e sentei-me debaixo da folhagem das árvores Laurissilva – acho que foi de um Pau Branco, se não me engano – e a ideia veio-me de repente, como um relâmpago, e, basicamente, era: “Por que você não estabelecer um festival de cinema, na Madeira, em homenagem à Floresta Laurissilva, com a projeção de filmes que sejam apropriados para a Floresta Laurissilva”, por outras palavras, filmes que estejam relacionadas com a natureza. Então pensei, uau, que ótima ideia. Depois fui e falei com a Elsa e com a sua amiga Lina e então decidimos avançar com o festival no Reid’s Palace Hotel. Assim, o passo seguinte foi pedir ao então diretor do Reid’s Palace, Ulisses, se ele nos permitiria converter um dos quartos, nomeadamente o House of Commons, numa sala de projeção, uma sala de projeção temporária, e lá realizar um concerto de música. No espaço de dois ou três dias, ele concordou. Ele ficou muito entusiasmado com a ideia e isso era todo o incentivo de que precisávamos. Eu, então, precisava de um nome ligado ao festival e eu conhecia o filho de Clint Eastwood através de um festival de cinema,

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uh – um dos meus documentários exibidos na Dakota do Sul – então eu sabia que o Kyle, Kyle Eastwood, era um músico de jazz. Então entrei em contacto com ele. Ele ficou bastante expectante e entusiasmado com a vinda à Madeira para atuar. Por isso, foi muito fácil. Entrei em contato com seu agente. Ele fez-nos um preço muito bom, na realidade ele não nos cobrou demais, por isso era fazível. Trouxemo-lo e acho que ele nos ajudou enfaticamente. Se não fosse o Kyle, não sei onde estaríamos agora. Então, sim, foi lançado o festival. Então apercebi-me que precisava de uma equipa para, eu próprio trataria da curadoria do festival, tanto estrategicamente como artisticamente. Precisávamos também de outros componentes, tais como workshops, percebe? Se for a outros festivais de cinema pelo mundo, invariavelmente, eles organizam workshops relacionados com a indústria cinematográfica. Então a Elsa, Elsa Gouveia, decidiu tomar as rédeas e é ela que está a coordenar os workshops. Precisamos de patrocínios, o festival não se pode realizar sem patrocínios em dinheiro ou em espécie, então a Lena, juntamente com a Fundação do Gil e alguns de seus contatos, ajudou na angariação de patrocínios monetários e em espécie. Depois decidi trazer a Isabel, Isabel Dantas, para bordo. Ela tem inúmeros contactos na Madeira. Ela conhece toda a gente. Por exemplo, se precisasse de obter uma autorização da Câmara, se eu pegasse no telefone, nada aconteceria. Isso é certo. Diriam, “mas quem é este tipo?” Mas eu sabia que se fosse a Isabel a fazê-lo, ela abriria muitas portas. Assim sendo, as pessoas podem dizer que eu estava a manipulála ou a explorá-la, mas ela gosta imensamente do que faz,


por isso não vejo que isso seja verdade. Ela adora fazê-lo, é uma de suas habilidades, uma das suas competências, e funciona muito bem. HM: Você mencionou filmes relacionados com a natureza, tanto curtas-metragens como longas-metragens. Qual tem sido o impacto da filmografia relacionada com a Laurissilva, entre os quais o seu próprio Tree of Pan, em ajudar a consciencializar o público em geral do valor da Floresta Laurissilva como Património Natural Mundial? AP: Bem, sabemos que, durante as duas edições anteriores do festival, parte integrante da programação do festival é levar cineastas e músicos, estejam eles de visita ou exibindo, até a Floresta Laurissilva, ao Fanal, por exemplo, para que eles possam ver, sentir e tocar na floresta de forma tangível. E, pelo que me é dado deduzir, simplesmente adoram fazer isso. Falam e fazem elogios aos seus pares, aos seus companheiros e colegas de trabalho quando voltam para os seus respetivos países. E acho que isso é uma boa indicação de que precisamos continuar, sabe? É promissor, é tranquilizador também. O que eu espero, e foi assim que aconteceu, o que eu espero que aconteça é que alguns cineastas venham cá fazer, talvez, uma longa [metragem], fazer um conjunto grande de produções centradas, de alguma forma, à volta da Floresta Laurissilva. Não sei como, mas é isso que eu espero. Então... e eu realisticamente acho que isto pode acontecer. Se trouxermos um realizador que tenha uma propensão e que se apaixone pela Floresta Laurissilva, ou um guionista, e se houver uma ideia firmada a partir da sua visita, então... acontecerá. HM: Verificamos que têm o Prémio Embaixadores da Laurissilva. O que se espera desses embaixadores e acha que eles podem de alguma forma ajudar a conseguir o que você acabou de mencionar, grandes orçamentos e...? AP: Sim. Através do boca-a-boca. OK, eu sei que há muitos festivais de cinema pelo mundo, mas, tendo dito isso, invariavelmente, é uma pequena comunidade. Por isso, muitos realizadores vão de um festival para o outro e acabam por se encontrar uns com os outros, e eu penso que, eu já sei que o Madeira Film Festival está a fazer ondas em, até mesmo no Festival de Sundance, por exemplo, Robert Redford já está ciente dele. A Isabel, percebe, basicamente atacou-o, verbalmente, e disse: “Olhe, este é o nosso festival. Por que é que você não vem cá?” Mas, sim, o circuito dos festivais de cinema é íntimo e pequeno e eu acho que as pessoas vão em breve, dentro de um par de anos, aperceber-se que teremos conseguido uma maior sensibilização para a Madeira e para a Floresta Laurissilva, de um ângulo que eu acho que a Secretaria de Turismo, embora eles façam um trabalho maravilhoso, não conseguiria fazer. Por isso, acho que temos aí um nicho, através do meio, do poderoso meio da imagem em movimento. HM: Certo, isto acaba por fazer a ligação à pergunta de que parecem estar a conseguir mais e mais patrocínios,

entre os quais os de entidades públicas, incluindo a que você acabou de mencionar. Este é o reconhecimento de que o Madeira Film Festival é um parceiro ​​válido para a promoção da Madeira como destino de natureza, correto? AP: Bem, eu penso que, eu não acho que alguém conteste isso. Claro que o desafio é o de garantir... Okay, a Secretaria de Turismo, está a nos ajudar, por exemplo. Este ano, dãonos cinco mil euros. Nós apreciamos isso. É uma grande ajuda. A Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, está a dar-nos dez mil euros. É uma maravilha, mas, agora, se você comparar isso com a quantidade de dinheiro que o Indie Lisboa recebe… Agora, eu sei como facto que eles recebem pelo menos um milhão de euros por ano para curadoria do seu festival de cinema. É frustrante quando se pensa nisso, mas não podemos, não podemos pensar assim. Temos que estar gratos pelo que fazemos e temos que capitalizar isso. Sei que temos a aprovação de todos os políticos aqui na Madeira, independentemente do seu partido. De Alberto João, eu sei que o Albuquerque, ele, verdadeiramente, quer que sejamos bem-sucedidos. Ele é genuíno. Isso é certo. Eu sei disso. E o novo presidente da Câmara, acho que ele também, ele, bem, vamos ver. No próximo mês, vamos ver se ele nos quer ajudar. Mas acredito que queira. Mas é difícil..., percebe? O outro desafio é que eu não sou português, eu não sou madeirense, por isso não estou em condições de ir e pedir dinheiro... HM: Certo. Um dos vossos objetivos inclui o aspecto educacional. Referiu workshops, uma série de coisas. Este ano, segundo cremos, irão cobrir um âmbito para além do da Floresta Laurissilva uma vez que realizadores do Califórnia Arts Institute vão trabalhar em estreita colaboração com estudantes locais em curtas-metragens sobre recursos marítimos. Qual é a importância disto e de se focar o oceano com Portugal cada vez mais visto como um país marítimo? O que o levou a expandir da Floresta Laurissilva, das montanhas, para o litoral e para o oceano? AP: Bem, entrámos em contacto com a Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa e uma das condições para que nos ajudassem financeiramente era envolvermos cineastas dos Estados Unidos. Assim, imediatamente pensámos em dois cineastas da CalArts, um dos quais eu havia conhecido no Festival de Sundance há um par de anos, que viu a seu curta-metragem exibida no Festival de Sundance – chama-se The Diatom – e depois projetámo-la aqui. Ele veio cá há dois anos. Adorou. Adorou a Madeira. Queria voltar. Então, pensámos, por que não trazê-lo, o Chris Peters, e o seu colaborador, Terence Patterson, à Madeira para ensinar estudantes locais aqui na Madeira como fazer um filme de modo intensivo, num curto período de tempo. Quais são os requisitos básicos? Okay, você precisa de um script, você precisa de uma história convincente, percebe, você precisa de uma boa fotografia, você tem que editá-lo... E assim, eles vão fazer isso durante três semanas e eu tenho a certeza de que os estudantes

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locais vão aprender bastante de uma forma diferente, a partir de uma perspetiva americana. O tema é oceânico e, embora o nosso festival seja, e sempre será, centrado em torno da Floresta Laurissilva, um dos filmes que vamos projetar centra-se à volta do oceano. Por isso, obviamente, as questões oceânicas estão relacionadas com a natureza e eu acho que tudo o que ajude a preservar ou conservar o meio ambiente natural na, e à volta da, Madeira, independentemente de ser o oceano, as pastagens, o planalto no Paul da Serra, não importa o quê, porque tudo está interligado. Isso foi uma coisa que eu aprendi com um documentário que fiz com os índios americanos. Tudo no mundo natural gira em círculo e tudo está ligado de alguma forma. Então... HM: Pois então, estão agora prestes a iniciar a vossa 3ª edição. Olhando para trás para os seus objetivos iniciais, o que acha que foi conseguido até agora? Está satisfeito? AP: Ah, sim! Sim, quer dizer, inicialmente pensei que este festival seria apenas um pequeno festival no Reid’s Hotel. Isso aconteceu uma vez. Depois percebi que poderíamos expandir-nos para o Teatro Municipal. É um dos mais belos teatros da Europa. Não há dúvida disso. Portanto, é um privilégio para nós estarmos lá. E por isso estamos muito felizes por nos termos expandido e crescido. Significa que podemos projetar melhores filmes, uma diversidade de filmes e podemos atrair um público maior. Creio que a capacidade é de trezentos e trinta lugares. Portanto, estamos muito felizes por nos termos expandido para o Teatro. E estamos satisfeitos, não só do ponto de vista cinematográfico, mas também do ponto de vista musical, porque outra parte integrante do festival é atrair um músico de renome em cada ano. Por exemplo, no primeiro ano trouxemos Kyle Eastwood, tivemos muita sorte, e depois, no segundo ano, como que por milagre,

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Maria de Medeiros consentiu em atuar no Teatro. Então, quer dizer, ela é um grande nome em Portugal. Não há dúvida sobre isso. Por isso, tivemos imenso prazer que ela tivesse vindo. Este ano, vamos articular duas coisas, um desfile de moda, com a designer de moda local, Patrícia Pinto, e que vai coincidir com a atuação de uma banda de indie rock de Nashville, Tennessee, que vamos trazer, chamada Escondido, que estão prestes a causar sensação. Eles não são muito conhecidos na cena musical ainda, no entanto, têm feito imenso sucesso em Nashville. Mas creio que eles se vão tornar grandes. Por isso, estamos muito satisfeitos e privilegiados pelo facto de eles virem. Assim sendo, este vai ser o destaque do festival deste ano. Então, sim, eu acho que se continuarmos a projetar filmes diversos, filmes que tenham tido exibição de primeiro ano em festivais como os de Toronto, Sundance, se conseguirmos trazer os cineastas e se pudermos continuar a projetar os filmes no Teatro, se continuarmos a organizar workshops e, talvez, aumentar a nossa presença no exterior, através do Madeira Film Festival on the Road, e, finalmente, se conseguirmos angariar mais patrocínios, então acredito que iremos alcançar o que queríamos alcançar. Acho que devemos manter a nossa equipa pequena, coesa, embora, tendo dito isto, ainda dependemos de voluntários e vamos trazer dois voluntários dos Estados Unidos e contamos com talvez uma dúzia de voluntários locais este ano. HM: Bem, Aitken, você basicamente respondeu à última pergunta que tínhamos para lhe fazer que era: para onde a partir daqui, se pode revelar planos para futuras edições e qual tem sido o impacto passado e previsível para o futuro do Madeira Film Festival on the Road? Você praticamente respondeu a isto, mas não sei se gostaria de acrescentar mais alguma coisa...


AP: Bem, o Madeira Film Festival on the Road vai ser

um evento de um dia ou dois e, teoricamente, podemos realizá-lo em qualquer país. Eu sei que, inicialmente, vamos começar em Londres, em maio. Vamos ter um evento muito, muito pequeno em Londres. No entanto, é Madeira Film Festival on the Road. A partir daí, vamos para os Estados Unidos. Iremos ter um evento de um dia junto da comunidade portuguesa em Massachusetts. E depois... será como se proporcionar. Se alguém estiver disposto a disponibilizar o seu teatro, onde pudermos projetar talvez dois ou três filmes, e o Instituto do Vinho da Madeira, eles ajudam patrocinando-nos através do fornecimento de vinho, então acho que será um pequeno evento agradável. Não é preciso muito trabalho para pôr de pé, é agradável, e, sabe, permite-nos viajar e criar uma consciencialização sobre a Floresta Laurissilva e o Festival de Cinema em simultâneo. Por isso, serve vários propósitos, o Madeira Film Festival on the Road. HM: Certo. Em poucas palavras, gostaria de acrescentar mais alguma coisa? AP: Bem, sim, quer dizer, sei que há atores lá fora que gostaríamos de trazer cá. John Malkovich, por exemplo. Eu sei que ele adora Portugal. Tenho estado em contacto com ele. Sting, estive em contato com a irmã dele. Clint Eastwood, por exemplo. Jeremy Irons, que também adora Portugal, que é amigo de Paulo Branco, distribuidor em Portugal. Eles estão a ficar cientes do Festival e isso é um dos meus objetivos pessoais. Trazer cá atores de renome. Para que possam vir e divertir-se, mais do que qualquer coisa. Eu sei que Joaquim de Almeida veio o ano passado, Nicolau Breyner, e muitas das estrelas de telenovelas em Lisboa, como Sílvia Rizzo e outros. Eles adoram. Divertemse. Esse é o ponto crucial do Festival, além da veneração à Floresta Laurissilva. As pessoas vêm e divertem-se. É isso. É um festival, é uma celebração do cinema. É essa a ideia. Celebrar. Desfrutar. HM: Certíssimo. Obrigado, Aitken. Muitos parabéns pelas vossas conquistas e desejamos-lhe a si, à sua equipa e ao Madeira Film Festival os melhores sucessos. AP: Obrigado.

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Inter_ View Locus Aitken Pearson HM: Good morning, Aitken Pearson, founder and director of the Madeira Film Festival. Thank you for conceding Heart Magazine this interview. AP: It’s a pleasure. HM: I understand the Madeira Film Festival arose out of your desire to establish a small scale film festival, one which would pay homage to the Madeiran Laurissilva Forest as a true laboratory of life. Your small team of five seems to have done wonders so far. How did this come to be? AP: Initially I wanted to establish a small Film Festival, in Scotland, but, for one reason or another, it didn’t develop. A few months later, I was walking alone in the Laurissilva forest, near Queimadas specifically, I sat down underneath the foliage of the Laurissilva trees – I think it was a Pau Branco, if I’m not mistaken – and this idea just came out of the blue, like a lightning bolt, and it basically said “why don’t you establish a film festival, on Madeira, in honour of the Laurissilva Forest and screen films which are appropriate to the Laurissilva Forest”, in other words, films which are nature-related. So I thought, wow, what a great idea. Then I went and spoke to Elsa and her friend Lina and then we decided to stage the festival at Reid’s Palace Hotel. So the next step was to ask the then manager of Reid’s Palace, Ulisses, if he would allow us to convert one of the rooms, namely the ‘House of Commons’, into a screening room, a temporary screening room, and host a music concert there. Within two or three days he agreed. He was very enthusiastic about the idea and that was all the incentive we needed. I then needed a name attached to the festival and I knew Clint Eastwood’s son through a film festival, uh, one of my documentaries exhibited in South Dakota, so I knew that Kyle, Kyle Eastwood, was a jazz musician. So I contacted him. He was very eager and enthusiastic about coming to Madeira to perform. So it was very easy. I con-

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tacted his agent. He gave us a very good price, he didn’t really charge us too much, so it was doable. We brought him over and I think he helped us emphatically. If it wasn’t for Kyle, I’m wondering where we would be now. So, yes, the festival was launched. Then I realized we needed a team so, as myself, I would curate the festival, both strategically and artistically. We also needed other components, such as workshops, you know? If you go to other film festivals around the world, invariably they will stage workshops related to the film industry. So Elsa, Elsa Gouveia, decided to take the reins and she is orchestrating the workshops. We need sponsorship, the festival can’t run without money or in-kind sponsorship, so Lena, along with Fundação do Gil and some of her contacts, helped procure monetary and in-kind sponsorship. And then I decided to bring Isabel, Isabel Dantas, on board. She has numerous contacts on Madeira. She knows everybody. For example, if you want to clear permission with the Câmara, if I picked up the phone, nothing would happen. That’s for sure. They’d say “who, who the hell’s he?” But I knew that if Isabel did it, then she would open a lot of doors. So, people might say that I was manipulating her or exploiting her, but she enjoys what she’s doing immensely, so I don’t see that to be true. She loves it, that’s one of her skills, one of her expertise, and it works very well. HM: So you mentioned nature-related films, both short films and feature films. What has been the impact of Laurissilva related filmography, amongst which your own Tree of Pan, in helping make the general public aware of the value of the Laurissilva Forest as a World Natural Heritage site? AP: Well, we know, during both previous editions of the festival, an integral part of the festival schedule is to bring visiting and exhibiting filmmakers and musicians up to the Laurissilva Forest, to Fanal, for example, so that they can tangibly see, feel and touch the forest. And, from what I can deduce, they absolutely love it. They rave and rant about it to their peers, to their fellow co-workers when they return back to their respective countries. And I think that’s a good indication that we need to continue, you know? It’s promising, it’s reassuring too. What I’m hoping, and that’s how it’s happened, what I’m hoping will happen is that some filmmakers will come here and perhaps make a feature [film], make a big bunch of productions centred around the Laurissilva Forest, in some fashion. I don’t know how, but that’s what I’m hoping. So… and I realistically think that can happen. If we bring a director over who has a penchant and who falls in love with the Laurissilva Forest, or a writer, and an idea is firmed from his visit or her visit, then… that will work. HM: I see you have Laurissilva Ambassador Awards. What


is expected of these Ambassadors and do you think they can in any way help achieve what you have just mentioned, big budgets and…? AP: Yes. Through word of mouth. Okay, I know there are a lot of film festivals around the world but, having said that, invariably it’s a small community. So a lot of directors will go from one festival to another and they will bump into each another, and I think, I know already that the Madeira Film Festival is making waves in, even at Sundance, for example, Robert Redford is now aware of it. Isabel, you know, just basically attacked him, verbally, and said “Look, this is our festival. Why don’t you come here?” But, yeah, the film festival circuit is intimate and small and I think people will soon become aware, within a couple of years, that we will have raised awareness of Madeira and the Laurissilva Forest from an angle that I think the Tourist Board, although they do a wonderful job, couldn’t do. So I think we have a niche there through the medium, the powerful medium of the moving image. HM: Right, so this sort of links up with the question I had that you seem to be earning more and more sponsorships, amongst which that of public entities, including the one you’ve just mentioned. This is recognition that the Madeira Film Festival is a valid stakeholder for the promotion of Madeira as a nature destination, right? AP: Well, I think, I don’t think that anybody disputes that. Of course the challenge is to secure… Ok, the Tourist Board, they’re helping us, for example. This year they’re giving us five thousand euros. We appreciate it. It’s a huge

help. The United States Embassy in Lisbon are giving us ten thousand euros. That’s wonderful, but, now if you compare that with the amount of money the Indie Lisboa receives… Now, I know for a fact that they receive at least a million euros per year to curate their film festival. It’s frustrating when you think about that, but you can’t, you can’t think like that. You have to be grateful for what we do and we have to capitalize on it. I know we have the approval of all politicians here on Madeira irrespective of which party they adhere to. From Alberto João, I know Albuquerque, he really, he wants us to succeed. He’s genuine. That’s for sure. I realize that. And the new Mayor, I think he also, he, well, let’s see. Next month, let’s see if he wants to help us. But I believe he does. But it’s difficult to…, you see? The other challenge is I’m not Portuguese, I’m not Madeiran, so I’m not in a position to go and ask for money… HM: Right. One of your goals includes educational outreach. You mentioned workshops, you mentioned a series of things. This year, I believe you will be covering a scope beyond that of the Laurissilva Forest as California Arts Institute directors will be working closely with local students on Maritime Resources short films. What is the importance of this and of focusing on the ocean with Portugal increasingly seen as a maritime country? What led you to expand from the Laurissilva Forest, from the mountains to the coastline and to the ocean? AP: Well, we liaised with the United States Embassy in Lisbon and one of the conditions that they would help us financially is if we involved United States filmmakers. So,

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immediately we saw two filmmakers from CalArts, one of whom I had met at Sundance a couple of years earlier, who had his short film exhibited at Sundance – it’s called The Diatom – and then we screened it here. He came over two years ago. He loved it. He loved Madeira. He wanted to come back. So, we thought, why not bring him, Chris Peters, and his associate, Terence Patterson, over to Madeira to teach local students here on Madeira how to make a film intensively, in a short period of time. What are the basic requirements? Okay, you need a script, you need a compelling story, you know, you need good cinematography, you’ve got to edit it… So, they will do that within three weeks and I’m sure the local students here will learn a lot from a different, from an American perspective. The theme is oceanic and, although our festival is, and always will be, centred around the Laurissilva Forest, one of the films we are screening is centred around the ocean. So, obviously oceanic matters are nature-related and I think that anything that helps preserve or conserve the natural environment in and around Madeira, irrespective of whether it’s the ocean, whether it’s the grasslands, the plateau in Paul da Serra, it doesn’t matter, because everything is connected. That’s one thing I learned from a documentary I made with the American Indians. Everything in the natural world revolves in a circle and everything is connected in some

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fashion. So… HM: So, you’re moving on to your 3rd edition right now. Looking back at your initial aims, what do you think has been achieved so far? Are you satisfied? AP: Oh, yes! Yeah, I mean, initially I just thought this festival would just be a small festival in Reid’s Hotel. That happened once. Then I realized that we could expand into the Municipal Theatre. That’s one of the most beautiful theatres in Europe. There’s no question about that. So, it’s a privilege for us to be there. And so we’re very happy that we’ve expanded and grown. It means that we can screen better films, diverse films and we can attract a larger audience. I think the capacity there is three hundred and thirty. So, we’re very happy that we’ve expanded into the Theatre. And we’re satisfied, not only from a filmic perspective, but also from a musical point of view, because another integral part of the festival is to attract a named musician each year. For example, the first year we attracted Kyle Eastwood, we were very lucky, and then the second year, as if by miracle, Maria de Medeiros consented to perform at the Theatre. So, I mean, she’s a huge name in Portugal. There’s no question about that. So, we were delighted that she came over. This year, we’re going to orchestrate both a fashion show, with local fashion designer Patrícia Pinto, and that will coincide with an indie rock band from Nashville, Tennessee, we’re bringing over, called Escondido, who are about to break, they’re not huge on the scene yet, they’re huge in Nashville, but I think they will become big. So, we’re delighted and privileged that they’re coming over. So that will be the highlight of this year’s festival. So, yes, I think that if we carry on screening diverse films, screening films which have already exhibited at first-year festivals like Toronto, Sundance, if we can bring the filmmakers over and if we can continue screening the films in the Theatre, if we can continue staging the workshops and, perhaps, increasing our presence abroad, via the Madeira Film Festival on the Road, and, ultimately, if we can procure more sponsorship, then I think we’ve set out to achieve what we wanted to achieve. I think we should keep our team small, close-knit, although, having said that, we still rely on volunteers and we’re bringing two volunteers over from the United States and we rely on perhaps a dozen local volunteers this year. HM: Well, Aitken, you’ve basically answered the last question I had for you which was where to from here, if you can unveil any plans for future in-house editions and what has been the past and foreseeable future impact of the Madei-


ra Film Festival on the Road? You’ve practically answered that but I don’t know if you’d like to add anything else… AP: Well, the Madeira Film Festival on the Road is going to be a one or two day event and, theoretically, we can stage it at any country. I know, initially, we’re going to start off in London, in May. We’re going to have a very, very small event in London. Nonetheless, it’s Madeira Film Festival on the Road. From there, we’re going to the United States. We’re going to have a one-day event in the Portuguese community in Massachusetts. And then… we’re just going to take it as it comes. If someone is willing to lease out their theatre, where we can screen perhaps two or three films, and the Madeira Wine Institute, they help sponsor us by providing wine, then I think it’s a nice small event. It doesn’t take a lot of work to orchestrate, it’s enjoyable, and it, you know, affords us to travel and create awareness of the Laurissilva Forest and the Film Festival simultaneously. So it serves a lot of purposes, the Madeira Film Festival on the Road. HM: Right. So, in a nutshell, would you like to add anything else? AP: Well, yeah, I mean, I know there’s actors out there who we’d like to bring over. John Malkovich, for example. I know he loves Portugal. I’ve been in touch with him. Sting, I’ve been in touch with his sister. Clint Eastwood, for example. Jeremy Irons, who loves Portugal too, who’s friends with Paulo Branco, distributor in Portugal. They’re becoming aware of the Festival and that’s one of my personal goals. To bring named actors over. So they can come and enjoy themselves, more than anything. I know Joaquim de Almeida came last year, Nicolau Breyner, and a lot of those soap opera stars in Lisbon, like Silvia Rizzo and others. And they love it. They just enjoy themselves. That’s the crux of the Festival, other than venerating the Laurissilva Forest. People come and just enjoy themselves. That’s what it’s all about. It’s a festival, it’s a celebration of film. That’s the idea. To celebrate. To enjoy. HM: Right. Thank you, Aitken. Congratulations for your achievements so far and I wish you, your team and the Madeira Film Festival the best success. AP: Thank you.

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Alice Sousa (carta para Alice)* Alice, Escrevo-lhe para melhor acercar-me da sua pintura. Mas antes, gostaria de esboçar uma espécie de retrato da artista, como sempre a conheci, arrolando pequenos fragmentos de corou precipitando gestos sobre a tela, até ao esgotamento da intenção de cada gesto. Ao ritualizar o comportamento criativo, a Alice mostra-nos que sabe esperar o tempo vulgar, aquele que nos assiste a todas as horas e estrei-lhe a matriz da superação da vulgaridade. Bastidor dentro de um bastidor um palco. A Alice pinta/representa: mão cheia de espelhos circunscrevendo a outra mão iluminada. Herberto Helder, em “Do Mundo”, desenha este entendimento de forma mágica: “UM espelho em frente de um espelho: imagem que arranca da imagem, oh maravilha do profundo de si, fonte fechada na sua obra, luz que se faz para se ver a luz.” Há ainda o mar azul-verde profundo (a Ilha da Madeira?), num mapa de referências residuais: uma geografia de mútua exigência, um secreto afecto/temor. E a suspeição de que as verdadeiras ilhas não têm nome, existindo apenas para serem descobertas e amarem incondicionalmente os nossos tesouros. A Alice faz do pictórico uma espécie de troca (por silêncios), de subtracção (ao olhar, ao envolvimento), de encobrimento (sob teias, panos de cor, transparências), de efémeras revelações – de exposição da vida, ela própria. Pintura de reflexão, deriva, memória, resignação, luta, tentativa e erro, claro e escuro. Realidade dúctil e manifestamente regenerativa. E tal como há uma hora (in)certa para dar por concluído um quadro, termino também por agora. Teresa Jardim *excerto de carta incluída no catálogo da exposição individual de Alice de Sousa intitulada “Bastidor”; exposição no Funchal, na Galeria da SRTC em 1998

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(letter to Alice)* Alice, I am writing to better approach your painting. But first, I would like to outline a kind of portrait of the artist, as I always knew you, listing small coloured fragments precipitating gestures on the canvas, until the exhaustion of the intention of each gesture. In ritualizing creative behaviour, Alice shows us that she knows how to await ordinary time, one that helps us at all hours and extracts from it the matrix of overcoming vulgarity. Frame within a frame a stage. Alice paints/represents: handful of mirrors circumscribing the other illuminated hand. Herberto Helder in “Of the World”, sketches this understanding in a magical way: “A mirror in front of a mirror: image plucking the image, oh wonder of the depths of itself, sealed source in her work, light that is rendered for light to be seen.” There is also the deep blue-green sea (Madeira island?), in a map of residual references: a geography of mutual necessity, a secret affection/fear. And the suspicion that real islands have no name, existing only to be discovered and to unconditionally love our treasures. Alice transforms the pictorial into a kind of exchange (through silence), of subtraction (of gaze, of engagement), of concealment (under webs, coloured cloths, transparencies), of ephemeral revelations – of exposure of life, itself. Painting of reflection, drift, memory, resignation, struggle, trial and error, light and dark. Ductile reality, manifestly regenerative. And as there is an (un)certain hour to consider a painting complete, I conclude for now. Teresa Jardim * excerpt from a letter included in the catalogue of the solo exhibition by Alice de Sousa entitled “Frame”; exhibition in Funchal, at the SRTC Gallery in 1998

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Alice Sousa, Pintora / Painter

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Ana Cardosa

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Ana Cardosa, Pintora / Painter

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Ana Pais Oliveira

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Ana Pais Oliveira, Pintora / Painter | http://www.anapaisoliveira.com

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Ana Pais Oliveira, Pintora / Painter | http://www.anapaisoliveira.com

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António Castro Perto da Terra, próximo de mim O dia desenrolou-se na placidez de um tempo que decorreu lento mas sem preguiça. As cores multiplicaram-se, autênticas, como a Natureza as fez. As andorinhas voaram, poucas mas livres, porque as asas foram feitas para se (poder) voar. O mar esteve calmo, luzidio, e revelou-se em balouçar aconchegante. Até ao momento, ainda ninguém telefonou a pedir nada: nem favores, nem ajudas, nem conselhos. Um ou outro “chico esperto”, que me possa ter incomodado durante a semana, deve estar a repousar, enquanto prepara outra investida. Línguas desbragadas, não tive que as ouvir: aquelas que crucificam os outros quando estão contigo e que te procuram pôr, a ti mesmo, nas ruas da amargura, quando estão com os outros. Atitudes pouco correctas, hoje, ainda não as vi, para meu descanso, que a sensação de injustiça, tal como o stress, ganham amplitudes impensáveis, se acumulados. Foi dia de ver os barcos (os de pesca e os de recreio) mais do que as pessoas. Sempre gostei de embarcações: elas transportam paisagens, ilusões e alimento. Não nos dão palmadinhas nas costas, nem «bons dias» de circunstância ou obrigação. Balançam, de acordo com as ondas, mas não ao sabor dos interesses. Não copiam as nossas ideias (e podem, até, navegar com elas) nem adulteram os nossos sonhos. Vencem o mar como nós lutamos pela vida, onde os dias raramente são calmos ou reconfortantes. Há obrigações e horários, correrias e invejas, rivalidades sem sentido, desconfianças inevitáveis e demasiados deveres e imposições. Algumas delas e parte deles são obrigações “apenas” sociais e “o social” rima por vezes tão mal com aquilo que nos disseram em criança para não sermos nem fazermos. Na sociedade de hoje, em completo paradoxo, colocamse os cifrões acima de tudo o resto e o dinheiro não abunda nos governos, na Europa, nas famílias, no País. O

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cumprimento da palavra tornou-se tão credível como defender a existência do Pai Natal, enquanto a ostentação das aparências se refinou e creio até ter ouvido: - Come caldo mas passeia linho! Entretanto, verdadeiramente felizes, as andorinhas continuam em bailado circular. Por baixo dos jacarandás não há lixo mas flores. As nuvens foram para longe, que o dia, hoje, é de luminosidade e de beleza. As casquinhas de noz sucedem-se, navegando, na-ve-gan-do, ao longe… e o amanhã deverá estar repleto de peixe fresco e abundante. As cobras não me podem vender banha porque eu, hoje, ignoro-as. A maldade não tem peso porque me desvio. Uma velhinha passa e sorri-me, com tantos dentes como rugas, mas alvos e sãos. Ganho, então, o aconchegante pressentimento de que as “bilhardeiras” vão ganhar depressões, por falta de quem as oiça. Abençoada a solidão que não o é, o poder estar só sem frustrações ou arrependimentos. Não grito exteriormente mas todo o meu ser dança um merengue de savanas e alvoradas. Por outro lado, estou com a Ilha com o mesmo à vontade com que o agricultor está com as mogangas, estendidas de forma natural e em abundância, sobre o telhado… Sinto-me bem. Estou feliz… feliz… feliz… feliz! Não comprei nada. Não me vendi. Não troquei o meu sábado por dinheiro ou ascensão social. Não tive que ir à missa à hora a que todos vão, para tentar disfarçar os meus pecados. Regresso a casa. De uma janela, ouço a canção: “O Mundo está muito doente / O homem que mata / O homem que mente / (…) / Está cego de um olho / Surdo de um ouvido / Todos somos filhos de Deus/ Somos filhos de Deus!”. Há dias em que tudo é perfeito. Apresso-me. Entro. Quando estiver no meu ninho, garanto que não abrirei a porta a ninguém. António Castro, Escritor Imagem: ©Stock.xchng Edição: HeartMagazine


Near the Earth, close to me The day unfolded in the placidity of time that elapsed slowly but without laziness. Colours multiplied themselves, authentic, as Nature made ​​them. The swallows flew, few but free, because wings were made to (be able to) fly. The sea was calm, sleek, and revealed itself in cosy swaying. So far, no one has yet called asking for anything: neither favours nor assistance or advice. One or other ‘wiseguy’ who may have bothered me during the week, must be resting, while preparing another assault. Unbridled tongues, I did not have to hear them: those who crucify others when they are with you and who seek to place, you yourself, in woe, when they are with others. Less correct attitudes today, I still have not seen them, for my relief, for the sense of injustice, as that of stress, gains unthinkable amplitudes, if accumulated. It was a day to see the boats (both fishing and recreational) more than people. I always liked boats: they carry landscapes, illusions and sustenance. They do not pat us on the back, or say ‘good day’ out of circumstance or obligation. They rock, according to the waves but not to the flow of interests. They do not copy our ideas (and can even navigate with them) or spoil our dreams. They overcome the sea as we fight for life, where days are rarely calm or soothing. There are obligations and schedules, rushing and jealousies, meaningless rivalries, inevitable mistrust and too many duties and obligations. Some of them and part of them are “just” social obligations and “social” sometimes rhymes so badly with what we were told as a child not to be or do. In today’s society, in complete paradox, dollar signs are placed above all the rest, and money is scarce in governments, in Europe, in families, in the country. Fulfilment of word has become as credible as defending the existence of Father Christmas, while boasting appearances has

been refined and I believe I even heard: - He has only broth to eat but is clad in linen! Meanwhile, truly happy, the swallows continue their circular ballet. Beneath the jacaranda trees there is no junk but flowers. The clouds have gone far away, for the day, today, is of light and beauty. The little walnut shells, one after another, navigating na-vi-ga-ting, far away... and tomorrow will be replenished with fresh and plentiful fish. Snakes cannot bother me because, today, I ignore them. Evil does no weigh on me because I avoid it. An old lady passes me and smiles, with as many teeth as wrinkles, but white and wholesome. I then gain the warm feeling that “gossipers” will fall into depression, for lack of those who listen to them. Blessed loneliness that is not, the power of being alone without frustrations or regrets. I do not cry out but my whole being dances a Merengue of savannahs and sunrises. On the other hand, I am in the company of the Island with the same easiness as the farmer is with his pumpkins, in abundance and naturally laid out on the roof... I feel good. I am happy... happy... happy... happy! I did not buy anything. I did not sell myself. I did not exchange my Saturday for money or social advancement. I did not have to go to Mass at the time everyone else does, to try to conceal my sins. I go back home. From a window, I hear the song: “The World is very ill / The man who kills / The man who lies / (...) / Is blind in one eye / Is deaf in one ear / We are all God’s children / We are God’s children!”. There are days when everything is perfect. I hasten. Go inside. When I am in my nest, I guarantee I will not open the door to anyone. António Castro, Writer Image: ©Stock.xchng Editing: HeartMagazine

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Barahona Possollo


Barahona Possollo, Pintor / Painter | http://www.barahonapossollo.com


Barahona Possollo, Pintor / Painter | http://www.barahonapossollo.com


Carlos Farinha


Carlos Farinha, Pintor / Painter | http://farrinha.wix.com/carlos-farinha


Carlos Farinha, Pintor / Painter | http://farrinha.wix.com/carlos-farinha


Carlos Godinho

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Carlos Godinho, Pintor / Painter | http://www.facebook.com/conspirarnacozinha/

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Conspirações na Cozinha

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Conspiraçþes na Cozinha, Cake Design e Pastelaria / Cake Design and Pastry http://www.facebook.com/conspirarnacozinha/

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Da: Paz A Espera 31 de Maio de 2013 às 0:30 Suspensa de um fio. A espera por baixo a cidade de carros, de gente de delírios, de vidas de amores e de ódios. De uns que fogem de outros que nem sabem correr Crianças que riem outras que são maltratadas mas sempre a labuta de todos. A fome A guerra os contrastes dilatam-se Suspensa de um fio A espera A Terra gira as marés continuam a bater nas areias Tudo se movimenta Tudo encolhe Os animais procuram comida as flores crescem O Sol aquece a Terra O universo continua a expandir-se Suspensa de um fio A espera a dor, que não te deixa o medo espreita, tão incerto a paixão pela vida o gosto de viver e amar as coisas por fazer o amor angustia-se endoidece anula-se Suspensa de um fio

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A espera Tudo esta vazio pavor, medo, incerteza incomodo e desencanto Tudo te foge das mãos tudo é escasso Sentir a debilidade tentas fugir, parar as pernas bambas perdes o pé, o rumo Sentes-te cada vez mais longe lutas... queres sair mas tudo se baralha O mundo parece outro mais confuso mais estranho as pessoas atropelam-se e enlouquecem. Mal se sentem Suspensa de um fio A espera sentes a morte mas apegas-te à vida assim é que tem de ser a esperança o desejo de vencer o medo sentimos mais os amigos tudo é mais inteiro o amor intensifica-se tudo é mais claro e real tudo é mais forte e ai... tu sentes a dobrar pensas a dobrar e vives a dobrar Suspensa de um fio A força que deseja o melhor. Da: Paz, Artista Plástica


The Wait 31 May 2013 at 00:30 am Suspended from a wire. The wait beneath the city of cars, people of delusions, of lives of love and hate. Of some who flee of others who know not to run Children who laugh others who are bullied but always the toil of all. Hunger War contrasts dilate Suspended from a wire The wait The earth rotates tides continue to hit the sands Everything moves everything shrinks Animals seek food flowers grow The Sun warms the Earth The universe continues to expand Suspended from a wire The wait the pain that will leave you fear lurks, so uncertain passion for life the will of living and loving things to be done love in anguish goes mad voids itself Suspended from a wire

The wait Everything is empty dread, fear, uncertainty annoyance and disenchantment Everything escapes your hands everything is scarce To feel frail you try to run away, stop legs wobbly lose footing, the course You feel increasingly far away you fight‌ want out but everything is shuffled The world seems another more confusing stranger people trample one another and madden. They hardly feel Suspended from a wire The wait you feel death but you cling to life so it has to be hope the desire to conquer fear we feel friends more everything is more whole love intensifies itself all is clearer and more real everything is stronger and oh... you feel twofold think twofold and live twofold Suspended from a wire The force that wishes for the best. Da: Paz (From: Peace), Fine Artist

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David Rosado

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David Rosado, Artista Plรกstico / Fine Arstist | http://rosadodavi.wix.com/davidrosado

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DĂŠl Falante

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D茅l Falante, Fot贸grafo / Photographer

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D茅l Falante, Fot贸grafo / Photographer


Dilar Pereira

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Dilar Pereira, Artista Plรกstica / Fine Artist | http://www.dilarp.com

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Dilar Pereira, Artista Plรกstica / Fine Artist | http://www.dilarp.com


Domingas Pita

A obra de Domingas Pita perpetua a criatividade – a poesia da criação enquanto personificação da capacidade de escutar, de acolher e gerar. Na leitura das suas criações, o branco profundo recebe-nos entre os traços densos e vigorosos, manchas esfumadas e subtis, da grafite ou do carvão, materiais intemporais do desenho e da pintura, fragmentos primordiais da Terra, que acentuam a dicotomia da sua expressão configurada entre asas e anjos.

The work of Domingas Pita perpetuates creativity – the poetry of creation as personification of the ability to listen, harbour and beget. In reading her works, the deep white receives us amongst the dense and vigorous strokes, subtle and smoky spots, of graphite or of coal, timeless materials of drawing and painting, primordial Earth fragments, which accentuate the dichotomy of her expression set amongst wings and angels.

Graça Berimbau

Graça Berimbau


Domingas Pita, Artista Plรกstica / Fine Artist


A Domingas Pita dominava o dom dos laços, o mistério das coisas simples, a casa colectiva, com uma voz inconfundível e um firme traço autoral; desenho quotidiano de afectos que soube registar, desde a docência no ensino das artes visuais, à sua própria criação artística. Quanto à sua obra fortemente marcada pelo desenho, é recorrente a representação da figura humana, como também de elementos orgânicos, de atenção visiva e escuta do mundo natural. Preparar o atelier e preparar-se para o momento do desenho, significava olhar a realidade, e recolher modelos que eram também interlocutores e confidentes do processo criativo - flores, troncos, pedras, e outras dádivas da natureza. No catálogo “Das Coisas Simples”, exposição individual realizada no ano 2000 escrevi: “A Domingas representa corpos: o seu corpo, partes de corpos, gestos de corpos, corpos-flores (carnais), corpos-casas aladas (de anjos, de receber anjos), corposimagens; corpos visionários de outros corpos; o corpo do amor, o corpo da saudade do corpo, o corpo para além do corpo. Nos desenhos, maioritariamente executados a carvão sobre papel, persiste um discurso serial diverso. Guardados

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em grandes cadernos de papel vegetal, num herbário de imagens secas, estes desenhos quando expostos num qualquer conjunto ou composição, escrevem mais nitidamente a sua natureza, formando uma extensa paisagemrosto.” No que remete para a pintura, em “Casas Próximas” (colectiva, 2005), sublinhei: “Pinta a acrílico (associando ou não a grafite e o carvão), em tela aparelhada com areia. Trabalha com a tenacidade de quem pinta uma casa. Depois a luz e a sombra trazem do escuro para a frente as revelações que a criação plástica propicia, em processo. Acabar uma pintura é uma acção mais demorada, negociada, na relação da linguagem com os materiais e o olhar amadurecido pelo tempo de espera.” Memória epidérmica e transcendente avivada em cada traço, em cada imagem. De muito longe resulta a longevidade destas imagens. O tempo, as mãos de um anjo. Teresa Jardim, Imagem: Domingas Pita


Domingas Pita mastered the art of laces, the mystery of simple things, the collective house, with a distinctive voice and a firm authorial trait; daily drawings of affect she knew how to register, as a teacher teaching visual arts, all the way to her own artistic creations. As for her work, strongly marked by her drawings, the representation of the human figure is recurrent, as well as of organic elements, denoting visual and auditory attention of the natural world. Preparing the studio and preparing herself for the memento of drawing, meant observing reality, and collecting models which were also partners and confidants of the creative process - flowers, logs, stones, and other gifts of nature. In the catalogue “Of Things Simple”, solo exhibition held in 2000, I wrote: “Domingas represents bodies: her body, body parts, gestures of bodies, flower-bodies (carnal), winged house-bodies (of angels, for hosting angels), body-images; visionary bodies of other bodies, the body of love, the body missing the body, the body beyond the body. In her drawings, mostly charcoal on paper, there remains a diverse serial discourse. Stored in large rolls of parchment paper, a herbarium of dried images, these drawings, when exhibited in any set or composition, set down their nature more clearly, forming an extensive landscape-face.” In referring to her painting, in “Nearby Homes” (Collective, 2005), I emphasized: “She paints in acrylic (whether or not together with graphite and charcoal), on canvas rigged with sand. She works with the tenacity of those painting a house. Then light and shade bring forward from the dark the revelations that artistic creation makes possible, in process. Finishing a painting is a longer, negotiated, action, the relation of language to materials and the way of seeing things matured while in waiting.” Epidermal and transcendent memory revived in each stroke, in each image. The longevity of these images results from way, way back. Time, the hands of an angel. Teresa Jardim

Domingas Pita, Artista Plástica / Fine Artist


E. Sirgado de Sousa

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E. Sirgado de Sousa, Digital Art; Computer Animation; Photography http://www.esirgadodesousa.web.pt

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M O U N TA I N W AT E R

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E. Sirgado de Sousa, Digital Art; Computer Animation; Photography http://www.esirgadodesousa.web.pt

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Ernesto Coelho SIlva

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Ernesto Coelho Silva, Pintor / Painter | http://www.ernestosilva.blogspot.com

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Filipa Jasmins

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Filipa Jasmins, Artista Plรกstica / Fine Artist | http://filipajasminsfreitas.blogspot.pt

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Graรงa Berimbau

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Graรงa Berimbau, Pintora / Painter

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Gracinda Candeias


Gracinda Candeias, Pintora / Painter | http://www.gracinda-candeias.blogspot.com


Gracinda Candeias, Pintora / Painter | http://www.gracinda-candeias.blogspot.com


HĂŠlder Franco

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H茅lder Franco, Fot贸grafo / Photographer

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João Morgado Gaia assassinada Era uma vez... e era uma vez primeira. E era uma vez ninguém, mas que se fez parideira. E passou a ser alguém. E era uma vez uma mãe. E era uma vez uma deusa. Não porque era deusa, mas porque era mãe. E era uma vez o céu também, a cobrir a terra inteira. E era uma vez a deusa-mãe a tirar filhos da algibeira. E era uma vez muitos filhos de uma só mãe. Alguns eram filhos dos filhos e eram filhos também. E no útero de uma mãe cabe a profundidade do mar e a altivez da montanha. E por vezes cabe a dor tamanha de gerar toda uma guerra de titãs. Porque nem todos os filhos são manhãs, e às vezes, quantas vezes, são revezes e escuridão, porque se uns são filhos, os outros filhos são, mas uns nascem na luz e outros não. E por vezes, por vezes é preciso dar tempo ao tempo para que a terra do céu seja decepada, porque o útero que gera o amor também gera a espada. E por vezes, quantas vezes, sabemos bem, serem os filhos os carrascos de sua mãe. e a morte será a filha derradeira, da deusa-mãe, terra-parideira.

João Morgado, Poeta www.joaomorgado.net Imagem: ©HeartMagazine

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Gaia murdered Once upon a time... and it was a first time. And once upon a time there was no one, but who became a breeder. And became someone. And once upon a time there was a mother. And once upon a time there was a goddess. Not because she was the goddess, but because she was a mother. And once upon a time there was the sky too, covering the whole earth. And once upon a time there was the goddess-mother taking out children from her pocket. And once upon a time there were many children of one mother. Some were children of the children and were children as well. And in a mother’s womb there is room for the depth of the sea and the haughtiness of the mountain. And sometimes there is room for the pain of begetting a whole war of titans. Because not all children are dawns and sometimes, many times, they are setbacks and darkness, because if some are children, so are the other children, but some are born in light and others are not. And sometimes, sometimes you need to give it time For the land to be severed from the sky, because the uterus that begets love also begets the sword. And sometimes, many times, we know it well, the children are the executioners of their mother. and death will be the last daughter, of the goddess-mother, earth-breeder.

João Morgado, Poet www.joaomorgado.ne Image: ŠHeartMagazine

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JosĂŠ Assis

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JosĂŠ Assis, Pintor / Painter

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Lethes Paiva Gaia, A Deusa Mãe Era impossível não lhe fazer cedências. Por vezes, ela abria-se para nos receber. Outras, porém, fechada em si mesma, desvendava apenas parte dos símbolos e não nos abria a porta derradeira. Outros mundos subliminares (?) escondiam-se sob aquele mato e sob a chuva. As notícias eram reptilianas, como foragidos, a quem fosse obrigatório dar caçada. Não nos opúnhamos. Tínhamos um bosque. Usualmente falavam de crimes hediondos e tudo o que as mais vis criaturas são capazes de perpetrar. Ali mesmo, por ventura onde agora nos detínhamos inoculando em nós alguma seiva, teriam sido perpetrados outros sacrifícios, hecatombes e outros desvarios canibais, com mais frequência do que poderíamos pensar. A toda a hora os limites das copas eram como guarda avançada aos nossos olhos de ciclópicos. Naquele tempo vasto e longínquo em que, qual lobo caído no fojo, se iniciara nos mistérios da mãe terra através de uma feiticeira, aproximara-se tão depressa da lucidez venusiana quanto mais da botica, como da botânica e dos seus segredos. Tinha até já dias em que sentia que reinava sobre o mistério infinito das árvores. Não lhe comprazia muito a ideia de ter que varar um mito naquele bosque repleto de crueldades. As plantas davam-lhe um prazer enorme. Recolhia no lixo das estações meteorológicas alguns aparelhos insólitos para se poder desdobrar na linguagem das raízes. Aos poucos, foi-se munindo de panaceias suficientes para entender a floresta e sentir que por baixo de si irrequietas agulhas de um outro entendimento comunicavam entre si. Escavava nos troncos amiúde e de preferência de madrugada antes que a seiva da vida acordasse para não despertar as fúrias vingativas. Sabia que

ao escavar um tronco se estava a apropriar da natureza da árvore e que a madeira era a carne e o desejo consumados entre os fetos e a caruma que recendia húmida. Nada mais lhe importava para além dessa imortalidade de quem domou o espírito em incansáveis lutas. Sob o tronco escavado a feiticeira pressentia-lhe o desejo mascarado de mirto. Havia fumo e sentia crescer nele um novo olhar novo e mais agudo que se detinha sobre novos pontos de vista, observando os mais ténues movimentos das plantas e do seu crescimento. Aos poucos, era-lhe possível perceber, como se recordado de uma velha máxima, que Gaia, a Mãe terra, estava ali nas suas mãos aberta aos seus caprichos, oferecendo-lhe tudo o que precisava. Não se iludia com esses prazeres matutinos. De noite, a natureza escravizava-o e comandava-lhe as emoções como se fora um títere perturbado pelo pio do mocho. Ficava no seu abrigo de caruma e feno aguardando as primeiras raias douradas que debruavam a caruma e eliminavam as sombras. Era nessa hora que a feiticeira chegava e lhe trazia novas emoções e, debruçada nele, lhe entregava as ervas com que domava os instintos predadores. As notícias ainda não haviam chegado e já a feiticeira lhe anunciava apenas como olhar os pontos cardeais onde era preciso deter as fragas, desviar as águas para a levada do rio. Ali, pelas tardes consumava todos os sonhos banhando-se diante das lavadeiras. Era então que pressentia que era chegada a hora: a natureza trepidava e no seio da levada as feiticeiras iam e vinham rindo e cantando, enchendo o rio de sorrisos. Lethes Paiva, Artista Image: @Stock.xchng

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Gaia, The Mother Goddess It was impossible not to compromise with her. Sometimes, she opened up for us. Others, however, closed in on herself, she unfolded only part of the symbols and would not open up the last door for us. Other subliminal worlds (?) lurked under that bush and the rain. News was reptilian, alike fugitives, who were required to be hunted down. We did not oppose ourselves. We had the woods. They usually spoke of heinous crimes and all that the vilest creatures are capable of perpetrating. Right there, perchance where we were now standing inoculating some sap into us, other sacrifices would have been perpetrated, catastrophes and other cannibalistic madness, more often than we might have thought. All the time, the limits of the treetops were an outpost to our Cyclopean eyes. In that vast and distant time in which, alike a wolf lying in a pitfall, he initiated himself in the mysteries of mother earth through a sorceress, he had as quickly approached Venusian lucidity as he did more so pharmacy, as he did botany and its secrets. There were even days when he felt that he reigned over the infinite mystery of trees. The idea of having to overthrow a myth in that grove full of cruelties did not delight him much. The plants gave him great pleasure. He collected some unusual devices from the trash of weather stations to be able to unfold the language of roots. Gradually, he gathered sufficient panaceas to understand the forest and feel that below him restless needles of another understanding communicated with each other. He hollowed out trunks often and preferably at dawn before the sap of life awoke so as not to arouse vindictive furies. He knew that in hollowing a trunk he was appropriating himself of the nature of the tree and that the wood was

the flesh and desire consummated between ferns and pine needles that smelled damp. Nothing else mattered beyond that immortality of someone who tamed the spirit in tireless struggles. Under the hollowed trunk the sorceress sensed his desire masked by myrtle. There was smoke and he sensed a novel and more acute eyesight develop, one tarried upon new points of view, observing the faintest movement of plants and their growth. Gradually, it was possible for him to perceive, as if reminded of an old adage, that Gaia, Mother Earth, was there, in his hands, open to his whims, offering him everything he needed. He was not deceived by these morning pleasures. At night, nature enslaved him and commanded his emotions as if he were a puppet disturbed by the hoot of the owl. He remained in his pine needle and hay shelter awaiting the first golden rays that bordered the pine needles and did away with the shadows. It was then that the sorceress came and brought him new emotions and, leaning on him, handed him the herbs with which she tamed predatory instincts. News had not yet arrived and already the sorceress told him merely how to see the cardinal points where it was necessary to detain the crags, divert water to the flow of the river. There, during the afternoon he consummated all his dreams bathing before the washerwomen. It was then that he sensed the time had come: nature shuddered and from within the bosom of the watercourse sorceresses came and went laughing and singing, filling the river with smiles. Lethes Paiva, Artist Image: @Stock.xchng

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Luís Abreu


Lu铆s Abreu, Fot贸grafo / Photographer


Luís Gonçalves

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Luís Gonçalves, Pintor / Painter | http://luis-art-goncalves.wix.com/luisgoncalves

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LuĂ­s Pereira

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LuĂ­s Pereira, Pintor / Painter

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Luz Henriques

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Luz Henriques, Pintora / Painter

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Luz Henriques, Pintora / Painter

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Luz Henriques, Pintora / Painter

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Maria Rafael

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Maria Rafael, Pintora / Painter | http://maria-rafael.blogspot.com

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Marta Cr贸

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Marta Cr贸, Pintora / Painter

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Miguel Santos O que é o Biocentrismo? O biocentrismo é a designação geral que é dada à afirmação de que todos os seres vivos concretos e individuais, quaisquer que sejam as suas espécies, e quaisquer que eles sejam, domesticados, semi-domesticados ou selvagens, são, e deviam ser, o centro da consideração moral e ética. Na sua essência, o biocentrismo implica o reconhecimento de um estatuto moral direto para todos os seres vivos individuais. Isto significa que aqueles são direta e individualmente moralmente considerados pelo seu valor intrínseco (por serem o que são por si só), e não por um possível valor indireto e secundário, instrumental, extrínseco, de ser “apenas” um membro de um “Todo” genérico abstrato, convencionalmente tomado como centro exclusivo e útil da relevância e consideração moral, tais como: Cultura, Etnia, Nação, Estado, Ecossistema, Cadeia Alimentar e Espécies, somente por si. Isto significa que, quando agimos, ou decidimos realizar qualquer tipo de ação, devemos considerar moralmente que efeitos, e consequências diretas, essa ação irá originar, não só em relação aos outros seres humanos, mas também, e igualmente, em relação a todos os outros seres vivos individuais concretos que podem ser afetados pela referida ação. Ou seja, o Homem deixa de ser o único ser a quem um valor intrínseco é reconhecido. O biocentrismo convida a Humanidade a adotar um ponto de vista mais profundo e mais amplo em relação ao que constitui uma Ética e uma Moral. Não mais um dominado pelo cálculo de “direitos apenas em troca de deveres”, e/ou pelo utilitarismo dos “bens móveis”, mas um ontologicamente orientado, (basta existir para ser eticamente relevante, é suficiente ser-se para se merecer respeito e consideração moral...). O biocentrismo distingue-se de outras éticas ambientais pela ampliação da noção de “valor intrínseco” muito para além do “Reino Humano”, e defendendo, de um modo não- abstrato, que somente os indivíduos vivos, como indivíduos vivos, têm uma posição moral direta e uma relevância ética real. Situa-se longe do antropocentrismo ao negar que o homem seja o único ser para dar valor e significado à natureza e aos seus seres não-humanos (que, a serem valorizados, só o seriam tão

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secundariamente, indiretamente, e em abstrato, exclusivamente em nome do Homem, na possível utilidade instrumental que poderiam ter para “ele”: ética ambiental conhecida como “utilização racional”). Por razões muito próximas, o biocentrismo também se distingue profundamente do ecocentrismo (a doutrina que finge que é o ecossistema em abstrato, só por si, sem ter em conta direta as vidas individuais dos seres vivos individuais concretos que deviam ser o centro da consideração moral e ética). Para o ecocentrismo, também são valorizados, acima dos seres individuais concretos, categorias e classes abstratas (como cadeias alimentares e espécies, por si próprias...); portanto, de um ponto de vista ecocentrista, se a saúde de um ecossistema em abstrato não for perturbada, alguns seres vivos individuais, e algumas espécies, chamadas de “exóticas”, podem ser, por inteiro, removidas, mortas e exterminadas, sem qualquer tipo de mal-estar moral e desconfiança ética. Muitas vezes os ecocentristas são caçadores entusiastas e defensores da caça. Muitas vezes o ecocentrismo junta-se ao etnocentrismo antropocêntrico na mesma desconfiança de migração de espécies e inovação genética; para ele, “indígena” e “endémico” são considerados “bens” absolutos, tal como “exótico” e “recém-chegados”, como “males” absolutos. Quando isto acontece, estão criadas as condições para um ecofascismo. O ser humano não é o “Rei da Criação”, o “Dono da Terra”, nem o centro e medida de todas as coisas, não lhe cabe a ele decidir e calcular quem pertence e quem não pertence, quem é compatível e quem não é, num determinado ecossistema. A vida evolui porque migra. Para a própria Vida, nada do que vive é “exótico” nem é dispensável ao seu vasto abraço evolutivo. No início nenhuma espécie era “indígena”; com o tempo tudo se tornará assim, e isso só à Vida diz respeito, não aos humanos. Na realidade, o biocentrismo é mais englobante e universal do que tanto o antropocentrismo e como o ecocentrismo; ambos valorizam diretamente um, indiretamente subestimando outros em submissão aos ditos interesses instrumentais de cada um. Numa perspetiva biocêntrica, não há nenhum ser vivo individual fechado apenas por si mesmo numa categoria abstrata, à parte e acima de outros seres; para ele, todos os seres individuais são igualmente considerados. Por outras palavras, só o biocentrismo valoriza intrinsecamente sem nada desvalorizar extrinsecamente. O biocentrismo (pela sua afirmação unívoca de que a Vida, ampla e aberta como é, concretizada pelos seus seres ontológicos individuais singulares, e definida pelas migrações e evoluções que só eles podem diretamente realizar, constitui o único horizonte universal real de uma consideração ética e moral “direta”) é o único antídoto firme e verdadeiro para o potencial futuro aumento de um ecofascismo, e de outras ameaças reacionárias à paz bioesférica. Finalmente, a Ética é o domínio preciso de uma agência direta e consequente, e, numa biosfera, o único ser agente


direto, aquele que se move, cresce, migra, e evolui, “diretamente”, é o organismo vivo: o ser vivo individual e concreto. É o Todo concreto de sinergias ecológicas, e definitivamente deve ser o centro direto da consideração ética e moral. Esta é a “pedra de lei” do ponto de vista da ética e doutrina biocêntrica. Miguel Santos, Escritor

What is Biocentrism? Biocentrism is the general designation that is given to the assertion that all concrete individual living beings, whatever their species, and whatever domesticated, semidomesticated or wild, are, and should be, the centre of moral and ethical consideration. In its essence, biocentrism implies the acknowledgement of a direct moral statute for all individual living beings. That means that those are directly and individually morally considerate by their intrinsic value (for being what they are in themselves), and not by a possible indirect and secondary, instrumental, extrinsic value of being ‘just’ a member of a generic abstract ‘Whole’, conventionally taken as the exclusive and useful centre of moral relevance and consideration, such as: Culture, Ethnicity, Nation, State, Ecosystem, Food Chain, and Species, only-for-themselves. That means that when we act, or decide to bring about any kind of action, we must morally consider which effects, and direct consequences, that action will originate, not only over other humans, but also, and equally, over all others concrete individual living beings that may be affected by said action. That is to say, Man ceases to be the only being to which an intrinsic value is recognized. Biocentrism invites Mankind to adopt a deeper and wider point of view of what constitutes an Ethics and a Moral. Not anymore one dominated by the calculus of “rights only in exchange of duties”, and/or by the utilitarianism of the “chattels”, but one ontologically driven, (it is enough to exist to be ethically relevant; it’s enough to be to deserve respect and moral consideration…). Biocentrism distinguishes itself away from other environmental ethics by expanding the notion of ‘intrinsic value’ far beyond the “Human Realm”; and by defending, on a non-abstract way, that only alive individuals, as alive individuals, have a direct moral standing and a real ethical relevance. It distinguishes far away from Anthropocentrism by denying that Man is the sole being to give value and meaning to nature and its non-human beings (that to be valued, would only be so secondarily, indirectly, and in abstract, solely on behalf of Man, on the possible instrumental utility they could potentially have to ‘him’: environmental ethics known as ‘Wise Use’). By very close reasons, Biocentrism also deeply distin-

guishes itself away from Ecocentrism (the doctrine that pretends that it is the ecosystem in abstract, only for itself, without having in direct relevance the individual lives of concrete individual living beings that should be the centre of moral and ethical consideration). To Ecocentrism, are also valued, above concrete individual beings, abstract categories and classes (such as food chains, and species, for themselves…); thus, from an ecocentrist point of view, if the heath of an ecosystem in abstract is not disturbed, some individual living beings, and some entire, so called “exotic”, species, can be removed, killed, and exterminated, without any kind of moral uneasiness and ethical distrust. Many times ecocentrists are enthusiastic hunters and defenders of hunt. Many times Ecocentrism unites with anthropocentric Ethnocentrism in the same mistrust of species migration and genetic innovation; for it, “indigenous” and “endemic” are regarded as absolute “goods”, as “exotic” and “newcomers” as absolute “evils”. When that happens, the conditions for an Ecofascism are raised. Human being is not the “King of Creation”, the “Owner of the Earth”, nor the centre and measure of all things, it is not up to him to decide and to calculate who belongs and who do not, who is compatible and who is not, to a given ecosystem. Life evolves because it migrates. For Life itself, nothing that lives is “exotic” nor is expendable to its wide evolutive embrace. In the beginning no species was “indigenous”, with time all will became so, and that is Life business, not human. In reality, Biocentrism is more englobing and universal than both Anthropocentrism and Ecocentrism; both directly value one, indirectly undervaluing others in submission to said one’s instrumental interests. On a biocentric perspective there is no individual living being closed only by itself in some abstract category besides and above other beings; to it all individual beings are equally considered. In other words, only Biocentrism intrinsically values without anything extrinsically devaluing. Biocentrism (by its univocal affirmation that Life, wide and open as it is, made real by its ontological singular individual beings, and defined by the migrations and evolutions that only they can directly accomplish, constitutes the sole real universal horizon of a ‘direct’ ethical and moral consideration) is the only firm and real antidote to the potential future rise of an Ecofascism, and of other reactionary menaces to biospherical peace. Finally, Ethics is the precise domain of a direct and consequent agency, and, in a biosphere, the sole direct agent being, the one that moves, grows, migrates, and evolves, ‘directly’, is the living organism: the concrete and individual living being. It is the concrete Whole of ecological synergies, and it definitively should be the direct centre of ethical and moral considerability. This is the “stone law” of the biocentric ethical point of view and doctrine. Miguel Santos, Writer


Nelson Caires


Nelson Caires, Tatuador / Tattoer


Pedro Berenguer


Pedro Berenguer, Pintor / Painter


Pedro Berenguer, Pintor / Painter


Pedro Chagas Freitas O que mais dói não é – desengana-te – a infelicidade. A infelicidade dói. Magoa. Martiriza. É intensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar. Mas a infelicidade não é o que mais dói. A infelicidade é infeliz – mas não é o que mais dói. O que mais dói é a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que não se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade não magoa – vai magoando; a subfelicidade não martiriza – vai martirizando. Não é intensa – mas é imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar – mas em silêncio, em surdina, em anonimato. Como se não fosse. Mas é: a subfelicidade é. A subfelicidade faz-te ficar refém do que tens – mas nem assim te impede de te sentires apeado do que não tens e gostarias de ter. Do que está ali, sempre ali, sempre à mão de semear – e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade é o piso -1 da felicidade. E não há elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas. Anda daí. Sair da subfelicidade é um drama. Um pesadelo. Sair da subfelicidade é mais difícil do que sair da infelicidade. Para sair da infelicidade, toda a gente sabe – tu mesmo o sabes: tens de tomar medidas drásticas. Medidas radicais. Porque a infelicidade é, também ela, radical. Mas sair da subfelicidade é uma batalha interior muito mais dolorosa. Desde logo, porque não sabes se queres, mesmo, sair da subfelicidade. Porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a desilusão – terás, no máximo, a subdesilusão; porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a perda – terás, no máximo, a subperda. Estás a ficar perdido com o que te digo? A subfelicidade é o produto mais diabólico que a humanidade criou. A subfelicidade é resultado da mente, também ela diabólica, de quem tem consciência. Para um cão, para um gato, para um periquito, para um leão ou até para uma formiga, não existe a subfelicidade: a felicidade pacífica. Impossível: ou está feliz porque tem comida e bebida, ou está infeliz porque nada tem para comer ou nada tem para beber. Os animais, por mais cores que os olhos lhes dêem a ver, vêem o mundo a preto e branco. Ou é preto ou é branco. Ou é feliz ou infeliz. Ou é tudo ou é nada. O hu-

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mano, esse, foi mais longe. E foi por isso que ficou, cada vez mais, refém do que está perto – do que está seguro. Formatado pela consciência, o homem assimilou um conceito que, na verdade, não existe: o da felicidade segura. Espero que estejas bem seguro nessa cadeira quando leres o que aí vem no próximo parágrafo. A felicidade segura não existe. A felicidade segura é segura, sim – mas não é felicidade. A felicidade pacífica é pacífica, sim – mas não é felicidade. A felicidade, quando é felicidade, assolapa, euforiza, arrebata. E não deixa respirar, e não deixa sequer pensar. A felicidade, quando é felicidade, é só felicidade. E tudo o que existe, quando existe felicidade, é a felicidade. Só ela e tu. Ela em ti. Ela em todo o tu. A felicidade, para ser felicidade, não tem estratos, não tem razão. Ou é ou não é. A felicidade é animal, de facto – mas é ainda mais demencial. Deixa-te louco de felicidade, maluco de alegria, passado dos cornos. Só quando estás dentro da felicidade é que estás fora de ti. Liberto do corpo, da matéria, da sensação – e imerso naquela indizível comunhão. Tu e a felicidade. Já a sentiste, não? Não há como dizer de outra maneira: se estás acomodado à subfelicidade, se tens medo de ser feliz e preferes a certeza de seres subfeliz: és um triste de todo o tamanho. A subfelicidade é uma tristeza. Uma tristeza de hábitos, de rotinas, de sorrisos – uma tristeza que inibe a surpresa, o imprevisível, a gargalhada. Uma tristeza que te faz refém do que fazes e te impede de te seres o que és. Olha em redor: a toda a volta há pessoas subfelizes, pessoas que dizem “vai-se andando”, pessoas que dizem “tem de ser”, pessoas que dizem “eu até gosto dele”, pessoas que dizem “sou feliz” com os olhos cheios de “queria ser feliz”, pessoas que dizem “é a vida”. Mas não é. A vida não é a quase felicidade. A vida não é a subfelicidade. E, se é a primeira vez que vês isso, fica entendido o que sentes. Ou subentendido, pelo menos. in Eu Sou Deus, Chiado Editora, 2012. Pedro Chagas Freitas, Escritor http://www.pedrochagasfreitas.com


What hurts the most is not – do not deceive yourself – unhappiness. Unhappiness hurts. Aches. Martyrizes. It is intense; it makes you scream, suffer, leap, cry. But unhappiness is not what hurts the most. Unhappiness is unfortunate – but it is not what hurts the most. What hurts most is subhappiness. Or happiness more or less, happiness that does not become happiness, that always remains in the middle of becoming. Happiness, almost. Subhappines does not hurt – it hurts as you go, subhappiness does not martyrize – it martyrizes as you go. It is not intense – but it is immense; it makes you scream, suffer, leap, cry – but quietly, mutely, in anonymity. As if it were not. But it is: subhappiness is. Subhappiness makes you become a hostage of what you have – but this does not prevent you from feeling kept apart from what you do not have and would like to have. Of what is right there, always there, always very close at hand – and which, even so, you can never touch. Subhappiness is floor -1 of happiness. And there is no lift whatsoever to take you up one level. You must be the one to move your legs and climb the stairs. Come on. Leaving subhappiness is a drama. A nightmare. Leaving subhappiness is harder than getting out of unhappiness. To leave unhappiness, everyone knows – you yourself know: you have to take drastic measures. Radical measures. Because unhappiness is itself radical. But leaving subhappiness is a much more painful inner battle. Firstly, because you do not know if you really even want to get out of subhappiness. Because it is in subhappiness that you can be sure that you avoid disappointment – you will, at most, have subdisillusionment, because it is in subhappiness that you can be sure that you avoid loss – you will, at most, have subloss. Are you getting lost with what I am telling you? Subhappiness is the most diabolical product that mankind has created. Subhappiness is product of the mind, it too diabolical, of those who have conscience. For a dog, for a cat, for a parakeet, for a lion or even an ant, there is no subhappiness: peaceful happiness. Impossible: or it is happy because it has food and drink, or it is unhappy because it has nothing to eat or has nothing to drink. Animals, no matter how many colours their eyes are made to see, see the world in black and white. Either it is black or it is white. Either it is happy or unhappy. It is either eve-

rything or nothing. The human being, on the other hand, goes a longer way. And that is why he has increasingly become hostage of what is at hand – of what is safe. Formatted by conscience, man assimilated a concept that actually does not exist: that of secure happiness. I hope you are properly seated in that chair when you read what is to come in the next paragraph. Secure happiness does not exist. Secure happiness is secure, yes – but it is not happiness. Peaceful happiness is peaceful, yes – but it is not happiness. Happiness, when it is happiness, it ravages, makes you euphoric, enraptures you. And it does not let you breathe, it does not even allow you to think. Happiness, when it is happiness, is only happiness. And everything that exists, when there is happiness, is happiness alone. Only it and you. It in you. It in the whole of you. Happiness, to be happiness, has no strata, no reason. Either it is or it is not. Happiness is wild, in fact – but it is even more insane. It leaves you crazy with happiness, crazed with joy, completely nuts. It is only when you are in happiness that you are outside yourself. Freed from the body, of matter, sensation – and immersed in that indescribable communion. You and happiness. You have already felt it, right? There is no other way to say it: if you are accommodated to subhappiness, if you are afraid to be happy and prefer the certainty of being subhappy: you are an unspeakably poor thing. Subhappiness is so sad. A sadness of habits, of routines, of smiles – a sadness that inhibits surprise, the unpredictable, laughter. A sadness that makes you hostage of what you do and stops you from being who you are. Look around you: all around there are subhappy people, people who say “I’m doing okay”, people who say “that’s the way it has to be”, people who say “I sort of like him”, people who say “I’m happy” with their eyes full of “I wish I was happy”, people who say “that’s life”. But it is not. Life is not happiness, almost. Life is not subhappiness. And, if it is the first time you see this, how you feel is understood. Or implied, at least. in Eu Sou Deus (I am God), Chiado Editora, 2012. Pedro Chagas Freitas, Writer http://www.pedrochagasfreitas.com

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Pedro Zamith


Pedro Zamith, Pintor / Painter | http://www.pedrozamith.com


Rainer Splitt

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Rainer Splitt, conceptual / painting / sculpture | http://www.rainersplitt.de

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Rui Horta Pereira


Rui Horta Pereira, Escultor / Sculptor | http://www.ruihortapereira.com


Sofia Aguiar


Sofia Aguiar, Pintora / Painter | http://www.artslant.com/global/artists/show/257641-sofia-aguiar


Sofia Leit達o

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Sofia Leit達o, Pintora / Painter | http://www.sofialeitao.info

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Teresa Dur達o Fusing

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Teresa Durรฃo Fuising, Artista Plรกstica / Fine Artist


Vítor Sousa Amor à Camisola Interessa a viagem, pouco importa o destino. Gosto de me integrar, digamos, na intimidade dos outros. Por vezes, acontece, não temos muita sorte e extraem-nos sem misericórdia. Amputam-nos. Eu prefiro o aleatório. Tenho o direito de querer um coração que me aloje, ou o dever de me prolongar na cabeça de alguém. [Tenho uma amiga que já fez um homem perder a cabeça. Isso, porém, não se faz nem me satisfaz. A minha técnica é mais subtil: quando entramos na intimidade de alguém, ninguém pode sair ileso. Se sairmos ilesos, foi inútil. Eu, felizmente, tenho estrias.]

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Quando morrer, gostava de levar no corpo o sabor de um estranho a quem me dei em volúpia. Gostava de levar aquele suspiro das insónias, o eco de um verso inacabado, o sangue frio da paixão, os sonhos de infância, ou o andamento lento de um órgão reservado a requiems. Por Amor à camisola, Só rasgo a pele. Como um abjecto em movimento. [Esta bala foi vítima de um homem perdido] Vítor Sousa, Poeta http://estrangeiros.blogspot.com

Love of the Game The journey is what matters, the destination is not of interest. I like to fit in, let’s say, the intimacy of others. Sometimes it happens, we are not very lucky and get extracted without mercy. We are amputated. I prefer randomness. I have the right to want a heart that hosts me, or the duty to extend myself in someone’s head.


[I have a friend who has already made ​​a man lose his head. That, however, is something one shouldn’t do nor does it satisfy me. My technique is more subtle: we enter the intimacy of someone, no one can escape unscathed. If we escape unharmed, it was useless. I, fortunately, have stretch marks.] When I die, I would like to carry in my body the taste of a stranger to whom I gave myself in voluptuousness. I would like to take that sigh of insomnia, the echo of an unfinished verse, cold-blooded passion, childhood dreams, or the progress, slow, of an organ reserved for requiems. For Love of the game1, I only tear the skin. As an abject in motion. [This bullet was the victim of a lost man] Vítor Sousa, Poet http://estrangeiros.blogspot.com 1 In Portuguese, the phrase ‘Por Amor à camisola’, translated literally, is ‘For Love of my sweater’. The poet plays on the double meaning.


Zorayda O que será que nos une e divide? Somos uma espécie que coopera e se une por razões semelhantes às que, ao mesmo tempo, a separa. Se, por um lado, queremos a união e falamos de cooperação, pelo outro, competimos e digladiamo-nos por nos distinguir e nos diferenciar, tentando sempre imperar ou brilhar, claro, sozinhos, como se isso fosse de facto a nossa razão de ser ou até mesmo o bem supremo do nosso regozijo. O prazer surge porque acreditamos que somos melhores ou temos de ser melhores e, assim, atingiremos o que é esperado de nós. Então, identificamos o Ego que, com seu sussurro mais profundo, nos impele a sermos únicos, diferentes…. e, nos acorrenta aos semelhantes, ou não fosse esse elo o espelho da distinção e da exceção. É a face escura, o outro que nos quer distintos, impares e exclusivos, gritando-nos constantemente que somos capazes de ser inigualáveis, insuperáveis ou melhor… excecionais, desagregando assim, todo e qualquer sentimento, por mais puro e sublime. “Separar para reinar…” ditado popular ainda atual. Todavia, o Eu olha ao seu redor e consente. Afinal a escolha é nossa e cabe sempre aos mais ambiciosos e ávidos de amor remexer no baú das memórias trazendo à tona, permitindo recordar que tudo seria muito mais simples se não ignorássemos, constantemente, que todos afinal não somos mais que pequenas partículas de um Todo formando o Universo. Somos unos porque indispensáveis ao planeta e à sua evolução ou permanência. De mesma forma, e qualquer que seja o assunto de ordem económica, filosófica, religiosa ou outro, a cooperação é uma condição sine qua non para a evolução espiritual da humanidade e harmoniosa do planeta. Eis então que surge a questão: Porquê tanta violência, tanta ambição desmedida se o planeta comporta o indispensável para a sobrevivência e harmonia entre todos os seus habitantes? Geração após geração, os homens têm transmitido, como valores, a crença que os princípios da competitividade e do poder são o máximo da escalada humana em detrimento da cooperação, como élan congregador de har-

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monia e verdadeira força motriz da evolução do Homem e do Universo. Vivemos um momento de dúvida onde individualismo se confronta com a cooperação, a individualidade se mistificada, sublimada como se tal uma maldição habitasse o âmago mais íntimo do homem impedindo-o de ser livre. Encangado pelo medo de perder um trono que jamais foi seu e nunca o será. Todo o trono é na sua essência uma canga de escravo. Será o Monte Olimpo mais eminente pela sua aparência ou por albergar os Deuses? Será o Homem mais homem porque assim se chama ou porque partilha, divide e se multiplica em expressões de amor? Zorayda, Escritora


What

is it that unites and divides us?

We are a species that cooperates and bands for reasons which, at the same time, separate us. If, on the one hand, we want unity and talk about cooperation, on the other, we compete and fight to distinguish and differentiate ourselves, always trying to rule or shine, on our own, of course, as if that were indeed the reason of

our existence or even the supreme good of our rejoicing. Pleasure arises because we believe we are better or have to be better and, thus, we will achieve what is expected of us. We then identify the Ego, which, with its deepest whisper, impels us to be unique, to be different... and chains us to our fellow men, or were not this link the mirror of distinction and exception. It is the dark side, the other that wants us different, odd and unique, constantly shouting to us that we can be unparalleled, unsurpassed or rather... exceptional, thus disaggregating any and every feeling, however pure and sublime. “Divide and reign...” an adage still present nowadays. However, the ‘I’ looks around and consents. After all, the choice is ours and it is always up to the most ambitious and eager for love to rummage in the trunk of memories bringing to the surface, allowing to recall that everything would be much simpler if we did not, constantly, ignore that we are all no more than small particles of a Whole forming the Universe. We are one because indispensable to the planet and its evolution or permanence. In the same way, and whatever the subject, economic, philosophical, religious or other, cooperation is a sine qua non condition for the spiritual evolution of humanity and harmonious evolution of the planet. And here the question arises: Why so much violence, so much unbridled ambition if the planet contains what is indispensable for survival and harmony among all its inhabitants? Generation after generation, men have passed on, as values​​, the belief that the principles of competitiveness and power are the maximum of human ascension at the expense of cooperation, as convening élan of harmony and true driving force for the evolution of Man and the Universe. We live in a moment of doubt where individualism confronts itself with cooperation, individuality if mystified, sublimated as if a curse dwelled in the innermost core of man preventing him from being free. Yoked by fear of losing a throne that never was his and will never be. Every throne is in essence a yoke of slavery. Is Mount Olympus most eminent for its looks or for hosting the Gods? Is it the case that Man is more of a man because he is thus named or because he shares, divides and multiplies himself into expressions of love? Zorayda, Writer

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