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FICHA TÉCNICA / TECHNICAL SPECIFICATIONS EDITORES / EDITORS Bernardo de Vasconcelos Luís de Vasconcelos Marco Câmara DESIGN / DESIGN Marco Câmara CAPA / COVER Marco Câmara COLABORADORES / COLLABORATORS Dina de Vasconcelos Jorge Marques TRADUÇÃO E REVISÃO / TRANSLATION AND REVISION Bernardo de Vasconcelos HEART MAGAZINE é uma publicação trimestral da Heart Magazine / is a Heart Magazine quarterly publication Funchal - Madeira - Portugal www.issuu.com/heart.magazine Todos os artigos são da responsabilidade dos seus autores e, assim sendo, não refletem totalmente a opinião da revista. É expressamente proibida a reprodução parcial ou total de textos e imagens por qualquer meio, sem prévia autorização dos autores e do editor da revista. All articles are of the responsibility of the authors and, therefore, do not fully reflect the opinion of the magazine. It is forbidden to totally or partially reproduce text and images by any means without prior permission of the authors and the editor of the magazine. PARA COLABORAR / TO CONTRIBUTE: Consulte condições em / see how to at www.heartmagazine.pt https://www.facebook.com/pages/Heart-Magazine/417432924997242 e/ou / and/or Envie e-mail para / send an email to geral@heartmagazine.pt Os textos em PT da estrita responsabilidade da Heart Magazine apresentam-se segundo o novo acordo ortográfico. A escolha ortográfica de cada participante é da sua responsabilidade pessoal. Heart Magazine © Registo Nº / Registration No. 5790/2012 junto da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC) – Portugal / with the Inspectorate-General for Cultural Activities (IGAC) – Portugal ISSN 2182-9667


ÍNDICE INDEX

EDITORIAL LOCUS ENTREVISTA AUGUSTO BALLARDO AVELINA MACEDO BÁRBARA SOUSA BETTINA CHARLOTTE RADATZ CÂNDIDO DE OLIVEIRA MARTINS CARLA PAIS CARLOS NÓ CLARA CORREIA DINA CRÓ DIOGO CORREIA PINTO DUARTE ENCARNAÇÃO EDUARDO BRAGANÇA EDUARDO FREITAS EMANUEL AGUIAR EVELINA DUMONT JEROEN BUITENMAN JORDÃO FREITAS L. S LÁPIS-LAZÚLI LAURA ORNELAS LETICIA BARRETO LUÍS GONÇALVES MAGDA NUNES MANUEL SEITA MARESIA MARIO PEDRO BRIOSA MIGUEL ÂNGELO MARTINS NUNO RODRIGUES OLEKSANDR GONCHAROV PAULO BESSA LÓIO PAULO DAMIÃO PAULO SÉRGIO BEJU PEDRO ANDRÉ SOUSA RICARDO DA SILVA RICARDO JORGE RÚBEN FREITAS RUI CORREIA STAR SHINE TERESA MADRUGA TERESA MELO VIRGÍLIO JESUS WALKINGFRAME WOLFGANG LASS

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Editorial Renascentia O tempo desenrolou-se como uma flor que se abre perante os primeiros raios de sol de forma lânguida e serena e, decorrido um ano, esta revista, com a qual sonho e sonhamos e a que me dedico e dedicamos por inteiro, a qual me permite e nos permite renascer em crescendo em cada edição, comemora agora o seu primeiro aniversário. Olho e olhamos para trás sob a forma de time lapse e constato e constatamos que o tempo voou rápido e audazmente. A energia despendida com o coração de forma desabrochada pela equipa permite-me e permitenos sentir que renascer para os dias vindouros, um dia de cada vez, numa forma de consciência mais elevada a nível vibracional, é o estímulo maior que conduz, consequentemente, ao crescimento e adultez madura. O que ontem era um projeto tenro, presentemente assume contornos definidos e vigorosamente cristalinos no que concerne à sua génese sonhada. É a constatação e a afirmação de um projeto onde não borrámos a pintura e onde a responsabilidade patente denota um compromisso honrado para com a arte e a cultura sob as suas diferentes formas de manifestação e de expressão criativa. Mais de duzentos seres humanos deram o seu contributo até ao presente, revelando uma sensibilidade apurada e uma inteligência equilibrada porque entenderam o propósito desta missão editorial, sobretudo na conjuntura político-económica e social atual, de tão difícil que é e que se sente predominantemente no meio artístico e para com a arte por inteiro. Renascer sob diferentes aceções é o tema deste número, onde de forma luzídia nos apercebemos disso, seja de uma ideia conceptual, de um corpo matérico ou não, de uma mente no fio da navalha entre o racional e o emocional, de um espírito sem amarras, da emoção verdadeira desempoeirada e centrada, acionada por um estado de consciência que grita e exige que é preciso deixar para trás energias velhas, hábitos rotineiros, padrões insidiosos e atitudes desprovidas de sentido, que a vida já não

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consegue comportar, para poder ser livre e sadia e, inabalavelmente, seguir o seu curso natural. A Heart Magazine cresce de forma vertical e procura adentro dos seus propósitos e valores base fortalecerse, ampliando os seus sentidos e desenvolvendo novos ideais de modo a poder proporcionar a todos os artistas e demais fruidores valências há muito desenhadas, que agora começam a reunir condições para se manifestarem e materializarem. O ano de 2014 será um ano de desafios e de oportunidades extraordinárias, de mudanças profundas e enriquecedoras para todos, onde enaltecer a produção artística estará na ordem do dia-a-dia. O site, ainda em construção, oferecerá um leque abrangente de serviços e de experiências e intercâmbios sociais a vários níveis, onde esta ainda pequena comunidade de artistas se tornará tão lata que o sentir de que somos todos um imperará de todo em absoluto. Porque, inexplicavelmente, o amor manifesto em divulgar, preservar e partilhar este património artístico à escala planetária pulsa mesmo como uma luz de novo brilho. O coração está dentro da estrela, exatamente da única maneira possível, onde é passível de concretizar sonhos e realizar milagres, porque a arte do universo divino presente em nós merece que se O louve, e porque a humanidade precisa de compaixão, e também de empatia, para poder, em saltos quânticos, evoluir e renascer sob uma nova forma de ser e estar no mundo e com o mesmo, esfera azul líquida e suspensa esta, onde a beleza, o bom e o bem passa por dentro e nos contagia a todos, irradiando-se para fora enquanto expulsa feixes de luz curadores de almas ao trazer o céu à terra e levando a terra ao céu, porque aqui escolheu-se servir Um Senhor chamado Amor Eterno. Luís de Vasconcelos


Editorial Renascentia Time unfolded like a flower that languidly and quietly blooms before the first rays of sun and, a year having gone by, this magazine, with which I and we dream and to which I and we dedicate and devote ourselves entirely, which allows me and us to be reborn in a crescendo with every edition, now celebrates its first anniversary. I and we look back as if in time lapse and I and we note that time went by quickly and boldly. The energy expended with an open heart by the team allows me and enables us to feel that being reborn for the days ahead, one day at a time, in a higher consciousness at the vibrational level, is the highest stimulus, which consequently leads to growth and mature adulthood. What yesterday was an unripe project, now takes on vigorously crystalline contours with regard to its dreamed of genesis. It is the realization and affirmation of a project where the painting was not blurred and where visible responsibility denotes an honourable commitment to art and culture in its various forms of creative expression and manifestation. Over two hundred humans have contributed up to the present, revealing a fine sensitivity and a balanced intelligence because they understood the purpose of this editorial mission, especially in the current political-economic and social context, which is so difficult and predominantly felt in the artistic arena and in art as a whole. To be reborn, in its different possible approaches, is the topic of this issue, where this is perceived in an enlightened manner, whether as a conceptual idea, of a material body or not, of a mind on the edge between the rational and the emotional, of an unfettered spirit, of true clear and centred emotion, triggered by a state of consciousness that cries out and demands that we must leave old energies, routine habits, insidious patterns and meaningless attitudes behind, which life can no longer bear, in order to be free and healthy and unswervingly follow its natural course.

Heart Magazine grows vertically and, in its purposes and base values, seeks is to strengthen itself, reaching further out and developing new ideas in order to be able to provide all artists and art lovers with possibilities long thought of, which now begin to gather conditions to manifest themselves and materialize. The year 2014 will be a year of challenges and extraordinary opportunities, of deep and enriching changes for all, during which the enhancement of artistic production will be of daily concern. The site, still under construction, will offer a comprehensive range of services and cultural experiences and exchanges at various levels, where this now still small community of artists will become so broad that the feeling that we are all one will absolutely dominate. Because, inexplicably, manifest love in promoting, preserving and sharing this artistic heritage on a global scale does pulse as a light with a new glow. The heart is inside the star, exactly the only possible way, where it is capable of fulfilling dreams and performing miracles, because the art of the divine universe in us deserves that we praise Him, and because humanity needs compassion, and empathy also, to be able to, in quantum leaps, evolve and be reborn in a new form so it can be in the world and with the world, this liquid suspended blue sphere, where beauty and good reaches within us and touches us all, radiating outward as it casts beams of soul healing light, bringing the heavens to earth and earth to heaven, because here we chose to serve One Lord named Eternal Love. LuĂ­s de Vasconcelos

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SĂ­lvia Marieta, Pintora / Painter

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Locus Entre_ Vista Georgina Garrido HM: Conte-nos então a ‘estória’ desta tela da Virgem e o Menino… GG: Foi em Cascais no verão de 1994, na sequência de um telefonema de uma senhora que desconhecia, que esta obra chegou até mim para restauro. Marcámos um encontro, numa das ruas de Cascais, e o trabalho foi-me entregue pelas mãos de uma das herdeiras da família: “… Encontrei esta pintura no fundo de uma gaveta de uma das cómodas da minha falecida avó. Tive para a colocar no lixo porque não gosto de arte sacra e porque está em muito mau estado. Mas uma amiga aconselhou-me que lha mostrasse primeiro. Restaure-a, se for possível, mas em princípio eu não vou querer ficar com ela porque sei que não vou gostar de a ver em minha casa. Se a conseguir restaurar e eu continuar a não gostar pode ficar com ela? …” Tratava-se de um óleo/tela representando a Virgem e o Menino, em muito mau estado de conservação, sem bastidor, colocado sobre um saco de plástico onde era possível ver vários elementos de policromia destacados. As fibras de suporte já sem elasticidade apresentavam-se quebradiças, com rasgões e lacunas graves, não apresentando sinais de alguma vez ter levado alguma intervenção. O seu estado prendia-se essencialmente com mau manuseamento e com o envelhecimento natural dos materiais. Logo que foi possível, ainda nesse mesmo ano, procedeuse ao tratamento. Depois de intervenção feita, voltámos a combinar um encontro no mesmo local onde mostrei o trabalho. Como era de esperar, a senhora não gostou e ofereceumo. Nunca mais vi a referida senhora e não me recordo

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do seu nome. A pintura foi colocada num dos quartos da casa dos meus pais, onde as condições de exposição e conservação eram seguras. Até que a minha filha nasceu, em 1998, e passou a ocupar esse quarto sempre que para lá íamos de férias. Desde muito cedo o olhar do Menino perseguia-a causando-lhe medo. A pintura foi retirada, pela minha mãe, mas para um local onde as condições já não eram tão favoráveis. Quando me apercebi, já em 2006, trouxe a pintura para o meu atelier no Funchal. Mais tarde, uma senhora Francesa, de visita à região, ao passar pelo atelier, reparou na obra, entrou, conversámos e trocamos contactos. Mais tarde informou-me de que poderia ser uma cópia muito antiga do pintor Il Sassoferrato. A tentativa de identificação começou. Neste momento os trabalhos científicos de exame e análise da obra prosseguem no sentido de saber ao certo do que se trata. Um original de Il Sassoferrato ou uma cópia? De que época? Onde foi feito? Todas estas questões hoje em dia podem ter respostas, mas o mais importante foi ter conseguido fazer renascer esta obra para lhe acrescentar mais história e poder contar esta estória.


Inter_ View Locus Georgina Garrido HM: Tell us then the ‘tale’ of this canvas of the Virgin and Child… GG: It was in Cascais in the summer of 1994, following a telephone call from a lady I did not know, that this work reached me for restoration. We arranged a meeting in one of the streets of Cascais and the job was given to me by the hand of one of the heirs of the family: “... I found this painting in a drawer of one of my late grandmother’s chests. I thought of throwing it away because I do not like religious art and it is in a very poor condition. But a friend advised me that l showed it to someone knowledgeable first. Restore it, if possible, but, from the outstart, I think I will not want to keep it because I know I will not like to see it in my house. If you manage to restore it and I still do not like it, can you keep it? ... “ It was an oil painting/canvas representing the Virgin and Child, in a very bad condition, without rack, placed in a plastic bag through which several polychrome elements stood out. The already inelastic supporting fibres presented themselves brittle, with tears and serious gaps, showing no signs of ever having undergone any sort of action. Its condition was primarily due to poor handling and with the natural aging of materials. As soon as was possible, in that same year, its treatment took place. After the intervention was made, we again arranged a meeting at the same place where I showed the work. As was to be expected, the lady did not like it and gave it to me. I never saw the lady again and I cannot remember her name. The painting was placed in one of the rooms of my parents’ house, where the exposure and maintenance condi-

tions were safe. In 1998 my daughter was born and occupied this room whenever we went there on vacation. From very early on, the gaze of the Child persecuted her causing her fear. The painting was withdrawn by my mother, but to a place where conditions were not so favourable. When I realized this, in 2006, I brought the painting to my studio in Funchal. Later, a French lady, who was visiting the region, when going by the workshop, noticed the work, entered, we talked and exchanged contacts. Later, she informed me that it could be a very old copy of the painter Il Sassoferrato. The identification tentative thus began. Presently, scientific examination and analysis of the work is being carried out in order to determine for sure what it is. An Il Sassoferrato original or a copy? Dated from when? Where was it painted? All these questions may receive answers nowadays. But, more importantly, was it to have been able to revive this work in order to add more history to it and to be able to tell this tale.


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Augusto Ballardo

Génesis 1:21 (O Livro (OL))1 Foi assim que Deus criou os grandes animais marinhos, e toda a qualidade de vida aquática, tal como toda a sorte de pássaros, os quais se haviam de reproduzir sempre segundo as suas espécies. E Deus viu que isso estava bem.

1 http://www.biblegateway.com/passage/?search=G%C3%AAnesis +1%3A21-23&version=OL, acedido em 15.12.2013


Genesis 1-21 (New International Version - UK)1 So God created the great creatures of the sea and every living thing with which the water teems and that moves about in it, according to their kinds, and every winged bird according to its kind. And God saw that it was good.

1 http://www.biblegateway.com/passage/?search=Genesis%20 1&version=NIVUK, accessed on 15.12.2013

Augusto Ballardo, Artista Plรกstico / Fine Artist www.augustoballardo.com


Avelina Macedo

A Bíblia diz em João 3:3-8 “Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.” Já no início dos tempos, o Homem meditava sobre a sua existência, sobre a sua essência, o porquê da vida, o sentido das coisas. Infinitas perguntas que têm surgido no transcurso dos séculos; perguntas todas elas sem resposta, sem uma lógica absoluta; paradigmas e paradoxos existenciais. Falar do renascimento, seja ele qual for (espiritual, cultural ou científico), é infinito, não tem princípio nem fim. Não começa numa ponta nem acaba noutra. Segundo o dicionário, renascer quer dizer uma nova vida, voltar a nascer, seja este renascimento espiritual ou de consciência. Segundo o trecho da Bíblia que cito no início do meu texto, temos que voltar a nascer para poder entrar no céu, não em carne, mas sim em espírito, porque o que conta realmente é a evolução do espírito, o seu aperfeiçoamento, o que nos torna humanos. E é essa essência que estamos a esquecer e a perder. A humanidade avança,

numa corrida louca, em busca do materialismo e é este materialismo o culpado pelas guerras, pela violência, pelo bullying, pela homofobia, pelo racismo e pelo sentimento de desprezo pelas pessoas mais fracas e que saem dos parâmetros preestabelecidos de beleza e perfeição. Mas, meus amigos, a perfeição não existe, não há um padrão único de beleza, nem de religião, preferências sexuais ou de raça. Todos somos únicos! Todos somos importantes! E o nosso objetivo é (o tal) renascer! Dirigirmo-nos para a luz. Transformarmo-nos em luz! Fazer parte do infinito, todos nós unidos numa massa brilhante de energia. Quando conseguirmos transportar-nos para esse plano superior de que fala não só a Bíblia como também a maioria das crenças e religiões, esse plano etéreo em que seremos só luz, só essência misturada, sem sexo, sem beleza, sem dimensão, teremos realmente renascido. Renascido para uma nova era: a era da paz, da compreensão e da felicidade. Entretanto, enquanto não renascemos para a luz, renasçamos para a consciência deste novo mundo, afundado na escuridão das crises económicas, espirituais e familiares. Façamos renascer as nossas consciências e olhemos para o nosso lado, olhemos para o nosso próximo. Não vivemos sós, e todos precisamos de alguém, nem que seja uma vez durante este longo caminho que é a vida. A vida, este mistério, que se torna bem mais fácil e prazerosa se permitirmos que os outros caminhem ao nosso lado. Avelina Macedo, Escritora Imagem: Heart Magazibe

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In John 3:3-8, the Bible reads: “ 3 Jesus replied, ‘Very truly I tell you, no one can see the kingdom of God unless they are born again.[a]’ 4 ‘How can someone be born when they are old?’ Nicodemus asked. ‘Surely they cannot enter a second time into their mother’s womb to be born!’ 5 Jesus answered, ‘Very truly I tell you, no one can enter the kingdom of God unless they are born of water and the Spirit. 6 Flesh gives birth to flesh, but the Spirit[b] gives birth to spirit. 7 You should not be surprised at my saying, “You[c] must be born again.” 8 The wind blows wherever it pleases. You hear its sound, but you cannot tell where it comes from or where it is going. So it is with everyone born of the Spirit.’”1 Since the beginning of time, Man pondered over his existence, his essence, the ‘why’ of life, the meaning of things. Endless questions that have arisen in the course of the centuries; all of them unanswered questions, not wholly logical; existential paradigms and paradoxes. Talking of rebirth, whichever it may be (spiritual, cultural or scientific), is an infinite affair, it has no beginning or end. It does not begin at one end nor does it end in another. According to the dictionary, rebirth means a new life, being born again, be it a rebirth of spiritual nature or of consciousness. According to the chapter of the Bible that I quote at the beginning of my text, we must be born again to enter into the heavens, not in flesh, but in spirit, because what really counts is the evolution of the spirit, its improvement, that which makes us human. And it is this essence that we are forgetting and losing. Humanity progresses, in a mad rush in search of materialism and it is this materialism that is to blame for wars, violence, bullying, homophobia, racism and the feeling of contempt for weaker people and those who do not fit into the established parameters of beauty and perfection. But, my friends, perfection does not exist.

There is no single standard of beauty, or religion, sexual preference or race. We are all unique! All are important! And our goal is to be reborn! To direct ourselves towards the light. To become light! To be part of the infinite, all of us united in a brilliant mass of energy. When we manage to transport ourselves to that higher plane of which not only the Bible but also most beliefs and religions speak, that ethereal plane where we will be light only, only mixed essence, with no sex, no beauty, no dimension, we will have been really reborn. Reborn into a new era: the era of peace, comprehension and happiness. However, until the time comes for us to be reborn into the light, let us be reborn in terms of our awareness of this new world, sunken in the darkness of economic, spiritual and family crises. Let us revive our consciences and look to our side, look at our fellow human beings. We do not live alone and we all need someone at least once during this long journey that is life. Life, this mystery, which becomes much easier and enjoyable if we allow others to walk beside us. Avelina Macedo, Writer Image: Heart Magazibe

(Endnotes) 1 John 3:3-8 (New International Version – UK (NIVUK)), http://www. biblegateway.com/passage/?search=Jo%C3%A3o%203:3-8%20 &version=NIVUK, accessed on 15.12.2013. Obs: John 3:3 The Greek for again also means from above; also in verse 7. John 3:6 Or but spirit John 3:7 The Greek is plural. John 3:8 The Greek for Spirit is the same as that for wind.

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Bรกrbara Sousa


Bรกrbara Sousa, Artista Plรกstica / Fine Artist

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Bettina Charlotte Radatz


Bettina Charlotte Radatz, Artista Plรกstica / Fine Artist | www.madeiraenergy.wordpress.com


Cândido de Oliveira Martins Elogio do Livro e da Leitura1 Nunca é demais reflectir sobre o lugar do livro e da leitura no mundo actual, como forma insubstituível de conhecimento. As ameaças e os desafios à sua importância, bem como a atmosfera geral de uma certa crise dos hábitos leitura, são hoje temas bastante debatidos. Numa sociedade evoluída, mostra-se essencial a existência de cidadãos esclarecidos, aptos a exercer os seus direitos de plena cidadania. Para isso, é fundamental que todos tenham salutares hábitos de leitura. É indispensável que se gere, desde a aprendizagem mais elementar, uma verdadeira educação do gosto pela leitura, à luz da activa valorização do rico património literário e de uma dinâmica cultura da literacia. Independentemente do pretexto, impõe-se reiterar o imprescindível lugar do livro e da prática da leitura. Mais prioritário do que elaborar um bonito decálogo dos direitos do leitor contemporâneo, talvez seja enumerar, ainda que de modo rápido e correntio, algumas das principais motivações ou finalidades da prática da leitura, hoje e sempre. Não faltam sentidos elogios da magia do livro e da leitura, onde o interessado pode aprofundar este tópico e colher lições sobre a ampla funcionalidade da leitura. Através do livro, todos aprendemos a ler e a contar, a escrever e a pensar; através do livro, aprendemos a conhecer os grandes pensadores e os escritores clássicos; através do livro, aprendemos a conhecer os grandes textos sagrados; através do livro, aprendemos as lições da história e os avanços da ciência; através do livro, aprendemos os grandes valores que regem as sociedades modernas;

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através do livro, aprendemos a sonhar outros mundos e pensar utopias; através do livro, aprendemos a rir e a chorar, a rezar ou a amar; através do livro aprendemos a descobrir o que nos cerca e a descobrimo-nos a nós próprios. O livro e a leitura são instrumentos essenciais de exercício de inteligência e de ginástica mental, de comunicação e de informação. Afinal, o livro e a leitura moldaram definitivamente a nossa memória e identidade individuais e colectivas, bem como a nossa visão do mundo. Opostamente, quem não lê, atrofia-se do ponto de vista linguístico, estético e cultural; quem não lê, regride na sua capacidade de pensar o que o rodeia; quem não lê, está condenado a viver à margem do seu tempo; quem não lê, vive e morre seguramente mais pobre. Deste modo, ler não é um luxo, é um dever, uma necessidade básica, um direito elementar, um hábito imprescindível. Ler não é apenas um mero passatempo; é antes um alimento intelectual – Aristóteles afirmou: “Um livro é um animal vivo”; Santo Agostinho chamou-lhe “alimento do espírito”; e João de Barros, “mercadoria espiritual”. Os livros são objectos pequenos, mas cheios de mundo (Romano Guardini). Haverá certamente tantos motivos ou razões justificativas da leitura quantos os leitores ou as situações de leitura. Podem variar significativamente os suportes físicos da leitura (das antiquíssimas placas de argila e dos rolos de pergaminho aos velhos códices medievais; do texto impresso ao actual hipertexto, passando pelo áudio-livro e pelo ebook). Podem variar as estratégias de intervenção e as actividades conducentes à motivação da prática da leitura. Podem alterar-se, mesmo significativamente, as imagens sociais atribuídas ao papel do livro e da leitura. Mas o livro continuará a ser um objecto ímpar de prazer; uma fonte insubstituível de informação; um meio de comunicação que lemos, e anotamos, guardamos e revisitamos, emprestamos e oferecemos.

Cândido Oliveira Martins, Professor da Universidade Católica Portuguesa Image: © stock.xchng 1 Nota dos editores: O texto submetido consistia de duas partes. A primeira, aqui publicada, e uma segunda onde se enumeravam exaustivamente e se consubstanciavam as razões pelas quais se lê. Atendendo a limitações de espaço e ao facto de o essencial estar contido na primeira parte, apenas esta foi publicada.


In Praise of Books and Reading1 It is never the case that we overdo it when we think about the place of books and reading in today’s world as an irreplaceable form of knowledge. The threats and challenges to their importance, as well as the general sense of a certain crisis in reading habits, are fairly debated topics nowadays. In an evolved society, it seems essential to have informed citizens, who are able to exercise their rights of full citizenship. For this to be possible, it is critical that everyone has salutary reading habits. It is essential that, from the most elementary learning, a true love-of-reading education is generated, in the light of an active appreciation of a rich literary heritage and of a dynamic culture of literacy. Regardless of the excuse, the indispensable place of books and reading practice must be reiterated. More important than preparing a beautiful Decalogue of the rights of the contemporary reader, it is perhaps to enumerate, even if in a quick and current way, some of the main motivations or purposes of the reading practice, today and always. Heartfelt praise on the magic of books and reading abounds, where the interested person can delve into this topic and learn lessons about the wide functionality of reading. Through books, we all learn to read and count, to write and think; through books, we learn to know the great thinkers and the classical writers; through books, we learn to know the great sacred texts; through books, we learn the lessons of history and progress of science; through books, we learn the great values ​​that govern modern societies; through books, we learn to dream other worlds and think utopias; through books, we learn to laugh and cry, to pray or to love; through books, we learn to find out about what surrounds us and about ourselves. Books and reading are essential instruments for the exercise of intelligence and mental fitness, of communication and information. After all, books and reading have definitely shaped our individual and collective memory and identity, as well as our

view of the world. Conversely, those who do not read are affected by linguistic, aesthetic and cultural atrophy; those who do not read regresses in their ability to think what surrounds them; those who do not read are condemned to live alongside time; those who do not read certainly live and die poorer. Thus, reading is not a luxury; it is a duty, a basic need, a basic right, an essential habit. Reading is not just a mere pastime; it is rather intellectual nourishment – Aristotle said: “A book is a living animal”; St. Augustine called it “sustenance of the spirit”; and João de Barros, “a spiritual good”. Books are small objects, but are a world (Romano Guardini). There will certainly be as many reasons or grounds for reading as readers or reading situations. The formats on which reading is rendered possible can vary significantly (from very ancient clay tablets and scrolls to old medieval codices; from printed text to hypertext, without forgetting audiobooks and eBooks). Intervention strategies and activities conducive to motivate the practice of reading may vary. Social images assigned to the role of books and reading may change, significantly even. But a book will always be a unique object of pleasure; an irreplaceable source of information; a means of communication that we read and annotate, keep and revisit, lend and offer.

Cândido Oliveira Martins, Professor at the Universidade Católica Portuguesa. Image: © stock.xchng 1 Editors’ Note: The text submitted consisted of two parts. The first, published here, and a second, where the reasons why we read were exhaustively enumerated and grounded. Owing to space limitations and the fact that the key aspects are contained in the first part, only it was published.


Carla Pais

Renascimento Repara, como as células do teu corpo renascem, devagar, no regaço linhoso dos meus lençóis, nesse bálsamo que navega as paredes frias do quarto como maresia entranhada na quilha de um barco – agora, tudo se inquieta na arte desse mar renascentista que jaz na curva dos teus braços, esse calor que desfaz todo o cerne da dor, das feridas encrostadas no peito. Esta manhã, não te levantes meu amor, deixa que o teu corpo sossegue no desvelo do meu enquanto o sol se atrasa na vontade de nascer, demora-te na sede dos meus lábios e no eco dos meus olhos, mas não te levantes. Deixa que o teu dedo continue a tear, devagar, a linha do meu seio, a geografia de um corpo, antes naufragado na enseada das lembranças – repara, como este mudo renascimento de alvéolos nos enleia na sombra do toque, na clausura de um sabor maduro ao qual só as nossas peles se sabem entregar quando o amor renasce e se difunde como castas sementes deitadas à fertilidade da terra – repara, repara bem, mas não te levantes esta manhã. Carla Pais, Escritora Imagem: © stock.xchng Edição: Heart Magazine


Rebirth Notice, how the cells of your body are reborn, slowly in the flaxen lap of my sheets, in this balm that sails the cold walls of the room as salt spray ingrained in the keel of a vessel – now, everything restless in the art of that Renaissance sea lying in the curve of your arms, that warmth which undoes all the crux of pain, of the sores imbedded in the chest. This morning, do not get up my love, let your body settle down in the caring of mine while the sun delays itself in rising, tarry in the thirst of my lips and the echo of my eyes, but do not get up. Let your finger continue to loom, slowly, the line of my breast, the geography of a body, afore foundered in the cove of memories – notice, how this mute rebirth of alveoli entangles us in the shadow of touch, in the closure of a mature flavour to which only our skins know how to surrender when love is reborn and disseminates like chaste seeds given to the fertility of the earth – notice, notice well, but do not get up this morning. Carla Pais, Writer Imagem: © stock.xchng Edição: Heart Magazine


Carlos Nó

Elegia com Renascimento O silêncio ilógico entre a história Por entre as trevas das idades E que se ergue numa nesga de exuberância: Da Vinci Miguel Ângelo Ticiano as musas camonianas O sorriso da criatividade apolínea Saindo da censura de um círculo fechado dogmático A autoridade de outro Deus dizendo: basta de não serem Oh Homens de pouca ventura Caminhem abram os corpos o horizonte e aprendam Mapas de músculos, de sangue, das ligações Interior exterior: as mãos da anatomia as mãos da arte as mãos de mundo Esculpem essa grande massa marmórea racional: uma outra inteligência Relembrem o cúmulo da perfeição das harmonias Das proporções profanas tocando Ideias humanas: Soando como nus que nos chocam dia a dia Porque sim somos igualmente isso: matéria sanguínea inventiva Expondo-se ao livre-arbítrio (a algum livre-arbítrio) Dêem-se às veias latentes da engenharia, da matéria, Da estranha inteligência digamos grega intemporal Retirai a coroa de espinhos das mãos cegas homicidas De ignorância do poder em nome de Deus E sim caminhai ao vosso próprio encontro - mesmo que nunca o encontrais Mas tendes sol o universo à vossa mercê A apelar a todo o vosso fervor coronário primaveril. Eis Homem vitruviano crescente. Carlos Nó, Escritor

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Elegy with Renaissance The illogical silence in history Through the darkness of the ages And which rises in a glimmer of exuberance: Da Vinci Michelangelo Titian Camoenian Muses The Apollonian smile of creativity Emerging from the censorship of a closed dogmatic circle The authority of another God saying: enough of not being Oh ye of little happiness Go open your bodies the horizon and learn Maps of muscles, blood, of connections Interior exterior: the hands of anatomy the hands of art the hands of world Sculpt that great rational marble mass: another intelligence Recall the height of perfection of harmonies Of unholy proportions playing Human ideas: Sounding like nudes that shock us every day Because yes we are this also: inventive blood matter Exposing itself to freewill (to some freewill) Give yourselves to the latent veins of engineering, matter, Of the strange intelligence say Greek timeless Withdraw the crown of thorns from blind murderous hands Of ignorance of power in the name of God And yeah walk towards yourself – even if you never find it But you have the sun the universe at your mercy Calling to all of your spring coronary fervour. Behold growing Vitruvian Man. Carlos Nó, Writer

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Claire da Silva Renascimento Durante uma conversa maravilhosa com um amigo muito querido, este sugeriu que eu escrevesse um artigo sobre o “RENASCIMENTO”. Naquele momento, limitei-me a olhar para ele e do meu íntimo senti que queria gritar: “Cada dia é um renascimento!”. Demorou algum tempo até conseguir colocar os meus pensamentos no papel, atendendo a que havia tantos. O renascimento de cada novo dia, o renascimento de uma situação... Depois de uma longa jornada interior, isto é o que renascimento significa para mim: Vivemos num mundo onde temos testemunhado guerras, sofrimento, desespero, depressões, doenças e violência espelhados à nossa frente ou dentro de nós, nos nossos lares, nas nossas famílias, nos nossos países e apenas um túnel de escuridão parece apresentar-se; “as nossas mortes/renascimentos” são-nos apresentadas numa base diária como uma dádiva e, de alguma forma, nós não o vemos. Por vezes, sinto uma grande necessidade de amar as pessoas como se não houvesse amanhã, mas sabendo que não existem verdades, enquanto bombas explodem nos nossos corações e nas nossas mãos, e nos magoamos uma e outra vez. O medo e a tristeza ficam estampados nos nossos rostos, e sabemos que é errado, que é um erro confirmado, que tudo é tão errado, os meus erros, os vossos erros, a covardia, a humilhação e destruição... De uma forma geral, as pessoas (os nossos líderes políticos/eclesiásticos e outros, que tanto e mais falam) são geralmente as mesmas pessoas que nada fazem, ou que não conseguem ver nada para além das suas próprias ideias ou crenças... Eu acredito e sei que o nosso caminho para a bondade está onde possam haver muitos entraves, a que muitas vezes chamamos de obstáculos ou barreiras, como os casamentos destruídos, as drogas, o álcool, a morte e a doença. Estes são os obstáculos que nos podem fazer parar e empurrar-nos para o abismo, ou podem mostrarnos o tal caminho que irá finalmente nos levar ao nosso “renascimento”.

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Tudo o que está em nós precisou do momento certo para amadurecer – a nossa fé, as nossas crenças, os nossos medos, os nossos sentimentos, as nossas ideias, os nossos sonhos. Nada nasceu connosco ou aconteceu de uma hora para a outra. Tudo em nós foi moldado ao longo do tempo e pelas estradas que trilhámos, as companhias que mantivemos, e as decisões que tomámos. Fomos ensinados a viver com os falsos, os hipócritas, os enganadores e mentirosos. Afinal de contas, é isso que a sociedade espera de nós. Mas quem poderia viver com a nossa revolta, as nossas aflições e argumentos contra este tipo de vida? Não obstante, ao longo do tempo, sempre houve pessoas com amor e compreensão, com uma certa luz e brilho. Essas pessoas também nos têm ajudado a ver a bondade e a não esperar menos do que a beleza, a realidade da felicidade, a abundância na criação. Durante os acontecimentos das nossas vidas ao estilo de montanhas-russas, o nosso mundo e as nossas vidas por vezes entram em colapso, chega o momento em que as coisas subitamente param, e é aí que começamos a ouvir a nossa voz interior e sabemos que isto não é vida, que isto não é o que queremos ou merecemos, que queremos mais felicidade, bondade, mais compreensão e a esperança de uma vida e de um futuro melhor. Tendo batido no fundo do poço, começamos a rastejar para fora, permitindo que aquilo que era a nossa “tarefa/ missão inicial” possa assumir o controlo, deixamo-nos percorrer uma viagem interior, uma viagem espiritual ou de “procura pela alma”. Este é o começo de nosso renascimento, a “evocação de uma memória fraca e distante (a nossa missão – a que nos foi dada quando viemos ao mundo, mas a qual perdemos de vista ao mesmo tempo que perdemos a nossa inocência)”; começamos ver o mundo com olhos de ver, apreciamos a beleza que nos rodeia e tentamos fazer do mundo um lugar mais feliz e melhor. Sim, não há dúvida de que o renascimento é cada novo dia, um novo nascer e pôr-do-sol, uma situação nova, um novo emprego, uma nova criação, uma nova jornada ou a cura de uma enfermidade/doença. RENASCIMENTO é a aceitação e coragem para mudar. RENASCIMENTO é o “Homem, em busca no interior de si mesmo”, é “Começar de novo”, é encontrar a força para lutar por aquilo em que se acredita, e não permitir que as falhas se tornem um lema. Apenas quando conseguirmos realmente admitir as nossas imperfeições, poderemos iniciar a nossa jornada para a PERFEIÇÃO. A todos vós, meus amigos, acredito que isto é o RENASCIMENTO. Claire da Silva, Escritora Imagem: Oleksandr Goncharov


Rebirth During a wonderful conversation with a loving friend, he suggested that I write an article about “REBIRTH”. At that moment, I just looked at him and from deep within my core I felt I wanted to scream: “Each day is a rebirth!”. It took long to actually put down on paper my thoughts, as there were so many. The rebirth of each new day, the rebirth of a situation... After a long inner journey, this is what rebirth means to me: We live in a world where we have witnessed wars, suffering, desperation, depressions, illnesses and violence mirrored in front of us or within us, in our homes, our families, our countries and only a tunnel of darkness seems to present itself; “our deaths/rebirths” are presented to us on a daily basis like a gift and somehow we do not see it. Sometimes I feel this great need to love people like there is no tomorrow, yet knowing there are no truths, as bombs explode in our hearts and hands, and we get hurt over and over. Fear and sadness are stamped all over our faces, and we know it is wrong, it is a confirmed mistake, everything is so wrong, my mistakes, your mistakes, cowardness, humiliation, and destruction... Generally people (our political/church and other leaders, that talk so much and the most) are usually the same people that do nothing at all, or see nothing beyond their own ideas or beliefs… I believe and know that our road to goodness is where there may be many obstacles, which we often call stumbling blocks, or barriers, such as destroyed marriages, drugs, alcohol, death and sickness. These are obstacles that can stop us and push us over the edge, or show us the ultimate road that will finally lead us to our “rebirth”. Everything that is in us needed the right time to mature – our faith, our beliefs, our fears, our feelings, our ideas, our dreams. Nothing was born with us, or happened from one hour to the next. Everything about us has been moulded through time and the roads that we have taken, the company that we have kept, and the decisions we have made. We have been taught to live with the false, the hypocrite,

deceitful and the liar. After all, that is what society expects from us. But who could live with our revolt, our afflictions and arguments against this type of living? Nevertheless, throughout time, there have always been people with love and insight, with a certain light and glow. These people have also helped us into seeing the goodness and expecting nothing less than the beauty, the reality of happiness, the abundance in creation. During the happenings in our roller-coaster life styles, our world and lives sometimes collapse, there comes the time when things come to a sudden stop, that is when we start listening to our inner selves and know that this is not life, this is not what we want or deserve, we want more happiness, kindness, more understanding and the hope of a better life and future. Having hit the pit, we start to crawl out, allowing what was our “initial task/mission” to take over, we allow ourselves to go into an inward journey, spiritual or “soul searching” journey. This is the beginning of our rebirth, the “recalling of a faint and distant memory (our mission - given to us when we came to the world, but lost sight of it at the same time that we lost our innocence)”; we start seeing the world through clear eyes, we appreciate the beauty that surrounds us and try to make the world a happier and better place. Yes, no doubt that rebirth is every new day, a new sunrise and sunset, a new situation, a new job, a new creation, a new journey or the healing of a disease/illness. REBIRTH is the acceptance and courage to change. REBIRTH is “Man, seeking within himself”, “To start anew”, finding the strength to fight for his beliefs, and not allowing failures to become a motto. It is only when we can truly admit to our imperfections, that we can begin our journey to PERFECTION. To all of you my friends, I believe this is REBIRTH. Claire da Silva, Writer Image: Oleksandr Goncharov


Dina Cr贸

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Dina Cr贸, Artista Pl谩stica / Fine Artist

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Diogo CorreiaPinto Os Clássicos não são uma seca! Algumas considerações... Do meu ponto de vista, existe uma certa carga pejorativa quando nos referimos a um texto clássico, sendo esse preconceito mais evidente no público jovem. A ideia de espaço de erudição de difícil acesso acaba por desmotivar a afluência de um público mais novo, habituado à ditadura da rapidez hedonista e da cultura previamente mastigada, descartável. Nos tempos vigentes, em que o entendimento do real dilui-se num zapping de imagens em catadupa, assistimos a uma profunda dificuldade por parte dos mais novos em concentrarem-se e evoluírem dentro da experiência. Mas até que ponto isso será o caminho certo? Como é que o Teatro, sendo uma vivência aprofundada daquilo que é humano, se movimenta nestas terras pantanosas? Nas escolas, os professores queixam-se cada vez mais da inércia dos alunos no que toca a pensar e, mais do que isso, no que toca a imaginar, a sair fora dos arquétipos televisivos. Sendo a arte dramática um espaço de aprofundamento da vida, de recriação do real através da construção de uma linguagem semiótica, de que forma lidar com os novos ventos do fast food? Provocar uma falsa catarse através do riso imediato, trocar o pensamento em favor do prazer fácil, tornou-se um dos sinais mais evidentes da nossa era. Como se consegue contrariar isso? Uma das maneiras será através de bons textos. Pelo menos, continuar essa luta permanente. A meu ver, um bom espectáculo não é aquele que procura avidamente a gargalhada , mas talvez o outro que nos seduz os sentidos e violenta-nos a inteligência, é semeado em nós, e vai florescendo pela vida fora de maneira inconsciente. Como se consegue contrariar a espuma dos dias? Reitero, uma das maneiras será através de bons textos. E os clássicos oferecem um manancial de oportunidades... Diogo Correia Pinto, Encenador

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O Avarento de Molière Ficha Artística| Isabel Rodrigues Miguel Ângelo Sobral Rúben Silva Carlos Vieira Fabião Santos Norberto Silva Ficha Técnica| Texto | Jean-Baptiste Poquelin, Molière Encenação| Diogo Correia Pinto Versão Cénica| Diogo Correia Pinto ( a partir da tradução de Alexandra Moreira da Silva) Desenho de Luz| Hélder Martins Figurinos e Cenografia| Cristina Loja Maquilhagem| Miguel Sobral Design Gráfico: DDiarte Sonoplastia: Diogo Correia Pinto Operação de Luz: Hélder Martins Montagem de Luz: Hélder Martins Frente de Casa e Bilheteira: Equipa TEF Fotografias: Tiago Sousa


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The Classics are not a bore! Some considerations ... From my point of view, there is a certain derogatoriness when one refers to a classic text, with this prejudice being more evident in young people. The idea of ​​a scholarly area, to which access is difficult, ultimately discourages the influx of a younger audience, accustomed to the dictatorship of hedonistic celerity and previously chewed, disposable culture. In current times, where the understanding the real is diluted in a zapping of flurry images, we witness a profound difficulty on the part of younger people to concentrate on and evolve within the experience. But, to what extent is this the right thing? How does Theatre, while a thorough experience of that which is human, move in these marshy lands? In schools, teachers increasingly complain of students’ inertia when it comes to thinking and, more than that, when it comes to imagining, going beyond television archetypes. Being drama a life enhancing space, where the real is recreated through semiotic language, how does one deal with the new winds of fast food? To bring about a false catharsis through immediate laughter, exchanging thought in favour of easy pleasure, has become one of the most obvious signs of our era. How can one counter this? One of the means is through good texts. At least, to continue this ongoing struggle. In my view, a good show is not the one that eagerly seeks laughter, but perhaps the one that seduces the senses and ravishes intelligence, that is sown in us, and will, in an unconscious manner, bloom throughout our lives. How can one counter the foam of days? I reiterate, one of the ways is through good texts. And the classics offer a wealth of opportunities...

The Miser by Moliere Cast | Isabel Rodrigues Miguel Ângelo Sobral Rúben Silva Carlos Vieira Fabião Santos Norberto Silva Technical Sheet | Text | Jean-Baptiste Poquelin, Molière Staging | Diogo Correia Pinto Stage Version | Diogo Correia Pinto (from Alexandra Moreira da Silva’s translation) Lighting Design | Hélder Martins Costume and Set Design | Cristina Loja Makeup | Miguel Sobral Graphic Design: DDiArte Sound Design: Diogo Pinto Correia Light Operation: Hélder Martins Light Fitting: Hélder Martins Front Office and Box Office: TEF Team Photographs: Tiago Sousa

Diogo Correia Pinto, Stage Director

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Duarte Encarnação


Duarte Encarnação, Artista Plástico / Fine Artist | www.arsreactiva.com


Eduardo Braganรงa

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Eduardo Braganรงa, Artista Plรกstico / Fine Artist | http://www.eduardobraganca.com

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Eduardo Freitas

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Eduardo Freitas, Artista Plรกstica / Fine Artist

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Emanuel Aguiar

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Emanuel Aguiar, Artista Plรกstico / Fine Artist http://emanuelpainting.blogspot.com

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Evelina Dumont

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Evelina Dumont, Artista Plรกstica / Fine Artist

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Jeroen Buitenman

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Jeroen Buitenman, Artista Plรกstico / Fine Artist | http://www.jeroenbuitenman.nl

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Jeroen Buitenman, Artista Plรกstico / Fine Artist | http://www.jeroenbuitenman.nl

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Jordão Freitas

A Lua do Meu País Não sei porque se esconde a lua nas noites de lua cheia. Será por medo ou vergonha da terra que prateia? Será porque as nuvens do futuro a matam em sua prata? Será que o seu reflexo de sol é apenas a tristeza que nos mata? Ó lua do meu país, sai das nuvens e brilha no céu do nosso desespero! Ó lua cheia de promessas, faz soprar uma nova maré e leva o Manel, a Silva do Zé ou outro que venha apenas por ver. Meiga Lua da nossa tristeza traz em teu rosto a esperança da Nação Portuguesa. Meiga lua do nosso fado mal fadado Ajuda o meu Portugal a não ser, outra vez, adiado! Jordão Freitas, Escritor Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011, http://patriaadiada.blogspot.pt/2011/01/lua-do-meu-pais. html, acedido em 16.12.2013. Imagem: Heart Magazine

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The Moon of my Country I do not know why the moon hides in nights of full moon. Is it for fear or shame of the land it silvers? Is it because the clouds of the future kill it in its silver? Is its reflection of the sun merely the sorrow that kills us? Oh moon of my country, come out of the clouds and shine in the sky of our despair! Oh full moon of promises, have a new tide blow and take Manel, Ze’s Silva or another who comes only to see. Sweet moon of our grief bring in your face the hope of the Portuguese Nation. Sweet moon of our ill-fated fado Help my Portugal not to be, once again, postponed! Jordão Freitas, Writer Thursday, January 20, 2011, http://patriaadiada.blogspot.pt/2011/01/lua-do-meu-pais.html, accessed on 16.12.2013. Image: Heart Magazine

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L.S.

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L.S., Pintor / Painter

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Lápis-Lazúli A Palavra é uma Borboleta

The Word is a Butterfly

A palavra pode voar espairecer por aí como uma ave solta e branca desprendida de sóis e ninguém dar por ela no silêncio das sombras da manhã A palavra se não bate asas oculta-se nos tectos mais antigos das casas e sopra imagens imperceptíveis num rosário de recordações que se esfuma nas tardes em sons inaudíveis   Se a palavra quisesse serenava-se no coração dos homens e petrificava-os para os atormentar em sonhos permanentemente iguais marcando-lhes a memória com os sinais dos dias desencontrados e sempre na penumbra da noite seguinte   A verdade é que a silhueta da palavra assusta a cidade mesmo quando apenas visita os telhados para lhes abençoar o sono   A palavra é como uma borboleta esplendorosa esquece que já foi larva embora hoje se aparente com uma rosa

The word can fly unwind around like a bird loose and white detached from suns with no one noticing it in the silence of the shadows of the morning If the word does not beat its wings it hides in the ceilings the oldest in homes and blows imperceptible images in a rosary of memories that vanishes in the afternoons in inaudible sounds If the word so wished it would stay itself in the hearts of men and petrify them for their torment in permanently equal dreams marking their memory with the signs of mismatched days and always in the twilight of the following night The truth is that the silhouette of the word scares the city even when only visits the rooftops to bless their sleep

José António Gonçalves, Poeta

The word is like a butterfly splendorous it forgets that it was once larva although today it resembles a rose José António Gonçalves, Poet

(in AS SOMBRAS NO ARVOREDO, Col. Pilar de Banger, nº1, 2004.) Imagem: Lápis-Lazúli

(in AS SOMBRAS NO ARVOREDO, Col. Pilar de Banger, no. 1, 2004.) Image: Lápis-Lazúli

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Laura Ornelas Menino Do Monte Menino do Monte, natural da ilha Que lá do alto tudo partilha Até que um dia alguém lhe tira a fotografia Num ato de brincadeira Naquela que seria a sua Padroeira. Freguesia de grande importância Pois tem-na como lembrança Da sua tenra infância Senhora do Monte, Rainha e Padroeira Dignai-vos abraçar a nossa Madeira. Naquela manhã triste e fria Acordei entre gritos de lágrimas de dor Não entendia tamanho sofrimento Só mais tarde percebi no festim da chegada A mágoa daquela triste e longa madrugada. Na ilusão da mocidade A foto da minha paixão Que tão cedo se tornou realidade Com o nascer dos filhos confortou-me o coração Que há tanto vivia na solidão. Seres do meu ser Beleza da minha paixão Riqueza do meu coração Razão da minha existência Disso tenho plena consciência Amores da minha vida Felicidade desmedida. O homem da minha vida Menino de curta infância Bem cedo se fez à vida Apoiando sua mãezinha Que d’amparo nada tinha.

Enfrentou a dura realidade Com as agruras da vida Lutou em silêncio pela sua vontade Seguiu com força e perseverança Num amanhã cheio de esperança. O teu silêncio perturbador Eu observava à distância Chorando a minha dor Que volvido tanto tempo Se revelou em amor. Menino de poucos recursos Cedo se faz à vida Sempre alegre e brincalhão Guardava um sonho no seu coração Usando a razão procurou uma profissão. De menino a mestre chegou Tornando-se capitão Na sua área de estimação. E assim passaram os anos Nem sempre de bonança Mas repletos de fé e esperança De juntos chegarmos a velhinhos Com o nascer dos nossos netinhos E já lá vão quarenta anos. Hoje presto esta homenagem De amor e carinho Ao meu homem/menino Que apesar da sua contradição Somos cúmplices da razão. Hoje, peço que continues sendo o homem fiel ao sim da nossa união Para que pelos caminhos da vida Vivamos somente do coração. Laura Ornelas, Escritora Imagem: Heart Magazine

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Child of Monte Child of Monte, born on the Island That from above shares all Until one day someone takes a picture of him In a playful manner In what would be his Patroness. Parish of great importance He has it as a souvenir From his early childhood Lady of Monte, Queen and Patroness Deign to embrace our Madeira. That sad and cold morning I awoke with cries of tears of pain I could not understand such suffering Only later did I realize in the feast of its arrival The sorrow of that sad and long dawn. In the illusion of youth The photo of my passion That soon became reality With the birth of the children comforted my heart Which for so long lived in solitude. Beings of my being Beauty of my passion Wealth of my heart Reason for my existence I am fully aware of that Loves of my life Unchecked happiness. The man of my life Child short of childhood Early took to life Supporting his mommy Who had no defence.

He faced harsh reality With the hardships of life Fought in silence by his will Persevered in strength In a hopeful tomorrow. Your disturbing silence I watched from a distance Crying my pain That so long after Revealed itself in love. Child of little resources Early took to life Always cheerful and playful Kept a dream in his heart Using his brains sought a profession. From boy to master he came Becoming a captain In the area of his choice. And so the years went by Not always of calm But full of faith and hope Of together reaching old age With the birth of our grandchildren And so forty years have passed. Today I pay this tribute Of love and affection To my man/child That despite his contradiction We are accomplices of reason. Today, I ask that you continue being a faithful man to the ‘I do’ of our union So that in the walks of life We live solely from the heart. Laura Ornelas, Writer Image: Heart Magazine


Letícia Barreto Estrangeiro em Mim Rilke já dizia que toda a obra de arte é boa, quando nasce por necessidade. O presente projeto de pesquisa surgiu, assim, por pura necessidade de sobrevivência emocional. Lembrando Merleau-Ponty, é como se houvesse na ocupação do artista. “uma urgência que ultrapassa qualquer outra urgência”, uma necessidade física de criar, de transformar, de forma positiva, os desafios do dia a dia (Ponty, 2009:17), ou, para empregar um conceito de Deleuze, usar a arte como forma de resistência. Emigrar é sempre um desafio. Além das dificuldades quotidianas de adaptação a uma nova realidade e cultura, da saudade dos amigos e da família, e dos obstáculos burocráticos durante o processo da legalização, existe ainda o desafio de manter a própria identidade, una e forte, mesmo perante confrontos e adversidades. “Arrancar-se à sua cultura tem um preço alto. Por isso, é tão importante ter a sua própria identidade bem vincada, sentir a sua força, o seu valor e a sua maturidade. Só assim o homem pode confrontar-se sem complexos, com uma outra cultura. Caso contrário, vai refugiar-se no seu esconderijo e desprender-se, com medo, dos Outros. A verdade é que o Outro é o espelho onde me revejo e onde me vêem; é um espelho que me desvenda e que me despe, algo que eu preferia evitar” (Kapuscinski, 2009:92) Mudar de país e cultura é quase um processo de renascimento, uma vez que temos que nos redescobrir nesse novo contexto. É inevitável começar a percorrer um caminho de autoconhecimento durante o percurso migratório. “O caminho é tanto mais importante quanto cada passo nos aproxima mais do Outro:” (Kapuscinski, 2009:15) Quando emigramos, levamos juntamente com nossa bagagem, uma mala extra, pesada mas invisível, recheada com o peso simbólico da nossa nacionalidade, da qual só nos damos conta quando cruzamos a fronteira do nosso país e passamos a confrontar a nossa visão de mundo com valores e formas de estar e viver diferentes das nossas. Emigrar implica lidar com conflitos inevitáveis entre culturas diferentes, o que inclui, também, enfrentar os estereótipos e os preconceitos nas percepções mútuas. Todos esses fatores afetam, de forma decisiva, a vida dos

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imigrantes na sociedade de acolhimento pois que, ao serem associados a esse imaginário deturpado, são frequentemente vítimas de preconceito, nomeadamente dentro do contexto laboral e nos relacionamentos interpessoais. Consumimos os estereótipos sem os questionar, como consumimos produtos de um supermercado. Tendemos a formatar as pessoas a uma embalagem mental onde as encaixamos, independentemente “do produto”. Assim, foi justamente a partir da reflexão sobre essas questões e da própria experiência como imigrante, que surgiu o desejo, ou porque não dizer, a necessidade, de refletir no meu próprio trabalho, questões como: a identidade fragmentada no contexto da diáspora; a frequente inadaptação a uma nova cultura, em contraposição à vontade de redescobrir a minha própria cultura; a invisibilidade social dos imigrantes; e os estereótipos interculturais. A associação inicial da burocracia com os carimbos utilizados para construir os desenhos foi inevitável. Ao longo da pesquisa, os carimbos demonstraram ser metáforas visuais ideais para a própria ideia do estereótipo. Busquei então, através da compreensão dos mecanismos que constroem e sustentam os estereótipos, encontrar as “armas” capazes de contribuir para a desconstrução dessa forma distorcida de analisar o outro. Uma vez que sabemos que o estereótipo é uma forma generalizante de descrever uma pessoa ou grupo social, não se baseando numa experiência real e direta, compreende-se que filtremos a realidade do outro através das nossas próprias “lentes culturais”, o que implica, muitas vezes, uma percepção onde se confunde realidade e ilusão. Partindo desta dicotomia, realidade e ilusão, procurouse questionar a capacidade de compreender e analisar o mundo à nossa volta, mostrar que nem tudo é o que parece à primeira vista. A série de auto-retratos realizada a partir da fotografia do meu passaporte, apresenta ao espectador uma dupla ilusão num discurso pictórico de tom enganosamente tradicional. As obras revelam os conceitos que construíram a imagem, produzindo ambiguidades, desmontando os mecanismos que usamos para construir a nossa realidade visual, questionando a nossa tendência natural de julgarmos os outros segundo conceitos pré-estabelecidos. Na relação imagem e texto, utilizada nos desenhos, o projeto lida, também, com a questão da identidade e de como a linguagem pode determinar uma identidade (ainda que não corresponda à realidade). E embora sendo auto-retrato, ultrapassa uma simples personificação para abarcar aspectos mais coletivos sobre a imigração e sobre nossa dificuldade em compreender e aceitar o outro. Letícia Barreto, Artista Plástica Tradução da Autora Imagens: Letícia Barreto www.leticiabarreto.com.br http://analebarreto.wix.com/leticiabarreto


The Stranger Inside Rilke once said that every work of art is good when it is born out of necessity. The present art project was created out of a need for emotional survival. As Merleau-Ponty stated “as if the painter´s calling there were some urgency above all other claims on him” (Ponty, 2009: 17), a physical need to create, to transform the challenges of everyday life in a positive way or, according to Deleuze, to use art as a form of resistance. Emigrating is always a challenge. It is not only the daily difficulties of adapting to a new reality and culture, the longing for friends and family, and the bureaucratic barriers inherent in the process of acquiring legal residency, but also the challenge of maintaining one’s own identity, united and strong, even in the face of opposition and adversity. “You pay a high price for breaking free of your culture. That is why it is so important to have your own distinct identity, and a sense of your own strength, worth and maturity. Only then can you confidently face a different culture. Otherwise, you will withdraw into your own hiding place and timorously cut yourself off from others. All the more so because the Other is a mirror into which you peer, or in which you are observed, a mirror that unmasks and denudes, which we would prefer to avoid.” (Kapuscinski, 2009:92) To change country and culture is almost a process of rebirth, since we have to rediscover ourselves in this new context. It is impossible to not start a path of self-knowledge during the migratory journey. “The path is more important as each step brings us closer to the Other” (Kapuscinski, 2009:15) When we emigrate, we carry along with us, an “extra suitcase” with our luggage, a heavy but invisible one, filled with the symbolic charge of our nationality. It is something we do not realize until we cross our borders and our world view is confronted by values and ways of being and living that are different from our own. To migrate is to deal with inevitable conflict between different cultures. It also means facing stereotypes and prejudices in mutual perceptions – stereotypes. All this has a profound impact on the lives of immigrants, where they are often the victims of prejudice, particularly in the workplace and in interpersonal relationships. We consume stereotypes without questioning them, just like we consume products from a supermarket. We tend to mentally cast people into a mold, a one-size-fits-all “package”, regardless of the actual “product”. These facts and my own experience as an immigrant led

me to a desire, or better, a need to have my work reflect on issues like fragmented identity in the context of the diaspora; the frequent feeling of not fitting into the new culture, and a simultaneous desire to rediscover my own culture; to explore the phenomenon of social invisibility of immigrants and cultural stereotypes. The initial association between bureaucracy and the stamps I used to build the drawings was inevitable. Throughout the research, the stamps proved to be the ideal visual metaphor to convey the idea of stereotype. I then have sought to understand the mechanisms that build and sustain stereotypes in order to find ‘weapons’ that could be used to deconstruct this distorted way of perceiving “the other”. Once we realize that a stereotype is a generalized way of describing a person or social group and not based on real and direct experience, we begin to understand that we filter the reality of others through our own cultural lens, which often implies a misperception in which the line between reality and illusion gets blurred. From this dichotomy between reality and illusion I have sought to examine our ability to understand and interpret the world around us, to show that not everything is as it seems at first sight. In the series of self-portraits made from my passport photograph, the viewer is confronted with a double illusion in a pictorial discourse that is deceptively conventional. Works have revealed the concepts underlying the image by creating ambiguities and dismantling the mechanisms we use to build our visual reality, by drawing an analogy to our natural tendency to judge others according pre-established notions. In the relationship between image and text that I have used in the drawings, the project also speaks to the question of identity and how language plays a role in defining an identity (even if that identity does not correspond to reality). And how a selfportrait can reach beyond being a simple embodiment to encompass the more collective aspects of immigration, and on our difficulty in understanding and accepting the other. Letícia Barreto, Fine Artist Translation by the Author Images: Letícia Barreto www.leticiabarreto.com.br http://analebarreto.wix.com/leticiabarreto


Luís Gonçalves

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Luís Gonçalves, Artista Plástico / Fine Artist

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Magda Nunes


Magda Nunes, Artista Plรกstica / Fine Artist


Magda Nunes, Artista Plรกstica / Fine Artist


Manuel Seita

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Manuel Seita, Artista Plรกstico / Fine Artist

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Maresia Varanda do cais1

Veranda of the quay1

Adeus varanda do cais Onde o meu bem embarcou Foram os olhos mais lindos Que as ondas do mar levou

Farewell veranda of the quay Where my loved one embarked It was the most beautiful eyes That the waves carried away

Dizes que vais embora Amor do meu coração Se tu vais é por teu gosto Por minha vontade não

You say you are leaving Love of my heart If you go it is of your will Not because of my liking

Refrão

Chorus If I embark out there From the bar I will wave to you Don’t set your eyes on another Cause I’m going but to return

S’eu embarcar p’ra fora Da barra te hei-de acenar Não ponhas os olhos noutra Que eu vou mas é p’ra voltar Eu subi aos altos montes Para te ver embarcar Meus olhos são duas fontes Deitam ribeiras ao mar Já lá vai pelo mar fora Quem seu coração me deu Deus lhe dê tanta fortuna Como as estrelas do céu

I climbed to the high hills Just to see you embark My eyes are two fountains Pouring streams to the sea There he goes far out at sea He who gave me his heart May God give him such fortune As the stars of the heavens

1 Quadras populares extraídas do livro Ilha da Madeira, de Eduardo António Pereira.

1 Popular quatrain poem taken from the book Ilha da Madeira, by Eduardo António Pereira.

Imagem: Heart Magazine

Imagem Heart Magazine


Mario Pedro Briosa Porto Santo Renascer

To Be Reborn

Renasço a cada dia A cada gesto A cada olhar Renasço nas madrugadas, Nos momentos que me dou E nos que me dedico a amar

I am reborn each day In every gesture In every gaze I am reborn at dawn, In moments in which I give myself And in those I dedicate to love

Renasço a cada amanhecer Nas alegrias Nas tristezas Renasço depois da desilusão No juntar dos pedaços Que refazem o coração

I am reborn each morning In the joys In the sorrows I am reborn after disappointment In the piecing together That recasts the heart

Renasço sempre que tiver de renascer Porque é assim que eu quero Porque me recuso a deixar-me morrer…

I am reborn whenever I have to be reborn Because that is how I want it to be Because I refuse to let myself die...

Liz

Liz

(http://cirandapoetica.wordpress.com/2010/01/24/ ciranda-poetica-renascer-vencedores/, acedido em 17.12.2013)

(http://cirandapoetica.wordpress.com/2010/01/24/ ciranda-poetica-renascer-vencedores/, accessed on 17.12.2013)


Mario Pedro Briosa, Fot贸grafo / Photographer


Miguel Ă‚ngelo Martins


Miguel Ă‚ngelo Martins, Artista PlĂĄstico / Fine Artist | www.miguelangelomartins.com


Nuno Rodrigues

Eu passo, ele passa A vida nรฃo pรกra Tal como nรณs ela passa Segundo atrรกs de segundo Nuno Rodrigues, Fotoรณgrafo


I go by, he goes by Life does not stop It goes by just as we do Second after second Nuno Rodrigues, Photographer


Oleksandr Goncharov

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Oleksandr Goncharov, Artista Plรกstico / Fine Artist

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Paulo Bessa Lóio

Beleza No meio da agitação da grande cidade, afixada numa paragem de autocarro, uma imagem a publicitar um perfume dominava as atenções de quem passava. Fascinado, exclamei em voz alta: – Que beleza! Um outro transeunte, que de mim distava uns curtos três passos, ao ouvir-me dizer isto, comenta: – De facto, uma beleza! Concordei com ele, mas logo reparei que não nos referíamos à mesma coisa. Enquanto eu olhava para uma figura humana de ostensiva sofisticação e sensualidade, o dito sujeito olhava embevecido para uma jovem sentada numa paragem de autocarro. A jovem aparentava andar pela casa dos vinte anos. Robusta sem ser obesa, de faces muito rosadas, tinha um aspeto muito saudável, porém pouco graciosa. As suas mãos eram fortes, quase masculinas, obviamente habituadas a trabalhos que exigem força e resistência. O olhar era sereno e transportava sonhos simples, alcançáveis. Estava imóvel, na pose de quem não tem nada a esconder, mas que também nada revela, pouco insinua, nunca sugere. A jovem contrastava assim, de forma diametralmente oposta, com a imagem afixada na paragem do autocarro.

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Muitas vezes me lembro deste episódio enquanto trabalho. O meu mundo são artefactos e instrumentos, técnicas e truques, em afinada sinfonia. A minha missão é construir beleza, aprimorá-la. E como conciliar esta prática com a subjetividade inerente ao conceito de beleza? Como equacionar a personalidade de cada indivíduo com os padrões de beleza que a sociedade sugere? ... por vezes impõe! Optei pela mensagem. Ao cortar um cabelo, colorir, descolorar, maquilhar um rosto... passar uma mensagem, escrever uma legenda. Comunicar é preciso, é urgente, é delicioso! Quanto às protagonistas da paragem de autocarro, também elas passavam mensagem, também elas tinham legenda. A imagem afixada na paragem diria sussurrante: – Sou a tua fantasia, a tua inquietação. Sou a beleza no teu ecrã! A jovem, por seu turno, afirmaria: – Sou a tua origem, o teu sustento, o ventre que gera. Sou o teu porto de abrigo. E também sou beleza! Paulo Bessa Lóio, Profissional de Beleza Imagem: © stock.xchng Edição: Heart Magazine


Beauty Amid the bustle of the big city, posted at a bus stop, an image to advertise a perfume caught the attention of passers-by. Fascinated, I exclaimed aloud: – What a beauty! Another passer-by, who stood a short three steps from me, upon hearing me say this, commented: – In fact, a beauty! I agreed with him, but soon noticed that we were not referring to the same thing. While I was looking at a human figure of overt sophistication and sensuality, the said subject stared enraptured at a young woman sitting at a bus stop. The young woman appeared to be around twenty years of age. Robust, without being obese, very rosy cheeks, she had a very healthy look, but a rather ungraceful one. Her hands were strong, almost masculine, obviously accustomed to chores that require strength and endurance. Her gaze was calm and carried simple, achievable dreams. She was still, in the pose of someone who has nothing to hide, but who also reveals nothing, implies little, suggests nothing. The young lady thus contrasted, in a diametrically opposite way, with the image posted at the bus stop. I remember this episode many times while at work. My world is made up of artefacts and tools, techniques and tricks, in tuned symphony. My mission is to construe beauty, enhance it. And how does one reconcile this practice with the subjectivity inherent to the concept of beauty? How does one equate the personality of each individual with the standards of beauty that society suggests?... sometimes imposes! I opted for the message. When cutting hair, colouring, discolouring, putting make up on a face... to pass a message, to write a caption. Communicating is necessary, it is urgent, it is delicious! As for the protagonists at the bus stop, they too passed a message, they too carried a caption. The image displayed at the stop would whisper: – I’m your fantasy, your uneasiness. I’m the beauty on your screen! The young lady, in turn, would state: – I’m your origin, your nourishment, the womb that generates. I’m your haven. And I’m also beauty! Paulo Bessa Lóio, Professional Hairdresser and Beautician Image: © stock.xchng Edition: Heart Magazine


Paulo Dami達o

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Paulo Damiรฃo, Artista Plรกstico / Fine Artist

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Paulo Damiรฃo, Artista Plรกstico / Fine Artist

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Paulo Sérgio Bejú

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Paulo Sérgio BEJu, Artista Plástico / Fine Artist

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Paulo Sérgio BEJu, Artista Plástico / Fine Artist

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Pedro André Sousa As perpendiculares de cada um «Tenho só duas datas: a de minha nascença e a de minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus…» Fernando Pessoa Nascer, viver e morrer. Somos uma linha, que todos desenhamos como se fossemos arquitetos, mas desta feita, para construir uma vida, para construir um caminho, mas mais importante, para construir um rumo. Nascer e morrer são apenas pontos. O princípio e o fim. São apenas dois pontos na imensidão que cada linha tem. Quando falamos assim, viver não passa de uma viagem, num caminho, com uma única direção. Mas não parece ser assim, pois não? Somos nós aqueles que controlamos o próprio destino, que desenhamos a nossa linha, porque não desenhar novos pontos? Porque não criar novas retas, novos caminhos. Todos nós já sentimos aquela sensação de que na vida tudo passa, mas na realidade nada se passa. Falta o entusiasmo, falta o brilho e faltam objetivos. Os dias e as noites não passam de sintomas de uma vida submetida à síndrome da repetição. Somos os mesmos na mesma vida. Nada nos apetece. Nada vale a pena. Parece o retrato da vida de muitas pessoas que conhecemos. Então porque não renascer? Renascer implica que algo morre. Algo precisa de ser deixado para trás. E é exatamente este o exercício que temos que fazer para voltarmos a nascer. Perceber o que é que, de nós, estamos dispostos a abdicar. Aqueles que

acreditam em renascer acreditam na possibilidade de um novo princípio. Mas, e a vida que acaba? Será que renascer é livre de consequências? Embora seja uma ideia sedutora, renascer implica sempre a morte de algo. E ninguém pode voltar à vida sem antes passar uns momentos no inferno. São esses momentos que vão definir quem é forte para recomeçar, e quem não o é. Todos conhecemos pessoas que renasceram. Hoje em dia, mais do que nunca. A família que vai para outro país. O amigo estudado que procura uma oportunidade. O novo negócio que abre. Todos conhecemos pessoas que procuram um novo começo. Todos eles abandonam as suas vidas. Põem um ponto final àquilo que sempre conheceram, à espera de uma nova esperança. Todos eles morrem, e nascem. É uma linha perpendicular àquela linha reta e chata. Derek Walcott diz que a «linha reta é a distância mais chata entre dois pontos». Tem ele muita razão. Para aqueles que procuram uma nova vida, cada minuto é deliciosamente curto, cada nova aprendizagem é uma nova pincelada. Cada nova experiência é uma peça que se encaixa no projeto de cada um. Por isso, vamos parar de perder tempo. Não deixes nada por fazer. Descansa muito. Diverte-te ainda mais. Tira o relógio, desliga o computador, guarda o telemóvel. Caminha, sente a vida à tua volta. Existem sítios por explorar. Pessoas por conhecer. Viaja. Aprende e ensina. Apaixona-te. Beija. Ama. Nasce, vive, renasce e morre. Deixa a tua marca no mundo. Pedro André Sousa, Escritor

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The perpendiculars of each one of us « I have only two dates: that of my birth and my death. In between, all days are mine...» Fernando Pessoa To be born, to live and to die. We are a line, which everyone draws as if they were architects, but in this sense, to build a life, to build a road, but more importantly, to build a course. Birth and death are just points. The beginning and the end. They are just two points in the immensity of each line. When we speak like this, to live is but a journey, a path, with a single direction. But it does not seem to be so, does it? We are the ones who control our own destiny, who draw our line, so why not draw new points? Why not create new lines, new walks. We have all had that feeling that everything in life goes by, but that, in reality, nothing happens. There is lack of enthusiasm, lack of glimmer and lack of goals. Days and nights are merely symptoms of a life submitted to the syndrome of repetition. We are the same in the same lifetime. We desire nothing. Nothing is worthwhile. It seems to be the life picture of many people we know. So why not be reborn? To be reborn implies that something dies. Something needs to be left behind. And it is exactly this, the exercise we need to carry out to be reborn. To understand that which, of ourselves, we are prepared to abdicate of. Those who believe in rebirth believe in the possibility of a new

beginning. But, what about the life that ends? Is being reborn free of consequences? Although it is a seductive idea, to be reborn always involves the death of something. And no one can come back to life without first spending a few moments in hell. It is these moments that will define who is strong to begin over again, and who is not. We all know people who have been reborn. Today, more than ever before. The family who goes to another country. The learned friend who seeks an opportunity. The new business that opens. We all know people who seek a new beginning. All of them leave their lives behind. Put an end to that which they have always known, awaiting new hope. They all die and are born. It is a perpendicular line to that straight and boring line. Derek Walcott states that “a straight line is the most boring distance between two points”. He is so right. For those seeking a new life, every minute is delightfully short, each new thing learned is a new paint stroke. Each new experience is a piece that fits into the project of each one of us. So, let us stop wasting time. Do not leave anything undone. Rest a lot. Enjoy yourself even more. Strip off your watch, turn off the computer, put the cell phone away. Walk, feel life around you. There are places to explore. People to meet. Travel. Learn and teach. Fall in love. Kiss. Love. Be born, live, be reborn and die. Leave your mark on the world. Pedro André Sousa, Writer

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Ricardo Da Silva

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Ricardo da Silva, Pintor / Painter | www.ricardodasilva.pt

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Ricardo Jorge

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Ricardo jorge, Artista Plรกstico / Fine Artist

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RĂşben Freitas

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RĂşben Freitas, Artista PlĂĄstico /Fine Artist http://artistarubenfreitas.wix.com/pinturapot.com

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Rui Correia DRAC

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Rui Correia DRAC, Restaurador / Restorer

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Star Shine

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Star Shine, Artista Plรกstica / Fine Artist

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Teresa Madruga Waldorf

A Menina da Espiral Era uma vez uma menina que vivia num reino onde a luz ficava muito, muito longe. Tão longe que tudo era escuro. Neste lugar viviam dragões, sereias, reis e rainhas que nunca se tinham visto. Seres sem sombra eram sopros enevoados que procuravam, incessantemente, a intimidade que se liga ao pormenor e, permite ser. Aqui tudo era e não se via. Aqui todos se escutavam numa cor parada e fria. Aqui a menina vivia uma tristeza esquecida, pois guardava fundo um desejo. E foi numa noite que podia ser dia, que a menina fechou os olhos e cansada adormeceu com o toque que o seu coração lhe pedia. Logo entrou num sonho claro, como um anjo feito da luz do sol, que lhe segredava devagarinho. - Sei que vives num mundo escuro. - Sei que sabes que existem corações feitos de todas as cores. - Sei que terás de subir a montanha mais íngreme e procurar o caminho de tantos caminhos todos às escuras. Para isso, terás de usar ainda mais, todo o teu coração, pois ele te levará ao sol. A menina acordou com todo o seu corpo apalpando braços e pernas no escuro de sempre, mas notou que o seu coração lhe crescia. O sol existia! Sem medo começou a andar com a luz do seu sonho.

Sem medo começou a subir, a subir com os passos do seu coração invisível, que a protegiam no contorno de pedras gigantes, animais de sons assustadores e tempestades de chuva e vento muito frios. Sem medo encontrou o caminho de tantos caminhos, como se estivesse dentro de uma nuvem secreta. A menina, que guardava o desejo de ver o céu, as estrelas, a lua, o sol, olhou em frente e viu, do pico da montanha, a luz que nunca vira e que todos os dias nascia. Unindo as mãos, fixou um pouco daquela luz que queria e guardou-a com cuidado para a descida. Agora na montanha agreste apareciam-lhe estrelas, pequeninas e grandes que a seguiam. A menina via! Chegando ao seu reino, menina, estrelas e sol dividiam-se por tudo e todos que ficavam cheios com a sua luz. Agora o sonho da menina tinha-se concretizado e via-se. Todos conseguiam ver com a luz com os olhos e com o coração. Agora todos conseguiam ver tanto, como tão profundamente. Ensino pela Arte. Educação Waldorf Ilha da Madeira. Teresa Madruga, Escritora Imagem: Heart Magazine


The Girl of the Spiral There was once a girl who lived in a kingdom where light was far, far away. So far that everything was dark. In this place lived dragons, mermaids, kings and queens who had never seen one another. Beings without a shadow were misty wisps incessantly seeking that intimacy that binds to detail and allows one to be. Here everything was and could not be seen. Here everyone listened to the others in a cold frozen colour. Here the girl lived a forgotten sorrow, for deep inside she kept a wish. And it was during a night that could be day, that the girl closed her eyes and, tired, fell asleep at the touch requested by her heart. Soon she came into a clear dream, like an angel made of sunshine, who softly whispered to her. – I know you live in a dark world. – I know you know that there are hearts made of all colours. – I know you have to climb the steepest mountain and seek the path out of many paths all in the dark. For that, you will have to use all of your heart, even more, as it will take you to the sun. The girl woke up with the whole of her ​body, groping arms and legs in the usual darkness, but noted that her heart grew. The sun existed!

Fearless, she began to walk with the light of her dream. Fearless, she began to climb, to climb with the footsteps of her invisible heart, which protected her at the contour of gigantic stones, from scary sounds and animals and from rain storms and very cold wind. Fearless, she found the way out of so many ways, as if she were inside a secret cloud. The girl, who had the desire to see the sky, the stars, the moon, the sun, looked ahead and saw, from the peak of the mountain, the light she had never seen before and which was there at the break of every day. Joining her hands, she gathered a little of that light she wanted and preserved it carefully for the descent. Now, on the rugged mountain, tiny and large stars appeared and followed her. The girl could see! Arriving at her kingdom, the girl, the stars and the sun were entered everywhere and everyone was filled with its light. Now the little girl’s dream had come true and everyone could see. All could see with the light, their eyes and their heart. Now everyone could see so much as well as so deeply. Education through Art. Waldorf Education Madeira Island. Teresa Madruga, Writer Image: Heart Magazine


Teresa Melo

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Teresa Melo, Artista Plรกstica / Fine Artist

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Virgílio Jesus Cinema – O Renascimento das Artes Demorou algum tempo até que surgisse a Arte que se destaca pelas sequências de imagens em movimento, nomeadamente, o cinema, sendo que este artigo pretende elucidar o quanto esta arte não foi mais do que um renascimento de todas as outras existentes até então. Neste sentido, a 28 de dezembro de 1895, no Salon Indien do Grand Café, em Paris, nasceria oficialmente o cinema. Tal aconteceu devido à apresentação de dez curtas-metragens, realizadas por Auguste e Loius Lumière, que traduziam o dia-a-dia dos cidadãos (cada uma com duração de aproximadamente 55 segundos). A partir de então, foram inúmeros os pensadores que teorizaram sobre o cinema. Para os próprios irmãos Lumière, esta era uma arte “sem futuro”, mas para outros, como Thomas Edison, esta poderia ser uma nova forma de espetáculo e de lucro. Mas o que interessa realmente é o facto de que, ao falar de cinema, seja imposto, indiretamente, o debate sobre outras artes. O cinema oficializa-se nos finais do século XIX. Contudo, eram necessárias ainda duas décadas para que muitos o considerassem como arte. Só em 1923, a publicação de “Manifeste des Sept Arts” de Ricciotto Canudo – teórico e crítico de cinema italiano – garantia o cinema enquanto a Sétima Arte. Portanto, como era visto até então? Como uma diferente forma de fotografia, teatro ou pintura? Imagens em movimento são fotografias. Esse foi o conceito desenvolvido por Edweard Muybridge e Étienne Marey, que procuraram estudar a locomoção dos animais em sequências de fotografias com o propósito de criar movimento. Todavia, o cinema é também teatro, porque possibilitou o renascimento desta arte. Tal como num palco, existem atores e os específicos movimentos que um determinado corpo cénico acarreta. Exemplo disso foram

as películas de George Méliès. Este ilusionista tentou integrar elementos fantasiosos, como dragões ou alienígenas no teatro, porém impossibilitado de fazê-lo, direcionou-se para o cinema, com as suas mágicas montagens fílmicas. Assim, é perfeitamente lógica a razão do cinema estar interligado com a fotografia e com o teatro. Mas e a pintura? O surrealismo dos filmes de Luis Buñuel como “Un chien andalou”, o futurismo presente em “The man with a movie camera”, de Serguei Eisenstein ou os conhecidos filmes fantásticos como “Nosferatu: eine Symphonie des Grauens” são exemplo de que a pintura é também renascimento do cinema, mesmo que muito abstratas sejam as peças, houve toda uma dinâmica que influenciou a criação de obras-primas e clássicos intemporais cinematográficos. Portanto, o cinema é tudo isto e muito mais. Cinema é a paixão que molda a vida de cinéfilos. Por outro lado, é uma fonte de fácil entretenimento. Seja positiva ou negativa a conotação do termo ‘espetáculo’, verificamos que o cinema foi a arte que dinamizou a cultura mundial. Aos encenadores foi possibilitada uma nova forma de gerar efeitos especiais, sem pôr de parte uma interpretação cuidada dos atores. Os fotógrafos, desejosos de ver as suas fotografias em movimento, viram o cinema como o cumprimento dessa vontade e os pintores tiveram oportunidade de assistir ao surgimento do cinema ‘expressionista’, ‘surrealista’ e ‘futurista’, presente nos anos vinte no cinema russo e alemão. Em suma, da próxima vez que for a uma sala de cinema, sinta como se estivesse na primeira visualização de imagens em movimento e a partir daí perceberá que o cinema não é apenas divertimento, é a arte renascida em todos os seus sentidos, é uma fonte perfeita de transmissão da realidade tal e qual a conhecemos. Virgílio Jesus, Escritor Imagem: Heart Magazine

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Cinema – The Revival of the Arts It took some time before the art that is known for its sequences of motion pictures, namely cinema, emerged, and this article aims to show how this art was no more than a revival of all other existing art forms hitherto. Thus, on December 28, 1895, at the Salon Indien of the Grand Café, in Paris, cinema would officially make its appearance. This happened due to the presentation of ten short-films directed ​​by Auguste and Loius Lumière, which reflected the day-to-day lives of citizens (each lasting approximately 55 seconds). Since then, numerous thinkers have theorized on cinema. For the Lumière brothers themselves, this was an art “with no future”, but for others, like Thomas Edison, this could be a new form of spectacle and profit. But what really matters is the fact that, in speaking of cinema, the debate on other arts is indirectly imposed. Cinema becomes official by the late nineteenth century. However, two more decades were still needed for many to consider it as an art. Only in 1923, would the publication of “Manifest des Sept Arts” by Ricciotto Straw – Italian cinema theorist and critic – guarantee film the status of Seventh Art. Therefore, how was it seen until then? As a different form of photography, theatre or painting? Moving images are photographs. This was the concept developed by Muybridge Edweard and Etienne Marey, who attempted to study the locomotion of animals in photograph sequences in order to create movement. However, cinema is also theatre because it allowed for the revival of this art. As on a stage, there are actors and specific movements that a particular scenic framework requires. An example of this is George Méliès’s films. This illusionist tried to integrate fantasy elements like dragons or aliens in theatre but, unable to do so, turned to cinema, with his magical filmic montages. Thus, there is a perfectly logical

reason for film to be linked with photography and theatre. But what about painting? The surrealism of Luis Buñuel’s films as “Un Chien Andalou”, the futurism in Sergei Eisenstein’s “The man with the movie camera”, or the well-known fantastic films like “Nosferatu: eine Symphonie des Grauens” are examples that painting is also the rebirth of cinema, even if the works are very abstract, there was a whole dynamic that influenced the creation of cinematic masterpieces and timeless classics. Therefore, film is all of this and much more. Cinema is a passion that shapes the lives of cinephiles. On the other hand, it is an easy source of entertainment. Whether positive or negative the connotation of the term ‘spectacle’, we verify that cinema was the art that boosted world culture. Directors were enabled to generate special effects in new ways, without setting aside a careful interpretation on behalf the actors. Photographers, eager to see their photos on the go, saw film as the fulfilment of this desire and painters had the opportunity to see the emergence of ‘Expressionist’, ‘Surreal’ and ‘Futuristic’ cinema, present during the twenties in Russian and German cinema. In short, next time you go to a movie theatre, feel like you are witnessing the first screenplay of moving images and thereafter you will realize that cinema is not only fun; it is art reborn in all its senses; it is a perfect source for the transmission of reality as we know it. Virgílio Jesus, Writer Image: Heart Magazine

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Walkingframe

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Walkingframe, Loja / Store | www.walkingframe.pt

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Wolfgang Lass

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Wolfgang Lass, Artista Plรกstico / Fine Artist

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Alexandre Carvalho, Pintor / Painter | http://alexanderoak.blogspot.com

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Heart Magazine No.4  

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