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Revista

Keyboard ANO 4 :: 2017 :: nº 46 ::

:: Seu canal de comunicação com a boa música!

A EDUCAÇÃO REGULAR E A MÚSICA: Muitas possibilidades de atuação profissional para os músicos

KORG KROME: Fábio Ribeiro apresenta sua impressão pessoal

BOMBOU NA INTERNET! Thiago Rosário, criador da página Pobre Tecladista

LANÇAMENTO! Diogo Monzo lança tributo a Luiz Eça

Débora Halász Talento brasileiro tipo exportação

Brasil

www.keyboard.art.br


Editorial

Heloísa Godoy Fagundes - Publisher

Música e espírito! Salve músicos e apreciadores da música, essa arte que faz parte da nossa vida, desde antes mesmo de nascer porque somos capazes de recordar melodias escutadas dentro do ventre materno, as canções da nossa infância e aquelas que nos acompanham durante as distintas etapas de nossa vida. É certo, então que a música faz parte do nosso caminhar. E está dentro e fora de nós mesmos. Ainda que se trate de uma experiência pessoal - cada um a sente e percebe de uma maneira completamente distinta - é comprovado que todas as 04 / Revista Keyboard Brasil

manifestações musicais do mundo tem a mesma base emocional que é percebida por qualquer pessoa, de qualquer país, de qualquer cultura. E, assim, buscamos os sons. Necessitamos nos contagiar com essa harmonia, essa perfeita combinação de sons e silêncios porque somos seres musicais. Por isso convido você, leitor, a se deixar contagiar por mais uma edição da Revista Keyboard Brasil, a começar pela matéria de capa com a impressionante pianista brasileira Débora Halász, que atualmente faz parte do time de talentos da Virtuosi Produções. Partindo para o mais novo trabalho de Diogo Monzo, o tributo ao grande pianista Luiz Eça. Fique por dentro, também, da agenda musical deste mês com a Sinfionetta Paulista. Sobre tecnologia em instrumentos musicais, este mês o renomado músico Fábio Ribeiro apresenta sua visão sobre o Korg Krome. Nesta edição, nossos colaboradores também trazem matérias sobre o mercado cerimonial e a importância multifuncional do profissional na Educação regular, além da importância de se aprender um instrumento musical. Nomes como John McLaughlin, os brasileiros Lulu Martin, Wemerson de Souza Melo 'Pequeno' e Thiago Rosário completam a Revista Keyboard Brasil número 46, que ainda conta com a dica técnica de Amyr Cantusio Jr, trazendo a música Enjoy the Silence, da banda Depeche Mode. A todos desejo uma excelente leitura e, não esqueçam: cliquem, curtam, compartilhem e façam seus comentários, porque somente assim podemos melhorar o que fazemos com paixão. Isso tudo é para vocês! Fiquem com Deus e que a música possa contagiar a vida de todos!


Expediente Capa: Divulgação

Maio / 2017

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Revista Keyboard Brasil é uma publicação mensal digital gratuita da Keyboard Editora Musical. Diretor: maestro Marcelo D. Fagundes Publisher: Heloísa C. Godoy Fagundes Capa: Divulgação Caricaturas: André Luiz Marketing e Publicidade: Keyboard Editora Musical Correspondências /Envio de material: Rua Rangel Pestana, 1044 - centro - Jundiaí / S.P. CEP: 13.201-000 Central de Atendimento da Revista Keyboard Brasil: contato@keyboard.art.br Anuncie na Revista Keyboard Brasil: contato@keyboard.art.br Colaboradores da Revista Keyboard Brasil: Mateus Schanoski / maestro Osvaldo Colarusso Amyr Cantusio Jr. / Murilo Muraah Luiz Carlos Rigo Uhlik / Daniel Baaran Joêzer Mendonça / Marina Ribeiro Hamilton de Oliveira / Patrícia Santos / Rafael Sanit Sergio Ferraz / Bruno de Freitas / Adriano Grineberg Antonio Carlos da Fonseca Barbosa As matérias desta edição podem ser utilizadas em outras mídias ou veículos desde que citada a fonte. Matérias assinadas não expressam obrigatoriamente a opinião da Keyboard Editora Musical.

Revista Keyboard Brasil / 05


Espaço do Leitor Aparecemos na queridíssima Revista Keyboard. É uma honra! Daniel A. Neves — via Facebook Topppp! Sou fã! Revista Keyboard Brasil, sempre trazendo matérias e conteúdos de altíssima qualidade! Peterson Cardoso — via Facebook Show de bola a nova edição (número 45)! Rogerio Utrila— via Facebook Quanta matéria bonita, Helô (Editora)! Quanta informação importante para nós, que adoramos as teclas! Cada edição, um avanço, passos seguros, matérias sensacionais! Luiz Carlos Rigo Uhlik— via Facebook Fantástica e merecida matéria. Muito bem escrita. (Referente à matéria sobre o livro "TROPICÁLIA – UMCALDEIRÃO CULTURAL'' de Getúlio Marc Corg, edição de setembro de 2017, número 38. Luiz Moraes — via Blog

I read your blog that's very nice. Thank you for posting this! (Referente à matéria ''O ZEN E O KRAUT ROCK'', edição de abril de 2018, número 45, escrita por Amyr Cantusio Jr.) Ram Chauhan— via Blog

06 / Revista Keyboard Brasil

Sou fã desse grande músico que é o Radamés! Ouço muito a Ivete ao vivo pelo som fantástico que ele tira das teclas!!! André Luís Viana — via Facebook Radamés Venâncio na capa da Revista Keyboard Brasil: Top Parceiros !! Max Rodrigues — via Facebook Parabéns Helô Editora Keyboard Brasil pela nova edição! Zé Osório — via Facebook Que show!! (Referente à matéria sobre a Stay Music da edição número 45, escrito por Rafael Sanit). Vandaluz Junior — via Facebook Legal a matéria do Bruno de Freitas sobre 'A importância do investimento material e intelectual do músico tecladista'!! A tecnologia não para, parabéns! Carlos Alberto Cawahisa Cawahisa — via Facebook É com muito orgulho que compartilho meu artigo desse mês da Editora Keyboard. Desta vez falando sobre a Banda da Feira, a qual faço parte como sanfoneiro. Acessem, curtam, compartilhem! Hamilton de Oliveira— via Facebook Banda da Feira!! Esses são dos bons !!! José Freire — via Facebook


Índice

08 MATÉRIA DE CAPA: Débora Halász - por Heloísa Godoy

36 MUSICANDO: Wemerson de Souza Melo ’Pequeno’ - por Rafael Sanit

PAPO DE TECLADISTA: A importância multifuncional do profissional da música na educação regular - por Bruno de Freitas

OUTROS SONS: John McLaughlin - parte 1 - por Sergio Ferraz

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40 DICA TÉCNICA: Enjoy the Silence - por Amyr Cantusio Jr.

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TECNOLOGIA: Korg Krome por Fabio Ribeiro

LANÇAMENTO: Diogo Monzo e seuTributo à Luiz Eça - Redação

32 ENFOQUE: Mercado cerimonial musical - por Hamilton de Oliveira

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PERFIL: Lulu Martin por Heloísa Godoy

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VITRINE: BOMBOU NA INTERNET: CD Alma Brasileira de Thiago Rosário Débora Halász - por por Rafael Sanit Osvaldo Colarusso

76 A VISTA DO MEU PONTO:

Música, agora! - por Luiz Carlos Uhlik

80 POR DENTRO: Sinfonietta Paulista - Redação

Revista Keyboard Brasil / 07


Foto: Divulgação

Matéria de Capa

Débora Halász

Talento brasileiro tipo exportação VENCEDORA DE INÚMEROS PRÊMIOS, DENTRE ELES, O TROFÉU APCA E O GRAMMY LATINO, DÉBORA HALÁSZ, PIANISTA BRASILEIRA RADICADA NA ALEMANHA HÁ QUASE 30 ANOS, ESTÁ ENTRE AS PRINCIPAIS PIANISTAS LATINO-AMERICANAS DA ATUALIDADE. A REVISTA KEYBOARD BRASIL TRAZ, ALÉM DA MATÉRIA, UMA ENTREVISTA EXCLUSIVA!

*Por Heloísa Godoy

08 / Revista Keyboard Brasil


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E n q u a n t o o u t ra s c r i a n ç a s brincavam na rua ou meus amigos mais tarde aproveitavam as férias viajando, eu passava este tempo estudando piano, me preparando para concursos ou concertos. É como se ao lado do mundo "normal" eu coexistisse em um mundo aonde os sons musicais e o convívio com meu instrumento produzissem outras emoções, dessem outras asas aos pensamentos, estimulassem outras ideias, imagens, me fizessem companhia, me dessem conforto, soluções ou n o v a s p e r g u n t a s .

– Débora Halász

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Débora é uma soberba virtuosa possuidora de uma técnica prodigiosa.

– American Record Guide

D

ébora Halász , pianista e cravista, começou a estudar piano aos 6 anos de idade. Aos 10

anos, ganhou seu primeiro concurso e entrou para a Academia Magdalena Tagliaferro. Elogiada por Ingrid Haebler como “um dos talentos mais promissores do mundo pianístico”, estudou no Brasil com Beatriz Balzi e Myrian Daueslberg. Conquistou vários concursos nacionais, como o Sul América e o Chopin. Aos 15 anos, fez sua estreia nos palcos junto à Osesp - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo após vencer o concurso de Jovens Solistas. Aos 19 anos, recebeu da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) o prêmio de melhor solista do ano com o concerto para piano n.º 3 de Rachmaninoff. Após fazer bacharelado em Direito na Universidade de São Paulo (USP), a pianista ganhou uma bolsa do DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdients (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) para se aperfeiçoar na Musikhochschule de Colônia com Pavel Gililov. Ao longo de sua carreira, a artista tem se apresentado em festivais e séries de

concertos por diversos países da Europa, Estados Unidos, Ásia e, também, na América Latina. Radicada na Alemanha há quase 30 anos, Débora Halász é docente na Hochschule für Musik und Theater de Munique. Em sua discografia, estão obras de vários compositores, como Alberto Ginastera, Dimitri Schostakovich, Hans Werner Henze, Carlos-Seixas e outros. A pianista também gravou 4 cds com a obra completa de Villa-Lobos para piano e este trabalho foi aclamado pela imprensa internacional como “a melhor interpretação de Villa-Lobos já realizada em disco” (Fanfare – EUA). Para o American Record Guide: “impossível imaginar uma advogada mais poderosa para esta música. Seu brilhante pianismo dá vida a todas as notas”. Desde 1993, forma com o marido, o alemão Franz Halász, um duo de violão e piano, o Duo Halász. Em 2015, o Duo recebeu o Latin Grammy na categoria de Melhor Álbum de Música Clássica pelo cd “Alma Brasileira”, dedicado à obra de Radamés Gnattali. Atualmente Débora Halász faz parte do time de talentos da ¹Virtuosi Produções Artísticas.

¹VIRTUOSI PRODUÇÕES – Situada em Belo Horizonte, é uma das principais agências de produção cultural do Brasil com ampla atuação no país e no exterior. 10 / Revista Keyboard Brasil


Duo Halász Criado em 1993, o Duo

Halász – formado pela pianista brasileira Débora Halász e pelo violonista alemão nascido nos EUA, Franz Halász – é reconhecido internacionalmente pela qualidade de suas interpretações e originalidade de seus programas.

Revista Keyboard Brasil / 11


Entrevista Revista Keyboard Brasil – O que significa a música para você? Débora Halász – A música, desde a minha infância, sempre foi parte da minha vida. Eu diria que ela praticamente determinou o andamento das coisas porque, desde cedo, eu me acostumei a dedicar um tempo significante a ela. Enquanto outras crianças brincavam na rua ou meus amigos, mais tarde, aproveitavam as férias viajando, eu passava este tempo estudando piano, me preparando para concursos ou concertos. É como se ao lado do mundo "normal" eu coexistisse em um mundo aonde os sons musicais e o convívio com meu instrumento produzissem outras emoções, dessem outras asas aos pensamentos, estimulassem outras ideias, imagens, me fizessem companhia, me dessem conforto, soluções ou novas perguntas. E tantos anos viajando neste universo musical, sobretudo tendo a sorte de tocar um instrumento aonde o repertório é desta riqueza e dimensão inesgotáveis faz com que eu não saiba, talvez, me definir sem considerar a música que habita dentro em mim. Naturalmente, existem inúmeras outras coisas que me fascinam na vida, no planeta e no convívio com outros seres e eu poderia imaginar, sem grandes problemas, uma vida sem o exercício da música como profissão, mas ela continuaria pulsando dentro das minhas células e influenciando minha consciência. 12 / Revista Keyboard Brasil

Revista Keyboard Brasil – Fale um pouco sobre a música em sua família. Soubemos que sua avó tocava piano. Então, como foi sua infância nesse sentido? Débora Halász – Meus avós paternos eram húngaros. Meu avô tocava violino e minha avó piano, mas como hobby. Chegaram a tocar em cinema mudo no início de vida aqui no Brasil para ganhar algum dinheiro. Meu avô materno era músico profissional mas ele faleceu antes de eu nascer. Com minha avó, a que tocava piano, eu tive uma convivência forte e ela me ensinava músicas populares húngaras no piano e vários chorinhos. Ela tocava os Choros de Zequinha de Abreu e Ernesto Nazaré de forma extraordinária. Eu esquecia do tempo ali. Ela tocava e eu repetia. Aprendia muitas coisas de ouvido porque das músicas húngaras ela não tinha partituras. Eu tinha sete, oito anos e tinha um repertório enorme de chorinhos por causa dela. Ela também tocava acordeom, cantava, dançava. Talvez tenha sido importante experimentar a música assim na infância desta forma tão prazerosa e alegre. Revista Keyboard Brasil – Quais suas lembranças musicais mais antigas? O que se ouvia? Débora Halász – São as aulas de piano que minha irmã recebia. Eu tinha uns três ou quatro anos e ficava ouvindo e olhando as aulas pela fresta da porta. Também tínhamos uma vitrola grande, um móvel, e muitos discos bem antigos, eram uns discos duros que existiam antes do vinil. Tinham umas gravações fantásticas ali


como a obra de Chopin, os concertos com orquestra, também os concertos de Mendelssohn e Tchaikowsky para violino... Eu acho que meus avós tinham trazido grande parte da Europa. Ouvir aqueles discos era algo especial. Revista Keyboard Brasil – Quem são seus compositores preferidos? Débora Halász – Ter preferências significaria, de alguma forma, exclusão. Existem tantos compositores geniais, desde a Renascença, não haveria razão para dar preferência a alguns. Eu me deixo seduzir tanto pelos compositores conhecidos como pelos menos conhecidos e também pelos totalmente desconhecidos. Isto torna o trabalho muito mais excitante. O interessante é o envolvimento com a linguagem musical em si. Talvez eu tenha uma admiração especial por Brahms e Mahler, da forma como os mais profundos sentimentos encontram sua sublimação perfeita dentro daquele desenvolvimento harmônico. E existe a admiração também por Rachmaninov e Scriabin, pela forma como conseguiram explorar, de maneira brilhante, as possibilidades do piano moderno. Revista Keyboard Brasil – Certa vez você disse que ''O Brasil precisa aprender que música clássica é produto de exportação''. O Brasil é um celeiro de excelentes músicos e muitos fazem carreira fora do país, justamente porque aqui não há o espaço necessário, não se dá o valor necessário para que possam viver do seu trabalho. Na sua opinião, o que seria

fundamental para reverter esse quadro? Débora Halász – Bem, acho que o primeiro passo para se reverter qualquer quadro é tomar consciência dele. As pessoas sempre falam das riquezas naturais do Brasil, mas ninguém fala da riqueza humana. O problema crucial do Brasil é a educação, ou melhor, a falta de investimento na educação. Existe um apoio desproporcional às artes populares, de resultados rápidos e votos fáceis... Todas as outras expressões de cultura mais elaborada, a música erudita, literatura, artes plásticas, dança, teatro, etc... são negligenciadas. Não existe um planejamento nas verbas públicas que garantam continuidade à produção e à educação artística. E, justamente são através destas artes que um país é identificado e se torna respeitado. Na educação pública, é necessário dar a oportunidade a todos os cidadãos para descobrirem e desenvolverem seus talentos. E, naturalmente de poderem trabalhar com isto. É isto que torna um país rico!! Revista Keyboard Brasil – De todos os prêmios que você ganhou, qual você considera o mais importante? Débora Halász –Todos foram importantes, uma recompensa pelo trabalho feito e motivação para os próximos. O prêmio Eldorado talvez tenha me dado, naquele momento, as melhores chances porque logo depois eu recebi a bolsa do DAAD para me aperfeiçoar na Alemanha, mas naturalmente o mais significativo foi o Latin Grammy por ter sido uma escolha Revista Keyboard Brasil / 13


14 / Revista Keyboard Brasil


Em 2015, o Duo Halász recebeu o Latin Grammy na categoria de Melhor Álbum de Música Clássica pelo cd “Alma Brasileira”, dedicado à obra de Radamés Gnattali. Revista Keyboard Brasil / 15


entre todos os artistas e regravações realizadas mundo afora e muito poucos solistas até hoje terem ganho o prêmio. Revista Keyboard Brasil – Você também é formada em Direito pela USP mesmo tendo a música como companheira desde a infância. Chegou a exercer essa profissão também? Fale sobre isso. Débora Halász – Eu me decidi, ainda na escola, que seria importante ter uma outra profissão, justamente porque considerava, na época que eu era jovem, a carreira de músico muito incerta e arriscada no Brasil. O Direito foi uma escolha sem paixão, uma Faculdade que não me custava muito tempo nem esforço mas foi um ambiente muito estimulante intelectualmente, não pelos estudos, mas pelos colegas que conheci ali, por todas as discussões políticas, filosóficas, literárias... Eu fiz alguns estágios durante a Faculdade e fiz até o exame da OAB mas não cheguei a exercer a profissão porque logo depois de formada me foram apresentaram perpectivas de seguir com a música no exterior. Revista Keyboard Brasil – Até bem pouco tempo, a obra de Radamés Gnattali não era muito conhecida, mas hoje vários músicos têm apresentado ao mundo a sua obra, como o Quarteto Gnattali e os pianistas Luís Rabello e Hércules Gomes. Como você conheceu? Débora Halász – Eu realmente não conhecia praticamente nada do Gnattali quando vivia no Brasil. Conhecia o nome 16 / Revista Keyboard Brasil

Debora Halász: Um dos talentos mais promissores do mundo pianístico aqui demons trados em sua discografia.


mas existia um certo preconceito no ar. Uma certa desvalorização. Eu realmente me surpreendi com a qualidade da obra quando ouvi Gnattali tocado pelo pianista canadense Marc Andre Hamelin. Aí comecei a buscar as partituras, o que é bastante complicado de conseguir, sobretudo fora do Brasil porque não estão editadas, e com isto surgiu a ideia do disco, Alma Brasileira, ganhador do Grammy Latino. Revista Keyboard Brasil – A série de discos dedicada a Villa-Lobos (18871959) recebeu excelentes críticas (o trabalho foi considerado pela revista americana Fanfare "a melhor interpretação de Villa-Lobos já realizada em disco"). Como surgiu a ideia para realizar esse trabalho? Débora Halász – Eu tinha me preparado para gravar um disco de Villa-Lobos, que acabou sendo o primeiro da série mas quando cheguei na Suécia para gravação, o chefe da Bis Records não me deixou muita escolha e me convenceu a ampliar o projeto a um número muito maior de discos. Foi fantástico este envolvimento com a obra de Villa-Lobos. Ele era um compositor genial e muito criativo! Nunca se torna repetitivo. Revista Keyboard Brasil – Fale sobre o Duo Halász, que fundou em 1993 com o seu marido, o violonista Franz Halász. Débora Halász – Nós nos conhecemos e casamos em 1991, ainda estudantes, mas logo veio a ideia de fazermos um trabalho juntos. Começamos a pesquisar o que

havia de repertório e a nos apresentar juntos. Gravamos nosso primeiro disco em 1994. O Franz é um violonista maravilhoso e com grande sonoridade. Apesar do piano moderno ser muito mais potente, eu não sinto diferença quando toco com ele ou com um instrumento de corda. E como tudo no casamento deu certo, o Duo musical também continuou.... Revista Keyboard Brasil – Você também formou um quinteto (violão, piano, violino, contrabaixo e bandoneon) com músicos de Munique, da formação de tango. O que pode nos falar sobre isso? Débora Halász – Este Quinteto surgiu através de um concerto que eu organizei na Faculdade em homenagem a Piazzolla. Nós tocamos no final do programa na formação que Piazzolla utilizava. Foi um sucesso espantoso. E nós nos entendemos tão bem que resolvemos levar a ideia adiante. Todos vivem em Munique apesar de ninguém ser daqui e todos são músicos excelentes com a ambição de fazer um trabalho de alta qualidade. Uma formação assim de câmara, quando todos buscam o ideal da perfeição e deixam seu temperamento fluir é um acontecimento único. Revista Keyboard Brasil – Como é sua rotina de estudos? Pratica todos os dias? Débora Halász – Eu não tenho tempo para praticar todos os dias porque também leciono e viajo muito e também porque na minha vida a única rotina é passear com meu cachorro. Com o tempo a gente também aperfeiçoa a forma de Revista Keyboard Brasil / 17


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Através de um concerto organizado por Débora em homenagem a Piazzolla, nasceu o Quinteto (violão, piano, violino, contrabaixo e bandoneon) com músicos de Munique, da formação de tango. Revista Keyboard Brasil / 19


estudar e as horas diárias da juventude se tornam desnecessárias. É um estudo muito mais efetivo. Revista Keyboard Brasil – Continue a frase: "A música tem o poder de..." Débora Halász – transcender a insignificância da existência humana. Revista Keyboard Brasil – O foco da Revista Keyboard Brasil é o mundo das teclas, pioneira no mercado digital brasileiro. Poderia nos dar sua opinião a respeito de nosso trabalho? Débora Halász – Toda a iniciativa de divulgação cultural é digna de reconhecimento, ainda mais com todas as dificuldades que o país apresenta neste sentido. Vocês estão de parabéns por realizar um trabalho assim sério e profissional. Revista Keyboard Brasil – Projetos futuros? Débora Halász – Projetos demais! O problema é dar conta. Estamos no andamento do nosso primeiro CD com o Quinteto, com obras de Piazzolla e com o Duo queremos reunir composições novas e exclusivas de compositores brasileiros e latino-americanos para nossa próxima turnê. Quero me dedicar também à gravação da obra para piano solo de Frank Martin. E comecei a compor! Gostaria de poder dedicar mais tempo à isto.

* Heloísa Godoy é pesquisadora, ghost writer e esportista. Está há 20 anos no mercado musical através da Keyboard Editora e, há 10 no mercado de revistas, tendo trabalhado na extinta Revista Weril. Atualmente é publisher e uma das idealizadoras da Revista Keyboard Brasil - publicação digital pioneira no Brasil e gratuita voltada à música e aos instrumentos de teclas. 20 / Revista Keyboard Brasil


Lançamento

Diogo Monzo

A P R E S E N T A TRIBUTO AO PIANISTA LUIZ EÇA

MAIS UMA VEZ E, EM GRANDE ESTILO, DIOGO MONZO APRESENTA SEU MAIS RECENTE TRABALHO, DESSA VEZ EM HOMENAGEM A LUIZ EÇA, PIANISTA, ARRANJADOR, COMPOSITOR, PROFESSOR E LÍDER DE UM DOS MAIS CRIATIVOS CONJUNTOS VOCAIS E INSTRUMENTAIS DA MÚSICA BRASILEIRA, O TAMBA TRIO, CONSIDERADO UM DOS MAIORES MÚSICOS BRASILEIROS DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX E, TALVEZ, O MÚSICO MAIS INFLUENTE DE SUA GERAÇÃO. * Redação 22 / Revista Keyboard Brasil


O

jovem músico e compositor reconhecido internacionalmente

Diogo Monzo lança seu terceiro CD “Luiz Eça por Diogo Monzo”, tributo ao

Foto: Igor Gripp

pianista e compositor brasileiro Luiz Eça considerado por muitos como o “Músico dos Músicos”. Na noite do dia 30 de maio, no Clube do Choro, na cidade de Brasília, Diogo Monzo fará estreia nacional deste cd lançado pelo selo Fina Flor. Participam, na formação do trio, dois grandes músicos: Di Steffano (bateria) e Bruno Rejan (contrabaixo). Este show de lançamento nacional conta com a luxuosa participação da grande cantora Leny Andrade, considerada pela crítica nacional e internacional como ícone e lenda viva da música brasileira. Diogo Monzo, Di Steffano, Bruno Rejan e a convidada especial Leny Andrade estarão a espera do público para uma grande noite de homenagens.

SERVIÇO: Clube do choro Setor de Divulgação Cultural, Bloco G Eixo Monumental, Brasília, Distrito Federal. (61) 3224-0599 http://www.clubedochoro.com.br/ Revista Keyboard Brasil / 23


24 / Revista Keyboard Brasil


Revista Keyboard Brasil / 25


L

uiz Eça (1936 – 1992), filho de mãe

referência no piano, deixando um legado

francesa e pai português, deu

importante para a música brasileira,

início aos seus estudos de piano aos cinco anos de idade e, em seguida,

registrado nos seus 29 discos, entre gravações com o Tamba Trio. Com uma

começou a estudar teoria musical. Entre

forma peculiar de compreender a música,

1957 e 1958, estudou no Conservatório de

consolidou-se como arranjador, autor de

Música de Viena, na Áustria, sendo con-

trilhas sonoras para teatro, cinema e

temporâneo e amigo de Martha

televisão, além de lançar trabalhos solos. Argerich e, tendo como mestres, os Como orquestrador contribuiu professores Hans Graff e Frederich Gulda. com arranjos para os discos da carreira de Ao voltar ao Maysa, Milton NasciBrasil, estudou mento, Nara Leão, LUIZ EÇA NÃO FOI APENAS com os professores: Gonzaguinha e vários UM DOS MAIORES MÚSICOS Zina Stern (russa), outros artistas que m a d a m e Pe t r u s BRASILEIROS DA SEGUNDA fazem parte da antoVerdier (que foi METADE DO SÉCULO XX. logia musical do país. amiga de Debussy), Sua música P I A N I S TA , A R R A N J A D O R , Jacques Klein, “The Dolphin”, H o m e r o M a g a - COMPOSITOR, PROFESSOR gravada pelo pianista lhães, Lucia Branco E LÍDER DE UM DOS MAIS a m e r i c a n o B i l l e Heitor Alimonda. Evans no álbum C R I AT I V O S C O N J U N T O S Sua carreira “From Left to Right,” VOCAIS E INSTRUMENTAIS na música popular em 1970, deu-lhe teve início em 1953, DA MÚSICA BRASILEIRA, O destaque internacom apenas 17 TAMBA TRIO, ELE TALVEZ c i o n a l . E m 2 0 0 4 , anos, quando coMichel Legrand TENHA SIDO O MÚSICO MAIS meçou a atuar gravou o álbum INFLUENTE DE SUA GERAÇÃO. como pianista de “Michel Legrand – casas noturnas e Luiz Eça”no Brasil. bailes de formatura no Rio de Janeiro. Em Muitos se surpreenderam ao 1955, aos 19 anos, lançou seu primeiro LP: amanhecer do dia 25 de maio de 1992, ”Uma Noite no Plaza”. quando os meios de comunicação anunFrequentemente apontado como ciavam que, às 21 horas do dia 24 de maio um dos mais importantes pianistas da de um domingo iluminado por luzes música popular brasileira, seu trabalho – outonais, partira Luiz Eça, o Luizinho, reconhecido no Brasil e no exterior – grande personalidade brasileira, apagancompreende a formação do Tamba Trio do as luzes e a voz dos pianos de todos os em 1962. bares cariocas. Desde então, seu estilo tornou-se 26 / Revista Keyboard Brasil


Tecnologia

Foto: Divulgação

Com passagens por bandas lendárias como A Chave Do Sol, Violeta de Outono, Angra e Shaman, Fabio Ribeiro atualmente vive uma nova fase com a sua banda Remove Silence.

28 / Revista Keyboard Brasil


KORG KROME Por

COM UMA CARREIRA SÓLIDA DESDE A DÉCADA DE 80, O MÚSICO FABIO RIBEIRO - REFERÊNCIA BRASILEIRA EM TECLADOS NO HEAVY METAL, SINTETIZADORES E NOVAS TECNOLOGIAS, NOS APRESENTA SUA IMPRESSÃO PESSOAL, COM EXCLUSIVIDADE, SOBRE O KORG KROME.

* Por Fábio Ribeiro or mais que eu esteja absolutamente antenado nas mais recentes conquistas da tecnologia e suas novas e variadas formas de geração e execução de sons, tenho consciência de que o piano ainda é o melhor instrumento para compor música. Melhor ainda se o instrumento estiver acompanhado de um bom sistema de gravação. Todavia, o piano é um dos instrumentos mais orgânicos e responsivos, um tipo de

som que, quando simulado através de dispositivos digitais, raramente satisfaz os pianistas que estão acostumados com a coisa real. Geralmente, as melhores simulações estão presentes apenas nas linhas mais caras de teclados multi-funcionais, ou somente em instrumentos digitais dedicados e menos flexíveis. O Krome apresenta sons de piano derivados do inigualável Workstation Korg Kronos, com todas as nuanças e Revista Keyboard Brasil / 29


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É muito fácil programar sons, combinar timbres para performances ao vivo e administrar o sequenciador. – Fabio Ribeiro

detalhes, um exemplo único para um teclado multi-funcional nesta faixa de preço. O sistema de gravação também está presente através de um poderoso sequenciador, o que torna o Krome excelente para composição, arranjo e produção, preservando ainda a facilidade de uso. Para mim, além do som e da flexibilidade, um dos principais atrativos em Workstations Korg desde os primórdios do M1 é a interface de usuário, representada aqui por uma intuitiva tela sensível ao toque. É muito fácil programar sons, combinar timbres para performances ao vivo e administrar o sequenciador. Isto é muito importante para

nós sintesistas - a rápida resposta do instrumento em relação às nossas ideias musicais. E, além de ser um instrumento elegante, de tamanho e peso amistosos, o Krome possui uma excelente presença de palco! * Fabio Ribeiro - produtor musical, compositor e tecladista. Formado em piano erudito, integrou algumas bandas como: Annubis, Desequilíbrios, A Chave do Sol, Clavion, Overdose e Shaman. Ingressou como tecladista na primeira formação da banda Angra, realizando os primeiros concertos de sua história. Após um tempo, iniciou seus trabalhos como Consultor de Tecnologia Musical, trabalhando com empresas como Korg, Kawai e Clavia (Nord). Em 1999, retornou para a banda Angra para a turnê do álbum Fireworks. Atualmente, é tecladista da banda REMOVE SILENCE, com a qual foi indicado ao Grammy USA e está gravando o quinto trabalho a ser lançado ainda este ano. É um dos Artistas KORG no Brasil. Através da produtora Addictive Wave, produz bandas e trabalhos multimídia. 30 / Revista Keyboard Brasil


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Foto: Arquivo pessoal

Enfoque

MERCADO CERIMONIAL MUSICAL: busca pela excelência 32 / Revista Keyboard Brasil


ESSE MÊS, O ASSUNTO É DISCIPLINA E VALORIZAÇÃO DO TRABALHO DO MÚSICO NO MERCADO DE CASAMENTOS NO BRASIL. UM DOS SETORES QUE M A I S M O V I M E N TA A ECONOMIA DO PAÍS.

* Por Hamilton de Oliveira

S

Casamento de Débora e Dú Robertoni: Recordações preciosas de uma cerimônia regada à boa música.

gundo Friedrich Nietzsche, sem a música, a vida seria um erro. Essa frase caberia no

mercado musical de cerimônias

atualmente? Talvez o grande filósofo alemão teria repensado esse texto, caso ele vivesse no Brasil do século XXl, ao se deparar com músicas sendo executadas sem o devido profissionalismo e respeito merecido nas cerimônias matrimoniais. De acordo com Instituto Data Popular e a Associação Brasileira de Eventos Sociais (ABRAFESTA), o mercado de casamentos no Brasil cresce em torno de 10,4%, sendo considerado assim, um dos setores que mais movimenta a economia brasileira, mesmo em época de crise. No entanto, esse mercado tem atraído empresas de música que não estão preparadas para vender um produto de qualidade, no que se refere à execução musical, organização, logística de produção, entre outros fatores que fazem desse nicho um dos mais complexos do setor. Em muitos

casos, é possível perceber o erro “gritante” Revista Keyboard Brasil / 33


Foto: Vivi Arts

como por exemplo o uso de playbacks mal feitos, dublagem na execução, músicos mal preparados tecnicamente para tocar um repertório exclusivo escolhido pelos noivos. Infelizmente a busca, na maioria das vezes pelo menor preço, faz com que os noivos não se atentem ao fato de que podem simplesmente estragar um ato cerimonial cuidadosamente planejado, por contratar empresas que não levam seu trabalho a sério. Por outro lado, é possível reconhecer, com méritos, a visão com que várias empresas idôneas, tratam a música e as pessoas com o devido respeito, e mantém um profissionalismo eficiente e eficaz no seu trabalho. Grupos desse nível seguem uma rotina séria e exemplar, como ensaios regulares, arranjos exclusivos para cada cerimônia, contratação de músicos de qualidade, cachês compatíveis com o mercado de trabalho altamente exigente. Uma dica que dou aos músicos que atuam nessa área é que se dediquem ao máximo, façam o seu melhor, procurem se organizar nos afazeres e estudem sempre. Além disso, mantenham a disciplina

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e evitem tocar por qualquer valor, pois só assim a classe musical será valorizada.

‘ ‘

encontrado dentro desses grupos,

Músicos! Mantenham a disciplina e evitem tocar por qualquer valor, pois só assim a classe musical será valorizada.

– Hamilton de Oliveira

Por outro lado, aos que buscam contratam alguém, é aconselhável observar se a empresa é conhecida no mercado, visitar pessoalmente o contratante em seu escritório e solicitar referências de outros casais que já o tenham contratado. Somado a isso, evitem barganhar o preço, pois quase sempre o barato sai caro.

Parafraseando Nietzsche, a cerimônia com boa música seria um sonho, se todos os grupos levassem seu trabalho a sério. Até breve.

* Hamilton de Oliveira estudou MPB/Jazz no Conservatório de Tatuí. Formou-se em Licenciatura em Música pela UNISO e Pós-graduou-se pelo SENAC em Docência no Ensino Superior. É maestro, tecladista, pianista, acordeonista, arranjador, produtor musical, professor e colaborador da Revista Keyboard Brasil. 34 / Revista Keyboard Brasil


Musicando

Wemerson

de Souza Melo DO FORRÓ AO GOSPEL, CONHEÇA WEMERSON SOUZA MELO, O “PEQUENO”. T E C L A D I S TA , ACORDEONISTA, PRODUTOR MUSICAL, ARRANJADOR E ENDORSEE DA CASIO.

Foto: Randes Filho

* Por Rafael Sanit

36 / Revista Keyboard Brasil


Revista Keyboard Brasil / 37


e a cantora Pequeno

endonça

Marília M

Pequeno e se

u setup

M

ais conhecido como “Pequeno” ou abreviado PQNO,

Wemerson de Souza

Melo é tecladista, acordeonista, produtor musical e arranjador. Natural de Barreiras, na Bahia e apaixonado pela música, aos 15 anos ganhou seu primeiro teclado, um CASIO CTK520. Um ano depois começou sua trajetória na música. Primeiro integrou a banda dos amigos de seu bairro, sempre estudando, não parou mais. Foi aluno na escola Arte Maior onde teve aulas com a pianista Kátia. “Pequeno” já morou em vários Estados, tocando em várias bandas no anonimato, passando pelos estilos Baile, Forró, Sertanejo, Axé, MPB e Gospel.

Morando em Goiânia, Goiás, e com 34 anos, “Pequeno” já fez parte da banda da dupla Carlos e Jader, da banda do cantor Cristiano Araújo, e atualmente é tecladista da banda da cantora Marília Mendonça uma das mais famosas no segmento sertanejo da atualidade, fazendo shows por todo o Brasil e exterior, gravando DVDs e apresentando-se nos mais renomados programas da TV brasileira. Paralelo ao trabalho de tecladista, o músico produz diversos artistas em seu home estúdio; faz parte do grupo de endorsee da marca de teclado CASIO no Brasil tendo em seu setup o teclado MZX500 e um piano digital Prívia PX-5S, sempre agradecendo a Deus por tudo de abençoado em sua trajetória de vida.

* Rafael Sanit é tecladista, Dj e produtor musical. Demonstrador de produtos Roland e Stay Music, realiza treinamentos para consultores de lojas através de workshops e mantém uma coluna na Revista Keyboard Brasil. É endorsee das marcas Roland, Stay Music, Mac Cabos, First Audio e Jones Jeans. 38 / Revista Keyboard Brasil


Dica Técnica

DEPECHE MODE ENJOy THE SILENCE ESTE MÊS, A DICA TÉCNICA É COM O SINGLE MAIS POPULAR DA BANDA DEPECHE MODE ATÉ A ATUALIDADE. MESMO MAIS DE DUAS DÉCADAS APÓS SEU LANÇAMENTO, ENJOY THE SILENCE CONTINUA A SER UM DOS TEMAS FAVORITOS DOS FÃS, COM PRESENÇA OBRIGATÓRIA EM TODOS OS CONCERTOS. * Por Amyr Cantusio Jr.

E

sta música virou um clássico. Pegajosa, simples, mas muito bonita. Enjoy the Silence é o 24º single da banda britânica

Depeche Mode, lançado em 16 de Janeiro de

Amyr Cantusio Jr. é músico premiado no exterior e colaborador da Revista Keyboard Brasil.

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1990, pela editora Mute Records. A canção foi escrita por Martin Gore e foi o segundo single do álbum Violator. O single foi relançado em 2004, numa versão remixada por Mike Shinoda, com o título “Enjoy the Silence 04”. A canção ganhou o prêmio de “Melhor Single Britânico” no Brit Awards de 1991. Inicialmente planejado como uma balada calma, com o próprio Gore na voz. Durante a gravação do álbum Violator, Alan Wilder, então ainda membro da banda, sugeriu a reestruturação do tema


musical e a inclusão de uma linha de baixo marcada. O grupo gostou das ideias e a canção final acabou por ser interpretada por David Gahan. Após o lançamento, “Enjoy the Silence”, tornou-se o single mais popular da banda até então. Mesmo mais de duas décadas após seu lançamento, continua a ser um dos temas favoritos dos fãs, com presença obrigatória em todos os concertos. O vídeoclipe da versão original foi realizado por Anton Corbijn e filmado em diversos países europeus como Portugal, Espanha e Suíça. Nele, existe uma alternância de imagens da banda, com cenas que mostram o vocalista David Gahan disfarçado de rei com uma cadeira desdobrável debaixo do braço. O p e r s o n a g e m p a s s e i a p o r d i ve r s a s paisagens, em busca do silêncio, incluindo as planícies do Alentejo e praias do Algarve, até encontrar a paz num cenário montanhoso, coberto de neve. Aqui no vídeo tutorial da página 42 (Youtube/Piano) é exata a combinação de acordes. Você pode criar arranjos a partir desta harmonia básica/baixos, mão esquerda simples e tríades na mão direita. Eu toco assim também. Só que com arranjos mais complexos. Divirta-se !!

*Amyr Cantusio Jr. é músico (piano, teclados e sintetizadores) compositor, produtor, arranjador, programador de sintetizadores, teósofo, psicanalista ambiental, historiador de música formado pela extensão universitária da Unicamp e colaborador d a R e v i s t a K e y b o a r d B r a s i l .

Depeche Mode é uma banda de música eletrônica inglesa formada em 1980. Seus atuais integrantes são: Andy Fletcher, Martin Gore e Dave Gahan. Revista Keyboard Brasil / 41


DEPECHE MODE (ENJOY THE SILENCE) Transcrição: Marcelo Fagundes

* Solicite o arranjo completo por email: contato@keyboard.art.br 42 / Revista Keyboard Brasil


Perfil

‘ ‘

seja um sucesso para você mesmo! 44 / Revista Keyboard Brasil

Luísa Splett


CONHEÇA A TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DO CARIOCA LULU MARTIN - RESPEITADO MÚSICO QUE GENTILMENTE NOS CONCEDEU UMA ENTREVISTA EXCLUSIVA! *Por Heloísa Godoy

ulu Martin é professor, escritor, pianista e tecladista carioca renomado. Seu pai Hugo Lima – autor das canções "Você não sabe amar" e "Rua deserta", ambas em parceria com Dorival Caymmi e Carlos Guinle – amante da música de Jazz e pianista amador, ao aposentarse da carreira militar decidiu mudar-se com a família para os Estados Unidos da América. Nas terras do Tio Sam, Lulu recebeu formação musical na Berklee College of Music, renomada escola de música popular e Jazz situada em Boston, EUA. Após alguns anos, Lulu retornou ao Brasil e começou sua vida profissional deparando-se com um mundo totalmente novo e desconhecido para ele: a Música Popular Brasileira. Por trazer o Jazz na bagagem, seu trabalho tornou-se diferenciado

e, assim, Lulu passou a ser requisitado como músico acompanhante em shows, projetos musicais e gravações de discos de inúmeros artistas nacionais da MPB como: Luís Melodia, Raul de Barros, Márcio Montarroyos, Ed Motta, Lulu Santos, Joanna, Tim Maia, Moreira da Silva, Ney Matogrosso, Ângela Roro, Otávio Bonfá, Leo Gandelman, Rio Jazz Orchestra e tantos outros. Na década de 1980, ao lado de Paulinho Soledade (guitarra), Arthur Maia (baixo), Idriss Boudrioua (sax), Don Harrys (trompete), Cláudio Infante (bateria) e Julio Gamarra (percussão), integrou o grupo Garage, com o qual se apresentou em vários espaços cariocas, participou do Festival de Jazz de Brasília e dos eventos paralelos do I Festival de Montreux de São Paulo. O grupo foi premiado Revista Keyboard Brasil / 45


pela Sociedade Brasileira de Jazz, na categoria Melhor Banda. Ainda na década de 1980, juntamente com Leoni, Jorge Shy e Alfredo Dias Gomes, fez parte do conjunto de rock Heróis da Resistência, com o qual gravou os LPs "Heróis da Resistência" (1987) e "Religio" (1988). Compositor de trilhas musicais para produções de audiovisual, coordenador e professor do projeto Painéis Funarte de Música, Lulu já escreveu canções para crianças. Também foi o criador de fonogramas publicitários no 46 / Revista Keyboard Brasil

Studio Nova Onda, imagem e som Ltda e criador de fonogramas musicais para a editora Song Birdtracks. Autor do livro O Som dos Acordes – exercícios para piano de Jazz – também disponível na versão e-book, é um condensado do conhecimento musical adquirido ao longo da vida profissional do brilhante músico e publicado pela editora carioca Gryphus. Leia, a seguir, uma entrevista exclusiva com o músico.


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ENTREVISTA... Revista Keyboard Brasil – Primeiramente, muito obrigada por aceitar nosso convite. Lulu Martin – Eu que agradeço muito o convite. Acho que publicações como a revista Keyboard Brasil tem muito valor cultural num país como o nosso Brasil, que é muito necessitado de informações sobre cultura, artes e música em geral. Ainda somos um país que é muito intuitivo, que não valoriza muito a técnica construtiva, que acha que um pouco de talento natural é suficiente para ser alguém no campo das artes e ofícios em geral. Sou totalmente a favor da transmissão do conhecimento, e isso, a revista faz, transmite conhecimento para o público que deseja conhecer mais uma parte do nosso mundo da música popular brasileira. Revista Keyboard Brasil – Quando e por que a música entrou em sua vida? Lulu Martin – Entrei no mundo da música quando criança, escutando as novidades musicais tocadas nas rádios. Depois, através dos discos que os meus primos tinham, dos discos que os amigos apresentavam. Comecei escutando os discos de jazz e clássicos do meu pai e, assim, comecei a me interessar mais por sons complexos. Cada grupo de amigos tinha suas coleções e gostos específicos e, assim, fui tendo acesso à diversidade da música. Numa linha do tempo seria assim: sucessos da rádio, rock clássico, rock progressivo, os clássicos do jazz, 48 / Revista Keyboard Brasil

clássicos, o jazz contemporâneo, a música popular no geral. Nos Estados Unidos, conheci mais jazz de uma modernidade mais atual. Conheci muitas vertentes do jazz na época da escola de música, dos


Fotos: Arquivo pessoal

clássicos aos contemporâneos. Entre o clássico e o jazz tinha a linha third stream, que significa uma sonoridade entre os dois, uma terceira corrente musical, como essas trilhas sonoras maravilhosas de

muitos filmes. Revista Keyboard Brasil – Quais suas lembranças mais antigas sobre música em seu ambiente familiar? Lulu Martin – Meu pai tocava piano popular e tinha discos. Gostava de escutálo tocar. Minha mãe cantava algumas canções com ele, principalmente as canções do Dorival Caymmi. Ele fez algumas parcerias com o Dorival. Só tem duas registradas mas acho que deveria ter mais porque reconheço algo dele em algumas dessas canções. Registrada só tinha uma que se chama “Você Não Sabe Amar”, e depois sei que o Danilo Caymmi disse que “Nesta Rua” era dele também. Tenho uma gravação dos dois cantando esta canção, voz e piano. Meu pai era amigo do milionário Carlos Guinle, que era amante de jazz e que era o terceiro parceiro destas canções. Meu pai fez carreira militar, desde muito novo. Depois conseguiu, através de um concurso da Marinha do Brasil, uma bolsa para estudar no MIT, em Boston. Foi engenheiro mecânico por formação e na hierarquia militar terminou como almirante. Revista Keyboard Brasil – Como foi essa mudança para os EUA? E sua rotina de estudos ao ingressar na Berklee College of Music? Lulu Martin – Depois de se aposentar da marinha, meu pai resolveu morar em Boston de novo. Resolveu levar minha mãe e seus 5 filhos, e fomos. Eles tinham morado lá antes e até meu irmão mais Revista Keyboard Brasil / 49


velho nasceu lá. Eu fui feito lá, mas nasci aqui no Rio de Janeiro. Entrei no colégio comum da cidade o Wesllesley Senior High School. Fiz 2 anos e me formei. Entrei na aula de teoria musical, mas o professor mandou eu tocar piano e perguntou se eu sabia o que estava tocando. Como eu disse que sim, ele me mandou praticar sozinho nas salas acústicas que tinham piano. Ele disse que eu não aprenderia nada na aula dele. Hoje, acho que fui mal avaliado. Mas entrei numa banda marcial da escola, aquelas que tocavam nos desfiles de colégio. Nessa época, conheci a Berklee porque o guitarrista Ricardo Silveira, que era meu conhecido do Rio, tinha ido estudar lá. Depois, conheci o baterista Gustavo Nabuco que também estava estudando lá. Mais tarde, foi a vez do pianista Rique Pantoja aparecer. E, assim, fui conhecendo a escola e outros brasileiros que foram estudar por lá. Na escola você tinha 5 matérias para estudar no período. O primeiro ano era básico. Eu sinto que fui mal avaliado também na escola. Quando fui tocar para um professor ele me pediu para ler uma música e depois trocar as mãos, ou seja, ler o que estava escrito para a esquerda com a mão direita. Era uma melodia de alguma canção simples com cifras. Assim, não peguei aula de leitura. Fazia estas 5 matérias, mais a sexta que era aula de instrumento. Fiz o primeiro período com o pianista Jeff Covell, que ainda ensina lá. E, depois, fiz 3 períodos com o Dean Earl, que havia tocado com o saxofonista Charlie Parker, inventor do estilo bebop, 50 / Revista Keyboard Brasil

uma vertente do jazz. Eu era novo e solteiro. O clima da cidade era muito frio e a adaptação era difícil porque te obrigava a ficar dentro dos lugares, só se passeava mais ao ar livre durante os verões. Então eu ficava mais estudando escalas no piano. Nunca fui um aluno muito organizado. A escola dava muita ênfase em arranjo. A tradição dos arranjos eram as big bands de jazz. Acabei me interessando mais naturalmente pelo que eu já sabia melhor: acordes, escalas e improvisação. A escola era maravilhosa, o ambiente no todo era muito rico culturalmente falando. Na cidade haviam muitos músicos maravilhosos e professores fora de série mesmo. A cidade tem grandes universidades, e todas devem ter escolas de música e artes em geral. Eu nunca tive talento para música clássica, tinha problemas de entendimento das peças e de memorização delas. Quando criança, eu tinha muita dificuldade de memorizar as fórmulas matemáticas e, assim, na hora da prova ficava tentando imaginar uma solução para resolver algum problema. Depois de adulto, entendi que eu tinha dificuldade para seguir ordens mas se deixasse minha criatividade aflorar livremente, poderia inventar algo bom. Essa é uma característica que tenho. E, como tinha dificuldades para memorizar repertório também, passei a época da escola fazendo escalas e mais exercícios. Revista Keyboard Brasil – Quais foram os pianistas que mais influenciaram sua maneira de tocar piano?


Lulu Martin – Os de jazz que meu pai gostava, como Oscar Peterson, Errol Gardner, Dave Brubeck. Os grande discos da minha vida, do jazz moderno, me foram apresentados pelo amigo Philipe Neiva, fundador dos Estúdios Mega. Bill Evans eu já conhecia, mas ele apresentou grandes trabalhos como o trabalho orquestral do arranjador Klaus Orgeman, Simbyosis, outro do Bill com o flautista Jeremy Stein. Me apresentou o trabalho de Keith Jarret. Nessa época, conheci mais o saxofonista John Coltrane e seu pianista Mcoy Tyner. Os Estados Unidos tem muita tradição de saxofonistas. Fui conhecendo o trabalho deles. Depois fui abrindo meu gosto pelo jazz rock, com as bandas Return To Forever, com o Chic Corea e o Whether Report, com o Joe Zawinul, foram dois concertos inesquecíveis que assisti. Dos pianistas brasileiros eu sempre admirei os tradicionais, o Hermeto, o Cesar Camargo e o Egberto Gismonti. Minha lembrança não vai muito atrás deles. Assisti uma vez uma aula palestra do pianista clássico Jacques Klein. Fiz algumas aulas com o Luiz Eça. Dos amigos da minha geração, as influências foram de Rique Pantoja, Serge Scollo e Jeff Gardner. De todos os amigos músicos, eu tive alguma influência, não só dos pianistas. Do trompetista Marcio Montarroyos, que era de uma família de pianistas clássicos. Do Marcos Resende. Os amigos de São Paulo tocam muito bem e possuem muita técnica de instrumento. Todos! Sinto falta do pianista que é bom no piano acústico, que é meu instrumento fundamental. Hoje em dia, o piano foi

trocado por algum teclado que simula o piano. Revista Keyboard Brasil – Musicalmente falando, ao retornar ao Brasil, sentiu-se perdido? Por que? Como contornou a situação? Lulu Martin – Voltando para o Brasil eu tinha 21 anos e com nenhuma experiência de trabalho. Foi muito difícil porque tinha passado mais ou menos 4 anos fora do Brasil, e não tinha amigos aqui. Tinha desenvolvido um gosto por música muito complexa, que não era conhecida por aqui. Tentei fazer aulas de piano quando tinha dinheiro sobrando. Fui conhecendo amigos e procurando trabalhos que poderiam ser adequados para meu perfil. E, ainda hoje não é uma possibilidade brasileira, ainda mais na música, onde o trabalho é ainda muito informal e a arte ainda muito intuitiva. Quem chama músico para trabalhar são os outros músicos. Assim foi comigo, trabalhando com shows de cantores, participando de bandas de música instrumental. Os trabalhos que mais foram marcantes foram os mais longos no tempo. Gosto de relações de longo prazo. Comecei a conhecer pessoas e entrar em grupos musicais. Fui do grupo Garage, do grupo do Márcio Montarroyos em várias formações, fui de bandas de cantores bem diferentes uns dos outros. Do rock do Lulu Santos, o auge foi ter tocado com ele no festival Rock in Rio 1, em 1985. No grupo Heróis da Resistência o meu auge foi ter gravado um solo de piano, estilo mais jazzístico, e essa música ter tocado Revista Keyboard Brasil / 51


Foto: Renne Raibolt 52 / Revista Keyboard Brasil


Com o saudoso Miell

e

o presidente Estudantes brasileiros e da Berklee, Lee Berk

Lulu na juv entude

oyos Márcio Montarr Com o saudoso e grupo

muito nas rádios do Brasil todo. Do Ed Motta, a lembrança que mais gosto foi ter gravado o disco Entre e Ouça, um trabalho musical que se tornou ícone. Gravei em Los Angeles. Entrei num corredor do estúdio e vi pendurados na parede, aqueles quadros tipo discos de vendagem, disco de ouro, de Barbara Streisand, de Michael Jackson, que tinha gravado Thriller ali, Lionel Richie com seu All Night Long. Essa boa lembrança sempre foi muito marcante. Mas aqui no Brasil, sempre tive que me adequar para poder ser aceito por amigos músicos e poder ser indicado para trabalhar. Assim, acho que fui ampliando minha capacidade de gostar. Um dia fui na casa do guitarrista Victor Biglione e vi que ele tinha muitos dvd´s. E comecei a comprar dvd´s e assistir tudo o que pude e tive chance de ter. Sinto que fui me reeducando desta forma. Acho que passei esses últimos 15 anos sempre tendo necessidade de me desenvolver e ser melhor do que sou. Assim, consegui estudar administração. Meu livro foi feito desta forma, em colaboração com amigos. É impossível você ser solitário num trabalho musical. Ela só acontece em grupos. É como a sociabilidade que só acontece em grupos, minha musicalidade se manifesta melhor em grupos, mesmo tendo problemas de adaptação. Revista Keyboard Brasil – Você tocou com grandes nomes do cenário musical nacional. Pode nos contar algumas lembranças interessantes ou que ainda ninguém sabe? Lulu Martin – Bom, não me lembro muito de situações engraçadas. Mas parece que todas as pequenas fofocas do mundo artístico são de verdade. O mundo musical é feito de pessoas com personalidades mais sensíveis. Acredito nisso, hoje em dia. As estórias com o Tim Maia são verdade. No teatro, trabalhei num espetáculo Revista Keyboard Brasil / 53


musical chamado, “Cafona sim, e daí?”, que foi dirigido pelo saudoso ator Sérgio Britto. Ele viveu para o trabalho dele, realmente. Nessa época, teria um ensaio num domingo, que seria no dia das mães. E na reunião do grupo da peça perguntei se não poderíamos desmarcar o tal ensaio porque era justamente dia das mães. Britto deu um ataque e ficou completamente transtornado com meu pedido. Uma sensibilidade diferente do mundo musical. Participei de um antigo projeto “Pixinguinha”, um projeto de shows de música feitos pela Funarte, com artistas como Zezé Motta e Luiz Melodia. O convidado especial foi o trombonista da velha guarda Raul de Barros. Ele estava montando o seu trombone num ensaio e eu perguntei se ele queria afinar. Eu era jovem e inexperiente da vida e ele respondeu assim: “meu filho, meu trombone está afinado desde ontem!”. Ele tocou 4 notas no trombone e me perguntou que acorde seria aquele. Eu respondi, e então ele disse: “o tom da música é este!”. E começou a tocar a música Na Glória, um dos sucessos que ele havia gravado em seus discos. Acho que é uma música da época do chorinho ou samba. Essa lembrança mostra um pouco a diferença entre esses dois mundos artísticos, o teatral e o musical. Revista Keyboard Brasil – Pode nos apontar as dificuldades de ser músico no Brasil, atualmente? Lulu Martin – Hoje em dia eu penso que no Brasil em que vivemos ainda não há possibilidades maiores para profissões ou 54 / Revista Keyboard Brasil

atividades de trabalho duradouras que não seja uma forma de jogo de soma zero, onde uma parte ganha o que a outra perde. Essas profissões onde o indivíduo tem que pagar para não sofrer danos piores parecem ser as mais rentáveis em termos de uma vida toda e aposentadoria. O médico, o dentista, o advogado, o sistema bancário. Acho que cultura é um produto comum do trabalho humano e, assim, ele deve ser vendido e comprado pela utilidade que oferece. Artes e música ainda são mais relacionadas com o bemestar espiritual, uma aquisição de conhecimento e cultura que humaniza a sociedade. Mas para se poder ser um consumidor de música, a pessoa tem que ter um trabalho acumulado. Vai conhecendo aos poucos. Para isso a pessoa já tem que ter certas necessidades básicas fundamentais satisfeitas. No Brasil, ainda somos muito pobres para podermos ser compradores de produtos culturais. Assim, não somos valorizados. Não temos uma classe mediana grande, que possa fazer uma diferença de fato. Temos alguns gênios musicais aqui e ali mas, na média, nossos músicos não são bem preparados tecnicamente. O povo do primeiro mundo tem mais acesso às artes porque tem mais condições materiais para isso ser possível. Então, no sistema de colégio público existe acesso aos estudos da música. Aqui não temos. A sociedade norte americana valoriza muito a técnica. Eles desenvolveram ao máximo possível a técnica de tudo. Aqui nós nos baseamos ainda na personalidade.


Revista Keyboard Brasil – São Paulo é uma cidade com alguns excelentes lugares para se ouvir música de qualidade. Temos o Jazz nos Fundos, o Bourbon Street, o Jazz B, enfim... E no Rio? Como é a cena musical? Lulu Martin – No Rio a cena musical anda bem fraquinha. Na verdade, acho que sempre foi mais fraco, apesar de dizerem que a cidade era a janela cultural do Brasil. A maioria das casas noturnas fecharam. Acho que foi devido a uma mistura de problemas, a começar com a segurança pública. Não pode beber e não pode fumar. Isso fuzilou a diversão noturna de quem tinha condições de frequentar bons lugares da noite. Tocar em lugares alternativos não são muito importantes para uma carreira musical. Acho que essa ideia dos donos de casas noturnas pensarem que seus estabelecimentos são uma minicasa de espetáculos com serviço de bar, é ruim para os músicos. Talvez tenha sido lucrativo para o comerciante que tem interesse em vender seus pratos de comida e suas bebidas para seus clientes. Desta forma, eles transferiram para os músicos levarem seus seguidores para serem clientes das casas. Até viraram espaço de aluguel porque se o artista não lotar a casa eles se garantiam cobrando um cheque caução de garantia do lucro. Isso foi acontecendo aos poucos porque os grandes artistas que não conseguiam mais lotar casas maiores foram atrás das menores. Revista Keyboard Brasil – O Lulu Martin hoje é um músico realizado profissio-

nalmente? Lulu Martin – Ainda não. O músico interior do Lulu gostaria de escutar e perceber melhor, gostaria de ter mais técnica e tocar melhor seus improvisos, gostaria de ser mais culto para poder ter mais discernimento sobre artes e comunicação. Eu gostaria de ter mais organização para virar artista solo do piano e ter mais trabalhos em festivais, que é o que mais gosto de fazer em música. Tocar em festivais é muito bom. Também gostaria de ter um piano de cauda Yamaha de ¼ de cauda, que gosto muito, em casa. E um set de gravação melhor e mais atual para fazer meu trabalho de trilhas musicais que faço de forma mais complexa. Sempre trabalhei no Studio Nova Onda som e imagem Ltda, dos irmãos Wanderlei Gonçalves e Passarinho, os dois gigantes da propaganda brasileira, e para a editora Songbirdtracks, do Chico Adnet, um dos gênios da criação brasileira. Queria agradecer a estas pessoas e ao pessoal da Socinpro, minha sociedade de direitos autorais, principalmente a Silvia Magda que trabalha lá com cadastro de obras. Sem a ajuda dessas pessoas em especial, meu trabalho não teria sido possível nesses últimos anos. Revista Keyboard Brasil – Responda com apenas uma palavra esse bate-bola rápido: Uma música: In a Sentimental Mood (com Duke Elington com John Coltrane. Minha gravação predileta de jazz). Heróis da Resistência: Saudades (uma boa fase na minha vida). Revista Keyboard Brasil / 55


Berklee: Maravilhosa (meus professores de piano Jeff Covell, Dean Earl e alguns outros de arranjo, Phil Wilson e Hal Grossman em prática de conjunto). Jazz: Juventude (meu estilo preferido). Brasil: Diversidade (cultural) Lulu Martin: Piano e administração Revista Keyboard Brasil – Como surgiu a ideia de escrever o livro O Som dos Acordes – exercícios para piano de Jazz? Lulu Martin – O livro surgiu de eu querer inventar algo para fazer. Tinha guardado em folhas de papel comum alguns exercícios e eles estavam já amarelados pelo tempo. Fui organizando e me lembrando do conteúdo. Fiz um projeto que se iniciou com o Ralph Canetti, meu grande amigo tecladista. Depois eu organizei sozinho usando o programa Encore. Um dia meu amigo guitarrista Ricardo Simões, que é mestre no Sibelius, fez uma partitura imitando a fonte de jazz, fonte que imita a escrita artesanal do livro de repertório, The Real Book. E, assim, fui mandando para ele e ele me devolvendo refeita. Tive que aprender a mexer no programa para fazer a revisão. O livro também surgiu porque eu percebi a necessidade que tínhamos de conhecimento organizado na música popular. Na área de administração, a maior parte da literatura é traduzida. Na música, acho que não temos muito material de estudos, nem original e nem traduções. Minha lembrança era de que se tentei ler, passei os olhos em 300 livros de administração, uns 30 foram de autores brasileiros. Pode ser erro de avaliação ou de minhas 56 / Revista Keyboard Brasil

limitações, mas isso me estimulou muito mesmo. A administração estimula a procurar onde existe uma necessidade comercial a ser preenchida. Revista Keyboard Brasil – Tem projetos futuros? Lulu Martin – Eu tinha feito dois livros novos, mas perdi porque estavam no meu laptop que foi assaltado. Eu não tinha feito cópia. O primeiro que fiz foram de coisas que fui me lembrando depois de ter lançado o livro O Som dos Acordes. Diariamente sentava no piano e escrevia algo num caderno de música e depois passava pro programa de editoração no computador. O segundo me surgiu da ideia de que todo o meu material era muito difícil. E, assim, organizei um livro de coisas mais fáceis, que poderia ser usado por iniciantes ou outros instrumentistas que poderiam estudar harmonia no piano, ou o piano como segundo instrumento. Andei frequentando encontros de cultura. Tinha vontade de fazer mestrado em administração para ser mestre em gestão cultural, como me foi aconselhado pelo professor da Universidade Federal Fluminense, Frederico Lustosa. Este ano, fiz prova mas não obtive a pontuação necessária. Devo tentar no ano que vem. Eu quero muito poder me desenvolver de outra forma, com outra atividade de trabalho. Ou terei que, de alguma forma, sair do Rio de Janeiro. A cidade não tem sido boa para seus habitantes. Apesar de ser uma cidade grande e apresentar, de certa forma, muitas ofertas culturais, não tem sido


fácil. Gosto de cidades grandes, mas também de cidades do interior, pequenas. Eu me sinto muito bem em São Paulo e suas cidades do interior. Meu projeto mais ambicioso seria me tornar artista do piano de alguma forma. Poder tocar em teatros sozinho, piano solo. Uma utopia aqui no Brasil. Os lugares que mais gosto de tocar são os festivais de música. Todos foram maravilhosos, do Brasil todo. Eu faço trilhas musicais para audiovisual. Uso o computador. Gostaria muito de ter um lugar melhor e maior. Adoro filmes e suas músicas. Gostaria de poder fazer mais do que tenho feito nessa área. Revista Keyboard Brasil – Gostaria de deixar um comentário final para nossos leitores que também são pianistas/tecladistas? Lulu Martin – O pianista de jazz Jackie Bayard, que ficou mais famoso por sua colaboração com o baixista Charles Mingus, era professor no Conservatório New England, em Boston. Assisti uma palestra dele na biblioteca pública de Boston. No final ele aconselhava a pessoa, dizendo: Antes de ser sucesso para os outros, seja primeiro para você! Eu repassaria este conselho para os músicos brasileiros. A força que nos guia é interior. Não existe ainda facilidades exteriores para músicos durante a vida toda. A arte é uma atividade de trabalho que é diferente

das que lucram com a perda do outro, como o médico, o dentista, o advogado. A música é mais um entretenimento do espírito. Mais complexa ou mais simples, a música é uma atividade mais espiritual. É difícil fazer sucesso comercial para torná-la viável como atividade comum de trabalho e sustento, ainda mais o trabalho só como instrumentista. Então, aqui vai o meu conselho: “seja um sucesso para você mesmo!”. Para isso, acho que devemos nos preparar da melhor forma possível para cada fase da vida. Quando não tivermos mais oportunidades de atuações artísticas ou de criação, devemos estar preparados para o trabalho educacional. Por isso acredito em titulação. Acredito em educação como meio para ser alguém mais refinado. A titulação é importante mesmo que no início possa parecer que não precisaremos. A música não é apenas intuição própria. É raro conseguir ultrapassar mudanças de gosto das gerações. Um dentista cuida de pessoas e leva a vida toda fazendo sua clientela. Isso não é muito possível ou provável nos ofícios da cultura e da música. Provavelmente, temos um tempo mais limitado de atuação profissional, e ter acesso a outras oportunidades é muito difícil. Especialmente quando começamos tão cedo nossos caminhos de trabalho e sustento como vejo acontecer na música.

* Heloísa Godoy é pesquisadora, ghost writer e esportista. Está há 20 anos no mercado musical através da Keyboard Editora e, há 10 no mercado de revistas, tendo trabalhado na extinta Revista Weril. Atualmente é publisher e uma das idealizadoras da Revista Keyboard Brasil publicação digital pioneira no Brasil e gratuita voltada à música e aos instru-mentos de teclas. Revista Keyboard Brasil / 57


Papo de tecladista

A Importância Multifuncional do Profissional da Música na Educação Regular

A 60 / Revista Keyboard Brasil


ESSE MÊS, COMPARTILHO COM OS LEITORES MEU CONHECIMENTO NESTA IMPORTANTE FATIA DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL - O ENSINO DA MÚSICA NAS ESCOLAS. UM CAMPO NO QUAL ATUO HÁ MUITO TEMPO E QUE APRESENTA MUITAS POSSIBILIDADES PARA O MÚSICO.

* Por Bruno de Freitas

Revista Keyboard Brasil / 61


A

pós alguns papos de tecladista nas colunas anteriores, hoje vamos bater um papo sobre as mais

variadas funções do Profissional da Música no Ensino Regular. É comum no cenário profissional da música o envolvimento como complemento (e sustento) do trabalho de instrumentista, ou mesmo por vocação, com dedicação total e exclusiva no Ensino da Música, seja de forma independente (oferecendo na própria residência ou dos clientes); em escolas de música (como professor contratado) ou em escolas e/ou colégios regulares de Educação Básica. Considerando a experiência que sempre tive, e que atuo, em colégios regulares do Ensino Básico, vamos abordar esta importante fatia de atuação do músico. Juntar os termos ensino - escola educação - músico - profissão requer, é claro, uma ênfase no constante investimento intelectual e abrangente do profissional da música: seja tecladista, violonista, flautista e de preferência multi-instrumentista. Digo aqui também domínio de habilidades diversas para gerar uma competência global, que consiga atender tanto o corpo docente, quanto a aplicação e mediação da música, como objeto de ensino. Abordar e sentir-se obrigado a dominar tudo isso assusta? Claro que não! Tudo é processual, aos poucos, pois ao passar dos anos trabalhando com a perspectiva de crescimento, vai florescendo naturalmente diversas necessida-

62 / Revista Keyboard Brasil

des de conhecimento, de domínio de habilidades, adquirido passo a passo e de forma cumulativa, no que realmente é relevante para o profissional da música. Mas que tipo de habilidades são necessárias? Vamos pensar juntos. Existe alguma outra instituição que necessite mais de música do que um colégio, uma escola? O Ensino Básico pode ser muito musical, tanto como ferramenta pedagógica, quanto objeto de ensino e estudo. A música está no todo da instituição - nas datas comemorativas, nos momentos cívicos, nas homenagens, nas formaturas, nas apresentações diversas, paródias, danças, festas internas, corais, etc. E no viés da Educação Musical curricular, com os conteúdos específicos pertinentes à disciplina - basta dar uma olhada nos PCN's (Parâmetros Curriculares Nacionais) e no próprio PPP (Projeto Político Pedagógico) de cada escola. Lá estão listados os conteúdos a serem elencados como relevantes, a serem aplicados na realidade local. São muitas possibilidades de atuação do profissional da música em uma escola, por isso a tal competência global é coisa séria. Poderia aqui até chamar de assessoria musical, na instituição. Além de dominar o lado pedagógico, é muito importante saber baixar uma música, saber cortá-la em algum software de edição de som; montagem de equipamentos - conhecer sobre microfones; organização da sonorização, mixer mesas de som, configuração e equali-


zação, cabeamento correto; em resumo, tudo que for relacionado ao som, o profissional da música é a referência, inclusive na aquisição de equipamentos. A escolha de repertório, digo aqui para o todo, entra também na modalidade assessoria musical, pois é comum os educadores solicitarem ideias e referências musicais para os mais diversos projetos pedagógicos. Por isso sinalizo aqui também a necessidade de atualização constante sobre o que os alunos estão ouvindo, o grande leque da MPB e da música internacional, curtida pelo público brasileiro. Além de toda essa gama de conhecimentos necessários, é muito importante um espaço físico dedicado, exclusivo ao ensino e assessoramento musical na instituição. Com todos os requisitos necessários para o profissional da música atuar de forma plena e saudável, em todos os sentidos. Mas este, é assunto para uma próxima edição da Revista Keyboard Brasil. Considerando todas as possibilidades de atuação em uma instituição de ensino regular, podemos concluir

que a proatividade é a palavra que mais se encaixa dentro da multifunção do profissional da música.

* Bruno de Freitas é Tecladista, professor, produtor, demonstrador de produtos da Yamaha, endorser da Stay Music e colaborador da Revista Keyboard Brasil. Revista Keyboard Brasil / 63


Vitrine

Um CD para espantar o preconceito contra

Radamés Gnattali

A PRIMOROSA OBRA DE RADAMÉS GNATTALI MOTIVO DE ORGULHO PARA TODOS NÓS BRASILEIROS - EXPRESSA NO BELÍSSIMO TRABALHO DE DÉBORA E FRANZ HALÁSZ

** Por Maestro Osvaldo Colarusso

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L

ançado pelo selo sueco BIS o CD

“Radamés Gnattali – Alma brasileira” recebeu críticas euro-

peias muito elogiosas. Uma destas críticas, assinada por William Yeoman na sisuda revista inglesa Gramophone, começa com uma espécie de puxão de orelhas nos músicos e no público: “A música do prolífico pianista, compositor e arranjador Radamés Gnattali (19061988) tem tal fluência e é tão atraente que é difícil acreditar que estas qualidades se voltaram contra o reconhecimento do músico como um artista sério durante sua vida e mesmo após sua morte”. Realmente, muita gente ligada à música clássica, torce o nariz quando ouve falar o nome do compositor, principalmente, o que é estranho, aqui no Brasil. A “fluência” que o crítico inglês destaca, deu-se tanto no setor popular quanto no setor clássico, e muitas vezes Gnattali é comparado ao americano George Gershwin (1898-1937) por sua versatilidade nos dois estilos. No entanto, o genial George Gershwin nunca explorou um setor da música clássica onde o brasileiro demonstrou toda sua genialidade: a Música de Câmara. Este CD, além de obras belíssimas para solo de violão e de piano, apresenta duas raridades camerísticas: a Segunda sonata para violão e piano e a Sonata para violoncelo e violão. A Sonata para violão e piano incluída no CD, de 1957, é a mesma obra que Gnattali batizou posteriormente de Divertimento para piano e quinteto de sopros, obra esplendorosamente gravada pela pianista Maria

Teresa Madeira e o Quinteto Villa-Lobos. Mais um toque de gênio do grande compositor: nas duas roupagens, a mesma obra apresenta uma sonoridade sensacional. É muito raro termos obras camerísticas com a participação de um violão, e o compositor colabora de forma acentuada no enriquecimento da literatura violonística ao compor também uma bela sonata para este instrumento junto a um violoncelo. Obra extremamente refinada, composta em 1969, apresenta em seu primeiro movimento, uma das maiores inspirações do compositor. O que é mais estranho é que as poucas gravações que existem da obra foram sempre realizadas por instrumentistas de outra nacionalidade, nunca brasileiros, com destaque para o registro do violonista albanês Admir Doçi e do violoncelista suíço Mattia Zappa. Penso que esta nova gravação, com o violoncelista taiwanês Wen-Sinn Yang (violoncelo solo da Orquestra da Rádio Bávara) e o violonista alemão Franz Halász, é ainda superior, uma verdadeira referência. Realmente as interpretações são primorosas e, nas obras para piano solo de Gnattali, a pianista Débora Halász não fica nada a dever a Roberto Szidon, referência na obra pianística do autor. Radamés Gnattali realmente deve ser motivo de orgulho de todos nós e algo me diz que a origem deste bem-sucedido CD deve ter sido ideia da pianista Débora Halász, brasileira, discípula de Beatriz Balzi e Myrian Dauelsberg, e que reside há muitos anos na Alemanha. Seu marido, o Revista Keyboard Brasil / 65


Junto ao marido, o alemão Franz Halász, Débora forma o duo de piano e violão fundado em 1993, o Duo Halász que, em 2015, recebeu o Latin Grammy pelo trabalho intitulado “Alma Brasileira”, exaltado como Melhor Álbum de Música Clássica.

66 / Revista Keyboard Brasil


excelente violonista Franz Halász, não só adotou o sobrenome de Débora, mas adotou também um amor muito grande à nossa música e ao nosso país. Dois detalhes que engrandecem ainda mais este lançamento: os textos do encarte muito bem escritos pelo violonista brasileiro Fabio Zanon e a bela imagem que aparece na capa do CD: uma linda

fotografia de Parati feita pelo próprio violonista Franz Halász. Detalhes que fazem deste CD uma joia, uma gravação obrigatória para todos nós. Você consegue baixar este CD, com o livreto incluso, na iTunes store e no site http://www.prestoclassical.co.uk por U$ 10.

* Osvaldo Colarusso é maestro premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Esteve à frente de grandes orquestras, além de ter atuado com solistas do nível de Mikhail Rudi, Nelson Freire, Vadim Rudenko, Arnaldo Cohen, Arthur Moreira Lima, Gilberto Tinetti, David Garret, Cristian Budu, entre outros. Atualmente, desdobra-se regendo como maestro convidado nas principais orquestras do país e nos principais Festivais de Música, além de desenvolver atividades como professor, produtor, apresentador, blogueiro e colaborador da Revista Keyboard Brasil. ** Texto retirado do Blog Falando de Música, do jornal paranaense Gazeta do Povo.

Revista Keyboard Brasil / 67


THIAGO ROSÁRIO CONHEÇA O TECLADISTA, PRODUTOR DE ÁUDIO E PUBLICITÁRIO, CRIADOR DA PÁGINA POBRE TECLADISTA NO FACEBOOK E DE VÍDEOS QUE RETRATAM COM BOM HUMOR O MEIO MUSICAL.

* Por Rafael Sanit

68 / Revista Keyboard Brasil

Fotos: Arquivo pessoal

Bombou na internet


T

hiago do Rosário Maciel, ou apenas, Thiago Rosário , nasceu em Linhares, no Espírito

Santo. Músico tecladista, produtor de áudio e publicitário, ganhou seu primeiro teclado logo aos 3 anos de idade do seu maior influenciador musical - seu pai também músico violonista. Autodidata, Thiago começou a tocar na igreja aos 13 anos, passando por diversas bandas de sua cidade, de grupos de Pagode a bandas de baile. Por ter vivido experiências não tão boas nas estradas, atualmente exerce a profissão de músico apenas na Igreja e em cerimônias de casamento. É proprietário de uma produtora de áudio onde também trabalha produzindo jingles para empresas, agências e políticos. Thiago também gosta de gravar vídeos e colocar em suas redes sociais. Sempre com bom humor, conquistou vários amigos e seguidores em suas redes sociais. No início do ano de 2016, lançou um vídeo que viralizou no facebook atingindo ao todo mais de 1 milhão de visualizações, cujo o título era “Vida de tecladista no Brasil”. O vídeo retratava a trajetória de um músico tecladista que

estudava por vários anos teoria, gêneros musicais, técnicas e investimentos que um músico faz para obter êxito. Ao final, após todo o investimento e estudos, o músico aparece no palco tocando uma música que fazia sucesso no momento, “Metralhadora - Vingadoras” música do carnaval de 2016. Vários músicos se identificaram com a história e o vídeo fez muito sucesso. Formado em Publicidade e Propaganda, após ver todo esse sucesso, Thiago teve a ideia de investir na famosa “zoeira” e criou a página Pobre Tecladista no Facebook, atualmente um grande sucesso. Com um número razoável de seguidores já emplacou publicações que ultrapassaram 1,5 milhões de visualizações, firmando parcerias com grandes marcas do ramo, como a Stay Music. Apesar de ser Autodidata e tocar apenas de ouvido, é um tecladista virtuoso e sempre disposto a ajudar quem quer que seja. Seu conhecimento teórico é limitado, mas sua prática apresenta muito sentimento. Assim ele segue com sua música e sua zoeira de forma sadia, sempre arrancando sorrisos de seus seguidores.

* Rafael Sanit é tecladista, Dj e produtor musical. Demonstrador de produtos Roland e Stay Music, realiza treinamentos para consultores de lojas através de workshops e mantém uma coluna na Revista Keyboard Brasil. É endorsee das marcas Roland, Stay Music, Mac Cabos, First Audio e Jones Jeans. Revista Keyboard Brasil / 69


A chama do grande Vishnu

- parte 1

JOHN MCLAUGHLIN Outros sons

70 / Revista Keyboard Brasil


‘ ‘

A música nasce dos sons internos da alma!

Fotos: Divulgação

– John McLaughlin

JOHN MCLAUGHLIN É UMA LENDA. UM DOS MAIS INFLUENTES E PROLÍFICOS GUITARRISTAS, MAS, TAMBÉM É COMPOSITOR, PIANISTA, TECLADISTA E BANDLEADER. CONHEÇA UM POUCO MAIS SOBRE UM DOS MÚSICOS MAIS CRIATIVOS DE TODOS OS TEMPOS. * Por Sergio Ferraz

N

a mitologia hindu, Vishnu é o deus mantedor do universo. Quando a terra está

em perigo, Vishnu envia um avatar para salvar a terra do mal... A analogia de um “avatar” cabe bem a John Mahavishnu McLaughlin. No mundo da música, ele é um daqueles raros músicos que chegaram para mudar o cenário musical abrindo novos horizontes e mostrando ao mundo novos caminhos e possibilidades criativas. John McLaughlin elevou a técnica da guitarra a níveis nunca alcançados. Mas sua arte não se limita apenas a uma

técnica suprema. McLaughlin é, sem dúvida, um dos músicos mais criativos de todos os tempos, um dos pais do Jazz Fusion ao lado de Miles Davis. John McLaughlin mergulhou fundo em vários estilos musicais como o flamenco, a música clássica indiana, o Rock, o Blues e também a música brasileira, entre tantos outros estilos. Nesta primeira parte da matéria falarei um pouco sobre seus primeiros anos de carreira até a formação do seu grupo, a Mahavishnu Orchestra, formado em 1970 e conhecido por ser um dos mais virtuosos grupos de jazz fusion de todos os tempos. Revista Keyboard Brasil / 71


O início na Inglaterra O guitarrista inglês John McLaughlin nasceu na cidade inglesa de Doncaster em 4 de janeiro de 1942. Inicialmente, McLaughlin estudou piano clássico influenciado por sua mãe, que era violinista. Aos 11 anos, resolveu tocar guitarra, influenciado pelos músicos de blues norteamericanos e, também, pela música flamenca, além do guitarrista de jazz cigano Django Reinhardt. Mais tarde, McLaughlin também foi fortemente influenciado pelo saxofonista John Coltrane, em especial por seu LP A Love Supreme (Implulse 1965), onde Coltrane vislumbra um caminho espiritual através da música. Isso levou John McLaughlin a estudar profundamente, mais adiante, a música e a cultura indiana. Tudo isso influenciou diretamente o fato dele tornar-se discípulo do guru indiano Sri Chinmoy nos anos 60, recebendo deste o nome de Mahavishnu (O Grande Vishnu). De volta ao seus primeiros anos como guitarrista na Inglaterra, John McLaughlin participou de inúmeros projetos como Alexis Corner and The Marzipan e George Flame and the Blues Flames. Em 1963, com o baixista Jack Bruce formou o Graham Bond Quartet, com Ginger Backer na bateria e John McLaughlin na guitarra. Um fato curioso dessa época é que John McLaughlin além de atuar como músico de estúdio e professor de guitarra, teve Jimi Page, futuro guitarrista e líder do Led Zeppelin, como seu aluno. Em janeiro de 1969, McLaughlin gravou seu álbum de estreia Extrapolation em Londres. O estilo pós-bebop do álbum é bastante diferente dos trabalhos de fusão posteriores deste músico, embora tenha gradualmente desenvolvido uma forte reputação entre os críticos em meados da década de 70. 72 / Revista Keyboard Brasil

O músico John McLaughlin teve, entre seus alunos de guitarra, Jimi Page, futuro guitarrista e líder do Led Zeppelin.


Ao lado de cima para baixo: (1) John McLaughlin, Al Di Meola e Paco De Lucia em 1981. (2) Mahavishnu Orchestra. (3) Airto Moreira.

Cruzando o Atlântico rumo a América McLaughlin mudou-se para os EUA em 1969 para se juntar ao grupo Lifetime, do baterista Tony Williams; posteriormente juntou-se ao grupo do trumpetista Miles Davis. Com Miles, McLaughlin participa da fase em que o trumpetista dá o grande impulso ao que mais tarde ficou conhecido como Jazz-Rock ou Jazz-Fusion. Entre vários álbuns com Miles Davis, John McLaughlin, grava o lendário Bitches Brew. Lançado em 1970, esse álbum conta ainda com a participação de Chick Corea (teclados), Joe Zawinul (Teclados), Wayne Shorter (sax), e o percussionista brasileiro Airto Moreira entre outros grandes nomes Revista Keyboard Brasil / 73


do jazz. Ainda numa fase pré Mahavishnu Orquestra, John McLaughlin grava mais dois discos solos. Devotion, no início de 1970 pela Douglas Records, era um álbum de fusão psicodélica de alta energia que incluiu Larry Young nos teclados (que fazia parte da Lifetime), Billy Rich no baixo e o baterista Buddy Miles. Em 1971 lançou My Goal's Beyond, que tem no lado A duas grandes obras acústicas, já anunciando o que em um futuro próximo seria um de seus grandes feitos, a fusão do jazz com a música clássica indiana. A partir de 1970, com sua Mahavishnu Orchestra, e na sequência o grupo Shakti de música indiana, John McLaughlin realizou uma grande obra e parcerias com músicos como o violinista francês Jean Luc Ponty, o tablista indiano Zakir Hussein, o guitarrista espanhol Paco de Lucia e o guitarrista americano Al Di Meola, entre tantos outros. Seus discos entraram para a

história da música tanto pelo aspecto inusitado, quanto composicional e criativo. No próximo número falaremos sobre os principais discos da fase Mahavishnu Orchestra e Shakti. Até a próxima!

* Sergio Ferraz é violinista, tecladista e compositor. Bacharel em música pela UFPE, possui seis discos lançados até o momento. Também se dedica a composição de músicas Eletroacústica, Concreta e peças para orquestra, além de colaborador da Revista Keyboard Brasil. 74 / Revista Keyboard Brasil


A vista do meu ponto

76 / Revista Keyboard Brasil


MÚSICA, AGORA! QUER VIVER A PLENITUDE DO AGORA? ENTÃO, APRENDA A TOCAR UM INSTRUMENTO MUSICAL.

* Por Luiz Carlos Rigo Uhlik

M

uita gente, embora nem perceba, gosta de se envolver com ativi-

dades perigosas porque estas atividades as trazem para o momento presente. A libertação do medo, das dependências, está intimamente ligada no viver o momento presente. O que estas pessoas não sabem é que isso pode levá-las à morte. Você já deve conhecer muitos casos que se identificam com isso. As pessoas passam a depender destas atividades perigosas pelo simples fato de que, enquanto neste tipo de atividade, as suas mentes ficam em estado de completa atenção.

E eu vou ser bem sincero com você: ficar em estado de completa atenção é maravilhoso! Mas, você não precisa escalar o Everest, saltar 25 veículos com a sua moto para ter isso sempre dentro de você. Basta você tocar um Instrumento Musical.

Tocar um Instrumento Musical põe você exatamente em estado de atenção. Põe você no momento presente, no AGORA. E isto é a coisa mais importante que existe. Nada acontece senão no AGORA. Mesmo as coisas do passado acontecem no AGORA; e tudo o que vai acontecer no futuro acontece no AGORA. Portanto, Revista Keyboard Brasil / 77


quem quer viver completamente o AGORA e não tem a mínima ideia de como fazer isso, deve entrar para o mundo da música. Tocar um Instrumento Musical não permite que a sua mente viaje pelo tempo, não permite que você viva o passado ou que esteja no futuro. Tocar um Instrumento

Musical faz com que você viva a plenitude do AGORA, usando as ferramentas do passado e a imaginação sábia do futuro. Não é fantástico? Não é o que você estava procurando? Mesmo que as suas ideias musicais estejam voltadas aos acontecimentos do passado, ou seja, um sonho, um acontecimento, uma 'ferida', a música só consegue acontecer no AGORA.

Ela está aí: você, o seu instrumento, a sua inspiração, a sua REVELAÇÃO. E isto acontece no AGORA, no exato momento, no segundo fatal... Então, o que é que você está esperando? Que eu pegue você pelos braços e o conduza para um teclado? Somente abro as portas. Você entra! Venha! Você vai gostar! Você vai se Revelar! Avante, no Agora, com Música! Avante!

*Amante da música desde o dia da sua no ano de 1961, Luiz Carlos Rigo Uhlik é especialista de produtos, Consultor em Trade Marketing da Yamaha do Brasil e colaborador da Revista Keyboard Brasil. 78 / Revista Keyboard Brasil


Por dentro

Sinfonietta Paulista APRESENTA DOIS CONCERTOS EM MAIO

ORQUESTRA TRAZ OBRAS DE BEETHOVEN, GRIEG, VILLA-LOBOS, DEBUSSY, SANTORO E HOFFMEISTER. * Redação

80 / Revista Keyboard Brasil


A

orquestra Sinfonietta Paulista possui 25 músicos e foi criada em 2009, tem a direção de Rafael Vicole, e sobe ao palco no dia 21 de maio, domingo, às 11h, na Sociedade Filarmônica Lyra e dia 23 de maio, terça-feira, às 19h30, no Auditório da Biblioteca do Memorial da América Latina. A Sinfonietta Paulista apresentará obras orquestrais e performances solos e duo. As obras vêm de encontro com algumas efemérides, como os 130 anos de nascimento de Heitor Villa-Lobos, compositor de maior destaque na história da música erudita brasileira, também relembra os 190 anos da morte de um cânone da música erudita mundial, o compositor alemão Ludwig van Beethoven e 110 anos da morte de Edvard Grieg, célebre compositor norueguês. Dentre as peças orquestrais estão dois movimentos da Sinfonia nº 1 de Beethoven, três movimentos de Peer Gynt de Grieg e o Prelúdio das Bachianas nº 4 de Villa-Lobos. Uma peça solo de flauta mostrará o estilo impressionista do compositor francês Claude Debussy, três peças solos de clarineta farão um contraponto com o expressionismo do compositor brasileiro Cláudio Santoro, e por fim, uma composição barroca do alemão Franz Anton Hoffmeister para violino e viola.

SERVIÇO: 21 de maio de 2017, domingo, 11h. 60min. SOCIEDADE FILARMÔNICA LYRA Ingressos: R$25,00 e R$10,00 Rua Otávio Tarquínio de Souza, 848 – Campo Belo – São Paulo – SP Tel.: (11) 5041-2628

R A F A E L V I C O L E maestro, compositor , arranjador R af ae

l V ic o le é di re to r artístico e regent e titular da Sinf onietta Paulista e Orq uestra Acadêm ic a de Suzano. Já esteve à frente das orqu estras: Filarmônica Bohu slav Martinu (R epública Tcheca), Filarmônica de Goiás, Sinfônica do Ci vebra (Distrito Fe de ral), Sinfônica da USP . Compôs as clas ses de regência do mae stro inglês Kirk Trevor, como convidado, no ICI na Repú blica Tcheca nos anos de 2011-2012. Em 20 09, ch eg ou à fin al do 2º co nc ur so de composição Rica rdo Rizek com a obra "A" bandona. Em 2011 , sua peça "Músic a para cinco instrumen tos" teve estrei a no Festival de Músic a Brasileira na cida de de Oradea - Romênia . Em 2012 foi real izado o recital Khronos , na UNIFIAM -F AAM, dedicado às suas peças de câmara com diferentes intérp retes e formaçõe s. Em 2014 foi o homen ageado do site am ericano C o m p o s e r ' s C i r c l e <h tt p: // co m po se rs ci rc le .c om /r af ae lvicole/> que di vulga composit ores do mundo inteiro. Em 2016 começ ou a in te gr ar um co le ti vo e m ús ic os , compositores e re gentes para pesq ui sa e difusão de músic a contemporânea.

23 de maio de 2017, terça-feira, 19h30. 60min. MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA Auditório da Biblioteca Ingressos: R$2,00 (dois reais) e R$1,00 (um real) Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Barra Funda – São Paulo – SP Tel.: (11) 3823-4600 Revista Keyboard Brasil / 81


Revista Keyboard Brasil 2017 número 46  

REVISTA KEYBOARD BRASIL edição de número 46 com MATÉRIA DE CAPA E ENTREVISTA da pianista brasileira tipo exportação Débora Halász.

Revista Keyboard Brasil 2017 número 46  

REVISTA KEYBOARD BRASIL edição de número 46 com MATÉRIA DE CAPA E ENTREVISTA da pianista brasileira tipo exportação Débora Halász.

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