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As palavras de uma autora desinibida e cheia de promessas quebradas. O amor, tema de todos os escritores, sabe como ser mau. Mas não é no fim das contas bom?

………………………………... Hannah Schroer ………………………………...


Minhas palavras não são doces, nem amargas, nem salgadas, nem azedas. Sem sabor. Apenas aprecia quem sabe provar o invisível, o imutável. Apenas aprecia quem entende o valor que uma vírgula tem. Nada de pontos finais. Nem aqui, nem na vida. Ponto final. Hannah S.


O

triste de perder alguém é que você não a perde na hora. Não a perde em um interminável segundo, como sempre vemos nos filmes. Você a perde com o tempo. Você a perde aos poucos. Quando você se dá por si já não se lembra mais da sua voz, os travesseiros já não tem mais o seu cheiro, a geladeira de repente esvaziou-se. É como a água escorrendo pelos dedos. E você perde. Simples assim.


E

u deveria ter te segurado, ter agarrado tuas pernas ao invés de me ajoelhar e chorar. Ao invés de agarrar meus próprios braços, deveria ter te batido e te xingado por me deixar assim, se livrar de mim assim. Como se fosse um rio, eu segui meu curso, com minhas memórias, minha imundície e meus amores perdidos. E a pureza, onde foi parar? Aquela que eu tinha antes de você me manchar desse jeito, onde foi parar? Seguiu seu curso também, pegou a tua correnteza, agarrou-se nos teus pés e me deixou. Não é triste, amor, o que aconteceu, o jeito como aconteceu? Meu garotinho, meu bebê, seu sorriso tão lindo, tua boca perfeita, teus lindos olhos, ahh. Quanta maldade me deixar assim, qual é a tua? E eu te deixei ir, quanto orgulho, me estereotipei agora, não acha? Todos devem saber sobre minhas perdas, meu orgulho, minha podridão só de me olhar os olhos, esses escuros olhos. Costumavam brilhar tanto, mas o que foi que nós fizemos? Destruimos nossos lares, nossa morada. Nosso aconchego, nossa liberdade, ah, como era bom quando eram apenas corações. Quando apenas serviam para bater, pulsar. Quanto sangue aqui dentro, amor, quanta carne, tecido, órgãos. Sou no fim das contas um corpo, tenho carne e osso, não tenho? Uma alma aqui dentro? E ela está lutando desesperada por liberdade, quer voar como os pássaros, mais alto até. Querendo voltar pra casa, visitar teu coração novamente, unir-se a ti mais uma vez. Me meti num naufrágio, amor, me perdi entre navegantes e senhoras de quinta-categoria, fui procurar você ali, achar-te chorando de repente, sentindo minha falta. Mas não, você não está lá. Deves ter arrumado outra garota, passando muito bem, obrigado. Agora, não te importes comigo, seja feliz. Ficarei aqui na proa, sentindo-me a rainha do mundo, ou de nada, tanto faz. Quem sabe eu páre em algum lugar por aí e ache alguém como você.


E

então, como vai? Continua tudo na mesma? É, por aqui também. Ou não. Eu acordo todos os dias e não vejo tua cara toda inchada do meu lado. Acordo e não tenho com quem reclamar que quero café na cama. Se eu quiser café na cama tenho de levantar, prepará-lo e levá-lo até mim mesma. Deprimente, não? E depois de tomar um café amargo e comer qualquer coisa que desça pela garganta, pego meu computador e me dirijo àquela cafeteria e ninguém senta comigo. Aliás, você não senta comigo. Digito fortemente nas pobres teclas - que diga-se de passagem, estão quase detonadas. O “a” nem funciona mais direito. - e meu coração palpita enquanto re-descubro em mim esses momentos de poetisa escondidos tão bem. E não tenho com quem me abraçar quando termino mais um capítulo. Você não está mais aqui pra me elogiar, criticar, fazer beicinho e se enrolar quando quer dizer que não gostou. Sempre amei tua sinceridade, tua timidez, esse teu jeitinho próprio. Tão bobo. E eu volto pra casa, re-leio para o cachorro meus capítulos, meus diálogos e choro um bocado para tentar amenizar a dor de não te ter mais aqui. A lâmpada fica acesa a noite inteira para eu não sentir medo. Estou pagando caro - literalmente - por isso, mas o que posso fazer se você não está mais aqui pra me abraçar e me dizer que não preciso ter medo do escuro? Eu continuava sentindo medo, sabe, mas teus braços são meio mágicos, eu sempre achei. Faziam-me sentir segura, aconchegante e tão, tão feliz! Por isso, não, não tá tudo na mesma. Você não está mais aqui. E eu não vou te pedir que volte. Apenas seja feliz que eu também tentarei ser. Não é assim que as coisas normalmente são?


"Quem é forte na poesia é fraco no amor", julgam os tolos. Mal sabem eles que a própria poesia é amor e o próprio amor é poesia. Mas para mim, prefiro o indefinido. Muito mais poético. E romântico.


À meu estúpido Romeu, que em um ato ufano deixou-me aqui, esperando encontrar-me além da vida:

M

eu Romeu, meu amor, o que fizestes à mim, o que foi que pensastes? Já não eras tu o mais estúpido dos homens, o mais insensato e pateta de todos os homens existentes? Já não eras tu corajoso o suficiente para matar pobre Tebaldo, ameaçar pobre Paris, invadir minha varanda à noite e declarar-se à altas horas? Não eras tu aquele homem corajoso de me roubar um beijo e ainda pedi-lo de volta como se fosse o mais astuto e sagaz homem de todos? Ora, já percebestes o quanto sois - ou fostes, no caso - mais em tudo que me envolve nessa mediocridade em que ando vivendo? És - ou fostes, no caso. Oh, céus, devo eu me acostumar? - o mais em mim, o mais em minhas varandas, meus castelos, meus vestidos e meus lábios, mais tu, Romeu, e menos Montéquio, menos Capuleto, menos mamãe, menos ama, menos cortinas que me fecham deste mundo em que sou apenas uma menina de quatorze primaveras, apenas uma moça, recém desmamada, diria papai. Tu fostes meus momentos de prazer, de alegria, tu trouxestes a mim as cores do arco-íris à Terra. Tão inteligente, tão persistente, tão você. E agora em que aqui me encontro admirando a brancura da tua pele, o vermelho dos teus lábios, teus olhos fechados e cerrados para sempre… O que pensastes, meu Romeu, o que tivestes em mente? Deves estar decepcionado em não me encontrar, não é? Deves estar me procurando, me buscando, gritando por mim em tantas varandas perdidas por aí. Toco teu rosto gélido e me arrepia a pele teu toque ainda assim tão teu, tão cheio de teu amor. Entornando de dentro de nós, aquele amor que não se segura, não se espera nem se mede. Aquele tipo de amor em que até mesmo a morte não separa. Em teus lábios nem mesmo uma gota encontro, apenas o gosto doce da tua boca eu sinto e te pergunto em silêncio porque fostes tão egoísta, tão mesquinho em tomar toda esta dose de veneno. O que pensastes, meu amor, achastes que te abandonaria deste jeito como tu o fizestes? Não, meu Romeu, meu estúpido Romeu. Mas não te quero deixar, preciso ver teus olhos e te ver pedindo-me perdão. Me matastes, Romeu. Morri. Primeiro por dentro e depois por fora. Agora. Me diz, Romeu, morrer dói? Conversaremos sobre isso depois, meu amor. Por hora, existe um punhal que me espera. Da tua eterna Julieta nunca mais Capuleto.


Eu sempre fui aquele tipo de mulher forte, aquela que levanta o queixo e segue em frente, aquela que passa sorrindo pelos momentos de fraqueza. Sempre fui daquelas que não chora apesar do que seja, daquelas que apenas baixa os olhos. Sempre fui daquelas que sacode os cabelos e ajeita um pouco a roupa, levanta, se equilibra e segue em cima do salto. Sempre fui daquelas que cumprimenta com uma frieza equilibrada, daquelas que sabem exatamente a hora de continuar, assim como a hora de parar. Sempre fui. Mas então… Eu conheci você. E você se tornou a minha fraqueza.


em algo estranho aqui. Não sei se devo me preocupar, se devo procurar o que há de tão diferente ou deixar o bichano quieto. É, sabe, não atiçar. Mas eu fico com essa coisa me encucando, essa preocupação, eu fico olhando, fico procurando, fico assim por horas e no fim parece sempre o mesmo quarto, as mesmas cortinas roxas, o mesmo gato deitado na mesma cama. Eu acaricio-o e deito um pouco, respiro aquele ar de casa fechada, de casa de gente deprimida e de repente percebo o que é. O problema não é algo a mais, é algo a menos. Alguém a menos.

T

Ele foi embora, acariciou rapidamente o gato, pegou sua mala arrumada há semanas e partiu, nem olhou 0p2ara trás. E hoje pensando nisso fico tentando descobrir o motivo, seria a bagunça aqui dentro, a minha e1xcessividade em tudo? O meu medo de ratos ou meus momentos de socar o travesseiro? Ele levou seus prismas com ele e desde então as cortinas estão sempre fechadas, quem precisa de sol se não o fará brilhar em alguma coisa? Ele foi embora, não deixou um bilhete de despedida, não apertou minhas mãos uma última vez, não me deu um meio-sorriso que seja. E no final, acho que o problema fui eu. Mantive a compostura e meu orgulho bombava enquanto eu fingia que estava bem. Meu mundo desabava e eu vesti minha roupa de menina má, catei uma coca-cola da geladeira e você revirou os olhos para minha tentativa de me fazer de desentendida. Afinal, por que eu fiz isso? Por que não desfiz tua mala e te bati para ficar? Por que não te insisti que parasse com essa infantilidade? No fim das contas a infantil fui eu. E agora pareço uma velha daqueles filmes antigos. Acariciando um gato e bebendo café descafeinado o dia todo. A hora de amadurecer é essa, a hora de virar uma mulher de verdade. Levantar da cama e fazer as coisas acontecerem. Mas… Hoje não. Estou deprimida demais.


Engraçado como as madrugadas me lembram você. Não sei por que, se talvez seja pelo escuro lá fora, a solidão aqui dentro ou as cortinas com esse cheiro de mofo que se acentua nesse horário. Só sei que quando chega esse horário, meu sono simplesmente se rebela contra mim e fica fugindo, que maldade. E nessas horas eu tento pensar em tantas outras coisas, mas você fica aparecendo o tempo todo em minha mente, como a lâmpada de uma discoteca. Sempre suspeitei que você tivesse algum segredo, algum método macabro de me fazer pensar tanto em ti, mas na verdade a culpa é toda minha. Saio por aí procurando teu rosto em todas as pessoas que vejo, fico entrando naquela loja de perfumes só para provar aquele teu aroma gostoso, ficar como uma retardada cheirando o pulso o resto do dia. Aquele provador está quase no fim, amor, o que eu vou fazer quando acabar? Comprá-lo? Não sou tão louca, sou? Ah, você a conhece. Ela não me abandonou, não se preocupe. Na verdade, desde que você a fez prometer que me cuidaria ela não larga mais do meu pé, o tempo todo me perguntando como estou, se ela pode fazer alguma coisa. Já recuperei o peso que perdi naquela época de tanto chocolate que ela me compra. Lembra aquele amigo dela? Ela me apresentou. Ele é bonito, mas você sabe que eu prefiro caras mais convictos. Ele parecia assustado, um pouco com dó de mim, não sei. E ele era legal, trabalha na central de rádio da universidade, tinha uma voz tão bonita. E nós conversamos bastante, ele me contou da faculdade, sua infância, suas ex-namoradas. Mas você me conhece, sou sempre tão fechada. Não consegui falar muito. Tomei três xícaras de café e comi tantos croissants que nunca imaginei ser possível. Assustei o coitado, claro. Ou não? Ele me ligou ontem me chamando pra sair de novo. E eu sei que preciso me livrar da sua memória, preciso começar a viver de novo… Mas não é injusto? Pensar em você enquanto estou com ele? Ele é um cara legal, não me interprete mal. O problema é que… Ele não é voce. E você sabe, não consigo me apaixonar por essas pessoas certas, normais. E esquecer você, embora seja necessário, dói, como uma agulha dolorosamente penetrando a pele. Uma dor aguda. Mas necessária. Posso me apaixonar por ele, eu sei disso. Mas… Ele não é você. E nunca será.


Vá, meu grande protetor, vá correr atrás dela depois de livrar-se de mim. Querias isso o tempo todo, não é? Sair da minha vida com as mãos abanando enquanto fico aqui, com o coração pisoteado atirado na minha frente. Vá, meu pequeno anjo, não te importes comigo. Já sobrevivi tantas outras vezes a tantas outras frustrações. Sou forte, tu bem sabes. Estou muito bem. Respirando, como sempre estive.


E ainda existem aqueles dias em que você resolve colocar “poréns” em todas as tuas frases. Porém isso, porém aquilo, e eu reviro os olhos com impaciência. Teus cabelos louros bagunçavam-se ao vento do nosso agosto enquanto você tentava acabar com a minha e a tua vida. Porém para cá, porém para lá. E enquanto isso eu me enchia de “pois”, tentava explicar aquilo que não tem explicação, soava meio idiota na minha mente, mas eu sabia que por ti valia a pena. “Eu te amo, pois por mim não existiria poréns em nenhuma história de amor. Já percebeu o quanto você fica tentando arrumar desculpas para não me amar? Já percebeu o quanto você faz essa cara de desentendido e tenta crispar os lábios para dizer que não sente vontade de sorrir quando me vê? Continua com isso, continua, mas eu não sei o que será de mim se eu não mais te ver todos os dias, se você passar a ser um estranho para mim. Se em um dia qualquer eu te ver na rua e nos cumprimentarmos apenas com um aceno de cabeça, ah, o que será de nós? O que será de mim se em um dia comum eu estiver indo tomar café e ler aquele meu livro já tão surrado e no caminho te ver de mãos dadas com outra garota? Não achas que estás sendo antecipado, tomando essas decisões sem pensar direito? Ou melhor, não pense. Não precisa pensar, apenas admita, admita que você ainda tem sentimentos por mim. Você ainda me ama e eu sei disso. Por isso por favor, não faz isso.” E você arregalou aqueles teus olhos cor-demel, tuas mãos tremim na tua cintura e eu percebi que você iria tomar a decisão errada. Como sempre. “Amor não é suficiente.” você me disse. E a partir daquele momento eu finalmente entendi que nem todas as histórias de amor têm finais felizes. Triste realidade.


E

u estava usando aquelas costumeiras amarelas luvas de borracha e meu cabelo grisalho estava amarrado para trás, embora eu soubesse que você o preferisse solto. A pilha de louça que você deixou depois da sua noite com os amigos era enorme e lá estava eu a lavá-la. Sorri quando olhei um pouco acima e vi o quadro com a nossa foto. Você estava lindo de terno e gravata, embora tivesse me implorado para casar de calça jeans e moletom. “Pára de ser tão caipira, amor.” eu te pedi e nós rimos quando você começou a falar seu melhor caipirês. Lembrei-me tambem de que no dia em que casamos eu tropecei na hora da entrada. Me senti tão envergonhada que pensei que fosse morrer. Mas enquanto todos seguravam-se para não rir da noiva atrapalhada, você abanou a cabeça levemente e sorriu para mim, teus olhos apaixonados nos meus, como se dissesse “Só você mesmo…” E então você me abraçou por tras e me beijou a orelha, falando comigo baixinho. “Vamos pra cama, amor. Deixa essa louça aí.” Eu sorri ao perceber que depois de tantos anos eu ainda me arrepiava com o seu toque. “Bem, alguem tem de lavá-la.” Você riu com a sua voz rouca e me beijou a orelha novamente. “Vamos, amor. Eu lavo amanhã.” Eu te afastei com a mão cheia de espuma deixando um pouco na tua bochecha. “Sai pra lá, tentação” E ri. Você me sorriu apaixonado, aquele mesmo sorriso que me deu quando prometemos passar a vida toda juntos. “Então eu sou difícil demais de resistir?” você me disse, sorrindo maroto. “Bem, sim, mas… Ah, esquece.” eu parei, depois de refletir na resposta. “O que você ia dizer?” você me perguntou, curioso. “Eu apenas percebi que estaria mentindo. Ia dizer que podemos aprender a resistir as tentações, mas não acho que vou conseguir me acostumar com você, nunca.” eu falei, meu rosto ruborizando. Era incrível como apesar dos anos, eu ainda continuava sentindo vergonha de te dizer essas coisas. Você, então, sem mais nem menos, pegou-me no colo como quando entramos na nossa casa como marido e mulher pela primeira vez, e carregou-me com carinho, repousando-me na nossa cama. Você beijou meus lábios de leve e me sussurrou um “eu te amo”. Sorri como uma criança, ao perceber que, não importa quanto o tempo passe, eu nunca deixarei de te amar.


E agora que a paixão acabou só me resta a fuligem na lareira e nos lábios a lembrança doce dos teus beijos achocolatados. Apagou-se o fogo e com ele toda aquela explosão que éramos quando juntavámos a minha frieza e mal-educação com a tua expontaneidade e bom humor. E agora percebes o quanto o céu está negro? Quanta fuligem, que sujeira. Não está na hora de fazer uma faxina?


Que abstinência de cores, meu amor. Olho para o azul do céu, o vermelho das nossas flores e parecem cinza, acredita? Você costumava pintar o mundo com seus muitos pincéis, fazia até o ar ficar colorido. Um dia riu de mim com aquele anel de humor mudando constantemente as cores. E você comprou aquele suco de uva horrível aquela vez, abriu o pacote e ficou que nem um idiota olhando aquele pozinho roxo, tão feliz. Lembra quando eu tomei teu suco toda alegre dizendo que até parecia natural? Desculpe, mentia. Nunca gostei de artificialidade, tu sabes, mas eu bem poderia conviver mais alguns anos com tuas telas coloridas enchendo a casa a cada instante. Aqueles quadros de paisagens inventadas, com um traço de preto em todos. Nunca entendi porque sempre tinha que estragá-los daquele jeito mas no fim aquilo tornou-se tua marca registrada. Tão você… Ah, meu pequeno Picasso, meu Cézanne, me diz, aí onde você está existem tintas? Existem telas, existem paisagens para servir-te de modelo? Ou arranjas-te uma outra musa? Ela também tem cabelos pretos como os meus? Ela… Você estaria quase me batendo se estivesse aqui agora, não é? “Quantas vezes tenho que te provar que eu te amo e não vou te trocar por ninguém?” você me dizia. Teve aquele dia que você pegou aquela tinta preta que eu tanto odiava e pintou meu nariz. Começamos uma guerra de tinta, você se lembra? Enquanto íamos à loja de tintas minha pele começou a ter uma reação alérgica e lá fomos os dois, sujos e descabelados, para o hospital… Quem diria que que esse mesmo lugar aonde ríamos e você me incomodava pelo meu medo de injeções seria o mesmo cenário onde o meu mundo se partiria? Nem ouvi direito a voz do médico aquela vez, amor, tudo embaçou na hora e sério, ficou cinza. Tudo está tão cinza… Comprei um teste de gravidez ontem. Minha menstruação atrasou e aqui dentro surgiu uma ponta de esperança de que eu estivesse esperando um Picassinho dentro de mim, mas deu negativo. Aposto que ele teria a cor dos teus olhos e a minha boca, quem sabe teus cabelos louros e as minhas mãos. Seria uma mistura de nós dois mas com certeza teria teu fascínio por cores. Mas não deu, amor, não foi dessa vez. “Não fica triste, meu doce, a gente tenta de novo” você diria, mas não dá pra tentar de novo. Você foi embora, me deixou nessa vida cinza, tão sozinha. Mas me diz, aí… Tem telas, tem tintas? Tem cores? Como estão saindo seus quadros? Roxos como o suco de uva, pretos como meus cabelos, vermelhos como nossas flores? Pinte, meu amor, pinte. Colore, ilumina, deixa o céu lindo. Quando eu chegar aí quero uma recompensa por todo esse cinza que estou vendo agora. Pinte. Da sua escritora dos olhos brilhantes e o sorriso torto, Hannah S.


De repende. Essa palavra quase sempre usada no começo dos meus textos e cartas. Não é coincidência, meu amor. É sua culpa. Você, que sempre de repente resolve aparecer, apontar na minha memória, usufruir dessa beleza tua, esse teu charme, teu modo de me fazer ser tua em uma só palavra. Qual é a tua, afinal? Essa tua indecisão tá me cansando, falando sério. Uma hora sou tua, outra hora não mais. A verdade, meu bem, é que não é porque não sentes uma coisa que ela deixa de ser verdade. Por exemplo, eu sou tua, sem mais, embora tu me vires as costas e me mande te esquecer. Sou tua menina, tua pequena, teu bebê. Sou e serei sempre tua, não importando o quanto tentes fazer-me te esquecer. Páre com isso, páre com essa tua infantilidade, achando que eu sou dessas garotinhas às quais te acostumaste. Não te enganes por meu laço no cabelo e meu sorriso de criança, aqui dentro está uma mulher, uma sonhadora, poetisa, (in)feliz. Incompleta. E você? Vai ficar aí, lendo essa carta molhada sem fazer nada? Já não passamos da época em que esperávamos as coisas acontecerem? Levanta dessa cadeira, meu rapaz e vem cá me dizer que és meu. Vem cá me trazer aquela flor horrível roubada da vizinha, vem cá usando aquela tua blusa vermelha que te deixa lindo, vem cá me fazer sentir inteira novamente. Vem cá e me trás aquele seu ursinho de pelúcia que eu adoro. Apenas vem. Levanta e vem me fazer feliz.


Olho janela afora e lá está você novamente, sentado com a coluna extremamente ereta, os pés juntos e uma das pernas balançando compulsivamente. Sinto vontade de descer l á e te dar um tapa,mandar parar de se mexer desse jeito, qual é o teu problema? “Tá com formiga na bunda?” mam ãe costumava

falar quando não ficava quieta e às vezes ainda rio dessas expressões tão rid ículas. E t ão usadas. Você com aquele seu livro tão surrado, sempre ele. Por que? Deve ter algo de especial, eu imagino. Uma

história comovente, um final surpreendente, personagens encantadores? É, desculpe, n ão consigo ler o título daqui.

E eu fico tentando imaginar como seria bom se eu chegasse ali, do nada, e te dissesse um “oi” bem

tímido e bonitinho, capaz de te fazer dar um sorriso para mostrar teus dentes de baixo meio tortos. E ver teus olhos se fecharem um pouco tentando entender quem é aquela garota esquisita parada na tua frente, sorrindo babacamente esperando surgir alguma coisa na cabeça para te dizer. Você ent ão começaria de novo com aquele chilique na perna - sério, qual é o problema dela? Ou seu? - e tentaria puxar um assunto, talvez tua leitura? “Estás gostando?” eu te perguntaria, apontando para o livro. Oh, Shakespeare? eu me surpreenderia. Ou talvez Marcos Zusak, Érico Verissimo, Caio Fernando de Abreu? Ora, estou viajando. Não acho que lerias escritores t ão românticos. Algo mais macho, do estilo Tolkien, George Martin, talvez Verne? E então, no meio daqueles meus devaneios você levanta, pega seu livro velho, se espreguiça e vai embora. E enquanto vai caminhando, de volta para o lugar de onde pertences, - o para íso, provavelmente - você dá uma rápida olhada para trás e para cima, bem diretamente encontrando meu olhar de menina envergonhada e eu sinto meu rosto ruborizar mais r ápido do que coraç ão de rato batendo. E você sorri de levinho, como se soubesse que eu te admiro daqui de cima, t ão quietinha, tão na minha. Que esperança nasceu aqui, você nem imagina. Esperança de que talvez um

dia eu possa me aproximar de ti e descobrir o título daquele teu livro. Um dia de repente lê-lo contigo enquanto seguro tua perna com minha mão esquerda. “Pára com esse chilique” eu te diria. E você sorriria abertamente para mim.


Sobre a autora

Hannah Schroer, dezoito anos, estudante, aspirante a jornalista. Cheia de desejos e sonhos. Morando atualmente no CanadĂĄ, viu-se um dia, aos dez anos, sendo escritora, sonho que perdura atĂŠ hoje.


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