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hajaSaúde! | distribuição gratuita | tiragem bimensal | Mês Mar/Abr. 2013 Ano X Nº73

Prémio Mérito de Investigação 2013 da Universidade do minho atribuído a Professor Nuno Sousa

hajaNutrição - Nutrição no Desporto

hajaCrónica - o poder do “nim”

Entrevista - O estado da Medicina Desportiva


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hajaEditorial

Luís Araújo. 59221 - lasaraujo91@gmail.com

No ano em que o hajaSaúde! faz 10 anos, e à 73a edição desde o seu começo, não posso deixar de fazer uma reflexão sobre este espaço; um espaço de todos nós e de cada um; um espaço onde o Estudante não se sente apenas “estudante”, mas também parte integrante de um mundo cultural e ideologicamente muito diversificado onde a cultura, o desporto e o lazer se juntam à ciência e nos tornam indivíduos singulares no meio de uma sociedade tão diversifica-

da. Nascido no seio da primeira direção do NEMUM, pela mão do então estudante e atual professor Pedro Morgado, que nesta edição é convidado a escrever (em baixo), sempre se regeu pela aproximação dos estudantes (e também de professores) da comunidade ECS, servindo como veículo de transmissão no tempo de momentos, recordações, aniversários, entrevistas, ciência e cultura; sempre se afirmou como um veículo de imortalização das palavras, das ideias, de tal forma que, no momento em que cada um de nós deixar esta escola, poderá sentir que as suas ideias e palavras permanecem guardadas, no arquivo, no papel, na internet, nas memórias guardadas e esquecidas de cada leitor. Estas são as razões que fazem e levam toda uma equipa a transformar em palavras os seus pensamentos, sentimentos

e sensações, numa ação de cidadania e luta pela livre formação e informação de todos e para todos.

O conhecimento é que nos salva Pedro Morgado, fundador hajaSaúde!

Um tempo em que a moeda se desvaloriza, o ouro se vende, a arte se transforma, os imóveis se desvalorizam e aos bens móveis se volatilizam com uma voracidade impressionante tem a virtude de nos voltar a mostrar que o conhecimento é o maior e mais segur0 valor que um povo pode ter. Não foi por acaso, mas pelo conhecimento, que D. Dinis mandou semear o pinhal de Leiria e estabelecer a Universidade de Coimbra, investimentos que haveriam de render os sucessos da época dos descobrimentos. Foi através do conhecimento que ao longo dos séculos fomos construindo uma sociedade que não se acomodou perante a tirania do(s) absolutismo(s), que não se deteve perante as iniquidades no acesso ao ensino, que não se contentou com a desigualdade no acesso aos cuidados de saúde e que não se acomodou com

as discriminações com base na etnia, na cor de pele, na religião, na orientação sexual ou nas crenças políticas. Nestes dias difíceis, em que abrimos a janela do mundo e percebemos a tempestade lá fora, a esperança que ainda resta está, precisamente, no conhecimento. É o grande investimento que cada um pode fazer para estar ao nível dos desafios que vivemos e das dificuldades que se perspectivam. É o antídoto perfeito para a ansiedade colectiva em que mergulhámos diante das incertezas do futuro. E como é que podemos fazer isso? Antes de tudo, não desperdiçando nenhuma oportunidade para aprender; aproveitando cada uma das oportunidades de ensino de que temos o privilégio de usufruir; preservando e rentabilizando os materiais e os equipamentos de que dispomos até ao máximo das suas possibilidades; participando em todos os momentos de expressão, de reflexão, de discussão e de divulgação que pudermos; intervindo de forma informada nas eleições do país, da Universidade e das associações representativas dos estudantes; em quinto, lendo livros, vendo filmes, ouvindo música e visitando Museus; e,

por último, integrando e incentivando projectos como o Haja Saúde! que agora celebra uma década de existência. Se o fizermos, teremos a certeza de que, por muito negro que nos pintem o céu, teremos um futuro. O nosso futuro. P.S. - Num momento em que celebramos os 10 anos do Haja Saúde!, não posso deixar de expressar toda a minha alegria pela forma como, ao longo de uma década, os estudantes de Medicina da Universidade do Minho não deixaram de demonstrar, também por esta via, que são cidadãos empenhados em debater, em reflectir, em comunicar e em preservar um património colectivo que há-de constituir-se como um importante contributo para a memória escrita e visual da Escola de Ciências da Saúde. Saúdo particularmente o Luís Araújo e a sua equipa, agradecendo o trabalho importante que têm feito e desejando que continuem a transformar este jornal num instrumento ao serviço dos estudantes e da Escola.


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Prémio Mérito de Investigação da Universidade do Minho 2013 atribuído ao Professor Nuno Sousa Cláudia Macedo, 56155, João Braga Simões, 63617

No passado dia 20 de Fevereiro o Professor Nuno Sousa foi distinguido com o Prémio de Mérito Científico 2013 na cerimónia comemorativa do 39º aniversário da Universidade do Minho (UM). Este galardão visa homenagear o docente ou investigador da UM que mais se destacou na sua área do saber, tendo distinguido anteriormente personalidades como Odd Rune Straume (2012), Carlos Mendes de Sousa (2011) e Rui L. Reis (2010). O Professor Nuno Sousa (44 anos) viu assim premiada a sua carreira de investigador, docente e médico ligadas há 13 anos à UM, onde coordena o grupo de Neurociências do Laboratório Associado ICVS/3B’s, é director do Curso de Medicina e também do Centro Clínico Académico (em parceria com o Hospital de Braga). Em declarações ao HajaSaúde, salienta que o prémio atribuído “significa que o trabalho de uma vasta equipa de investigação foi reconhecido pela Universidade, não o assumindo como “um prémio a título individual mas antes, um prémio colectivo, que distingue toda a equipa do laboratório ICVS/3B’s”. O estatuto de Laboratório Associado (LA), de que goza o ICVS/3B’s, é atribuído a instituições de elevado mérito científico reconhecido por avaliações externas e, com capacidade para cooperar, de forma estável, competente e eficaz, na prossecução de objectivos específicos da política científica e tecnológica nacional, numa perspectiva de aumen-

tar a massa crítica em várias áreas do conhecimento, procurando sinergias e acrescentando valor à investigação feita em Portugal. Existem neste momento 26 LA em Portugal, todos sob financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e o ICVS/3B’s foi o primeiro LA totalmente baseado em grupos da UM. Quando questionado sobre o panorama actual do financiamento dos LA que recentemente viram as suas dotações reduzidas em 30% comparativamente com o ano transacto, o Professor Nuno Sousa reconhece que a atribuição desta distinção é um estímulo adicional para a continuidade do trabalho em investigação apesar de o Laboratório Associado ICVS/3B’s ser, dos 26 que existem, o que apresenta “o melhor rácio Financiamento Externo/Financiamento Público. Tornando-o “muito pouco dependente do investimento do Estado”, já que grande parte do financiamento obtido já é captado além-fronteiras. Afirmando ainda que, “faz parte da matriz desta escola concorrer a nível internacional, e não somente a nível nacional”. Enquanto investigador alimenta-se no fascínio dos porquês: “a investigação leva-nos à resposta, a uma questão de partida, mas abre um maravilhoso

número de outras questões” e neste sentido já publicou mais de uma centena de artigos em revistas internacionais, nomeadamente na Science. No seu currículo constam também quatro prémios relacionados com a investigação, a destacar o Prémio Janssen Neurociências (2012) subsequente à investigação dos efeitos do stress pré-natal na vida adulta. Quando questionado acerca de planos a médio prazo enquanto investigador diz “ir por onde a ciência o levar”, mostrando-se esperançoso em relação aos futuros investigadores “É o caminho dos porquês, que nós investigadores, nunca sabemos para onde nos leva. Esse é o fascínio da vida. O que nós temos é que ser críticos e reconhecer o que fizemos no passado, saber celebrar o presente e preparar o futuro. Temos que estar no local certo, com as competências próprias para encarar o futuro com confiança. É por isso que tenho prazer de estar aqui a conduzir esta Escola Médica e o Centro Clínico, onde o Nuno Sousa é só mais um que conhece estes princípios desta comunidade pedagógica. E seguramente que esta gente mais nova vai ser melhor que o Nuno Sousa e é isso que eu espero deles”.


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hajaICVS Stress crónico causa dessincronização entre as estruturas cortico-límbicas Emanuel Carvalho 65786

Segundo um trabalho de investigação, realizado no domínio de Neurociências do ICVS, a exposição a stress por períodos prolongados (a que, por exemplo, os estudantes de medicina estão muitas vezes sujeitos!) pode causar uma progressiva dessincronização do circuito entre o hipocampo ventral e o córtex pré-frontal medial, responsável por algumas das alterações comportamentais e cognitivas que esta provoca. O estudo surgiu da “necessidade de explorar em detalhe as alterações electrofisiológicas deste circuito cortico-límbico que explicassem a ligação entre modificações a nível celular e défices comportamentais verificados em modelos animais de exposição crónica a factores de stress”, como refere um dos autores do trabalho, o investigador João Oliveira. Para o levar a cabo, foram feitas duas experiências: a primeira, na qual se gravou simultaneamente a acti-

vidade neuronal do hipocampo ventral e córtex pré-frontal medial de ratos, expostos a um número variado de stressores, durante diferentes períodos; e a segunda, na qual se comparou as medidas electrofisiológicas de determinados animais stressados e normais com o desempenho cognitivo dos próprios, de forma a encontrar correlações entre problemas no funcionamento da rede cortico-límbica e os défices cognitivos. Depois da análise dos dados, a equipa conclui que “o aumento de actividade no hipocampo ventral estava relacionado com a perda de sincronia entre este e o córtex pré-frontal, o que indicia um papel primário do hipocampo como alvo dos efeitos nefastos do stress crónico”, afirma o investigador. Para além disto, acrescenta que “foi também encontrada uma relação directa entre o aumento de actividade neuronal no hipocampo e a má performance na tarefa, o que vem

apoiar a hipótese de que esta actividade desregulada pode prejudicar a função da própria rede e, consequentemente, resultar num défice comportamental”. O objectivo deste tipo de estudos é “indicar novos alvos terapêuticos que possam ser usados quer para tratamento, quer para profilaxia de sintomas causados pela exposição crónica a stressores” e, portanto, o próximo passo na investigação é o “estudo da recuperação dos efeitos nocivos do stress e da caracterização do papel da rede cortico-límbica nessa recuperação”, conclui o investigador. Por último, há que realçar que este grupo de investigação está correntemente a estudar os efeitos nocivos do stress em humanos, sendo os resultados até agora obtidos concordantes com os deste trabalho.

hajaCiência - Novos fármacos com sentido João Carvas, a56833

As promessas trazidas pela genética para o tratamento de muitas patologias têm sido defraudadas uma a uma ao longo das últimas décadas. Será este o ano da mudança? Passo a explicar. No dia 29 de Janeiro a FDA (Food and Drug Administration) dos EUA aprovou um tratamento inovador para a Hipercolesterolemia Homozigótica Familiar (HHF), uma patologia em que o organismo não consegue eliminar o “mau colesterol” (1). A novidade do Kynamro® (mipomerseno) é o seu princípio ativo ser um oligonucleótido de ADN antisentido (asADN). O mecanismo base é o seguinte: quando o gene causador de uma doença é conhecido, é possível sintetizar sequências de ADN ou ARN que se liguem ao ARN desse gene inactivando-o e promovendo a sua degradação e assim inibindo a sua expressão. O gene alvo neste caso é o da apolipoproteína B-100. O fármaco pode ser autoadministrado subcutaneamente 1 vez por semana. A sua eficácia nesta patologia tem vindo a ser atribuída ao fato de estas moléculas apresentarem um tropismo hepático de mecanismo ainda desconhecido. Nos ensaios clínicos mostrou ser capaz de reduzir em 25% os níveis de lipoproteína-colesterol

de baixa densidade (LDL-c, “mau colesterol”), de apo-B e de colesterol total, sem alterar os valores de lipoproteína-colesterol de alta densidade (HDL-c, “colesterol bom” ). Apesar de ser conhecida há 35 anos esta tecnologia limitou-se à utilização em laboratório. Em 1998 foi aprovado um fármaco semelhante, para o tratamento de infeções por EBV em doentes imunodeprimidos. Foi caso único e rapidamente foi ultrapassado por antivíricos mais potentes. Para o sucesso do Kynamro® foram essenciais as alterações química efetuadas em ambas as extremidades da molécula e que aumentaram em muito a sua potência e tempo de vida. Apesar das polémicas este é um passo promissor para a introdução de novos tratamentos para muitas doenças. Existem já cerca de 26 moléculas asADN candidatas para tratar outras patologias e que já estão em fases de testes pré-clínicos e clínicos. Nestas incluem-se muitas doenças cardiovasculares, metabólicas, genéticas e autoimunes. Num artigo recente

da revista científica Nature Medicine, uma destas moléculas foi capaz de restituir a audição a ratinhos num modelo de surdez congénita humana (2). Ficam para já muitas promessas e engrossam-se as listas de fármacos a saber para os exames de biopatologia! Esperemos que esta lista continue a crescer ao longo dos anos com benefício para todos os pacientes. Referências: (1) Declaração da FDA: http://www.fda. gov/NewsEvents/Newsroom/PressAnnouncements/ ucm337195.htm (2) Lentz JJ, Jodelka FM, Hinrich AJ, McCaffrey KE, Farris HE, Spalitta MJ, et al. Rescue of hearing and vestibular function by antisense oligonucleotides in a mouse model of human deafness. Nat Med. 2013 Mar;19(3):345-50.


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hajaNutrição - Alimentação no Desporto Amândia Lopes, 23851

A alimentação equilibrada beneficia todas as funções vitais do organismo e é determinante para qualquer atividade. No desporto, afeta diretamente orendimento físicoem qualquer objetivo (alta competição, perda de peso, manutenção corporal ou recreação), otimizando as reservas energéticas (particularmente, em glicogénio muscular) e hídricas, melhorando a recuperação após o exercício,favorecendo a massa magrae prevenindo algumas lesões típicas(roturas musculares e tendinites). As necessidades nutricionais dependem de vários fatores (idade, sexo, metabolismo basal, regulação térmica, tipo de desporto praticado e respetiva intensidade e duração, condições climatéricas, etc.) e devem ser supridas com base numa alimentação saudável. A alimentação diária deve ser completa, equilibrada evariada, distribuída por várias refeições (5-6, com pequeno-almoço e merendas intercalares) com aproximadamente 3 horas de intervalo, e evitando os excessos em gordura saturada, colesterol, sal, açúcar ebebidas alcoólicas. O azeite deve ser a gordura privilegiada. A energia total diária distribui-se por60-65% de glícidos,15% de proteínas e 20-25% de gordura, devendo-se incluir fontes de amido (pão, bolachas tipo Mariaou Torrada, tostas, cereais tipo Korn Flakes, massa, arroz, batata, leguminosas)em todas as refeições para a síntese de glicogénio. Nos dias antecedentes a um treino intenso ou uma competição, adistribuição será com 70% de glícidos,10% de proteínas e 20% de gorduras. As necessidades de alguns nutrimentos reguladores (vitaminas B1, B6, B12, beta-caroteno e C; sódio, potássio, zinco, ferroe selénio) aumentam,assegurando-se o seu aporte pela ingestão diária de 3 a 5 peças de fruta, sopa e legumes, que também promovem a saciedade e fornecemfitoesteróis, fibras alimentares e água.Por vezes,é necessáriofazer suplementação artificial. O leite eos iogurtes fornecem cálcio,

fósforo, magnésio, vitaminas lipossolúveis ealgumas proteínas, cuja ingestão se completa comquantidades moderadas de ovos, peixe, carnee leguminosas.Os suplementos de aminoácidossão prejudiciais e duvidososno aumento da massa muscular, devendo ser rejeitados. A hidratação faz-se durante todo o dia (no mínimo, 2-3 litros), de preferência com água ou sumos naturais e fora do período de exercício. Se a transpiração forexcessiva durante o exercício, deve-se beber 50-100ml de água ao natural a cada 15-20 minutos; as bebidas isotónicas são boas opções em períodos superiores a duas horas(são rapidamenteabsorvidas e repõemalguns minerais e energia) e as hipertónicas (como sumos de fruta) são mais adequadasdepois do exercício (são absorvidas lentamente e mais calóricas).As bebidas com cafeína e teína (café, chá preto e verde) são diuréticas e excitantes, devendo ser consumidas com moderação e evitadas nos períodos de recuperação. Nas refeições antecedentes ao exercício,deve-se evitar as bebidas alcoólicas e os alimentos ricos em gorduras e proteínas (lentificam a digestão), e moderarosque provocamflatulência (leguminosas, bebidas gaseificadas, repolho, cebola, couve de Bruxelas, ovos). Para evitar hipoglicemias durante o

exercício (por ser intensoou porque a última refeição foi há mais de 2 horas), pode-sefazer,30 minutos antes, uma refeição ligeira (fruta ou sumos naturais com 3-6 bolachas Maria; pão com compota, marmelada ou banana). Nos desportos de média duração (ex.:futebol)é vantajoso repetiresta refeição durante os intervalos e, nos de longa duração (ex.: ciclismo),deve-seincluir alimentos fornecedores de proteínas (queijo, fiambre, leite, iogurtes) a cada 2 horas de exercício. Nasduas horas seguintes ao esforço é fundamental hidratar e ingerir alimentos ricos em vitaminas, minerais, amido e proteínas (sem exagerar nas quantidades)para repor as perdas, depurar os produtos do desgaste muscular e reparar os tecidos. Embora não existam fórmulas mágicas para o sucesso, estas são algumas dicas que poderão fazer diferença, sobretudo se aplicadas com disciplina e perseverança.


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hajaEntrevista - O Estado da Medicina Desportiva Luis Araújo, João Carlos Simões

JOÃO. TERCEIRA GERAÇÃO DE MÉDICOS ORTOPEDISTAS NA FAMÍLIA ESPREGUEIRA MENDES. FIGURA DE PROA DA TRAUMATOLOGIA E MEDICINA DESPORTIVA MUNDIAL. PENSOU EMIGRAR MAS A LIGAÇÃO AFECTIVA A PORTUGAL E AO PORTO DITOU A SUA PERMANÊNCIA. A HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DA TRAUMATOLOGIA E MEDICINA DESPORTIVA EM PORTUGAL CRUZAM-SE IRREVERSIVELMENTE COM ESTE NOME E APELIDO.

HajaSaúde: Como vê a medicina desportiva em Portugal? João Espregueira-Mendes: Em primeiro lugar, acho que Portugal está posicionado de uma forma absolutamente invulgar e com um potencial enorme na área da Medicina e da Traumatologia Desportiva: somos um país Europeu; somos um país que tem um reconhecimento no desporto de alta competição como poucos no mundo; somos um país que tem tido êxitos desportivos, tanto no futebol, como em outras modalidades como o atletismo, de certa forma desequilibrados, tendo em conta a dimensão do país; por último, temos as competências técnicas para exercer um bom trabalho nessa área. Isso pode ser visto de duas formas: De uma forma mais interna e de uma forma mais virada para o exterior (aquela onde tenho atualmente mais interesse e onde estou mais envolvido na minha atividade diária). De uma forma mais interna, a medicina desportiva foi só muito recentemente reconhecida como uma especialidade médica (não abrindo ainda vagas todos os anos), sendo ainda, por isso, o parente pobre da área do conhecimento médico, o que não faz nenhum sentido, já que se considerarmos que dois milhões de portugueses praticam exercício físi-

co regular, teoricamente precisariam de alguém com formação na área da medicina desportiva. O Estado também ainda não olhou para a medicina desportiva com olhos capazes pois somos o único país da Europa onde não há um Instituto de Medicina e Traumatologia Desportiva (espaço único onde o indivíduo/atleta tem acesso a um conjunto de condições transversais para a sua prática de exercício físico como condições de treino, alimentação, prevenção, equipamento desportivo, diagnóstico, tratamento médico e tratamento cirúrgico). A Medicina Desportiva não foi vista com bons olhos no passado mas, nos últimos anos, tem sido vista com mais carinho, embora estejamos ainda muito longe daquilo que é necessário fazer. Nas faculdades, continuamos a formar pouca Medicina Desportiva, apesar da Universidade do Minho ser uma exceção, onde se ensina bastante mais medicina desportiva do que nas restantes escolas médicas, onde nem abordam (ou afloram de uma forma muito ligeira) essa formação específica. HS: Quais as potencialidades da medicina desportiva para um estudante de medicina? JEM: As potencialidades da medicina desportiva para um estudante de medi-

cina são imensas. Por exemplo, se pensarem nas entidades e instituições que necessitem de um médico de medicina desportiva veem que existem bastantes possibilidades, que vão desde clubes de diversas modalidades, associações e instituições. A maior parte delas tem um fisioterapeuta e um médico havendo, por isso, grande espaço para médicos de medicina desportiva nestes clubes, onde são real e verdadeiramente necessários. Depois, temos um conjunto de instituições em Portugal que vão desde as escolas às universidades (por exemplo, a FMUP criou agora uma consulta de medicina desportiva dentro da própria faculdade). HS: Que lugares o Estado oferece para a prática da medicina desportiva? JEM: Praticamente nenhuns. Temos exclusivamente os centros de medicina desportiva, que são notoriamente poucos [no Porto, em Coimbra e em Lisboa], onde também há pouca gente efetiva e, portanto, a solução não passa pelo mercado interno mas sim pelo mercado global. HS: E quanto à formação de especialidade em medicina desportiva, o Estado financia? JEM: Quanto à formação, a ordem dos médicos abre um conjunto muito


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restrito de vagas para medicina desportiva, cerca de uma por ano, ou uma de dois em dois anos. No entanto, por motivos que se prendem com o atual modelo de internato médico, todos estes internos de medicina desportiva são obrigados a fazer a sua formação em hospitais públicos, deixando de fora do seu campo de escolhas, clínicas como esta, com um reconhecimento internacional assinalável. Se me perguntassem se quando tinha a vossa idade acreditava que isto ia acontecer na minha geração, eu não acreditaria. O meu pai foi um ortopedista absolutamente notável, cinquenta vezes melhor do que eu, mais capaz e nunca falou fora do país. Já eu tenho quatrocentas/quatrocentas e cinquenta participações como orador em conferências fora de Portugal, tendo havido um salto notável em apenas uma geração. É um marco absolutamente extraordinário termos conseguido esse posicionamento. Neste momento, estudantes de medicina e médicos portugueses têm as portas abertas para estagiar e trabalhar com os melhores do Mundo nas suas especialidades: Ramon Cugat, Barcelona; Niek van Dijk Amsterdão. Isto é representativo da capacidade que hoje temos de nos relacionarmos com o Mundo. E portanto, há um potencial enorme ainda por aproveitar. No entanto, com melhorias muito

significativas nos últimos anos. HS: E a Medicina Desportiva é uma das áreas que exige mais internacionalização de conhecimentos. JEM: Todas as áreas. O que diferencia a medicina desportiva das outras é que funciona com o cidadão comum e com atletas de alta competição, e é este último ponto que exige a tal internacionalização porque os atletas de alta competição são, por definição atletas que competem aos mais altos níveis, nacional e internacionalmente. Aqui já foram operados um atleta da seleção nacional de críquete da Índia, uma bailarina da Companhia Nacional de Bailado da Croácia, jogadores de várias equipas de topo (Tottenham, Everton, Milan, Real Madrid, Cluj). Mas não podemos também esquecer que estamos agora a entrar numa era chamada de Surgical Tourism. Neste momento, temos um convénio com o NHS (Inglaterra) em que estabelecemos uma relação de trabalho com eles, para colmatar as suas falhas. Assim, as pessoas vêm cá para serem operadas e regressam ao seu país de origem após a cirurgia. HS!: E isso dependeu também da importância que teve o Porto na área da Medicina Desportiva? JEM: Claro! O reconhecimento do Porto. É o que eu volto a dizer: É de fora

para dentro, pois convidam-me mais para falar fora do país do que no meu país. HS!: O que é a Escola do Porto? JEM: A escola do Porto tem três momentos: O primeiro momento na década de sessenta/setenta, onde há um médico ortopedista chamado Carlos Lima, que dá o grande impulso à Ortopedia em Portugal. Todos nós, os ortopedistas da minha geração, pertencemos à escola do Prof. Doutor. Carlos Lima, tendo sido professor catedrático na FMUP e fez escola a nível nacional porque tinha feito doutoramento em Inglaterra, pelo que trouxe novos conceitos, novas formas de fazer Ortopedia e, quando voltou toda a gente queria aprender com ele. O caso da minha família é muito curioso porque o meu avô foi substituído na regência da cadeira de ortopedia pelo Prof. Doutor Carlos Lima. O meu avô não era doutorado e, apesar de não ter o doutoramento, era o responsável pela cadeira. Assim, quando abriu um concurso para a regência da cadeira, o meu avô foi preterido. Como devem imaginar, ficaram completamente incompatibilizados. Mais tarde, o meu pai também quis seguir ortopedia. Mas para onde é que podia ir? Naturalmente, para a equipa do Prof. Doutor Carlos Lima. Ou isso ou a “3ª divisão distrital”. Então foi uma


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discussão à volta da mesa da sala de jantar de doze horas pela noite dentro em que o meu pai fez um ultimato: “ Ou fazes as pazes com o Prof. Carlos Lima para eu poder ir trabalhar com ele ou então eu vou para África. Aqui é que eu não fico a marcar passo!”. Aquilo lá se resolveu e o meu pai foi trabalhar com o Prof. Doutor Carlos Lima e trabalhou com ele quase toda a vida. Esse foi o primeiro momento importante. Depois, houve um momento em que o meu pai introduziu, nos anos 80, a cirurgia moderna de patologia desportiva ligamentar do joelho. Então nos anos oitenta surgiram novos métodos que permitiam reparar ligamentos e isso modificaria completamente a vida dos atletas de alta competição. Anteriormente, o que acontecia era que se um atleta rompia o cruzado anterior ficava arrumado, se rompia o menisco ficava arrumado. Depois, num 3º momento, na década de noventa, aconteceu a internacionalização do Porto., pelo que começaram a fazer apresentações internacionais, gente do Porto começa a ser convidada para participar em várias conferências e encontros da área. E hoje, temos gente do Porto, mas não só do Porto como do País inteiro, porque nós somos demasiado pequenos para estarmos separados, temos de estar unidos. HS: O facto do FC Porto ter tido a sua ascensão europeia e mundial também no final dos anos oitenta contribuiu para a ascensão da Medicina Desportiva? JEM: Sem margem para dúvidas, foi incontornável. No discurso da cerimónia de atribuição da certificação FIFA Medical Centre of Excellence, tentei enumerar o que fez a diferença neste percurso: primeiro, criar as competências, onde as universidades tiveram um papel preponderante; segundo, a adesão de Portugal à CEE, que colocou o país no mapa da Europa e o Porto, com maior protagonismo e visibilidade, era um local privilegiado, e passou a fazer parte do circuito científico europeu da Medicina Desportiva; terceiro, a parceria de longa data com o 3B’s e com Rui L. Reis, que tem sido extraordinária e feito a diferença, contribuindo com um crescente número de publicações científicas nas áreas da Engenharia de Tecidos e da Medicina Regenerativa e, por último, temos o FC Porto, que é sinónimo de visibilidade e

credibilidade internacional e constante superação de limites. Depois, achamos também que as universidades contam muito para isto. O facto de estarmos com a UM e com a UP ajudou muito no processo de internacionalização, fazendo parte do estímulo permanente para a melhoria. A certificação da FIFA foi a cereja em cima do bolo e somos a vigésima quintaª clínica distinguida no Mundo e a primeiraª na Península Ibérica. HS!: Tem no seu currículo várias passagens pelo estrangeiro, mesmo antes do final da sua formação na especialidade médica e doutoramento em 1994/95. Sentiu essa necessidade? JEM: Sem dúvida. Senti-me sem interlocutores no país… Depois doo meu pai ter morrido (1989), senti-me sem interlocutores no país. No entanto, estive na Clínica Mayo, tendo sido convidado para ficar como Senior Orthopaedist e pensei aceitar mas a minha cidade é o Porto e eu sou português. Afetivamente, foi-me completamente impossível aceitar. Achei que podia fazer lá um trabalho muito interessante porque tinha boas possibilidades mas decidi voltar. Depois, fui buscar formação aos sítios onde eu achei que estavam os interlocutores, tendo escolhido a escola de cirurgia de Lyon. Naquela altura, Lyon era a melhor escola de cirurgia da Europa e, em algumas áreas como a rótula, a melhor do mundo e estabelecemos uma parceria que perdura até hoje. Hoje em dia, não há ninguém da traumatologia desportiva em Portugal que não tenha passado por Lyon. Os nossos internos, quando fazem uma temporada no estrangeiro, passam por Lyon. Curiosamente, não vêm aqui à clínica. Ao contrário dos internos de Lyon nas suas residências no estrangeiro, que vêm cá à clínica. HS: De cada vez que voltava para Portugal, após as estadias no estrangeiro, vinha melhor. Sentia que esse valor acrescentado era reconhecido quando voltava? JEM: Pelos meus doentes, sim. Pelos meus doentes, sem dúvida. Eu fiz vários estágios mas nunca passei muito tempo fora, três meses no máximo. Mas quando voltei da Clínica Mayo, cheguei aqui e pensei: “Eu ainda não tinha visto nada. Eu nem sabia que isto existia no Mundo!” No regresso, o impacto é enorme.

HS: Para um estudante de Medicina que esteja interessado na área da Medicina Desportiva e que queira fazer disso a sua carreira, de que maneira é que enquanto estudante, pode começar a investir na sua formação? JEM: Isto é válido para qualquer especialidade e para qualquer estudante que durante o curso tenha uma forte vocação e determinação, como foi o meu caso. Eu queria fazer Ortopedia, nem que a vaca tossisse. No ano em que eu entrei, existiam seis vagas para Ortopedia, uma nos Açores e outra na Madeira, o que é logo um drama. No Porto, existiam duas vagas, uma para o HSJ e outra para o HSA. Por isso, eu trabalhei essencialmente para estas duas vagas. No fundo, trabalhei para uma vaga, a vaga do HSA porque o meu pai trabalhava no HSJ então e eu não queria ir para o HSJ. E consegui. Mas entretanto o meu pai morreu e eu seis meses depois transferi-me para o HSJ, também porque entretanto assumi um lugar como professor auxiliar de Anatomia na FMUP. Mas, durante o curso, orientei sempre a minha atividade nesse sentido. Ou seja, comecei a ir a congressos, comecei a ouvir as terminologias, comecei a aparecer nos serviços, propus-me para fazer urgências. Fazia duas urgências por semana., começaram por deixar-me fazer uns gessos, comecei a ver como se colhia uma história clínica e, quando entro no internato, no primeiro mês, já estava habilitado a fazer uma cirurgia ortopédica diferenciada. É uma enorme vantagem. Aproveita-se o internato a 2000%. O grande risco é ter uma grande vocação, passar o curso a fazer isto que eu aconselho e depois chegar ao exame de acesso e a coisa não correr bem… Pois… Mas isso é viver… Mas eu senti na pele a enorme vantagem de ter definido a minha vocação durante o curso e orientado a minha vida. Por isso, eu aconselharia vivamente, a quem tem já vontade de trabalhar nesta área, na fisiatria, ortopedia, medicina desportiva, reumatologia, a área do sistema músculo-esquelético e locomotor, aliás como nós temos organizado em Braga, a começar desde logo a direcionar-se para isso, a fazer escolhas e a aproveitar as oportunidades para torná-la uma realidade.


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hajaCrónica - O poder do “nim” Daniela Lascasas 53104

Sim e não, bem e mal, certo e errado, preto e branco, tudo e nada ou até homem e mulher, homo e heterossexual, saúde e doença, ciência e metafísica. Dicotomias preenchem o nosso dia-a-dia, ajudando-nos a categorizar, decidir, pensar, compreender e orientar. Tornam tudo mais simples, mais prático, mais cómodo, mas também são conceções mais teóricas do que práticas, ou seja, embora nos permitam conhecer o mundo de uma maneira simples, organizar conhecimento, nem sempre a realidade cabe nos caixotes nos quais estruturámos o nosso saber prévio. Quando não é “sim” nem “não”, é “nim”. O que fazemos quando nos deparamos com um “nim”? Primeiro, podemos ficar confusos e tentar forçar a entrada numa das categorias que conhecemos. É comum ver-se essa situação quando se fala da bissexualidade, por exemplo, a qual muita gente não aceita que exista, como se só fosse possível ser hétero ou homossexual. “É “bi”? Isso não existe… Só pode ser um gay que não se quer assumir de verdade.” É como se o mundo não pudesse ser concebido de outra forma! Mais tarde, a confusão passa (ou não, para os mais teimosos!) e podemos aperceber-nos de que afinal existem mais categorias do que aquelas que tínhamos concebido inicialmente – vários tons de cinza entre o preto e o branco ou, até, todo um arco-íris. Deixamos de ter uma dicotomia e passamos a ter leque de categorias. Também pode acontecer que duas categorias sejam macro categorias, englobando uma série de situações distintas. Um exemplo são as leucemias e os linfomas. Dentro das leucemias ramificamos para as mieloides e as linfoides e nos linfomas para os de células T e B e, por sua vez, dentro de cada nova subcategoria surgem outras cada vez mais específicas e distintas à medida que as patologias vão sendo estudadas aprofundadamente. Nestas situações em vez de

vermos acrescentadas novas categorias a par das que contemplávamos, vemo-las ramificar, ficar mais complexas, porém estruturadas logicamente num diagrama montado sequencialmente nas nossas mentes, o que não nos causa confusão. Esta situação ajuda-nos a acrescentar conhecimento sobre o pré-existente. Temos, portanto, situações em que as categorias que usamos não contemplam a existência de outras em paralelo ou, noutros casos, subcategorias. Mas, sem dúvida, que a situação mais extre-

ma e que nos abala as raízes do que conhecemos é apercebermo-nos de que a categorização que assumíamos não existe tal como a pensávamos ou, por outras palavras, que uma situação pode abranger mais que uma categoria que julgávamos estanques ou mutuamente exclusivas. Nunca mais me esqueço de uma analogia que vi ser usada por um filósofo moderno que discursava sobre a ilusória incompatibilidade entre ciência e Deus (mais uma dicotomia comum!): Está uma chaleira ao lume. Porquê que

a água ferve? Posso dizer que é porque a energia libertada da combustão do gás sob a forma de calor é transferida para a chaleira e para as moléculas de água, excitando-as e quebrando as suas ligações intermoleculares. Ou, então, porque eu quero um chá. O “ou” assinala aqui a aparente dicotomia, mas, na verdade, as duas respostas estão corretas. Temos um “nim”. Vemos física (como?) e metafísica (porquê?) como duas faces de um mesmo fenómeno. Querer forçar o mesmo a pertencer unicamente a um ramo do conhecimento é negarmo-nos a conhecer a realidade nas suas várias facetas. A ciência tem-se focado, e bem, no “como”, na causa mecânica dos fenómenos que nos rodeiam. Porém, é a metafísica, a busca dos porquês, que nos permite conhecer o mundo um pouco mais além, de uma forma mais completa e é, tantas vezes, ela que nos leva às questões existenciais que nos impelem na busca do saber científico. O positivismo de início do século XX já não tem lugar nos dias de hoje, ou seja, negar especulações que ultrapassam a possibilidade de uma experimentação e cingirmo-nos ao que é objetivável para construir conhecimento científico não nos tornou menos curiosos nem nos deu um sentido. O conhecimento tornou-se, sim, num objeto de interrogação em si mesmo, dando origem a muitas questões metafísicas e não é por nos debruçarmos sobre elas que entraremos necessariamente no obscurantismo ou no irracionalismo. Não nos deixemos, portanto, iludir por muros e caixotes do conhecimento. Caso contrário, os “nins” com que nos deparamos diariamente e que nos ajudam a conhecer e a repensar o mundo serão infrutíferos, pois ficaremos presos às muletas com que iniciámos a caminhada do nosso saber sem sermos capazes de dar passos maiores.


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Harvard Medical School - Portugal - Estágios de Verão João Luis Silva, 59234

Enquanto vasculhava a caixa de entrada do meu email, apercebi-me de uma oportunidade única que decidi não deixar escapar. Assim, após candidaturas e entrevistas, consegui um lugar num estágio de investigação laboratorial na Harvard Medical School durante as férias de verão de 2012, esta que viria a ser uma das experiências mais fantásticas que já vivi. Fiquei colocado no laboratório do Professor Golan, no Departamento de Biologia Química e Farmacologia Molecular, onde tive a oportunidade de trabalhar num pequeno projeto de investigação por mim sugerido e seleccionado. Assim, durante o estágio, estudei a interação entre diferentes proteínas membranares presentes em timócitos e macrofágos sob diferentes condições. Foi uma óptima oportunidade para o desenvolvimento pessoal, principalmente pela indepedência que sempre me foi atribuída no laboratório, permitindo-me planear e direcionar o projeto, com a aprovação necessária. Embora a minha estadia tivesse ocorrido durante as férias do verão, decorriam constantemente seminários e conferências gratuitas nos quais tentei sempre participar.

Mas nem tudo era trabalho, ao final da tarde, quando saía de Harvard, normalmente divagava pelo centro de Boston ou Cambridge, acabando em frente ao rio Charles, a ler, ouvir música ou a tirar fotos. Aproveitei os melhores concertos de Jazz, jogos de basebol, o teatro e noites de ópera grátis à beira do rio. Boston revelou-se uma cidade muito fácil de ambientar, com uma oferta imensa de atividades diversas para realizar sozinho ou com amigos. Os fins de semana serviram para “escapar”de Boston e conhecer locais distantes. Visitei várias vezes os nossos colegas que estão atualmente a realizar o programa MD/PhD em New York, fiz roadtrips com colegas com quem morava e viajava de comboio e bicicleta para regiões próximas, como por exemplo Salem, também conhecida como a cidade das bruxas.

Desde a minha chegada, Boston sempre pareceu gritar ciência e evolução, contando com as melhores universidades, hospitais e instituições dos EUA e do mundo. Este ambiente parecia impulsionar as pessoas numa procura ávida pelo saber e conhecimento, e foi este ambiente que vivi durante este estágio. Foi um período de enorme desenvolvimento e concretização pessoal e regressei mais consciente daquilo que quero para o futuro. No final, não paro de pensar em como esta frase engravada num portão de Harvard simboliza perfeitamente esta experiência: “Enter to grow in wisdom”.

hajaDesporto - FC Paços de Ferreira – Um exemplo para pequenos e graúdos Na Liga Zon Sagres 2012/2013, para além da acesa luta Porto vs Benfica pelo primeiro lugar e do fracasso do Sporting, tem merecido grande destaque o excelente desempenho do FC Paços de Ferreira. Sendo uma equipa com um orçamento muito reduzido (cerca de 3.5 milhões de euros, nesta época, muito aquém dos dos “4” grandes), mas extremamente cumpridora em termos fiscais e salariais, o Paços de Ferreira tem feito grandes exibições nesta temporada, tendo inclusive vencido por duas vezes o SCBraga e por uma vez o Sporting. Além disso, tem apresentado uma consistência e uma regularidade que lhe permitem, a 7 jornadas do fim da temporada, estar a disputar com o SCBraga o lugar de acesso à 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões do próximo ano, ocupando um quarto lugar bem próximo do pódio (apenas 1 ponto separa o SCBraga do Paços de Ferreira). Apesar do baixo valor do montante diponível para contratações, o Paços

de Ferreira tem vindo, nos últimos anos, a reforçar-se com jogadores, na sua maioria portugueses, das divisões inferiores. Esta época apostou até num técnico vindo da segunda liga, Paulo Fonseca, que está a ter um desempenho de grande nível. Devido ao evidente sucesso desta equipa na presente temporada, apesar da crise que se vive nos dias de hoje, o futuro afigura-se sorridente para os “castores”. A presença nas competições europeias assegura uma grande entrada financeira e as grandes exibições dos jogadores da equipa têm despertado o interesse dos “grandes” (como o caso de Josué, recentemente associado ao Futebol Clube do Porto), podendo levar

a mais algum encaixe financeiro. O FCPF torna-se cada vez mais um exemplo a seguir, mostrando às equipas mais pequenas que é possível sobreviver sem orçamentos milionários e mostrando aos grandes do futebol português que nem só de argentinos, colombianos e brasileiros se fazem as grandes equipas. Há que ver que, por vezes, “o que é nacional é bom”.


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hajaModa - A Primavera já chegou! Nádia Sepúlveda, a53084, blogger em www.myfashioninsider.net

Se os dias mais longos não o anunciassem, uma visita ao centro comercial mais próxima fá-lo-ia. A Primavera está aí e, com ela, a vontade de investir em peças mais frescas, coloridas, leves... As influências são muitas e as tendências, essas, vão desde conjuntos andróginos até peças românticas com folhos e rendas. A dica é perceberem em que estilo(s) se enquadram e investir nas peças essenciais. As cores dividem-se entre o clássico preto e branco, usados em conjunto, os tons pastel, nude, umas pinceladas de néon, e cores mais atrevidas como o vermelho, o laranja e o rosa forte, não esquecendo o verde esmeralda, a cor do ano 2013! Entre os detalhes mais marcantes figuram as riscas, quer horizontais, quer verticais, os tons metalizados, os tops curtos (numa versão mais desportiva que o Verão passado), os padrões geométricos, os recortes e as transparências para um toque de sensualidade, os acabamentos em folhos para as mais

românticas, as saias com rachas (especialmente em “M”, uma de cada lado), a pele em cores menos usuais, como branco e tons terra, os decotes profundos em V, as aplicações em contas e os brocados, o corte peplum e os incontornáveis padrões florais. Nas silhuetas, ora se procura a sofisticação de uma Gueisha aliada à androginia, ou inspirações modernas, mais relaxadas e desportivas. As bermudas, ligeiramente acima do joelho, regressam em força, assim como os macacões, em vários materiais. As calças usam-se um palmo acima do tornozelo, quer justas, quer em cortepalazzo. O smoking tem especial destaque, e os fatos-calção não podiam ser ele-

gantes. Os vestidos querem-se em linha A, desportivos ou muito femininos. As saias querem-se atrevidas, com rachas e transparências ou a média altura. Com tantas escolhas, de certeza que o que não faltará na vossa Primavera será sofisticação e sensualidade! Agarra-a numa loja próxima de ti!

hajaTecnologia João Pedro Abreu, 53113

A saga Tomb Raider vem-se aguentando, nos seus altos e baixos, desde o seu aclamado sucesso em 1996. Nas várias sequelas, Lara Croft tem-se aventurado por diversos domínios surpreendendo (pela positiva e negativa) os diversos fãs pelo mundo fora. Desde da remodelação feita pela Cristal Dynamics em Tomb Raider Legends, num aguardado regresso às origens, a saga veio a readaptar-se à realidade dos videojogos actuais, acabando por conseguir subsistir, até que, neste mês de Março, uma nova reestruturação fez entusiasmar fãs e não fãs. Neste novo momento da saga, o envolvimento da Square Enix fez subir o nível de ansiedade. A proposta de uma Lara Croft jovem, numa realidade visual bem mais explicita – a heroína passa agora a uma entidade bem mais humana, muito menos indestrutível – é-nos contada a história da origem da saga. Num ambiente de luta pela sobrevivência, Lara vê-se isolada numa ilha muito pouco pacífica, após naufrágio do navio em

que viajava, sem qualquer forma clara de subsistir. O jogador acompanha o processo de aprendizagem da heroína num ambiente de suspense e acção muito aclamados pela crítica. Claro está, que não podiam faltar as referências históricas, muito menos fantásticas não fosse a ilha um antigo Reino, Yamatai – garantindo um fio condutor para com as edições anteriores da saga. Aspectos positivos: uma excelente experiência visual, com cenários fascinantes e extremamente ricos; um modo de combate bem conseguido, com grande flexibilidade e intensidade;

jogabilidade prazerosa, especialmente na exploração dos cenários; os quebra-cabeça ao estilo Tomb Raider bem conseguidos. Negativos: tentativa frustrada de conseguir um bom formato multiplayer.


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hajaSons - Albuns do Mês Francisco Leite, 56188

Phosphorescent – Muchacho(17/20) Com o 6º LP em 10 anos, MatthewHouck mostra uma produção creativa invejável, ainda para mais quando o resultado é um trabalho tão seguro e bem conseguido como este Muchcacho. Com as origens a meio caminho entre Georgia e Alabama ainda e sempre presentes, é um álbum tranquilo e sem pressas, de que Song for Zula (o single) e Ride On, RIghtOnsão os expoentes!

Kavinsky– Outrun(16/20) A impressão imediata em alguém que ouça uma qualquer produção do francês é de que ele certamente sente a injustiça de não viver a vida de um sacana sem lei dos tempos modernos. Basta ver oback-cover dos seus EPs ou do novo Outrun (Deadcruiser, Protovision, PacificCoastHighway), o mesmo sentimento. E como se não bastasse, as suas atuações pejadas de fumo e contraluzes transmitem igualmente a aura de “wannabe” Night-Rider. No entanto, ninguém se importa enquanto criar música tão empolgante como esta, e todos sabem o quanto uma viagem de fim-de-tarde ao som da Nightcall foi um dos momentos preferidos de todos desde 2010. Tempo para trocar para Roadgame. Vão ver que deixa o mesmo gosto no asfalto.

Não deixe passar KendrickLamar + Jay-Z –BitchDon’tKillM yVibeRemixeKendrickL amar + BloodDiamonds – SwimmingPoolsRemix A nova coqueluche do rap mundial cimenta o seu estatuto com uma fantástica colaboração com O REI, a remisturar um dos singles de goodkid, m.A.A.d. city, em que apesar do brilhantismo habitual dos versos de Jay, a força e confiança com que Kendrick cospe os seus em resposta é impressionante! Além disso, um dos produtores mais ativos de 2012 decidiu dar também uma dentada num dos frutos mais apetecidos da música atual, vale a pena ouvir a sua versão de Drank.

VampireWeekend – DianeYoungeStepos 2 primeiros singles para ModernVampireoftheCity (data marcada para 7.Maio), deixam água na boca.

Tens algo a criticar, corrigir, louvar ou sugerir? Queresapenas partilhar a música que andas a ouvir? Envia email para hajasaude.ecs@gmail.com, nova música é sempre bem-vinda!


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hajaAgenda Filipe Costa, 59247

Teatro

Teatro

Cinema

• Conversa com o Homem Roupeiro | Companhia de Teatro de Braga Theatro Circo Braga |2 a 5 abril | 21H30 |5 e 10 € • Câmara Neuronal | Theatro Circo Braga |6 abril | 22H00 |7 € • Falar Verdade a Mentir | Companhia de Teatro de Braga - Theatro Circo Braga |16 a 18 abril |11h00; 15H00 |4, 5 e 10 €

• Iridescente - Maria João e Mário Laginha |Centro Cultural Vila Flor – Guimarães| 6 abril|22H| 12,50€ • Concerto Comemorativo dos 20 Anos da Fundação Bomfim| Theatro Circo Braga |7 abril | 18H00 |5 € • The Wheatherman | Centro Cultural Vila Flor – Guimarães| 6 abril|24H| 3,00€ • Sun Araw| Centro Cultural Vila Flor – Guimarães| 13 abril|24H| 4,00€ • O Grande Medo do Pequeno Mundo – Samuel Úria| Centro Cultural Vila Flor – Guimarães| 13 abril|22H| 10,00€ • A Jigsaw| Centro Cultural Vila Flor – Guimarães| 19 abril|24H| 4,00€ • 27 Ossos –Tânia Carvalho| Centro Cultural Vila Flor – Guimarães| 20 abril|22H| 10,00€ • XXIII FITU Bracara Avgvsta – Festival Internacional de Tunas Universitárias – Tuna Universitária do Minho |Theatro Circo Braga |19 e 20 abril | 21H30 |7 € e 12€ (para estudantes para uma e duas noites respetivamente) • Minta e The Brook Trout – Sai de Baixo| Theatro Circo Braga |26 abril | 21H30 |7 € O melhor – Camané| Centro Cultural Vila Flor – Guimarães| 27 abril|22H| 12,50€

• 4 abril| Conspiração Explosiva |Ação / Aventura • 4 abril| Dou-lhes Um Ano |Comédia / Romance • 4 abril| O Despertar |Terror • 4 abril| O Expatriado |Ação • 11 abril |Catch.44 | Ação / Drama • 11 abril | Esquecido| Ação / Ficção Científica • 11 abril |One Life| Documentário • 11 abril |The Company You Keep| Thriller • 18 Abril | A Oportunidade da Minha Vida | Comédia / Romance • 18 Abril | Celeste e Jesse para Sempre | Comédia / Romance / Drama • 18 Abril | Dead Man Down | Ação / Crime • 18 Abril | Nome de Código: Paulette | Comédia • 18 Abril | Phantom| Thriller • 25 abril | Fintar o amor |Comédia / Romance • 25 abril | Homem de Ferro 3 | Ação / Ficção Científica • 25 abril | Gladiadores | Animação/ Aventura • 25 abril | Um Toque de Fé |Drama • 25 abril| The Haunting in Connecticut 2: Ghosts of Georgia| Drama

hajaAgenda NEMUM Catarina Pereira , 65459

Abril • 4 - Filme de culto • 7 – Rastreios AAUM – Dia Mundial da Saúde • 7-Rastreios Color Run (ANEM) • 8 – Dia Mundial Contra o Cancro • 9- Conversas Médicas • 15 a 19 – IX Semana Cultural Prof. Joaquim Pinto Machado • 18 – Workshops de Domínios e Cerimónia da Bata Branca • 20-IV Jornadas Ciencia e Medicina- Oncologia • 25 – Vamos Rastrear Barcelos • Dia a definir- Workshop de práticas clínicas:“Radiologia: dos pequenos aos séniores”

Maio • 4- Rastreios Dia da Saúde- Projeto Rabo de Peixe • 11-17- Gata na saúde • 21 – Conversas Médicas • 27-Filme de Culto Dia a definir: workshop de práticas clínicas: “Postura no bloco operatório”


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hajaDesafio Um homem, 30 anos, com antecedentes de toxicodependência e hepatite C crónica, recorre ao SU devido a febre, mialgias, poliartrite e rash cutâneo. Nos exames auxiliares de diagnóstico, de relevo os resultados dos testes de função hepática, com ligeiro aumento dos níveis de aminotransferases e níveis normais de bilirrubina. Na imagem, está apresentada a mão direita do doente.

10 anos após o diagnóstico de Hepatite C, é diagnosticada infeção pelo vírus da Hepatite B. Qual das seguintes alterações cutâneas é mais frequentemente encontrada no estádio pródromo da doença do soro associada a infeção aguda pelo vírus da hepatite B? a) Máculas eritematosas b) Icterícia; c) Urticária; d) Petéquias; e) Purpura. Baseado em: http://blogs.nejm.org/now/index.php/arthritis-and-rash/2013/03/29/

Resposta certa: c)


hajaArte Toda a rosa tem espinhos, meu amor, E nem por isso perde a viva chama Que incendeia quem se cuida e ama Docemente, sarando qualquer dor. Pétalas rubras e aveludadas Essas foram feitas p’ra se tocar, Para os dedos meigos perfumar E dar doces sonhos às madrugadas.

Toca cada pétala com cuidado, Beija uma por uma, se quiseres, Como a mais preciosa das mulheres. Respira seu feitiço perfumado, Segura-a com terno e suave jeito E nenhum espinho marcará teu peito.

Daniela Lascasas 53104

Jornal hajaSaúde! NEMUM Distribuição Gratuita. Tiragem: 200 exemplares. Direção: Luís André Araújo. Colaboradores: Abel Branco, Daniela Lascasas, Vítor Gonçalves, André Miranda, Ana Mafalda Remelhe, Filipe Costa, Patrícia Varela, Cláudia Macedo, João Pedro Silva, Nádia Sepúlveda, João Firmino Machado, Célia Soares, Fani Eliana, Rui Miguel Seixal, Nuno Jorge Lamas, João Carlos Simões, Dinis Oliveira. Paginação & Grafismo: José Carlos Rodrigues. Impressão por: Copyscan Contactos

Núcleo de Estudantes de Medicina Universidade do Minho Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho Campus de Gualtar, 4710-057 BRAGA

hajaSaúde!_mar/abr  

Numa edição em que demos especial destaque à Medicina Desportiva, abordando com o Professor João Espregueira Mendes diversos pontos do estad...