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À MOÇA DA CALÇADA Era uma tarde nublada, eu vinha caminhando distraidamente como sempre faço, ia para casa. Vivia uma vida em preto e branco. Meus sonhos haviam ficado em algum filme mudo francês. Limitava-me a ler versos melancólicos e desejar estar em outros lugares – não havia nada de errado com a cidade, era a teia de acontecimentos recentes que drenava minha energia vital. Havia saído de um relacionamento fracassado, e não queria mais saber de seres humanos, de agora em diante só seria acompanhado de palavras e versos. Foi nesse dia que você me apareceu. Seus cabelos negros guardados dentro daquela touca que lhe caía tão bem, as pernas de fora num vestido muito bege para meu gosto, mas ainda assim você. Você. Que eu não conhecia. Você me parou para pedir as horas, parecia apressada, usava salto alto, devia ter um compromisso importante – o que poderia ser? De qualquer forma, eu lhe disse, eram três da tarde, e o agradecimento foi carinhoso. Mas não, a nossa interação não podia acabar tão precocemente, eu tive de lhe interromper ainda um momento, antes que fosse para sempre. Quem é você? Clara, foi a resposta, Clara, claro que seria um nome tão lúcido para um semblante tão lúcido, numa tarde e numa vida tão cinzas. No cinza tudo se parece, mas você trouxe cor, Clara. Mesmo que tivesse sido somente para pedir as horas, ou talvez não, quem sabe você tivesse percebido em meu rosto o gradiê de tons indistintos que eram meus dias, e resolveu fazer uma boa ação; uma ação definitiva, uma comunicação, assim, de poucas palavras, mas inesquecível. Inesquecível. Até mais, Clara!


Até mais, Clara!