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O circo diário do trânsito

Respeitável público, o circo chegou! Hoje tem palhaçada? Tem sim, senhor! Tem goiabada? Tem sim, senhor! E o palhaço o que que é? Motorista de trânsito. Estar no trânsito é, nos dias atuais, como uma ida ao circo. Cheio de palhaços, animais, mágicos, equilibristas e manobras cheias de risco que, diferentemente do espetáculo circense, não são friamente calculadas. Ao invés de varinha, o instrumento usado pelo nosso primeiro personagem é o pisca-pisca. Os mágicos nesse circo têm pressa, não se importam se a fila que eles querem entrar está cheia, eles apenas ligam aquela luzinha mágica que pisca na traseira de seus veículos e entram. Os integrantes mais inocentes desse circo são os equilibristas. Normalmente eles são pessoas de mais idade que já tem dificuldade em ficar em sua pista e acabam em cima das linhas divisoras que se encontram no chão da via. O equilíbrio em cima desses traços é impecável e não há buzina que os convença que estão errados. A falsa sensação de poder proporcionada pelo tamanho é algo comum nesse circo sem lona. Os condutores de caminhões e ônibus acreditam piamente naquele famoso bordão dos motoristas: "Passa por cima, então!". O movimento dos gigantes é tão imprudente que faz com que os pequenos se joguem para a pista do lado sem olhar, causando de duas, uma: um acidente ou uma série interminável de buzinas. Na parte do contorcionismo, não se tem um personagem apenas, mas o destaque vai, sem sombra de dúvida, para os motociclistas. Os motoristas que possuem carteira A se contorcem entre os outros veículos e se aproveitam do espaço dos equilibristas - a linha. O motivo é simples: a pressa. Ela é diariamente imposta pelos chefes de motoboys e, por isso, esses acabam saindo em direção aos seus destinos preocupados com o que ouvirão caso demorem mais tempo do que foi informado ao consumidor. É preferível esperar um pouco mais por sua encomenda do que fazer essas pessoas arriscarem as


vidas todos os dias com esse contorcionismo mortal. A paciência é uma virtude. Existem linhas brancas extremamente grossas em baixo dos semáforos chamadas faixas de seguranças. Apesar de elas serem bem visíveis e existirem inúmeras propagandas de incentivo ao uso delas, os pedestres teimam em ignorá-las e em ir se aventurar no meio dos veículos que estão esperando o sinal abrir. Em Porto Alegre, foi criado um sinal com a mão para os pedestres que querem atravessar alguma rua que tenha faixa, mas não tenha sinaleira, porém isso só incentivou os pedestres a acreditar que podem desafiar os veículos e essa campanha acabou proporcionando, obviamente, mais acidentes. Pedestre não é mímico. Poucos segundos que se espera o sinal ficar vermelho para os automóveis se ganha em segurança para os que querem atravessar a rua. A platéia do circo do trânsito, diferentemente do circo real, é o maior problema do espetáculo. Ela é formada por uma legião de curiosos que gostam de apreciar a desgraça alheia e sua maior satisfação são as batidas entre veículos. Quando uma catástrofe dessas acontece, os abutres, digo, a platéia praticamente para seus carros para poder observar, causando o temido e tão odiado engarrafamento. Esse circo diário não nos faz rir, muito menos nos surpreende. Ele não faz com que queiramos voltar. Sua única semelhança ao circo de verdade, aquele com os palhaços engraçados e os ilusionistas que impressionam, é que no final do dia todos os animais voltam as suas jaulas.

Crônica Jornal da Manhã 2011/2  

Crônica feita para a cadeira de Produção e Redação de Jornal da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS.

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