Issuu on Google+

Ouro Preto de Muitos Caminhos Coletivo Tacitistas


Sumário 5 Uma “Quase” Introdução 6 Acesso 10 Conflito 14 Nostalgia 18 Olhares 22 Pedro 26 Religiosidade 28 Redenção 32 Resistência 36 Sino


O rio que fazia uma volta atrás da nossa casa era a imagem de um vidro mole... Passou um homem e disse: Essa volta que o rio faz... se chama enseada... Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa. Era uma enseada. Acho que o nome empobreceu a imagem. Manoel de Barros Livro das Ignorãças


Uma “Quase” Introdução Bem vindo você acaba de chegar a nós e somos muitos, estudantes, papagaios, gatos e cachorros, ainda assim aqui há espaço. Estamos no Morro do Querosene na rua Afonso Vaz, no começo dela precisamente, sentido centro da paulicéia. Uma rua estreita e inclinada, mal iluminada, repleta de fezes de animais e rachaduras. Pássaros ruidosos acordam o céu nas manhãs. Há muitas árvores, buracos de pica-paus nos troncos apodrecidos de quintais murados. No começo dela, tem um buffet infantil cafona e desagradável do lado direito para quem sobe a rua, muro alto cor rosa e azul claro que acompanha a ladeira até um conjunto de cortiços, e do outro lado, uma Igreja Evangélica de japoneses endinheirados e felizes, com seus carros importados ou ônibus fretados que ocupam o espaço do ponto-deônibus da avenida. Subam esta ladeira de paralelepípedos gastos e escorregadios, cinzentos e brutos, depois passem por debaixo de um chorão cujas sombras escorrem e escurecem o asfalto irregular da rua, mais duas curvas, e estarão aqui. Aqui temos palavras e imagens, há também textos, e eles são livres, a receita é de um glossário, mas os ingredientes são todos os históricos. Você tem em mãos um glossário, um glossário, sim, histórico, imagético e lúdico, ainda assim glossário, mas não tão óbvio. Qualquer dúvida ligue.

-5-


Acesso


Acesso Outra hora eu estava lembrando o dia em que cheguei à cidade. Não conhecia ninguém, nem eu mesmo. Estava confuso, não sabia como ou por que fui parar ali. Mas logo percebi que a minha presença era motivo de grande controversa. Uns me olhavam com indignação, outros com grande satisfação. Apesar de alto, forte e imponente, sempre fui muito tímido. Mas parece que como por ironia do destino me colocaram no centro de tudo. Sim, bem no topo da cidade, em frente à construção mais suntuosa – acho que eu não poderia chamar mais atenção. No entanto, havia a vista. A vista era linda! Eu enxergava a cidade inteira: pessoas, ladeiras, casas, igrejas. Assim, logo tomei para mim o papel de zelador, de guardião de tudo aquilo que meus olhos alcançavam. Minha função era simples: abrir e fechar. Costumava abrir às oito horas da manhã e fechar às sete horas da noite. E o tempo foi passando... Até a noite da crise. Eram duas horas da madrugada, chovia muito e tive um sonho perturbador. Sonhei com um cadeado enorme, mesmo gigante, que me cobria todo e impedia que as pessoas entrassem. Acordei assustado. Uma epifania! Vi a imagem completa, ali estava o real objetivo da minha existência no mundo: trancar! – Certa vez, ouvi alguém dizer que “o óbvio era a verdade mais difícil de se enxergar”, só esqueceram de acrescentar: também a mais dolorosa. Sim, trancar! Por que se a minha função fosse abrir, a minha existência seria completamente injustificável, beiraria o ridículo. -7-


Lembrei-me daqueles primeiros olhares de indignação, daquelas pessoas que me olhavam como se eu fosse um criminoso. Lembrei da construção de todo um mecanismo de defesa: limitava ao máximo a passagem daquela gente, cuja presença destoava imenso do passado glorioso do edifício que eu nobremente protegia – eu havia aceitado o discurso daqueles que me colocaram ali com tanta satisfação. Durante a vida inteira, pensei ser um “nobre zelador”, um facilitador, que zelava dia e noite por esta antiga casa, quando, na realidade, sou um simples instrumento de controle. Controlo quem entra, quando entra, como entra. Não abro portas, encerro-as. O que fazer? Eis a grande crise! Na minha condição de portão, não posso me rebelar, sou fixo, preso, imóvel.

-8-


Conflito


Conflito Ouro Preto é uma pequena cidade, grande em tradições, media em ação. Mais rica em satélites que em tecnologia. As cidades do entorno formam uma rede complexa e orgânica de fluxos e refluxos, vindas e voltas. Aquele senhor é de Belo Horizonte, mas seu silêncio se volta a OP. O filho é parte do sistema penal que visa recorrer à violência caso da violência recorramos. A consciência é da necessidade de preservação do patrimônio. Esta, é claro, é devido ao tempo e espaço sendo ambos de forma atemporal e universal. Católicos somos. Para construir tal patrimônio, apenas ungido pelo espírito do santo. Entretanto, para forçá-la na goela do povo, apenas esforçando com armas em punho. A criança via tudo. Sua altura era de relação com o coldre do oficial. O cavalo do outro lado também estava lá. Passou da Rua Direita com a espada em mãos. O menino estava cansado. Tanto subir! Mas, lembrava da avó que sempre dizia: descer que é o pior, os joelhos não agüentam!… Aquele homem assoviava um sucesso. O para lamas daquele carro enferrujava de tanta água. Do beco, explodiu a violência! Pelo coldre, assistiu a tudo. Correu e, lembrando das palavras da avó, poupou os joelhos, aproveitou a chuva e deslizou, ao infinito. Suas asas, feitas de água e ódio, ensandeceram, incendiaram. Da água, fez-se vapor, do ódio, amor. Do calor, vento, suave brisa... Do coldre não se livrou, deus pai que estejas aqui para cuidar que - 11 -


decorra o estopim - da bomba atômica que está a explodir. Dos indigentes, distantes e pouco tementes, não muito se esperava. Eram cristãos, ao menos isso se considerava, Cristo. Construíram, em sua homenagem, um carpete de lantejoulas e traquinagem. Fora de vontade, fora de forma, fora de coragem. Esta fôra deixada. No Rio, que já era de fevereiro, março, abril, as chuvas haviam passado e o excremento limpo... Não eram mais lembrados. Aqueles artistas, globais por infortúnio, eram mais que tudo a todo o mundo. Ou apenas, a duras penas, era justo o nosso Brasil...

- 12 -


Nostalgia Há 10 anos ele não voltava para Ouro Preto, mas a morte repentina da mãe obrigou-o a retornar a sua cidade natal. A irmã estava devastada – afinal, era ela quem cuidara da mãe idosa na última década. Ele partira em busca de novas oportunidades, constituíra uma nova família, tornara-se um empresário de sucesso. Ela ficara. Agora ele estava de volta e talvez por culpa decidiu ficar mais uma semana para ajudar sua irmã a retomar sua vida. A cidade continuava a mesma. Sempre fora a mesma. Maldita cidade parada no tempo. Em nada parecida com São Paulo, a cidade mutante. Mesmo passadas mais de duas décadas que partira para São Paulo, ainda lembrava-se de cada esquina, cada paralelepípedo, cada subida de Ouro Preto. Por isso sempre dizia: maldita cidade parada no tempo. Já podia imaginar as conversas que teria com aquele povo provinciano, sobre a vida na cidade grande, sobre sua Mercedes, sobre as viagens para a Europa. Maldito povo provinciano. O enterro ocorrera no dia anterior, mas faltava organizar com o padre a missa de sétimo dia. Seguiu seu caminho para a Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar, onde sua mãe era devota, a fim de garantir que tudo estivesse preparado. Sim, claro que a beata da sua irmã já havia tratado com o padre na missa da manhã e já estava tudo certo. Havia perdido sua tarde para fazer isso – se soubesse que não era mais preciso ir até a igreja, teria de bom grado encontrado coisa melhor para fazer. Tomou o caminho para casa, irritado com o tempo perdido, .

- 15 -


e nem percebeu quando gritaram por seu nome. Notou somente quando encostaram em seu ombro. Virou-se e logo a reconheceu. Continuava igual apesar dos 25 anos passados, com aquela beleza que lhe era particular - o nariz largo e a boca fina criavam uma harmonia estranha e sedutora. “Venha, sente-se aqui”, ela lhe disse – e, ainda impressionado com esse encontro, aceitou sentar-se no banco da praça para prosear. Lembrou-se que fora nessa mesma praça que ele havia declarado a ela seu amor, onde deram seu primeiro beijo – o primeiro de suas vidas. A vida dela havia sido simples: casamento, filhos, o negócio que ela – sim, ela – expandira e transformara em um respeitável restaurante para turistas. Lembraram-se de seus antigos amigos. Das brincadeiras de rua. Dos namoros nas praças. Dos professores do colégio. Pela primeira vez em muitos anos ele sentia aquilo: saudades de Ouro Preto. Da mãe. Da irmã. Do café com pão de queijo. Da missa aos domingos. Do vento noturno gelado. Da vida sem pressa. Daquela cidade parada no tempo. Lembrou-se da excitação juvenil naquele dia na praça – acreditava que o mundo lhe pertencia, que poderia ser feliz eternamente. Lembrou-se das mãos se tocando levemente, apenas insinuando seu desejo. Da frase, dita após tantas horas buscando coragem – “você é a menina mais bonita que já vi”. Do beijo, no começo tímido, e que aos poucos se tornou mais caloroso. Do medo de ser pego pelos pais, naquele delito tão inocente. Lembrou-se de sentir a paixão tomá-lo pela primeira vez. E lembrou-se também de - 16 -


como, dois meses depois, ela decidiu acabar com esse amor e o trocou por outro rapaz, mais velho - um universitário vindo da capital. Percebeu que foi nesse momento que decidiu aceitar a oferta de seu pai e estudar em São Paulo: para se tornar um empresário de sucesso. Lembrou-se com carinho da tristeza da mãe ao ver o primogênito partir em busca dos sonhos nunca alcançados pelo pai – aquele ideal de riqueza tão distante dos valores cristãos, que a mãe tanto se esforçara para ensinar-lhe. No entanto, não dividiu com ela seus pensamentos. Contou-lhe sobre a vida em São Paulo, sobre sua Mercedes, sobre as viagens para a Europa. E assim, eles se despediram.

- 17 -


Olhares


Olhares Longa caminhada vertical. O que esperávamos ver na chegada? O que ouço é uma fala marcante: “Os turista, como vier tá bom!”. Quem a diz o faz num sorriso, espontâneo ou não, e demonstra simpatia e otimismo em relação a nós, os intrusos. Mas é fácil detectar em sua exclamação um profundo conformismo, uma tentativa de ser otimista não apenas em relação a nós, mas à sua própria situação, a de ter que lidar conosco. Pelo menos ele tem a chance, e é besteira achar que não percebe isso, de acompanhar tantos deslocamentos e grupos itinerantes; a síntese do desejo de ver de perto o que se ouve falar quando se está em casa, a necessidade das viagens. Mas não apenas ver, o que queremos mesmo é absorver intensamente todas as informações: o prédio, a casa, a arquitetura, a igreja e o sino, o ritmo do sino, o pé direito e as cores da janela; há também todas as figuras que destoam da nossa rotina e da nossa percepção de mundo cotidiana; são os velhinhos violeiros, as senhoras religiosas, a procissão, as crianças que brincam livres na rua de pedra. Antes de voltar pra casa queremos nos encantar com algo, e ter acesso a qualquer coisa que seja “folclórica”, assim legitimamos mais nosso percurso. Viajar não deixa de ser uma tentativa de fazer a imaginação trabalhar, mesmo enquanto estamos no momento próprio da viagem, quando assumimos o papel de turistas (talvez soe melhor “viajantes”). Na subida da ladeira não percebia o quanto era intrusa; dou-me conta do papel que assumi quando o casalzinho de namorados sentado no - 19 -


banco da praça em frente à igreja, muitíssimo jovens, 12, 13 anos no máximo, lança um olhar feio para meu grupo. A menina usava roupa curta, o menino um boné pra trás; estão muito a vontade, são visivelmente donos daquele espaço, sabem se locomover por ali e qualquer um percebe que têm uma sintonia forte. Por ainda serem crianças compartilham a intimidade como colegas, amigos. A praça onde estão é um espaço estreito apesar de circular, o banco é pequeno, só cabem os dois, o lugar tem poucas árvores ou outros atrativos. Naturalmente o olhar volta-se para a força da construção, para a igreja. Com uma intensidade diferente percebo os morros ao fundo; formam uma mancha verde escura com pinguinhos coloridos, as casas desprivilegiadas, que são boas de olhar e de longe parecem bonitas. O céu contrasta com o morro, e olhando de relance o verde escuro pode até parecer cinza, e a montanha pode parecer céu fechado, chuva que vem vindo. Mas na verdade não é nada disso; não identifico mais nada, pois não sei onde estou. Ali naquela cidade parece que estamos sempre em um vale, por mais que tentemos alcançar o topo. De repente percebo uma aflição entre o jovem casal, começam a lançar olhares ao entorno, à manada que após subir a ladeira se senta nos degraus da igreja ou no chão da praça, de mochila e garrafinha na mão. Até então eu mesma achava que podia olhá-los como parte do cenário: a praça, o banco, a menina e o menino, juntos, abraçados, chamando atenção pela pouca idade. Se estivesse na minha cidade não os olharia assim, pois lá não há ânsia de absorção - 20 -


de identidade nenhuma. Não sei bem o que eles representam, mas também por que devem representar algo? Eles se levantam e vão embora. Soco no estômago! Destruímos tudo. Estou, talvez de propósito, estrategicamente posicionada em relação ao banco e consigo trocar uma idéia com o moleque: “Acabamos com o clima de vocês! Desculpa.” A resposta foi a tal fala marcante, e me surpreendeu. Até então ele me parecia meio antipático e achei que sua reação seria defensiva, pois me dei o direito de me envolver mais ainda em sua privacidade, na tentativa de puxar um assunto, a partir de minha próprias ambições, percebi o quanto ele e os locais são ativos em relação à nossa recepção, e também em relação à maneira como lidamos com o espaço onde eles vivem. Não poderiam jamais ser como imaginei que fossem, passivos frente ao desenrolar da invasão de turistas.

- 21 -


Pedro


Pedro Ladeira da sofreguidão, luz baixa que enuncia noite escura, como quem olha lá para cima e não vê, mas faz dos braços, asas! Chegar a Ouro Preto e nela andar com quem bordeja caminhos, chegar, mais do que ir a ela, é caminhar num acúmulo de peças, subtraídas num acidente pacífico, num tempo outro que o barulho era tão mais ausente e o cansaço, tardio, só na alta noite vinha sussurrar seus reclames. Não há caminhos na Ouro Preto feita pelos pretos, há pedra, variada pedra que nenhum de nós reconhece. Pedra mais do que caminho, ladeira mais que declive de um traçado do ouro. Feita de pedra, sem caminho, feita de ladeira, caminho sem ouro. Ouro Preto é patrimônio da pedra, que molda e se gesta na venda de um desvalorizado anti-ouro. Ali todos são de pedra: as crianças, o passado que brinca, a memória, as mulheres, todas elas fugidias amantes de Ló[1]. Suas pedras clamam aos profetas [2], que por mãos de Francisco aleijado ganharam outra forma. Na Ouro Preto, sem caminho mas de pedra, é possível cantar salmos e celebrar a vinda do deus de pedra que, por trabalho de seus filhos pretos, foi presenteado de variadas casas.

- 23 -


Os anjos ali sibilam uma língua incompreensível, uma morta língua que os pretos de outrora oravam a Ogum. Uma língua como pedra, derramada como grãos de uma riqueza alheia, tornando a língua pedrada, a voz calada, a mente quieta. E celebram os dias-festas e

colorem o traçado das gerações. As crianças, sendo o colorido comum dessa cidade inexistente, perpetuam a fé de pais descrentes diante do Agnus Dei. Subir, todos assim querem, escalar a fissura da cidade pedra que nua ficou. No consumir da pedraria o que resta é: sangue, comércio da alma, cansaço do corpo.

1

Ló é uma personagem do Antigo Testamento, sobrinho do patriarca Abraão. Sua

história se relaciona ao episódio da destruição das cidades de Sodoma e Gomorra. Na narrativa bíblica, a mulher de Ló olha para trás, quando da fuga das cidades por destruir, e por isso é transformada numa estátua de sal. Na região em que tal narrativa é construída, na costa sul do mar Morto ainda existe um reservatório natural de sal, onde se acumulam imensas pedras de sal. 2

No evangelho de Lucas, 19: 40, diz Jesus aos fariseus: “Asseguro-vos que, se eles se

calarem, as próprias pedras clamarão”. Eu propus uma ridícula inversão.

- 24 -


Religiosidade Não é necessário andar muito para encontrar, nesta cidade, um dos vários locais onde aquele minério, que há séculos atrás fez tantos homens se aventurarem por estas montanhas, está espalhado por toda parte, através de obras que já resistem a séculos de história. Nesses locais, que foram construídos por homens que vieram do outro lado do mundo contra sua vontade, muitos se agarram à fé, acreditando em uma vida posterior a essa, como forma de suportar as dores que vivem nesta. As igrejas de Ouro Preto, esses locais representativos da tradição e da religiosidade de gerações de famílias que, junto com uma multidão ao menos uma vez ao ano, andam em procissão pelos caminhos tortuosos que, pelo menos por um dia, não são feitos apenas de pedras, mas também decorados por um tapete de variadas imagens, composto de vários materiais e desenhado por pessoas vindas de muitos longe. Não em busca do ouro que era tirado da terra, como acontecera há trezentos anos, mas que mesmo assim acabam se vislumbrando com este ouro, que ainda permanece nas várias igrejas espalhadas pelas ladeiras da cidade. Ladeiras que assistiram ao Triunfo Eucarístico no século XVIII, festa que simbolizou não só a exaltação do ouro no momento de sua maior abundância, mas também a religiosidade que faz parte da cidade desde os seus primórdios. Ladeiras que assistem agora a procissão do domingo de Páscoa, continuando a tradição religiosa ouro-pretana. - 27 -


Redenção


Redenção Observamos atentos, ressecamos ao sol matutino a embriaguez da noite anterior que ainda adormecia o corpo. Á margem de uma multidão de fiéis e beatos mais ou menos enternecidos com a representação da suposta Ressurreição de Cristo, do seu sofrimento e salvação. A cabeça de madeira de São João Batista na bandeja apoiada nas mãos de uma mulher de vestido longo e olhar austero, vestido leve e esvoaçante a arrastar as raspas de madeira tingidas que desenhavam formas nos paralelepípedos, como pombas, cruzes, e que eram pisadas, desmanchadas

pelos

passantes

da

procissão

,estremecia,

impressionava, no domingo de Páscoa, que significa em hebraico “passagem”. Uma transformação ocorria em nossas vidas. No calendário cristão, período como este para expurgar as dores da alma e dos supostos pecados são necessários, para projetar um futuro de esperanças antes que finde a existência na Terra, e sejam assim glória e felicidade eternas. Tornar a existência humana suportável, assim como as desigualdades sociais, o trabalho, a morte. Desfilando a passos lentos, a encenação da lembrança do Sofrimento de Cristo. Éramos os investigadores profanos atrás dos gestos das pessoas comuns que estavam na procissão; os semblantes contorcidos ou estáticos indicavam o grau de envolvimento emotivo das pessoas com a festa. Para entender o sentido daquela procissão, precisávamos nos desprender momentaneamente de preconceitos, e aceitar o conteúdo - 29 -


religioso daqueles atos, simplesmente. O importante estava na emoção compartilhada, de um projeto de sociedade, na empatia entre uns e outros, a comoção que dava sentido aquele agrupamento de pessoas. As ruas de Ouro Preto brilhavam com as resplandecentes cores de panos pendurados nas janelas, e das vestimentas requintadas, o movimento da multidão embalado pelo sopro dos metais se espalhava pelas ladeiras empedradas. Os monumentos e patrimônios históricos, lugares de memória, estavam ocupados pela multidão e davam sentido à existência social, que se esquecia momentaneamente da reprodução da vida material, do trabalho, aproximando um Deus dos homens, o tempo divino e o tempo natural, biológico. Não queria apenas pensar na crítica a essa sociedade, sua hipocrisia, a encenação social, a ideologia religiosa, as desigualdades historicamente construídas e sua hierarquia, das limitações impostas à política devido a uma lógica e racionalidade absolutas, metafísicas. Crianças brincando, beatas emocionadas, e os descrentes de coração frio como eu, querendo alento impossível na insustentável fé em Deus, criador e criatura, filho e pai, seguem a banda de metais na procissão soprando o lodo dos musgos dos monumentos da cidade, vento nas sacadas das fachadas brancas e panos roxos ou vermelhos pendurados, dobrando. Um sorriso no rosto de senhoras, elevadas em suas sacadas, olhando a rua e acenando aos que passam. Já de noite, frio de Lua despontando no céu, as sombras pendem sobre as paredes caiadas, e as janelas austeras, retangulares, sem qualquer vulto, tem apenas a luz de dentro, fraca, expressão de .

- 30 -


recolhimento, ausência. Onde os inconfidentes conspiravam seus planos, inspirados pelo exemplo que vinha de fora, como a Independência das Treze Colônias inglesas na América, inspirados pelas idéias republicanas iluministas, utopias políticas, é a literatura subversiva que no Brasil causa repressão policial violenta, ou razão para punição com morte exemplar, pois nem os inconfidentes eram abolicionistas, tampouco brasileiros, mas mineiros, porque dependiam economicamente da escravidão e não existia um sentimento de identidade nacional, apenas Joaquim da Silva Xavier queria o fim da escravidão e tinha projetos políticos mais audaciosos, o alferes Tiradentes, mártir, herói póstumo da República, infeliz, desgraçado. Maldita a sua memória e da revolução que no Brasil nunca houve.

.

- 31 -


ResistĂŞncia


Resistência Mãos negras tocam o gélido metal dourado, enquanto caminham sobre paralelepípedos gastos e irregulares, pedras pretas e frias que se assentam nas ladeiras escorregadias de uma cidade de vil metal dourado, que encheu de luz as casas e as idéias de alguns, contrastando com o lamento de noites escuras de um céu negro, cujo brilho celeste escondia-se atrás das galáxias nebulosas das nuvens. Gente de pele escura que fez de seus lamentos monumento resistente e sólido, como as pedras duras que alicerçam pelos cantos uma cantoria choca, misturada à magnitude de sinos, torres, naves e altares-mor. Madeira escarificada pelos negros que com suas mãos quentes tocaram o frio metal dourado, também denominado como preto, que encheu os veios dessas madeiras, hoje elevadas a patrimônio e acrescidas de História com H maiúsculo, ou capital. Luz sobre um passado que ainda hoje busca esclarecer-se e atingir a maioridade. Longe da maioridade aquelas mãos negras, ainda hoje, tocam metais dourados sobre caminhos irregulares construídos em pedra dura e escorregadia, que esconde veios, pequenas fissuras, declives, dissonâncias e improvisos. Instrumento de sopro, alto ou baixo, feito de metal frio, que em sua origem foi tocado pelas mesmas mãos negras e quentes, mas que outrora, feriram-se nos espinhos e mancharam de sangue a cor neve do algodão dos brancos. Lamento que tornou-se resistência e que - 34 -


hoje, assim como as escarificações da madeira transformaram-se em espetáculo, para esses homens e mulheres, em sua maioria alvos como algodão, outrora, branco, mas sujo de sangue, colhido pelos escravos no delta de um rio longo, palco de disputas. Que em tempos e espaços outros também existiram nas ladeiras de cá. Hoje, celebração fúnebre de frio que pinta as pedras gastas e irregulares com cores quentes que iluminam e esclarecem o retorno de um deus distante, mas presente, que faz fiés, na manhã seguinte, arrastarem-se que nem cobra pelo chão, depois de sujarem suas mãos, quase brancas, do negro que envolve a serragem cheia de cor e de luz. E as mãos negras que tocam esse metal frio se não mais resistem ou lamentam, ao menos opõem e relembram as pedras gastas, frias e irregulares que por debaixo dos tapetes mantém-se ali, pretas e sólidas. Permitindo ainda sopros irregulares, dissonantes e livres que saltam entre as fissuras dos paralelepípedos buscando, quem sabe ainda, sons mais livres. um evento

- 35 -


Sino


Sino Instrumento Metálico Que vibra e Produz Sons Mais ou menos fortes Quando neles se Percute com o Badalo Sino som da infância Do passado, da igreja, Da cidade do interior, Da casa da vó, Da noite de páscoa e De natal Sino anuncia, controla, Marca, aponta e dita. Vibra. Sino som que celebra o tempo E que do alto da torre, vigia, Sem piscar, observa atentamente. Sino, som da lembrança.

- 37 -


Fotografia Maurício Freitas

Textos e Produção Ariel Pires de Almeirda Beatriz Lanna Caio Forte Guilherme Leite Gustavo Sanchez Flávia Lima Julia Passos Leandro Junqueira Maurício Freitas Priscila Nina Vinicius dos Santos

Agradecimentos Cauê Teles Taís Araújo Robinho

- 38 -


Paisagem-protagonista, tem vida, quase grita, chora, quais hist贸rias conta, de mudan莽a e revelia Guilherme Leite


Ouro Preto de Muitos Caminhos