Issuu on Google+

ÍTALOTUPINIQUIM Gustavo Pieroni

1


2


3


PREFテ,IO

OICテ:ERP

4


ÍTALO TUPIN IQUIM G U S T A V O P I E R O N I

5


6


7


Poesia

Prosa

In Disse I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI XXII XXIII XXIV XXV XXVI XXVII

11 12 13 14 16 17 18 19 20 21 22 24 25 26 28 29 30 31 32 33 35 36 37 38 41 42 43

Sobre o fio (ou sur le fil) - 1 Da obrigação de se ter obrigações Valsa Humana Uma Noite No Eterno Crepúsculo

Quadrinhos

45 47 51 53 64

8


9


10


I Neste planeta primitivo e também terra em que vivo andando por aí volta e meia tudo que ouço é a rouquidão daqueles que até então vociferaram a voz alheia

11


II Todos morreram apenas minha vida foi poupada sou o tudo sem nada sou a n達o-vida desabitada O tempo n達o tem passado o tempo sou eu e eu estou aqui parado Mesmo hospedado em mim mesmo tentado ao fim Nunca tive tantos amigos assim

12


III Era um adolescente primitivo sofreu por amor e por um falso e-mail informativo acabou por guardar todo o rancor Depois de tanto rancor acumulado aprendeu a filtrar o ruim e o bom mesmo assim nunca se sentiu amado ficou para sempre em seu quarto curtindo um som fazendo o que aprendeu ao ser decepcionado filtrava as pessoas, as músicas, a água e os e-mails mas o bom sempre era descartado Cresceu descobriu o salário virou um grande empresário foi à loja mais cara e comprou seu terno nunca mais caçou mamute com seu pai para ele isso era um inferno olha só, já até sabia o que era o inferno... como eles crescem, né?! já é quase um homem moderno

13


IV Meu quarto cheira a repelente Disse ele e fechou os olhos de repente e mergulhou na escuridão e deleitou-se do caos inexistente que um dia desejara, em vão e só. O repelente não mais lhe ardia as narinas. Só desejava agora, por um instante, voltar ao campo florido ao pomar que ficara por todo esse tempo esquecido onde o cheiro dos frutos doces limpou-lhe as narinas. Envolveu-as . Nunca mais. Mas ainda podia lembrar-se daquele cheiro, só queria senti-lo mais uma vez E sentiu, e sorriu, e reviveu, e morreu. Morreu para poder se livrar do repelente, morreu para poder apenas se lembrar de quando gente: respeitou, regressou, tornasse rês repetiu, repetiu, repetiu, repetiu. reconheceu, reclamou, tornasse rei reprimiu, reforçou ... repeliu. ------

14


------

Se tivesse mais alguns segundos para poder se pronunciar certamente diria a gaguejar Meu quarto cheira a repelente Minha pele cheira a repelente Minha vida cheira a repelente Meu mundo cheira a repelente Nunca deixaram-me em paz zunindo, zanzando, zoando. Malditos Insetos. Me alegro, não porque deseje me livrar da luz -embora eu desejemas porque irei me livrar deste odor insuportável não porque não mais sentirei mas sim porque nunca mais conviverei com Insetos. Seus olhos se fecham enquanto seu sorriso se abre enquanto suas narinas se aliviam enquanto outros nascem enquanto abrem os olhos enquanto se enrijecem enquanto percebem enquanto dizem Meu quarto está cheio de Insetos 15


V Há razões em viver para morrer, quando podemos quiçá morrer para viver? É que não podemos Existe um obstáculo imundo Este obstáculo que para muitos é o limite profundo das terras do submundo oriundas do achismo; Em minha vida diferente do abismo o obstáculo não é mais nada do que o velho ceticismo e uma pitada de egocentrismo

16


VI Sente-se e sirva-se almoçaremos o dia de ontem sinta-se à vontade devoraremos algumas saudades algumas vontades não realizadas maldades, bondades, vaidades e no fim não comeremos nada. Serviremos a repressão comeremos em comunhão ditaremos o sim e o não beberemos todo esse mar empanturremo-nos deste ar Apenas tome cuidado com os espinhos

17


VII Simplesmente... Amor Ditou um ditador; Que o ditado mais Besta é o ornado de Amor. Pensou um pensador; Que só pensara pois primordialmente Existira o Amor. Concluiu este autor; Simples assim… Que a vida não é vida sem a Simplicidade do Amor

18


VIII Já não mais amor O sentido que já(z) se foi, Quer sentir-se útil. Renascer em meio à morte, proliferar-se em meio ao infértil. Mal sabes, meu coração agora já não mais teu, petrifica e fica… Imune, ivulnerável. Espessa camada de razão. Tristeza disfarçada em frieza. Não mais me acomodo às regalias do amor; Quem dirá dispor-me à amar-te, Novamente.

19


IX Se o bate estaca de todo o mundo um dia parar e por um acaso igualável você me encontrar renuncie o pudor deixe-me modificar-lhe a porta da vida deixe-me encher-te do meu prazer o prazer da vida afogue-se e por um instante antes de morrer serei o único bate estaca em funcionamento no mundo neste mundo tão fundo neste só nosso mundo

20


X Tanto conheço-te sendo mero desconhecido. Há de ser o destino. Há de ter algum sentido. Ah! Pudera eu ser o teu amado. Inspiro por hora bem mais profundo. Mereci eu ser castigado? Lembro-me do primeiro beijo, tão sutil. O beijo que nunca existiu. Idealizada por mim não diria. Por natureza já és ideal. Soturno sentimento. Que com teu amor me livre deste infortúnio banal. És de beleza sem igual. És de encanto colossal. Peco ao amar-te sem ao menos poder a pele lhe tocar. Imagino tua doce voz que nunca hei de ouvir. Vocifero a agonia que minha mente não há de intervir. Ares de inquietude. Desespero-me por não poder em teus olhos olhar. Temo a vida, se é assim que me concebe. Se só tenho-te em meus sonhos ao entardecer, ouso dizer que preferia fechar os olhos e me deleitar deste sonho eterno de prazer. Tanto me recordo de passados inexistentes. Pouco sabes de meu sonhos pertinentes.

21


XI conduzo-te nesta dança entre as paredes pintadas com as mãos atadas coreografia improvisada o tom da música em nossas mentes na batida compassada acelera a cada segundo o nosso próprio mundo se cria e ao nosso redor na paisagem fria tudo está lá terços flores arco-íris águas bentas bicicletas e câmeras barulhentas ----

22


---a porta da vida entĂŁo se prepara pra ser inundada da vida gozada preparada para ser tĂŁo amada as unhas se soltam os corpos se moldam num encontro vital no pĂłs-coito banal

23


XII Um velho jovem sonhador que nunca soube se expressar queria de algum modo declarar que só quer o seu amor Tenta as vezes escrever mas seu dicionário está em branco e quando tenta lhe ser franco não consegue uma só palavra dizer Contenta-se então com a solidão com o sonhos de um futuro com as chuvas fortes de verão Mas meu amor uma coisa lhe prometo nunca mais lhe escrevo algo tão obsoleto como esse tão ordinário pseudo-soneto

24


XIII Entre o descaso e a paixão surge do amor a declaração do segredo a confissão do carinho a ilusão do não ... a decepção Entre as questões hipotéticas e por assim dizer, patéticas pensadas à não-razão desesperadas por atenção e as respostas formuladas tão bem pensadas entre pausas compassadas “Daqui uns anos talvez” Mal sabes que o amor como um ferida se cansa do ardor Ah, de tão imediato quando percebes acabado assim e por esse fim o amor não mais amado acaba por nascido no peito alheio do ex-amor esquecido os olhos desconcertado e o coração acelerado desta vez... por mim 25


XIV Tua face alv’e gélida que esfrie tais cálidas tardes de estio teu corpo já não mais trépido que abarrote-me do deleite sadio Que criatura ousou um dia cuidar a dama já matrona que por toda a vida obstinei em cobiçar então encaneceu a tez e de toda lhe tomou a rigidez Esta noite, meu leitor é minha toda esta candura como é de um colecionador a sua valiosa escultura

26


27


XV

28


XVI

“Eu Não Sou Chico Mas Quero Tentar” Agora eu era vilão levava a boa vida de um burguês e o meu coração era de uma mulher a cada mês eu me deitava no sofá e via o carnaval passar ficava ali por dias eu e minhas manias como a estupidez Agora eu era plebeu arrumei emprego de aprendiz e por direito meu eu só tentava me fazer feliz e assim ninguém mais conseguiu me amar era tão triste não poder estar com a garota que eu sempre quis Tão na solidão busquei refúgio lá no desapego na sua opinião era eu mero desconhecido e por omissão eu nunca tive o meu sossego Maldito o dia em que o pequeno eu tinha nascido Agora era normal passar os dias a pensar no fim mas num dia casual você virou e sorriu pra mim e assim começamos a nos falar passou o tempo e nós a namorar eu nunca fui tão feliz assim 29


XVII entre tantas definições ditos machões explicitam suas inter-relações com a cerveja morna numa mão e a outra encostada no peito em sinal de respeito ou de tesão deixam seus olhos se molharem de emoção depois de apreensivos noventa minutos de tapas e gritos putos reclamando do perna torta finalmente a bola entra gritos e mais gritos desta vez tão animados o encontro dos corpos suados a vitória meta cumprida e comprida então a despedida domingo que vem tem mais

30


XVIII Quem é que nunca aumentou um ponto ao contar um conto? Quem é que nunca teve um amor platônico? Quem é que nunca buscou refúgio na nas ruas de Pasárgada Sonhando com a utopia com Thomas, o velho camarada? Quem é que nunca teve uma tarde de risadas piadas e muitas cantadas entre um ou outro poema com Vinicius de Moraes em um bar de Ipanema? E entre histórias mais quem é que nunca com uma pedra matou Golias? E quanto a saudade de casa chorando ao lado de Gonçalves Dias? Qual mulher nunca por seu romeu se matou? Afinal... Quem é que nunca parafraseou?

31


XIX bichos tĂŁo humanos se vivessem por mais alguns anos estariam andando por aĂ­ com seus sapatos de mola nos dando um bom dia e alguma esmola

32


XX O garoto de quatro anos um dia descobriu que era diferente além de olhar por trás de uma lente ele pertencia a vários mundos Todo mundo pertencia mas só ele sabia Em cada olho seu um universo nasceu e ainda falavam que ele tinha quatro deles Possuia super poderes podia ver mais de uma dimensão dividir seu ponto de vista seu ângulo de visão divisão bi visão Dividindo assim descobriu por fim mais algumas cidades outro sabor de chiclete tantas outras felicidades e mais passeios de patinete Mas por obra do destino ou de sua mãe algum senhor moribundo em algum dia em algum mundo decidiu arrancar dele seu super poder ---33


---Queriam que ele fosse normal que visse um mundo igual e ainda diziam que não lhe queriam mal como pode? - Se é para me trancar em um só dos meus mundos se é para me deixar com esses vilões imundos Por que é que já não me mata? É mil vezes melhor do que ter essa vida chata Mas o garoto se transformou num pirata - Não foi tão ruim assim E por decisão sensata navegou na eternidade pelos sete mares da sua infância transformando tristeza em liberdade embriagando-se com as lágrimas de um herói solitário que aprendeu a ver o mundo como rei e operário.

34


XXI

35


XXII Há uns 7 ou 8 anos… Desobedeci por prazer “Daqui a pouco vou fazer…” Corri para o mercado Mesmo que mandado Por que o bom é o correr. Deixei meu pé marcado Onde a gente passou Na calçada da fama Na rua do mercado Onde o cimento ainda não secou. Um passeio de navio No gigante mar Em frente à minha casa Fiz de tudo para me molhar Desafiei a correnteza da enxurrada Balancei a cabeça toda molhada. Pedi a bola para o vizinho A aposta de ir sozinho Fiz de tudo para não perder Me armei de latão e virei herói Ninguém me tira o poder. E o tempo que passou Como a chuva que lava o chão de giz Nunca mais me lembrou De tentar ser feliz.

36


XXIII Consuma, agora… Olha só quem está vindo aí! Bom dia, Dona Obsolescência. A Senhora de novo por aqui? Assim, tão sem paciência?

37


XXIV Sou eu, jovem viajante Com a fome não pude continuar Vim de terra distante Paro para me alimentar. Posso me ver alimentado Em troca deste humilde trocado? - Lhe posso oferecer deste fruto. - De qual fruto se trata, meu senhor? - Desconheço seu nome, só lhe conheço o sabor. - Posso eu o fruto provar? - Com toda certeza irá gostar. - Deveras admito o fruto a mim agradar. - Que bem ao meu corpo ele trará, meu senhor? - Desconheço seus benefícios, só lhe conheço o sabor. - E o fruto poderá me prejudicar, meu senhor? - Evidencio que não, há anos lhe como sem temor. - Por quanto os fará, meu senhor? - Para ti, ó jovem viajante, lhe dou uma dúzia por amor. - Lhe agradeço a atenção com louvor, meu caro senhor. O jovem a pouco de retirar o trocado para ao velho pagar Avista não tão distante dali uma banca diferente E por ela resolve antes passar. Banca significantemente de maior proporção Atraía do jovem toda a sua atenção. Sou eu jovem viajante Com a fome não pude continuar Vim de terra distante Paro para me alimentar. Posso me ver alimentado Em troca deste humilde trocado? --38


--- Lhe posso oferecer deste fruto - De qual fruto se trata, meu senhor? - O fruto o qual está a ver Vem de terras distantes Mas só a isso não irei me deter É fruto do Senhor São de terras por ele pisadas Onde reina o amor Terras abençoadas Matriz de todo o bem Oh, nossa Jerusalém Traz-nos tão delicioso fruto Este de todo o mal o livrará De todas suas doenças o curará E dinheiro o trará. Encantado, O viajante com rapidez lhe estende a mão com o trocado Oh! Doce fruto abençoado! O nobre comerciante com ar indisposto Com expressão de negação em seu rosto Lhe alerta sobre o fruto por ele venerado: -Oh caro viajante Por ti tenho apreço Mas tão abençoados frutos Não lhe podem custar este preço Só lhe posso os vender Se tiver algo mais a me oferecer - Me decepciono por não poder os ter Aguarde-me, ó senhor, tenho algo a fazer. ---

39


--À primeira banca o viajante retornou E rapidamente a dúzia de frutos do velho ele comprou Humildemente a alguns metros dali se estabeleceu Aproveitando da compaixão do velho Por mais caro os frutos ele vendeu E com seu duro prélio Conseguiu o triplo do valor. À segunda banca ele retornou Comprou então o desejado fruto do amor Saboreou com a vontade de um ignorado O único fruto por ele comprado. Oh… Jovem Viajante! Nem se deu à bobeira de perceber Que diferenças não havia de ter. O alimento do velho e do comerciante astuto Eram na verdade o mesmo fruto.

40


XXV As ovelhas; O pastor. A cria; O criador. Um bicho se diz superior, animais ou menos inteligentes, criaram seu pr贸prio criador, para justificar sua dor. E a intelig锚ncia que ainda restava, em submiss茫o se transformou, quando em sua pr贸pria mentira, o ser acreditou.

41


XXVI não chuta a teta da vaca da vaca cavaca na faca com a faca da vaca maníaca ninfoparafrodisíaca

42


XXVII Mará

zúl

Mará zóv ocê Mará

zóv ecê Óleo parati Oh! Leia Param in. Marímin Tumári mí Zúli mí zúlimiqui. Azulaqui Zulecê Fala vê iê se Falava viazul Adul teriecê

43


44


Sobre o fio (ou sur le fil) - 1 Era uma tarde de abril no tempo em que os animais usavam roupas... Uma criatura nada comum vagava pelos terrenos baldios, até que então, descobriu a cidade ao seu redor. E o piano secou, e por secar trocou-se a fonética da segunda consoante, e então... Sessou. Trompetes mil d’uma só boca carnuda, o ritmo dançante inspira uma coreografia que não passa de passos arrastados no asfalto esquentado pelo sol soberbo de um outono invernoso. A rouquidão rançosa de uma voz rangida regida ao reflexo do receio de se regressar a relva. Da voz daquelas que até então vociferaram a raiva alheia. Nada é mais importante do que o que se foi descoberto por todos eles, dos lugaretes deformes e por si só, egoístas, por ser só e por ser seu. Puro o mulou, e para finalizar: puro o mulou. E conhecendo então que se conhecia, conheceu como conhecer. Sugar cabeças alheias tão saborosas, que sugas-te agora, muito obrigado. Outrora na relva virgem de horizonte vestido, agora na relva impura, por polegares ali colocada. Tão nua...

45


46


Da obrigação de se ter obrigações Confesso que o assunto não me sai da cabeça e por me cutucar assim, a toda hora, não deixa que eu pense direito sobre as coisas do mundo, nem mesmo sobre ele mesmo. É pelo excesso de tempo pensando, que deixo de pensar. Mas mesmo ainda sem uma síntese - ou com uma meio túrbida - que quero arremessar, para algum lugar, este amontoado de palavras com acepções possíveis, distintas e sujeitas a mudanças. É estar sentado no fundo de uma sala de aula, no canto esquerdo, ou talvez direito, dependendo do referencial. Mas é ali, onde fica a janela, atrás de uma cortina azul, que fica geralmente fechada, dizem que é para não perturbar o sono daqueles que estão cansados demais de sabe-se lá o que. Eu realmente acho que é pra que a vida lá fora não os lembre que ela está ali. Mas, é ali, do lado da cortina azul que esconde a janela translucida que expõe o muro, o muro dos bons costumes, é estar ali. O Muro Dos Bons Costumes, impede qualquer vista da vida lá fora, só se pode notar, pela noção de brilho adquirida, que o dia é de sol. O maestro em pé dita o que se deve conhecer, os seus garotos o olha atentamente buscando algum significado em tudo aquilo e se esforçando ao máximo para que cada oração desconexa não crie vida e saia correndo da cabeça de cada um deles, bom, exceto aqueles que dormem. Aqueles que vivem, muito bem em seus sonhos ascéticos, enquanto evade do seu corpo o excesso de palavras ouvidas por minuto. E eu, que observo 47


a tudo isso atentamente, como o primeiros buscando um significado para tudo, como os segundos despejando no chão aquilo que me chega por ondas sonoras. Reclino então sobre o peitoril da janela minha cabeça, com toda a semântica humana em meus pensamentos e a dúvida, sobre nada... Digo, sobre tudo, sabe? Apenas dúvida, simplesmente por entender menos do qualquer um ali qualquer coisa. Eu não sei de nada, eles mesmo que não saibam, sabem que sabem. E por isso sabem. A verdade é individual. Mas então, com a cabeça reclinada ali e olhando para cima em busca de uma resposta, o céu me observa tentando entender também o que é que acontece aqui em baixo, e numa vigília mútua, ficamos ali a nos olhar. Entre o Muro Dos Bons Costumes e o limite visível da janela, todo o céu, se concentra naquele retângulo azul para tentar decifrar o que digo a ele, e para tentar me dizer que tentava me dizer. Entre nós pássaros voam, e o brado insuficiente do lado de fora, ou de dentro, dependendo do referencial, se transforma numa valsa francesa de animais, as aves a dançam por aí, intermediando nossos sentimentos, levando de um para outro, e de outro para um, os significados diferentes de vida, e de liberdade. Aprendi uma verdade só minha então, ou, minha e dos céus. A verdade é individual, e por vezes conjunta. Sabe-se lá por que é que insistem em dizer que a vida é não viver...

48


49


50


Valsa Humana Convenhamos que não há muita trivialidade na nudez. Mesmos os que pelos padrões morais, são superiores, ou como o sinônimo usado: maiores, tanto faz... Não é todo dia que se vê por aí deleitosas tetas mamáveis desnudas, armazém de tanta volúpia reprimida pelos valores sociais vigentes. Dou voz agora aos meus instintos animais, para expressar toda essa masturbação mental que existe dentro de cada um de nós, a toda hora. Costumam relacionar qualquer coisa do tipo, com o fenômeno imbecil do materialismo humano, ou seja lá o que for. Outra relação proposta por esses polígonos de tantos lados tão pequenos e esguios que chega a parecer um círculo. E por isso cíclico, obviamente, e totalmente isento a possibilidades de fugas tangenciais. Mas voltando, a outra reação, é o que chamam de machismo. Não estou dizendo que essa merda não exista, ou que não seja preocupante, ou tudo isso, só quero dizer que nada do que falo aqui é comparável a qualquer coisa assim, digo o porquê: falo agora do que me diz respeito, do que passo tanto tempo pensando, por me... digamos, apetecer! Mesmo admirando a nudez em geral, como um todo... Não por uma parte conceitual, porque eu acho que isso tudo é demais para a nudez, a nudez é só o ser. Toda essa coisa de conceitos porcos cabe às vestimentas. Há metafísica bastante em não pensar em nada, disse o poeta. Enfim, mesmo admirando-a, não posso falar muito bem do anseio da mulher pelo sexo masculino. Digo mais, toda essa castidade infernal imposta, é o desespero de se esconder o pau duro ao caminhar por aí e ver aquela que por sua vez, também é uma ninfomaníaca. Todas elas são ninfomaníacas, todos nós somos vira-latas em busca da cadela no cio, a única diferença é que todas elas estão sempre no cio. 51


52


Uma Noite No Eterno CrepĂşsculo 53


Acordei no meio da noite como se acorda às três da manhã de uma quinta-feira para saciar a sede que lhe desperta, mas dessa vez foi diferente, acordei com uma brisa gélida que me tocava a alma. Ao abrir meus olhos não me deparei com a escuridão do teto de meus aposentos que, embora eu não pudesse vê-lo justamente pela falta de luz, sabia que ele estava lá pelo mesmo motivo. A coisa com que eu me deparei quando abri os olhos, foi algo muito diferente do que me deparo quando acordo normalmente, me deparei com um céu, um céu que eu não conhecia, um céu claro no meio da noite, pesado pelas nuvens cinzas do outubro de algum lugar onde os outubros são chuvosos nos fins de tarde. Onde eu estava? O que aconteceu? Como eu cheguei àquele lugar? Repeti tais questões a mim mesmo várias vezes enquanto piscava os olhos buscando uma resposta. Como era de se esperar, não consegui me lembrar de nada. A última coisa da qual eu me lembrava era de quando me deitei em minha cama e fechei os olhos, mais nada. Resolvi então, desviar por um instante meus olhos do céu desconhecido e olhar ao redor. Estava eu estirado em um chão de concreto mal acabado que me doía os ossos das costas desprovidos de proteção muscular. Não me lembro de ter reparado em minhas vestimentas, mas de fato, isso não interessa nesta história, haviam coisas mais importantes a se observar. A minha frente eu podia enxergar um edifício de características industriais de dois andares acima do chão, a escada para baixo a direita revelava a presença de andares subterrâneos embora eu não pudesse precisar ao certo de quantos se tratavam. A pintura do prédio estava tomada pela ferrugem, na verdade tudo que eu podia ver a minha frente estava coberto por ferrugem, cheguei até a me questionar se não eram os meus olhos que estavam enferrujados. Conclui que não ao olhar novamente para o céu, ele parecia livre, limpo. Após passar um bom tempo observando tal construção, comecei a perceber que dela podiam-se ouvir batidas compassadas, como numa indústria em funcionamento, mas não era possível que, um prédio em tais condições era a sede de uma fábrica ainda em funcionamento. Ainda sentado no chão, reparei em algo que me gerou um arrepio instantaneamente, como se o sopro da morte passasse sorrateiramente por cada pelo de meu corpo, tentando me dizer que algo ainda mais sinistro viria por aí. Ah! Quem me dera! Pudera eu entender a língua do 54


vento, de tanto teria me poupado. O que me causou tanto terror sem muitos motivos aparentes, eram correntes, e estavam sobre minhas pernas, o que fez com que me ocorresse, no primeiro instante, que eu estivesse preso. Após um curto instante de terror e agonia, num instinto de liberdade, agarrei e puxei as correntes com força desnecessária, eu estava solto, eu sempre estive, só estavam sobre minha pernas, soltas, nada mais. Fora uma falsa sensação de limitação Amarrado a uma das correntes, encontrava-se um pedaço de papel, que com letras legíveis, dizia “Devolva-me”. Novamente, por um bom tempo, permaneci imóvel, sentado, olhando para as correntes, para o edifício, para o céu, para o tudo, para o nada. Refleti sobre o que estava acontecendo embora em vão, pois não existia uma explicação para aquilo. Tentando me manter calmo, olhei novamente para o céu, percebi que ele estava inalterado, desde que despertei naquele lugar, cada nuvem parecia estar exatamente no mesmo lugar, não que da primeira vez eu tenha reparado e memorizado o lugar e a forma de cada nuvem, mas estava tudo tão absurdamente igual que a imagem daquele céu me foi remetida imediatamente. Reparei a ponta descoberta do céu no fim do horizonte que me revelava o anil do meu velho conhecido. Mais ainda no horizonte podia-se perceber uma fina faixa horizontal alaranjada que me indicava o crepúsculo. O fato de existir a claridade no meio da noite já não me causava tanta estranheza, isso já acontecera em outras ocasiões durante minha vida. O que me intrigava realmente agora era aquela faixa alaranjada que tocava o chão no horizonte, ela permanecia irredutível, simplesmente imutável. Decidi pensar que eu estava vivendo num momento de crepúsculo infinito, um Eterno Crepúsculo, um momento em que o dia já acabou e nunca mais voltará, um momento em que a noite fica num futuro inatingível. Decidi pensar que eu estava em algum lugar onde o fim de tarde alaranjado de abril se misturava ao céu pesado de novembro, em uma composição quase perfeita reunida no mês de outubro. Levantei-me para ver se avistava algo que me era útil, percebi que a porta na parte esquerda do edifício estava aberta, o barulho das batidas industriais ecoavam de lá para todo o resto do mundo. Peguei a corrente no chão com a mensagem e caminhei lentamente, minhas passadas descompassadas revelavam meu medo e minha desconfiança sobre tudo. Continuei andando rumo à porta aberta, ao me aproximar reparei que, acima da porta, havia uma placa que, apesar das ferrugens, nela podiam-se ler as palavras “Oficina Mecânica”. Aproximei-me ainda mais e 55


bati na porta mesmo que aberta, as batidas em seu interior se cessaram, uma figura apareceu de outra porta dentro daquela porta. Quando a luz exterior atingiu sua pessoa e eu o pude ver melhor, vi que era um jovem rapaz de cabelos negros como a morte com algumas cicatrizes em seu rosto, que me pareciam conquistadas em seu ofício. Pude observar também em seus olhos, um deles, com um tom estranho de branco me fez pensar que o sujeito era cego de um olho. - Olá! - Disse ele calmamente com um dócil sorriso no rosto ao me ver parado na porta com cara de espanto. O fato de eu não responder, não tirou o sorriso de seu rosto, e então ele prosseguiu. - O que queres? No momento em que tais palavras chegaram ao meu ouvido, levantei a corrente com a mensagem, e antes que eu pudesse dizer alguma coisa, percebi seu olhar para o objeto, ele a olhou como se a conhecesse como a palma de sua mão. O sorriso dócil deu lugar a um grande, enorme, gigantesco sorriso amedrontador, ele parecia entrar em um estado profundo de êxtase diante da situação, como se aquela corrente fosse a recompensa por todo o trabalho de sua vida. Em meio a tudo isso veio ás minhas narinas o cheiro putrefato da morte, outro arrepio me veio em seguida, com certeza era outro aviso. Aquela “Oficina Mecânica” certamente trabalhava com as mais complexas máquinas deste mundo. Minha cara de espanto, o chamou a atenção novamente, e então ele parecia ter voltado a normalidade, a não ser pelo seu olho esbranquiçado, ele parecia me olhar, aquele olho, apenas aquele suposto olho sem visão. Parecia enxergar a minha alma. O sofrimento de milhares de gerações abafados por uma frieza incalculável que se transformara em uma sombria ironia diante a vida, toda esta dor parecia estar depositada naquele único olho sem visão. Minha atenção foi tirada de seu olho, quando ele, com um sorriso mais controlado, recitou as seguintes palavras, que em momento algum irei me esquecer, pareciam ser retiradas de alguma poesia fúnebre:

56


‘Me fundirei à sombra Na sobriedade sombria No agora Na sorte Na morte Venha noite Chegou a tua hora O diálogo de animais esquizofrênicos Loucos pela liberdade De mundos cênicos Loucos pela vaidade De seres anêmicos Venha noite Chegou a tua hora Frutos provenientes De terras arrendadas para plantio Nos alegre com suas tristezas Malditos dissidentes Levem-me para as profundezas Morreremos Para nos tornarmos imortais Venha noite Chegou a tua hora’

57


Meu espanto diante de tais palavras fez com que a maior gargalhada do mundo ressoasse de dentro da boca daquele ser, até que retomou o assunto. -Leve isso lá em baixo - Disse ele se divertindo com meu terror. Antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta, ele virou as costas e voltou àquele depósito de pecados e pecadores, entrou no interior do edifício, e as batidas que pela sua ausência uma hora cessara, agora foram retomadas, dessa vez pareciam compor a percussão de alguma marcha fúnebre. Fiquei por alguns instantes parado no lugar onde eu estava, queria me mexer, mas eu não conseguia, nenhum músculo meu se movia, até que eu lembrei que aquelas correntes não me prendiam, eu não pertencia à elas, elas me pertenciam, eu as prendia em meus pulsos firmes e não o contrário. Saí de lá, dei alguns passos, parei, pensei. Eu não sabia para onde ir, o sujeito me disse para ir “lá em baixo”, mas tudo parecia tão plano ali, não tinha para onde descer. Lembrei-me então da escada que me revelou logo que acordei andares subterrâneos, eu definitivamente não queria descer aquelas escadas, mas meu orgulho não deixou que eu admitisse a mim mesmo o quão espantado eu estava. Decidi então, ou, meu orgulho decidiu me levar a escada e assim foi. Comecei a andar, enquanto eu andava lentamente, me senti como se eu pertencesse àquele mundo, não mais me lembrava de que tudo aquilo era um terrível engano, que eu deveria estar sob o teto de meus aposentos, simplesmente não me questionei, continuei andando, o orgulho e a curiosidade me moviam. Após não muitos passos, cheguei ao topo da escada, olhei para o céu novamente por um instante, tudo aquilo que eu tinha reparado parecia não mais ser verdade, a faixa alaranjada já desaparecera no horizonte, a luz que ainda restava, ia se esvaindo, as nuvens iam aos poucos revelando aquele azul amedrontador, que a cada momento se tornava ainda mais escuro. A escada era pequena, só levava a um andar abaixo do solo. No pé da escada havia uma porta fechada, verde e enferrujada. Havia também em cima da porta outra placa, embora não tenha prestado muita atenção, me lembro de ter lido o que ela dizia, mas não lembro o que era, é possível que o espanto tenha ofuscado minha memória. Desci a escada e me encontrei em frente àquela porta, estava escuro, a pouca luz da superfície não chegava lá em baixo. Resolvi abrir a porta com cuidado, quando a primeira fresta de luz vinda de dentro da porta atingiu meus olhos, trouxe consigo a composição mais aterrorizante, mais agonizante que alguém já escutou. Centenas, milhares de gemidos envolvidos pela agonia daqueles que perderam suas almas a mais tempo do que 58


existe uma concepção para alma. O som, por mais sombrio que fosse me fez continuar a abrir a porta, só que agora eu abria rapidamente, e o que pude ver foi ainda mais sinistro do que o som. Eu estava em uma sala não muito grande, onde em um de seus cantos se encontrava um sujeito que não se parecia com ninguém que eu já tenha visto, era um ser sem rosto. Ele tinha cabeça, boca, nariz, olhos, orelhas, mas eu não conseguia ver nele um rosto, sendo assim só posso mais dizer sobre seu tamanho, era enorme. Do lado do sujeito sobre uma falha da parede, repousava uma vela acesa, cuja iluminação só chegava ao primeiro terço da sala oposto à porta, de modo que onde eu estava, na porta, era impossível que ele visse meu rosto, justamente pela falta de iluminação, e muito menos ouvisse o barulho da porta se abrindo pelos milhares de gritos agonizantes. No centro daquele lugar existia um buraco no chão, que deixava pouco espaço para se locomover, apenas era possível fazê-lo pelas bordas da sala. Era uma espécie de poço, o que mais me aterrorizou - e ainda me aterroriza quando fecho os olhos - foi o que estava dentro deste buraco, muitos, muitos corpos sem alma gemendo, implorando pelo fim, corpos que assistiram a tantos fins, a quase todos os fins, exceto aos seus próprios. Corpos de milhares de anos que tiveram suas almas roubadas, se contorcendo, agonizando, gritando “Me ajude! Deixe-me tragar um pouco desta sua fumaça do fim.” Estavam presos naquele enorme buraco, correntes soltas os prendiam. Não posso dizer ao certo quantos corpos existiam lá ou qual era exatamente a profundidade daquele poço sem fim, mas ao reparar nos gritos mais distantes, conclui que beirava o inferno. As correntes que os impediam de escapar ficavam soltas sobre o poço. Tais corpos até gostariam de continuar vivendo, com uma condição: a liberdade. Mas sabiam que não estavam livres, correntes os prendiam, e era impossível saírem de lá, de tal modo que os fizeram preferir a morte. Desejavam o fim, como uma criança deseja o doce mais caro de um mercado. Os corpos não se limitavam à depressão central no piso, descobri que atrás de mim, na parede da porta, também existiam corpos gritantes, e também sobre mim, no teto, evidentemente presos por correntes soltas que eles mesmos seguravam para não cair, implorando incessavelmente por ajuda, pelo fim. Puxavam-me, com suas mãos calejadas após milhares de anos segurando as correntes que os prendiam, me seguravam, só queriam roubar de mim, minha própria morte. Estava eu paralisado, o medo, o terror, a agonia, tirou-me a vida por alguns instantes, só pude ouvir o ser sem rosto, que parecia ser o guardião dos corpos, pois tratava 59


de zelar dia após dia por aquela multidão gritante para que eles permanecessem presos, para que eles não pudessem reencontrar suas respectivas almas. O Guardião - me permito assim chamá-lo - parecia querer me acalmar. - Relaxe, apenas tome cuidado, certifique-se que não há nenhuma língua em sua testa. Ainda dizendo isso, se aproximou de mim andando sobre as cabeças sem mentes que tentavam em vão agarrar seus pés, e me tomou a corrente com certa agressão, mas ele foi prudente com sua agressividade, não lhe era interessante me assustar, pelo menos foi isso que me pareceu. A corrente já não mais me pertencia, era do Guardião. Por que ela estava comigo? Por que coube a eu devolvê-la? Para tais perguntas não consegui achar resposta, e nunca acharei, quiçá nem exista resposta. O Guardião após pegá-la de mim, arremessou-a sobre o poço fazendo com que cada um dos corpos ficasse por hora ainda mais presos, e então voltou para seu lugar ao lado da vela. Estava naturalmente calmo como se estivesse apenas cumprindo sua rotina, talvez estivesse de fato. Eu estava envolvido por aqueles corpos, corpos tão magros quanto o vento - e digo-lhes mais uma vez, se eu entendesse a língua do vento, teria muito me poupado - me puxavam de todos os jeitos, mas algo me incomodava ainda mais que todas essas mãos se agarrando em meu corpo me fazendo sentir-me um dos deles. O que me irritava profundamente era apenas um dos corpos, um deles estava com a língua em minha testa, o que fez com que o que o Guardião tinha dito, fizesse um pouco de sentido para mim se é que isso é possível. A língua seca que encostavase em minha testa, me desequilibrava, me levava ao abismo, me envolvia em um mármore de terror. Retomei os sentidos e lembrei-me das correntes. Se as correntes não podiam me prender porque estavam soltas, por que aqueles corpos poderiam se estavam presos? Neste exato instante a pedra que envolvia cada parte do meu corpo se desfez em milhões de pedaços. A porta continuava aberta, meus músculos agora podiam se mexer. Corri porta a fora, subi aquelas escadas tão rápido de forma com que nenhum ser humano na face da Terra poderia me acompanhar. Corri, corri, corri e corri com a certeza de que eles viriam atrás de mim, corri olhando pra trás, eu me distanciava, o edifício enferrujado ficava cada vez menor pela distância, ninguém vinha a me seguir, me sentia como se presenciasse o término do mundo, eu tremia e continuei correndo, até que não pude mais. Esbarrei-me em uma enorme parede, sem portas, com apenas uma janela em toda sua extensão, eu queria continuar correndo, 60


queria correr até onde eu pudesse encontrar minha casa, queria acordar novamente em minha cama, sob o meu teto. Por questão instintiva pulei aquela janela com uma dificuldade que me gerou alguns arranhões. Consegui cair do outro lado. Já em pé, pisei sobre um solo que, ao contrário do que eu estava anteriormente, estava bastante úmido. À minha frente existia outra parede, parecida com a anterior, também com apenas uma janela. O que eu poderia fazer se não pular janela por janela? Foi isso que fiz. Pulei então a segunda janela, aterrissei em uma superfície encharcada que molhou-me os sapatos. Pulei a próxima janela, e a próxima, e a próxima, e a cada janela que eu pulava, eu caia sobre uma superfície cada vez mais molhada, a cada salto, o nível da água aumentava sob meus pés, como num mosaico em degradê. Continuei pulando janelas. Após um de meus saltos, caí em um oceano, um gigante oceano. Nada mais estava lá, nem parede, nem janela, nem edifício, nem correntes, só estava eu, uma imensidão de água e o céu. Ah! Como estava lindo o céu, aquele sim era o céu que eu conhecia, tão mutável, tão imprevisível, e que de tão imprevisível me mandou de presente uma tempestade em pleno alto mar. Logo eu, que sempre amei as tempestades, tinhas de fazer eu desgostar? Com a tempestade vieram ondas gigantescas, até que uma dessas me levou para o fundo daquela imensidão azul. Só lembro até aí, porque obviamente eu devo ter desmaiado por falta de oxigênio no fundo do oceano, quiçá fiquei a beira da morte, apenas o que sei é que depois disso tudo, eu abri os olhos novamente, mas dessa vez a escuridão me indicava o teto de meus aposentos. Um misto de alegria e alívio invadiram minha pessoa, não posso demonstrar em palavras o quão feliz eu estava por estar de volta sobre minha cama. Eu tento de todas as maneiras entender como tudo isso aconteceu. Como acordei em meu quarto novamente? Como fui parar naquele lugar? Entre tantas hipóteses que formulei preferi aceitar a de que, após desmaiar no oceano, algum conhecido meu, passando pelo local me encontrou boiando solitário na imensidão azul e me trouxe pra cá, para minha casa, para que eu pudesse estar agora escrevendo sobre tal fato que aconteceu comigo esta noite. Penso também que se tivesse parado para pensar no terrível engano que estava acontecendo, no mundo que não me pertencia, eu teria conseguido voltar para casa antes de quase morrer.

61


62


63


64


65


66


67


68


69


70


71


72


T his is all folks

73


74


Gustavo Gu o Pieron Pieroni 1’82 1’ 1’82’’ 82’’ 16 anos, por enquanto. Caucasiano Profissão Desconhecida Natural de Minas Gerais . Formação de Quadrilha Militante da Resistência Sequestro Assalto ao BANESPA com a Dilma Embriaguez ao Volante Gol Contra na Educação Física

75


ÍTALOTUPINIQUIM 76


ÍTALOTUPINIQUIM