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Memorias de Sherlock Holmes Sir Arthur Conan Doyle

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A Estrela de Prata. A face Amarela. O Escriturário da Corretagem. A tragédia do Glória Scott. O Ritual Musgrave. O Enigma de Reigate. O Corcunda. O Paciente Internado. O Intérprete Grego. O Tratado Naval. O Problema Final.


Arthur Conan Doyle 1- Estrela de Prata Título original: Silver Blaze Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1892. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de Silver Blaze publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

— Receio, Watson, que serei obrigado a ir — disse-me Holmes certa manhã, quando nos sentávamos para o café matinal. — Ir! Aonde? — A Dartmoor... A King's Pyland. Não fiquei surpreso. Minha única surpresa era que Holmes ainda não tivesse intervindo nesse caso extraordinário, que constituía o único tópico de conversação em toda a Inglaterra. Meu amigo passara o dia inteiro a andar pela sala com o queixo mergulhado no peito, fronte franzida, carregando e recarregando o cachimbo de tabaco forte, muito forte, e absolutamente surdo a qualquer de minhas perguntas ou observações. Novas edições dos jornais eram-nos enviadas por nossos agentes. Nós as percorríamos rapidamente com os olhos, e depois as atirávamos para o canto. Embora Holmes guardasse silêncio, eu sabia muito bem o que estava ruminando. Só existia um problema perante o público que podia desafiar seu poder de análise: o desaparecimento singular do favorito da Taça Wessex e o trágico assassínio de seu treinador. Portanto, quando me anunciou a intenção de partir para o local do drama, fez não só o que eu aguardava como também o que desejava. — Eu me sentiria muito feliz em acompanhá-lo, se não for incômodo — disse eu. — Meu caro Watson, sua ida representará um grande favor. Além disso, creio que seu tempo não será perdido, porque há pontos neste caso que prometem torná-lo absolutamente único. Parece-me que temos apenas o tempo necessário para apanhar o trem em Paddington. Mas discutiremos depois o assunto durante a viagem. Seria um grande favor se levasse seu excelente binóculo. E aconteceu que dentro de uma hora, ou pouco mais, eu me encontrava na extremidade de um vagão de primeira classe seguindo velozmente para Exeter. Sherlock Holmes, enérgico, impaciente, metido em seu boné de viagem com abas largas para proteger as orelhas, mergulhava num pacote de jornais da última edição que comprara em Paddington. Tínhamos deixado Reading para trás quando ele afastou o último jornal e me estendeu sua cigarreira.


— Vamos indo muito bem — disse ele, espiando pela janela e olhando para o relógio. — Neste momento, nossa velocidade é de oitenta e cinco quilômetros por hora. — Não reparei nos postes colocados a cada quatrocentos metros — disse-lhe eu. — Nem eu. Mas os postes telegráficos desta linha são de cinqüenta e quatro metros de distância, e o cálculo é simples. Já considerou, com certeza, o caso do assassínio de John Straker e o desaparecimento do Estrela de Prata. — Li o que dizem o Telegraph e o Chronicle. — É um desses casos em que a arte do raciocinador teria de ser usada para peneirar, mais do que para descobrir novas provas. A tragédia foi tão rara, tão perfeita, e de tal importância para tantas pessoas, que possuímos uma infinidade de suspeitas, conjeturas e hipóteses. A dificuldade é distinguir a estrutura do fato — do fato absoluto, inegável — e as fantasias dos curiosos e repórteres. Estabelecidos, então, nessa base exata, nosso dever é verificar que conclusões se podem tirar, e quais os pontos especiais em redor dos quais gira todo o mistério. Na noite de terça-feira recebi telegramas do coronel Ross, proprietário do cavalo, bem como do inspetor Gregory, que está tratando do caso, solicitando minha cooperação. — Terça-feira à noite! — exclamei. — E já estamos na manhã de quinta. Por que não partiu ontem? — Porque cometi uma asneira... coisa que, segundo receio, é uma ocorrência mais comum do que poderia pensar alguém que só me conhecesse por intermédio de suas memórias. A verdade é que eu não podia julgar possível que o cavalo mais famoso da Inglaterra pudesse ficar tanto tempo escondido, especialmente num local com habitações tão dispersas como o norte de Dartmoor. Ontem esperava ouvir a todo momento que o cavalo fora encontrado e que o assassino de John Straker tinha sido seu raptor. Entretanto, quando descobri, na manhã seguinte, que além da prisão do jovem Fitzroy nada mais se fez, achei que era tempo de entrar em ação. Todavia, sinto que, de certo modo, o dia de ontem não foi desperdiçado. — Já formou, nesse caso, sua opinião? — Pelo menos tenho um apanhado dos fatos essenciais. Vou enumerá-los, porque nada esclarece tanto um caso como expô-lo a outra pessoa. Além disso, não posso esperar por sua cooperação se não lhe mostrar o ponto de onde partimos.

Recostei-me na almofada, soltando baforadas do charuto, enquanto Holmes, inclinandose um pouco para a frente, com o indicador comprido e fino, começou a traçar os fatos na palma da mão esquerda e a dar-me um esboço dos acontecimentos que nos tinham induzido à viagem. — O Estrela de Prata — disse ele — é da estirpe do Isonomy, e mantém um brilhante recorde, como seu famoso antepassado. Está agora no quinto ano, e já conseguiu todos


os prêmios do turfe para o coronel Ross, seu afortunado proprietário. Até o momento da catástrofe, era o principal favorito da Taça Wessex, sendo as cotações de três por um a seu favor. Aliás, tem sido sempre o principal favorito das pessoas que gostam de jogar, e nunca as desapontou. De modo que, até mesmo nas piores probabilidades, apostam nele somas enormes. Portanto, é claro que há muitas pessoas fortemente interessadas em impedir o Estrela de Prata de lá estar terça-feira ao cair da bandeira. "Esse fato foi certamente apreciado em King's Pyland, onde está localizado o estábulo de treinamento do coronel. Tomaram-se todas as precauções para proteger o favorito. O treinador, John Straker, é um jóquei aposentado, que defendeu as cores do coronel antes de se tornar excessivamente pesado para a balança de classificação. Serviu-o cinco anos como jóquei e sete como treinador, e sempre se mostrou zeloso e honesto. Sob sua direção estavam três rapazes, porque o estabelecimento era pequeno, abrigando apenas quatro cavalos ao todo. Um desses rapazes montava guarda toda a noite no estábulo, enquanto os outros dormiam no sótão. Todos tinham mostrado excelente caráter. John Straker, que era casado, morava a uns cento e oitenta metros dos estábulos. Não tem filhos, mas tem uma empregada e vive confortavelmente. O campo em redor é muito solitário, mas a cerca de oitocentos metros para o norte há um pequeno agrupamento de casas, construídas pelo empreiteiro de Tavistock, para uso dos inválidos e outras pessoas que queiram desfrutar do ar puro de Dartmoor. Mesmo a cidade de Tavistock fica três mil e duzentos metros a oeste, enquanto do outro lado das charnecas, a uma distância aproximadamente igual, fica o maior estabelecimento de treinamento de Capleton, que pertence a Lorde Backwater e é dirigido por Silas Brown. Em qualquer outra direção a charneca é um perfeito deserto, habitada apenas pêlos ciganos. Tal era a situação geral na noite de segunda-feira passada, quando ocorreu a catástrofe. "Nessa tarde, os cavalos foram exercitados e banhados, como de costume, e os estábulos foram fechados à chave às nove horas. Dois dos rapazes subiram à casa do treinador, onde jantaram na cozinha, enquanto o terceiro, Ned Hunter, ficou de guarda. Pouco depois das nove, a criada, Edith Baxter, desceu ao estábulo com o jantar dele, que consistia numa travessa de carneiro com molho. Não levou nenhuma bebida, porque no estábulo havia uma torneira, e a regra estabelecia que o rapaz de serviço não podia beber mais nada. A criada usava uma lanterna, porque estava muito escuro e o caminho atravessava um terreno baldio.

"Edith Baxter estava a cerca de vinte e sete metros do estábulo quando um homem saiu da escuridão e lhe pediu que parasse. Ao entrar no círculo de luz amarela, projetado pela lanterna, viu que era um homem de aparência distinta. Vestia um traje cinzento em dois tons, com um boné de pano. Usava polainas e levava uma bengala pesada com castão. Ela ficou fortemente impressionada com a extrema palidez de sua face e com o nervosismo de suas maneiras. Segundo ela, a idade dele seria de pouco mais de trinta anos. "— Pode dizer-me onde estou? — perguntou. — Já estava quase resolvido a dormir na charneca quando vi a luz de sua lanterna. "— O senhor está pertinho dos estábulos de treinamento de King's Pyland — disse ela.


"— Oh! Não diga! Que golpe de sorte! — exclamou ele. — Vejo que um dos rapazes do estábulo dorme ali sozinho a noite toda. Talvez isso que leva aí seja o jantar dele. Bem, estou certo de que não será orgulhosa a ponto de recusar dinheiro para um vestido novo, não é verdade? — E tirou do bolso do colete um pedaço de papel branco dobrado. — Faça com que o rapaz receba isto esta noite, e terá o mais belo vestido que o dinheiro pode comprar. "Ela ficou assustada com a excitação de suas maneiras e correu para a janela pela qual costumava passar a comida, afastando-se dele. A janela já se encontrava aberta e Hunter estava lá dentro, sentado ao lado de uma mesinha. Ela começava a narrar-lhe o que acontecera quando o desconhecido apareceu de novo. "— Boa noite — disse ele, olhando pela janela. — Eu queria falar com o senhor. — A criada jurou que, enquanto ele falava, notou o canto de um papelinho branco dobrado que lhe saía da mão fechada. "— Que negócio traz o senhor aqui? — perguntou o rapaz. "— Um negócio que encherá seu bolso de dinheiro — disse o outro. — Tem aí dentro dois cavalos para a Taça Wessex: o Estrela de Prata e o Bayard. Dê-me uma informação exata e não ficará prejudicado. É verdade que pelo peso o Bayard podia dar ao outro noventa metros a cada quilômetro, e que o estábulo apostou nele todo o seu dinheiro? "— Então o senhor é um desses amaldiçoados espiões — gritou o rapaz. — Eu lhe mostrarei como os tratamos aqui em King's Pyland. — Pôs-se de pé de um salto e precipitou-se para o estábulo a fim de soltar o cão. A jovem correu para casa, mas ao voltar-se viu que o estranho estava debruçado sobre a janela. Todavia, um minuto depois, quando Hunter saiu com o cão, ele desaparecera. Embora o rapaz corresse à volta dos edifícios, não conseguiu descobrir o menor sinal dele." — Um momento! — pedi eu. — O rapaz do estábulo, ao correr para fora, não teria deixado a porta aberta? — Excelente, Watson! — exclamou meu companheiro. — A importância do fato impressionou-me tanto que mandei ontem um telegrama especial a Dartmoor para esclarecer o assunto. O rapaz trancou a porta antes de sair. A janela, posso acrescentar, não era suficientemente grande para permitir a passagem de um homem. "Hunter esperou voltarem seus companheiros de cavalariça; então, mandou um mensageiro contar ao treinador o que acontecera. Straker ficou excitado ao ouvir a narrativa, embora sem atinar com seu verdadeiro significado. No entanto, o incidente deixou-o vagamente inquieto, e a sra. Straker, ao acordar à uma hora da manhã, verificou que ele estava se vestindo. Em resposta às suas perguntas, disse-lhe que não podia dormir por causa da preocupação a respeito dos cavalos, e que ia descer ao estábulo para ver se estava tudo bem. Ela pediu-lhe que ficasse em casa, pois ouvia-se o ruído da chuva na vidraça. Porém, a despeito dos seus rogos, ele vestiu o impermeável e saiu de casa. "A sra. Straker acordou às sete horas da manhã e verificou que o marido não voltara. Vestiu-se depressa, chamou a criada e dirigiu-se ao estábulo. A porta estava aberta. Lá


dentro, estatelado numa cadeira, estava Hunter, mergulhado em estado de absoluto estupor. O estábulo do favorito estava vazio, e não havia sinais do treinador. Os dois rapazes, que dormiam na divisão onde cortavam a palha, por cima da sala dos arreios, foram rapidamente acordados. Nada ouviram durante a noite, pois eram ambos bons dorminhocos. Era evidente que Hunter estava sob o efeito de alguma droga muito forte. Como não pudessem conseguir dele a menor explicação, deixaram-no dormir, enquanto os dois rapazes e as duas mulheres correram para chamar o proprietário. Tinham ainda a esperança de que o treinador, por qualquer motivo, houvesse soltado o cavalo para exercícios matutinos. Entretanto, ao subirem a colina de onde se vêem todas as charnecas vizinhas, perto de sua casa, não só não perceberam nenhum sinal do favorito, mas alguma coisa os advertiu de que estavam em presença de uma tragédia.

"A cerca de quatrocentos metros, via-se a capa de John Straker, flutuando numa moita de urzes. Mais além havia, na charneca, uma depressão em forma de bacia, e lá no fundo encontraram o cadáver do infortunado treinador. Tinha a cabeça esmagada por um golpe de alguma arma pesada. A coxa estava ferida com um corte longo e simétrico, evidentemente feito com instrumento muito afiado. Era claro, porém, que Straker se defendera vigorosamente contra seus assaltantes, porque tinha na mão direita uma faquinha que apresentava sinais de sangue coagulado no cabo, e a esquerda segurava uma gravata de seda preta e vermelha, a qual foi reconhecida pela criada como a gravata do estranho que visitara os estábulos na noite anterior. "Hunter, ao despertar de seu torpor, foi também categórico quanto ao dono da gravata. Estava igualmente certo de que o desconhecido, enquanto estivera recostado na janela, lançara uma droga em seu carneiro com molho, para reduzir à passividade o vigia dos estábulos. "Quanto ao cavalo que faltava, havia provas abundantes na lama do fundo da depressão de que lá estivera no momento da luta. Mas a partir dessa manhã não foi mais visto. Ofereceu-se alta recompensa, e os ciganos de Dartmoor ficaram de atalaia, mas não houve a menor notícia. Finalmente, uma análise demonstrou que os restos do jantar do rapaz dos estábulos continham uma apreciável quantidade de ópio em pó. Entretanto, as pessoas da casa serviram-se do mesmo prato nessa mesma noite, sem sofrerem o menor dano. "São estes os principais fatos, expostos objetivamente e concatenados da melhor maneira possível. Agora, recapitulemos o que a polícia fez no caso. "O inspetor Gregory, a quem o caso foi entregue, é um oficial extremamente competente. Se tivesse o dom da imaginação, já teria subido às culminâncias de sua profissão. Ao chegar, encontrou e prendeu prontamente o homem sobre o qual recaíam naturalmente as suspeitas. Houve pouca dificuldade em encontrá-lo, pois era muito conhecido na vizinhança. Parece que seu nome é Fitzroy Simpson. É de origem nobre e bem-educado. Esbanjara uma fortuna no turfe e agora vivia de apostas modestas e decentes nos clubes desportivos de Londres. O exame de seu caderno de apostas demonstrou que apostara cinco mil libras contra o favorito.


"Ao ser preso, declarou voluntariamente que fora a Dartmoor na esperança de obter informações a respeito dos cavalos de King's Pyland, e sobre Desborough, o segundo favorito, que estava sob os cuidados de Silas Brown, nos estábulos de Capleton. Não tentou sequer negar o que fizera na noite anterior. Declarou, porém, que não alimentava desígnios sinistros, e pretendia simplesmente obter informações de primeira mão. Quando lhe mostraram a gravata, ficou muito pálido e não pôde explicar sua presença na mão do morto. Sua roupa molhada indicava que passara a noite anterior ao relento, na tempestade. Sua bengala, um bordão encastoado de chumbo para ter mais peso, constituía uma arma tal que, com repetidos golpes, podia ter infligido os terríveis ferimentos a que o treinador sucumbiu. "Por outro lado, não havia em sua própria pessoa nenhum ferimento, embora o estado da faca de Straker prove que pelo menos um dos assaltantes levou consigo a marca do treinador. E aqui tem você o resumo do caso, Watson. Bem, se me puder dar seu brilhante parecer, eu lhe ficarei infinitamente agradecido." Ouvi com a maior atenção o que Holmes, com sua peculiar clareza, me havia exposto. Conquanto os fatos, em sua maioria, já me fossem familiares, ainda não apreciara suficientemente sua relativa importância, nem a relação entre uns e outros. — Não seria possível — sugeri — que a ferida incisiva de Straker lhe tenha sido infligida por sua própria faca, na luta de que resultou o esmagamento do crânio? — É mais do que possível; é provável — disse Holmes. — Nesse caso, um dos principais pontos a favor do acusado desaparece. — Ainda assim, continuo sem entender qual a teoria da polícia. — Receio que, qualquer que seja a teoria que estabelecermos, haverá contra ela obj ecoes muito sérias — respondeu meu companheiro. — A polícia pensa, suponho, que Fitzroy Simpson, depois de narcotizar o rapaz e portando uma cópia da chave que obtivera de alguma forma, abriu a porta do estábulo e tirou o cavalo, com a intenção aparente de seqüestrá-lo definitivamente. Falta também o cabresto do animal. Simpson certamente o colocou no cavalo. Então, deixando a porta aberta, conduziu-o pelas charnecas, onde encontrou o treinador ou foi surpreendido por ele. Seguiu-se a luta. Simpson golpeou a cabeça do treinador com sua pesada bengala, sem que tivesse recebido qualquer ferimento da faquinha que Straker usou em legítima defesa. Em seguida, o ladrão levou o cavalo para um esconderijo, ou este fugiu durante a luta e erra agora pelas charnecas. É o que a polícia pensa do caso. É improvável, mas todas as outras explicações são ainda mais improváveis. Entretanto, submeterei o caso à prova logo que estiver no local, e até lá não vejo realmente como modificar nossa posição atual. Já começava a anoitecer quando chegamos à pequena cidade de Tavistock, que se assemelha ao relevo de um escudo, no meio do enorme círculo de Dartmoor. Dois cavalheiros esperavam-nos na estação. Um deles era um bonito homem alto, de barba e cabeleira de leão, com olhos levemente azuis e curiosamente penetrantes. O outro era baixo e vivo, muito agradável e esperto, com casaca e polainas, pequenas suíças bemcuidadas e óculos. O último era o coronel Ross, conhecido desportista, e o primeiro, o


inspetor Gregory, homem cujo nome rapidamente se tornava conhecido no serviço de detetives.

— Estou muito satisfeito com sua vinda, sr. Holmes — disse o coronel. — O inspetor fez tudo o que lhe podia ser sugerido; mas não quero deixar pedra nenhuma sem revirar na tentativa de vingar o pobre Straker e de recuperar meu cavalo. — Não surgiu nenhuma circunstância nova? — perguntou Holmes. — Sinto dizer que progredimos muito pouco — disse o inspetor. — Temos uma carruagem lá fora, e como os senhores, sem dúvida, gostarão de ver o lugar antes de escurecer, podíamos conversar durante o caminho. Um minuto depois estávamos sentados num confortável coche, rolando pela velha e bizarra cidade de Devonshire. O inspetor Gregory parecia obcecado pelo caso, e derramava um dilúvio de observações. Holmes emitia uma ou outra interjeição ou uma pergunta ocasional. O coronel recostou-se, de braços cruzados e chapéu caído nos olhos, e eu ouvia com interesse o diálogo dos dois detetives. Gregory formulava uma teoria quase exatamente igual à que Holmes expusera no trem. — A rede está agora bem armada ao redor de Fitzroy Simpson — observou ele. — E creio que é ele o nosso homem. Ao mesmo tempo, reconheço que as provas são puramente circunstanciais, e qualquer nova descoberta pode fazê-las cair por terra. — E quanto à faca de Straker? — Chegamos à conclusão de que ele se feriu na queda. — Meu amigo, o dr. Watson, fez-me essa sugestão no caminho. Nesse caso, ela depõe contra o tal Simpson. — Sem dúvida alguma. Simpson não possuía faca nem qualquer sinal de ferimento. As provas contra ele são, certamente, muito fortes. Tinha grande interesse no desaparecimento do favorito. Expôs-se à suspeita de ter envenenado o rapaz do estábulo. Esteve, sem dúvida alguma, ao relento, na tempestade. Portava uma pesada bengala, e sua gravata foi encontrada na mão do morto. Penso que temos o suficiente para comparecermos perante o júri. Holmes meneou a cabeça. — Um parecer inteligente reduziria tudo isso a farrapos — disse ele. — Por que haveria ele de tirar o cavalo do estábulo? Se queria feri-lo, por que não o fez ali? Encontrou-se outra chave em seu poder? Que farmacêutico lhe vendeu o ópio em pó? Acima de tudo, onde poderia ele, sendo estranho no distrito, esconder um cavalo, e um cavalo como aquele? Como se explica o papel que ele quis que a criada entregasse ao rapaz do estábulo?


— Diz que era uma nota de dez libras. Foi encontrada uma em sua carteira. Mas as outras dificuldades que opõe não são tão importantes como parecem. Ele não é estranho no distrito. Durante o verão hospedou-se duas vezes em Tavistock. O ópio foi provavelmente trazido de Londres. A chave, depois de servir ao seu propósito, foi jogada fora. O cavalo pode estar no fundo de algum fosso ou de alguma velha mina da charneca. — O que diz ele a respeito da gravata? — Reconhece que é sua, mas afirma tê-la perdido. Porém, há um novo elemento no caso que pode explicar como o cavalo foi retirado do estábulo. Holmes apurou os ouvidos. — Temos vestígios que provam que um grupo de ciganos acampou na noite de segunda-feira a um quilômetro e meio do local onde ocorreu o assassinato. Na terçafeira, foram-se embora. Ora, presumindo-se que houvesse algum entendimento prévio entre Simpson e os ciganos, ele não lhes poderia ter levado o cavalo quando foi surpreendido, e os ciganos não o terão agora? — É bem possível. — A charneca está sendo esquadrinhada por causa desses ciganos. Também já revistei todo o estábulo e os arrabaldes de Tavistock, num raio de dezesseis quilômetros. — Há outro estábulo muito perto, segundo fui informado. — Sim. E é um fator que não devemos desprezar. Como o Desborough, o cavalo deles, era o segundo cotado, tinham naturalmente interesse no desaparecimento do favorito. Sabe-se que Silas Brown, seu treinador, fez grandes apostas, e ele não era amigo do pobre Straker. Entretanto, revistamos os estábulos e nada há que se relacione com o fato. — E nada que relacione esse Simpson com os interesses dos estábulos de Capleton? — Nada, absolutamente. Holmes recostou-se no assento da carruagem, e a conversação cessou. Minutos depois, nosso cocheiro dirigia-se à elegante moradia de tijolos vermelhos e platibandas projetadas sobre a rua. A certa distância, ao lado da paliçada, há um edifício anexo, de teto cinzento. Em qualquer direção, as fundas depressões das charnecas, bronzeadas pelas samambaias esvanecentes, estendem-se pelo horizonte, interrompidas apenas pelas torres de Tavistock e por um grupo de casas ao longe, na direção oeste, que assinalavam os estábulos de Capleton, Todos saltamos para fora, à exceção de Holmes, que continuou recostado, os olhos fixos no céu em frente, inteiramente entregue a seus pensamentos. Só quando lhe toquei no braço é que se levantou com ímpeto violento e saiu do carro. — Desculpe-me — disse ele, voltando-se para o coronel Ross, que o encarava com certa surpresa —, costumo sonhar de dia. — Havia uma cintilação em seus olhos e um excitamento reprimido em suas maneiras que me convenceram, habituado como estou


às suas reações, de que descobrira algum indício, embora não pudesse imaginar onde o encontrara. — Prefere ir já ao local do crime, sr. Holmes? — Acho que ficarei aqui para fazer uma ou duas perguntas sobre certos detalhes. Straker foi removido para cá, segundo creio. — Sim. Está lá em cima. O inquérito policial é amanhã. — Ele estava a seu serviço há alguns anos, coronel Ross? — Sempre o achei um excelente empregado. — Suponho que fez um inventário do que ele tinha no bolso na hora da morte, não é verdade, inspetor? — As coisas estão na sala de estar, se quiser vê-las. — Gostaria, sim. Entramos em fila na sala da frente e sentamo-nos ao redor da mesa central, enquanto o inspetor abria uma caixa quadrada de zinco e espalhava à nossa frente uma pequena pilha de coisas. Havia uma caixa de fósforos, uma vela de sebo de cinco centímetros, um cachimbo marca adp de raiz de roseira-brava, uma bolsa de pele de foca com quinze gramas de tabaco Cavendish para cachimbo, um relógio de prata com corrente de ouro, cinco soberanos em ouro, uma lapiseira de alumínio e uma faca de cabo de marfim, de lâmina muito delicada e flexível, da marca Weiss & Co., Londres. — É uma faca muito singular — disse Holmes, levantando-a e examinando-a detalhadamente. — Creio, devido às manchas de sangue, que foi encontrada na mão do morto. Watson, parece-me que esta faca faz parte de sua profissão. — É aquilo a que chamamos "bisturi de cataratas" — disse eu. — Assim penso. Uma lâmina muito delicada, inventada para trabalho igualmente delicado. É estranho que alguém a levasse numa expedição comum, especialmente quando não se conserva fechada no bolso. — A ponta estava protegida por um disco de cortiça que encontramos ao lado do corpo. A mulher dele disse-me que a faca estivera, durante alguns dias, no banheiro, e que ele a levou quando saiu. Era uma arma pobre, mas talvez a melhor que pôde encontrar naquele momento. — É muito possível. Mas e esses papéis? — Três deles são recibos de fornecedores de feno. O outro é uma carta de instrução do coronel Ross. Isto é uma conta da modista, de trinta e sete libras e quinze xelins, passada por Mme Lesurier, da Bond Street, a William Darbyshire. A sra. Straker disse-


nos que Darbyshire era amigo de seu marido, e por vezes as cartas dele vinham endereçadas para cá.

— A sra. Darbyshire tinha gostos um tanto dispendiosos — observou Holmes, examinando a conta. — Vinte guinéus é muito por um vestido só. Entretanto, parece não haver mais nada de interesse, e creio que podemos descer ao local do crime. Quando saíamos da sala de estar, uma mulher que se mantivera à espera avançou e tocou com a mão no braço do inspetor. Seu rosto transtornado, magro e ansioso, refletia a visão de um pavor recente. — Apanhou-os? Encontrou-os? — suspirou. — Não, sra. Straker; mas o sr. Holmes veio de Londres para nos auxiliar, e faremos tudo o que nos for possível. — Parece-me que já nos vimos certa vez em Plymouth, numa festa ao ar livre, sra. Straker, há algum tempo — disse Holmes. — Não. O senhor deve estar enganado. — Quem diria! Poderia até jurá-lo. A senhora usava um vestido de seda cinza-pomba, enfeitado com penas de avestruz. — Nunca tive semelhante vestido — respondeu a senhora. — Bem, então me enganei — atalhou Holmes; e, apresentando desculpas, saiu com o inspetor. Uma rápida caminhada pela charneca levou-nos à cova onde fora encontrado o corpo. Ao lado, havia uma moita de urzes onde a capa estivera dependurada. — Parece-me que não houve vento naquela noite — opinou Holmes. — Nenhum, mas uma chuva pesada. — Nesse caso, a capa não voou contra a moita, mas foi lá colocada. — É verdade. Estava em cima da moita. — Estou interessadíssimo. Notei que o chão foi muito pisado. Não há dúvida de que muitos pés passaram por lá desde a noite de segunda-feira. — Foi posto aqui ao lado um pedaço de esteira, e todos nós o temos pisado. — Excelente. — Nesta sacola tenho uma das botas que Straker usava, um dos sapatos de Fitzroy Simpson e a ferradura perdida do Estrela de Prata.


— Meu caro inspetor, o senhor excede-se. Holmes segurou a sacola e, descendo à cova, colocou a esteira numa posição mais central. Depois, estendendo-se nela e apoiando o queixo nas mãos, fez um estudo cuidadoso do barro pisado à sua frente. — Ora essa! — exclamou de repente. — O que é isto? Tratava-se de um fósforo de cera meio queimado, tão revestido de barro que parecia, à primeira vista, uma pequena lasca de madeira. — Não entendo como me escapou — disse o inspetor com uma expressão de mágoa. — Estava invisível, enterrado no barro. Só o vi porque estava à procura dele. — Como assim? Esperava encontrá-lo? — Não o julguei improvável. Tirou as botas da sacola e comparou as impressões de cada uma delas com as marcas do chão. Então subiu pelo barranco da cova e arrastou-se por entre as sarças e arbustos. — Receio que não haja mais vestígios — disse o inspetor. — Examinei o chão com todo o cuidado, noventa metros em redor. — Tem razão — respondeu Holmes, levantando-se. — Não devo cometer a impertinência de examiná-lo outra vez, depois do que o senhor me disse. Mas gostaria de andar um pouco pela charneca antes de escurecer, para conhecer bem o terreno, e acho que vou levar esta ferradura no bolso, para me dar sorte. O coronel Ross, que manifestara sinais de impaciência com o método calmo e sistemático de meu companheiro, olhou para o relógio. — Quero que o senhor volte comigo, inspetor — disse ele. — Há vários pontos sobre os quais gostaria de conversar, especialmente se devo ou não retirar o nome do cavalo da inscrição da Taça. — É claro que não — interrompeu Holmes, com decisão. — Se fosse o senhor, eu deixaria o nome. O coronel fez uma vênia. — Alegra-me muito sua opinião — disse. — O senhor poderá encontrar-nos em casa do pobre Straker quando terminar seu passeio, e iremos juntos, de carro, para Tavistock. Enquanto ele se retirava com o inspetor, Holmes e eu iniciávamos nosso lento passeio pela charneca. O sol começava a descer por trás dos estábulos de Capleton, e a extensa planície inclinada à nossa frente tingia-se de um ouro que, ao longe, adquiria a tonalidade de um castanho forte e rosado, que os tojos sorviam como água luminosa.


Mas as belezas do panorama eram indiferentes para meu amigo, que se mantinha mergulhado na mais profunda reflexão. — É esse o caminho, Watson — disse ele por fim. — Acho que devemos deixar, de momento, a questão de quem matou John Straker. Limitemo-nos a descobrir o que foi feito do cavalo. Supondo que ele fugiu durante ou depois da tragédia, para onde poderia ter ido? O cavalo é um animal gregário; ao ficar só, o instinto o teria feito regressar a King's Pyland ou a Capleton. Por que razão desataria a correr, como um selvagem, pelas charnecas? Neste caso, já teria sido visto. Há ainda a hipótese de os ciganos o terem levado, mas não me parece muito aceitável. São pessoas que se afastam dos lugares onde surgem dificuldades, pois não querem ser incomodadas pela polícia. Além disso, seria muito difícil vender um cavalo daqueles; eles se exporiam a grande perigo quase sem nenhum proveito. Tudo isso me parece bastante evidente. — Onde estará ele, então? — Já disse que devia ter ido para King's Pyland ou para Capleton. Ora, se não está em King's Pyland, está portanto em Capleton. Tomemos isso como a principal hipótese, e veremos aonde nos leva. Esta parte da charneca, como o inspetor observou, é muito dura e seca. Mas perto de Capleton se abranda, e pode-se ver daqui que há um longo vale, lá ao longe, que devia estar muito molhado com a chuva de segunda-feira. Se nossa hipótese estiver certa, o cavalo deve tê-lo atravessado; é pois ali que devemos procurar seu rastro. Caminhamos com rapidez durante nossa conversa, de modo que, poucos minutos depois, estávamos no vale em questão. A pedido de Holmes, desci o barranco à direita, e ele seguiu pelo da esquerda. Ainda não tínhamos andado cinqüenta metros, quando o ouvi gritar e vi o aceno alvoroçado de sua mão. O rastro de um cavalo era perfeitamente visível na terra fofa, e a ferradura que ele trazia no bolso adaptava-se rigorosamente às impressões deixadas. — Veja o valor da imaginação — disse Holmes. — É a única qualidade que falta a Gregory. Imaginamos o que poderia ter acontecido, agimos de acordo com a hipótese e eis-nos recompensados. Prossigamos, pois. Atravessamos o pântano e caminhamos meio quilômetro por um terreno de turfa dura e seca. Aqui e ali, o solo seguia em declive, mas o rastro continuava à nossa frente. Perdemo-lo depois, por cerca de oitocentos metros, para encontrá-lo de novo já muito perto de Capleton. Foi Holmes quem o descobriu, e demorou-se a apontá-lo, com uma expressão de triunfo a iluminar-lhe o rosto. Agora, era também visível o rastro de um homem acompanhando o cavalo. — O cavalo a princípio devia estar sozinho — observei. — Perfeitamente; começou só. Ei! O que é isto? Um duplo rastro descrevia uma curva e tomava a direção de King's Pyland. Holmes assobiou, e ambos nos dispusemos a seguilo. Ele fixava o caminho, mas sucedeu-me desviar os olhos e descobrir, com surpresa, os mesmos rastros que voltavam agora na direção oposta.


— Marque um ponto, Watson — disse Holmes quando lhe chamei a atenção para o fato. — Poupou-nos uma longa caminhada, que nos levaria outra vez a nossos próprios rastros. Vamos seguir sua pista. Não nos tínhamos afastado muito quando o rastro se perdeu no pavimento de asfalto que conduzia aos estábulos de Capleton. Ao chegarmos, apareceu correndo um criado. — Não queremos vagabundos por aqui — gritou.

— Quero apenas fazer-lhe uma pergunta — disse Holmes, metendo o indicador e o polegar no bolso do colete. — Amanhã, às cinco da manhã, será muito cedo para visitar o seu patrão, sr. Silas Brown? — Valha-me Deus! Se aparecer alguém, com certeza o encontrará, visto que é sempre o primeiro a acordar. Mas aí está ele para responder às suas perguntas. Não, senhor, não. Se me visse aceitar seu dinheiro, ele me despediria. Mais tarde, se o senhor quiser. Quando Sherlock Holmes acabava de guardar a meia coroa que tirara do bolso, um homem idoso, de aparência feroz, apareceu ao portão, agitando um chicote de caça. — O que há, Dawson? — trovejou. — Conversa fiada! Volte para seu trabalho. E os senhores? Que diabo querem aqui? — Apenas dez minutos de sua atenção, meu bom amigo — respondeu Holmes com a voz mais suave que lhe era possível. — Não tenho tempo para falar com vagabundos. Não queremos estranhos aqui. Vão-se embora, ou terão um cão em seus calcanhares. Holmes então inclinou-se e murmurou qualquer coisa ao ouvido do violento treinador, que, ato contínuo, ficou muito sério e corou até a raiz dos cabelos. — É mentira! — gritou. — Uma mentira infernal! — Muito bem! Quer que o interrogue em público ou em sua casa? — Oh! Entre, faça o favor. Holmes sorriu. — Não o farei esperar mais do que alguns minutos, Watson — disse. E, voltando-se para o treinador: — Pron- to, sr. Brown, estou à sua inteira disposição. Já se haviam passado uns bons vinte minutos e todo o rubor do poente se transformara numa cor cinza, quando Holmes e Brown reapareceram. Jamais vi uma mudança tão radical operar-se num homem, em tão curto lapso de tempo. O rosto de Brown era de uma palidez extrema, gotas de suor cintilavam-lhe na fronte e suas mãos tremiam tanto


que o chicote de caça oscilava como uma vergôntea ao vento. Seus modos arrogantes e ameaçadores haviam de todo desaparecido, humilhando-se mesmo perante meu companheiro, como um cão aos pés do dono. — Suas ordens serão cumpridas. Serão cumpridas... — repetiu. — Aviso-o de que não admito enganos — disse Holmes, olhando à sua volta. O outro encolheu-se quando se apercebeu da ameaça que se refletia nos olhos do detetive. — Oh! Não, não haverá engano. Estará lá. Quer que o mude primeiro ou não? Holmes pensou um momento e depois soltou uma gargalhada. — Não, não o mude. Eu lhe escreverei sobre o assunto. E nada de truques, senão... — Oh! O senhor pode confiar em mim. Pode confiar em mim! — Deve cuidar dele no dia marcado, como se fosse seu. — Pode contar comigo, senhor. — Sim. Também me parece que posso. Amanhã terá notícias minhas. Voltou as costas, indiferente à mão trêmula que o outro lhe estendeu, e saímos em direção a King's Pyland. — Raras vezes encontrei uma mistura tão perfeita de fanfarronice, covardia e gatunagem, como na figura do sr. Silas Brown — observou Holmes. — Então é ele quem está com o cavalo? — A princípio, quis esquivar-se com brincadeiras, mas fiz uma descrição tão real do que se passara que o homem acabou por se convencer de que eu assistira a tudo. Com certeza notou, Watson, a forma quadrada das pegadas, a que as botas dele correspondiam exatamente. Além disso, é evidente que se trata de um gesto que um criado não se atreveria a fazer. Depois lembrei-lhe que, conforme era seu hábito, ele fora o primeiro a levantar-se e a dar com aquele cavalo desconhecido errando pela charneca; contei-lhe, com pormenores, como ele se acercara do animal, e de seu espanto ao reconhecer a malha branca na testa que dera nome ao favorito. O acaso colocara-o de posse do único cavalo capaz de bater aquele em que arriscara seu dinheiro. Disse-lhe ainda que seu primeiro impulso fora reconduzi-lo a King's Pyland, mas o Diabo lhe sugeriu esconder o animal até a corrida acabar, e ele o levou e o ocultou em Capleton. Quando entrei nos pormenores, desistiu logo e apenas pensou em salvar a pele. — Mas os estábulos dele foram revistados. — Um velho ladrão de cavalos como ele tem muita astúcia.


— Mas, Holmes, não receia deixar o cavalo em poder dele, que deve ter todo o interesse em prejudicá-lo? — Não, caro amigo. Ele o guardará como à menina dos olhos. Sabe muito bem que sua única esperança de misericórdia é apresentá-lo são e salvo. — O coronel Ross não me deixou a impressão de ser pessoa para grandes misericórdias. — Mas isso não depende do coronel Ross. Sigo sempre os métodos que escolho, quer eles revelem muito ou pouco. É essa, aliás, a vantagem de não ser detetive oficial. Não sei se reparou, Watson, que a conduta do coronel para comigo tem sido a de um cavalheiro frívolo. Agora, eu é que estou me divertindo um pouco à custa dele. Não lhe diga nada a respeito do cavalo. Mas tudo isso tem muito menos importância do que saber quem matou John Straker. — E você vai tratar disso agora? — Pelo contrário. Vamos regressar a Londres no trem da noite. Fiquei surpreendido com a decisão de meu amigo, visto que tínhamos estado apenas algumas horas em Devonshire, e desistir de uma investigação que começara de modo tão brilhante era-me totalmente incompreensível. Mas nem uma palavra mais consegui arrancar dele até chegarmos, de novo, à casa do treinador. O coronel e o inspetor esperavam-nos na sala. — Meu amigo e eu vamos voltar a Londres no expresso da meia-noite — anunciou Holmes. — Já respiramos um pouco do ar maravilhoso de sua bela Dartmoor. O inspetor arregalou os olhos, e os lábios do coronel contraíram-se num risinho de escárnio. — Então o senhor perdeu as esperanças de prender o assassino do pobre Straker — disse, escandindo as palavras. — Há certamente graves dificuldades — respondeu Holmes, encolhendo os ombros. — Entretanto, tenho a esperança de que seu cavalo ganhe a próxima corrida, na terça-feira, e peco-lhe que prepare seu jóquei. Pode dar-me uma fotografia de John Straker? O inspetor tirou uma de um envelope que levava no bolso, e passou-lha. — Meu caro Gregory, o senhor antecipa todos os meus desejos. Queria pedir-lhe que esperasse por mim um momento, enquanto faço uma pergunta à criada. Importa-se? — Devo dizer que estou muito desapontado com nosso conselheiro de Londres — opinou o coronel asperamente, mal Sherlock Holmes saíra da sala. — Parece-me que não avançamos um passo sequer. — Bem, pelo menos o senhor tem a certeza de que seu cavalo estará presente na corrida — respondi.


— Ah! É verdade, tenho a garantia dele — disse o coronel com um encolher de ombros. — Mas eu preferia ter o cavalo. Eu ia dar uma resposta em defesa de meu amigo, quando este voltou à sala. — Agora, meus senhores, estou pronto para ir a Tavistock.

Quando nos preparávamos para entrar na carruagem, um dos moços do estábulo abriunos a porta. Uma idéia súbita parece ter ocorrido a Holmes, porque se inclinou e tocou no braço do rapaz. — Tem algumas ovelhas no curral? — perguntou. — Quem trata delas? — Eu, senhor. — Tem notado alguma coisa esquisita nelas? — Sim, mas de pouca importância; três apareceram coxas. Reparei que Holmes ficou extremamente satisfeito com essa resposta, pois ria entre dentes e esfregava as mãos. — Um grande tiro, Watson, bem na mosca! — Quase cantou, beliscando-me o braço. E, voltando-se para o inspetor: — Gregory, perdoe-me se lhe chamo a atenção para esta epidemia que grassa entre as ovelhas. A caminho, cocheiro! O coronel Ross mantinha uma expressão que revelava precário conceito sobre a competência de meu companheiro, mas, ao mesmo tempo, reparei que o inspetor ficara vivamente interessado. — Acha que é importante? — perguntou. — Muitíssimo. — E há algum outro ponto para o qual deseje chamar minha atenção? — Sim. Para o curioso incidente do cão àquela hora da noite. — O cão nada fez. — É isso mesmo o que torna o incidente curioso — rematou Sherlock Holmes. Quatro dias depois, Holmes e eu tomávamos outra vez o trem de Winchester para assistir à disputa da Taça Wessex. O coronel Ross, por prévia combinação, esperava-nos fora da estação. Mal chegamos, dirigimo-nos para o hipódromo, nos arredores da cidade. A fisionomia do coronel mantinha-se invariavelmente grave, e seu comportamento era frio ao extremo.


— Continuo sem saber nada sobre meu cavalo — disse. — Se o vir, acha que é capaz de reconhecê-lo? — perguntou Holmes. — Há vinte anos faço parte do turfe, e nunca me perguntaram tal coisa — respondeu o coronel, visivelmente irritado. — Até uma criança seria capaz de reconhecer o Estrela de Prata, com sua malha branca na testa e a perna direita sarapintada. — Como vão as apostas? — Bem, essa é a parte curiosa da questão. Ontem ainda se podia atingir quinze por um, mas o preço tem baixado, e agora não se consegue mais de três por um. — Hum? — fez Holmes. — É evidente que alguém sabe o que se passa. O trem aproximou-se da cerca do hipódromo, e eu olhei para o cartaz das inscrições: "TAÇA WESSEX 50 soberanos por elemento, com o acréscimo de l 000 soberanos para os de quatro e cinco anos. Segundo, 300 libras. Terceiro, 200 libras. Pista nova (três mil e duzentos metros).

1 — Negro, do sr. Heath Newton (boné vermelho, jaqueta cor de canela).

2 — Pugilista, do coronel Wardiaw (boné cor-de-rosa, jaqueta azul e preta).

3 — Desborough, de Lorde Backwater (boné e mangas amarelas).

4 — Estrela de Prata, do coronel Ross (boné preto e jaqueta vermelha).

5 — Íris, do duque de Balmoral (listras amarelas e pretas).

6 — Rasper, de Lorde Singleford (boné púrpura e mangas pretas)."

— Retiramos o outro cavalo e depositamos todas as nossas esperanças em sua palavra — disse o coronel. — Mas o que é aquilo? O Estrela de Prata é o favorito?! — Cinco a quatro contra o Estrela de Prata! — a campainha soou. — Cinco a quatro contra o Estrela de Prata. Quinze a cinco contra o Desborough! Cinco a quatro em qualquer outro! — Há números altos — disse eu.


— Todos os seis! Então meu cavalo corre — gritou o coronel em grande agitação. — Mas eu não o vejo. Minhas cores não passaram. — Passaram apenas cinco. Deve ser aquele que ali vem. No momento em que falei, um possante cavalo baio saiu rápido da cerca de pesagem e passou galopando por nós, levando no dorso o preto e vermelho do coronel. — Aquele não é meu cavalo — bradou o coronel. — Aquele animal não tem um único pêlo branco no corpo. O que fez, sr. Holmes? — Bem, só nos resta ver como ele se comporta — respondeu meu amigo, imperturbável. E olhou alguns minutos através de meu binóculo, gritando por fim: — Ótimo! Excelente arrancada! Lá vêm eles contornando a curva. De nosso carro tínhamos uma vista soberba de toda a pista. Os seis cavalos corriam tão juntos que se podia cobri-los com um tapete. Mas, vencida meia pista, o amarelo do estábulo de Capleton apareceu à frente. Pouco antes, o galope do Desborough era um autêntico tiro, mas o cavalo do coronel, investindo com ímpeto, passou o poste final com uns bons seis corpos de vantagem sobre seu rival. O Íris do duque de Balmoral não passou de um mau terceiro lugar. — Seja como for, a corrida é minha — disse, ofegante, o coronel, passando a mão pêlos olhos. — Mas confesso que não compreendo nada. Não acha, sr. Holmes, que já manteve por tempo demasiado seu mistério? — Tem razão, coronel. Vou lhe contar tudo. Mas primeiro vamos ver o cavalo. Aí está ele. — Entramos na cerca de pesagem, onde só os proprietários dos animais ou as pessoas amigas eram admitidos. — A única coisa que o senhor tem a fazer, coronel — disse Holmes com ênfase, acariciando a cabeça do animal —, é lavar-lhe a cabeça e a perna com vinho, e verá aparecer o mesmo Estrela de Prata de sempre. — O senhor faz-me perder o fôlego. — Encontrei-o nas mãos de um trapaceiro, e tomei a liberdade de fazê-lo correr como estava estipulado. — Meu caro amigo, o senhor fez maravilhas. O cavalo está ótimo. Para falar a verdade, nunca esteve melhor. Devo-lhe milhares de desculpas por ter duvidado de seu talento. O senhor prestou-me um inestimável serviço ao descobrir meu cavalo. Mas me prestaria outro ainda maior se conseguisse deitar a mão ao assassino de John Straker. — Já o fiz também — disse Holmes calmamente. O coronel e eu olhamos para ele com espanto.


— Já o apanhou? Onde está ele então? — Aqui. — Aqui, onde? — Aqui mesmo, diante de mim. O coronel corou de raiva, e as palavras saíram-lhe firmes: — Reconheço perfeitamente que lhe devo favores, sr. Holmes, mas tenho de lembrarlhe que isso que o senhor acaba de insinuar é uma brincadeira de mau gosto ou um insulto. Sherlock Holmes sorriu. — Afianço-lhe que não o associei ao crime, coronel. O verdadeiro assassino está justamente atrás do senhor! O militar deu um passo atrás e deitou a mão ao pescoço lustroso do puro-sangue.

— O cavalo! — gritamos o coronel e eu. — Sim, o cavalo. E sua culpa pode ser atenuada se tomarmos em conta que se limitou a defender-se. John Straker era indigno de sua confiança, coronel. Mas vai soar a campainha e, se bem me parece, posso ganhar alguma coisa na próxima corrida. Deixarei para ocasião mais propícia a explicação completa dos acontecimentos. Em nosso regresso a Londres, ocupamos todo um canto do vagão pullman do trem noturno. Tanto para o coronel como para mim foi uma viagem muito curta, tão interessados e absorvidos íamos com o relato de Holmes sobre os acontecimentos que haviam ocorrido em Dartmoor, naquela noite de segunda-feira, nos estábulos, e de como chegara a descobri-los. — Confesso — continuou — que, se tivesse elaborado uma teoria baseada nas reportagens dos jornais, teria errado estrondosamente. Apresentaram algumas informações tão carregadas de pormenores sem interesse que careciam de toda a eficiência. Fui a Devonshire com a convicção de que o verdadeiro culpado era Fitzroy Simpson, apesar de perceber que as provas contra ele não eram, de modo nenhum, conclusivas. Quando estava na carruagem, ao chegar à casa do treinador, ocorreu-me o imenso significado do carneiro com molho. Os senhores lembram-se, com certeza, de que eu estava distraído, e continuei sentado depois de todos terem descido. E eu próprio me admirava de que tivesse ignorado um vestígio tão claro e evidente. — Confesso — disse o coronel — que até agora não sou capaz de atinar com seu valor. — Foi o primeiro elo de minha cadeia de raciocínios.


O ópio em pó não é insípido; longe disso. Seu sabor não é desagradável, mas perfeitamente perceptível. Adicionado a qualquer prato comum, o comensal sentiria sem dúvida alguma coisa, e seria até possível que não comesse mais. Ora, o molho foi exatamente o meio de disfarçar-lhe o gosto! Mas não é lícito supor que esse estranho Fitzroy Simpson tivesse mandado servir molho à família do treinador, naquela mesma noite. E seria igualmente uma monstruosa coincidência trazer consigo o pó de ópio precisamente na noite em que acontecia haver um prato capaz de lhe disfarçar o sabor. É inimaginável. Portanto, Simpson fica excluído do caso, e nossa atenção passa a concentrar-se em Straker e sua mulher, as duas únicas pessoas que podiam ter escolhido carneiro com molho para a ceia daquela noite. O ópio foi acrescentado depois de se ter separado a porção para o rapaz do estábulo, visto que os outros comeram a mesma coisa, sem maus resultados. Qual deles, então, teve acesso à travessa, sem que a criada visse? "Antes de decidir essa questão, concentrei-me no fato de o cão não ter ladrado, porque uma conclusão verdadeira sugere sempre outras. O incidente de Simpson indicava que o cão não saíra dos estábulos e, no entanto, não ladrara o suficiente para acordar os moços que dormiam no sótão, embora alguém houvesse entrado e levado um dos cavalos. Torna-se assim claro que o visitante daquela noite era uma pessoa que o animal conhecia muito bem. "Nessa altura, eu já estava convencido, ou quase, de que fora John Straker quem, na calada da noite, descera aos estábulos e tirara de lá o Estrela de Prata. Mas com que fim? Evidentemente com um fim desonesto, pois de outro modo não se compreendia que tivesse narcotizado o moço de seu próprio estábulo. Todavia, não era fácil descobrir por quê. Tem havido casos de treinadores que se apossam de grandes quantias de dinheiro, apostando, por meio de agentes, contra seus próprios cavalos, impedindo-os fraudulentamente de ganhar. Às vezes, é um jóquei que trata de refreá-los durante a corrida, outras, qualquer tratamento mais seguro e sutil. E no nosso caso? Esperava que o material encontrado nos bolsos de Straker me auxiliasse a chegar a uma conclusão. E assim foi. "Não esqueceram, com certeza, a faca que foi encontrada na mão do morto, faca aliás que nenhum homem sensato escolheria como arma. Era, como nos disse o dr. Watson, um tipo de faca usada nas mais delicadas operações cirúrgicas. E, para falar a verdade, naquela noite ia-se proceder a uma delicada operação. Como o senhor sabe pela sua ampla experiência em assuntos de turfe, coronel Ross, é possível fazer uma leve incisão no tendão do jarrete de um cavalo, sem deixar vestígios; o cavalo assim tratado coxeia levemente, e de modo tão natural que se pode atribuir o fato a um mero esforço de exercício ou a um ataque de reumatismo, mas nunca a uma traição." — O malandro! O miserável! — rugiu o coronel. — E eis por que John Straker quis levar o cavalo para a charneca. Um animal vivo teria certamente acordado o mais pesado dorminhoco quando sentisse a picada da faca. Era absolutamente necessário fazê-lo ao ar livre. — Como não percebi nada! — lamentou-se o coronel. — Talvez por isso ele tenha levado a vela.


— Sem dúvida. Mas, ao examinar seus objetos particulares, tive bastante sorte em descobrir, não só o método do crime, mas até o motivo. Como homem do mundo, coronel, o senhor sabe que não se levam nos bolsos as contas dos outros; as nossas são mais do que suficientes. Concluí logo que Straker levava uma dupla vida, e mantinha uma segunda casa. A natureza da conta revelou que havia uma senhora no caso, e uma senhora de gostos dispendiosos. Mesmo sendo liberal com os que o servem, coronel, não deve esperar que um empregado seu possa comprar para a mulher um vestido de passeio de vinte guinéus. Interroguei a sra. Straker a respeito do vestido, mas ela negou possuí-lo, o que me alegrou, porque provava que ele nunca lhe chegara às mãos. Tomei então nota do endereço da modista, certo de que, com uma fotografia de Straker, poderia com facilidade liquidar com o fictício Darbyshire. "Daí em diante, tudo ficou claro. Straker levou o cavalo para uma cova de onde sua luz fosse invisível. Simpson, na fuga, perdeu a gravata e Straker guardou-a, talvez com a idéia de, com ela, amarrar a perna do cavalo. Uma vez no buraco, colocou-se atrás do animal e acendeu a vela. Mas o cavalo assustou-se com o brilho repentino e, com o estranho instinto dos animais, sentiu que estava em perigo. Deu então um coice, e sua ferradura de aço feriu Straker em cheio na fronte. Este, a despeito da chuva, já tirara a capa para executar mais facilmente sua delicada tarefa, e ao cair a faca rasgou-lhe a coxa."

— Admirável! — gritou o coronel. — Admirável! Parece que o senhor esteve lá. — Minha visão, confesso, foi de longo alcance. Concluí que um homem tão astuto como Straker não se arriscaria a essa delicada incisão do tendão sem previamente praticar um pouco. Mas como? Foi então que reparei nas ovelhas, cujo andar levemente coxo, em vez de me surpreender, provou apenas que minhas suspeitas eram fundamentadas. — O senhor tornou tudo perfeitamente claro, sr. Holmes. — Quando voltei a Londres, visitei a modista, que logo reconheceu em Straker um excelente freguês, mas seu nome era Darbyshire, e tinha uma esposa vaidosa que adorava vestidos caros. Não me resta dúvida de que essa mulher o mergulhou em dívidas até as orelhas, levando-o a perpetrar aquele miserável plano. — O senhor explicou tudo, com exceção de uma coisa — exclamou o coronel. — Onde estava o cavalo? — Ah! Fugiu e foi tratado por um de seus vizinhos. Mas, neste caso, parece-me que vamos ter necessidade de uma anistia. Já chegamos ao entroncamento de Clapham, se não estou enganado, e em menos de dez minutos estaremos em Victoria. Se quiser fumar um charuto em nossa casa, coronel, terei todo o prazer em dar-lhe outros pormenores que possam lhe interessar.


Arthur Conan Doyle 2- A face amarela Título original: The Yellow Face Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1893. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Yellow Face publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Ao publicar estes breves esboços, baseados em numerosos casos e dramas estranhos de que as qualidades especiais de meu companheiro me fizeram espectador, e eventualmente ator, é muito natural que me detenha mais nos êxitos do que nos fracassos. Não se trata de amor à sua reputação, pois era precisamente quando não tinha nada em mãos que sua energia e vitalidade se tornavam mais admiráveis, mas sucedia muitas vezes que, onde ele fracassava, ninguém mais era bem sucedido. Entretanto, às vezes acontecia que, mesmo quando errava, a verdade era descoberta. Possuo alguns casos dessa natureza, dos quais o da segunda mancha e o que vou agora narrar são os que apresentam as mais fortes características de interesse. Sherlock Holmes era um homem que só muito raramente fazia exercícios por diletantismo, mas poucos seriam capazes de maior esforço físico. Foi, sem dúvida alguma, um dos mais exímios pugilistas de seu peso que já encontrei. Considerava porém o esforço físico sem objetivo um desperdício, e poucas vezes se entregava à atividade, exceto se havia um fim profissional a ser atingido. Então era infatigável, sendo de espantar que, em ocasiões extremas, se encontrasse em forma. Atribuo isso a seu sóbrio regime alimentar e aos hábitos simples, que se aproximavam da austeridade. Um dia, no começo da primavera, estava tão bem-disposto que saiu comigo para um passeio no Hyde Park. Os olmos começavam a desabrochar, e as duras pontas de lança dos castanheiros rebentavam-se em folhas múltiplas. Erramos juntos durante duas horas, a maior parte do tempo em silêncio, como sucede com duas pessoas que se conhecem intimamente. Eram já quase cinco horas quando regressamos à Baker Street. — Desculpe, senhor — disse nosso criado, ao abrir a porta —, mas esteve aqui um cavalheiro que perguntou pelo senhor. Holmes olhou para mim com ar de censura: — Gastar tanto tempo nestes passeios à tarde! O cavalheiro já se foi? — Sim, senhor. — Não o mandou entrar?


— Mandei, sim. Ele entrou. — Quanto tempo esteve à espera? — Meia hora. Era um cavalheiro inquieto. Todo o tempo que aqui esteve, andou de um lado para outro e batia os pés no chão. Ouvi perfeitamente, senhor, porque fiquei à espera do outro lado da porta. Por fim, saiu para o corredor e disse: "Esse homem nunca mais vem?" Foram essas suas próprias palavras, senhor. Eu respondi: "Queira esperar um pouco mais". "Então esperarei ao ar livre, porque tenho pressa. Voltarei mais tarde." E foi-se embora. — Bem, você fez o que pôde — disse Holmes quando entramos. E, dirigindo-se a mim: — Realmente, é muito aborrecido, Watson; tenho imensa necessidade de um caso e este parece-me de importância, a julgar pela impaciência do homem. Espere! Aquele cachimbo em cima da mesa não é seu! Nosso homem deve tê-lo esquecido. É um belo cachimbo de roseira, com um cabo comprido, de uma substância a que os tabaquistas chamam âmbar. Pode fazer-se uma idéia de quantas boquilhas de âmbar autêntico há em Londres. Algumas pessoas acham que uma pequena mosca na boquilha é um sinal de distinção, a tal ponto que há um ramo de negócio que consiste em simular moscas em âmbar falso. Mas o homem deve ter sofrido um distúrbio mental para se esquecer de uma coisa que tanto estima. — Como sabe disso? — perguntei. — Bem, calculo o custo original do cachimbo em sete xelins e seis pence. Ora, ele já foi consertado duas vezes, como se vê: no cabo de madeira e no âmbar. Cada um desses arranjos, feito com anilhas de prata, deve ter custado mais do que o cachimbo. O homem tem de estimá-lo muito para preferir mandar consertá-lo a comprar outro com o mesmo dinheiro. — Alguma coisa mais? — insisti, vendo Holmes virar o objeto na mão e observá-lo a seu modo peculiar e pensativo.

Ergueu-o e bateu-lhe ao de leve com o indicador comprido e fino, como um professor que fizesse uma preleção sobre um osso. — Os cachimbos são, por vezes, de um interesse extraordinário. Nada tem mais originalidade, exceto talvez os relógios e os cadarços das botas. No entanto, as indicações neste caso não são muito significativas nem muito importantes. O dono deste objeto é um homem musculoso, canhoto e de excelente dentadura. Além disso, é descuidado em seus hábitos e não tem a menor necessidade de fazer economia. Meu amigo lançou essa opinião de maneira categórica, mas vi que olhou para mim para ver se eu lhe seguia o raciocínio. — Você acha que um homem precisa ser rico para fumar um cachimbo de sete xelins? — perguntei.


— Esta mistura de Grosvenor custa oito pence a onça — respondeu Holmes. — Visto que ele poderia comprar um excelente tabaco por metade do preço, deduzo que não tem necessidade de fazer economia. — E os outros pontos?

— Tem o hábito de acender o cachimbo nos candeeiros e nos bicos de gás. Nota-se que a madeira está toda queimada de um lado, e um fósforo não teria feito isso. Não se compreende que um homem coloque um fósforo do lado de fora do cachimbo, mas se o acender numa lâmpada queima-lhe o bojo. É o lado direito que está queimado, e por isso concluo que é canhoto. Leve você seu cachimbo à chama e repare que, não sendo canhoto, é o lado esquerdo que queima, normalmente. Mas vê-se também que é um indivíduo musculoso, enérgico, por ter conseguido morder o âmbar desta maneira. Que belos dentes deve ter! Mas, se não estou enganado, ouço-o subir a escada, de modo que teremos algo de mais interessante para estudar do que seu cachimbo. Um instante depois, a porta abriu-se e entrou na sala um jovem alto, modestamente vestido de cinza-escuro, na mão um chapéu mole e castanho. Eu lhe daria uns trinta anos, embora fosse um pouco mais velho. — Peco-lhes desculpas — começou com certo embaraço. — Creio que devia ter batido. Sim, devia ter batido, na verdade. Mas estou um pouco transtornado, de modo que me esqueço de tudo. — Passou a mão pela testa com uma expressão de surpresa e jogou-se numa cadeira. — Noto que o senhor não dorme há uma ou duas noites — disse Holmes, à maneira fácil e engenhosa. — Isso é pior para os nervos do que o trabalho. Pior mesmo que o prazer. Importa-se que lhe pergunte em que posso servi-lo? — Queria que me desse um conselho. Não sei o que fazer. Toda a minha vida parece transtornada. — Quer contratar meus serviços como detetive? — Não. Não é bem isso. Queria sua opinião porque sei que o senhor é um homem criterioso, um homem experiente. Preciso saber o que fazer. E Deus queira que possa ajudar-me. Falava entrecortadamente, com arranques ásperos e espasmódicos. Parecia que falar era-lhe muito penoso, e que seu desejo era vencer essa dificuldade. — É um assunto muito delicado — disse ele. — Ninguém gosta de falar a estranhos a respeito de suas questões domésticas. Parece-me horrível abordar a conduta da mulher com quem me casei com dois homens que nem sequer conheço. É na verdade horrível ter de recorrer a isso. Cheguei porém ao fim de meus receios, e preciso de conselho. — Meu caro sr. Grant Munro — começou Holmes.


O nosso visitante saltou na cadeira. — O quê? — gritou. — O senhor sabe meu nome?! — Se quiser manter-se incógnito — respondeu Holmes —, sugiro-lhe que deixe de escrever seu nome no forro do chapéu, ou então volte a copa para a pessoa a quem se dirigir. Mas eu dizia que tanto meu amigo como eu temos ouvido muitos segredos nesta sala, e também temos tido a felicidade de levar a paz a muitas almas angustiadas. Espero que possamos fazer o mesmo com o senhor. Visto que o tempo é sempre de primordial importância, peco-lhe para expor o caso sem mais delongas. Como se achasse isso muito doloroso, o nosso visitante passou outra vez a mão pela testa. Em cada um de seus gestos e expressões, eu notava nele um homem reservado e, por natureza, capaz de se dominar; mas havia também certo orgulho que o levava a preferir ocultar suas feridas em lugar de as revelar. De repente, fazendo com a mão o gesto de quem se liberta de um peso, começou: — Os fatos são estes, sr. Holmes, Sou casado há três anos, minha mulher e eu amamonos sempre com paixão e temos sido felizes como se nunca houvéssemos vivido um sem o outro. Nunca tivemos uma divergência, por pensamentos, palavras ou obras. Mas agora, desde segunda-feira passada, surgiu de súbito uma barreira entre nós e descobri que existe alguma coisa em sua vida e em seus pensamentos que conheço tão mal como se se tratasse de uma estranha que cruzasse comigo na rua. Somos estranhos, e quero saber por quê. Mas há uma coisa que desejo salientar antes de prosseguir, sr. Holmes. Effi me ama. Não deve haver a menor dúvida a esse respeito. Ama-me de todo o coração e de toda a sua alma, e nunca me amou mais do que agora. Sei disso, sinto-o, e não venho aqui para discuti-lo. Um homem pode saber com facilidade quando a mulher o ama. Mas agora há este segredo entre nós, e nunca poderemos voltar a ser os mesmos enquanto tudo não estiver esclarecido. — Tenha a bondade de me apresentar os fatos, sr. Munro — disse Holmes com impaciência. — Começarei pelo que sei da história de Effi. Era viúva quando a encontrei pela primeira vez, embora muito nova, pois tinha apenas vinte e dois anos. Chamava-se então sra. Hebron. Fora muito jovem para a América, e viveu na cidade de Atlanta, onde se casou com um advogado de grande clientela chamado Hebron. Tiveram uma filha; mas, durante a epidemia de febre amarela que repentinamente grassou na cidade, ambos morreram, o marido e a filha. Vi as certidões de óbito. Esses tristes fatos desgostaramna na América, e fizeram-na regressar à casa de uma tia solteira que vive em Pinner, em Middlesex. Posso acrescentar que o marido a deixou muito bem, com um capital de quase quatro mil e quinhentas libras, tão bem aplicado que rende uma média de sete por cento. Chegara a Pinner havia seis meses quando a vi pela primeira vez; gostamos logo um do outro e casamo-nos poucas semanas depois. "Sou negociante de lúpulo e, como tenho uma renda de setecentas a oitocentas libras, vivemos com um certo desafogo e alugamos, em Norbury, uma casa de oito libras por ano. É um lugar bastante rústico, embora fique muito perto da cidade. Há na região uma pensão e duas casas um pouco mais adiante e, do outro lado do prado, bem em frente à


nossa, outra casa. Isso é tudo até meio caminho da estação. Meu negócio obriga-me a vir à cidade em certas épocas do ano. No verão, em geral, tenho menos o que fazer, e fico mais em casa. Minha mulher e eu éramos realmente tão felizes quanto podíamos desejar. Digo-lhe que nunca houve a menor sombra entre nós, até surgir este maldito caso. Mas há mais uma coisa que lhe devo dizer antes de continuar: quando nos casamos, minha mulher passou toda a sua propriedade para meu nome, apesar de minha firme oposição, porque eu via nisso um perigo caso meus negócios corressem mal. Mas ela insistiu tanto que assim se fez. Ora, há cerca de seis semanas, ela veio ter comigo e disse-me: "— Jack, quando você ficou com meus bens, disse que, se eu precisasse de dinheiro, bastava pedir. "— Naturalmente — respondi —, visto que é todo seu. "— Nesse caso, preciso de cem libras. "Fiquei um tanto alarmado com o pedido; julguei tratar-se simplesmente de um vestido novo ou coisa parecida. "— Para que quer tanto dinheiro? "— Oh! — disse ela com seu modo travesso —, você me disse que seria apenas meu banqueiro, e os banqueiros nunca fazem perguntas. "— Se realmente o deseja, é claro que o terá. "— Sim, realmente quero. "— E não me diz para quê? "— Um dia, talvez. Mas agora não, Jack. "Fiquei calado, embora aquele fosse o primeiro segredo entre nós, mas dei-lhe um cheque e nunca mais falamos no assunto. Pode ser que este detalhe não tenha nada a ver com o que se passou em seguida, mas achei conveniente mencioná-lo. Eu lhe disse ainda há pouco que existe outra casa não muito distante da minha, separada apenas por um prado. Para chegar lá é preciso tomar a estrada e seguir depois por um beco. Mais adiante, há um pequeno pinhal muito lindo, onde eu gostava de passear porque as árvores são sempre boas companheiras. Ora, esta casa está vazia há oito meses, e é uma pena, visto que é uma bela moradia de dois andares, com uma entrada de estilo antigo, toda cercada de madressilvas. Pensei muitas vezes que bela residência se faria dela. Na segunda-feira passada à tarde, eu descia o caminho em meu passeio habitual, quando cruzei com um caminhão de mudança vazio subindo o beco. Vi também uma pilha de tapetes e outros objetos ao lado da entrada, tornando-se evidente que a moradia fora alugada. Continuei a andar, depois parei como qualquer pessoa desocupada e corri os olhos pela casa, tentando imaginar que espécie de gente teria vindo morar tão perto de nós. Foi então que descobri um rosto que me fitava de uma das janelas de cima. Não sabia o que havia naquele rosto, mas, ao fixá-lo melhor, senti um arrepio percorrer-me a espinha. Estava longe, de modo que não fui capaz de lhe distinguir as feições, mas senti


que havia nele qualquer coisa que não era natural nem humana. Foi essa a impressão que tive. Corri então, a fim de ver mais de perto a pessoa que continuava a fitar-me. Mas, quando me aproximei, o rosto desapareceu repentinamente, tão repentinamente que me pareceu ter sido arrastado para a escuridão do quarto. Durante uns cinco minutos fiquei estático, pensando no assunto e tentando analisar minhas impressões. Não podia, porém, dizer se o rosto era de homem ou mulher. Sua cor foi o que mais me impressionou: era de um amarelo lívido e cadavérico, com algo de rígido mesmo, que o tornava chocantemente antinatural. Cheguei a tal ponto de estupefação que decidi indagar a respeito de tão estranho inquilino. Aproximei-me da porta e bati. Uma mulher alta e magra, mal-encarada e antipática, apareceu logo.

"— O que o senhor quer? — perguntou, com um sotaque do norte. "— Sou seu vizinho e moro ali — respondi, indicando com a cabeça minha casa. — Vejo que acaba de se instalar, e pensei que talvez lhe pudesse ser útil. "— Muito bem — respondeu a mulher. — Chamaremos quando precisarmos. — E bateu-me com a porta na cara. "Aborrecido com tal grosseria, fui para casa; toda a tarde pensei na aparição da janela e na rispidez daquela mulher. Em vão tentava desviar o pensamento para outras coisas, e resolvi não dizer nada a minha mulher, pois ela é uma pessoa nervosa e facilmente impressionável. No entanto, antes de nos deitarmos, observei-lhe que a moradia vizinha já estava alugada, mas ela não fez nenhum comentário. "Normalmente, tenho o sono pesado. Dizem até por brincadeira, em família, que não há nada que me acorde durante a noite. Mas desta vez deve ter acontecido alguma coisa especial, talvez por causa da excitação que me provocara minha pequena aventura. Não sei; o certo é que nessa noite tive um sono muito leve. Mais ou menos em sonhos, estava consciente de que se passava qualquer coisa em meu quarto e, pouco a pouco, fui me certificando de que minha mulher se vestia, punha a capa nas costas e pegava o chapéu. Meus lábios se abriram ainda para murmurar algumas palavras de surpresa ou censura perante tais preparativos; mas meus olhos meio abertos pousaram de repente em seu rosto, iluminado pela luz da vela, e o espanto emudeceu-me. Ela tinha uma expressão que eu nunca lhe vira, e que não a sabia capaz de assumir: mortalmente pálida, olhava furtivamente para a cama, enquanto prendia a capa, para ver se me acordara. Supondo que eu continuava a dormir, saiu silenciosamente do quarto e, instantes depois, ouvi um rangido áspero, que podia ser dos gonzos da porta da frente. Sentei-me, esfreguei as articulações nas colunas da cama para me certificar de que estava acordado e tirei o relógio que ficara debaixo do travesseiro. Eram três da manhã. Que diabo poderia fazer minha mulher numa estrada às três horas da manhã? "Fiquei sentado uns vinte minutos pensando no assunto e tentando descobrir uma explicação plausível, mas quanto mais pensava mais extraordinário tudo aquilo me parecia. Perplexo, ouvi de novo a porta da frente fechando-se devagarinho, e os passos dela subindo a escada.


"— Onde você esteve, Effi? — perguntei, quando ela entrou. "Levou um susto violento e deu uma espécie de grito ofegante quando falei; e tanto o susto como o grito ainda mais me perturbaram porque denunciavam indiscutivelmente certa culpa. Minha mulher sempre fora franca e aberta para comigo, de modo que senti um arrepio estranho ao vê-la entrar furtivamente em seu próprio quarto e encolher-se, gritando, quando o marido lhe falava. "— Você está acordado, Jack? — gritou, com uma risada nervosa. — Pensava que nada podia acordar você. "— Onde esteve? — perguntei, com mais dureza. "— Não admira que você esteja surpreso — disse ela. Os dedos tremiam-lhe ao desprender a capa. — Não me lembro de ter feito semelhante coisa em toda a minha vida. Mas a verdade é que me senti sufocada, com uma necessidade louca de um pouco de ar fresco. Creio que desmaiaria se não tivesse saído. Fiquei alguns minutos à porta, e agora estou de novo perfeitamente bem. "Durante toda essa história, não olhou uma única vez para mim, e sua voz era totalmente diferente da que lhe era habitual. Tornou-se evidente que estava mentindo. Não lhe dei resposta. Virei-me para a parede, o coração angustiado, a cabeça cheia de milhares de dúvidas e suspeitas cruéis. O que minha mulher estaria ocultando? Onde teria estado em seu estranho passeio? Eu sentia que não teria paz enquanto não o soubesse, mas resistia à idéia de perguntar, uma vez que ela me mentia. Fiquei agitado e angustiado pelo resto da noite, formando teoria após teoria, cada uma mais improvável do que a outra. "Naquele dia, eu devia ir à cidade, mas estava preocupado demais para dar atenção a assuntos comerciais. Minha mulher parecia tão transtornada como eu. Pêlos olhares rápidos que me lançava, pude adivinhar que sentia minha dúvida em relação a tudo o que ela dissera. E isso a preocupava. Trocamos apenas uma palavra durante o desjejum. Logo a seguir, saí; fui dar um passeio ao ar fresco da manha, para não pensar tanto no assunto. Afastei-me até o Crystal Palace e andei uma hora pêlos campos. Quando voltei a Norbury, era uma hora da tarde. Aconteceu que, quando passei diante daquela casa, parei um instante para ver se conseguia descobrir a tal face estranha que me encarara no dia anterior. Imagine minha surpresa, sr. Holmes, quando a porta se abriu e saiu de lá minha mulher. "Ao avistá-la, fiquei mudo de espanto, mas minhas emoções não eram nada comparadas às que se lhe estamparam no rosto quando nossos olhos se encontraram. Por um instante, pareceu-me que queria retroceder para dentro da casa. Percebendo porém que seria inútil qualquer tentativa de fuga, caminhou em frente com o rosto muito branco, e com um olhar tão assustado que fez morrer o sorriso que tinha nos lábios. "— Oh, Jack! Entrei aqui agora mesmo para ver se nossos vizinhos precisavam de alguma coisa. Por que olha assim para mim? Está zangado? "— Estou — respondi. — Foi para cá que você veio a noite passada.


"— Que quer dizer? "— Tenho certeza de que foi para cá que você veio a noite passada. Que pessoas você foi visitar àquela hora? "— Mas eu nunca vim até aqui...

"— Como tem coragem de dizer aquilo que você sabe que é mentira? — exclamei. — Até sua voz se altera quando você fala. Já lhe escondi porventura alguma coisa? Vou entrar na casa para desvendar esse mistério. "— Não, Jack! Pelo amor de Deus! — gritou com incontida emoção. "Aproximei-me da porta, mas ela puxou-me pelo braço com uma força convulsiva. "— Imploro-lhe que não entre, Jack — gritou. — Juro que um dia direi tudo. Mas, se entrar nessa casa, você terá um desgosto. "E agarrou-se a mim quando tentei livrar-me de sua súplica frenética. "— Confie em mim, Jack — continuou, com angústia. — Confie em mim desta vez apenas, e nunca terá razões para se arrepender. Sabe que eu não ocultaria nada se não fosse para seu próprio bem. Nossas vidas estão em perigo. Se voltar para casa comigo, tudo correrá bem, mas se insistir em entrar, tudo acabará entre nós. "Havia tal veemência, tal desespero em sua atitude, que estas palavras me detiveram e fiquei imóvel, indeciso, diante da porta. "— Confiarei em você, mas com uma condição, uma única condição — disse por fim. — Eu lhe darei a liberdade de manter seu segredo, mas prometa-me que não haverá mais visitas noturnas nem atos ocultos que eu ignore. Quero esquecer tudo o que se passou, se me prometer que no futuro não se repetirão.

"— Eu estava certa de que você confiaria em mim — disse ela com um grande suspiro de alívio. — Será como quiser. Agora, vamos embora! Vamos para casa! — E, puxando-me pelo braço, afastou-me aquela casa. No caminho olhei para trás; lá estava aquele rosto amarelo, lívido, a espiar-nos da janela de cima. Que elo poderia haver entre aquela criatura e minha mulher? Como ela poderia manter relações com aquela mulher grosseira que eu vira no dia anterior? Tudo isso era um estranho enigma, e eu não teria sossego enquanto não o desvendasse. "Permaneci dois dias em casa, e minha mulher parecia conservar-se leal a nosso compromisso, visto que, até onde me foi dado saber, também não saiu. No entanto, ao terceiro dia, tive a certeza de que sua promessa solene não era suficientemente forte para libertá-la daquela secreta influência que a afastava de mim.


"Eu fora a Londres mas regressei no trem das duas e quarenta, e não no das três e trinta e seis, como de costume. Quando cheguei a casa, a criada acorreu à entrada com um ar muito assustado. "— Onde está a senhora? — perguntei. "— Parece-me que foi dar um passeio — foi a resposta. "Fiquei imediatamente cheio de suspeitas. Precipitei-me escada acima para ver se de fato ela não estava em casa. Aconteceu que, passando por uma janela, olhei para fora e vi a criada, com quem estivera falando, correndo pelo campo em direção à casa. Compreendi então o que tudo aquilo significava: minha mulher fora até lá e pedira à criada que a chamasse quando eu voltasse. Ardendo de raiva, desci precipitadamente e saí correndo, resolvido a acabar com aquela história de uma vez para sempre. Vi minha mulher e a criada voltando apressadas pelo beco, mas não parei para lhe falar. Na casa é que estava o segredo que lançava uma sombra sobre minha vida. Jurei que esse segredo se desvaneceria, acontecesse o que acontecesse. Nem bati à porta; virei rápido a maçaneta e entrei. No andar térreo tudo estava tranquilo e silencioso. Na cozinha, uma chaleira cantava sobre o fogão. Um grande gato preto estava enrolado dentro de um cesto. Nenhum sinal da mulher grosseira que me abrira a porta no outro dia. Corri ao outro quarto, que estava igualmente vazio. Subi a escada correndo, mas só encontrei duas salas desertas. Não havia ninguém, absolutamente ninguém em toda a casa. A mobília e os quadros eram comuns, excetuando-se a do quarto em cuja janela eu vira o estranho rosto. Esse era elegante e confortável. Mas todas as minhas suspeitas se acenderam num ardor amargo e violento quando vi, sobre a lareira, uma ampliação de uma fotografia que minha mulher tirara, a meu pedido, havia apenas três meses.

"Permaneci ali o tempo suficiente para me certificar de que a casa estava realmente vazia. Saí então, sentindo no peito o que nunca sentira. Minha mulher estava no vestíbulo quando cheguei a casa. Mas eu estava muito magoado para lhe falar, de modo que fui direto ao escritório. Ela no entanto alcançou-me antes que eu tivesse tempo de fechar a porta. "— Estou triste por ter quebrado minha promessa, Jack. Mas se você soubesse o que se passa, estou certa de que me perdoaria. "— Então, conte-me tudo. "— Não posso, Jack. Não posso! "— Enquanto não me disser quem mora naquela casa e a quem você deu aquela fotografia, não pode haver confiança entre nós — disse eu. "E, abandonando-a, saí de casa. Isso se passou ontem, sr. Holmes, e desde então não tornei a vê-la, nem soube mais nada do assunto. É a primeira sombra que cai entre nós. Mas fiquei tão abalado que não sei o que fazer. Esta manhã lembrei-me de que o senhor era homem para me aconselhar; apressei-me pois a procurá-lo e coloco-me sem reservas


em suas mãos. Se houve algum ponto sobre o qual não fui claro, pode perguntar. Mas, acima de tudo, tenha a bondade de me dizer o que devo fazer, porque tudo isso está além de minhas forças." Holmes e eu ouvimos, com o mais vivo interesse, essa extraordinária narrativa, exposta aos tropeços por um homem atingido pela mais extrema emoção. Meu companheiro continuou sentado, pensativo, o queixo apoiado nas mãos. — Diga-me — começou, por fim. — O senhor pode jurar que era o rosto de um homem o que viu na janela? — Vi-o sempre a uma certa distância, de modo que não é possível afirmá-lo. — No entanto, parece que o impressionou desfavoravelmente. — Pareceu-me de cor antinatural e de feições muito rígidas. Quando me aproximei, desapareceu num salto. — Há quanto tempo sua mulher lhe pediu as cem libras? — Há cerca de dois meses. — Já viu algum retraio do primeiro marido? — Não. Houve um grande incêndio em Atlanta logo depois de sua morte, e os papéis dela ficaram todos destruídos. — Mas tinha uma certidão de óbito. O senhor diz que a viu. — É verdade. Trata-se de uma segunda via, tirada depois do incêndio. — Encontrou alguma vez antigas relações de sua mulher na América? — Não. — Ela falou-lhe em voltar para lá? — Não. — Recebe cartas de lá? — Que eu saiba, não. — Muito obrigado. Gostaria de pensar um pouco no assunto. Se a casa continuar desabitada, é possível que venhamos a ter dificuldades. Mas se, como creio, os inquilinos foram avisados de sua ida tempestuosa e saíram por momentos, voltando em seguida, então poderemos esclarecer tudo facilmente. Aconselho-o a voltar a Norbury e examinar, de novo, as janelas da casa. Se notar que há gente, não entre à força, mas mande-nos um telegrama. Iremos ter com o senhor, e uma hora depois atacaremos o caso a fundo.


— E se continuar vazia? — Nesse caso, irei amanhã discutir o caso com o senhor. Adeus e, acima de tudo, não se irrite sem motivo. — Receio que se trate de um caso grave, Watson — disse meu amigo, ao voltar da porta aonde fora acompanhar o sr. Munro. — Que lhe parece? — Soa mal — respondi. — Sim. Há chantagem, ou estou muito enganado. — E quem é o chantagista? — Tem que ser o indivíduo que mora no único quarto confortável da residência, e que tem a fotografia dela em cima da lareira. Juro-lhe, Watson, que há algo de atraente naquele rosto lívido da janela, e por coisa nenhuma desistirei do caso. — Já tem alguma hipótese? — Já; uma hipótese provisória. Mas ficarei surpreso se verificar que não é exata. É o primeiro marido daquela mulher quem está na casa. — Por que pensa assim? — Do contrário, como explicar a ansiedade frenética dela, com receio de que o segundo marido entrasse? Os fatos, como os imagino, são mais ou menos estes: essa mulher casou-se na América e o marido deve ter revelado qualquer característica odienta, ou contraiu, digamos, uma doença repelente, ficando leproso ou imbecil, por exemplo. Ela então fugiu dele, regressou à Inglaterra, mudou de nome e, como ambicionava, recomeçou sua vida. Casada há três anos, supunha que sua posição estava absolutamente garantida, tendo mostrado ao marido a certidão de óbito de qualquer outro homem, de cujo nome se apropriou, quando de repente seu paradeiro foi descoberto pelo primeiro marido, ou talvez por uma mulher sem escrúpulos que, entretanto, se ligara ao inválido. Escreveram à mulher ameaçando-a de revelar toda a verdade. A atual sra. Munro conseguiu cem libras e tentou comprar-lhes o silêncio. Eles se mudaram apesar disso, e quando o marido disse à esposa que havia novos inquilinos na casa, ela adivinhou que eram seus perseguidores. Esperou que o marido adormecesse e então correu à tal casa, esforçando-se por persuadi-los a deixá-la em paz. Sem obter êxito, voltou na manhã seguinte, momento em que o marido, como nos disse, a encontrou quando saía. Ela então prometeu não voltar, mas a esperança de se libertar de seus terríveis vizinhos é muito forte e, dois dias depois, voltou à carga, levando a fotografia que, provavelmente, lhe tinham exigido. No meio da entrevista, a criada entrou para anunciar que o patrão chegara. Não duvidando de que ele viria à moradia, fez os inquilinos saírem pela porta de trás, talvez para o bosque que parece existir próximo. Eis por que ele, quando entrou, encontrou a casa deserta. Ficarei no entanto muito surpreso se assim continuar, quando ele a inspecionar de novo esta tardinha. Que pensa de minha hipótese? — É apenas uma hipótese.


— Pelo menos, abrange todos os fatos. Se chegarem a meu conhecimento novos fatos que não caibam nela, terei tempo para reconsiderar. De momento, não podemos fazer nada enquanto não recebermos nova mensagem de nosso amigo de Norbury. Mas não esperamos muito tempo. O recado veio justamente quando estávamos acabando o chá. "A casa está habitada", dizia. "O rosto apareceu outra vez à janela. Espero-os no trem das sete, e não darei nenhum passo até que cheguem." Grant esperava-nos na plataforma, e apesar da luz fraca da estação reparei que estava muito pálido e trémulo de agitação. — Ainda estão lá, sr. Holmes — disse, pondo a mão no braço de meu amigo. — Vi luzes na casa quando descia. Vamos esclarecer tudo de uma vez por todas. — Qual é seu plano? — perguntou Holmes, quando descíamos a estrada escura, ladeada de árvores. — Vou entrar à força e ver, com meus próprios olhos, quem está naquela casa. Quero que ambos estejam lá para testemunhar. — Está realmente decidido a fazê-lo, apesar da advertência de sua esposa de que seria melhor não penetrar no mistério? — Sim. Estou resolvido. — Bem, creio que o senhor está em seu direito. Qualquer verdade é melhor do que a dúvida. O melhor que temos a fazer é subir já. É certo que legalmente não temos esse direito, mas penso que vale a pena arriscar. A noite estava muito escura, e uma chuva fria começava a cair quando, deixando a estrada, entramos num beco estreito, cheio de buracos e com uma cerca de ambos os lados. O sr. Grant Munro avançava com impaciência, e nós, aos tropeções, o acompanhávamos o melhor que podíamos. — Ali estão as luzes de minha casa — murmurou ele, apontando para o clarão entre as árvores. — Aqui está a casa onde vamos entrar. Viramos uma esquina, como ele dissera, e logo a seguir surgiu o prédio a nosso lado. Um feixe de luz amarela, no primeiro plano, mostrava que a porta não estava inteiramente fechada. Uma janela do andar superior estava brilhantemente iluminada; quando olhamos, vimos um vulto escuro mover-se por trás da vidraça. — Lá está a criatura — gritou o sr. Grant Munro. — Os senhores mesmos podem vê-la. Sigam-me, e saberemos tudo. Aproximamo-nos da porta, mas de repente uma mulher saiu da sombra e permaneceu no círculo dourado da luz do candeeiro. Não consegui ver-lhe o rosto na escuridão, mas mantinha os braços estendidos, numa atitude de súplica.


— Pelo amor de Deus, Jack, não entre — gritou. — Eu tinha o pressentimento de que você viria esta noite. Pense melhor, querido! Confie em mim, e não se arrependerá. — Já confiei demais, Effi — gritou ele severamente. — Deixe-me! Preciso passar! Estes meus amigos e eu vamos resolver o assunto definitivamente. Dizendo isso, empurrou a mulher para o lado e nós o seguimos de perto. Quando abriu a porta, uma mulher de idade saltou-lhe ao caminho, tentando barrar-lhe a passagem, mas o sr. Munro afastou-a com decisão e, um instante depois, estávamos todos na escada. Com Munro à nossa frente, corremos para o quarto do andar de cima, que estava fortemente iluminado. Era uma sala confortável e bem-mobiliada. Dois candeeiros ardiam em cima da mesa, e outros dois sobre a lareira. A um canto, inclinado sobre uma escrivaninha, estava um vulto sentado que parecia uma menina. Virou-nos o rosto quando entramos, mas apenas conseguimos ver que usava um vestido vermelho e luvas brancas e compridas. Ao mover-se rapidamente para nós, não pude conter um grito de surpresa e horror; seu rosto era de um matiz lívido e estranho, e seus traços, completamente vazios de expressão. Um momento depois, o mistério estava explicado. Holmes, com uma risada, levou a mão atrás da orelha da criança e retirou-lhe a máscara. Apareceu então uma menina, negrinha como o carvão, os dentinhos brancos e cintilantes, muito divertida com nosso espanto. Explodi num riso de simpatia para com sua alegria, mas Grani Munro ficou estático, com as mãos no rosto. — Meu Deus! — gritou. — O que significa tudo isso? — Eu lhe direi o que significa — gritou uma senhora que entrou na sala como uma rajada, de aspecto orgulhoso e inflexível. — Você me obrigou a falar contra minha vontade. Agora precisamos ter coragem. Meu marido morreu em Atlanta, mas minha filha sobreviveu. — Sua filha? A senhora retirou do seio um grande medalhão de prata. — Nunca o viu aberto? — Nem sequer sabia que se abria. Ela apertou uma mola e a tampa saltou. Dentro estava o retrato de um homem, chocantemente belo e inteligente, revelando os traços inconfundíveis de sua origem africana. — É John Hebron, de Atlanta — começou ela. — Homem mais nobre nunca pisou a terra. Abandonei os de minha raça para me casar com ele. Mas não me arrependi um só instante. Nossa infelicidade foi que minha filha única ficou com mais sangue do pai que do meu. Acontece, muitas vezes, em tais casamentos. Lucy saiu ainda mais negra que o pai. Mas negra ou loira é minha querida filhinha, o mimo de sua mãe.


A essas palavras, a criança correu e aninhou-se no vestido da senhora. — Deixei-a na América porque sua saúde era frágil, e uma mudança podia fazer-lhe mal. Ficou ao cuidado de uma fiel escocesa que já fora, em outros tempos, nossa empregada. Nunca, nem por um instante, sonhei repudiá-la como filha. Mas quando o acaso me pôs no seu caminho, Jack, e compreendi que o amava, tive receio de falar sobre a menina. Deus me perdoe, mas tinha medo de perdê-lo, e faltou-me a coragem para falar nisso. Tive de escolher entre você e ela e, na minha fraqueza, abandonei minha filha. Durante três anos, conservei sua existência em segredo, mas era informada pela governanta e sabia que tudo corria bem. Por fim, senti um desejo irresistível de tornar a vê-la. Lutei contra esse desejo, mas em vão. Embora reconhecesse o perigo, resolvi trazê-la apenas por algumas semanas. Mandei cem libras à governanta e dei-lhe instruções a respeito desta casa, de maneira a poderem vir como vizinhos sem que minhas visitas levantassem suspeitas. Exagerei tanto minhas precauções que ordenei que se conservasse a menina em casa durante o dia e se lhe cobrissem o rosto e as mãos, para que, se alguém a visse à janela, não começasse a dizer que havia uma negrinha nas vizinhanças. Talvez fosse mais sensato não ter tomado tantas cautelas. Mas eu estava louca de medo de que você viesse a saber toda a verdade. Por acaso, foi você quem me disse primeiro que a casa estava habitada. Eu devia ter esperado pelo amanhecer, mas não podia dormir de excitação. Saí então devagarinho, confiando em seu sono pesado. Mas você me viu sair, e foi aí que começaram as dificuldades. No dia seguinte, meu segredo estava à sua mercê, mas você, nobremente, absteve-se de abusar dessa vantagem. Três dias depois, a governanta mal teve tempo de fugir com a menina pela porta dos fundos, quando você se precipitou, como um furacão, pela casa adentro. E agora, esta noite, você sabe de tudo, e pergunto o que vai ser de nós, de mim e de minha filha. A sra. Munro, apertando as mãos, esperou a resposta. Dois longos minutos se passaram antes que o sr. Munro quebrasse o silêncio. Mas sua resposta é aquela em que tanto gosto de pensar. Levantou a menina nos braços, beijou-a e, mantendo-a ao colo, estendeu a outra mão à mulher, dirigindo-se para a porta.

— Podemos discutir isso com mais conforto em casa — disse, por fim. — Não sou um homem muito bom, Effi, mas creio que sou melhor do que você supõe. Holmes e eu o acompanhamos pelo beco, mas, chegados à estrada, meu amigo puxou-me pelo braço. — Parece-me — disse — que somos mais úteis em Londres do quem em Norbury. Nem mais uma palavra disse sobre o assunto; só quando, com uma vela acesa, se dirigia para o quarto, murmurou: — Watson, se alguma vez notar que estou muito confiante em minhas possibilidades, dando a um caso menos atenção do que ele merece, tenha a bondade de segredar em meu ouvido "Norbury", e eu lhe ficarei eternamente grato.


Arthur Conan Doyle 3- O escriturário da corretagem Título original: The Stockbroker's Clerk Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1893. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Stockbroker's Clerk publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Lígia Junqueiro.

Logo após meu casamento, comprei uma clínica no distrito de Paddington. O velho sr. Farquahar, que a vendeu a mim, tivera em outros tempos uma excelente clínica. Porém, a idade e uma doença idêntica à de São Vito emagreceram-no muito. O público, como é natural, baseia-se no princípio segundo o qual quem cura os outros deve curar-se a si próprio, e parece considerar com desconfiança os dons curativos de alguém cujo caso pessoal escapa ao alcance de seus remédios. Portanto, à medida que meu predecessor enfraquecia, sua clientela diminuía. Quando a comprei, baixara de mil e duzentos para pouco mais de trezentos clientes ao ano. Entretanto, eu confiava em minha juventude e energia, e estava convencido de que, em poucos anos, o negócio estaria tão florescente como antes. Por três meses depois de assumir a clínica, conservei-me apegado ao trabalho. Via, portanto, muito pouco meu amigo Sherlock Holmes, pois estava ocupado demais para visitar a Baker Street, e raras vezes saía para qualquer outra parte, exceto no desempenho de minha profissão. Por isso, fiquei surpreso certa manhã de junho, quando, sentado, lia o British Medical Journal, depois da refeição matutina, ao ouvir o toque da campainha, seguido do som alto e estridente da voz de meu companheiro. — Ah! Meu caro Watson — disse ele, entrando na sala a passos largos. — Estou muito contente de vê-lo. Espero que a sra. Watson se tenha curado de todos os pequenos desequilíbrios relacionados com nossa aventura de O signo dos quatro. — Muito obrigado, estamos ambos muito bem — respondi, apertando-lhe calorosamente a mão. — Espero, também — continuou ele, sentando-se na cadeira de balanço —, que os cuidados com a clínica não lhe tenham obliterado completamente o interesse que costumava ter pêlos nossos pequenos problemas dedutivos. — Pelo contrário — respondi —, ainda a noite passada estive examinando todas as minhas velhas notas e classificando alguns de nossos resultados.


— Espero que não considere sua coleção encerrada. — De forma nenhuma. Não desejaria outra coisa senão mais algumas das tais experiências. — Hoje, por exemplo? — Sim, hoje mesmo, se quiser. — E mesmo num lugar distante, como Birmingham? — Certamente, se o desejar. — E a clínica? — Também atendo a do meu vizinho, quando ele sai! E ele está sempre pronto a pagarme a dívida. — Ah! Não podia ser melhor — disse Holmes, encostando-se para trás e olhando vivamente para mim por baixo de suas pálpebras semicerradas. — Vejo que não tem passado bem ultimamente. Os resfriados de verão são sempre difíceis. — Fiquei em casa três dias na semana passada, por causa de um grande resfriado. Mas supunha que já o houvesse eliminado. — Assim é. Pois parece-me admiravelmente robusto. — Como o sabe então? — Você conhece meus métodos. — Então deduziu-o? — Certamente. — E como? — Pelos seus chinelos. Olhei para os chinelos de couro que tinha nos pés. — Que diabo! — comecei, mas Holmes respondeu às minhas perguntas ainda antes que eu as formulasse. — Seus chinelos são novos — disse ele. — Não têm mais de algumas semanas. A sola que neste momento me mostra está levemente queimada. A princípio, pensei que tivesse sido molhada e se chamuscara ao secar. Mas perto do salto há um pequeno círculo de papel, com os hieróglifos do fabricante. A umidade o teria removido. Portanto, você


esteve sentado com os pés estendidos para o fogo, coisa que uma pessoa não faria nem mesmo num mês de junho tão úmido como este, se estivesse com perfeita saúde. Uma vez explicada, a coisa pareceu-me a própria simplicidade, como todo raciocínio de Holmes. Ele leu meu pensamento e seu sorriso teve um laivo de amargura. — Receio que traia a mim próprio quando explico — disse ele. — Os resultados sem causa são muito mais impressionantes. Então, está pronto a ir comigo a Birmingham? — Certamente. Qual é o assunto? — Contar-lhe-ei no trem. Meu cliente está lá fora num carro de quatro rodas. Pode vir já? — Só um instante. Rabisquei uma nota para meu vizinho, precipitei-me escada acima para explicar o caso a minha mulher e juntei-me a Holmes no degrau da porta. — Seu vizinho é médico? — disse ele, indicando com a cabeça a placa de bronze. — É. Comprou uma clínica, como eu. — Um velho estabelecimento? — Exatamente como o meu. Ambas as clínicas têm funcionado aqui desde que foram construídas as casas. — Então apanhou a melhor das duas. — Penso que sim. Mas como sabe? — Pelos degraus, meu rapaz. Os seus estão gastos sete centímetros mais que os dele. Mas aquele cavalheiro no carro é meu cliente, o sr. Hall Pycroft. Permita-me que o apresente. Chicoteie seus cavalos, cocheiro; estamos em cima da hora para apanhar o trem. O homem com quem deparei era um jovem de bela constituição, tez fresca, fisionomia franca e honesta, e um ligeiro bigode amarelo e encrespado. Usava uma luzidia cartola e um traje de um preto sóbrio que o fazia parecer o que era — um jovem da City, da chamada classe cockney, a qual fornece nossos regimentos voluntários de craques e da qual saem atletas e desportistas mais exímios do que de qualquer outro agrupamento destas ilhas. Seu rosto redondo e corado era naturalmente cheio de jovialidade, mas os cantos da boca pareceram-me caídos, com uma expressão de tristeza meio cômica. Entretanto, só quando estávamos todos no vagão de primeira classe, a caminho de Birmingham, pude conhecer a dificuldade que o obrigara a procurar Sherlock Holmes. — Teremos setenta minutos de viagem — observou Holmes. — Quero, sr. Pycroft, que conte a meu amigo sua interessante experiência, exatamente como a contou a mim, ou, se possível, com mais pormenores. Ser-me-á útil ouvir outra vez a sucessão dos


acontecimentos. É um caso, Watson, que pode ter muita ou pouca importância, mas que pelo menos apresenta esses traços raros, característicos e outrés [1] que são tão caros a você como a mim. Agora, sr. Pycroft, não o interromperei mais. Nosso jovem companheiro olhou para mim com um piscar de olhos. — O pior da história — disse ele — é que me apresento como o mais abominável idiota. Entretanto, pode ser que tudo corra bem, e não vejo como poderia ter agido de outra maneira. Mas, se tivesse perdido o emprego sem nenhuma compensação, sentiria que fora um palerma. Não sou muito bom para contar histórias, sr. Watson, mas é mais ou menos o seguinte: "Eu estava habituado a meu emprego na Coxon & Woodhouse, em Draper's Gardens, mas a firma viu-se abalada, no começo da primavera, por causa do empréstimo venezuelano, como sem dúvida se lembra, e deu-se um terrível colapso. Eu trabalhara lá cinco anos, e o velho Coxon deu-me uma ótima carta de apresentação quando chegou a falência, mas nós, os escriturários, ficamos desempregados; vinte e seis de nós. Tentei aqui e ali, mas havia tantos outros rapazes na mesma situação que por muito tempo foi um completo fracasso. Recebia três libras por semana na casa de Coxon, e economizara setenta, mas depressa as gastei. Em breve atingi o máximo de minhas dificuldades, e já não podia arranjar nem selos para responder aos anúncios, nem envelopes onde pudesse colá-los. Gastei meus sapatos subindo os degraus dos escritórios, e parecia mais longe que nunca de conseguir um emprego. "Afinal, soube de uma vaga na casa Mawson & Williams, a grande firma de corretagem da Lombard Street. Suponho que não se interesse muito por negócios da Bolsa, mas posso afirmar-lhe que é praticamente a casa mais rica de Londres. O anúncio devia ser respondido somente por carta. Mandei-a com minhas referências e meu currículo, mas sem a menor esperança de conseguir o emprego. Chegou-me a resposta pelo correio dizendo que, se eu aparecesse na segunda-feira, poderia iniciar meu trabalho imediatamente, contanto que minha aparência satisfizesse. Ninguém sabe como essas coisas acontecem. Há pessoas que dizem que o gerente meteu a mão num monte de cartas e tirou a primeira que apanhou. Seja como for, era minha grande chance, e eu nunca me senti mais feliz. O salário era de uma libra, com um extra semanal, e o trabalho, quase o mesmo da casa Coxon. "E agora chego à parte estranha do negócio. Encontrava-me em meu quarto, no Potter's Terrace, 17, em Hampstead. Era a mesma tarde em que me fora prometida a colocação, e eu fumava sentado quando a proprietária subiu com um cartão onde estava impresso: "Arthur Pinner, agente de finanças". Jamais ouvira aquele nome, e não pude atinar com o que ele queria de mim. Mas pedi que o mandasse entrar. Era uma pessoa de estatura média, cabelos e olhos escuros e barba preta, com um laivo lustroso no nariz. Possuía maneiras vivas e falava com astuciosa precisão, como homem que sabe o valor do tempo. "— Sr. Pycroft, segundo creio — disse ele.


"— Exatamente, senhor — respondi. "— Esteve empregado recentemente na casa Coxon & Woodhouse? "— Sim, senhor. "— E agora pertence ao quadro de funcionários da Mawson? "— Perfeitamente. "— Bem — disse ele. — O fato é que tenho ouvido algumas histórias realmente extraordinárias a respeito de suas habilidades em questões de finanças. Com certeza se lembra de Parker, o gerente da Coxon? Ele não se cansa de elogiá-lo. "— Certamente, alegra-me ouvir isso. — Sempre fui um bom funcionário, mas jamais sonhei ser citado na City. "— O senhor tem boa memória? — perguntou. "— Bastante clara — respondi modestamente. "— Permaneceu em contato com o mercado enquanto esteve desempregado? "— Sim. Leio as cotações da Bolsa todas as manhãs. "— Fato que mostra uma verdadeira vocação — exclamou ele. — É a maneira de prosperar. O senhor não me levará a mal se lhe fizer umas perguntas, pois não? Deixeme ver! Como estão as Aryshires? "— Cento e cinco a cento e cinco e um quarto. "— E os consolidados da Nova Zelândia? "— Cento e quatro. "— E as British Broken Hills? "— Sete a sete e seis. "— Admirável! — exclamou, erguendo as mãos. — Está perfeitamente de acordo com tudo o que eu tinha ouvido. Meu rapaz, meu rapaz! Você é bom demais para ser escriturário da casa Mawson! "Aquela exclamação muito me espantou, como o senhor pode imaginar. "— Bem — disse-lhe eu. — Há pessoas que não pensam tão bem de mim como o senhor parece pensar, sr. Pinner. Lutei muito para arranjar esta colocação, e estou muito contente com ela.


"— Qual o quê, homem, você deve subir muito mais! Não está em sua verdadeira esfera. Vou-lhe dizer o que penso a esse respeito. Aquilo que tenho a oferecer-lhe é muito pouco em relação à sua competência, mas compará-lo com a colocação na Mawson é como comparar a água e o vinho. Quando vai para a Mawson? "— Segunda-feira. "— Ah! Ah! Creio que posso arriscar um pequeno gracejo, dizendo que não porá os pés naquela casa. "— Não irei para a Mawson? "— Não, absolutamente. Nesse dia, será o gerente da Franco-MidIand Hardware Company, Limited, fábrica de louça com cento e trinta e quatro filiais nas cidades e vilas da França, sem contar uma em Bruxelas e uma em San Remo. "Aquilo quase me fez perder o fôlego. "— Mas nunca ouvi falar nessa companhia! "— Provavelmente. Tem sido mantida em sigilo porque o capital investido era todo particular, e é uma coisa muito boa para ser publicada. Meu irmão, Harry Pinner, é seu fundador, e se associará à junta depois de eleito diretor-gerente. Sabendo que eu andava por aqui a tratar de negócios, pediu-me que arranjasse um homem bom, por módico salário, um jovem diligente, que tenha bastante energia. Parker falou-me de você, o que me trouxe aqui esta noite. Só podemos oferecer-lhe a bagatela de quinhentas libras para começar. "— Quinhentas libras por ano! — gritei. "— Só para começar. Mas terá uma comissão extra de um por cento em todos os negócios feitos por seus agentes, e posso empenhar minha palavra que ela lhe dará mais que o salário. "— Mas eu nada sei a respeito de louça. "— Ora essa, meu rapaz, você conhece os números. "Minha cabeça zumbia, e foi com dificuldade que consegui sentar-me na cadeira. Mas, de repente, um pequeno sentimento de desconfiança se apoderou de mim. "— Preciso ser franco — disse eu. — A Mawson dá-me apenas duzentas, mas é garantida. Ora, na realidade não sei quase nada de sua companhia que... "— Ah!, que esperto, que esperto! — exclamou ele, numa espécie de êxtase de contentamento. — Você é nosso homem. Não se deixa levar por palavras, e faz muito bem. Mas aqui está uma nota de cem libras, se acha que podemos combinar o negócio; meta-a no bolso como adiantamento de seu salário. "— É muita generosidade — disse eu. — Quando começarei a trabalhar?


"— Esteja amanhã à uma hora em Birmingham. Tenho aqui no bolso um bilhete que você levará a meu irmão. Encontrá-lo-á na Corporation Street, onde estão instalados temporariamente os escritórios da companhia. É claro que ele precisa confirmar o contrato, mas cá entre nós está tudo combinado. "— Realmente, sr. Pinner, não sei como exprimir minha gratidão. "— Não há de quê, meu rapaz. Apenas conseguiu o que merece. Há uma ou duas coisas. . . meras formalidades que devo combinar com você. Tem aí um pedaço de papel? Tenha a bondade de escrever: 'Pretendo trabalhar como gerente da firma FrancoMidIand Hardware Company, Limited, com o salário mínimo de quinhentas libras'. "Fiz como me pediu, e ele pôs o papel no bolso. "— Há outro pormenor — disse ele. — O que pensa fazer em relação à Mawson? "Com a alegria, já esquecera tudo o que dizia respeito à Mawson. "— Escrevo-lhe para pedir demissão. "— É exatamente o que não quero que você faça. Já tive um atrito com o gerente da Mawson por sua causa. Fui lá pedir-lhe informações a seu respeito, e ele foi muito agressivo... acusou-me de afastá-lo do serviço da firma, e coisas desse jaez. Por fim, perdi a calma. 'Se os senhores querem homens bons, devem pagar-lhes um bom salário', disse eu. 'Ele prefere nosso pequeno salário em vez do seu', respondeu ele. 'Aposto cinco libras', disse eu, 'em como o senhor nunca mais ouvirá falar dele se eu lhe fizer nossa oferta.' 'Combinado', respondeu. 'Nós o tiramos da sarjeta e ele não nos deixará facilmente.' Foram essas suas palavras. "— Patife! — gritei. — Nunca o vi em minha vida. Por que hei de ser atencioso com ele? Certamente não lhe escreverei, se assim o preferir. "— Ótimo! É um compromisso! — disse ele, levantando-se da cadeira. — Bem, estou muito contente por conseguir uma pessoa tão boa para meu irmão. Aqui está o adiantamento de cem libras, e aqui está a carta. Tome nota do endereço: Corporation Street, 126-B, e lembre-se de que o encontro é amanhã à uma hora. Boa noite, e tenha toda a sorte que merece. "Foi tudo o que se passou entre nós, tão exatamente quanto posso lembrar. O senhor deve imaginar, dr. Watson, como eu estava contente com aquele extraordinário golpe de sorte. Passei quase toda a noite em claro, congratulando-me comigo mesmo, e no dia seguinte fui para Birmingham, num trem que me levaria com tempo de sobra até meu emprego. Levei minhas coisas para um hotel na New Street, e depois dirigi-me para o endereço que me fora dado. "Faltavam quinze minutos para a hora marcada, mas pensei que não faria diferença. O 126-B é uma passagem entre duas grandes lojas que conduz a uma escada de pedra em espiral onde há muitos apartamentos alugados para escritórios particulares e de


companhias. Os nomes dos ocupantes estavam pintados na parede do térreo. Mas não estava lá o nome da Franco-MidIand Hardware Company, Limited. Por instantes, fiquei com o coração na mão, receando que tudo aquilo não passasse de uma bem-elaborada mistificação, quando apareceu um homem que me abordou. Era muito parecido com o sujeito que vira na noite anterior, a mesma figura e a mesma voz, mas sem barba e com o cabelo mais claro.

"— É o sr. Hall Pycroft? — perguntou. "— Sim, senhor — respondi. "— Estava à sua espera, mas o senhor chegou um pouco antes da hora. Recebi uma carta de meu irmão esta manhã, na qual lhe faz grandes elogios. "— Estava exatamente à procura dos escritórios quando o senhor chegou. "— Não pusemos ainda nosso nome, porque só arranjamos estas salas temporárias na semana passada. Venha comigo e discutiremos o assunto. "Acompanhei-o até o alto de uma escada empinada. Ali, justamente debaixo do patamar, havia um par de salas pequenas, vazias e empoeiradas, sem cortinas e sem tapetes. Pensava num grande escritório com filas de escreventes e mesas envernizadas, ambiente a que estava acostumado. Mas, pelo contrário, vi duas cadeiras de pinho, uma mesinha com o livro razão e a cesta de papel, e o mobiliário se resumia a isso. "— Não se preocupe, sr. Pycroft — disse meu novo conhecido, vendo-me a expressão do rosto. — Roma não foi feita num dia, e atrás de nós há muito dinheiro, posto que nossos escritórios não façam ainda muito boa figura. Sente-se, por favor, e deixe-me ver sua carta. "Entreguei-a, e ele a leu com muita atenção. "— Parece que o senhor causou ótima impressão a meu irmão Arthur — disse ele —, e sei que ele é um juiz muito arguto. Ele trata da parte que diz respeito a Londres, e eu de Birmingham, mas desta vez seguirei o conselho dele. Considere-se, portanto, definitivamente contratado. "— Quais são meus encargos? — perguntei. "— Dirigirá o grande centro de Paris, que espalhará um dilúvio de louça inglesa nas lojas de cento e trinta e quatro agentes na França. A compra será completada dentro de uma semana. Enquanto isso, o senhor permanecerá em Birmingham e se fará útil. "— Como? "Como resposta, tirou da gaveta um grande livro vermelho.


"— É o guia de Paris, o nome das pessoas seguido de suas profissões. Quero que o leve para casa a fim de marcar todos os vendedores de louça e seus endereços. Ser-me-ão de grande utilidade. "— Há, seguramente, listas classificadas — sugeri. "— Não são exatas. Seu sistema é diferente do nosso. Tome o livro e dê-me a lista segunda-feira ao meio-dia. Passe bem, sr. Pycroft. Se continuar a mostrar zelo e diligência, terá na companhia um bom patrão. "Voltei ao hotel com o grande livro debaixo do braço e com um conflito de sentimentos no peito. Por um lado, estava empregado definitivamente e com cem libras no bolso. Por outro, a aparência do escritório, a ausência do nome na parede, e outros pontos que deviam espantar um homem de negócios deixaram-me má impressão quanto à situação de meus patrões. Mas agora podia vir o que viesse, pois eu já tinha o dinheiro, e por isso dediquei-me à minha tarefa. Passei todo o domingo trabalhando, e na segunda-feira apenas chegara à letra 'h'. Visitei meu patrão. Encontrei-o na mesma sala desguarnecida. Disse-me que persistisse até quarta-feira, e então voltasse. Quarta-feira estava ainda por terminar, de modo que trabalhei até sexta-feira, que foi ontem. Levei-o então ao sr. Pinner. "— Muito obrigado — disse ele. — Receio ter compreendido mal a dificuldade da tarefa. Esta lista prestar-me-á grande auxílio no trabalho. "— Levei bastante tempo — disse eu. "— E agora — disse ele —, quero que me faça uma lista das casas de móveis, porque todas vendem louças também. "— Muito bem. "— E pode vir amanhã às sete da noite para que eu saiba como vai indo o trabalho. Não trabalhe demais. Umas duas horas à noite no Day's Music-Hall depois do trabalho não o prejudicarão. — Ria quando falava, e me surpreendi ao ver que seu segundo dente do lado esquerdo fora muito mal incrustado com ouro." Sherlock Holmes esfregou as mãos com deleite, e eu olhei com espanto para nosso cliente. — O senhor pode estar estranhando, dr. Watson, mas eu explico. Quando falava com o outro, em Londres, no momento em que riu ao afirmar que eu não poria os pés na Mawson, notei que tinha um dente incrustado daquela maneira. Quando comparei a mesma voz e a mesma figura, alteradas apenas pelo que uma navalha ou uma peruca podem fazer, não duvidei de que era o mesmo homem. É claro que se espera que dois irmãos sejam iguais, mas não que tenham o mesmo dente incrustado do mesmo modo. Ele curvou-se para mim, e encontrei-me na rua completamente transtornado. De regresso ao hotel, meti a cabeça numa bacia de água fria e tentei resolver o problema. Por que ele me teria mandado de Londres para Birmingham? Por que teria ido antes de mim? E por que teria escrito uma carta para si próprio? Era tudo muito estranho, e eu não podia tirar qualquer conclusão. Então, ocorreu-me de repente que o que eram trevas


para mim podia ser luz para Sherlock Holmes. Só tive tempo de me dirigir pelo trem da noite à cidade, para vê-lo esta manhã e trazê-los comigo para Birmingham. Houve uma pausa depois que o escriturário da casa de corretagem concluiu sua surpreendente narrativa. Então, Sherlock Holmes piscou-me o olho, encostando-se na poltrona com uma cara de satisfação, como um conhecedor que acabou de tomar o primeiro trago de uma vindima selecionada. — Excelente, Watson, não é? Há pontos que me agradam. Creio que concordará comigo em que uma entrevista com o sr. Pinner no escritório temporário da Franco-MidIand Hardware Company, Limited, seria uma experiência muito interessante para ambos. — Mas como a conseguiremos? — perguntei. — Oh!, é muito fácil — disse Hall Pycroft com alegria. — Os senhores são dois amigos meus que procuram colocação, e nada mais natural do que levá-los à presença do diretor-gerente! — Isso mesmo! Muito bem — exclamou Holmes. — Gostaria de apreciar o cavalheiro, para ver se descubro alguma coisa mais de seu jogo. Meu amigo, que qualidades possui o senhor que tornam seu serviço tão valioso? Ou seria possível que... — e começou a morder as unhas e a olhar vagamente pela janela; não lhe arrancamos outra palavra até chegarmos à New Street. Às sete horas, naquela noite, descíamos os três a Corporation Street em direção ao escritório da companhia. — Não vale a pena chegarmos antes da hora — disse nosso cliente. — Aparentemente ele só vai lá para me ver, porque, fora dos horários marcados, o escritório está sempre deserto. — Isso é sugestivo — observou Holmes. — Por Júpiter, olhem lá! — exclamou o escrevente. — Lá vai ele, andando à nossa frente. Apontou para um homem relativamente baixo, louro e bem-vestido, que caminhava depressa do outro lado da rua. Quando olhávamos para ele, aproximou-se de um garoto que apregoava a última edição do jornal da tarde, correndo entre carros e ônibus, e comprou-lhe um. Então, segurando firmemente o jornal, desapareceu atrás da porta. — Lá vai ele! — gritou Hall Pycroft. — Lá onde entrou são os escritórios da companhia. Venham comigo, e trataremos do assunto tão facilmente quanto possível. Seguindo-lhe o rastro, subimos cinco andares, até encontrarmos uma porta meio aberta, onde nosso cliente bateu. Uma voz de dentro ordenou: "Entre". Penetramos numa sala nua, tal como Hall Pycroft a descrevera. Junto da única mesa estava sentado o homem que tínhamos visto na rua, o jornal à sua frente, e quando olhou para nós


pareceu-me que nunca encarara um rosto que ostentasse tantos sinais de angústia — e de alguma coisa mais: uma dor que poucos homens sentem na vida. As sobrancelhas brilhavam de suor, a face tinha o tom branco, triste e sepulcral do ventre de um peixe, e os olhos pareciam selvagens e espantados. Olhou para seu escrevente como se não pudesse reconhecê-lo, e pude notar, pelo assombro que se estampou na fisionomia de nosso guia, que aquela não era a aparência habitual de seu patrão. — Parece que o senhor está doente, sr. Pinner! — exclamou ele.

— É verdade. Não me sinto bem — respondeu o outro, fazendo óbvios esforços para se recompor, e lambendo os lábios secos antes de falar. — Quem são estes cavalheiros? — Este é o sr. Harris, de Bermondsey, e este outro é o sr. Price, desta cidade — disse nosso escriturário com desembaraço. — São meus amigos, homens experientes, mas ficaram desempregados há pouco tempo e esperavam que o senhor talvez lhes pudesse conseguir uma vaga no quadro de funcionários da companhia. — É muito possível. É muito possível — repetiu, com um sorriso medonho. — Não tenho dúvida de que poderemos arranjar-lhes qualquer coisa. Qual é sua profissão, sr. Harris? — Contabilista — disse Holmes. — Ah! Precisamos de algo desse género. E o senhor, sr. Price? — Escriturário — disse eu. — Espero que a companhia possa admiti-los. Eu lhes darei uma resposta logo que cheguemos a qualquer conclusão. E agora peco-lhes que se retirem. Deixem-me só, pelo amor de Deus. As últimas palavras foram uma espécie de descarga, como se a contenção a que se tinha sujeitado de modo repentino e perfeito se rompesse. Holmes e eu olhamos um para o outro, e o sr. Pycroft aproximou-se da mesa. — O senhor esquece, sr. Pinner, que estou aqui a seu pedido, para receber instruções — disse ele. — É verdade, sr. Pycroft, é verdade — respondeu o outro, num tom mais calmo. — O senhor pode esperar um momento, e não vejo razão para que seus amigos também não esperem. Dentro de três minutos estarei inteiramente à sua disposição, caso sua paciência seja suficiente... — Levantou-se com ar muito cortês, fez-me uma vénia quando passava pela porta, na extremidade da sala, e fechou-a atrás de si. — E agora? — murmurou Holmes. — Estará fugindo sorrateiramente? — Impossível — respondeu Pycroft.


— Por quê? — A porta dá para uma sala interior. — Não há saída? — Nenhuma. — Está mobiliada? — Ontem estava vazia. — Então que diabo estará fazendo? Há coisas aqui que não entendo. Mas, se já existiu uma pessoa cheia de loucura e terror, o nome dessa pessoa é Pinner. De onde lhe veio esse pavor? — Talvez suspeite que somos detetives — sugeri. — Talvez — admitiu Pycroft. Holmes meneou a cabeça. — Ele não empalideceu. Já estava pálido quando entramos na sala — disse Holmes. — É possível que... Suas palavras foram interrompidas por um agudo martelar do outro lado da porta interna. — Por que diabo estará batendo em sua própria porta? — exclamou o escriturário. Ouviu-se novamente o ruído, agora mais alto. Todos olhamos ansiosamente para a porta fechada. Encarando Holmes, vi que seu rosto se tornara rígido e que se inclinava um pouco para a frente, com intensa emoção. Então, ouviu-se de repente um som cavernoso, gorgorejante, e um rápido tamborilar no madeiramento. Holmes precipitouse violentamente para a sala e empurrou a porta. Estava trancada por dentro. Seguindolhe o exemplo, arremessamo-nos contra ela com todo o nosso peso. Um gonzo quebrouse, depois o outro cedeu e a porta veio abaixo com um grande estalo. Precipitamo-nos para ela e entramos numa sala interior. Estava vazia.

Mas o logro foi apenas momentâneo. Num canto, o canto mais próximo da sala que deixáramos, havia uma segunda porta. Holmes arremessou-se contra ela e abriu-a. Um casaco e um colete estavam no soalho, e, num gancho atrás da porta, com os suspensórios em volta do pescoço, estava pendurado o diretor da Franco-MidIand Hardware Company. Tinha os joelhos encolhidos, e sua cabeça pendia num medonho ângulo sobre o corpo; o bater dos tornozelos contra a porta é que provocara o ruído que interrompera nossa conversação. Num instante, agarrei-o pela cintura e pu-lo de pé, enquanto Holmes e Pycroft lhe desatavam as faixas elásticas que haviam desaparecido entre as rugas lívidas da pele.


Em seguida, levamo-lo para a outra sala, onde ficou estendido com o rosto cor de ardósia, agitando os lábios para dentro e para fora a cada respiração — destroço medonho da pessoa que fora cinco minutos antes. — O que lhe parece, Watson? — perguntou Holmes. Curvei-me para examiná-lo. Seu pulso estava fraco e intermitente, mas a respiração aumentava, e havia uma peque na contração das pálpebras que mostrava uma tênue faixa branca do globo ocular na parte interior. — Escapou por um triz — disse eu —, viverá. Abram aquela janela e dêem-me a garrafa de água fria. — Afrouxei-lhe o colarinho, deitei-lhe água fria no rosto, levanteilhe e abaixei-lhe os braços até produzir uma longa e natural respiração. — Agora, é questão de tempo — disse eu, afastando-me dele. Holmes ficou de pé ao lado da mesa, as mãos mergulhadas nos bolsos das calças e o queixo sobre o peito. — Suponho que agora devemos chamar a polícia — disse ele; — todavia, confesso que gostaria de lhes dar uma explicação completa quando eles viessem. — É um impenetrável mistério para mim — exclamou Pycroft, coçando a cabeça. — O que me quiseram fazer saiu ao contrário, e então... — Basta! Tudo está muito claro — disse Holmes com impaciência. — Menos este último gesto repentino. — Compreende o resto então? — Creio que está perfeitamente claro. O que diz, Watson? Encolhi os ombros. — Confesso que não entendo nada — disse eu. — Entende, sim, se começar por considerar que os acontecimentos só podem ter uma conclusão. — E o que faz com eles? — Oh!, tudo gira à volta de dois pontos. O primeiro foi fazer Pycroft escrever uma declaração, por meio da qual entrou ao serviço desta pretensa companhia. Não vê como é sugestivo? — Receio que não esteja atinando. — Ora, por que teriam querido que ele a fizesse? Não por uma questão comercial, porque esses arranjos são habitualmente verbais, e não há razão para que esta fosse uma


exceção. Não percebe, meu jovem amigo, que estavam muito ansiosos por obter uma amostra de sua caligrafia, e que não havia outro meio de consegui-la? — E para quê? — Aí é que está. Para quê? Quando este ponto for esclarecido, já se terá resolvido parte do problema. Para quê? Só pode haver um motivo. Alguém queria aprender a imitar sua letra, e primeiro tinha de procurar uma amostra. Se passarmos para o segundo ponto, descobriremos que um lança luz sobre o outro. Esse ponto é o pedido de Pinner para que o senhor não declinasse o lugar, mas que deixasse o gerente deste importante negócio em plena expectativa de que o sr. Hall Pycroft, que nunca tinha visto, entrasse no escritório segunda-feira de manhã. — Meu Deus! — gritou nosso cliente. — Que animal tenho sido! — Agora já percebe o porquê da caligrafia. Suponhamos que alguém se apresentasse em seu lugar e escrevesse numa letra completamente diferente da que o senhor usou ao pedir a colocação: o jogo seria certamente descoberto. Mas o velho aprendeu a imitá-la e sua posição foi portanto segura, pois presumo que ninguém no escritório o conhecia. — Nem uma alma — grunhiu o sr. Pycroft. — Muito bem. Era, certamente, da maior importância impedi-lo de pensar melhor, afastá-lo, também, do contato com alguém que pudesse dizer que seu duplo estava no escritório da Mawson. Portanto, fizeram-lhe um generoso adiantamento e mandaram-no para a Midiand, onde lhe deram trabalho suficiente para impedi-lo de ir a Londres, onde lhes podia ter estragado o joguinho. Tudo isto é muito claro. — Mas por que este homem queria passar por seu próprio irmão? — Ora, isso também é perfeitamente claro. Há, evidentemente, apenas dois neste negócio. O outro está substituindo-o no escritório. Um deles agiu como o contratador, e descobriu que não lhe podia arranjar um patrão sem admitir uma terceira pessoa no conluio. Era justamente isso o que ele não queria. Mudou a aparência quanto pôde, e confiou em que a semelhança, que o senhor não podia deixar de observar, seria tida por semelhança de família. Mas, por um feliz acaso, a incrustação de ouro levantou-lhe suspeitas que provavelmente nunca teriam surgido.

O sr. Pycroft agitou as mãos no ar. — Santo Deus! — gritou ele. — Enquanto fiz papel de idiota, o que o outro Hall Pycroft estaria fazendo no escritório da Mawson? O que hei de fazer, sr. Holmes? Digame! — Precisamos telegrafar para a Mawson. — Mas aos sábados eles fecham ao meio-dia.


— Não faz mal; pode ser que haja porteiro ou guarda. — Ah!, sim; têm um guarda permanente por causa do valor dos títulos que conservam. Lembro-me de ter ouvido falar nisso na City. — Muito bem, nós lhe telegrafaremos, e veremos se tudo corre bem e se um escriturário com seu nome trabalha lá. Tudo está claro, mas o que não está tão claro é por que motivo, ao ver-nos, um dos velhacos saiu imediatamente da sala e se enforcou. — O jornal! — exclamou uma voz atrás de nós. O homem tentava sentar-se, pálido e horrível, com um começo de consciência nos olhos, esfregando nervosamente a faixa vermelha e larga que ainda se via em redor de seu pescoço. — O jornal! Certamente! — berrou Holmes, num paroxismo de excitação. — Idiota que fui! Tanto pensei em nossa visita que o jornal jamais me passou pela cabeça. É claro que nele está o segredo. — Inclinou-se para lê-lo e soltou um grito de triunfo. — Olhe isto, Watson! — gritou ele. — É o jornal de Londres, uma primeira edição do Evening Standard. Aqui está o que queremos. Olhe para os títulos: CRIME NA CITY ASSASSINATO NA CASA MAWSON & WILLIAMS GIGANTESCA TENTATIVA DE ROUBO CAPTURA DO CRIMINOSO — Estamos todos aqui, Watson, ansiosos por ouvir; tenha a bondade de ler a notícia em voz alta. Pelo espaço que ocupava no jornal, parecia ser o único acontecimento de importância da capital, e a notícia consistia no seguinte: "Uma desesperada tentativa de roubo, culminando com a morte de um homem e a captura do criminoso, ocorreu esta tarde na City. Há algum tempo a Mawson & Williams, famosa casa de finanças, tem sido guardiã de títulos que montam a mais de um milhão de esterlinos. O gerente estava tão consciente da responsabilidade que lhe cabia, em consequência dos interesses em jogo, que vinha usando os cofres mais modernos, e um guarda armado ficava dia e noite no edifício. Parece que na última semana um escriturário chamado Hall Pycroft foi contratado pela firma. Mas essa pessoa transformou-se em outra: Beddington, o famoso falsário e arrombador, que recentemente emergiu, com seu irmão, de uma prisão penal, depois de cinco anos de trabalhos forçados. Por meios que ainda não estão bem claros, conseguiu, sob um nome falso, esta posição oficial no escritório, e utilizou-a para tirar moldes de várias fechaduras, obtendo um conhecimento perfeito da caixa-forte e dos cofres.


É costume na Mawson dispensar os funcionários ao meio-dia dos sábados. O sargento Tuson, da polícia da City, ficou pois surpreso ao ver um cavalheiro, com uma sacola, descer as escadarias à uma e vinte. Achando suspeito, o sargento seguiu o homem e, com o auxílio de outro policial, chamado Pollock, conseguiu prendê-lo depois de uma desesperada resistência. Ficou logo patente que um ousado e gigantesco roubo fora cometido. Quase cem mil libras de ações de companhias ferroviárias americanas, com uma grande quantidade de títulos de minas e outras companhias, foram encontradas na sacola. Em vista dos fatos anteriores, o corpo do infeliz guarda foi procurado e encontrado, dobrado e atirado para dentro do maior dos cofres, onde somente segundafeira de manhã seria descoberto, não fosse a ação pronta do sargento Tuson. O homem tinha a cabeça esmigalhada a golpes de um atiçador, abandonado pelo criminoso. Não resta dúvida de que Beddington conseguira entrar sob a alegação de ter esquecido qualquer coisa e, depois de matar o guarda, esvaziou rapidamente o cofre e saiu com o butim. Seu irmão, que habitualmente trabalha com ele, até onde se pode verificar, não participou desse assalto, embora a polícia faça minuciosa investigação para descobrir seu paradeiro." — Bem podemos livrar a polícia desse trabalho — disse Holmes, olhando para a figura pálida e descomposta junto da janela. — A natureza humana é uma mistura estranha, Watson. Veja, até um vil assassino pode inspirar tal afeição, que o irmão se decide pelo suicídio quando lhe sabe sentenciado o pescoço. O doutor e eu ficaremos de guarda, sr. Pycroft, se o senhor quiser ter a bondade de ir chamar a polícia.

Arthur Conan Doyle 4- A tragédia do "Gloria Scott" Título original: The "Gloria Scott" Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1893. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The "Gloria Scott" publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

— Tenho aqui alguns papéis — disse meu amigo Sherlock Holmes quando nos sentamos certa noite de inverno ao lado da lareira. — Creio, realmente, que vale a pena examiná-los. São os documentos do extraordinário caso do Gloria Scott. E aqui está a mensagem que encheu de terror o juiz de paz Trevor quando a leu. Tirou da gaveta um rolo, e, desatando uma fita que o envolvia, passou-me uma breve nota rabiscada numa meia folha de papel cor de ardósia:


"A provisão de caça para Londres está há muito terminada", rezava a nota. "O guarda-chefe Hudson, segundo supomos, disse que arranjou tudo; quero que fuja a mosca para que possa salvar o faisão; sua prole tem vida." Quando ergui os olhos da mensagem enigmática, vi Holmes rindo entre dentes da expressão de meu rosto. — Você parece um tanto confuso — disse ele. — Não posso compreender como semelhante mensagem pôde inspirar horror. Pareceme mais grotesca do que qualquer outra coisa. — É muito provável. Mas a verdade é que seu leitor, homem robusto e atilado, ficou totalmente dominado por ela, como se fosse uma coronhada de pistola. — Você despertou minha curiosidade — disse eu. — Mas por que me disse só agora que há razões particulares para que me interesse pelo caso? — Porque foi o primeiro em que me empenhei a fundo. Várias vezes me esforcei para descobrir por que meu companheiro se dedicara às pesquisas criminais, mas nunca o apanhara num humor comunicativo. Inclinou-se então para a frente de sua cadeira de braços e espalhou os documentos sobre os joelhos. Em seguida, acendeu o cachimbo e começou a soltar fumaças e a revirar os papéis. — Nunca me ouviu falar em Victor Trevor? — perguntou ele. — Foi o único amigo que arranjei durante os dois anos em que estive na universidade. Não fui uma criatura muito sociável. Preferia meditar em meus aposentos, pondo em prática meus próprios métodos de pensamento. Por isso, nunca me misturava muito com os outros. Pela esgrima e pelo boxe tinha certo gosto atlético. Minha linha de estudo era, nessa altura, inteiramente distinta da de meus colegas. Portanto, não mantinha com eles nenhum contato. Trevor foi o único homem que conheci, e ainda assim porque seu bull-terrier me agarrou o calcanhar certa manhã em que descia à capela.

"Foi uma maneira prosaica de fazer amizade, mas eficaz. Fiquei de molho uns dez dias, e Trevor costumava vir saber de mim. A princípio, era uma conversa de apenas cinco minutos. Mas logo suas visitas se prolongaram, e antes de terminar o período éramos amigos íntimos. Era um rapaz de coração nobre, com espírito e energia, e o verdadeiro oposto de mim em muitos aspectos. Mas descobrimos que tínhamos coisas em comum, e houve um laço de união entre nós quando verifiquei que, da mesma forma que eu, não tinha amigos. Finalmente, convidou-me a ir à casa de seu pai em Donnithorpe, em Norfolk, e aceitei a hospitalidade durante um mês das férias longas. "O velho Trevor era, evidentemente, homem de posses e prestígio. Era juiz de paz e proprietário de terras. Donnithorpe é um lugarejo exatamente ao norte de Langmere, no distrito de Broads. A casa era um edifício de madeira de carvalho e tijolos, de estilo antigo e um tanto esparramado. Uma bonita avenida, ladeada de tílias, dava-lhe acesso.


Havia nas lagoas excelente pato-bravo para se caçar, uma pescaria admiravelmente boa, uma biblioteca pequena, mas selecionada, comprada, como soube depois, ao primeiro morador, e um cozinheiro tolerável. De modo que, se alguém não passasse ali um mês agradável, seria uma pessoa muito exigente. "Trevor era viúvo. Meu amigo era seu único filho. Tivera uma filha, ouvi dizer, mas morrera de difteria quando de visita a Birmingham. O pai interessou-me extremamente. Era de pouca cultura, mas com uma admirável força rude, tanto física como mental. Não apreciava livros; porém, viajara muito, vira muita coisa do mundo e lembrava-se de tudo o que aprendera. Era atarracado, corpulento, com um tufo de cabelos grisalhos, tez morena e marcada pelo tempo, olhos azuis com um brilho de ferocidade. Gozava todavia de boa reputação, e era conhecido pela justiça de suas sentenças no tribunal. "Uma noite, logo depois de minha chegada, estávamos sentados, após o jantar, para tomar um copo de vinho do Porto, quando o jovem Trevor começou a falar dos hábitos de observação e dedução que eu reduzira a um sistema, embora não tivesse avaliado ainda a importância que teriam em minha vida. O velho pensou, naturalmente, que o filho exagerava a descrição de uma ou duas façanhas que eu realizara. "— Acontece, Sr. Holmes — disse ele, sorrindo com bom humor —, que sou um excelente sujeito, se o senhor quiser deduzir alguma coisa a meu respeito. "— Receio que não haja muito — respondi eu. — Podia, no entanto, sugerir que o senhor tem andado com medo de um ataque pessoal nestes últimos doze meses. "O sorriso morreu-lhe nos lábios, e olhou para mina com grande surpresa. "— Bem, está certo — disse ele. — Sabe, Victor — disse, voltando-se para o filho —, descobrimos aquele bando de gatunos, e eles juraram apunhalar-nos. E Sir Edward Hoby foi realmente atacado. Desde então, fiquei sempre de atalaia. Mas não percebo como o senhor o sabe. "— O senhor possui uma bonita bengala. Pela inscrição, observei que não a tem há mais de um ano. Ora, teve o trabalho de furá-la a fim de lhe deitar no buraco chumbo derretido, de modo que viesse a ser uma arma terrível. Concluo que não tomaria tais precauções se não tivesse um perigo a recear. "— Alguma coisa mais? — perguntou sorrindo. "— O senhor praticou muito o boxe em sua juventude. "— Está certo outra vez. Como o sabe? Meu nariz está um pouco achatado? "— Não — disse eu, — São suas orelhas. Apresentam o achatamento e a espessura que distinguem o boxeador. "— Alguma coisa mais? "— O senhor trabalhou muito nas minas, vê-se pêlos seus calos.


"— Fiz todo o meu dinheiro nas minas de ouro. "— O senhor esteve na Nova Zelândia. "— Exatamente. "— O senhor visitou o Japão. "— É verdade. "— O senhor esteve intimamente associado a alguém cujas iniciais eram J. A., e que depois procurou ansiosa mente esquecer. "O Sr. Trevor levantou-se lentamente, fixou em mim seus grandes olhos azuis com uma expressão selvagem e caiu para a frente, o rosto entre as castanhas que juncavam a toalha, num desfalecimento mortal. "Deve calcular, Watson, como ficamos chocados, tanto eu como o filho. Entretanto o acesso não durou muito, porque, quando lhe desabotoamos o colarinho e lhe borrifamos o rosto com a água de um dos lavatórios, ele deu um ou dois suspiros e sentou-se. "— Ah!, rapazes — disse ele, forçando um sorriso. — Espero não os ter assustado. Forte como pareço, há um ponto fraco no meu coração, e não é preciso muito para me abater. Não sei como o senhor faz isso, Sr. Holmes, mas parece-me que todos os detetives verdadeiros e falsos são crianças em suas mãos. Sua vocação é essa, e pode aceitar a palavra de quem já viu alguma coisa no mundo. "Aquela recomendação, com a apreciação exagerada de minhas capacidades, foi, Watson, se me quiser crer, a principal prova de que uma profissão podia nascer daquilo que fora, até ali, simples mania. Entretanto, eu estava no momento tão preocupado com a doença de meu hospedeiro que não podia pensar em mais nada. "— Espero que não lhe tenha dito nada que o ofendesse — disse eu. "— Não há dúvida que tocou em meu ponto fraco. Posso saber como o senhor sabe, e quanto sabe? "Falava agora em tom de brincadeira, mas uma sombra de terror ocultava-se ainda no fundo de seus olhos. "— É muito simples — respondi. — Quando ergueu o braço para puxar aquele peixe para dentro do barco, vi que as iniciais J. A. tinham sido tatuadas na curva de seu cotovelo. As letras estavam ainda legíveis. Mas era perfeitamente claro, pela sua aparência manchada e pela maceração da pele em volta delas, que se tinham feito esforços para apagá-las. Era claro, portanto, que essas iniciais lhe tinham sido muito familiares, e que depois quis esquecê-las. "— Que olho o senhor tem! — gritou, com um sorriso de alívio. — É exatamente como o senhor diz. Porém, não falemos mais nisso. De todos os fantasmas, os de nossos


velhos amores são os piores. Venham à sala de bilhar para fumar um charuto calmamente. "Desde esse dia, apesar de toda a cordialidade, havia sempre uma leve suspeita em relação a mim nas maneiras do Sr. Trevor. Até o filho o notou: — Você impressionou tanto meu pai — disse-me ele — que nunca mais terá a certeza do que você sabe e do que não sabe. — Não queria mostrar suas suspeitas, mas obcecavam-no de tal maneira que se revelavam em cada uma de suas ações. Finalmente, convenci-me de que estava lhe provocando preocupação, e pus fim à minha visita. Entretanto, no dia da minha partida, um pouco antes de deixá-lo, ocorreu um incidente que, devido ao que se seguiu, mostrou ser de grande importância. "Nós três estávamos sentados sobre a relva nas cadeiras de jardim, desfrutando o calor do sol e admirando a paisagem dos Broads, quando a criada veio dizer que estava à porta um homem que queria ver o Sr. Trevor. "— Como se chama? — perguntou meu hospedeiro. "— Não quis dizer. "— Que quer então? "— Diz que conhece o senhor, e queria apenas conversar um momento. "— Mande-o vir até aqui. "Um instante depois apareceu uma criaturinha magra, com maneiras estranhas e um modo de andar arrastando os pés. Usava um casaco aberto, com uma mancha de alcatrão na manga, camisa xadrez vermelha e preta, calça de lã e pesadas botas, bastante gastas. O rosto era magro, moreno e malicioso, ostentando um perpétuo sorriso que mostrava uma linha irregular de dentes amarelos, e as mãos enrugadas estavam meio fechadas, naquele gesto característico dos marinheiros. Quando entrou, curvado, no jardim, ouvi Trevor soltar uma espécie de soluço gutural e, pulando da cadeira, ele correu para dentro de casa. Voltou um instante depois, e senti o cheiro forte do licor quando passou por mim. "— Bem, meu homem, o que posso fazer por você? "O marinheiro olhou para ele com olhos injetados e o mesmo sorriso irônico nos lábios. "— Não me reconhece? — perguntou. "— Sem dúvida! Agora vejo que é Hudson, com certeza — disse o Sr. Trevor em tom de espanto. "— É Hudson, sim, senhor. Bem, faz mais de trinta anos que o vi pela última vez. Aqui está o senhor em sua casa. Mas eu continuo tirando minha carne salgada da salgadeira.


"— Basta! Vai ver que não esqueci os velhos tempos — exclamou o Sr. Trevor e, aproximando-se do marinheiro, disse-lhe qualquer coisa em voz baixa. "— Vá à cozinha — continuou em voz alta —, e encontrará de comer e beber. Não tenho dúvidas de que lhe arranjarei um emprego. "— Muito obrigado, senhor — disse o marinheiro, passando a mão pela grenha. — Acabo de sair de um navio cargueiro de oito nós, depois de uma viagem de mais de dois anos com falta de gente, e preciso de descanso. Pensei que o conseguiria com o Sr. Beddoes ou com o senhor. "— Ah!... — gritou o Sr. Trevor —, sabe onde mora o Sr. Beddoes? "— Valha-me Deus! Sei onde estão todos os meus velhos amigos — disse o homem com um sorriso sinistro. Baixou a cabeça e seguiu a criada até a cozinha. "O Sr. Trevor contou-nos qualquer coisa sobre ter sido companheiro de navio do homem quando voltou às minas, e, deixando-nos no jardim, entrou em casa. Uma hora depois, quando entramos, encontramo-lo completamente bêbado, estendido no sofá da sala de jantar. Todo o incidente me deixou a mais revoltante impressão, e foi sem tristeza que no dia seguinte deixei Donnithorpe, pois sentia que minha presença devia ser um embaraço para meu amigo. "Tudo isso ocorreu durante o primeiro mês das férias longas. Subi a meus aposentos de Londres, onde passei sete semanas realizando algumas experiências de química orgânica. Um dia, quando o outono já se aproximava e as férias chegavam ao fim, recebi um telegrama de meu amigo implorando meu regresso a Donnithorpe e dizendo que tinha grande necessidade de meu conselho e minha assistência. Abandonei tudo, é claro, e dirigi-me mais uma vez para o norte. "Ele me esperava na estação com uma charrete, e vi num relance que os últimos dois meses haviam sido penosos para ele. Estava magro e preocupado, e perdera aquela maneira espalhafatosa e jovial que lhe era peculiar. "— Meu pai está à morte! — foram suas primeiras palavras. "— Impossível! — gritei. — O que tem ele? "— Apoplexia. Choque nervoso. Seu fim está próximo. Duvido que o encontremos vivo. "Fiquei, como pode imaginar, horrorizado com essas notícias inesperadas. "— Qual foi a causa? — perguntei. "— Ah!, eis a questão. Suba e conversaremos a esse respeito pelo caminho. Lembra-se daquele indivíduo que chegou na véspera de sua partida? "— Perfeitamente.


"— Sabe quem admitimos em nossa casa naquele dia? "— Não faço a menor idéia. "— Foi o Demônio, Holmes! — exclamou ele. "Olhei-o com espanto. "— Sim. Foi o Diabo em pessoa. Não tivemos mais uma hora de paz, nem uma. Meu pai nunca mais levantou a cabeça desde aquela noite. E agora a vida foge-lhe e seu coração extingue-se, por causa daquele maldito homem. "— Que poder tem ele, então? "— Ah! É o que eu gostaria muito de saber. Meu bondoso, caridoso e nobre pai! Como teria caído nas garras de tal rufião? Mas estou contente por você ter vindo, Holmes. Confio muito em seu parecer e discrição, e sei que me dará o melhor conselho. "Corríamos por uma estrada plana e branca, com a longa extensão dos Broads à nossa frente, brilhando sob a luz vermelha de um sol poente. De um pequeno bosque, à esquerda, já podíamos divisar as altas chaminés e o mastro de bandeira que assinalavam a habitação do nobre. "— Meu pai contratou-o como jardineiro — disse meu companheiro —, e então, como isso não o contentasse, promoveu-o a mordomo. A casa parecia estar à sua mercê, andava por toda parte e fazia o que queria. As criadas queixavam-se de seus hábitos de ébrio e de sua linguagem vil. Meu pai aumentou o salário de todos para compensá-los do incômodo. O malandro queria o barco e a melhor espingarda de meu pai para se ocupar com pequenas festas de tiro ao alvo. E tudo isso com uma cara tão zombeteira, tão maliciosa que eu o teria espancado vinte vezes, se fosse um homem da minha idade. Afirmo-lhe, Holmes, que tive de me dominai constantemente, e agora pergunto a mim próprio se não deveria ter ido um pouco mais longe. "Bem, o assunto foi de mal a pior, e Hudson, esse animal, tornou-se cada vez mais intruso, até que um dia, vendo-o dar uma resposta insolente a meu pai, em minha presença, agarrei-o pelo ombro e expulsei-o da sala. Fugiu de esguelha, com uma cara lívida e olhos venenosos, que proferiam mais ameaças do que a própria boca. Não sei o que se passou entre meu pobre pai e ele depois disso. Mas meu pai procurou-me no dia seguinte e perguntou-me se eu não queria pedir desculpas a Hudson. Recusei, como deve imaginar, e perguntei a meu pai como ele podia admitir que semelhante homem tomasse tais liberdades com ele e com sua família.' "— Ah!, meu filho, é fácil falar, mas não sabe de minha posição. Mas acabará sabendo, Victor! Providenciarei para que saiba, aconteça o que acontecer! Não quereria a ruína de seu pobre pai, não é? — Ficou muito comovido e fechou-se no escritório todo o dia, onde pude vê-lo pela janela, a escrever rapidamente. "Nessa noite veio o que parecia ser um grande alívio, porque Hudson disse que ia nos deixar. Entrou na sala quando nos sentamos depois do jantar e anunciou sua intenção com a voz grossa de um sujeito bastante bêbado.


"— Já estou cheio de Norfolk — disse ele. — Irei para casa de Beddoes, em Hampshire. Ele ficará tão contente por me ver como os senhores ficaram, suponho.

"— Não vai embora zangado, Hudson, não é? — perguntou meu pai, com uma humildade que me fez ferver o sangue. "— Não me apresentaram desculpas — respondeu com azedume, olhando em minha direção. "— Victor, você há de reconhecer que tratou este digno homem com muita grosseria — disse meu pai, voltando-se para mim. "— Pelo contrário, acho que ambos lhe mostramos extraordinária paciência — respondi. "— Oh, mostraram? — rosnou ele. — Muito bem, camarada. Resolveremos isso depois! — E, arrastando-se pesadamente, saiu da sala. Uma hora depois partia, deixando meu pai num miserável estado de nervos. Noite após noite ouvi-o andar de um lado para outro em seu quarto. E exatamente quando estava se restabelecendo veio o golpe fatal. "— E como? — perguntei com ansiedade. "— Da forma mais extraordinária. Ontem à noite, meu pai recebeu uma carta com o carimbo de Fordingbridge. Leu-a, pôs as duas mãos na cabeça e começou a correr pelo quarto, descrevendo pequenos círculos como alguém que tivesse perdido o uso da razão. Quando finalmente o arrastei para o sofá, tinha a boca e as pálpebras contraídas para um lado. Vi então que sofrera um ataque apoplético. O Dr. Fordham foi chamado imediatamente, e nós o colocamos na cama. Mas a paralisia espalhou-se e ele não deu o menor sinal de recuperar a consciência. Creio que não o encontraremos vivo. "— Você me horroriza, Trevor! — gritei. — O que podia conter a carta para produzir efeito tão medonho? "— Nada. Aí está o detalhe inexplicável. A mensagem era absurda e trivial. Ah!, meu Deus, aconteceu o que eu receava! "Quando dizia estas palavras, fazíamos a curva da avenida e vimos, pela luz esvaecente, que todas as vidraças da casa estavam fechadas. Quando nos precipitamos para a porta, vi o rosto de meu amigo convulsionado de dor. Da casa saiu então um senhor de preto. "— Quando foi, doutor? — perguntou Trevor. "— Quase imediatamente depois que o senhor saiu. "— Ele recobrou os sentidos? "— Por um instante, antes do fim.


"— Há alguma mensagem para mim? "— Apenas que os papéis estão na gaveta do fundo da escrivaninha japonesa. "Meu amigo subiu com o médico ao quarto do morto, enquanto eu permanecia no escritório, recordando toda a história e sentindo-me triste como nunca em minha vida. Qual teria sido o passado desse Trevor, pugilista, viajante, mineiro de ouro? E como teria caído nas mãos daquele marinheiro mal-encarado? Por que desfalecera à alusão das iniciais meio apagadas em seu braço, e por que morrera de susto ao receber uma carta de Fordingbridge? Recordei-me de que Fordingbridge fica em Hampshire e esse sr. Beddoes, que o marinheiro fora visitar, presumivelmente para chantagem, morava, segundo fora mencionado, em Hampshire, também. A carta podia, portanto, ter vindo de Hudson, o marinheiro, declarando que traíra o segundo criminoso que parecia existir, ou podia ter vindo de Beddoes, advertindo o velho aliado de que tal traição estava iminente. Até ali parecia-me bastante claro. Mas, então, como a carta podia ser inofensiva e grotesca, como dissera o filho? Ele devia tê-la lido mal. Se era tão inofensiva, devia estar redigida num desses engenhosos códigos secretos que servem para fazer uma mensagem significar uma coisa quando parece querer dizer outra. Precisava ver essa carta. E, se nela houvesse algum significado oculto, estava certo de que poderia decifrálo. Fiquei meditando no escuro durante uma hora, até que uma criada trouxe, chorando, uma lamparina, e atrás dela entrou meu amigo Trevor, pálido mas composto, com estes mesmos papéis que tenho agora em meus joelhos, segurando-os com avidez. Sentou-se à minha frente, puxou a luz para a borda da mesa e entregou-me uma nota mal escrita, como pode ver, numa folha de papel cinzento, e que diz: "A provisão de caça para Londres está há muito terminada. O guarda-chefe Hudson, segundo supomos, disse que arranjou tudo; quero que fuja a mosca para que possa salvar o faisão; sua prole tem vida'. "Acho que fiquei tão confuso como você, quando li pela primeira vez essa mensagem. Depois, reli-a com muito cuidado. Era evidente a minha suposição, e devia haver um segundo sentido naquela estranha combinação de palavras. Ou seria o caso de haver um significado preestabelecido para certas expressões, como 'quero que fuja a mosca' e 'faisão'? Tal significado seria arbitrário, e de modo nenhum poderia ser deduzido. Todavia, custava-me acreditar que era esse o caso; a presença da palavra 'Hudson' parecia mostrar que o assunto da mensagem era o que eu supusera e parecia mais de Beddoes que do marinheiro. Experimentei invertê-la, mas a combinação 'o faisão salvar' não era encorajante. Tentei então alternar as palavras, mas nem 'para' nem a 'provisão da caça' prometiam esclarecer o enigma. Mas, de súbito, a chave do enigma apareceu em minhas mãos, pois verifiquei que a última palavra de cada grupo de três dava mesmo uma mensagem que podia levar Trevor ao desespero.

"Era uma breve e concisa advertência, conforme li para meu companheiro: "A caça está terminada. Hudson disse tudo; fuja para salvar sua vida'. "Victor Trevor mergulhou o rosto nas mãos trêmulas.


"— Deve ser isso mesmo, suponho — disse ele. — Mas é pior do que a morte, porque significa desgraça também. E afinal, qual o significado desse 'guarda-chefe' e de 'faisão'? "— Nada significam para a mensagem, mas para nós podem significar muito se não tivermos outro meio de descobrir o expedidor. Veja você que ele começa escrevendo 'A caça está...', e assim por diante. Depois, para conseguir o código preestabelecido, tinha de encher cada espaço com duas palavras. Naturalmente usou as primeiras que lhe vieram à mente, e a presença, entre elas, de tantas palavras que se relacionam com a caça leva a crer, até certo ponto, que é bom atirador ou se interessa por criação. Sabe alguma coisa desse Beddoes? "— Ora essa, agora que o menciona — disse ele —, lembro-me de que meu pai costumava ser convidado para caçar em suas propriedades durante todo o outono. "— Então, sem dúvida alguma, o bilhete é dele — respondi. — Resta-nos descobrir que segredo era esse graças ao qual o marinheiro Hudson parece dominar esses dois homens ricos e respeitáveis. "— Ah! Holmes, receio que seja de pecado e vergonha! — exclamou meu amigo. — Mas para você não tenho segredos. Aqui está a declaração que foi escrita por meu pai quando descobriu que o perigo se tornava iminente. Encontrei-a na escrivaninha japonesa, como ele disse ao médico. Tome-a e leia-a, porque não tenho forças nem ânimo para fazê-lo. "São exatamente estes papéis, Watson, que ele me entregou, e vou lê-los como os li para ele naquela noite. Por fora estão classificados como vê: 'Alguns pormenores da viagem do barco Gloria Scott. Desde sua saída de Falmouth, no dia 8 de outubro de 1855, até sua destruição na latitude N 15° 29', longitude W 25° 14', a 6 de novembro'. Tem a forma de uma carta, e desenrola-se assim: "Meu querido filho: Agora que a desgraça vindoura começa a nublar os anos finais de minha vida, posso escrever toda a verdade e com toda a honestidade. Posso afirmar que não é o terror da lei, nem a perda de minha posição no conselho da comarca, nem minha derrota aos olhos de todos os que me conhecem, que me confrange o coração. Mas é o pensamento de que meu filho há de envergonhar-se de mim, você, que me ama, que jamais, assim o espero, teve motivo para não me tratar com respeito. Mas se a tormenta, que está sempre pendente sobre mim, vier a desabar, queria então que lesse isto para saber diretamente como tenho estado longe da culpa. Por outro lado, se tudo correr bem (que o bondoso Deus o conceda!), então, se por qualquer acaso este papel não for destruído e vier a cair em suas mãos, peco-lhe, por tudo o que considera sagrado, pela memória de sua querida mãe e pelo amor que sempre houve entre nós, que o jogue ao fogo, e nunca mais pense nele. Se seus olhos continuarem a ler estas linhas, sei que já estarei exposto e longe de meu lar, ou, como é mais provável — pois sabe que meu coração é fraco —, jazendo com os lábios selados para sempre na morte. Em qualquer caso, o tempo para a omissão já passou, e toda palavra que lhe disser é a nua verdade; com a mesma certeza com que juro-o, espero misericórdia.


Meu nome, querido filho, não é Trevor. Eu era James Armitage nos dias de minha mocidade. E agora pode compreender qual não foi meu choque quando, algumas semanas atrás, seu amigo e colega me dirigiu palavras que pareciam indicar que ele adivinhara meu segredo. Foi como Armitage que entrei numa casa bancária de Londres, e como Armitage fui preso por não respeitar as leis de meu país, e sentenciado ao degredo. Não me julgue muito severamente, meu filho. Era uma dívida de honra, assim chamada, que eu tinha de pagar, e servi-me do dinheiro que não era meu para saldá-la, na certeza de que poderia repô-lo antes da possibilidade de a sua falta ser notada. Mas o mais terrível azar perseguiu-me. O dinheiro que esperava nunca me veio parar às mãos, e um exame prematuro das contas revelou o meu déficit. O caso podia ter sido tratado com indulgência, mas as leis eram mais implacavelmente aplicadas trinta anos atrás do que agora. E, no meu vigésimo terceiro ano, vi-me na cadeia como réu, com trinta e sete outros prisioneiros, no convés do navio Gloria Scott, com destino à Austrália. Era o ano de 1855, quando a Guerra da Criméia estava no auge e os velhos navios de prisioneiros estavam sendo largamente empregados como transporte no mar Negro. O governo foi obrigado a usar os barcos menores e adaptá-los ao transporte de seus prisioneiros. O Gloria Scott seguia a rota chinesa do chá. Era um navio antiquado, bojudo e muito largo, e os novos navios de marcha rápida tinham-no substituído. Era de quinhentas toneladas, e além dos seus trinta e oito "engaiolados" tinha uma tripulação de vinte e seis marinheiros, dezoito soldados, um capitão, três pilotos, um médico, um capelão e quatro carcereiros. Levava quase cem almas quando saímos de Falmouth. As divisões entre as celas dos prisioneiros, em vez de serem de grosso carvalho, como é costume nos navios de prisioneiros, eram muito mais finas e frágeis. O homem que ficou perto de mim foi aquele que notei de maneira particular quando nos fizeram descer ao cais. Era jovem, de rosto claro e imberbe, de nariz longo e fino, e com unhas de quebra-noz. Caminhava de cabeça altiva, tinha um modo de andar altaneiro e era acima de tudo notável por sua extraordinária altura. Creio que nenhuma de nossas cabeças lhe chegaria ao ombro, e estou certo de que não podia medir menos de dois metros. Era estranho, entre tantas fisionomias tristes e cansadas, ver alguém cheio de energia e resolução. Sua presença era para mim como um fogo numa tempestade de neve. Fiquei alegre, portanto, ao descobrir que era meu vizinho, e mais alegre ainda quando, nas horas mortas da noite, ouvi um cochicho perto de meu ouvido e verifiquei que ele fizera uma abertura na tábua que nos separava.

— Olá, colega! — disse ele. — Qual é o seu nome e por que está aqui? Respondi-lhe, e por minha vez perguntei com quem estava falando. — Sou Jack Prendergast — disse-me —, e juro que há de aprender a abençoar meu nome antes de me ver pelas costas. — Lembro-me de ter ouvido falar em seu caso, porque causou imensa sensação em todo o país, um pouco antes de minha prisão. — Era um homem de boa família e grande capacidade, mas de hábitos incuravelmente maus, que obtivera, devido a um engenhoso sistema de fraude, enorme soma de dinheiro dos principais comerciantes de Londres.


— Ah! Você se lembra do meu caso? — perguntou ele com orgulho. — Na verdade, lembro-me muito bem. — Então, talvez se lembre de alguma coisa original a esse respeito. — Qual era, então? — Eu tinha quase um quarto de milhão, não tinha? — prosseguiu. — Assim disseram. — E nenhum dinheiro foi recuperado, hein? — Não. — Onde supõe que esteja? — perguntou então. — Não faço a menor idéia — disse eu. — Aqui mesmo, entre meu indicador e o polegar! — gritou ele. — Juro que tenho mais libras em meu nome do que você tem cabelos na cabeça. Quem tem dinheiro e sabe administrá-lo e distribuí-lo, pode fazer alguma coisa! Ora, acha que um homem que pode fazer alguma coisa vai gastar as calças sentado numa prisão fedorenta, no porão velho e bolorento de um costeiro chinês, cheio de baratas e ratos de tripa vazia? Não, meu caro! Pode ficar certo disso. Pode confiar nele. Pode beijar a Bíblia, porque esse homem há de conduzi-lo com segurança. Era essa sua maneira de falar, e a princípio pensei que nada significava. Mas pouco depois, quando me pôs à prova e jurou que dizia a verdade, com toda a solenidade possível, fui levado a perceber que tinha realmente um plano para se apossar do comando do navio. Uma dúzia de prisioneiros preparara o plano antes mesmo do embarque: Prendergast era seu líder, e o dinheiro, o meio principal. — Tenho um sócio — disse ele —, um homem rato e bom, tão fiel como a coronha para o cano. Já conseguiu o dinheiro. E onde pensa que ele está no momento? Ora essa, é o capelão — sim, o capelão, sem tirar nem pôr! Embarcou com uma capa preta, os papéis em ordem e com bastante dinheiro na pasta para comprar tudo, desde a quilha até o mastro principal. A tripulação é seu corpo e alma. Pôde comprá-la facilmente por ser em dinheiro à vista. E fê-lo mesmo antes que dessem por isso. Comprou dois dos carcereiros e a cumplicidade do segundo-piloto, e compraria o próprio capitão se julgasse que valia a pena. — O que devemos fazer então? — perguntei. — O que pensa você? — respondeu. — Deixaremos as costas de alguns desses soldados mais vermelhas do que fez o alfaiate [1]. — Mas eles estão armados — objetei.


— E nós também estaremos, meu rapaz. Há braçadas de pistolas para cada filho de nossa mãe. E, se não pudermos carregar este navio com a tripulação às costas, é melhor voltarmos para a escola primária. Fale com seu companheiro da esquerda à noite, e veja se merece confiança. Assim fiz, e descobri que meu outro vizinho era um jovem na mesma situação que eu, e seu crime fora de falsificação. Seu nome era Evans, mas depois mudou-o, como eu, e agora é um homem rico e próspero no sul da Inglaterra. Foi muito pronto em unir-se à conspiração, como único meio de salvação. Antes da travessia da baía, havia apenas dois prisioneiros que não conheciam o segredo. Um deles era fraco e demente, pelo que não confiamos nele, e o outro estava com icterícia, não tendo nenhuma utilidade. Desde o princípio, não havia realmente nada que nos impedisse de tomar posse do navio. A tripulação era um grupo de rufiões escolhidos especialmente para a tarefa. O falso capelão entrava em nossas celas para nos exortar, carregando uma pasta preta que se supunha cheia de rezas; e veio tantas vezes que no terceiro dia cada um de nós já arrumara aos pés da cama uma lima, uma braçada de pistolas, meio quilo de pólvora e vinte balotes. Dois dos carcereiros eram agentes de Prendergast, e o segundo-piloto, seu braço direito. O capitão, os outros dois pilotos, dois carcereiros, o tenente Martin, seus dezoito soldados e o médico, era tudo o que tínhamos contra nós. Todavia, seguros como estávamos, tínhamos resolvido não desprezar nenhuma precaução e fazer nosso ataque repentinamente, à noite. Ele deu-se, porém, mais depressa do que esperávamos, e da maneira seguinte: Uma noite, mais ou menos três semanas depois de nossa partida, o médico desceu para ver um dos prisioneiros que adoecera e, ao meter a mão no fundo da tarimba, apalpou os contornos de uma pistola. Se tivesse guardado silêncio, teria desbaratado tudo; mas era um indivíduo nervoso, deu um grito de surpresa e ficou pálido, de modo que o doente descobriu num instante o que ele agarrara. Foi amordaçado antes de dar alarme e amarrado em cima da tarimba. Ele destrancara a porta que dava para o convés, e saímos precipitadamente. As duas sentinelas foram logo abatidas a tiro, e o mesmo aconteceu ao cabo que veio correndo ver o que acontecia. Havia mais dois soldados à porta da sala dos oficiais; suas armas pareciam estar descarregadas, porque não atiraram e foram alvejados enquanto tentavam fixar as baionetas. Precipitamo-nos então para a cabina do capitão. Mas, quando abrimos com ímpeto a porta, veio de lá de dentro uma explosão: lá estava a cabeça do capitão tombada sobre o mapa do Atlântico pregado à mesa, e o capelão, com a pistola ainda fumegante, permanecia de pé a seu lado. Os dois pilotos tinham sido agarrados pela turba, e tudo parecia liquidado.

A sala dos oficiais ficava perto da cabina, e aí nos reunimos, caindo nos sofás, falando ao mesmo tempo, porque estávamos delirantes com a sensação de que éramos livres mais uma vez. Havia armários ao redor, e Wilson, o falso capelão, arrombou um deles e de lá tirou uma dúzia de garrafas de xerez. Quebramos os gargalos das garrafas, despejamos seu conteúdo em copos grandes sem pé, e no momento exato em que nos levantávamos em sinal de regozijo, sem advertência, chegou a nossos ouvidos o troar de mosquetões, e o salão encheu-se tanto de fumaça que não podíamos ver o outro lado da


mesa. Quando clareou outra vez, a sala parecia um matadouro. Wilson e mais oito homens retorciam-se uns sobre os outros no soalho, e a visão do sangue e do xerez tinto em cima daquela mesa ainda me arrepia quando penso nela. Ficamos tão acovardados com o que vimos que creio que teríamos abandonado a luta, não fosse Prendergast. Ele berrou como um touro e precipitou-se para a porta com todos os que tinham ficado vivos atrás de si. Corremos para fora, e na popa estava o tenente com dez homens. A luz dos astros abriu uma clareira, e eles alvejaram-nos. Atiramo-nos a eles antes que pudessem carregar; bateram-se como homens, mas prevalecemos, e em cinco minutos estava tudo acabado. Meu Deus! Terá havido um matadouro como aquele navio? Prendergast rugia como um demónio e, agarrando os soldados como se fossem crianças, lançava-os ao mar, vivos ou mortos. Havia um sargento terrivelmente ferido que mesmo assim nadou duramente longo tempo, até que alguém, num ato de misericórdia, lhe fez saltar os miolos. Quando a luta cessou, não havia mais nenhum inimigo, exceto os carcereiros, os pilotos e o médico. Foi por causa deles que se deu a discórdia. Havia muitos que já estavam bastante alegres com a conquista da liberdade, e não tinham o menor desejo de se tornarem assassinos. Uma coisa era abater soldados de mosquetões em punho, e outra era a solidariedade com a matança a sangue-frio. Oito de nós, cinco prisioneiros e três marinheiros, dissemos que não se devia matá-los. Mas nada demovia Prendergast e os que estavam com ele. — Nossa única oportunidade de salvação está em fazermos um serviço completo — dizia ele, e não deixaria uma língua capaz de depor no banco de testemunhas. Quase nos coube a mesma sorte dos reféns. Afinal disse que, se quiséssemos, podíamos pegar um bote e fugir. Apanhamos a ocasião com ambas as mãos, porque já estávamos fartos daqueles sanguinários, e vimos que seria pior se não aceitássemos. Deram-nos fardas de marinheiro, um barril de água, duas barricas, uma de carne-seca e outra de biscoitos, e uma bússola. Prendergast atirou-nos um mapa, dissenos que éramos marinheiros naufragados cujo navio se afundara na latitude 15° N e longitude 25 W, e em seguida cortou-nos a amarra e deixou-nos ir. E agora vem a parte mais surpreendente de minha história, meu querido filho. Os marinheiros, durante o motim, tinham puxado a verga da mezena, mas quando os deixamos tinham-na posto outra vez no lugar certo e, como houvesse vento leve do norte e do leste, o navio começou lentamente a afastar-se de nós. Nosso bote ficou subindo e descendo ao sabor da ondulação, e Evans e eu, os mais educados do grupo, sentamo-nos na escotilha para estudar nossa posição e escolher a costa a que nos devíamos dirigir. Era uma questão delicada, pois Cabo Verde ficava a cerca de oitocentos quilômetros ao norte, e a costa africana, a cerca de mil e cem quilômetros a leste. Em resumo, como o vento soprava para o norte, pensamos que Serra Leoa seria melhor. E voltamos então a proa de nosso barco naquela direção, estando o navio naquele momento com a proa quase voltada para nosso quarto estibordo. De repente, quando olhávamos para o navio, vimos a eclosão de uma nuvem preta que dele irrompeu, e se ergueu como uma árvore monstruosa sobre o horizonte. Uns segundos mais tarde, um estrondo, como de trovão, chegou a nossos ouvidos, e, quando a fumaça diminuiu, já não existia nenhum sinal do Gloria Scott. Rapidamente, voltamos a proa de nosso barco e remamos com força para o local onde a escuridão, pairando ainda sobre a água, marcava a cena da catástrofe. Demorou uma longa hora antes que a alcançássemos, e a princípio receamos ter chegado tarde demais para salvar alguém. Um bote lascado e um certo número de


corpos e pedaços de mastros que cavalgavam as ondas, subindo e descendo, mostraramnos onde o navio se afundara, mas não havia nenhum sinal de vida. Regressávamos desesperados quando ouvimos um grito de socorro, e à distância distinguimos um destroço do naufrágio com um homem estendido sobre ele. Quando o arrastamos para dentro do bote, verificamos que era um jovem marinheiro, de nome Hudson, tão queimado e exausto que não nos pôde fornecer nenhum relato do ocorrido até a manhã seguinte.

Parece que, depois que os deixamos, Prendergast, com seu bando, começou a matança dos cinco reféns restantes: os dois carcereiros foram abatidos a tiro e lançados ao mar, e o mesmo fizeram ao terceiro-piloto. Prendergast desceu ao convés e, com sua própria mão, cortou a garganta do infeliz médico. Restava apenas o primeiro-piloto, um homem ousado e ativo. Quando viu o prisioneiro aproximar-se dele com a faca sanguinária em punho, afastou as cadeias que, de algum modo, conseguira soltar, e, precipitando-se convés abaixo, mergulhou no porão. Doze prisioneiros, que desceram com pistolas à sua procura, encontraram-no com uma caixa de fósforos na mão, sentado em cima de uma barrica de pólvora, uma das cem levadas a bordo, jurando que mandaria tudo pêlos ares se fosse atacado. Um instante depois deu-se a explosão. Hudson supôs que foi ocasionada pela bala extraviada de um prisioneiro, e não pelo fósforo do piloto. Seja como for, foi o fim do Gloria Scott e da canalha que se apossou de seu comando. Tal é, meu querido filho, em poucas palavras, a história desse caso terrível em que me envolvi. No dia seguinte fomos apanhados pelo brigue Hotspur, que rumava para a Austrália, cujo capitão não teve dificuldades em acreditar que fôssemos sobreviventes de um navio de passageiros naufragado. O navio de carga Gloria Scott fora dado como perdido pelo Almirantado, e nem uma palavra jamais foi publicada quanto a seu verdadeiro destino. Depois de uma excelente viagem, o Hotspur fundeou em Sydney, onde eu e Evans mudamos de nome e entramos para as minas. Aí, entre multidões reunidas de todas as nações, não tivemos dificuldades em perder nossa primeira identidade. O resto não é preciso contar. Prosperamos, viajamos e voltamos à Inglaterra como colonos ricos, adquirindo então propriedades no interior. Há mais de vinte anos levamos uma vida útil e pacífica. Julgávamos que nosso passado já estivesse sepultado para sempre. Imagine, então, o que senti quando reconheci, no marinheiro que nos visitou, o homem que tínhamos apanhado no naufrágio! Tem-nos seguido por toda parte, resolvido a viver de nossos receios. Compreenderá agora por que me esforcei por me conservar em paz com ele, e de certo modo há de partilhar dos receios que me angustiam, agora que ele já me trocou por outra vítima, com sua ameaça na boca.' "Abaixo estava escrito, mas com mão tão trémula que a letra se tornara quase ilegível: " Beddoes escreveu em código para dizer que H. revelou tudo. Boníssimo Senhor, tem misericórdia de nossas almas!'


"Foi essa a narrativa que li naquela noite ao jovem Trevor. E penso, Watson, que naquelas circunstâncias foi realmente dramática. O bom moço ficou angustiado, e foi plantar chá em Terai, onde, segundo fui informado, está fazendo fortuna. Quanto ao marinheiro e Beddoes, nunca mais se ouviu falar deles depois daquele dia em que foi escrita a carta de aviso. Desapareceram ambos por completo. Nenhuma queixa foi apresentada à polícia. É provável que Beddoes tomasse a ameaça por realidade. Hudson foi visto espreitando nas redondezas e a polícia acreditou que ele tivesse liquidado Beddoes, fugindo depois. Quanto a mim, creio que aconteceu justamente o contrário. Penso que é muito mais provável que Beddoes, levado pelo desespero e julgando-se traído, tenha se vingado de Hudson e fugido do país com tanto dinheiro quanto pôde levar. São estes os fatos, doutor. Se forem úteis à sua coleção, posso afirmar que estão inteiramente a seu dispor."

Arthur Conan Doyle 5- O ritual Musgrave Título original: The Musgrave Ritual Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1893. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Musgrave Ritual publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Uma anomalia que muitas vezes me chocou na personalidade de meu amigo Sherlock Holmes era que, muito embora seus métodos de pensamento fossem os mais esmerados e lógicos da humanidade, e embora afetasse também certo pedantismo sóbrio no trajar, apesar disso, nos hábitos pessoais era um dos homens menos asseados que já arrastaram um companheiro de quarto ao desespero. Não que eu próprio seja convencional nesse aspecto. A azáfama no Afeganistão levou ao cúmulo minha natural disposição para a boêmia, e tornou-me mais relaxado do que fica bem a um médico. Mas comigo há um limite, e quando encontro uma pessoa que guarda os charutos no balde de carvão, o tabaco, nos chinelos persas, e correspondência por responder, espetada com um canivete bem no centro da prateleira da lareira, então começo a dar-me ares de virtuoso. Sempre afirmei também que o uso da pistola devia ser exclusivamente um passatempo ao ar livre; e quando Holmes, num de seus humores esquisitos, se sentava numa poltrona, com o gatilho e cem cartuchos de Boxer, e começava a adornar a parede oposta com um patriótico V. R. [1] feito a buracos de balas, eu sentia que nem a atmosfera nem a aparência de nossa sala melhoravam com isso. Nossos alojamentos estavam sempre cheios de ingredientes químicos e relíquias de crimes, que tinham a capacidade de perambular pêlos lugares mais impróprios e reapareciam na manteigueira, ou em qualquer outro lugar ainda menos desejável. Mas seus papéis eram minha grande cruz. Tinha horror de destruir documentos, especialmente os que se relacionavam com seus casos passados. E só uma vez em cada


um ou dois anos mostrava energia para rotulá-los e arrumá-los. Como já mencionei algures nestas memórias incoerentes, a explosão de energia apaixonada na execução de façanhas notáveis, às quais seu nome estava associado, era seguida por reações de letargia, durante as quais se deixava ficar com seu violino e seus livros, sem se mexer, a não ser do sofá para a mesa. Assim, mês após mês, seus papéis se acumulavam, até que cada canto da sala ficava coberto de maços de manuscritos que de modo nenhum podiam ser queimados, e só o dono podia jogá-los fora. Uma noite de inverno, quando estávamos sentados junto do fogo, aventurei-me a sugerir-lhe que, quando acabasse de colar os extratos de sua agenda, empregasse as duas horas seguintes para tornar nossa sala um pouco mais habitável. Não pôde negar a justeza de meu pedido, de modo que, com uma cara muito triste, saiu da sala, voltando logo depois arrastando uma caixa de zinco. Colocou-a no meio do assoalho e, acocorando-se num tamborete em frente dela, destapou-a. Reparei que já era a terceira de sua coleção, cheia de maços de papéis, atados com fita vermelha em pacotes separados. — Há aqui bastantes casos, Watson — disse ele, olhando para mim com expressão maliciosa. — Creio que, se você soubesse tudo o que esta caixa contém, me pediria que tirasse alguns, em vez de guardar os outros. — São as notas de seus principais trabalhos, então? — perguntei. — Desejei muitas vezes ter a relação desses casos. — Sim, meu caro; foram investigados muitos anos antes de meu biógrafo aparecer para me glorificar. — E levantou pacote após pacote, num gesto de carícia quase terna. — Watson, nem todos eles foram êxitos, sabe. Mas há aqui problemas muito curiosos. Aqui está a lista dos assassínios de Tarleton, e o caso de Vamberry, o comerciante de vinho, a aventura da velha russa, o caso singular da muleta de alumínio, bem como uma narrativa completa sobre aquele Ricoletti com o pé virado para dentro e sua abominável esposa. E aqui... ah! este é realmente muito especial. Mergulhou o braço no fundo da caixa e retirou um pequeno estojo de madeira, com tampa corrediça, como aqueles em que se guardam os brinquedos das crianças. De dentro extraiu um pedaço de papel enrugado, uma velha chave de bronze, uma pequena estaca de madeira cravada numa bola de barbante e três discos de metal velhos e enferrujados.

— Bem, meu amigo, o que faria você desta bugiganga? — perguntou ele, sorrindo de minha expressão. — É uma coisa curiosa! — Muito curiosa, e a história que está ligada a ela o chocará ainda mais. — Então estas relíquias têm uma história?


— Tanto que são história. — Que quer dizer com isso? Sherlock Holmes olhou-as uma por uma, e espalhou-as na borda da mesa. Depois, sentou-se de novo na cadeira, examinando-as com um brilho de satisfação nos olhos. — Isto — disse ele — é tudo o que restou para me lembrar do episódio do ritual Musgrave. Eu o ouvira mencionar o caso mais de uma vez, embora nunca tivesse conhecido os pormenores. — Gostaria imenso — disse eu — que me contasse o que se passou. — E deixar a desordem como está? — exclamou maliciosamente. — Afinal, seu gosto pelo asseio não sofrerá muito, Watson. Mas ficaria contente se você acrescentasse este caso a seus anais, porque há nele pontos que o tornam totalmente único nos registros de crimes deste ou, como creio, de qualquer outro país. Uma coleção dos meus insignificantes feitos certamente ficaria incompleta se não contivesse a narrativa deste singularíssimo caso. "Deve lembrar-se de que o caso do Gloria Scott, e minha conversa com o infortunado homem cujo destino lhe contei, foi o primeiro a encaminhar-me para a profissão que se transformou no trabalho de minha vida. Agora que meu nome se tornou amplamente conhecido, sou geralmente considerado, tanto pelo público como pela força oficial, a corte final de apelação nos casos duvidosos. Até quando me conheceu pela primeira vez, por ocasião do caso que registrou em Um estudo em vermelho, eu já estabelecera uma considerável clientela, embora não muito lucrativa. No entanto, não sabe como foi difícil a princípio, e como me custou esperar antes de ser bem sucedido. "Quando vim pela primeira vez a Londres, tinha meus aposentos na Montague Street, exatamente na esquina do Museu Britânico, e ocupava minhas inúmeras horas de lazer no estudo de todos os ramos da ciência que pudessem tornar-me mais eficiente. Constantemente me apareciam casos, devido principalmente à indicação de meus velhos colegas de estudo, porque, durante meus últimos anos na universidade, falavam muito a meu respeito e sobre os métodos que eu empregava. O terceiro desses casos foi o do ritual Musgrave. E foi devido ao interesse suscitado por essa singular cadeia de acontecimentos e às grandes questões que entraram em jogo, que dirigi meus primeiros passos para a posição que hoje desfruto. "Reginald Musgrave e eu freqüentáramos o mesmo curso na universidade, e mantive com ele uma amizade superficial. Não era geralmente popular entre os não-graduados, embora sempre me parecesse que sua atitude orgulhosa era, de fato, uma tentativa para encobrir sua extrema desconfiança natural. Na aparência, era um homem de tipo excessivamente aristocrático, magro, de nariz nobre e olhos grandes, maneiras lânguidas, embora corteses. Era na verdade o descendente de uma das famílias mais antigas do reino, embora viesse de um irmão mais novo que se separara dos Musgraves do norte, no século XVI, e se estabelecera no oeste de Sussex, onde o solar de Hurlstone é talvez o edifício habitado mais antigo do condado. Qualquer coisa do lugar onde nascera me


pareceu retratada no homem, e nunca olhei para seu rosto pálido e vivo, ou para a posição de sua cabeça, sem associá-lo aos arcos cinzentos, às janelas de fasquias e a todos os restos veneráveis do domínio feudal. Conversávamos bastantes vezes, e recordo que mais de uma vez ele expressou interesse por meus métodos de observação e dedução. "Ia para quatro anos que nada sabia dele, até que uma manhã entrou em minha sala da Montague Street. Estava pouco mudado, trajava-se como jovem da alta sociedade — ele fora sempre um bocado pelintra — e mantinha a mesma maneira calma e suave que anteriormente o distinguira.

"— Como vão as coisas, Musgrave? — perguntei, depois de cordialmente apertarmos as mãos. "— Provavelmente ouviu falar da morte de meu pobre pai — respondeu. — Foi-me arrebatado, há dois anos. Desde então tenho tido, é claro, as propriedades de Hurlstone para dirigir, e também, como membro de meu distrito, levo uma vida muito ocupada; mas fui informado, Holmes, de que você está pondo em prática aqueles poderes com que nos costumava assombrar. "— Sim — disse eu —, resolvi viver de expedientes. "— Fico contente de ouvi-lo dizer isso, porque neste momento seu conselho me seria excessivamente valioso. Têm se passado em Hurlstone coisas muito estranhas, e a polícia não foi capaz de esclarecer o assunto. É realmente um caso extraordinário e inexplicável. "Deve imaginar com que ansiedade o ouvia, Watson. A verdadeira oportunidade pela qual suspirara durante todos aqueles meses de inação parecia agora a meu alcance. No mais íntimo do coração, julgava poder triunfar onde outros haviam fracassado, e agora tinha ocasião de me pôr à prova. "— Por favor, dê-me os pormenores — exclamei. "Reginald Musgrave sentou-se à minha frente e acendeu um cigarro que lhe passei. "— Você sabe que, embora celibatário, tenho de manter um número de criados considerável em Hurlstone, que é um casarão muito vasto, que exige muito trabalho. E conservo-o também porque nos meses de caça ao faisão temos habitualmente uma festa em casa, e nessa altura não pode haver falta de pessoal. Há constantemente oito criadas, a cozinheira, o mordomo, dois lacaios e um menino. A chácara e os estábulos têm pessoal separado, evidentemente. "Desses criados, aquele que esteve por mais tempo a nosso serviço foi Brunton, o mordomo. Era um jovem professor desempregado quando pela primeira vez foi contratado por meu pai. Mas era homem de grande energia e caráter, e logo se tornou inteiramente indispensável em casa. Tinha boa estatura, era bonito, com uma esplêndida


fronte e, embora houvesse quase vinte anos que estava conosco, não podia ter mais de quarenta. Com suas vantagens pessoais e os extraordinários dons que possuía, pois sabia falar diversas línguas e tocar quase todos os instrumentos musicais, era espantoso que se contentasse por tanto tempo com tal posição. Suponho que convinha bem a seu comodismo e que lhe faltava energia para qualquer mudança. O mordomo de Hurlstone é sempre a coisa mais lembrada por todos os que nos visitam. "Mas esse modelo tem um defeito. É um bocado dom juan, e deve imaginar que, para um homem como ele, não é um papel difícil de representar num pacato distrito do interior. Quando era casado, tudo ia muito bem. Acontece, porém, que ficou viúvo, e nossa luta com ele não tem fim. Alguns meses atrás tínhamos a esperança de que tudo se normalizasse de novo, pois ele contratou casamento com Rachel Howells, nossa segunda caseira. Mas desfez o noivado com ela e agarrou-se a Janet Tregeilis, filha do chefe dos guarda-caças. Rachel, que é muito boa moça, mas de excitável temperamento galês, sofreu um agudo ataque de febre cerebral. Passou a andar pela casa — como fez até ontem — como uma sombra, sem semelhança com o que fora. Foi nosso primeiro drama em Hurlstone, mas o seguinte atirou-o para segundo plano, e foi prenunciado pela desgraça e demissão do mordomo Brunton. "Foi assim que aconteceu. Já lhe disse que o homem é inteligente. E essa mesma inteligência foi a causa de sua ruína. Parece que o levou a uma curiosidade insaciável, sobre coisas que não lhe diziam respeito. Eu não tinha a menor ideia do ponto a que esta o levaria, até que o mais insignificante incidente me abriu os olhos. "Eu disse que é um casarão enorme. Certa noite da semana passada, na quinta-feira, para ser exato, descobri que não podia dormir por ter tomado imprudentemente uma xícara de café preto após o jantar. Depois de lutar contra a insônia até as duas da manhã, senti que era inteiramente inútil, de modo que me levantei e acendi a vela, com o intuito de continuar o romance que estava lendo. Entretanto, deixara o livro na sala de bilhar. Vesti meu roupão e saí para ir buscá-lo. "Para chegar ao salão de bilhar, tinha de descer um lance de escadas e atravessar a parte da frente do corredor, que vai dar à biblioteca e à sala de armas. Pode imaginar minha surpresa quando, ao olhar para o fundo do corredor, vi o brilho de uma luz que vinha da porta aberta da biblioteca. Apaguei minha vela e fechei a porta que dá para o quarto. Naturalmente, minha primeira idéia foi que se tratava de ladrões. Os corredores de Hurlstone têm paredes decoradas com muitos troféus de velhas armas. De um desses retirei um machado de guerra e então, deixando minha vela, desci na ponta dos pés o corredor e espreitei pela porta aberta.

"Brunton, o mordomo, estava na biblioteca. Achava-se sentado numa cadeira de repouso, completamente vestido, com uma tira de papel, que parecia um mapa, nos joelhos, e a fronte mergulhada na mão, em profunda meditação. Fiquei mudo de espanto, observando-o da escuridão. Uma pequena vela na borda da mesa derramava uma luz fraca, mas suficiente para mostrar que estava totalmente vestido. De repente, quando eu olhava, ele se levantou da cadeira, e, dirigindo-se a uma secretária ao lado, abriu-a e puxou uma das gavetas. Desta sacou um papel e, voltando a seu assento, inclinou-se


perto da vela na borda da mesa e começou a estudá-lo com muita atenção. Minha indignação pela calma com que examinava documentos de nossa família venceu-me, de modo que dei um passo em frente, e Brunton, olhando para cima, viu-me de pé no limiar da porta. Pôs-se de pé rapidamente, com o rosto lívido de medo, e enfiou no peito o papel, semelhante a um mapa, que estivera estudando. "— Então — disse eu —, é assim que paga a confiança que temos depositado no senhor? Pode deixar seu lugar amanhã. "Curvou-se, com a aparência de um homem que está inteiramente esmagado, e saiu sem uma palavra. A vela ficou ainda na mesa, e assim consegui ver o papel que Brunton tirara da secretária. Para minha surpresa, não tinha qualquer importância. Era simplesmente uma cópia das perguntas e respostas da velha observância chamada "ritual Musgrave". É uma espécie de cerimônia peculiar de nossa família, que cada Musgrave, por séculos, tem repetido quando chega à maioridade. . . uma coisa de interesse privado, e talvez de pouca importância até para o arqueólogo, assim como nossos brasões e armas, sem nenhum outro uso prático. "— Voltaremos ao papel depois — disse eu. "— Se acha realmente necessário — respondeu Musgrave, com certa hesitação. Então, continuando a narrativa, abri a secretária servindo-me da chave que Brunton deixara, e estava quase voltando para o quarto quando descobri que o mordomo regressara e estava de pé diante de mim.

"— Sr. Musgrave — exclamou ele numa voz rouca de emoção —, não posso tolerar a desgraça. Fui sempre orgulhoso, mais do que permite minha condição, e a desgraça me mataria. Meu sangue cairá sobre sua cabeça... cairá, na verdade... se me lançar no desespero. Se não pode me conservar depois do que se passou, então, pelo amor de Deus, deixe-me pedir-lhe a demissão e sair dentro de um mês, como se fosse de minha livre vontade. Poderei enfrentar isso, sr. Musgrave, mas não ser despedido diante de toda a gente que conheço tão bem. "— Não merece muita consideração, Brunton — respondi. — Sua conduta foi muito infame. Todavia, está há muito tempo na família, e não desejo tornar pública sua desgraça. No entanto, um mês é muito. Demita-se dentro de uma semana, e dê a razão que quiser para sua demissão. "— Somente uma semana, senhor? — gritou com voz desesperada. — Uma quinzena, diga pelo menos uma quinzena. "— Uma semana — repeti —, e pode julgar-se tratado com muita indulgência. "Ele arrastou-se para fora, cabisbaixo, como um homem angustiado, enquanto eu apagava a luz e voltava ao quarto.


"Durante dois dias Brunton foi muito aplicado no desempenho de seus deveres. Não fiz nenhuma alusão ao que se passara, e esperei, com certa curiosidade, para ver como iria ocultar sua desgraça. Na terceira manhã, ele não apareceu como de costume, depois da refeição matinal, para receber minhas instruções para o dia. Quando deixei a sala de jantar, aconteceu-me encontrar Rachel, a criada. Já lhe disse que ela se restabelecera havia pouco tempo de uma doença, e parecia tão pálida e lívida que a censurei por andar trabalhando. "— Você devia estar na cama — disse-lhe. — Volte às suas obrigações quando estiver mais forte. "Ela olhou para mim com uma expressão tão estranha que comecei a suspeitar que seu cérebro estivesse afetado. "— Estou bastante forte, sr. Musgrave — disse ela. "— Veremos o que diz o médico — respondi. — Você agora vai deixar de trabalhar, e quando descer diga que quero ver Brunton. "— O mordomo foi-se embora — respondeu. "— Foi? Para onde? "— Foi-se embora. Ninguém o viu. Não está no quarto. Oh, sim, foi-se, foi-se! — Caiu contra a parede com acessos de riso, enquanto eu, horrorizado com aquele repentino ataque histérico, toquei a campainha para pedir auxílio. A moça foi reconduzida a seu quarto gritando e soluçando, enquanto eu fazia inquérito a respeito de Brunton. Não restava dúvida de que desaparecera. Sua cama não fora usada, não fora visto desde a noite anterior, quando se retirou para seus aposentos, e, todavia, era difícil saber como podia ter deixado a casa com todas as portas e janelas encontradas fechadas de manhã. Suas roupas, relógio e dinheiro estavam no quarto — mas o traje preto, que costumava usar, desaparecera. Os chinelos também faltavam, mas não as botas. Aonde poderia o mordomo ter ido durante a noite, e o que lhe poderia ter acontecido? "É claro que revistamos a casa toda, mas não existia nenhum vestígio do homem. E, como disse, há o labirinto de uma casa antiga, especialmente a ala primitiva, que está agora praticamente desabitada. Mas foi examinado quarto por quarto até o sótão, sem se encontrar sinal do desaparecido. Era incrível que fugisse deixando toda a bagagem, mas onde estava ele? Chamei a polícia local, mas sem resultado. A chuva caíra durante a noite anterior, e examinamos o jardim e os caminhos em redor da casa, mas em vão. O assunto estava nesse estado quando um novo acontecimento afastou inteiramente nossa atenção do mistério original. "Durante dois dias, Rachel permaneceu doente. Algumas vezes com delírio, outras, com histerismo. Arranjou-se uma enfermeira para passar a noite com ela. Na terceira noite depois do desaparecimento de Brunton, a enfermeira, julgando que a doente estivesse repousando, adormeceu na poltrona. Quando acordou de manhã cedo, viu o leito vazio, a janela aberta, e nenhum sinal da moça. Fui imediatamente acordado e, com os dois lacaios, saí à procura da jovem. Não foi difícil saber a direção que tomara, porque, partindo-se de sob a janela, podíamos seguir-lhe as pisadas facilmente através do


bosque até a beira da lagoa, onde desapareciam, rente ao caminho encascalhado que segue em direção aos campos. A lagoa tem dois metros e meio de profundidade, e imagine o que sentimos quando vimos que o rasto da pobre demente terminava ali. "Fomos buscar os ganchos, e imediatamente nos pusemos a trabalhar para encontrar seus restos; mas nada descobrimos. Por outro lado, trouxemos à superfície um objeto da mais inesperada espécie. Era um saco de linho, contendo uma grande quantidade de metal antigo, enferrujado e descolorido, e diversos pedaços de seixos ou vidros opacos e sem cor. Esse estranho achado foi tudo o que pudemos retirar da lagoa, e, embora ontem fizéssemos todas as pesquisas e investigações possíveis, não sabemos coisa alguma do destino de Rachel Howells nem de Richard Brunton. A polícia do condado já não sabe mais o que fazer, e eu venho ter com você como último recurso.' "Pode imaginar, Watson, com que ansiedade ouvi essa extraordinária seqüência de acontecimentos, e como me esforcei para juntá-los e descobrir uma linha comum que os explicasse. "O mordomo fora-se. A criada, também. Ela amava o mordomo, mas depois tivera motivos para odiá-lo. Rachel era de sangue galês, furioso e apaixonado. Ficara terrivelmente excitada logo após o desaparecimento dele. Atirou ao lago um saco que continha algumas coisas curiosas. Foram esses todos os fatores que tive de levar em consideração, e todavia nenhum deles atingia perfeitamente o âmago do assunto. Qual seria o ponto de partida dessa cadeia de acontecimentos? Aí é que estava o nó do problema. "— Preciso ver, Musgrave — disse eu —, aquele papel que seu mordomo julgava valer a pena consultar, até mesmo sob o risco de perder o emprego. "— É uma coisa muito absurda, esse nosso ritual — respondeu ele. — Todavia, tem o encanto da antigüidade para desculpá-lo. Tenho aqui uma cópia das perguntas e respostas, se quiser dar um vista de olhos. "E passou-me este mesmo papel que aqui tenho, Watson, e é este o estranho catecismo a que cada Musgrave tinha de se submeter quando chegasse à maioridade. "Vou citar as perguntas e respostas, tais como estão registradas: "— De quem era? — De quem morreu. — Quem a terá? — Quem vier. — Qual era o mês? — O sexto desde o primeiro. — Onde estava o sol?


— Lá no carvalho. — Onde estava a sombra? — Debaixo do olmo. — Como se andava? — Norte dez e dez, leste cinco e cinco, sul dois e dois, oeste um e um, e então embaixo. — O que daremos por ela? — Tudo o que é nosso. — Por que devemos dar-lhe? — Por causa da confiança.' "— O original não tem data, mas tem a ortografia dos meados do século XVII — observou Musgrave. — Receio, todavia, que seja de pouco valor para você resolver este problema. "— Pelo menos — respondi —, ele nos apresenta outro mistério, e mais interessante que o primeiro. Pode ser que a solução de um seja a solução do outro. Há de me desculpar, Musgrave, se disser que seu mordomo parece ter sido um homem muito inteligente, e deve ter tido uma intuição mais lúcida que dez gerações de seus amos. "— Não o compreendo — disse Musgrave. — O papel parece-me sem a menor importância prática. "— Mas a mim parece-me imensamente prático, e penso que Brunton tinha a mesma opinião. Provavelmente vira-o antes daquela noite em que você o apanhou. "— É muito possível. Não tínhamos o menor cuidado em escondê-lo. "— Ele simplesmente queria, segundo creio, avivar a memória nessa última ocasião. Tinha, como entendo, uma espécie de mapa ou carta que estava comparando com o manuscrito, e que meteu no bolso quando você apareceu? "— Exatamente. Mas que relação poderia ter com este costume antigo da família, e o que significa esta embrulhada? "— Não me parece muito difícil descobri-lo — respondi. — Com sua permissão, tomaremos o primeiro trem para Sussex e estudaremos um pouco mais o caso no próprio local. "Nessa mesma tarde, estivemos ambos em Hurlstone. Possivelmente você já viu retratos e leu descrições dos famosos edifícios antigos. Portanto, limitar-me-ei a dizer que é uma construção em forma de L, sendo o braço mais comprido a parte mais moderna, e o mais curto, o núcleo antigo de onde o outro partiu.


"Embaixo, sobre a pesada porta com verga, no centro dessa parte antiga está esculpida a data 1607, mas os peritos concordam em que as obras de madeira e de pedra são realmente muito mais antigas. As paredes bem grossas e as janelas estreitas dessa parte da casa tinham impelido a família para o edifício da ala nova, e a velha servia então de armazém e de adega, quando era preciso. Um esplêndido parque com um bonito bosque antigo rodeava a casa, e o lago, a que o meu cliente fizera referência, ficava perto da alameda, a cerca de cento e oitenta metros do edifício. "Eu já estava firmemente convencido de que não havia três mistérios isolados, mas um só, e que, se pudesse ler corretamente o ritual Musgrave, teria na mão o indício que me levaria à verdade, tanto no que se referia ao mordomo Brunton como à criada Rachel Howells. A esse, então, dediquei todas as minhas energias. Por que estaria ansioso esse criado por decifrar aquela velha fórmula? Evidentemente, porque via alguma coisa nela que escapou a todas as gerações dos cavalheiros do condado, e de que ele esperava vantagem pessoal. O que era, então, e como lhe afetou o destino? "Era-me perfeitamente claro na leitura do ritual que as medidas deviam referir-se a algum lugar a que aludia o resto do documento, e que, se pudesse descobri-lo, estaria no caminho certo para conhecer o segredo que os antigos Musgraves tinham julgado necessário perpetuar de maneira tão curiosa. Havia duas balizas para começar, um carvalho e um olmo. Quanto ao carvalho, não podia haver nenhuma dificuldade. Bem em frente da casa, do lado esquerdo da estrada, permanecia um patriarca entre os carvalhos, uma das árvores mais esplêndidas que já vi. "— Estaria aqui quando o ritual foi escrito? — perguntei quando passamos por ela. "— Estava aqui quando da conquista normanda, com certeza — respondeu ele. — Tem uma circunferência de sete metros.

"Eu já determinara um dos meus pontos fixos. "— Você tem algum olmo velho? — perguntei. "— Havia um muito antigo lá adiante, mas foi queimado por um raio há dez anos atrás e cortamos seu tronco. "— Sabe onde estava? "— Oh, sim. "— Não havia outros olmos? "— Nenhum antigo, mas uma quantidade de faias. "— Gostaria de ver onde aquele cresceu.


"Tínhamos vindo num carro de duas rodas, e nele fomos imediatamente, sem entrarmos em casa, a uma rocha solitária no bosque onde o olmo estava. Era quase meio caminho entre o carvalho e a casa. Minha investigação parecia progredir. "— Suponho que é impossível saber qual a altura do olmo? — perguntei. "— Posso dá-la imediatamente. Era de dezenove metros e meio. "— Como veio a saber? — perguntei com surpresa. "— Quando meu velho preceptor costumava dar-me exercícios de trigonometria, tomava sempre medidas de altura como exemplo. Em rapaz, lidei com todas as árvores e edifícios da propriedade. "Isto era um golpe inesperado de sorte. Meus dados vinham mais rapidamente do que eu podia razoavelmente esperar. "— Diga-me — perguntei —, seu mordomo fez-lhe alguma vez semelhante pergunta? "Reginald Musgrave olhou para mim com espanto. "— Agora que você fala nisso — respondeu —, recordo que me perguntou a altura da árvore alguns meses antes, devido a uma pequena discussão com o homem da cavalariça. "Foi uma excelente notícia, Watson, porque me mostrou que estava no caminho certo. Olhei para o sol. Começava a cair, e calculei que em menos de uma hora cairia justamente em cima dos galhos mais altos do velho carvalho. Uma condição mencionada no ritual se cumpriria então. E a sombra do olmo devia significar o extremo mais adiante da sombra, do contrário o tronco teria sido escolhido como baliza. Deveria descobrir então onde cairia a extremidade distante da sombra quando o sol incidisse exatamente no carvalho." — O que deve ter sido difícil, Holmes, pois o olmo já não estava lá. — Eu pelo menos sabia que, se Brunton pudera fazê-lo, eu também o poderia. Fui com Musgrave a seu escritório e preparei este bastão, ao qual atei este comprido cordel, fazendo um nó a cada metro. Então tomei dois comprimentos de uma vara de pescar, o que deu justamente um metro e oitenta, e voltei com meu cliente ao local onde o olmo existira. O sol estava roçando exatamente a copa do carvalho. Amarrei a vara numa extremidade, marquei a direção da sombra, medindo-a em seguida. Era de dois metros e setenta de comprimento. O cálculo era agora muito simples. Se uma vara de um metro e oitenta projeta uma sombra de dois metros e setenta, uma árvore de dezenove metros e meio projetaria uma sombra de vinte e nove metros, e a linha de uma seria por certo a linha da outra. Medi-lhe a distância, o que me levou quase à parede da casa, e finquei uma estaca no lugar. Deve imaginar minha exultação, Watson, quando a cerca de cinco centímetros de minha estaca vi uma depressão cónica no chão. Descobri que era a marca que Brunton fizera quando de suas medidas, e que portanto eu estava em sua pista. "Desse ponto de partida continuei a andar, tomando primeiro os pontos cardeais com uma bússola de bolso. Dez passos de trinta centímetros cada um levaram-me ao paralelo


da parede da casa, e marquei de novo o lugar com uma estaca. Então contei cuidadosamente cinco passos para leste, e dois para o sul. E cheguei ao limiar da porta antiga. Um passo para oeste significava agora que eu tinha de descer a passagem de uma laje, o lugar indicado pelo ritual.

"Nunca senti semelhante arrepio de desapontamento, Watson. Por um momento pareceu-me que devia haver um engano radical em meus cálculos. O sol brilhava em cheio sobre o soalho da passagem; pude ver que as pedras com que era pavimentado, cinzentas e gastas pelas pisadas, estavam firmemente unidas por cimento, e certamente há muitíssimos anos não eram removidas. Brunton não trabalhara ali. Bati no chão, mas por toda parte soava o mesmo ruído, e não havia nenhum sinal de fenda ou greta. Mas, por felicidade, Musgrave, que estava tão excitado como eu, tirou seu manuscrito para comparar meus cálculos. "— É embaixo! — gritou. — Você omitiu o 'embaixo'. "— Supunha que isso significasse que tínhamos de cavar, mas percebo que estava errado. Há uma adega embaixo, então? — indaguei. "— Sim, e tão antiga como a casa. Aqui embaixo, por esta porta. "Descemos uma escada de pedra em espiral, e meu companheiro, riscando um fósforo, acendeu um grande lampião que estava em cima de uma barrica ao canto. Ficou logo evidente que tínhamos chegado ao verdadeiro lugar, e que não tínhamos sido as únicas pessoas a visitá-lo recentemente. "Fora usado para depósito de madeira, mas a lenha que estivera espalhada no chão estava agora empilhada ao lado, de modo a deixar um espaço claro no meio. Nesse espaço jazia uma laje enorme e pesada, com um anel de ferro enferrujado ao centro, no qual um capuz de pastor estava arrumado. "— Por Júpiter! — gritou Musgrave. — É o cachecol de Brunton. Eu o vi com ele, posso jurar. O que estaria o bandido fazendo aqui? "Por minha sugestão, foram chamados dois policiais do condado para presenciarem a cena, e então esforcei-me por levantar a pedra, puxando-a pelo cachecol. Apenas podia mexê-la de leve, e foi com o auxílio de um dos policiais que consegui finalmente colocá-la de lado. Um buraco escuro escancarou-se debaixo dela, pelo qual todos olhamos para dentro, enquanto Musgrave, ajoelhado ao lado, atiçou o lampião.

"Uma pequena câmara de cerca de dois metros e dez de profundidade e um metro e vinte de diâmetro se escancarava diante de nós. De lado estava uma caixa de madeira chata guarnecida de zinco, cuja tampa era trancada na parte de cima com esta chave curiosa, de tipo antigo, projetando-se da fechadura. Estava guarnecida na parte de fora por uma espessa camada de ferro, e a umidade e os carunchos tinham comido toda a


madeira, de modo que uma cultura de fungos vivos ia crescendo do lado de dentro. Diversos discos de metal, moedas aparentemente antigas, tais como as que seguro aqui, estavam espalhadas por todo o fundo da caixa, mas ela não continha mais nada. "Nessa altura, não pensamos mais na velha caixa, porque nossos olhos se cravaram no que estava ao lado dela. Era a figura de um homem vestido de preto, acocorado sobre as nádegas, com a fronte mergulhada na beira da caixa e os braços estendidos abraçandolhe ambos os lados. Essa postura tinha-lhe trazido ao rosto todo o sangue estagnado, e ninguém poderia reconhecer aquela fisionomia disforme, de cor de fígado. Mas a estatura, a roupa e os cabelos eram suficientes para mostrar a meu cliente, quando o corpo foi levantado, que era na verdade seu mordomo desaparecido. Morrera havia alguns dias, mas não apresentava nenhum ferimento ou contusão no corpo que mostrasse como encontrara seu terrível fim. Quando foi removido da adega, estávamos perante um novo problema, quase tão impressionante como aquele com que tínhamos iniciado. "Confesso, Watson, que até eu estava desapontado com minha investigação. Imaginara resolver o assunto assim que encontrasse o lugar referido no ritual; mas agora estava ali, aparentemente longe de saber o que a família escondera com semelhantes precauções. É verdade que havia descoberto o destino de Brunton, mas não esclarecera como lhe sobreviera esse destino, e qual a parte desempenhada no assunto pela mulher que desaparecera. Sentei-me num barril ao canto e pensei em todo o caso com muito cuidado. "Você conhece meus métodos em tais circunstâncias, Watson. Coloquei-me no lugar do homem. E, depois de avaliar sua inteligência, tentei imaginar como eu teria agido em circunstâncias semelhantes. Nesse caso, a tarefa foi simplificada pela inteligência de Brunton, que era de primeira classe, de modo que era desnecessário fazer qualquer concessão de equação pessoal, como dizem os astrônomos. Ele sabia que alguma coisa de valor estava escondida. Marcara o lugar. Sabia que a pedra que a cobria era muito pesada para que um homem, sem auxílio, a removesse. O que faria então? Podia procurar auxílio de fora se tivesse alguém em quem pudesse confiar, mas teria que tirar as trancas das portas, com um considerável risco de ser descoberto. Era melhor, se pudesse, encontrar auxílio dentro de casa. No entanto, a quem poderia solicitá-lo? Àquela jovem que lhe fora devotada. O homem dificilmente admite ter perdido o amor de uma mulher, por pior que a tenha tratado. Tentaria com pequenas provas de atenção fazer as pazes com a jovem Howells e então a usaria como cúmplice. À noite, desceriam juntos à adega, e a força de ambos seria suficiente para levantar a pedra. De forma que pude seguir-lhe os passos todos como se realmente os tivesse acompanhado. "Mas para duas pessoas só, das quais uma era mulher, devia ser uma tarefa difícil levantar a pedra. Um corpulento policial de Sussex e eu não a achamos assim tão fácil. Levantei-me e examinei cuidadosamente as diferentes achas de lenha que estavam espalhadas no chão. Encontrei rapidamente o que procurava. Um pedaço, com cerca de noventa centímetros de comprimento, estava todo denteado na extremidade, e achatado de um lado, como se tivesse sido comprimido por um peso considerável. Era evidente que, quando levantaram a pedra, lançaram o pau na fenda, até que por fim, quando a abertura se tornara suficientemente grande para se passar por ela, mantiveram-na aberta por meio de uma tora colocada ao comprido, que podia muito bem ficar cheia de dentes


na parte inferior, desde que todo o peso da pedra fizesse pressão para baixo na borda da outra laje. Até ali, eu estava em terra firme. "E depois, como deveria proceder para reconstituir aquele drama da meia-noite? É claro que só uma pessoa podia entrar no buraco: Brunton. A moça devia esperar em cima. Brunton destrancou então a caixa, mandou para cima seu conteúdo, — visto que não foi achado —, e então o que aconteceu? "Que ardente fogo de vingança não teria repentinamente explodido em chamas na alma daquela apaixonada celta quando viu o homem que lhe fizera mal — talvez a tivesse prejudicado mais do que nos é possível suspeitar — em seu poder? Seria por um acaso que o pau escorregou e a pedra fechou Brunton no que veio a ser seu sepulcro? Ela seria apenas culpada do silêncio quanto à sua sorte? Ou teria um golpe repentino de sua mão retirado o suporte, deixando a pedra deslizar para seu lugar? "Seja o que for, parece-me ver aquela figura de mulher, agarrada ao tesouro achado, voando pela escada em caracol com os ouvidos a zumbir devido aos gritos ensurdecedores que deixava para trás e ao tamborilar de mãos frenéticas contra a laje de pedra, que abafava a vida do amante infiel.

"Eis o segredo do rosto pálido, dos nervos descontrolados, das risadas histéricas na manhã seguinte. Mas o que haveria na caixa? E o que fez ela disso? Naturalmente, era o metal velho e as pedras que meu cliente retirara da lagoa. Atirou-os para lá na primeira oportunidade para remover o último vestígio de seu crime. "Durante vinte minutos fiquei sentado, imóvel, pensando no assunto. Musgrave estava com o rosto muito pálido, agitando a lanterna e olhando para o fundo da adega. "— São moedas de Carlos I — disse ele, retirando algumas que haviam ficado na caixa. — Bem vê que estávamos certos quanto à data do ritual. "— Podemos encontrar qualquer coisa mais de Carlos I — disse eu, quando o significado provável das duas primeiras perguntas do ritual me irrompeu de repente: — Deixe-me ver o conteúdo do saco que pescou na lagoa. "Subimos a seu escritório e ele espalhou os restos diante de mim. Ao olhá-los, compreendi que poderiam ser considerados de pouca importância, pois o metal estava quase preto e as pedras, sem brilho. Esfreguei uma delas em minha manga, e brilhou imediatamente como uma centelha na concha de minha mão. O metal tinha a forma de um anel duplo, mas fora muito retorcido, alterando-se assim sua forma original. "— Você deve recordar-se — disse eu — que os partidários do rei mantiveram-se na Inglaterra mesmo depois da morte do rei, e, quando por fim fugiram, deixaram provavelmente muitas de suas preciosas posses sepultadas com a intenção de vir buscálas em épocas mais pacíficas.


"— Meu antepassado, Sir Ralph Musgrave, era um cavalheiro e o braço direito de Carlos II — disse meu amigo. "— Ah, muito bem — respondi. — Suponho que agora temos realmente o último elo de que precisávamos. Devo felicitá-lo por entrar na posse, ainda que de maneira muito trágica, de uma relíquia de grande valor intrínseco, mas ainda de maior importância como curiosidade histórica. "— Qual é então? — perguntou com espanto. "— Nada menos que a antiga coroa dos reis de Inglaterra. "— A coroa! "— Precisamente. Considere o que diz o ritual. Como reza? 'De quem era?' 'De quem morreu.' Foi depois da execução de Carlos I. 'Então de quem será?' 'De quem vier.' Trata-se de Carlos II, cujo advento já era previsto. Creio que não pode haver dúvida de que este diadema arruinado e já sem forma coroou um dia a fronte dos reais Stuarts. "— E como veio parar aqui? Como ficou escondido? "— Oh, esta é uma pergunta que levará algum tempo a responder. — Então, expliquei toda a longa cadeia de hipóteses e provas que construíra. O crepúsculo findava e a lua brilhava intensamente antes de eu concluir minha narrativa. "— E por que Carlos II não conseguiu reaver sua coroa quando regressou? — perguntou Musgrave, colocando a relíquia no saco. "— Ah! Este é o ponto que possivelmente não poderemos nunca esclarecer. É provável que o Musgrave detentor do segredo tivesse morrido no intervalo, e deixasse por descuido este regulamento ao descendente sem lhe explicar o significado. Desde essa época até hoje, tem sido transmitido de pai para filho, até que chegou ao alcance de um homem que lhe desvendou o segredo e morreu na aventura. "Esta é a história do ritual Musgrave, Watson. Eles têm agora a coroa em Hurlstone — embora tivessem encontrado certa dificuldade legal e devessem pagar uma soma considerável antes que lhes fosse permitido conservá-la. Estou certo de que, se mencionar meu nome, eles terão o maior prazer em mostrá-la a você. Da mulher nada mais se soube, e é provável que houvesse deixado a Inglaterra, levando a recordação de seu crime para o além-mar." [1] Iniciais de Victoria Regina, aludindo-se à rainha Vitória. (N. do T.)


Arthur Conan Doyle 6- O enigma de Reigate Título original: The Reigate Puzzle Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1893. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Reigate Puzzle publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

O que narro a seguir aconteceu um pouco antes de o meu amigo Sherlock Holmes terse restabelecido de uma enfermidade causada pêlos enormes esforços despendidos na primavera de 1887. Constituiria assunto apropriado a esta série de esboços a questão da Netherland-Sumatra Company e dos colossais projetos do barão Maupertuis, mas está tão recente na mente do público e tão intimamente relacionada com a política e as finanças que é melhor deixá-la de lado. No entanto, ainda que de um modo muito indireto, ela conduz a um problema complexo e singular, que deu a meu amigo uma oportunidade de demonstrar o valor de uma arma nova entre as muitas com que sustentou batalhas contra o crime ao longo da vida. Recorrendo a minhas notas, verifico que foi no dia 14 de abril que recebi um telegrama de Lyon, na França, informando-me de que Holmes se encontrava doente, na cama, no Hotel Dulong. Vinte e quatro horas depois, eu estava no quarto do doente. Fiquei logo aliviado ao verificar que não havia nada de grave nos sintomas que apresentava. Porém, sua constituição de ferro cedera sob o esforço da investigação que se arrastara durante dois meses. Durante esse período nunca trabalhara menos de quinze horas por dia, e mais de uma vez, segundo me assegurou, ficou preso à sua tarefa por cinco dias ininterruptos. O resultado triunfante de seus labores não pôde salvá-lo da reação a tão terrível esforço. Quando toda a Europa repetia seu nome e seu quarto estava literalmente atulhado de telegramas de congratulações, encontrei-o dominado pela mais terrível depressão. Até o reconhecimento de que havia triunfado onde a polícia de três países fracassara, e de que excedera largamente em manobras o mais refinado trapaceiro da Europa, não foi suficiente para fazê-lo reagir contra aquela prostração nervosa. Três dias depois estávamos de volta à Baker Street. Era evidente, porém, que meu amigo melhoraria muito com uma mudança de clima. E para mim a idéia de uma semana de primavera no interior era aliciante. Meu velho amigo, o coronel Hayter, que esteve entregue a meus cuidados profissionais no Afeganistão, e que arranjara uma casa perto de Reigate, no Surrey, convidara-me com freqüência para que lhe fizesse uma visita. Acrescentara, da última vez, que, se meu amigo me quisesse acompanhar, teria também o maior prazer em recebê-lo. Não obstante, foi necessário um pouco de diplomacia. Quando Holmes soube que a casa era de solteiro, e que lhe seria permitida plena e inteira liberdade, concordou com meus planos e, uma semana depois de nosso regresso de Lyon, estávamos em casa do coronel. Hayter era um excelente veterano, de fino trato e que correra mundo. Descobriu logo, como era de esperar, que Holmes e ele tinham muita coisa em comum.


Na noite da nossa chegada, após o jantar, sentamo-nos na sala de armas do coronel. Holmes estirou-se no sofá. Eu e Hayter examinávamos seu pequeno arsenal. — A propósito — disse-me ele de repente —, vou levar uma dessas pistolas lá para cima, para a hipótese de um alarme. — Um alarme! — exclamei eu. — Sim, levamos um susto nesta zona recentemente. O velho Acton, que é um dos magnatas de nosso condado, teve a casa arrombada na última segunda-feira. Não houve nenhum grande prejuízo, mas os gatunos ainda andam à solta. — Nenhum indício? — perguntou Holmes, olhando de soslaio para o coronel. — Nenhum até agora. Mas o caso é muito insignificante. Um pequeno crime de província. Aliás, muito pequeno para merecer sua atenção, Sr. Holmes, depois daquele grande caso internacional. Holmes acenou recusando o elogio, embora seu sorriso mostrasse que ele lhe agradara. — Houve alguma coisa de interesse? — Penso que não. Os ladrões saquearam a biblioteca, e conseguiram muito pouco pelo seu trabalho. Todo o local foi revolvido. As gavetas e os armários foram arrombados, resultando no desaparecimento de um bizarro volume de Homero, traduzido por Pope, dois candelabros de prata, um peso de papéis de marfim, um pequeno barómetro de carvalho e um rolo de barbante. — Que extraordinária coleção! — exclamei.

— Oh! Evidentemente, eles levaram tudo o que puderam apanhar. Holmes grunhiu do sofá. — A polícia do condado precisava ver isso — disse ele. — Ora essa, é evidente, sem dúvida alguma, que... Mas eu levantei o dedo em sinal de advertência: — Meu caro, você está aqui para descansar. Pelo amor de Deus, não se envolva com outro problema quando tem os nervos em fiapos. Holmes encolheu os ombros com um olhar de cômica resignação para o coronel, e a conversação enveredou por caminhos menos perigosos.


Estava escrito, porém, que todo o meu cuidado profissional seria tempo perdido, porque na manhã seguinte o problema foi-nos imposto de maneira tal que se tornou impossível ignorá-lo. E nossa estada na província tomou um rumo que nenhum de nós podia prever. Tomávamos o café matinal quando o mordomo do coronel entrou na sala sem qualquer cerimônia. — Ouviu as notícias, senhor?! — arfou ele. — Na casa dos Cunninghams, senhor! — Roubo? — indagou o coronel, com a xícara de café a meio caminho da boca. — Assassinato! O coronel assobiou. — Por Júpiter! Quem morreu? O juiz de paz ou o filho? — Nenhum deles, senhor. Foi William, o cocheiro. Alvejaram-no no coração, e nunca mais falou. — Quem o alvejou, então? — O ladrão, senhor. E depois fugiu como uma bala e desapareceu. Tinha entrado pela janela da copa, quando William se atirou a ele e encontrou a morte na defesa da propriedade do seu patrão. — A que horas? — À noite passada, mais ou menos à meia-noite. — Bem, vamos lá imediatamente — disse o coronel, recomeçando friamente a tomar o desjejum. — É um negócio sujo — acrescentou, quando saiu o mordomo. — O velho Cunningham é o principal fidalgo da região. É uma pessoa muito decente. Isso vai afligi-lo bastante, porque o homem estava a seu serviço há muitos anos, e era um étimo empregado. Evidentemente, deve ser o mesmo tratante que entrou na casa de Acton. — E roubou aquela coletânea tão estranha? — perguntou Holmes, pensativo. — Exatamente. — Hum! Talvez seja o acaso mais simples do mundo; todavia, à primeira vista, é um tanto curioso, não é? Era de esperar que um bando de ladrões, agindo no interior, variasse o cenário de suas operações, e não fizesse dois furtos no mesmo distrito em poucos dias. Quando o senhor falou a noite passada em tomar precauções, lembro-me de que me passou pela cabeça que esta provavelmente seria a última paróquia da Inglaterra a que um ladrão, ou ladrões, voltariam sua atenção; o que mostra que ainda tenho muito o que aprender. — Deve tratar-se de algum profissional da região — disse o coronel. — Nesse caso, as casas de Acton e de Cunningham eram exatamente as que lhe podiam interessar, pois são as maiores que há por aqui.


— E eles são os mais ricos? — Devem ser, mas tiveram uma demanda durante alguns anos, o que sugou o sangue a ambos, suponho eu. Parece que o velho Acton tem direito a metade das propriedades de Cunningham, e os advogados agarraram-se a isso com as duas mãos.

— Se o ladrão for daqui, não será difícil dar-lhe caça — disse Holmes com um bocejo. — Está certo, Watson, não tenciono intrometer-me. — O inspetor Forrester, senhor — anunciou o mordomo, abrindo a porta com ímpeto. Entrou o oficial, que era jovem, inteligente e de fisionomia viva. — Bom dia, coronel. Não queria incomodá-lo, mas ouvi dizer que o Sr. Holmes, da Baker Street, está aqui. O coronel fez um gesto com a mão em direção a meu amigo, e o inspetor fez uma vênia. — Pensamos que talvez o senhor quisesse intervir. — O destino está contra você, Watson — disse ele, rindo. — Estávamos conversando sobre o assunto quando o senhor entrou — disse ao inspetor. — Talvez nos possa dar alguns pormenores. Inclinou-se para trás em sua cadeira, na atitude que lhe era familiar, e então percebi que o caso era sem esperança. — Não tínhamos nenhum indício no caso de Acton. Mas neste temos uma porção deles para seguir, e não há dúvida de que foi a mesma pessoa que visitou ambas as casas. O homem foi visto. — Ah! — Sim, senhor. Mas fugiu como um veado depois do tiro que matou o pobre William Kirwan. O Sr. Cunningham viu-o da janela do quarto, e o Sr. Alec Cunningham viu-o do corredor dos fundos. Faltava um quarto para a meia-noite quando soou o alarme. O Sr. Cunningham acabava de se deitar, e o Sr. Alec, de roupão, fumava uma cachimbada em seu quarto de vestir. Ambos ouviram William, o cocheiro, pedindo socorro. O Sr. Alec desceu correndo para ver o que era. A porta dos fundos estava aberta, e quando chegou ao pé da escada, viu dois homens lutando do lado de fora. Um deles atirou, o outro caiu, e o assassino correu então através do jardim e pulou a cerca. O Sr. Cunningham, olhando pela janela de seu quarto, viu o indivíduo quando este chegava à estrada, mas logo o perdeu de vista. O Sr. Alec abaixou-se para ver se podia prestar auxílio ao moribundo, e entrementes o bandido fugiu. Além do fato de que era um homem de estatura média e vestido de preto, não temos mais nenhum indício pessoal.


Estamos, porém, fazendo rigorosas investigações. Se for de fora, nós o descobriremos rapidamente. — O que William fazia lá? Disse alguma coisa antes de morrer? — Nem uma palavra. Mora na casa do guarda com sua mãe, e, como era um rapaz muito fiel, supomos que foi à casa com a intenção de ver se tudo ia bem. Como é natural, o caso de Acton pôs todo mundo de sobreaviso. O ladrão acabava de arrombar a porta, pois a fechadura fora forçada, quando William o apanhou. — William disse alguma coisa à mãe antes de sair? — Ela é muito velha e surda, e não lhe pudemos arrancar nenhuma informação. O choque deixou-a apatetada. Mais tarde fui informado de que ela nunca foi lúcida. Há, porém, uma circunstância muito importante. Olhem para isto! E tirou um pedaço de papel rasgado de uma agenda, que alisou sobre o joelho. — Isto foi encontrado entre o indicador e o polegar do morto. Parece um fragmento rasgado de uma folha grande. O senhor verá que a hora aqui mencionada é a mesma em que o pobre rapaz encontrou a morte. Pode supor-se que o assassino lhe arrebatou o resto da folha, ou ele, ao assassino. Parece tratar-se de um encontro marcado. Holmes pegou na tira de papel, cujo fac-símile vai aqui reproduzido.

— Admitindo-se que fosse um encontro combinado — continuou o inspetor —, então deve supor-se que esse William Kirwan, que possuía a reputação de honesto, podia ter ligação com o gatuno. Podia tê-lo encontrado lá, e até auxiliado a arrombar a porta. Depois, podiam ter-se desavindo entre si. — Este escrito é de extraordinário interesse — disse Holmes, examinando-o com cuidado e concentração. — As águas são muito mais profundas do que pensei. — E meteu a cabeça entre as mãos; o inspetor riu-se do efeito que o caso produzira no famoso especialista londrino. — Sua última observação — disse Holmes no mesmo instante —, quanto à possibilidade de ter havido cumplicidade entre o ladrão e o empregado, e de ser esta uma nota de compromisso entre eles, é uma suposição engenhosa e, aliás, não totalmente impossível. Porém, este escrito começa... — e mergulhou novamente a cabeça entre as mãos, permanecendo por alguns instantes na mais profunda concentração. Quando levantou o rosto, fiquei surpreso ao ver que tinha o rosto corado e os olhos brilhantes como antes de sua doença. Em seguida, levantou-se com toda a sua antiga energia. — Eu lhe direi! — exclamou. — Gostaria de dar uma rápida olhadela nos pormenores deste caso. Há nele certas coisas que me fascinam extremamente. Se me permitir, coronel, eu o deixarei com meu amigo Watson e irei com o inspetor para verificar o acerto de uma ou duas pequenas fantasias minhas. Estarei novamente com vocês dentro de meia hora.


Passava já de hora e meia quando o inspetor voltou sozinho. — O Sr. Holmes anda para baixo e para cima no campo em volta da casa — disse-nos. — E quer que subamos os quatro à casa. — À casa do Sr. Cunningham? — Exatamente. — Para quê? O inspetor encolheu os ombros. — Não sei, senhor. Cá entre nós, penso que o Sr. Holmes ainda não se restabeleceu completamente. Tem-se conduzido de modo muito esquisito e está muito excitado. — Acho que não precisa se alarmar — disse eu. — Geralmente, tenho verificado que há método em sua loucura. — Aliás, pode haver quem diga que há loucura em seu método — murmurou o inspetor. — Mas ele está ansioso por prosseguir, coronel, de modo que o melhor é irmos, se estiverem prontos. Encontramos Holmes andando de um lado para outro, com o queixo enterrado no peito e as mãos metidas nos bolsos das calças. — O caso ganha em interesse — disse ele. — Watson, sua excursão ao interior foi um enorme êxito. Estamos tendo uma manhã encantadora. — Ouvi dizer que o senhor já esteve no local do crime — falou o coronel. — Sim. O inspetor e eu já fizemos um reconhecimento rápido, mas completo. — Algum resultado? — Ora, vimos coisas interessantes. Eu lhes direi o que fizemos enquanto caminhamos. Primeiro, vimos o corpo do pobre homem. Morreu certamente de um ferimento a bala, como dizem. — Então o senhor tinha dúvidas? — Oh, é bom comprovar tudo. Nossa inspeção não foi em vão. Entrevistamos o Sr. Cunningham e o filho, que mostraram o lugar exato onde o ladrão pulou a cerca do jardim na sua fuga. Era de grande interesse. — Naturalmente. — Em seguida, fomos ver a mãe do pobre rapaz. Por mais que nos esforçássemos, não pudemos obter nenhuma informação dela, porque é muito velha e fraca da cabeça.


— E qual o resultado de suas investigações? — perguntei. — A convicção de que o crime é muito peculiar. Nossa visita talvez possa descobrir alguma coisa que o torne mais claro. Creio que estamos perfeitamente de acordo, inspetor, em que o fragmento de papel na mão do morto, indicando a hora exata de sua morte, é de extrema importância. — Ele podia dar-nos uma pista, Sr. Holmes. — Com efeito, ele a dá. Quem quer que tenha escrito a carta, foi o homem que tirou William Kirwan da cama àquela hora. Mas onde está o resto dessa folha de papel? — Examinei o chão com todo o cuidado na esperança de encontrá-lo — disse o inspetor. — Foi rasgada da mão do morto. Por que alguém haveria de desejá-la? Naturalmente, porque ela o incrimina. E o que faria com ela? Muito provavelmente a meteria no bolso, sem notar que um canto dela ficara nas mãos do cadáver. Se pudéssemos achar o resto da folha, é claro que teríamos progredido muito na solução do mistério. — Exatamente! Mas como revistar o bolso do criminoso antes de prendê-lo? — Bem, vale a pena pensar nisso. Há ainda outro ponto claro. A carta foi enviada a William. Quem a escreveu não podia levá-la; do contrário, transmitiria sua mensagem verbalmente. Quem levou-lhe a carta, então? Ou teria sido enviada pelo correio? — Já investiguei — respondeu o inspetor. — William recebeu uma carta pelo correio ontem à tarde. O envelope foi destruído por ele. — Excelente! — exclamou Holmes, dando umas palmadinhas nas costas do inspetor. — O senhor já falou com o carteiro. É um prazer trabalhar com o senhor. Bem, aqui está a casa; se o senhor quiser entrar, coronel, mostrar-lhe-ei o local do crime.

Passamos pela casinha onde morava o cocheiro, e subimos uma alameda ladeada de carvalhos até uma bonita casa do tempo da rainha Ana, que ostentava a data de Malplaquet sobre o dintel da porta. Holmes e o inspetor fizeram-nos contorná-la até chegarmos a um portão lateral, separado da cerca que ladeia a estrada por um trecho de jardim. Um policial estava de guarda à porta da cozinha. — Abra a porta, oficial — disse Holmes. — Ora, foi nesta escada que o jovem Cunningham esteve, e viu os dois lutando justamente onde nós estamos. O velho Cunningham estava naquela janela... a segunda, à esquerda, e dali viu o indivíduo desaparecer à esquerda daquela moita. O filho, também. Ambos estão certos disso por causa da moita. Então o Sr. Alec saiu correndo e ajoelhou-se ao lado do ferido. O chão está muito duro, como vêem, e não há rastros para nos guiarem. Enquanto falava, dois homens desceram a trilha do jardim, rodeando o canto da casa. Um era velho, de semblante grave, olhos fundos e tristes; o outro era um jovem


impetuoso, cuja expressão, brilhante e sorridente, e a roupa esplêndida faziam um contraste estranho com o que nos trouxera ali. — Ainda continua com isso? — disse ele a Holmes. — Pensei que os londrinos nunca falhassem. O senhor não me parece assim tão rápido. — Ah, é preciso dar-nos um pouco mais de tempo — respondeu Holmes, bemhumorado. — Como quiser — disse o jovem Cunningham. — Podemos ajudá-lo a recolher indícios? — Há apenas um — respondeu o inspetor. — Pensávamos que podíamos descobrir... Céus! O que houve, Sr. Holmes?

O rosto de meu pobre amigo apresentou de repente a mais terrível expressão. Seus olhos viraram-se para cima, seu rosto contraiu-se numa agonia e, com um sufocado gemido, caiu com o rosto no chão. Horrorizados com a rapidez e a violência do ataque, levamo-lo para a cozinha, onde o deitamos sobre um banco e o abanamos por alguns minutos. Finalmente, desculpando-se de sua fraqueza e com expressão de vergonha, levantou-se outra vez. — Watson pode dizer-lhes que acabo de me restabelecer de uma prolongada doença — explicou-lhes. — Estou sujeito a estes repentinos ataques de nervos. — Mandarei alguém levá-lo a casa de carro — propôs o velho Cunningham. — Ora, visto que estou aqui, quero ver uns pormenores que gostaria muito de elucidar. Podemos verificá-los muito facilmente. — De que se trata? — Ora, parece-me muito possível que a chegada desse pobre William não tenha se dado antes, mas depois de o ladrão entrar na casa. O senhor parece estar certo de que, embora a porta tivesse sido arrombada, o ladrão não chegou a entrar na casa. — Penso que é muito claro — disse o st. Cunningham com gravidade, — Visto que meu filho Alec ainda não fora deitar-se, certamente teria ouvido alguém a andar por aí. — Onde ele estava sentado? — Eu estava fumando em meu quarto de vestir. — Em que janela? — A última à esquerda, perto da de meu pai.


— Nesse caso, ambas as velas estavam acesas? — Sem dúvida alguma. — Há aqui pontos muito curiosos — disse Holmes, sorrindo. — Não é extraordinário que um ladrão... e um ladrão que já tenha experiência, entrasse deliberadamente numa casa no momento em que podia ver pela luz acesa que dois membros da família ainda estavam acordados? — Ele deve ter agido com audácia e sangue-frio. — Claro; se o caso não fosse esquisito, não lhe teríamos pedido auxílio — disse o Sr. Alec. — Mas, quanto à sua idéia de que o homem teria roubado a casa antes de William atacá-lo, julgo-a absurda. Não teríamos encontrado o local desarrumado e dado pela falta dos objetos que ele levasse? — Depende — respondeu Holmes. — O senhor deve lembrar-se de que estamos lidando com um ladrão muito especial, que parece ter linhas próprias de ação. Olhe, por exemplo, para a porção de coisas esquisitas que levou da casa de Acton: o que eram? Uma bola de barbante, um peso de papéis e não sei que outras bugigangas! — Bem, estamos inteiramente em suas mãos, Sr. Holmes — disse o velho Cunningham. — Tudo o que o senhor ou o inspetor sugerirem será feito imediatamente. — Em primeiro lugar — disse Holmes —, gostaria que o senhor oferecesse uma recompensa... como iniciativa sua, para que os funcionários não percam muito tempo discutindo a respectiva quantia, pois essas coisas não se fazem correndo. Já rascunhei aqui a fórmula, se o senhor não vir inconveniente em assiná-la. Cinqüenta libras são suficientes, penso eu. — Eu daria de boa vontade cem libras — respondeu o juiz de paz, pegando na tira de papel e no lápis que Holmes lhe oferecia. — Mas isso não está certo — disse ele, olhando para o documento. — Escrevi-o muito às pressas. — Como vê, o senhor começa assim: "Devia faltar um quarto para a uma hora, na manhã de terça-feira, quando foi feita uma tentativa...", e assim por diante. Na realidade, era um quarto para a meia-noite. Fiquei angustiado com o engano, porque sabia como Holmes havia de sentir um deslize dessa natureza. A exatidão nos fatos era sua especialidade. Mas sua recente doença abalara-o, e o incidente, embora insignificante, me mostrou que ele ainda estava longe de ser o mesmo. Ficou claramente embaraçado por um instante. O inspetor arregalou os olhos, e Alec Cunningham soltou uma gargalhada. O velho Cunningham corrigiu o engano e devolveu o papel a Holmes. — Mande publicá-lo o mais depressa possível — disse ele.


Holmes pôs cuidadosamente a tira de papel em sua carteira. — E agora — continuou —, seria realmente bom que percorrêssemos todos juntos a casa para verificar se este excêntrico ladrão não levou nada com ele. Antes de entrar, Holmes examinou a porta que fora forçada. Era evidente que fora introduzido um formão ou canivete na fechadura, forçando-a para trás. Vimos as marcas na madeira, no lugar onde fora empurrada. — O senhor não usa trancas? — Nunca as julgamos necessárias. — Não tem cão? — Temos. Mas está preso do outro lado da casa. — A que horas se deitam seus criados? — Cerca das dez horas. — Seria portanto natural que a essa hora William estivesse também na cama? — Perfeitamente. — É curioso que na noite do crime estivesse acordado. Ora, ficarei muito contente se o senhor quiser ter a bondade de nos mostrar toda a casa, Sr. Cunningham. Um corredor de laje, com uma cozinha ao fundo, dava, por uma escada de madeira, diretamente para o primeiro andar, e terminava num terraço fronteiriço; depois, havia uma segunda escada, mais ornamentada, que levava para o pórtico da fachada. Daí entrava-se na sala de estar e em diversos quartos, incluindo o do Sr. Cunningham e o do filho. Holmes andava devagar, anotando com cuidado a planta da casa. Eu podia adivinhar pela sua expressão que estava na pista certa, mas não podia imaginar, nem de longe, em que direção as suas deduções o levavam. — Meu caro senhor — disse o Sr. Cunningham —, isso é sem dúvida alguma desnecessário. Aquele ao fundo da escada é meu quarto, o do meu filho fica do outro lado. Deixo a seu critério se seria possível ao ladrão subir até aqui sem nos perturbar. — O senhor deve dar meia-volta e tentar descobrir uma pista fresca, creio eu — disse o filho com um sorriso malicioso. — Paciência; preciso pedir-lhes que tenham um pouco mais de paciência comigo. Gostaria, por exemplo, de ver a que distância do chão ficam as janelas da frente. Este, suponho, é o quarto de seu filho — e empurrou a porta —, e este outro, presumo, é o quarto de vestir onde Alec Cunningham estava fumando quando foi dado o alarme. Para onde dá a janela daquele? — Dirigiu-se para o quarto, abriu a porta e olhou em volta.


— Suponho que agora já esteja satisfeito — falou o Sr. Cunningham de mau humor. — Muito obrigado; creio que já vi tudo o que queria. — Então, se for realmente necessário, podemos entrar em meu quarto. — Se não for pedir demais.

O juiz de paz encolheu os ombros e abriu caminho para seu próprio quarto, que era comum e mobiliado com simplicidade. Caminhando na direção da janela, Holmes atrasou-se tanto que eu e ele éramos os últimos do grupo. Perto da cama havia uma mesa quadrada sobre a qual estavam uma fruteira com laranjas e uma garrafa de água. Ao passar por ela, para meu enorme espanto, curvou-se à minha frente e esbarrou nela, derrubando-a com tudo o que estava em cima. O que era de vidro fez-se em mil pedaços, e as frutas rolaram pêlos quatro cantos do quarto. — Que lindo serviço, Watson! — disse ele friamente. — Veja a porcaria que fez no tapete. Baixei-me confuso para apanhar as frutas, compreendendo que devia haver um motivo para que meu companheiro quisesse que eu arcasse com a culpa. Os outros ajudaram-me, e a mesa foi posta de pé novamente. — Oh! — exclamou o inspetor. — Aonde foi ele? Holmes desaparecera. — Esperem um instante — disse o jovem Cunningham. — O homem não regula bem da cabeça, parece-me. Venha, pai, vamos ver para onde foi. Saíram do quarto, deixando o inspetor, o coronel e eu a olharmos uns para os outros. — Palavra que estou quase concordando com o Sr. Alec — disse o oficial. — Pode ser o efeito da doença, mas parece-me que... Suas palavras foram cortadas por um grito repentino de alarme. "Socorro! Socorro! Assassino!" Com um estremecimento, reconheci a voz de meu amigo. Saí como louco do quarto para o patamar. Os gritos, que se transformavam num rouco e inarticulado berreiro, vinham do quarto que visitáramos primeiro. Precipitei-me para lá, e depois para o quarto de vestir.

Ambos os Cunninghams estavam curvados sobre a figura prostrada de Sherlock Holmes; o mais jovem apertava-lhe a garganta com ambas as mãos, e o mais velho


pareceu-me estar torcendo seu pulso. Num instante os separamos, e Holmes cambaleou para ficar de pé, muito pálido, evidentemente exausto. — Prenda estes homens, inspetor! — arfou ele. — Sob que acusação? — A do assassínio do cocheiro William Kirwan! O inspetor olhou-o, muito confuso. — Oh, Sr. Holmes, ora vamos — disse ele —, estou certo de que o senhor não quer dizer que... — Basta, homem, olhe para a cara deles! — gritou Holmes secamente. Era verdade; jamais vi uma confissão de culpa mais completa em rosto humano. O velho parecia entorpecido e pasmado, com uma expressão grave e sombria que lhe marcava fortemente o rosto. O filho, por outro lado, perdera toda a altivez, a maneira impetuosa que o caracterizava, e a ferocidade de um animal selvagem brilhava em seus olhos escuros, deformando-lhe as feições correias. O inspetor nada mais disse. Dirigiu-se para a porta e soprou seu apito. Dentro de poucos instantes, dois guardas apareceram. — Não tenho outra alternativa, Sr. Cunningham — disse ele. — Espero que tudo isto venha a ser um absurdo engano; mas pode ver que... Quer fazer o favor? Solte-o! — Bateu com a mão, e um revólver, cujo gatilho o mais jovem tentava nesse momento premir, retiniu no soalho. — Guarde-o — disse Holmes, pondo-lhe rapidamente o pé em cima. — Vai ver que lhe será muito útil no tribunal. Mas era isto o que realmente queríamos. — E sacou um pequeno pedaço de papel amarrotado. — O resto da folha? — gritou o inspetor. — Exatamente. — E onde estava? — Onde eu estava certo de que devia estar. Esclarecer-lhe-ei agora mesmo todo o assunto. Creio, coronel, que o senhor e Watson podem ir-se agora. Estarei com vocês dentro de uma hora no máximo. O inspetor e eu precisamos trocar uma palavra com os prisioneiros. Mas estarei de volta para o almoço. Sherlock Holmes cumpriu sua palavra, pois cerca de uma hora depois estava conosco na sala de fumar do coronel. Estava acompanhado por um cavalheiro baixo e de certa idade, que foi apresentado como o Sr. Acton, cuja casa fora objeto do primeiro furto.


— Eu queria que o Sr. Acton estivesse presente enquanto eu lhes explico este caso — disse Holmes —, porque é natural que ele tenha o mais vivo interesse pêlos pormenores. Receio, meu caro coronel, que lamente a hora em que deixou entrar em sua casa um pássaro de tormenta como eu. — Pelo contrário — respondeu o coronel calorosamente —, considero que o maior privilégio foi ter-me sido permitido observar seus métodos de atuação. Confesso que eles excederam minhas expectativas, e que sou inteiramente incapaz de explicar seu resultado. Não vi ainda o menor vestígio de um indício. — Temo que minha explicação possa desiludi-lo, mas sempre tive o hábito de não ocultar nenhum de meus métodos, quer a meu amigo Watson, quer a qualquer outro que por eles mostre um interesse inteligente. Mas antes, como estou muito abalado pelo ataque no quarto de vestir, creio que me faria bem um trago de seu licor, coronel. Minhas forças foram submetidas a uma dura prova ultimamente. — Espero que não tenha mais daqueles ataques de nervos. Sherlock Holmes riu cordialmente. — Chegaremos a isso na devida hora — disse ele. — Eu lhes farei a narrativa dos acontecimentos na ordem certa, mostrando-lhes os vários pontos que me guiaram em minha decisão. Interrompam-me, por favor, se houver qualquer explicação que não seja perfeitamente clara. "É da mais alta importância, na arte da dedução, distinguir em determinados fatos os que são incidentais e os que são fundamentais. De outra forma, a energia e a concentração se dissiparão, em vez de se concentrarem. Ora, neste caso, não tive, desde o princípio, a mais leve dúvida de que a chave de todo o problema tinha de ser procurada no pedaço de papel que o morto tinha na mão. "Antes de entrar nisso, quero chamar sua atenção para o fato de que, se a narrativa de Alec Cunningham fosse verdadeira, e se o assaltante, depois de atirar em William Kirwan, tivesse fugido instantaneamente, então é claro que não podia ser ele quem arrancara o papel da mão do morto. Mas, se não fora ele, devia ter sido o próprio Alec Cunningham, porque, quando o velho desceu, vários criados já estavam no local. O pormenor é simples, mas o inspetor desprezara-o, porque tinha partido da hipótese de que aqueles magnatas do condado nada tinham a ver com a coisa. Ora, faço questão de nunca ter qualquer preconceito e de seguir docilmente qualquer fato que me oriente, e assim, na primeira fase da investigação, considerei com um pouco de desconfiança a parte que fora representada pelo Sr. Alec Cunningham. "Fiz então um exame cuidadoso no pedaço de papel que o inspetor nos tinha mostrado. Logo me pareceu que ele formava parte de um documento muito importante. Aqui está ele. Não notam qualquer coisa muito sugestiva a seu respeito?" — Tem um aspecto muito irregular — observou o coronel.


— Meu caro senhor — exclamou Holmes —, não pode restar a menor dúvida de que foi escrito por duas pessoas formando palavras alternadas. Se lhe chamar a atenção para os tt fortes de "quarto" e meia-noite", e lhe pedir para compará-los com o de "quanta", reconhecerá imediatamente esse fato. Uma breve análise dessas quatro palavras o habilitaria a dizer com a máxima confiança que o "verá" e o "pode ser" também são escritos com mão forte, e o "quanta", com mão mais fraca. — Por Júpiter! É claro como o dia — gritou o coronel. — Por que razão esses dois homens haviam de escrever uma carta desse modo tão estranho? — É evidente que o negócio era sujo, e um dos homens, que desconfiava do outro, estava resolvido, acontecesse o que acontecesse, a que cada um devia ter nele parte igual. Ora, está claro que aquele dos dois homens que escreveu "quarto" e "meia-noite" era o cabeça. — Como chega a essa conclusão? — Poderíamos deduzir isso simplesmente pelas características da letra, comparada com a outra. Mas temos razões mais seguras do que essa. Se examinar este pedaço de papel com atenção, chegará à conclusão de que o homem de mão forte escreveu primeiro todas as suas palavras, deixando os espaços para o outro preencher. Esses espaços nem sempre foram suficientes, e o senhor pode ver que o segundo homem teve pouco espaço para colocar o seu "para a" entre "quarto" e "meia-noite", o que mostra que essas palavras já estavam escritas. O que escreveu todas as palavras primeiro é sem dúvida alguma o que planejou este negócio. — Excelente! — gritou o Sr. Acton. — Mas muito superficial — respondeu Holmes. — Entretanto, chegamos agora ao ponto mais importante. Os senhores talvez não saibam que o cálculo da idade de um homem pela sua caligrafia tem sido levado a considerável exatidão pêlos peritos. Em casos normais, pode-se colocar um homem em sua verdadeira década com suficiente segurança. Digo em casos normais, porque o mau estado de saúde e a fraqueza física apresentam sinais de velhice, mesmo quando o inválido é jovem. Nesse caso, olhandose para a mão forte e ousada de um e para a aparência muito arqueada da do outro, mas que ainda conservava sua legibilidade, embora os tt tenham começado a perder os cortes, podemos dizer que um era jovem e outro, avançado em anos, sem ser positivamente decrépito. — Excelente — exclamou o Sr. Acton outra vez. — Há ainda um ponto, entretanto, que é mais sutil e de maior interesse. Há qualquer coisa em comum nessas duas caligrafias. Elas pertencem a homens que são parentes. Ao senhor pode parecer muito claro nos ss, mas para mim há pontos muito menores que indicam a mesma coisa. Não tenho a menor dúvida de que um maneirismo de família pode ser identificado nesses dois espécimes de caligrafia. É claro que estou dando agora apenas os resultados principais de meu exame do papel. Há vinte e três outras deduções que seriam de mais interesse para os peritos do que para os senhores.


Tudo tendia a enraizar em mim a impressão de que os Cunninghams, pai e filho, escreveram o bilhete. Depois de ir tão longe, eu devia, sem dúvida, entrar nos pormenores do crime e ver até onde poderiam auxiliar-nos. Fui à casa com o inspetor e vi tudo o que se devia ver. O ferimento do morto era, como pude determinar com absoluta segurança, causado por uma bala de revólver atirada a uma distância de menos de quatro metros... Não havia enegrecimento de pólvora na roupa. Claro que Alec Cunningham mentira quando dissera que os dois homens estavam lutando quando soou o tiro. Além disso, pai e filho concordam quanto ao local na estrada onde o homem desapareceu. Acontece, porém, que nesse ponto há uma fossa larga, com lama no fundo. Como não houve indícios de pegadas de botas ao redor dessa fossa, não só fiquei absolutamente certo de que os Cunninghams mentiam outra vez, como ainda de que, de fato, nunca houve esse homem desconhecido em cena. "Então, tinha de imaginar o motivo daquele crime singular. Para chegar a ele, tive de me esforçar primeiro para descobrir a razão do primeiro furto em casa do Sr. Acton. Soube, devido a alguma coisa que o coronel nos contou, que há uma ação judiciária em andamento entre o senhor, Sr. Acton, e os Cunninghams. É claro que logo me ocorreu que eles tinham assaltado sua biblioteca com a intenção de se apossarem de algum documento que podia ser de muita importância no caso." — Exatamente — disse o Sr. Acton. — Não pode haver a menor dúvida possível quanto às suas intenções. Tenho o mais legítimo direito a metade de suas propriedades atuais, e se pudessem descobrir certo papel, que felizmente estava no cofre de meus advogados, teriam invalidado com certeza nossa ação. — Aí está — disse Holmes, sorrindo. — Foi uma tentativa perigosa e temerária, na qual procurei descobrir a influência do jovem Alec. Não tendo descoberto nada, tentaram desviar as suspeitas fazendo com que parecesse um furto comum, e para isso levaram tudo aquilo em que puderam deitar a mão. "Tudo isso está bastante claro, mas havia muita coisa que continuava obscura. O que eu queria, acima de tudo, era conseguir a parte da folha que faltava. Eu estava certo de que Alec a arrancara da mão do morto, e quase certo de que ele a devia ter colocado no bolso do roupão. Em que outro lugar poderia tê-la colocado? A única questão era saber se ainda estaria lá. Valia um esforço investigá-lo. E para esse fim fomos todos à casa. "Os Cunninghams juntaram-se a nós, como sem dúvida se lembram, do lado de fora da porta da cozinha. Era, portanto, da máxima importância que não se lembrassem da existência desse papel, pois logo o destruiriam. O inspetor estava para lhes revelar nosso interesse quando, pela casualidade mais feliz do mundo, sofri uma espécie de ataque, e assim se desviou a conversa." — Valha-me Deus! — exclamou o coronel, sorrindo. — O senhor quer dizer que toda a nossa simpatia foi desperdiçada, e seu ataque era uma impostura! — Falando como profissional, foi admiravelmente realizado — disse eu, olhando com espanto para aquele homem que sempre me confundia com alguma nova faceta da sua astúcia.


— É uma arte muitas vezes útil — disse ele. — Quando me restabeleci, elaborei um plano que talvez tivesse um pouco de ingenuidade, para levar o velho Cunningham a escrever a palavra "meia-noite" a fim de compará-la com a "meia-noite" do papel. — Oh! Que tolo fui eu! — exclamei. — Eu notei que você estava com pena de minha fraqueza — disse Holmes com uma risada. — Fiquei triste por causar essa simpática dor que eu sei que sentia. Então, subimos juntos a escada e, entrando no quarto e vendo o roupão pendurado atrás da porta, pensei em fazer cair a mesa para prender a atenção deles por alguns momentos, enquanto me esgueirava para lhe revistar os bolsos. Entretanto, mal eu tinha conseguido o papel, que estava num dos bolsos, como esperava, quando os Cunninghams caíram sobre mim, e creio verdadeiramente que me teriam assassinado ali, não fora o auxílio pronto e amigo dos senhores. Por assim dizer, ainda sinto a pressão dos dedos do jovem ao redor de minha garganta, e o pai torcendo-me o pulso na ânsia de me arrancar o papel da mão. Viram que eu devia saber tudo a respeito do caso e, como compreendem, a mudança repentina da segurança absoluta para um completo desalento tornou-os inteiramente desesperados. "Depois, falamos um pouco com o velho Cunningham sobre o motivo do crime. Estava bastante tratável. Mas seu filho parecia um perfeito demónio, pronto a fazer saltar seus próprios miolos ou os de qualquer outro se pudesse agarrar um revólver. Quando Cunningham viu que a acusação contra ele era muito grave, perdeu todo o ânimo e fez uma confissão completa de tudo. Parece que William seguiu os dois amos secretamente, na noite em que fizeram o assalto à casa do sr. Acton, e, tendo-os assim em seu poder, ameaçava revelar tudo para explorá-los. Todavia, o Sr. Alec era um homem muito perigoso para um jogo daquela espécie. Foi uma façanha de gênio de sua parte ver no sobressalto do ladrão, que convulsionou toda a região, uma oportunidade para se livrar airosamente do homem que temia. William foi traído e alvejado; e, caso eles se tivessem apossado da carta toda e dessem um pouco mais de atenção aos pormenores, é bem possível que a suspeita nunca se levantasse. — E a carta? Sherlock Holmes juntou os dois papéis diante de nós.

— É exatamente a espécie de coisa que eu esperava — disse-nos. — Certamente, não podemos saber ainda que relações pode ter havido entre Alec Cunningham, William Kirwan e essa Annie Morrison. O resultado, de qualquer modo, mostra que a ratoeira foi habilmente armada. Estou certo de que os senhores não podem deixar de se deleitar com os traços de hereditariedade mostrados no p e no g. A ausência dos pingos nos ii, na letra do velho, também é característica. Watson, creio que nosso tranqüilo descanso no campo foi um verdadeiro triunfo, e certamente voltarei muito mais revigorado à Baker Street amanhã.


Arthur Conan Doyle 7- O corcunda Título original: The Crooked Man Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1893. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Crooked Man publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Numa noite de verão, alguns meses depois de meu casamento, eu estava sentado perto da lareira, fumando a última cachimbada e cabeceando sobre um romance, porque tivera um dia de trabalho exaustivo. Minha mulher já subira, e o som da fechadura da porta do bali, um pouco antes, dizia-me que as criadas também já se haviam retirado. Levantara-me da cadeira e sacudia a cinza do cachimbo quando de repente ouvi o toque da campainha. Olhei para o relógio. Faltava um quarto para a meia-noite. Não podia ser uma visita àquela hora. Era, evidentemente, um doente, e achei que teria de passar a noite trabalhando. Dirigi-me ao hall, mal-humorado, e abri a porta. Para meu espanto, era Sherlock Holmes que estava no degrau da porta. — Ah! Watson — disse ele —, receava que fosse tarde demais para encontrá-lo. — Meu caro amigo, entre, por favor. — Parece surpreso, e não admira! E aliviado, também, calculo! Hum! Continua a fumar a mistura Arcádia dos seus dias de solteiro. É impossível confundi-la, com essa cinza leve que tem no casaco. Evidentemente, Watson, você está habituado a usar uniforme, mas nunca passará por um civil de puro-sangue enquanto conservar o hábito de meter o lenço na manga. Poderia alojar-me esta noite?

— Com prazer. — Disse-me que tinha quarto de solteiro para um. E vejo que de momento não tem nenhuma visita importante. O bengaleiro prova-o. — Terei grande prazer se ficar. — Muito obrigado. Então me alojarei em qualquer parte. Entristece-me ver que precisou de um operário em casa. Está um cheiro dos demônios; não é o esgoto que está com problemas, espero.


— Não, é o gás. — Ah, ele deixou duas pequenas marcas de suas botas no linóleo, precisamente onde bate a luz. Não, obrigado, já ceei em Waterloo [1], mas fumarei uma cachimbada com você com todo o prazer. Passei-lhe minha tabaqueira, e ele, sentando-se à minha frente, fumou por algum tempo em silêncio. Eu estava convencido de que só um assunto importante o traria a minha casa a tal hora, de modo que esperei com paciência que se explicasse. — Vejo que está profissionalmente muito ocupado — disse-me, olhando muito vivamente para mim. — Sim, tive um dia cheio — respondi. — Pode parecer muito tolo a seus olhos — acrescentei —, mas não sei como o deduziu. Holmes riu e disse: — Tenho a vantagem de conhecer seus hábitos, meu caro Watson. Quando realiza poucas visitas, você vai a pé, e quando são muitas, utiliza um carro. Pelo que vejo, suas boinas, embora usadas, não estão sujas. Não posso duvidar, pois, de que hoje você esteve bastante atarefado para justificar o uso de um coche. — Excelente — disse eu. — Elementar — respondeu. — É um desses exemplos pelo qual o raciocinador pode produzir um efeito que parece notável a seu amigo, porque este passou por alto um pormenor que é a base da dedução. Pode-se dizer o mesmo, meu caro, do efeito de alguns desses seus pequenos esboços, que é inteiramente enganoso, pois consiste em reter nas próprias mãos alguns aspectos do problema que nunca se transmitem ao leitor. Ora, neste momento estou na posição dos leitores, porque tenho aqui diversos elementos de um dos casos mais estranhos que já deixaram perplexo o cérebro do homem; todavia, faltam-me um ou dois pontos necessários ao complemento de minha teoria. Mas hei de descobri-los, Watson, hei de descobri-los! — Seus olhos inflamaram-se, e um leve rubor coloriu-lhe a face. Por um instante, o véu daquela natureza tensa e apaixonada fora levantado, mas por um instante apenas. Quando o olhei outra vez pelo canto dos olhos, seu rosto já readquirira aquela compostura impassível de pele-vermelha que levara tantos a considerá-lo mais como máquina do que como homem. — O problema apresenta características de interesse — disse ele. — Posso até dizer que de excepcional interesse. Considerei a matéria e quase cheguei, segundo penso, a uma solução. Se me pudesse acompanhar neste último passo, isso me seria de considerável valor. — Com todo o prazer. — Poderia ir até Aldershot amanhã? — Não tenho dúvida de que Jackson se encarregará de meus clientes.


— Eu queria partir de Waterloo às onze e dez. — Terei tempo suficiente. — Então, se não estiver com muito sono, eu lhe farei um esboço do que aconteceu e do que resta a fazer. — Estava com sono antes de você chegar. Agora estou perfeitamente desperto. — Resumirei a história até onde for possível, sem omitir nada de vital ao caso. É provável que tenha lido alguma narrativa do assunto. Trata-se do suposto assassínio do coronel Barclay, do Royal Mallows, em Aldershot. — Não sei de nada. — Não atraiu grande atenção, exceto no local. Os acontecimentos ocorreram há apenas dois dias. Em resumo, são os seguintes: "O Royal Mallows, como sabe, é um dos mais famosos regimentos irlandeses do exército britânico. Fez maravilhas tanto na Criméia como durante o Mutiny [2], e tem se distinguido desde esse tempo em todas as ocasiões possíveis. Até segunda-feira à noite, foi comandado por James Barclay, um valoroso veterano, que começou como soldado raso, foi elevado à classe de oficiais pela sua bravura no tempo do Mutiny, e viveu então para comandar o regimento no qual servira como soldado. "O coronel Barclay casou-se quando era sargento. Sua esposa, cujo nome de solteira era Nancy Devoy, era filha de um antigo sargento porta-bandeira. Houve, portanto, um leve atrito social quando o jovem par (porque eles eram ainda jovens) se encontrou no novo ambiente. Parece, no entanto, que se adaptaram rapidamente. A Sra. Barclay sempre foi, segundo me disseram, tão popular entre as senhoras do regimento como seu marido entre seus irmãos de armas. Posso acrescentar que era uma mulher de grande beleza, e mesmo agora, depois de trinta e tantos anos de casada, é ainda de aparência atraente. "A vida familiar do coronel Barclay parece ter sido uniformemente feliz. O major Murphy, a quem devo a maioria destas informações, assegura-me que nunca ouviu falar de nenhuma desavença entre o casal. Em resumo, ele acha que a devoção de Barclay pela esposa era maior do que a da esposa para com Barclay. Ficava terrivelmente inquieto se se separasse dela por um dia. Ela, pelo contrário, posto que dedicada e fiel, era menos claramente afeiçoada. Mas eram considerados no regimento como verdadeiro modelo de um casal de meia-idade. Não havia absolutamente nada nas suas relações mútuas que os preparasse para a tragédia que devia seguir-se. "O próprio coronel Barclay parecia ter rasgos singulares de caráter. Era um velho soldado, habitualmente jovial e impetuoso. Mas havia ocasiões em que parecia mostrarse consideravelmente violento e vingativo. Todavia, essa faceta de sua natureza parece nunca se ter voltado contra sua esposa. Outro fato que chocou o major Murphy, e três dos outros cinco oficiais com quem conversei, era uma espécie de estranha depressão que o atacava às vezes. Como disse o major, o sorriso muitas vezes morria-lhe nos lábios, como se mão invisível o arrancasse, quando participava das alegrias e


brincadeiras da mesa comum do quartel. Por dias a fio, mergulhava na mais profunda tristeza, acometido por essa crise. Isso e um certo laivo de superstição eram os únicos traços invulgares de caráter que seus irmãos de armas observaram. A última peculiaridade consistia em não gostar de ficar sozinho, especialmente depois do escurecer. Essa característica pueril, numa natureza conspicuamente varonil, dera muitas vezes azo a comentários e conjeturas. "O primeiro batalhão do Royal Mallows (que é o antigo 117.°) instalou-se em Aldershot por alguns anos. Os oficiais casados moravam fora do quartel, e o coronel ocupou sempre um chalé chamado Lachine, a cerca de oitocentos metros do North Camp. A casa está edificada em terreno próprio, mas o lado oeste não dista mais de trinta metros da estrada. Um cocheiro e duas criadas formam o corpo de empregados. Estes, com o patrão e a patroa, eram os únicos ocupantes de Lachine, porque os Barclays não tinham filhos e não costumavam abrigar visitantes permanentes. "Passemos aos acontecimentos em Lachine, entre as vinte e uma e as vinte e duas horas de segunda-feira passada. "A sra. Barclay era membro da Igreja Católica Romana. Interessava-se muito pelo estabelecimento da Guilda de São Jorge, que se formara em conexão com a capela da Watt Street a fim de fornecer roupas usadas aos pobres. Estava marcada uma reunião da Guilda para as vinte horas daquela noite, e a Sra. Barclay apressou o jantar para estar presente. Ao sair de casa, o cocheiro ouviu-a dirigir observações triviais ao marido, assegurando-lhe que estaria de volta dentro de pouco tempo. Foi então buscar a Srta. Morrison, uma jovem que mora na casa próxima, e as duas foram juntas à reunião. Durou quarenta minutos, e às vinte e uma e quinze a Sra. Barclay voltou para casa, deixando, ao passar, a Srta. Morrison à porta de casa. "Há um cômodo que é usado como sala matinal em Lachine. Dá de frente para a estrada e abre, por meio de uma porta dobradiça de vidro, para o relvado. Este tem vinte e sete metros de lado a lado, e está separado da estrada apenas por um muro baixo, com grade de ferro. Foi nessa sala que a Sra. Barclay entrou quando regressou. As cortinas não estavam corridas, porque a sala raramente é utilizada à noite. A Sra. Barclay acendeu o candeeiro e tocou a campainha, pedindo a Jane Stewart, a caseira, que lhe trouxesse uma chávena de chá, o que era inteiramente contrário a seus hábitos. O coronel se sentara na sala de jantar, mas, ouvindo sua esposa chegar, juntou-se a ela na sala matinal. O cocheiro viu-o atravessar o hall e entrar na sala. E nunca mais ele foi visto com vida.

"O chá que a Sra. Barclay pedira foi-lhe trazido ao fim de dez minutos. Mas a criada, ao aproximar-se da porta, ficou surpresa por ouvir as vozes do patrão e da patroa em furiosa altercação. Bateu sem receber resposta e, girando a maçaneta, verificou que a porta estava trancada por dentro. Naturalmente, correu a informar a cozinheira, e as duas mulheres, com o cocheiro, subiram ao hall e ouviram a discussão que ainda perdurava. Todos estão de acordo em que somente duas vozes se ouviam, a de Barclay e a da esposa. As observações do coronel eram contidas e abruptas, de modo que não eram audíveis. As da senhora, pelo contrário, eram muito ásperas e, quando levantara a


voz, ouviu-se claramente: 'Covarde!' Ela repetia constantemente: 'O que se pode fazer agora? Devolva minha vida! Nunca respirarei o mesmo ar que você respira! Covarde! Covarde!' Eram essas algumas de suas frases, que terminaram num grito de homem, terrível e angustioso, seguido do estrépito de uma queda e do grito cortante da mulher. Convencido de que ocorrera uma tragédia, o cocheiro abalou-se para a porta e tentou forçá-la, enquanto continuavam a vir gritos de dentro. Entretanto, não conseguiu entrar, e as criadas estavam tão aturdidas com o susto que em nada podiam ajudar. Veio-lhe, no entanto, um pensamento súbito, correu pela porta do hall e rodeou o relvado para onde davam as grandes janelas francesas. Um lado da janela estava aberto, o que lhe pareceu natural na época do verão, e ele entrou sem dificuldade na sala. Sua patroa cessara de gritar e estava estendida, sem sentidos, num canapé. Entrementes, com os pés de viés sobre o lado de uma poltrona e a cabeça no chão perto do canto da lareira, jazia o infortunado soldado, bem morto, numa poça de sangue. "Como é natural, a primeira idéia do cocheiro, ao descobrir que não podia fazer nada pelo amo, foi abrir a porta. Mas aqui uma dificuldade inesperada e singular se apresentou. A chave não estava do lado de dentro da porta, nem pôde encontrá-la em parte alguma da sala. Saiu outra vez, então, pela janela; obtendo o concurso de um policial e de um médico, voltou. A senhora, contra quem naturalmente recai a mais forte suspeita, foi transportada para seu quarto, ainda em estado de inconsciência. O corpo do coronel foi colocado no sofá, e fe2-se um exame cuidadoso do cenário da tragédia. "O ferimento do pobre veterano era um corte profundo com cerca de cinco centímetros de comprimento na parte posterior da cabeça, causado por violenta pancada de uma arma não-cortante. Não era difícil adivinhar qual teria sido essa ferramenta. No soalho, perto do corpo, estava um estranho bastão, de madeira dura, com um cabo de osso. O coronel possuía uma variada coleção de armas trazidas de diferentes países onde estivera a serviço, e a polícia calcula que aquela bengala fazia parte de seus troféus. Os criados, porém, negaram tê-la visto antes, mas entre as numerosas curiosidades da casa é possível que pudesse passar despercebida. Nada mais de importância foi encontrado na sala pela polícia, mas resta o fato inexplicável de que, nem em posse da Sra. Barclay, nem no corpo da vítima, nem em qualquer outra parte da sala, se encontrou a chave que faltava. A porta foi aberta pelo ferreiro de Aldershot. "Era este o estado de coisas, Watson, quando na manhã de terça-feira, a pedido do major Murphy, desci a Aldershot para auxiliar nos trabalhos da polícia. Creio que reconhecerá que o problema era interessante, mas minhas observações logo me fizeram verificar que era, na verdade, muito mais extraordinário do que parecera à primeira vista. "Antes de examinar a sala interroguei os criados, mas só consegui extrair os fatos que já conhecia. Outro pormenor de interesse foi lembrado por Jane Stewart, a caseira. Você deve recordar-se de que, ao ouvir o clamor da discussão, ela desceu e voltou com as outras criadas. Ela disse que, na primeira ocasião, enquanto estava só, as vozes do patrão e da patroa eram tão baixas que não podia ouvir coisa alguma, e julgou, mais pelo tom do que pelas palavras, que estivessem discutindo. Entretanto, depois de eu insistir, lembrou-se de ter ouvido a palavra 'David' pronunciada duas vezes pela senhora. O detalhe é de máxima importância para nos conduzir ao motivo da discussão repentina. O nome do coronel, como se lembra, era James.


"Uma coisa causou a mais profunda impressão, tanto nos criados como na polícia. Foi a contorção do rosto do coronel. Apresentava, de acordo com a narrativa deles, a expressão mais terrível de medo e horror que o semblante humano pode assumir. À vista dele, mais de uma pessoa desfaleceu, tão horrível era o efeito. Estava completamente fora de dúvida que ele previra seu destino e isso lhe causara o mais extremo horror. Certamente, isso se adapta bem à teoria da polícia, de que o coronel poderia ter visto sua esposa preparando-se para assassiná-lo. O fato de o ferimento ser na parte posterior da cabeça não é uma objeção absoluta contra essa hipótese, pois o coronel podia ter se virado para evitar o golpe. Nada se pôde arrancar da própria senhora, que ficou temporariamente insana com um agudo ataque de encefalite. "Pela polícia fiquei sabendo que a Srta. Morrison, a qual, como se lembra, saíra naquela noite com a Sra. Barclay, negou ter qualquer conhecimento do que motivara o mau humor com que sua companheira voltara para casa. "Depois de resumir esses fatos, Watson, fumei diversas cachimbadas, tentando separar os elementos essenciais dos incidentais. Não podia haver dúvida de que o ponto mais importante e sugestivo do caso era o desaparecimento singular da chave da porta. A mais rigorosa busca para descobri-la na sala não deu resultado. Portanto, alguém deve tê-la tirado de lá. Mas nem o coronel nem sua esposa poderiam tê-lo feito. Isso era perfeitamente claro. Nesse caso, devia ter entrado uma terceira pessoa na sala. E essa terceira pessoa só podia tê-lo feito pela janela. Parecia-me que um exame cuidadoso da sala e do jardim poderia revelar vestígios do misterioso indivíduo. Você já conhece meus métodos, Watson. Não houve nenhum que eu não aplicasse ao inquérito. Terminei por descobrir vestígios, mas muito diferentes daqueles que eu esperava. Na sala estivera um homem que tinha atravessado o relvado, vindo da estrada. Pude obter cinco impressões muito nítidas das marcas de seus pés — uma na própria estrada, no lugar onde pulou o muro baixo, duas no jardim e duas muito apagadas no soalho manchado, perto da janela por onde ele entrou. Aparentemente, saíra correndo pelo jardim, porque as marcas dos dedos eram mais profundas do que as do calcanhar. Mas não foi o homem que me surpreendeu. Foi seu companheiro." — Seu companheiro! Holmes tirou do bolso uma grande folha de papel de seda e desdobrou-a com cuidado em cima do joelho. — O que você deduziria disso? — perguntou. O papel estava coberto pelas marcas de pés de um animalzinho. Tinha cinco rastros bem marcados, indicação de unhas compridas, e a marca de cada pé tinha quase o tamanho de uma colher de sobremesa. — Parecem de cão — respondi. — Já ouviu falar de cães subindo pelas persianas? Encontrei provas inconfundíveis de que essa criatura o fez. — Um macaco, então?


— Mas não são as pegadas de um macaco. — O que poderá ser, então? — Nem cão, nem gato, nem macaco, nem qualquer animal com que estejamos familiarizados. Tentei descobrir pelas medidas. Aqui estão quatro impressões do local onde o animal ficou imóvel. Pode-se ver que não há menos de quarenta centímetros da pata dianteira à traseira. Acrescente a isso o comprimento do pescoço e da cabeça, e você terá um animal não muito menor que sessenta centímetros de comprimento — provavelmente mais, se tiver rabo. Mas observe agora esta outra medida. O animal estava em movimento, e temos o comprimento de suas passadas. Em cada caso, é apenas de sete centímetros e meio. Tem-se assim a indicação de um corpo comprido com pernas muito curtas. Não fez a fineza de nos presentear com alguns pêlos. Mas sua forma geral deve ser a que indiquei, consegue subir pelas persianas e é carnívoro. — Como sabe? — Porque, com efeito, subiu à persiana. Havia uma gaiola com um canário pendurada à janela; ora, agarrar o pássaro parece ter sido seu objetivo. — Então que animal era? — Ah! Se eu lhe pudesse dar um nome, podia ter ido muito longe na solução do caso. Em resumo, era uma criatura da raça da doninha ou do arminho... todavia, é maior que qualquer desses. — Mas o que teria a ver com o crime? — Isto também está obscuro. Mas descobrimos bastantes coisas, como vê. Sabemos que um homem esteve parado na estrada, observando a discussão entre os Barclays; as cortinas estavam abertas, e a sala, iluminada. Sabemos também que ele correu pelo relvado e entrou na sala, acompanhado por um animal estranho. E atacou o coronel ou, o que é igualmente possível, o coronel, à vista dele, sobressaltou-se e caiu, partindo a cabeça numa quina da lareira. Finalmente, temos o fato curioso de o intruso levar a chave, quando fugiu. — Suas descobertas parecem ter tornado o assunto mais obscuro do que a princípio — disse eu. — Isso mesmo. Indubitavelmente, mostraram que a questão é muito mais profunda do que de início se supôs. Analisei tudo e cheguei à conclusão de que tinha de investigar o caso por outro prisma. Mas na realidade, Watson, estou mantendo-o acordado e poderia dizer-lhe tudo isso amanhã em nossa viagem para Aldershot. — Muito obrigado; foi longe demais para parar. — Estamos perfeitamente certos de que quando a sra. Barclay saiu de casa, às dezenove e trinta, estava em paz com o esposo. Ela nunca foi, como disse, ostensivamente afeiçoada, mas o cocheiro ouviu-a conversar com o coronel de modo amigável. Ora, é igualmente certo que, imediatamente depois de sua chegada, foi para a sala, onde era


menos provável encontrar o marido, pediu chá, como faz uma mulher que está nervosa, e finalmente, com a entrada do marido, irrompeu em recriminações violentas. Portanto, ocorrera qualquer coisa entre as dezenove e trinta e as vinte e uma horas que alterou por completo seus sentimentos para com ele. Porém, a Srta. Morrison estivera com ela durante aquela hora e meia. É absolutamente certo, portanto, que, a despeito de sua negativa, devia saber alguma coisa do assunto. "Minha primeira hipótese foi que teria havido relações entre essa jovem e o velho soldado, e esta as teria confessado à esposa. Isso explicaria a reação colérica desta, e também a negativa da jovem a respeito de tudo o que ocorrera. Nem seria inteiramente incompatível com a maioria das palavras ouvidas. Mas havia aquela referência a David, e havia a reconhecida afeição do coronel pela mulher a pesar contra ela, para não falar na intrusão dramática desse outro homem que podia, por certo, ser inteiramente alheio ao que antes ocorrera. Não me era fácil imaginar os fatos. Em resumo, estava inclinado a pôr de lado a idéia de ter havido alguma coisa entre o coronel e a Srta. Morrison. Porém, estava mais que nunca convencido de que a jovem possuía o segredo que levara a Sra. Barclay a odiar seu marido. Resolvi, portanto, chamar a Srta. Morrison, explicarlhe que estava perfeitamente certo de que ela conhecia os fatos, e assegurar-lhe que sua amiga, a Sra. Barclay, podia vir a encontrar-se no banco dos réus sob uma acusação capital, se o assunto não se esclarecesse. "A Srta. Morrison é uma pequena, etérea migalha de gente, de olhos tímidos e cabelos louros, mas achei que não lhe faltavam, de modo nenhum, perspicácia e bom senso. Pensou durante algum tempo depois do que eu disse, e então, voltando-se para mim com um ar decidido, rompeu num notável depoimento, que resumirei para você. "— Prometi à minha amiga nada revelar do assunto, e promessas são promessas — disse ela. — Mas, se puder auxiliá-la, quando tão séria acusação se faz contra ela, e quando sua própria boca, pobre querida, está fechada pela doença, penso que estarei livre de minha promessa. Eu lhe direi exatamente o que aconteceu na noite da segundafeira.

"Voltávamos da capela Watt Street, às quinze para as nove, aproximadamente. Tínhamos de passar pela Hudson Street, que é uma viela muito deserta. Tem apenas um candeeiro do lado esquerdo e, quando nos aproximamos dele, vi um homem que vinha em nossa direção, com as costas muito curvadas e qualquer coisa que parecia uma caixa pendurada ao ombro. Parecia deformado, porque mantinha a cabeça baixa, e andava com os joelhos dobrados. Passávamos por ele quando ergueu o rosto para nós, no círculo de luz projetado pelo candeeiro. Ao fazê-lo, parou e gritou com uma voz medonha: — Meu Deus, é Nancy! A sra. Barciay ficou branca como a morte, e teria caído se não fosse amparada por aquela criatura de aspecto pavoroso. Eu ia chamar a polícia, mas ela, para minha surpresa, falou muito amavelmente para o sujeito: "— Pensei que você estivesse morto durante esses trinta anos, Henry — disse ela, numa voz vacilante. "— Assim é — disse ele, e era terrível o timbre de voz em que o dizia. Tinha um rosto


muito escuro, pavoroso, e um brilho nos olhos que me volta em sonhos. Seus cabelos e sua barba começavam a ficar grisalhos. A face era toda enrugada e cheia de pregas, como uma massa emurchecida. "— Pode seguir sozinha alguns passos, querida — disse a Sra. Barclay. — Quero ter uma palavra com este homem. Não há nada a recear. — Tentou falar com naturalidade, mas continuava mortalmente pálida e mal podia falar, devido ao tremor de seus lábios. "Fiz como me pediu, e eles caminharam juntos por alguns minutos. Então, ela voltou com os olhos em brasa. E vi o inválido destroço de pé, junto do candeeiro, com o punho erguido, como se estivesse louco de raiva. Ela não disse mais nada até chegar à porta, e então tomou-me pela mão e pediu-me para não dizer nada a ninguém sobre o que acontecera. — Ele é uma velha amizade que desceu na escala social — disse ela. Quando lhe prometi que nada diria, beijou-me, e desde então nunca mais a vi. Eu agora disse toda a verdade, e se a ocultei da polícia foi porque não avaliara ainda o perigo a que minha querida amiga se expunha. Sei que só lhe trará vantagem que tudo seja conhecido.' "Eis seu relato, Watson, que foi para mim, como deve imaginar, como uma luz numa noite escura. Tudo o que antes estava desconexo começou a assumir seu verdadeiro lugar, e eu tinha um pressentimento sombrio de toda a seqüência dos acontecimentos. Como é natural, minha diligência seguinte foi descobrir o homem que produzira tão extraordinária impressão na Sra. Barciay. Se ele estivesse ainda em Aldershot, não seria assim tão difícil. Não há lá número muito grande de civis, e é evidente que um homem deformado teria atraído atenção. Perdi um dia averiguando, e à noite, esta mesma noite, Watson, descobri-o. O nome do homem é Henry Wood, e mora nos alojamentos da mesma rua onde as mulheres o encontraram. Está apenas há cinco dias na região. Quanto a informações, tive uma conversa muito interessante com sua hospedeira. O homem é mágico e ator por ofício, e anda pelas cantinas, ao cair da noite, dando pequenos espetáculos em cada uma delas. Leva com ele certo animal numa caixa, acerca do qual a hospedeira parecia consideravelmente perturbada, porque nunca vira bicho semelhante. Ele o emprega em alguns de seus truques, segundo o que ela afirma. Foi tudo o que me pôde dizer, e também acrescentou que era um milagre o homem suportar sua deformidade, e que às vezes falava numa língua estranha; nas últimas duas noites, ela o ouvira gemer e chorar na cama. Quanto a dinheiro, parece se arranjar, mas como depósito havia lhe dado o que a ela parecia um florim falso. Ela o mostrou a mim, Watson, e era uma rupia indiana. "E agora, meu caro, já sabe tudo e sabe o que quero. É evidente que, depois que as senhoras partiram, esse homem as seguiu à distância, presenciou a discussão entre o marido e a mulher pela janela, precipitou-se para dentro, e o animal que levava na caixa se soltou. Tudo isso é ponto pacífico. Mas ele é a única pessoa no mundo que pode dizer exatamente o que se passou naquela pequena sala." — E você pretende perguntar-lhe? — Claro... mas na presença de uma testemunha. — E eu serei a testemunha?


— Se você quiser ter a bondade. Se ele esclarecer o assunto, muito bem. Se se recusar, não há outra alternativa senão solicitar uma ordem de prisão. — Mas como sabe que ele ainda estará lá quando voltarmos? — Pode estar certo de que tomei certas precauções. Um de meus rapazes da Baker Street o está vigiando, e o seguirá como um cão, vá para onde for. Nós o encontraremos amanhã na Hudson Street, Watson; e agora o criminoso seria eu, se o conservasse por mais alguns minutos fora da cama.

Era meio-dia quando nos encontramos na casa onde ocorrera a tragédia e, sob a liderança do meu companheiro, seguimos imediatamente para a Hudson Street. A despeito de sua capacidade para ocultar as emoções, pude facilmente perceber que Holmes estava numa excitação reprimida, enquanto eu próprio sentia o nervosismo de um prazer meio cômico, meio intelectual, que invariavelmente experimentava quando me associava às suas investigações. — Esta é a rua — disse ele quando entramos numa viela curta, ladeada por casas de tijolos simples, de dois andares. — Ah, aí vem Simpson para nos informar. — Ele está em casa, com certeza, Sr. Holmes — bradou um árabe de pequena estatura, que veio correndo ao nosso encontro.

— Muito bem, Simpson! — disse Holmes, batendo-lhe de leve na cabeça. — Venha, Watson, é esta a casa. — E mandou seu cartão com um recado, dizendo que viera para tratar de um negócio importante; um momento depois, estávamos em frente do homem que tínhamos vindo ver. A despeito do calor, ele estava enrolado perto do fogo, e o quartinho parecia um forno. O homem estava encolhido em posição pouco natural na cadeira, de maneira que me deu uma indescritível impressão de deformidade. Mas o rosto que voltou para nós, embora trigueiro e tisnado, devia ter sido, noutra época, notável pela beleza. Agora, olhava para nós com olhos amarelos de bílis, e, sem falar ou levantar-se, indicou duas cadeiras. — Sr. Henry Wood, recém-chegado da Índia, creio eu? — disse Holmes com afabilidade. — Venho por causa da morte do coronel Barclay. — O que acha que eu sei a esse respeito? — É o que precisamos verificar. Deve saber, suponho, que, a menos que a coisa seja esclarecida, a Sra. Barclay, sua amiga, será com toda a probabilidade julgada por homicídio. O homem levou um susto violento.


— Não sei quem é o senhor — exclamou ele —, nem como veio a saber o que sabe. Mas é capaz de jurar que é verdade o que está me dizendo? — Ora essa, estão apenas à espera de que ela recupere os sentidos para prendê-la. — Meu Deus! O senhor é da polícia? — Não. — Qual é então sua profissão? — A tarefa de todo homem é zelar pela justiça. — Pode crer na minha palavra de que ela está inocente. — Então o senhor é culpado? — Não, eu, não. — Quem matou, então, o coronel Barclay? — Foi a providência que o matou. Mas saiba que, se lhe tivesse rebentado os miolos, como desejava, ele não teria tido mais do que o que merecia. Se sua própria consciência culpada não o matasse, é muito provável que seu sangue escorresse sobre minha alma. Quer que lhe conte minha história? Não vejo motivo para não contá-la, porque não tenho por que me envergonhar dela. "Foi assim. O senhor vê-me agora com costas de camelo e com todas as costelas retorcidas. Houve tempo, porém, em que o cabo Henry Wood era o homem mais belo do 117.° Regimento de Infantaria. Estávamos na Índia, acampados num lugar a que chamaremos Bhurtee. Barclay, que morreu outro dia, era sargento da mesma companhia que eu. E a beldade do regimento, sim, a mais linda moça que jamais existiu, era Nancy Devoy, filha do sargento porta-bandeira. Havia dois homens que a amavam, e apenas um que ela amava. Olhando para esta pobre criatura à sua frente o senhor certamente rirá ao ouvir-me dizer que era por causa de minha bela aparência que ela me amava. "Ora, embora ela me amasse, seu pai estava resolvido a casá-la com Barclay. Eu era um rapaz estouvado e temerário, e ele recebera educação e já estava destinado a uma bela carreira. Mas a jovem se mantinha fiel a mim e parecia que eu viria a possuí-la, quando rebentou o Mutiny, e todo o país ficou alvoroçado. "Ficamos cercados em Bhurtee, a sede de nosso regimento, com a metade de uma bateria de artilharia, uma companhia de siques, e uma porção de civis e mulheres. Em torno de nós havia dez mil rebeldes, e estavam tão ativos como uma trela de cães terriers ao redor de uma gaiola de ratos. Cerca de uma semana depois, a água acabou-se, e restava saber se poderíamos comunicar-nos com a coluna do general Neill, que se dirigia para a região. Era nossa única possibilidade, porque não podíamos lutar levando atrás mulheres e crianças. De modo que me apresentei como voluntário para ir avisar o general Neill do perigo que corríamos. Meu oficial aceitou, e falei com o sargento Barclay, considerado o melhor conhecedor do terreno, que traçou a rota pela qual eu


podia atravessar as linhas rebeldes. Às dez horas da mesma noite, saí para cumprir minha missão. Havia dez mil vidas a salvar, mas era a de uma só pessoa que me ocupava o pensamento quando saltei o muro naquela noite.

"Meu caminho seguia o leito de um rio seco, que, assim esperávamos, me ocultaria das sentinelas inimigas. Quando completei de rastos a curva desse rio, dei de frente com seis delas, agachadas na escuridão, esperando por mim. Logo fiquei atordoado com uma pancada, e amarraram meus pés e minhas mãos. Mas o golpe verdadeiro foi no coração, e não na cabeça. Pois, quando recuperei os sentidos e já estava em estado de entender as palavras das sentinelas, ouvi o suficiente para me certificar de que meu camarada, o mesmo homem que traçara o itinerário que eu devia seguir, me traíra por intermédio de um servo nativo, entregando-me nas mãos do inimigo. "Não há necessidade de me demorar nessa parte. Os senhores agora sabem do que James Barclay era capaz. Bhurtee foi libertada no dia seguinte por Neill, mas os rebeldes levaram-me com eles em sua retirada, e só depois de muitos anos passados é que eu vi de novo um rosto branco. Fui torturado e, ao tentar fugir, fui capturado e torturado outra vez. Os senhores podem ver a que estado fiquei reduzido. Alguns que fugiram para o Nepal levaram-me com eles, e então fui transferido para Darjeeling. Os montanheses de lá mataram os rebeldes que me levaram, e tornei-me escravo deles por algum tempo, até que escapei. Mas, em vez de ir para o sul, tive de ir para o norte até me encontrar no Afeganistão. Ali andei errando cerca de um ano, e por fim voltei a Punjab, onde vivi a maior parte do tempo entre os nativos e passei a ganhar a vida com apresentações de mágicas que aprendera. De que valia a um náufrago aleijado voltar à Inglaterra e fazer-se reconhecer pêlos velhos camaradas? Nem mesmo meu desejo de vingança me levaria a fazê-lo. Preferia que Nancy e os meus antigos amigos pensassem em Henry Wood como alguém que morreu com as costas direitas, e não terem diante de si um homem arrastando uma bengala como um chimpanzé. Nunca duvidaram de que eu estava morto, e eu queria que nunca duvidassem. Ouvi dizer que Barclay se casara com Nancy e subia rapidamente no regimento, mas nem isso me fez falar. "Mas quando se envelhece, tem-se saudades da pátria. Levei anos a sonhar com os brilhantes campos verdes e com as sebes da Inglaterra. Havia economizado o bastante para fazer a viagem, e então vim para cá, onde estão os soldados, porque conheço seus costumes e sei diverti-los, e assim posso ganhar o bastante para me manter." — Sua narrativa é muitíssimo interessante — disse Sherlock Holmes. — Já ouvi falar em seu encontro com a Sra. Barclay e do mútuo reconhecimento. O senhor então, segundo fui informado, seguiu-a até sua casa e assistiu pela janela a uma discussão entre os dois, na qual ela lhe lançou em rosto sua conduta. Seus sentimentos venceram-no, o senhor correu através do jardim e precipitou-se para dentro. — É isso mesmo, senhor. Mas, ao ver-me, ele me lançou um olhar que eu dantes nunca vira em homem algum, e caiu com a cabeça sobre a lareira da sala. Já estava morto antes de cair. Li a morte em seu rosto, tão claramente como posso ler esse texto à luz do fogo. Minha simples presença foi como se uma bala lhe atravessasse o coração culpado.


— E então? — Então, Nancy desmaiou e eu lhe tirei da mão a chave, com a intenção de abrir a porta e ir em busca de auxílio. Quando o fazia, pareceu-me melhor deixá-la sozinha e fugir, porque a coisa podia ficar preta para mim e meu segredo se desvendaria se eu fosse preso. Com a pressa, meti a chave no bolso e deixei cair a bengala enquanto procurava Teddy, que galgara uma persiana. Quando o meti na caixa, de onde ele se esgueirara, fugi, correndo tão depressa quanto me era possível. — Quem é Teddy? — perguntou Holmes. O homem se curvou e puxou para fora uma espécie de coelheira que estava no canto. Num instante, saiu de lá uma bonita criatura castanho-avermelhada, frágil e flexível, com as pernas de arminho, nariz fino e comprido, e um par dos olhos mais delicados que jamais vi na cabeça de um animal. — É um mangusto! — exclamei. — Há quem lhe chame assim, e outros chamam-lhe icnêumon — disse o homem. — Caça-cobras é como eu lhe chamo, e Teddy é de uma rapidez admirável para apanhar serpentes. Tenho aqui uma sem as presas, e Teddy a caça toda noite para divertir o pessoal da cantina. Mais alguma coisa, senhor? — Bem, talvez o procuremos novamente se a Sra. Barclay ficar em dificuldades. — Nesse caso, eu sem dúvida me apresentarei. — Não havendo mais nada, não há utilidade em se levantar tal escândalo contra um morto, embora tenha agido maldosamente, como agiu. O senhor tem pelo menos a satisfação de saber que durante trinta anos de sua vida a consciência de Barclay o atormentou. Ah, lá vai o major Murphy do outro lado da rua. Adeus, Wood; quero saber se aconteceu alguma coisa de ontem para cá. Tivemos tempo de alcançar o major antes de chegar à esquina. — Ah, Holmes — disse ele. — Creio que você já soube que todo esse rebuliço deu em nada. — O que houve? — O inquérito terminou agora mesmo. A observação médica provou que a morte foi devido a uma apoplexia. Como vê, o caso afinal foi muito simples. — Oh, absolutamente superficial — disse Holmes, sorrindo. — Venha, Watson, já não me parece que sejamos necessários em Aldershot. — Há uma coisa — disse eu, quando descíamos para a estação: — Se o nome do marido era James, e o do outro, Henry, por que a palavra David?


— Só essa palavra, caro Watson, teria me desvendado toda a história, caso eu fosse o raciocinador ideal que você está ávido por descrever. Era evidentemente um termo de censura. — De censura? — Exatamente. Ora, David, como deve saber, tomava às vezes atitudes semelhantes às do sargento Barclay. Lembra-se do pequeno incidente de Urias e Betsabé? Meu conhecimento bíblico está um pouco enferrujado, receio, mas pode encontrar a história em Samuel, I ou II.

[1] Estação de trem, em Londres. (N. do T.) [2] Revolta dos indianos contra os ingleses. (N. do T.)

Arthur Conan Doyle 8- O paciente internado Título original: The Resident Patient Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1904. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Resident Patient publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Ao passar os olhos sobre as memórias um tanto incoerentes com que me esforcei por ilustrar algumas das peculiaridades mentais de meu amigo Sherlock Holmes, impressionei-me com a dificuldade que tenho experimentado, colher exemplos que correspondam sob todos os aspectos a meu propósito. Nos casos em que Holmes realizou um tour de force [1] de raciocínio analítico, mostrando o valor de seus métodos singulares de investigação, os fatos muitas vezes foram tão comuns e sem importância que eu não encontrava justificação para apresentá-los ao público. Por outro lado, tem acontecido, com freqüência, que ele se interesse por pesquisas onde os fatos têm caráter mais notável e dramático, mas em que seu papel acaba sendo menos destacado do que eu, como seu biógrafo, poderia desejar. O pequeno caso que narrei como crônica sob o título Um estudo em vermelho, e mais tarde aquele outro relacionado com a perda do Gloria Scott, servem de exemplo de que Cila e Caribde estão constantemente ameaçando seu historiador. Pode ser que, no caso que vou descrever agora, o desempenho de meu amigo não tenha sido suficientemente acentuado; todavia, toda a verdade das circunstâncias é tão notável que não me posso permitir omiti-la inteiramente desta série. Era um dia abafado e chuvoso de agosto. Nossas janelas estavam meio abertas, e Holmes jazia encaracolado no sofá, lendo e relendo uma carta que recebera pelo carteiro


da manhã. Quanto a mim, meu período de serviço na Índia treinara-me para suportar melhor o calor do que o frio, e a temperatura de trinta graus não me incomodava. Mas o jornal não tinha interesse. O Parlamento suspendera suas sessões. Toda a gente tinha saído da cidade, e eu sonhava com as clareiras de New Forest ou com os cascalhes de Southsea. Uma conta bancária a zero obrigou-me a adiar minhas férias, e, quanto a meu companheiro, nem o interior nem o mar o atraíam. Gostava de ficar mesmo no centro de cinco milhões de pessoas, estudando-lhes os caminhos e correndo no meio delas, atento a qualquer rumor ou suspeita de crime insolúvel. A apreciação da natureza não encontrava lugar entre seus muitos dons, e sua única alteração era quando desviava a atenção do malfeitor da cidade para seguir a pista de seu colega do interior. Achando que Holmes estava demasiado absorto para conversar, atirei para um lado o jornal estéril, reclinei-me para trás na cadeira e caí numa meditação profunda. De repente, a voz de meu companheiro invadiu-me os pensamentos. — Você tem razão, Watson — disse ele. — Parece uma maneira irracional de se resolver uma disputa. — Inteiramente errada! — exclamei, e então, verificando que ele seguira meu mais íntimo pensamento, levantei-me e olhei para ele com verdadeiro espanto: — O que é isso, Holmes? Está além de tudo o que eu podia imaginar. Riu satisfeito com minha perplexidade. — Você se lembra — disse ele — de que, algum tempo atrás, quando lhe li uma passagem de uma das obras de Poe, em que um pensador atento segue os pensamentos não enunciados de seu companheiro, você interpretou o caso como um mero tour de force do autor? Quando lhe observei que tinha constantemente o hábito de fazer a mesma coisa, você se mostrou incrédulo. — Oh, não! — Talvez não por palavras, meu caro Watson, mas certamente com seus olhos. De modo que, quando o vi atirar para o lado o jornal e mergulhar numa série de pensamentos, senti-me muito feliz por ter a oportunidade de lê-los e eventualmente surpreendê-los, como prova de que tenho estado em harmonia com você. Mas eu ainda estava longe de ficar satisfeito. — No exemplo que me leu, o raciocinador tirou conclusões das ações do homem que ele observava. Se bem me lembro, ele tropeçou num monte de pedras, olhou para as estrelas, e assim por diante. Mas eu tenho estado sentado muito quieto em minha cadeira, e portanto que indícios posso ter dado? — Está sendo injusto para consigo. Os traços fisionômicos são veículos pêlos quais um homem expressa suas emoções, e os seus são servos fiéis. — Quer dizer que leu minha corrente de pensamentos através de meus traços?


— Seus traços e, especialmente, seus olhos. Talvez não possa recordar-se como começou seu devaneio! — Não, não posso. — Então eu lhe direi. Depois de atirar para o lado o jornal, que foi o que me despertou a atenção, você deixou-se ficar por meio minuto com uma expressão vaga. Em seguida, seus olhos fixaram-se no quadro de moldura nova do general Gordon, e vi, pela alteração de sua fisionomia, que uma série ininterrupta de pensamentos começara. Mas não foi muito longe. Seus olhos voltaram-se para o retrato sem moldura de Henry Ward Beecher, que está sobre seus livros. Então passou os olhos pela parede, e sem dúvida alguma que seu significado era evidente. Estava pensando que, se o retraio tivesse moldura, cobriria exatamente aquele espaço vazio e corresponderia ao do general Gordon que está ali. — Você seguiu-me admiravelmente! — exclamei. — Até onde pude chegar sem me desviar. Mas então seus pensamentos voltaram-se para Beecher e seu semblante endureceu-se como se lhe estudasse o caráter pêlos traços. Em seguida, seus olhos deixaram de se fixar mas começaram a olhar de revés, e tinham um ar pensativo. Estava recordando os incidentes da carreira de Beecher. Estava muito certo de que não podia fazê-lo sem pensar na missão que ele empreendeu pela causa do norte por ocasião da Guerra Civil, porque me lembro de que você exprimiu sua indignação pela maneira como ele foi recebido pêlos mais turbulentos de nosso povo. Sentiu tanto o fato que percebi que não poderia pensar em Beecher sem pensar também nesse episódio. Quando, um momento depois, vi seus olhos desviarem-se do retraio, suspeitei que pensava de novo na Guerra Civil, e quando observei que apertava os lábios, que seus olhos cintilavam e que tinha os punhos cerrados, fiquei certo de que estava com efeito pensando na bravura que mostraram os dois lados nessa luta desesperada. Mas então seu rosto entristeceu-se novamente; você sacudiu a cabeça. Estava pensando na tristeza, no horror e no desperdício inútil de tantas vidas. Sua mão escorregou de leve para a antiga ferida, e um sorriso lhe aflorou aos lábios, o que me mostrou que o lado ridículo desse método de resolver as questões internacionais chocara seu pensamento. Nesse ponto, concordei com você que era irracional e fiquei contente por descobrir que todas as minhas deduções estavam certas, — Exatamente! — disse eu. — E agora que você o explicou, confesso que estou tão perplexo como no princípio. — Foi muito superficial, meu caro Watson, asseguro-lhe. Não o teria imposto à sua atenção caso você não tivesse mostrado incredulidade no outro dia. Mas o anoitecer trouxe uma brisa. Que lhe parece um passeiozinho pela cidade? Eu estava cansado de nossa salinha de estar, e alegremente acedi. Andamos seguramente três horas juntos, observando o caleidoscópio da vida em constante mudança, na Fleet Street e no Strand. A agradável conversa de Holmes, assim como sua observação penetrante dos pormenores e seu poder de dedução, mantinham-me pasmado e dominado.


Eram dez horas quando regressamos à Baker Street. Uma carruagem esperava à nossa porta. — Hum! Um médico! Clínico-geral, claro — disse Holmes. — Não está há muito tempo na clínica, mas tem muito o que fazer. Vem consultar-nos, creio. Que sorte já termos voltado! Estava suficientemente familiarizado com os métodos de Holmes para poder seguir-lhe o raciocínio, e ver que a natureza e o estado dos vários instrumentos médicos, na cesta de vime pendurada sob a luz de uma lâmpada, no lado interno da carruagem, lhe forneceram os dados para sua rápida dedução. A luz que havia em nossa janela mostrava que esta visita estava, com efeito, à nossa espera. Com alguma curiosidade quanto ao que podia ter trazido até nós um colega médico, a tal hora, segui Holmes até nosso santuário. Um homem pálido, de rosto delgado e barbas avermelhadas, levantou-se de uma cadeira ao lado do fogo quando entramos. Sua idade não podia ser superior a trinta e três, trinta e quatro anos, mas sua expressão macilenta e seu colorido doentio falavam de uma vida que fora difícil e sacrificada na juventude. Suas maneiras eram nervosas e acanhadas, como as de um cavalheiro sensível, e a fina mão branca que apoiou na prateleira da lareira, quando se levantou, era mais de um artista que de um cirurgião. Sua roupa era simples e triste, uma sobrecasaca preta, calça escura, e um toque de cor na gravata. — Boa noite, doutor — disse Holmes jovialmente. — Estou contente por ver que nos espera há poucos minutos. — Falou com meu cocheiro, então? — Não, foi a vela ao lado da mesa que me apontou esse fato. Por favor, sente-se e digame em que posso servi-lo. — Meu nome é Percy Trevelyan — disse nosso visitante —, e moro na Brook Street, 403. — O senhor não é autor de uma monografia sobre lesões nervosas obscuras? — perguntei. Suas faces pálidas coraram com o prazer de perceber que sua obra me era conhecida. — Tão raramente ouço falar nessa obra, que a julgava inteiramente morta — respondeu. — Meus editores deram-me a mais desencorajadora nota de vendas. O senhor é médico? — Cirurgião do exército, aposentado. — Minha mania foi sempre a doença nervosa. Gostaria de fazer dela uma especialidade, mas, claro, um homem deve fazer o que pode alcançar primeiro. Entretanto, nada disso vem ao caso, sr. Holmes. O assunto consiste numa série singular de acontecimentos que


ocorreram recentemente em minha casa da Brook Street, e esta noite atingiram tal ponto que senti ser inteiramente impossível esperar mais para lhe pedir conselho e assistência. Sherlock Holmes sentou-se e acendeu o cachimbo. — O senhor é bem-vindo para ambos — disse ele. — Faça-nos, por favor, uma narrativa pormenorizada dos fatos que o perturbam. — Um ou dois são absolutamente triviais — disse o dr. Trevelyan — a tal ponto que fico envergonhado por mencioná-los. Mas a coisa é tão inexplicável e o recente aspecto que tomou é tão estranho que lhe exporei tudo, e o senhor julgará o que é essencial e o que não é. "Para começar, sou obrigado a dizer alguma coisa sobre minha carreira universitária. Estudo e faço pesquisas em Londres, e estou certo de que não irá pensar que estou entoando louvores a mim mesmo se lhe disser que minha carreira de estudante foi considerada promissora por meus professores. Depois de me diplomar, continuei devotado às pesquisas, ocupando um cargo secundário no Hospital do King's College. Fui bastante feliz e despertei considerável interesse com minha investigação da patologia da catalepsia, e finalmente ganhei o prêmio Bruce Pinkerton e a medalha pela monografia sobre lesões nervosas a que seu amigo acaba de aludir. Não creio exagerar se dissesse que, nessa época, havia uma impressão geral de que eu tinha pela frente uma carreira distinta. "Mas meu grande obstáculo era a falta de capital. Como prontamente compreenderá, o especialista que almejar as alturas é obrigado a começar numa das doze ruas do quarteirão da Cavendish Square, o que lhe acarreta enormes despesas com mobília. Além desses gastos preliminares, deve estar preparado para se sustentar durante alguns anos, e alugar carruagem apresentável. Tudo isso estava muito além de minhas posses, e só podia esperar que, com a economia de dez anos, guardasse o suficiente para me habilitar a pôr minha placa. Entretanto, repentinamente, um incidente abriu-me uma perspectiva inteiramente nova: foi a visita de um cavalheiro chamado Blessington, que me era completamente estranho. Entrou em meu escritório uma manhã e abordou logo o assunto. "— O senhor é o dr. Percy Trevelyan, que teve uma brilhante carreira e ganhou um grande prêmio recentemente? — perguntou. "Eu inclinei-me. "— Responda-me com franqueza — continuou ele —, pois verificará que é de seu interesse fazê-lo. O senhor tem a inteligência que forja o sucesso de um homem. Tem o tato? "Não podia deixar de rir com a precipitação da pergunta. "— Creio que tenho algum — disse eu. "— E seus hábitos? Não gosta de bebidas, hein? "— Na verdade, não — protestei.


"— Muito bem! Está tudo bem! Mas eu tinha de perguntar. Com todas essas qualidades, por que não clinica? "Encolhi os ombros.

"— Bem! — disse ele com o mesmo à-vontade. — É a velha história. Mais miolos que dinheiro, não é? O que diria de começar na Brook Street? "Olhei para ele com espanto. "— Oh! É no meu próprio interesse, não no seu — exclamou ele. — Serei muito franco com o senhor: se for bom para si mesmo, será também bom para mim. Tenho cerca de mil libras para investir, e penso gastá-las com o senhor. "— Mas por quê? — arfei. "— Ora essa, porque essa é exatamente como qualquer outra especulação, e mais segura do que a maioria. "— O que devo fazer, então? "— Eu lhe direi. Alugarei a casa, comprarei os móveis, pagarei os criados e farei todas as despesas. Tudo o que o senhor tem a fazer é utilizar o consultório. Eu lhe darei dinheiro para gastar e tudo. Depois, o senhor me dará três quartos do que ganhar, e guardará o restante para si. "Essa foi a estranha proposta, sr. Holmes, com a qual esse Blessington me procurou. Não o cansarei com a narrativa de como acertamos o assunto. Acabei por me mudar para a casa perto de Lady Day e comecei a clinicar nas condições que ele me havia sugerido. Ele mesmo foi morar comigo na condição de doente internado. Tinha o coração fraco, parece, e necessitava de constantes cuidados médicos. Transformou as duas melhores divisões do primeiro andar em sala de estar e quarto para ele próprio. Era um homem de hábitos singulares, evitava companhia e saía muito raramente. Sua vida era irregular, mas em certo ponto era a própria regularidade. Todas as tardes, à mesma hora, entrava no consultório, examinava os livros e deixava cinco xelins e três pence para cada guinéu que eu tinha ganho, levando o resto para a caixa-forte de seu quarto. "Posso garantir que ele nunca teve ocasião de lamentar sua aplicação. Desde o princípio, meu consultório foi um êxito. Alguns casos felizes, bem como a reputação que adquirira no hospital, impeliram-me rapidamente para a frente. E durante um ano ou dois fiz dele um homem rico. "Falei demais, sr. Holmes, a respeito de meu passado e das minhas relações com o sr. Blessington. Agora, só me resta dizer o que ocorreu esta noite. "Há algumas semanas o sr. Blessington aproximou-se de mim num estado de profunda agitação, segundo me pareceu. Falou de um roubo que, dizia, fora cometido no West


End. Lembro-me de que parecia estar inteira e desnecessariamente excitado com o fato, declarando que não se passaria mais um dia sem acrescentarmos ferrolhos mais fortes às nossas janelas e portas. Continuou durante uma semana nesse estranho estado de inquietação, espiando continuamente pelas janelas e deixando de dar o curto passeio que lhe servia usualmente de prelúdio para o jantar. Essa atitude chocou-me, porque ele estava com um pavor mortal de alguma coisa ou de alguém. Mas, quando o interroguei sobre o fato, ficou tão zangado que fui obrigado a ignorar o assunto. Gradualmente, com o passar do tempo, seus receios pareceram diminuir, e voltava aos hábitos antigos, quando um novo acontecimento o reduziu ao mais lamentável estado de prostração. "O que aconteceu foi isso: há dois dias recebi uma carta que vou ler. Não tem nem endereço, nem data. " 'Um nobre russo que agora reside na Inglaterra ficaria feliz de utilizar a assistência profissional do dr. Trevelyan. Tem sido, há vários anos, vítima de ataques catalépticos, a respeito dos quais, como é bem sabido, o dr. Trevelyan é autoridade. Ele propõe procurá-lo às seis e um quarto, amanhã de tarde, se o dr. Trevelyan julgar conveniente ficar em casa.' "Esta carta interessou-me vivamente, porque a principal dificuldade no estudo da catalepsia é a raridade da moléstia. Claro que eu estava em meu consultório quando, à hora marcada, o criado introduziu o paciente.

"Era um homem envelhecido, magro, modesto e comum — que não lembrava nem de longe um nobre russo. Fiquei mais chocado com a aparência de seu companheiro. Era um jovem alto, surpreendentemente belo, de rosto sombrio e severo, com membros e peito de Hércules. Segurava o braço do outro quando entraram e ajudou-o a sentar-se numa cadeira, com uma ternura que dificilmente se podia esperar de sua aparência. "— O senhor há de perdoar minha intrusão, doutor — disse-me ele, falando inglês com uma pronúncia um pouco esquisita. — Trata-se de meu pai, e sua saúde é para mim de inestimável importância. "Fiquei comovido com essa dedicação filial. "— Talvez gostasse de ficar durante a consulta...? "— De modo nenhum — respondeu ele com um gesto de horror. — É-me mais penoso do que posso dizer. Se vir meu pai num desses acessos medonhos, estou certo de que não sobreviverei. Meu sistema nervoso é muito sensível. Se me permite, ficarei na sala de espera enquanto estuda o caso de meu pai. "Certamente concordei com isso, e o homem retirou-se. O paciente e eu iniciamos a discussão do caso, do qual tomei exaustivas notas. Não era notável pela inteligência. Suas respostas eram freqüentemente obscuras, o que atribuí à sua limitada familiaridade com nossa língua. De repente, quando, sentado, eu escrevia, deixou de responder a minhas perguntas. Voltando-me para ele, fiquei chocado ao ver que estava sentado na


cadeira, empertigado como um fuso, olhando-me com um semblante perturbado e rígido. Estava, pois, nas garras de sua misteriosa doença.

"Meu primeiro sentimento foi exatamente como já disse, de piedade e de horror. O segundo, receio bem, foi o de satisfação profissional. Observei o pulso e a temperatura de meu paciente, examinei a rigidez dos músculos e observei-lhe os reflexos. Não havia nada de acentuadamente anormal, e qualquer daqueles sintomas se harmonizava com minhas primeiras experiências. Obtive bons resultados em tais casos pela inalação de nitrato de amilo, e aquela pareceu-me uma admirável oportunidade para lhe experimentar as virtudes. A garrafa estava embaixo, no meu laboratório, de modo que, deixando o paciente sentado na cadeira, desci para ir buscá-la. Demorei um pouco para encontrá-la... uns cinco minutos, digamos... e voltei. Imagine o senhor meu espanto ao encontrar o consultório vazio e meu doente desaparecido! "Meu primeiro instinto, claro, foi precipitar-me na sala de espera. O filho se fora também. A porta do h ali fora encostada, mas não fechada. O criado que recebe os clientes é rapaz novo e sem expediente. Espera embaixo e sobe quando toco a campainha do consultório para despachar os clientes. Nada ouviu, e o fato permaneceu como um completo mistério. O sr. Blessington regressou de seu passeio logo depois, mas nada lhe disse sobre o assunto, porque, para dizer a verdade, ultimamente tenho feito tudo para me comunicar o menos possível com ele. "Bem, nunca pensei voltar a saber daquele russo e de seu filho. Portanto, pode imaginar qual não foi meu espanto quando, à mesma hora da tarde de hoje, ambos entraram em meu consultório, precisamente como tinham feito da outra vez. "— Sinto que lhe devo pedir desculpas pela minha partida tão repentina ontem, doutor — disse o doente. "— Confesso que fiquei muito surpreso — disse eu. "— Bem, a verdade — observou ele — é que, quando me liberto daqueles ataques, minhas idéias ficam sempre nubladas quanto a tudo o que se passou anteriormente. Acordei numa sala estranha, como me pareceu, e saí para a rua numa espécie de sonambulismo, enquanto o senhor estava ausente. "— E eu — acrescentou o filho —, quando vi meu pai sair do consultório, pensei naturalmente que a consulta tinha acabado. Só quando chegamos a casa é que comecei a perceber o que se passara. "— Bem — respondi-lhes sorrindo —, não há nenhum prejuízo, só me deixaram terrivelmente perplexo. De modo que, se o senhor quiser ter a bondade de ficar na sala de espera, eu me sentirei feliz em continuar nossa consulta, que terminou de modo tão abrupto. "Durante cerca de hora e meia discuti com o velho cavalheiro seus sintomas e então, depois de ter receitado, vi-o sair de braço dado com o filho.


"Já lhe disse que o sr. Blessington escolhe geralmente essa hora do dia para seu passeio. Ele entrou logo em seguida e subiu. Um instante depois ouvi-o descer correndo e irromper no consultório como um homem que está doido de medo.

"— Quem esteve em meu quarto? — gritou. "— Ninguém — disse eu. "— É mentira! — berrou ele. — Vá até lá em cima e veja. "Não me importei com a grosseria de sua linguagem, porque o homem parecia desvairado. Subindo a seus aposentos, mostrou-me diversos rastros no tapete claro. "— Quer dizer que são meus? — bradou. "Eram certamente muito maiores do que os que ele pudesse fazer. Como o senhor sabe, choveu esta tarde, e meus pacientes foram os únicos a aparecer. Comecei a pensar que o homem da sala de espera tivesse, por uma estranha razão, subido ao aposento do sr. Blessington, enquanto eu estava ocupado com o outro. Nada fora tocado ou levado, mas havia as marcas para provar que a intrusão era um fato indiscutível. "O sr. Blessington pareceu mais excitado com o assunto do que eu julgava possível, embora fosse, decerto, suficiente para perturbar a paz de qualquer pessoa. Sentou-se gritando numa cadeira e foi com dificuldade que o levei a falar coerentemente. Vim procurá-lo a seu conselho, e percebi logo o acerto dessa sugestão, porque o incidente é na verdade singular, embora me pareça que ele lhe exagera a importância. Se quiser aproveitar meu carro, o senhor poderá acalmá-lo, embora eu creia que não possa explicar essa misteriosa ocorrência." Sherlock Holmes ouviu essa longa narrativa com uma atenção que me provou que seu interesse fora vivamente despertado. Seu rosto estava impassível como sempre, mas as sobrancelhas tinham descaído mais pesadamente sobre os olhos e a fumaça do cachimbo subia em espirais mais espessas, acentuando cada episódio curioso da narração do médico. Quando ele concluiu seu relato, Holmes saltou da cadeira sem dizer palavra e, passando-me o chapéu, apanhou o seu de sobre a mesa e seguiu o dr. Trevelyan até a porta. Quinze minutos depois, estávamos à porta da residência do médico, na Brook Street, uma daquelas sombrias e chapadas casas que costumamos associar às clínicas do West End. Um criado de pequena estatura recebeu-nos, e subimos a escada ampla e bem atapetada. Mas uma singular interrupção obrigou-nos a parar. A luz em cima foi apagada, e das trevas veio uma voz aguda e trêmula. — Tenho uma pistola — gritaram —, e garanto que atiro em quem se aproximar mais. — Isso começa a ser realmente ultrajante, sr. Blessington — respondeu com energia o dr. Trevelyan.


— Oh, é então o doutor? — disse a voz com grande demonstração de alívio. — Mas quem são esses cavalheiros, e o que querem? Fomos examinados demoradamente antes que a pessoa que estava na escuridão nos identificasse. — Sim, sim, está bem — disse por fim. — Podem subir, e lamento se minhas precauções lhes desagradam.

Reacendeu o gás da escada enquanto falava, e diante de nós vimos um homem de aspecto singular. Sua aparência, tanto como sua voz, demonstrava desequilíbrio nervoso. Era muito gordo, mas aparentemente fora ainda mais gordo. A pele lhe caía do rosto em bolsas flácidas de rugas, como os beiços de um sabujo. Era de aspecto doentio, e os cabelos finos e cor de areia pareciam eriçados pela intensidade da emoção. Tinha na mão uma pistola, que meteu no bolso enquanto avançávamos. — Boa noite, sr. Holmes — disse ele. — Creia que lhe estou muito grato por ter vindo. Ninguém carece mais de seu conselho do que eu. Penso que o dr. Trevelyan já lhe falou dessa intrusão injustificável em meus aposentos. — Exatamente — respondeu Holmes. — Quem são esses dois homens, sr. Blessington, e por que querem incomodá-lo? — Bem, bem — disse ele em tom nervoso —, claro que é difícil dizer. Não posso lhe dar uma resposta a esse respeito, sr. Holmes. — Quer dizer que não sabe? — Entre aqui, por favor. Tenha a bondade de entrar aqui. — Abriu caminho para seu quarto, que era grande e confortavelmente mobiliado. — O senhor vê aquilo? — disse, apontando para uma grande caixa preta na extremidade de sua cama. — Nunca fui muito rico, sr. Holmes, e nunca fiz senão um investimento na minha vida, como o dr. Trevelyan lhe pode dizer. Não tenho confiança nos banqueiros. Jamais acreditaria num banqueiro, sr. Holmes. Aqui entre nós, o pouco que tenho está naquela caixa. O senhor pode compreender, pois, o que significa para mim quando pessoas desconhecidas entram em meus aposentos. Holmes olhou para Blessington de modo inquiridor, e sacudiu a cabeça. — Não posso aconselhá-lo se o senhor tenta enganar-me — disse ele. — Mas eu lhe disse tudo. Holmes voltou-lhe as costas com um gesto de desagrado. — Boa noite, dr. Trevelyan — disse ele.


— E nem o menor conselho para mim? — gritou Blessington, numa voz entrecortada. — Meu conselho é que diga a verdade. Um minuto depois estávamos na rua de regresso a casa. Atravessamos a Oxford Street e já estávamos a meio caminho da Harley Street, sem que eu conseguisse arrancar uma palavra a meu companheiro. — Lamento tê-lo feito sair para uma missão tão tola, Watson — disse ele afinal. — Mas, no fundo, é um caso muito interessante. — Confesso que não compreendo. — Bem, é perfeitamente claro que há dois homens... mais talvez, mas pelo menos dois, resolvidos, por qualquer motivo, a apanhar esse Blessington. Não tenho a menor dúvida de que, tanto na primeira como na segunda ocasião, o jovem penetrou no quarto de Blessington enquanto seu cúmplice, por meio de um plano engenhoso, impediu o médico de interferir. — E a catalepsia? — Uma imitação fraudulenta, Watson, embora eu não ouse sugerir isso a nosso especialista. É uma doença muito fácil de imitar. Eu próprio já a imitei. — E então? — Pela mais pura casualidade, Blessington não estava em qualquer das ocasiões. A razão para escolherem uma hora tão pouco vulgar para a consulta era a certeza de que não haveria outro paciente na sala de espera. Entretanto, aconteceu justamente que essa hora coincidiu com o giro habitual de Blessington, o que parece provar que não estavam muito bem familiarizados com seus hábitos. Naturalmente, se a visita tivesse como objetivo roubar, teria havido pelo menos alguma tentativa de busca. Além disso, posso ler nos olhos de um homem quando é por sua própria pele que ele receia. É inconcebível que aquele indivíduo tenha arranjado dois inimigos vingativos, como esses parecem ser, sem sabê-lo. Afirmo, portanto, que ele sabe quem são os dois homens, mas, por razões particulares, não quer dizer. É possível que amanhã o encontremos em disposição mais comunicativa. — Não haverá outra alternativa — sugeri —, grotescamente improvável, sem dúvida, mas ainda assim concebível? Não pode toda a história do russo cataléptico e do filho ser uma trama do dr. Trevelyan, que, para fins particulares, esteve nos aposentos de Blessington? Vi à luz do lampião que Holmes sorriu ao ouvir minha brilhante saída. — Meu caro — respondeu-me —, foi uma das primeiras hipóteses que me ocorreram, mas logo pude comprovar a narrativa do médico. O jovem deixou marcas no tapete da escada, sendo, pois, inteiramente supérfluo pedir para ver as que fizera na sala. Quando eu lhe disser que seus sapatos eram de bico chato, ao contrário dos de bico fino de Blessington, e eram três centímetros e meio maiores que os do médico, você


reconhecerá que não pode haver dúvida quanto à sua individualidade. Mas agora podemos esquecer o assunto, pois ficarei surpreso se não voltar a ter notícias da Brook Street amanhã cedo. A profecia de Sherlock Holmes cumpriu-se logo, e de modo dramático. Às sete e meia da manhã seguinte, ao clarear o dia, vi-o de pé ao lado de minha cama, de roupão. — Há um carro à nossa espera, Watson. — O que há, então? — O caso da Brook Street. — Más notícias? — Trágicas, mas ambíguas — respondeu ele, levantando a cortina. — Olhe para isso: uma folha de caderno com "Pelo amor de Deus, venha já. P. T.", garatujado a lápis. Nosso amigo doutor estava atrapalhado quando escreveu este bilhete. Venha comigo, meu caro amigo, porque é uma chamada urgente. Cerca de quinze minutos depois, estávamos novamente em casa do médico. Ele veio correndo a nosso encontro, com uma expressão de horror. — Oh, que coisa terrível! — exclamou, as mãos na cabeça. — O que aconteceu? — Blessington suicidou-se. Holmes deu um assobio. — É verdade! Enforcou-se durante a noite! Tínhamos entrado, e o médico precedera-nos no que era evidentemente a sala de espera. — Nem sei o que fazer — exclamou ele. — A polícia já está em cima. Isto chocou-me terrivelmente. — Quando o encontrou? — A criada leva-lhe todas as manhãs uma xícara de chá. Esta manhã, quando entrou, mais ou menos às sete horas, lá estava o pobre homem pendurado no meio da sala. Ele amarrou a corda no gancho em que costumava pendurar o candeeiro grande. E saltou, naturalmente, de cima daquela caixa que ontem nos mostrou. Holmes permaneceu algum tempo em profunda reflexão. — Se me dá licença — disse ele afinal —, gostaria de ir lá em cima examinar o caso.


Subimos ambos, seguidos pelo médico. Deparamos com um quadro pavoroso ao entrarmos no quarto. Refiro-me à impressão de flacidez de Blessington. Balançando no gancho, estava tão esticado que quase não parecia uma pessoa. Tinha o pescoço puxado como o de uma galinha depenada, tornando o resto obeso e antinatural por contraste. Estava vestido apenas com uma comprida camisola de dormir, e suas ancas inchadas e os pés toscos projetavam-se rígidos por baixo. A seu lado estava um inspetor policial, de expressão inteligente, que tomava notas numa agenda. — Ah! Holmes — disse ele, quando meu amigo entrou. — Estou contente por vê-lo. — Bom dia, Lanner — respondeu Holmes. — Não me julgará um intruso, estou certo. Já conhece os fatos que culminaram na tragédia? — Sim. Ouvi algumas coisas. — Já formou opinião? — Até onde posso perceber, o homem ficou louco de susto. A cama foi usada, como vê. Aqui está uma depressão bastante profunda. O senhor sabe que é mais ou menos às cinco da manhã que os suicídios são mais freqüentes. Foi aproximadamente a essa hora que ele se enforcou. Parece ter sido um caso deliberado. — Eu diria que ele morreu mais ou menos às três horas, a julgar pela rigidez dos músculos — disse eu. — Observou alguma coisa de especial no quarto? — perguntou Holmes. — Encontrei uma chave de parafusos e alguns parafusos no lavatório. Parece também ter fumado muito durante a noite. Aqui estão quatro pontas de charutos que retirei da lareira. — Hum! — exclamou Holmes. — Encontrou a boquilha dele? — Não, não vi nenhuma. — E a cigarreira, então? — Sim. Estava no bolso do casaco. Holmes, abrindo-a, cheirou o único charuto que continha. — Oh, este é um havana e os outros são charutos daquela qualidade especial, importados pêlos holandeses das colônias indianas. São usualmente enrolados em palha, como sabe, e mais finos em proporção ao comprimento do que qualquer outra marca. — Em seguida, apanhou as quatro pontas e examinou-as com a lente de bolso. — Dois deles foram fumados com uma boquilha, e dois sem ela — disse ele. — Dois foram cortados com uma faca não muito afiada, e têm as extremidades mordidas


por uma excelente dentadura. Não é suicídio, sr. Lanner, é um assassínio bem planejado e a sangue-frio. — Impossível! — gritou o inspetor. — E por quê? — Por que haveria alguém de matar um homem dessa maneira tão desajeitada, isto é, pelo enforcamento? — Isso é o que havemos de descobrir. — Como teriam entrado? — Pela porta da frente. — Estava com a tranca de manhã. — Então a tranca foi posta depois. — Como o sabe? — Vi os rastros deles. Desculpe-me um momento, e depois lhe darei mais informações a esse respeito. Foi à porta e, virando a chave, examinou a fechadura a seu modo metódico. Então tirou a chave, que estava do lado de dentro, e inspecionou-a também. A cama, o tapete, as cadeiras, a prateleira da lareira, o cadáver e a corda foram todos examinados cuidadosamente, até que se declarou satisfeito. Com seu auxílio e o do inspetor, retirou o corpo e cobriu-o reverentemente com um lençol. — E esta corda? — perguntou ele. — Foi cortada daqui — disse Trevelyan, tirando um grande rolo de baixo da cama. — Era assustadoramente mórbido no tocante ao fogo, e guardou-a sempre a seu lado, de modo que pudesse fugir pela janela no caso de o fogo vir pela escada. — Isso poupou-lhes dificuldades — disse Holmes pensativamente. — É isso mesmo, pois os fatos são muito claros. Aliás, ficarei surpreso se hoje à tarde não puder explicálos muito bem. Levarei essa fotografia de Blessington, que vejo na prateleira da lareira, pois pode auxiliar-me em minhas investigações. — Mas o senhor não nos disse nada — exclamou o médico. — Oh, não pode haver dúvida quanto à seqüência dos acontecimentos — replicou Holmes. — Eram três: o jovem, o velho e um terceiro, de cuja identidade não tenho indícios. Os dois primeiros, não preciso dizer, são os mesmos que se mascararam de conde russo e seu filho, de modo que deles podemos dar uma descrição muito completa. Foram admitidos por um cúmplice de dentro da casa. Se me permitir uma palavra de


conselho, inspetor, prenda o criado, que, como fui informado, doutor, entrou recentemente a seu serviço. — Não se pode descobrir esse demônio — disse Trevelyan. — A criada e a cozinheira têm andado precisamente à sua procura. Holmes encolheu os ombros. — Ele representou uma parte de certa importância nesse drama — disse ele. — Subiram os três a escada, na ponta dos pés, primeiro o mais velho, depois o mais jovem e por último o desconhecido... — Meu caro Holmes!... — comecei eu. — Oh, não pode haver dúvida quanto à sobreposição dos rastros. Tive a vantagem de aprender a reconhecê-los ontem à noite. Subiram então ao quarto do sr. Blessington, cuja porta encontraram trancada. Entretanto, com o auxílio de um arame, forçaram-lhe a chave. Mesmo sem lente, o senhor pode notar, pêlos arranhões do mecanismo da fechadura, onde fizeram pressão. "Ao entrarem na sala, o primeiro cuidado foi amordaçar o si. Blessington. Podia estar dormindo, ou tão paralisado pelo terror que não pôde gritar. Essas paredes são muito grossas; é possível que seus gritos, caso tenha tido tempo de gritar, não fossem ouvidos.

"Segurando-o, parece-me evidente que se realizou uma espécie de conferência. Com toda a certeza, simularam um processo judicial. Deve ter durado muito tempo, porque foi então que fumaram estes charutos. O velho sentou-se naquela cadeira de vime: foi ele que usou a boquilha. O mais jovem sentou-se ali; foi quem sacudiu a cinza na cômoda. O terceiro andou de um lado para outro. Blessington, suponho, ficou sentado direito na cama, mas não posso estar absolutamente certo disso. Acabaram por agarrar Blessington e enforcá-lo. A coisa foi tão bem planejada, que creio que trouxeram com eles um cepo ou mourão que servisse de forca. A chave de parafusos serviria para fixálo. Entretanto, vendo o gancho, ficaram livres de dificuldades. Terminada a obra, saíram, e a porta foi fechada atrás deles pelo cúmplice." Esse relato dos acontecimentos, Holmes deduziu-o de sinais tão sutis e diminutos que, mesmo quando no-los apontou, não pudemos seguir-lhe o raciocínio. O inspetor saiu então para fazer uma investigação sobre o criado, ao passo que Holmes e eu voltamos à Baker Street para o café matinal. — Estarei de volta pelas três — disse ele quando concluímos nossa refeição. — Tanto o inspetor como o médico poderão me encontrar aqui a essa hora, e espero nessa altura já ter esclarecido a pequena dificuldade que o caso ainda apresenta. Nossas visitas chegaram à hora marcada, mas foi às três e quarenta e cinco que meu amigo apareceu. Entretanto, por sua expressão ao entrar, pude ver que tudo correra muito bem.


— Alguma notícia, inspetor? — Prendemos o rapaz. — Excelente, e eu prendi os homens. — O senhor prendeu-os! — exclamamos todos. — Bem, pelo menos descobri a identidade deles. Esse tal Blessington é, como eu esperava, muito conhecido no meio policial, e também seus assassinos. Seus nomes são Biddle, Ward e Mofai. — Então, Blessington devia ser Sutton. — Precisamente — disse Holmes. — A quadrilha do Banco Worthingdon — exclamou o inspetor. — Exatamente — confirmou Holmes. — Isso é claro como água — disse o inspetor. Mas eu e Trevelyan olhamos um para o outro, confusos. — Devem sem dúvida lembrar-se do roubo ao grande Worthingdon — disse Holmes; — eram cinco homens, esses quatro e um quinto chamado Cartwright. Tobin, o guarda da casa, foi assassinado, e os ladrões fugiram com sete mil libras. Isso se deu em 1875. Todos os cinco foram presos, e não houve provas conclusivas contra eles. Mas esse Blessington, ou Sutton, o pior da quadrilha, passou a ser delator. Devido a seu depoimento, Cartwright foi enforcado, e os outros três pegaram quinze anos de prisão. Quando, há pouco tempo, saíram, alguns anos antes de completarem a pena, puseram-se a caçar o traidor para vingar a morte do companheiro. Duas vezes tentaram agarrá-lo, e fracassaram; à terceira vez, como vêem, conseguiram. Há mais alguma coisa que eu possa explicar, dr. Trevelyan? — Creio que o senhor foi admiravelmente claro — disse o médico. — Não há dúvida de que ele ficou perturbado no dia em que leu nos jornais a notícia da saída deles. — Exatamente. Falava de furto como mera evasiva. — Mas por que não lhe disse a verdade? — Bem, meu caro senhor, conhecendo o caráter vingativo dos antigos cúmplices, tentava ocultar sua própria identidade de toda a gente que pudesse. Seu segredo era vergonhoso, e não podia revelá-lo. Entretanto, mesmo desgraçado como era, ainda vivia sob a proteção da lei britânica, e não tenho dúvida, inspetor, de que, embora essa proteção falhe, a espada da justiça aí está para vingá-lo.


Tais foram as circunstâncias singulares que envolveram o paciente internado e o médico da Brook Street. Desde aquela noite, a polícia nada mais soube dos três assassinos, e admite-se na Scotland Yard a hipótese de que eles estavam entre os passageiros do malfadado Norah Creina, que se perdeu com todas as vidas nas costas portuguesas, algumas léguas ao norte do Porto. O processo contra o criado foi arquivado por falta de provas, e o "mistério da Brook Street", como foi chamado, nunca foi divulgado pela imprensa. [1] "Esforço supremo." Em francês no original. (N. do E.)

Arthur Conan Doyle 9- O intérprete grego Título original: The Greek Interpreter Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1893. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Greek Interpreter publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Durante minha longa e íntima convivência com Sherlock Holmes, nunca o ouvi referirse a seus parentes ou a sua vida passada. Essa sua atitude aumentou o efeito sobrehumano que sua personalidade exercia sobre mim. Por isso, fui levado a considerá-lo um fenômeno isolado, um cérebro sem coração, tão deficiente em simpatia humana como eficiente em inteligência. A aversão às mulheres e a falta de inclinação para formar novas amizades eram atributos típicos de seu caráter insensível. Porém, mais típica ainda era a completa supressão de qualquer referência à própria família. Cheguei a acreditar que fosse órfão, sem quaisquer parentes vivos. Entretanto, um dia, para grande surpresa minha, começou a falar a respeito do irmão. Foi depois do chá, numa tarde de verão. A conversa vagara de maneira um tanto incoerente, dos clubes de golfe às causas da obliqüidade da elíptica, e chegou afinal à questão do atavismo e das aptidões hereditárias. A questão em discussão era: até que ponto uma característica especial de um indivíduo se devia a seus antepassados ou, por outro lado, ao condicionamento anterior. — No seu caso — disse eu —, a julgar pelo que me tem contado, parece óbvio que sua capacidade de observação e a facilidade peculiar para a dedução se devem a seu próprio treino sistemático. — Até certo ponto — respondeu pensativamente. — Meus antepassados eram proprietários rurais, e parecem ter levado vida comum à sua classe. Apesar disso, esta minha inclinação está em minhas veias, e pode ter vindo da minha avó, que era irmã de Vernet, o artista francês. A arte no sangue está sujeita a tomar as formas mais estranhas.


— Ora, como sabe que é hereditariedade? — Porque meu irmão Mycroft a possui num grau ainda mais elevado do que eu. — Isso é, realmente, uma grande novidade para mim. Se existe, na Inglaterra, outro homem com tais dotes, como se explica que nem a polícia nem o público já ouviram falar nele? — Fiz a pergunta de maneira a sugerir que a modéstia de meu companheiro o fazia reconhecer o irmão como superior. Holmes sorriu com a sugestão. — Meu caro Watson — disse ele —, não posso concordar com aqueles que incluem a modéstia no grupo das virtudes. Para o lógico, todas as coisas devem ser vistas exatamente como são. Ora, subestimar-se é afastar-se tanto da realidade como exagerar os dotes pessoais. Portanto, quando lhe afirmo que Mycroft tem melhores dons de observação do que eu, pode estar certo de que digo a verdade exata e literal. — Ele é mais novo que você? — Sete anos mais velho. — Então por que é desconhecido? — Bem, ele é muito conhecido em seu próprio círculo. — Qual é?

— No Clube Diógenes, por exemplo. Jamais ouvira falar de tal instituição, e minha expressão deve ter dito muito mais, porque Holmes tirou o relógio. — O Clube Diógenes é o mais bizarro de Londres, e Mycroft, um dos homens mais estranhos. Está sempre lá das quinze para as cinco às vinte para as oito. São seis horas, agora. Se quiser dar um passeio nesta bonita tarde, ficarei muito contente por apresentálo a essas duas curiosidades. Cinco minutos depois estávamos na rua, caminhando na direção do Regent Circus. — Admira-me — disse meu companheiro — que Mycroft não empregue seus dotes no trabalho de detetive. Mas é incapaz disso. — Eu pensei que você houvesse dito... — Eu disse que ele é superior a mim em observação e dedução. Se a arte de um detetive começasse e acabasse num raciocínio feito numa cadeira, meu irmão seria o maior agente criminal que já existiu. Mas não tem ambição nem energia. Não se afasta de sua rotina nem sequer para verificar suas próprias conclusões, e prefere considerar-se errado a entrar na luta para provar que está certo. Tenho-lhe constantemente apresentado


problemas e recebido uma explicação que depois se verifica ser a única certa; todavia, é incapaz de lograr os pontos práticos que devem ser apreendidos, antes de um caso ser levado perante um juiz ou um júri. — Então não é essa sua profissão? — De forma nenhuma. O que para mina é forma de vida, para ele é mera mania de. diletante. Possui uma extraordinária aptidão para os números, e faz a verificação dos livros de alguns departamentos do governo. Mycroft mora na Pall Mall, contorna a esquina em "Whitehall todas as manhãs e, de regresso, todas as tardes. Do princípio ao fim do ano não faz qualquer outro exercício, e não é visto em parte alguma exceto no Clube Diógenes, bem diante de sua casa. — Sim, realmente não me lembro do nome. — É natural. Há muitos homens em Londres que, ora por acanhamento, ora por misantropia, não querem o convívio dos semelhantes. No entanto, eles não têm aversão a uma confortável cadeira e aos últimos jornais. Para sua conveniência, e de outros como ele, criou o Clube Diógenes, que abriga agora os homens mais insociáveis e inagregáveis da cidade. Não se permite que nenhum membro dê a menor atenção a qualquer outro. São proibidas as conversas, seja em que caso for, salvo na Sala dos Estranhos. E com três faltas, levadas ao conhecimento da direção, o tagarela fica sujeito a expulsão. Meu irmão foi um dos fundadores, e eu próprio acho que o clube tem uma atmosfera calma. Enquanto conversávamos, tínhamos chegado à Pall Mall e estávamos quase ao fim da St. James. Sherlock Holmes parou a uma porta, a pequena distância do Carlton, e, prevenindo-me de que não falasse, seguiu para o vestíbulo. Através das placas de vidro, divisei uma sala grande e luxuosa, onde havia um número considerável de homens sentados a ler jornais, cada um no seu próprio cantinho. Holmes introduziu-me numa sala que dava para a Pall Mall e, deixando-me então por um minuto, voltou com um companheiro que, como eu já sabia, só podia ser seu irmão. Mycroft Holmes era muito mais alto e corpulento do que Sherlock. Seu corpo era realmente volumoso, mas o rosto, embora maciço, mantinha qualquer coisa da agudeza de expressão que tornava tão notável o do irmão. Os olhos, de um cinzento particularmente leve, pareciam conservar sempre aquela aparência longínqua e introspectiva que eu observava em Sherlock quando exercia seus plenos poderes. — Muito prazer em conhecê-lo — disse, estendendo-me a mão ampla e chata como a barbatana de uma foca. — Ouço falar de Sherlock por toda parte desde que o senhor se tornou seu cronista. A propósito, Sherlock, esperava vê-lo a semana passada para conversar com você sobre aquele caso da Manor House. Pensei que você não tivesse feito progressos. — Já o resolvi — disse meu amigo sorrindo. — Era Adams, não é mesmo?


— Sim, era Adams. — Estava certo disso desde o princípio. Sentaram-se ambos no peitoril da janela do clube. — Este é o lugar ideal para quem quiser estudar a humanidade — disse Mycroft. — Olhe para aqueles tipos magníficos! Olhe, por exemplo, para aqueles dois homens que vêm em nossa direção. — O jogador de bilhar e o outro? Pararam os dois em frente da janela. Algumas marcas de giz no bolso do colete eram os únicos sinais de bilhar que se podia ver num deles. O outro era um indivíduo trigueiro, muito baixo, com o chapéu puxado para trás e diversos pacotes debaixo do braço. — Vejo que é um antigo militar — disse Sherlock. — E que teve baixa há pouco tempo — observou o irmão. — Serviu na Índia. — E é um oficial não comissionado. — Da artilharia real, suponho — disse Sherlock. — É viúvo. — Mas com um filho. — Filhos, meu caro, filhos. — Caramba — disse eu sorrindo —, assim é demais. — De fato — respondeu Holmes —, não é difícil descobrir que um homem com aquele porte, aquela expressão de autoridade e aquela pele queimada pelo sol é um militar. É mais graduado que um soldado raso, e chegou há pouco da Índia. — Ele não deixou há muito o exército, pois ainda usa botas de munição, como se diz — observou Mycroft. — Não tem o porte da cavalaria, mas usa o chapéu de um lado só, como se nota pela pele mais clara daquele lado da testa. O peso mostra que não é um sapador. Está na artilharia. — E o luto pesado prova que perdeu alguém muito querido. O fato de andar fazendo suas próprias compras faz supor que foi a mulher que morreu. Percebe-se ainda que tem andado comprando coisas para crianças. Há um chocalho que demonstra que uma delas é ainda muito pequena. A esposa provavelmente morreu de parto. O fato de trazer um livro de gravuras debaixo do braço indica que há outra criança ainda em que pensar.


Comecei então a perceber o que meu amigo queria dizer quando afirmou que o irmão possuía faculdades muito mais vivas do que ele. Sherlock olhou para mim e sorriu. Mycroft tirou uma pitada de tabaco de uma caixa de tartaruga e, com um lenço de seda vermelha, sacudiu do casaco alguns grãos que tinham caído. — A propósito, Sherlock — disse ele —, tenho um caso curioso, um problema muito singular, que foi submetido a meu julgamento. Não tive energia para investigá-lo, exceto de um modo muito incompleto, mas forneceu-me base para especulações bastante agradáveis. Se quiser ouvir o que se passou... — Meu caro Mycroft, ficaria satisfeitíssimo. O irmão rabiscou uma nota numa folha de bloco e, tocando a campainha, entregou-a ao empregado. — Pedi ao sr. Melas que viesse encontrar-nos — disse. — Mora no andar acima do meu, e tenho uma certa intimidade com ele. Isso permitiu que, na sua perplexidade, este senhor me viesse procurar. Melas é grego de nascimento, creio, e é um notável lingüista. Ganha a vida em parte como intérprete, em parte servindo de guia aos abastados orientais que freqüentam os hotéis da Northumberland Avenue. Mas é melhor deixá-lo contar a seu modo sua estranha experiência. Alguns minutos depois juntou-se a nós um homem baixo, corpulento, cujo rosto de azeitona e cabelo preto como carvão proclamavam a origem meridional, embora na pronúncia fosse a de um inglês educado. Apertou calorosamente a mão de Sherlock, e os seus olhos pretos cintilaram de prazer quando compreendeu que tal especialista estava ansioso por ouvir sua história. — Não creio que a polícia me dê crédito; palavra de honra que não acredito — disse, numa voz de lamento. — Precisamente porque ainda não ouviram nada semelhante, pensam que tal não pode suceder. Só sei que não terei paz de espírito enquanto não descobrir o que foi feito de meu pobre homem de rosto enfaixado. — Sou todo atenção — disse Sherlock Holmes. — Hoje é quarta-feira — disse o sr. Melas. — Bem, então foi na noite de segunda-feira, há apenas dois dias, que tudo aconteceu. Sou intérprete, como meu vizinho talvez já lhe tenha dito. Traduzo todas as línguas... ou quase todas, mas como sou grego de nascimento e com nome grego, é principalmente com esta língua que trabalho. Tenho sido, desde há muitos anos, o principal intérprete grego em Londres, e meu nome é muito conhecido nos hotéis. "Sucede com freqüência ser procurado por estrangeiros que se encontram em dificuldades ou por viajantes que chegam tarde e querem meus serviços. Não fiquei portanto surpreso quando, segunda-feira à noite, um tal sr. Latimer, ainda novo, vestido no rigor da moda, apareceu lá em casa e me pediu para acompanhá-lo a um cabriole que esperava à porta. Tinha chegado um grego para lhe falar de negócios, dizia ele, e como não sabia outra língua além da sua, os serviços de um intérprete eram indispensáveis. Deu-me a entender que morava perto, em Kensington, e parecia estar com muita pressa, empurrando-me mesmo para dentro do cabriole mal chegamos à rua.


"Digo cabriolé mas fiquei logo na dúvida se não seria antes uma carruagem. Era com certeza mais espaçoso do que a miséria vergonhosa de quatro rodas que circula em Londres, e as guarnições, embora usadas, eram de rica qualidade. O sr. Latimer sentouse na minha frente. Pusemo-nos então em marcha através da Charing Cross até a Shaftesbury; pensei comentar que não era aquele o caminho para Kensington, mas minhas palavras foram contidas pelo estranho comportamento do meu companheiro. "Começou por tirar do bolso um bastão de aspecto formidável e carregado de chumbo, manobrando-o para a frente e para trás como se lhe avaliasse o peso e a resistência. Depois, sem uma palavra, colocou-o sobre o assento, a seu lado. Feito isso, fechou as vidraças. E foi então que descobri, com espanto, que estavam forradas de papel para impedir que se visse através delas.

"— Sinto cortar-lhe a vista — disse ele. — Mas, para falar a verdade, é minha intenção que o senhor não veja os lugares por onde passamos. É possível que me venha a ser necessário que o senhor não encontre este caminho outra vez. "Como devem calcular, fiquei completamente embaraçado com essas palavras. Meu companheiro era um homem novo, corpulento, espadaúdo e, mesmo sem considerar a arma, eu não teria a menor chance numa luta com ele. "— Seu procedimento é muito estranho, sr. Latimer — gaguejei. — O senhor deve compreender que o que está fazendo é ilegal. "— É um pouco abusivo, não há dúvida, mas daremos um jeito nisso. Entretanto, devo adverti-lo, sr. Melas, de que, se a qualquer hora desta noite tentar dar um alarme ou proceder contra meus interesses, verá que a coisa fica muito séria. Peço-lhe que se lembre de que ninguém sabe onde o senhor está e de que, nesta carruagem ou em minha casa, está em meu poder. "Suas palavras eram calmas, mas a maneira áspera de falar tornava-o ameaçador. Sentei-me em silêncio, pensando por que razão ele me raptara daquela maneira extraordinária. Fosse o que fosse, era mais que evidente que eu não tinha possibilidade de resistir, e apenas me restava aguardar o que iria acontecer. Andamos cerca de duas horas, sem que eu tivesse o menor indício do lugar para onde nos dirigíamos. Às vezes, o trepidar das pedras indicava um caminho pavimentado, outras, nosso rodar suave e silencioso sugeria asfalto. Porém, salvo esta variação, nada havia que me pudesse auxiliar a formar uma idéia de onde estávamos. O papel que forrava as duas janelas era impenetrável à luz, e uma cortina azul fora descida sobre a vidraça da frente. Eram sete e quinze quando saímos da Pall Mall, e meu relógio indicava dez para as nove quando, por fim, paramos. Meu companheiro desceu a vidraça, e eu pude então enxergar um vão de porta baixo e arqueado, com uma lâmpada acesa por cima. Fui empurrado da carruagem para a porta, que se abriu de repente, e achei-me no interior da casa. Entrei com a vaga sensação de ter passado por um relvado ladeado de árvores. "Dentro havia um candeeiro a gás colorido, tão baixo que apenas me permitia ver que o vestíbulo era amplo e que nas paredes havia quadros. À luz fosca, pude descobrir que a


pessoa que abrira a porta era um homem baixo, de meia-idade, aspecto mesquinho e ombros encurvados. Quando virou para nós o feixe de luz, reparei que usava óculos. "— É o sr. Melas, Harold? — perguntou. "— É. "— Muito bem! Muito bem! Conto com sua boa vontade, sr. Melas, pois não podíamos prosseguir sem o senhor. Se proceder bem comigo, não terá razão de queixa; mas se tentar algum truque, Deus o ajude! "Falava aos supetões, com risadas escarninhas, mas causou-me mais medo do que o outro. "— O que quer de mim? — perguntei. "— Quero apenas que faça algumas perguntas a um cavalheiro grego que está de visita, e que nos dê as respostas. Mas não diga mais do que perguntarmos, ou — aqui apareceu de novo a zombaria nervosa — melhor seria não ter nascido. "À medida que ia falando, abriu a porta e indicou o caminho para uma sala que parecia ser luxuosamente mobiliada — mas também iluminada por uma única luzinha fraca. A sala era certamente muito grande, e a maneira como meus pés se afundaram no tapete, quando entrei, sugeriu-me riqueza. Tive uma rápida visão de cadeiras guarnecidas de veludo, de um alto consolo de lareira, em mármore branco, e, ao lado, o que parecia ser uma armadura japonesa. Havia uma cadeira precisamente debaixo do candeeiro, e o velho fez sinal para que me sentasse nela. O mais novo deixou-nos, mas voltou de repente, por outra porta, acompanhando um cavalheiro que trajava uma espécie de roupão solto e se moveu lentamente para nosso lado. Quando entrou no círculo da luz frouxa, que me permitiu vê-lo mais claramente, senti um estremecimento de horror perante sua aparência. Estava mortalmente pálido e terrivelmente macilento, com os olhos brilhantes e salientes de um homem cujo espírito é maior do que sua resistência. Porém, mais do que qualquer outro sinal de fraqueza física, chocou-me o fato de seu rosto se encontrar grotescamente enfaixado em linhas cruzadas, e um grande pedaço dessa bandagem tapava-lhe a boca.

"— Tem aí a lousa, Harold? — perguntou o mais velho, quando aquele estranho ser mais caiu do que se sentou na cadeira. — Tem as mãos soltas! Então dê-lhe um giz. O senhor deve fazer as perguntas, sr. Melas, e ele escreverá as respostas. Pergunte-lhe, antes de tudo, se está preparado para assinar os papéis. "Os olhos do homem lançaram chispas de fogo. "— Nunca — escreveu ele, em grego, na lousa de ardósia. "— Sob nenhuma condição? — perguntei, por ordem de nosso tirano.


"— Só se a vir casar, na minha presença, por um sacerdote grego que conheço. "O homem sorriu nervoso, de modo maligno. "— Sabe o que o espera, então? "— Não me importo comigo. "Essa é uma amostra das perguntas e respostas que, meio ditas e meio escritas, foram feitas a nosso estrangeiro. Eu tinha que lhe perguntar constantemente se queria dar-se por vencido e assinar o documento. E de novo vinha a mesma resposta indignada. Mas, nesse momento, ocorreu-me uma idéia feliz. Passei a acrescentar pequenas frases a cada pergunta — inocentes a princípio, para ver se algum de meus companheiros percebia alguma coisa, e então, como não mostrassem sinal de compreender, arrisquei um jogo perigoso. Nossa conversa passou a decorrer mais ou menos assim: "— Não há vantagem nenhuma nessa obstinação. Quem é o senhor? "— Não me importo. Um estrangeiro em Londres. "— Tem seu destino sobre sua cabeça. Há quanto tempo está aqui? "— Que seja. Há três semanas. "— A propriedade nunca poderá ser sua. O que o aflige? "— Não será de bandidos. Estão me matando de fome. "— Ficará livre se assinar. Que casa é esta? "— Nunca assinarei. Não sei. "— O senhor não está lhe prestando qualquer benefício. Como se chama? "— Quero ouvi-la dizer isso. Kratides. "— Se assinar, vê-la-á. De onde é o senhor? "— Então nunca a verei. Atenas.

"Com mais cinco minutos, sr. Holmes, eu teria arrancado toda a história, bem nas barbas deles. Minha próxima pergunta poderia ter esclarecido o assunto, mas nesse momento a porta se abriu e uma mulher entrou na sala. Pelo que pude ver àquela luz, reparei que era alta e muito graciosa, de cabelos pretos, e vestia uma espécie de roupão branco e solto.


"— Harold! — disse ela com uma má pronúncia do inglês. — Eu não podia continuar lá longe. É tão solitário lá em cima, só com... Oh! meu Deus, é Paulo. "Estas últimas palavras foram pronunciadas em grego e, no mesmo instante, o homem, com um esforço convulsivo, arrancou a faixa que lhe tapava a boca e gritou: — Sofia! Sofia! — E precipitou-se para os braços da mulher. No entanto, seu abraço durou apenas um instante, pois o mais novo agarrou a mulher e arrastou-a para fora do aposento, enquanto o mais velho subjugava facilmente a vítima macilenta, arrastando-a por outra porta. Por momentos, eu podia, de certo modo, conseguir um indício da casa onde me encontrava. Mas não dei um passo sequer porque, olhando para cima, vi que o mais velho permanecia de pé no vão da porta, os olhos fitos em mim. "— Basta por hoje, sr. Melas — disse ele, — O senhor compreende que o consultamos para um negócio muito especial. Não o teríamos incomodado se nosso amigo que fala grego e que começou estas negociações não tivesse sido forçado a regressar ao Oriente. Era absolutamente necessário descobrir alguém que tomasse seu lugar e, por isso, ficamos satisfeitos quando ouvimos falar em suas qualidades.

"Eu lhe fiz uma vênia. "— Aqui tem cinco soberanos — disse ele, dirigindo-se a mim. — Penso que é suficiente. Mas lembre-se — acrescentou, batendo-me de leve no peito e rindo à socapa —, se falar nisso a alguém... a uma só alma que seja... Deus tenha compaixão da sua! "Não posso dar-lhe uma idéia justa da repulsa e horror que aquele homem de aspecto insignificante me inspirou. Pude vê-lo melhor, naquele momento, quando a luz do candeeiro brilhou sobre ele. Suas feições eram macilentas e pálidas, e a barba, pequena e pontiaguda, malcuidada. Inclinava a cara para a frente ao falar, e os lábios e pálpebras contorciam-se continuamente, como os de quem sofre da dança de São Vito. Não podia deixar de pensar que seu risinho pérfido era também sintoma de uma doença nervosa, mas o terror do semblante concentrava-se nos olhos cor de aço, friamente brilhantes, com uma crueldade maligna e inexorável em suas profundezas. "— Se o senhor falar, saberemos — disse ele. — Temos nossos próprios meios de informação. Pronto, a carruagem está à espera e meu amigo cuidará do senhor durante o caminho. "Precipitei-me para o vestíbulo, e depois para dentro do veículo, captando outra vez uma visão rápida de árvores e um jardim. O sr. Latimer seguiu rente a meus calcanhares e instalou-se à minha frente sem dizer palavra. Em silêncio, tornamos a percorrer aquela interminável distância, as janelas cerradas, até que, por fim, pouco depois da meia-noite, a carruagem parou. "— Tem que descer aqui, sr. Melas — disse meu companheiro. — Sinto deixá-lo tão longe de casa, mas não há outra alternativa. Qualquer tentativa de sua parte para seguir o carro só poderá trazer-lhe dissabores.


"Abriu a porta enquanto falava; mal saltei, o cocheiro chicoteou o cavalo e a carruagem partiu trepidando. Olhei em volta com espanto. Estava numa espécie de terreno cheio de urzes e moitas de arbustos. Ao longe, estendia-se uma linha de casas, com uma luz aqui e acolá nas janelas mais altas. Do outro lado viam-se as luzes vermelhas da sinalização de uma via férrea.

"A carruagem que me trouxera já se perdera de vista. Eu continuava de pé, olhando em volta e pensando onde estaria, quando alguém na escuridão se encaminhou para mim. Reparei então que era o guarda da linha. "— Pode dizer-me que lugar é este? — perguntei. "— Wandsworth Common — respondeu. "— Posso apanhar aqui um trem para a cidade? "— Se andar um quilômetro e meio, mais ou menos, até o entroncamento de Clapham, chegará precisamente a tempo de tomar o último para Victoria. "E assim termina minha aventura, sr. Holmes. Não sei onde estive, nem com quem falei. Sei apenas o que lhe contei, e que alguém está cometendo uma patifaria. Se pudesse, gostaria de ajudar aquele infeliz. Contei toda a história ao sr. Mycroft Holmes, esta manhã, e depois à polícia." Todos ficamos em silêncio perante tão extraordinária narrativa. Passados alguns momentos, Sherlock Holmes olhou de viés para o irmão. — Haverá alguma coisa a fazer? — perguntou. Mycroft apanhou o Daily News, que estava sobre uma mesa, a nosso lado. — "Quem fornecer informações sobre o paradeiro de um cavalheiro grego chamado Paulo Kratides, de Atenas, que não sabe falar inglês, será recompensado. Igual recompensa será dada a quem prestar informações sobre uma senhora grega, cujo primeiro nome é Sofia. X 2473." Isto saiu em todos os jornais. Nenhuma resposta. — E quanto à legação grega? — Perguntamos. Não sabem nada. — E um telegrama para o comando da polícia de Atenas? — Sherlock possui toda a energia da família — disse Mycroft, voltando-se para mim. — Encarrega-se sem dúvida do caso. — E, dirigindo-se ao irmão: — Se houver alguma coisa a fazer, diga-me.


— Com certeza — respondeu meu amigo, levantando-se da cadeira. — E informarei ao sr. Melas também. Entrementes, sr. Melas, se fosse o senhor, ficaria de sobreaviso, já que eles devem saber por estes anúncios que foram traídos. Ao voltarmos para casa, Sherlock parou no telégrafo e expediu diversos telegramas. — Como vê, Watson — observou —, nossa tarde não foi de todo desperdiçada. Alguns de meus casos mais interessantes surgiram-me por intermédio de Mycroft. O caso que acabamos de ouvir, embora só possa admitir uma explicação, tem ainda características especiais. — Espera resolvê-lo? — Sabendo o que sabemos, seria estranho se fracassássemos na descoberta do resto. Você próprio já deve ter formado uma hipótese para explicar os fatos que acabamos de ouvir. — Sim, mas de maneira vaga. — Então qual é sua idéia? — Parece-me evidente que essa jovem grega foi raptada pelo jovem inglês que se chama Harold Latimer. — Raptada de onde? — De Atenas, talvez. Sherlock abanou a cabeça negativamente. — Aquele rapaz não sabe uma palavra de grego; a moça fala sofrivelmente inglês; conclusão: ela está na Inglaterra há algum tempo, e ele nunca esteve na Grécia. — Bem, então temos que admitir que ela veio visitar a Inglaterra, e que esse Harold convenceu-a a fugir com ele. — É o mais razoável. — Então o irmão, porque creio que deve ser esse o parentesco, veio da Grécia para interferir. Imprudentemente, caiu em poder do jovem e do sócio mais velho, que o agarraram e empregaram mesmo a violência para obrigá-lo a assinar alguns papéis, transferindo a fortuna da moça para eles. Ele, que talvez até fosse o procurador da irmã, recusou cumprir o que lhe exigiam. Entretanto, para negociarem com o grego, os dois sócios foram obrigados a arranjar um intérprete, e procuraram o sr. Melas, depois de utilizar um outro. A moça, entretanto, não foi informada da chegada do irmão, vindo a descobri-lo por mero acidente. — Excelente, Watson — exclamou Holmes. — Parece-me que você não está longe da verdade. Vê que temos todas as cartas, e só podemos temer algum oculto ato de violência da parte deles. Se nos derem tempo, nós os apanharemos.


— Mas como descobriremos onde fica a casa? — Ora, se nossa conjetura estiver certa, o nome da moça é, ou era, Sofia Kratides; não teremos, nesse caso, dificuldade em seguir-lhe a pista. Deve ser essa nossa principal esperança, porque o irmão é um perfeito estrangeiro, completamente desconhecido. É claro que já deve ter se passado algum tempo, desde que esse tal Harold estabeleceu relações com a moça... algumas semanas, pelo menos, o suficiente para que o irmão, na Grécia, soubesse e viesse para cá. Se, durante esse tempo, moraram no mesmo lugar, é provável que tenhamos resposta ao anúncio de Mycroft.

Assim conversando, chegamos à nossa casa da Baker Street. Holmes, que subiu a escada à minha frente, deu um grito de surpresa quando abriu a porta. Olhando por cima de meu ombro, fiquei igualmente cheio de espanto. Seu irmão Mycroft lá estava fumando, sentado numa poltrona. — Entre, Sherlock! Entre, senhor — disse amavelmente, sorrindo de nossas caras pasmadas. — Não esperava tal energia de mim, não é verdade, Sherlock? Mas este caso atrai-me um bocado. — Mas como você veio até aqui? — Adiantei-me a vocês tomando uma carruagem de aluguel. — E há alguma novidade? — Recebi uma resposta ao anúncio. — Ah, sim?! — Chegou alguns minutos depois de saírem. — E o que é? Mycroft puxou uma folha de papel. — Ei-la — disse —, escrita com pena J em papel creme-real, mas por um homem de meia-idade e de compleição fraca. "Senhor, em resposta ao anúncio com data de hoje, quero informá-lo de que conheço muito bem a jovem em questão. Se me quiser visitar, dar-lhe-ei alguns pormenores de sua dolorosa história. Presentemente, ela mora em The Myrties, Beckenham. Ao seu dispor, J. Davenport." "Escreve da Lower Brixton", disse Mycroft Holmes. "Não acha que podíamos ir visitá-lo já, Sherlock, para conhecermos esses pormenores?" — Meu caro Mycroft, a vida do irmão tem mais valor do que a história da irmã. Sou de opinião que devemos chamar o inspetor Gregson da polícia e seguirmos direto para Beckenham. Sabemos que esse homem corre o risco de ser morto, e cada hora que passe pode ser vital.


— É melhor ir buscar o sr. Melas, a caminho — sugeri —, pois podemos precisar de um intérprete. — Ótimo — disse Sherlock Holmes. — Mande o rapaz chamar um carro, e sairemos imediatamente. — Enquanto falava, abriu a gaveta da secretária e notei que, secretamente, meteu o revólver no bolso. — Sim — disse em resposta a meu olhar —, pelo que ouvimos, creio que se trata de um bando particularmente perigoso. Já era quase noite quando chegamos à Pall Mall, à casa do sr. Melas. Um cavalheiro já o havia procurado, e ele saíra. — Pode me dizer para onde? — perguntou Mycroft Holmes. — Não sei, senhor — respondeu a mulher que abrira a porta. — Sei apenas que ele partiu com um cavalheiro, numa carruagem. — O cavalheiro deu o nome? — Não, senhor. — Não era um rapaz alto, bonito e moreno? — Oh, não, senhor; era um senhor baixo, de óculos, magro de rosto, mas de maneiras muito agradáveis porque sorria sempre, enquanto falava. — Vamos! — gritou Sherlock Holmes, abruptamente. — Isto está ficando sério! — observou, quando nos dirigíamos para a Scotland Yard. — Eles apanharam o sr. Melas outra vez, e Melas não é homem de grande coragem física, como eles muito bem viram pela experiência da outra noite. Esses malandros vão aterrorizá-lo assim que ele chegar à sua presença. Não há dúvida de que querem seus serviços profissionais; mas, depois de se utilizarem dele, são capazes de querer puni-lo pelo que consideram uma traição. Nossa esperança era chegar a Beckenham antes da carruagem, tomando o trem. Passamos pela Scotland Yard, onde perdemos mais de uma hora para descobrir o inspetor Gregson e completar as formalidades que nos habilitariam a entrar na casa. Já era um quarto para as dez quando chegamos à Ponte de Londres, e quatro e meia quando descemos na estação de Beckenham. Uma corrida de oitocentos metros levounos a The Myrties — uma casa grande e escura, construída no meio de um extenso terreno. Aí, dispensamos o carro e seguimos pelo caminho. — As janelas estão todas escuras — observou o inspetor. — A casa parece desabitada. — Nossos pássaros bateram asas e deixaram o ninho vazio — disse Holmes. — Por que diz isso? — Uma carruagem pesadamente carregada de bagagem passou por aqui há uma hora.


O inspetor sorriu. — Vejo os rastos das rodas à luz do candeeiro do portão, mas onde está a bagagem? — Pode-se observar os mesmos rastos de rodas seguindo o outro caminho, mas os que partiram daqui são muito mais fundos, tanto que podemos dizer, sem errar, que havia um peso considerável na carruagem. — O senhor ultrapassa-me um pouco — disse o inspetor, encolhendo os ombros. — A porta não será fácil de forçar, mas experimentaremos se não encontrarmos alguém que a abra. Martelou fortemente a aldraba e tocou a sineta, mas sem resultado. Holmes afastou-se um pouco, regressando quase em seguida. — Abri uma janela — disse ele. — É uma sorte que o senhor esteja ao lado da lei, e não contra ela, sr. Holmes — observou o inspetor, notando a maneira hábil como meu amigo forçou as costas da tramela. — Bem, creio que em tais circunstâncias podemos entrar sem esperar convite. Uns atrás dos outros, entramos numa grande sala, que evidentemente era a mesma em que estivera o sr. Melas. O inspetor acendeu sua lâmpada, e pudemos ver as duas portas, a cortina, o candeeiro e a armadura japonesa, tal como ele os havia descrito. Em cima da mesa estavam dois copos, uma garrafa de aguardente vazia e os restos de uma refeição. — O que é isso? — perguntou Holmes de repente. Todos nos imobilizamos e ouvimos. Um som baixo, gemente, vinha de algum lugar por cima de nossas cabeças. Holmes dirigiu-se para a porta e entrou no vestíbulo. O barulho triste vinha de cima. Sherlock precipitou-se para lá; o inspetor e eu seguimos-lhe os passos, enquanto o irmão, Mycroft, nos seguia tão depressa quanto lhe permitia sua corpulência.

No segundo andar, deparamos com três portas; no entanto, era da porta do meio que vinham aqueles sons sinistros, que ora mergulhavam num pesado resmungo, ora se erguiam, de novo, num lamento penetrante. Estava trancada, mas a chave ficara do lado de fora. Holmes abriu-a e entrou; saiu precipitadamente, rápido, com as mãos na garganta. — É carvão! — gritou. — Dêem-lhe tempo. Vai se dissipar. Espreitando para dentro, podíamos ver que a única luz do quarto provinha de uma chama frouxa e azul que tremeluzia num trípode de bronze, ao centro. Projetava um círculo estranho e lívido sobre o soalho, enquanto na sombra, mais além, víamos a silhueta vaga de duas figuras, agachadas junto da parede. Da porta aberta saiu uma exalação horrível e venenosa, que nos fazia arfar e tossir. Holmes correu para o vértice


da escada para respirar ar fresco; depois, atirando-se para dentro da sala, abriu a janela e arremessou o trípode de bronze para o jardim. — Poderemos entrar dentro de um minuto — arfou, correndo para fora outra vez. — Onde está a vela? Duvido que possamos acender um fósforo nesta atmosfera. Segure a luz, aqui à porta, para nós os tirarmos dali, Mycroft. Agora!

De um salto, alcançamos os homens envenenados e arrastamo-los para o terraço. Ambos tinham os lábios azuis e insensíveis, as faces inchadas e congestionadas e os olhos saídos das órbitas. Na verdade, tão desfigurados estavam seus traços que, se não fosse a barba preta e a corpulenta figura, não seríamos capazes de reconhecer num deles o intérprete grego, que se separara de nós algumas horas antes, no Clube Diógenes. Tinha as mãos e os pés fortemente atados, e ostentava, sobre os olhos, a marca de um violento soco. O outro, amarrado da mesma forma, era alto e estava na última fase do emagrecimento; além disso, várias tiras de bandagem estavam grotescamente grudadas na parte superior do seu rosto. Deixou de gemer quando o desamarramos, mas, num relance, reparei que para ele nosso auxílio tinha chegado demasiadamente tarde. Entretanto, o sr. Melas ainda vivia e, em menos de uma hora e graças ao emprego de aguardente e amoníaco, tivemos a satisfação de vê-lo de olhos abertos e verificar que, pela minha mão, se libertara do vale da sombra, onde todos os caminhos se encontram. A história que tinha para contar era simples, e confirmou nossas deduções. Seu visitante, ao entrar em sua casa, tirou da manga um bastão carregado de chumbo e impressionou-o de tal modo com a ameaça de uma morte instantânea e inevitável que, tirando partido de seu pavor, o raptou pela segunda vez. Com efeito, era quase magnético o poder que aquele rufião zombeteiro exercia sobre o infortunado lingüista, já que não era capaz de falar nele sem que suas mãos tremessem e ele empalidecesse. Fora levado rapidamente para Beckenham, e atuara como intérprete numa segunda entrevista, ainda mais dramática do que a primeira, e na qual os dois ingleses haviam ameaçado seu prisioneiro de morte instantânea caso não concordasse com suas exigências. Por fim, achando-o irredutível contra a ameaça, arremessaram-no para aquela prisão, censurando depois Melas por sua traição, evidente devido ao anúncio nos jornais. Deram-lhe então uma forte bengalada, e não se lembrava de mais nada até nos encontrar ali curvados sobre ele. E foi este o singular caso do intérprete grego; sua explicação continua envolvida em mistério. Pudemos descobrir, por uma conversa com o cavalheiro que respondera ao anúncio, que a infortunada moça pertencia a uma rica família grega e estivera de visita a alguns amigos, na Inglaterra. Encontrara então um jovem chamado Harold Latimer, que adquiriu ascendência sobre ela, chegando a convencê-la a fugir com ele. Os amigos, chocados com o acontecimento, limitaram-se a informar o irmão, em Atenas, e lavaram as mãos em relação ao assunto. Por sua vez, o irmão, ao chegar à Inglaterra, colocara-se imprudentemente sob o domínio de Latimer e seu cúmplice, cujo nome era Wilson Kemp — um homem com os piores antecedentes. Os dois, descobrindo que, pela ignorância da língua, ele era impotente em suas mãos, conservaram-no prisioneiro e


esforçaram-se, servindo-se de crueldade e inanição, para obrigá-lo a assinar a desistência de sua propriedade e da de sua irmã. Tinham-no depois mantido preso naquela casa, sem que a irmã o suspeitasse, e a bandagem no rosto destinava-se a dificultar seu reconhecimento caso ela viesse a encontrá-lo. No entanto, a intuição da moça levou-a a reconhecê-lo por trás de tal disfarce quando, por ocasião da primeira visita do intérprete, o viu acidentalmente. Mas a moça era também uma prisioneira, já que mais ninguém vivia naquela casa, exceto o homem que desempenhava o papel de cocheiro e sua mulher, ambos cúmplices dos bandidos. Descobrindo que seu segredo já era conhecido e que o prisioneiro se mostrava irredutível, os dois meliantes, levando a moça, fugiram da casa que tinham alugado, tendo-se antes vingado, como pensavam, tanto do homem que os desafiara como do que os traíra. Meses depois, chegou-nos de Budapeste um curioso recorte de jornal. Contava como dois ingleses, que viajavam com uma mulher, haviam encontrado um trágico fim. Parece que tinham sido apunhalados, e a polícia húngara era de opinião que se feriram um ao outro mortalmente durante uma luta. Creio, porém, que Holmes pensa diferentemente, sustentando até que, se alguém pudesse falar com a jovem grega, saberia como seus sofrimentos e os de seu irmão chegaram a ser vingados.

Arthur Conan Doyle 10- O tratado naval Título original: The Naval Treaty Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1892. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Naval Treaty publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

O mês de julho, logo a seguir a meu casamento, tornou-se memorável por três casos de interesse, devido aos quais tive o privilégio de me associar a Sherlock Holmes e ao estudo de seus métodos. Encontrei-os registrados em minhas notas, sob os títulos de A aventura da segunda mancha, O tratado naval e A aventura do capitão cansado. A primeira dessas histórias, porém, trata de tão importantes interesses e envolve tantas das principais famílias do reino, que sua publicação será impossível por muitos anos. Não obstante, nenhum outro caso tratado por Sherlock Holmes ilustra tão eloqüentemente o valor de seus métodos analíticos ou impressiona tão fortemente os que com ele se associaram. Conservo ainda, quase palavra por palavra, uma reportagem com a entrevista em que ele esclareceu os verdadeiros fatos do caso a M. Dubuque, da polícia


de Paris, e a Fritz von Waldbaum, o célebre especialista de Dantzig, que tinham gasto suas energias no que veio a ser apenas um resultado parcial. Mas, quando se puder contar a história em segurança, certamente já terá chegado o novo século, Enquanto isso, passo à segunda história de minha lista, a qual também se revelou de extrema importância, vindo a ficar marcada Por diversos incidentes que lhe dão um caráter único. Durante meu tempo de escola, tive como amigo íntimo um rapaz chamado Percy Phelps, quase da mesma idade que eu, embora estivesse dois anos mais adiantado. Era um menino muito brilhante e alcançou todos os prêmios que a escola tinha para oferecer, coroando suas façanhas ao ganhar uma bolsa de estudos que lhe permitiu continuar em Cambridge sua série de triunfos. Pertencia, lembro-me perfeitamente, a uma família muito boa e, ainda pequenos, já sabíamos que o irmão de sua mãe era lorde Holdhurst, o grande político conservador. Este brilhante parentesco trouxe-lhe, no entanto, poucas vantagens na escola; parecia-nos até divertido bater nele, no campo de jogos, e golpearlhe as canelas com o taco de críquete. Mas quando saiu para o mundo, tudo se tornou diferente. Ouvi dizer que suas aptidões e a influência que exercia sua família lhe haviam granjeado uma boa colocação no Ministério do Exterior, e então perdi-lhe o rasto até que a carta que se segue me relembrou sua existência.

"Briarbrae, Woking Meu caro Watson, Não tenho dúvidas de que ainda deve se lembrar de 'Tadpole' [1] Phelps, que freqüentava o quinto ano quando você estava no terceiro. É até possível que tenha ouvido dizer que, por influência de meu tio, consegui uma ótima colocação no Ministério do Exterior. Estava realmente num lugar de confiança, de honra mesmo, quando uma horrível desgraça me destruiu a carreira. Não vale a pena descrever os pormenores deste terrível acontecimento; no entanto, se aceder a meu pedido, terá possivelmente de ouvi-los. Acabo de me restabelecer de uma febre cerebral que durou nove semanas, e estou ainda excessivamente fraco. Acha que seria possível trazer seu amigo, o sr. Holmes, para uma visita? Gostaria de saber a opinião dele sobre o caso, embora as autoridades me assegurem que nada mais se pode fazer. Procure trazê-lo tão depressa quanto possível. Cada minuto parece uma hora para quem vive nesta horrível incerteza. Assegure-lhe que, se não pedi conselho mais cedo, não foi por desconhecer seus talentos, mas porque tenho estado positivamente fora de mim desde que o caso estourou. Agora já estou consciente, embora não me atreva a pensar muito no assunto, com medo de uma recaída. Ainda estou tão fraco que sou obrigado a ditar, como vê, minhas cartas. Tente trazê-lo. Seu antigo colega, Percy Phelps." Havia alguma coisa, nessa carta, que me tocou quando a li, algo lamentável nos reiterados apelos para levar Holmes. Tão comovido fiquei que decidi que tentaria; mas certamente eu sabia que Holmes amava tanto sua arte que estava sempre pronto a prestar seu auxílio quando o cliente dele necessitava. Minha mulher concordou em que


não se podia perder um momento para apresentar o caso a Sherlock Holmes. Assim, uma hora depois do café da manhã, eu já me encontrava, uma vez mais, na antiga casa da Baker Street.

Holmes ainda estava de roupão, sentado junto à mesa e duramente empenhado numa experiência química. Uma grande retorta fervia furiosamente sobre a chama azulada de um bico de Bunsen. Gotas destiladas iam se condensando numa medida de dois litros. Meu amigo quase nem me olhou quando entrei, e eu, vendo que a experiência devia ser de muita importância, sentei-me numa poltrona e esperei. Ele pegava nesta ou naquela garrafa, tirando de cada uma algumas gotas com sua proveta de vidro. Finalmente, tirou de cima da mesa um tubo de ensaio contendo uma solução; tinha na mão direita uma tira de papel de tornassol. — Você chegou no momento crítico, Watson — disse. — Se este papel continuar azul, tudo está bem. Se ficar vermelho, significa a vida de um homem. — Mergulhou-o na proveta e a tira enrubesceu-se imediatamente, num vermelho pesado e sujo. — Hum! Já calculava — exclamou. — Estarei às suas ordens num instante, Watson. Voltou para a escrivaninha e rabiscou alguns telegramas que entregou ao rapaz. Atirouse então para uma cadeira em frente da minha e levantou os joelhos até conseguir entrelaçar os dedos, abraçando as pernas longas e delgadas. — Um pequeno assassinato, bem vulgar — disse ele. — Parece-me que você descobriu algo melhor, Watson. O que é? Passei-lhe a carta, que leu com a mais concentrada atenção. — Mas não nos diz muita coisa, não é verdade? — observou ao devolvê-la. — Quase nada. — No entanto, a caligrafia é interessante. — Mas não é a dele. — Evidentemente. É de mulher. — É de homem, sem dúvida alguma — exclamei. — Não. É de mulher, e de mulher de raro caráter. Você sabe, no início de uma investigação já é alguma coisa saber que o cliente está em íntimas relações, para o bem ou para o mal, com alguém de natureza excepcional. Meu interesse pelo caso já foi despertado. Se estiver pronto, partiremos imediatamente para Woking, a fim de visitarmos esse diplomata metido num caso tão sério e essa senhora a quem ele dita suas cartas.


Tivemos sorte, porque não tardamos a encontrar um trem em Waterloo, e em pouco menos de uma hora rodávamos entre os pinheirais e as charnecas de Woking. Briarbrae era uma mansão grande e isolada, no centro de extensas propriedades, a poucos minutos da estação. Ao entregarmos nossos cartões de visita, fomos introduzidos numa espaçosa sala de estar, elegantemente mobiliada. Fomos recebidos por um homem robusto, de encantadora hospitalidade. Devia ter cerca de. quarenta anos, mas ao mesmo tempo suas bochechas eram tão vermelhas e seus olhos, tão alegres que lembrava um grande menino rechonchudo e travesso. — Sua presença nesta casa dá-me muita alegria — disse, apertando-nos as mãos efusivamente. — Percy tem perguntado pêlos senhores toda a manhã. Ah, pobre rapaz, agarra-se a qualquer tábua de salvação. Os pais dele pediram-me que recebesse os senhores, porque a simples menção do assunto lhes é penosa. — Nada sabemos ainda — observou Holmes. — Vejo, no entanto, que o senhor não pertence à família. O sujeito pareceu surpreso e, baixando os olhos, começou a rir. — Naturalmente, o senhor viu meu monograma, J. H., em minha medalha — disse. — Por momentos, pensei que tivesse usado um truque. Meu nome é Joseph Harrison e, como Percy vai casar com minha irmã, seremos contraparentes pelo casamento. Encontrará minha irmã no quarto dele, pois é ela que o tem tratado durante estes últimos dois meses. Talvez seja melhor irmos já; Percy está impaciente.

O aposento onde entramos era no mesmo andar. Estava mobiliado como sala e como quarto. Nos cantos, havia flores dispostas com gosto. Um rapaz muito pálido e abatido estava deitado num sofá, perto de uma janela aberta, por onde entrava a fragrância do jardim e do ar embalsamado de verão. Uma jovem, sentada junto dele, levantou-se quando entramos. — Quer que me retire, Percy? — perguntou ela. Ele agarrou-lhe a mão para detê-la. — Como está, Watson? — disse cordialmente. — Não seria capaz de reconhecê-lo com esse bigode. Esse, creio eu, deve ser seu famoso amigo Sherlock Holmes. Apresentei-os em poucas palavras, e ambos nos sentamos. O jovem robusto saíra, mas a irmã ficou ainda com a mão na do doente. Era uma mulher de aparência atraente, um pouco baixa e gorda — talvez por uma questão de proporção —, mas de bela compleição, olhos italianos, grandes e negros, e um cabelo maravilhoso, de um preto profundo. Suas belas cores tornavam ainda mais desbotado e macilento, por comparação, o rosto branco e magro de seu companheiro.


— Não abusarei de seu tempo — disse ele, erguendo-se no sofá. — Entrarei sem mais preâmbulos no assunto, sr. Holmes. Eu era um homem feliz e muito bem-sucedido, e estava em vésperas de me casar quando a desgraça me arruinou todas as perspectivas de vida. "Trabalhava, como talvez Watson já lhe tenha dito, no Ministério do Exterior, e, por influência de meu tio, lorde Holdhurst, subi rapidamente a uma posição de responsabilidade. Quando meu tio passou a ministro do Exterior, encarregou-me de diversas missões de confiança, e, visto que eu as levei sempre a uma conclusão feliz, acabou por confiar inteiramente em minha habilidade e tato. "Há quase dez semanas — para ser mais exato, no dia 23 de maio —, meu tio chamoume a seu gabinete privado e, depois de me felicitar pelo bom trabalho que havia feito, informou-me de que me reservara uma nova missão.

"— Isto — disse ele, tirando um rolo de papel cinzento da gaveta de sua secretária — é o original do tratado secreto entre a Inglaterra e a Itália, em relação ao qual, sinto dizer, circulam na imprensa algumas indiscrições. É necessário que nada mais transpire. As embaixadas russa e francesa pagariam uma soma imensa para saber o conteúdo destes papéis. Não sairiam da minha secretária se não fosse necessário copiá-los. Você tem uma escrivaninha em seu escritório? "— Tenho, senhor. "— Então, leve o trabalho e feche-o à chave. Darei ordens para que você fique depois de os outros saírem, de modo a que possa copiá-lo à vontade sem receio de ser espiado. Quando acabar, torne a fechar o original e a cópia em sua escrivaninha, e entregue-os pessoalmente a mim, amanhã de manhã. "Peguei nos papéis e..." — Um momento — interrompeu Holmes. — Estiveram sós durante a conversa? — Sem dúvida nenhuma. — Numa sala grande? — Nove metros de cada lado. — Estavam no centro? — Sim, mais ou menos. — E falando baixo? — A voz de meu tio é sempre baixa, e eu não disse uma palavra.


— Muito obrigado — disse Holmes, fechando os olhos. — Continue, por favor. — Fiz exatamente o que tinha recomendado e esperei até que os outros saíssem. Um deles, que trabalha em minha sala, Charles Gorot, tinha uma tarefa atrasada, de modo que o deixei lá e fui jantar. Quando regressei, ele já se fora. Eu estava ansioso para adiantar o trabalho, porque sabia que Joseph Harrison, que os senhores viram agora mesmo, estava em Londres e viria para Woking no trem das onze, que eu também queria alcançar. "Quando iniciei a cópia do tratado, verifiquei logo que era de tal importância que meu tio não exagerara no que dissera. Sem entrar em pormenores, posso dizer que definia a posição da Grã-Bretanha para com a Tríplice Aliança, e esclarecia a atitude do país na eventualidade de a frota francesa ganhar completa ascendência sobre a Itália no Mediterrâneo. Os assuntos de que tratava eram puramente navais, e encontravam-se no fim as assinaturas dos altos dignitários. "Era um documento muito longo: vinte e seis artigos distintos, escritos em francês. Eu copiava tão depressa quanto me era possível, mas às nove horas não copiara mais de nove artigos, de modo que me pareceu inútil tentar apanhar o trem das onze. Sentia-me sonolento e obtuso, em parte por causa do jantar, em parte devido a um longo dia de trabalho. Uma xícara de café me aclararia as idéias. Um guarda passa a noite num pequeno compartimento junto da escada, e costuma fazer café em sua espiriteira para qualquer funcionário que faça horas extraordinárias. Portanto, toquei a campainha para chamá-lo, e grande foi minha surpresa quando uma mulher apareceu. "Era uma velha alta, grande, de semblante grosseiro, e vestia um avental. Explicou-me que era a mulher do guarda, e fazia a limpeza. Pedi-lhe então o café. "Copiei ainda mais dois artigos, e comecei a sentir-me tão sonolento que me levantei e andei para cá e para lá na sala para desentorpecer as pernas. O café ainda não viera e eu pensava qual seria a causa da demora. Abri a porta e desci pelo corredor para investigar. É um corredor retilíneo, única saída da sala onde eu estava trabalhando, e que terminava em uma escada em curva, com o compartimento do guarda ao fundo. A meio caminho dessa escada, há um patamar onde se entronca outra passagem em ângulo reto. Uma segunda escada conduz então a uma porta lateral, utilizada pêlos contínuos e pelo pessoal que entra pela Charles Street. Eis uma planta grosseira do local."

— Muito obrigado. Compreendo perfeitamente. — É da máxima importância que o senhor note esse ponto. Desci a escada e entrei no compartimento, onde encontrei o guarda profundamente adormecido em sua cadeira, a chaleira fervendo com estrépito sobre a chama da espiriteira. Estendi a mão e ia sacudir o homem, quando a campainha retiniu sobre sua cabeça e ele acordou com um susto.

"— Sr. Phelps! — disse, olhando-me, atrapalhado.


"— Desci para ver se meu café estava pronto. "— Eu estava fervendo a água quando adormeci, senhor. "Olhou para mim e depois para a campainha, que continuava a tinir; em seu rosto estampava-se um espanto crescente. "— Se o senhor está aqui, quem estará tocando a campainha? — perguntou. "— Que campainha? — disse eu. "— A da sala onde o senhor está trabalhando. "Tive a sensação de que uma mão gelada me apertava o coração. Alguém estava na sala onde, sobre uma mesa, jazia meu trabalho. Corri como louco escada acima e ao longo do corredor. Ninguém no corredor, sr. Holmes. Ninguém na sala. Estava tudo exatamente como eu deixara, exceto os documentos deixados ao meu cuidado, que haviam desaparecido de sobre a mesa. A cópia estava lá, mas o original..."

Holmes levantou-se e esfregou as mãos. Reparei que o assunto já o fascinava. — E o que o senhor fez então? — murmurou. — Deduzi num instante que o ladrão utilizara a escada da porta lateral. Se tivesse vindo pelo outro caminho, eu o teria encontrado. — O senhor convenceu-se de que ele não poderia ter se ocultado na sala ou até no corredor, que descreveu como fracamente iluminado? — Era absolutamente impossível. Nem um rato poderia se esconder na sala ou no corredor. Não há lugar que possa servir de esconderijo. — Muito obrigado. Continue, por favor. — O guarda, notando pela palidez de meu rosto que se passava algo de muito grave, seguira-me escada acima. Corremos então ambos pelo corredor e descemos a escada que dá para a Charles Street. A porta da rua estava fechada mas destrancada. Abrimo-la e saímos. Lembro-me muito bem de que o sino de uma igreja vizinha dava, nesse momento, três badaladas. Faltava um quarto para as dez. — Isso é da maior importância — disse Holmes, tomando nota no punho da camisa. — A noite estava muito escura, e caía uma chuva quente e fina. Não se via vivalma na Charles Street, mas na Whitehall havia o grande movimento de costume. Caminhamos ao longo da calçada, tal como estávamos, sem chapéu, e à esquina encontramos um policial.


"— Acabaram de cometer um roubo — arfei. — Um documento de imenso valor foi roubado do Ministério do Exterior. Reparou se alguém passou por aqui? "— Estou aqui há um quarto de hora, senhor, e vi apenas uma mulher alta, já de idade, com um xale escocês. "— É minha mulher — exclamou o guarda. — Não passou mais ninguém? "— Mais ninguém. "— Então o larápio foi pelo outro caminho — disse o guarda, puxando-me pelo braço. "Mas não me convenci, e as tentativas que ele fez para me levar dali aumentaram minhas suspeitas. "— Que caminho tomou a mulher? — interpelei. "— Não sei. Apenas a vi passar, e como não tinha nenhum motivo especial para observá-la não reparei. Mas parecia que ia com pressa. "— Há quanto tempo foi isso? "— Cinco minutos, no máximo. "— O senhor está perdendo tempo, e cada minuto agora é de extrema importância — exclamou o guarda. — Acredite quando lhe digo que minha velha nada tem a ver com isso, e corramos ao outro extremo da rua. Se o senhor não quiser ir, irei eu. — E, dizendo isso, precipitou-se na direção oposta. "Mas num instante eu estava junto dele, e agarrei-o por um braço. "— Onde o senhor mora? "— Ivy Lane, 16, Brixton; mas não se deixe levar por uma falsa suposição, sr. Phelps. Venha até o fim da rua e vejamos se conseguimos descobrir alguma coisa. "Nada se perdia em seguir-lhe o conselho. Descemos ambos apressadamente. O policial acompanhava-nos. Porém, vimos apenas uma rua cheia de trânsito. Uma multidão ia e vinha, desejosa de encontrar um abrigo naquela noite chuvosa. Ninguém parecia estar ali há tempo suficiente para nos dizer quem teria vindo da Charles Street. "Voltamos então ao escritório e revistamos a escada e o corredor, sem resultado. O corredor é coberto por uma espécie de oleado, que mostra com muita facilidade qualquer impressão. Examinamo-lo com o máximo cuidado, mas não encontramos qualquer traço revelador." — Estava chovendo há muito tempo? — Desde as sete.


— Como se explica, então, que a mulher, ao entrar na sala às nove horas, não tenha deixado marcas de suas botas molhadas? — Estou contente por ter levantado essa questão. Ocorreu-me naquela altura. Mas as mulheres da limpeza têm o hábito de tirar as botas no cubículo do guarda e calçar chinelos. — Está bem. Não havia, portanto, qualquer sinal, apesar da noite de chuva! Essa série de acontecimentos é realmente de extraordinário interesse. O que fez em seguida? — Examinamos também a sala. Não havia possibilidade de uma porta secreta, e as janelas ficam todas a nove metros do chão. Além disso, ambas estavam fechadas por dentro. O tapete não permite a existência de qualquer alçapão, e o forro é do tipo comum, branco de cal. Aposto minha vida que quem roubou os papéis só pode ter entrado pela porta. — E a lareira? — Não há lareira. Há uma estufa. A corda da campainha é presa a um arame que fica bem à direita de minha secretária. Para tocá-la é necessário ir até junto da secretária. Mas por que esse desejo de tocar a campainha? É um mistério insolúvel. — Não há dúvida de que o caso é pouco comum. Mas quais foram seus passos seguintes? Quer dizer, examinou a sala para ver se o intruso deixara vestígios? Pontas de cigarro, uma luva esquecida, um alfinete ou qualquer outra coisa? — Não havia nada. — Nem cheiro? — Nunca pensei nisso. — Um cheiro de fumo seria de grande valor para nós, numa tal investigação. — Como nunca fumei, creio que, por isso mesmo, o teria sentido. Mas não havia qualquer espécie de indício. O único fato tangível era a mulher do guarda, a sra. Tangey, que abandonara o local. Ele não soube dar explicação para o fato, a não ser a de que a mulher costumava voltar para casa àquela hora. O policial e eu, supondo que a mulher tivesse tirado os papéis, concordamos em que o melhor seria alcançá-la antes que ela se desfizesse deles. "Nessa altura, o alarme já chegara à Scotland Yard, e o detetive Forbes veio imediatamente e tomou conta do caso com muita energia. Alugamos um carro fechado e, em meia hora, estávamos no endereço que nos fora dado. Uma moça que nos abriu a porta provou ser a filha mais velha da sra. Tangey. Sua mãe ainda não voltara. Entramos, pois, na sala da frente, e esperamos. "Dez minutos depois, bateram à porta, e aqui cometemos um erro grave, de que aliás me culpo. Em vez de nós a abrirmos, permitimos que a moça o fizesse. Ouvimo-la dizer: 'Mãe, dois homens estão à sua espera'. E imediatamente ouvimos uma correria


desorientada pelo corredor. Forbes empurrou de repente a porta, e ambos nos precipitamos para a cozinha. Mas a mulher chegara primeiro e olhava-nos com ar de desafio. Entretanto, reconheceu-me, e uma expressão de profundo espanto estampou-se em seu rosto.

"— Ora, é o sr. Phelps, do escritório! — exclamou. "— Vamos, vamos, quem pensou que éramos quando fugiu de nós? — perguntou o detetive. "— Julguei que eram os cobradores — disse. — Temos algumas dificuldades com um comerciante. "— Isso não esclarece7 o suficiente — respondeu Forbes, — Temos motivos para suspeitar de que a senhora se apoderou de um documento de grande importância no ministério, e que entrou aqui correndo com o fim de escondê-lo. Tem de vir conosco à Scotland Yard para ser interrogada. "Em vão a mulher protestou e resistiu. Chamou-se uma carruagem e voltamos, depois de procedermos a um exame da cozinha, e especialmente do fogão, para ver se ela teria se livrado dos documentos naquele instante em que estivera sozinha. Não havia, porém, sinais de cinza ou fragmentos. Quando chegamos à Scotland Yard, a mulher foi logo confiada a uma funcionária para ser revistada. Esperei, na agonia da incerteza, que esta voltasse com os papéis, mas nem sinal deles. "Então, pela primeira vez, todo o horror da minha situação desabou sobre mim. Até aquela altura eu agira, e a ação entorpecera-me o pensamento. Estava tão esperançado em reaver os documentos que nem ousara pensar no que aconteceria no caso de fracassar. Mas, naquele momento, nada mais havia a fazer, e tive tempo para avaliar minha situação. Foi horrível. Watson pode dizer como eu era uma criança nervosa e sensível na escola. É minha maneira de ser. Pensei em meu tio e em meus colegas. E na vergonha que cairia sobre ele, sobre mim e sobre todos os que se relacionavam comigo. Que importava que eu fosse a vítima de um extraordinário acidente? Não há desculpa para acidentes quando os interesses diplomáticos estão em jogo. Estava arruinado, escandalosa e desgraçadamente arruinado. Não tenho a menor idéia do que fiz, mas não duvido que tenha dado um espetáculo. Lembro-me, de modo vago, de um grupo de funcionários que me rodearam, esforçando-se por me acalmar. Um deles veio mesmo comigo, num carro, até Waterloo, e meteu-me no trem para Woking. Julgo que teria vindo todo o caminho comigo se o dr. Ferrier, que mora aqui perto, não viesse no mesmo trem. O médico foi muito simpático comigo e ainda bem que assim sucedeu, porque tive uma vertigem na estação e, quando cheguei a casa, parecia um louco. "O senhor pode imaginar como ficou esta casa quando, aos insistentes toques de campainha do médico, todos se levantaram e me viram naquele estado. A pobre Annie e minha mãe ficaram angustiadas. O dr. Ferrier falara com o detetive na estação, de modo que podia dar uma idéia do que se passara. Mas seu relato não melhorou as coisas. Era evidente que eu ia ficar doente por muito tempo, de modo que Joseph saiu deste alegre


quarto, que passou a servir de enfermaria para mim. Aqui fiquei na cama, sr. Holmes, por mais de nove semanas, inconsciente e delirando. Se a srta. Harrison não tivesse estado aqui e se não fosse o cuidado do médico, não estaria agora falando com o senhor. Ela cuidava de mim durante o dia, e uma enfermeira durante a noite, porque nos acessos de loucura eu era capaz de tudo. Lentamente minha razão foi voltando, mas foi só nestes últimos dias que recuperei a memória completamente. Às vezes, preferia que nunca tivesse voltado. A primeira coisa que fiz foi telegrafar ao sr. Forbes, encarregado do caso. Veio aqui e assegurou-me que, embora se tivesse feito tudo, não se descobrira o menor indício. O guarda e a mulher haviam sido interrogados de todas as formas, sem que se esclarecesse nada do assunto. "As suspeitas da polícia recaíram então sobre o jovem Gorot, que, como o senhor deve lembrar, ficara no escritório para um serviço extraordinário, naquela noite. Sua permanência ali e o nome francês eram realmente os dois únicos pontos que podiam levantar suspeitas. Mas a verdade é que eu só comecei a trabalhar depois de ele ter saído. A família dele é de origem huguenote e, por simpatia e tradição, tão inglesa como o senhor e eu. Nada se descobriu que o implicasse e, assim, desistiu-se do caso. Apelo agora para o senhor, sr. Holmes, como minha última esperança. Se o senhor me desiludir, minha honra e minha posição ficarão, para sempre, perdidas." O doente mergulhou nas almofadas, esgotado pela longa narrativa, e a enfermeira ministrou-lhe um estimulante. Em silêncio, Holmes recostou-se na cadeira, os olhos fechados, numa atitude que para um estranho poderia significar distração, mas que eu reconhecia ser de profunda meditação. — Sua narrativa foi tão explícita — disse por fim — que poucas perguntas me resta fazer. Mas há uma muito importante. Contou a alguém que tinha esse trabalho em mãos? — A ninguém. — Nem à srta. Harrison, por exemplo? — Não. Eu não voltei a Woking depois de ter recebido a ordem e começado a executála. — Nenhum de seus familiares foi, por acaso, visitá-lo? — Nenhum. — Sabiam alguns dos caminhos que davam para seu escritório? — Sim, todos sabiam. — Bem, mas realmente, se não falou a ninguém a respeito desse trabalho, todas estas perguntas são inúteis. — Eu nada disse, na verdade. — Sabe alguma coisa do guarda?


— Nada, a não ser que foi militar. — De que regimento? — Ouvi dizer que era o Coldstream Guards. — Muito obrigado. Tenho certeza de que conseguirei mais pormenores de Forbes. As autoridades são exímias na obtenção de informações, embora nem sempre as utilizem de forma proveitosa. Que coisa adorável é a rosa!... Dirigiu-se para a janela aberta e colheu uma bela rosa pendente, de cálice e haste musgosos, e demorou-se a admirar seu matiz vermelho e verde. Era para mim uma nova característica, porque nunca o vira interessar-se verdadeiramente pelas coisas da natureza. — Não há nada em que a dedução seja mais necessária como na religião — disse, apoiando-se na vidraça da janela, — Pelo raciocínio, pode ser construída como uma ciência exata. No entanto, nossa mais elevada certeza da bondade da Providência parece repousar nas flores. Todas as outras coisas, nossos dons, nossos desejos, nosso alimento, são realmente necessários à existência, essenciais mesmo. Mas esta rosa é uma coisa extra; seu perfume e sua cor são um encanto, não uma condição de vida. Só a bondade é que cria seres extras e, por isso, parece-me que temos muito a esperar das flores. Durante esta tirada, Percy Phelps e a enfermeira olharam-se com surpresa, e uma expressão de desapontamento estampou-se em seus rostos. Holmes caíra num devaneio, com uma rosa cheia de espinhos entre os dedos. Passados minutos, a moça o interrompeu, com aspereza. — O senhor vê alguma possibilidade de resolver esse mistério, sr. Holmes? — Oh! O mistério! — respondeu Sherlock, voltando de repente à realidade. — É impossível negar que o caso é muito obscuro e complicado. Mas prometo examinar o assunto e mante-los a par dos detalhes que interessam. — O senhor vê alguma pista? — A senhorita forneceu-me sete. Mas tenho, é claro, que estudá-las bem antes de me pronunciar sobre seu valor. — Suspeita de alguém? — Suspeito que eu mesmo... — Que diz? — ...possa chegar a conclusões precipitadas. — Vá então a Londres examinar suas conclusões.


— Seu conselho é excelente, srta. Harrison — disse Holmes, levantando-se. — Pareceme, Watson, que é o melhor que temos a fazer. Entretanto, não se deixe animar com falsas esperanças, sr. Phelps. O assunto é muito complicado. — Esperarei ansiosamente pelo senhor — exclamou O diplomata. — Voltarei amanhã, no mesmo trem, embora seja mais provável que meu relatório venha a ser negativo. — Deus lhe pague a promessa de vir — disse nosso cliente. — O fato de saber que está se fazendo alguma coisa dá-me novo alento. A propósito, recebi uma carta de lorde Holdhurst. — Sim? E o que diz? — Ele foi frio, mas não severo. Estou convencido de que é meu estado de saúde que o impediu de ser agressivo. Frisou que o assunto é da maior importância, e acrescentou que nenhum passo será dado em relação a meu futuro — o que significa, logicamente, minha demissão — até que me restabeleça e possa reparar minha desgraça. — Bem, foi razoável e indulgente — disse Holmes, que acrescentou dirigindo-se a mim: — Vamos, Watson, temos à nossa frente um dia cheio. O sr. Joseph Harrison levou-nos de carro até a estação. Durante a volta, no trem de Portsmouth, Holmes manteve-se mergulhado em profunda meditação, e não abriu a boca até passarmos o entroncamento de Clapham. — É muito agradável entrar em Londres por estas linhas construídas sobre viadutos, do alto dos quais se podem ver casas como estas.

Pensei que brincava porque, para falar a verdade, a vista era muito sórdida, mas ele se apressou a explicar: — Olhe para aqueles grupos de edifícios que se erguem acima dos telhados, como ilhas de tijolos sobre um mar cor de chumbo. — Os internatos? — Faróis, meu velho! Faróis do futuro! Cápsulas contendo centenas de sementes brilhantes, onde surgirá uma Inglaterra mais sábia e melhor, para o futuro. Acha que Phelps bebe? — Acho que não. — Eu também; mas tenho que levar em conta todas as probabilidades. Não há dúvida de que o pobre-diabo se afundou em águas muito perigosas, e resta-nos a questão de saber se poderemos arrastá-lo para a margem. Que pensa você da srta. Harrison?


— Uma moça de temperamento forte. — É certo. E de boa classe, se não me engano. Ela e o irmão são os únicos filhos de um industrial do ferro, com fábrica perto da estrada de Northumberland. Phelps ficou noivo durante uma viagem que fez, no inverno passado, e ela veio agora para ser apresentada à família. O irmão foi encarregado de acompanhá-la. Sobreveio então a catástrofe, e ela ficou para cuidar do amado, enquanto o irmão, sentindo-se à vontade, acabou por ficar também. Estou fazendo algumas investigações independentes, compreende? Mas hoje é que deve ser uma dia cheio, em matéria de investigações. — Minha clínica... — comecei. — Bem, se você acha seus casos mais interessantes do que os meus... — interrompeu Holmes com aspereza. — Eu ia dizendo que minha clínica pode muito bem passar sem mim um dia ou dois; esta é a pior época do ano. — Excelente — respondeu, recobrando o bom humor. — Nesse caso, iremos estudar juntos essa questão. Creio que devíamos começar fazendo uma visita a Forbes. Talvez possa fornecer os pormenores que nos faltam para sabermos por onde atacar o problema. — Você disse que tinha uma pista. — Certo. Temos até diversas, mas só poderemos provar sua validade com outra investigação. O crime mais difícil de se desvendar é o que não revela seu objetivo. Ora, este tem um objetivo, e até bem claro. Mas quem está se aproveitando dele? Temos a embaixada francesa, temos a russa, há a pessoa que poderia estar interessada em vender os documentos a qualquer delas, e há lorde Holdhurst. — Ora essa! Lorde Holdhurst! — Custa acreditar que um estadista se encontre numa situação como essa e não pareça lamentar muito a desaparição do documento. — Mas um estadista com a bela folha de serviços de lorde Holdhurst! — Bem, é uma probabilidade que não podemos desprezar. Iremos hoje mesmo visitar o nobre senhor, para ver se ele tem alguma coisa a dizer. Nesse ínterim, minhas investigações já estarão em andamento. — Já? — Sim. Expedi alguns telegramas da estação de Woking para todos os vespertinos de Londres. Eis o texto que aparecerá em todos eles. Tirou um pedaço de papel da sua agenda. Nele estava rabiscado a lápis:


"Dez libras de gratificação. O número do carro de aluguel que deixou um passageiro à porta ou perto da porta do Ministério do Exterior, na Charles Street, às quinze para as dez da noite de 23 de maio. Dirigir-se à Baker Street, 221-B". — Está convencido de que o ladrão utilizou um carro de aluguel? — Se não utilizou, não haverá nenhum mal nisso. Mas se o sr. Phelps diz a verdade ao declarar que não há esconderijos na sala ou nos corredores, então é forçoso que a pessoa que lá esteve tenha vindo de fora. No entanto, não deixou vestígios de umidade no oleado, que foi examinado cinco minutos depois de sua passagem. Logo, é muito provável que tenha utilizado um carro. — Pelo menos, é plausível. — É um dos indícios, de que falei, suscetível de nos levar a uma conclusão. E vem então a campainha... que é o pormenor mais esquisito do caso. Por que razão soou aquela campainha? Teria sido o ladrão, por bravata? Ou alguém que estava junto com o ladrão e quis impedir o roubo? Ou simplesmente um acidente? Ou seria... — E mergulhou num profundo e impenetrável mutismo. Porém, acostumado como estava àquelas reações, pareceu-me que uma nova possibilidade se lhe revelara de súbito. Eram três e vinte quando terminamos nosso trajeto. Logo após um almoço apressado, fomos à Scotland Yard. Holmes já telegrafara para Forbes, de modo que não estranhamos que este estivesse à nossa espera. Era um homem baixo, manhoso, de expressão severa e maneiras pouco amáveis. Assumiu uma atitude de frieza, especialmente quando soube da finalidade de nossa visita.

— Já ouvi falar em seus métodos, sr. Holmes — disse com brusquidão. — O senhor está sempre pronto a utilizar todas as informações que a polícia põe à sua disposição para resolver os casos sozinho e lançar o descrédito sobre nossa organização. — Pelo contrário — respondeu Holmes. — De cinqüenta e três casos, meu nome só apareceu em quatro, enquanto a polícia colheu todos os louros nos outros quarenta e nove. Não o censuro por não sabê-lo, já que ainda é novo e inexperiente, mas aviso-o de que, se quiser progredir em suas novas funções, terá que trabalhar comigo e não contra mim. — Ficarei satisfeito com uma ou duas sugestões — disse o detetive, mudando de atitude. — Não há dúvida de que, até agora, não tive o menor êxito neste caso. — Que passos deu o senhor? — Tenho mantido sob vigilância Tangey, o guarda, mas o homem tem uma boa folha de serviços, e nada descobrimos contra ele. Já a mulher é diferente; creio até que sabe mais do que dá a entender. — Tem mandado segui-la?


— Pusemos uma de nossas agentes em seu encalço. Ela bebe, mas embora nossa agente a tenha encontrado, já por duas vezes, completamente bêbada, não conseguiu arrancarlhe nada. — Fui informado de que receberam a visita de cobradores. — É verdade, mas eles foram pagos. — E de onde veio o dinheiro? — Estava tudo certo, ela estava para receber sua pensão; eles não deram nenhum sinal de possuir fundos. — Que explicação deu a mulher por ter atendido a campainha quando o sr. Phelps pediu o café? — Disse que o marido estava muito cansado, e ela queria ajudá-lo. — Isso condiz com o fato de ele ter sido encontrado adormecido, mais tarde. Nada há portanto contra eles, a não ser o caráter da mulher. Perguntou-lhe por que passou correndo naquela noite, a ponto de o policial de serviço ter reparado em sua pressa? — Explicou que estava mais atrasada do que de costume, e queria chegar logo a casa. — O senhor chamou-lhe a atenção para o fato de que o senhor e Phelps, que saíram do ministério vinte minutos depois de ela partir, chegaram lá antes dela? — Ela nos lembrou a diferença que existe entre um ônibus e um carro de praça. — E explicou por que motivo correu para a cozinha, mal chegou a casa? — Disse que era lá que guardava o dinheiro para os cobradores. — Bem, pelo menos tem resposta para tudo. Perguntou-lhe se ela, ao sair para casa, encontrou alguém ou viu alguém na Charles Street? — Diz que só viu o policial. — Enfim, parece-me que o senhor fez-lhe um interrogatório completo. E que outras providências tomou? — O funcionário Gorot tem sido seguido durante estas últimas nove semanas, mas nada pudemos apurar contra ele. — Mais alguma coisa? — Não. Não temos mais por onde seguir. — Outra coisa: o senhor formulou alguma hipótese sobre o fato de a campainha ter tocado?


— Não. Sou obrigado a confessar que isso me desnorteia. Seja quem for, era um temerário para dar um alarme daqueles. — Tem toda a razão. É muito estranho. Bem... obrigado por tudo o que me contou. Se puder colocar o homem em suas mãos, terá notícias minhas. Vamos, Watson. — E agora, para onde? — perguntei. — Vamos entrevistar lorde Holdhurst, ministro do gabinete e futuro primeiro-ministro da Inglaterra.

Tivemos sorte em encontrar lorde Holdhurst em seus aposentos da Downing Street. Quando Holmes lhe enviou seu cartão de visita, mandaram-no logo entrar. O estadista recebeu-nos com aquela velha cortesia que lhe era peculiar, e ofereceu-nos duas luxuosas poltronas junto da lareira. De pé, entre nós, com sua figura alta e frágil, a fisionomia concentrada e viva e o cabelo louro prematuramente embranquecido, parecia representar aquele tipo não muito corriqueiro de um nobre que é realmente nobre. — Seu nome me é muito familiar, sr. Holmes — disse sorrindo. — É evidente que não posso pretender ignorar o objetivo de sua visita. Apenas um fato passado nestes escritórios poderia ter despertado sua atenção. Posso saber em nome de quem o senhor está agindo? — No do sr. Phelps — respondeu Holmes. — Ah! Meu infeliz sobrinho. O senhor deve compreender que nosso parentesco só serve para dificultar-lhe minha proteção. Receio que o incidente venha a ter um efeito muito nocivo para sua carreira. — E se o documento for encontrado? — Isso já modificaria sensivelmente as coisas.

— Tenho uma ou duas perguntas que gostaria de lhe fazer, lorde Holdhurst. — Terei todo o prazer em prestar as declarações que desejar. — Foi nesta sala que o senhor deu as instruções relacionadas com a cópia dos documentos? — Sim, foi nesta sala. — Não poderia, por acaso, ter sido ouvido? — De modo nenhum.


— Disse a alguém que tencionava mandar copiar o tratado? — Não, nunca. — Está absolutamente certo disso? — Absolutamente. — Nesse caso, se nem o senhor, nem o sr. Phelps falaram do tratado a ninguém, então a presença do ladrão na sala foi puramente acidental. Quer dizer, ele viu a oportunidade e resolveu não deixá-la escapar. O estadista sorriu. — O senhor está me levando além de minhas possibilidades. Holmes pensou um pouco.

— Há outro ponto muito importante que gostaria de discutir — disse, por fim. — O senhor receia, segundo creio, que, se alguns itens desse tratado se tornarem conhecidos, advenham graves conseqüências... Uma sombra perpassou pelo semblante expressivo do estadista. — Sim, com efeito. Conseqüências muito graves. — E já ocorreram? — Ainda não. — Mas se o tratado tivesse chegado, digamos, ao conhecimento do governo francês ou russo, esperaria ouvir alguma coisa sobre isso? — Sem dúvida alguma — disse lorde Holdhurst, tenso. — Entretanto, já se passaram quase dez semanas e continua o silêncio dos meios oficiais; portanto, é lícito concluir que, por uma razão ou outra, o tratado não chegou ainda ao conhecimento deles. Lorde Holdhurst encolheu os ombros. — Mas tampouco podemos supor que o ladrão tivesse levado o tratado para emoldurálo e pendurá-lo na parede. — Talvez esteja à espera de um preço melhor. — Se esperar muito tempo, não obterá preço algum. Dentro de poucos meses, o tratado deixará de ser secreto.


— Isso é muito importante — disse Holmes. — Também é uma hipótese admissível que o ladrão tenha sido atacado por uma doença repentina... — Um ataque de febre cerebral, por exemplo? — perguntou o estadista, olhando para seu interlocutor, rápido como um relâmpago. — Eu não disse isso — retorquiu Holmes, sem se perturbar. — E agora, lorde Holdhurst, já lhe tomamos demasiado de seu precioso tempo. Desejamos-lhe um bom dia. — Desejo-lhe êxito completo em suas investigações, seja quem for o criminoso! — exclamou o nobre quando, já à porta, fazíamos nossa vênia de despedida. — Excelente homem — disse Holmes ao sairmos para a Whitehall. — Mas luta para se manter à altura de sua posição. Está longe de ser rico e tem muitas obrigações. Notou com certeza que as botas que usava já tinham sido consertadas. Agora, Watson, não quero afastá-lo por mais tempo de seu legítimo trabalho. Hoje não terei mais nada a fazer, a não ser que haja resposta a meu anúncio sobre o carro de praça. Mas eu lhe ficarei extremamente grato se você puder ir comigo amanhã a Woking, no mesmo trem que tomamos hoje. Na manhã seguinte, encontramo-nos conforme tínhamos combinado, e viajamos juntos para Woking. O anúncio não tivera resposta. Nenhuma luz nova fora projetada, de fora, sobre o caso. Holmes assumia, sempre que desejava, uma imobilidade facial completa, tornando-se impossível concluir, por sua expressão, se estava ou não satisfeito com o andamento do caso. A conversa, lembro-me bem, versou sobre o sistema de medidas de Bertillon, e ele manifestou admiração pelo sábio francês. Encontramos nosso cliente ainda sob os devotados cuidados de sua enfermeira, mas parecendo bastante melhor do que no dia anterior. Até levantou-se do sofá e cumprimentou-nos quando entramos.

— Novidades? — perguntou com ansiedade. — Meu relatório, como previra, é negativo — disse Holmes. — Falei com Forbes e com seu tio, e pus em andamento duas séries de investigações que talvez possam me levar a algo positivo. — Não perdeu o ânimo, então? — De modo nenhum. — Deus lhe pague por isso! — exclamou a srta. Harrison. — Se conservarmos a coragem e a paciência, a verdade surgirá. — Entretanto, temos mais para contar ao senhor do que o senhor a nós — disse Phelps, voltando a sentar-se no divã. — Esperava isso mesmo.


— Sim, tivemos uma aventura durante a noite que podia ter sido muito grave. Sua expressão ia se tornando séria, à medida que falava, e a máscara de qualquer coisa parecida com o medo desenhava-se em seu rosto e, de modo flagrante, nos olhos. — Sabe — disse —, começo a acreditar que sou o centro inconsciente de uma monstruosa conspiração política, e que não só minha honra está em perigo como também minha vida. — Sim!? — exclamou Holmes. — Parece incrível porque, até onde me é dado saber, não tenho inimigos no mundo. Todavia, a experiência da noite passada... — Queira fazer o favor de contá-la. — Bem, primeiro é preciso que saiba que a noite passada foi a primeira em que dormi sem enfermeira no quarto. Estava tão bem que resolvi dispensá-la. No entanto, fiquei com uma luz acesa. Por volta das duas horas da madrugada, caí num sono leve, mas, de repente, acordei com um pequeno ruído, semelhante ao de um rato quando está roendo uma tábua. Fiquei à escuta durante algum tempo, sem perceber de que se tratava. O ruído tornou-se então mais alto e, subitamente, veio da janela um estalido metálico. Sentei-me, espantado; já não podia haver dúvidas quanto aos sons: os fracos tinham sido causados por alguém que tentava introduzir um instrumento na fenda dos caixilhos, e os mais fortes, pela pressão no trinco. "Houve então uma pausa de cerca de dez minutos, como para verificar se o barulho me teria acordado. Depois, ouvi um ranger suave quando a janela foi aberta. No estado de nervos em que me encontro, não pude suportar aquilo por mais tempo e, saltando da cama, corri à janela e abri as persianas. Um homem estava agachado à janela, mas mal o vi, porque fugiu com a rapidez de um raio. Percebi, no entanto, que estava embuçado numa espécie de capa que lhe cobria a parte inferior do rosto. Mas de uma coisa estou certo: tinha uma arma na mão, uma comprida faca, talvez. Vi-lhe distintamente o brilho quando se voltou para fugir." — Isso é muito interessante — disse Holmes. — E o que fez então, por favor? — Se estivesse mais forte eu o teria perseguido, saltando pela janela aberta. Mas limiteime a tocar a campainha e acordar toda a casa. Levou um certo tempo, porque a sineta está instalada na cozinha e os criados dormem lá em cima. Então gritei, e isso alertou Joseph, que acordou os outros. Ele e o criado descobriram rastros nos canteiros de flores, do lado de fora da janela, mas o tempo tem estado tão seco que acharam inútil seguir o rastro na relva. No entanto, dizem eles, há um lugar na cerca de madeira que ladeia a estrada que mostra sinais, como se alguém a tivesse pulado, quebrando-lhe a ponta ao fazê-lo. Nada disse ainda à polícia local, porque pensei que seria melhor ouvir primeiro sua opinião. Essa narrativa parece ter exercido um extraordinário efeito sobre Sherlock Holmes, que se levantou da cadeira e começou a andar pelo quarto numa excitação incontrolável.


— Uma desgraça nunca vem só — disse Phelps sorrindo, embora fosse evidente que a aventura tinha qualquer coisa que o perturbava. — O senhor acha que está em condições de me acompanhar numa inspeção em volta da casa? — perguntou, por fim, Sherlock Holmes. — Com certeza. Até gostaria de apanhar um pouco de sol. Joseph virá também. — E eu também — disse a srta. Harrison. — Receio que não — atalhou Holmes, sacudindo a cabeça. — Sou obrigado a pedir que fique sentada precisamente onde está. A jovem, com um trejeito de desagrado, retomou sua cadeira; entretanto, o irmão juntou-se a nós e saímos os quatro. Contornamos a relva que se estendia junto à janela do jovem diplomata; havia, na verdade, sinais no canteiro de flores, mas desesperadamente apagados e vagos. Holmes curvou-se sobre eles por um instante, mas, levantando-se, encolheu os ombros. — Não creio que se possa concluir muita coisa por aqui. Vamos circundar a casa para ver se descobrimos por que foi precisamente esta a janela que o ladrão escolheu. As janelas da sala de jantar, maiores, parecem-me muito mais apropriadas para um assaltante. — Mas são mais visíveis da estrada — sugeriu Joseph Harrison. — Sim, é verdade. Mas há aqui uma porta que poderia ter sido forçada. Para que serve? — É uma entrada de serviço que, como é natural, fica trancada à noite. — Já sofreram algum outro assalto como este? — Nunca — respondeu nosso cliente. — Possuem prataria em casa ou alguma coisa que atraia ladrões? — Não há nada de valor. Holmes prosseguiu sua inspeção ao redor do edifício, as mãos nos bolsos, com seu habitual ar displicente. — A propósito — disse Joseph Harrison —, há um lugar onde se pode verificar que o sujeito escalou a cerca. Venham até aqui.

O jovem levou-nos até um lugar onde a parte de cima da grade de madeira estava fendida e um pedaço de tábua ficara solto. Holmes arrancou-o e examinou-o com atenção.


— Está convencido de que isso foi feito a noite passada? Parece antigo, não é verdade? — Sim, realmente parece. — Para aquele lado também não há sinais, de modo que creio que não encontraremos mais nada por aqui. Voltemos ao quarto para discutir o assunto. Percy Phelps andava muito devagar, apoiando-se ao braço de seu futuro cunhado; Holmes, pelo contrário, quase correu através da relva, de maneira que, quando os outros chegaram, nós já estávamos à janela do quarto. — Srta. Harrison — começou Holmes com veemência —, é necessário que a senhora fique onde está, durante todo o dia. Que nada a desvie do lugar onde agora se encontra. É da mais vital importância. — Com certeza, se o exige, sr. Holmes — respondeu a moça, surpresa. — Quando for se deitar, tranque a porta deste quarto pelo lado de fora e guarde a chave. Prometa que o fará. — Mas e Percy? — Irá conosco para Londres. — Então tenho que ficar aqui? — Faça-o por ele. A senhorita pode auxiliá-lo. Vamos! Prometa! Ela fez um gesto de assentimento, na ocasião precisa em que os outros entravam. — Por que razão está aí tão triste, Annie? — interpelou o irmão. — Venha apanhar um pouco de sol. — Não, obrigada, Joseph. Estou com uma ligeira dor de cabeça, e este quarto é tão fresco e confortável!... — O que o senhor propõe agora? — inquiriu nosso cliente. — Que não percamos de vista nossa principal investigação. Seria muito conveniente se o senhor pudesse vir conosco a Londres. — Já? — Logo que possa; digamos, dentro de uma hora. — Já me sinto mais forte. Talvez lhe seja útil. — Muito útil, sr. Phelps.


— Acha que eu devo passar lá a noite? — Estava pensando nisso mesmo. — Quer dizer, se meu amigo noturno vier me fazer nova visita, descobrirá que o pássaro fugiu. Estamos todos em suas mãos, sr. Holmes; dê-nos as instruções que quiser. Talvez prefira que Joseph venha conosco para tomar conta de mim. — Não, não é necessário. Meu amigo Watson é médico, como sabe, e se encarregará do senhor. Almoçaremos aqui, se nos permitir, e então iremos os três para a cidade. Tudo se arranjou como Holmes sugerira, incluindo a srta. Harrison, que se recusava a deixar o quarto. Era impossível descobrir qual o objetivo da manobra de meu amigo. Talvez quisesse conservar a moça longe de Phelps, que, animado com a perspectiva de ação, almoçou conosco na sala de jantar. Entretanto, Holmes reservava-nos uma surpresa ainda mais chocante, pois ao levar-nos à estação e depois de nos ver dentro do trem, anunciou-nos calmamente que não tinha a menor intenção de deixar Woking. — Há um ou dois pequenos pontos que gostaria de esclarecer antes de partir — explicou —, e sua ausência, sr. Phelps, deve ser um precioso auxílio. Quanto a você, Watson, eu lhe ficaria muito grato se, quando chegarem a Londres, for logo para a Baker Street com nosso amigo e ficar com ele até que eu chegue. É uma sorte que sejam amigos e antigos colegas, porque assim terão muito o que conversar. O sr. Phelps poderá ocupar o quarto de hóspedes, esta noite. Amanhã, no desjejum, estarei com vocês, pois há um trem que me deixa em Waterloo às oito. — Mas, e nossa investigação em Londres? — lamentou-se Phelps. — Vamos deixar para amanhã. Creio que, no momento, sou de maior utilidade aqui. — Importa-se de dizer em Briarbrae que espero voltar amanhã à noite? — gritou Phelps, quando o trem se pôs em marcha. — Não tenciono voltar a Briarbrae — respondeu Holmes, acenando-nos alegremente enquanto o trem se afastava.

Phelps e eu falamos sobre o assunto durante toda a viagem, mas nenhum de nós podia atinar com a razão daquelas novas medidas. — Por mim, estou convencido de que ele procura descobrir algum indício do ladrão da noite passada, se é que se trata realmente de um ladrão. Mas não me parece que seja um gatuno comum. — Qual é então sua opinião? — Você pode achar que é por causa de meus nervos fracos, mas dou-lhe minha palavra de honra que acredito que uma profunda intriga política se armou em torno de mim. Por


razões que excedem meu entendimento, minha vida está sendo visada pêlos conspiradores. Pode parecer absurdo e bombástico, mas considere os fatos! Por que razão o ladrão escolheria a janela de um quarto onde não havia nada para roubar, e por que vinha de faca em punho? — Tem certeza de que não era um pé-de-cabra? — Absoluta; era uma faca. Vi distintamente o faiscar da lâmina. — Mas por que diabo você havia de ser perseguido com tal violência? — Essa é a questão. — Então, partindo do princípio de que Holmes é da mesma opinião, a atitude dele fica explicada, não é assim? Presumindo que sua hipótese esteja certa, se ele deitar a mão ao gatuno da noite passada, não terá de ir muito longe para descobrir quem roubou o tratado naval. É absurdo pensar que você tenha dois inimigos: um que o rouba e outro que lhe ameaça a vida. — Mas o sr. Holmes disse que não voltaria a Briarbrae. — Já o conheço há um certo tempo — disse eu —, e nunca o vi dar passos que não tivessem um motivo justo e plausível. Com essas palavras, nossa conversa desviou-se para outros assuntos. Aquele dia foi fatigante para mim. Phelps estava ainda muito fraco, e suas desditas tinham-no tornado nervoso e lamuriento. Em vão me esforcei por interessá-lo pelo Afeganistão, pela Índia, por questões sociais, por tudo enfim que pudesse afastá-lo de sua aventura. Mas voltava sempre ao tratado perdido, imaginando, adivinhando, especulando sobre o que Holmes estaria fazendo, que medidas lorde Holdhurst iria tomar, que notícias teria na manhã seguinte. Com o lento cair da noite, sua excitação tornou-se quase insuportável. — Você tem uma fé incondicional em Holmes, não é verdade? — Já o vi realizar coisas admiráveis — respondi. — Mas já o viu projetar um pouco de luz num assunto tão obscuro como este? — Sem dúvida. Tenho-o visto resolver questões que apresentavam ainda menos pistas que a sua. — Mas com tão grandes interesses em jogo? — Isso não sei. Mas sei que ele atuou em benefício de três casas reinantes da Europa, em assuntos vitais.


— Mas você conhece bem Holmes, Watson. É um sujeito esquisito, com o qual não sei lidar. Acha que ele tem esperança de resolver o caso com êxito? — Bem, ele não disse nada. — É mau sinal. — Muito pelo contrário. Tenho verificado que é quando está longe da pista que não pára de falar. Mas quando a encontrou e não está ainda bem seguro de si, fica taciturno. Agora, meu caro, de nada adianta ficar com os nervos nesse estado, de modo que é preferível ir deitar-se e esperar calmamente o que suceder amanhã. Consegui, por fim, persuadir meu companheiro a seguir meu conselho, embora soubesse que, devido à sua extrema excitação, era pouco provável que chegasse a dormir. Sua disposição de espírito era mesmo contagiosa, porque eu próprio passei metade da noite em claro, pensando no estranho problema e inventando centenas de hipóteses, cada uma delas mais impossível que a outra. Por que teria Holmes ficado em Woking? Por que exigiu que a srta. Harrison ficasse no quarto do doente, o dia inteiro? Por que não informara às pessoas de Briarbrae sua intenção de ficar na localidade? Quando caí no sono, já altas horas, estava completamente esgotado, e tão confuso como no princípio. Eram sete horas quando acordei. Fui logo ao quarto de Phelps, e encontrei-o pálido e exausto após uma noite de insônia. Sua primeira pergunta foi se Holmes ainda não chegara. — Ele virá, como prometeu — respondi —, nem um instante mais cedo, nem mais tarde. Minhas palavras estavam corretas porque, pouco depois das oito horas, ouvimos um carro de praça que estacava à porta, trazendo certamente nosso amigo. Assomamos à janela e pudemos ver que tinha a mão esquerda enfaixada e que seu semblante estava muito sombrio e pálido. Entrou, mas só pouco depois é que subiu. — Tem o aspecto de um homem vencido — disse Phelps. Fui forçado a confessar que concordava com ele. — Mas, apesar de tudo — acrescentei —, é possível que a chave do caso se encontre aqui na cidade. Phelps deu um gemido. — Eu sei como é — suspirou —, mas esperava tanto de seu regresso! A mão dele ontem não estava assim. Que terá acontecido? — Você está ferido, Holmes? — perguntei, quando meu amigo entrou no quarto. — Nada de importância; apenas uma esfoladela em conseqüência de minha própria estupidez — respondeu, dando-nos bom-dia com um aceno de cabeça. E continuou, sem interrupção: — Este seu caso, sr. Phelps, para falar a verdade, é um dos mais obscuros que me foi dado investigar.


— Receia que esteja para além de seu alcance? — Não, está sendo uma experiência admirável. — Essa atadura faz pensar em peripécias — interrompi. — Não nos conta o que aconteceu? — Depois do desjejum, meu caro Watson. Lembre-se de que, esta manhã, respirei cinqüenta quilômetros do ar puro de Surrey. Suponho que não houve resposta a meu anúncio sobre o cocheiro. Bem, não posso ter a pretensão de conseguir sempre resultados positivos. A mesa já estava posta e, no momento exato em que íamos tocar a sineta, a sra. Hudson entrou com o chá e o café. Poucos segundos depois, voltou com as travessas cheias, e então dirigimo-nos para a mesa. Holmes estava esfomeado, eu, curioso, e Phelps, no mais sombrio estado de depressão. — A sra. Hudson portou-se à altura do momento — disse Holmes, destapando uma travessa de galinha com molho. — Sua arte culinária é um tanto limitada, mas, como escocesa, ela tem um bom conceito do que seja um desjejum. Que quer você, Watson? — Presunto com ovos. — Ótimo. E o senhor, sr. Phelps? Galinha com molho, ovos, ou quer servir-se à vontade? — Obrigado. Sou incapaz de comer seja o que for. — Oh! Vamos! Experimente o prato que está à sua frente. — Obrigado. Não. Não me apetece nada. — Bem, então — disse Holmes, com uma piscadela de olho maliciosa —, apesar de não querer comer, creio que não fará objeções se lhe pedir para me servir.

Phelps levantou a tampa. Mas, com um grito, ficou lívido, olhando para o prato que acabara de destapar. Bem no centro jazia um rolo de papel cinzento. Agarrou-o e devorou-o com os olhos. Depois dançou, como um doido, pela sala, apertando-o contra o peito e gritando de alegria. Por fim, caiu numa poltrona, tão pálido e exausto devido às emoções que foi necessário meter-lhe na garganta um gole de aguardente para que não desmaiasse. — Pronto! Pronto! — disse Holmes, dando-lhe palmadas no ombro. — Reconheço que foi uma triste idéia restituir-lhe os documentos assim, mas Watson pode confirmar que não sei resistir à tentação do dramático. Phelps agarrou-lhe a mão e beijou-a.


— Deus lhe pague! — exclamou. — O senhor salvou minha honra. — É verdade, mas a minha também estava em jogo — respondeu Holmes. — Garantolhe que a mim é tão penoso fracassar num caso, como o é ao senhor cometer um erro crasso numa missão que lhe foi confiada. Phelps meteu o precioso documento no bolso de dentro do casaco. — Sinto que não devia voltar a interromper seu desjejum, mas morro de curiosidade para saber como conseguiu os papéis, e onde estavam eles. Sherlock Holmes engoliu uma xícara de café e atacou, em seguida, um prato de presunto com ovos. Por fim, levantou-se da mesa, acendeu o cachimbo e sentou-se numa poltrona. — Primeiro, direi o que fiz, depois, como fiz — começou Holmes. — Depois de deixálos na estação, fui dar um passeio encantador, através dos campos maravilhosos de Surrey, até um lugarejo chamado Ripley, onde tomei meu chá numa pensão e me preveni com um embrulho de sanduíches e uma provisão em minha garrafa. Fiquei por ali até a tardinha, altura em que me pus, de novo, a caminho de Woking. Cheguei à estrada de Briarbrae precisamente ao pôr-do-sol, esperei até que ficasse deserta... o que não foi difícil, já que aqueles caminhos são pouco frequentados, e saltei a cerca da propriedade. — O portão estava aberto, sem dúvida — exclamou Phelps. — Sim, mas tenho um gosto especial por essas andanças. Escolhi os três pinheiros e, atrás desse esconderijo natural, dominava tudo sem a menor probabilidade de ser visto, de onde quer que fosse. Depois, agachei-me entre os arbustos e fui me arrastando de uns para os outros, como se pode ver pelo estado lastimável dos joelhos de minhas calças, até alcançar o grupo de azáleas que fica bem em frente à sua janela. Uma vez ali, acocorei-me e esperei pêlos acontecimentos. "A cortina de seu quarto ainda não estava corrida, de modo que podia ver a srta. Harrison lendo à mesa. Eram dez e um quarto quando ela fechou o livro, cerrou a persiana e se retirou. Ouvi-a fechar a porta e, pelo som, fiquei seguro de que a trancava à chave." — À chave! — exclamou Phelps. — Exatamente. Eu dera instruções à srta. Harrison para trancar a porta e levar a chave consigo quando fosse se deitar. Ela executou à risca todas as minhas recomendações, e pode ficar certo de que, sem sua cooperação, o senhor não teria agora esses papéis no bolso. Sua noiva apagou a luz, e eu me deixei ficar em meu esconderijo, na moita de azáleas. A vigia era fatigante, apesar de a noite estar linda. Eu sentia aquela espécie de nervosismo que os caçadores devem sentir quando esperam, junto dos cursos de água, que sua presa vá matar a sede. Passou muito tempo... quase tanto, Watson, como quando você e eu estivemos naquela sala medonha que nos daria a solução do problema da "faixa malhada".


"Havia um relógio, numa igreja de Woking, que batia os quartos de hora, e mais de uma vez cheguei a supor que parara. Por fim, cerca das duas da madrugada, ouvi de repente o som suave de um ferrolho que alguém puxava e o ranger de uma chave. Um momento depois, a porta de serviço abriu-se e, na soleira, distingui à luz da lua o sr. Joseph Harrison." — Joseph?! — exclamou Phelps.

— Estava sem chapéu, mas levava uma manta preta, atirada sobre os ombros, de modo a que pudesse ocultar rapidamente o rosto em caso de alarme. Quando chegou à janela da sala onde o senhor tem dormido, meteu uma faca de lâmina comprida pêlos interstícios dos caixilhos e puxou o trinco para trás. Abriu a vidraça e, colocando a faca na fenda da persiana, levantou o fecho. De meu esconderijo, eu tinha uma visão completa do interior do quarto e de cada um de seus movimentos. Harrison acendeu duas velas que estavam no consolo da lareira e começou a afastar o canto do tapete do lado da porta. Depois, abaixou-se e retirou um pedaço quadrado de tábua, semelhante aos que se usam para os encanadores chegarem às juntas dos tubos de gás. Essa tampa cobria, de fato, uma junta em T que liga o cano da cozinha, embaixo. Então, nosso homem tirou de lá um pequeno rolo de papel, tornou a colocar a tábua no lugar e arranjou o tapete. Depois, apagou as velas e encaminhou-se direto para meus braços, pois eu ficara à espera dele, do lado de fora da janela. "Foi então que ele se revelou muito mais violento do que eu imaginava. Lançou-se sobre mim com a faca, a tal ponto que me vi obrigado a prostrá-lo duas vezes na relva. Foi nessa altura que me feri nos nós dos dedos. Quando terminamos a luta, Harrison tinha o aspecto de um assassino, agravado pelo fato de lhe sobrar apenas um olho em condições de ver. Ouviu porém as razões que lhe dei e, reconsiderando, renunciou aos papéis. Já com os documentos em meu poder, deixei-o em liberdade, mas telegrafei a Forbes fornecendo-lhe todos os pormenores. "Se ele for rápido apanhará o pássaro são e salvo! Mas se, como suspeito, encontrar o ninho vazio quando chegar, tanto melhor para o governo. Parece-me que tanto lorde Holdhurst como o senhor, sr. Phelps, preferem que o assunto não vá além dos meios policiais." — Meu Deus! — arfou nosso cliente. — O senhor está dizendo que, durante estas dez longas semanas de agonia, os papéis roubados estiveram em meu próprio quarto? Ali, sempre comigo? — Exato. — E Joseph! Joseph, um malandro, um ladrão! — Hum! Receio que o caráter dele seja mais complicado e mais perigoso do que se poderia julgar pela aparência. Pelo que me contou, esta manhã, sou levado a concluir que perdeu muito em ações na Bolsa, e que está pronto a fazer seja o que for para recuperar suas perdas. Sendo um indivíduo extremamente egoísta, deitou a mão à


primeira oportunidade que se lhe deparou, sem levar em conta a felicidade da irmã ou sua reputação. Percy Phelps afundou-se na cadeira. — Suas palavras atordoam-me — gemeu. — A dificuldade desse caso — observou Holmes em seu tom didático — estava no fato de haver muitas evidências que ocultavam o essencial e faziam sobressair o insignificante. De todos os fatos apresentados, tive de selecionar os que considerava vitais, pô-los em ordem e reconstituir essa cadeia notável de acontecimentos. Eu já começara a suspeitar de Joseph pelo simples fato de você ter dito que desejava ir para casa com ele, na noite do roubo; era, pois, muito provável que ele, por sua vez, conhecendo bem o Ministério do Exterior, passasse por lá para buscá-lo. Depois, quando ouvi dizer que alguém estivera ansioso por entrar em seu quarto, onde ninguém mais senão Joseph poderia ter escondido qualquer coisa, se nos lembrarmos a maneira como você o desalojou de lá quando veio com o médico, todas as minhas suspeitas se transformaram em certezas. E quando houve a primeira tentativa para entrar em seu quarto, precisamente na noite em que a enfermeira estava ausente, demonstrando que o intruso estava familiarizado com os costumes da casa, foi uma confirmação. — Como tenho sido cego!... — Olhe, o caso, segundo a reconstituição pêlos fatos que apurei, apresenta-se assim: Joseph Harrison entrou em seu escritório pela porta da Charles Street e, conhecendo o caminho, entrou na sala justamente no momento em que você se ausentara. Não encontrando ninguém, tocou prontamente a campainha, mas, nesse instante, seus olhos caíram sobre os papéis que estavam na mesa. Um simples relance mostrou-lhe que o acaso o colocara perante documentos de Estado do mais alto valor e, num relâmpago, meteu-os no bolso e foi-se embora. Como deve lembrar, passaram-se alguns minutos até que o guarda ensonado lhe chamasse a atenção para a campainha, tempo mais do que suficiente para o ladrão fugir. "Então, ele foi para Woking no primeiro trem que con- seguiu e, examinando melhor os papéis, verificou sua enorme valia e o lucro que daí lhe adviria. Resolveu escondê-los num lugar que considerava muito seguro, com a intenção de retirá-los dentro de um ou dois dias e levá-los à embaixada francesa ou aonde quer que lhe pagassem um bom preço. Mas, nessa altura, dá-se seu regresso repentino e a troca de quartos, sem advertência, e sua presença lá o impedia de recuperar o tesouro. A situação devia ser de enlouquecer, até que, por fim, julgou chegada sua oportunidade. Tentou roubá-los, mas viu seus desejos frustrados por sua insônia; o senhor deve lembrar-se de que não tomara sua beberagem habitual naquela noite." — Perfeitamente. — Por mim, estou convencido de que ele providenciou para que o senhor tomasse uma dose substancial, e agiu inteiramente seguro de seu estado de inconsciência. É claro que vi logo que ele repetiria a tentativa, desde que pudesse fazê-lo com segurança, e sua saída do quarto ofereceu-lhe a oportunidade desejada. Conservei a srta. Harrison lá durante todo o dia para que ele não se antecipasse a nós, mas, tendo-o convencido de


que o caminho estava livre, pus-me de atalaia, como já descrevi. Eu sabia, quase sem possibilidade de errar, que os documentos estavam escondidos naquele quarto, mas não estava disposto a arrancar todo o assoalho e os rodapés à procura deles. Deixei que ele os tirasse do esconderijo, e assim poupei-me um mar de dificuldades. Resta mais algum ponto por esclarecer?

— Por que Harrison, na primeira vez, tentou a janela, quando podia entrar pela porta? — perguntei. — Por que, para chegar à porta, teria de passar por sete quartos. Por outro lado, em caso de fuga precipitada, seria infinitamente mais fácil e seguro fugir pelo jardim. Alguma coisa mais? — O senhor não acha — perguntou Phelps — que ele tinha intenções assassinas? A faca seria apenas um instrumento para forçar ferrolhos? — Talvez tivesse — respondeu Holmes, encolhendo os ombros. — Mas o que posso dizer com certeza é que o sr. Joseph Harrison é um cavalheiro em cuja clemência eu dificilmente confiaria.

[1] Sapinho, rãzinha. (N. do T.)

Arthur Conan Doyle O problema final Título original: The Final Problem Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1893. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de The Final Problem publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Hamílcar de Garcia.

É com o coração pesado que pego a pena para escrever estas últimas e poucas palavras, com que registrarei os dotes singulares que sempre distinguiram meu amigo Sherlock Holmes. Num estilo incoerente e, sinto-o bem, profundamente inadequado, esforcei-me por fazer a narrativa de minhas estranhas experiências em sua companhia, desde o acaso que primeiro nos reuniu na época de Um estudo em vermelho até a altura de sua interferência no caso do "Tratado naval" — interferência que teve o mérito de evitar um grave conflito internacional. Era minha intenção parar por aqui e nada mais dizer a


respeito desse acontecimento que criou um vazio em minha vida, vazio esse que o lapso de dois anos pouco fez para preencher. Entretanto, foram publicadas recentemente as cartas em que o coronel James Moriarty defende a memória de seu irmão. Não tive outra alternativa senão apresentar perante o público os fatos exatamente como ocorreram. Só eu conheço a verdade precisa da questão, e sinto-me feliz por ter chegado o momento em que não se serve uma causa boa com sua supressão. Até onde me é dado saber, houve apenas três crônicas na imprensa: a do Journal de Genève de 6 de maio de 1891, o despacho da Reuter de 7 de maio nos jornais ingleses e, finalmente, as recentes cartas a que aludi. Destas, a primeira e a segunda são extremamente lacônicas, e a última é, como tentarei demonstrar agora, uma perfeita subversão dos fatos. Cabe-me, pois, revelar pela primeira vez o que realmente se passou entre o professor Moriarty e Sherlock Holmes.

O leitor deve lembrar-se de que, logo após meu casamento e minha conseqüente estréia na clínica particular, as íntimas relações que havia entre mim e Holmes se modificaram muito. Ele me procurava apenas de tempos em tempos, quando queria minha companhia em suas investigações. Mas essas ocasiões tornaram-se cada vez mais raras; em 1890, houve apenas três casos, de que conservo registro. Durante o inverno desse ano e o começo da primavera de 1891, tomei conhecimento pêlos jornais de que o governo francês solicitara os serviços de meu amigo num caso de extrema importância. Recebi então dois postais de Holmes, datados de Narbonne e Nímes, pêlos quais concluí que sua permanência na França devia prolongar-se. Foi, portanto, com grande surpresa que o vi entrar em meu consultório na noite de 24 de abril. Chocou-me sobretudo o seu aspecto mais pálido e mais magro que o habitual. — Sim, tenho me esforçado demais — observou, mais em resposta a meu olhar do que a minhas palavras. — Tenho estado um pouco oprimido ultimamente. Importa-se que eu corra as persianas? A única luz da sala provinha do candeeiro sobre a mesa a que eu estivera lendo. Holmes dirigiu-se para a janela, fechou a persiana e colocou-lhe os ferrolhos como segurança. — Está com receio de alguma coisa? — perguntei. — Estou. — De quê? — De armas aéreas. — Meu caro Holmes, o que quer dizer com isso? — Creio que me conhece o suficiente, Watson, para saber que não sou, de modo algum, um homem nervoso; mas também sei que não é coragem, mas estupidez, recusar-monos a reconhecer o perigo iminente. Tem um fósforo? Tragou a fumaça de seu cachimbo como se tivesse um efeito calmante.


— Devo desculpar-me por vir visitá-lo tão tarde — continuou —, e ainda por lhe pedir que deixe, por momentos, de ser convencional, e permita que eu saia daqui escalando o muro dos fundos. — Mas o que significa tudo isso?

Estendeu a mão e vi, à luz do candeeiro, que duas de suas articulações estavam feridas e sangravam. — Não é nada aéreo — explicou sorrindo. — Pelo contrário, é bastante sólido para nos quebrar a mão. Sua mulher está em casa? — Não. Foi fazer uma visita. — Então você está sozinho? — Completamente. — Nesse caso, fica mais fácil propor-lhe que venha comigo ao continente, por uma semana. — Aonde? — Oh! Para qualquer lugar. Tanto faz. Havia algo estranho em tudo aquilo. Não era da índole de Holmes sair em férias sem um objetivo. E seu rosto pálido e encovado dizia-me que seus nervos estavam sob grande tensão. Holmes reparou em meu ar interrogativo; juntou as pontas dos dedos, colocou os cotovelos sobre a mesa e explicou a situação. — Presumo que nunca ouviu falar no professor Moriarty. — Nunca. — Ora, aí está o gênio e a maravilha da coisa! — exclamou. — O homem invade Londres, e ninguém ouviu falar nele. É o que o coloca no pináculo dos registros do crime. Afirmo-lhe, Watson, com toda a sinceridade, que, se eu pudesse derrotar esse homem, se conseguisse livrar a sociedade de tal criatura, sentiria que minha carreira teria alcançado o ápice, e estaria pronto a dedicar-me a um gênero de vida mais sossegado. Aqui entre nós, os casos recentes em que prestei auxílio à família real da Escandinávia e à República Francesa proporcionaram-me uma situação que me permitiria continuar a viver tranqüilamente e entregar-me até, com todo o vagar, às pesquisas químicas. Mas eu não conseguiria descansar, Watson, não seria capaz de me sentar repousado em minha cadeira e saber que um homem como o professor Moriarty anda pelas ruas de Londres, inocentemente, sem ser apanhado. — Mas então, o que fez ele?


— Sua carreira tem sido extraordinária. É um homem de origem nobre e excelente educação, dotado, pela natureza, de uma fenomenal faculdade matemática. Aos vinte e um anos, escreveu um tratado sobre a teoria binominal, que alcançou fama na Europa. Conseguiu assim uma cadeira de matemática numa de nossas universidades menores, e tinha, com todas as probabilidades, uma brilhante carreira à sua frente. Mas o homem possui, também, tendências hereditárias da mais diabólica espécie. Um fluido criminoso corre-lhe nas veias, e seus extraordinários poderes mentais, em vez de o modificarem, tornaram-no ainda mais perigoso. Negros boatos corriam sobre ele, na cidade universitária. Por fim, foi obrigado a demitir-se, e veio para Londres, onde se fixou como instrutor do exército. Isso é tudo o que o mundo sabe, mas o que vou lhe contar agora é o que eu próprio descobri. "Como sabe, Watson, ninguém melhor do que eu conhece o submundo mais elevado de Londres. Ora, nestes últimos anos fortaleceu-se em mim a convicção de que existe, por trás do delinqüente, algum poder profundo de organização que se coloca sempre no caminho da lei, protegendo, como um escudo, aquele que procede mal. Em casos da mais variada espécie — falsificações, roubos, assassínios —, senti constantemente a presença dessa força, e deduzi sua ação em muitos desses casos que ficaram por descobrir, ou em que não fui especialmente consultado. Durante anos, esforcei-me por levantar o véu que a ocultava; afinal, surgiu o momento em que segurei a linha, e ao segui-la, palmo a palmo, depois de milhares de voltas astutas, ela conduziu-me ao exprofessor Moriarty, celebridade matemática. "É o Napoleão do crime, Watson. É o organizador de metade do que é mau, e de quase tudo o que está escondido nesta grande cidade. Ele é um gênio, um filósofo, um pensador abstrato. Tem um cérebro de primeira ordem. Senta-se imóvel como a aranha em sua teia, mas sua teia tem milhares de ramificações. Além disso, conhece perfeitamente os pontos sensíveis de cada uma delas. Ele próprio pouco faz; apenas planeja. Mas seus agentes são numerosos e magnificamente organizados. Há um crime a cometer, um documento a subtrair, uma casa a roubar ou um homem a eliminar... passese a palavra ao professor Moriarty, e a coisa será feita. O agente pode ser preso, mas aparece o dinheiro para sua fiança ou defesa. E o poder central que o arregimentou nunca é apanhado... nem uma suspeita, sequer. Foi a existência dessa organização que deduzi, Watson. E foi à tarefa de denunciá-la e destruí-la que devotei toda a minha energia. "Mas nosso homem cercou-se de salvaguardas tão inteligentemente planificadas que, fizesse o que fizesse, parecia impossível arranjar uma única prova susceptível de inculpá-lo e levá-lo ao tribunal. Você conhece minhas aptidões, Watson, e todavia, ao fim de três meses, fui obrigado a admitir que tinha finalmente encontrado um adversário de meu nível intelectual. Meu horror por seus crimes perdeu-se perante a admiração de sua habilidade. Mas, por fim, ele acabou por cometer um erro, um pequeno erro, apenas, mas de grande importância, estando eu tão perto dele. Tive então minha oportunidade e, partindo desse ponto, teci minha teia ao redor dele, estando agora tudo a postos para que eu a feche. Dentro de três dias, quer dizer, na próxima segunda-feira, as coisas estarão maduras, e o professor, com todos os principais membros do bando, cairá nas mãos da polícia. Seguir-se-á então o maior julgamento criminal ao século, o esclarecimento de mais de quarenta mistérios, e a corda para todos eles. No entanto, se agirmos prematuramente, compreende, podem ainda escapar-nos, até o último instante.


"Se eu pudesse ter agido sem o conhecimento do professor Moriarty, tudo teria saído bem. Mas ele foi demasiado sagaz; viu todos os passos que dei para capturá-lo em minha armadilha. Lutou sempre, e eu sempre o interceptei. A tal ponto que, meu amigo, se se escrevesse a história deste duelo silencioso, ela ocuparia o lugar da mais brilhante série de golpes e contragolpes da crônica do detetivismo. Nunca me elevei a tal altura, e nunca fui tão duramente cercado por um adversário. Ele golpeia fundo, mas eu, por minha vez, também já o golpeei baixo. Dei, esta manhã, os derradeiros passos, e são necessários apenas mais três dias para concluir o assunto. Estava sentado em minha cadeira a pensar em tudo isso, quando a porta se abriu e o professor Moriarty apareceu diante de mim. "Meus nervos agüentam razoavelmente qualquer prova, Watson, mas não posso deixar de confessar que senti um sobressalto quando vi, no limiar de minha porta, o homem que tanto me ocupara o pensamento. Sua aparência era-me inteiramente familiar: muito alto e magro, a fronte alongada numa curva branca e os olhos profundamente enterrados no rosto. Tem o rosto raspado, é pálido, de aparência ascética, e conserva, nas feições, qualquer coisa de professor. Os ombros descaíram com as horas de estudo, e a cara projeta-se para a frente e oscila devagar, de um lado para o outro, num curioso jeito de réptil. Olhou para mim com grande curiosidade nos olhos contraídos. "— O senhor tem um desenvolvimento frontal menor do que eu imaginava — disse ele por fim. — É um hábito perigoso dedilhar armas de fogo carregadas, no bolso do roupão. "A verdade é que, à sua entrada, reconheci num instante o extremo perigo pessoal a que estava exposto. A única fuga concebível consistia em manter-me calado. Num relâmpago, retirei o revólver da gaveta e meti-o no bolso, apontado, por trás da roupa, para ele. Â sua observação, tirei a arma e coloquei-a em cima da mesa com o gatilho levantado. Ele ainda sorriu e pestanejou, mas havia algo em seus olhos que me deixava satisfeito por tê-lo ali. "— O senhor evidentemente não me conhece — disse ele. "— Pelo contrário — respondi —, receio que seja até evidente que o conheço. Sente-se, por favor. Posso dispensar-lhe cinco minutos, se o senhor tem alguma coisa a dizer. "— Tudo o que tenho a dizer com certeza já lhe atravessou a mente. "— Então possivelmente minha resposta também atravessou a sua — ripostei. "— Mantém-se portanto inabalável — insistiu. "— Inteiramente. "Ele meteu a mão no bolso e eu levantei o revólver da mesa. Mas ele tirou apenas uma agenda, onde escrevera algumas linhas. "— O senhor atravessou-se em meu caminho a 4 de janeiro — começou. — No dia 23 incomodou-me; em meados de fevereiro, fui seriamente embaraçado pelo senhor; no


fim de março fui definitivamente prejudicado em meus planos; agora, em fins de abril, encontro-me numa situação tal, devido à sua perseguição contínua, que corro o risco de perder minha liberdade. A situação está se tornando insuportável. "— Tem alguma sugestão a fazer? — perguntei. "— Basta, basta! — respondeu. — Tenho absoluta certeza de que um homem com sua inteligência verá que não pode haver senão um desfecho para este assunto. É necessário que o senhor se retire. O senhor tem trabalhado de tal maneira que só me resta um recurso. Tem sido aliás para mim um prazer intelectual observar o modo como se agarrou a este assunto, e digo-lhe sem afetação que me seria doloroso ser forçado a tomar medidas extremas. O senhor sorri, mas afirmo-lhe que não hesitarei. "— O perigo é um dos ingredientes de minha profissão — observei. "— Não se trata de perigo. É a destruição inevitável. O senhor não se interpôs no caminho de um indivíduo apenas, mas de toda uma poderosa organização, cuja extensão nem o senhor, com sua famosa perspicácia, pode, de longe, imaginar. Afaste-se, sr. Holmes, ou será esmagado. "— Receio — disse eu, levantando-me — que o prazer desta conversa prejudique uns negócios que me esperam em outra parte. "Moriarty levantou-se também, fitou-me, silencioso, e sacudiu a cabeça com tristeza. "— Bem, bem — disse por fim. — É pena, mas fiz o que pude. Conheço todos os lances de seu jogo. Até segunda-feira, nada poderá fazer. Isto tem sido um duelo entre nós dois, sr. Holmes. O senhor espera levar-me ao tribunal; digo-lhe que não irei ao tribunal. O senhor espera derrotar-me; digo-lhe que nunca me derrotará. Se o senhor for bastante inteligente para me levar à destruição, fique descansado que lhe farei o mesmo. "— O senhor lisonjeou-me com vários cumprimentos, sr. Moriarty — disse eu. — Permita-me, pois, que lhe retribua dizendo que, no capítulo das destruições, estou firmemente certo da primeira eventualidade, mas quero, no interesse do público, aceitar livremente a última. "— Prometo-lhe uma delas — resmungou, voltando-me as costas e saindo vacilante, com um ar profundamente triste.

"Eis minha estranha entrevista com o professor Moriarty, Watson. Confesso que me deixou um sentimento desagradável. Sua maneira suave e precisa de falar é sinal de uma sinceridade que um mero insolente estaria longe de expressar. Você dirá, por certo: por que não tomou precauções policiais contra ele? A razão é que estou plenamente convencido de que é de seus agentes que virá o golpe. Tenho a melhor prova de que assim será." — Já foi assaltado?


— Meu caro Watson, o professor Moriarty não é homem para deixar que a relva lhe cresça debaixo dos pés. Saí por volta do meio-dia para tratar de uns negócios na Oxford Street, e quando dobrava a esquina que vai da Bentinck Street para a Weibeck Street um carroção de transporte de mobília, com uma parelha furiosamente dirigida, sibilou ao redor e veio sobre mim como um relâmpago. Saltei para a calçada e salvei-me por uma fração de segundo. O pesado carro guinou com violência e desapareceu na Marylebone Lane. Depois disso, andei sempre pela calçada, Watson, mas quando descia a Vere Street, um tijolo caiu do telhado de uma casa e espatifou-se a meus pés. Chamei a polícia, e o local foi examinado. Havia pedras e tijolos empilhados no telhado como preparativo para alguma obra, e tentaram fazer-me acreditar que fora o vento que fizera tombar um deles. Eu tinha, é claro, outra opinião, mas nada podia provar. Tomei então um trem e fui para a casa de meu irmão, onde passei o resto do dia. E agora, quando vinha para cá, fui atacado no caminho, à cacetada, por um facínora qualquer. Dominei-o, e a polícia já o tem sob custódia. Mas posso dizer-lhe, com a mais firme confiança, que jamais será feita qualquer ligação entre o cavalheiro em cujos dentes descasquei os nós dos meus dedos e o matemático aposentado que está, suponho, resolvendo problemas numa lousa, a dezesseis quilômetros de distância. Agora já não deve estar achando estranho, Watson, que meu primeiro cuidado ao chegar aqui fosse fechar as persianas e pedir-lhe que me permitisse sair de sua casa por um lugar menos conspícuo do que a porta da frente. Admirei muitas vezes a coragem de meu amigo, mas nunca como naquele momento, quando se sentou, muito calmo, desfiando aquela série de incidentes ideais para compor um dia de horror. — Vai passar a noite aqui, Holmes? — Não, meu amigo. Seria um hóspede perigoso. Já tracei meus planos, e tudo correrá bem. As coisas já foram tão longe, que podem agora prosseguir sem mim até a prisão do bando, embora minha presença seja necessária para a prova de culpabilidade. É pois evidente que o melhor que tenho a fazer é ausentar-me por uns dias, precisamente os que restam para a polícia ter liberdade de ação. Entretanto, seria para mim um grande prazer se você pudesse vir comigo para o continente. — Estou com pouco trabalho — respondi —, e tenho um vizinho prestativo. Ser-me-ia muito agradável ir com você. — Acha que podemos partir amanhã de manhã? — Se for necessário... — Sim, é mais que necessário. Vou dar-lhe algumas instruções que peço, meu caro Watson, cumpra à risca, porque você está agora representando comigo um duplo jogo contra o bandido mais inteligente e o sindicato do crime mais poderoso da Europa. Ouça: esta noite, despachará para Victoria, por um moço de confiança, toda a bagagem que quiser levar. Amanhã, logo de manhã, peça ao moço que chame um carro de praça, recomendando-lhe que não aceite o primeiro, nem sequer o segundo, que se apresentar. Suba para esse carro e corra para o Strand, ao fim da Lowther Arcade, entregando o endereço ao cocheiro numa tira de papel com a especial recomendação de que ele não o jogue fora. Tenha já seu bilhete consigo e, logo que o carro parar, meta-se pela Árcade,


de modo a chegar ao outro lado às nove e quinze. Encontrará perto da guia um carro pequeno e fechado, conduzido por um indivíduo com uma pesada capa preta e gola guarnecida de vermelho. Utilizando esse carro, dirija-se para Victoria a tempo de apanhar o expresso continental. — E onde me encontro com você? — Na estação. O segundo vagão de primeira classe, a contar da frente, está reservado para nós. — Então o vagão é nosso ponto de reunião? — Exatamente. Em vão insisti para que ficasse durante a noite. Não tinha dúvidas de que ele pensava trazer complicações ao lugar onde se encontrava, e que era esse o motivo que o fazia partir. Com mais algumas palavras apressadas sobre nosso plano para o dia seguinte, levantou-se e saiu comigo para o jardim. Escalou então o muro que dá para a Mortimer Street e assobiou para um carro de praça. Passados instantes, ouvi-o partir. Na manhã seguinte, cumpri ao pé da letra as instruções de Sherlock Holmes. Teve-se a preocupação de procurar um carro de modo a evitar tomar um preparado de antemão para nós e, depois do desjejum, segui imediatamente para a Lowther Árcade, a qual, mal chegado, atravessei a correr. Um carro fechado esperava-me com efeito, o maciço cocheiro enrolado numa capa preta. Assim que entrei, chicoteou o cavalo e rodamos para a estação de Victoria. Assim que me apeei, ele virou rápido o carro e disparou sem sequer olhar em minha direção. Até ali, tudo correra admiravelmente. Minha bagagem estava à espera, e não tive dificuldade em encontrar o vagão que Holmes indicara, visto ser o único da composição que tinha o letreiro "Reservado". Minha ansiedade, porém, era causada pela ausência de Holmes. Pelo relógio da estação, faltavam apenas sete minutos para partirmos, e em vão eu procurava a figura esguia de meu amigo por entre os grupos dos que partiam e dos que se despediam. Nem sinal dele. Gastei alguns minutos a observar um venerável sacerdote italiano que se esforçava por explicar, ao moço de fretes, em seu inglês estropiado, que sua bagagem devia ser enviada para Paris. Então, tendo lançado outro olhar em redor, voltei para o vagão, onde verifiquei que o moço de fretes, a despeito de nossa reserva, me havia dado o decrépito amigo italiano como companheiro de viagem. Foi-me inútil tentar fazer-lhe ver que sua presença era uma intrusão, já que meu italiano era ainda pior do que o inglês dele. Não havendo esperanças, encolhi resignado os ombros, e continuei a esperar, com ansiedade, meu amigo. Um arrepio de pavor perpassou por mim ao ocorrer-me que sua ausência podia significar que fora atacado durante a noite. As portas já haviam sido fechadas e o apito soara quando...

— Meu caro Watson — disse uma voz —, você não condescende nem mesmo em darme bom-dia?


Voltei-me sem conseguir dominar o espanto. O idoso eclesiástico encarou-me e, num instante, as rugas de seu rosto se alisaram, o nariz se afastou do queixo, o lábio inferior abandonou a posição pendente, a boca deixou seu lento mascar, os olhos estúpidos adquiriram um brilho que me era familiar e sua figura encolhida endireitou-se. Em seguida, toda aquela armação se desfez e Holmes surgiu, rápido, triunfante. — Meu Deus! — exclamei. — Que susto me pregou... — É ainda necessária toda a precaução — cochichou. — Tenho razões para pensar que eles estão em nossa pista. Olhe, lá está Moriarty em pessoa. O trem já começara a mover-se quando Holmes falou. Olhando para trás, vi um homem alto tentando furiosamente abrir caminho por entre as pessoas, e acenando como se desejasse fazer parar a composição. Mas já era demasiado tarde, porque esta ganhou velocidade e, como uma flecha, deixou para trás a estação. — Está vendo? Com toda a nossa precaução, safamo-nos por um triz — disse Holmes com uma risada. Levantou-se e tirou a batina e o chapéu que haviam constituído seu disfarce e guardouos, com cuidado, numa pequena mala de mão. — Viu o jornal da manhã, Watson? — Não. Passou-se alguma coisa? — Então não sabe nada da Baker Street? — Baker Street? — Puseram fogo à casa, a noite passada. — Céus, Holmes! É intolerável. — Devem ter perdido a pista depois de o homem do cacete ter sido preso, mas não devem ter cometido o erro de pensar que eu voltaria a casa. Entretanto, é possível que a tenham revistado de alto a baixo, e foi isso que trouxe Moriarty a Victoria. Você cometeu algum erro em sua vinda para a estação? — Fiz exatamente o que você me recomendou. — Encontrou o carro fechado? — Sim, estava lá à espera. — Reconheceu o cocheiro? — Não.


— Era meu irmão Mycroft. É uma vantagem não recorrer a mercenários, em certos casos. Mas agora precisamos estudar bem o que vamos fazer de Moriarty. — Como este trem é expresso e o barco tem o horário combinado com o dele, pareceme que nos safamos. — Meu caro Watson, é evidente que você não alcançou o sentido completo de minhas palavras quando lhe disse que esse homem pode considerar-se do mesmo nível intelectual que eu. Espero que me faça a justiça de não supor que, se fosse eu o perseguidor, me deixaria frustrar por um obstáculo tão fácil. Por que faz de Moriarty uma idéia tão pobre? — Mas então que fará ele? — O que eu faria. — E que faria você? — Fretaria um trem especial. — Mas seria tarde. — De modo nenhum. Este pára em Canterbury, e demora-se sempre cerca de quinze minutos por causa do barco. Qualquer trem especial nos alcançaria. — Parece até que somos nós os criminosos! Prenda-mo-lo assim que chegue. — Isso seria a ruína de três meses de trabalho. Pescaríamos o peixe grande, mas deixaríamos escapar os pequeninos pêlos lados de nossa rede. Segunda-feira nós os apanharemos todos. Não, uma prisão só é inadmissível. — Então o que faremos? — Desembarcaremos em Canterbury. — E depois? — Depois, é necessário fazer uma viagem pelo interior até Newhaven, e daí para Dieppe. Moriarty fará o que eu faria; chegará a Paris, marcará nossa bagagem e esperará dois dias. Entretanto, nós nos divertiremos com um bom par de alforjes, encorajaremos as pequenas fábricas de província por onde passarmos e seguiremos, com todo o vagar, para a Suíça, via Luxemburgo e Basiléia. Sou um velho viajante para me dar ao luxo de me incomodar com a perda da bagagem, mas confesso que me aborrecia a idéia de ter de fugir por causa de um homem cujo prontuário estava negro de indizíveis infâmias. Por outro lado, era evidente que Holmes via a situação com mais clareza do que eu. Descemos portanto em Canterbury, e verificamos que tínhamos de esperar mais de uma hora pelo trem para Newhaven.


Eu estava ainda olhando tristemente para o vagão de bagagens que se afastava com minha mala, quando Holmes me puxou pela manga e apontou para a linha. — Está vendo? — murmurou. Ao longe, por entre os bosques de Kentish, surgiu um novelo tênue de fumaça. Um minuto depois, podia ver-se uma locomotiva puxando apenas um vagão, em corrida vertiginosa sobre a curva aberta que conduzia à estação. Mal tivemos tempo de nos esconder atrás de uma pilha de malas, e ele já passava por nós com um estrondo, vomitando em nossas caras um jato de ar quente.

— Lá vai ele — disse Holmes, quando observamos o vagão oscilando sobre os trilhos. — Como vê, há limites para a inteligência de nosso amigo. Teria sido um golpe de mestre se tivesse deduzido o que eu deduzi e agisse de acordo. — E o que ele teria feito se nos alcançasse? — Não me resta a menor dúvida de que teria feito um ataque homicida. Trata-se de um jogo a dois. Mas a questão agora é decidir se vamos almoçar antecipadamente por aqui ou se vamos correr o risco de passar fome até chegarmos ao restaurante de Newhaven. Viajamos para Bruxelas naquela noite, onde passamos dois dias, seguindo no terceiro para Estrasburgo. Na segunda-feira de manhã, Holmes telegrafou para a polícia de Londres. À noite, ao chegarmos ao hotel, a resposta já esperava por nós. Holmes rasgou o envelope e, com uma amarga maldição, lançou no fogo o telegrama. — Eu devia saber — gemeu. — Escapou. — Moriarty? — Prenderam o bando todo, exceto ele. Deixaram-lhe uma saída. Por certo, quando parti, não ficou ninguém para enfrentá-lo. E eu estava convencido de que havia colocado a presa nas mãos da polícia. Acho que seria melhor você voltar para a Inglaterra, Watson. — Por quê? — Porque agora me tornei um companheiro extremamente perigoso. A atividade desse homem chegou ao fim. Se voltar a Londres, estará perdido. E, se li a verdade de seu caráter, sua única preocupação será vingar-se de mim. Vai empregar nisso todas as suas energias. Durante nossa curta conversa disse muita coisa, mas o mais grave é precisamente o que deixou no ar. E eu imagino o que ele queria dizer. Por isso, recomendo-lhe que volte à sua clínica. Tratava-se de um apelo que dificilmente seria atendido, quando feito a um velho batalhador e amigo íntimo. Sentamo-nos na sala de jantar de nosso hotel em Estrasburgo e falamos sobre o assunto durante uma boa meia hora. Nessa mesma noite,


seguimos viagem a caminho de Genebra, Durante uma semana encantadora, erramos pelo vale do Ródano, deixando o Gemmi ainda afundado na neve quando nos dirigimos para Meiringen, via Interlaken. Maravilhosa viagem: a nossos pés, o verde delicado da primavera; no alto, o branco virginal do inverno. Mas era-me perfeitamente visível que Holmes nem por um instante esquecia a sombra que se derramara sobre ele. Nos humildes lugares alpinos ou nas passagens solitárias das montanhas, eu notava, por seus rápidos relances e pelo exame penetrante de todas as pessoas que cruzavam conosco, que Holmes estava convencido de que, para onde quer que fôssemos, o perigo nos espreitava.

Uma vez, lembro-me como se fosse hoje, passado o Gemmi, caminhamos ao longo das margens do melancólico Daubensee quando um enorme penedo desprendeu-se do cume à nossa direita e caiu reboando no lago atrás de nós. Num ápice, Holmes galgou a encosta e, de pé, no altaneiro cimo do morro, alongou o pescoço em todas as direções. Em vão nosso guia lhe assegurou que a queda de pedras naquele lugar era muito comum, durante os degelos da primavera. Sherlock nada disse, mas sorriu para mim como alguém que verifica a atuação do que chamamos de fatalidade. Todavia, a despeito de toda a sua necessidade de vigilância, nunca se deprimia. Pelo contrário; não me recordo de tê-lo jamais visto com tal disposição de espírito. Referia-se constantemente ao fato de ter livrado a sociedade da organização de um homem como Moriarty. — Creio, Watson, que posso dizer que minha vida não foi inteiramente vã — observou. — Se minha ação se acabasse esta noite mesmo, ainda poderia avaliá-la com equanimidade. O ar de Londres é mais doce devido à minha presença: tenho a consciência de não ter utilizado meus poderes do lado errado, em mais de mil casos. Ultimamente, tenho sido tentado a preferir os problemas da natureza aos outros, mais superficiais, a cuja responsabilidade imputo o estado artificial da sociedade. Suas crônicas, Watson, chegarão a seu termo no dia em que eu coroar minha carreira com a captura ou eliminação do mais perigoso e hábil criminoso da Europa. Serei breve mas exato no pouco que me resta dizer. Não é assunto em que me queira demorar voluntariamente; estou porém convencido de que me cabe o dever de não omitir nenhum pormenor. Foi no dia 3 de maio que alcançamos a pequena aldeia de Meiringen, e alojamo-nos no Englischer Hof, mantido então pelo velho Peter Steiler, homem inteligente e que falava um excelente inglês, já que servira no Grosvenor Hotel em Londres. A seu conselho, saímos, na tarde do dia 4, com o objetivo de atravessar as montanhas e passar a noite no lugarejo de Rosenlaui. Tínhamos entretanto estritas recomendações para não passarmos as quedas do Reichenbach, mais ou menos a meio caminho da montanha, sem fazermos um pequeno desvio para admirá-las. É, com efeito, um lugar assombroso. A torrente, engrossada pelas neves derretidas, mergulha num tremendo abismo, de onde se eleva uma névoa espessa, em novelos, como a fumaceira de uma casa incendiada. O sorvedouro para onde o rio se despenha é


um imenso precipício, circundado de rochas cintilantes e negras como carvão, estreitando-se numa apertada garganta, abismo fervente de incalculável profundidade que aperta e atira a corrente para sua orla denteada. A longa voragem da água verde caindo, em seu eterno rugir, e a densa cortina tremulante daquela nuvem que eternamente se eleva põem um homem atordoado com seu constante redemoinho e clamor. Paramos à beira do abismo, olhando, muito abaixo de nós, a cintilação da água que se dilacera contra as rochas negras, e escutando o grito meio humano que se dilata, bramindo, com a espuma do abismo. O caminho, uma espécie de miradouro, foi aberto, em semicírculo, ao redor da cachoeira, para proporcionar uma visão completa, mas termina abruptamente, e o viajante é obrigado a regressar pelo mesmo lugar. Estávamos voltando quando vimos um rapaz suíço correndo com uma carta na mão. Trazia o carimbo do hotel onde nos havíamos hospedado, e era-me dirigida pelo proprietário. Uma senhora inglesa, dizia, chegara logo após nossa partida e estava em estado grave; passara o inverno em DavosPlatz e viajava para se reunir a seus amigos em Lucerna quando uma hemorragia repentina lhe sobreveio. Pensava que não teria mais do que umas horas de vida, e seria uma grande consolação se um médico inglês fosse vê-la. Portanto, se eu regressasse, etc... O bom Steiler acrescentava no pós-escrito que ele próprio consideraria minha anuência como um grande favor pessoal, visto que a senhora se recusara a mandar chamar um médico suíço, e ele não podia deixar de sentir que incorria numa grande responsabilidade. Era impossível ignorar tal apelo. Uma concidadã estava morrendo em terra estrangeira. Mas eu também tinha receio de abandonar Holmes. Depois de muito considerar, combinou-se que o mensageiro suíço serviria de guia a meu amigo enquanto eu regressava a Meiringen. Holmes demorar-se-ia um pouco mais na cachoeira e escalaria então a montanha, sem pressa, para Rosenlaui, onde eu o encontraria à noite.

Quando me pus a caminho, vi Holmes, as costas contra as rochas, os braços cruzados, olhando o ímpeto das águas, embaixo. Era a última vez que me estava destinado vê-lo neste mundo. Quando cheguei quase ao fim da ladeira, olhei para trás; era-me impossível ver a cachoeira, daquela posição, mas podia ver o caminho sinuoso que serpenteia sobre os cumes da montanha. Ao longo desse caminho, lembro-me bem, reparei num homem alto que quase corria. Distingui-lhe a figura negra recortada sobre o fundo verde. Observei-o uma vez mais, mas esqueci-o em breve, preocupado em chegar a tempo para o cumprimento de minha missão. Devo ter gasto pouco mais de uma hora para chegar a Meiringen. O velho Steiler estava à porta de seu pequeno hotel. — Bem — disse eu correndo —, espero que ela não esteja pior.


Uma expressão de surpresa perpassou pelo rosto enrugado do velho e, ao vê-lo contrair as sobrancelhas, o coração começou a saltar-me no peito. — O senhor não me escreveu esta carta? — perguntei-lhe, tirando o papel do bolso. — Não há uma inglesa doente neste hotel? — Não, não há — exclamou Steiler. — Mas tem o carimbo do hotel. Ah! Deve ter sido escrita por aquele inglês alto que entrou logo depois de os senhores terem saído. Disse até... Não esperei pelas explicações do proprietário. No zunir do terror desci correndo a rua da aldeia, precipitando-me pelo caminho que acabara de descer. Até Meiringen, sempre descendo, levara uma hora, mas, apesar de todos os meus esforços, já se haviam passado mais de duas quando me encontrei de novo junto às cachoeiras de Reichenbach. Lá estava o bordão de alpinista encostado à rocha, no mesmo lugar em que eu o vira ao deixar Holmes. Mas dele, nem sinal. Em vão gritei; a única resposta era minha própria voz, repercutida num eco rolante pêlos penhascos em redor. A presença daquele bordão gelou-me o sangue: provava-me que Holmes não seguira para Rosenlaui. Estava naquele lugar, numa ladeira de um metro de largura, com um paredão a pique de um lado e um precipício a pique do outro, quando o inimigo o alcançara. O jovem suíço desaparecera também. Tinha provavelmente sido pago por Moriarty, e deixara os dois homens juntos. E o que teria então acontecido? Quem estava lá para nos dizer o que teria acontecido?

Atordoado pelo terror, só depois de um ou dois minutos consegui recobrar o ânimo. Comecei então a pensar nos moldes de Holmes, e tentei praticar seu método na leitura daquela tragédia. Foi fácil. Durante nossa conversa, não tínhamos chegado ao fim do caminho; o bordão marcava o lugar até onde tínhamos avançado. O solo enegrecido mantinha-se constantemente mole por ação da espuma, e até mesmo os pássaros imprimiam nele suas pisadas. Duas linhas de pegadas estavam marcadas claramente ao longo do extremo do caminho, afastando-se de mim. Para aquele lado não havia saída. A poucos metros do abismo, o chão estava todo revolvido, e as sarças e os fetos que formavam a fímbria do precipício, despedaçados e salpicados de lama. Meu rosto contraiu-se e espreitei, envolto na espuma densa. Mas escurecera desde que tinha chegado, e agora só se podia ver, aqui e acolá, o brilho da umidade nas paredes negras e, muito embaixo, a cintilação da água que se quebrava. Gritei; mas apenas o bramir meio humano da cascata chegou a meus ouvidos, como resposta. No entanto, estava destinado, apesar de tudo, a encontrar ainda uma última palavra de saudação de meu amigo e camarada. Junto do bordão de alpinista, apoiado sobre uma rocha que se projetava no caminho, algo brilhante chamou a atenção de meus olhos. Aproximando-me, descobri que se tratava da cigarreira de prata que Holmes trazia sempre consigo. Apanhei-a, e um pequeno retângulo de papel esvoaçou para o solo. Desdobrei-o, ansioso; eram três páginas arrancadas à sua agenda e dirigidas a mim. Mas eram também o espelho fiel do caráter de um homem que conseguia, no limiar do


inferno, manter uma ordem de pensamento tão precisa e uma caligrafia tão firme e clara como se aquelas linhas tivessem sido escritas, placidamente, em seu escritório. "Meu caro Watson, Se lhe escrevo estas poucas linhas, devo-o à cortesia do sr. Moriarty, que, muito delicadamente, me espera para a discussão final das questões que existem entre nós. Deu-me um esboço dos métodos de que se utilizou para evitar a polícia inglesa e se manter informado de todos os nossos movimentos. Sem sombra de dúvida, confirma a elevada opinião que eu formava de suas aptidões. Alegra-me pensar que livrarei a sociedade, de ora em diante, dos atos do professor Moriarty, embora receie que seja à custa de algo que afligirá meus amigos, muito em especial a você, meu caro Watson. Mas eu já lhe expliquei que minha carreira chegou a uma encruzilhada, e que nenhuma outra conclusão me poderia ser mais lógica do que esta. Com efeito, quero fazer-lhe uma confissão completa: eu tinha certeza de que a carta de Meiringen era uma mistificação, e fiquei feliz por você ter partido na missão que supunha verdadeira, visto ter a certeza de que um fato como este teria de suceder. Diga ao inspetor Patterson que os papéis de que ele necessita para provar a culpabilidade da quadrilha estão na repartição M do fichário, dentro de um envelope azul com a inscrição 'Moriarty'. Já tratei de tudo o que diz respeito às minhas posses, que deixei a meu irmão Mycroft antes de partir da Inglaterra. Transmita, por favor, meus cumprimentos à sra. Watson, e creia em mim, para sempre, meu caro amigo. Muito sinceramente seu, Sherlock Holmes." Apenas algumas palavras bastam para o que me resta dizer. O exame dos peritos deixou poucas dúvidas de que houvera uma luta entre os dois homens e que o desfecho fora, como não podia deixar de ser em tal situação, a queda de ambos no abismo, nos braços um do outro. Qualquer tentativa para a recuperação dos corpos seria vã; no fundo daquele caldeirão de águas redemoinhantes e de ferventes escumas repousarão, para todo o sempre, os corpos do mais temível criminoso e do maior campeão da lei de sua geração. O jovem suíço jamais foi descoberto, mas não restam dúvidas de que era mais um dos numerosos agentes que Moriarty mantinha a seu serviço. Quanto à quadrilha, ficará para sempre na memória do público o modo como lhe caiu em cima, pesadamente, a mão do morto, por intermédio das provas que Holmes acumulara e que denunciavam sua terrível organização. De seu diabólico chefe, poucos foram os pormenores que surgiram durante o processo. E se fui agora compelido a fazer uma exposição clara de sua carreira, isso deve-se a certos propagandistas injustos, que se têm esforçado por lhe apagar a memória pelo processo sinuoso de atacar aquele que sempre considerei como o melhor e o mais sábio homem que jamais conheci.

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Memorias de Sherlock Holmes Sir Arthur Conan Doyle 1- A Estrela de Prata. 2- A face Amarela. 3- O Escriturário da Corretagem. 4- A tragédia...

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